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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEISTTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a ftm de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Estevao Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
O universo em txpansAc
descoberU do criadc

E a "Inteligencia" dot antro

"A morte de Jesús Cris


cristologia de Leonardo"

"An|os e demonios ría

"A nomenklatura"
*

Ainda a conlissáo sacrai

Livros em estante

índice geral de 198

Ano jubilar — Nov.-Dez. -


PEAGUNTE E RESPONDEREMOS NOV-DEZ — 1982
Publlcacao bimestral
N9 265
_ ANO JUBILAR — 1982

Diretor-Reaponsável:
SUMARIO
D. Estévao Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia Um aceno ao Transcendental:
publicada neste periódico.
Dlretor-Administrador: O UNIVERSO EM EXPANSAO E A
DESCOBERTA DO CRIADOR 422
D. Hlldebrando P. Martins OSB
Mais urna vez:
E A "INTELIGENCIA" DOS ANTRO-
Adminislracáo e distribulcao:
PÓÍDES? 428
Edicóes Lumen Christi Aprofundando tema candente:
Dom Gerardo, 40 - 5? andar, S/501 «A MORTE DE JESÚS CRISTO NA
Tel.: (021) 291-7122 CRISTOLOGIA DE LEONARDO
Caixa postal 2666 BOFF"
por Armando Bandera O.P 436
20001 - Rio de Janeiro • RJ
Um debate completo:

Pagamento em cheque nominal visado "ANJOS E DEMONIOS NA BIBLIA"


" ou Vale Postal (para Agencia Cen por diversos 459
tral/Rio), enderezado as: Um livro candente:
EdigSes Lumen Christi "A LUTA DOS DEUSFS" por diversos
autores 471
Caixa postal 2666
20001 - Rio de Janeiro - RJ Llvro que surpreende:
"A NOMENKLATURA" por Michaal
Voslensky 483
ASSINATURAS:
Significativo documento:
Renovacao de 1982 (até
AÍNDA A CONFISSAO SACRAMENTAL 433
31 dedezembro): ... Cr$ 1.200,00
LIVROS EM ESTANTE ... 503-504-470-482
Assinatura nova para
1983: (de julho de 82 ÍNDICE GERAL DE 1982 507
a dezembro de 83): Cr$ 3.100,00
ou:
(De Janeiro a dezembro
de 1963) Cr$ 2.500,00 NO PRÓXIMO NÚMERO
Número avulso de 1982: Cr$ 200,00
Número avulso de 1983: Cr$ 450,00 286 — janeiro-fevereiro — 19S3
RENOVÉ SUA ASSINATURA
A situagáo dos anclaos hoje.
QUANTO ANTES
Jesús: revolucionario politico.
Cristianismo e Historia das Religues.
O Conceito de Deus na Maconaria.
COMUNIQUE-NOS QUALQUER
Astrolog a — horóscopo.
MUDANCA DE ENDERECO A Seicho-.\o-lé.
"Pastoral numa sociedade de coiilitos''.
'Paulo Freiré, um pedagogo''.
Composlcao e ImpressSo:
"Filosofía da Ciencia".
"Marques-Saraiva"
Santos Rodrigues, 240
Rio de Janeiro
Com aprcvagáo eclesiástica
"TERMINEI A CARREIRA, GUARDEI A FÉ"
(2Tm 4,7)
O ano vai chegando ao flm e nos incita a um retros-
pecto... Ao fazer tal revisáo em seu contexto próprio, o
Apostólo escrevia: «Terminei a minha carreira, guardei a fé»
(2Tm 4,7).
Guardei a fé Estas palavras tém sentido enfático.
Significam, de certo modo, urna vitória. Com efeito, a fé é
a adesáo a Deus que se revela ao homem por palavras e fei-
tos. A palavra de Deus é vida segundo o Apostólo; é porta
dora de saúde espiritual... Quem percorre as epístolas pas-
torais (l/2Tm, Tt), nao pode deixar de ficar impressionado
pela freqüéncia com que ocorrem a expressáo hygiahuousa didas-
kalía (doutrina sadia) e semelhantes (cf. lTm 1,10; 6,3; 2Tm
1,13; 4,3; Tt 1,9.13...); Sao Paulo usa a locugáo paJavra da
salvado (At 13,26); Sao Joáo, palavra da vida (Uo 1,1).
No tempo do Apóstola; como em outras épocas, serpea-
vam heresias, hairéseis, isto é, doutrinas seletas que mutila-
vam e deterioravam o patrimonio da fé; ora o Apostólo nao
hesita em chamá-las gangraina, gangrena (2Tm 2,17); esta é
algo de pútrido que se alastra e vai extinguindo a vida; o
mesmo autor sagrado compara as heresias á doenga, nosos
(lTm 6,4), á cauterizagáo da consciéntía mediante o ferro em
brasa, que se opóe a saúde e á vida (cf. lTm 4,2).
É a consciéncia do valor capital das verdades da fé que
leva os cristáos a respeitá-las ciosamente. Elas vém de Deus;
podem ser ilustradas pela razáo humana, embora esta nao as
abarque plenamente; jamáis podem ser tratadas como verda
des filosóficas, cujas únicas credenciais sao a evidencia maior
ou menor com que se imponham a razáo; posso retocar a meu
modo o sistema de qualquer filósofo, pois estou igualmente cre-
denciado pela razáo para propor-lhe meus retoques. O mesmo,
porém, nao ocorre com as verdades reveladas por Deus; com
pete ao cristáo aprofundá-las, sim, todavía guardando abso
luta fidelidade ao significado original. O cristáo sabe outros-
sim que qualquer desvio infligido a tais proposicóes nao tem
conseqüéncias apenas no plano académico, mas repercute no
da vida do povo de Deus, que pode ser assim afetada por
doenca e grangrena!
«Guardei a fé...» Isto quer dizer também: soube cora
josamente colocar minha razáo a servigo da palavra que as
vezes é cruz, escándalo e loucura, mas que, em última instan
cia, vem a ser fator de vida e plenitude.
«Guardei a fé...» Neste fim de ano, possa a Igreja
dizé-lo em cada um dos seus fiéis!
E.B.
— 421 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XXIII — N« 265 — Novembro-doxembrO de 1982

Um aceno ao Transcendental:

0 Universo em Expansao
e a Descoberta do Criador

£m sfnlese: Os estudos de astronomía e cosmología mals recentes,


além de sugerir ao pesqulsador o blg-bang ou a grande explos&o como
ponto de partida da historia do universo, evidenciam a existencia de duas
tendencias antitéticas postas em equilibrio admlrável: 1) a entropía (segundo
principio da termodinámica), conforme a qual o universo tende a um estado
de inercia e de temperatura unitaria; 2) a slntropla, segundo a qual o uni
verso tende á Instabilldade ou á formacfio de novas e novas estruturas num
processo de complexlficacfio crescente. Ora tal equilibrio, sabiamente dis
posto entre tarcas de potencialidades enormes e abrangendo distancias
"fabulosas", sup&e a existencia de urna Inteligencia Suprema, que é a Suma
Sabedorla e & qual se dá o nome de DEUS. Assim mals urna vez se veri
fica que "a pouca ciencia afasia de Deus e a multa ciencia leva a Deus".

Comentario: As descobertas astronómicas tém evoluído


sempre mais no sentido de mostrar nao só a grandeza do uni
verso, mas também a sua ordem e um certo principio de fína-
lidade que parece presidir aos fenómenos do macrocosmos. Bem
se disse; «A pouca ciencia afasta de Deus, mas a muita ciencia
leva a Deus». Com efeito; a ciencia moderna, longe de afastar
de Deus e da fé, mais e mais oferece ao estudioso argumentos
para crer em Deus ou para descobrir a presenga do Criador,
responsável pela ordem do universo.

Para testemunhar esta verdade, váo abaixo expostos


alguns dados resultantes dos mais recentes estudos sobre a
origem e a expansao do universo. O tema é atraente e signifi
cativo, pois descortina ao estudioso novos horizontes e novas
vias para chegar a descobrir a Deus.

422 —
EM EXPANSáO

1. Á estrutura do universo

Os astrónomos tém posto em relevo, nos últimos anos,


dois aspectos fundamentáis do universo: a sua imensidade e a
sua expansáo.

O corpo celeste mais próximo da Térra é a Lúa, que dista


daquela pouco mais de um segundo-luz K O sol dista da Térra
400 vezes mais; a estrela mais próxima, após o sol, dista cerca
de quatro anos-luz. Passando as outras estrelas, que por todos
os lados cercam a térra, as distancias se tornam extraordina
riamente maiores. Além disto, é de notar que há estrelas de
todos os tamanhos: pequeñas, como o Sol (que é 1.300.000
vezes maior do que Térra), ou mesmo anas, ou ainda gigantes
e super-gigantes, milhóes de vezes maiores do que o Sol!

O sistema de estrelas em torno da Térra dispóe-se em


estrutura definida, que se chama galaxia e traz o nome espe
cífico da Via Láctea»; esta contém cerca de 200 bilhoes de
estrelas eterno diámetro máximo de 100.000 anos-luz. A ga
laxia em que se acha a Térra, tem forma de lentilha; apresenta
um núcleo e varios bracos em espiral partindo desse núcleo.

Em torno da Via Láctea, descortinam-se numerosas outras


galaxias. Os cálculos levam a crer que destas existem bilhoes,
sendo que as mais distantes se acham a cerca de 15 bilhoes de
anos-luz. Sabe-se, além do mais, que as próprias galaxias se
agrupam em conjuntos, que podem contar desde algumas de-
zenas até cem mil galaxias.

Assim o estudioso se vé diante de um universo de dimen-


sóes que, de certo modo, escapam a sua imaginacáo e que lhe
deixa abertas varias interrogacóes concementes á estrutura, a
origem, á evolugáo e á dinámica do macrocosmos.

1 A velocldade da luz é de 300.000 km por segundo. Donde o segundo-


-luz mede 300.000 km. A distancia da Térra á Lúa é de 363.000 km no
perigeu e 406.000 km no apogeu.

2 Galaxia vem do grego gálax, gálaktos = leite. O nome se deve a


cor branca que o conjunto de estrelas apresenta ao observador.
Via Láctea vem de lac, lactls = leite em latlm.

— 423 —
4 «PERGETNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982 i

Todavía o fato mais impressionante, que se tem eviden


ciado cada vez melhor nos últimos cinqüenta anos, é o da
expansáo do universo. Mediante o redshift, ou o destacamento
das linhas do espetro em direcáo do vermelho, chegaram os
estudiosos á conclusáo de que os colossais conjuntos de galaxias
fogem de nos a velocidades muito grandes, proporcionáis as
distancias dos mesaios. Registraram-se velocidades de dezenas
e de centenas de milhares de quilómetros por segundo: o record
toca ao Quaser 172,x que dista da Térra aproximadamente
17,6 bilhóes de anos-luz e que foge desta á velocidade de
272.000 km por segundo!

2. A teoría do big-hang

Para explicar o fenómeno da expansáo do universo, foram


elaboradas diversas teorías, das quais a mais verossímü é a do
big-bang ou da grande explosáo.

Segundo esta hipótese, o universo, há cerca de 15 bilhóes


de anos, era urna grande esfera das dimensóes do Sol, sus
pensa no vazio absoluto. Dentro desta esfera havia apenas
fotónios e neutrónios (as partículas elementares da luz), com
primidos de modo tal que um litro dessa materia pesava bilhóes
de toneladas e tinha a temperatura de um milhao de bilhóes
de gratis2.

Essa esfera terá explodido imprevistamente, arremes-


sando no vazio a materia de que era constituida, com a velo
cidade da luz, isto é, a 300.000 km por segundo.

»A palavra quasar vem de quas(l) — (stell)ar e significa um corpo


celeste vl6ível ao telescopio, semelhante a estrela, mas cu]o espectro apre-
senta um deslocamento para o vermelho excepcionalmente grande. Sup6e-se
que os quasares estejam a grande distancia e se afastem da Térra a alias
velocidades.

* Segundo a teoría do átomo primitivo, de Lsmaitre, naquele estado


Inicial hlperdenso, a materia se apresentava como urna única unldade ató
mica equivalente a um transuranlo de número atómico elevadfssimo; con-
tlnha em si, como subespócles, o plano estrutural de todos os elementos
que devlam derlvar-se desse átomo por desintegrado radioativa (cf. G.
Lemaltre, L'Unlvere. Louvaln 1950).

— 424 —
UNIVERSO EM EXPANSáO

Apenas um centesimo de segundo após essa grande explo-


sáo, a temperatura descera a 300 bilhóes de graus; os fotónios
e os neutrónios se tinham condensado em eletrónios e nucleó-
nios, dando origem a urna massa de hidrogénio incandescente,
que aos poucos se foi condensando em galaxias de estrelas.
No interior das estrelas, a cerca de 20 milhóes de graus,
esse hidrogénio era transformado em helio, num processo de
combustáo que liberava enormes quantidades de energía.
Depois de certo tempo, o hidrogénio estava convertido em
helio; a seguir, num complexo processo de evolucáo química,
esse helio se converteu em outros elementos (oxigénio, carbono,
nitrogénio, ferro...), que se encontram ñas estrelas.

Alguns bilhóes de anos após a explosáo inicial, origina-


ram-se as estrelas, os planetas, os asteroides e os satélites,
que constituem nao somente o nosso sistema solar, mas também
o universo inteiro.

Urna das descobertas mais interessanfces destes últimos


decenios, do ponto de vista cosmológico, é aquela segundo a
qual 0 espaoo é pervadido por um campo de radiagóes, que
tém a temperatura de 2,7 graus absolutos (isto é, de 270 graus
abaixo de zero).

Foi possível averiguar que essas radiagóes de fundo nao


sao mais do que o atual residuo da radiagáo muito mais intensa
e quente que devia perpassar o universo ñas suas fases iniciáis
de existencia. Por efeito do processo de expansáo devido ao
big-bang inicial, a radiagáo eletro-magnética originaria teve
que diminuir a sua temperatura até chegar hoje, 15 bilhóes de
anos depois, a urna temperatura próxima do aero absoluto. A
presenca dessa radiagáo, que perpassa o universo e que é pre
vista pela teoría do big-bang, poderla ser a prova mais convin
cente da exatidáo de tal teoría.

Por conseguinte, a partir do seu estado inicial até hoje o


universo se dilatou enormente, até atingir as dimensóes atuais
em conseqüéncia da explosáo. A teoría do big-bang nos per
mite ter urna idéia unitaria da origem do universo, propug
nando que este se tenha desenvolvido a partir de urna única
e simples unidade material, como se fosse um germen cujo
desabrochamento assinalou o inicio do espago e do tempo.

— 425 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

3. A evolujoo do universo e stntropta

O estudo dos corpos celestes possibilita-nos por em evi


dencia a existencia, no universo, de urna dupla evolucáo: urna,
em directo do nivelamento e da homogeneizagáo das tempera
turas e das energías; e outra, simultánea áquela, que provoca
a condensagáo dos fotónios e dos neutrónios originarios pri-
meiramente em eletrónios e núcleos e, sucessivamente, em
átomos dos varios elementos químicos e ñas moléculas das
varias substancias. A seguir, terá havido a aglutinacáo da
poeira cósmica, oriunda do big-bang, em estrelas, planetas e
satélites. Além disto, sabe-se que as estrelas tendem a agru-
par-se em galaxias, constituidas por bilhóes de estrelas, e as
galaxias em conjuntos aínda mais gigantescos.

Até os tempos mais recentes, a ciencia admitía táo somente


a existencia de urna única e incontrastada tendencia ao nivela
mento e á homogeneizacáo, expressa pelo segundo principio
da termodinámica, conhecido também como principio do au
mento da entropía ou como principio da desorganizacáo pro-
gressiva da materia. Segundo este principio, o processo de
entropía é crescente no universo, o que significa que este cami-
nha para a desordem geral e a morte térmica. Em nossos
días, porém, verifica-se que há evolucáo ñas galaxias e ñas
estruturas do universo, segundo um principio de ordem cres
cente. Este continuo desenvolvimento do mais simples ao mais
complexo contradiz ao segundo principio da termodinámica e
evidencia que há um paradoxo na base da atual coneepcáo
tempo-entropia da ciencia.

Em conseqüéncia, o físico russo A. L Kitaigorodskij, refle-


tíndo sobre os fenómenos de ordem e desordem no mundo dos
átomos, chegou á conclusáo de que devem existir na natureza
duas grandes tendencias: urna, que leva á desordem, e outra,
complementar, mas igualmente fundamental, capaz de criar
ordem. Esta afirmacáo pode ser, sem mais, estendida ao campo
cosmológico: os dentistas designam, como sabemos, a primeira
tendencia pelo nome de «entropía», e a outra, contraria, pelo
de «sintropia»; há, pois, fenómenos entrópicos e fenómenos
sintrópicos; estes últimos se desenvolvem em sentido antien-
trópico.

— 426 —
UNIVERSO EM EXPANSAO

As últimas pesquisas levam mesmo a dizer que, na natu


reza, nao existem fenómenos entrópicos e fenómenos sintró-
picos puros, mas que em todo fenómeno há sempre duas com
ponentes: urna entrópica, e a outra sintrópioa. Por conseguinte,
a evolugao de um sistema macroscópico é o resultado da in
fluencia de dois campos de ondas — urnas divergentes ou
entrópicas (que levam ao nivelamento e á homogeneizagáo) e
as outras convergentes ou sintrópicas (que provocam diferen-
ciagáo e estruturacáo). Essas duas forcas, agindo simultanea-
mente, comunicam ao Universo um grandioso equilibrio: en-
quanto certos fenómenos tendem a degradar sempre mais a
materia e a energia em diregáo da inercia, outros fenómenos
tendem a comunicar á materia e á energia urna potencialidade
sempre maior.

A introdugáo do conceito de sintropia como tendencia


oposta á degradacáo dos processos físicos significa, para a
ciencia, urna revolugáo comparável á de Galileu. Somente a
sintropia permite explicar a ordem existente na natureza e a
possibilidade que esta traz, de reconstituir-se com um meca
nismo que parece intrínseco á própria natureza. A sintropia
ou a tendencia da natureza a ordem depende nao de elementos
externos, mas de urna causalidade interna ou de urna lei im
pregnada na própria natureza,... lei que tem índole finalística
ou teleológica. Ora a existencia de um principio intrínseco de
organizagáo da materia, de tipo finalista, supóe a existencia de
um Ser que, subtraindo-se á sucessáo das causas, esteja em
condicóes de programar a ordem existente no universo: o den
tista chega assim a conceber a nogáo de Deus.

É a tal conclusáo filosófica que leva a investigagáo objetiva


e criteriosa dos fenómenos do macrocosmo: a existencia de
Deus se torna cada vez mais perceptível ao dentista. Esse Deus
emerge no horizonte do estudioso como a Suprema Inteligencia
e a Suma Sabedoria testemunhada pela realidade grandiosa e
harmoniosa do mundo que cerca o homem.

O presente artigo multo deve ao de Salvatore Arcldlacono: "Sintropia


e cosmología" da revista "Cletua e Fede" 1982, tfi 2, pp. 29-38.

— 427 —
Mais urna vez:

E a "Inteligencia" dos Antropóides?1

Em síntese: Tem-se apregoado a tese de que os antropóides possuem


urna linguagem comparável á do ser humano; por conseguirte, tém Inteli
gencia...; teriam entfio alma Intelectiva ou espiritual. — Ora, entre outros
estudiosos, V. Marcozzl publlcou um livro Intitulado "Todavía o homem ó
diferente" (Pero I'uomo é diverso), em que mostra, com muito acume e
dados empíricos, que a linguagem dos antropóides nSo é senfio um fenó
meno de reacfies reflexas e de associagSo de imagens, sem a capacidade
de exprimir definieses, nocSes de estética, arte, moral, rellgláo...; a "lin
guagem" dos animáis nao recorre a gramática nem sintaxe, nao improvisa
nem cria algo de novo... Varias experiencias feitas nos últimos anos tém
dissuadldo os próprios pesqulsadores de admitir, nos antropóides, o uso de
linguagem racional ou Inteligente. É por Isto que nSo se pode falar de
"alma Intelectiva" ou "espiritual" nos antropóides.

Comentarla: Já em PR 232/1979, pp. 135-150 e 247/1980,


pp. 275-281 abordamos a questáo da linguagem e, conseqüen-
temente, da inteligencia dos animáis ditos «antropóides>.
Certas experiencias recentes, praticadas principalmente por
psicólogos norte-americanos, parecem insinuar a existencia de
linguajar inteligente em tais seres vivos. Ora em 1981 foi pu
blicado mais um livro sobre o assunto, da autoría do famoso
biólogo e psicólogo Pe. Vittorio Marcozzi S. J., com o título
«Pero I'uomo é diverso» (Rusconi, Milano, 1981, 8% 180 pp).
O autor reexamina o problema, ilustrando-o com novas obser-
vacóes, muito propositadas, que passamos a expor ñas páginas
seguintes.

1. O problemo

A pesquisa do psiquismo dos animáis infra-humanos deve


precaver-se contra dois extremos:

> Por "antropóides" entendemos "o grupo de simios catarrlneos do


Velho Continente, que compreende os chimpanzés, os gorilas e os orango-
tangos, bem como algumas especies fósseis. Sfio desprovldos de cauda e
ocasionalmente bípedes" (Aurelio, Novo DIclonirio).

— 428 —
A «INTELIGENCIA» DOS ANTROP6IDES»

o do mero mecanicismo ou behaviorismo ortodoxo,


que nega qualquer manifestacáo propiciamente psíquica e tudo
atribuí a reflexos ou reagóes físicas;

o do antropomorfismo, que julga haver nos animáis


inferiores ao homem auténticas manifestacóes do psiquismo
humano, se bem que primitivas ou infantis. Afirmam os fauto
res desta tese que, entre o psiquismo animal e o humano, há
apenas urna diferenca de grau (o homem nao seria mais do
que um antropóide aperfeigoado); em outros termos: nao have-
ria no homem um principio vital ortológicamente diverso do
dos animáis inferiores. Em conseqüéncia, atribuem a estes a
capacidade de raciocinar, emitir conceitos, formar idéias, etc.

A propósito de tal problemática podem ser feitas as 6e-


guintes ponderagóes.

2. Conhecimento sensitivo e conhecimento intelectivo

É mister distinguir entre conhecimento sensitivo e conhe


cimento intelectivo.

1. Oonhecimento sensitivo é o que se faz mediante os


sentidos externos (visáo, audigáo, olfato, paladar, tato) e inter
nos (sentido comum, memoria sensitiva, imaginacáo, estima
tiva). Capta os objetos na sua qualidade de coloridos, sonoros,
odoríferos, gustáveis, duros ou moles, quentes ou frios; cada
qual dos sentidos externos apreende o aspecto do objeto que
lhe diz respeito; esses diversos aspectos (cor, som...) sao leva
dos ao cerebro, que, mediante o senso comum, faz a montagem
dos mesmos e, conseqüentemente, a imagem completa do objeto
apreendido. Esta é sempre concreta, individual, material, como
é esta rosa, aquele cenarlo, esse menino... A memoria sensi
tiva se recorda deste ou daquele fato concreto; a imaginacáo
concebe esta ou aquela cena possivel ou fantástica. Em suma,
o conhecimento sensitivo jamáis ultrapassa os limites do indi
vidual, material, concreto...

2. O conhecimento intelectivo é o que produz idéias ou


conceitos abstratos e universais. Pela inteligencia deduz de
diversos individuos humanos (Joáo, Mario, Catarina...),
conhecidos pelos sentidos, o conceito de homem ou ser humano,
conceito que se realiza em todos os individuos concretos da

— 429 —
10 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

mesma especie. Mediante tal conceito abstrato apreendo a


esséncia ou o essencial que existe, com modalidades concretas,
nos diversos individuos. O conhecimento intelectivo concebe
objetos imateriais como sejam a justiga, a beleza, o amor...,
formula difinigóes, percebe proporgóes e relagóes. Notemos
que o ponto como tal nao é objeto dos sentidos, pois, de um
lado, o ponto nao tem extensáo e, de outro lado, os sentidos
só podem apreender o que é extenso. Também a reta como
tal nao é objeto dos sentidos, pois ela nao tem espessura, ao
passo que os sentidos só podem apreender o que é espesso.
Nao nos é possível imaginar um ponto sem extensáo e urna
reta sem espessura; por conseguinte, se o homem concebe a
nogáo filosófica de ponto e de reta, nao o faz pelos seus senti
dos, mas mediante urna faculdade que ultrapassa os sentidos e
que é a inteligencia.

3. Destas proposicóes se depreende a diferenca existente


entre abstracao intelectiva e abstracSo sensitiva.

A abstraen© intelectiva, como dito, consiste no fato de que


o intelecto, abstraindo de todos os elementos concretos, per
cebe a esséncia das coisas e reconhece que todos os objetos da
mesma especie tém a mesma esséncia, por mais diversas que
sejam as suas notas acidentais. Ao contrario, a abstracáo sensi
tiva consiste em que alguém apreenda certos tragos ou peculia
ridades dos objetos, esquecendo ou omitindo outros; esses tra
gos podem nao ser essenciais; formam-se assim imagens esque
máticas, que permitem urna certa generalizagáo, mas que nao
Bao conceitos universais ou definigóes. Tenha-se em vista, por
exemplo, a placa que traz a silueta de um homem, colocada á
porta de certos ambientes para indicar que sao reservados aos
homens; significa «todo e qualquer homem (branco ou preto,
gordo ou magro, jovem ou velho...)», mas de modo nenhum
indica qual é a esséncia ou o constitutivo intrínseco e funda
mental do ser humano; essa placa indica «todos os homens>,
mas nao define o homem; só a inteligencia concebe definigSes.
Análogamente, a imagem de um cigarro atravessado por barra
vermelha que se encontra em recintos de nao fumantes, apli-
ca-se a qualquer cigarro, a charuto, a cachimbo..., mas está
longe de significar a esséncia do fumo ou o que constituí pro-
priamente o fumo. — Notemos que a imagem esquemática é
sempre a de um corpo estenso e material; esta imagem é do
dominio da sensibilidade, nao do plano da intelectualidade. A
imagem esquemática permite ao animal reconhecer que um

— 430 —
a «::INTELIGÉJJCIA> DOS ANTROPÓIDES» 11

objeto, visto em determinado momento, é igual ou semelhante


a outros objetos vistos em outras ocasióes, mas nao permite
perceber em que consista o essencial de tais imagens.

4. Detenhamo-nos um pouco mais sobre o concertó de


inteligencia.

Esta é a faculdade de equacionar problemas e resolvé-los,


apreendendo o cerne (ou a linha central, essencial) de urna
dificuldade, as vezes dissimulado sob elementos diversos, que
parecem mais importantes, mas que nao sao essenciais. De
• modo especial, a inteligencia é a faculdade de escolher os meios
adequados para chegar a um fim intencionado. A inteligencia,
baseada sobre conceitos ou sobre a percepcáo da essencia das
coisas, formula

juízos, atribuindo predicados a um sujeito; por exem-


plo, todo homem é mortal;

silogismos ou raciocinios, deduzindo, de certas propo-


sicóes universais, conclusóes particulares; por exemplo, todo
homem é mortal; ora Sócrates é homem; por conseguirte,
Sócrates é mortal.

Mais: a inteligencia, .ao escolher meios para seus fins,


conhece os meios como meios, os fins como fins e as propor-
cóes ou o relacionamento existente entre tais meios e tais fins.

Nos animáis nao existe tal faculdade. A chamada «inteli


gencia» dos animáis é urna faculdade sensitiva mediante a qual
adaptam tal ou tal instrumento á consecucáo de tal ou tal
objetivo concreto, sem reconhecer os meios como meios e sem
intencionar os fins como fins. Se o animal parece agir inteli
gentemente (por exemplo, tecendo a sua teia de aranha ou
abrindo galenas subterráneas ou construindo um favo de
mel...), ele nao é sujeito de inteligencia; o seu «agir inteli
gente» lhe parece incutido por outro Ser, que é realmente inte
ligente e que lhe comunicou o instinto (cegó) de agir deste
ou daquele modo para atingir este ou aquele fim, sem que o
animal saiba dimensionar todo o alcance de sua agáo. A prova
disto é que o animal nao é capaz de rever sua atividade, de
melhorá-la, progredindo, ou de corrigi-la quando viciada por
um elemento heterogéneo (a abelha continua a derramar mel
em seu favo, mesmo quando este se acha furado).

— 431 —
j¿ «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 265/1982

5. A propósito sao dignas de especial mengáo as duas


seguintes experiencias:

— O animal pode escolher urna coisa induzido pela cor


respectiva, abstraindo da forma dessa coisa, ou vice-versa, mas
nao chega á idéia de forma ou de cor como tais. Com efeito,
os pesquisadores K. J. Hayes e C. H. Bissen conseguiram ensi-
nar o chimpanzé Viki a escolher um objeto na base da respec
tiva cor, entre muitos outros de cores diferentes, mas de forma
igual. Verificaram, porém, que, quando as cores e as formas
variavam simultáneamente, o animal nao conseguía escolher
movido únicamente pela percepeáo da cor: deram, por exem-
plo, a Viki, como referencial ou como amostra, um objeto que
tinna a forma de um quadrado vermelho; depois puseram esse
objeto em meio a outros que tinham respectivamente a forma
de um triángulo vermelho, triángulo verde e cubo verde; seria
de esperar que, ao escolher entre tantos, o animal optasse pelo
triángulo vermelho, pois tinha a cor vermelha em comum com
o modelo apresentado. Todavía o chimpanzé jamáis conseguiu
fazer isto. Donde se depreende que o animal distingue as cores,
mas nao tem a idéia. ou o conceito de cor. Verificou-se tam-
bém que os animáis podem ser treinados para escolher, entre
dois objetos a eles apresentados, sempre o maior ou sempre o
menor, mas nao tém a idéia de «maior» ou «menor».

— A segunda experiencia refere-se ao liame existente


entre tima ordem (preceito) dada e a atividade daí decorrente
ou o objeto correlacionado com essa ordem. Os animáis con-
seguem aprender a executar muitas ordens, mas nao com-
preendem o significado das palavras que ouvem; associam o
som ao objeto ou á atividade indicada pelo som, principalmente
se está presente a pessoa que pronuncia as palavras, mas nao
entendem o sentido dos vocábulos que lhes sao ditos.

A propósito, o psicólogo F. J.J. Buytendijk realizou a


seguinte experiencia: treinou um cao para executar as ordens
correspondentes as palavras «Pula!», «Para cima!>, «Para
baixo!»... O animal seguru fielmente as instrugóes enquanto
o treinador Ihe esteve presente; todavía, quando este se trans-
feriu para urna sala contigua e comegou a dar suas ordens por
alto-falantes, o cao deixou de se mover. Donde a conclusáo de
Buytendijk: «É certo que no animal nao há nem palavra nem
compreensáo. O animal fica preso no seu mundo» (citado por
Marcozzi, obra mencionada, p. 40). Isto quer dizer: o animal
nao ultrapassa a percepeáo das imagens sensitivas; reconhece

— 432 —
A «INTELIGENCIA» DOS ANTROP6IDES» 13

a figura do dono que lhe fala com certos sinais, mas, desde
que a imagem complexa «dono e palavras» se esfacele, cedendo
ao principal, que sao as palavras portadoras de significado
inteligente, o animal nao alcanca a mensagem; por isto tam-
bém o animal nao fala nem pode falar (tornaremos ao assunto
sob o subtitulo seguinte).

6. Em vista dos fatos descritos, há quem distinga entre


mero sinal e símbolo.

O mero sinal ocorre quando a associac.áo entre o sinal e


a coisa ou a atividade se deve táo somente as faculdades sen
sitivas; por exemplo, um toque de campainha pode ser asso-
ciado, pela memoria sensitiva, á alimentacjio; por isto, o ani
mal irracional, ao ouvir o som de urna campainha, pode ensa
livar a boca, embora a alimentagáo nao passe pelo ouvido nem
seja de ordem auditiva; é meramente extrínseca a associacáo
entre o sinal e o objeto assinalado, no caso; o toque de cam
painha poderia ser, sem mais, substituido pela apresentagáo,
ao animal, de um paño verde ou branco..., ou por urna rajada
de vento ou por urna onda de perfume...

O símbolo ocorre quando o sujeito percebe que o sinal


significa urna coisa ou urna atividade, ou seja, quando com-
preende que há um nexo intrínseco entre o sinal e o assina
lado ou ainda quando entende que o sinal de certo modo se
identifica com o assinalado. Essa percepeáo ocorre na lingua-
gem humana: quem ouve a palavra «pab, sabe que ela foi
proferida para transmitir um conceito e que há outros modos
de expressar esse mesmo conceito (posso dizer «father, Vater,
pere, padre...»).

Ora as ordens que um animal recebe, sao, para ele, sinais


e nao símbolos.

3. A «linguagem» dos animáis

Sabe-se que nos últimos anos alguns pesquisadores tenta-


ram ensinar urna linguagem aos animáis. Assim, por exemplo,
o casal Hayes ensinou ao chimpanzé Viki a linguagem vocal
inglesa; o casal Gardner transmitiu á fémea de chimpanzé
Washoe a linguagem mais simples dos mudos (nao a que asso-
cia a cada gesto urna letra ou urna palavra, mas a que associa
diretamente a cada gesto urna coisa ou urna atividade); o casal

— 433 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

Premack ensinou á chimpanzé fémea Sarah urna linguagem


visual (que consistía numa especie de grafía gravada sobre
placas finas de plástico, com formas, cores e tamanhos diver
sos) ; e aínda os psicólogos D. M. Rambaugh e T. V. Gilí ensi-
naram á maoaquinha Lana urna variante da linguagem visual.
Em conseqüéncia, tem-se proclamado que os antropóides
podem falar e, na realidade, falam como os homens, embora
rudimentarmente.

Estas conclusóes sugerem a seguinte ponderagáo: é pre


ciso distinguir entre «usar sinais para indicar as coisas» e
«compreender o significado dos sinais». O uso de sinais para
indicar as coisas é urna forma de comunioagáo, mas nem toda
comunicagáo é linguagem propriamente dita. A linguagem
6upóe a compreensáo dos sinais como símbolos e o recurso a
um mínimo de gramática e sintaxe. Além disto, a linguagem
tem certo poder criativo, improvisador e inovador; ela nao se
limita a associar tais e tais sons e tais e tais objetos entre si;
quem realmente fala, é capaz de se libertar dos sons do seu
vocabulario para perceber o que é, em sua esséncia, cada objeto
que ele assim designa e, a seguir, traduzir os mesmos concei-
tos para outros vocabularios ou outras línguas. Ora quem exa
mina as provas de linguagem do chimpanzé e de outros ani
máis, verifica que estas se explicam bem pela simples associacáo
de sinais concretos com tais e tais objetos concretos; nao há
evidencia de que recorram á gramática e á sintaxe.

Na base de tais ponderac.5es, alguns dentistas mesmos já


estáo procedendo a certa autocrítica. Assim, por exemplo,
H. S. Terrace, professor de Psicología na Columbia University
de Nova Iorque, no inído de urna serie de experiencias, estava
convencido de que podía atribuir aos animáis a capacidade de
usar linguagem humana; ao continuar, porém, as suas pesqui
sas, chegou a conclusáo oposta: foi impressionado pelo fato de
que, embora se aumentasse o número de sinais recorrentes
numa «frase» de animal, o conteúdo significante da frase nao
se ampliava; muitos dos sinais usados eram repetidos e supér-
fluos. Além disto, observando atentamente os filmes das expe
riencias realizadas, verifícou que muitas vezes o treinador,
sem ter consciéncia do fato, sugería, com seu comportamento,
a resposta que o animal devia dar. — Também Rumbaugh che-

— 434 —
A «INTELIGENCIA» DOS ANTROP6IDES> 15

gou a conclusáo negativa: «As nossas prospectivas referentes


ao uso de símbolos da parte dos animáis foram grandemente
alteradas, e o nosso modo de ver atual está em contradigáo
com o inicial» (citado por Marcozzi, obra mencionada, p. 152).
Também se evidenciou que as fémeas de macaco, uma vez trei-
nadas, nao ensinam aos filhotes a «linguagem» que aprende-
ram, e entre si se comunicam mediante gestos espontáneos e
nao mediante os que aprenderam.

4. Conclusáo

O resultado das pesquisas e ponderacóes referentes á «lin


guagem» doá animáis infra-humanos evidencia que entre o ser
humano e os chamados antropóides há uma diferenga nao ape
nas de grau dentro da mesma especie, mas uma diferenca bem
maior. Conseqüentemente nao se dá uma transigáo gradativa
do antropóide para p homem. Pode-se admitir, sim, que o
corpo dos antropóides tenha evoluído até chegar á configu-
ragáo típica do homem, mas o principio vital que anima o
corpo do homem nao é o principio vital aperfeigoado de
um simio; é, ao contrario, algo de específicamente novo, espi
ritual e nao material. Com efeito; o principio vital do homem
é capaz de desempenhar fungóes que ultrapassam o alcance
da materia, como sejam a de conceber idéias, emitir juízos,
formular raciocinios, refletir sobre si mesmo (tomando cons-
ciencia de si), ter o senso dos valores moráis, conceber nogóes
e teorías de estética, produzir artefatos ou obras de arte...
Mais: só o homem é consciente de que deve morrer e, ao enfren
tar a morte, sepulta os seus semelhantes como se acreditasse
que eles continuam a viver; só o homem é capaz de se elevar
ao Invisivel e Transcendental, cultivando o seu senso religioso
congénito... Mais ainda: só o homem possui linguagem sim
bólica, com suas regras de gramática e de sintaxe, que lhe
permitem exprimir tudo o que quer... Donde se vé que nao
se pode atribuir aos antropóides auténtica linguagem inteli
gente ou um falar comparável ao do homem; falta-lhes a alma
espiritual, que caracteriza táo somente o homem.

A propósito ver: Piersandro Vanzan, "Petó l'uomo é diverso" em "La


CMH» Catlollca", 19/06/82. n"? 3168. pp. 166-169.

— 435 —
Aprofimdando tema candente:

"A Morte de Jesús Cristo


na (ristolosia de Leonardo Boff"

Em sfniese: O estudo de A. Bandera O.P. aquí publicado considera


a tese de L. Boff segundo a qual Cristo ignorava o desfecho da sua mlssio
pública e, por Isto, foi dolorosamente surpreendido quando viu que termi
narla pregado & Cruz, sem que o Pai o libertasse do patíbulo. Esta aflr-
macSo, Já em si grave e contraria á constante doutrina da Igreja, implica
aínda que Jesús nao Instituiu a Eucaristía como sacrificio-sacramento, mas
apenas como cela escatológica.

Argüido a respeito pela S. Congregacfio para a Doutrina da Fe em


Roma, L Boff procura concillar sua posicfio com a doutrina da Igreja,
mas nao o consegue; parece querer dizer..., mas nao diz..., porque se
prende a principios do protestantismo liberal germánico (que nada tém a
ver com a teología do povo simples da América Latina).

A. Bandera mostra nao somente as incongruencias e amblgQIdades da


Cristoiogia de L. Boff, mas evidencia os preconceltos do autor, que abso-
lutlza certos postulados filosóficos e metodológicos e, por Isto, nfio leva
em conta muitos textos da S. Escritura, que contrariam a sua tese; um
bom conhecedor da Bfblia e da Tradicio crista nao se deixa impresstonar
pelos dlzeres de Fr. Leonardo, porque percebe quanto sao unilaterals e
preconcebidos. Trazer Isto á baila é oferecer ao público material para a
reflexfio.

Se o leitor nSo se puder dedicar á leitura do artigo por inteiro, quelra


ler ao menos as pp. 439s. 443.446-458.

Comentario: As obras de Frei Leonardo Boff, que tém


despertado o interesse da opiniáo pública, sao comentadas nao
só no Brasil, mas também no estrangeiro. Em PR 246/1980,
pp. 242-251 e 260/1982, pp. 15-26, publicamos respectivamente
urna recensáo do Pe. Leroy O.P. e outra do Pe. Perego, que
apontam fainas teológicas ou mesmo graves erros doutriná-
rios nos escritos desse autor. Neste número de PR julgamos
ser nosso dever dar a lume mais um estudo referente á teología
de L. Boff. É licito discordar e propor sentengas contrarias ás
de determinado autor, desde que nao se lhe fagam injurias

— 436 —
MORTE DE CRISTO SEGUNDO L. BOFF 17

pessoais; o amor aos irmáos nao é tesado, mas, ao contrario,


enriquecido, pela busca da verdade. Faz-se mesmo necessário
que haja diálogo teológico, em vez de monólogo no qual somente
urna ala extremada tenha o direito de falar.

O estudo que vai publicado a seguir, é da autoría do


Pe. Armando Bandera O.P., outrora professor de Teología na
Universidade Angelicum de Roma. Corresponde a urna con
ferencia proferida por este teólogo no m Simposio Interna
cional de Teología realizado em Pamplona (Espanha), no mes
de abril de 1981; foi traduzido do original castelhano, que tem
por título «La muerte de Jesucristo en la Cristologia de Leo
nardo Boff» e que faz parte das atas do referido Simpósip devi-
damente publicadas pela Universidade de Navarra. s

O artigo em pauta é longo, em parte porque transcreve


freqüentemente passagens de L. Boff. Se o leitor nao o puder
percorrer por inteiro, queira ao menos deter-se ñas pp. 439s.
443.446-458.

«A MORTE DE JESÚS CRISTO...»

por A. Bandera O.P.

A morte de Cristo é um dos temas capitais do Novo Testamento.


Os cristños de todos os témpos consideraram este acontecimento,
humanamente trágico e desconcertante, como parte central do inson-
dávei e infinitamente misericordioso designio pelo qual o Pai quís
reconciliar consigo a humanidade pecadora para converter os que
eram seus inimigos, em filhos adotivos; estes conseguem a filiacáo
divina gracas ao dom do Espirito Santo, que Ihes é comunicado como
fruto supremo daquela obra de reconciliacáo e, ao mesmo tempo,
como mestre e guia que os conduza até a «plena compreensao do
conteúdo da«mesma.

A fé do povo cristáo em relacáo á morte de Cristo, tal como


nos é conhedda pelo Novo Testamento, está muito bem expressa
no resumo seguinte:

«Cristo, para libertar-nos da morte, quis primeiramente fazer sua


a nossa condigno mortal. Sua morte nao foi um acídente. Anun-
ciou-a aos discípulos para precaver o escándalo dos mesmos (Me 8,31;
9 31« 10,34,- Jo 12,33; 18,32); dese¡ou-a como o balismo que o sub-
m'ergiria ñas aguas infernáis (Le 12,50; Me 10,38; cf. SI 18,5).

— 437 —
18 «PERGÜNTE E RESPÓP?DEREMOS> 265/1982 ,

Estremeceu diante déla {Jo 12,27; 13,21; Me 14,33), como estre


mecerá diante do sepulcro de Lázaro (Jo 11,33-38); suplicou o Pai,
que o podía preservar da morte (Hb 5,7; Le 22,42; Jo 12,27); n5o
obstante, aceitou finalmente esse cálice de amargura (Me 10,38;
14,30; Jo 18,11). Para fazer a vontade do Pai (Me 14,36), foi
obediente até a morte (Fl 2,8). Pois Ele devia cumprir as Escrituras
(Mt 26,54). Nao era Ele mesmo o servo anunciado por Isaías, o.
¡usto posto na categoria dos malvados (Le 22,37, cf. Is 53,12)?» *
Creio que o resumo transcrito recolhe muito bem as idéias fun
damentáis. Cristo, desde o principio, aceita voluntariamente a morte
para cumprir a vontade ou o designio do Pai. Este havia comecado
a revelar-se «ñas Escrituras», isto é, no Antigo Testamento, parti
cularmente através da figura do Servidor padecente do qual falo
Isaías. Só faltou aos profetas descrever os frutos dessa morte, tema
que o texto transcrito desenvolve. O ponto realmente central con
siste em reconhecer que a morte nao foi um acídente ou urna simples
tragedia humana, mas o cumprimento de um designio salvífíco, ao
qual Cristo se consagrou desde o inicio da sua vida com plena líber-
dade e clara consciéncia do termo para onde caminhava-

Todavía este é precisamente o tema que agora entra em con


troversia. Cristo, que veio ao mundo com o fim preciso de executar
o plano salvífico concebido pelo Pai desde toda a eternídade, viveu
na ignorancia do modo como havia de cumpri-lo? Nao sabia que
havia de morrer até que, na realidade, o procurador romano o con-
denou ao suplicio da cruz? Ou... até que se viu pregado nela,
esperando, para libertar-se desta, urna intervencáo do Pai no último
instante, intervencáo que nao chegou a efetivar-se? Eis o problema.

Trata-se de um problema que a historia da teología nunca tinha


considerado, mas que se aprésente com nítido relevo no pensamento
de alguns teólogos contemporáneos. Desejo deter-me concretamente
em Leonardo Boff. Todavia convirá levar em conta que as chamadas
Teología política, Teología da revoluefio, Teología da libertacáo e
oulras similares professam neste particular idéias muito parecidas2,
se bem que, a meu ver, menos pensadas e documentadas que as de

iX. Léon-Dufour, Vocabulario de Teología Bíblica. Petrópolis 1972,


verbete "Morte", col. 622.

2Cf. A. Bandera, La Iglesia ante el proceso de la liberación (Madrid


1975). pp. 69-73. 136-139; R. Vekemans, Teología de la liberación y cristia
nos por el ■oclallsmo (Bogotá 1976) pp. 100-112. 132-183: ñas últimas pági
nas o autor anallsa particularmente "a debilidade da argumentado bíblica"
usada por estas teologías.

— 438 —
MORTE DE .CRISTO SEGUNDO L- BOFF 19

Leonardo Boff; este, por seu lado, no tocante á morle de Jesús...


também nao oferece um estudo bíblico que possa ser apresentado
como modelo; ao contrario falaremos da sua manifestó insufi
ciencia ...

Quando Boff enuncia a sua intencao, fá-la consistir em elaborar


urna teología, e particularmente urna cristologia, que fale vital e exis-
tencialmente ao homem latino-americano. Depois, porém, e de modo
estranho, segué um caminho pelo qual transitam quase únicamente
teólogos europeus, dos quais fres quartas partes, mais ou menos, sao
alemáes*. E, entre estes, s5o numerosos e freqüentemente citados

s o próprlo Leonardo Boff está consciente do problema que esta posl-


cfio Ihe suscita e trata de dar urna explicacfio, que nfio parece chegar ao
esclareclmento desojado.
"Com nossos olhos, diz, vemos a figura de Cristo e rolemos os textos
sagrados que falam dele e a partir dele. Donde a Cristologia pensada e
ensalada vitalmente na América Latina deve Irremedlavelmente adotar carac
terísticas próprlas. O leitor atento as encontrará ao longo deste llvro. A
bibliografía, preferentemente estrangeira, que citaremos, nSo nos deve enga
ñar. Com nossas preocupares, que sao somonte nossas e de nosso con
texto sul-americano, vamos reler nSo só os antigos textos do Novo Testa
mento, mas também os mais recentes comentarlos escritos na Europa. Os
dados serfio situados dentro de outras coordenadas e serSo projetados den
tro de um horizonte próprio. Nosso céu possul outras estrelas, que formam
outras figuras do zodiaco, com as quals nos orientaremos na aventura da
fé e da vida" (L. Boff, Jesucristo, el Liberador. Bogotá 1977, pp. 62s).
Por consegulnte, Boff tem em mira expressar "as características pró
prlas" de urna Cristologia elaborada na América Latina... Que é que carac
teriza a Cristologia latino-americana e a distingue de todas as demals?
Boff... aprésenla cinco notas distintivas, a saber: prlmazia do elemento
antropológico sobre o ecleslológlco, do utópico sobre o tactual, do critico
sobre o dogmático, do social sobre o pessoal, da ortopraxls sobre a orto
doxia (cf. pp. 63-65). Todavía é verdade que a Cristologia que ho]e se
escreve, aprésenla estas características ou qualidades especificadas por
Boff? Há muitos escritos europeus que Boff cita e segué dócilmente, nos
quais abunda a crítica, a mesma que ele "batlza" como latino-americana.
E quals sSo as preocupacOes, as angustiosas perguntas para as quals
o hornera, latino-americano procura resposta na Cristologia? Boff enumera
urna longa serle:
"... Por que o homem nfio consegue ser feliz? Por que nfio pode
amar? Por que se encontra dividido em si mesmo, atormentado por pergun
tas referentes ao flm da vida? Todos os animáis tém seu habitat no mundo,
mas o homem está á procura do seu verdadelro lugar. Por que exlstem a
separacfio, a dor e a morte? Por que nfio se consegue urna relacfio fra
terna entre os homens e, em lugar déla, há legallsmo e escravldfio?...
Quem trará a paz? A salvacfio? A reconcillacSo com todos?" (p. 70).
Que dizer dlante desta exposlcfio? Trata-se de preocupacOes e de
InterrogacQes específicamente latino-americanas? Ou sfio talvez universal-
mente humanas? Os texto» de Boff estfio at. Cada qual pode ]utgar por
el mesmo.

— 439 —
20 «FERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

autores protestantes, que aplicam de maneira bastante radical os


métodos da historia das formas e outros análogos; estes, mais de urna
vez, sao utilizados nao precisamente a servico do texto bíblico, mas
para impor a «pré-compreensao» filosófica etn que se baseiam, mesmo
que seja necessário violentar o sentido evidente do texto. Boff mesmo
reconhece que «nosso estudo... tem presente o método da historia
das formas. As vezes tomamos decisóes de ordem teológica baseadas
numa reflexáo critica inspirada nesse método. Outras vezes interpre
tamos vm texto como nao ¡esuanico0' (especialmente no que se refere
aos títulos de Jesús) mesmo que a tradicao comum, sem preocupa-
coes críticas, o tivesse sempre interpretado como proveniente direta-
mente de Jesús» (p. 55) *.

Boff nao somente nega que Jesús tenha dado a si um só dos


títulos que Ihe sao atribuidos no Novo Testamento, mas também supóe
que nao tinha consciéncia de que se referissem a Ele textos utilizados
já no Antigo Testamento para anunciar o Messias. Sobre o título de
Servidor, táo importante em Isaías, Servidor que deve padecer e mor-
rer pelos pecados do povo, Jesús nao terá tido a menor idéia; nunca
se terá considerado como tal, nem haverá organizado a sua vida com
vistas ao cum primento da antiga profecía.

A consciéncia de Jesús

Boff oferece muí poucas possibilidades de fazer algo que se


pareca com urna reconstrucáo da consciéncia de JesúsB. Os Evan-
gelhos, diz ele, nascem «dentro de mentalidade profundamente
diversa da nossa, precientifica, mítica e aerifica» (p. 53). Quanto
ao seu conteúdo, diz que os Evangelhos falam «pouco de Jesús his
tórico, tal como foi e viveu, mas muito sobre a reacao de fé dos

asisto é, ... como n§o proveniente dos labios de Jesús (Nota do


tradutor).

«L. Boff, Jesucristo, el Liberador, p. 55. Grifo meu. Doravante as


cltacSes desta obra serSo Incluidas no texto, indicando a página.

<s Sobre o tema da consciéncia de Cristo, tal como pode ser conhecido
através do Novo Testamento, cf. K. Adam, O Cristo da nossa (é; J. Galot,
La consclence du Christ (Gembloux-Paris 1971). Especial vía de pene
trado na consciencla de Jeaus é ofereclda pelos títulos que se Ihe atrl-
buem no Novo Testamento; a respelto veja-se L. Sabourln, Los nombres y
(Rulos de Cristo' (Salamanca 1965).

— 440 —
MORTE DE CRISTO SEGUNDO L. BOFF 21

primeiroj cristáos, que refletem sobre as palavras de Cristo confron


tando-as com as situacóes vitáis do seu meio ambiente» (p. 54).
«Os Evangelhos nao sao apenas livros sobre Jesús, mas muito mais
livros que apresentam as tradicoes e o desenvolvimento dogmático
da Igreja primitiva» (p. 55). «A Tradicao da comunidade primitiva
conservou de Jesús apenas o que tinha algum significado para a fé
e a vida da respectiva comunidade... Jesús, sua historia e sua men-
sagem se amalgamaram radicalmente com a historia da fé e dos
homens» (p. 57).

Para resumir tudo numa breve sentenca, «podemos dizer que os


Evangelhos atuais representam a cristalizacáo da dogmática da Igreja
primitiva» (p. 54). Por conseguirle, sao como que urna elaboracáo
teológica organizada em torno da pessoa de alguém que se chamou
Jesús de Nazaré. Semelhante afirmacáo parece exigir a total renuncia
a qualquer intencáo de penetrar na intimidade de Jesús. Boff, porém,
apesar de tudo nao se rende ao que parece ser evidente; na reali-
dade, ele se esforca por tirar o véu do misterio que envolve a pessoa
de Cristo ou, melhor, a consciénda que Ele tinha de s¡ mesmo e con
forme a qual Ele orientava o cumprimento de sua missáo. Para além
da comunidade primitiva, que nos falou nao tanto de Jesús quanto
da sua fé em Jesús, que pensava Jesús a respeito de Si mesmo e como
entendió a sua missáo no mundo?

Jesús se entende sempre em funcao do Pai, como um enviado


deste, que está no mundo para instaurar o reino, reino do Pai. Isto
implica que Ele tinha consciénda da sua filiacáo. Todavía nunca atri-
buiu a si o título de Filho de Deus. «Cremos — diz Boff referindo-se
a Jesús — que a sua profunda experiencia do Pai e da sua corres
pondente filiacáo constituía o fundamento, da consdénda de Jesús,
de ser o enviado e o instaurador do reino de Deus. Para exprimir esta
experiencia religiosa, Jesús nao usou o título de Filho de Deus...
A inlimidade com o Pai o autorizava a falar e agir em lugar de Deus»
(p. 159). Portanto, sem se chamar Filho de Deus, Jesús tinha cons
ciénda de o ser e de ter sido enviado pelo Pai para instaurar o
reino e, conseqüentemente, para realizar todas as obras ñas quais se
manífestam a chegada e a presenca deste reino entre os homens.
A propósito do conteúdo da consciénda de filiacáo que Jesús tinha,
Boff nao se exprime com clareza. Mas, no momento, podemos pres
cindir deste tema, registrando o dado, ou seja, que Jesús se reco-
nheda como Filho de Deus.

A missáo de Jesús se concentrava toda no anuncio e na instau-


racáo do reino, a ponto que a sua consciéncia estova totalmente
dominada pela nocáo desse reino. Boff faz notar que, das 122 vezes

— 441 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

que os Evangelhos usam a expressao reino dos céus, 90 devem ser


atribuidas a Jesús mesmo (p. 71). Nao sei se tal afirmacao é coe-
rente com a idéia de que os Evangelhos falam nao tanto sobre Jesús
quanto sobre a fé própria da comunidade primitiva e que, por isto,
devem ser considerados como «cristalizacao» da «dogmática» pro-
fessada por aquela comunidade a partir do ano 70 aproximadamente.
Todavía, coerente ou nao, a afirmado está no livro de Boff e serve
para por em relevo que o reino tem indiscutível primazia na vida e
no ministerio de Jesús.

A ¡minéncia do reino
«Jesús se moveu dentro do horizonte escatológico... da teo
logía daquele tempo, que conhecemos mediante a recente descoberta
dos textos apocalípticos» 6.

... Jesús respira a atmosfera apocalíptica do seu tempo, «mas


difere profundamente déla» (p. 75). A sua pregacao se distancia
«das expectativas messidnicas do seu tempo. Cristo ¡amáis alimenta o
nacionalismo ¡udaico; nao diz urna palavra de rebeliáo contra os
romanos, nem faz alusao á restauracao do reí davídico, mesmo que
o povo assim o saúde por ocasiao da sua entrada em Jerusalém»
íp. 77).

Nao obstante, respeitando em tudo a natureza estritamente sal-


vífica da sua mensagem, Jesús vivia no seio de urna sociedade agu-
cada pelas expectativas apocalípticas e participava délas. «O mes-
sianísmo e as categorías de expressao do apocalíptica foram meíos
adequados para que Jesús comunicasse a sua mensagem liberta
dora ... Somente afravés dessa linguagem Cristo podia fazer-se
compreender por seus ouvintes, que 'estavam em ansiosa expectativa'.
Ele participou dos desejos fundamentáis do coracáo humano referente
a libertacao e nova criacáo. Essa esperanca, expressa em estranha
linguagem apocalíptica, foi o veículo de maior revelacao de Deus no
mundo» (p. 77).

Contudo Boff jutga que Jesús sofreu realmente a tentacao do


messianismo político. Este messianismo — diz ele — «a julgar pelas
tentacóes de Jesús narradas nos Sinóticos, constituiu para Cristo urna
real tentacao. Já faz tempo que os exegetas vém interpretando a
tentacao como urna experiencia espiritual de Jesús posta em forma
parabólica (mashal) para a instrucáo dos Apostólos. Cristo superou

«L Boff, La condénela de Jesúa. Declarares á revista Vida Nueva,


de 9/02/60, p. 24.

— 442 —
morte de cristo segundo l. bofp 23

as tentacóes do messianismo político, que ent seu tempo se manifes-


tava sob tres correntes» (p. 78), «s quais — acrescenta — corres-
respondem exatamente a cada urna das tentacóes relatadas pelos
evangelistas.

. A consáénáa escaíológica de Jesús, a sua persuasao de que a


irrupcáo definitiva do reino era ¡mínente, manifesta-se com toda a
clareza na última ceia. Com efeito; Jesús diz que já nao celebrará
a ceia pascal «até que se cumpra no reino de Deus. E, tomando o
cálice, deu gracas e disse: Tomai e disfribui-o entre vos, porque
vos digo que doravante nao beberé! do fruto xia vinha até que
chegue o reino de Deus'» (Le 22,10-18). Segundo este texto de
S. Lucas — diz Boff — a última ceia tem caráter escatológico. Seria
a antecipacáo da festa do reino de Deus, que Cristo quis celebrar
com seus amigos mais íntimos, antes que irrompesse a nova ordem»
(p. 127). «Em meu livro — diz tombém — analiso o texto de Le 22,
onde Jesús diz que nao tornará a comer outra Páscoa até .que venha
o reino de Deus, e nao beberá de outra taca até que venha... A
¡mpressáo que a leitura deste texto comunica, é que, para Ele, o reino
já estava para irromper. O grande símbolo do reino é a ceia esca-
tológica» 7.

Caso se admita que Jesús vivia nesta consciéncia e que a sua


disposicáo de ánimo era realmente a que Boff descreve nos textos
citados, entao é evidente efue Jesús nao previa sua morte e que, por
isto mesmo, nao se ¡molou como vítima voluntaría de um sacrificio.
Na suposicáo de Boff, nao é Jesús quem se encaminha para a morte
a fim de vence-la e acolher todos os homens na sua vitaría; ao con
trario, será preciso dizer que a morte se abate sobre Ele e o arre
bata, precisamente quando Ele pensava na ¡rrupcáo iminente e defi
nitiva do reino escafoló.gico.

Contudo as coisas ditas assim tño claramente podem parecer


estridentes. Por isto Boff trata de amortecer o impacto produzido
por sua teoría, mesmo sem renunciar á sua idéia-chave, isto é, á
tese de que Jesús nao previa a sua morte...

i L. Boff, lugar citado na nota anterior. O livro a que Boff se refere,


é Jesús Cristo Libertador, que constituí a base da nossa exposicSo. Todavia
neste livro nada há que se parega com "urna análise especial" do texto
lucano. Mencionar Lucas e transcrever alguns versículos do seu Evan-
gelho é coisa bem diferente de "anallsá-los de modo especial".

_ 443 —
24 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

Jesús frente á contradijfio

A fé e a esperanga de Jesús — diz Boff — foram especialmente


tentadas quando foi percebendo cada vez mais a oposigao aguda
que a sua mensagem e a sua pessoa despertavam ñas diversas clas-
ses sociais de enfao. Em dado momento na assim chamada «crise da
Galiléia», Jesús se deu conta de que a morte violenta estava dentro
das possibilídades reais da sua vida. Le 9,51 diz que se firmou na
sua votitade, isto é, totnou resolutamente a decísáo de ir a Jerusa-
lém... para anunciar e esperar o reino de Deus. Ele nao se con-
teve. Acreditou na sua missao libertadora e esperou contra toda
esperanga» (p. 126). Na linguagem de Boff, isto .quer dizer que
Jesús estava firmemente persuadido de que, na última hora, Deus
intervino com irresistível poder para a implantacao definitiva do seu
reino. Vejamos como Boff exp5e as suas idéias, avancando o
reouando, para chegar finalmente ao que Ihe Interessa.

«Cristo diz Boff — tinha a consciéncia de ser o instrumento


determinante para a vinda do reino de Deus. Os Evangelhos todos
mostram em que intimidade vivía com Deus; em tudo fazia a vontade
do Pai, que se manifestava no concreto da sua vida de pregador e
taumaturgo, na relacao com o povo, nos disputas com as autoridades
religiosas de entao. Jesús vivía na fé..., descobrindo rápidamente
e com nitidez cada vez maior a vontade de Deus. Podia ser mesmo
tentado e nao saber que futuro Ihe estava reservado. No ambiente
apocalíptico da época dentro do qual Cristo se sitúa, afirmava-se
que o reino viria depois de renhida luta entre as forgas do mal e do
bem. No final da sua vida pública, quando se sentía cada vez mais
só e perseguido, suas palavras se tornaram sombrías: deu-se contas
de que é por vía do sofrimento .que alguém entra no reino. Lucas
nos conservou urna palavra de Jesús que talvez seja auténticas 'Com
um batismo tenho que ser balizado, e como estou angustiado até que
se oumpral' Para Cristo nao era muito claro se esse batismo signi-
ficava a morte violenta ou alguma outra grande aflicao. Todavía
Ele permaneceu sempre fiel e ¡amáis hesitou. Sabia estar constante
mente ñas máos do Pai. Confiava em que Este, em meio ás maiores
dificuldades pelas quais pudesse passar, intervino para salvá-lo»
(pp. 127s), isto, é, para livró-lo da morte.

«jesús continua Boff — previa a possibilidade da morte, mas


nao tinha a certeza absoluta da mesma. O último clamor no alto
da cruz: 'Meu Deus, meu Deus, por .que me abandonaste?' pressupó*
a fé e a esperanga inquebrantáveis de qve Deus nao o deixaria mor-

^^^ ni ^^^
MÓRtE £>E CRISTO SEÓUrtDÓ L. BÓF?

rer, mas no último instante o salvaría. NSo obstante, «obre a ero*


Ele sabe com toda a certeza: Deus quer que Ele se¡a fiel oté o fim
mediante a morte... Cristo aceita a morte injusta infligida pelo odio
dos homens como sendo a última vontade do Pai» (pp. 128$).

«A grande tentacao de Jesús — também diz Boff — n5o se


, deu no Gethsémani, mas na cruz. A mais grave tentacao, para a fé,
é o desespero. Jesús verifica que vai morrer e que Deus nao inter-
vém. Por fim, nao triunfa nele o desespero, mas a entrega con
fiante: 'Em tuas mSos entrego o meu espirito'. Digo o seguintes
Jesús se movió dentro do horizonte escatológico... Existia urna teo-
logia que afirmava que, quando o Messias chegasse e realizasse a
sua obra, teria .que passar por grandes tentacóes e por um confronto
com o Antimessias. Nesse confronto o Messias quase seria derrotado,
mas no último momento Deus intervino e salvaría o Messias. Partíndo
daí, minha hipótese é a seguinte: Jesús, homem histórico, fiel a seu
povo e fiel a Deus, vai cumprindo a vontade de Deus na medida em
que a vai descobrindo. Nao a conhece totalmente desde o inicio,
como se na cabeca tivesse um filme a desenrolar-se diante dele, mas
é um homem de fé e de esperance... Sabe que terá urna grande
luta. Os próprios termos que os evangelistas usam nos relatos do
Gethsémani — o cálice, a tentacáo, a carne, o espirito — sao ter
mos técnicos dessa teología. Jesús fundamentalmente é fiel a Deus
e espera que Deus se disponha a salvá-lo. Por isto pode contar^com
a morte como com qualquer outro desfecho, mas para Ele nao é
definitivo que este¡a para morrer. Na cruz Ele verifica que sim: vai
morrer e o Pai nao ¡ntervém. Por isto langa seu grande desespero:
'Por .que me abandonaste?1 Tem qxie aceitar a morte. Aceíta-a e se
entrega. £ esta a minha hipótese. Aprésente urna Cristologia que
parte de baixo, de Jesús e de suas indagacoes, experiencias, crises
e tentacóes. Assím Jesús nao somente liberta os homens, mas con
quista a sua liberdade enfrentando os conflitos» s.

Este abandono por parte do Pai foi, para a consdéncía de Jesús,


um «escóndalo». Urna das palavras pronunciadas por Cristo na cruz
d¡z Boff «nao deixa dúvida quanto á sua autenficidade. Cons-
cíéncia de Jesús, quando lanca agudamente a pergunta que Marcos
conserva em sua formulacao aramaica: 'Elo, Elof lama sabactaro?
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?1 Cristo viveu numa
intimidade' sem paralelo com o seu Deus, chamando-o Ab& Tu, meu
querido Pai. Em nome desse Deus Ele pregou o reino de Deus e con-

• L Boff, lugar citado na nota 6.

— 445 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 265/1982

fessou constantemente a sua fé nele. Esse Deus de humanidade e de


amor deixou Jesús a sos. Abandonou-o. £ Jesús mesmo quem o
afirma. Nao obstante, se Deus o abandonou. Cristo nao abandonou
a Deus» (pp. I23s). Por conseguinte, Jesús sofreu, da parte de Deus,
um abandono verdodeiro e total, que Ele nunca suspeitara e do .qual
tomou consáéncia apenas quando chegou o momento de ter que o
suportar. Deus, a quem Jesüs dirigiu seu grito derradeiro, calou-se e
nao pronunciou uma só palavra de resposta. Para que Deus fale,
será preciso esperar o dia da Páscoa. «O último silencio de Deus na
sexta-feira santa será interrompido no domingo da ressurreicao»
(p. 124).

Todavia a morte ocorreu na sexta-feira santa e foi acarretada


por um suplicio no qual Jesús nao pensara e para o qual nao dispu-
sera a sua consciéncia. A ordenacao da vida terrestre inteira de
Jesús para a morte redentora e, mediante esta, para a ressurreicao
é coisa que Boff rejeita de maneira radical. A morte de Jesús foi um
gravíssimo atrópelo, um acídente deplorável, que Ele suportou fiel
mente, mas ao .qual nao se entregou por vontade própria. Sofreu-a,
coagido pela violencia brutal de que foi vítima totalmente inocente 9.

Dificultades que Boff i se propoe e soJucoes que oferece

Boff compreende que o seu modo de interpretar a morfe de


Cristo se choca com o que geralmente se tem ensinado na Igreja
sobre este misterio. Por isto ele mesmo formula certas dificuldades
e tenta oferecer urna explicacao que tranqüilize os Ieitores. A primeira
dificuldade que ele formula, é inspirada pelas profecías que Jesús
faz a respeito da sua morte e ressurreicao.

«Os Evangelhos — diz — em sua redacao aHial evidencian™ que


Jesús conhecia o seu destino fatal. Tres vezes Ele profetizou os seus
sofrimentos e assumiu a morte como sacrificio para a redencao de
muitos (todos). Nao obstante, a seria exegese se interroga desde
o inicio deste século: 'Estamos diante de textos auténticos de Cristo

"A recusa de Boff a admitir que Jesús tenha previsto a espantosa


tragedia que envolverla o fim da sua vida terrena, é multo mals decidida e
taxativa ñas Declaraciones á revista Vida Nueva, Já citadas, do que em
Jesús Cristo Libertador, apesar de que, quando Boff fez as Declaraciones,
|á houvera uma intervencSo da Congregado para a Doutrina da Fé, pedlndo
explicacSes sobre este ponto concreto, como revela o próprlo Boff.
taÓRTE DE CRISTO SEGUNDO L. BOFF $7

ou diante de urna interpretacáo teológica á luz da fé e da verdade


da ressurreicao elaborada pela comunidade primitiva? As profecías
sao literalmente tardías e supoem um conhecímento bastante porme
norizado da Paixáo e Ressurreicao. Parece que realmente sao vati
cinio ex evenfu, formulados posteriormente com o objetivo de dar
sentido ao problema teológico contido na pergunta: Se Deus mos
tró u estar do lado de Cristo mediante a ressurreicao, por que nao o
terá mostrado antes?» (pp. 12ós).

A luz da ressurreicao, «a morte de Cristo é vista como perdáo


de nossos pecados. Sob esta luz, elaboraram-se os textos evangé
licos, postos pela fé na boca de Jesús, segundo os quais Ele seria
entregue e morto, deveria beber o cálice do sofrímenlo, ser batizado
em batismo de sangue; daría a sua vida para a redencao de mui-
tos, etc. Este significado teológico foi conquistado mais tarde sob a
luz da ressurreicao» (pp. 129s).

«Estas passaaens e profecías sobre a morte e ressurreicao pare-


cem nao ter sido formuladas por Jesús, porque supoem ¡á a Paixao
e a Páscoa em seus pormenores. Isto pode ter sido trabalho cristo-
lógico da comunidade de fé para explicar o sentido redentor da
morte de Cristo» (p. 160).

«Nao tinha dito o Cristo terrestre: 'Eu estou no meio de vos


como aquele que serve?' A comunidade da Palestina foi depois inter
pretando a morte de Cristo como a forma extrema de servico á
humanidade» (p. 144).

A conclusao de tudo isto é clara: Jesús nao fez vaticinio algum


relacionado com a sua morte futura. Tudo o que o Novo Testamento
diz neste particular, é elaboragáo teológica da primitiva comunidade
crista, a qual, compelida pelo feito glorioso e transcendental da res
surreicao, nao podia deixar de procurar urna explicacao para a igno
minia da morte na cruz; e, para .que essa explicacao tivesse mais
valor, ela foi posta nos labios de Jesús mesmo, atribuindo-lhe a pre-
visao da sua própria morte em expiacáo dos pecados da humanidade.

Outra dificuldade provém da fé da Igrefa na Eucaristía. Se Jesús


em absoluto nao previu a sua morte, como pode instituir a Eucaristía,
na qual se renova sacramentalmente a sua morte como sacrificio ofe-
recido ao Pal para a salvacáo de todos os homens? Num primeiro
momento, Boff nao faz sendo rocar esta dificuldade. «E mais aguda
ainda — diz ele — a discussao acerca do conteúdo histórico dos
textos eucarísticos de caráter sacrífical, que parecem supor ¡á urna
teologia e urna prática eucarística da Igreja primitiva» (p. 127). Com
estas palavras, Boff, em vez de assumir a dificuldade a fim de Ihe
dar urna resposta, passa-lhe ao largo.
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

Todavía, como Boff mesmo tornou público, a Congregacao para


a Doutrina da Fé pediu-lhe esclaredmentos sobre tal questao. cAle-
gam— diz — que, partindo dessa hipótese (ou seja, de que Jesús
nao previu a sua morte), nao se compreende a instituicáo da Euca
ristía». Diante da necessidade de responder e de explicar-se, disse:
«O grande símbolo do reino é a ceia escatológíca. Entáo digo que
a Eucaristía vem de Jesús e ai está a sua prática, o rito de Jesús.
Contudo, ao mesmo tempo, os Apostólos deram um sentido eclesial á
Eucaristía como sinal de unidade, de presenta do misterio de Jesús,
de sinal escatológico. é o que afirma S. Paulo: 'Recordareis o Senhor
até que Ele venha'. Para mim, nao há problema. A Eucaristía tem
sua origem etn Jesús, mas partindo da historia de Jesús... Todavia
dizem-me que assim nao salvo suficientemente a institucionalidade da
Eucaristía... E ai estamos» 10.

Como se vé, depois de muítos rodeios e tentativas de esclarecí-


mento, a dificuldade permanece; continua literalmente intata. Está
muito bem dizer que «a Eucaristía tem sua origem em Jesús, partindo
da historia de Jesús», pois urna Eucaristía que, por hipótese, nao bro-
tasse da historia de Jesús, da concretíssima vida que Ele levou entre
os homens, nao poderío ser senáo ¡nvencáo humana, carente de con*
sisténcia e absolutamente ineficaz para a salvacáo. Mas Boff, ao
mesmo tempo que estabelece este sólido principio, o desvirtúa; rnais:
torna o cumprimento e a verificacáo desse principio absolutamente
impossiveis. Que idéia tem Boff da historia de Jesús no ponto que
agora interessa e do qual tudo depende? A resposta é clara depois
de tudo o que foi dito. Efetivamente; segundo Boff, na historia de
Jesús nao há base para atribuir-lhe a previsao da morte, porque
tudo o que o Novo Testamento diz a propósito nao pertence em
absoluto á historia vivida por Jesús, mas tudo é teologia elaborada
pela comunidade crista primitiva. Dentro da historia de Jesús, enten
dida como Boff a defende com toda a tenacidade, nao existe urna
única possibilidade de atribuir-lhe a instituicao da Eucaristía, tal como
a enlende a fé da Igrefa, isto é, como sacrificio-sacramento no qual
se renova sacramentalmente a morte redentora do Senhor, ao mesmo
tempo que se recebe o corpo que Ele entregou e o sangue que der-
ramou por todos para o perdao dos pecados. Boff elabora urna his
toria de Jesús que exclui radicalmente a própria possibilidade da
Eucaristía. Por conseguinte, carece absolutamente de sentido dizer que
a Eucaristía tem a sua origem em Jesús, «partindo da historia de
Jesús», porque esta fórmula, que parece táo realista, no pensamento
de Boff nao possui nem pode possuir conteúdo algum.

i«L Boff, lugar citado na nota 6.


MORTE DE CRISTO SEGUNDO L. BOFF 2S

Outros pontos obscuros na teoría de Boff


sobre a morte de Jesús

Boff aprésenla a si mesmo aIgurnas dificuldades, as quais res


ponde da maneira que acabamos de indicar. Contudo a süa teoría
tem .grandes repercussóes no campo da fé e no da teología e, por
isto, precisa de ser analisada um pouco mais em profundidade.

a) Insuficiencia das análises bíblicas

As explicacoes de Boff sobre a morte de Jesús nao levam em


conta senáo algumas poucas passagenss do Novo Testamento. Ele se
refere concretamente ás «tres profecías» sobre a morte-ressurreicao,
entendidas como sao lidas em Me 8,31; 9,31; 10,32-34, aos textos
eucarísticos, ao «batismo» que Jesús tinha ansia de receber e á missáo
do Filho do Homem, que veio para servir e dar a sua vida em res-
gate da multidao, isto é, por todos os homens (cf. pp. 126-128).

Todavía o tema da morte de Cristo tem urna serie de ramifica-


CÓes, ás quais Boff nao presta a menor atencao. A primeira surpresa
na abordagem da questao surge quando se comprova que Boff, por
um lado, atribuí a Jesús urna clara consciéncía messiánica e, por
outro lado, guarda absoluto silencio sobre a principal passagem mes
siánica do Antigo Testamenfp, aquela precisamente em que um desco-
nhecido profeta esboca a imagem do Servo de Javé padecente
(Is 52,13.53,12). O Messias descrito nesta passagem carrega volun
tariamente sobre si os pecados do povo. «Foi traspassado por nossas
iniquidades e esmogado por nossos pecados» (v. 5). Depois de um
juízo iníquo, «foi arrebatado da térra dos vivos e ferido de morte
pelo pecado do seu povo» (v. 8). Por ter oferecido a sua vida em
sacrificio, «verá descendencia que prolongará os seus dias, e o desejo
de Javé prosperará em suas maos... Dar-lhe-ei como partilha muí-
tidóes e repartirá despojos com os poderosos, por ter-se entregue á
morte e ter sido contado entre os malfeitores» (vv. 10. 12).

Como é que Jesús, sabendo ser o Messias, tendo consciéncia de


ser o enviado de Deus para estabelecer o seu reino, podía ignorar
urna profecía messiánica táo clara, na qual a morte voluntaria e tam-
bém tremendamente injusta do Servo de Javé é o centro de todo o
vaticinio? O profeta tem clara consciéncia de transmitir urna mensa-
gem que os homens resistiriam a crer. «Quem acreditou no nosso
anuncio?» Mas será possível pensar que nem mesmo o personagem
ao qual o anuncio se refere, Jesús de Nazaré, tenha compreendido a
36 «pergui^te e responderemos» 265/ió8¿

profecía? Boff guarda um silencio absoluto sobre este tópico, como


se o anuncio nao tivesse ocorrido. Eis, porém, que o Novo Testamento
repetidamente faz notar que o vaticinio se cumpriu em Jesús e que
Jesús mesmo o apropriou a si (Le 22,37). Nao é legitimo fazer mala-
barismos com a consciéncia de Jesús para permitir-lhe captar e apre
ciar somente aquila que se encaixa com as teorías pessoais de um
autor, elaboradas sobre o principio de considerar nao histórica qval-
quer coisa que se oponha a elas.

Boff também nada diz sobre outra serie de dados bíblicos. Mas,
tfntes de passar odiante, é necessário refletir um pouco sobre o tema
das «tres profecías» em que Jesús fala da sua futura morte. Como
se ve, Boff resolve o problema de maneira sumaría, dízendo que nao
sao profecías, mas teología elaborada pela comunídade crista depoís
que os acontedmentos passaram, no intuito de dar a estes urna explí-
cacao que fosse realmente digna do feito maravílhoso da ressurrei-
Cao. Creio que sería muito mais razoável focalizar o tema com maior
abertura e menos dogmatismo.

Inclusive, para quem, prescindindo da ¡nspiracáo divina, aborde


os relatos evangélicos, indiscutivelmente «as tres profecías» supóem
«um conhecimento bastante pormenorizado da Paixao e da ressur-
reicao» (p. 127), coisa q-ue, como geralmente se admite, nao se dá
nos validaos reconhecidos como profetices. Isto justifica plenamente
a afirmacao de que no relato do Evangelho... foram introduzidos
pormenores nao proféticos, aduzidos pelos evangelistas mesmos para
dar noticia do ocorrido. Mas — e isto é o importante —, se os
evangelistas acrescentaram ¡nformacóes, fizeram-no porque previa
mente Jesús mesmo falara aos discípulos sobre o que se poderío
chamar núcleo substancial do misterio da sua Paixáo-morte-ressurrei-
cáo em termos que, de anterrino, é preciso supor tenham sido mais
claros do que os termos ocorrentes na profecía do Servo de Javé; nao
se pode pensar que, quando os fatos ¡á eram iminentes, Jesús, o
Servo anunciado, nao tenha acrescentado alguma fuz própría á antiga
profecía.

Os sinóticos estao de acordó em colocar «as tres profecías» bem


no fim da vida de Jesús, o que já constitui um argumento em favor
da sua historicidade. Mais aínda: oferecem dados que seriam incom-
preensiveis se Jesús nunca se tivesse referido á sua ignominiosa morte.
Trata-se de episodios «laterais», nao atribuíveís a alguma ¡ntencao
teológica, descritos com minucias tao concretas que é necessário reco-
nhecer a sua autentícídade histórica, se nao queremos incorrer em um
apriorismo subjetivo e arbitrario. Por outro lado, essas mesmas minu
cias careceríam totalmente de sentido, se nao as relacionássemos com
a morte da Jesús.
MORTE DE CRISTO SEGUNDO L. BOFF 31

A primeira vez que Jesús falou da sua futura morte, ocorreu


depois da confíssño de Pedro. Ora, caso se suprima a referencia á
morte, nem as palavras de Pedro nem a repreensao que Jesús Ihe
dirigiu, teriam sentido. Após a transfigúratelo, Jesús manda as teste-
munhas que nao contem a ninguém o ocorrído «até que o Filho do
Homem ressuscite dentre os mortos» (Me 9,9; cf. Mt 17,9). E Sao
Marcos se refere, sem dúvida, a um fato histórico, quando logo acres-
cenia: «Eles observaram esta recomendacao, díscutindo entre si o
que seria ressuscitar dentre os mortos» (Me 9,10). Em outra ocasiáo,
caminhando pela Galiléia — sem dúvida, durante a última viagem a
Jerusalém —, Jesús falou novamente da sua morte. A reacao dos
discípulos foi registrada pelos tres sinóticos, cada qual do seu modo. E
assim lemos: «Entristeceram-se muíto» (Mt 17,23). «Eles nao enten-
diam o que Ihes dizía e tinham medo de interrogá-lo» (Me 9,32).
Sao Lucas, neste caso concreto, se sitúa mnis perto dos fatos origi
náis. Dá a versao mais vaga e imprecisa do fato, dizendo simples-
mente: «O Filho do Homem será entregue as maos dos homens»
(Le 9,44), o que constituí por si urna garantió de historicidade. E
insiste enfáticamente em que os discípulos nao entendiam o anuncio
feito pelo Mestre: «Mas eles — diz — nao entendiam isso; estava-
-Ihes velado, de modo que nao o entendiam e temiam interrogá-lo
sobre este assunto» (Le 9,45). Por último, os tres sinóticos referem
ulterior anuncio, quando estavam ¡á perto de Jerusalém, isto é, ape
nas a alguns poucos dias da' morte. S. Mateus, e S. Marcos consig-
nam as palavras de Jesús sem acrescentar alguma observacao. Mas
Sao Lucas insiste de novo na náo-compreensao dos discípulos. «Eles
nada compreenderam: estas palavras Ihes fícavam ocultas e nao enten
diam o que Ele dissera» (Le 18,34).

Nao há o mínimo fundamento para ¡ulgar que a comunidade pri


mitiva tenha inventado por razoes teológicas todos estes concretíssimos
episodios, absolutamente inexplicáveis para quem prescinda da sua
vinculacao com o anuncio da morte de Jesús. Portanto é preciso admi
tir que os vaticinios da morte sao históricos, embora o modo concreto
como depois os evangelistas compuseram seus relatos mostré sinais
inequívocos de que alguns pormenores puderam ser acrescentados por
eles em virtude do conhecimento que tinham dos feitos já ocorrídos.
Esta conclusáo, que me parece perfeitamente fundada, serve também
para interpretar em seu sentido exato as sentencas de Jesús sobre a
sua missao de servir e de dar a vida para a redencáo da multidáo
(Me 10,45; Mt 20,28), assim como sobre o «batismo» pelo qual Jesús
antiava vivamente (Le 12,50).
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

Boff — como se viu — julga também que as palavras eucarísticas


sobre a morte sacrifica I de Jesús, ñas quais se acha a expticacao
dessa mesma morte, sao igualmente elaboracao teológica da comu-
nidade primitiva. Agora, sem repetir o que ¡á foi dito, quero acres-
centar somente dois pontos. Em primeiro lugar, creio que o estudo
mais serio efetuado em torno deste assunto é o de J. Jeremías. The
eucharistic words of Jesús11; nesta obra, após análises minuciosíssi-
mas, chega a conclusao de que as palavras de Mateos «Este é o meu
sangue da alianca, que será derramado por muitos» (Me 14,24)
devem ser consideradas como ¡psissima verba de Jesús 12. Em segundo
lugar, tenho a ¡mpressao de que neste problema é Boff quem fe
deixa arrestar por finalidades teológicas, que nao se harmonizam
bem com os textos bíblicos. Com efeito, Boff mostra muito pouca
simpatía para com a idéia de um Jesús que se oferece como sacri
ficio para salvar os homens. «Como resulta evidente — diz —, a
interpretaeao da morte de Cristo como sacrificio é urna entre multas.
Os próprios textos do Novo Testamento nao permitem que se¡a abso-
lutizada, como o foi na historio da fé dentro da Igreja latina» (p. 145).
Nao se trata de absolutizar a afirmacáo de que a morte de Cristo
foi sacrificio. O verdadeiro problema está em que Boff, no tocante o
autoconsáencía de Jesús, absolutiza a negacáo e, em virtude de
semelhante absolutizacao, considera como teología da comunidade
primitiva todas as passagens em que consta que Cristo previu a sua
morte e a ofereceu ao Paí como o sacrificio da alianca nova e eterna,
pactuada em seu sangue para a salvacáo de toda a humanidade.

Na teología da morte de Jesús que Boff elebora, também nao


há lugar para levar em consideracao outra serie de passagens bíbli
cas alusivas a tal acontecimento. Nem sequer menciona a parábola
dos vínhateíros homicidas (Me 12,1-12); as predicoes da traicSo de
Judas, da negacáo de Pedro, do abandono em que os discípulos deí-
xariam Jesús: tudo isto só tem sentido dentro do contexto geral que

u Nao pude ver a obra original. Cito a traducao inglesa publicada em


Londres por SCM Press em 1966.

12J. Jeremías, The eucharistic words..., pp. 186-103; J. L. Espinel,


La eucaristía del Nuevo Testamento (Salamanca 1980), pp. 31-115.
Ipefesima verba: as mesmlsslmas palavras (Nota do tradutor).
MORTE DE CRISTO SEGUNDO L. BOFF 33

incluí a morte do Senhor. Também nada diz sobre o «¡ejum» que os


discípulos praticariam «no día em que o noivo Ihes fosse arrebatado»,
nem sobre a questao colocada a Hago e Joáo a propósito da sua
capacidade de beber «o cálice» que Jesús haveria de beber. Tam
bém nao dá atencáo a declaracáo de Jesús quando diz que «nao
convém que um profeta pereca fora de Jerusalém» (Le 13,33), ñera
á tremenda advertencia «Encheis a medida de vossos país» (Mt 23,32)
dirigida aos escribas e fariseus hipócritas, que se reconhecíam filhoi
daqueles que haviam derramado o sangue dos profetas (Mt 23,30).

Sao Joáo tetn urna serie de expressoes alusivas á morte de Jesús,


das quaís nenhuma merece a atencáo de Boff. A primeira, e talvez
a mais Importante, posto que nela nao se podem perceber infencóes
teológicas, é a que se refere á destruicao e edíficagáo do templo; a
destruicao será obra dos ¡udeus, ao passo que a reconsfrucao será
larefa do próprio Jesús. O evangelista observa que Jesús falava do
templo do seu corpo e que os discípulos nao enfenderam suas pala-
vras até depois da ressurréicáo (Jo 2,19-22). A historicidade destes
dizeres é confirmada pelas acusacoes feitas a Jesús durante o processo,
urna das quais se baseava sobre os seus dizeres «contra o templo».
O próprio Sao Joáo diz repetidamente que Jesús há de ser exaltado.
Ele é o grao que morre na térra para dar fruto e o bom pastor que
espontáneamente dá a vida pelas ovelhas para retomá-la depois.
Jesús moslra também conhecer perfeitamente as infencoes homicidas
dos seus inímigos e censura-os claramente por estarem maquinando a
sua morte. Isto tudo e outras coisas que deixamos ao largo, é apenas
teología? O «sermáo» eucarístico por inteiro e, de modo especial, as
palavras sobre a recepeáo do corpo e do sangue que Jesús há de
«entregar para a vida do mundo», sao também apenas teología ela
borada pelo evangelista ou pela comunidade da qual ele é porta-voz?

Abstracao feita dos numerosos trechos evangélicos relacionados


de algum modo com a previsáo que Jesús tinha da sua morte, o Novo
Testamento expoe urna rica teología na qual esta morte voluntaria
livremente aceita e, portanto, previamente conhecida, tem lugar de
relevo singular. O designio salvífico do Pai passa pelo sangue de
Cristo, que nos traz a redentáo dos pecados para transformar-nos
em fílhoi adotivos (Ef 1,5.7). Jesús chega até a morte e derrama o
seu sangue em atitude de voluntaria obediénda ao Pai (Fl 2,8). Con-
tudo nao se trata agora de recolher toda a doutrina do Novo Testa-
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

mentó sobré a morte de Jesús. Por isto bastem estas consíderacóes


elementares para mostrar que, se se prescinde da morte de Jesús livre-
mente aceita e padecida por Ele, o plano divino de salvacao é abso
lutamente ininteligível; mais ainda: sofre urna deformacao radical13.

Neste ponto a carta aos Hebreus merece ao menos urna mencáo.


Jesús veío ao mundo com a vocacáo de sacerdote da humanidade, e
cumpre-a ¡molando-se em sacrificio urna vez por tedas. Será possível
pensar que Jesús, executor do plano divino, ignorava a sua própria
vocacao? A carta atribui a Jesús urna vontade oblativa «desde que
Ele entra no mundo» (Hb 10,5).

Para terminar esta ¡nformacao sobre a morte de Jesús, acres-


cenfarei brevemente duas consideracoes. A Liturgia da lgre¡a na cele-
bracao da Eucaristía parece-me ter valor definitivo, porque mostra
muito bem a consciéncia que a comunidade crista tinha do misterio
da salvacao e das vias pelas quais ele se cumpitu. A parte central
desta Liturgia é constituida pelo relato da instituicáo da Eucaristía
como sacrificio-sacramento da nova alianca; esta, como se disse, é
absolutamente ¡ncompreensfvel se nao se admite que Jesús previu a
sua morte e a ofereceu ao Pai como sacrificio. Além desta, há outras
afirmaeoes explícitas. A segunda Oracao Eucarísfica diz que Jesús
instituiu este misterio «quando ia ser entregue á sua Paixao, volunta
riamente aceita». E a quarta, dirigindo-se ao Pai, diz: «Para cumprir
vossos designios, Ele mesmo se entregou á morte». Por isto Joño
Paulo II lamenta com razáo que, as vezes, ao tratar da morte de

13 A Comlssao Teológica Internacional considera que a prevIsSo da


morte, por parte de Jesús, é um dado fundamental para estabelecer a devlda
conexfio entre Cristologia e Soteriologla. Cf. Quaestiones eelectae de Chris-
tofogta (sesslo plenaria 1979), IV: De Christologla et Soterlologia, A. Gre-
gorianum 61 (1980) 624. E um pouco adiante a tnesma comlssSo acres-
centa: "A conflanca-esperanca de Jesús deve ser entendida no sentido de
que Ele tlnha certeza da própria ressurrelefio e exaltado (Me 14,25) e de
que, como consta das palavras e dos feltos da última cela (Le 22,1-21 e
par.), eslava disposto a morrer para oferecer a promessa e a realizacSo da
salvacao escatológica" (U c, B, 2.4, p. 625).

Devo observar que a ComlssSo usa um latlm notavelmente obscuro,


chelo de redacóes toreadas, e nao tenho a certeza de ter traduzldo com
exatidfio. Em todo caso, a ComlssSo afirma reiteradamente e com absoluta
clareza que Jesús previu a sua morte, acrescentando que tal prevlsfio o
llvre aceltacSo é um dado fundamental da Soterlologia bíblica. Seria, por-
tanto, erróneo pensar que a prevlsfio e a llvre aceltacSo da morte por
Cristo sao apenas conceltos Introduzldos por "escolas teológicas", como
mera conseqüencla do seu modo de considerar o tema da Interlorldade de
Cristo e da'sua obra satvlflca.
MORTE t)E CRISTO SEGUIDO L. BOFF*

Jesús, «se cale a vontade de entrega do Senhor c a consdéncia da


sua missao redentora»14, que implica a morte; «la, portanto, tinha
que ser previamente condecida, nao menos que os dentáis elementos
componentes daquela missao.

Urna segunda consideracao que contribuí para esclarecer o pro


blema relativo á consciéncia que Jesús tinha da sua própria morfe,
fundamenta-se no conceito de revelajao. Jesús Cristo é o supremo
revelador do Pai e do seu designio salvífico. Evidentemente Ele cum-
priu a sua missao nao de maneira mecánica, mas consciente ou com
clara consciéncia do que fazia. Ora, segundo o ensinamento cons
tante da Igrejo, a revelacáo divina está expressa ou contida princi
palmente na morte e na ressurreicao de Cristo 15. A morte de Jesús é,
por assim dizer, um dos veículos primarios da revelacáo. Pode-se
crer que Jesús revelador tenha sido «surpreendido» pela morte ou
que tenha oaminhado para ela sem saber aonde ia? Parece-me que
a resposta é clara.

Depois deste percurso — que está longe de ser completo —


alravés do tema morte de Cristo, pode-se apreciar a radical insufi
ciencia da exposicao que Boff faz do mesmo. A morte de Cristo, por
ser «peca» essencial no designio devino de revelacáo e de salvacáo,
tem ramíficacoes através de toda a Biblia, como também em toda a
teología; é fogosamente desfigurada quando, para estudá-la, se
tomam em consideracao apenas alguns poucos textos bíblicos, subnie-
tidos a pressoes procedentes de idéias mais ou menos preconcebidas.
Creio que Boff se deixa ficar muito na superficie das coisas.

b) A Divindade de Cristo

Quando se trata de Jesús, o tema da sua Divindade é inevitável,


porque aparece em todos os caminhos e penetra em todos os mis
terios. Estes tém o valor salvífico que a revelacáo Ihes atribuí pre
cisamente por serem misterios do Filso de Deus encarnado. Se se
prescinde da pessoa de Jesús — que é pessoa diyina —, torna-re
absolutamente impossivel entender as suas obras, os seus misterios, os

«JoSo Paulo II, AlocusSo de 28/01/1979, ao inaugurar os trabalhos


da III Assembléla Geral do CELAM em Puebla, México, rfi I, .4.

15 Cf. Concillo do Vaticano II, Constitulcfio Dogmática Peí Verbum


n9 4a. 17.
|é «PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

leus ensinamentos e qualquer coisa que se refira a Ele. Alguém disse


com exatidao que «qualquer problema sobre os ensinamentos de
Jesús será sempre, em última instancia, um problema sobre a pessoa
de Jesús» 18. Esta afirmacao é muito mais válida quando se trata do
misterio da morfe de Jesús, cujo valor salvífico é absolutamente
incompreensível se ela é desligada da pessoa divina de Jesús. As
antigás controversias dos Padres da lgre¡a contra o Nestorianismo e
o Monofisismo esclarecerán! este ponto de maneira definitiva. Ho¡e
nao se pode mais pensar nem escrever como se o .que entao foi
esclarecido ainda estivesse obscuro.

O modo como Boff fala de Cristo concilia-se com o misterio da


sua única pessoa, e pessoa divina? Boff afirma claramente a Divin-
dade de Cristo. Depois da ressurreicao — diz — c fé dos discípulos
«se articula com profundidade cada vez mais penetrante até chegar
a decifrar o misterio de Jesús como sendo o próprio Deus que visitou
os homens em carne mortal» (p. 142). «Jesús é chamado por nomes
que vao desde os mais humanos, como Mestre, Profeta, o Justo, o
Bom, o Santo, até os mais sublimes, como Filho de Deus e Salvador
e, por fim, é qualificado como Deus mesmo» {p. 153). Jesús, me
diante linguagem apocalíptica, deu a conhecer a sua mensagem «
«revelou quem Ele era: o Filho de Deus, o Deus Encarnado e o Sal
vador do mundo» (p. 77),

Tudo isto é exato e os textos comprovantes poderíam mulrípli-


car-se amplamente. Todavía o problema objetivo fica de pé. Quero
sublinhar o termo objetivo, porque de modo nenhum tenciono pene
trar ñas intimidades da consciéncia de Boff. Por muito que queira-
mos insistir sobre as declaracoes de Boff a respeito de Jesús como
o Filho de Deus, e Deus mesmo, nao se pode evitar a impressao de
que esse Deus é um tanto estranho. Jesús nao sabe como terminará
a sua vida neste mundc até o momento em que se acha pregado á
cruz; urna vez crucificado, tem que lutar contra o desespero que o
assalta e que o faz gritar perdidamente, diri.gindo-se ao Pai: «Por
que me abandonaste?» Como vimos atrás, Boff argumenta dizendo
que nao podemos pensar que Cristo tinha na cabeca um filme no
qual lia o futuro. Mas tal argumento é recurso muito pobre. Acaso

10 J. Blank, Krtsls. Unterauchungen zur Johannelschen Christologle und


Eschatologie (Frelburg I. Br. 1964) 44. O autor denuncia o contra-senso
de nao poucos estudos contemporáneos de Cristologla que tentam valorizar
a obra de Jesús ao mesmo tempo que deprlmem a sua pessoa; sem recorrer
a esta, a obra de Jesús em nada pode flcar clara e realmente engran
decida (cf. pp. 32-38.65-70. 1248. 135s).

— 456 —
MÓRfrE DE ÓRtéTÓ SEGUNDO L. BOFF

o conhecímento que Deus tem do futuro deve ser considerado como


leitura de um filme? Ademáis esse Deus que está em Jesús, descobre
a vontade do Pai fomente através de «buscas, tentativas, crises e
rentacoes»17. Sua impecabilidade — a deste Deus que está em
Jesús — é igualmente estranha, porque «nao consiste na pureza de
suas atividades éticas, na retidáo de seus atos individuáis, mas na
situacao fundamental de estar diante de Deus e unido a Ele» (p. 210),
de modo que, enquanto dura essa siruacáo fundamental, no interior
da conscíéncia de Jesús podem desenrolar-se dolorosos e estranhos
dramas de luta entre o bem e o mal; este último nao prevalecerá
como situacao, mas nao se excluí que prevaleca como ato, porque
a total inocencia de Jesús nao está ligada á retidáo de seus atos
individuáis.

Boff quer irmanar a fé da Igreja sobre a pessoa de Jesús com


a exegese praMeada por aqueles que negam essa fé. O resultado
tem que ser, por forca, um Cristo incoerente, feito de blocos contra-
postos. Será este realmente o Cristo da fé? Cada qual pense e veja ls.

c) A Igreja

«Originariamente — diz Boff — o sermáo da montanha tfnha


caráter escatológico: Cristo pregou o fim ¡mínente» (p. 88). Esse
fim iminente revestiu para Jesús urna forma trágica na qual nem Ele
tinha pensado. Ora esse Jesús surpreendido pela morte pode pensar
numa Igreja que continuaría a sua missao após a morte?

Nao basta dizer que existe a Igrej-a e que esta inicia a sua mar
cha peregrina através do mundo a partir da ressurreicao (p. 146).
E preciso mostrar a coeréncia desta afirmacao com os pressupostos de
Boff referentes á morte de Jesús. Mas Boff nao trata disto. Por isto
a origem da Igreja é tema forzosamente envolvido em obscuridade,
para a qual ele nao tem nenhuma solucao objetivamente fundada.

1T L. Boff, lugar citado na nota 6.

18 A ComlssSo Teológica Internacional diz que, "segundo a tradlcSo


da Igreja baseada na S. Escritura, a obra salvlflca de Jesús supfie, para
ser eficaz, a verdadeira Dlvindade do Fllho e a sua plena solldarledade
conosco por ter Ele assumido a natureza humana completa" (Quaestlones
selectae de Chrlstologia IV: De Chrlstologla et Soteriologla, D. n? 9. Grego-
rianum 61, 1980, p. 629).

— 457 —
38 «PERCUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

E com a Igreja, póe-se o problema importante dos sacramentos,


comecando pela Eucaristía. Se Jesús participava das perspectivas
apocalípticas e estava persuadido de que o reino havia de irromper
sem demora, como pensaría Ele em sacramento? O que anterior
mente dissemos, ao tratar da Iminénda do Reino, suscita questoes
inumeráveis, que desejariamos ver esclarecidas.

A guisa de conclusao: Cristologia lalirro-americana?

Como acabamos de ver, os problemas suscitados pelo pensa-


mento de Boff em torno da morte de Jesús estao longe de ser espe
cíficamente latino-americanos. Afetam alguns pontos vitáis do mis
terio cristáo, considerado em seu núcleo essencial, que transcende
lempos, culturas e latitudes.

Aos problemas assinalados feriamos que acrescentar outro,


igualmente capital e absolutamente inseparável do da morte de Jesús,
que é o da sua ressurreicáo. Boff opina que a morte de Jesús teve
lugar, objetivamente falando, na sexta-feira santa, embora só ten ha
comecado a manifestar-se na madrugada do domingo da Páscoa.
Semelhante ¡déia tem sua origem numa antropología singular, segundo
a qual todo homem ressuscita «para a vida ou para a morte» no
momento mesmo de morrer {pp. 147-149).

Creio que, se Boff se tivesse inspirado na tradicao religiosa


latino-americana, feria conseguido elaborar urna Cristologia bem
diversa da que ele expoe em Jesús Cristo Libertador. Esta, longe de
ser latino-americana, está ostensivamente marcada pelo «protestan
tismo liberal» de origem germánica; a este o autor tomou de emprés-
timo numerosas idéias, formuladas com brilhantismo literario, mas
sem coeiáo doutrinárla no ámbito da fé genuino que o povo latino-
•americano tem na pessoa e na obra de Jesús Cristo. O resultado
desse trabalho é um amalgama — creio que nao se Ihe pode dar
oulro nome — de pontos de vista contraditórios entre sí; estes pontos
configuram um Cristo que é fogosamente «¡ncoerente», sem unidade
e sem harmonía, um Cristo, em última instancia, aberto a interpre-
tacoes arbitrarias, que constituirlo o encanto daqueles que gostam
de «manipular» a pessoa e a mensagem de Jesús em vista dos mais
diversos objetivos.

Para nao alongar este artigo, pedimos ao leitor que, á


guisa de comentario final, queira reler o inciso «Em síntese»
da p. 436 deste fascículo.

— 458 —
Um debate completo:

"Anjos e Demonios na Biblia"


por diversos

?J n-hn ^ if° ea em íoco vem c°"esponder a urna necesst-


dfLStarií h • 9"k Portu9ue8a- «««» "a° se pode furtar á questáo
dfstas teSJf' mí1?3
. «Slw í
b°nS f TT8 num mund0 de fenómenos umban-
m69|cos-" A obra « benemérita por apresentar ao leltor
a ocasiao de examinar numa visSo de relance, os argumentos favorávete e
Sod« «%é?e5 á «?xIsténcla d° Ma»9no: veriflca-se que a questáo nfio
pode ser dirimida únicamente numa perspectiva filosófica ou empírica mas
exige consulta e fiel atencfio ás fontes da fé, pois aborda assunTo de índoil
revelada ou sobrenatural. Felto o balanco de'quanto afirmam os documentos
5£m« ' h°S testemunh°s da Tradi5ao e do magisterio da Igreja, o™ teltor
cnstao observa que nfio pode negar a existencia dos anjos bons e maus
sem cair em incoeréncia; trata-se de proposl5ao integrante ¿o depósito da fó

Comentario: O Pe. Joáo Evangelista Martins Térra S J


coordenou urna coletánea de artigos de autores nadonais e"
estrangeiros, referentes aos anjos e demonios». Este volume
corresponde aos n.« 17-18 da Kevista de Ciütum Bíblica, que
passou a sair em edigóes monográficas. O assunto é de atua-
hdade, vistas as recentes dúvidas de estudiosos sobre a exis
tencia de anjos e demonios.

Abaixo transmitiremos alguns dos tragos importantes de


artigos da coletánea; ao que se acrescentará urna avaliagáo da

1. A obra em foco

onioJírÍ°S sáoA°? artigos e Pronunciamentos de importancia


coletados em «Anjos e demonios na Biblia». Entre outros, des
2STV &i0C^° de PaUl0 m proferida aos 15/11/72 e o
™,nto da Sagrada Congregagáo para a Doutrina da Fé
publicado em «L'Osservatore Romano» de 6/07/75. Eram res-

»Anjos e demonios na Biblia. Revista de Cultura Bíblica, n.o» 17-18


— Ed. Loyola-LEB, Sfio Paulo 1981. 145 x 210 mm, 169 pp.

— 459 —
40 «PEKÜU-MTK a

postas, ao menos indiretas, a onda de livros e ensaios recém-


■publicados contra a existencia dos anjos e demonios, sobres-
saindo-se nesta serie os escritos de Herbert Haag intitulados
Abschied vom Teufel * e Teufelsglaube2.

O Pe. Térra publicou na eoletánea os artigos de teólogos


europeus que fizeram eco ás citadas declaragóes da Igreja em
favor da existencia dos anjos e demonios; destes merecem des
taque o do Cardeal Joseph Ratzinger (pp. 155-163), o estudo
relativo á demonologia de Karl Rahner (pp. 57-77), o de A M
Kothgasser (pp. 78-101) e o do Pe. Joáo Augusto Amazonas
MacDowell S.J. como relator de um debate realizado entre
jesuítas (pp. 140-154).

Em substancia, a coletánea apresenta distintamente ao


leitor as razóes por que se afirma a crenga na existencia dos
anjos bons e maus e aquelas por que a mesma hoje em dia é
negada, permitindo-lhe assim tomar exato conhecimento da
questáo e formular um juízo abalizado sobre o assunto. Exa
minaremos uns e outros dos argumentos.

1.1. Por que crer na existencia do demonio?

Dentre os varios argumentos aduzidos na coletánea, des


tacaremos os seguintes:

1.1.1. Os textos bíblicos do Amigo e do Novo Testamento

Verifica-se que a S. Escritura fala de anjos e demonios


utilizando expressóes diversas: enviado do Senhor, demonios,
diabo, mensageiro, potencias, forgas... Os textos respectivos
sao mais numerosos nos escritos do Antigo Testamento poste
riores ao exilio (587-538 a.C.) do que nos anteriores: assim
Jó, Zc, 2Mc, Tb... vio manifestando crescente consciéncia da
existencia de anjos bons e maus (cf. Sata em Jó 1-2). Tal
concepgáo, em vez de desaparecer nos livros do Novo Testa
mento, torna-se aínda mais presente e desenvolvida; está inti
mamente ligada á maneira como Jesús apresenta a sua missáo
(levem-se em conta os exorcismos praticados por Jesús) e
como Sao Paulo a entende (cf. C\ 2,15; ICor 2,6-8).

1 Despedida do demonio.

3 Crenca no demonio.

— 460 —
Foder-se-á dizer: a mencáo dos anjos bons e maus é ele
mento heterogéneo ao patrimonio da fé de Israel, porque devida
á influencia dos mesopotamios e persas. Jesús, encontrando
tal elemento de cultura paga entre as concepgSes do seu povo,
apenas quis adaptar-se as mesmas sem as discutir, mas tam-
bém sem as abonar.

Ora a propósito deve-se observar:

1) A revelagáo de Deus aos homens realizou-se na his


toria; pode ter utilizado elementos verídicos oriundos fora do
povo de Israel; assim a nogáo persa de «foreas e potencias do
mal», correspondendo a urna realidade, foi assumida pela Bi
blia com sua roupagem literaria; esta roupagem deverá ser
cornetamente interpretada pelos exegetas, sem que, por isto,
eliminem a verdade revelada (tenha-se em vista o caso do anjo
Rafael, que aconselha a Tobías utilize coragáo e fígado de
peixe para afugentar maus espirites e se sirva de fel de peixe
para curar os olhos do pai, conforme Tb 6,2-9). Eis palavras
do Pe. Térra:

"É verdade que a existencia de anjos e demonios, como a próprla


existencia de Deus, nao foi descoberta através da revelacSo bíblica. Tra-
ta-se de realidades acesslvels á experiencia religiosa da humanldade em
geral. A funefio da revelacáo bíblica é Justamente Interpretar á luz da fé
javfstlca de Israel os dados do universo religioso do tempo, corrlgindo as
suas detunpacGes. No Novo Testamento a apresentacáo do demonio é des
pida de todos os elementos mágicos e folclórlcos. As cenas do Evangelho
apresentam a malor sobrledade. Nada de longos exorcismos, conjuros, etc.
Mas simples palavras Imperativas de Cristo. O que é posto em relevo, é o
significado teológico dos acontecimentos. Mesmo episodios aparentemente
.carregados de pormenores místicos, como o do possesso de Gerasa, ganham
profundo sentido religioso, quando se entende o género literario e o alcance
teológico do texto. Atrás de traeos simbólicos é expresso o confronto de
Cristo com o mundo pagSo, dominado pelo demonio. Realmente, as manl-
festacóes do demonio no Novo Testamento só podem ser compreendidas a
partir de um ponto de vista crlstológico" (pp. 143s).

Quanto á hipótese de que Jesús se tenha adaptado a cren-


gas erróneas dos seus contemporáneos e assim as tenha con
firmado até o sáculo XX, nao corresponde á profissáo, feita
pelo próprio Jesús, de que veio dar testemunho da verdade:
«Nasci e vim ao mundo a fim de dar testemunho da verdade.
Todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz» (Jo 18,37).
Quando Jesús se defrontava com falsas concepcóes da sua
gente, cuidava de dissipá-las, como se deu no caso do cegó de
nascenga, quando Jesús afirmou que nem este nem os pais
deste haviam pecado (cf. Jo 9,ls).

— 461 —
Tenham-se em vista as observaeóes do Pe. Térra:
«Os dados do Novo Testamento nao permitem reduzlr o demonio a um
simples símbolo da torga anónima do mal. Jesús, ao falar do demonio, nao
se adaptou slmplásmente á mentalldade do tempo, mas exprlmiu a sua
convlccfio própria. Prlmelro, porque a crenca em anjos e demonios nao
era universal no seu tempo e no seu meio. Os saduceus, por exemplo, nSo
aceltavam esses seres esplrltuals como também re|eitavam a ressurrelcfio
a tudo aqullo que transcendesse o horizonte da vida terrena. Em segundo
lugar, Jesús nao perde ocasiáo de corrigir as Idéias religiosas que nao se
conforman) com a sua mensagem de saivacfio. á asslm que refuta a idóla
de que a cegueira de nascenca, e as doencas em geral, sejam castigo pelos
pecados dos país. Ora, ao se defrontar, p. ex., com a acusacfio de estar
possesso do demonio, nSo nega a existencia do demonio, mas a confirma,
mostrando que ele age contra o demonio e seu reino, sendo Ilógico que
Satanás destina o seu próprlo poder" (p. 143).

2) Precisamente para favorecer o trabalho de distinguir


entre os elementos de fé e a respectiva roupagem cultural nos
escritos do Novo Testamento, o Cardeal Joseph Ratzinger, as
pp. 155-163, propóe «quatro criterios para discernir os limites
entre a 'imagem do mundo' e a fé». Tais sao:
a) a rela$5o entre os dois Testamentos. O testemu-
nho biblico resulta da harmonía do Antigo com o Novo
Testamento,, que se explioam mutuamente. Ora verifi-
ca-se que a crenga na realidade de demonios é cada vez
mais patente nos escritos bíblicos:
"A concepcfio de poderes demoniacos so aparece de modo hesitante
no Antigo Testamento, elevando-se pelo contrario na vida de Jesús a um
vigor inaudito, que continua sem dimlnulcfio em SSo Paulo e que perma
nece até os últimos escritos do Novo Testamento, as Epístolas da catlvl-
dade e o Evangelho de Sao Joáo. Este fato da intenslficacao do Antigo
Testamento no Novo, da cristalizado extrema do demoniaco, precisamente
em face da figura de Jesús, e da constancia do tema em todo o testemunho
neotestamentário ó de grande torca testemunhal" (pp. 1583).

O motivo pelo qual a figura do demonio ficou um tanto


apagada nos livros mais antigos da Biblia, se deve ao fato de
que a Revelacáo divina devia, antes do mais, incutir ao povo
israelita a crenga num único Deus, ou o monoteísmo; somente
após firmado este principio, seria focalizada com evidencia a
existencia de seres diabólicos, que os pagaos fácilmente identi-
fiGavam com deuses ou semideuses.
b) O «esencial e o acídente! na autoconsciéncia de
Jesús. A Escritura refere as tentagóes de Jesús (cf. Le
4,1-13; 22,28); Jesús se apresentou como Aquele que velo
destruir os poderes do adversario forte ou de Satanás
(cf. Me 3,27; Mt 12,29); acusado de praticar exorcismos

— 462 —
em nome de Beelzebu, principe dos demonios, Jesús nao
dissipou a crenca na possessáo diabólica, mas apenas mos-
trou que Beelzebu nao poderia estar agindo contra o
reino dos demonios (cf. Mt 12,24-28). Mais:
"Jesús conslderava parte do núcleo central da sua tarefa a luta contra
os demonios (cf. p. ex. Me 1,39-39); conseqüentemente, a autorizado para
esta luta pertence ao cerne dos poderes que confere aos seus discípulos:
eles sSo enviados para pregar, tendo o poder de expulsar os demonios
(Me 3,14s). A luta espiritual contra os poderes escravlzadores, o exorcismo
de um mundo Iludido por demonios pertence inseparavelmente ao camlnho
espiritual de Jesús e ao centro da missao do Cristo e dos seus discípulos.
A figura de Jesús... nSo se muda, quer o sol gire ao redor da térra, quer
a térra ao redor do sol, quer o mundo se tenha formado por evofucao, quer
nao; mas ela muda decisivamente, se removermos a luta com o poder expe
rimental do reino dos demonios" (p. 160).

c) «A Biblia é livro da Igreja e a fé da Igreja é


expressao da revelacao bíblica». A Biblia foi entregue á
Igreja, de tal modo que so pode ser tomada como autén
tica fonte de fé se entendida no contexto da Igreja; a fé
nunca poderá ser devidamente depreendida pelo leitor dei-
xado ao seu «bom senso» ou aos seus criterios individuáis.
Ora observa-se que a Igreja, desde cedo, aceitou a reali-
dade do demonio; por exemplo, «o exorcismo e a renuncia
a Satanás pertencem ao núcleo do acontecimento batismal;
esta renuncia, juntamente com a adesáo a Cristo, forma
a porta indispensável de entrada para o sacramento..
Mudar-se-ia o batismo e, conseqüentemente, a vida crista,
se se quisesse cancelar a realidade do poder do demonio?
(p. 161).

d) A certeza científica como criterio negativo da fé.


Nenhuma conclusáo da ciencia moderna contradiz a exis
tencia do demonio. — Herbet Haag, porém, negou a esta em
nome da «imagem do mundo» contemporáneo. Ora per-
gunta-se: qual o trago de tal imagem que exclui a reali
dade dos anjos maus? Verdade é que esta «se opóe ao
gosto geral; do mesmo modo é evidente que nao tem apoio
num mundo contemplado funcionalmente; mas, guiados
pelos criterios da funcionalidade dos conceitos, deveremos
dizer que no mundd contemporáneo também nao há lugar
para Deus, nem para o homem como homem, e sim ape
nas para o homem como fungáo; logo nele se desfaz muito
mais do que so a idéia do demonio» (p. 162).
Expostos estes quatro criterios, o Cardeal Joseph Ratzin-
ger concluí ser coerente com as premissas da fé aceitar a exis
tencia do demonio.
— 463 —
44 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

3) É de notar outrossim que, ao lado da descreída na


realidade do demonio, se registra no mundo contemporáneo um
interesse surpreendente pelos fenómenos do ocultismo e até
mesmo pelo satanismo. Eis algumas expressóes de tal ten
dencia:

a) O culto a Satanás é boje em dia relativamente


difundido; tenham-se em vista: o «Ordo Templi Orientis»
(O.T.O.), seita secreta que se dedica a orgias rituais sádi
cas e sexuais, encabecada inicialmente por Aleister Crow-
ley, que procurava entrar na posse das formas demoniacas
com todos os meios possíveis imagináveis (drozga, magia,
sexo) e tornar-se assim o senhor do mundo inteiro. O
O.T.O. noje tem sedes na Alemanha e nos Estados Uni
dos da América.

b) A «Igreja de Satanás» nos Estados Unidos. Aos


30/04/1966 Antón Szandor La Vey anunciou a fundagáo
da «Igreja de Satanás» (Choren of Satán), da qual é
sumo sacerdote. Em seis anos conseguiu mais de dez mil
adeptos. A finalidade de tal seita é celebrar o corpo hu
mano e seus desejos carnais. O fundador escreveu: «The
Satanic Bible», livro de perversáo satánica, como tam-
bém «The Satanic Rituais», conjunto de gestos e palavras
de diversas procedencias, tendo um capítulo intitulado
«A Missa Negra».

c) Diversos grupos de índole ocultista e mágica se


dizem adeptos do culto de Satanás e de espíritos maus,
praticando feiticaría, bruxaria, pactos com o demonio, etc.,
de modo que as publicacóes periódicas ou revistas, o
cinema, os romances póem em foco o Maligno, obtendo
enormes sucessos...

Estas expressóes de curiosidade pelo demonio e as imagens


que se lhe associam, vém a ser um trago da nossa época,...
trago que se afirma com certa pujanga precisamente quando
muitos estudiosos negam a existencia do demonio, apelando
para o contexto da civilizagáo moderna. Tal fenómeno nao
permite que se risque sem mais a realidade do Maligno.
Passemos agora a considerar os documentos de

1.1.2. O magisterio da Igrefa


Desde os primeiros séculos da Igreja, algumas correntes
dualistas foram invadindo os ambientes cristáos e dissemina-
ram a concepgáo de que o mal no mundo se deve a um prin-
— 464 —
«ANJOS E DEMONIOS NA BIBLIA» 45

cípio subsistente, por si mau, antagónico a Deus bom. Tais


correntes se inspiravam do maniqueísmo persa; os seus arautos
se chamaram priscilianistas no sáculo VI, cafaros e vaJdenses
nos sáculos Xl/Xm... Esse principio mau era obviamente
identificado com o demonio ou com o Satanás da Biblia. Em
conseqüéncia, o magisterio da Igreja, através de Papas e Con
cilios, teve de se manifestar repelindo a concepgáo errónea rela
tiva ao demonio que assim se propalava; indiretamente era
assim reafirmada a própria existencia dos anjos bons e maus
entendidos como a Biblia e os primeiros documentos do Cris
tianismo os entendiam.

1. Tenha-se em vista, por exemplo, a seguinte declara-


gáo do Concilio de Braga (560-563) em Portugal:
"Se alguém sustentar que o dlabo n§o fol prlmeiro um anjo (bom)
felto por Deus e que a sua natureza nSo fol obra do mesmo Deus, e se
pretender que ele salu do caos e das trevas, e que nSo há nlnguém que
seja autor do seu ser, mas que é ele próprio o principio e a substancia
do mal, conforme dlzlam Manes e Prlscillano, seja anátemal" (cap. 7,
Denzinger-Schonmetzer xfi 457).

2. Esta solene afirmagáo, datada do sáculo VI, faz eco a


outras anteriores, procedentes de doutores e teólogos da Igreja.
Assim, por exemplo, escrevia S. Agostinho (t 430):
"O enslno católico ordena que se acredite que esta Trlndade é um so
Deus, que fez e criou todos os seres que exlstem e a medida em que eles
exlstem; de tal sorte que todas as criaturas, tanto Intelectuals como corpo-
rais — ou para dlzer com mals brevldade e segundo os termos das Divinas
Escrituras — tanto as vlslvels como as invisfvels, nao fazem parte da natu
reza divina, mas foram tiradas do nada pelo mesmo Deus" (De Genest an
litteram liber Imperfectua I, 1-2).

Na Espanha, o Concilio de Toledo I (400) professava


igualmente que Deus é o Criador de «todos os seres visiveis
e invisíveis», e que fora dele «nao existe natureza divina de
anjo, de espirito ou de alguma outra potencia que possa ser
reputada como Deus» (Denzinger-Schonmetzer 188).

Por sua vez, S. Leáo Magno (t 458), ainda tendo em vista


o priscilianismo, ensina:

"A verdadelra fé, a fé católica, professa que a substancia de todas


as criaturas, tanto das esplrltuals como das corporais, é boa e que o mal
nao é urna natureza, dado que Deus, Criador do universo, fez somonte
aqullo que é bom. Por teso, o próprio dlabo serla bom se tlvesse perma
necido no estado em que fora criado. Por desgrasa, porque ele usou mal
da sua excelencia natural, ele nao permaneceu na verdade (cf. Jo 8,44);
(sem dúvida) ele nao se transformou numa substancia contraria, mas sepa-
rou-se do sumo bem ao qual ele havia de ter aderido..." (epist. 15,
cap. VI PL 54, 683).

— 465 —
■46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

'■■ 3. No século XII propagava-se o dualismo dos cataros


ou albigenses, em consonancia com as teses priscilianistas. Foi
entáo que o Concilio do Latráo IV (1215) houve por bem pro-
nunciar-se nos seguintes termos:

"Nos acreditamos firmemente e professamos com slmplicldade... um


principio único do universo, Criador de todas as coisas vislvels e Invlslveis,
esplrituais e corporals; com a sua virtude onipotente, no inicio do tempo
ele crlou conjuntamente do nada urna e outra criatura, a espiritual e a cor
poral, ou seja, os arijos e o mundo; depols, a criatura humana, que, até
certo ponto, tem algo de urna e de outra, composta como é de espirito e
de corpo. Dado que o diabo e os outros demonios foram criados por Deus
naturalmente bons, foram eles, por si mesmos, que se tornaram maus, por
próprla iniciativa; quanto ao homem, ele pecou por InstlgagSo do diabo"
(Denzlnger-Schonmetzer n? 800).

Esta declaragáo do Concilio do Latráo IV faz eco as ante


riores; tem valor dogmático, como afirmam os comentadores
— o que quer dizer: define a fé da Igreja. Em suma, professa
a existencia dos anjos maus que, criados pelo único Deus, nao
sao substancialmente maus, mas se tornaram maus por abuso
do seu livre arbitrio. O Concilio nao definiu nem o número
dos anjos maus, nem o tipo do seu pecado nem a extensáo da
sua influencia, deixando as escolas de teología o aprofunda-
mento desses assuntos.

O ensinamento da Igreja antiga e medieval foi ressoando


através dos séculos, de tal modo que o Concilio do Vaticano II
lhe faz eco nítido, afirmando, á maneira do Apostólo, que
«Cristo nos livra do poder das trevas» (cf. «Ad Gentes» 3 e 14;
cf. Cl 1,13). Retomando perspectivas de Sao Paulo e do Apo-
calipse, a Constituicáo «Gaudium et Spes» recorda que a his
toria universal é «urna dura batalha contra o poder das tre-
vas; comegada ñas origens do mundo, durará, como disse o
Senhor, até o último dia» (n* 37). Na Constituicáo «Lumen
Gtentium» lé-se que «temos de lutar contra os dominadores
deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos» (n' 35;
cf. Ef 6,12); o mesmo documento, querendo apresentar a Igreja
como o Reino de Deus que já comecou, invoca os milagres de
Jesús, fazendo explícita mengáo dos seus exorcismos (n« 5);
estes assinalavam realmente a vinda do Reino de Deus, con
forme Jesús em Le 11,20; Mt 12,28.

Sejam estes testemunhos — aos quais outros se poderiam


acrescentar — suficientes para comprovar o pensamento ofi
cial da Igreja com relagáo á existencia dos anjos maus.

— 466 —
«ANJOS E DEMONIOS NA BIBLIA» 47

Eis as ponderales que bons autores, seguindo as pegadas


da Tradicao, propóem para sustentar a assercáo de que o
diabo existe; este nao constituí «urna personificagáo mítico-
-simbólica do poder impessoal da maldade, mas implica real
mente a existencia de criaturas para-humanas, conscientes e
livres, que se opSem ao plano divino de salvagáo» (p. 142).

Passemos agora aos argumentos aduzidos em contrario.

1.2. Por que nao erer na existencia do demonio?

Apontam-se, na coletanea em foco, cinco principáis razSes:

a) Argumenta Rudolf Bultmann: «Nao se pode usar a


luz elétrioa, o radio, utilizar modernos instrumentos médicos e
clínicos no caso de doenca e crer, ao mesmo tempo, no mundo
dos espiritas e dos milagres no Novo Testamento» (cf. p. 82).

Mais sucintamente H. Haag:

"Esta concepcSo nSo é mals conciliável com a nossa imagem do


mundo" (cf. p. 156).

A propósito observa o Cardeal J. Ratzinger:

"A razao para a despedida do demonio nfio consiste numa aflrmacSo


da Biblia em sentido contrario, mas na nossa imagem do mundo com a
qual isso n9o é conciliável. Em outras palavras: Haag se despede do
demonio nao como exegeta, ... mas como contemporáneo, que tem por
Inadmissível a existencia de um demonio... Fala contra Haag a sem-ceri-
monla com que ele determina o que é conciliável com a Imagem moderna
do mundo, e o que nSo é... Haag se pronuncia nao como exegeta, mas
como filósofo, conslstindo evidentemente a sua única filosofia numa moder-
nidade" (cf. p. 156s).

Ora tal modernidade irrefletida nao atende as exigencias


de um pensamento científico e objetivo.

2) «Hoje os fenómenos que deram origem á crenga no


demonio (tentagáo, possessáo, alucinacóes, etc.), sao interpre
tados pela psicanálise como projegóes do inconsciente, pela
parapsicología como o produto de capacidades paranormais, etc.
Logo devemos considerar as afirmagóes bíblicas sobre o demo
nio como ligadas ¿o horizonte cultural da época. Hoje só pode
mos falar da forga coletiva do pecado, que provém do homem
e age sobre ele» (Pe. Libante, p. 143).

— 467 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

— Ao que se deve responder: a afirmasáo da existencia


do demonio nao está necessariamente ligada á afirmagáo de
fenómenos paranormais ou parapsicológicos, mas ela se enqua-
dra, antes do mais, na consciéncia que Jesús tinha e transmi-
tiuia sua Igreja, de estar lutando contra o «principe deste
mundo» (cf. Jo 14,30; 16,11); a Páscoa de Cristo, na cons-
ciéncia de Jesús, estava intimamente associada á realidade do
Maligno. «Os dados do Novo Testamento nao permitem redu-
zir o demonio a um simples símbolo da forca anónima do mal.
Jesús, ao falar do demonio, nao se adaptou simplesmente á
mentalidade do tempo, mas exprimiu a sua conviccáo própria»
(Pe. Térra, p. 143).

3) «Há varias coisas que foram consideradas pacifica


mente através dos sáculos como contidas na Biblia e, depois,
com o progresso da ciencia foram abandonadas pela Igreja;
por exemplo, o fixismo em materia da origem das especies e
do homem. Portanto, o criterio nao pode ser simplesmente o
enunciado bíblico; é preciso saber interpretá-lo» (Pe. Libanio,
p. 145).

— Em resposta, observa-se: a Igreja através dos sáculos


nao adotou a posicáo fixista, isto é, contraria á evolucáo bio
lógica, já que nem havia tal problema, ou seja, a hipótese cien
tífica do evolucionismo náb tinha sido formulada... Aos pou-
oos tornou-se patente a compatibilidade do evolucionismo cien
tífico com a fé biblica na criaeáo.

"Admito o paralelismo invocado entre as duas sltuacoes teológicas.


Mas estou certo de que um eventual pronunciamento da Igreja vlrá con
firmar substanclalmente a posIgSo tradicional acerca do demonio. O pro
gresso científico nfio altera os fundamentos desta poslcfio. Com efelto, o
fato de que o fenómeno da tentacáo e outras manlfestacoes consideradas
demoníacas possam ser Interpretadas científicamente atravós da pslcanállse,
da parapsicología, etc. nfio significa a exclusSo do demonio como prin
cipio da tentacSo. As duas Interpretares, a científica e a da fé, movem-se
em planos diversos. Se a conseqüéncla fosse verdadeira, excluirla tambero
o Espirito Santo e, finalmente, o próprlo Deus, como faz Freud entre outros.
O Espirito Santo seria entendido como a bondade personificada... Entre
tanto a exegese católica demonstra o fundamento bíblico da fé eclesial na
tercelra pessoa da SS. Trlndade" (Pe. MacDowell, pp. 145s).

4) «A existencia ou inexistencia do demonio em nada


altera a visáo do mundo cristáo» (Pe. Vaz, p. 146).

— Eis a resposta: «Nao se trata de aceitar ou rejeitar um


dado bíblico partindo da pergunta: que sentido tem isto? que
importancia? que necessidade? Este tipo de questionamento

— 468 —
«ANJOS E DEMONIOS NA BIBLIA» 49

poria em xeque a liberdade da comunicacáo divina. Por que


existe o demonio? Por que o Filho de Deus se encarnou?...
Trata-se de fatos que dependem da liberdade divina, superando
qualquer cálculo humano. Assim a existencia de seres cons
cientes e livres, pertencentes a um mundo invisível, em certa
relacáo com o mundo humano..., é um fato resultante da
generosidade criadora de Deus. Por que Deus nao pode ter
criado tais seres? Precisa prestar-nos contas de seus atos? Ou
temos o direito de rejeitar a existencia de tais criaturas só
porque nao vemos que sejam necessárias para a compreensáo
da existencia humana?» (Pe. MacDowelI, p. 146).

5) «A agáo do demonio nao só é desnecessária para a


compreensáo crista do mal, mas até se opóe á dignidade da
pessoa humana. Como admitir que o destino humano esteja
sujeito a outro poder que nao o de sua própria liberdade?
Seria absurdo» (Pe Herrero, p. 149).

— Em resposta: «Segundo a Revelagáo crista, o demonio


é apenas o tentador, provocador, instigador do mal. O homem
permanece plenamente responsável por seu pecado... Assim
como o homem pode tentar outro homem, instigando-o para o
mal, assim também outro ser consciente e livre. Nada vejo de
estranho nisto» (Pe. MacDowelI, p. 149).

O debate ácima foi travado numa reuniáo de teólogos e


filósofos jesuítas realizada aos 14-15/02/75 em Correias-RJ.
A ata da disputa, altamente interessante, foi elaborada pelo
Pe. MacDowelI e publicada na coletanea em foco, pp. 140-154.

A exposicáo sucinta do conteúdo do livro dá ocasiáo a urna

2. Reflexao final

A coletánea em foco vem corresponder a urna necessidade


do público de língua portuguesa, que nao se pode furtar á ques-
táo da existencia dos anjos bons e maus num mundo de fenó
menos umbandistas, fetichistas, mágicos... A obra é bene
mérita por apresentar ao leitor a ocasiáo de examinar, numa
visáo de relance, os argumentos favoráveis e os desfavoráveis
a existencia do Maligno: verifica-se que a questáo nao pode ser
dirimida únicamente numa perspectiva filosófica ou empírica,
mas exige consulta e fiel atengáo as fontes da fé, pois aborda

— 469 —
50; «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

assunto de índole revelada ou sobrenatural. Feito o balanco


de quanto afirmam os documentos bíblicos, os testemunhos da
Tradigao e do magisterio da Igreja, o leitor cristáo observa
que nao pode negar a existencia dos anjos bons e maus sem
cair em incoeréncia; trata-se de proposicáo integrante do depó
sito da fé. Donde a conclusáo de A. M. Kothgasser:
"Fazer teología significa sempre professar a próprla fé. € eis o meu
Credo: 'Crelo em um só Deus, Pal onlpotente, Criador do céu e da térra
de todas as coisas vislveis e invisíveis... E um só Senhor Jesús Cristo '
E no Espirito Santo que ó Senhor e dá a vida... E na Igreja, Una, Santa,
Católica e Apostólica... Entfio alguém me perguntará: 'Cré ou nao eré no
diabo? Respondo: Naol Crelo em Deus — e confesso que o diabo existe
e está aínda agora atuante. Isto ó, distingo entre Té1 em Deus como auto-
doac&o e abandono, e a crenca no diabo como 'fó constatativa* " (p. 101).
Farabens ao Pe. J. E. M. Térra pela obra que entregou ao
publico! Seja útil e esclarecedora neste momento de hesita-
cóes e düvidas!
Ao leitor que nlo possa ler, por Inteiro, a obra em pauta, recomenda
mos especialmente o artigo de A. M. Kothgasser ás pp 78-101: "O Diabo-
mito ou realldade?"
• • •

(Contlnuacáo da pág. 508)


O sacramento da Confirmacáo, pelo Pe. Luiz Cechinato. — Ed. Vozes
Petrópolis 1982. 135 X 210 mm, 133 pp.
O Pe. Cechinato tem-se comprovado por suas obras como benemé
rito catequista. Já escreveu um compendio de doutrlna "Senhor, a quem
iríamos?" como também urna explicacáo do que seja a S. Mlssa. O volume
sobre a Crisma está multo bem redigido: aborda os sacramentos em geral,
como slnals do amor de Jesús; depols detém-se sobre a Crisma e o
papel do Espirito Santo na Igreja e na vida do crlstfio; termina com a
apresentacáo dos llvros bíblicos, que devem ser o manual de lesura coti
diana do crlstao. Apreciamos o uso freqüente da S. Escritura na expla-
nacáo do tema como também o recurso a contos e historietas que ajudam
o aluno a compreender a materia. Possa tal obra dlfundlr-se, lembrando a
todos os cristáos a vocacao á santidade, cujo Mestre Interior é o Espirito
Santol

O dlreito de ser Jovem, pelo Pe. José Fernandos de Oliveira (Pe. Ze-
?Ln«»° S9J)¿ ~~ Cole5fio "Jovens-Adultos — 1". — Ed. Paulinas, SSo Paulo
1982, 120 X 200 mm, 166 pp.

O Pe. Zezlnho volta a escrever seus livros para a juventude, sempre


com multo bom senso e arte comunicativa. Sabe dlzer em estilo jovem as
verdades mals duras e diflcels. O presente llvro, por exemplo, defende o
dlreito de ser Jovem contra os modismos que escravlzam e massiflcam.
A Juventude está sujelta a ser manipulada por tabus (geralmente libertinos)
que Ihe incutem a "obrlgatorledade" de certos comportamentos; caso nao
os aceltem, os jovens se sentem marglnallzados. Na verdade, deixam de
ser eles mesmos e auténticos Jovens para seguir padrOes que fontes espu
rias Ihes impfiem:
(Continua na pág. 482)
— 470 —
Um livro candente:

"A Luta dos Deuses


por diversos autores

Em síntese: O livro «A luta dos deuses" é urna coletñnea de artlgos


de teólogos latino-americanos: de modo geral, tomam posicaes que em
absouto Já nfio sao cristas, mas correspondem slmplesmente ás de um
marxsmo que, por vezes, se camufla de catolicismo; ... por vezes, pois
há af páginas impregnadas de total secularlsmo. O Interesse principal dos
autores_é a revolucao sóclo-econñmlca, flcando os valores da fó subordi
nados a consecucSo de tal objetivo; a fé torna-se fungfio e instrumento da
praxis revolucionarla. A verdade metafísica ou ontológlca como tal nfio
interessa; o que importa, é a verdade «práxlca» ou a eficiencia de aIguma
propos cfio para mudar a realldade. Na base destas concepcoes o Mvro
preconiza e prepara o surto de urna nova Igreja, desvinculada de suas
clásslcas premlssas bíblicas e de suas tradigoes doutrlnárlaT para poder
entregar-se totalmente á causa da llbertacfio sócio-economlca das poDula-
coes latino-americanas. K

Comentario: As Edicóes Paulinas publicaram em 1982 um


hvro candente intitulado «A luta dos deuses», com o subtitulo
«Os ídolos da opressáo e a busca do Deus Libertador»- vem a
ser urna ooletánea de artigos concementes á opressáo e liber-
tacao dos povos latino-americanos, da autoría de Pablo Ri
chard, Severino Croatto, Frei Betto, Víctor Araya, Jorge Pix-
ley, Jon Sobrmho, Javier Jiménez Limón, Franz Hinkelammert,
Joan Sasanas, Hugo Assmann... * Este último autor e Frei
Betto sao brasileiros, que figuram ao lado de pensadores domi
ciliados na América Latina.

. A °br* é bem representativa da corrente de pensamento


vinculada & Teología da Libertagáo. Por isto merece o inte-
resse do estudioso, neste momento em que a temática está
mmto em voga. — A seguir, poremos em relevo os traeos prin
cipáis da doutrina apresentada pelos respectivos autores e lhes
acrescentaremos alguns comentarios.

1A luta dos deuses. Os (dolos da opres&ño e a busca do Dbus Llber-


lador, por diversos. — Ed. Paulinas, Sfio Paulo 1982, 130 x 200 mm. 308 pp.

— 471 —
52 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

1. O conteúdo da obra

Dentre os artigos do livro em pauta, vun dos mais signifi


cativos é o de Joan Casañas, teólogo espanhol que vive no
Chile e pertence ao grupo «Agermanament» de Barcelona.
Traz o titulo abaixo:

1.1. «A tarefa de fazer com que Deus seja» (pp. 157-206)

1. O autor parte do seguinte principio: cristáo é aquele


que se empenha pela transformacáo da sociedade latino-ameri
cana de nossos dias, entregando-se a «urna praxis militante
junto ao povo», ou á «revolugáo proletaria» (p. 159), «sem se
deixar amarrar por qualquer especie de dever de fidelidade aos
esquemas mentáis e as formas de expressáo recebidos da Bi
blia ou de outros lugares da tradigáo crista ou religiosa em
geral» (p. 158). Isto nao quer dizer que o cristáo despreze a
Biblia ou a tradigáo crista, mas ele as recebe sobre premissas
indiscutíveis, a saber: é preciso lutar para reformar a socie
dade e instaurar urna nova ordem económico-política. A Biblia
há de ser lida e interpretada em fungáo desta tese. — Com
outras palavras: devemos, antes do mais, importar-nos com
«aquilo que vivemos, vemos e nos ocorre agora, nao com
aquilo que 'aprendemos' como 'bom\ e ao qual demos nosso
'assentimento' com fidelidade 'religiosa' » (p. 158) x. O con
fronto entre a praxis militante e a Biblia pode ser muito fecundo,
mas «constitui um segundo ou terceiro momento da tarefa e
devemos procurar evitar que ele sufoque os momentos ante
riores» (p. 158).

Pode-se, pois, dizer no caso: o cristáo é, antes do mais e


certamente, um revolucionario..., que aceita a Biblia na me
dida em que ele a tem como estimulante da revolugáo. Em
consecuencia, Casañas se opóe até mesmo á teología dita «pro-
gressista», pois esta ainda se atém muito ao clássico modo de
entender a Biblia, considerando-a «intocável, talvez fetichizada»
(p. 159).

2. Destes dizeres se seguem algumas proposigóes impor


tantes:

i o que aprendemos como bom, é designado por Casañas como "acumu-


lacBo bancárla de esquemas mentáis, conceltos. Imagens e formulacees"
(p. 188).

— 472 —
«A LUTA DOS DEUSES» 53

2.1. O verdadeiro conceito de Deus nao é o do Deus


crucificado, «que se deixa oprimir e massacrar com o povo
pela pretensa razáo de que o amor é que deve vencer» (p. 160).
Nao; na verdade, Deus nao é, mas Deus será, ... e so será se
ocorrerem as condigóes para tanto, ou seja, se houver amor
entre os homens (cf. p. 161): «Tudo está em processo, Deus
nao é, mas será — no máximo podemos dizer que vai sendo,
se a revolugáo proletaria avanca» (p. 170). «Para além daquilo
que nossas categorías ontológicas conseguem encerrar, Jaweh
nao é, mas será. Será quando houver um povo que realize
determinadas condigóes» (p. 162).

Quando os homens amarem o próximo e realizarem intei-


ramente a justiga na térra, «só entáo Deus será Deus. O Deus
que pretendemos afirmar, prescindindo da realizagáo da jus-
tiga, é simplesmente um ídolo, nao o Deus verdadeiro. O Deus
verdadeiro nao é, será» (p. 162).

Somente para os opressores Deus já existe e a ontologia


prevalece sobre a praxis; por isto eles dizem que, de certo
modo, já conhecem Deus pela fé. Os oprimidos e seus defen
sores negam que o Deus já conhecido seja o verdadeiro Deus
antes que haja justiga social no mundo.

2.2. Em conseqüéncia, nao pode haver fé enquanto há


relagóes mercantis entre os homens (cf. p. 161). A experien
cia da fé requer «emancipagáo política, social e, em última ins
tancia, económica em relagáo ao modo de produgáo mercantil»
(p. 161). Essa experiencia de fé nao se consegue com «aggior-
namentos» ou modernizagóes. «Modernizar ou 'aggionar' o
fetiche nao significa superá-lo. Nao há outro modo de viver
a fé em sua radicalidade sem lutar radicalmente pela destrui-
gáo do sistema de dominagáo» (p. 161s).
Desta afirmagáo se segué que «dizer que a atividade revo
lucionaria nao é toda a vida... significa estar perto de dizer
que há parcelas da vida e da realidade que nao sao tocadas de
modo algum pelo aspecto político e a luta de classes. É nessas
supostas parcelas que viceja e floresce alegremente o cristia
nismo tradicional em alianga com o capitalismo» (p. 165).
2.3. Outra conseqüéncia das premissas de Casañas é a
seguinte: nao podemos dizer que Jesús nos tenha trazido urna
mensagem definitiva, que sirva de referencial e criterios para
formularmos a mensagem crista hoje. «Aquele que abre urna
brecha, como Jesús fez, quer que outros a ampliem e nao que
todos se limitem a passar pela brecha que ele deixou» (p. 17»).
— 473 —
51 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

■:•• ■ «Nao se está fazendo nenhuma reducáo de Jesús, o Mes-


sias, quando se procura desmontá-lo como fetiche que 'sabia
tudo' e 'disse tudo' sobre Deus, que 'faz tudo' para que pudés-
semos nos aproximar de Deus, que tudo fica abaixo dele, etc.»
(p. 171) *.

2.4. O conceito de evangelizac.áo passa a ser o seguinte:


,,. «Desse modo 'evangelizar' seria motivar e ajudar os outros
a ingressar na luta armada organizada do povo oprimido, bem
como motivá-los e ajudá-los também a que descubram, expres-
sem e formulem os níveis mais profundos de vida, amor, doa-
gao e gratuidade, esperanca e criaüvidade — transcendencia e
divindade — que encontram nessa experiencia militante, pes-
soal e comunitaria... É fatal querer viver de renda das expe
riencias e formulagóes de outros em outros tempos» (p. 171).
2.5. Conseqüentemente, urna nova Igreja a ser fundada
em breve entra na perspectiva de Casañas:

«Talvez em breve tenhamos que optar entre permanecer


em urna Igreja com todas as suas obrigagóes em dia, confes-
sando urna 'mesma fé' com todos os capitalistas e direitistas
instalados nela, e abandonar esse círculo eclesial para poder
falar com um pouco de seriedade revolucionaria sobre Deus
Jesús de Nazaré, a fé como opgáo libertadora, etc. (ou seja'
para poder contribuir com algo profundo e necessário para a
revolugáo, em seus níveis mais densos e surpreendentes)...
A finalidade primeira e última nao é permanecer na Igreja
nem falar de Deus revolucionariamente, mas sim fazer a rovo-
lugáo, o quanto antes e bem» (p. 178).

Essa «Igreja ao lado» ou nova vai sendo preparada por


membros da clássica e única Igreja fundada por Cristo; tais
membros, permanecendo propositadamente dentro da Igreja,
tencionam solapar a unidade e a fé da mesma. É o que se
depreende do seguinte testemunho:

»A guisa de ilustracfio, transcrevemos:

"O Importante em Jesús de Nazaré — como em outros heróls que nos


pracederam — ó o camlnho prático que ele propOe e realiza pessoalmente
com sua vida e a entrega de sua vida, nSo tanto as conclusOes ou aproxl-
macSes teóricas que em cada momento de sua existencia ele val tirando
dessa praxis sobre Deus, a 'outra vida', a 'providencia', etc." (p. 172).

— 474 —
<A LUTA DOS DEUSES» 55

"Perguntel a alguns teólogos 'progressistas' por que, em multos de


B6U8 escritos, geralmente nos momentos mals importantes de seus discursos,
lancam mSo, quando menos se espera, de horizontes de compreensfio, sím
bolos e linguagem clásslcos, cem por cento tradicionals, dogmáticos e
flxos, esses que os militantes da causa socialista nao entendem, que nao Ihes
dlzem nada e que nfio podem fazer seus. Certos teólogos responderam-me
que assim agem para nao 'provocar1 a hlerarquia, para evitar 'admoesta-
c6es' que os afastariam da Igreja-InstituicSo, para nSo se afastar multo
déla e assim, pouco a pouco, tentar fazer com que ela se aproxime do
povo que luta e de urna 'nova' teología, que seja expressáo próprla desse
povo" (p. 179s).

Donde se depreende que a atitude religiosa é algo de mera


mente subjetivo, imánente, experimental. Nao haveria atitudes
religiosas uniyersais, válidas para todos os homens de todos os
tempos. A única realidade incondicionalmente válida é a neces-
sidade da revolucáo violenta; os clássicos valores vém a ser
fungáo desta, subordinados a esta como algo de relativo ou
flexível segundo a subjetividade de cada individuo.

2.6. A «libertagáo dos pobres» e a militáncia em favor


destes nao devem ser vistos em fungáo de outra meta que fosse
explícitamente religiosa; sao objetivos suficientes para o cris-
táo. Eis as palavras de Casañas:

"Parece suficientemente demonstrado que é contraproducente alguém


comecar a militar em partidos de esquerda, sindicatos, organizares de
massa, movimientos populares, etc., para assim poder 'evangelizar', para assim
poder fazer 'teología da llbertac.áo\ para assim saber que experiencia os
minantes tém em relacáo a certos aspectos da vida e assim por dlante. Esse
'para' é fatal. Eu conheco multos casos como esses. A militáncia é algo que
deve ser levado a serio e assumido por seu próprio valor, como ativldade
libertadora feita carne e osso, porque é necessárlo libertar, acarretando ou
nao certos efeitos secundarlos, que nlnguém nega que podem ser Interes-
santes, ou entáo n§o passará de urna 'aproximagSo' intelectual ou Jornalis-
tlca ao povo e aos grupos de militantes populares" (p. 185).

2.7. De quanto foi dito resulta ainda que o amor é Deus,


em vez da fórmula «Deus é amor» (cf. p. 193). Mais: o pró
ximo deve ser «adorado»:

"Se adorar é entrega r-se totalmente a algo ou a alguém, submeter-se


voluntariamente a algo ou a alguém, entregar a algo ou a alguém toda a
capacldade de dependencia, de admlracáo, de amor, de dedlcacSo atenta e
alegre, reconhecer algo ou alguém como o único criterio definitivo e abso
luto de nosso viver, se adorar é isso, entáo talvez esteja bem claro que o
único que deve ser adorado é esse próximo que temos á nossa frente, prin
cipalmente ao que se encontra fora de nosso seguro e cómodo lugar: o
oprimido, o marglnallzado pelo sistema imperante, o subjugado e explorado
por ele" (p. 202).

— 475 —
56 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1S82

O Senhor da historia é o povo oprimido, confonne os dize-


res da p. 205.

Estes tópicos, extraídos do artigo de Casañas, sao sufi


cientes para exprimir o pensamento do autor.

1.2. «Deus brota na experiencia da vida» (pp. 219-226)

Tal estudo é da lavra de Frei Betto.

As pp. 221s, o autor tenciona comentar um artigo do


Credo, que ele formula em termos equívocos: «Ao terceiro
dia, desceu aos infernos». Na verdade, tal artigo nao existe,
pois o Credo reza:

"Fol crucificado, morto e sepultado. Desceu á mansSo dos morios


Ressuscltou ao terceiro día".

Ao terceiro dia, portante, Jesús ressuscitou dos mortos,


em vez de ter estado na «mansáo dos mortos». Na verdade o
que o Credo quer dizer, é que Jesús, tendo morrido, pode anun
ciar aos justos falecidos antes da sua vinda a redencáo adqui
rida e o premio da vida eterna. Todavía Frei Betto, valendo-se
da formulagáo arcaica («desceu aos infernos»), interpreta
«infernos» como sendo a mansáo dos que «se sentem conde
nados por Deus», e exorta o leitor a descer também ele aos
infernos, isto é, ao convivio dos homens marginalizados pela
sociedade nesta térra. Ora nessa explanagáo do autor há evi
dentemente um jogo de palavras falacioso. Pode alguém defen
der a causa da solidariedade com os pobres ou marginalizados
e condenados na vida presente, sem recorrer ao referido artigo
do Credo, que nada tem a ver com o propósito.

Pouco adiante o autor dá a entender que seus antigos


companheiros de prisáo, pelo fato de serem sofredores, eram
(e sao) homens salvos diante de Deus: «Ele sao salvos por
urna coisa muito simples: sao eles que se identificam na his
toria com a Paixáo de Cristo. Eles vivem em sua carne o
prolongamento dessa Paixáo» (p. 222).

Ora nao se pode sacralizar o sofrimento de maneira abso


luta. Este é santo na medida em que vai unido ao de Cristo
e aceito por amor a Jesús. Acontece, porém, que alguém pode
sofrer porque odiou ou odela — o que nao é santo.

— 476 —
«A LUTA DOS DETJSES» 57

1.3. Os dentáis artigos

Os restantes artigos da coletánea incutem a mesma men


talidade, usando de erudigáo bíblica e cultura geral. Caracte-
rizam constantemente a mentalidade dos povos da América
Latina como sendo idolatría «nos aspectos económico, social,
político, cultural, ideológico e religioso» (p. 37). Se há opres-
sáo e injustica na América Latina, estas sao atribuidas a urna
cosmovisáo mítica, á qual se opóe o Deus do éxodo bíblico,
como o Deus que liberta do Egito idolátrico e da servidáo. É,
alias, esta tese que inspira o título do livro: «A luta dos deu
ses» — o que deve ser entendido como a luta de Javé contra
os falsos deuses, os deuses da opressáo, os deuses do sistema
sócio-económico vigente.

Ainda merece especial atencáo o penúltimo artigo da cole


tánea intitulado «As raizes económicas da idolatría: a meta
física do empresario», da autoría de Franz Hinkelammert, eco
nomista alemáo, diretor de Pós-graduagáo em Economía na
Universidade de Honduras. Com finura de espirito e sarcasmo,
o escritor caracteriza a mentalidade do capitalismo liberal, que
coloca o dinheiro ácima do homem:

"O conjunto das empresas,* unido pelo dinheiro, apresenta-se como um


grande organismo. Hobbes já havia chamado esse organismo de Leviatfi e
o dinheiro de sangue do Levlata. Sem excecfio, a metafísica empresarial
iambém concebe o dinheiro como o sangue da economía. Assim, quando
se diz que 'a sangría da guerra do Vietnfi transformou o dólar na moeda
mals fraca e vulnerável de todas as moedas dos países desenvolvidos'
(Dle Zelt, 24-3-78). ninguém está se queixando do sangue concreto de
homens concretos no Vietná .A sangría para a qual a metafísica empresa
rial está chamando a atencSo, ó outra: o dinheiro gasto nessa guerra. Mesmo
que o número de morios fosse multo maior, nSo teria havldo nenhuma
'sangría do VletnS1 se o dólar houvesse saldo fortalecido" (p. 237s).

Nao podemos deixar de reconhecer que em tal artigo cer


tas páginas focalizam a verdade com realismo e fidelidade:
outras, porém, a deturpam ou caricaturam.
Interessa-nos agora

2. Urna breve apreciando

Recapitulando, dizemos: o livro, através das suas diversas


páginas, é inspirado por urna mentalidade homogénea, cuja
linha central pode ser resumida nos seguintes termos:

— 477 —
58 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 265/1982

A sociedade consta de duas classes: a dos opressores e a


dos oprimidos. Ora esta realidade tem que ceder a urna nova
ordem. O cristáo se define por seu empenho nesta revolugáo.
A meta indiscutída e suprema é o homem libertado das opres-
sóes económicas, sociais e políticas. Os valores religiosos valem
tao somente na medida em que contribuam para tal «liberta-
gáo»; nem há necessidade estrita de cultivá-los como tais ou
explícitamente; «quando o proletario diz que Jesús é um ho
mem bom, está dizendo mais do que diz o burgués quando
afirma que Jesús é Deus» (palavras de Bonhoeffer, citadas
com aprovagáo por Casañas, a p. 171).

A verdade metafísica ou ontológica ou a verdade como tal


nao interessa (a ponto de se dizer que ela nao existe). O que
importa, é a verdade «práxica» 1, ou seja, a eficiencia de alguma
proposigáo para mudar a realidade; tal eficiencia é o criterio
da verdade.

Ora nao é difícil perceber que tais concepgóes nao se


coadunam com as do Cristianismo entendido a partir da Biblia
e da Tradigáo. Com efeito, levem-se em conta estas proposi-
góes hauridas ñas germinas fontes do pensamento cristáo:

1) Existe a realidade metafísica, transcendental, ontoló


gica. Isto quer dizer que existe Deus antes que o homem e as
realidades terrestres existam; Ele existe independentemente
das suas criaturas, justas ou injustas, e merece ser considerado
em sua identidade singular transcendental.

2) Mais amplamente: a verdade nao está necessariamente


vinculada á praxis ou á transformagáo das estruturas sociais.
Aplicada ou nao, bem aplicada ou mal aplicada as realidades
concretas, a verdade existe; ela interessa como tal ao cristáo,
que a estuda para conhecé-la. Conhecer a verdade já é, como
tal, um enorme valor para o cristáo.

3) Conseqüentemente, a Biblia há de ser lida com obje-


tividade, ou seja, segundo os criterios da exegese científica
(lingüistica, arqueología, historiografía...) e a analogía da fé
ou os ditames da Tradigáo e do magisterio da Igreja. As conclu-
sóes do estudo biblico nao podem ser predefinidas por algum
sistema filosófico preconcebidamente adotado pelo exegeta.

10 adjetivo "práxico" ó utilizado por Casadas á p. 171.

— 478 —
«A LUTA DOS DEUSES» 59

Está claro, porém, que a S. Escritura devidamente enten


dida leva os cristáos a urna atuagao concreta que vise a instau
rar neste mundo os valores da justica, da fraternidade e do
amor mutuo. O cristáo que nao se interesse por esta tarefa é
omisso ou vem a ser mesmo um contra-testemunho. Note-se,
porém: é a Biblia lida com objetividade que inspira ao cristáo
os seus deveres temporais, e nao vice-versa; nao sao os deve
res temporais ou a praxis revolucionaria que inspiram ao cris
táo os parámetros para interpretar a Biblia.

4) Existe urna só fé crista, independente do tipo de vida


daqueles que a professam (ricos ou pobres, bons ou maus...).
Será sempre necessário lembrar que a vida ou a praxis é va
lor posterior ao lógos ou á verdade e nao vice-versa. É o logas
ou a Palavra de Deus que deve iluminar o comportamento do
homem, e nao vice-versa. A atitude religiosa ou a adesáo do
homem a Deus é um valor objetivo, que tem seus modelos na
Palavra de Deus, ou em fontes transcendentais e nao em reali
dades temporais ou na praxis política.

5) Conseqüentemente, há urna só Igreja, um só Batismo,


como há um só Deus (cf. Ef 4,5). Qualquer sociedade que se
funde ao lado desta única Igreja, ainda que tenha o nome de
«nova Igreja», nao é obra de Jesús Cristo, mas, sim, dos ho-
mens; é muitas vezes facgáo política rotulada de títulos cristáos.

A única Igreja fundada por Jesús Cristo nao é apenas


carismática nem é flutuante como flutuante é o zelo dos ho-
mens, mas é instituicáo que tem suas notas objetivas. Ela
existe onde quer que se exerga legítimamente a sucessáo apos
tólica, ou, mais precisamente, onde quer que estejam Pedro e
seus legítimos sucessores. Com efeito, Jesús disse aos seus
Apostólos: «Ide... pregai... ensinai... Eis que estou con-
vosco todos os dias até a consumagáo dos sáculos» (Mt 28,
18-20). Donde se vé que a assisténcia de Cristo, que garante
a autenticidade da Igreja, nao está ligada a valores éticos sub
jetivos (virtude, santidade... dos homens), mas a um valor
objetivo: a sucessáo apostólica; onde quer que estejam os
Apostólos e seus sucessores, através dos tempos, ai está Cristo.

— 479 —
60 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982 ^

' 6) Assim como nao há duas Igrejas, também nao há dois


magisterios eclesiásticos: o dos Bispos, de um lado, e o dos
teólogos, do outro lado. Táo somente os Bispos, como colegio
chefíado por Pedro, gozam do «carisma da verdade» 1. Os teó
logos háo de colaborar com os Bispos, oferecendo-lhes os resul
tados de suas pesquisas, mas a palavra decisiva que define a
verdade, distinguindo-a de erros teológicos, toca exclusiva
mente aos Bispos. O Documento de Puebla refere-se ao «ma
gisterio paralelo» que alguns teólogos pretendem exercer, colo-
cando-se ácima da hierarquia:

"O Blspo é mestre da verdade. Numa Igreja totalmente consagrada ao


servlco da Palavra, ele é o primelro evangellzador. o prlmelro catequista;
nenhuma outra tarefa o pode eximir desta mlssáo sagrada. Medita religio
samente a Palavra, atualiza-se doutrinalmente, prega ao povo pessoalmente;
vela para que a sua comunidade progrlda de continuo no conheclmento e
na prátlca da palavra de Deus, animando e orientando a todos os que ensl-
nam na Igreja (a fim de evitar 'magisterios paralelos' de pessoas ou grupos),
e suscitando a colaboracfio dos teólogos, que exercem o seu carisma espe
cifico dentro da Igreja a partir dos métodos próprios da teología; para isto
busca urna atuallzacáo teológica, a flm de poder discernir a verdade, e
mantóm como eles urna atltude de diálogo. Isso tudo em comunhSo com
o Papa e com seus irmfios Bispos, especialmente os de sua Conferencia
Episcopal" (n? 687).

7) É falsa a divisáo da sociedade em duas classes opres-


sores e oprimidos — como se nao houvesse meio-termo ou
alternativa. Também se deve recusar a identificacáo de «pobre»
com «justos, amigos de Deus, predestinados á vida eterna» e
de «ricos» com «injustos, pecadores destinados ia condenacáo
eterna». O que valoriza alguém diante de Deus, nao é o que
tal pessoa tem ou deixa de ter, mas o que ela é; o criterio é ser
e nao ter; pode-se admitir a posse legítima de bens por parte
de alguém que seja honesto e procure fazer que suas posses
sirvam a coletividade, consciente de que «sobre a propriedade
privada pesa urna hipoteca social» (Documento de Puebla
n* 1224).

A p. 110, nota 26 do livro em foco Jon Sobrino cita urna


passagem de S. Jerónimo, segundo o qual «todas as riquezas
descendem da injustiga e, sem que um tenha perdido, o outro
nao pode achar... O rico é injusto ou herdeiro de um injusto»
(cartas, PL 22, 984). Este trecho há de ser entendido dentro
da mentalidade e do estilo de S. Jerónimo, dado a controvér-

»A Constltulcáo "Del Verbum* do Concillo do Vaticano II refere-se


aqueles que, com a sucessáo do episcopado, receberam o carisma auten
tico da verdade" (n<? 8).
«A LUTA DOS DEUSES> 61

sias e, por lsto, propenso a posicóes por vezes unilaterals O


Senhor Jesús, no Evangelho, teve amigos da alta sociedade
judaica, como Nicodemos e José de Arimatéia, dos quais nao
exigiu o despojamento de seus bens (cf. Jo 3,1; 19,38): as mu-
Hieres mencionadas por Le 8,1-3 «serviram a Jesús com seus
bens»; Lázaro, Marta e María nao parecem ter sido pobres
— o que nao impedia Jesús de nutrir viva amizade por eles
fíSir^íS recomen(tecóes aos cristáos «ricos deste mundo»
(lTm 6,17-19), mas nao mandou que se tornassem material
mente pobres.

8) A única Igreja de Cristo é devedora a ricos e pobres


sem acepeáo de pessoas (cf. lPd 1,17). A Igreja compete levar
em conta as disposigóes próprias de todo e qualquer homem, a
fim de leva-lo a conversáo e iá vida eterna a partir da sua
problemática pessoal. Nenhuma categoría de pessoas está fora
do raio de solicitude da Igreja. É ainda o Documento de Pue
bla que ensinar

«Jesús Cristo, Salvador dos homens, difunde seu Espirito sobre todos
n?,T .af.tP580 d? Pe88oas- Quem- é0 evangelizar, excluí do seu amor aínda
que seja urna única pessoa, nfio possui o Espirito de Cristo. Por lsto a
acao apostólica tem de compreender todos os homens, destinados a se tor-
narem fllhos de Deus" (n? 205).

Em suma, o livro «A luta dos deuses», especialmente atra-


ves do artigo de Casañas, toma posicóes que em absoluto já
nao sao cristas, mas correspondem simplesmente as de um mar
xismo que por vezes se camufla de catolicismo; por vezes ,
pois há ai paginas impregnadas de total secularismo ou com
pleto apagamento dos valores religiosos. Casañas critica cer-
tos teólogos da libertacáo e a teologia progressista como sendo
tímidos demais ou incoerentes. Observa-se que o interesse pri
macial dos principáis artigos da obra é a revolugáo sócio-eco-
nomica, ficando os valores da fé subordinados á consecucáo de
tal objetivo; a fé torna-se funcáo e instrumento ou até mesmo
capa co-honestadora da praxis revolucionaria — o que, na ver-
dade, tem forte cunho marxista.

Cabe, pois,perguntar~após"tal análiséTque'sigñificadotém


a rubrica «Com aprovacáo eclesiástica» colocada á p 4 do
hvro? O anonimato desta cláusula tira-lhe o seu significado
reduzmdo-a a mero chaváo ou etiqueta que qualquer autor ou
editor pode «colar» aos seus escritos, sem que isto implique
participacao consciente da hierarquia da Igreja. Diante deste
fato, o publico tem o direito de solicitar á autoridade eclesiás
tica que nao se deixe «citar» de maneira táo genérica ou an6-
— 481 —
^ «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 265/1982

nima, mas exija que seja indicado o nome do hierarca respon-


sável pela aprovagáo de um livro, sempre que esta realmente
ocorrer.

'"'A guisa de Ilustrado:


'BANDERA, ARMANDO, La Iglesia ante el proceso de liberación.
Madrid 1975.

FESSARD, G., Teología de la liberación: génesis y Iralectorla.


Bogotá 1979.
LEPARGNEUR, F. H., Teología da HbertacSo. Ed. Convivlum, Sfio
Paulo 1978.
ÍDEM, Théologle de la libératlon et tHéologle tout court, em "Nouvelle
Revue Théologlque" 98, n? 2, fevereiro 1976, pp 126-169.
PR 247/1980, pp. 282-291 (opcio preferencial pelos pobres).
PR 250/1980, pp. 400-415 (marxismo e teología).
PR 181/1975, pp. 10-28 (Teología da Libertacfio).
PR 182/1975, pp. 51-69 (cristSos para o socialismo).
RODRÍGUEZ, RICARDO VÉLEZ, Teología da libertacao e tradlcao des
pótica, em Convrvlum, 01-82, pp. 10-19.
VEKEMANS, R., Teología de la liberación y cristianos por el socialismo.
Bogotá 1976.

(Contlnuacáo da pág. 470)


"Urna colossal máquina de fazer marlonetes e robos controlados á
distancia e sem fio foi montada neste país. Rapazes e meninas de tenra
Idade pensam que estao pensando quando, na realidade, estáo repetindo
roupas, frases e idélas da grande máquina de fazer gente que consomé
e cala a boca; ou, se fala, repete o que dizem os androides das mass-
-medla em lingua estrangeira, de preferencia em ingles... É um cigarro
que conquista mulheres e homens; ó urna bebida; é urna cena erótica; é
um modismo; é um novo par de chínelos ou sandalias; é um perfume que
torna o outro um objeto em questSo de momentos... Urna geracáo inteira,
com rarlsslmas excecSes, nao está tendo mals o dlrelto de ser jovem.
Cedo, multo cedo, passam da adolescencia dos seus treze ou qulnze anos
para urna vlsfio por demais adulta do corpo, da mente, do sexo, do prazer
e das coisas" (pp. 6s).
O Pe. Zezlnho desenvolve a sua tese, abordando uso do sexo, modo
de vestir-se, direito á vocacSo, dlreito á vida, direlto de nao ser Instru-
mentalizado... O llvro é extremamente sincero e incisivo, "bem mais
inquieto do que todos os que já escrevl" (p. 6). Essa tnquietude é cons-
trutiva, pois desparta do marasmo os seus destinatarios, levando-os a pro
curar um teor de vida mals profunda e gratificante. Parabens ao autorl
Registramos, com prazer, os dois seguintes volumes da mesma cole-
cao, devidos também á pena do Pe. Zezlnho: "Porque Deus me chamou"
(Jovens-Adultos-2) e "Senhor, que queres que eu faca?" (Jovens-Adul-
tos-3). Ambos se referem á vocacfio, especialmente á vocacfio sacer
dotal e religiosa. O prlmelro aborda pobreza, castldade, obediencia, obla-
cao de al, libertacfio..., ao passo que o segundo trata de catequese
vocaclonal, introducto á vida consagrada, desafios e respostas. Tais livros
merecem aplausos, pola dlzem tudo o que se poderla esperar de auténtico
líder da juventude, em estilo que nfio afasta nem esmaga o ]ovem leltor.
E.B.
— 482 —
Livro que surpreende:

"A Nomenklatura"
por Mlchael S. Voalensky

Em símese: O livro "A Nomenklatura" de Voslensky tem por subir»


hilo: "Como vlvem as ctasses privilegiadas na UnISo Soviética"., é a
expressao da experiencia do autor, que pertenceu & ciasse dirigente e
administrativa da URSS (classe dita "Nomenklatura") e finalmente se afas-
tou da mesma para Ir vlver no estrangelro. Mlchael Voslensky mostra,
com fatos concretos e dados numéricos (por vezes, surpreendentes), que
a grande massa da populacáo soviética vive em plores condlgíes eco-
nomlcas do que as sociedades ocldentais, sujelta a reglme de exploracfio
e colonizac&o, em provelto da élite administrativa ou Nomenklatura; esta
recebe salarlos multo elevados, acrescidos de subsidios e privilegios diver
sos, cujos requintes superam, por vezes, as regalías de que gozam, diri
gentes de países nao socialistas. A leltura do livro é profundamente im-
presslonante, revelando varias faces da vida da URSS que os noticiarios
Intemacionais e as estatfstlcas nao comunlcam por se tratar de "aegredos
de Estado".

Terminada a leltura de tal obra, o estudioso pode Indagar: como se


explica entio que o marxismo exerca até ho|e tSo grande fasclnlo sobre
as populacoes modestas? — A resposta é que geralmente tais grupos só
conhecem o dilema: ou capitalismo liberal (do qual muitos se ressentem)
ou marxismo coletlvista. Já que experimentam a inclemencia do libera
lismo económico, julgam (falsamente) encontrar sua resposta no comu
nismo. Ora esta errónea apresentacfio do problema é um desafio para
que os cflstfios com mais afinco apresentem ao mundo, e tentem tradu-
zi-la em realldade, a doutrina social da Igreja, que é fonte Inspiradora de
urna terceira opcfio. O livro de Voslensky ó indiretamente portador de tal
men3agem para o leltor crlstfio.

Comentario: Michael Voslensky nasceu em 1920 na URSS.


Fez seus estudos na Universidade Lomonosov de Moscou, tor-
nando-se historiador por profissáo. Exerceu as funcñes de
tradutor no processo de Nüerenberg (1945-46) e depois no
Conselho de Controle Aliado na Alemanha. Tornou-se jorna-
lista e redator soviético no Conselho de Paz em Praga e em
Viena. Professor na Universidade Lumumba em Moscou, assu-
miu responsabilidades diversas junto á Academia de Ciencias
e tornou-se Vice-Presidente da Comissáo de Historiadores
URSS-RDA. Deixou a URSS em 1972, tornando-se entáo
professor universitario na República Federal da Alemanha e
na Austria. Quando vivía em sua patria, ligou-se estreitamente
ao aparelho dirigente do Partido Comunista da Uniáo Sovié
tica, chegando a pertencer á Nomenklatura.

— 483 —
é4 «PERÓÜMTE E RESPONDEREMOS» ¿é5/19$¿

É precisamente a experiencia pessoal que leva Michael


Voslensky a escrever o livro «A Nomenklatura» com o subti
tulo: «Como vivem as classes privilegiadas na Uniáo Soviética».
Aduzindo numerosos fatos históricos e dados numéricos, o
autor afirma que «a Uniáo Soviética nao é um Estado Socia
lista, que ela nao tem, na verdade, urna economía e urna
sociedade socialista, mas que, pelo contrario, é urna sociedade
de classes ou de urna classe — a Nomenklatura — relativa
mente pouco numerosa, que explora a maior parte da popu-
lacáo e a domina, grasas a um Estado totalitario» (págs. 15s).
Tal obra foi considerada pela imprensa internacional táo im
portante quanto os livros de Trotski e Milovan Djilas (este,
autor de «A Nova Classe», livro que pelo seu conteúdo é pa
ralelo ao de Voslensk^i e se refere á Iugoslávia). Em vista
disto, apresentaremos ñas páginas seguintes urna sintese da
obra em foco, á qual acrescentaremos breve reflexáo.

1. O livro em foco: conteúdo

A obra compreende oito capítulos, que abarcam toda a


.temática: 1) Urna classe escondida (o autor sitúa a Nomen
klatura como a classe dos administradores, que evitam contato
com o povo, fechando-se em seus privilegios, págs. 25-37); 2)
Nascimento da nova classe dominante (a gánese da «nova
aristocracia», que exerce a «ditadura sobre o proletariado»,
págs. 39-92); 3) A Nomenklatura, classe dirigente da sociedade
soviética; 4) A Nomenklatura, classe dos exploradores da
sociedade soviética; 5) A Nomenklatura, classe dos privilegia
dos; 6) A Ditadura da Nomenklatura; 7) Urna classe que as
pira a hegemonía mundial; 8) Urna classe parasitaria.

Examinaremos, a seguir, o modo de viver dos membros


da Nomenklatura e o dos simples cidadáos da Uniáo Soviética.

1.1. A Nomenklatura: que é?

«Na linguagem burocrática corrente soviética, 'Nomenkla


tura' significa: 1») lista dos postos de direeáo do poder das
autoridades superiores; 2») lista das pessoas que ocupam
postos ou que sao mantidas em reserva para esses postos»
(p. 70s).

A margem desta observagáo de Voslensky, pode-se des-


crever a Nomenklatura como sendo o conjunto de funciona
rios ocupantes dos altos postos da administracjio do país

— 484 —
«A NÓMfeFftCtÁTtiRA»

soviético; o seu número sobe a cerca de 15.000 pessoas numa


populacáo de 25S.930.000 habitantes da URSS. A ascensáo a
tais postóse difícil, pois o candidato é julgado por diversas
instancias (Comité do Partido do bairro, da cidade, da re-
giáo...) e segundo variados criterios.

. A existencia dessa élite faz que o país esteja dividido em


duas classes: urna opressora, privilegiada e a outra oprimida,
desprezada, como bem observava Steinberg, socialista revolu
cionario, comissário do povo para a Justiga do primeiro
Governo Lenin:

"De um lado, embriaguez de poder, Insolencia triunfante, calúnlas e


perversidades, vlngancas pessoais e desconfianzas sectarias, desprezo sem-
pre maior pelos subordinados; em urna palavra: um novo poder. De outro
lado, desencorajamento, medo das represalias, cólera impotente, odios silen
ciosos, bajulacSes, mentiras eternas. O resultado: sao duas novas classes
separadas por enorme fosso psicológico e social" (p. 30).

Este estado de coisas é ilustrado pela alegoría mediante


a qual George Orwell em 1943-44 quis esbogar o nascimento
de urna sociedade «socialista real» na obra «A República dos
Animáis»:

"Os animáis de urna fazenda fazem urna revolucSo contra os homens


(estes jamáis vistos em bons termos) que os dominam, e conseguem a
direcSo da fazenda. Mas a república dos animáis cal logo sob o domfnto
dos porcos e de seus cruéis caes de guarda. Os demals s&o obrigados
a realizar os trabalhos mais balxos e pesados, a flm de cumprlr o plano
' Idealizado pelos porcos. Estes convenceram os outros animáis de que nao
trabalharlam mais para os homens, mas para si mesmos. Neste tnterlm,
os porcos se tornam proprletárlos da fazenda e os homens, chelos de
ciúmes, constatam: 'Os pequeños animáis da fazenda trabalham mais e
comem menos do que os outros animáis do condado'" (p. 30) 1.

O livro de Orwell foi proibido nos países comunistas. A


proibicáo também foi proferida contra o romance 1984 do
referido autor: este ai divide a sociedade em tres carnadas: o
Partido interior ou a Nomenklatura, classe dominante; o Par
tido exterior, que sao os intelectuais subordinados ao Partido
interior, e afinal os trabalhadores, a classe baixa da escala
social.

Woslensky cita em nota: George Orwell, Animal Farm. A Falry Story.


Peguln Books 1972, p. 117.

— 485 —
66 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

_ Permanecendo no campo da linguagem alegórieca, pode-se


citar a fábula intitulada «Um pao duramente ganho>, do poeta
Sergei Mikhalkov, conhecido por seu servilismo á autoridade.
Representa o ddadáo soviético como um cávalo de carga que
«traz a aveia e leva o estrume»; quanto aos nomenklaturistas,
sao comparados aos «trotadores e puros-sangues», que «tém
tudo o que exigem seus postos». Todavía nao é lícito ao cávalo
de carga recalcitrar: «Nao se permitiría ao ddadáo soviético
pagamento sobre o padráo de vida dos nomenklaturistas; ele
deve contentar-se com trazer a aveia para o cávalo da Nomen-
klatura e levar seu estrume» (pág. 212s).

1.2. A Nomenklatura como vive?

Numerosos sao os privilegios da classe dominante encarre-


gada da administragáo do país.

1.2.1. Salarios

Segundo as noticias oficiáis, um trabalhador soviético


medio ganha 167 rublos por mes. É notorio, porém, na URSS
que este rendimento nao ultrapassa cem rublos mensais.

■;Ora o salario de um chefe de setor do Comité Central se


el_éya;a 450 rublos por mes. Este funcionario tem direito, além
?to4máis, a ferias de trinta dias por ano, nao computado o
fc-tempq necessário para viajar (ida e volta) ao local de des-
canso. — Ao contrario, o assalariado medio só tem direito a
duas semanas de ferias por ano. No inicio das suas ferias, o
chefe de setor recebe outrossim o seu décimo terceiro salario
concedido a título de «premio para tratamiento», no valor de
450 rublos. Note-se, porém, que nem o tratamento nem o des
canso lhe custam um centavo, pois o Estado lhos oferecerá.
Isto significa que o chefe de setor percebe treze meses de
salario, mas vive as suas custas apenas onze.

Mais: o salario efetivo de chefe de setor é salario líquido.


Todos os produtos de que tem necessidade, ele os encontra em
tojas especiáis, ao passo que o cidadáo comura tem de conten
tar-se com procurar engenhosamente no comercio oficial os
artigos indispensáveis, ofereddos com grandes deficiencias.
Infelizmente nao se podem avaliar as despesas medias do ci
dadáo soviético no setor dos bens de consumo, pois na URSS
as estatísticas sao encobertas por segredo de Estado.

— 486 —
«A NOMENKLATURA» _ j
CT

Isto nao é tudo. Ao chefe de setor é atribuida, além do


mais, a famosa Kremliovka, ou seja, bdnus que dáo direito a
urna «cesta do lar», repleta de víveres de primeira classe, qué
normalmente é impossível encontrar em Moscou. A distribuí-
cao de tais bónus (Kremliovka) ocorre na cantina do Kremlin,
a Rúa Uliza Granovskogo n» 2. Os bónus Kremliovka corres-
pondem a um adicional mensal de 70 rublos. Nao se trata,
porém, de rublos comuns; sim, os pregos das mercadorias
a que a Kremliovka dá direito, sao calculados em fungáo de uní
índice que data de 1929; ém conseqüencia, calcula-se que,
mediante os bónus de alimentagáo, um chefe de setor recebe
um adicional de 200 rublos por mes, ou seja, 2.400 rublos por
ano, divididos por onze meses de trabalho. Tudo calculado,
pode-se dizer com seguranea que um chefe de setor do Comité
Central na URSS ganha sete vezes e meia mais do que um
cidadáo comum.

Diga-se outrossim que o chefe de setor ganha 10% por


cada língua estrangeira que ele conhega e possa utilizar no
servigo, mesmo que os conhecimentos nao sejam grandes e o
chefe nunca faga uso dos mesmos.
Contudo no tocante áos impostas, o chefe de setor nao os
paga sete vezes e meia mais do que um cidadáo medio. Com
efeito, a taxa de imposto máxima é de 13%. Estes sao descon
tados mensalmente na fonte desde que o salarlo atinja ou
ultrapasse 200 rublos; isto quer dizer que, a partir de um
salario mensal de 200 rublos, nao se aplica mais na URSS o
principio do imposto progressivo; no caso do chefe de setor,
o descontó de 13% é feito sobre o salário-base, ou seja, 450
rublos.

1.2.2. A Nomenkltrtura e as gorgetas

Também a corrupcao grassa entre os nomenklaturistas, por


mais bem pagos que sejam. Desde a época da Rússia submissa
aos tártaros vige no país o sistema do bákchich (ou propina),
corroborado pela implantagáo do socialismo.

Como se compreende, os nomenklaturistas nao sao auto


rizados a aceitar propinas. Mas as sangóes sao raras e benignas,
ao passo que as infracóes sao graves e repetidas.

O fenómeno aparece em toda a sua amplidáo ñas repú


blicas tradicionalmente infectadas pelo virus da corrupcao: a
Transcaucásia e a Asia Central. Em geral, admite-se na URSS
que a Georgia é o país da corrupgao. «Urna coisa é certa: se

- 487 -
68 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

os dossiés relativos aos casos de corrupcáo, envolvendo nomen-


klaturistas georgianos, especialmente Mzavanadze, Primeiro
Secretario do Comité Comunista da Georgia, tivessem chegado
ao conhecimento do público, a opiniáo mundial teria esquecido
o escándalo Lockheed» (p. 220).
•2ar¡'
,¡;¡¡,Eis alguns dados transmitidos por Voslensky referentes a
República do Azerbaijáo. Sao provenientes dos arquivos secre
tos do C. C. do Partido no Azerbaijáo e foram publicados por
Hia Zemtsov, que trabalha no setor «Informagao» do C. C. do
PC daquela provincia antes de emigrar para Israel:

Um cargo de procurador de distrito podia ser vendido em


1969 por 30.000 rublos. O de chefe de distrito da milicia era
entregue por 50.000 rublos.

"Os Secretarlos de Comités de distrito ocupam urna poslc&o multo


lucrativa: dlspOem de extensos poderes e podem, além dlsso, receber,
como vamos ver, bakchlchs bem rechonchudos. Daf seu lugar de destaque
na hlerarqula dos presos. Dentro dessa mesma Nomenklatura do C.C. do
Azerbaijfio exlstem fórmulas mals económicas: um posto de diretor de
teatro custava entre 10.000 e 30.000 rublos, e o diretor de um Instituto
de pesquisas 40.000, o titulo de 'Membro da Academia de Ciencias da
República Socialista Soviética do AzerbalJSo1 50.000 rublos.

O posto de Reltor de um estabeleclmento de enslno superior era


bem mals custoso do que o titulo de Imortal: a cifra, que variava em fun-
cfio do estabeleclmento, podia chegar até a 200.000 rublos. Isto se entende
quando se sabe que o referido Reltor recebe llegalmente dos estudantes
urna taxa de Inscrlcfio, modulada também em funcfio do estabeleclmento:
na época, era preciso pagar 10.000 rublos para ser admitido no Instituto
de Lfnguas Estrangelras, entre 20.000 e 25.000 rublos para se Inscrever
na Unlversidade de Bakú, 30.000 rublos para a Faculdade de Medicina, e
até 39.000 rublos para o Instituto de Estudos Económicos.

Existía, na época, urna lista, multo bem feita, Indicando os precos


nfio somente de postos Importantes, a nivel de distrito, mas também de
certas funcSes científicas ou culturáis, e até mesmo de funcoes oficiáis
no salo do Governo da República Socialista Soviética do AzerbalJSo. O
posto de Ministro dos Assuntos Soclals hfio estava especialmente bem
classlflcado: como, com efeito, conseguir ali rendlmentos complementares,
tendo em vista o nivel lamentável das pensfies e das aposentadorlas? O
posto de Ministro da Economía Comunal, quase tfio pouco lucrativo, estava
a venda por 150.000 rublos. Por outro lado, custava 250.000 rublos a
nomeacfio para Ministro do Comercio, aínda que, teóricamente, esta funcfio
ministerial esteja colocada no mesmo nivel das outras. Mas a miseria cró
nica no setor do abasteclmento permitía entrever lucros enormes.
Estas cifras foram tiradas de um relatório confidencial do Primeiro
Secretarlo do C.C. do Partido Comunista do Azerbaijfio, G. Allev, que é
hoje candidato ao Polltburo do C.C. do PCUS. Fol apresentado ao pleno
do C.C. do Partido Comunista do AzerbalJSo em 20 de marco de 1970"
(pág«. 221-222).

— 488 —
«A NOMENKLATURA» 69

Mais adiante pergunta Voslensky:

"Um cldadSo soviético comum pode pensar em se tornar Ministro do


Comercio do Azerbaljfio? A resposta é simples: para ascender a tal posto,
um empregado ou um operarlo, que ganhavam na época 150 rublos por
mes, terlam sido obligados a trabalhar 138 anos, sem gastar um único
copeque. Pensemos num assalarlado soviético que recebe um salarlo de
cem rublos por mes. Onde encontrar pessoas capazes de acumular as somas
exigidas sem atingir a Idade de Matusalém? Únicamente na Nomenklatura
o em grupos próximos.

É a Nomenklatura que tem dlrelto. Zemtsov revela, por exemplo, que


se vlu o Prlmelro Secretarlo do Comité de Distrito de Bakú, um certo
Mamedov, efetuar um depósito de 195.000 rublos na caderneta de pou-
panca de sua mulher, ou seja, o salarlo de um trabalhador medio em
cerca de 160 anos de atlvldade" (p. 223).
■i ■ '

Encontram-se também na URSS escroques ou traficantes


clandestinos. Estes nao pensam em postos da Nomenklatura,
pois nao precisam de os cobigar.

Também a policía (KGB) é venal, sucumbindo aos «encan.


tos» do bakchich. Observa Voslensky:

"Lembro-me de urna amiga de familia, que vivía em Abkhazl, no Ini


cio dos anos 30, e que, após ter tentado tudo para tirar sua Irma da prlsfio,
se lembrou de oferecer á mulher do responsável pela GPV local urna- cor»
rente de relóglo em ouro maclco. No dia segulnte, sua Irma estava llvre.
Um amigo me contou que um de seus antigos discípulos que se tornara
colaborador da KGB, propusera-lhe Inscrevé-lo na lista dos membros de
urna delegacfio que devla seguir vlagem atravós dos EUA — contra a
entrega de urna soma de 300 rublos. Urna vez concluido o negocio, o
funcionario acrescentou: 'Dou-lhe o slnal verde. Trouxe o 'sonante' com
vocé? Entfio vamos, é preciso pagar também para ter o slnal verde'"
(p. 222).

"A indulgencia para com as propinas se explica pelo fato de que


existe urna solidariedade entre os nomenklaturlstas, todos Igualmente dese-
Josos de reunir mais aínda riquezas materlals" (págs. 222s).

1.2.3. Comercio reservado á élite

Fato estranho: nao há no mundo outro país, além da


URSS, dotado de cadeia completa de lojas, restaurantes, bares
que nao aceitem a moeda nacional. Quem nao tenha consigo
dinheiro estrangeiro em especie ou sob forma de algum cheque
convertível em divisas, nao pode entrar em estabeledmentos de
tal tipo.

— 489 —
7T> «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

Entre outras lojas, encontra-se em Moscou, no terceiro


andar do GUM, a Spezsektsi, cujo acesso é reservado as famí-
lias de altos dignitários. Ali se vendem, a precos multo baixos,
prbdutos importados de excelente qualidade, cuja existencia
geralmente o consumidor soviético medio ignora. Ali se encon
trará também produtos nacionais, como, por exemplo, peles
magnificas, que nao podem ser encontradas em nenhuma outra
toja aberta ao público.

Observa Voslensky:
"Svetlana conta que Stalln Ihe perguntou um día, sobrancelhas fran-
zldas, se as roupas que ela estava usando eram de orlgem soviética ou
estrangeira. Teve urna verdadeira alegría de patriota quando ela respondeu
que eram roupas soviéticas. Conheci bem Svetlana em 1943-1944, quando
éramos estudantes da Faculdade de Historia da Universldade de Moscou:
se seu casaco de pele curto, seus tailleurs Ingleses de cor escura, suas
blusas de seda vivamente coloridas, seus elegantes sapatos — todas essas
coisas que nunca tfnhamos visto — tinham sido fabricados no territorio da
URSS, entfio o foram provavelmente naquela regiSo montanhosa, a Nomen-
klatural" (p. 265).

Tal realidade nao se concilla bem com as declaragóes ofi


ciáis do Governo soviético segundo as quais o rublo é a moeda
mais estável do mundo. No inicio de cada mes, o Izvestia,
órgáo do Governo, publica as oscilagóes das moedas estrangei-
ras; tal elenco tende a provar que as flutuacóes do mercado
monetario sao favoráyeis ao rublo (quando, na verdade, todos
sabem que é impossivel trocar o rublo por qualquer outra
moeda).

1.2.4. Hablrajóo

A norma vigente na URSS concede 9m2 de surperficie


habitável a cada cidadáo. Todavía esses 9m2 vém a ser «o
máximo tolerado», nao «o mínimo garantido». Em caso de
ultrapassagem, as autoridades realizam urna vistoria no aparta
mento. O mínimo observado se sitúa em torno de 4m2 por
pessoa.

A Nomenklatura, porém, está isenta de tais restricóes. O


nomenklaturista mora em edificio pertencente ao Comité Cen
tral; está muitas vezes na expectativa de trocar o seu aparta
mento por um aínda maior e mais confortável. Em Moscou os
blocos residenciáis dos administradores do país ficam no quar-
teiráo Kuncevo ou no conjunto Kutusov; sao construgóes sóli
das, dotadas de cómodos espagosos, largas escadarias e eleva
dores silenciosos.

— 490 —
--..-. «A MÓMEiMÁTÍfttÁ» »ü

AJém distó, o Estado coloca & disposigáo de cada um de


seus nomenklaturistas urna datcha, oü seja, urna casa dé
campo, que ele pode utilizar nos fins de semana e no veráo por
um aluguel simbólico; cada casa é cercada por alto muro, que
a protege dos indiscretos; dentro do conjunto residencial dos
datchas encontra-se urna dispensa de primeira qualidade, urna
excelente cantina, um cinema; um chibe, urna biblioteca e üm
local para esportes.

"É Inconveniente para um funcionarlo da Nomenklatura possulr súa


própria datcha ou seu próprlo carro. Trata-se, na verdade, de urna regra
nBo escrita. Quem transgrlde esta regra, se expOe a ser considerado um
llvre-pensador ou alguém que nfio está multo seguro do seu próprlo futuro
no selo da Nomenklatura. £ esta a razáo pela qual o chefe de setor que
compra urna datcha, a coloca em nome de seus país. Do mesmo modo, o
6eu carro particular será colocado, em nome de um de seus flinos malores
ou de seu IrmSo. t o meló, para ele, de evitar ser considerado suspelto
de Inclinares pequeno-burguesas" (p. 233).
' ■

1.2.5. Telefones •

Um nomenklaturista altamente colocado deve ter seis apa-


relhos á.sua disposicáo: em primeiro lugar, duas linhas urna
para comunicafióes internas, outra para fora —, que passam
pelo Secretariado; depois duas outras linhas, para os mesmos
fins que as precedentes, de uso direto, para evitar as indiscri-
cóes do Secretariado. E, afinal, duas linhas governamentais,
urna dita Vertuchka e a outra Vé-Tcfhé. Os nomenklaturistas
que estáo em contato com o Exército dispóem de urna linha
direta para faíar com as autoridades militares, tendo assim um
sétimo aparelho. — Os aparelhos Vertuchka e Vé-Tché permi-
tem conversas de alto nivel sobre assuntos referentes ao Par
tido, ao Governo ou ao Exército. «Os titulares de Vertuchkas
e Vé-Tchés sabem muito bem que um ouvido atento está á
espreita. E, no entanto, sentem urna grande alegría com a idéia
de que sao os únicos na URSS que possuem aparelhos desse
tipo» (p. 239).

1.2.6. Cuidados de scúde

«O que caracteriza, de maneira mais geral, o nomenkla


turista, é o cuidado que ele senté por sua própria saúde. A se
acreditar nele, 'enterra-se' completamente no trabalho. Se lhe
é feitá urna observagáo sobre a sua boa aparéncia, responde:
'As aparéncias enganam*. O que engaña, na verdade, nao é a

— 491 —
72 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

boa aparéncia do nomenklaturista, mas aquele ar de homem


que está morrendo de trabalhar e que ele procura aparentar
perpetuamente» (p. 243).

O nomenklaturista e sua familia sao colocados aos cuidados


da Quarta Administracáo Médica do Ministerio da Saúde...
Tém direito ao Hospital e á Policlínica do Kremlin, onde há á
sua disposigáo um determinado médico. Aos médicos de tais
instituigSes nao é pedido que tratem dos doentes, mas simples-
mente que conversem amigavelmente com os pacientes. Quando
o caso se torna um tanto complicado, dirige-se o nomenklatu
rista doente a um «consultor». Os consultores sao eminentes
especialistas, membros da Academia de Ciencias Médicas
da URSS.

O Hospital do Kremlin é equipado de aparelhos e dotado


de farmacopéia importados do Ocidente (a Nomenklatura
jamáis apela para a ciencia médica nem para a farmacopéia
local quando a sua saúde está em jogo). A alimentacáo e os
cuidados estáo ácima de todo encomio; o mesmo se diga dos
servidores, numerosos, competentes e sorridentes... Tal situa-
cáo é totalmente diversa daquela que se verifica nos Hospitais
comuns, «onde os corredores estáo cheios de leitos, onde o
pessoal é insuficiente e onde a alimentacáo é táo má que se
torna impossível sobreviver sem os pacotinhos dos parentes.
Os convalescentes e os doentes crónicos sao levados para um
anexo do hospital do Kremlin, anexo situado fora da cidade,
no parque florestal de Kuncevo» (p. 244).

Após a morte, o chefe de setor nao é sepultado em cemi-


tério comum destinado a todos os cidadáos, mas vai para um
cemitério reservado, no claustro Novodevichi, onde os restos
dos nomenklaturistas repousam sob suntuosas pedras tumula-
res. Diante 3o luxuoso catafalco, urna orquestra de instrumen
tos de sopro entoa entusiásticamente o elogio:
"Tombaram na luta contra a morte,
Tombaram ao servico do povo,
Dando tudo ao povo sem nada exigir".

1.2.7. Transportes

Um chefe de setor pode muito bem viver agradavelmente,


trabalhar, repousar, sem jamáis ter contato com a populacáo
da URSS. Mesmo em suas viagens através do continente russo
pode eximir-se de qualquer encontró com os seus compatriotas.

— 492 —
«A NOMENKLATURA» 73

É de notar que na URSS trens e avióes estáo sempre


lotados. Véem-se filas intermináveis diante dos guichés de re-
serva. É, pois, um grande privilegio reservar um lugar. Ora o
chefe de setor compra suas passagens de trem ou de aviáo dire-
tamente no Comité Central, onde há a seccáo «Transportes».
Em todos os trens, avióes e hoteis bloqueia-se certo número de
lugares na expectativa de eventual chegada de alto funcionario.
O chefe de setor tem sempre um carro Volga negro á disposicáo
para levá-lo á estagáo ou ao aeroporto. Ao chegar o aviáo, a
escada móvel é colocada inicialmente k altura da primeira
classe; o nomenklaturista desee entáo totalmente desembara*
gado; só depois sao desembaragados outros passageiros.

A NomenWaturia ou o espaco da Nomenklatura assim


concebida vem a ser (bem' se pode dizer) um país & parte
dentro da própria URSS.

A propósito comenta Voslensky:


"O contato entre os dirigentes da classe nomenklaturista e o povo
se limita ás visitas oficiáis ñas repúblicas da Uniáo ou ñas regiSes, visitas
durante durante as quals funcionarios apressados mostram a seu hospede
— que se acomoda multo bem a Isso — 'vilas á Potemkin', e Isto se os
banquetes e as reunISes delxarem tempo.

Cavaram um abismo entre eles mesmos e aqueie povo que Ihes é


submisso, e depois, com o coracSo chelo de angustia e desprezo, abrí»
gam-se atrás de seus sete círculos e as dlvlsdes da KGB, para agitar, em
seguida, o slogan de 'llgacSo com as massas' e tratar de 'solitarios' aque*
les que exprimem publicamente o seu descontentamento. Mas, na reall-
dade, nao fol a classe dos nomenklaturlstas, esta classe de funcionarlos
desclasslficados, que se tornou ela própria, por causa de sua natureza pro»
funda e seu modo de vida, urna classe de solitarios? Pode-se caracterizar
de maneira mais marcante urna classe de individuos que conseguem vlver
como estranhos no país que governam?

É, no entanto, assim que vivem os nomenklaturistas — classe domi


nante, exploradora e privilegiada da socledade soviética" (p. 267).

Voslensky pensa agora ñas sociedades ocidentais:


"Podemo-nos convencer disto: é inútil querer estabelecer um para»
lelo com o modo de vida das classes privilegiadas do Ocldente burguSs.
NSo há nada al que possa surpreender: o essencial, na socledade capita
lista, nfio sao os privilegios, mas o dinhelro; ñas sociedades socialistas
existentes, é exatamente o Inverso. SSo os privilegios que expllcam, ao
mesmo tempo, a arrogancia e a lnquletacfio da Nomenklatura, pois ela
lem perfeltamente consclfincla das reacOes que suscita na populacSo sovié
tica este acrésclmo constante de seus privilegios" (págs. 2678).

Acrescenta o autor a seguinte observado altamente signi


ficativa: ,

— 493 —
fe RESPONDEREMOS» ¿65/lá8¿
_ ( "Os nomenklaturistas comecam a se sentir arriesgados na sua poslcfio
dominante, e comecam a temer um resultado fatal. Contava-se a esse
respelto, nos anos 70, urna anedota.

Um colaborador do C.C. do PCUS recebeu, um día, a visita de sua


mfie, que vivía num colcoze. Mostraram-lhe o luxo do apartamento e da
ío <5?«i8e!í"ramr.lhe uma boa refeicao Kre«n"ovka. De repente, ela sentiu
desojo de voltar para casa o mals depressa possfvel.

acabrunhad<>-
o nuI~J: bt°m< .certamenle' respondeu a velha, mas também é perlgoso.
O que acontecerá se os vermelhos chegarem?" (p. 268).

1.2.8. Nomenklatura e explora$áo do povo

Voslensky escreveu longo capítulo sobre a exploracio do


poyo por parte da Nomenklatura (págs. 137-207), exploracáo
esta que precisamente o regime marxista pretendía eliminar.
Assim, por exemplo, o tempo de trabalho semanal tem sido
prolongado na URSS.

n rfvolu5a° de °"«ubro, o lempo de trabalho (oí, de Inicio,


* T'3' n?V£mlen'e Pro|on3ado... Em lugar da semana de cinco
£?« qüai8 3uatrowdia8 ** trabalho), Introduzlram a semana de seis
(cinco días de trabalho) e em 1940 a semana de sete dias (48 horas
de trabalho por semana). As ferias de um mes, prometidas após a Revo-
£§? ?rd12Íd?8a d0Ze diaS ° número <** dla9 teld °
V08kre8nlk8' 8ábad08
A Nomenklatura impós ao povo severa disciplina para que
o prolongamento do tempo de trabalho produzisse o esperado
aumento dá mais-valia. Lenta foi um precursor: lancou uma
campanha contra «esses grupos e essas carnadas de operarios
que querem dar o mínimo de trabalho possível, da qualidade
mais baixa, e arrancar o mais possível de dinheiro» (Obras,
Editíons Sociales, t. 28, p. 97). StaUn impos progressivamenté
uma legislacáo trabalhista tal que a Europa nao conhecia desde
muito. Um decreto do Presidium do Soviete Supremo da URSS,
datado de 26/06/1940, permitía levar á barra de um tribunal
os trabalhadores que tivessem faltado ao trabalho ou que
comparecessem com vinte minutos de atraso; poderiam ser
condenados a trabamos forcados. Impós-se rígido controle para
que os médicos so dessem dispensas do trabalho em casos
graves. Como nos campos de concentracáo, fixaram um limite
para a emissáo de certificados de doenga por parte dos médicos
dos nospltais.

— 494 —
. <A NOMENKLATURA» 75

1C, O salario medio oficial em 1980 chegou, sem impostes, a


167 rublos por mes. Todavía pode-se dizer que 167 rublos nao
sao um salario módio, mas um bom salario na URSS- o salario
medio verdadeiro nao ultrapassa os cem rublos. Ora a quantia
de 167 rublos pode manter apenas um homem, e difícilmente
Isto tambérn1 quer dizer que o operario russo medio ganha tres
vezes menos do que o trabalhador francés medio, e duas vezes
menos do que o desempregado francés medio.
Quanto aos aumentos de salarios, estáo condicionados ao
aumento da produtividade. É certo que a Nomenklatura possui
recursos para aumentar os salarios antes do aumento da pro
dutividade (aumentos salaríais que precisamente visariam a
estimular a produtividade, segundo bons economistas); «mas
nao quer renunciar, em hipótese alguma, á menor parcela da
mais-valia extorquida» (p. 183).

Como entáoviver do salario medio, que é reconhecida-


mente insuficiente? — A sobrevivencia so é possível porque na
URSS a mulher e, em muitos casos, as criancas também tra-
balham. É por isto que praticamente nao existem mulheres nos
lares russos antes da idade da aposentadoria. As estatisticas
de 1975 mostraram que as mulheres representavam 53,6% da
populacáo russa e 51,5% das pessoas ativas. Todavía, desde
Stalin, as mulheres dos oficiáis, dos generáis e dos membros da
Academia nao trabalham; o privilegio tende a se estender as
esposas dos nomenklaturistas em geral.
A propaganda soviética apresenta o trabalho das mulheres
como urna conquista socialista. Na realidade, porém, como
indicou o próprio Marx, trata-se apenas de mais um método de
exploragáo. Assim escreve Marx em seu «Manual de Economía
Política»:

"O valor da lonja de trabalho é (Ixado pelo valor dos meios de vida
de que o trabalhador tem necessidade para si e para a sua familia. Els
por que o salarlo diminuí quando a mulher e as criancas tomam parte na
producto: a familia Inteira recebe entSo quase a mesma colsa que o
chefe de familia ganhava anteriormente. A exploracfio da classe operarla
lorna-se malor, portante" (citado á p. 184 da obra de Voslensky em pauta).

A forfia de trabalho é meroadoria barata na URSS. Para


manté-la, a Nomenklatura lhe concede um minimo de produtos
(pao, massas...) e servigos (como os transportes urbanos)
cujo prego é efetivaménte baixo com relagao aos precos oci-
dentais; aos olhos do assalariado soviético medio, eles nao sao
baixos, mas acessíveis. Tal tratamento suscita o entusiasmo
de alguns marxistas ocidentais... Marx nao teria compartí-
— 495 —
7J> «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

lhado esse entusiasmo: nao considerava o baixo prego de manu-


tengio da forca do trabalho como um beneficio para o traba-
lhador, mas como um método para aumentar a exploragáo do
mesmo.

Quanto aos aposentados, só podem viver no seio de suas


familias; quando nao tém parentes, logo sao internados nos
asilos de velhos, onde a esperanga de sobrevivencia é exigua:
«a Nomenklatura nao tem mais necessidade deles» (p. 187).
"A Nomenklatura delimita perfeltamente o circulo das necessldades
materlals daquele que produz: um alojamento que nfio ultrapasse 9 m2 por
pessoa, urna alimentacfio simples, transportes coletivos baratos para Ir ao
trabalho, Jomáis e filmes de propaganda; para os intelectuals, os llvros
autorizados a preso módico (para que eles nfio tenham maus pensamentos
durante os seus momentos de lazer); atendlmento médico em caso de
doenca (para voltar o mais depressa ao trabalho), urna pequeña renda na
velhlce ou na Invalidez (limite máximo: menos de 765 francos por mes),
um subsidio de 20 rublos para o enterro. Serla falso assimllar o nivel de
vida obrlgatórlo criado por Nomenklatura para o grosso da populacfio a
urna especie de garantía para os mais carentes. Esta garantía nfio existe:
nfio há, na Unlfio Soviética, nem a|uda pública, nem indenlzacSes de desem-
prego, nfio há escritorio de trabalho; mas, em seu lugar, urna leí contra
os 'parásitas', que afola administrativamente as pessoas despedidas, e as
condena ao trabalho toreado numa especie de exilio longlnquo" (págs. 188s).

Estas observagóes sugerem a Voslensky a seguinte refle-


xáo: «A comparagáo com o colonialismo se impóe; nao resis
timos a ela senáo na medida em que nos proibimos usar pala-
vas de efeito, cuja inflagáo no mundo ainda é superior á do
dinheiro» (p. 194). •

Voslensky pondera que na URSS o operario é submetido


ao trabalho forgado. Com efeito, este ocorre quando, como na
URSS: 1) a pessoa é constrangida a trabalhar (se nao trabalha,
é tidacomo parásita, tonejadee, e perseguida pela lei); 2 as
condigóes de trabalho e o salario sao exclusivamente fixados
por aqueles que exercem a pressáo; 3) é utilizada a forga física
para impedir os trabalhadores de deixar o seu emprego ou
renunciar ao trabalho. Ora «todos estes elementos existem no
socialismo real» (p. 201).

1.2.9. Nomenklatura e Imperialismo


O cap. VII do livro tem por título «Urna classe que aspira
a hegemonía mundial» (págs. 347-384).
Voslensky fala ai das tendencias expansionistas e colonia
listas da URSS em relagáo ao mundo inteiro, arrolando fatos
altamente significativos:

— 496 —
«A NOMENKLATURA» 77

«1. Nao contente de preservar o imperio colonial da


Rússia tzarista, a Nomenklatura aumentou consideravelmente
seu territorio.

2. Ela tomou o controle de toda urna serie de países na


Europa, na Asia, na África e na América.

3. Ela tenta, com todas as suas forgas, estender sua


supremacía a todos os paises da Europa e do Oriente Próximo,
assim como a novas regióes da África e da Asia.

4. Rivaliza incansavelmente com os Estados Unidos em


todos os dominios, a fim de minar as suas posigóes no mundo
(inclusive na América Latina).

5. Financia e teleguia os Partidos Comunistas de quase


todos os países do mundo, reforga seus vassalos, e os prepara
para a tomada do poder em seus países respectivos.

6. Trava um combate inexorável com os PCs, no poder


ou nao, que nao estejam dispostos a fazer de seus países saté
lites de Moscou» (p. 380).

Comenta o autor:
"NSo há motivo nenhum para colocar em dúvlda a IntenfSo, multas
vezes repetida pela Nomenklatura, de instaurar o socialismo real no mundo
intelro.

Gosto de seleclonar as lembrancas que guarde! de mlnha longa atlvl-


dade profesional na UnISo Soviética, e nao acho nenhuma que me leve a
duvidar da seriedade das asplrac6es da Nomenklatura á hegemonía mun
dial. Pelo contrario, a manelra de ser dos nomenklaturistas, suas conver
sas, seu comportamento, seus raciocinios sao reveladores de suas inten-
c6es, que Ihes parecem perfeltamente naturals" (p. 381).

Como Adolf Hitler em seu tempo, os nomenklaturistas


contam com o espirito de conciliagáo dos Governos ocidentais;
acham-se convictos de que estes nao estáo á altura de combater
e capitularáo. Como Hitler, arriscam, sem se dar cohta, ultra-
passar a medida e mergulhar o mundo em nova guerra mun
dial. «Para que a historia nao se repita, é preciso deter a
Nomenklatura antes que seja tarde demais» (p. 382).

2. ReftexSo final

O livro de Voslensky baseia-se na experiencia pessoal


diuturna do respectivo autor. As suas «revelagóes» nao sao de
todo inéditas, pois dissidentes soviéticos, entre os quais Solje-

— 497 —
78 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

nitzin, Sakharov, Plioutsch..., já denunciaram as duras con-


dicóes de vida da populagáo soviética. Cf. PR 209/1977, págs.
187-201 (apresentagáo do livro de Sakahrov: «Meu país e o
mundo»).

Vé-se, pois, que a imagem do comunismo nao é atraente.


Está longe de ser a resposta para o homem contemporáneo,
que sofre no plano socio-económico. — Pergunta-se entáo: por
que o marxismo ainda seduz ou fascina as populagóes humildes
do Terceiro Mundo? Cremos que isto se explica únicamente
pelo fato de que estas querem mudar as suas condigóes de vida,
ou seja, nao querem continuar a padecer exploragóes e injus-
tigas. Em tais circunstancias, a única alternativa que julgam
conhecer é a do marxismo, a qual, porém, é ilusoria, como
demonstra a experiencia. Precipitam-se no marxismo, porque
nao querem injustigas e extorsóes, como se o marxismo fosse
a solugáo. Esta realidade encerra importante mensagem para
os cristáos. Com efeito, a estes toca a missáo de grande peso a
cumprir: procuran com o devido afinco contribuir para im
plantar no mundo livre a doutrina do Evangelho proclamada
pela Igreja em suas entícHcas, a fim de que o mundo conhega
as estruturas de urna sociedade realmente mais humana, fra
terna e crista. Lembrem-se outrossim, e lembrem aos homens,
que qualquer mudanga de estruturas sociais será sempre vá e
frustrada se nao acompanhada por profunda conversáo inte
rior ou por radical mudanga de mentalidades, em conseqüéncia
da qual o egoísmo ceda ao amor fraterno, e a procura do bem
comum se torne meta intencionada por cada membro da so
ciedade.

Os últimos documentos da Igreja sobre materia social tém


encarado com atengáo crescente o dilema por muitos apresen-
tado como exclusivo: ou o capitalismo liberal ou o marxismo
coletivista. Na verdade, nenhum dos dois sistemas satisfaz. O
dilema, alias, é falsamente colocado, pois há lugar para terceira
opgáo, que é a doutrina do Evangelho aplicada ao problema
social ou a doutrina social da Igreja. Aos cristáos compete
valorizá-la e empenhar-se para que se torne fonte inspiradora
do regime sócio-económico-político da futura sociedade. A an
gustia de populagóes contemporáneas sufocadas em seus justos
direitos torna-se um desafio para que os cristáos tomem nova
consdéncia da responsabilidade que lhes toca nesta hora. Possa
o livro de Michael Voslensky contribuir para que tal tomada
de consdéncia se torne urna realidade atuante e transformadora!

— 498 —
Significativo documento:

ainda a confissáo sacramental

Em tíntese: O presbiterio da diocese de Parnalba (Pl), reunido


com o seu bispo, houve por bem dftar normas relativas ao ministerio do
sacramento da Penitencia. Fazem eco ás Instrucfies emanadas da Santa
Sé a tal propósito e valorlzam multo < enfáticamente a prátlca da conflssfio
particular como eficaz meló de santlflcacfio tanto para o penitente como
para o confessor.

O sacramento da Reconciliagáo ou da Confissáo tem


estado muito em foco nos últimos anos; a proposito foram
divulgados equívocos, que prejuicam o povo de Deus. Em nos-
sos dias registra-se com certa perplexidade alimento do número
de Comunhóes Eucarísticas e decréscimo sensível de confissóes
sacramentáis. Este fenómeno é sintomático; os conceitos de
pecado e de roconciliagáo com Deus e a Igreja vém-se obnubi
lando na mente de muitos fiéis.

Diante dos fatos, a Santa Sé tem publicado documentos


que lembram a necessidade do sacramento da Penitencia (ins
tituido pelo próprio Jesús Cristo; cf. Jo 20,21s) para se obter
a remissáo dos pecados graves. Somente em casos de emer
gencia, que cada Bispo deve definir criteriosamente para a
sua diocese (desde que ai ocorram), é licito aos presbíteros
ministrar absolvigáo coletiva; esta, alias, nao dispensa os fiéis
de confessar na primeira oportunidade, dentro de um ano, os
pecados absolvíaos.

Em vista de maior clareza sobre o assunto, foi publicado


aos 7/04/81 na diocese de Parnaíba (PI) um documento que
formula principios e normas inspirados por fidelidade á Igreja
e sabedoria pastoral.

Visto que tal declaracáo pode ser útil aos presbíteros e


fiéis do Brasil em geral, publicamo-la a seguir, acompanhada
de breves comentarlos.

— 499 —
80 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

I. O DOCUMENTO
«Em espirito de filial obediencia ás determinacoesda Sé Apos
tólica de 19/7/72, reiteradas para o Brasil na Carta ao Presidente
da CNBB de 22 de novembro de 1979, nos, presbíteros da lgre¡a
de Parnaíba, reunidos com nosso Bispo Diocesano, considerando as
peculiaridades da nossa regiáo, tomamos a resolucao de adotar em
nossa Igreja Particular as seguintes NORMAS, relativas á absolvicáo
coletiva, na assim chamada confissao comunitaria:
1. Observem-se, em qualquer caso, as tres condícoes simultá
neas, exigidas pela citada Carta da Sagrada Congregacao para
os Sacramentos e o Culto Divino dirigida a Dom Ivo Lorscheiter em
22/11/1979: a) grande afluencia de penitentes; b) número insu
ficiente de sacerdotes confessores presentes; c) os penitenntes deve-
riam, sem culpa própria, permanecer privados por longo tempo da
grata sacramental e da Sagrada Comunháo.

2. Quando se administra a absolvicáo coletiva, é sempre


necessário advertir os fiéis da obrigacáo de duas coisas: a) ao
menos urna vez por ano, fazer sua confissao individual; b) se pos-
sfvej, confessar privadamente os pecados graves absolvidos na con
fissao coletiva, antes de receberem urna segunda absolvicao geral.
3. Normalmente atenderemos ás confissSes individuáis, deí-
xando a confissao comunitaria para o caso de evidente necessi'dade.
No relatório mensal, seja comunicado ao Bispo Diocesano quantas
confissoes comunitarias houve e com que afluencia de fiéis.
4. Aos fiéis procuraremos proporcionar com freqOéncia, se
possível diariamente, a oportunidade de fazcrem sua confissao par
ticular.

Finalmente, nao nos esqueceremos nunca que o confessionário


é para nos, pastores, a melhor escola da realidade pastoral de
nosso povo. Recordemos o quanto ele representou de sacrificio e
zelo sacerdotal dos antigos vigários, nossos predecessores, que dedi-
caram horas intermináveis ao confessionário, ouvindo as penas e
angustias de seu povo, especialmente dos humildes e dos simples».

II. COMENTARIOS

1. Os itens 1 e 2 do texto ácima lembram as normas da


Santa Sé atinentes á absolvigáo coletiva, normas que o Ritual
da Penitencia assim formula:
AÍNDA A CONFISSAO SACRAMENTAL 81

"31. Pode suceder que circunstancias particulares tomem lícito, e


até necessárlo, conceder a absolvlcfio geral a varios penitentes sem previa
conflssio individual.

Além do perlgo de morte, em caso de grave necessldade, será lícito


absolver sacramentalmente de urna so vez varios fiéis que se tenham con-
fessado apenas genéricamente, depols de exortados ao arrependlmento.
Isto ocorre, por exemplo, quando, em razfio do número de penitentes, nSo
houver confessores suficientes para ouvir como convém todas as comlssCes
em tempo razoável, vendo-se os penitentes, sem culpa próprla, obrlgados
a prlvar-se por mals tempo da gra¿a sacramental ou da Sagrada Comunhfio.
O que pode ocorrer sobretudo em térras de missfies, mas também em
outros lugares o ainda onde a reunISo de multas pessoas exija esta
soluc3o.

Isto nSo será lícito mesmo havendo grande número de penitentes,


como, por exemplo, em alguma festa ou peregrlnacfio, quando se puder
contar com confessores em número suficiente.

32. Compete ao Bispo diocesano, ouvldos os demals membros da


Conferencia Episcopal, |u!gar se ocorrem as referidas condlcSes e deter
minar quando ó lícito dar a absolvlcfio sacramental na forma geral.

Além dos casos estabelecldos pelo Bispo diocesano, ocorrendo outra


necessidade grave de conceder a absolvlcfio geral a varios fiéis ao mesmo
tempo, o sacerdote deverá recorrer, sempre que possível, ao Ordinario do
lugar para dar licitamente essa absolvlcfio; caso contrario, informará quanto
antes ao Ordinario da necessldade que se apresentou e da absolvlcfio
geral concedida.

33. Para que os fiéis possam beneflclar-se da absolvlcfio sacramen


tal dada simultáneamente, é Indispensável que estejam convenientemente
dlspostos, Isto é, que, arrependidos de suas culpas, tenham o propósito de
nao tornar a comete-las, de reparar os danos e escándalos causados e de
bonfessar individualmente, em tempo oportuno, os pecados graves que no
momento nfio podem confessar. Os sacerdotes Instruirfio diligentemente
os fiéis sobre estas dlsposlcfies e condicSes requeridas para a validada
do sacramento.

34. Aqueles que tiveram pecados graves perdoados pela absolvlcfio


comum, devem procurar a conflssfio auricular, antes de recebar outra
absolvicfio desse tipo, a nfio ser que Impedidos por justa causa. Em todo
caso devem Ir ao confessor dentro de um ano, se nfio for moralmente
Impossfvel. Poís também vigora para eles o preceito de que todo cristfio
deve confessar ao sacerdote urna vez por ano todos os pecados Isto é
as faltas graves, que nfio houver confessado Individualmente".

A luz destes principios, verifíca-se que os fiéis postos em


condigóes de receber a absolvigáo coletíva devem firmar o
propósito de procurar, na primeira oportunidade e dentro de
um ano, um sacerdote a fim de fazerem a confissao auricular
e especifica dos pecados absolvióos. A razáo desta norma é o

— 501 —
¿B «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 265/1982
•> ■ ' i '

tato de que a confissáo sacramental foi instituida pelo Senhor


Jesús, segundo Jo 20,20-22; no dia em que ressuscitou, Jesús
Cristo comunicou aos seus ministros o Espirito Santo e a fa-
culdade de perdoarem ou nao perdoarem os pecados; ora o
exercicio de tal faculdade supóe, por parte do ministro, o
conhecimento do estado de alma e das disposigóes do peni
tente — o que só pode ocorrer se há confissáo previa dos
pecados.

: O propósito sincero de fazer posteriormente a confissáo


auricular dos pecados absolvidos é condigáo para a validade da
absolvigáo recebida por cada fiel em rito comunitario.

2. Os itens 3, 4 e 5 póem em relevo a importancia de se


ministrar a confissáo auricular, deixando-se a absolvigáo cole-
tiva (acompanhada da confissáo posterior) para casos emer-
genciais e extraordinarios. O zelo de numerosos sacerdotes se
exprimiu durante sáculos através do ministerio da reconcilia-
gáo sacramental; em varias ocasióes do ano, inclusive ñas vés-
peras de cada primeira sexta-feira do mes, houve, e há, sacer
dotes que passam horas a fio da noite atendendo aos fiéis peni
tentes em notável atitude de abnegagáo e renuncia. É para
desejar que tal praxe nao se perca desde que tal atendimento
seja solicitado por genulnas razóes pastorals. O próprio S. Pa
dre, desejoso de valorizar este sagrado ministerio, tem ocupado
um dos confessionários da basílica de S. Pedro na sexta-feira
santa dos últimos anos. Tal é a noticia transmitida pelo jornal
*L'Osservatore Romano» (ed. francesa) de 21/04/1981, p. 5:

°i k ",»* maühfi deT8exta-f8lra «anta 17 de abril de 1981, o S. Padre foi


L a i«LVf fifn °?OU lu9°rxnum confesslonérlo situado no transepto
de s. José e atendeu ás conflssOes de numerosos peregrinos de diversas
nacionalidades".

O mesmo ocorreu na sexta-feira santa de 1982.

t> S?3"1 " P^v1^8 da Igreja e o testemunho do Sumo


Pontífice calar fundo nos ánimos de nossos sacerdotes e de
(nossos fiéis em vista de proficua freqüentacáo do sacramento
<da, Penitencia! Nao há dúvida, a diocese de Parnaíba ÍPI) fala
«eloqüentemente a tal propósito.
:- ■

c Esrtévao Betteneourt O.S.B.

— 502 —
Aínda a obra de Mons. Escrlvá:

"Opus Dei": Nova Fisura Jurídica


Em PR 264/1982, pp. 345-361 (set.-out. 82), foi publicado
um artigo sobre o Opus Dei, obra fundada por Mons. Escrivá
de Balaguer no intuito de oferecer a leigos e sacerdotes urna
escola de santificagáo e apostolado adaptada aos tempos mo
dernos e ás necessidades da Igreja. Foi dito entáo que a
Santa Sé, já havia alguns anos, vinha estudando a configu-
racüo jurídica definitiva da instituicáo a fim de adequar ple
namente as normas do Direito á realidade eclesial e ao carisma
fundacional da Obra. O próprio fundador do Opus Dei dese-
jara e solicitara esse estatuto jurídico adequado, desejo este
que encontrara boa acolhida por parte dos tres últimos Papas.
O artigo citado assinalava oportunamente o fato de que,
quando da aprovacáo pontificia do Opus Dei em 1950, tal obra
foi enquadrada entre os Institutos Seculares. Esta classificacáo
era a menos inadequada que na época se poderia imaginar,
mas nao correspondía ás características plenamente seculares
e laicais do Opus Dei (os membros dos Institutos Seculares
emitem votos religiosos, ao passo que os do Opus Dei nao os
emitem e podem casar-se).

O nosso artigo já estava impresso quando nos primeiros


dias de setembro veio a público, através do porta-voz oficial
do Vaticano, a decisáo, do Papa Joáo Paulo n, de erigir o
Opus D©i como Prelazia pessoal. Chegou assim a seu termo o
processo de configuracáo institucional do Opus Dei.
Que é, pois, urna Prelada psssoal? — Trata-se de figura
jurídica e pastoral inteiramente nova e sem precedente na
vida da Igreja, figura que deve sua origem ao Concilio do
Vaticano II. Com efeito, o n« 10 do Decreto Presbyterorum
Ordnus (sobre os Presbíteros) estabelece que poderáo ser
criadas pela Santa Sé Prelazias pessoais, de caráter secular a
fim de aplainar caminho «a obras pastarais especializadas, em '
favor dos diversos grupos sociais», obras que «devam ser leva
das a termo em alguma regiáo ou nacáo ou até mesmo no
mundo inteiro». Como indica o citado Decreto conciliar a
cnacáo das Prelazias pessoais há de ser feita «de modo a sal
vaguardar sempre os direitos dos Ordinarios dos lugares>,
isto é, dos Bispos diocesanos e das autoridades eclesiásticas
equivalentes.

— 503 —
84 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

A originalidade dessas Preladas pessoais — isto é, consti


tuidas apenas por pessoas, sem territorio próprio — consiste
em que sao instituicóes eclesiásticas de caráter jurisdicional,
governadas por um Prelado próprio, que tém a faculdade de
incardinar sacerdotes seculares e as quais se podem incorporar,
por meio de um vinculo contratual, leigos que se dediquem as
suas obras apostólicas.

Tais Prelazias constituem urna instituicáo nova, diferente


das antigás Prelazias «nullius» — dotadas de territorio pró-
Prio —,... diferentes também das Dioceses pessoais e dos Vi
cariatos castrenses, que se baseiam no principio de indepen
dencia ou autonomía em relagáo (as igrejas locáis.

Os membros do Opus Dei, assim, dependeráo do seu Pre


lado no que diz respeito á sua formagáo espiritual e ao exer-
cicio do apostolado, e em tudo mais, como qualquer outro fiel
católico, dependeráo dos Bispos das Dioceses onde residirem.

Além disto, pela sua nova condifiáo jurídica de Prelazia,


o Opus Dei deixa de depender da Sagrada Congregagáo para
os Religiosos e os Institutos Seculares, e passa a depender da
Congregacáo para os Bispos. Por sua vez, o Prelado deverá
apresentar ao Papa, de cinco em cinco anos, um relatório
sobre a Prelazia, como fazem os Bispos no que diz respeito
as respectivas Dioceses.

A configuragáo jurídica definitiva do Opus Dei recém-


-definida pelo S. Padre Joáo Paulo n constituí um reeonheci-
mento, em face da Igreja, do caráter plenamente secular da
instituicáo, cujos membros — leigos, na imensa maioria — sao
cidadáos católicos, solteiros ou casados, que, no exercício da
sua profissáo ou oficio, se esforcam por alcangar a santifica-
cao própria e a das pessoas do meio em que desenvolvem sua
atividade. Como leigos de pleno direito, gozam de completa
liberdade em sua atuacáo temporal. Sao tragos que já real-
cava Joáo Paulo II em agosta de 1979, quando se referia ao
Opus Dei como instituicáo que «antecipou desde o inicio aquela
teología do laicato que viria a caracterizar mais tarde a Igreja
do Concilio e do pós-Concílio».

', É com votos de copiosas gragas e béncáos para a Obra de


Mohs. Escrivá que registramos estes elementos jurídicos com
plementares da nossa apresentacáo do Opus Dei.

EstévSo Bettenoourt O.S.B.

— 501 —
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livros em estante
As ratzes da eacravldao, por Jorge Pereira Lima. Serle "Camtnhos
de escravldño" n? 2, publicacao popular da CEHILA. — Ed. Paulinas, SBo
Paulo 1982, 155 x 220 mm, 45 pp.
Trata-se de um opúsculo redlgldo em versos acompanhados de dése-
nhos, a flm de Ilustrar alguna quadros da historia da escravidSo no Brasil.
O autor considera primeramente o caso dos (ndlos (pp. 13-17); depols, mais
detldamente, o dos africanos. O opúsculo faz parte de urna serle de seis;
vem a ser a vulgarizado de um tema abordado mais amplamente pelo
Manual de Historia da Igreja na América Latina devldo á CEHILA (Comls-
8So de Estudos de Historia da Igreja Latino-americana). Este Manual tenta
reconstituir a historia a partir de premlssas ideológicas, ou sefa, paroláis
e unilaterals; tudo enquadra dentro do binomio "opressores x oprimidos",
que simplifica e generaliza, distorcendo a auténtica face dos acontecimentos.
É de lamentar que essa perspectiva ideológica se]a levada de ma-
nelra tSo insinuante aos leitores menos capacitados para exercer dlscer-
nlmento e critica. A historia é sempre algo de multo complexo o varle-
gado, que nao pode ser enquadrado dentro de clichés tendentes a simpli
ficar. Asslm como houve protagonistas da escravatura que cometeram gra
ves desmandos, devidos á ganancia e a dureza de coráceo, houve também
vozes de Papas, bispos e teólogos que se levantaram, fosse para impedir o
tráfico de escravos, fosse para apregoar tratamento mais humanitario.
Para entender o fenómeno da escravatura com objetlvidade e nSo o
julgar a luz de categorías do pensamento contemporáneo (que no séc. XVI
eram desconhecldas), leve-se em conta o seguinte: multes dos europeus
pensavam que os Indígenas e os africanos, sendo de cultura rude, nao
tinham alma humana ou nSo eram seres racionáis; portante, nño gozarlam
dos mesmos direltos que os demals' homens; da! a facllldade com que os
reduzlam á escravidSo. A voz oficial da Igreja se insurglu mais de urna
vez contra tal concepcfio; seja citada a Bula Verltas Ipaa do Papa
Paulo III, que, aos 29/05/1537, declara solenemente que os amerindios
sao seres racionáis como os demals homens e, portante, nBo devem ser
privados da sua llberdade nem condenados á escravldfio; sfio também
habéis para receber a luz da fé crista, embora nao devam ser obrlgados a
■ Isto. Note-se outrossim a figura do blspo dominicano Bartolomeu de las
Casas, que despertou irmáos de hábito e outros mlsslonárlos para se opo-
rem ao injusto tráfico de aborígenes.
Quanto aos escravos africanos, nao foi posstvel ás autoridades ecle
siásticas impedir o comercio de negros; todavía a Igreja se empenhou por
aliviar-Inés a sorte. O Papa Gregorio XVI, aos 3/12/1839, promulgou urna
Bula em que se opunha á escravatura e assinalava semelhantes pronun-
clamentos dos segulntes antecessores seus: Pió II, aos 7/10/1442; Paulo III,
aos 29/05/1537; Urbano VIII, aoé 22/04/1639; Bento XIV, aos 20/12/1741...
Há também urna determlnacfio do reí de Portugal, D. Manuel, datada de
1541, que manda respeitar a atltude dos escravos contrarios a receber o
batlsmo; tal determinacSo fol reafirmada em 1707 pelas ConstituicCes Prl-
meiras do Arcebispado da Bahía, que reglam a Igreja no Brasil; els o que
se Id no respectivo canon 57:
"No que respelta aos escravos que vlerem de Guiñé, Angola, Costa
da Mina ou outra qualquer parte, em Idade de mais de seta anos, ainda
que nao passem de doze, declaramos que nao podem ser batizados sem
darem para Isto seu consentlmento, salvo quando forem tfto bogáis que
conste nfio terem entendlmento nem uso da razfio".

— 507 —
88 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 265/1982

. A respelto do Pe. Antonio Vieira e sua atltude perante a escravatura,


o fascfculo em pauta é Inexato, pois nao leva em conta, por exempio, o
sermfio proferido na Igreja Malor de S. Luis do MaranhSo em 1654; nesta
beta peca literaria, o pregador profliga a escravatura nos seguintes termos:
"Os outros nascem para vlver, estes (os africanos) para servir. Ñas
outras térras, do que eram os homens, e do que fiam e tecem as mulheres,
se fazem os comercios; naquela o que geram os país e o que crlam a
seus pellos as mSes, é o que se vende e compra. Ohi Trato desumano,
em que a mercancía sao homensl Ohl mercancía diabólica, em que os
Interesses se tiram das almas alhelas, e os ricos sfio das próprias" (Ser-
m6es, vol. Vil. Editora das Amórlcas, 1958, p. 64).
"Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo
galas, os escravos perecendo á fome...; os senhores em pé, apontando
para o acolte,... os escravos prostrados com as máos atadas atrás...
Estes homens nfio sSo fllhos do mesmo AdSo e da mesma Eva? Estas
almas nSo foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? €stes corpos
nSo nascem e morrem como os nossos? Nfio resplram com o mesmo ar?
Nfio os cobre o mesmo céu? Nfio os aquenta o mesmo sol? Que estrela
é logo aquela que os domina, tSo triste, tfio inlmlga, tfio cruel?" (Ib. p. 65).
E Vlelra concluí que Deus nfio pode aceitar a escravídSo.
Em suma, o opúsculo que anallsamos, nfio tem a categoría de
documentarlo científico; nfio cita suas fontes nem é preciso em suas aflr-
macoes; antes, traduz e comunica animosidade... Nfio se podem negar
os erros do passado em relacfio aos escravos, mas também nfio se deve
dlzer que a Igrefa nada fez por mitigar ou extinguir a nódoa da escra
vatura.

A reconquista do paraíso perdido, por Edvino Augusto Frlderíchs S.J.,


Gráfica Vlcentina Ltda. Editora, Curitiba 1962, 145 x 210 mm, 203 pp.
O Pe. Edvlno Frlderlchs é conhecido por suas obras de Parapsicología
e Psicología, ás quals ele soube dar sempre um cunho pastoral. O llvro
que aquí apresentamos, contém urna serle de breves reflexCes, fruto da
medltacfio e oracfio do autor, reflexñes ñas quais se mesclam os valores
da teología e os dltames da boa psicología e da pedagogía. Desalamos cha
mar a atencfio para as páginas referentes aos entorpecentes, ao alcoolismo,
ao fumo e á neurosa (pp. 7-44), em que o Pe. Frlderlchs prop&e válidas
orlentacfies para ajudar os interessados a salr do seu problema. O livro é
da leitura fácil e pictórica, destinado ao grande público.
Cafxlnha de Perguntas sobre Relfglfio e SuperstlcOes, por Edvlno A.
Frlderlchs S.J. — Ed. Rosario, Calxa postal 3175, 80000 Curitiba, 1981
(3? ed.).
Este llvro enfelxa as principáis dúvldas que costumam aflorar entre
cristfios a respailo da fó católica, da Biblia, do protestantismo, do espiri
tismo e das crendlces; passa em revista, por exemplo, o horóscopo, as
operacfies pelo astral, a materializacfio dos espiritos, a radlestesla, o culto
dos Santos, a Biblia como única fonte de fé, a infalibilldade do Papa, a
Inquialcfio espanhola, o número 13, o mau-olhado, o feitico no traves-
aelro... Está redigido sob forma de perguntas e breves respostas, tor
nándole acesslvel ás pessoas mals simples; oferece urna prlmelra abor-
dagem de cada assunto, ficando o aprofundamento reservado para outras
obras. O livro merece ampia dlvulgacfio, pois atende a real necessldade
da nossa populacfio.
(Continua na pág. 470)
— 508 —
ÍNDICE 1982

ERGUNTE

Responderemos
ÍNDICE 1982

(Os números a direita tndicam, respectivamente, fascículo,


ano de edicSo e página)

ABSTRACAO INTELECTIVA E ABSTRACAO


SENSITIVA 265/1982, p. 430.
ACOMPANHANTES DE DOENTES GRAVES .. 262/1982, p 225
AGUA BENTA: desde quando? 264/1982, p. 388*
ANALGÉSICOS: llceidade moral 262/1982, p 221!
ANDRÉ DU MONT-ROYAL, bem-aventurado .. 263/1982, p. 320.
«ANJOS E DEMONIOS NA BIBLIA»: coletanea
de estudos 265/1982, p. 459.
ANTICONCEPCIONAIS: liceidade moral 262/1982 p 182
ANTROPOCENTRISMO E REJEICAO DE DEUS 263/1982, p 223
ANTROPÓIDES E LINGUAGEM 265/1982, p. 428.
ARMAS NUCLEARES: conseqüéncias do uso .. 263/1982, p. 249!
ATEÍSMO CONTEMPORÁNEO: expressoes 263/1982 p 321
AUTOCONSCIÉNCIA DE JESÚS: discussáo .. 265/1982, p. 462.

BARGANHA COM DEUS E DOENCA 262/1982 p 236


BIG-BANG E EXISTENCIA DE DEUS 265/1982 p 424
BOFF, L. E CRISTOLOGIA 265/1982, p 436;
ECLESIOLOGIA 260/1982, p. 15.

CALENDARIO JULIANO E REFORMA GRE


GORIANA 264/1982, p. 336
CAMPOS E TRADICIONALISTAS 264/1982 p 362
CARISMA E HIERARQUIA NA IGREJA 260/1982 p 15*
CARTA DOS DIREITOS DA FAMILIA 260/1982 p 61'
CASAMENTO INCOMPLETO 262/1982 p 183-'
RELIGIOSO DE CATÓLICOS IN- '
DIFERENTES 263/1982, p. 266.
— preparac&o para o 260/1982, p 58
CASAMENTOS MISTOS: posicao da Igreja .... 260/1982 p 49
CASAÑAS, J. E TEOLOGÍA DA LIBERTACAO 265/1982, p. 472
CASTIDADE: conceito 262/1982 o 187
CATÓLICOS E MACONS 260/1982 £ 2
- CASADOS APENAS NO FORO CI
VIL: problema 263/1982, p 266
CELIBATO DO CLERO: origem 264/1982, p. 400.

— 510 —
ÍNDICE DE 1982 91

CLERICALISMO através dos séculos 261/1982 p 95


'CONCILIOS ECUMÉNICOS — de Nicéla (325)
até o Vaticano II (1962-65) 261/1982, p 134
CONFISSAO AURICULAR: origem 264/1982, p. 390.
SACRAMENTAL E ABSOLVICAO
COLETIVA 265/1982 p 499
CONSCIÉNCIA DE JESÚS DIANTE DA MORTE 265/1982 p 440-
POLÍTICA 263/1982, p. 272;
PSICOLÓGICA E INTELIGEN
CIA 262/1982, p. 161.
«COR UNUM» E MORTE 262/1982 p 213
CRIACAO E EVOLUCAO 262/1982,' p.' 160;'
265/1982, p 422
CRISTIANISMO E MÉTODOS DE MEDITACAO
ORIENTAL 263/1982, p 284
CRISTOLOGIADE L. BOFF 265/1982 p 436-
LATINO-AMERICANA? 265/1982, p. 458
CULTO A MARÍA E AOS SANTOS 264/1982, p 387-
SATANÁS •: 265/1982, p. 464.

DATA DA CELEBRACAO DA PASCOA 264/1982 p 335


DEFICIENTES E TRABALHO 261/1982 n 74*
DEÍSMO E MACONARIA 260/1982 p 5
DEMONIO: existencia 265/1982' o 459
DEPRESSAO DIANTE DA MORTE \ 262/1982* p 237
DESEMPREGO E EMPREGADORES 261/1982," p.' 75^
DEUS: nocSo panteista segundo Trevisan 263/1982* p 303
DIREITO A PROPRIEDADE PARTICULAR .. 261/1982 p! 74*
DIREITOS DA FAMILIA 260/1982 p. 61
PRIMORDIAIS DA PESSOA 262/1982 p 216
DIVINDADE DE CRISTO segundo Boíf 260/1982, p! 47¿

DIVORCIO E LEIS DA IGREJA fSS I' 262'


DOENCA E PECADO 260/1982,' 'í
TEM SENTIDO? 260/1982 p 27
DOENCAS E CONTROLE MENTAL 263/1982, p! 305*.

EDUCAgAO DOS FILHOS 260/1982, p 54-


263/1982, p. 259;
PARA O SOFRIMENTO E A
MORTE 262/1982 o 23Í1
EMPREGADORES E DESEMPREGO '.'.'.'.'. 261/1982* d 75
ENFERMOS GRAVES E DEVERES DO CRIS-
TA0 263/1982, p. 213.
E UNCAO SACRAMEN
TAL .................... 260/1982, p. 33.

511 —
92 ÍNDICE DE 1982

«ENSAIO DE ÉTICA SEXUAL» — livro de


Jaime Snoek 262/1982 n 175

SS^JKKSSSiSKEis S3ÍíS:
ESCRIVA DE BALAGUER E OPÜS DEI 264/1982 p 345
KíSUSS?0* E EN^RMOS GRAVES .... 262/1982 £ 213."
EUCARISTÍA: real presenca 261/1982, p. 118;
Landano 2S1/1QR2 n i oo
EUTANASIA: lioeidade discutida .... 262/1982' S 219
EVOr nem tempo nem eternidade 260/1982* o 43*
EXCOMUNHAO E MACONARIA i... 260/1982' I ^"
«EXISTENCIA CRISTA* - de l'Arbresle .... 263/1982; p. 317."

FALHAS NA IGREJA 260/1982, p. 45;


264/1982. p 409
FAMILIA CRISTA NO MUNDO DE HOJE .... 263/1982, p. 256;
DO MORIBUNDO 262/1982, p. 239;
— problema na Grecia 263/1982, p. 270;
— seus deveres 260/1982, p. 51;
263/1982, p. 258.
«FAMIUARIS CONSORTIO» — Exortacao Apos
tólica de Joto Paulo n 263/1982, p. 256
FÉ: Tt¿¿¿¿~
E POLÍTICA
263/1982, p. 327.
261/1982, p 92
E SACRAMENTO DO MATRIMONIO .... 260/1982, p. 45.
FECUNDACAO ARTIFICIAL, segundo Snoek .. 262/1982, p. 182.

GORGETAS NA URSS 265/1982, p. 487.


GUADALUPE: imagem da Vlrgem 262/1982, p. 208.
GUERRA NUCLEAR: perlgos 263/1982, p. 246.

HABITACAO NA URSS 265/1982, p. 490.


«HARÉ KRISHNA»: que é? 263/1982 p 286
«HOMEM A PROCURA DE DEUS, O» — livro
de Paul-Eugéne Charbonneau 263/1982, p. 321.
HOMOSSEXUALISMO segundo Snoek 262/1982, p. 186.

«IGREJA CARISMA E PODER» — livro de Leo


nardo Boíf 260/1982, p. 15;
CATÓLICA APOSTÓLICA BRASI-
LEIRA 264/1982, p. 402;

— 512 —
ÍNDICE DE 1982 93

DISCENTE E DOCENTE 260/1982, p. 20;


E PERIGO DE GUERRA NUCLEAR 263/1982, p. 246;
263/1982, p. 272;
POLÍTICA E FÉ 261/1982, p. 103;
DE SATANÁS 265/1982, p. 464;
NA URSS: situacSo atual 262/1982, p. 191.
IGREJAS BRASILEIRAS: sltuacio jurídica .... 264/1982, p. 413.
IMAGEM DA VIRGEM DE GUADALUPE 262/1982, p. 208.
IMPERIALISMO E «NOMENKLATURA» 265/1982, p. 496.
INDISSOLUBIUDADE DO CASAMENTO E
DIVORCIO 260/1982, p. 47;
262/1982, p. 183.
INDULGENCIAS: origem 264/1982, p. 389.
INFALIBILIDADE DO PAPA: histórico 264/1982, p. 396.
«INICIACAO A TEOLOGÍA» de l'Arbresle .... 263/1982, p. 310.
INSTITUICAO DA EUCARISTÍA: significado .. 261/1982, p. 122.
INTELIGENCIA: características 262/1982, p. 162.
«INTELIGENCIA» DOS ANTROPÓIDES 265/1982, p. 428.

JESÚS CRISTO E A LIBERTACAO POLÍTICA 261/1982, p. 103;


DA HISTORIA, JESÚS DA FÉ 263/1982, p. 311;
E SUA MORTE 265/1982, p. 436.
JOAO PAULO II E GUERRA NUCLEAR 263/1982, p. 246;
E «LABOREM EXERCENS» .. 261/1982, p. 71.

KRISHNAMURTI: quem é? 263/1982, p. 288.


KÜBLER-ROSS, ELIZABETH, E MORIBUNDOS 262/1982, p. 241.

«LABOREM EXERCENS» — encíclica 261/1982, p. 71.


LANCIANO E EUCARISTÍA 261/1982, p. 130.
LEÍ NATURAL: existencia 262/1982, p. 188.
LIBERTACAO DO HOMEM CONTEMPORÁNEO 261/1982, p. 99.
LINGUAGEM DOS ANIMÁIS E INTELIGENCIA 265A982, p. 433.
LITURGIA RENOVADA E TRADICIONALIS-
TAS .....i...., 264/1982, p. 362.
«LUTA DOS DEUSES, A» — de diversos autores 265/1982, p. 471.
. LUTA DE CLASSES: dlscussfto 265/1982, p. 471.

■ — 513 —
94 ÍNDICE DE 1982

cMACONARIA E IGREJA CATÓLICA, ontem,


hoje e amanhá> — livro de Benimell, Caprile
e Alberton 260/1982. p 2
MAGISTERIO DA IGREJA E EXISTENCIA
DO DEMONIO 265/1982, p 464
MANDEUS: orlgem e doutrina 262/1982 p 166
MARÍA SS. E GUADALUPE 262/1982, p 208-
MATRIMONIO E FAMILIA NA IGREJA 263/1982, p. 45J
263/1982, p. 256.
MATRIMONIOS MISTOS: posic&o da Igreja ... 260/1982, p. 63
MEDITACAO ORIENTAL E CRISTIANISMO .. 263/1982, p. 284'.
MEDO DA MORTE 262/1982, p 234
MÉTODOS HINDUISTAS: vantagens e desvan-
teeens 263/1982, p. 295.
MILAGRE: que é? 261/1982, p. 109.
tMELAGRE, O» — livro de J. E. Martins
Térra, S.J 261/1982, p. 109.
MILAGRES NA BIBLIA 261/1982, p. 112.
NO MUNDO HELENÍSTICO NAO
CRISTAO 261/1982, p. 115.
«MILITARISMO E CLERICALISMO EM MU-
DANCA» de N. Boer 261/1982, p. 99.
«MESA DE PAULO VI» — de Arnaldo Xavier
da Silvelra 264/1982. p. 363.
«MORAL E VIDA CRISTA» de l'Arbresle 263/1982, p. 317.
MORIBUNDOS: mlssáo do pessoal da saúde ... 262/1982, p. 224.
«MORTE DE JESÚS CRISTO NA CRISTOLO-
GIA DE LEONARDO BOFF» 265/1982, p. 436.
MORTE: problemática moderna 262/1982, p. 213;
CEREBRAL 262/1982, p. 223;
DIGNA 262/1982, p. 217.
«MORTE E MORRER» de Kübler-Ross 262/1982, p. 241.
MORTE: sentido cristáo 262/1982, p. 216!
MUTABIUDADE DA DATA DA PASCOA .... 264/1982, p. 341'.

NARCOSE E DECÍSAO DO ENFERMO 262/1982, p. 222.


NATALIDADE: regulacáo da 263/1982, p 268
NAZOREUS (MANDEUS) 262/1982, p. 166.
«NOMENKLATURA, A» — Uvro de Michael
S. Voslensky 265/1982, p. 483.

— 514 —
ÍNDICE DE 1982

OBJECOES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 264/1982, p. 378.


OBRA DO CRIADOR 261/1982, p. 81.
OPUS DEI: que é? 264/1982, p. 345.
ONIPOTÉNCIA DA MENTE, segundo Trevisan 263/1982, p. 299.
ORACAO E GRACA 263/1982, p. 293;
EM FAVOR DOS MORTOS: íunda-
mentacáo 264/1982, p. 381;
segundo Trevisan 263/1982, p. 301.
«ORIGENS» — livro de Richard E. Leakey e
Roger Lewin 262/1982, p. 158.

PANTEÍSMO de Lauro Trevisan 263/1982, p. 306.


PAPANDREU EM CONFLITO COM A IGREJA 263/1982, p. 270.
"PARTIDOS POLÍTICOS E IGREJA 261/1982, p. 92;
263/1982, p. 273.
PASCOA: data da celebracao 264/1982, p. 335.
PECADO E DOENCA 260/1982, p. 29.
«PECADO, RECONCILIACAX» — de l'Arbresle 263/1982, p. 316.
«PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A MORTE
E O MORRER» — livro de E. Kübler-Ross 262/1982, p. 241.
PERIGOS DA GUERRA NUCLEAR 263/1982, p. 246.
«PODER INFINITO DA SUA MENTE, O» — livro
de Lauro Trevisan 263/1982, p. 299.
POLÍTICA E IGREJA 261/1982, p. 92;
263/1982, p. 272.
PRESENCA REAL DE CRISTO NA S. EUCA
RISTÍA 261/1982, p. 118.
PROMESSA DA SAGRADA EUCARISTÍA .... 261/1982, p. 118.
PROMESSAS A DEUS: sim ou nao? 262/1982, p. 203.
PROPRIEDADE PARTICULAR: legitimidade .. 261/1982, p. 74.
PROTESTANTISMO E NOVA LITURGIA 264/1982, p. 362.
E OBJECOES AO CATO
LICISMO 264/1982, p. 378.
PSICOTERAPIA E MEDITACAO 263/1982, p. 284;
E TREVISAN 263/1982, p. 299.
PSIQUISMO DOS ANIMÁIS 265/1982, p. 428.
PURGATORIO E PROTESTANTISMO 264/1982, p. 385.

RACAS HUMANAS: existem? 261/1982, p. 105.


REAL PRESENCA EUCAR1STTCA: fundamen-
tacáo 261/1982, p. 118.
REFORMA LTTORGICA 264/1982, p. 369;
GREGORIANA DO CALENDARIO . 264/1982, p. 334.
REGULACAO DA NATALJDADE 263/1982, p. 268.
RELACOES EXTRA-CONJUGAIS E MORAL
CATÓLICA 260/1982, p. 59.
REUGIAO: valor inato 263/1982, p. 321.
RESSURREICAO: quando? 260/1982, p. 42.

— 515 —
SéJ ÍNDICE DE 1982

SACRAMENTOS DOS ENFERMOS 260/1982, p 38.


SALARIOS NA URSS 265/1982, p. 486.
SANTOS, CULTO DOS: íundamentac&o 264/1982, p. 387.
SÍMBOLO E SINAL: diíerenga 265/1982, p. 443.
SINAL DA CRUZ: orlgem 264/1982, p. 386.
SINDICATOS E GREVES 261/1982, p. 79.
SINTROPIA E EVOLUCAO DO UNIVERSO ... 265/1982, p. 426.
«SOBRE A MORTE E O MORRER» — llvro de
Ellzabeth Kübler-Ross 262/1982 p 233
SOCIEDADE DIANTE DA MORTE 262/1982, p 226
SOFRIMENTO: significado cristáo 262/1982, p. 217.

TÉCNICAS DE MEDITACAO ORIENTAL 263/1982, p. 294


TEOLOGÍA DA LIBERTACAO: espécimens ... 265/1982, p. 471;

TERAPIAS INTENSIVAS E ESCOLHA DOS P' 436'


PACIENTES 262/1982, p. 228.

TRABALHO ■AGRÍCOLA' V^\\Y^\Y^\'.'.'.'.'.'.'.'.'. 261/Í8 £ 77;"


DA MULHER 261/1982 p 77-
DOS EMIGRANTES 26V1982, p 78-
E CAPITAL 261/1982, p. 73;
E DEFICIENTES 261/1982, p. 79;
OBJETIVO E SUBJETIVO 261/1982. p 72
TRADICIONALISTAS E FIDELIDADE A M/JiHU' P* u'
TRANSMISSÁO '¿' PROTECÁo' DA "vÍdÁ* 'ÜÚ- 264/1982' * 341'
MANA 260/1982, p 51
TREVISAN, LAURO. E PODER MENTAL .... 263/1982, p. 299.

UNCAO DOS ENFERMOS: explanacSo 260/1982 p 33


UNIOE6 MARTTAIS LIVRES 263/1982 p 265*
UNIVERSO EM EXPANSAO E DESCOBERTA ™'1»0*' p' ZDD-
DO CRIADOR 265/1982, p. 422.

VIDA: significado cristSo 262/1982, p. 215.

YAKOUNINE, GLEB, sacerdote detido na URSS 262/1982, p 198


YOGA: que é? 263/1982, p. 287.

ZEN: que é? 263/1982, p. 288.

— 516 —
ÍNDICE DE 1982 Ó?

EDITORIAIS

A NOVA EVA 262/1982, p. 157.

A PROCURA DE DEUS 263/1982, p. 245.

NUNCA PARAR 264/1982, p. 333.

O PARADOXO DA CRUZ . 261/1982, p. 69.

«TERMINEI A CARREIRA, GUARDEI A FÉ» 265/1982, p. 421.

VINTE E CINCO ANOS 260/1982, p. 1.

LIVROS APRECIADOS

ÁVILA, Santa Teresa de. Gástelo Interior ou


Moradas 260/1982, p. 26.

BATTISTINI, Frei. Encontros que maroam 261/1982, p. 155.

BECK, Eleonore. O Filho de Deus velo ao mundo.


Para vocé entender os relatos
da infancia de Jesús 263/1982, p. 329.

CECHINATO, Padre Luiz. A quem Iremos, Se-


nhor? ExpllcagSo do
Credo para adultos .. 260/1982, p. 68.

A Mlssa parte por


parte 263/1982, p. 309.

O Sacramento da Gon-
flnnasao 363/1982, p. 309;

CROATTO, J. Severino. Éxodo: urna hermenéu


tica da llberdade 261/1982, p. 156.

ENSINAMENTOS DE JOAO PAULO H 263/1982, p. 331.

FRIDERICHS, Edvino Augusto. A reconquista do


paraíso perdido 265/1982, p. 508;

Cabdnha de per-
Sontas 265/1982, p. 508;

EQUIPE DA FACULDADE DE TEOLOGÍA


NOSSA SENHORA DA ASSUNCAO. A pros-
tltuicSo em debate. Depoimentos, analises,
procura de solucSes 264/1982, p. 420.

— 517 —
S8_ ÍNDICE DE 1982

GRINGS, DADEUS. Historia dtalétlca do cristia


nismo. Vol. I: Dialética da Univeraalldade e
Dialéttea da Untdade 260/1982, p. 68.

KÜMMEL, Werncr Goorg. Introducoo ao Novo


Testamento 263/1982, p. 330.

LACERDA, Padre M. P. Jesús de Nazaré: ven


cedor ou perdedor? 264/1982, p. 417.

LISBOA, Padre Paulo. Días'de Gratuidade. Ora-


cao ao amor gratuito de Deus 261/1982, p. 155.

MANARANCHE, André. Um caminho de líber-


dade. Ensalo de teología espiritual 263/1982, p. 332.

N1ENHUIS, Padre Humberto. Compromisso


da fé 262/1982, p. 212.

OLTVEIRA, José Fernandes de (Pe. Zezinho, SCJ).


Eduque seu fllho para Deus 263/1982, p. 332;

Rebeldes e inquietos em Jesús Cristo 261/1982, p. 153;


O dlreito de ser jovem 265/1982, p. 470;
Porque Deus me chamou 265/1982, p. 482;
Senhor, que queres que eu faca? 265/1982, p. 482.
PEREIRA LIMA, Jorge. As raizes da escravidOo 265/1982, p. 507.

RAVIER, S.J., André. Inácio de Loyola funda a


OompanMa de Jesús 263/1982, p. 332.

RUBERT, Arlindo. A Igreja no Brasil. Vol. I:


Orlgem e desenvolvlmento (século XVI) ... 261/1982, p. 154.

SÁNCHEZ, Atnauri Tonucci e outros. Drogas e


drogados. O individuo, a familia, a socie
dad© 264/1982, p. 419.

SCHMAUS, MichaeL A Fé da Igreja. Vol. 6: Jus-


tíficacSo do individuo e Escatologia 260/1982, p. 67.

SNOEK, Jaime. Ensato de Jfttíca Sexual 260/1982, p. 67.


VARIOS AUTORES. Leltura do Evangelho se
gundo Mateus 262/1982, p. 243.

A hita e a Eucaristía 262/1982, p. 197.

WILGES, Irineu. Cultura Bellgiosa. Vol. I: As


rellglSes do mundo 264/1982, p. 418.

Cultura Religiosa. Vol. II: Te-


-(' mas religiosos atuais 264/1982, p. 419.

— 518 —
«ENQUANTO TEMOS TEMPO,

PRATIQUEMOS O BEM PARA COM TODOS»

(Gl 6,10)

A TODOS OS AMIGOS

A DIRE^ÁO DE PR

DESEJA

AS GRABAS DE UM

SANTO NATAL,

PENHOR DE ABENgOADO

ANO NOVO
ASSINATURA DE P. R. EM 1983

JANEIRO A DEZEMBRO — Cr$ 2.500,00


ASSINATURA DE APOIO — Cr$ 5.000,00

Cada novo ano os periódicos reajustes dos salarios


nos obrigam a urna revisao dos presos da assinatura da
nossa Revista, que vimos publicando regularmente ,há mais
de vinte e cinco anos. Nossos aumentos anteriores nao
acompan:havam devidamente a alta geral dos presos.

Para manter o equilibrio dos nossos compromissos em


relasao aos funcionarios, as constantes altas do papel para
impressao, á composicao tipográfica e as tarifas postais,
o novo preso da assinatura anual em 1983 será elevado
para Cr$ 2.500,00.

Dado o crescente interesse dos nossos leitores, espera


mos poder continuar contando com a sua colaborasao e
generoso apoio, sobretodo messa fase difícil q,ue exige de
todos a maior compreensao possivel para salvaguarda dos
grandes valores espirituais e eternos, dispensados pela
Santa Igrefa a que dese¡amos servir sempre fielmente sob
a orientase© do Santo Padre Joao Paulo II.

ASSINATURA DE APOIO: Cr$ 5.000,00

A criterio dos assinantes que se dispuserem anónima


mente ajudar outros leitores de PR que nao podem assi-
ná-la ou que já a recebem gratuitamente.

Nota: Temos em esloque os números de julho a dezembro de


1982. Se alguém desejar presentear seus amigos com esses tres
números de PR, basta enviar-nos a importancia de Cr$ 600,00 junta
mente com os enderecos dos mesmos.

A ADMINISTRADO DE PR
EDigOES LUMEN CHRISTI
Rúa Dom Gerardo, 40 — 5? andar — Sala 501
Caixa Postal 2666 — Tel.: (021) 291-7122
20001 — Rio de Janeiro — RJ

O OFICIO DIVINO ou LITURGIA DAS HORAS

Segundo o rito romano, em quatro volumes, edlcflo de Portugal (Gráfica de


Coimbra) — 1982 (nova edicáo melhorada). A sair brevemente. Muita pro
cura, faca logo o seu pedido.

LITURGIA DAS HORAS (Rito monástico):

I volume — Advento, Natal Epifanía


II volume — Tempo Comum
III volume — Quaresma, Páscoa, Tempo Pascal
IV volume — Próprlo e Comum dos Santos
V volume — Lecionário (em preparacSo)

SALTERIO (150 Salmos, traducfio oficial da CNBB e 75 Cánticos do Antigo e do


Novo Testamento traduzidos por D. Marcos Barbosa, para uso monástico
Edicto bilingüe (latim-portuguésl 650 págs.
Edicáo so em portugués, 500 págs.

"RIQUEZAS DA MENSAGEM CRISTA"

Por O. Cirilo Folch Gomes OSB, 2? ed., 1981, 689 págs.

A edlcfio acha-se conslderavelmente modificada, com atualizacño da bibliografía e


varias nocoes novas em seus doze capítulos. Trala-se de um Comentarlo ao
CREDO DO POVO DE DEUS, no qual, após 90 págs. de Teología Fundamental
que estudam a Fé e as razSes de crer, o Autor passa a anallsar os artlgos do
Credo. A linguagem procura ser amena e acessivel a pessoas que se ini-
clam na Teología. Ao mesmo tempo sao fornecidas, em numerosas notas de
rodapé, as referencias para aprofundamentos ulteriores. Na apreciacSo de
um recensor espanhol (G. Girones), estamos ante "urna das mais acabadas
slnteses de teología dogmática de nossos días". Já alias a 1? edicáo tivera
diversas recensSes muito favoráveis. Preco: Cr$ 2.000,00.

"A DOUTRINA DA TRINDADE ETERNA", 1980. 400 págs.

Esta obra compreende tres partes. Na 1a estuda a problemática moderna quanto


á doutrlna trinitaria. Na 2n examina os dados bíblicos, documentacSo do
Magisterio, a reflexSo escolástica. Na 3? parte defende a conveniencia do
uso, em nossos días, da expressáo "tres Pessoas", que alguns autores pre-
tenderam criticar. Conforme apreciac&o de A. Perego (em "Divus Thomas"),
"a obra é de viva atualidade, porque trata de modo sereno e documentado
urna doutrina sempre segura". Prego: Cr$ 1.500,00.
LITURGIA EVIDA

Revista de Liturgia e de Cultura Crista

DirecSo de D. JoSo Evangelista Ertout OSB. Bimestral. Em 1983 Inicia seu 30? ano
de publicacSo continua, acompanhando a poslcáo da Igreja em face da
vivencia e do pensamento religioso, da Liturgia e da Vida.

Assinatura para 1983: Cr$ 2.000,00

Número avulso CrS 350,00

GUIA PARA LEITURA BÍBLICA por D. Estévio Bettencourt. A Sagrada Escritura


ísobretudo o A.T.) para leitura diaria distribuida no decurso de um ano
com breves introduces a cada Tempo do ano. Formato de bolso, em cartees
na ordem do calendarlo litúrgico.

DIRETÓRIO LITÚRGICO da CongregacSo Beneditina do Brasil (1983) — Calen,


darlo para a celebracao das Horas e do Sacrificio da Missa nos mostelros,
¡grejas e capetas da Ordem de Sao Bento. Quadro Geral da Ordem no Brasil.

CUADROS MURÁIS em cores (74 x 55): 1. Fstrutura Geral da Missa. 2. O Ano


Litúrgico: Preserva de Cristo no tempo. — De grande utilidade para Colé
gios, Noviciados, Grupos da estudo pastoral. Paróquias. Vlsao de conjunto
do Ano Litúrgico e da Estrutura da Missa.

Llvros de Portugal

A IGREJA EM CRACAO, A. G. Martlmort, ene. 1070 págs. É urna IntroducSo geral


á Liturgia Obra que contribulu eficazmente para a renovaceo litúrgica
expressa na Constltuicáj Concillar "Sacrosanctum Concilium".

DOM COLUMBA MARMION OSB.: Algumas obras do famoso mestre espiritual,


que apresenta a doutrina de S. Paulo sobre a fillacáo divina, sintetizada na
frase: "Somos pela graca o que Cristo é por natureza: Filhos de Deus".
1. Jesús Cristo Vida da alma, 545 págs. (I Economía dos designios de Deus!
II Fundamento e duplo aspecto da vida crista). — 2. Jesús Cristo nos «ota
Misterios, 538 págs. 3. Jesús Cristo Ideal do monge, 680 pág3. — 4, Sponsa
Verbi (A alma consagrada ao Senhor), 84 págs. •'..-"

ATENDE-SE PELO REEMBOLSO POSTAL