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Paulo Neto

RELENDO A BÍBLIA,

REVENDO A TEOLOGI A

Vo l u m e I I

Análise crítica de alguns temas bíblicos de


acordo com uma visão não dogmática.
Agradecimentos

Os nossos sinceros agradecimentos a todos os


membros do Grupo Apologético Espírita – GAE,
(www.apologiaespirita.org) pelo apoio e
incentivo nas pessoas dos amigos Maurício C.
Pimenta, Dr. João Frazão de Medeiros Lima e Hugo
Alvarenga Novaes pelas suas valiosas sugestões
aos textos colocados nesse nosso livro.

Nossa eterna gratidão ao nosso companheiro e


mestre Gil Restani, que antes de retornar à pátria
espiritual nos honrou prefaciando essa obra.

À minha esposa Rosana e aos meus filhos Ana


Luisa, Rebeca e João Pedro, que souberam
compreender o tempo que lhes retiramos para
dedicar a esse livro.
Índice
Agradecimentos.........................................................................3
Apresentação.............................................................................5
Prefácio......................................................................................9
Nascido de uma virgem...........................................................12
Jesus de Belém ou de Nazaré?.................................................54
A Fuga para o Egito................................................................106
João Batista é mesmo Elias?...................................................113
Eucaristia: Jesus a instituiu?...................................................158
A conversa de Jesus com Nicodemos.....................................181
A traição de Judas: uma história mal contada........................213
A questão do bom ladrão.......................................................235
A morte de Agripa: quem conta um conto…..........................244
O Antigo Testamento foi revogado por Jesus?........................252
Jesus ficava calado?...............................................................269
Ressurreição da Carne?..........................................................292
O Consolador veio no Pentecostes?........................................306
Jesus pode ser considerado Deus?.........................................328
Conclusão Final......................................................................407
Referências Bibliográficas......................................................409
5

Apresentação

A Bíblia é um livro excepcionalmente importante para


toda a Humanidade.

Foi o primeiro livro a ser impresso tipograficamente,


sendo também a obra publicada no maior número de idiomas
em todo o mundo.

Para alguns, o livro representa a palavra de Deus, de


capa a capa. Para outros, entretanto, seu texto deve conduzir à
reflexão e apreciado como literatura alegórica, em muitas
oportunidades.

A Bíblia é chamada de “O Livro Sagrado”, pelo respeito


exacerbado que, ao longo dos séculos, foi construído pela
Igreja. A reforma protestante exaltou, ainda mais, o texto
bíblico, buscando torná-lo inatacável.

As gerações humanas se sucederam, sem que, mesmo


quanto aos trechos da Bíblia notoriamente exagerados ou
controversos se colocasse qualquer observação, sob pena de
granjear, o audacioso que assim procedesse, o epíteto de
herege ou sacrílego.

É inegável o excepcional valor de muitos ensinamentos


do livro.

É inaceitável, contudo, afirmar-se ser, todo o seu


conteúdo a palavra de Deus, tantas são as menções carentes
de racionalidade.
6

Com a evolução temporal, surgiram vários estudiosos


que deliberaram esclarecer, debater e reparar as passagens
bíblicas merecedoras de observação.

No Brasil, anteriormente, destacaram-se, como críticos


da Bíblia, o conspícuo Dr. Carlos Imbassahy, espírita convicto e
militante e o Dr. Mário Cavalcanti de Melo, autor do livro “Da
Bíblia aos Nossos Dias”, cujo subtítulo é: “Suas lendas, seus
erros e contradições”, em obra prefaciada pelo Professor
Deolindo Amorim.

Hodiernamente, irrompe outro grande estudioso da


Bíblia, em seus múltiplos aspectos, o estimado confrade Paulo
da Silva Neto Sobrinho, com os mesmos objetivos colimados
por aqueles precursores ilustres, qual seja, o de retirar as
“escamas” que perduram nos olhos de tantos, incrustados num
dogmatismo irremovível.

O escopo de Paulo Neto, nesta obra, confunde-se


integralmente ao daqueles baluartes, o que se pode
depreender da transcrição que, com a devida vênia faremos, de
excerto do prefácio do Professor Deolindo Amorim à obra de
Mário Cavalcanti de Melo:

“A preocupação do Autor, entretanto, é de quem, não


estando conformado com certos ensinos bíblicos até agora
aceitos como definitivos e verdadeiros, quer rasgar o véu que
ainda encobre muitas passagens da Bíblia e, assim, afastar
dúvidas ou equívocos sensivelmente prejudiciais à exata
compreensão de muitos pontos da História.”
7

A maior virtude desta nova obra analisadora e revisora


dos textos bíblicos é o enfoque de novos aspectos, sob uma
ótica, raciocínio e lógica diferentes. Entretanto, acontece com
todos aqueles que buscam estudar a Bíblia com base no
realismo, serem considerados heréticos e inimigos da fé.

Anteriormente, Paulo Neto lançou outra apreciada obra


sobre o mesmo tema: “A Bíblia à Moda da Casa”.

Evidenciando o fato de que a análise do texto bíblico


prossegue suscitando muito interesse, surgiu esta nova obra,
com nova formatação, em que os temas são estudados em
tópicos separados.

As incongruências, insubsistências e diatribes são


exaustivamente estudadas, e o Autor demonstra excepcional
capacidade ao demonstrá-las, e mais, de extrair conclusões
eivadas de racionalidade das suas colocações.

Assim como aconteceu com a sua obra antecedente, “A


Bíblia à Moda da Casa”, este novo trabalho do Autor é um libelo
contra o fanatismo e o dogmatismo.

Tudo porque o enfoque dado ao texto bíblico é calcado


num raciocínio embasado na Doutrina dos Espíritos, de Allan
Kardec.

O Espiritismo trouxe novos conhecimentos e novas


luzes, em campos do saber humano até então inamovíveis, seja
pelo tradicionalismo, seja pela oclusão mental. “Mais vale
repelir dez verdades do que admitir uma só mentira”, lecionou
o Codificador.
8

Paulo Neto embasa suas reflexões, observações e


conclusões no conhecimento espírita, que vem amealhando ao
longo de seus estudos, em estrita observância aos preceitos
doutrinários.

Todo o seu trabalho é, mui certamente, oriundo de


exaustivas pesquisas e de uma busca incessante de fontes
confiáveis, pois a abordagem e a temária mexe e incomoda aos
exegetas de plantão. O embasamento é necessário e, muitas
vezes, imprescindível, para abafar reações esdrúxulas dos que
se sentem atingidos com a exposição realista que é
apresentada.

Não é possível, entretanto, que se continue aceitando


como verdade intocável e inamovível certas colocações e
certas passagens bíblicas, à vista de equívocos e
impossibilidades que saltam à vista de quantos as compulsem.

Esta não é uma obra de leitura, mas sim de estudo.


Apresentada em tópicos, cada um deles vai suscitar reflexão
por parte do leitor. Alguns dos raciocínios e explicações
apresentados serão apreciados com surpresa, levando o leitor a
uma pergunta inevitável: “como nunca pensei nisso antes?”

Honra ao raciocínio, à crítica e à capacidade intelectiva


de Paulo Neto, lançando esta nova obra sobre assunto tão
delicado e tão profundo quanto o conteúdo da Bíblia.

Usufruamos desse manancial de informações.

Belo Horizonte, em 15/04/2005.


Gil Restani de Andrade (1941-2006)
9

Prefácio

Mantivemos, aqui nesse volume II, a apresentação do


nosso companheiro Gil Restani de Andrade, por dois motivos.
Um como uma singela homenagem póstuma a quem soube
viver plenamente os ensinamentos Espíritas, pois era, como se
diz, um Espírita de primeira linha. O outro, gostaríamos de
justificar porque, quando ele fez o prefácio, o texto do livro era
único, mas, por necessidade, acabou sendo publicado em três
volumes.

Continuando com o nosso estudo da Bíblia, agora


especificamente, aos textos do Novo Testamento, vamos rever
as explicações oferecidas pela teologia dogmática, para sair
das interpretações de conveniência, em busca daquilo que
realmente deve ser entendido os textos.

Como fizemos no Volume I, trabalhamos como se não


tivéssemos nenhuma informação sobre os assuntos enfocados
para que nada pudesse nos influenciar, já que os dogmas
poderiam nos manter estacionados nas mesmas interpretações
interesseiras, onde, para nós, se encontram os equívocos
teológicos, que não causam preocupação a quase ninguém.

Graças a Deus, estamos sentido uma crescente busca


dos fatos acontecidos, isso, como não poderia deixar de ser,
também acontece com os assuntos bíblicos. Disso
vislumbramos um horizonte menos nebuloso para a geração
10

futura, que não mais aceitará imposições dogmáticas, mas


quererá, e com razão, saber das coisas usando para isso a
lógica e a razão, longe do creio porque está escrito.

Em não mudou muito em relação ao Volume I, ou seja, o


nosso raciocínio sempre nos guiou para resultados
completamente diferentes dos dogmas e interpretações que
estávamos acostumados a acreditar. Entretanto, sempre nos
apoiando em pesquisas formamos as bases consistentes e
sólidas que nos levaram aos mesmos resultados, pelos quais já
vimos no primeiro volume. A razão e lógica foram as bases que
buscamos para sustentá-los.

Continuamos na certeza de que muitos dos nossos


estudos chocarão algumas pessoas, especialmente aos
fundamentalistas que não arredam o pé daquilo que
aprenderam. Mas a busca da verdade que fomos, nesse tempo
todo, pautando os nossos estudos, não nos permitiu preocupar
a qual resultado final poderíamos chegar.

O choque mais extraordinário que tivemos foi quando,


no estudo das citadas profecias a respeito de Jesus, não
encontramos uma só que pudéssemos nos apegar como uma
verdadeira profecia, explícita e direta, a seu respeito.
Acreditamos que isso também chocará a muitos, entretanto,
achamos que a verdade deverá se sobrepor, até mesmo porque
Jesus nos recomendou: “Conhecereis a verdade e a verdade
vos libertará”. Agora, mais do que nunca, entendemos o
verdadeiro sentido dessa frase. Falava o Mestre justamente das
adulterações, das interpolações, das interpretações de
conveniência que fariam de seus ensinamentos, buscando,
11

principalmente, subjugar os fiéis, os quais se tornam, em suas


mãos, nada mais que simples joguetes do interesse do poder
social ou financeiro, base fundamental de seus princípios, que
nada tem, é claro, a ver com a verdade que liberta.

E reafirmamos que esse nosso estudo poderá, se bem


divulgado, causar descontentamento em determinada liderança
religiosa, essa a qual mais evidência o interesse do poder e do
dinheiro, da qual já falamos. Mas encontrará repercussão
favorável naqueles em que, como nós, o mais importante é a
verdade legítima, não a fabricada por interesses como essas
que vigoram entre quase todas as denominações cristãs.

Queremos ver outros autores, os mais gabaritados que


nós, levando adiante essa ideia que iniciamos com esse livro
Relendo a Bíblia, Revendo a Teologia, de forma a forçar uma
revisão teológica, a qual achamos urgente e necessária de se
fazer.

Da mesma forma que no Volume I, os textos serão


colocados, quando for possível, na ordem em que os assuntos
aparecem no AT, quando isso não possível, serão colocados na
ordem cronológica em que foram escritos.

Paulo Neto
12

Nascido de uma virgem

“O que pode ser afirmado sem provas também


pode ser descartado sem provas”.
(CHISTOPHER HARRIS).

Era costume muito comum de nossos antepassados


colocar seus heróis como provindos de nascimentos
sobrenaturais, cujas mães eram invariavelmente jovens
virgens; ocorrência que também podemos verificar na mitologia
de muitos dos povos da antiguidade, falando de deuses que,
em contato com jovens virgens, geravam semideuses, os quais
teriam, ao mesmo tempo, a condição de ser humano e divino.

Mulheres virgens se engravidando de deuses, somente


se vê isso na mitologia antiga, onde é coisa comum, conforme o
que se poderá ver em vários autores, como, por exemplo, nos
vários que citaremos a seguir.

Pepe Rodríguez, no capítulo III, item “Nascer de virgem


fecundada por Deus foi um mito pagão bastante difundido em
todo o mundo antigo anterior a Jesus”, do livro Mentiras
fundamentais da Igreja Católica, afirma:

Lendas pagãs deste género foram obviamente


integradas na Bíblia, não só nos referidos relatos dos
nascimento de Sansão, de Samuel ou de João Batista,
como, muito mais tarde, no relato do nascimento de
Jesus. Regra geral, desde tempos remotos, quando o
personagem anunciado era de primeira ordem, a
13

mãe era sempre fecundada por Deus, através de um


procedimento milagroso que, fosse ele qual fosse,
confirmava claramente o mito da concepção virginal.
Esta confirmação era particularmente patente na
concepção dos deuses-Sol, uma categoria a que, como
veremos, pertence a figura de Jesus Cristo. (1) (grifo
nosso)

E, um pouco mais à frente, completa:

Todos os grandes personagens, tenham sido eles


reis ou sábios – como, por exemplo, os gregos Pitágoras
(c. 570-490 a.C.) ou Platão (c 417-347 a.C.) –, ou se
tenham tornado o centro de alguma religião e acabado
por ser adorados como “filhos de Deus” (Buda, Krishna,
Confúcio e Lao Tsé) foram mitificados pela posteridade
como filhos de uma virgem. Jesus, surgido muito depois,
mas destinado a desempenhar um papel semelhante ao
que os seus antecessores haviam desempenhado, não
podia ter um estatuto inferior ao deles. Desse modo, o
budismo, o confucionismo, o tauismo e o
cristianismo, ficaram indelevelmente marcados pelo
facto de terem sido fundados por um “filho do Céu”,
encarnado através do acesso directo e sobrenatural
de Deus ao ventre de uma virgem especialmente
escolhida e apropriada. (2) (grifo nosso)

Acrescentamos Hans Küng, que também nos traz


informações interessantes:

[…] Na mitologia greco-helénica os deuses


também contraem “matrimónios sagrados” com
filhas de humanos, dos quais nascem filhos de

1 RODRÍGUEZ, 2007, p. 100-101.


2 RODRÍGUEZ, 2007, p. 103.
14

deuses tais como Perseu e Herácles ou também figuras


históricas como Homero, Platão, Alexandre, Augusto. É
impossível deixar de reparar no seguinte: a
concepção virginal em si não é algo exclusivamente
cristão! A ideia de concepção virginal, é, pois, segundo
a exegese actual, utilizada por ambos os evangelistas
como lenda ou saga “etiológica”, com o objectivo de
apresentar uma “justificação” (grego, “aitía”) para a
existência do filho de Deus. […] (3) (grifo nosso, a não
ser o da antepenúltima linha, que é do original)

Edward Carpenter (1844-1929) traz curiosas


observações, quanto ao tema; vejamos:

Mas quase mais notável que a crença mundial nos


salvadores é a lenda igualmente difundida de que eles
nasceram de Mães-Virgens. Não há quase nenhum
deus – como já tivemos a oportunidade de ver – que
seja adorado como um benfeitor da humanidade nos
quatro continentes, Europa, Ásia, África e América –
que não tenha nascido de uma Virgem, ou pelo
menos, de uma mãe que atribuísse a concepção não
a um pai humano, mas sim ao céu. E isso parece, à
primeira vista, o mais surpreendente, porque acreditar
em tal possibilidade é muito absurdo para nossa mente
moderna. Tanto que, enquanto pareceria natural que tal
lenda tivesse se espalhado espontaneamente em
alguma parte incivilizada do mundo, achamos difícil
entender como, nesse caso, teria se espalhado tão
rapidamente por todas as partes, ou – se não se
espalhou – como podemos explicar seu surgimento
espontâneo em todas essas regiões. (4) (grifo nosso)

3 KÜNG, 1997, p. 56.


4 CARPENTER, 2008, p. 108.
15

Carpenter lista também vinte e uma semelhanças da


história de Jesus com histórias antigas de deuses, o que não
deixa de ser algo surpreendente; vejamos o que ele diz:

A história de Jesus, como vemos, tem muita


semelhança com as histórias dos antigos deuses
Sol e com o percurso atual do Sol nos céus – tantas
coincidências, que não podem ser atribuídas à mera
coincidência ou até mesmo a blasfêmias do Demônio!
Vamos enumerar algumas delas. Há (1) o
nascimento da Virgem; (2) o nascimento na
manjedoura (caverna ou câmera subterrânea); e (3) em
25 de dezembro (logo depois do Solstício de Inverno).
Há (4) a Estrela do Leste (Sírio) e (5) a chegada dos
magos (os “Três Reis”); há (6) o Massacre dos
Inocentes, e o vôo para um país distante (dito também
de Krishna e outros deuses Sol). Há os festivais da
Igreja de (7) Candelária (2 de fevereiro), com procissões
das velas para simbolizar a luz crescente; há (8) a
Quaresma, ou a chegada da primavera; há o (9) dia de
Páscoa (normalmente em 25 de março) para celebrar a
travessia do Equador pelo Sol; e (10) simultaneamente a
explosão de luzes no Sepulcro Sagrado em Jerusalém.
Há (11) a Crucificação e a Morte do carneiro-deus, na
sexta-feira santa, três dias antes da Páscoa; há (12) a
prisão feita com pregos em uma árvore, (13) o túmulo
vazio, (14) a Ressurreição (nos casos de Osíris. Attis e
outros); há (15) os doze discípulos (os signos do
Zodíaco); e (16) a traição de um dos doze. Depois, há
(17) o Dia do Meio do Verão, o dia 24 de junho,
dedicado ao nascimento de João Batista, e
correspondente ao dia de Natal; há as festas da (18)
Assunção da Virgem (15 de agosto) e do (19)
nascimento da Virgem (8 de setembro),
correspondentes ao movimento do Sol por Virgem; há o
conflito de Cristo e seus discípulos com os asterismos
outonais, (20) a Serpente e o Escorpião; e finalmente há
16

um fato curioso de que a Igreja (21) dedica o dia do


Solstício de Inverno (quando qualquer um pode,
naturalmente, duvidar do renascimento do Sol) a São
Tomé, que duvidava que a Ressurreição fosse
verdadeira! Algumas coincidências, mas não todas,
estão em questão. Mas elas são suficientes, acredito eu,
para provar – mesmo permitindo possíveis margens de
erro – a verdade de nossa contenção geral. Entrar no
paralelismo dos caminhos de Krishna, o deus Sol
indiano, e Jesus demoraria muito tempo; porque, de
fato, a semelhança é muito grande." Eu proponho, no
entanto, ao final deste capítulo, que nos aprofundemos
um pouco na festa cristã da Eucaristia, em parte por
causa de sua relação com a derivação de rituais
astronômicos e celebrações da Natureza já referidas, e
em parte por causa da luz que a festa geralmente, seja
ela cristã ou pagã, joga sobre as origens da Mágica
Religiosa – um assunto que devo abordar no próximo
capítulo. (5) (grifo em itálico do original, em negrito
nosso)

E, terminado essas citações, trazermos H. Spencer Lewis


(1883-1939):

Posso acrescentar que nossos próprios registros de


tradições antigas e escrituras sagradas contêm muitas
referências a movimentos religiosos da antiguidade,
cujo grande líder era considerado “O Filho de Deus”.
A Índia teve um grande número de Avatares ou
Mensageiros Divinos, Encarnados por Concepção
Divina, tendo dois deles levado o nome de “Chrishna”,
ou “Chrishna o Salvador”. Consta que Chrishna nasceu
de uma virgem casta chamada Devaki que, por sua
pureza, fora escolhida para se tornar a mãe de Deus.

5 CARPENTER, 2008, p. 35-36.


17

Neste exemplo, encontramos a antiga história de uma


virgem dando à luz um mensageiro de Deus
divinamente concebido.
Buda foi considerado por todos os seus seguidores
como gerado por Deus e nascido de uma virgem
chamada Maya ou Maria. Nas antigas histórias sobre o
nascimento do Buda, tais como são compreendidas por
todos os orientais e como são encontradas em seus
escritos sagrados muito anteriores à Era Cristã, vemos
como o poder Divino, chamado o Espírito Santo, desceu
sobre a virgem Maya. Na antiga versão chinesa dessa
história, o Espírito Santo é chamado Shing-Shin.
Os siameses tinham igualmente um deus e
salvador nascido de uma virgem e que eles
chamaram Codom. Nesta velha história, a bela e jovem
virgem fora informada com antecedência de que se
tornaria mãe de um grande mensageiro de Deus e, um
dia, enquanto fazia seu período usual de meditação,
concebeu através de raios de sol de natureza Divina. O
menino nasceu e cresceu de maneira singular e notável,
tornou-se um protegido da sabedoria e fez milagres.
Quando os primeiros europeus visitaram o Cabo
Comorim, na extremidade sul da península do Industão,
surpreenderam-se ao encontrar os naturais do lugar,
que nunca haviam tido contato com as raças brancas,
cultuando um Senhor e Salvador que fora divinamente
concebido e nascera de uma virgem.
E quando os primeiros missionários jesuítas
visitaram a China, escreveram em seus relatórios que
haviam ficado consternados por encontrarem na religião
pagã daquela terra a história de um mestre redentor
que nascera de uma virgem por concepção divina.
Ao que consta, esse deus havia nascido 3468 anos a.C.
Lao-Tse, o famoso deus chinês, também nascera de
uma virgem, de pele negra, sendo descrita como a bela
e maravilhosa como o jaspe.
18

No Egito, bem antes do advento do cristianismo e


muito antes do nascimento dos autores da Bíblia ou de
qualquer doutrina concebida como cristã, o povo
egípcio já tivera vários mensageiros de Deus
nascidos de virgens por Concepção Divina. Hórus,
segundo o sabiam todos os antigos egípcios, havia
nascido da virgem Ísis, sendo sua Concepção e seu
nascimento um dos três grandes mistérios ou doutrinas
místicas da religião egípcia. Para eles, todos os
incidentes ligados à Concepção e ao nascimento de
Hórus eram pintados, esculpidos, adorados e
cultuados como o são os incidentes da Concepção e
do nascimento de Jesus pelos cristãos de hoje.
Outro deus egípcio, Ra, nascera de uma virgem.
Examinei uma das paredes de um antigo templo na
margem do Nilo, onde há um belo quadro esculpido
representando o deus Tot – o mensageiro de Deus –
dizendo à jovem Rainha Mautmes que daria à luz um
Divino Filho de Deus, que seria o rei e Redentor de
seu povo.
Ao nos voltarmos para a Pérsia descobrimos que
Zoroastro foi o primeiro dos redentores do mundo a ser
aceito como nascido em plena inocência, pela
concepção de uma virgem. Antigos entalhes e pinturas
deste grande mensageiro mostram-no cercado por uma
aura de luz que inundava o humilde local de seu
nascimento. Ciro, rei da Pérsia, também era tido
como nascido de origem divina, e nos registros de
seu tempo ele é chamado de Cristo ou Filho ungido
de Deus e considerado mensageiro de Deus. (6) (grifo
nosso)

Com o dito por esses escritores confirma-se, portanto, o


que falamos a respeito de ser comum atribuir-se a certos
personagens heroicos o nascimento de uma virgem.

6 LEWIS, 2001, p. 74-76.


19

Entendemos como um fato perfeitamente aceitável, em


virtude desses fatores culturais, querer-se também atribuir a
Jesus essa condição de nascimento sobrenatural e, como não
poderia deixar de ser, nascido de uma virgem. O que não é
natural é procurar manter, a todo custo, essa visão ingênua,
ainda nos dias de hoje.

Por outro lado, os teólogos sempre quiseram colocar o


sexo como coisa pecaminosa, motivo pelo qual Jesus não
poderia ter vindo de “forma impura”; não é mesmo? Justifica-
se, de certa maneira, o celibato sacerdotal, ou seja, os “santos”
padres não poderiam praticar coisa considerada impura; assim
não poderiam se casar.

Outro fator, que provavelmente veio em apoio ao


celibato, foi a questão da herança dos padres, que, se casados,
não seria incorporada ao patrimônio da instituição religiosa da
qual faziam parte, já que teria que ficar com os familiares. Bom;
mas isso é uma outra questão; assim, voltemos ao assunto
central do texto.

Sempre dissemos que, por ser Jesus o primogênito,


evidentemente, e pelo contexto cultural da época, já que
viviam numa sociedade extremamente machista, Maria, ao se
casar com José, era indubitavelmente virgem; assim, nesse
sentido, podemos simbolicamente considerar Jesus como
nascido de uma virgem.

Outra coisa que sempre falávamos é quanto à questão


do sexo ser impuro. Não admitimos essa hipótese de forma
alguma, já que foi Deus que fez o ser humano em duas
polaridades; a masculina e a feminina, com órgãos sexuais
20

diferentes.

Pensamos que, se o sexo for realmente “pecado”,


devemos convir que Deus não foi muito justo conosco, pois,
além de o conceber de forma a haver “atração fatal” entre os
dois sexos – homem e mulher –, ainda por cima coloca prazer
no ato sexual; mas de “espada em punho” diz: Se fizer é
pecado ou é coisa impura. Absurdo teológico, que encontra
campo fértil somente em cabeça de fanáticos, não na de
pessoas dadas a utilizar a inteligência, de que Deus dotou a
raça humana.

Vejamos os argumentos de Carlos Torres Pastorino


(1910-1980):

A IMPOSIÇÃO DIVINA do uso do sexo para


manutenção e multiplicação de Sua criação, nos
diversos estágios evolutivos (plantas, animais e
homens) vem provar que o sexo é SANTO. Não
podemos admitir que Deus, Sábio e Bom, tivesse
imposto obrigatoriamente as Suas criaturas uma
condição que, ao cumpri-la, as tornasse imperfeitas. Se
no ato sexual houvesse uma leve imperfeição sequer, ou
um sinal de atraso espiritual, esse Deus seria
monstruosamente mau, pois teria obrigado Sua criação
a ser imperfeita e atrasada, a fim de manter e multiplicar
Suas obras. Portanto, compreendendo o ato sexual
em si e a maternidade como perfeições altamente
espiritualizantes (porque são o cumprimento de uma
Lei Divina), achamos que Maria se engrandece perante
Deus com a maternidade normal, porque assim dá
demonstração de ser fiel e obediente cumpridora da
Vontade Divina. Compreendendo bem esse problema, o
jesuíta padre Teilhard de Chardin atribui à sexualidade
um sentido cósmico e afirma que o mundo não se
21

diviniza por supressões, mas por sublimação, e ainda:


que o homem e a mulher tanto mais se unirão a Deus,
quanto mais se amarem, não vendo apenas o objetivo
admirável mas transitório da reprodução, mas o de dar
plena expansão à quantidade do amor, liberado do
dever da reprodução. E diz claramente, sem
subterfúgios: a mulher é, para o homem, o termo
susceptível de impulsionar esse progresso para a frente.
Pela mulher, e só pela mulher, pode o homem escapar
ao isolamento, no qual sua própria perfeição se
arriscaria prendê-lo. (L'énergie humaine, édition Seujl,
pág. 93 a 96). Realmente a união sexual dentro do amor
é a imagem mais fiel da união do homem com a
Divindade, e por isso os místicos denominam essa
unificação do homem com Deus de Esponsalício.
Na profecia de Isaías, o menino seria chamado ‫ץמוד‬
‫ אב‬Himmanu-El, que significa Deus conosco, exprimindo
a grande verdade de que Deus ESTA REALMENTE
DENTRO DE NÓS, está CONOSCO. (7) (grifo nosso)

Se sexo for mesmo pecado, então Deus, de antemão,


condenou Adão e Eva a pecar, e por consequência toda a
humanidade, quando disse ao suposto primeiro casal: “Crescei-
vos e multiplicai-vos!” (Gênesis 1,22.28).

Se a mulher só “… será salva pela sua maternidade,


desde que permaneça com modéstia na fé, no amor e na
santidade” (1 Timóteo 2,15) (grifo nosso), então ficamos num
beco sem saída, pois, não havia como ser mãe sem fazer sexo
(considerando a época de Paulo).

Vejamos, na narrativa de Mateus, o texto no qual tomam


base para afirmar sobre a virgindade de Maria; ampliamo-lo um

7 PASTORINO, vol. 1, 1964a, p. 55.


22

pouco mais, pois temos uma importante consideração a fazer.

Mateus 1,18-25: “A origem de Jesus, o Messias, foi


assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento
a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida
pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era
justo. Não queria denunciar Maria, e pensava em deixá-
la, sem ninguém saber. Enquanto José pensava nisso, o
Anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, e disse:
'José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria
como esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito
Santo. Ela dará à luz um filho, e você lhe dará o nome
de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus
pecados'. Tudo isso aconteceu para se cumprir o
que o Senhor havia dito pelo profeta: 'Vejam: a
virgem conceberá, e dará à luz um filho. Ele será
chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus
está conosco'. Quando acordou, José fez conforme o
Anjo do Senhor havia mandado: levou Maria para casa,
e, sem ter relações com ela, Maria deu à luz um filho. E
José deu a ele o nome de Jesus.” (grifo nosso)

Veja bem, caro leitor, que no texto bíblico está se


afirmando que José, o pai, é filho de Davi, para estabelecer a
ligação da criança como descendente do rei Davi. Ótimo isso,
pois isso implica dizer que José é pai biológico de Jesus,
porquanto, somente dessa maneira ele poderia ser
descendente de Davi, a não ser que argumentem que o
“Espírito Santo”, que creem ter fecundado Maria, seja também
filho de Davi. Mas isso seria o máximo em apelação, não é
mesmo?

Lucas afirma que Maria estava “prometida em


casamento a um homem chamado José, que era descendente
de Davi” (Lucas 1,27) (grifo nosso). E, para não pairar dúvidas,
23

quanto a Jesus ter nascido biologicamente de José, trazemos


uma fala de Paulo aos romanos, quando, se referindo ao Mestre,
disse: “… nascido da estirpe de Davi segundo a carne”
(Romanos 1,3) (grifo nosso). Portanto, admitir que Jesus não
seja filho biológico de José está indo contrário ao que se deduz
dos textos bíblicos; isso sem mencionarmos que não fere a
lógica.

Maria Helena de Oliveira Tricca (1940-1997) em


Apócrifos I – Os proscritos da Bíblia, cita a obra “A história de
José o carpinteiro”, na qual lemos: “Assim José o Carpinteiro,
pai de Cristo segundo a carne, abandonou esta vida mortal
e viveu cento e doze anos. […].” (8) (grifo nosso), o que
corrobora o dito por Paulo. Isso nos induz a concluir que àquela
época não tinham Jesus como fruto de fecundação do Espírito
Santo, mas um homem, nascido de homem.

Por outro lado, considerando que para os judeus “Ruah é


palavra hebraica, feminina, que significa Espírito, […].” ( 9), é
pouco provável que a utilizassem para sustentar que Maria
havia se engravidado de uma mulher. Pode-se ver que em o
Evangelho de Felipe, consta exatamente isso:

17. Alguns dizem que Maria concebeu por obra do


Espírito Santo. Esses se equivocam, não sabem o que
dizem. Quando alguma vez uma mulher foi concebida
de uma mulher? Maria é a virgem a quem Potência
alguma jamais manchou. Ela é uma grande anátema
para os judeus que são os apóstolos e os apostólicos.
Esta Virgem que nenhuma Potência violou, [… enquanto

8 TRICCA, 1995a, p. 197.


9 TRICCA, 1995b, p. 176.
24

que] as Potências se contaminaram. O Senhor não


[teria] dito: “Pai meu que estás no céu”, se não tivesse
outro pai; do contrário haveria dito simplesmente: “[Pai
meu]”. (10) (colchetes do original)

Ao que parece, alguns tradutores se prendem aos


dogmas instituídos; como exemplo, citamos o Pe. Matos Soares,
de quem trazemos essa explicação para Mateus 1,16:

José, esposo de Maria. O Evangelista, descrevendo


a genealogia de São José, conforma-se com o costume
hebraico de só atender aos homens nas tábuas
genealógicas. Todavia, dá-nos, ao mesmo tempo, a
genealogia de Jesus, visto que Maria era também
descendente de Davi. – Da qual nasceu Jesus. O
Evangelista não diz que José gerou Jesus, pois o
Salvador foi concebido no seio de Maria, por obra do
Espírito Santo. São José não foi pai natural de Jesus,
mas somente pai legal, como verdadeiro e legítimo
esposo de Maria. (11) (grifo nosso)

Nosso impasse está no seguinte: Ou Jesus é filho


biológico de José, o que fazia dele o Messias esperado, ou é
filho do “Espírito Santo” e não é o Messias.

Era de se esperar que a dogmática, querendo sair do


impasse, tentasse justificar-se dizendo que Maria também era
filha de Davi; entretanto, “a emenda saiu pior que o soneto”
(Bocage12), já que os judeus tinham a crença de que somente o

10 TRICCA, 1995b, p. 182.


11 Bíblia Sagrada – Paulinas, 1957, p. 1178.
12 Link:
http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?
idt=140926
25

homem é que dava a descendência; é por isso que todas as


genealogias na Bíblia são traçadas em relação ao pai e não à
mãe da pessoa.

Voltemos ao passo de Mateus, especificando os


versículos que falam de uma virgem e a suposta profecia
dizendo que Jesus, como Messias e filho de Davi, veio cumprir:

Mateus 1,22-23: “Tudo isso aconteceu para se cumprir o


que o Senhor havia dito pelo profeta: 'Vejam: a virgem
conceberá, e dará à luz um filho. Ele será chamado
Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco'.” (grifo
nosso)

Profecia: Isaías 7,14: “Pois saibam que Javé lhes dará


um sinal: A jovem concebeu e dará à luz um filho, e o
chamará pelo nome de Emanuel.” (grifo nosso)

Qualquer estudioso bíblico, não compromissado com


alguma teologia, verá que esse passo de Isaías nada tem a ver
com Jesus. Devemos, para melhor compreendê-lo, dizer que é
preciso ler os versículos anteriores, iniciando pelo 10,
porquanto são sempre subtraídos quando tentam apontar essa
profecia:

Isaías 7,10-13: “Javé falou de novo a Acaz, dizendo:


'Pede para você um sinal a Javé seu Deus, nas
profundezas da mansão dos mortos ou na sublimidade
das alturas'. Acaz respondeu: 'Não vou pedir! Não vou
tentar a Javé!' Disse-lhe Javé: 'Escute, herdeiro de Davi,
será que não basta a vocês cansarem a paciência dos
homens? Precisam cansar também a paciência do
próprio Deus?'” (grifo nosso)

Estritamente dentro do contexto o sinal que Deus


26

promete é ao rei Acaz, cuja mulher, uma jovem, estava grávida,


fato que podemos confirmar:

O reino do Norte (Efraim), cujo rei era Faceia, se


aliou a Rason, rei de Aram, numa tentativa de se libertar
do perigo assírio. Como o reino do Sul (Judá) não
participou da coalizão entre o reino do Norte e Aram,
estes dois temeram que Judá se tornasse aliado da
Assíria; resolveram então atacar o reino do Sul, para
destronar o rei Acaz e colocar no seu lugar o filho de
Tabeel, rei de Tiro. Acaz teme o cerco e verifica a
reserva de água da cidade. Isaías vai ao seu encontro e
o tranquiliza, mostrando que não haverá perigo, pois
continua válida a promessa de que a dinastia de Davi
será perene, desde que se coloque total confiança em
Javé. O sinal prometido a Acaz é o seu próprio filho,
do qual a rainha (a jovem) está grávida. Esse menino
que está para nascer é o sinal de que Deus permanece
no meio do seu povo (Emanuel = Deus conosco). ( 13)
(grifo nosso)

Então, temos que, pelo contexto bíblico e confirmado por


essa explicação, fica fácil perceber que Deus, na verdade,
promete um sinal ao rei Acaz e esse sinal é o filho do rei que
estava por nascer. Dar uma explicação fora disso é tentar
distorcer a interpretação realista do texto.

Ademais, esse sinal é um fato presente e não algo para


um futuro longínquo, ou seja, uma previsão; portanto, é agir
fora do contexto, quando querem transformá-lo numa profecia
a respeito de Jesus.

Além disso, o nome Jesus significa “Deus é salvação”;

13 Bíblia Sagrada – Pastoral, p. 954-955.


27

portanto, incontestavelmente, distinto de Emanuel que quer


dizer “Deus está conosco”, exatamente o nome mencionado ao
rei Acaz, o que a dogmática, cega pelo fanatismo, não
consegue enxergar e, ao que parece, nem pretende.

Ampliando a explicação do verbete Emanuel,


transcrevemos:

É o nome dado por Isaías a uma futura criança


cujo nascimento será, para o rei Acaz, o “sinal” da
assistência divina (Is 7,14-17). A interpretação deste
oráculo deve estar ligada ao significado do nome e ao
alcance que terá na conjuntura daquele momento. O
reino de Judá é ameaçado pelos sírios e efraimitas
aliados, que querem acertar contas com a dinastia
reinante, a mesma dinastia que se beneficia das
promessas feitas a Davi. Em vez de recorrer a essas
promessas, Acaz apela para a Assíria. Isaías condena
este modo de agir e proclama: Deus está presente; ele
está “conosco”.
Qual será a criança cujo nascimento será
portador de uma mensagem como esta? Como é ao
rei, contemporâneo de Isaías, que o sinal será dado, o
nascimento anunciado deve ocorrer proximamente.
Será Ezequias – afirma-se muitas vezes, e com boas
razões. Mas esta criança é descrita numa linguagem
poético-mítica, concretamente irrealizável. O oráculo
abre portanto uma perspectiva que vai além do rei em
questão. Graças a este oráculo, os crentes, insatisfeitos
com os reis históricos, esperarão por uma personagem
que finalmente satisfará a esperança deles. Mateus e os
cristãos posteriores a ele reconhecem em Jesus aquele
que realiza plenamente o anúncio de Isaías (Mt 1,23).
(14) (grifo nosso)

14 MONLOUBOU e DU BUIT, 1997, p. 226.


28

Confirma-se, portanto, que a suposta profecia não se


refere mesmo a Jesus, conforme ficou bem claro na explicação
acima.

Passar por cima do contexto histórico, ignorando as


narrativas dos fatos, para aplicar ao que desejam, não é muito
saudável, pois, a cada dia que se passa, a crítica literária vai
revelando.

Não bastasse o que já apresentamos, há ainda um outro


problema: é quanto ao significado da palavra hebraica almah
usada em Isaías. Para os tradutores da Bíblia de Jerusalém “O
termo hebraico ‘almah’ designa, quer a donzela, quer uma
jovem casada recentemente, sem explicitar mais.” (15)

Quanto a essa questão, vejamos estas outras


explicações:

O fato de os cristãos tomarem como própria a


tradução da LXX e de a usarem nas controvérsias com
os judeus, conduziu a uma progressiva rejeição desta
versão pelos judeus que acabaram substituindo-a por
novas traduções mais fiéis ao texto rabínico. Um
exemplo típico de divergência entre o texto hebraico
e o grego, citado em todas as controvérsias entre
judeus e cristãos é Is 7,14, onde a LXX traduz o termo
hebraico 'almâ, “jovem (casada ou recém-casada)”,
por parthénos, “virgem” em vez do mais apropriado
neânis. Os judeus rejeitaram esta tradução da LXX, pois
os cristãos viam nela uma profecia do nascimento
virginal de Cristo (d. p. 621). (16) (grifo nosso)

15 Bíblia de Jerusalém, p. 1265.


16 BARRERA, 1999, p. 369.
29

Por outro lado, um erro de leitura pode originar um


novo texto considerado inspirado, embora isto não
signifique que a doutrina exposta derive
necessariamente do erro textual cometido. O caso mais
chamativo é a citação em Mt 1,22 de, ls 7,14: “a virgem
conceberá um filho”. Não se trata, neste caso, de erro
do copista, nem de tradução errada. O que se produziu
foi um deslocamento de significado. Os tradutores
gregos entendiam perfeitamente o sentido da
palavra hebraica 'almâ, traduzida por parthénos no
sentido de “jovem” e não de “virgem”. Os cristãos,
que criam no nascimento misterioso de Cristo,
interpretaram o texto de Is como profecia do
nascimento “virginal” do Messias, atribuindo ao
termo parthénos o significado de “virgem”. (17) (grifo
nosso)

Sustentar, como o faz a Igreja Católica, que


almah de Isaías foi uma virgem implica persistir
conscientemente num engano por motivos
doutrinais interesseiros, sobretudo quando se sabe
que as outras almah bíblicas foram corretamente
traduzidas por moçoilas, como pode-se ver na almah de
Provérbios (18) e nas alamoth do Cântico dos Cânticos
(19) que, obviamente, segundo se deduz pelo contexto,
perderam a sua virgindade, respectivamente, na
sequência do “rastro do homem” e da sua função no
harém real.
Todas as versões independentes – ou,
simplesmente, não católicas – da Bíblia traduziram a

17 BARRERA, 1999, p. 397-398.


18 Nota da transcrição (N.T.): “Três coisas me espantam e há uma quarta que
não alcanço: o rasto da águia nos ares, o rasto da serpente sobre a rocha, o
rastro do navio no meio do mar e o rastro do homem na moçoila” (Prov
30,18-19).
19 N.T.: “Setenta são as rainhas, oitenta as concubinas, e inúmeras as
moçoilas” (Cant 6,8).
30

almah de Isaías por moçoila (ou por donzela) ( 20), o


que não só é lógico, como coerente com a
sequência do texto de Isaías. Aliás, este, no início do
texto citado, concentra-se apenas no nome que seria
dado à criança, ignorando totalmente a mãe, o que seria
absurdo se se tratasse de uma virgem, que,
permanecendo tal, estivesse prestes a dar à luz. […]. ( 21)
(grifo nosso)

A referência à profecia de Isaías é também


estropiada. A passagem citada encontra-se
efetivamente no livro desse profeta (VII, 14), mas, no
contexto, ela não anuncia a vinda do Messias. A palavra
hebraica alma nessa passagem significa “mulher jovem”,
e não «virgem». E Isaías nada diz aí sobre o Messias:
“Mas, antes que o menino saiba rejeitar o mal, e
escolher o bem, o país do qual tu temes os dois reis
será abandonado”. (Isaías, VII, 16). Isaías não atribui
nada de sobrenatural ao seu nascimento, ele prediz
que a criança verá a luz em uma época que precede
de sete séculos a data dos evangelhos e diz, aliás,
que o hão de chamar de Emanuel. Para eliminar esta
contradição, Mateus pretende que um anjo visto em
sonho por José lhe ordenou que desse ao menino o
nome de Jesus, que quer dizer em hebreu “Deus
Salvador”.
Portanto, nada neste capítulo pode servir para
confirmar a historicidade de Jesus. Ao contrário, sua
genealogia, a concepção imaculada, a citação de
Isaías, o anjo que apareceu a José, demonstram que

20 N.T.: O versículo 14, tal como aparece traduzido na Bíblia católica de Nácar-
Colunga, “Eis que a virgem grávida dá à luz um filho e lhe põe o nome de
Emmanuel”, não é uma tradução correcta do original, já que neste o
que se diz é exactamente o seguinte: “Vês esta moçoila
engravidada que vai dar à luz um filho. Seu filho chamar-se-á
Emmanuel…” que tem um sentido descritivo absolutamente diferente,
pois coloca o facto no presente, evitando, desse modo, qualquer
especulação profética. (grifo nosso)
21 RODRÍGUEZ, 2007, p. 131.
31

Mateus procurou, bastante desajeitadamente aliás,


juntar as profecias sobre o Messias, e os elementos
dos cultos orientais, o que nos permite discernir
facilmente as partes constitutivas do mito de Jesus. ( 22)
(grifo nosso)

Mateus faz também referência a um antigo adágio do


profeta Isaías: “eis que uma virgem conceberá, e dará à
luz um filho, e será o seu nome Emanuel” - como se
dissesse que a gravidez de Maria era a realização dessa
profecia (Isaías 7:14. (23). Mas Isaías faz referência a
uma criança que deveria nascer na sua própria
época, no século VIII a.C., cujo nascimento seria um
sinal para o rei Ahaz, que então governava. A palavra
hebraica (almah) que Mateus traduz por “virgem”,
em sua versão grega, significa “jovem mulher” ou
“donzela”, sem introduzir qualquer implicação
miraculosa. (24). A criança receberia o nome pouco
comum de Emanuel, que significa “Deus conosco”, e
Isaías garante ao rei Ahaz que, antes que essa criança
tenha idade suficiente para distinguir “o bem do mal”, os
assírios que ameaçavam Jerusalém e a Judeia seriam
removidos da face da terra. Ahaz não teria que esperar
muito tempo. Mateus infere que a profecia de Isaías
foi “realizada” pelo miraculoso nascimento virgem
de Jesus – o que claramente não é o sentido do

22 LENTSMAN, 1963, p. 175.


23 N.T.: Todas as traduções da Bíblia foram feitas por mim, exceto se indicado
de outra forma. Empreguei itálico para enfatizar determinadas partes.
24 N.T.: A tradução grega da Bíblia hebraica, conhecida como Septuaginta ou
LXX, usou a palavra parthenos em Isaías 7:14. Significa “virgem”,
porém o sentido evidente do contexto não é o de uma mulher que
engravida sem nenhum homem, mas de uma menina virgem que
nunca fez sexo ficando grávida. Este bebê singular não nasceria de
uma mulher que já teve filhos, mas de uma que era virgem quando ficou
grávida. Como Mateus escreveu em grego e está citando Isaías, ele
também usa a palavra parthenos. Quanto a Versão Revisada do Antigo
Testamento foi publicada, em 1952, os tradutores empregaram
corretamente o termo “jovem”, em vez do tradicional “virgem”, em Isaías
7:14. A tradução foi denunciada por muitos cristãos fundamentalistas como
uma tentativa comunista diabólica de solapar a fé no “nascimento virgem
32

texto original. (25) (grifo nosso)

Durante esses anos sombrios Isaías fora conformado


pelo nascimento iminente de um bebê real, indício de
que Deus ainda estava com a casa de Davi. “Uma
jovem (almah) está grávida e logo dará à luz um filho
que se chamará Immanu-El (Deus-conosco)” ( 26) Seu
nascimento seria ainda uma fonte de esperança, “uma
grande luz”, para o traumatizado povo do norte, que
“caminhava nas trevas” e na “profunda escuridão”. ( 27)
Quando o bebê nasceu, foi de fato chamado
Ezequias, e Isaías imaginou toda a Assembleia Divina
celebrando a criança real, que, como todos os reis
davídicos, se tornaria uma pessoa divina e um membro
do conselho celeste: no dia de sua coroação, ele seria
chamado de “Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai
Eterno, Príncipe da Paz!. (28). (29) (grifo nosso)

[…] Não há nenhuma evidência, a não ser nos


tendenciosos escritos da Igreja surgidos depois, de
que Jesus jamais tenha se considerado outra coisa
a não ser um judeu entre judeu, buscando a
realização do judaísmo – e, provavelmente, o retorno da
soberania judaica no mundo romano. Como muitos
autores já observaram, as diferentes linhagens de
profecias hebraicas que foram forçadas a coincidir com
o ministério de Jesus revelam a defesa da doutrina
cristã, e muitas vezes a má formação cultural dos
autores dos Evangelhos.
Para moldar a vida de Jesus conforme as

de Cristo”. (grifo nosso)


25 TABOR, 2006, p. 59-60.
26 N.T.: Isaías 7:14. Essa é uma tradução literal do versículo, não segue a
versão tradicional da Bíblia de Jerusalém.
27 N.T.: Isaías 9:1.
28 N.T.: Isaías 9:5-7.
29 ARMSTRONG, 2007, p. 25.
33

profecias do Velho Testamento, os autores dos


evangelhos de Lucas e Mateus, por exemplo,
insistem que Maria o concebeu virgem (parthenos
em grego), em referência à versão em grego de
Isaías 7,14. Infelizmente para os que gostam da ideia da
virgindade de Maria, a palavra hebraica almá (para a
qual parthenos é uma tradução errônea) significa
simplesmente “mulher jovem”, sem qualquer
implicação de virgindade. Parece quase certo que o
dogma cristão do parto virgem, e boa parte da
ansiedade resultante a respeito do sexo tenham
resultado de uma tradução do original hebraico. (30)
Outro golpe contra a doutrina do parto virgem é que
os outros evangelistas, Marcos e João, parecem não
saber nada a respeito disso – embora ambos se
mostrem perturbados com as acusações de
ilegitimidade de Jesus. (31) Aparentemente, Paulo
acredita que Jesus era filho de José e Maria, e refere
que Jesus “nasceu da semente de Davi segundo a
carne” (Romanos 1,3 – ou seja, José era seu pai), e
“nascido de mulher” (Gálatas 4,4 – significando que
Jesus era realmente humano), sem referência alguma à
virgindade de Maria. (32). (33) (grifo nosso)

Confirma-se, mais uma vez, que não se trata mesmo de

30 N.T.: Ver B. M. Metzger e M. D. Coogan (eds), The Oxford companion to the


Bible (Oxford: Oxford Univ. Press, 1993), pp. 789-90, e A. N. Wilson, Jesus: A
live (Nova York: W. W. Norton, 1992), p. 79. Já foram observados muitos
outros pares de citações entre o Velho e o Novo Testamentos que não
sustentam: Mat 2,3-5 e Miq. 5,2; Mat. 2,16-18 e Jer. 31,15/Gên. 35,19; Mat.
8,18 e Isa. 53,4; Mat. 12,18 e Isa. 42,1-4; Mat. 13,53 e Sal. 78,2; Mat. 21,5
e Zac. 9,9/Isa.62,11. Mat. 27,9-10 afirma cumprir uma profecia que atribui
erroneamente a Jeremias, quando, na realidade, aparece em Zacarias 11,12
– eis aí mais evidências de que “A Bíblia não erra”.
31 N.T.: Era considerável o estigma ligado à ilegitimidade entre os judeus no
século I d.C. Ver S. Mitchell, The gospel according to Jesus (Nova York:
HarperColins, 1991).
32 N.T.: Ver ibid., p. 78, e J. Pelikan, Jesus through the centuries (Nova York:
Haper and Row, 1987), p. 80.
33 HARRIS, 2009, p. 109.
34

alguma profecia que diz respeito a Jesus, mas de algo que


aconteceu no século VIII a.C.

Deixamos para citar Pastorino, por último, visto ele


também apresentar algo que dissemos:

A profecia de Isaías afirma que uma virgem


conceberá e dará à luz um filho. O termo virgem merece
ser estudado.
Em hebraico há duas palavras: betulân, que
especificava a virgindade como certa; e almâh que
exprimia uma oposição, sem garanti-la. Ora, Isaías
escreve exatamente almáh. E verificamos que, em
Deut. 22:23, a noiva, e mesmo a esposa recém-casada
era chamada ne'arah betulâh.
Em grego a palavra παρΘένος exprime o mesmo:
virgem, mas em sentido genérico tanto que as moças
noivas e também as recém-casadas eram assim
chamadas, e isso na própria Bíblia (cfe. Deut. 22:23; 1
Reis 1:2; Ester 2:3). Em todas essas passagens, a
palavra virgem designa a moça que é dada a alguém
para deitar-se com ele, supondo-se que se trata de
uma virgem, isto é, de moça ainda não ligada pelo
casamento a um homem.
A mesma designação é atribuída a Maria,
demonstrando que, ao lhe ser dada como noiva, era
virgem, o que é natural e normal. No entanto, em
nenhum local dos Evangelhos se diz, nem se supõe,
que Maria continuou Virgem depois. Ela era virgem
quando concebeu, o que de modo geral ocorre com
todas as moças.
Esses nossos esclarecimentos não visam a diminuir
o respeito e a veneração que todos temos pela Mãe
Santíssima de Jesus, pois o fato da virgindade nenhuma
35

importância apresenta diante da espiritualidade. (34)


(grifo do original)

Além de corroborar o que foi dito a respeito da palavra


almah, apresenta, no penúltimo parágrafo, um argumento que
confirma o que nós dissemos a respeito de como podemos
considerar Jesus nascido de virgem.

Certamente, que uma tradução errada leva


inevitavelmente a uma interpretação equivocada. Entretanto,
algo bem mais curioso, que esse problema na tradução,
encontramos na cultura persa com Tom Harpur (1929-2017), ao
citar Graves, quanto a uma profecia idêntica à de Jesus:

[…] Kersey Graves, no seu livro The World's Sixteen


Crucified Saviours, cita uma profecia de Zoroastro,
divindade persa: “Uma virgem deverá conceber e
gerar um filho, e uma estrela deverá aparecer
brilhando no meio-dia para indicar o
acontecimento”. Zoroastro disse aos seus seguidores:
“Quando virem a estrela, sigam-na até onde os levar.
Adorem a criança misteriosa, oferecendo-lhe
presentes com profunda humildade. Ela é na realidade
a Palavra Onipotente que criou o céu. Ela é na realidade
o seu Senhor e Rei eterno”. (35) (grifo nosso)

Dessa fala de Graves temos mais alguns “graves”


problemas, com os quais se estabelece uma semelhança
desconcertante com fatos narrados a respeito de Jesus. Vejam,
que a profecia de Zoroastro dizia de uma estrela que deveria

34 PASTORINO, vol. 1, 1964a, p. 55.


35 HARPUR, 2008, p. 51.
36

levar ao menino, o que Mateus narra (cap. 2), magos seguindo


uma estrela que localizou Jesus, ao qual ofereceram presentes,
como também previsto oferecer a Zoroastro. Sobre estes
presentes vejamos:

[…] ou os rituais como os efectuados na Pérsia, já na


época do rei Dario I (521-486 a.C.), mas que
provavelmente remontam a muito antes, em que os
magos/sacerdotes ofereciam a Ahura-Mazda (o
principal deus solar) (36) os presentes de ouro,
incenso e mirra que aparecem citados em Mt 2,11. ( 37)
(grifo nosso)

Ouro, incenso e mirra, tal e qual os magos ofereceram


ao filho de Maria, conforme narrativa de Mateus (Mateus 2,11),
certamente, utilizaram-se de uma profecia persa para aplicá-la
a Jesus.

Geza Vermes (1924-2013), em seu livro Natividade,


também trata da concepção virginal e da profecia de Isaías;
leiamos:

A concepção virginal em Mateus e a profecia de


Isaías
Até aqui, Mateus contou uma história
desconcertante. A não ser pela alusão a algum tipo de
envolvimento do Espírito Santo, uma expressão para
designar o poder através do qual Deus age no
mundo, o anjo do sonho não esclarece como Maria
engravidou. O evangelista então intervém e lança uma

36 N.T.: Na inscrição de Naqsh i Rustam, do tempo de Dario I, é afirmado que


“Ahura-Mazda é um grande deus. Criou esta terra. Criou o céu. Criou o
homem. Criou a felicidade do homem. Fez de Dario um rei”.
37 RODRÍGUEZ, 2007, p. 105.
37

nova luz sobre a questão valendo-se de uma profecia do


Antigo Testamento, segundo a qual uma virgem virá a
dar à luz o Salvador do povo judeu. Na versão do
Evangelho para as palavras de Isaías, diz a profecia:
“Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho que
se chamará Emanuel, que significa 'Deus conosco'”
(Isaías 7,14, em Mt 1,23).
Este é o primeiro texto bíblico apresentado como
prova por Mateus em sua narrativa da infância. Em
Lucas não há nenhum. Mas esse testemunho
profético, cujo objetivo é anunciar uma gravidez
milagrosa ou concepção virginal, só é eficaz sob uma
condição: ele funciona apenas se for seguida a
versão da Septuaginta grega para Isaías 7,14,
destinada a um público grecófono e interpretada
como os leitores gregos o entenderiam. Como se
sabe, a forma que subsistiu do Evangelho de Mateus é a
grega e, como tal, seu alvo era obviamente um público
grego. Contudo, o público original para o qual a tradição
da narrativa do nascimento de Jesus foi desenvolvida
era de judeus palestinos e o idioma em que foi
inicialmente transmitida seria o aramaico ou,
possivelmente, o hebraico, não o grego. Também é
evidente que para esses palestinos, em sua maioria
judeus da Galileia, o texto de Isaías teria sido extraído
da Bíblia hebraica, não da Septuaginta grega.
O que nos deixa em um verdadeiro dilema. Para
aludir à mulher que virá a conceber e dar à luz um filho,
Isaías 7,14 em hebraico não se refere a uma virgem,
ou betulah em hebraico, mas a uma 'almah, isto é,
“uma jovem mulher”: termo neutro que não implica
necessariamente virgindade. Por exemplo, no
Cântico dos Cânticos 6,8 o termo “jovens mulheres”
('alamot) aparece em paralelo com “rainhas e
concubinas”, que seguramente não são virgens.
Ademais, é muito improvável que a 'almah mencionada
em Isaías 7, a jovem que no futuro próximo há de
38

conceber e dar à luz um filho, seja virgem. O contexto


sugere que ela já é casada, e esposa do então rei judeu,
Acaz, ao fim do século VIII a.C.
Quando fala em 'almah, o texto hebraico de Isaías
em lugar algum especifica que ela ainda é virgem ou
que está prevista uma concepção milagrosa de
qualquer tipo. O sinal profético em Isaías 7,14, em
hebraico, está não na condição virginal da mãe, mas no
significado do nome que ela deverá dar a seu filho -
“Emanuel” - sugerindo que o futuro príncipe, em
conformidade com o bom augúrio expresso no nome,
“Deus conosco”' trará proteção divina aos habitantes de
Jerusalém, naquela época sob ameaça de dois reis
inimigos que sitiavam a cidade (ver Isaías 7,16).
Considerando tudo isso, a conclusão a que se chega é
que o relato semita subjacente à versão grega de
Mateus que conhecemos de forma alguma poderia
conter uma previsão da concepção virginal do Messias.
Como então esta noção entrou no Evangelho da
Infância, de Mateus? Por puro acidente, o tradutor da
Septuaginta usou para o termo hebraico 'almah de
Isaías 7,14 a palavra grega parthenos (virgem), que, no
entanto, pode também significar solteira ou mulher não-
casada que não seja necessariamente virgem. O
Mateus “grego” ou o editor grego do Mateus semita
topou com essa tradução imprecisa e a adotou. Esse
feliz achado permitiu-lhe apresentar a seus leitores de
fala grega a concepção de Jesus como única e situada
em posição muito superior a todas as outras
concepções milagrosas do Antigo Testamento.
Existe uma prova incontestável de que uma
proporção substancial do público visado pelo texto final
de Mateus era composta por gregos, que não tinham
conhecimento do hebraico. Em Mateus 1,23, o nome
hebraico “Emanuel” na citação de Isaías é apresentado
com uma tradução para explicar seu significado: “Deus
conosco”. Como se sabe, o original hebraico de Isaías
39

não inclui tal interpretação e, o que é mais importante,


ela também não consta da tradução grega da
Septuaginta. Os judeus da diáspora, para quem a
Septuaginta foi produzida, supostamente deveriam
saber o que significava Emanuel. O comentário grego a
essa citação em Mateus – “que significa Deus conosco”
– é obviamente criação do próprio evangelista, para
auxiliar seus leitores gregos não-judeus. Assim, aplicada
a Maria, a profecia de Isaías em sua versão grega
destinava-se a transmitir ao público grego da narrativa
materna da infância que “Jesus-Emanuel” ou “o
Messias-Filho de Deus” seria concebido através do
Espírito Santo e milagrosamente gerado por Maria na
condição de virgem.
O Mateus grego, consequentemente, afirma que a
concepção virginal é demonstrada pela citação de
Isaías. No entanto, o argumento do evangelista está
invertido. Ele quer que seu leitor entenda que o evento
representa o cumprimento da profecia; em outras
palavras, que a concepção de Jesus por Maria ocorreu
porque, de acordo com Isaías, assim estava
predestinada por Deus. A verdade é bem o contrário: a
ideia da “parthenos que concebe”, fornecida pela
profecia, é que motivou a história. Foi o texto grego de
Isaías 7,14 que proporcionou a Mateus uma fórmula
surpreendente para exprimir o caráter milagroso do
nascimento de Jesus, como o cumprimento de uma
previsão das escrituras.
Repetindo pela última vez, a concepção virginal é
uma extrapolação das palavras da Septuaginta,
fazendo uso de material histórico, apresentada a, e
compreendida por, leitores cristãos gentios
helenistas do Evangelho de Mateus. A história do
nascimento de Jesus, contada em aramaico ou
hebraico e citando Isaías em hebraico, jamais
poderia ter dado origem a tal interpretação. Mas em
grego, em combinação com a exegese literal do nome
40

“Emanuel = Deus conosco”' tornou-se a fonte da qual


surgiu o conceito do Filho divino de mãe virgem. É
preciso reiterar, mesmo que seja ad nauseam, que tal
evolução somente foi possível em um meio cultural
helenístico grecófono. Os antecedentes ideológicos da
mitologia greco-romana e as lendas sobre a origem
divina de figuras eminentes da época e de um passado
recente (ver Capítulo 4) propiciaram um campo fértil
para o crescimento do que viria a ser, no jargão
teológico cristão, a Cristologia. Com o tempo, através de
Paulo, de João e dos filosofantes Padres da Igreja
gregos, essa ideia original evoluiu para a deificação de
Jesus, Filho da Virgem grávida de Deus (Theotokos).
Também é possível contestar que a ideia da
concepção virginal inferida no texto de Mateus, com seu
uso da versão da Septuaginta para Isaías, era de origem
cristã-gentia helenística, pela posição adotada pelo
antigo cristianismo judaico sobre o assunto. Facetas
importantes da doutrina desses cristãos-judeus,
conhecidos como os ebionitas ou os Pobres, foram
preservadas nos escritos dos apologistas da Igreja, que
procuravam refutá-las. Sob a denominação de ebionitas,
devemos entender comunidades cristãs-judaicas que,
após sua separação da Igreja cristã-gentia central,
provavelmente na virada do século I d.C., sobreviveram
ainda por mais duzentos ou trezentos anos. Através do
Padre da Igreja Irineu, do fim do século II, que foi bispo
de Lião, e do historiador da Igreja Eusébio de Cesareia,
do século IV, sabemos que os ebionitas rejeitavam a
doutrina do nascimento virgem. Eusébio deixa claro
que, para eles, Jesus era “o filho de uma união
normal entre um homem e Maria” (História
Eclesiástica 3,27). Irineu anteriormente havia
argumentado, usando frases emprestadas do Novo
Testamento, que os ebionitas “se recusavam a entender
que o Espírito Santo havia vindo a Maria e que o poder
do Altíssimo a havia envolvido com sua sombra” (Contra
as Heresias, 5,1, 3). Ele explicava ainda que a fim de
41

sustentar seus ensinamentos e “puxar o tapete” da


ortodoxia cristã, os ebionitas defendiam a versão grega
de Teodósio e Aquila como mais correta do que a
Septuaginta, e substituíram o parthenos (virgem) desta
última pelo termo neanis (jovem mulher) em sua
tradução de Isaías 7,14 (ibid. 3,21, 1). Na opinião deles,
a prova de que a Septuaginta não era confiável
representava o fim da doutrina de Mateus e da Igreja
cristã a respeito de concepção virginal.
Com efeito, a (almah do Isaías hebraico e o
correspondente neanis de Aquila e Teodósio revelam a
fragilidade da ideia do nascimento virgem, conforme
concebida pelo Mateus grego. Sua adoção pelo
evangelista (ou por seu editor final) tornou inevitável a
revisão da formulação direta da genealogia (A gerou B
etc.), com vistas a excluir a paternidade de José; e tem
também o efeito imprevisto de prejudicar a prova
montada para autenticar a legitimidade de Jesus como
Messias descendente direto de Davi, através de José.
(38) (grifo nosso)

Em A dinastia de Jesus: a história secreta das origens do


cristianismo, o autor James D. Tabor, tece explicações
interessantíssimas a respeito da virgindade de Maria, que não
podemos deixar de transcrevê-las:

[…] É fácil imaginar que os cristãos primitivos


acreditavam em Jesus e o queriam tão louvado e
celestial quanto qualquer dos heróis e deuses gregos e
romanos, e se apropriaram dessa maneira de contar
a história do seu nascimento como uma maneira de
afirmar que Jesus era ao mesmo tempo humano e
divino. Os intérpretes modernos, que adotam essa
abordagem para as histórias, afirmam habitualmente

38 VERMES, 2007, p. 74-79.


42

que José era provavelmente o pai, e que esses relatos


sobrenaturais eram inventados pelos discípulos de
Jesus para atribuir-lhe honras e promover seu status
elevado de uma maneira comum a essa cultura. ( 39)
(grifo nosso)

[…] O ensinamento sobre a “virgindade perpétua”


simplesmente não é encontrado no Novo
Testamento e não faz parte dos primeiros credos
cristãos. A primeira menção oficial a essa ideia só vem a
partir de 374 d.C., com o teólogo cristão Epifânio. ( 40) A
maior parte dos escritos cristãos primitivos anteriores ao
século IV d.C. aceita naturalmente que os irmãos e
irmãs de Jesus sejam filhos nascidos de José e Maria.
(41) (42) (grifo nosso)

A própria disciplina dos historiadores os obriga a


trabalhar dentro dos parâmetros de uma visão científica
da realidade. As mulheres nunca engravidam sem um
homem. Portanto, Jesus tinha um pai humano, quer
consigamos identificá-lo, quer não. Os corpos mortos
não ressuscitam – se considerados clinicamente mortos
– como fora seguramente o caso de Jesus depois da
crucificação romana e de três dias em uma tumba.
Portanto, se a tumba estava vazia, a conclusão
histórica é simples – o corpo de Jesus fora
removido por alguém e possivelmente sepultado em
outro local. Os historiadores podem se referir ao que foi

39 TABOR, 2006, p. 76.


40 N.T.: A ideia da virgindade perpétua de Maria foi afirmada no 2º
Concílio de Constantinopla, em 553 d.C. e no Concílio de Latrão, em
649. Embora seja uma parte do dogma católico solidamente estabelecida,
nunca foi, no entanto, objeto de uma declaração de infalibilidade pela
Igreja Católica Romana. (grifo nosso)
41 N.T.: Essa é a chamada visão elvídica, em homenagem a Elvídio, um
escritor cristão do século IV, que Jerônimo procura refutar. Eusébio, o
historiador da igreja do século IV, cita regularmente fontes antigas e refere-
se a irmãos de Jesus “segundo a carne”, certamente concebendo-os como
filhos de Maria e José. Consulte Eusébio, Churc History 2.23;3.19.
42 TABOR, 2006, p. 90.
43

dito por Paulo ou aos relatórios sobre as aparições que


circulavam na altura em que os evangelhos foram
escritos, mas esses escritos, feitos décadas depois
do acontecimento, testemunham mais o
desenvolvimento das crenças teológicas do que o
que teria acontecido. Alguns estudiosos questionaram
a veracidade histórica da própria história da tumba
vazia, argumentando ter sido desenvolvida para
sustentar a alegação teológica de que Jesus tinha sido
ressuscitado dos mortos. Mas dada a natureza
apressada e temporária do sepultamento de Jesus,
era de esperar que a tumba estivesse vazia. Nunca
houve a intenção de que Jesus permanecesse naquela
tumba. A questão que se põe é: o que aconteceu com
seu corpo? Onde e por quem poderia ter sido sepultado
permanentemente? A resposta mais curta é que não
sabemos, e qualquer sugestão é especulativa. Mas
temos, ainda assim, algumas pistas em nossas fontes
que nos permitem reconstruir algumas possibilidades
plausíveis.
Existem algumas histórias alternativas aos
evangelhos do nosso Novo Testamento. Tertuliano, um
autor cristão do século III, nos fala de uma polêmica em
voga nessa época: o corpo de Jesus fora removido pelo
jardineiro do cemitério, que temia ver suas plantas
pisoteadas pelas multidões em visita à tumba. ( 43) Em
um antigo texto medieval chamado Toledot Yeshu, o
jardineiro leva o corpo e o sepulta em um riacho
próximo, temendo que os discípulos se antecipassem e
levassem o corpo, alegando que ele havia sido
ressuscitado dos mortos. Há um texto copta do século
VI d.C. que até nos diz o nome do jardineiro, Filógenes.
Nessa versão, o jardineiro planeja levar o corpo para
sepultá-lo condignamente, mas, à meia-noite, quando
fora buscá-lo, a tumba estava rodeada de anjos e ele

43 N.T.: Tertuliano, De Spectaculis 30.


44

testemunhara Jesus ressuscitando dos mortos. (44)


Todas essas histórias sobre um jardineiro parecem ser
embelezamento ao evangelho de João, em que Maria
de Madalena, confundindo Jesus com o jardineiro, ao
encontrá-lo na tumba, pergunta-lhe: “Se foste tu que o
tiraste, dize-me onde o puseste” (João 20:15). (45) (grifo
nosso)

O que ainda não conseguimos entender é que em Paulo,


autor dos primeiros escritos cristãos e em Marcos autor do
primeiro Evangelho, não se vê nada sobre virgindade de Maria,
conforme constatou Hans Küng:

[…] Nas cartas de Paulo, os documentos mais


antigos do Novo Testamento, refere-se de forma
lapidar, sem mencionar nomes, o nascimento de
Jesus “de uma mulher” (Ggl 4,4), mas não de “uma
virgem” – com vista a acentuar a humanidade de
Jesus.
O Evangelho mais antigo de Marcos desconhece a
história do nascimento e prossegue logo, sem todos
os sonhos, com João Baptista e com a vida pública de
Jesus e com os seus ensinamentos, sobre os quais
infelizmente não se encontra uma palavra no
apostolado. […]. (46) (grifo nosso)

Deduz-se disso que, muito provavelmente, tais coisas


foram acrescentadas por conta do desenvolvimento da
mitificação de Jesus, para elevá-lo à condição de um deus.

Mais taxativo é o “erudito Alfred Loisy, especialista em

44 N.T.: Book of the Resurrection of Christ by Bartholomew the Apostle 1.6-7.


45 TABOR, A dinastia de Jesus: a história secreta das origens do cristianismo,
p. 250-251.
46 KÜNG, 1997, p. 57.
45

estudos bíblicos e historiador das religiões” ( 47), cuja fala, citada


por Pepe Rodríguez, transcrevemos:

“para afastar os relatos do nascimento milagroso e


da concepção virginal, basta observar que foram
ignorados por Marcos e por Paulo, e que entre o de
Mateus e o de Lucas não há concordância,
apresentando ambos todas as características de
uma pura invenção” (48) (grifo nosso)

Na verdade, não há como não pensar na hipótese de


invenção, visando o “endeusamento” de Jesus, para igualá-lo
com certos heróis e deuses da antiguidade.

Resolvemos fazer um levantamento nas Bíblias para ver


qual seria os termos utilizados por elas nos textos de Isaías e
de Mateus:

Bíblias consultadas Isaías 7,14 Mateus 1,23


01 – TEB A jovem A virgem
02 – De Jerusalém A jovem A virgem
03 – Do Peregrino A jovem A virgem
04 – Santuário A jovem A virgem
05 – Vozes A jovem A virgem
06 – Novo Mundo Donzela A virgem
07 – Ave-Maria Uma virgem A virgem
49
08 – Paulinas – Pe Matos ( ) Uma virgem A virgem
09 – SBB Uma virgem A virgem
10 – SBB – Nova versão (NTLH) A jovem A virgem

47 RODRÍGUEZ, 2007, p. 98.


48 RODRÍGUEZ, 2007, p. 98.
49 Publicações dos anos: 1957, 1977 e 1980.
46

11 – Anotada A virgem A virgem


12 – Barsa Uma virgem Uma virgem
13 – Shedd A virgem A virgem
14 – SBTB A virgem A virgem

Das quatorze traduções, em seis delas constam em


Isaías a jovem/donzela, ou seja, 47%. Embora não seja a
maioria é bem significativo e pouco producente evocar para a
tradução a palavra virgem, como se faz ao traduzirem Mateus.
Aliás isso, consequentemente, prova a contradição em relação
aos que traduziram Isaías como jovem/donzela.

Além disso, ainda temos a SBB com duas “traduções”


para o mesmo verso, só que um adaptado à linguagem atual.
Não será o caso de constatar-se que os tradutores já estão
chegando à conclusão de que a sociedade atual não está
aceitando a “virgem” como estado físico, mas, sim, com a
conotação de juventude?

Por outro lado, ainda teríamos que desconsiderar que,


em Mateus 12,46 e 13,55-56, são mencionados os irmãos de
Jesus; inclusive, nesse último passo, nomearam os homens –
Tiago, José, Simão e Judas-; as mulheres não são quantificadas
e nem nomeadas, demonstrando como a sociedade machista
da época as tratava. Apesar disso, a dogmática ainda afirma
que Maria foi virgem antes, durante e após o parto. Haja fé para
acreditar nisso! Para confirmar o que estamos falando,
transcrevemos as seguintes explicações em notas de rodapé
nas Bíblias:

Mt 2,25: Enquanto (ou até que) esta palavra


47

portuguesa traduz o latim donec e o grego heos ou, que


por sua vez estão calcados sobre a expressão hebraica
ad ki que se refere ao tempo anterior a esse limite sem
nada dizer do tempo posterior, cf. Gen 8,7; Sl 109,1; Mt
12,20; 1 Tim 4,13. A tradução exata seria: “sem que ele
a tivesse conhecido, deu à luz…” pois a nossa
expressão sem que tem o mesmo valor. Primogênito
quer dizer o nascido em primeiro lugar, mas nada diz
contra a virgindade perpétua de Maria pois, na Bíblia,
tem o valor de um termo técnico para significar aquele
que deve ser oferecido a Deus e resgatado segundo a
Lei (Ex 13,2; Num 18,15-17), que viesse a ser o filho
mais velho que continuasse filho único. Exemplo frisante
do uso do termo nesse sentido, se encontra no epitáfio
de Arsino é que morreu “nas dores do parto do meu
primogênito”. (50) (grifo nosso)

Mt 1,25: Mateus afirma a virgindade de Maria antes


do parto. Que ela tenha permanecido virgem no
parto e depois dele, nós o sabemos pelos santos
Padres e pela Igreja, e é verdade de fé católica, isto é,
universalmente admitida, embora ainda não tenha sido
definida solenemente. (51) (grifo nosso)

Lc 1,34-35: Maria, ciosa da sua virgindade, da qual


fizera doação a Deus, pede explicações acerca do
ministério da maternidade divina, anunciado pelo anjo. A
resposta é que Deus realizará um estupendo milagre.
Ela se tornará mãe por virtude do Espírito Santo e dará
à luz o Filho de Deus encarnado, conservando o
privilégio da virgindade. (52) (grifo nosso)

Considerando a localização histórica do evento, é

50 Bíblia Sagrada – Barsa, p, 2 – NT.


51 Bíblia Sagrada – Paulinas 1980, p. 1061.
52 Bíblia Sagrada – Paulinas 1980, p. 1121.
48

totalmente anticientífico se afirmar que Maria se manteve


virgem “no parto e depois dele”.

O interessante é que, nessa última explicação, vão além


do que se conhece de Maria para afirmar que ela tenha feito
voto de castidade, e que, por algum ato milagroso, tenha,
depois do parto, “conservado o privilégio da virgindade”.
Quanto ao primeiro ponto, trazemos essa explicação dos
tradutores da Bíblia de Jerusalém:

Lc 1,34: A “virgem” Maria é apenas noiva (v. 27) e


não tem relações conjugais (sentido semítico de
“conhecer”, cf. Gn 4,1 etc.). Este fato, que parece opor-
se ao anúncio dos vv. 31-33, induz à explicação do v.
35. Nada no texto impõe a ideia de um voto de
virgindade. (53) (grifo nosso)

Então, temos, aqui, tradutores contra tradutores; não é


fato?

Em relação ao suposto “privilégio da virgindade” é algo


que nos soa bem estranho, pois, naquela época, a mulher que
não gerasse filhos era abandonada pelo marido e desprezada
pela sociedade.

Resta-nos um último ponto, que nos causou estranheza,


em virtude da seguinte fala de Küng: “[…] uma das últimas
profissões de fé (antes de Paulo) reza o seguinte na introdução:
Jesus Cristo foi 'constituído Filho de Deus ao ressuscitar dos
mortos' (Rm 1,4)”. (54)

53 Bíblia de Jerusalém, p. 1787.


54 KÜNG, 1997, p. 73.
49

Ora, se Jesus tornou-se “Filho de Deus” ao ressuscitar


dos mortos, então qual o sentido de lhe atribuírem o
nascimento como sendo por obra do Espírito Santo, que o fazia
“filho de Deus”? Ou será que se tornou “filho de Deus” por
ocasião do seu batismo (Mateus 3,17; Marcos 1,11; Lucas
3,22)? Ou, ainda, quando Moisés e Elias lhe apareceram no
Monte Tabor (Mateus 17,5; Marcos 9,7; Lucas 9,35)?

Vejamos este texto de Lázaro Luiz Trindade Freire,


psicanalista, escritor e filósofo brasileiro, disponível na Internet:

Conhecem Essa História?


Havia um mestre que, dizem, teria sido gerado por
uma virgem. Nascido de descendentes dos reis
legítimos (55), em um período em que seu país
encontrava-se na mão de usurpadores, nem um pouco
ligados às tradições religiosas ou ao bem do povo.
O nome pelo qual passou a ser conhecido no
Ocidente, embora na verdade falado em outra língua,
lembra a sonoridade do conceito grego de Christhos, ou
os radicais presentes no “Espírito Crístico”.
Várias profecias indicavam que este menino poderia
vir a ser o Rei.
Alguns achavam que isso se daria no sentido
religioso. Mas outros, no sentido político (56).

55 N.T.: Bharata, a descendência que se fundia com a própria Índia, e que


dava caráter de etnia e identidade cultural. A própria Índia era chamada de
Maha-Bharata, ou Grande Bharata: a GRANDE família.
56 N.T.: A separação entre estado e religião é recente. Na história, a lei de
Deus era a justiça humana. O sacerdote era o juiz. O rei, César, Papa ou
Faraó era sempre (no mínimo) representante de Deus. Vide reis judaicos
(David, Salomão), Aiatolás do Irã, presidentes fundamentalistas árabes, etc.
Texto sagrado é o código civil e penal, pois o poder é sempre exercido em
nome de Deus. Logo, esperar um rei religioso era esperar um líder político
também.
50

As pessoas esperavam d´Ele um salvador. Afinal,


esta seria uma encarnação (57) do segundo aspecto (58)
de Deus, que é um só (59), mas se divide em três
pessoas (60).
Diz a história que o rei usurpador, de família
ilegítima, mandou MATAR todos os primogênitos,
forçando os pais do menino salvador a fugir com ele.
Foi criado de forma aparentemente humilde, mas
dava mostras de sua sabedoria. Deixava escapar
também traços de erudição que indicavam educação
primorosa (talvez patrocinada pelos que apoiavam a
família real, que tentava voltar ao trono).
Após uma infância pouco documentada, deu
algumas mostras de seu poder na adolescência.
Após mais algum tempo, em idade adulta jovem,
revelou-se como presença divina. Sua presença
coincide com uma época de grandes conflitos. Durante
esta fase de ocupação de suas terras e tentativas de
revolução, faz questão de deixar claro que precisamos
separar o que é de Deus, notando que o impermanente
não é deste mundo.
Quebra paradigmas, ensina morais estranhas, faz
questão de que cada um cumpra o que é seu papel.
Ensina, literalmente, que ELE é o CAMINHO até o Pai
(61). Que é necessário fazer os trabalhos, mas que

57 N.T.: Avatar: Emissário celeste; Canal da divindade.


58 N.T.: Vishnu: equivalente ao Filho para os cristãos, à Ísis para os egípcios,
ou ao Fixo para os astrólogos. Amor, conservação e manutenção do que foi
criado.
59 N.T.: Brahman, com N, o Deus não personificado, a soma de todos os
deuses e criaturas. O Supremo, o Tao, o Todo, O Grande Arquiteto Do
Universo.
60 N.T.: Brahman se divide em três aspectos (tal manifestação fenomênica é
conhecida com o nome de Trimurti): Brahma (O Criador), Vishnu Narayana
(O Mantenedor), e Shiva Nataraja (O Transformador). O segundo aspecto
reencarna de tempos em tempos, para trazer a luz celeste entre os
homens.
61 N.T.: Deus.
51

podemos ofertar a Ele (62). Unirmo-nos a ele, que é


Caminho, que é Verdade. Não porque ele seja egoico,
mas porque ele está ligado com o Criador.
Com o seu exemplo de amor, e o sacrifício que
simboliza sua encarnação, nos ensina que é difícil, para
nós, nos ligarmos com o intangível; mas que já dá para
nos ligarmos com um salvador conhecido. Como ele é
ligado a Deus, ligando-nos a ele pegamos “carona”…
Acaba sendo morto ainda jovem, de forma trágica
63
( ), pouco depois de sua revelação como Presença
Divina.
Não escreve nada, mas alguns registram parte da
sua vida, especialmente as próximas da morte, onde
despeja toda a sua sabedoria. Os trechos registrados
são pequenos (64), mas capazes de mudar por milênios
a nossa noção religiosa de causa e consequência,
trazendo nova luz sobre a natureza do espírito e sua
sobrevivência ao corpo.
Os poucos capítulos sobre sua vida em presença
divina são inseridos como parte das escrituras sagradas
de seu país, e são traduzidos para praticamente todas
as línguas do mundo (65).
O novo livro, com o relato da vida do Deus Vivo, é
mais popular e citado, individualmente, do que a própria
obra religiosa maior que o contém.
Antes de morrer, deixa claro que irá voltar, no futuro
(66). Fazem religião em Seu Nome, mas Ele mesmo

62 N.T.: Ensinamentos do Baghavad Gita, onde Krishna fala sempre em


“ofertar A Mim”, “Eu Sou o Caminho”, “Faz em Meu Nome”.
63 N.T.: Krishna morre flechado, após ensinar sobre Carma e Dharma a Arjuna,
[por] um arqueiro.
64 N.T.: As lições estão registradas no Baghavad Gita.
65 N.T.: O Bhagavad Gita é um dos livros que compõe o épico sagrado MAHA-
BHARATA.
66 N.T.: Krishna foi a oitava encarnação de Vishnu. Rama teria sido a sétima.
Há controvérsias quanto a nona encarnação (Buda, Jesus, Chaytania ou
52

nunca foi adepto destes preceitos religiosos, até porque


nunca fundou religião alguma, nunca foi moralista,
nunca foi de trocar sabedoria por rituais e não podia
frequentar o que só fizeram depois Dele…
Conhecem esta história?
Esta é a história de Krishna, que viveu em 3000 A.C.,
na Índia.
Somos Todos Um Só!
São Paulo, 13 de maio de 2004. (67)

É deveras desconcertante a relação dessa história com o


que dizem ter acontecido com Jesus; só com o importante
detalhe de que a acima transcrita foi contada muito antes da
que se narra sobre ele.

Entendemos que algumas pessoas devem reformular o


conceito que têm de moral, pois achar que a moral do homem
está relacionada a seu órgão sexual é desvirtuar totalmente o
significado dessa palavra. Ainda vamos mais longe; achamos
que devemos passar todos os conceitos teológicos do passado
por uma ampla revisão, já que muitos deles estão impregnados
de prepotência e de um egoísmo eclesiástico incomum, pelos
quais verdades foram dobradas às conveniências religiosas,
visando, a todo o custo, dominar a mente dos fiéis; quiçá era
desejo dominar toda a humanidade… Intolerância, guerras,
cruzadas, inquisição, etc. foram as armas utilizadas pelos

Paramahamsa Ramakrishna). Espera-se uma décima encarnação,


conhecida esotericamente como Kalki, muito embora algumas correntes
tenham seus fortes indícios para achar que já tenha vindo, e outros
prefiram achar que Kalki será uma onda, e não mais uma “pessoa”.
67 FREIRE, Conhecem essa história?, disponível em
http://www.voadores.com.br/site/geral.php?
txt_funcao=colunas&view=4&id=91
53

religiosos do passado, apoiados pelos teólogos, para impor, a


ferro e fogo, suas teorias completamente distorcidas dos
ensinamentos de Jesus.
54

Jesus de Belém ou de Nazaré?

“Quem for tão ignorante, ou tão


inocente, capaz de abrir o Novo
Testamento na esperança de encontrar
uma fonte histórica imparcial, será
repelido como se por um pé-de-vento.
Abra-o, e encontrará uma Caixa de
Pandora de desafios pessoais e injunções
éticas.” (WILSON, 2007)

Resolvemos fazer o presente estudo pelo motivo de já


termos visto estudiosos bíblicos dizerem que Jesus não nasceu
em Belém, fato, que a princípio, pareceu-nos estranho haja
vista que sempre nos falaram que sim. Talvez o comodismo de
aceitar certas coisas, sem questioná-las, especialmente,
aquelas vindas de pessoas que, em nosso julgamento, parecem
conhecer do assunto, nos fez acreditar nessa história a respeito
da cidade do nascimento de Jesus.

João Loes, em reportagem, na revista IstoÉ, intitulada “A


face humana de Jesus”, apresenta o seguinte sobre esse
assunto:

Embora os evangelhos de Mateus e Lucas afirmarem


que Jesus tenha nascido em Belém, é muito provável
que isso tenha ocorrido em Nazaré. “Todos os grandes
especialistas bíblicos são unânimes em admitir que
Jesus nasceu em Nazaré”, afirma Frei Betto, religioso
dominicano autor do recém-lançado “Um homem
Chamado Jesus”. Ao que tudo indica, Lucas e Mateus
teriam escolhido Belém como cidade natal de Jesus
55

para que suas versões da vida de Cristo se


alinhassem a uma profecia do Antigo Testamento,
segundo a qual o Messias nasceria na Cidade do Rei
Judeu, ou seja, a Cidade de Davi, que é Belém. ( 68)
(grifo nosso)

Realmente, Mateus dá como certo o nascimento de Jesus


em Belém, seu objetivo parece confirmar o que foi dito na
reportagem, que é o de fazer-nos crer que o nascimento nessa
cidade tenha ocorrido para cumprimento de uma certa profecia,
pois, ele, Mateus, mais do que qualquer um dos outros
evangelistas, preocupava-se em relacionar os vários
acontecimentos da vida de Jesus com algum tipo de profecia,
chegando ao ponto de até mesmo de citar profecias
inexistentes, como é o caso, por exemplo, do passo Mateus
2,23, que iremos ver, no qual ele diz que profetas previram que
Jesus “Será chamado o Nazareno”.

Elaine Pagels, professora de religião na Universidade de


Princeton, confirma essa tendência do autor do Evangelho de
Mateus: “[…] Hoje, porém, muitos estudiosos sugerem que
a correspondência entre profecia e evento que Mateus
descreve mostra que ele às vezes adaptou sua narrativa
de modo a adequá-la às profecias”. […]. (69) (grifo nosso)

Mateus 2,1-6: “Tendo nascido Jesus na cidade de


Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes, alguns
magos do Oriente chegaram a Jerusalém, e
perguntaram: 'Onde está o recém-nascido rei dos
judeus? Nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos

68 LOES, 2009, p. 65.


69 PAGELS, 2004, p. 114.
56

para prestar-lhe homenagem’. Ao saber disso, o rei


Herodes ficou alarmado, assim como toda a cidade de
Jerusalém. Herodes reuniu todos os chefes dos
sacerdotes e os doutores da Lei, e lhes perguntou onde
o Messias deveria nascer. Eles responderam: 'Em Belém,
na Judeia, porque assim está escrito por meio do
profeta: 'E você, Belém, terra de Judá, não é de
modo algum a menor entre as principais cidades
de Judá, porque de você sairá um Chefe, que vai
apascentar Israel, meu povo'”.

A questão de Jesus ter nascido em Belém é hoje motivo


de sérios questionamentos por parte dos estudiosos, como por
exemplo, James D. Tabor, professor do Departamento de
Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, em
Charlotte, graduou-se em doutorado pela Universidade de
Chicago em Estudos Bíblicos e é especialista nos Manuscritos
do Mar Morto, que em seu livro intitulado A dinastia de Jesus: a
história secreta das origens do cristianismo, nos dá a seguinte
informação:

Existem estudiosos do Novo Testamento que


duvidam da validade histórica até mesmo desse
arcabouço básico, especialmente da história do
nascimento de Jesus em Belém. Sustentam que a
história de Belém foi provavelmente acrescentada
para dar crédito a Jesus como Messias descendente
de Davi, já que Belém era a cidade de Davi. Existem
certos indícios de que a questão do local do nascimento
de Jesus, na Galileia ou na Judeia, tornou-se uma
questão de controvérsia e discussão dentro de grupos
judeus (consulte João 7:40-44). (70) (grifo nosso)

70 TABOR, 2006, p. 336.


57

Podemos ainda citar uma conclusão emanada do


Seminário de Jesus, “uma instituição composta por cerca de
100 pesquisadores, altamente qualificados, que, há 26 anos, se
dedicam à investigação científica dos Evangelhos, em busca
das palavras e ações autênticas de Jesus”. (71): “Jesus
provavelmente nasceu em Nazaré, sua cidade natal.
Lendas posteriores que localizam seu nascimento em Belém
foram inventadas para satisfazer uma antiga profecia.” ( 72)
(grifo nosso).

Outros autores confirmam essa história da inclusão no


texto do nascimento em Belém para relacionar o episódio ao
cumprimento uma suposta profecia.

Vejamos algumas outras interessantes conclusões dos


especialistas participantes do Seminário de Jesus:

Jesus não nasceu de uma virgem; os


pesquisadores do SJ duvidam que Maria tenha
concebido Jesus sem relação sexual. O pai de Jesus foi
José ou algum outro homem desconhecido que seduziu
a jovem Maria […]. (73) (grifo nosso)

O recenseamento mundial, a viagem para Belém, a


estrela no oriente, os astrólogos [reis magos], a fuga
para o Egito e o retorno do Egito, o massacre das
crianças, os pastores nos campos e o parentesco com
João Batista são tudo ficções cristãs. (74) (grifo nosso)

[…] Os pesquisadores do SJ chegaram a concluir

71 SOUZA, 2011, p. 65.


72 SOUZA, 2011, 104.
73 SOUZA, 2011, p. 104.
74 SOUZA, 2011, p. 104.
58

que apenas 18% (dezoito por cento) do total de


palavras atribuídas a Jesus nos Evangelhos podem
ser realmente consideradas autênticas e que apenas
16% (dezesseis por cento) do total de ações a ele
atribuídas nos Evangelhos pode ser, de fato,
consideradas autênticas, ou seja, aproximadamente
82% das palavras e 84% das ações atribuídas a Jesus
nos Evangelhos não são verdades históricas, mas
crenças cristãs (cf. FUNK & THE JESUS SEMINAR, p.
1) (75) (grifo nosso)

A Revista Superinteressante nº 183, publica um artigo


do jornalista e editor Rodrigo Cavalcante intitulado “Quem foi
Jesus?”, do qual ressaltamos este interessante trecho:

[…] E o segundo problema, ainda mais grave, é que


provavelmente Jesus não nasceu em Belém. “Há quase um
consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu em
Nazaré”, diz o padre Jaldemir Vitório, do Centro de Estudos
Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. Então
por que o evangelho de Mateus diz que o nascimento foi em
Belém? Vitório explica que o texto segue o gênero literário
conhecido por midrash. Basicamente, o midrash é uma forma
de contar a história da vida de alguém usando como pano de
fundo a biografia de outras personalidades históricas. No caso
de Jesus, ele explica, a referência a Belém é feita para
associá-lo ao rei Davi do Antigo Testamento – que,
segundo a tradição, teria nascido lá. (76) (grifo nosso)

Pelo que se depreende desse texto, para o autor de


Mateus, a família de Jesus residia em Belém, local de seu
nascimento, tal fato se deu, conforme sua alegação, para se
cumprir uma suposta profecia de Miqueias que diz:

75 SOUZA, 2011, p. 67.


76 CAVALCANTE, 2002, p. 43.
59

Miqueias 5,1 (ou 5,2): “Mas você, Belém de Éfrata,


tão pequena entre as principais cidades de Judá! É de
você que sairá para mim aquele que há de ser o chefe
de Israel. A origem dele é antiga, desde tempos
remotos.”

A citação dessa “profecia’” de Miqueias é pura apelação,


porquanto, quem a utilizou, simplesmente, pegou parte de um
texto, fora do seu contexto, fato que leva quem o lê a crer
numa realidade completamente diferente daquela que
corresponde à verdade dos acontecimentos. Para entendermos
o contexto é necessário continuarmos lendo a sequência da
narrativa:

Miqueias 5,2-5 (ou 5,3-6): “Pois Deus os entrega só até


que a mãe dê à luz, e o resto dos irmãos volte aos
israelitas. De pé, ele governará com a própria força de
Javé, com a majestade e o nome de Javé, seu Deus. E
habitarão tranquilos, pois ele estenderá o seu poder até
as extremidades da terra. Ele próprio será a paz. Se a
Assíria invadir o nosso território e quiser pisar o interior
de nossos palácios, poremos em luta contra eles sete
pastores e oito comandantes. Eles vão governar a
Assíria com espada, a terra de Nemrod com punhal. Ele
nos livrará da Assíria, se invadirem o nosso
território, se atravessarem nossas fronteiras”.
(grifo nosso)

A pessoa de quem Miqueias está falando, nesse passo,


é, provavelmente, Ezequias, filho do rei Acaz, Rei de Judá (721-
693 a.C.), é nele que o povo hebreu deposita a sua esperança
em livrá-lo da Assíria, portanto, nada tem a ver com alguma
profecia a respeito de Jesus, por mais esforço exegético que se
faça.
60

Mateus, na continuação da narrativa, passa a informar


da fuga da família de Jesus para o Egito, de onde todos
retornam para morar em Nazaré:

Mateus 2,13-23: “Depois de sua partida, um anjo do


Senhor apareceu em sonhos a José e disse: ‘Levanta-te,
toma o menino e sua mãe e foge para o Egito e fica lá
até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o
menino para o matar’. José levantou-se durante a noite,
tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali
permaneceu até à morte de Herodes, para que se
cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta:
Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).Vendo,
então, Herodes, que tinha sido enganado pelos magos,
ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos
seus arredores todos os meninos de dois anos para
baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos
magos. Cumpriu-se, então, o que fora dito pelo profeta
Jeremias: Em Ramá se ouviu uma voz, choro e
grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos;
não quer consolação, porque já não existem! (Jer
31,15). Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor
apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: ‘Levanta-
te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel,
porque morreram os que atentavam contra a vida do
menino’. José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e
foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau
reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não
ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos,
retirou-se para a província da Galileia e veio habitar na
cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito
pelos profetas: Será chamado Nazareno”.

Nesse trecho o autor de Mateus volta a “atacar” com as


supostas profecias, citando mais três, que, também, nada têm
a ver com Jesus.
61

Será que Herodes tentou mesmo matar o menino, como


é afirmado? O primeiro problema que se nos apresenta é “que
Herodes faleceu quatro anos antes da era cristã.” (77) Por isso
essa suposta matança das crianças tem tudo para ser algo
fictício, o que é fácil de se perceber, pois não há um relato
sequer que João Batista, a essa época com menos de dois anos,
tenha sido poupado por Herodes ou que, talvez, sua família
tenha também fugido para escapar dele. Quanto a idade de
João Batista basta ler Lucas (1,39-44) para ver que a jovem
Maria foi visitar Izabel, mãe de João, e esta, “cheia do Espírito
Santo” (v. 41) reconheceu a gravidez de sua prima.

Pepe Rodríguez, destacado jornalista de investigação,


especialista em religiões comparadas, com diversos livros já
publicados, dá a respeito de Mateus 2,13-18, citado acima, a
seguinte opinião:

Este relato é o máximo: mostra um Herodes


profundamente estúpido que, apesar de “perturbado”
com a notícia do nascimento de um rei messias que
podia destroná-lo (Mt 2,3-5), se revela incapaz de enviar
os seus soldados a Belém, situada a pouca distância do
seu palácio, para o prender e, em lugar de mandar, ao
menos, algum dos seus muitos espias da corte para que
o informassem com diligência, ficou à espera das
notícias de três magos desconhecidos que se haviam
declarado adoradores do recém-nascido. Um recém-
nascido que, conforme conta Mateus, já podia ter perto
de dois anos, o que nos leva a perguntar: passou Jesus
os seus dois primeiros anos num estábulo à espera dos
magos?, ficou Herodes durante esses dois anos à
espera dos magos sem tomar qualquer medida, mesmo

77 WILSON, 2007, p. 11.


62

depois de esse prazo ter passado?, eram tão idiotas os


soldados de Herodes que não soubessem distinguir
entre um recém-nascido e uma criança mais crescida, a
ponto de Herodes ter de os mandar assassinar todos os
nascidos “de dois anos para baixo”?
Contrariamente ao que nos fazem crer Mateus, os
dados históricos reais dizem-nos que Herodes não
era um rei papa-açorda e sanguinário. Muito pelo
contrário. Mas, ao silenciarem os factos descritos por
esse evangelho, dizem-nos também que Mateus está
a mentir. Não aparecem relatados em lado algum;
nem mesmo nas Antiguidades Judaicas ou em
qualquer outra das obras documentadas do historiador
judeu Flávio Josefo (c. 37-103 d.C.): este autor, que
lutou contra os Romanos na guerra judaica, nunca
deixou passar em silêncio os massacres cometidos
contra o seu povo, sendo assim impossível não ter
contado – num relato minucioso, como são todos os
seus – a notícia da matança das crianças, se esta
tivesse efetivamente acontecido (78).
Esta lenda, como restante mito evangélico sobre
Jesus, é falsa. Na sua origem contam-se antigas
tradições pagãs. Como é óbvio, foi introduzida por
Mateus – o único texto canónico em que aparece – por
um motivo muito concreto: reforçar a credibilidade do
mito básico do cristianismo, mostrando como este dá
cumprimento a duas supostas profecias sobre o
Messias. (79) (grifo nosso).

Por outro lado, segundo o escritor Werner Keller (1909-

78 Nota da Transcrição (N.T.): Por outro lado, dado que os Judeus, submetidos
ao Império Romano, não podiam aplicar a pena de morte aos seus próprios
concidadãos, sem uma autorização explícita do governador imperial, não é
razoável pensar-se que Herodes tenha ordenado a matança, como não é
provável, caso tal tivesse acontecido, que o rei judeu não tivesse sido
castigado pela autoridade romana.
79 RODRÍGUEZ, 2007, p. 110-111.
63

1980), “inexiste prova histórica ou arqueológica da ‘fuga para o


Egito’”. (80). Sobre esse assunto, não nos estenderemos,
porquanto, já o estudamos, pormenorizadamente, em nosso
texto “A fuga do Egito”, disponível em nosso site
www.paulosnetos.net, o qual sugerimos a você, caro leitor, a
sua leitura.

Os tradutores da Bíblia de Jerusalém explicam essa


narrativa como sendo uma tentativa de se fazer “um paralelo
anterior na infância de Moisés, descrita pelas tradições
rabínicas: segundo estas, quando o nascimento da criança foi
anunciado, por meio de visões, ou por intermédio dos mágicos,
o Faraó mandou chacinar as crianças recém-nascidas.” (81)

Vejamos esse episódio em Flávio Josefo (37 a 103 d.C.),


o historiador hebreu:

[…] Um dos doutores da sua lei, ao qual eles dão o


nome de escribas das coisas santas e que passam entre
eles por grandes profetas, disse ao rei que naquele
mesmo tempo deveria nascer um menino entre os
hebreus, cuja virtude seria admirada por todo o
mundo, pois aumentaria a glória de sua nação e
humilharia o Egito, e cuja reputação seria imortal. O rei,
assustado com a predição e seguindo o conselho
daquele que lhe fazia essa advertência, publicou um
edito pelo qual ordenava que se deveriam afogar
todas as crianças hebreias do sexo masculino e
ordenou às parteiras do Egito que observassem
exatamente quando as mulheres fossem dar à luz,
porque não confiava nas parteiras de sua nação. Esse
edito ordenava também que aqueles que se atrevessem

80 KELLER, 2000, p. 366.


81 Bíblia de Jerusalém, p. 1705-1706.
64

a salvar ou criar alguma dessas crianças seriam


castigados com a pena de morte, juntamente com toda a
família. (82) (grifo nosso)

O paralelo entre os dois personagens – Moisés e Jesus –


é evidente: ambos representavam problemas políticos no
futuro, com a possibilidade de virem a querer ocupar os cargos
dos mandatários.

Em relação à morte das crianças, Keller explica o


seguinte:

Assim, hoje em dia usa-se de um cuidado bem


maior do que outrora na apreciação da historicidade
do infanticídio de Belém e, antes, tende-se a
considerar o relato em questão como uma tentativa,
condicionada à mentalidade contemporânea que visa
realçar a importância de Jesus, pelos meios usados na
época (para tanto, existe ainda uma certa autenticidade
histórica, representada pelas atitudes efetivamente
tomadas por Herodes em sua contenda com os fariseus,
por causa do Messias. Veja o fim do capítulo
precedente). No entanto, há ainda mais. O relato do
infanticídio de Belém estabeleceu um nexo entre
Jesus e Moisés, pois também desse último a Bíblia
conta como escapou, milagrosamente, de perseguições
idênticas, sofridas por parte do faraó egípcio (Êxodo
1.15, 2.10). (83) (grifo nosso)

Corroborando o que foi dito acima, transcrevemos,


respectivamente, de Roberto Carneiro Puccinelli Junior, escritor,
espiritualista e mestre em ciências e Bart D. Ehrman, Ph.D. em

82 JOSEFO, 2003, p. 79.


83 KELLER, 2000, p. 366.
65

Teologia pela Princeton University, que dirige o Departamento


de Estudos Religiosos da University of North Carolina, Chapel
Hill. É especialista em Novo Testamento, igreja primitiva,
ortodoxia e heresia, manuscritos antigos e da vida de Jesus; é a
maior autoridade em Bíblia do mundo:

Outro exemplo é a matança de meninos de até dois


anos, que teria sido ordenada por Herodes “em Belém e
todo seu território” (Mt2:16). Mateus faz uso aqui de
tradições rabínicas sobre a vinda de Moisés,
segundo as quais tão logo o nascimento da criança
foi anunciado por meio de visões e anúncios dos
magos, o faraó teria mandado chacinar crianças
recém-nascidas do sexo masculino (84). Também se
observa um paralelo com o livro do Êxodo, quando o rei
do Egito manda as parteiras assistentes do povo hebreu
assassinar todo recém-nascido menino e poupar a vida
das meninas. Conforme explica Roselis von Sass em “O
Livro do Juízo Final”, Jesus nasceu em 12 a.C., data
confirmada também pelo Dr. Jerry Vardaman, diretor do
Instituto de Arqueologia da Universidade do Mississípi e
professor de religião. Nessa época, Herodes não
estava preocupado com o nascimento de nenhum
Messias, mas sim com dois de seus filhos que, segundo
imaginava, tramavam a sua morte. Nesse ano ele foi
com os filhos até Roma para que o imperador Augusto
decidisse a questão, o qual não viu indícios de nenhuma
rebelião e reconciliou pai e filhos. Ainda nesse ano de 12
a.C., Herodes presidiu a edição dos Jogos Olímpicos e
até deu dinheiro do próprio bolso para garantir o
sucesso do empreendimento. De preocupações com o

84 N.T.: O faraó de fato tencionava matar os hebreus recém-nascidos do sexo


masculino, mas não para se ver livre de uma criança chamada Moisés, e
sim porque achava que o povo escravizado estava se tornando muito
numeroso, o que poderia ser perigoso para o país. Ao leitor que desejar
conhecer detalhes dessa história indicam-se as obras Aspectos do Antigo
Egito ou Moisés, ambas publicadas pela Editora Ordem do Graal na Terra.
66

Messias nascido, nem sinal. (85) (grifo nosso).

Quanto ao registro histórico, também devo chamar a


atenção para o fato de que não há nenhum relato, em
qualquer fonte antiga, sobre o rei Herodes
massacrar crianças em Belém, ou em seus
arredores, ou em qualquer outro lugar. Nenhum
outro autor, bíblico ou não, menciona isso. […]. (86)
(grifo nosso).

Para nós, fica nítido que a fuga da família de Jesus para


o Egito foi utilizada também para tentar aplicar o que se supõe
ser uma profecia de Oseias. Ao analisarmos a citada passagem
desse profeta (Oseias 11,1) vemos que ela nem mesmo é uma
profecia, pois, na verdade, trata-se de um fato já acontecido.
Deve-se observar que o verbo “chamar” está no pretérito, o
que indica fato do passado e não um evento a acontecer no
futuro. Ademais, a expressão “meu filho”, usada no passo, tem
como referência o povo de Israel e não alguém em particular.

Por outro lado, a matança das crianças é, por certo, uma


tentativa de justificar uma suposta profecia de Jeremias (31,15).
Porém, como já acontecido anteriormente, essa passagem
também não é uma profecia, uma vez que se refere à tomada
de Jerusalém por Nabucodonosor, rei da Babilônia, que subjuga
o povo e o leva cativo para seu país; daí “o pranto de Raquel
(sepultada em Ramá, perto de Belém) pelos filhos massacrados
ou deportados pelos caldeus depois da destruição de Jerusalém
em 596 a.C.,…” (87)

85 PUCCINELLI JUNIOR, 2006, p. 192-193.


86 EHRMAN, 2010, p. 46.
87 Bíblia Sagrada – Paulinas, p. 1062.
67

A suposta ida da família de Jesus para Nazaré é, da


mesma forma, algo que foi forjado para se relacionar ao
cumprimento de mais uma profecia que teria sido dita por
vários profetas. Entretanto, a bem da verdade, não há nenhuma
profecia em que um só profeta tenha dito: “Será chamado
Nazareno”; portanto, é pura invenção de Mateus ou de alguém
que, por algum motivo, colocou isso lá.

Considerações de Geza Vermes, professor da


Universidade de Oxford, é considerado um dos maiores
especialistas acadêmicos sobre Manuscritos do Mar Morto e
história do cristianismo, ao versículo “[Ele] será chamado
Nazareno” (Mateus 2,23):

Enquanto a descendência davídica de Jesus é um


tema recorrente bem estabelecido nos Evangelhos,
especialmente nos Sinóticos, sua proveniência da
Judeia parece ser mais de uma vez ignorada ou
contestada. As pessoas o viam não como sulista, mas
como nascido e criado na Galileia. Ele era chamado de
Jesus, o Nazareno, isto é, originário de Nazaré, ou,
por extenso, o profeta Jesus de Nazaré da Galileia
(Mt 21,11). Nazaré e a região do lago da Galileia era sua
patris, o que pode significar igualmente seu lugar de
nascimento, sua cidade e sua pátria (Mc 6,4; Mt 13,57;
Lc 4,24, Jn 1,46). Obviamente, alguns judeus locais
se recusaram a aceitá-lo como o Messias justamente
porque sabiam que ele era da Galileia e não “de
Belém, a cidade onde vivia Davi” (Jo 7,41-42).
Ademais, eles expressavam o preconceito sem dúvida
originário da Judeia, segundo o qual nenhum grande
profeta provinha da Galileia (Jo 7,52). Devemos
reconhecer, portanto, que estamos em um impasse: o
nascimento em Belém é asseverado com certeza
teológica, mas é questionado no que parece ser
68

conhecimento factual. (88) (grifo nosso)

Apresentamos também as considerações de alguns


tradutores:

O adjetivo provém, sem dúvida, do nome de Nazaré.


Serviu para designar os cristãos (At 24,5). (89) (grifo nosso)

A palavra “Nazareno” pode ter um duplo sentido:


habitante de Nazaré e “Nazir”, isto é, consagrado a Deus
por um voto (Cf. Lv 21,12; Jz 23,57). Talvez Mt quisesse
literariamente visar os dois sentidos: Jesus é de Nazaré e é
consagrado especialmente ao Senhor. (90) (grifo nosso)

“Nazareu” (nazôraios forma usada por Mt, Jo e At) e o seu


sinônimo “nazareno” (nazarênos, forma usada por Mc; Lc tem
as duas formas) são duas transcrições correntes do
mesmo adjetivo aramaico (nasraya), derivado do nome da
cidade de Nazaré (Nasrath). Aplicado primeiro a Jesus –
indicando sua origem (26,69.71) – e depois a seus sequazes
(At 24,5), esse termo ficou como designativo dos discípulos de
Jesus no mundo semítico, enquanto no mundo greco-romano
prevaleceu o nome de “cristão” (At 11,26). […]. ( 91) (grifo
nosso)

Ao que nos parece, o consenso é que o adjetivo


“Nazareno”, aplicado a Jesus, está mais para designar a sua
origem do que qualquer outra coisa, inclusive, o próprio autor
de Mateus coloca Jesus indo habitar Nazaré para relacioná-lo a
esse adjetivo, embora, a rigor, é mais lógico aplicá-lo a quem
nasceu em Nazaré; porém, é certo que a principal preocupação
desse autor era relacionar Jesus a uma suposta profecia do que

88 VERMES, 2007, p. 97.


89 Bíblia Sagrada – Ave-Maria, p. 1286.
90 Bíblia Sagrada – Santuário, p. 1437.
91 Bíblia de Jerusalém, p. 1706.
69

ser lógico e coerente em seus relatos. Voltaremos a esse


assunto mais ao final desse estudo.

Existem outras passagens em Mateus nas quais cita-se


uma cidade ou região relacionada a Jesus:

Mateus 3,13: “Jesus foi da Galileia para o rio Jordão, a


fim de se encontrar com João, e ser batizado por ele.”
(grifo nosso)

Mateus 4,12-13; “Ao saber que João tinha sido preso,


Jesus voltou para a Galileia. Deixou Nazaré, e foi
morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da
Galileia, nos confins de Zabulon e Neftali.” (grifo nosso)

Mateus 13,53-54: “Quando Jesus terminou de contar


essas parábolas, saiu desse lugar, e voltou para a sua
terra. Ensinava as pessoas na sinagoga, de modo que
ficavam admiradas. Diziam: 'De onde vêm essa
sabedoria e esses milagres?'” (grifo nosso)

Mateus 19,1: “Quando Jesus acabou de dizer essas


palavras, ele partiu da Galileia, e foi para o território
da Judeia, no outro lado do rio Jordão.” (grifo nosso)

Mateus 21,10-11: “Quando Jesus entrou em Jerusalém,


toda a cidade ficou agitada, e perguntavam: 'Quem é
ele?' E as multidões respondiam: 'É o profeta Jesus, de
Nazaré da Galileia'.” (grifo nosso)

A citação inicial de Galileia (3,13), provavelmente trata-


se de Nazaré. Jesus muda-se para Cafarnaum, ainda na Galileia
(4,12-13), depois volta à “sua terra” (13,53-54), certamente,
Nazaré, conforme é afirmado em: Novo Testamento Loyola,
Bíblia de Jerusalém e Bíblia Santuário. E, finalmente, ele se
transfere para a Judeia (19,1), chegando à Jerusalém (21,10-
11). O interessante é que nessa cidade “que mata os profetas”
70

ele foi reconhecido como Jesus de Nazaré, bem estranho se


tivesse nascido em Belém, que é na Judeia, e que se localiza a
cerca de 10 km ao sul de Jerusalém, que dizer, na própria
região, onde dizem ter nascido, eles o conhecem como sendo
de Nazaré.

Mateus 20,29-30: “Quando saía de Jericó, uma


numerosa multidão o seguiu. Então dois cegos,
sentados à beira da estrada, percebendo que Jesus
passava gritaram: 'Senhor, tem piedade de nós, ó Filho
de Davi!'” (grifo nosso)

Marcos 10,46-47: “Jesus e os discípulos chegaram a


Jericó. Quando ele já saía de lá com os seus discípulos, e
acompanhados de uma numerosa multidão, o cego
Bartimeu, filho de Timeu, estava sentado à beira do
caminho pedindo esmola. Tendo sabido que se
tratava de Jesus de Nazaré, ele começou a gritar:
'Filho de Davi, Jesus, tem piedade de mim!'” (grifo
nosso)

Lucas 18,35-38: “Quando Jesus se aproximava de Jericó,


um cego estava sentado à beira do caminho,
mendigando. Ouvindo o barulho da multidão que
passava, perguntou o que havia. Anunciaram-lhe: É
Jesus, o Nazareno que está passando. Então, ele
começou a gritar: 'Jesus, filho de Davi, tem piedade de
mim!'” (grifo nosso)

Relacionando-se os passos de Marcos e Lucas, podemos,


mais uma vez, concluir que Nazareno quer significar nascido
em Nazaré.

É curioso como o “Espírito Santo” inspira os autores


bíblicos de forma divergente, em Mateus é afirmado que são
dois cegos, em Lucas e Marcos temos um só, inclusive, neste
71

último autor é citado até o nome dele. E aí temos sérios


problemas, caso S. Jerônimo esteja certo quando disse: “A
Verdade não pode existir em coisas que divergem”.

Vejamos, agora, as referências do Evangelho de Marcos:

Mc 1,9: “Nesses dias, Jesus chegou de Nazaré da


Galileia, e foi batizado por João no rio Jordão.” (grifo
nosso)

Mc 1,14: “Depois que João Batista foi preso, Jesus voltou


para a Galileia, pregando a Boa Notícia de Deus.” (grifo
nosso)

Marcos tem que Jesus residia em “sua terra” Nazaré,


portanto, não é fora de propósito presumir-se que, por não falar
nada dele ter nascido em algum outro lugar, que essa cidade é
o local onde ele nasceu. Fato que se pode confirmar levando-se
em conta a própria fala de Jesus:

Mc 6,1-6: “Jesus foi para Nazaré, sua terra, e seus


discípulos o acompanharam. Quando chegou o sábado,
Jesus começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o
escutavam ficavam admirados e diziam: 'De onde vem
tudo isso? Onde foi que arranjou tanta sabedoria? E
esses milagres que são realizados pelas mãos dele?
Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e
irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? E suas
irmãs não moram aqui conosco?' E ficaram
escandalizados por causa de Jesus. Então Jesus dizia
para eles que um profeta só não é estimado em sua
própria pátria, entre seus parentes e em sua família. E
Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré. Apenas curou
alguns doentes, pondo as mãos sobre eles. E Jesus ficou
admirado com a falta de fé deles.” (grifo nosso)
72

Numa outra versão, o trecho destacado do versículo 4


tem o seguinte teor: “Um profeta só é estimado fora da sua
terra natal” (Loyola), ou seja, aqui temos o próprio Jesus
afirmando ser Nazaré o seu local de nascimento, que também é
o sentido de “sua própria pátria” na versão acima.

Ernest Renan (1823-1892), escritor, filósofo e


historiador, que, na obra Vida de Jesus, em analisando a
infância e a juventude de Jesus, objetivamente disse:

Jesus nasceu em Nazaré (92), pequena cidade da


Galileia, que antes desse importante acontecimento não
teve nenhuma celebridade (93). Durante toda a sua vida
foi conhecido pelo nome de “Nazareno” ( 94), e só após
entrarmos por um atalho bem complicado ( 95) é que
seremos capazes de entender o porquê da lenda que
diz ter ele nascido em Belém. Veremos adiante (96) o
motivo dessa suposição e como ela era a consequência
obrigatória do papel messiânico atribuído a Jesus (97).
Ignora-se a data precisa de seu nascimento. Ele ocorreu
sob o reino de Augusto, provavelmente por volta do ano
750 de Roma (98), ou seja, alguns anos antes do ano 1
da era que todos os povos civilizados datam como o dia

92 N.T.: Mat., XIII, 54 e seg.; Marcos, VI, 1 e seg.; João, I, 45-46.


93 N.T.: Ela não é mencionada nem nos escritos do Velho Testamento, nem em
Josefo, nem no Talmude. Mas é nomeada na liturgia de Kalir, para o 9 de ab.
94 N.T.: Mat., XXVI, 71; Marcos, I, 24; XIV, 67; Lucas, XVIII, 37; XXIV, 19; João,
XIX, 19; Atos, II, 22; III, 6; X, 38. Comp. João, VII, 41-42; Atos, II, 22, III, 6; IV,
10; VI, 14; XXII, 8; XXVI, 9. Daí o nome de nazarenos (Atos, XXIV, 5),
aplicado durante muito tempo aos cristãos pelos judeus, e que os designa
ainda em todos os países muçulmanos.
95 Essa circunstância foi inventada para responder a Miqueias, V, 1. O
recenseamento efetuado por Quirino, ao qual a lenda relaciona a viagem a
Belém, data de pelo menos dez anos além do ano em que, segundo Lucas,
Jesus teria nascido. Os dois evangelistas, de fato, situam o nascimento de
Jesus sob o reino de Herodes (Mat., II, 1, 19, 22; Lucas, I, 5). Logo, o
recenseamento de Quirino só aconteceu após a deposição de Arquelau,
quer dizer, dez anos após a morte de Herodes, no ano 37 da era de Acio
73

oficial de seu nascimento (99). (100) (grifo nosso).

Mais claro não precisa: Jesus nasceu em Nazaré é pura


lenda colocá-lo nascendo em Belém.

Marcos 1,23-24: “Nesse momento, estava na sinagoga


um homem possuído por um espírito mau, que começou
a gritar: 'Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste
para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de
Deus!'” (grifo nosso)

Até mesmo um espírito mau reconhece Jesus como


natural de Nazaré, eis o motivo dele o ter chamado de
Nazareno. Nas versões: Novo Testamento Loyola, A Bíblia
Tradução Ecumênica, Bíblia Sagrada Santuário, Bíblia Sagrada
Ave-Maria e Bíblia do Peregrino, lemos “Jesus de Nazaré”, disso
deduzimos que seus tradutores entendem o adjetivo Nazareno
é aplicado a quem é natural de Nazaré.

Apenas para curiosidade: se o homem estava possuído


por “Um” espírito mau, qual a razão da pergunta “que queres
de nós”, uma vez que aqui se denota ser mais de um? E não

(Josefo, Ant., XVII, XIII, 5; XVIII, 5, 1; II, 1). A inscrição pela qual se tentava
outrora estabelecer que Quirino fez dois recenseamentos é reconhecida
como falsa (V. Orelli, Insc. Lat., nº 623, e o suplemento de Henzen nesse
número; Borghesi, Fastos Consulares [ainda inéditos], no ano de 742).
Quirino pode ter sido núncio por duas vezes na Síria, mas só houve
recenseamento na segunda nunciatura (Mommsen, Res gestae divi
Augusti, Berlim, 1865, p. 111 e seg.). O recenseamento, em todo caso, teria
sido aplicado às partes reduzidas à província romana, e não aos reinados e
tetrarquias, mormente enquanto vivesse Herodes, o Grande. Os textos
pelos quais se tenta provar que algumas das operações de estatística e de
cadastro determinadas por Augusto devem ter se estendido ao domínio de
Herodes ou não têm a importância que se lhes quer dar ou são de autores
cristãos, que tomaram este dado emprestado do Evangelho de Lucas. O
que bem prova, aliás, que a viagem da família de Jesus a Belém não tem
nada de histórico, que é o motivo a ela atribuído. Jesus não era da família
de Davi (ver cap. 15) e, mesmo que fosse, não se conceberia, ademais, que
74

venham com o tal do plural majestático como explicação! Lucas


também narra esse episódio (Lucas 4,33-34).

Marcos 1,21: “Foram à cidade de Cafarnaum e, no


sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar.”
(grifo nosso)

Marcos 2,1: “Alguns dias depois, Jesus entrou de novo


na cidade de Cafarnaum. Logo se espalhou a notícia
de que Jesus estava em casa.” (grifo nosso)

Marcos 3,20: “Jesus foi para casa, e de novo se reuniu


tanta gente que eles não podiam comer nem sequer um
pedaço de pão.” (grifo nosso)

Marcos 9,33: “Quando chegaram à cidade de


Cafarnaum e estavam em casa, Jesus perguntou aos
discípulos: 'Sobre o que vocês estavam discutindo no
caminho?'” (grifo nosso)

Sem dar nenhuma notícia de que Jesus tenha se


mudado, Marcos já tem Jesus como residindo em Cafarnaum.

Marcos 16,5-6: “Então entraram no túmulo e viram um


jovem, sentado do lado direito, vestido de branco. E
ficaram muito assustadas. Mas o jovem lhes disse: 'Não

seus pais tivessem sido forçados, por uma operação puramente cadastral e
financeira, a ir se inscrever no local de onde seus ancestrais haviam saído
mil anos antes. Impondo tal obrigação, a autoridade romana teria
angariado para si pretensões carregadas de ameaças. (grifo nosso)
96 Cap. 14.
97 Mat., II, 1 e seg.; Luc., II, 1 e seg. A omissão desse relato em Marcos e as
duas passagens paralelas, Mat., XIII, 54 e Marcos, VI, 1, nas quais Nazaré
aparece como “a terra” de Jesus, provam a ausência de tal lenda no texto
primitivo que forneceu o esboço narrativo dos Evangelhos atuais de Mateus
e Marcos. É diante dessas objeções frequentemente repetidas que se terão
acrescentado, quanto ao Evangelho de Mateus, reservas cuja contradição
com o resto do texto não era tão flagrante a ponto de obrigar a correção
dos locais que haviam sido descritos sob um ponto de vista muito diferente.
Lucas, ao contrário (IV, 16), escrevendo refletidamente, empregou, para ser
consequente, uma expressão mais amenizada. Quanto ao quarto
75

fiquem assustadas. Vocês estão procurando Jesus de


Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está
aqui! Vejam o lugar onde o puseram'” (grifo nosso)

O jovem vestido de branco diz à Maria Madalena, Maria,


mãe de Tiago, e Salomé que Jesus não estava mais lá no
túmulo, pois havia ressuscitado. Este jovem, na visão de
Mateus era um anjo, que desceu do céu (Mateus 28,2-3), dessa
forma, temos que o plano espiritual confirma que Jesus é de
Nazaré e não de Belém.

Seguindo com a nossa análise, vejamos o Evangelho de


Lucas:

Lucas 1,26-27: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi


enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada
Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em casamento a
um homem chamado José, que era descendente de
Davi. E o nome da virgem era Maria.” (grifo nosso)

Lucas 2,39-40: “Quando acabaram de cumprir todas as


coisas, conforme a Lei do Senhor, voltaram para
Nazaré, sua cidade, que ficava na Galileia. O menino
crescia e ficava forte, cheio de sabedoria. E a graça de
Deus estava com ele.” (grifo nosso)

Lucas 2,51: “Jesus desceu então com seus pais para


Nazaré, e permaneceu obediente a eles. E sua mãe

evangelista, ele nada sabe da viagem a Belém; para ele, Jesus é


simplesmente “de Nazaré”, ou “galileu”, em duas circunstâncias em que
seria da maior importância lembrar seu nascimento em Belém (I, 45-46; VII,
41-42).
98 Mateus, II, 1, 19,22; Lucas, I, 5. Herodes morreu na primeira metade do ano
750, correspondente ao ano 4 a.C.
99 Sabe-se que o cálculo q e serve de base à era vulgar foi feito no século VI
por Dionísio, o Pequeno. Esse cálculo envolve certos dados puramente
hipotéticos.
100 RENAN, 2004, p. 99-100.
76

conservava no coração todas essas coisas.” (grifo nosso)

Em todos esses passos é fato incontestável que a família


de Jesus morava em Nazaré, inclusive, o anjo enviado para
avisar Maria sobre os futuros acontecimentos foi a Nazaré,
cidade onde ela morava. O ponto que se há de resolver é que,
conforme as supostas profecias o Messias nasceria em Belém,
assim Lucas apresenta como justificativa um fictício
recenseamento a mando de César Augusto, conforme se vê no
passo a seguir.

Lucas 2,1-7: “Naqueles dias, o imperador Augusto


publicou um decreto, ordenando o recenseamento
em todo o império. Esse primeiro recenseamento foi
feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam
registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da
família e descendência de Davi. Subiu da cidade de
Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada
Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua
esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em
Belém, se completaram os dias para o parto, e
Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o
enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia
lugar para eles dentro da casa.” (grifo nosso)

Vermes, em As várias faces de Jesus, tem a seguinte


opinião sobre o mencionado recenseamento:

Não há registro de nenhum censo imperial na época


de Augusto. Houve um recenseamento fiscal na Judeia
em 6/7 d.C. sob Quirino, governador da Síria, após a
deposição de Herodes Arquelau e a transformação de
sua etnarquia na província romana da Judeia. Porém,
nenhum censo romano teria sido imposto a um rei
dependente como Herodes, e tampouco Quirino foi
77

governador da Síria durante a vida de Herodes.


Finalmente, mesmo que tenha havido um censo na
época do nascimento de Jesus, José não teria sido
obrigado, sob as leis romanas, a viajar para a terra
ancestral de sua tribo, e tampouco Maria teria sido
obrigada a acompanhá-lo. Lucas parece ter
combinado o censo que de fato houve sob Quirino,
cerca de doze anos após o nascimento de Jesus, com o
seu roteiro teológico. (101) (grifo nosso)

Além disso, acreditamos que jornalista A. N. Wilson,


escritor, biógrafo e romancista, tem razão quando diz:

[…] Nenhum historiador antigo, por exemplo, faz a


menor alusão a esse recenseamento universal ordenado
pelo imperador Augusto. Josefo, em seu Antiguidades,
menciona um recenseamento ocorrido na Judeia no ano 6 da
EC e diz que tinha por finalidade contar cabeças antes do
lançamento de uma capitação. A impopularidade desse
imposto, e do recenseamento, provocou a insurreição chefiada
por Judas de Gamala (mencionada pelo próprio Lucas nos
Atos dos Apóstolos). (102). A finalidade desse recenseamento
era puramente estatística. Não há razão para supor que
qualquer uma das pessoas que foram contadas tenha
recebido ordem de voltar à aldeia onde algum putativo
antepassado teria residido mais de mil anos antes. (103)
(grifo nosso)

E dele ainda temos:

[…] O Evangelho, segundo Lucas, fixa-a


especificamente numa época em que César Augusto
exigiu que todos os indivíduos no Império Romano
fossem submetidos a um recenseamento. Isso

101 VERMES, 2006b, p. 255.


102 N.T.: Atos, 5:37. Vide supra, 26.
103 WILSON, 2007, p. 100.
78

aconteceu no tempo em que Quirino era governador da


Síria (104). Herodes, na época, era rei da Judeia ( 105).
Esse fato aparentemente estabeleceria com grande
precisão o nascimento de Jesus, até descobrirmos que
Herodes faleceu quatro anos antes da era cristã e
que Quirino não foi governador da Síria durante o
reinado de Herodes. Nenhum historiador do Império
Romano faz a menor referência a um recenseamento
universal durante o reinado do imperador Augusto,
embora Flávio Josefo nos informe, no seu Antiguidades
judaicas, que, de fato, houve um recenseamento na
Judeia no ano 6 da era cristã. (106) (grifo nosso)

Por outro lado, é difícil acreditar que José se lembrasse


de seus antepassados que viveram até mil anos antes dele,
ainda mais se levando em conta que, àquela época,
provavelmente, não existiam registros nos quais pudesse
apoiar-se para saber de sua árvore genealógica ancestral, que
retroagia até o rei Davi. É o que nos afirma Bart D. Ehrman:

Os problemas históricos em Lucas são ainda


maiores. Para começar, nós temos registros
relativamente confiáveis do reinado de César
Augusto, e em nenhum deles há qualquer referência
a um censo do império inteiro, para o qual todos
teriam de se registrar retornando ao lar de seus
ancestrais. E como isso poderia ter sido imaginado?
José retorna a Belém porque seu ancestral Davi tinha
nascido lá. Mas Davi viveu mil anos antes de José.
Devemos imaginar que no império romano todos
deveriam retornar ao lar de seus ancestrais de mil
anos antes? Se fizéssemos um censo mundial hoje e

104 N.T.: Lucas, 2:2.


105 N.T.: Mateus, 2:1.
106 WILSON, 2007, p. 10-11.
79

cada um de nós tivesse de retornar à cidade de nossos


ancestrais de mil anos antes, para onde você iria? Você
consegue imaginar a absoluta perturbação da vida
humana que esse tipo de êxodo universal exigiria? E
consegue imaginar um projeto desse porte não ser
mencionado em nenhum jornal? Não há nenhuma
referência a um censo assim em qualquer fonte antiga, a
não ser em Lucas. Então por que ele diz que esse censo
aconteceu? A resposta pode parecer óbvia. Ele queria
que Jesus nascesse em Belém, embora soubesse
que era de Nazaré. Mateus também, mas ele fez com
que Jesus nascesse lá de modo diferente. (107) (grifo
nosso)

São grandes, portanto, os problemas com os quais nos


defrontamos, caso façamos opção de seguir as narrativas
bíblicas preterindo os registros históricos.

Apenas para deixar registrada outra curiosidade a


respeito de Jesus, vejamos o seguinte passo:

Lucas 2,41-47: “Os pais de Jesus iam todos os anos a


Jerusalém, para a festa da Páscoa. Quando o menino
completou doze anos, subiram para a festa, como de
costume. Passados os dias da Páscoa, voltaram, mas o
menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o
notassem. Pensando que o menino estivesse na
caravana, caminharam um dia inteiro. Depois
começaram a procurá-lo entre parentes e conhecidos.
Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém à procura
dele. Três dias depois, encontraram o menino no
Templo. Estava sentado no meio dos doutores,
escutando e fazendo perguntas. Todos os que
ouviam o menino estavam maravilhados com a
inteligência de suas respostas.” (grifo nosso)

107 EHRMAN, 2010, p. 46.


80

Então, todos nós acreditamos piamente nessa história,


entretanto, o estudioso Geza Vermes trata essa história sobre
os conhecimentos extraordinários de Jesus de doze anos junto
aos doutores da lei como uma lenda (108).

Lucas 3,23: “Ao iniciar o ministério, Jesus tinha mais ou


menos trinta anos e era, conforme se supunha, filho
de José, filho de Eli.” (grifo nosso)

Não vamos nem entrar no mérito de que em Mateus o


pai de José é Jacó, e não Eli como aqui em Lucas, porquanto
tem algo mais interessante para vermos. Observe, caro leitor,
que Lucas não quis colocar a mão no fogo sobre quem era
verdadeiramente o pai de Jesus, pois dizer que “conforme se
supunha”, não é a mesma coisa que afirmar que é. Porém, aqui
caímos num outro problema, pois se não for filho carnal de José,
e, no caso, pensa-se que é filho do Espírito Santo, via de
consequência, Jesus também não era descendente de Davi, fato
que, obviamente, não fazia dele o Messias esperado.

Lucas 4,14-16: “Jesus voltou para a Galileia, com a


força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a
redondeza. Ele ensinava nas sinagogas, e todos o
elogiavam. Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se
havia criado. Conforme seu costume, no sábado entrou
na sinagoga, e levantou-se para fazer a leitura.” (grifo
nosso)

Ao que tudo indica, aqui já temos Jesus residindo em


outra cidade; é bem provável que seja Cafarnaum, como dito
por Mateus e Marcos.

108 VERMES, 2006b, p. 185.


81

Um fato que achamos interessante aqui é que Jesus


“levantou-se para fazer a leitura”, porquanto, João afirma que
ele “nunca estudou” (João 7,15), embora, contraditoriamente,
no episódio da mulher adúltera (João 8,1-11), o próprio João
tenha colocado Jesus escrevendo no chão (v. 6 e 8).

Lucas 23,5-6: “Eles, porém, insistiam: 'Ele está


provocando revolta entre o povo, com seu ensinamento.
Começou na Galileia, passou por toda a Judeia, e agora
chegou aqui'. Quando ouviu isso, Pilatos perguntou se
Jesus era galileu.” (grifo nosso)

Galileu, obviamente, por ter nascido na Galileia, região


onde se localizava Nazaré, portanto, mais uma afirmativa de
que Jesus não era mesmo de Belém, que fica na Judeia. E a
respeito do costume de se colocar a denominação da cidade de
nascimento junto ao nome da pessoa, vejamos:

Lucas 23,50-51: “Havia um homem bom e justo,


chamado José. Era membro do Conselho, mas não
tinha aprovado a decisão, nem a ação dos outros
membros. Ele era de Arimateia, cidade da Judeia, e
esperava a vinda do reino de Deus.” (grifo nosso)

Marcos 15,42-43: “Ao entardecer, como era o dia da


Preparação, isto é, a véspera do sábado, chegou José
de Arimateia. Ele era membro importante do Sinédrio,
e também esperava o Reino de Deus. José encheu-se de
coragem, foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus.” (grifo
nosso)

João 19,38: “José de Arimateia era discípulo de Jesus,


mas às escondidas, porque ele tinha medo das
autoridades dos judeus. Depois disso, ele foi pedir a
Pilatos para retirar o corpo de Jesus. Pilatos deu a
autorização. Então ele foi e retirou o corpo de Jesus.”
82

(grifo nosso)

Nesses passos temos a prova desse costume na época,


é por este motivo que se Jesus tivesse nascido em Belém, seria
chamado de “Jesus de Belém”; porém, como o chamavam de
Jesus de Nazaré, é forçoso, por lógica, ter que aceitar que ele
era natural de Nazaré.

Juan Arias, padre escritor e jornalista, corrobora o que


acabamos de falar:

[…] E hoje tudo leva a crer que Jesus não nasceu


em Belém, como afirmam os evangelhos de Mateus e
Lucas (Marcos e João nem menciona seu nascimento),
mas em Nazaré.
Segundo alguns biblicistas modernos, como Antonio
Piñero, a notícia de que Jesus nasceu em Belém deve-
se à intenção de fazer coincidir o nascimento do
Messias com a profecia de Miqueias, tal como aparece
na Bíblia, que diz o seguinte: “E tu, Belém Efrata, tu és
pequenina entre os milhares de Judá! Mas de ti há de
sair aquele que há de reinar em Israel”, justamente um
texto citado por Mateus quando narra o episódio do
nascimento.
É a partir daí que Mateus e Lucas constroem o relato
do nascimento em Belém. Mas de maneira bem
diferente. Mateus fala da ira de Herodes que ordena a
matança dos inocentes, o que Lucas ignora. Lucas, ao
contrário, fala de um recenseamento decretado por
César Augusto, que seria o motivo de os pais de Jesus
se mudarem para Belém, fato que Mateus ignora. E, de
fato, parece que não há provas históricas da existência
desse censo naquela época e naquele lugar. Crossan
diz isso com todas as letras: “Nunca houve um censo
geral no tempo de Augusto”. Além do mais, o censo
tinha uma finalidade fiscal, e cadastrar alguém longe do
83

seu local de trabalho teria significado um verdadeiro


pesadelo para a burocracia.
O mais provável é que Jesus tenha nascido em
Nazaré. De fato, nos evangelhos ele nunca é
chamado de “Jesus de Belém” e sim de “Jesus de
Nazaré”, que era como se costumava chamar as
pessoas, ou seja, pelo lugar de nascimento ou pelo
nome do pai. Neste caso, ele teria sido “Jesus de
José”, mas nunca foi chamado assim, provavelmente
porque, como se sabe, os evangelistas não davam
importância a São José, que é apresentado acima de
tudo como um velho, devido à importância atribuída à
virgindade de Maria antes e depois do parto.
Curiosamente, o pai de Jesus é o grande desconhecido
nos evangelhos e em toda a tradição cristã. Talvez por
isso existam tantas lendas extraoficiais sobre sua
pessoa. (109) (grifo nosso)

Devia-se prestar mais atenção no que se tem descoberto


a respeito dos costumes do povo hebreu, porquanto, são,
muitas vezes, peças importantes para a interpretação de um
texto.

Lucas 24,19: “Jesus perguntou: 'O que foi?' Os discípulos


responderam: 'O que aconteceu a Jesus, o Nazareno,
que foi um profeta poderoso em ação e palavras, diante
de Deus e de todo o povo.” (grifo nosso)

Nazareno, certamente, quer dizer natural de Nazaré,


porquanto nas Bíblias Shedd, Ave-Maria, Vozes e Santuário em
vez de “Jesus, o Nazareno”, as traduções constam “Jesus de
Nazaré”. Além disso, fecha-se com o consenso anteriormente
falado ao analisamos Mateus 2,23.

109 ARIAS, 2001, p. 50-51.


84

Lucas 4,31: “Jesus foi a Cafarnaum, cidade da Galileia,


e aí ensinava aos sábados”.

Lucas 7,1: “Depois que terminou de falar todas essas


palavras ao povo que o escutava, Jesus entrou na
cidade de Cafarnaum”.

João 2,11-12: “Foi assim, em Caná da Galileia, que Jesus


começou seus sinais. Ele manifestou a sua glória, e seus
discípulos acreditaram nele. Depois disso, Jesus desceu
para Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus
discípulos. E aí ficaram apenas alguns dias”.

Lucas e João mostram que Jesus pregava em Cafarnaum,


não que residia lá, como Mateus (4,13) e Marcos (2,1; 3,20;
9,33) dizem, apesar deste último não informar que Jesus tenha
mudado para essa cidade.

João 1,43-46: “No dia seguinte, Jesus decidiu partir para


a Galileia. Encontrou Filipe e disse: 'Siga-me'. Filipe era
de Betsaida, cidade de André e Pedro. Filipe se
encontrou com Natanael e disse: 'Encontramos aquele
de quem Moisés escreveu na Lei e também os profetas:
é Jesus de Nazaré, o filho de José'. Natanael disse:
'De Nazaré pode sair coisa boa?' Filipe respondeu:
'Venha, e você verá'.” (grifo nosso)

João 4, 1-3: “Os fariseus ficaram sabendo que Jesus


atraía discípulos e batizava mais do que João. (Na
verdade, não era Jesus que batizava, mas os seus
discípulos). Ao saber disso, Jesus deixou a Judeia e foi
de novo para a Galileia.” (grifo nosso)

João 4,43-45; “Dois dias depois, Jesus foi para a


Galileia. Mas o próprio Jesus tinha declarado: 'Um
profeta nunca é bem recebido em sua própria
terra'. Entretanto, quando ele chegou à Galileia, os
galileus o receberam bem, porque tinham visto tudo o
85

que Jesus havia feito em Jerusalém durante a festa. Pois


eles também tinham ido à festa.” (grifo nosso)

João 4,46-47: “[…] Ora, em Cafarnaum havia um


funcionário do rei que tinha um filho doente. Ele ouviu
dizer que Jesus tinha ido da Judeia para a Galileia.
Saiu ao encontro de Jesus e lhe pediu que fosse a
Cafarnaum curar seu filho que estava morrendo.” (grifo
nosso)

Certamente, que as várias citações da região da Galileia


se refere à cidade de Nazaré, até mesmo porque Jesus se
referindo a si mesmo disse “Um profeta nunca é bem recebido
em sua própria terra” (João 4,44). E, aqui também, temos, mais
uma vez, Jesus sendo reconhecido como de Nazaré e não de
Belém (João 1,45), como se supõe, baseando-se em Mateus e
Lucas.

João 2,1-2: “No terceiro dia, houve uma festa de


casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus
estava aí. Jesus também tinha sido convidado para essa
festa de casamento, junto com seus discípulos.” (grifo
nosso)

Segundo conseguimos apurar “Caná da Galileia fica


localizada a cerca de treze quilômetros ao norte de Nazaré”
(110), portanto, na região onde Jesus morava, e, conforme
estamos vendo, ele nasceu, razão pela qual foi um dos
convidados para a festa de casamento (João 2,1-12). Foi nessa
cidade que Jesus de Nazaré iniciou o seu ministério (ver João
2,11).

110 CHAMPLIN e BENTES, vol. 1, 1995a, p. 622.


86

João 7,25-27: “Algumas pessoas de Jerusalém


comentavam: 'Não é este que estão procurando para
matar? Ele está aí falando em público, e ninguém diz
nada! Será que até as autoridades reconheceram que
ele é o Messias? Entretanto, nós sabemos de onde vem
esse Jesus, mas, quando chegar o Messias, ninguém
saberá de onde ele vem'.” (grifo nosso)

Que interessante, aqui temos algo nitidamente


contraditório, pois se diziam que o Messias viria de Belém (João
7,42), como aqui se afirma que “ninguém saberá de onde ele
vem”?

João 7,40-42: “Ouvindo essas palavras, alguns diziam no


meio da multidão: 'De fato, este homem é mesmo o
Profeta!' Outros diziam: 'Ele é o Messias'. Outros ainda
afirmavam: 'Mas o Messias virá da Galileia? A
Escritura não diz que o Messias será da descendência
de Davi e que virá de Belém, povoado de onde era
Davi?'” (grifo nosso)

João 7,50-52: “Mas Nicodemos, um dos fariseus, aquele


que tinha ido encontrar-se com Jesus, disse: 'Será que a
nossa Lei julga alguém antes de ouvir e saber o que ele
faz?' Eles responderam: 'Você também é galileu?
Estude e verá que da Galileia não sai profeta'.”
(grifo nosso)

Em ambas as passagens se confirma que Jesus é da


Galileia, região onde está localizada a cidade de Nazaré. Na
primeira é até mesmo afirmado, ainda que de forma indireta,
que Jesus não é de Belém, fato que outros autores perceberam,
como, por exemplo, A. N. Wilson:

[…] Podemos observar, no entanto, que o Quarto


Evangelho (de São João) afirma com toda clareza
87

que Jesus não nasceu em Belém e que não fazia


parte da linhagem de Davi. (111). Nesse Evangelho, as
multidões não acreditavam na possibilidade de que ele
seja o Messias porque veio da Galileia, e não de Belém.
[…]. (112) (grifo nosso)

Veremos agora o próprio Mestre dizendo se chamar


Jesus de Nazaré:

João 18,1-12: “Tendo dito isso, Jesus saiu com seus


discípulos, e foi para o outro lado do riacho do Cedron,
onde havia um jardim. Ele entrou no jardim com os
discípulos. Jesus já tinha se reunido aí muitas vezes com
seus discípulos. Por isso, Judas, que estava traindo
Jesus, também conhecia o lugar. Judas arrumou uma
tropa e alguns guardas dos chefes dos sacerdotes e
fariseus e chegou ao jardim com lanternas, tochas e
armas. Então Jesus, sabendo tudo o que lhe ia
acontecer, saiu e perguntou a eles: 'Quem é que
vocês estão procurando?' Eles responderam:
'Jesus de Nazaré'. Jesus disse: 'Sou eu'. Judas, que
estava traindo Jesus, também estava com eles. Quando
Jesus disse: 'Sou eu', eles recuaram e caíram no chão.
Então Jesus perguntou de novo: 'Quem é que vocês
estão procurando?' Eles responderam: 'Jesus de
Nazaré'. Jesus falou: 'Já lhes disse que sou eu. Se
vocês estão me procurando, deixem os outros ir
embora'. […]. Então a tropa, o comandante e os guardas
das autoridades dos judeus prenderam e amarraram
Jesus.” (grifo nosso)

Por duas vezes Jesus se identifica como Jesus de Nazaré,


a quem os guardas procuravam. Podemos ainda corroborar

111 N.T.: João, 7:42.


112 WILSON, 2007, p. 99.
88

essa identificação trazendo o depoimento de Pedro, que


possivelmente representa o pensamento dos outros discípulos.
Em três momentos diferentes, ele disse:

Atos 2,22: “Homens de Israel, escutem estas palavras:


Jesus de Nazaré foi um homem que Deus confirmou
entre vocês, realizando por meio dele os milagres,
prodígios e sinais que vocês bem conhecem.” (grifo
nosso)

Atos 4,10: “Pois fiquem sabendo todos vocês, e também


todo o povo de Israel: é pelo nome de Jesus Cristo, de
Nazaré, - aquele que vocês crucificaram e que Deus
ressuscitou dos mortos, - é pelo seu nome, e por
nenhum outro, que este homem está curado diante de
vocês.” (grifo nosso)

Atos 10,38: “Eu me refiro a Jesus de Nazaré: Deus o


ungiu com o Espírito Santo e com poder. E Jesus andou
por toda parte, fazendo o bem e curando todos os que
estavam dominados pelo diabo; porque Deus estava
com Jesus.” (grifo nosso)

Nota-se a particularidade de que é afirmado que Pedro


estava “cheio do Espírito Santo” (Jo 4,8) ao confirmar sobre a
sua procedência: “Jesus Cristo, de Nazaré”. Então, se Pedro
inspirado não disse “Jesus Cristo, de Belém”, é porque ele,
certamente, não procedia da cidade de Davi.

Em relação ao “A Escritura não diz que o Messias será


da descendência de Davi e que virá de Belém, povoado de
onde era Davi?” (João 7,42), na Bíblia Anotada temos a seguinte
informação: “da descendência de Davi. Veja 2Sm 7:12. Belém.
Veja Mq 5,2” (113).

113 A Bíblia Anotada, p. 1332.


89

Fomos confirmar o que se tem no passo 2 Samuel 7,12 e


vimos que nele não há previsão alguma a respeito da vinda de
Jesus; na verdade, o que temos é uma profecia a respeito de
Davi. Vejamos o teor do passo:

2 Samuel 7,12-13: “Quando teus dias se cumprirem, e


descansares com teus pais, então farei levantar depois
de ti o teu descendente, que procederá de ti, e
estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao
meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do
seu reino.”

Incluímos também o versículo 13, para demonstrar que


esse descendente de Davi é o rei Salomão, reinou Israel 970 a
931 a.C. (114) que construiu o Templo de Jerusalém. Como
sabemos, Salomão é filho bastardo de Davi, fruto de seu
adultério com Betsabeia mulher do soldado Urias, cuja morte foi
tramada pelo rei Davi, que instruiu a seus soldados para deixá-
lo sozinho no front da batalha contra os amonitas.

O interessante é que na própria Bíblia Anotada que cita


esse passo (2 Samuel 7,12-16), encontramos:

Esta grande aliança que Deus, em graça,


estabeleceu com Davi incluía as seguintes
provisões: (1) Davi teria um filho que o sucederia e
estabeleceria o seu reino, v. 12; (2) esse filho
(Salomão), e não Davi, construiria o templo, v. 13a; (3) o
trono do reino de Salomão seria estabelecido para
sempre, v. 13b; (4) embora os pecados de Davi
justificassem a disciplina, a misericórdia divina (heb.,
hesed; veja a nota sobre Is 2:19) seria eterna, vv. 14-15;
(5) a casa, o reino e o trono de Davi seriam

114 Bíblia Shedd, p. 1789.


90

estabelecidos para sempre (v. 16). […]. ( 115) (grifo


nosso).

Como distorcem as interpretações visando justificar


mitos estabelecidos anteriormente, e não bastasse esse, foi
também o que aconteceu com o outro (Miqueias 5,1 ou 5,2,
dependendo da tradução). Na verdade, pegaram parte de um
texto, que fora de seu contexto, pode dar uma ideia falsa do
que realmente ele narra. Sobre Miqueias 5,1 ou 5,2, já falamos
anteriormente, lá quase no início desse estudo.

João 19,19: “Pilatos escrever também um letreiro e


mandou colocá-lo no alto da cruz. Nele estava escrito:
'Jesus de Nazaré, o rei dos Judeus'.” (grifo nosso)

Teor na versão da Bíblia Ave-Maria e Novo Testamento


Loyola; porém, não são unânimes as traduções quanto à
denominação de “Jesus de Nazaré”, na Bíblia Tradução
Ecumênica se lê “Jesus, o Nazoreu” e na Bíblia de Jerusalém se
tem “Jesus Nazareu”, e em todas as outras o que se vê é “Jesus
Nazareno” ou “Jesus, o Nazareno”, entretanto, pelo que já
vimos até aqui, não nos resta alternativa senão considerar a
referência como sendo Jesus de Nazaré o nome escrito no
letreiro.

Em resumo o que já temos até aqui:

1) Mateus faz Jesus nascer em Belém, local onde morava


os seus pais, conta a história da matança das crianças por
Herodes e fuga da família de Jesus para o Egito e ao voltar

115 A Bíblia Anotada, p. 415.


91

passa a residir em Nazaré.

2) Para Lucas a família de Jesus morava em Nazaré, e


para que Jesus nascesse em Belém apresenta um suposto
recenseamento ordenado por César Augusto, pelo qual as
famílias deveriam voltar às cidades de origem dos seus
antepassados, mesmo que eles tenham vivido mil anos antes.

3) Marcos, no início do seu relato, coloca Jesus partindo


de Nazaré para ir ao encontro de João Batista, do que se pode
concluir que para ele essa era a cidade de nascimento de Jesus,
pois caso não fosse ele, certamente, teria informado sobre isso.

4) Em João o relacionamento de Jesus com Nazaré


acontece quando ele inicia o recrutamento dos seus discípulos,
e um deles, Natanael, o reconhece como sendo de Nazaré.

5) Pelo que se depreende dos textos dos Evangelhos o


povo, os discípulos, Pilatos e o próprio Jesus todos o
reconhecem como de Nazaré, inclusive, não há um só passo em
que ele é chamado de Jesus de Belém.

Assim, diante disso tudo, particularmente, concluímos


que Jesus é natural de Nazaré e não de Belém como nos
querem fazer crer alguns interpretadores bíblicos, certamente,
para justificarem dogmas instituídos pelas suas correntes
religiosas ou calcados apenas nas tradições.

Antes de finalizar vamos colocar dois pontos, nos quais


se verá a opinião de vários autores, para que você, caro leitor,
veja por si mesmo que de tudo quanto foi dito, ainda causa
polêmica a questão da cidade de Nazaré ter existido ou não à
época de Jesus e se em vez de Nazareno não seria Ele um
92

nazireu?

Nazaré existia ou não?

O modo pelo qual os autores dos evangelhos falam


de Nazaré não é menos característico. Seu nome não
figura no Antigo Testamento. Os autores judeus do
século I também nada dizem sobre ela, se bem que eles
se façam notar (particularmente Flávio Josefo) pela
amplitude de suas informações sobre o pequeno país
que era a Judeia. Ouve-se falar de Nazaré, pela
primeira vez, nas fontes que datam do século III. Ora,
nos evangelhos, Nazaré é chamada de “cidade”.
(Mateus, II, 33; Lucas, I, 26; II, 39, etc.) Não parece,
portanto, que Nazaré tenha sido uma cidadezinha
perdida que pudesse ser ignorada por todos os
historiadores da Judeia.
Porém, por que se encontra esse nome tantas vezes
nos evangelhos? Para explicar isso, convém lembrar
que no Livro dos Juízes, no Antigo Testamento, fala-se,
por duas vezes, que Sansão será o “nazareno de Deus”.
A raiz dessa palavra em hebraico, nazir, significa um
justo cuidadoso na observância estrita de certos ritos.
Os autores dos evangelhos não conheciam a Judeia
senão pelos textos do Antigo Testamento e achando
visivelmente, que “nazareno” significava originário
de Nazaré, deram esse nome ao lugar do nascimento
do Cristo, sem sequer suspeitar que semelhante
localidade ou vila não existia na Judeia. (116) (grifo
nosso)

Estive recentemente em Nazaré e fiz exaustivas


pesquisas com o propósito de comprovar as
declarações contidas nos registros Rosacruzes; a
maioria de meus leitores ficará provavelmente surpresa

116 LENTSMAN, 1963, p. 177.


93

em saber que, ao tempo em que Jesus nasceu, não


havia cidade ou vila na Galileia com o nome de
Nazaré e que a cidade que hoje traz este nome, na
Galileia, não só é uma cidade recente mas também
veio a ter este nome, por causa da insistência dos
investigadores em encontrar alguma localidade que
tivesse o nome de Nazaré, na Galileia. (117) (grifo
nosso)

Houve grandes dificuldades na busca de um lugar


que correspondesse ao nome de Nazaré, na Galileia,
visto que nenhuma cidade com este nome fora
mencionada no Velho Testamento e nenhum dos mapas
antigos do tempo do Cristo revelava a existência desse
local. Um pequeno povoado chamado “en-Nasira”,
entretanto, foi localizado bem longe do Mar da
Galileia e imediatamente rebatizado “Nazaré” e
associado à infância de Jesus. A descoberta deste
povoado en-Nasira ocorreu no terceiro século depois de
Cristo, e desde então passou a ser conhecido pelo
nome de Nazaré, embora ainda hoje continuem a faltar
quaisquer evidências que justifiquem o uso desse nome.
Em Marcos VI: 1,2 diz-se que Jesus voltou a seu próprio
país e que Seus discípulos o seguiram e que, quando
chegou o Shabat, ele começou a ensinar na sinagoga.
No quarto verso do mesmo capítulo, Jesus se refere ao
fato de que Ele era um profeta em Seu próprio país,
entre seus próprios parentes e em Sua própria casa.
Essas referências foram interpretadas como sendo
relativas a Nazaré, a cidade onde muitos estudiosos da
Bíblia acreditam que Jesus nasceu e passou a infância.
Ora, se é verdade que Jesus retornou à Sua cidade
natal e pregou na sinagoga para grandes multidões, não
poderia ter sido em en-Nasira, ou a chamada Nazaré;
mesmo no segundo e terceiro séculos após o
nascimento de Jesus, en-Nasira ou Nazaré ainda não

117 LEWIS, 2001, p. 57.


94

tinha uma sinagoga nem era suficientemente grande


para possuir qualquer edificação ampla onde multidões
pudessem ter ouvido Jesus pregando, nem havia
multidões nas vizinhanças para ouvi-Lo. Portanto, as
referências de Marcos à Sua cidade natal não podem ter
sido relativas a en-Nasira. En-Nasira era tão-somente
um povoado em torno de um poço chamado na época
de “poço da casa da guarda”, embora, segundo
descobri, tenha sido chamado, nos últimos anos, de
“Poço de Santa Maria”. Esta mudança de nome e a
atribuição de significado religioso a um local sem
importância da Palestina é bem típica das modificações
que estão sendo feitas naquele país para agradar os
turistas.
Procurando nos registros judaicos, vemos que estes
confirmam que só nos livros do Novo Testamento,
escritos muito após a vida de Jesus, há menção de
Nazaré como uma cidade da Galileia, e que este local
não é mencionado no Velho Testamento, nos escritos
históricos de Josefo nem no Talmude. Durante a vida de
Jesus, a cidade de Jafa era a mais importante na
Galileia, sendo a que mais atraía os viajantes e era mais
citada nos escritos históricos.
Nos registros da Igreja Católica Romana e nas suas
enciclopédias, vemos que o vilarejo en-Nasira era
conhecido estritamente como um povoado judeu até o
tempo de Constantino, havendo referências de ser
habitado totalmente por judeus. Esta pequena aldeia,
em volta de um poço, portanto, não poderia ter sido o
centro da população gentia da Galileia. Hoje em dia há
uma pequena igreja ou capela em Nazaré, a qual visitei,
supostamente erigida sobre a gruta onde Maria e José
viviam no tempo da anunciação, quando o arcanjo
revelou a Maria o iminente nascimento da encarnação
do Logos. (118) (grifo nosso)

118 LEWIS, 2001, p. 61-63.


95

Será chamado Nazareno?


(Mateus 2:23) – “... assim se cumpriu o que foi
anunciado pelos profetas: <Ele será chamado
Nazareno>”.
Aqui, num pequenino trecho, não só um amontoado
de erros, como muita mentira e má fé de Mateus (ou do
escriba que fez o texto e atribuiu a ele a autoria do
versículo). Mateus especializou-se em inventar
“profecias retroativas” que aconteciam muitos anos
(pelo menos 40 anos) depois dos fatos terem sido
relatados como acontecido. Como também Mateus
inventava muitas profecias do Antigo Testamento, sem
que as citadas profecias realmente estivessem no Antigo
Testamento. Isto porque, não existe um único registro
no Antigo Testamento a respeito de Nazaré ou
Nazareno. Trata-se de invencionice de Mateus (ou do
escriba que escreveu por ele), escrevendo sobre a vida
de Jesus mais de 70 anos após o seu nascimento e
após a destruição de Jerusalém no ano 70, e tentando
fazer coincidir, no ano 70, “profecias retroativas”, como
se elas tivessem realmente se realizado. Aliás, Nazaré
sequer existia como cidade quando Jesus nasceu.
Existia, sim, o lago de Genesaré (Mar de Tiberíades),
mas não a cidade de Nazaré, que somente veio a
existir alguns anos (cerca de quinze anos) após
Jesus ter nascido.
Vejamos a má fé de Mateus (ou do escriba que
escreveu por ele). Ele afirma, após o ano 70, época da
destruição de Jerusalém e da diáspora e extermínio dos
essênios, portanto 70 anos depois de Jesus já ter
nascido, que 70 anos antes iria se realizar uma “profecia
retroativa” e que Jesus iria ser chamado de Nazareno.
Uma profecia ao Contrário, relatada depois do fato
ter acontecido, passados mais de 70 anos. Porém, o
mais gritante é que além de Nazaré sequer existir
quando Jesus nasceu, sendo impossível, dessa
forma, tal registro, Mateus ainda confunde Nazireu
96

com Nazareno, que são coisas completamente


diferentes. (119) (grifo nosso)

Mark Lidzbarski chega a afirmar que, durante a


vida de Jesus, nem teria existido um lugar
geográfico chamado Nazaré. Contra-argumentando,
pode-se dizer que, embora não soubéssemos como era
Nazaré nos tempos de Jesus, achados arqueológicos
confirmam a existência daquele povoado (se é que
uns precaríssimos abrigos podem ser chamado de
“povoado”), no período entre cerca de 900 a.C. e 600
d.C., e esses achados incluem também peças datando
do reinado de Herodes, o Grande (de 40 a 4 a.C.). Aliás,
o comentário pouco lisonjeiro de Natanael, transmitido
pelo Evangelho de São João: “De Nazaré pode,
porventura, sair coisa que seja boa?...”, pode ser uma
alusão à precariedade do lugarejo, todavia promovida a
“cidade” pela Bíblia. Em todo caso, não há nenhum
indício de Jesus, Maria e José. Somente desde o século
XI da nossa era, o nome Nazaré ficou sendo
comprovado pela Fonte da Virgem Maria, onde até hoje
as mulheres vão buscar água com a qual enchem suas
jarras, como o faziam nos tempos de Jesus… ( 120) (grifo
nosso)

Nazareno ou um Nazireu?

Da mesma forma, inexiste qualquer prova histórica


ou arqueológica da “fuga para o Egito”, como tampouco
existe prova da estada de Jesus em Nazaré. Aliás, a
rigor, a Bíblia cita Jesus por muito mais vezes como
“nazireu” do que “nazareno”, e “nazireu” pode ter vários
significados, mas normalmente não define o “homem de
Nazaré”. Essa última interpretação poderia ser deduzida

119 MACHADO, 2004, p. 168-169.


120 KELLER, 2000, p. 367.
97

somente de maneira indireta, de um trocadilho com a


palavra hebraica “nezer” = “vara”, veja Isaías 11,1;
“Sairá uma vara do tronco de Jessé e uma flor brotará
da sua raiz”. De fato, o Evangelho de São Mateus torna
a citar o termo controvertido “nazareno” no contexto de
uma profecia: “…e, chegando, habitou uma cidade
chamada Nazaré, cumprindo-se desse modo o que
tinha sido predito pelos profetas, que seria lá chamado
Nazareno” (Mateus 2,23). Isso em nada facilita as
coisas, pois não deixa bem claro a que profetas o texto
se refere (a não ser Isaías, autor das palavras
supracitadas). Talvez se pretenda estabelecer um certo
nexo com o termo “nazireu” (“consagrado a Deus”,
qualificação outrora atribuída a Sansão (Juízes 13,5 e 7,
16,17)), que exigiu uma certa ascese por parte da
pessoa assim qualificada (ele devia observar
determinados tabus); contudo, tal conjetura não deixará
de implicar em certos problemas filológicos. Assim,
também, aí torna a surgir um sinal de interrogação, e a
esse respeito cumpre não silenciar o fato de alguns
cientistas interpretarem os pronunciamentos dos
Evangelhos, mencionando Nazaré como “cidade da
infância e juventude” de Jesus, como meras
construções, relacionadas com o título “nazireu”, não
muito bem compreendido pelos evangelistas, os quais,
por causa disso, reinterpretam-nos e sumariamente o
substituíram por “nazareno”. (121)

Em primeiro lugar, devemos tornar claro que o título


de Nazareno não queria dizer que a pessoa que o
tivesse fosse de uma cidade chamada Nazaré. O título
de Nazareno era dado pelos judeus a pessoas
estranhas que não seguiam sua religião e que pareciam
pertencer a um culto ou seita secreta que existira ao
Norte da Palestina por muitos séculos; podemos
verificar na Bíblia Cristã que o próprio João Batista era

121 KELLER, 2000, p. 366-367.


98

chamado de Nazareno. Também encontramos muitas


outras referências a pessoas conhecidas como
nazarenos. Em Atos XXIV:5, encontramos um homem
qualquer sendo condenado como provocador de uma
rebelião entre os judeus em todo o mundo e sendo
chamado de “líder da seita dos nazarenos”. Sempre que
os judeus entravam em contato com alguém em seu
país que fosse de outra religião, e especialmente se
tivesse uma compreensão mística das coisas da vida e
vivesse de acordo com um código ético ou filosófico
diferente do judaico, chamavam-no de Nazareno por
falta de um nome mais adequado.
Existiu realmente uma seita chamada Os Nazarenos,
citada nos registros judaicos como uma seita de
Primitivos Cristãos ou, em outras palavras, aqueles que
eram essencialmente preparados para aceitar as
doutrinas cristãs. De fato, os enciclopedistas e
autoridades judaicas parecem concordar em que o
termo Nazareno abrangia todos os cristãos que haviam
nascido judeus, que não desejavam ou não podiam abrir
mão de seu antigo modo de vida, mas que tentavam
ajustar as novas doutrinas às antigas. As enciclopédias
judaicas também afirmam ser bastante evidente que os
Nazarenos e os Essênios tinham muitas características
em comum, e mostravam, portanto, tendência para o
misticismo. Os Essênios e Nazarenos, na verdade, eram
considerados heréticos pelos judeus cultos, mas existe a
seguinte diferença ou distinção no uso destes dois
termos: os Essênios não eram tão conhecidos pela
população da Palestina como os Nazarenos; um homem
dificilmente era chamado Essênio a não ser por pessoas
bem informadas, que conhecessem a diferença entre
Essênios e Nazarenos, ao passo que muitos Essênios e
membros de outras seitas que levavam uma vida
peculiar ou não aceitavam a religião judaica eram
chamados de Nazarenos.
São Jerônimo, famosa autoridade bíblica, refere-se
99

ao fato de que em seu tempo ainda existia entre os


judeus, em todas as sinagogas do Oriente, uma heresia
condenada pelos fariseus, cujos seguidores eram
chamados de Nazarenos. Ele disse que estes
acreditavam que Cristo, o Filho de Deus, havia nascido
da Virgem Maria, havia sofrido sob Pôncio Pilatos e
ascendido aos céus. “Mas”, disse São Jerônimo,
“embora pretendessem ser ao mesmo tempo judeus e
cristãos, não eram nem uma coisa nem outra”.
Consultando as mais altas autoridades da Igreja
Católica Romana, vemos que o título de Nazareno,
aplicado ao Cristo, só ocorre uma vez na versão da
Bíblia feita por Douai, e esta autoridade declara que o
termo “Jesus Nazareno” foi uniformemente traduzido
como “Jesus de Nazaré”, o que representa um erro de
tradução, sendo a forma correta “Jesus, o Nazareno”.
Em nenhuma parte do Velho Testamento existe a
palavra Nazaré descrevendo uma cidade existente na
Palestina, mas no Novo Testamento encontramos
referências a Jesus regressando a uma cidade chamada
Nazaré. Estas referências resultam da tradução da frase
“Jesus voltando aos Nazarenos” para “Jesus retomando
a Nazaré”. Um ponto interessante é reforçado pelas
autoridades católicas romanas, que dizem que Jesus,
embora fosse comumente chamado de Nazareno, não
pertencia absolutamente àquela seita.
Reunindo os registros judaicos e católicos romanos e
comparando-os com as informações contidas em
nossos próprios registros, verificamos que os nazarenos
constituíam uma seita de judeus que, embora tentasse
seguir os antigos ensinamentos judaicos, acreditava na
vinda do Messias, que nasceria de maneira singular e
seria o Salvador de sua raça. Depois de iniciado o
ministério de Jesus, esses Nazarenos aceitaram Jesus
como o Messias e também as doutrinas que Ele
pregava, ao mesmo tempo que continuavam a tentar
seguir muitos fundamentos de sua religião judaica. Os
100

registros judaicos afirmam que os Nazarenos rejeitaram


Paulo, o Apóstolo dos Gentios, e que alguns Nazarenos
só exaltavam em Jesus o fato de ser um homem justo.
(122)

Para efeito de argumentação, vamos conceder o


benefício da dúvida e admitir que Mateus estivesse com
falhas mentais (pois ele era contemporâneo de Jesus e
que quando teoricamente escreveu o seu evangelho,
logicamente já tinha mais de 80 anos) e com isso não se
lembrou ou “confundiu” que Nazaré (a cidade) não
existia quando Jesus nasceu, mas tão somente o lago
de Genesaré.
Entretanto, como Mateus pode ter “confundido”,
novamente, Nazareno (nascido em Nazaré) com
Nazireu (de Nazir), que é um judeu que tomou os votos
de sacrifícios especiais, de não beber vinho, não comer
uvas e não cortar os cabelos, que não era o caso de
Jesus, pois Jesus era essênio, e como tal era adepto da
eucaristia, do ritual do pão e do vinho, e comia uvas.
Não podendo, por isso mesmo, ser um Nazireu.
A profecia do Antigo Testamento a respeito do
Nazireu, refere-se a Sansão e não a Jesus. Dessa
forma, Mateus ao “confundir” a profecia do Antigo
Testamento sobre Sansão, que era Nazireu, que não
bebia vinho, não comia uvas e não cortava os cabelos,
com Jesus, chamando-o de Nazareno, não é o que se
pode dizer como um caso do acaso, quando a má fé e
má intenção estão bastante claras. Mas o pior de tudo é
dizer que cumpriu-se a profecia do Antigo Testamento
afirmando que o messias se chamaria Jesus, quando os
nomes de “Jesus”, assim como Nazaré, sequer são
citados no Antigo Testamento. […]. (123)

122 LEWIS, 2001, p. 57-60.


123 MACHADO, 2004, p. 169.
101

Nazareno
Esse adjetivo significa “natural de Nazaré”. Essa
palavra é usada no Novo Testamento referindo-se
somente a Jesus, o qual tanto assim se chamou quanto
foi chamado pelos outros. Ver Mat. 2:23, onde se lê que
havia uma predição que dizia que Jesus seria chamado
Nazareno. Mas a palavra também é usada no plural, em
Atos 24:5, onde está em foco a seita dos “nazarenos”,
isto é, os seguidores de Jesus. Isso mostra que Jesus
foi chamado de “o nazareno” por parte de outras
pessoas, amigas e inimigas, igualmente. Visto que o
Antigo Testamento não menciona em parte alguma a
cidade de Nazaré, ali também não se lê qualquer coisa
sobre os possíveis nazarenos. Acresça-se a isso que
alguns intérpretes têm confundido o significado de
nazareno com o significado de nazireu (ver Núm. 6:1-
21). No entanto, é possível que esteja em vista o termo
hebraico netser, “ramo”, pois Jesus, em diversos trechos
bíblicos é chamado de “renovo de Jessé”, ou seja,
alguém pertencente à linhagem de Davi.
[…].
O título Nazareno, ainda que para nós seja um título
famoso, por causa de Jesus Cristo, nos dias dele
geralmente era usado como termo de menoscabo (ver
João 1:45 7:52). No plano terreno, Jesus não foi alguma
árvore grandiosa, um filho reconhecido da casa real de
Davi; mas tão somente um renovo de Jessé. No entanto,
sua grande estatura espiritual finalmente propagou a
sua fama pela terra inteira. Conforme dissemos acima,
alguns comentadores relacionam a palavra “nazareno”
aos indivíduos que, no Antigo Testamento, são
chamados “nazireus” (ver Núm. 6:2; 12:18-20), os quais
faziam certos votos difíceis de serem cumpridos, votos
de consagração a Deus. Tais comentadores, pois,
aplicam essa ideia a Cristo, imaginando que, na
qualidade de nazareno, ele teria o mesmo propósito que
tinham os nazireus. Assim interpretam Tertuliano,
102

Jerônimo, Erasmo, Calvino e outros intérpretes


modernos. Mas, a despeito dessa interpretação envolver
uma aplicação útil, não parece que Mateus quisesse
destacar tal coisa, em 2:23 de seu evangelho.
Acrescente-se a isso que, tanto no hebraico quanto no
grego, nazareno e nazireu têm grafia diferente. Também
há alguma razão na interpretação que diz que Jesus
seria desprezado, como habitante da obscura cidade de
Nazaré. Todavia, não parece ser isso o que o autor
sagrado quis destacar nessa passagem. O que ele
realmente queria era mostrar que Jesus pertencia à
família de Jessé, como o Renovo de Davi, e,
secundariamente, que o lugar onde Jesus residiu como
criança, e onde também deu início ao seu ministério,
fora escolhido por Deus, apesar das diversas
circunstâncias que poderiam ter servido de obstáculo a
esse ministério.
Quanto à expressão “Jesus de Nazaré”, ver Marc.
10:47; Luc. 24,19. Os espíritos imundos assim
chamaram a Jesus (Mar. 1:24; Luc. 4:34), tal como o
fizeram os anjos que anunciaram a sua ressurreição
(Mar. 16:6). É os trechos de Mat. 26:71 e Mar.14:67
mostram que essa expressão foi usada pejorativamente
pelos inimigos de Jesus. E acabou sendo dada, como
apelido de menosprezo à comunidade cristã (Atos 24:5).
E Jesus continuou a ser vinculado a Nazaré, mesmo
após a sua ressurreição, pelos seus discípulos (ver Atos
2:22; 3:6; 10:38). (124)

Após a morte de Herodes, novamente funciona a


mediunidade onírica de José: em sonhos um anjo
manda-o regressar à “terra de Israel”, como ainda hoje
se diz: ςκ ‫ מפץ יׁשך‬José obedeceu de imediato e
(segundo Mateus) dispunha-se a regressar a Belém,
quando “ouve dizer” que lá governava Arquelau, filho de
Herodes. Instala-se nele o medo. Realmente, à morte de

124 CHAMPLIN e BENTES, vol. 4, 1995d, p. 465.


103

Herodes (4 A. C. ) Arquelau tinha 18 anos; mas como os


judeus se opuseram a seu reinado, revoltando-se por
não ter sido deposto o sumo sacerdote Joasar, ele
mandou matar 3.000 judeus (Josefo, Ant. Jud. XVII, 9,
1). Mas à noite, outro sonho esclarece-o, indicando-lhe
que se dirija à Galileia, “a uma cidade chamada Nazaré”.
Como estamos vendo, essa cidade constituía para
Mateus uma “novidade” absoluta. Parece que José e
Maria nem a conheciam. Como conciliar com as
palavras de Lucas, de que eles eram da cidade de
Nazaré, isto é, que lá tinham nascido e residiam
normalmente? Teria sido mais fácil dizer que do Egito
regressaram à sua cidade de Nazaré... pois lá eles
possuíam casa, a oficina de carpinteiro de José, os
parentes e amigos. Entretanto, Mateus desconhece tudo
isso, mostra-o desejoso de ir para Belém (fazer o quê?)
e só o aviso .em sonho. o faz dirigir-se para Nazaré,
como se fora um local que eles pisassem pela primeira
vez. E ainda explica: “para que se cumprisse a profecia,
que o chama NAZOREU”. Nem é “nazareno”…
Esse gentilício é usado quatro vezes por Marcos e
duas vezes por Lucas. Mas o próprio Mateus emprega
duas vezes nazoreu, que é utilizado uma vez por Lucas,
três vezes por João, e sete vezes por Atos.
Eram assim chamados (nazoreus) os cristãos por
volta do ano 60 (At. 24:5). O Talmud denomina Jesus o
NOZRI, e chama os cristãos NOZRIM.
Notemos que não há profecia alguma que diga dever
o Messias ser chamado “nazareno” nem “nazoreu”. A
única frase que poderia ser aplicada seria a de Isaías
(11:1) quando diz que “do tronco de Jessé sairá um
rebento, e de suas raízes sairá um renovo (= nezêr) que
frutificará. E o Espírito de YHWH se deterá nele”. Tendo
Mateus apresentado Jesus como o último rebento (o
renovo) na genealogia, pode ter feito mentalmente uma
104

aproximação, embora forçada. (125)

A Palavra “Nazareno” aparece com mais frequência


sob a forma “Nazoreu” (nâshôray e nazôraios, em hebr.
e grego). Porém, não se confunda essa palavra com
“nazireu”! Com efeito, nos evangelhos temos onze vezes
a forma nazoreu (Mt. 2:23 e 26:71; João, 18:5,7, e
19:19; Atos, 2:22; 3:6; 4:10; 6:14; 22:8; 24:5 e 26:9)
contra seis vezes a forma “nazareno” (Marc. 1:24; 10:47;
14:67 e 16:6, e Luc. 4:34 e 24:19). Mesmo neste local o
texto de Mateus varia nos códices entre nazarenus
(Vaticano e outros) e nazoreu (Sinaítico e outros). (126)

Segundo João (episódio omitido nos sinópticos)


Jesus se aproxima da malta e pergunta “A quem
procuram”. A resposta é rápida: “Jesus, o nazoreu”. No
original não está “nazareno”, forma que só aparece em
Marcos (1:24, 10:47; 14:67 e 16:6) e Lucas (4:34 e
24:19). A forma “nazoreu” está em Mateus (2:23 e
26:71), em Lucas (18:37); em João (18:5 e 7 e em
19:19) e nos Atos (2:22; 3:6; 4:10; 6:14; 22:8; 24:5 e
26:9), podendo reler-se o que escrevemos no vol. 1. (127)

Levando-se em conta o que está aqui abordado, sobre


esses dois pontos polêmicos, ficamos sem saber para que lado
ir, pois se nem os especialistas se entendem, que dirá de nós
simples mortais?

Em princípio, mantemos a nossa opinião anterior, por


parecer-nos que a maioria das informações tende mais para o
que lá concluímos. Certamente, que jamais iremos impor a
nossa maneira de pensar a quem quer que seja, pois se

125 PASTORINO, vol. 1, 1964a, p. 90.


126 PASTORINO, vol. 6, 1969, p. 129.
127 PASTORINO, vol. 8, 1971, p. 70.
105

advogamos para nós o direito de livre pensar, somos,


moralmente obrigados a dá-lo aos outros.
106

A Fuga para o Egito

“A luz clareia aqueles que abrem seus olhos,


mas as trevas se espessam para aqueles que
querem fechá-los.” (SIMEON)

De todos os quatro evangelistas, apenas Mateus fala


sobre esse episódio (2,13-23), que teria acontecido com a
família de Jesus, cujo teor transcrevemos da Bíblia Sagrada -
Ave-Maria:

Mateus 2,13-23: “Depois de sua partida, um anjo do


Senhor apareceu em sonhos a José e disse: ‘Levanta-te,
toma o menino e sua mãe e foge para o Egito e fica lá
até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o
menino para o matar.’ José levantou-se durante a noite,
tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali
permaneceu até à morte de Herodes, para que se
cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta:
Eu chamei do Egito meu filho (Oseias 11,1).
Vendo, então, Herodes, que tinha sido enganado pelos
magos, ficou muito irado e mandou massacrar em
Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois
anos para baixo, conforme o tempo exato que havia
indagado dos magos. Cumpriu-se, então, o que fora dito
pelo profeta Jeremias: Em Ramá se ouviu uma voz,
choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus
filhos; não quer consolação, porque já não
existem! (Jer 31,15).
Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu
em sonhos a José, no Egito, e disse: ‘Levanta-te, toma
o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque
107

morreram os que atentavam contra a vida do menino’.


José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para
a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava
na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir
para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para
a província da Galileia e veio habitar na cidade de
Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos
profetas: Será chamado Nazareno.” (grifo negrito
nosso)

Por que será que somente Mateus cita tal


acontecimento? Achamo-lo por demais importante, para que
fosse esquecido pelos outros três evangelistas. Ou será que tal
episódio não teria ocorrido de fato? Questionamentos que
saltam à nossa mente, que, por estar livre das imposições
dogmáticas das religiões tradicionais, nos leva a aplicar
integralmente o: “examinai tudo, retende o que é bom” (1
Tessalonicenses 5,21).

Segundo Werner Keller, em seu livro E a Bíblia tinha


razão…, afirma que “inexiste prova histórica ou arqueológica
da ‘fuga para o Egito’”, imediatamente acrescentando
“tampouco existe prova da estada de Jesus em Nazaré”. (128)
Vê-se que por aí já nos deparamos com esses dois espinhosos
problemas.

Alguns tradutores explicam essa narrativa como “um


paralelo anterior na infância de Moisés, descrita pelas tradições
rabínicas: segundo estas, quando o nascimento da criança foi
anunciado, por meio de visões, ou por intermédio dos mágicos,
o Faraó mandou chacinar as crianças recém-nascidas” (Bíblia

128 KELLER, 2000, p. 366.


108

de Jerusalém, p. 1705-1706).

Com respeito à morte das crianças, conta-nos Keller:

[…] Assim, hoje em dia usa-se de um cuidado bem


maior do que outrora na apreciação da historicidade do
infanticídio de Belém e, antes, tende-se a considerar o
relato em questão como uma tentativa, condicionada à
mentalidade contemporânea que visa realçar a
importância de Jesus, pelos meios usados na época
(para tanto, existe ainda uma certa autenticidade
histórica, representada pelas atitudes efetivamente
tomadas por Herodes em sua contenda com os fariseus,
por causa do Messias. Veja o fim do capítulo
precedente). No entanto, há ainda mais. O relato do
infanticídio de Belém estabeleceu um nexo entre
Jesus e Moisés, pois também desse último a Bíblia
conta como escapou, milagrosamente, de
perseguições idênticas, sofridas por parte do faraó
egípcio (Êxodo 1.15, 2.10) […]. (129) (grifo nosso)

Quando o anjo aparece a José, dizendo para ele e sua


família voltarem para Israel “porque morreram os que
atentavam contra a vida do menino”, notamos que isso não faz
sentido, pois, no início, a referência que se faz é a Herodes; o
correto seria então dizer “morreu” e não “morreram”.

O primeiro aviso em sonho, José o segue fielmente;


quando do segundo, demonstra receio de voltar para Judeia,
lugar indicado pelo anjo. Isso não condiz com seu
comportamento anterior, pois, pensando em deixar Maria, um
anjo lhe aparece em sonho avisando que o filho que ela levava
na barriga é “obra do Espírito Santo”, já que ele ouve a voz do

129 KELLER, 2000, p. 366.


109

anjo e não abandona Maria.

Apesar de relatado, esse fato não se coaduna com a


cultura machista daquela época. E, até a bem pouco tempo
atrás, se isso viesse a acontecer, aqui em nossa sociedade
mesmo, a mulher seria, com certeza, repudiada. E duvidamos
que um homem, pela cultura daquela época, ou mesmo dessa
recente que falamos, descobrindo que sua futura mulher
estivesse grávida e esse filho não fosse dele, ainda ficaria com
ela…

Se José teve receio de ir para a Judeia porque estava


sendo governada por um filho de Herodes, então, por que
motivo foi para a Galileia que também estava sendo governada
por outro filho dele, no caso, Herodes Antipas? Não correria o
mesmo risco?

Observamos que a primeira vez que Mateus cita o nome


de alguma cidade relacionada a Jesus, diz de Belém da Judeia,
local onde nasceu. Quando do retorno do Egito fala que José
não quis voltar para a Judeia, do que podemos concluir que
deveria ser especificamente a cidade de Belém. Cidade essa
que, segundo se deduz das narrativas desse evangelista, teria
sido o local onde Jesus viveu até que fosse para o Egito; só após
a sua volta é que passou a morar em Nazaré.

Entretanto, Lucas deixa muito claro que Maria e José


viviam em Nazaré (1,26; 2,4); foram a Belém para se alistar no
recenseamento; lá nasceu o menino e terminado os dias de
purificação, o levaram ao Templo, em Jerusalém, para
cumprirem as prescrições da Lei: “todo primogênito do sexo
masculino será consagrado ao Senhor” (Êxodo 13,2.15), após o
110

que “voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade” (Lucas 2,39),


afirmando, um pouco mais à frente, que “foi a Nazaré, onde
tinha crescido” (Lucas 4,16).

É uma divergência para a qual não encontramos


nenhuma explicação plausível, a não ser de que a razão
poderia estar mesmo com Lucas, já que também Marcos dá a
entender que Jesus, até o dia em que foi batizado por João
Batista, morava em Nazaré (Marcos 1,9) e que Mateus,
seguindo o que acreditavam na época, procurou adaptar a
pessoa de Jesus às profecias sobre o Messias; por isso teria
modificado a descrição dos acontecimentos, para sustentar
esse pensamento. Entretanto, conforme já informamos
anteriormente, não existe prova arqueológica da estada de
Jesus em Nazaré, permanecendo, portanto, essa dúvida.

Que os bibliólatras nos desculpem, mas, após esse


estudo, a visão que passamos a ter dessa passagem não é
coisa de que gostarão, com certeza.

Primeiro, a “fuga” para o Egito é uma situação criada


para tentar aplicar o que dizem ser uma profecia de Oseias.
Entretanto, ao analisarmos a passagem citada (Oseias 11,1),
percebemos claramente que ela nem mesmo é uma profecia;
trata-se, na verdade, de uma coisa já acontecida. Observe que
o verbo “chamar” está no pretérito; portanto, fato do passado.
E mais a expressão “meu filho”, utilizada na passagem, se
refere ao povo de Israel e não a uma pessoa em particular.

Segundo, a matança das crianças justificaria uma outra


profecia, agora de Jeremias (31,15). Só que, como acontecido
com a anterior, essa passagem também não é uma profecia;
111

está relacionada à tomada de Jerusalém por Nabucodonosor, rei


da Babilônia, que leva o povo de Israel, que acabara de
subjugar, cativo para o seu país; daí “o pranto de Raquel
(sepultada em Ramá, perto de Belém) pelos filhos massacrados
ou deportados pelos caldeus depois da destruição de Jerusalém
em 596 a.C.,…” (130)

Terceiro, a ida para Nazaré foi forjada para relacioná-la


ao cumprimento de mais uma outra profecia que teria sido dita
por vários profetas. Entretanto, a realidade é bem outra, pois
não há nenhuma profecia em que, pelo menos, um só profeta
tenha dito: “Será chamado Nazareno”; é pura invenção do
autor bíblico.

Sabemos que, o que estamos dizendo poderá chocar


alguns; entretanto, aos que, acima de tudo, buscam a verdade,
será ouvido de bom grado. A verdade que entendemos, não
necessita ser imposta a ferro e fogo; ao contrário, quando
alguém quer, por todos os meios, fazer com que os outros
aceitem a sua verdade, é porque, com certeza, não está com
ela, pois a verdade é algo tão cristalino que não necessita de
nada mais, a não ser que seja mostrada. Os sábios a sentirão,
enquanto que os ignorantes a contestarão.

O que nos conforta é que não estamos sozinhos nessa


busca. Recentemente, encontramos um artigo, onde parte do
texto tem a ver com o que estamos tratando aqui, do qual
transcrevemos:

[...] E o segundo problema ainda mais grave, é que

130 Bíblia Sagrada – Paulinas, p. 1062.


112

provavelmente Jesus não nasceu em Belém. ‘Há


quase um consenso entre os historiadores de que
Jesus nasceu em Nazaré’, diz o padre Jaldemir Vitório,
do Centro de Estudos Superiores da Companhia de
Jesus, em Belo Horizonte… Assim como o nascimento
em Belém, a terrível execução de recém-nascidos
ordenada por Herodes e a fuga de Maria e José para o
Egito também teriam sido uma ‘licença poética do texto’,
dessa vez para simbolizar que Jesus é o novo Moisés –
já que essa narrativa é bem semelhante ao que se
contava da vida do patriarca bíblico”. ‘Isso não foi uma
criação maquiavélica para glorificar Jesus, era apenas o
estilo literário da época’, diz Vitório. (131) (grifo nosso).

Sobre Jesus ter nascido em Nazaré e não em Belém por


ser um assunto interessante mereceu um estudo específico, foi
o que fizemos no capítulo anterior.

131 CAVALCANTE, 2002, p. 43.


113

João Batista é mesmo Elias?

“Não se deve aceitar qualquer ideia que nos


vem dos livros, da tradição, da autoridade da
Igreja, nenhuma deve ser aceita a não ser que
resista a um exame rigoroso.” (RENÉ
DESCARTES)
“A verdade não conhece mistérios, nem
dogmas, nem milagres. A necessidade de
enganar, de iludir faz parte sempre dos
mesmos mistérios, dogmas e milagres.”
(MÁRIO CAVALCANTE DE MELLO)

Pelo fato de não aceitarem a reencarnação, muitas


pessoas têm defendido a tese de que João Batista não teria sido
Elias em nova encarnação. Evidentemente, partem de uma
interpretação pessoal, altamente associada ao dogmatismo
religioso em que vivem, resultando em algo que pouco ou nada
tem a ver com os textos bíblicos.

Faremos um estudo para ver qual é a realidade,


esperando responder à pergunta inicial; mas, como sempre, em
relação a esses, de quem falamos, não alimentamos a mínima
pretensão de demovê-los de suas ideias com o que resultar
desse estudo. A única coisa que irá modificar-lhes o
pensamento será, por ironia do próprio destino, só mesmo a
reencarnação, já que ela é uma lei natural, que não pergunta a
ninguém se nela crê ou não, para que lhe sujeite e se cumpra o
“é necessário nascer de novo.” (João 3,3)

Faremos uma análise de várias passagens bíblicas, em


114

busca de uma interpretação menos dogmática.

O povo hebreu esperava a volta de Elias, confiante nas


duas profecias do Antigo Testamento, que afirmam sobre o seu
retorno. Propositalmente, as colocaremos na ordem inversa, ou
seja, da mais nova para a mais antiga. Leiamo-la:

Eclesiástico 48,10: “Tu que foste designado nas


ameaças do futuro, para apaziguar a cólera antes do
furor, para reconduzir o coração dos pais aos filhos
e restabelecer as tribos de Jacó.” (grifo nosso)

Nos versículos 1 a 12 do capítulo 48 do livro Eclesiástico,


escrito por volta do ano 200 a.C., se está falando de Elias;
então, a afirmativa de que “foste designado nas ameaças do
futuro” refere-se a uma profecia a respeito da volta de Elias.

Na sequência, diz-se que um dos objetivos de sua volta


seria “para reconduzir o coração dos pais aos filhos”,
exatamente o que iremos ver o anjo Gabriel afirmando a
Zacarias sobre o personagem João Batista (Lucas 1,14-18).

E, certamente, corrobora o que encontramos em


Malaquias (Malaquias 3,22-24) ( 132
), que lhe é anterior,
contendo essa mesma afirmação, conforme veremos um pouco
adiante. E o versículo 11 inicia afirmando “Felizes os que te
virem…”, o que dá conotação de algo a acontecer no futuro.

A segunda passagem, onde, na verdade, se encontra a


primeira profecia, está no último livro do Antigo Testamento,
que é o de Malaquias, que, segundo pudemos levantar, viveu

132 Em algumas traduções bíblicas essa passagem é citada como Malaquias


4,4-6.
115

cerca de 400 anos a.C. (133); assim ele disse:

Malaquias 3,1: “Vejam! Estou mandando o meu


mensageiro para preparar o caminho à minha
frente. De repente, vai chegar ao seu Templo o Senhor
que vocês procuram, o mensageiro da Aliança que vocês
desejam. Olhem! Ele vem! - diz Javé dos exércitos.”
(grifo nosso)

Mais à frente, esse mensageiro é identificado, no mesmo


texto do próprio profeta Malaquias:

Malaquias 3,23-24: “Vejam! Eu mandarei a vocês o


profeta Elias, antes que venha o grandioso e terrível
Dia de Javé. Ele há de fazer que o coração dos pais
voltem para os filhos e o coração dos filhos para os pais;
e assim, quando eu vier, não condenarei o país à
destruição total.” (grifo nosso)

O passo seguinte é quando, no tempo de Herodes, rei da


Judeia, um sacerdote chamado Zacarias recebe a visita de um
anjo, que lhe anuncia que sua mulher Izabel, apesar de estéril,
daria a luz a uma criança, cujo nome deveria ser João (Lucas
1,5-13); caracterizando essa criança, o anjo Gabriel declara a
Zacarias:

Lucas 1,15-18: “[…] ele vai ser grande diante do Senhor.


Ele não beberá vinho, nem bebida fermentada e, desde
o ventre materno, ficará cheio do Espírito Santo. Ele
reconduzirá muitos do povo de Israel ao Senhor seu
Deus. Caminhará à frente deles, com o espírito e o
poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais
aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos,
preparando para o Senhor um povo bem disposto.”

133 Dicionário Prático – Barsa, p. 165.


116

(grifo nosso)

Afirmando que a criança virá “com o espírito e o poder


de Elias”, se usa da linguagem de época, para confirmar que
aquela criança seria o espírito de Elias reencarnado. Isso se
confirma quando, na sequência, é dito “a fim de converter os
corações dos pais aos filhos”, exatamente como consta em
Eclesiástico (Eclesiástico 48,10) e como também disse
Malaquias na profecia que anteriormente citamos (Malaquias
3,22-24), na qual também se afirma categoricamente que Elias
haveria de voltar: “eu mandarei a vocês o profeta Elias”.

João Batista foi um projeta, ou seja, “É alguém que fala


aos outros em nome de Deus (Deuteronômio 18,18). É um
porta-voz escolhido, enviado e inspirado por Deus para fazer
em seu nome pronunciamentos, chamados oráculos, e para
fazer ver o plano e a vontade divinos. […].” (134) Portanto, o que
se era de esperar é que fosse dito “com o espírito e o poder
de Deus” e não “com o espírito e o poder de Elias”, que está
aí exatamente para confirmar que era o próprio espírito de Elias
que voltara, em cumprimento da profecia.

No dia em que o menino foi levado para ser


circuncidado, Zacarias, mudo por castigo imposto pelo anjo,
escreve, numa tábua, o nome que deveria ser dado a seu filho:
João. Fez isso porque queriam dar à criança o mesmo nome do
pai ou de algum parente. Logo após, Zacarias profetiza dizendo
várias coisas (Lucas 1,67-79), e dentre elas destacamos:

Lucas 1,76-77: “E a você, menino, chamarão profeta

134 Bíblia Sagrada – Editora Vozes, p. 1534.


117

do Altíssimo, porque irá à frente do Senhor, para


preparar-lhe os caminhos, anunciando ao seu povo a
salvação e perdão dos pecados.” (grifo nosso)

Isso confirma, primeiro, a profecia anterior de Malaquias


e, segundo, o que o anjo Gabriel havia dito a Zacarias, como
para não deixar dúvidas de quem era aquele menino, embora,
nos dias de hoje, haja os que, por puro dogmatismo, não
enxergam isso.

Na narrativa, em que se relata o início da pregação de


João Batista, lemos:

Lucas 3,3-6: “E João percorria toda a região do rio


Jordão, pregando o batismo de conversão para o perdão
dos pecados, conforme está escrito no livro do profeta
Isaías: ‘Esta é voz daquele que grita no deserto:
preparem o caminho do Senhor, endireitem suas
estradas. Todo vale será aterrado, toda a
montanha e colina serão aplainadas; as estradas
curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados
serão nivelados. E todo homem verá a salvação de
Deus’.” (grifo nosso)

Como se nota, João, mais uma vez, está sendo


relacionado a uma profecia a respeito da vinda do Mensageiro.

Mais à frente, João Batista é preso por Herodes, e da


prisão, envia seus discípulos a Jesus. Logo após esse encontro
de Jesus com os discípulos de João, ele, o Mestre, em se
referindo à “voz que clama no deserto” diz:

Mateus 11,7-15: “O que é que vocês foram ver no


deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que vocês
foram ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas
118

aqueles que vestem roupas finas moram em palácios de


reis. Então, o que é que vocês foram ver? Um profeta?
Eu lhes afirmo que sim: alguém que é mais do que um
profeta. É de João que a Escritura diz: 'Eis que eu
envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai
preparar o teu caminho diante de ti'. Eu garanto a
vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é
maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino
do Céu é maior do que ele. Desde os dias de João
Batista até agora, o Reino do Céu sofre violência, e
são os violentos que procuram tomá-lo. De fato, todos
os Profetas e a Lei profetizaram até João. E se vocês o
quiserem aceitar, João é Elias que devia vir. Quem
tem ouvidos, ouça.” (grifo nosso)

Na afirmação de que “é de João que a Escritura diz”,


Jesus está relacionando João Batista exatamente à profecia de
Malaquias a respeito do envio do mensageiro (Malaquias 3,1),
identificado pelo próprio profeta como sendo Elias (Malaquias
3,22-24), conforme já vimos.

Há, aqui, uma frase que poucos a comentam;


entretanto, ela é muito singular. Estamos falando da frase:
“Desde os dias de João Batista até agora”, expressão que, por
lógica, só faria sentido se João Batista não fosse
contemporâneo de Jesus. Sobre ela Kardec tece o seguinte
comentário:

[…] Que significam essas palavras, uma vez que


João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as
explica, dizendo: “Se quiserdes compreender o que
digo, ele mesmo é o Elias que há de vir.” Ora, sendo
João o próprio Elias, Jesus alude à época em que
119

João vivia com o nome de Elias. […] (135) (grifo nosso)

Acreditamos que é realmente isso: Jesus está afirmando


o que, em outras palavras, poderia ter sido dito: “Desde os dias
de Elias até agora”, já que, na sequência, ele arremata
claramente dizendo que João é Elias, aquele mesmo que havia
de vir. Na certeza de que muitos não acreditariam nisso,
completa: “quem tem ouvidos, ouça”, ou seja, quem quiser
acreditar que acredite: João Batista é mesmo o Elias
reencarnado.

Vale também observar que Jesus nunca impôs sua


maneira de pensar a ninguém, exemplo que muitos não se
preocupam e nem fazem questão de seguir; principalmente,
aqueles que tentam incutir na cabeça dos outros as suas
interpretações pessoais dos textos bíblicos; seriam eles os
falsos profetas de quem Jesus sempre falava? Em Mateus 7,21-
23 Ele nos dá algumas pistas sobre quem poderiam ser esses
falsos profetas: usariam o nome dele para: 1) profetizar; 2)
expulsar demônios e 3) fazer muitos milagres. Será que é de
alguns líderes religiosos atuais que Jesus está se referindo? Fica
a resposta por sua conta, caro leitor.

Como explicar que João Batista seja o maior de todos os


homens, mas que no “Reino do Céu” ele é o menor? Somente
com a possibilidade de evolução individual, que cabe a cada um
de nós. Se isso não for verdade, haveremos de, forçosamente,
acreditar que Deus age com parcialidade, contrariando a
afirmação de que “Deus não faz acepção de pessoas” (Atos

135 KARDEC, 2007c, p. 92.


120

10,34), o que faria de Sua “justiça” uma justiça por demais


humana, privilegiando algumas pessoas em detrimento de
outras.

Em outra passagem Jesus volta, novamente, a afirmar


sobre João ser Elias. Ei-la:

Mateus 17,1-13: “Seis dias depois, Jesus tomou consigo


Pedro, os irmãos Tiago e João, e os levou a um lugar à
parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou
diante deles: o seu rosto brilhou como o sol, e as suas
roupas ficaram brancas como a luz. Nisso lhes
apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus.
Então Pedro tomou a palavra, e disse a Jesus: ‘Senhor, é
bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três
tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para
Elias’. Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem
luminosa os cobriu com sua sombra, e da nuvem saiu
uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho amado, que
muito me agrada. Escutem o que ele diz’. Quando
ouviram isso, os discípulos ficaram muito assustados, e
caíram com o rosto por terra. Jesus se aproximou, tocou
neles e disse: ‘Levantem-se, e não tenham medo’. Os
discípulos ergueram os olhos, e não viram mais
ninguém, a não ser somente Jesus. Ao descerem da
montanha, Jesus ordenou-lhes: ‘Não contem a ninguém
essa visão, até que o Filho do Homem tenha
ressuscitado dos mortos’. Os discípulos de Jesus lhe
perguntaram: ‘O que querem dizer os doutores da Lei,
quando falam que Elias deve vir antes?’ Jesus
respondeu: ‘Elias vem para colocar tudo em ordem. Mas
eu digo a vocês: Elias já veio, e eles não o
reconheceram. Fizeram com ele tudo o que quiseram.
E o Filho do Homem será maltratado por eles do mesmo
modo’. Então os discípulos compreenderam que
Jesus falava de João Batista.” (grifo nosso)
121

Transcrevemos a passagem por completo para podermos


melhor explicá-la. Os espíritos Moisés e Elias aparecem no
monte Tabor e conversam com Jesus, fato que Pedro, Tiago e
João testemunham (e ainda dizem que os mortos não se
comunicam…). Os discípulos, lembrando-se das profecias a
respeito da volta de Elias, ficam intrigados; daí pensaram: se
Elias está aqui, então como na Escritura é dito que ele voltaria?
Em consequência pedem uma explicação a Jesus: “O que
querem dizer os doutores da Lei, quando falam que Elias deve
vir antes?”. A resposta de Jesus sobre isso é categórica: “Elias
já veio, e eles não o reconheceram”. Fato que por si só se
explica porque o espírito que animou Elias esteve reencarnado
como João Batista; entretanto, nem todos o reconheceram. É
por isso que no texto consta “eles”, os doutores da Lei, e não
“ninguém”, que abrangeria o desconhecimento por parte de
todo mundo, inclusive dos apóstolos, de que João era Elias.

Quanto aos apóstolos, podemos dizer que apenas


queriam essa confirmação por parte de Jesus, pois já supunham
que João era mesmo Elias, já que não teriam feito essa
pergunta se não cressem na reencarnação.

Será interessante vermos essa passagem pela narrativa


de Marcos; leiamo-la:

Marcos 9,1-13: “E Jesus dizia: 'Eu garanto a vocês:


alguns dos que estão aqui, não morrerão sem ter visto o
Reino de Deus chegar com poder'. Seis dias depois,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e os
levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta
montanha. E se transfigurou diante deles. Suas roupas
ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma
122

lavadeira no mundo as poderia alvejar. Apareceram-lhes


Elias e Moisés, que conversavam com Jesus. Então Pedro
tomou a palavra e disse a Jesus: 'Mestre, é bom ficarmos
aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para
Moisés e outra para Elias'. Pedro não sabia o que dizer,
pois eles estavam com muito medo. Então desceu uma
nuvem e os cobriu com sua sombra. E da nuvem saiu
uma voz: 'Este é o meu Filho amado. Escutem o que ele
diz!' E, de repente, eles olharam em volta e não viram
mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao
descerem da montanha, Jesus recomendou-lhes que não
contassem a ninguém o que tinham visto, até que o
Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles
observaram a recomendação e se perguntavam o que
queria dizer 'ressuscitar dos mortos'. Os discípulos
perguntaram a Jesus: 'Por que os doutores da Lei dizem
que antes deve vir Elias?' Jesus respondeu: 'Antes vem
Elias para colocar tudo em ordem. Mas, como dizem as
Escrituras, o Filho do Homem deve sofrer muito e ser
rejeitado. Eu, porém, digo a vocês: Elias já veio e
fizeram com ele tudo o que queriam, exatamente
como as Escrituras falaram a respeito dele'.” (grifo
nosso)

Será que o “ressuscitar dos mortos” aí equivale a


reencarnar? Os discípulos discutiam sobre o que queria dizer
“ressuscitar dos mortos” e, ao que parece, não chegaram a um
denominador comum; assim, querendo um esclarecimento,
perguntam a Jesus sobre a volta de Elias. Obviamente, como
estavam conversando sobre ressurreição dos mortos, e nessa
conversa sai o nome de Elias, é porque, certamente, tinham
Elias como morto e não como um arrebatado.

Muito interessante o que pudemos ver quanto ao teor do


versículo 13, em duas outras traduções bíblicas bem antigas.
123

Na Bíblia Paulinas (1957) e na Bíblia Barsa (1965), nesse verso


consta o seguinte:

Marcos 9,13: “Mas digo-vos que Elias já veio (e fizeram


dele quanto quiseram) como está escrito dele.” (grifo
nosso)

A diferença entre os textos bíblicos pode ter sido porque


o que está aqui entre parênteses é, certamente, uma glosa.
Conforme o Dicionário Bíblico, glosa “são os acréscimos feitos a
um texto para explicá-lo, corrigi-lo e adaptá-lo. De modo geral
colocados à margem pelos autores, as glosas são
progressivamente inseridas no texto até pelos próprios
copistas”. (136). Assim, temos o texto original, sem a glosa:
“Mas digo-vos que Elias já veio como estava escrito dele”, ou
seja, corrobora as duas profecias, já citadas.

Embora tudo isso, quanto colocamos até aqui, seja claro


aos que não estão encabrestados por sua liderança religiosa,
não duvidamos que continuarão aparecendo dogmáticos com
argumentos contrários a essa verdade bíblica, colocando Jesus
como mentiroso, já que foi Ele quem disse que João era Elias, e
não nós, os Espíritas, fato que não há como contestar.

Falta-nos ainda fazer uma análise da passagem que


relata a morte de João Batista; é o que faremos agora; mas,
primeiro, leiamo-la:

Mateus 14,7-11: “Então Herodes prometeu com


juramento que lhe daria tudo o que ela pedisse.
Pressionada pela mãe, ela disse: 'Dê-me aqui, num

136 MONLOUBOU e DU BUIT, 1997, p. 328.


124

prato, a cabeça de João Batista'. O rei ficou triste, mas


por causa do juramento na frente dos convidados,
ordenou que atendessem o pedido dela, e mandou
cortar a cabeça de João na prisão. Depois a cabeça foi
levada num prato, foi entregue à moça, e esta a levou
para a sua mãe.” (grifo nosso)

Considerando que a reencarnação está diretamente


associada à lei de causa e efeito, a morte de João Batista é
mais um fato que se ajusta ao nosso conjunto de provas, pois
ele morreu exatamente da mesma forma que, quando estava
encarnado como Elias, fez perecer os sacerdotes de Baal: teve
a cabeça cortada. Vejamos o relato:

1 Reis 18,40: “Então Elias disse a eles: ‘Agarrem os


profetas de Baal. Não deixem escapar nenhum’. E eles
os agarraram. Elias fez os profetas de Baal descer
até o riacho Quison, e aí os degolou.” (grifo nosso)

1 Reis 19,1: “Acab contou a Jezabel o que Elias tinha


feito e como tinha matado a fio de espada todos os
profetas.” (grifo nosso)

E para que ninguém diga que a lei de causa e efeito não


é bíblica, como ao gosto dos dogmáticos, apresentamos para
sustentação do nosso entendimento as seguintes passagens:

Jó 4,8: “Pelo que eu sei, os que cultivam injustiça e


semeiam miséria, são esses que as colhem.”

João 8,34: “Jesus respondeu: ‘Eu garanto a vocês: quem


comete o pecado, é escravo do pecado’.”

Mateus 26,52: “Jesus, porém, lhe disse: ‘Guarde a


espada na bainha. Pois todos os que usam a espada,
pela espada morrerão’.”
125

Gálatas 6,7: “Não se iludam, pois com Deus não se


brinca: cada um colherá aquilo que tiver semeado.”

Há uma passagem em que Jesus ressalta a lei de causa


e efeito ao estabelecer uma correlação entre a doença de uma
pessoa como consequência de, anteriormente, ter “pecado”. É
o caso de um paralítico, que assim se encontrava há trinta e
oito anos, que foi curado num dia de sábado. Pouco tempo
depois Jesus o encontra no templo e lhe diz: “Olha que já estás
curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior”
(João 5,14).

Não resta dúvida que, perante essa fala de Jesus,


podemos concluir que a paralisia desse homem estava
diretamente relacionada a um “pecado” cometido por ele,
embora, pelo texto não dê para sabermos se foi ou não de uma
outra vida. Jesus ainda lhe adverte que se pecar outra vez a
doença poderá ser pior, reafirmando essa lei.

Vamos agora analisar as principais objeções que se


levantam contra João Batista ser Elias reencarnado. Iremos
dividi-las em dois grupos; um específico quanto a essa questão
e o outro mais genérico, onde argumentam contra a
reencarnação, dizendo que não é bíblica e que Jesus nunca
pregou tal coisa. Convém ressaltar que as genéricas, não raro,
têm sido usadas como rota de fuga e de compensação, perante
a inocuidade das objeções específicas.

1 – Objeções Específicas

1.1 – Elias não poderia ter reencarnado porque não


morreu, mas foi arrebatado.
126

Se João, o Batista, fosse mesmo Elias reencarnado,


Elias teria de ter morrido para reencarnar. Ora, sabemos
que Elias nunca morreu, pois foi arrebatado vivo ao céu
(2 Reis 2,11). Perguntamos aos espíritas qual o texto da
Bíblia que confirma a morte de Elias? A resposta é:
nenhum. Elias não morreu. Será que os espíritas
aceitariam a Bíblia como um livro inspirado, ou vão
torcer o significado do texto?

O grande problema é que muitas pessoas acreditam


piamente em tudo que consta da Bíblia, como se, realmente,
ela fosse, “capa a capa”, de inspiração divina. Certamente, o
seria se não houvesse nela a mínima contradição; no entanto,
podemos ver que elas existem; mas só percebem isso os que
estão livres das “viseiras dogmáticas”. No presente caso,
acontecem várias. Vejamo-las, os grifos são nossos:

a) Gênesis 3,19: “[…] tu és pó e ao pó tornarás.”

Elias, caso tivesse sido arrebatado, não teria voltado ao


pó conforme o que Deus estabeleceu aqui nessa passagem
como coisa que acontecerá a todo ser humano.

b) 1 Coríntios 15,50: “Isto afirmo, irmãos, que carne


e sangue não podem herdar o reino de Deus, […].”

Se Elias foi arrebatado, certamente que foi para o reino


dos céus no corpo físico, ou seja, com sua carne e seu sangue,
fato que vem contrariar o que está aqui dito nesse passo.

c) João 3,13: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão


aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do homem.”

Se o arrebatamento de Elias for verdadeiro, então ele


127

subiu ao céu, e antes do que Jesus, o que contradiz essa fala de


Jesus, que foi a única pessoa que havia subido ao céu, e
ninguém mais, conforme suas próprias palavras.

d) Hebreus 9,27: “[…] aos homens está ordenado


morrerem uma só vez […].”

Se Elias não morreu – nem uma única vez –, fica


evidente que essa passagem não se cumpriu.

e) Atos 10,34: “[…] Reconheço por verdade que


Deus não faz acepção de pessoas; […].”.

Explica-nos o Houaiss que acepção é: “escolha,


predileção por alguém; inclinação, tendência em favor de
pessoa(s) por sua classe social, privilégios, títulos etc.”.
Consequentemente, se o tal do arrebatamento aconteceu a
Elias, há evidente contradição com o texto aqui citado. E, por
outro lado, considerando que Tiago disse que “Elias é homem
fraco como nós” (Tiago 5,17), qual seria então, a razão desse
suposto privilégio de Elias, já que ele é igual a nós?

f) João 6,63: “O espírito é que vivifica; a carne para


nada aproveita; […].”

Na possibilidade de Elias ter sido arrebatado, ele foi “em


carne” para o mundo espiritual; mas isso é estranho em função
do “a carne para nada se aproveita”; porquanto, nessa
passagem, fica claro que o Espírito é que é o mais
importante.

g) João 4,24: “Deus é Espírito, […].”


128

Agora, sim, é que as coisas se tornaram mais


incoerentes, uma vez que Deus, sendo espírito – essa é a nossa
semelhança para com Ele -, certamente vive em seu reino
nessa condição. Entretanto, Elias teria que viver em corpo
físico, caso tivesse sido arrebatado. Se for verdade o que
disse Jesus, de que o “reino dos céus está dentro de
vós” (Lucas 17,21), então ele não é um lugar, mas um
estado de consciência, ficando, portanto, sem qualquer
sentido alguém ser arrebatado fisicamente.

h) 2 Crônicas 21,12: “Então lhe chegou às mãos uma


carta do profeta Elias”.

Nesse livro, o de Crônicas, está se afirmando que Elias


envia uma carta a Jorão (forma abreviada de Jeorão), fato que
comprova que ele não foi arrebatado coisíssima nenhuma, uma
vez que o envio dessa carta aconteceu cerca de dez anos
depois do seu suposto arrebatamento, o que comprovamos
com: “De acordo com a cronologia de 2 Reis, Elias tinha
desaparecido antes do reinado de Jorão de Israel (2 Reis 2; 3,1)
e, portanto, antes de Jorão de Judá (2 Reis 8,16; cf. no entanto 2
Reis 1,17)” (137). A não ser que o correio daquela época não
tenha sido tão eficiente quanto o atual e tenha atrasado a
entrega dessa carta.

Ainda temos o tradutor Russell P. Shedd (1929–2016),


teólogo evangélico, que assim tenta explicar o passo 2 Crônicas
21,12:

137 Bíblia de Jerusalém, p. 607.


129

Elias já havia subido aos céus antes da entrega


da sua carta (cf. 2Rs 3,11), que soaria como uma voz
de condenação vinda do além. Elias talvez profetizara
os crimes de Jeorão, com os castigos que lhe
sobreviriam, à sua família e à sua nação. Elias, também,
foi formidável oponente de Jezabel, mãe de Atalia, e
sogra de Jeorão. (138) (grifo nosso)

A sua hipótese de que a carta “soaria como uma voz de


condenação vinda do além” é, para nós, algo inusitado saindo
da boca de um evangélico.

Com apenas a informação de que “Elias já fora


trasladado ao céu quando esta carta foi entregue a Jeorão”.
(139), sem maiores considerações, para, talvez, não terem que
admitir o que Shedd coloca como uma possibilidade.

É em 2 Reis 2,11 que se narra o suposto arrebatamento


de Elias, fato que causa divergência mesmo entre os teólogos;
vejamos a opinião de uma equipe de tradutores católicos e
protestantes: “O texto não diz que Elias não morreu, mas
facilmente se pode chegar a essa conclusão” (140).

1.2 – No monte da transfiguração, quem apareceu foi


Elias e não João Batista, como era de se esperar se João
fosse a última encarnação de Elias.

Se João Batista fosse a reencarnação de Elias,


aquele que teria aparecido no monte da transfiguração,
deveria ser João Batista e não Elias (Mt 17,1-6). Pois de

138 Bíblia Shedd, p. 640.


139 A Bíblia Anotada, p. 586.
140 Bíblia de Jerusalém, p. 509.
130

acordo com a doutrina espírita: a última pessoa


reencarnada é que deve aparecer.

Obviamente que, como um princípio geral, isso está


certo; o que não se deve é generalizar, pois, de acordo com a
Doutrina Espírita, o que acontece é isso: “Os Espíritos que se
tornam visíveis se apresentam, quase sempre, sob as
aparências que tinham quando vivos, e que pode fazê-los
reconhecer”. (141). A expressão “quase sempre” retira o caráter
genérico, abrindo a possibilidade de os espíritos apresentarem-
se na forma em que as pessoas, às quais se dirigem, possam
reconhecê-los; assim, “Podendo tomar todas as aparências, o
Espírito se apresenta sob a que melhor o faça reconhecível, se
tal é o seu desejo”. (142) Dessa forma, se o espírito apresentou-
se como Elias e não como João Batista, é porque ele queria se
fazer reconhecer como Elias e não como João; foi isso o que
aconteceu.

Portanto, pela Doutrina Espírita, há casos em que o


espírito pode se manifestar com a aparência de qualquer outra
encarnação, desde que tenha evolução moral para isso. O
perispírito, como sendo o corpo espiritual, pode ser moldado à
vontade do espírito, uma vez que ele possui entre suas
propriedades a da plasticidade, que, com o poder do
pensamento, permite ao espírito assumir uma outra aparência,
mas sempre com a aparência de uma de suas encarnações. É o
que se pode, inclusive tirar dessa fala de Kardec:

141 KARDEC, 1993h, p. 108.


142 KARDEC, 2007b, p. 146.
131

É assim, por exemplo, que um Espírito se faz visível


a um encarnado que possua a vista psíquica, sob as
aparências que tinha quando vivo na época em que
o segundo o conheceu, embora haja ele tido, depois
dessa época, muitas encarnações. Apresenta-se com
o vestuário, os sinais exteriores – enfermidades,
cicatrizes, membros amputados, etc. – que tinha então.
Um decapitado se apresentará sem a cabeça. Não quer
isso dizer que haja conservado essas aparências, certo
que não, porquanto, como Espírito, ele não é coxo, nem
maneta, nem zarolho, nem decapitado; o que se dá é
que, retrocedendo o seu pensamento à época em
que tinha tais defeitos, seu perispírito lhes toma
instantaneamente as aparências, que deixam de
existir logo que o mesmo pensamento cessa de agir
naquele sentido. Se, pois, de uma vez ele foi negro e
branco de outra, apresentar-se-á como branco ou negro,
conforme a encarnação a que se refira a sua evocação
e à que se transporte o seu pensamento. ( 143) (grifo
nosso).

O perispírito, por ser totalmente maleável, terá a


aparência que o espírito queira lhe dar, pela força do seu
pensamento, conforme, por aqui, se confirma:

[…] Mas a matéria sutil do perispírito não possui a


tenacidade, nem a rigidez da matéria compacta do
corpo; é, se assim nos podemos exprimir, flexível e
expansível, donde resulta que a forma que toma,
conquanto decalcada na do corpo, não é absoluta,
amolga-se à vontade do Espírito, que lhe pode dar a
aparência que entenda, ao passo que o invólucro
sólido lhe oferece invencível resistência.

143 KARDEC, 2007e, p. 323.


132

Livre desse obstáculo que o comprimia, o perispírito


se dilata ou contrai, se transforma: presta-se, numa
palavra, a todas as metamorfoses, de acordo com a
vontade que sobre ele atua. Por efeito dessa
propriedade do seu envoltório fluídico, é que o Espírito
que quer dar-se a conhecer pode, em sendo necessário,
tomar a aparência exata que tinha quando vivo, até
mesmo com os acidentes corporais que possam
constituir sinais para o reconhecerem. (144) (grifo nosso)

Quanto mais evoluído for um espírito, mais facilmente


conseguirá dirigir sua vontade para moldar o perispírito na
aparência que desejar. É o que Kardec nos explica:

[…] O Espiritismo nos faz compreender como podem


os Espíritos achar-se entre nós. Comparecem com seu
corpo fluídico ou espiritual e sob a aparência que
nos levaria a reconhecê-los, se se tornassem visíveis.
Quanto mais elevados são na hierarquia espiritual,
tanto maior é neles o poder de irradiação. É assim
que possuem o dom da ubiquidade e que podem estar
simultaneamente em muitos lugares, bastando para isso
que enviem a cada um desses lugares um raio de suas
mentes. (145) (grifo nosso)

No caso de João Batista, Jesus disse que entre os


nascidos de mulher ele era o maior, assegurando, portanto, sua
condição de espírito evoluído, embora Tiago tenha dito o
contrário, fato que já citamos.

1.3 – A Bíblia fala que João Batista teve um ministério


parecido com o de Elias (Lucas 1,17). Este versículo será

144 KARDEC, 2007b, p. 81-82.


145 KARDEC, 2007c, p. 416.
133

completamente esclarecido se comparado com a história


de Elias e Eliseu (2 Reis 2,9-15).

João Batista cumpriu funcional e profeticamente o


ministério de Elias, pois entendemos o texto da seguinte
maneira: João Batista, deveria fazer o seu ministério
dentro do espírito ministerial de Elias (Ml 4,5-6; Lc 1,17).
Em relação ao versículo que diz que João Batista ia
no espírito de Elias (Lc 1,17), a Bíblia não diz que João
Batista ia com o espírito de Elias. Existe uma grande
diferença entre ir no espírito e ir com o espírito de
Elias. A palavra no significa no mesmo ímpeto,
semelhante. Para provar essa colocação, vamos ver
como João Batista e Elias eram semelhantes.

JOÃO BATISTA ELIAS


Perseguido por uma mulher Foi perseguido por uma
(Herodias) e por um rei mulher (Jezabel) e por um
(Herodes). (Mt 14,3-5 e Mc rei (Acabe). (1Rs 19,1-3 e
6,18-20) 1Rs 21,20)
Usava uma capa de pelos. Usava também uma capa.
(Mt 3,4) (1Rs 19,19)
Também era intrépido. (1Rs
Era intrépido. (Lc 3,7)
18,27)
Foi o último profeta. (Lc
Simboliza os profetas.
16,16)

De doze livros bíblicos consultados ( 146), apenas quatro


deles usam o “no”, o que, em termos percentuais, representa
apenas 33% do total. Consequentemente, na maioria consta o
termo “com”, e se nisto prevalecer a voz da maioria, então o
argumento aqui enfocado cai por terra.

146 Ver relação nas referências bibliográficas.


134

Quanto à questão de ministério semelhante, é apenas


uma tentativa inepta para que não fique evidenciada a ideia da
reencarnação, uma vez que não é isso o que consta da Bíblia e
nem mesmo poder-se-ia interpretar a passagem dessa maneira,
uma vez que Jesus não deixou dúvidas ao dizer que “João é
Elias que devia vir”. Se a intenção da profecia fosse mesmo
indicar um “profeta semelhante”, bastaria a Malaquias usar a
mesma expressão empregada em Deuteronômio 18,18, onde se
diz: “Suscitarei um profeta semelhante a ti”.

Por outro lado, se, às vezes, argumentam a não


existência da reencarnação, pois essa palavra não consta da
Bíblia, pelo mesmo motivo podemos aplicar à palavra
“ministério”, que se usou na frase: “A Bíblia fala que João
Batista teve um ministério parecido com o de Elias”. Ademais
os que usam desse argumento e acreditam na Trindade, apenas
provam falta de coerência ou, quiçá, excesso de esperteza em
utilizar apenas de passagens que lhes convém.

Vejamos agora a mencionada história de Elias e Eliseu:

2 Reis 2,9-15: “Depois que passaram o rio, Elias disse a


Eliseu: ‘Peça o que você quiser, antes que eu seja
arrebatado da sua presença’. Eliseu pediu: ‘Deixe-me
como herança dupla porção do seu espírito’. Elias disse:
‘Você está pedindo uma coisa difícil. Em todo caso, se
você me enxergar quando eu for arrebatado da sua
presença, isso que pede lhe será concedido; caso
contrário, não será concedido’. E, enquanto estavam
andando e conversando, apareceu um carro de fogo
com cavalos de fogo, que os separou um do outro. E
Elias subiu ao céu no redemoinho. Eliseu olhava e
gritava: ‘Meu pai! Meu pai! Carro e cavalaria de Israel!’
Depois não o viu mais. Então Eliseu pegou sua própria
135

túnica e a rasgou em duas partes. Pegou o manto de


Elias, que havia caído, e voltou para a margem do
Jordão. Segurando o manto de Elias, bateu com ele na
água, dizendo: ‘Onde está Javé, o Deus de Elias?’ Bateu
na água, que se dividiu em duas partes. E ele
atravessou o rio. Ao vê-lo, os irmãos profetas, que
estavam a certa distância, comentaram: ‘O espírito de
Elias repousa sobre Eliseu’. Então foram ao seu
encontro, se prostraram diante dele.” (grifo nosso)

Para o espírito de Elias repousar sobre Eliseu, há de ter


havido a morte do tesbita. De igual modo vemos, nos dias de
hoje, ocorrendo com inúmeras pessoas, esse fenômeno de
espírito repousar, o que para nós não é outra coisa senão a
influência de um espírito desencarnado sobre um encarnado.
Mas exigir que àquela época entendessem dessa forma é pedir
muito, com certeza.

A relação das semelhanças, entre os dois profetas, está


mais para se confirmar que João Batista é mesmo Elias do que
para qualquer outra coisa.

Por outro lado, a profecia de Malaquias é clara quanto à


promessa do envio de Elias, pois o cita nominalmente, e não
alguém semelhante a ele como mostramos, e nem Jesus disse
que João era semelhante a Elias, como querem os dogmáticos,
justamente para fugir sorrateiramente da ideia da
reencarnação.

1.4 – João Batista disse claramente que não era Elias.

Em alguns passos parece haver uma ideia de


reencarnação, mas combatemos tal ideia com a
passagem bíblica: “Então, lhe perguntaram: Quem és,
136

pois? És tu Elias? Ele disse: Não sou. És tu o profeta?


Respondeu: Não”. (Jo 1,21). Assim, é o próprio João
Batista que nega tal fato.

O que ocorre é que, quando o espírito passa a habitar


um corpo físico, ele perde temporariamente a lembrança de
suas outras vidas; daí ser perfeitamente normal a resposta
negativa de João Batista à pergunta se ele era Elias. Por outro
lado, aí ficaremos num dilema, pois em quem devemos
acreditar: em Jesus que afirmou categoricamente que João
Batista era Elias; ou no próprio João que disse não ser? De
nossa parte estamos com Jesus, e pronto!

Mas a lembrança de outras vidas pode surgir de uma


hora para outra, o que, facilmente, poder-se-á confirmar lendo
a obra do Dr. Ian Stevenson (1918–2007), Reincarnation and
Biology: A Contribution to the Etiology of Birth Marks and Birth
Defects, (Vol. I: Birthmarks, 1200 páginas e vol. II: Birth Defects
and Other Anomalies, 1100 páginas) e a sinopse desse livro,
Where Reincarnation and Biology Intersects: A Synops. Nessa
obra o autor relata 225 casos de crianças que se lembraram de
uma outra vida dos, nada menos, 2600 investigados por ele. A
pesquisa do Dr. Stevenson, na opinião do pesquisador
brasileiro, Hernani de Guimarães Andrade (1913–2003):

Pessoalmente, consideramos essa obra do Dr.


Stevenson como uma das mais importantes e
indiscutíveis evidências de apoio à ideia da
reencarnação. É a culminação das investigações acerca
de casos de reencarnação, devido à qual preconizamos
vir a ocorrer dentro de poucos anos o total
reconhecimento da reencarnação como uma lei
137

biológica da natureza. (147) (grifo do original)

Os que se apegam demais à negação, não se dão conta


de que, se naquele tempo não acreditassem que uma pessoa,
que havia vivido, pudesse viver novamente num outro corpo,
não haveria sentido nessa pergunta feita a João Batista, fato
que comprova que, àquela época, se acreditava na
reencarnação, um dos significados para a palavra ressurreição.
E, para eles, o fato de Elias ter que voltar, inclusive num novo
corpo, incontestavelmente era coisa pacífica no seio da
população; isso porque, se assim não fosse, não teria havido
razão para terem sido enviados sacerdotes e levitas para
fazerem esse tipo de pergunta; veja o leitor que o povo tinha
plena consciência da reencarnação, pois havia a certeza de que
ele, João Batista, era a reencarnação de outro profeta, embora
não tivessem a certeza de qual dos profetas ele era a
reencarnação; daí a razão da pergunta, mandada a ele ser
formulada: “Tu és Elias?”. (João 1,21).

Além disso, no Velho Testamento, temos um versículo


que nos induz a concluir da existência de nossas vidas
passadas: Sabedoria 8,19-20: “Eu era um jovem de boas
qualidades e tive a sorte de ter uma boa alma, ou melhor,
sendo bom, vim a um corpo sem mancha”. (grifo nosso),
quanto à lembrança usaremos dos argumentos do amigo de Jó,
que lhe disse: “Somos de ontem, e nada sabemos” (Jó 8,9). E é
óbvio que o contexto é outro, porém se refere a um passado
remoto. É com ele que se pode explicar o porquê de João

147 ANDRADE, 2000, p. 74.


138

Batista ter negado ser Elias, pois não se lembrava de sua


encarnação como o Tesbita. Entretanto, embora ele não
soubesse quem ele foi em encarnação anterior, tinha plena
consciência da missão que deveria cumprir (João 1,23), ao
afirmar que vinha realizar o que dissera Isaías (Isaías 40,3).

Se João Batista não for mesmo Elias, então os cristãos


que assim acreditam deveriam mudar de religião, já que é
exatamente por esse motivo, ou seja, falta de cumprimento das
profecias, que, para os judeus, Jesus não é o Messias e, por
conseguinte, o judaísmo é que deveria ser a religião própria
para abrigá-los. Já que, profeticamente, a vinda de Jesus teria
que ser precedida da vinda de Elias, para anunciar a vinda do
Messias.

1.5 – A alegação de que Elias seja João Batista não


procede, tanto pelo contexto das Escrituras quanto pela
pregação dele.

Quando o “Elias reencarnado” viu a Jesus, exclamou:


“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
Para ele, que viria restaurar todas as coisas, é Jesus, e
não nós através de sucessivas vidas, que pagamos o
preço pelos nossos pecados. A revelação completa que
hoje está na Bíblia confere com o que João Batista
trouxe, hoje não precisamos mais oferecer cordeiros em
expiação, Cristo, o Cordeiro de Deus, hoje, é a nossa
páscoa (1Cor 5,7). Como os cordeiros do Velho
Testamento expiavam os pecados?? Como eles
deveriam ser?? Pedro responde em sua carta:
“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como
prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã
maneira de viver, que por tradição recebestes dos
vossos pais, mas com precioso sangue, como de um
139

cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de


Cristo” (1Pe 18,19).

Apesar de João Batista ter dito “Eis o cordeiro de Deus


que tira o pecado do mundo” (João 1,29), o fato é que ele
também disse que “Eu vos batizo com água, para
arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é
mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de
levar”. (Mateus 3,11) (grifo nosso). Portanto, em se
considerando que o próprio João disse que Jesus é mais
poderoso que ele, não pode prevalecer sua opinião à de Jesus.
Reputamos ao Mestre a autoridade suprema para a qual devem
convergir nossas atenções e prioridades. Neste caso, como
Jesus identifica, claramente e sem rodeios, a identidade
espiritual de João Batista, torna-se de importância secundária o
que possa advir de seus discípulos, que venha a contradizer a
qualquer de seus ensinos, uma vez que: “Nenhum discípulo
está acima do mestre”. (Mateus 10,24). Portanto, preferimos
crer que a palavra final cabe a Jesus e não a Pedro, Paulo,
João Batista ou a qualquer outro, no sentido de João Batista ser
mesmo Elias, tanto pelo contexto das escrituras quanto pela
pregação dele a seus discípulos, para os quais ensinava
claramente sobre os “mistérios do Reino de Deus”. Os mesmos
que, por fim, “compreenderam que Jesus lhes tinha falado a
respeito de João Batista” (Mateus 17,13).

Quanto à questão de que “o sangue de Jesus lavou


nossos pecados”, trata-se de mais uma opinião pessoal de
autores bíblicos, contrária ao que Ele pregou. “A cada um
segundo suas obras” (Mateus 16,27), a parábola do bom
140

samaritano (Lucas 10,25-37) e a do juízo final (Mateus 25,31-


46), são passagens que asseguram que, realmente, somos nós
mesmos que nos salvamos. Os discípulos apenas transferiam a
Jesus o papel da vítima do holocausto das práticas ritualísticas
dos judeus, quando matavam um novilho, sem defeito, para a
expiação dos pecados do povo. Diremos como Paulo de Tarso:
“se Jesus morreu pelos nossos pecados: comamos e bebamos”,
pois já estamos salvos. Entretanto, essa absurda ideia contém
uma contradição, uma vez que, pelo costume da época, os
pecados perdoados eram os anteriormente cometidos em
relação ao momento do ritual. Não havia, portanto, nenhuma
relação para com os pecados futuros. Podemos confirmar isso
em “… Sua morte aconteceu para o resgate das transgressões
cometidas no regime da primeira aliança; …” (Hebreus 9,15)
Por conseguinte, a crer nessa expiação dos pecados por Jesus,
haveremos de arrumar outro Cristo para pagar pelos nossos,
tomando-se como ponto de partida os ocorridos da sua morte
até os dias de hoje. Outra opção é, quem sabe, ficar
aguardando a vinda de um próximo “cordeiro”? E como fica o
“não peques mais”? (João 5,14; 8,11).

1.6 – João não era Elias, mas “o” Elias, ou seja, alguém
com as qualidades de Elias.

Ainda em nossos dias usamos esse estilo de


expressão: “Nunca mais surgirá um Rui Barbosa”. “O
Ronaldinho é um verdadeiro Pelé”. São termos
comparativos. [Se acreditais na vinda de um Elias], “e,
se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que havia de vir”
(Mt 11.14).
Por suas mensagens vibrantes e seu corajoso
141

desempenho diante de situações difíceis, Elias tornou-


se símbolo dos profetas. Moisés, por exemplo, era
símbolo da Lei (Lc 16.31). As profecias sobre a vinda de
Elias não se contradizem. Muito pelo contrário. Vejam:
Malaquias 4.5: “Eis que eu vos envio o profeta Elias,
antes que venha o dia grande e terrível do Senhor; e
converterei o coração dos pais aos filhos e o coração
dos filhos a seus pais; para que eu não venha e fira a
terra com maldição”. Lucas 1.15-17: “Porque será
grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem
bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o
ventre de sua mãe. E converterá muitos dos filhos de
Israel ao Senhor, seu Deus. E irá adiante dele no
espírito e virtude de Elias, para converter o coração dos
pais aos filhos e os rebeldes, à prudência dos justos,
com o fim de preparar ao Senhor um povo bem
disposto”. Logo, as profecias da vinda de Elias se
cumpriram em João Batista. Portanto, Elias veio na
pessoa de João Batista. É esta a real interpretação de
Mateus 11.14 e 17.10-13.

Os que assim argumentam se esquecem de mencionar


que a frase “nunca mais surgirá um Rui Barbosa” não é
sinônima de “nunca mais surgirá o Rui Barbosa”, da mesma
forma que correto é “Ronaldinho é um verdadeiro Pelé” e não
“Ronaldinho é o verdadeiro Pelé”. Por este motivo não
consideramos que seja de uma boa lógica concluir que a
expressão “ele é o Elias”, seja o mesmo que dizer “ele é um
Elias”. Basta, para isso, observar atentamente como Jesus se
expressa, de modo a não deixar sobre isso a menor sombra de
dúvida:

Mateus 11,10: “É de João que a Escritura diz: 'Eis


que eu envio o meu mensageiro à tua frente; ele
vai preparar o teu caminho diante de ti'.“ (grifo nosso)
142

Mateus 17,12: “Mas eu digo a vocês Elias já veio, e


eles não o reconheceram.” (grifo nosso)

E, além disso, não adianta se apegar demais a esse


pormenor, tendo em vista que a expressão “é o Elias” (Mateus
11,14) não consta de todas as traduções bíblicas como, por
exemplo: Bíblia Pastoral – Paulus e Escrituras Sagradas – Novo
Mundo. Nas edições SBTB e SBB já encontramos “é este o
Elias”, e na Paulinas (1957, 1977 e 1980), na Bíblia Barsa,
Bíblia Anotada – Mundo Cristão e na Bíblia Shedd, já lemos “ele
mesmo é o Elias”. Fica claro que, na maioria delas, o
entendimento é objetivo, quando se afirma, embora de maneira
um pouco diferente, que João Batistas é mesmo Elias, e não
uma comparação, como querem os antirreencarnacionistas.

Além das Bíblias que acabamos de citar, quanto ao fato


de usarem o “ele mesmo é Elias” (Mateus 11,14), que
insistentemente afirmamos ao longo deste estudo, ainda
podemos acrescentar a tradução de Louis-Isaac Le Maître de
Sacy (1613–1684):

“Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo


é o Elias que há de vir.” (grifo nosso)

Essa versão consta no Evangelho Segundo o Espiritismo


(148
), no qual Kardec utilizou-se dos textos bíblicos da tradução
francesa da Bíblia de Sacy (149).

Podemos ainda apresentar a tradução do professor


Carlos Torres Pastorino, ex-sacerdote formado em Teologia e

148 KARDEC, 2007c, p. 92.


149 KARDEC, 2007c, p. 26.
143

Filosofia, por um Seminário Católico em Roma, catedrático em


grego, hebraico e latim, em a Sabedoria do Evangelho, que é a
seguinte:

“E se quereis aceitar (isto), ele mesmo é Elias que


estava destinado a vir”. (150) (grifo nosso)

Pastorino, portanto, corrobora a tradução de Sacy,


quanto ao uso do “ele mesmo”, que, no texto bíblico, em se
referindo a João, não deixa margem a mirabolantes exegeses,
para fugir da realidade bíblica de que João Batista foi mesmo
Elias reencarnado.

Tudo nos leva a crer que essa deve ser a tradução


correta, que reflete o texto original disponível, que foi mudado,
justamente para escamotear a ideia da reencarnação, pois, com
ela, o fiel salva a si próprio; não precisa, via de consequência,
de líder que venha abrir a “porta do reino dos céus”, para que
ele possa entrar. Essa simples suspeita tornou-se uma
convicção diante desta explicação:

A tradução do vers. 14 não coincide com as


comuns. Mas o grego é bem claro: kai (e) ei (se) thélete
(quereis) decsásthai (aceitar, inf. pres. ) autós (ele
mesmo) estin (é) Hêlías (Elias) ho méllôn (part. presente
de mellô, destinado, “o que estava destinado”)
érchesthai (inf. pres.: a vir).
A Vulgata traduziu: “et si vultis recipere, ipse est Elias
qui venturus est”, em que o particípio futuro na
conjunção perifrástica dá o sentido de obrigação ou
destino do presente do particípio méllôn; acontece que o
latim ligou num só tempo de verbo (venturus est) o

150 PASTORINO, vol. 3, 1964c, p. 13.


144

sentido dos dois verbos gregos (ho méllôn érchesthai).


Com essa tradução, porém, o sentido preciso do
original ficou algo “arranhado”. Se a tradução fora
literal, deveríamos ler, na Vulgata (embora com um latim
menos ortodoxo): “ipse est Elias debens venire”, o que
corresponde exatamente à nossa tradução: “ele
mesmo é Elias que devia (estava destinado) a vir”.
Levados pela tradução da Vulgata, os tradutores
colocam o futuro do presente (que deverá vir), quando a
ação é nitidamente construída no futuro do pretérito. ( 151)
(grifo nosso)

A velha questão da tradução sempre se torna um


problema para o entendimento do texto bíblico, além de não
termos certeza absoluta de que o que ali está escrito
corresponde de fato ao texto primitivo.

Por outro lado, colocar Elias como corajoso é, no mínimo,


falta de conhecimento bíblico, pois após ele degolar os profetas
de Baal, foge, como se diz popularmente, com “o rabo entre as
pernas”, de Jezabel, mulher de Acab, sétimo rei de Israel (875–
853), que promete matá-lo por conta disso (1 Reis 19,1-3). No
máximo, no nosso entender, ele deveria ser considerado um
sanguinário covarde, face a sua atitude de matar e fugir.

Aliás, tomando das próprias palavras dos contraditores


podemos dizer “Logo, as profecias da vinda de Elias se
cumpriram em João Batista. Portanto, Elias veio na pessoa de
João Batista”, uma vez que o espírito, que animava esses dois
personagens, era o mesmo, ou seja, João Batista era Elias em
nova encarnação. Dessa forma a profecia de Malaquias, na qual

151 PASTORINO, vol. 3, 1964c, p. 16.


145

Deus prometeu enviar Elias, foi fielmente cumprida. Aos que


não acreditam nisso, devem apresentar-nos uma boa desculpa
para justificar que Deus não tenha enviado Elias como
prometeu, mas uma outra pessoa no lugar dele, tornando-O um
enganador.

2 – Objeções Genéricas

2.1 – Os judeus não criam em reencarnação, e sim na


ressurreição dos mortos (Marcos 6,14-16 e Lucas 9,7-8).

Será que é isso mesmo a verdade? Analisemos para


constatar. Tomemos as passagens citadas:

1ª) Marcos 6,14-16: “O rei Herodes ouviu falar de Jesus,


cujo nome tinha-se tornado famoso. Alguns diziam: ‘João
Batista ressuscitou dos mortos. É por isso que os
poderes agem nesse homem’. Outros diziam: ‘É Elias’.
Outros diziam ainda: ‘É um profeta como os profetas
antigos’. Ouvindo essas coisas, Herodes disse: ‘Ele é
João Batista. Eu mandei cortar a cabeça dele, mas ele
ressuscitou!’”.

Interessante a argumentação de que Jesus fazia milagres


pelos poderes de João Batista que agia sobre Ele. Isso é
ressurreição do corpo físico? Não! Mas, então, o que é? É o que
conhecemos por influência espiritual. Uma pessoa morre e,
ressuscitada em espírito, passa a influenciar uma pessoa
encarnada. Portanto, a ideia de ressurreição, nesta passagem,
nada tem a ver com aquela ressurreição do final dos tempos,
aceita pelos dogmáticos. Ressuscitar, nesse passo, é voltar à
condição espiritual.

2ª) Lucas 9,7-9: “O governador Herodes ouviu falar de


146

tudo o que estava acontecendo, e ficou sem saber o que


pensar, porque alguns diziam que João Batista tinha
ressuscitado dos mortos; outros diziam que Elias tinha
aparecido; outros ainda, que um dos antigos profetas
tinha ressuscitado. Então Herodes disse: ‘Eu mandei
degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço
falar essas coisas?’ E queria ver Jesus”.

Nessa passagem é flagrante o uso da palavra


ressurreição com o significado de reencarnação. Se as pessoas
acreditavam que Jesus poderia ser Elias, Jeremias (Mateus
16,14) ou um dos antigos profetas ressuscitado isso não é
ressurreição, mas sim reencarnação, já que se fosse Jesus um
deles, estaria num novo corpo, o de Jesus, obviamente. Quem
pensa assim, acredita que alguém já morto poderia voltar num
novo corpo como outra pessoa. É exatamente isso o que
definimos como reencarnação; portanto, provamos que na
época se acreditava em reencarnação, sim; só que para
designá-la usavam a palavra ressurreição, que também
possuía, àquela época, outros significados.

Em uma certa oportunidade, Jesus pergunta aos


discípulos: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”
Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros,
que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos
profetas” (Mateus 16,13-14). Isso confirma que o povo
acreditava na ressurreição em outro corpo, reencarnação para
nós. Só que há algo importante nessa passagem: é que Jesus
não protestou contra essa crença popular, o que significa que,
tacitamente, a confirma. É como diz um velho provérbio: “quem
cala consente”.
147

Alguém poderá perguntar: “Mas o que tem a ver


ressurreição com reencarnação?” Ao que responderemos:
dependendo do contexto, muita coisa; aliás, são conceitos
semelhantes. Como?! Expliquemos, utilizando, para isso, esse
passo citado (Mateus 16,14) na versão de Lucas:

Lucas 9,19: “Eles responderam: 'Alguns dizem que tu és


João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que
tu és algum dos antigos profetas que
ressuscitou'.” (grifo nosso)

Observar bem o que pensavam a respeito de quem era


Jesus: “tu és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. O
que se pode entender disso é que o verbo “ressuscitar”,
utilizado nessa frase, tem, indubitavelmente, a nítido
significado de reencarnar. Se Jesus, segundo suspeitavam,
poderia ser qualquer um dos antigos profetas, isso só é possível
acontecer pela reencarnação.

Por outro lado, como, nessa oportunidade, Jesus não


combateu a ideia de que alguém poderia vir como uma outra
pessoa, Ele, de certa maneira, sanciona a crença na
reencarnação, pois, se não fosse uma realidade, certamente,
que ele teria negado de forma contundente, de maneira a não
deixar que as pessoas pensassem equivocadamente a respeito
desse assunto.

Russell Norman Champlin (1933–2018), renomado


exegeta protestante, analisando a passagem Mt 16,14,
correlata a essa de Lucas (Lucas 9,19), disse:
148

“Uns dizem: João Batista”. Mat. 14:1 demonstra que


Herodes adotou essa teoria: “Este é João Batista; ele
ressuscitou dos mortos”. Provavelmente, então, alguns
dos herodianos também pensavam assim. Essa ideia
circulava entre o povo. Dificilmente podemos crer que
muitos pensavam que João Batista ressuscitara dos
mortos, porque a maioria sabia que Jesus e João
foram contemporâneos. Tal teoria, portanto, reflete a
doutrina da transmigração da alma. É óbvio que essa
crença exercia influência nas escolas dos fariseus,
e, ainda que nunca tivesse sido totalmente aceita por
todo o povo, muitos indivíduos (provavelmente a
maioria) aceitavam-na como verdadeira. Conforme
tais ideias se tinham desenvolvido nas escolas dos
fariseus, dizia-se que ainda viviam as almas dos
grandes profetas, e que em tempo oportuno, em
momentos de grande necessidade, como alguma crise
nacional, etc., tais almas poderiam tomar corpo
novamente. No caso de João Batista, não podemos
afirmar que essa crença refletisse a ideia da
“reencarnação”, mas deve ser interpretada como
“transmigração” ou “possessão”. Porém, uma vez
admitida a ideia que Jesus era Elias, Jeremias, ou
outro personagem do passado, então se pode
afirmar que essa crença era idêntica à
“reencarnação”. O termo “transmigração” é usado
por muitas vezes como sinônimo de
“reencarnação”. A identificação de Jesus com João
Batista, pelo menos, poderia preservar a identificação de
Jesus com a esperança messiânica, porque era crença
geral, entre o povo, que João era Elias reencarnado,
e Elias seria o precursor do Messias. Mas pode-se
afirmar, à base dessa ideia, que tais pessoas não
aceitavam que Jesus fosse o Messias. (152) (grifo nosso)

Esta aí uma prova de que os judeus acreditavam na

152 CHAMPLIN, vol. 1, 2005, p. 443.


149

reencarnação, que, para eles, consistia em ressuscitar em outro


corpo.

Mas, ainda vamos trazer outra fonte para


comprovar essa questão. Nós buscaremos esta informação
no historiador daquela época chamado Flávio Josefo, que viveu
entre 37 a 103 d.C. Suas obras históricas são: “Antiguidades
Judaicas”, “Guerra dos Judeus” e “Resposta de Flávio Josefo a
Ápio”, que, em nosso caso, fazem parte do livro História dos
Hebreus.

Josefo, descrevendo a maneira de viver dos fariseus,


coloca:

[…] Eles julgam que as almas são imortais, que são


julgadas em um outro mundo e recompensadas ou
castigadas segundo foram neste, viciosas ou virtuosas;
que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa
outra vida e que outras voltam a esta. […]. (153)

E, quando alguns soldados, derrotados na guerra contra


os romanos, pensavam em suicidarem-se, alerta-os dizendo:

[…] Não sabeis que Ele difunde suas bênçãos sobre


a posteridade daqueles, que depois de ter chamado
para junto de si, entregam em suas mãos, a vida, que,
segundo as leis da natureza, Ele lhes deu e que suas
almas voam puras para o céu, para lá viverem felizes
e voltar, no correr dos séculos, animar corpos que
sejam puros como elas e que ao invés, as almas dos
ímpios, que por loucura criminosa dão a morte a si

153 JOSEFO, 2003, p. 416.


150

mesmos são precipitados nas trevas do inferno; […].


(154) (grifo nosso)

Assim, podemos dizer que os fariseus, grupo religioso


que existia à época de Jesus, acreditavam numa ressurreição
em outro corpo. Ora, isso não é nada mais nada menos do que
aquilo que entendemos por reencarnação.

Corroborando o nosso pensamento, trazemos em apoio a


opinião do padre católico Manuel Bernardes (1644–1710),
escritor, nascido em Lisboa, Portugal, que falando dos fariseus
entre várias outras coisas também disse:

[…] Entre outros vários erros, tinham, supersticiosos,


para si que todas as coisas aconteciam por força do fato
(como afirma Josefo, que também foi desta seita) e que
as estrelas eram animadas, e admitiram em parte a
metempsicose platónica (com traz S. Epifânio), isto é a
transmigração das almas de uns corpos em outros,
crendo que as dos maus ficavam no inferno, mas as
dos bons tornavam a este mundo. Por isso correu fama
que Cristo era Elias ou Jeremias ou algum dos profetas
antigos redivivo. […] (155) (grifo nosso)

É difícil encontrar um padre católico que afirme


categoricamente que os fariseus acreditam na reencarnação
(transmigração das almas), um honesto assim somente poder-
se-ia encontrar no passado, no século XVIII.

Esse argumento de que os judeus não acreditavam na


reencarnação, é, quase sempre, utilizado pelos

154 JOSEFO, 2003, p. 600.


155 BERNARDES, 1964, p. 9.
151

fundamentalistas, porém, não contam a história toda. Vários


autores afirmam que acreditavam sim, como, por exemplo,
Severino Celestino da Silva, em Analisando as Traduções
Bíblicas, onde apresenta, para comprovação, esta frase do
Rabino Arieh Karplan (1934–1983): “Não é possível entender a
Cabalá sem acreditar na eternidade da alma e suas
reencarnações” ( 156
).

Mais a frente, Celestino cita a opinião de uma outra


pessoa:

Sobre a Reencarnação, apresentamos, aqui, para


ilustrar, o depoimento do Rabino Shamai Ende,
colaborador da Revista Judaica “Chabad News”,
publicação de Dez a Fev 1998. Vejamos o texto na
íntegra: “O conceito de Guilgul (Reencarnação) é
originado no judaísmo, sendo que uma alma deve
voltar várias vezes até cumprir todas as mitsvot( 157)
da Torá. Além disso, cada alma tem uma missão
específica. Caso não tenha cumprido a sua, a alma
deve retornar a este mundo para preencher tal
lacuna. Somente pessoas especiais sabem
exatamente qual é sua missão de vida. […].” (158)
(grifo do original)

O Rabino Philip S. Berg (1929–2013), em Reencarnação


as Rodas da Alma, afirma que:

A palavra hebraica para reencarnação é Guilgul


Neshamot, que literalmente quer dizer ‘roda da alma’. É

156 SILVA, 2001, p. 158.


157 Nota da Transcrição: Mitsvot – plural de mitsvá que significa mandamento
ou prática de boas obras – caridade.
158 SILVA, 2001, p. 161.
152

para esta vasta roda metafísica, com sua coroa


constelada de almas, como estrelas nas bordas de uma
galáxia, que devemos dirigir nosso olhar, se desejamos
ver além da aparência da inocência punida e da
maldade recompensada. Guilgul Neshamot é uma
roda em constante movimento e, ao girar, as almas
vêm e vão diversas vezes, num ciclo de nascimento,
evolução e morte e novo nascimento. A mesma
evolução ocorre com o corpo no decorrer de uma única
vida. Ocorre o nascimento, o crescimento das células, a
paternidade e a morte – novos corpos produzidos pelos
antigos, dando assim continuidade à forma física. É
sempre um pai que concede sua semente para que haja
continuidade, num processo sem fim. (159) (grifo nosso)

Berg, quando desenvolve o tema dentro da ótica


cabalista, diz a certa altura:

Entre todos os que aceitam a doutrina da


reencarnação, talvez os cabalistas sejam os únicos
que acreditam que uma alma pode retornar num nível
inferior daquele que deixou em uma vida anterior.
Efetivamente, se o peso do tikun (correção) for
suficientemente pesado, uma alma humana poderá se
encontrar reencarnada no corpo de um animal, de uma
planta ou até mesmo de uma pedra. (160) (grifo nosso)

O conceito Espírita difere sobremaneira, porquanto não


admitimos retrocesso, ou seja, uma alma humana não
reencarna nunca no corpo de um animal.

“A Cabala é o significado mais profundo e oculto da Torá,


ou Bíblia”, diz Berg, o que confirma que é um conhecimento do

159 BERG, 1998, p. 17-18.


160 BERG, 1998, p. 29.
153

judaísmo místico, segundo suas próprias palavras.

2.2 – Fica claro que Jesus nunca ensinou a reencarnação.

Dizer que Jesus nunca ensinou a reencarnação é forçar a


barra, ignorando que ele não disse, em momento algum, que
estavam em erro os que o supunham ser Elias, Jeremias, ou
algum dos antigos profetas. É recusar a ver o que disse a
Nicodemos “é necessário nascer de novo” (João 3,3). Certo é
que em algumas Bíblias não é dito “nascer de novo”, mas
“nascer do alto”. Entretanto, podemos ponderar que a tradução
da palavra grega anóthem, segundo alguns estudiosos, tanto
pode ser uma quanto a outra; daí, para não realçar a ideia da
reencarnação, foi melhor colocar aquela que não levasse as
pessoas a entenderem como reencarnação. Mas, pela dúvida de
Nicodemos, fica claro que o sentido era nascer de novo mesmo:
“Como é que um homem pode nascer de novo, se já é velho?
Poderá entrar outra vez no ventre de sua mãe e nascer?” (João
3,4). Na sequência, Jesus não nega que seja sobre isso que está
dizendo, mas reforça com outras palavras: “Eu garanto a você:
ninguém pode entrar no reino de Deus, se não nascer da água
e do Espírito” (João 3,5), donde devemos tomar a água como
símbolo da origem da matéria ou, como entendem alguns, uma
analogia ao líquido amniótico.

Por outro lado, mesmo que Jesus não a tivesse ensinado,


isso não significa que ela não exista, pois, convém lembrar que
Ele disse: “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora
vocês não seriam capazes de suportar” (João 16,12).

2.3 – A Bíblia combate tal ensinamento


154

Curioso é que os contrários não se cansam de nos


afirmar que a Bíblia não fala, em momento algum, em
reencarnação; mas, quando o assunto é combatê-la, aí sim,
nela se diz algo. Parece brincadeira! Só que, quando
apresentam as passagens para comprovar o que alegam,
verificamos que é pura interpretação equivocada, já que
sempre as usam fora do seu contexto. Vejamos algumas,
normalmente citadas.

Hebreus 9,27: “[…] aos homens está ordenado


morrerem uma só vez, vindo depois disto o Juízo.”

Essa é uma das mais interessantes, já que nem mesmo


se sabe quem é o autor; daí é singular que usem um autor
desconhecido para contestar o que Jesus afirmou: “João é Elias
que devia vir” (Mateus 11,14). Poderia ser um argumento forte
contra a reencarnação se o autor tivesse dito: “aos homens
está ordenado viverem uma só vez”.

Lázaro, o filho da viúva de Naim e a filha de Jairo, entre


outros que ressuscitaram, morreram duas vezes, provando que,
em se acreditando nisso, a “ordem” contida na passagem é
inconsistente. Mas, de qualquer forma, esse autor não está
totalmente errado, pois fisicamente em cada vida só morremos
uma vez mesmo e em definitivo, por sinal.

Ainda em relação a essa passagem: até o presente


ninguém conseguiu nos esclarecer se haverá dois julgamentos
ou não. Se “depois disto o Juízo”, e em algumas Bíblias, está
“logo depois”, qual será a utilidade de mais um juízo no final
dos tempos? Quem for condenado no primeiro, poderá se salvar
155

no segundo? Mas, se ficarmos apenas no que se diz nessa


frase, então ninguém ficará esperando a ressurreição no último
dia para ser julgado.

2.4 – O homem não pode se salvar por si mesmo

“A Palavra de Deus, nos diz que é em Jesus que o


homem consegue a expiação dos seus pecados (Jo
8,24; 1Jo 1,7-9). O homem só é salvo pela graça de
Deus, sem nenhum esforço meritório (Ef 2,8-9; At 4,12;
Rm 4,4-5)”.

Se isso for verdadeiro então o “Sede perfeitos como é


perfeito o vosso pai celestial” (Mt 5,48) torna-se um
ensinamento inoperante que Jesus nos passou, pois,
certamente, numa vida só, espírito algum conseguirá ser
perfeito como o Pai o é. Perfeito no passo, provavelmente tenha
o mesmo significado de “[…] assim como é santo o Deus que
os chamou, também vocês tornem-se santos em todo o
comportamento, porque a Escritura diz: 'sejam santos, porque
eu sou santo'” (1 Pedro 1,16) (ver também Levítico 11,45; 19,2;
20,7-8). Mas ninguém disse que não conseguimos a salvação a
não ser por Jesus; entretanto, ela não será pela graça e nem
será pelo seu sangue derramado na cruz; porém unicamente
seguindo os seus ensinamentos: “É pelo evangelho que vocês
serão salvos” (1 Coríntios 15,2) ou “Em Cristo, também vocês
ouviram a Palavra da verdade, o Evangelho que os salva”
(Efésios 1,13).

Certamente que, não fosse a graça de Deus em nos dar


outra oportunidade, estaríamos fritos; portanto, é pela graça de
156

Deus mesmo que somos salvos. Entretanto, não é salvação “de


graça” como muitos pensam, pois haverá de ser “segundo a
suas obras” (Mateus 16,27), a crermos no que Jesus disse.

Por outro lado, se a nossa salvação não estivesse em


nossas mãos, então, Deus, certamente, salvaria a todos, já que
isso só dependeria da vontade dele.

Uma crença que se opõe à reencarnação é a do inferno


eterno; mas não há como explicá-lo diante disso: Salmo 103,8-
10: “O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e
assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem
conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os
nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas
iniquidades.” (grifo nosso)

Uma coisa que ainda estamos esperando é alguém nos


provar que Deus tenha criado o inferno, lugar destinado ao
suplício eterno dos contraventores de Suas leis. Que nos
mostrem que a pena para os que não cumprem os Dez
Mandamentos seja ir para o inferno, já que é nesse momento
que Deus deveria tê-lo, certamente, criado.

2.5 – A proposta de uma vida feliz através da


reencarnação não é atestada pela Bíblia.

E nem poderia ser de outra forma, já que “Ainda tenho


muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes
de suportar” (João 16,12). Como, naquela época, não tinham
uma noção clara quanto a isso, não adiantaria explicar o que
não eram capazes de entender.

O que assegura uma vida feliz é a vivência do Evangelho


157

em toda a sua plenitude, e a reencarnação é a oportunidade


oferecida para todos aqueles que viveram e morreram, sem
haverem tido a chance de ouvir o Evangelho. A reencarnação
pode até não garantir uma vida feliz, mas garante a
oportunidade de vivê-la. Em contrapartida, nossos críticos
evitam dizer que a proposta contrária, a de vida única, não dá
essa mesma garantia para todos. Aliás, nem mesmo os que se
acham merecedores de uma vida futura feliz, apenas por
pregarem o Evangelho, sem o praticar, têm essa garantia.

Procuramos desenvolver esse estudo de forma a provar


que essa questão de João Batista ser Elias é muito clara no
Evangelho; tão clara como a luz do Sol ao meio-dia, num “céu
de brigadeiro”. Entretanto, percebemos que por interesses, que
não nos cabe aqui citá-los, as lideranças religiosas procuram
esconder isso de seus fiéis, mantendo-os na ignorância.
Qualquer pessoa de bom senso, ou que não se encontra
atrelada a dogmas, verá que isso é ponto irrefutável. Só não vê
quem não quer. Finalizando, repetimos, por oportunas, estas
palavras de Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça.” (Mateus 11,15)
158

Eucaristia: Jesus a instituiu?

“Você não pode acreditar em algo só porque


alguém deseja desesperadamente que você o
faça.” (BART D. EHRMAN)

Para justificar a eucaristia pegam o momento em que


Jesus, ceando com os seus apóstolos, distribui o pão e o vinho.
Fato acontecido, segundo alguns, na sexta-feira anterior à da
sua crucificação.

Vamos iniciar nossa análise comparando as passagens


bíblicas que narram a ocasião considerada como sendo a
instituição da eucaristia para, com isso, termos uma visão do
assunto.

Mateus 26,26-29: “Enquanto comiam, Jesus tomou um


pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu
aos discípulos, e disse: 'homem e comam, isto é o meu
corpo'. Em seguida, tomou um cálice, agradeceu, e deu
a eles dizendo: 'Bebam dele todos, pois isto é o meu
sangue, o sangue da aliança, que é derramado em
favor de muitos, para remissão dos pecados. Eu
lhes digo: de hoje em diante não beberei desse fruto da
videira, até o dia em que, com vocês, beberei o vinho
novo no reino do meu Pai'.” (grifo nosso)

Marcos 14,22-25: “Enquanto comiam, Jesus tomou um


pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu a
eles, e disse: 'Tomem, isto é o meu corpo'. Em seguida,
tomou um cálice, agradeceu e deu a eles. E todos eles
beberam. E Jesus lhes disse: 'Isto é o meu sangue, o
sangue da aliança, que é derramado em favor de
159

muitos. Eu garanto a vocês: nunca mais beberei do


fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo
no Reino de Deus'.” (grifo nosso)

Lucas 22,14-20: “Quando chegou a hora, Jesus se pôs à


mesa com os apóstolos. E disse: 'Desejei muito comer
com vocês esta ceia pascal, antes de sofrer. Pois eu lhes
digo: nunca mais a comerei, até que ela se realize no
Reino de Deus'. Então Jesus pegou o cálice, agradeceu a
Deus, e disse: 'Tomem isto, e repartam entre vocês; pois
eu lhes digo que nunca mais beberei do fruto da videira,
até que venha o Reino de Deus'. A seguir, Jesus tomou
um pão, agradeceu a Deus, o partiu e distribuiu a eles,
dizendo: 'Isto é o meu corpo, que é dado por vocês.
Façam isto em memória de mim'. Depois da ceia,
Jesus fez o mesmo com o cálice, dizendo: 'Este cálice é a
nova aliança do meu sangue, que é derramado por
vocês'.” (grifo nosso)

Fato curioso é que João não fala absolutamente nada


sobre essa distribuição de pão e vinho, considerando que ele
também encontrava-se presente no evento; inclusive, se foi ele
o discípulo a quem Jesus amava, certamente estaria a seu lado,
pois é ele quem descreve com maior número de pormenores tal
acontecimento.

Se compararmos Mateus e Marcos, cujas narrativas são


bem semelhantes, veremos que, no primeiro, consta um
acréscimo da expressão “para remissão dos pecados”, o que
poderá ser muito bem uma interpolação para justificar a ideia
do sangue com poder para remir os pecados, embora Jesus
tenha dito “a cada um segundo as suas obras” (Mt 16,27).
Interessante é que nenhum dos dois evangelistas falou em
“façam isto em memória de mim”, expressão essa só escrita
160

em Lucas. Aí é a questão de se perguntar: qual deles falou a


verdade? Logo, devemos entender o ato de comer e beber
constante dessa passagem como uma metáfora, sob pena de
se aceitar a pregação de canibalismo. Se na eucaristia está
presente o corpo e o sangue de Jesus, não há alternativa a não
ser entender tal prática como um ato, mesmo que simbólico, de
canibalismo; não é mesmo?

Mas o que devemos fazer, isto sim, é sair do nosso


egoísmo para distribuir com os necessitados o pão nosso de
cada dia. Entre fazer isso e comer o corpo e beber do sangue
de Cristo, qual dos dois entendimentos está seguindo a
orientação de “amar ao próximo como a si mesmo”?

Por outro lado, é necessário decidir qual das três


situações devemos aceitar, no que se refere à nossa salvação,
já que, simultaneamente, pregam estas três hipóteses…:

a) que basta somente receber o perdão de Deus;

b) que já fomos perdoados pelo derramamento do


sangue de Jesus; ou

c) que seremos salvos pela simples condição de crer e


de ser batizado (Mc 16,16).

Em O autêntico Evangelho de Jesus, vemos o que Geza


Vermes nos mostra, analisando essas palavras ditas por Jesus
durante a ceia:

Quatro relatos da Última Ceia sobreviveram no Novo


Testamento. Eles concordam entre si sobre vários
pontos essenciais, mas também ostentam variações
substanciais. Também é notável que o Evangelho de
161

João não contenha qualquer relato da ceia de Páscoa


compartilhada por Jesus e seus discípulos. Isto se deve
sem dúvida ao fato de a prisão e crucificação de Jesus
terem acontecido, segundo o Quarto Evangelho, um dia
antes da festa, não podendo consequentemente ser
questão de qualquer participação de Jesus numa ceia
real de Páscoa. João especifica que os dignitários que
entregaram Jesus a Pilatos recusaram-se a entrar em
seu palácio, no pretório, a fim de permanecerem
ritualmente puros “e poder comer a Páscoa” (ver João
18,28). Há um consenso geral entre intérpretes do
Novo Testamento de que a narrativa da Última Ceia,
com a sua exiguidade de detalhes concretos, foi
escrita acima de tudo para registrar o que desde o
princípio a igreja primitiva compreendeu como a
instituição de um ritual religioso significativo, a
Eucaristia. Queira ou não, essa visão eclesial afeta
retrospectivamente o significado das palavras que
presumidamente teriam vindo dos lábios de Jesus. ( 161)
(grifo nosso).

O teólogo John Dominic Crossan, co-fundador do The


Seminar Jesus, citado por José Pinheiro de Souza (1938-2014),
parece-nos ainda mais enfático, conforme se pode ver nestes
dois parágrafos:

Por conseguinte, a Ceia Eucarística não pode ter sido


instituída pelo Jesus Histórico. O renomado teólogo e ex-
padre católico John Dominic Crossan, em seu livro O Jesus
Histórico, argumenta que a Ceia Eucarística, interpretada
literalmente, não é originária de Jesus histórico (cf.
CROSSAN, 1994, p. 398-399).
Mais precisamente, ele mostra que a Ceia Eucarística,
como referida num dos livros mais antigos do cristianismo, o
chamado Didaqué (ou “Instrução dos Doze Apóstolos”), escrito

161 VERMES, 2006a, p. 344-345.


162

por volta do final do Século I de nossa era (mas descoberto


somente no ano de 1883), nada tem a ver com os acréscimos
posteriores católicos a respeito da Ceia Eucarística,
supostamente instituída por Jesus, e sobre o suposto milagre
da “transubstanciação”. Na Ceia Eucarística descrita no livo
Didaqué (capítulos 9 e 10), “não há qualquer menção de
uma refeição feita para comemorar a Páscoa, de uma
última ceia, nem de alguma conexão com a morte de
Jesus ou sua celebração”. (CROSSAN, 1994, p. 400). (162)
(grifo do original).

Na passagem de Mateus, em nota de rodapé, os


tradutores da Bíblia de Jerusalém nos explicam: “Estamos no
meio da ceia pascal. É em gestos precisos e solenes do ritual
judaico (ações de graças a Iahweh pronunciadas sobre o pão e
sobre o vinho) que Jesus enxerta os ritos sacramentais do novo
culto que instaura” (163). Apenas uma perguntinha: ou
enxertaram usando o nome de Jesus? Além do mais, isso se deu
no primeiro dia dos pães ázimos (Mt 26,17); portanto, é mesmo
um ritual judaico realizado durante a celebração da Páscoa.

Essa ceia, com a distribuição de pão e vinho, fazia


mesmo parte dos rituais judeus, conforme explica Ernest
Renan:

[…] Naquela refeição, assim como em muitas outras


(164). Jesus praticou seu rito misterioso da divisão do
pão. Como se acreditou, desde os primeiros anos da
Igreja, que a refeição em questão tivesse acontecido no
dia de Páscoa e tivesse sido o banquete pascal,
naturalmente veio a ideia de que a instituição eucarística

162 SOUZA, 2011, p. 139.


163 Bíblia de Jerusalém, p. 1751.
164 N.T.: Luc., XXIV, 30-31, 35, representa a divisão do pão como um hábito de
Jesus.
163

se fizera naquele momento supremo. Partindo da


hipótese de que Jesus sabia antecipadamente com
precisão quando morreria, os discípulos deveriam ter
sido levados a supor que ele reservara para aquelas
últimas horas uma enorme quantidade de atos
importantes. Como, aliás, uma das ideias fundamentais
dos primeiros cristãos era a de que a morte de Jesus
fora um sacrifício, substituindo todos os da antiga Lei, a
Ceia tornou-se o sacrifício por excelência, o ato
constitutivo da nova aliança, o sinal do sangue
derramado para a salvação de todos ( 165). O pão e o
vinho, relacionados à própria morte, foram, dessa forma,
a imagem do Novo Testamento, que Jesus selara com
seus sofrimentos, a comemoração do sacrifício do Cristo
até a sua vinda (166).
Muito cedo esse mistério se fixou num pequeno
relato sacramental, que possuímos em quatro versões
(167) muito parecidas entre si. O quarto evangelista, tão
preocupado com ideias eucarísticas (168), que
descreve a última ceia com tanta prolixidade, que
liga a ela tantas circunstâncias e discursos (169), não
conhece esse relato. Isso prova que não
considerava a instituição da Eucaristia como uma
particularidade da Ceia. Para o quarto evangelista, o
rito da Ceia é a lavagem dos pés. (170) (grifo nosso)

Seria interessante que aqui fôssemos ver essa passagem


bíblica, citada por Renan, a primeira da lista acima, na qual ele
disse ser, a divisão do pão, um hábito de Jesus, que, para um
melhor entendimento, iremos começá-la num versículo anterior

165 N.T.: Luc., XXII, 20.


166 N.T.: I Cor., XI, 26.
167 N.T.: Mat. XXVI, 26-28; Marc., XI, 22-24; Luc., XXII,19-21; I Cor., XI, 23-25.
168 N.T.: Cap. VI.
169 T.: Cap. XIII-XVII.
170 RENAN, 2004, p. 360-361.
164

ao citado; então, leiamo-la:

Lucas 24,28-35: “Quando chegaram perto do povoado


para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante.
Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: 'Fica
conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando'. Então
Jesus entrou para ficar com eles. Sentou-se à mesa com
os dois, tomou o pão e abençoou, depois o partiu e
deu a eles. Nisso os olhos dos discípulos se abriram, e
eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da
frente deles. Então um disse ao outro: 'Não estava o
nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo
caminho, e nos explicava as Escrituras?' Na mesma
hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém,
onde encontraram os onze, reunidos com os outros. E
estes confirmaram: 'Realmente, o Senhor ressuscitou, e
apareceu a Simão!' Então os dois contaram o que tinha
acontecido no caminho, e como tinham reconhecido
Jesus quando ele partiu o pão.” (grifo nosso)

Jesus, depois de ressuscitado, foi reconhecido pelos dois


discípulos, que estavam se dirigindo a Emaús, exatamente pelo
ato de partir o pão. Dessa forma, a conclusão de Renan é
absolutamente correta, não sendo, portanto, o ritual de partir o
pão e beber vinho a instituição da eucaristia, rito sacramental
praticado em determinadas correntes religiosas.

Estranhamos que tal fato ainda venha a acontecer, pois


a nós, da forma que é praticado, mais parece, voltamos a dizer,
um ritual de canibalismo do que qualquer outra coisa. Povos
primitivos acreditavam que, ao se comer o corpo de um
guerreiro que haviam matado, a sua força e coragem, muito
valorizadas por esses povos, passariam àquele que fizesse do
guerreiro vencido o seu “prato do dia”.
165

Qual será a razão para se justificar que os fiéis ainda


“comam do corpo e bebam do sangue” de Jesus, que creem
presentes na hóstia, após ser consagrada pelo sacerdote? Para
nós é algo sem sentido, principalmente considerando que Jesus
disse “não é o que entra pela boca que torna o homem impuro,
…” (Mateus 15,11); da mesma forma podemos entender que o
que entra pela boca não torna o homem puro.
Consequentemente podemos concluir que, mesmo que se coma
algo sagrado (hóstia), ninguém tornar-se-á um ser purificado
por isso.

Pesquisando outras fontes sobre o assunto, encontramos


o autor Bart D. Ehrman, considerado a maior autoridade sobre o
Novo Testamento do mundo, dizendo:

[…] Em um de nossos mais antigos manuscritos


gregos, assim como em vários testemunhos latinos,
temos:

E tomando o cálice, dando graças, ele disse:


“Tomai-o, reparti-o entre vós, pois eu vos digo que
não beberei do fruto da vinha a partir de agora, até
que venha o reino de Deus”. E tomando o pão,
dando graças, ele o partiu e o deu a eles, dizendo:
“Isto é o meu corpo… Mas vede que a mão daquele
que me trai está comigo nesta mesa” (Lucas 22,17-
19).

Contudo, na maioria de nossos manuscritos, há um


acréscimo ao texto, que soará familiar a muitos leitores
da Bíblia, visto que se assentou nas traduções
modernas. Ali, depois que Jesus diz: “Isto é meu corpo”,
ele continua dizendo as palavras: “'Que foi dado por vós;
fazei isto em memória de mim', e fez o mesmo com o
cálice após a refeição, dizendo: 'Este cálice é a nova
166

aliança em meu sangue derramado por vós'”.


Estas são as palavras, muito familiares, da
“instituição” da Ceia do Senhor, registradas também sob
uma forma muito similar na primeira carta de Paulo aos
Coríntios (1 Coríntios 11,23-25). A despeito do fato de
serem tão familiares, há boas razões para pensar
que esses versículos não estavam no original do
Evangelho de Lucas, mas que foram acrescentados
para ressaltar que foram o corpo partido e o sangue
derramado de Jesus que trouxeram a salvação “para
vós”. […].
Além do mais, não se pode deixar de notar que os
versículos, por mais familiares que sejam, não
representam a própria compreensão que Lucas
demonstra ter da morte de Jesus. É uma
característica surpreendentemente do retrato que Lucas
faz da morte de Jesus – por mais estranho que isso seja
à primeira vista – que ele nunca, em nenhuma outra
passagem, indica que a morte em si seja o que traz a
salvação do pecado. Em nenhum outro lugar de toda a
obra em dois volumes de Lucas (Lucas e Atos dos
Apóstolos), se diz que a morte de Jesus foi “por vós”. De
fato, nas duas ocasiões em que a fonte de Lucas
(Marcos) indica que foi por meio da morte de Jesus que
veio a salvação (Marcos 10,45; 15,39), Lucas mudou a
disposição do texto (ou o eliminou). Em outros termos,
Lucas tem uma compreensão diferente da forma com
que a morte de Jesus conduz à salvação, diferente da
de Marcos (da de Paulo e da de outros escritores
cristãos antigos). (171) (grifo nosso)

Assim, dentro da visão desse renomado autor, um dos


textos a que se apegam para justificar a eucaristia não é outra
coisa senão uma adulteração dos originais bíblicos. E, pelo

171 EHRMAN, 2006, p. 175-176,


167

visto, ele não está sozinho em sua tese. Vejamos também a


opinião de David Flusser (1917-2000):

Jesus seguia a ordem essênia em suas refeições de


festa e, em especial, na última ceia, ou seguia a ordem
não-sectária: vinho e pão? Segundo Mateus e Marcos,
Jesus primeiro abençoava o cálice e depois o pão, mas
a situação em Lucas é diferente. “Chegada a hora, pôs-
se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes:
Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta
páscoa, antes de meu sofrimento. Pois vos digo que
nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino
de Deus. E, tomando um cálice, havendo dado graças,
disse: Recebei e reparti entre vós; pois vos digo que de
agora em diante não mais beberei do fruto da videira,
até que venha o reino de Deus. E, tomando um pão,
tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é
meu corpo” (Lc 22:14-19). Aí termina o texto de Lucas,
de acordo com o famoso Codex Bezae, a antiga
tradução latina, e dois antigos manuscritos siríacos.
Todos os leitores atentos reconhecerão com
facilidade que o que se segue em Lucas nos
outros testemunhos é tirado de 1 Cor 11:23-26,
de modo que temos aqui a estranha situação de que
no texto aceito aparecem dois cálices, um no começo e
o outro no final. Tanto a Versão Padrão Revista como a
Nova Bíblia Inglesa adotaram o ponto de vista correto,
de que Lc 22:19b-20 não fazia parte do texto
original de Lucas. Depois que Jesus disse do pão
partido ‘Isto é meu corpo” fazendo alusão a sua
iminente morte violenta, ele continuou e tornou-se
mais explícito, dizendo: “Todavia a mão do traidor está
comigo à mesa” (Lc 22:21). (FLUSSER, 2000, p. 227,
grifo nosso).

Confirma-se, portanto, que o texto de Lucas (Lc 22,19b-


20) foi um acréscimo posterior.

Geza Vermes, citado mais acima, nos informou que são


registrados no Novo Testamento quatro relatos da Última Ceia,
já citamos e analisamos três deles – Mt 26,26-29; Mc 14,22-25 e
Lc 22,14-20 –, falta-nos, portanto, o último, que será visto
168

agora.

Apesar de aqui, neste estudo, aparecer


cronologicamente posterior, na verdade, é o primeiro relato
bíblico, escrito por volta do ano 57 d.C., enquanto, que os
outros foram redigidos no período compreendido entre os anos
de 65 a 80 d.C. (172)

Corroborando essa questão da primazia do relato de


Paulo, argumenta Geza Vermes, em As várias faces de Jesus:

Há uma terceira ocorrência que, embora considerada


pertencente à tradição oral pela maioria dos estudiosos,
chama a minha atenção por sua peculiaridade.
Relaciona-se ao relato de Paulo sobre o
estabelecimento da refeição eucarística. Ele se
queixou da divisão entre os membros da igreja de
Corinto ao compartilharem da ceia do Senhor. Em vez
de partilharem uma refeição comunal, os ricos e os
pobres usavam provisões próprias, e o resultado era
que alguns ficavam com fome enquanto outros se
embriagavam (1Cor 11:20-21). Eles deveriam partilhar,
ordenava Paulo, o mesmo pão, simbolizando o corpo, e
a mesma taça, simbolizando o sangue do Senhor,
fazendo-os contemplar a morte do Senhor até o seu
retorno. A eucaristia de Paulo é basicamente um
lembrete alegórico ou místico do fim violento de
Jesus. Todavia, ele não se estende tão chocantemente
quanto João (ver acima p. 32, n. 7), e mesmo um pouco
menos do que os Sinópticos (Mt 26:26-9; Mc 14:22-5; Lc
22:15-20), na identificação real do pão e do vinho com o
corpo e o sangue a serem respectivamente, comido e
bebido. Paulo tem sua própria maneira de relatar o
acontecimento tanto em 1Cor 11 quanto em 1Cor 10:16-

172 Marcos (anos 65-70), Mateus (anos 70/80) e Lucas (anos 70/80)
(BARRERA, 1999, p. 287-289)
169

7. Ele ensina que o propósito da união ou comunhão


mística com o corpo e o sangue de Cristo é aglutinar
simbolicamente os muitos membros da igreja num todo
único.
É claro, é concebível que Paulo tenha reeditado a
versão tradicional – embora nem nos Evangelhos
Sinópticos haja dois relatos iguais da instituição da
eucaristia – e que a última ceia de João nada tenha a
ver com a eucaristia. Mas parece-me que a fórmula
introdutória de Paulo sugere que ele quisesse dizer algo
original, e não apenas reproduzir a história tão amiúde
repetida. Ao passar adiante a tradição da igreja e a ele
transmitida por agentes anônimos, como a morte, o
sepultamento, a ressurreição e as aparições posteriores
de Jesus (1Cor 15:3-5), ele prefacia a sua declaração
com “Transmiti-vos… aquilo que eu mesmo recebi”
(1Cor 15:3). No caso da eucaristia, entretanto, está dito
que a sua fonte é Jesus, implicando que lhe fora
diretamente revelada. “Com efeito, eu mesmo recebi do
Senhor o que vos transmiti” (1Cor 11:23). Se eu estiver
certo na interpretação dessa passagem, isto quereria
dizer que a narrativa de Paulo separa-se da tradição
registrada nos Evangelhos Sinópticos por volta de
quinze a quarenta e cinco anos mais tarde, visto que
a primeira Epístola aos coríntios foi escrita em c. 55
d.C. Consequentemente, a redação de Paulo pode ter
sido a fonte primária da formulação no Novo
Testamento do estabelecimento da eucaristia. Em
outras palavras, há grande chance de que a
interpretação eucarística da refeição comunal da igreja
seja devida a Paulo, e que os editores de Marcos,
Mateus e especialmente de Lucas, que segue Paulo
mais de perto, a tenham introduzido nas suas
respectivas narrativas nos Evangelhos Sinópticos. ( 173)
(grifo nosso).

173 VERMES, 2006b, p. 86-87.


170

Vejamos o teor relativo ao trecho da primeira carta de


Paulo aos coríntios:

1 Coríntios 11,17-26: “Dito isso, não posso elogiar vocês,


porque as suas assembleias, em vez de ajudá-los a
progredir, os prejudicam. Antes de tudo, ouço dizer que,
quando estão reunidos em assembleia, há divisões entre
vocês. E, em parte, eu acredito nisso. É preciso mesmo
que haja divisões entre vocês, a fim de que se veja
quem dentre vocês resiste a essa prova. De fato,
quando se reúnem, o que vocês fazem não é
comer a Ceia do Senhor, porque cada um se
apressa em comer a sua própria ceia. E, enquanto
um passa fome, outro fica embriagado. Será que vocês
não têm suas casas onde comer e beber? Ou desprezam
a Igreja de Deus e querem envergonhar aqueles que
nada têm? O que vou dizer para vocês? Devo elogiá-los?
Não! Nesse ponto não os elogio. De fato, eu recebi
pessoalmente do Senhor aquilo que transmiti para
vocês. Na noite em que foi entregue, o Senhor
Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, o
partiu e disse: 'Isto é o meu corpo que é para
vocês; façam isto em memória de mim'. Do mesmo
modo, após a Ceia, tomou também o cálice,
dizendo: 'Este cálice é a Nova Aliança no meu
sangue; todas as vezes que vocês beberem dele,
façam isso em memória de mim'. Portanto, todas as
vezes que vocês comem deste pão e bebem deste
cálice, estão anunciando a morte do Senhor, até
que ele venha.” (grifo nosso)

Você, caro leitor, deve ter observado que Ehrman e


Flusser fizeram menção a esse passo, dando-o como sendo a
origem do que consta em Lucas, exatamente, aquele que
recomenda “Façam isto em memória de mim”, destoando de
Mateus e Marcos que nada falam disso.
171

O versículo final esclarece o objetivo da ceia: “Portanto,


todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem
deste cálice, estão anunciando a morte do Senhor, até
que ele venha”, o que difere, em muito, daquilo que Lucas
disse.

Em James D. Tabor, em A dinastia de Jesus: a história


secreta das origens do cristianismo, vamos encontrar outras
explicações que são bem interessantes de se ver:

Ironicamente, os mais antigos relatos da última


refeição na quarta-feira à noite vêm de Paulo, e não de
qualquer dos evangelhos. Em uma carta a seus
seguidores na cidade grega de Corinto, escrita por volta
de 54 d.C., Paulo passa adiante a tradição que dizia
ter “recebido” de Jesus: “Jesus, na noite em que foi
traído, tomou um pão, e tendo dado graças, partiu-o e
disse: 'Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isso em
memória de mim: Do mesmo modo, depois da ceia,
tomou o cálice e disse: 'Este cálice é a nova Aliança no
meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes, em
memória de mim'” (1 Coríntios 11:23-25).
Essas palavras, tão familiares aos cristãos como
parte da Eucaristia da Missa, são repetidas com
ligeiras variantes em Marcos, Mateus e Lucas.
Representam a síntese da fé cristã, o pilar do evangelho
cristão: a humanidade está salva dos pecados pelo
sacrifício do corpo e do sangue de Jesus. Qual é a
probabilidade histórica de que essa tradição
baseada naquilo que Paulo disse ter "recebido" de
Jesus represente o que Jesus disse durante a última
ceia? Tão surpreendente quanto possa parecer,
existem alguns problemas autênticos a considerar.
Em cada refeição judaica, o pão é partido, o vinho
partilhado, e a bênção dada – mas a ideia de
172

comermos carne humana e bebermos sangue,


mesmo que simbolicamente, é de todo alheia ao
judaísmo. A Torá proíbe especificamente a ingestão
de sangue, não só para os israelitas, mas para
todos. A Noé e a seus descendentes, como
representantes de toda a humanidade, já tinha sido
proibido “ingerir sangue” (Gênesis 9:4). Moisés tinha
prevenido, “se qualquer homem da Casa de Israel ou
gentio, residente no meio deles, ingerir qualquer espécie
de sangue, eu me voltarei contra esse que ingere
sangue e eliminá-lo-ei de seu povo” (Levítico 17:10). Em
outra ocasião, Tiago, o irmão de Jesus, refere-se a isto
como uma “exigência”, para que os não judeus
pudessem juntar-se à comunidade nazarena – não
ingerirão sangue (Atos 15:20). Essas restrições dizem
respeito ao sangue de animais. Ingerir carne e sangue
humanos não era proibido, era simplesmente
inconcebível. Essa sensibilidade generalizada em
relação à mera ideia de “beber sangue” mostra a
improbabilidade de Jesus ter usado tais símbolos.
Como dissemos, a comunidade essênica, em Qumrã,
descreveu, em um de seus manuscritos, um futuro
“banquete messiânico”, no qual o Messias Sacerdotal e
o Messias da linhagem de Davi sentar-se-iam com os
membros da comunidade crente e abençoariam a
sagrada refeição de pão e vinho como a celebração do
Reino de Deus. Teriam certamente ficado espantados
com qualquer simbolismo sugestivo de que o pão fosse
a carne humana, e o vinho, o sangue. ( 174) Tal ideia
simplesmente não poderia ter partido de Jesus
como judeu.
Portanto, qual a origem dessa linguagem? Se
aparece primeiramente com Paulo, e ele não a recebeu
de Jesus, então qual seria sua fonte? As maiores
semelhanças encontram-se em alguns ritos mágicos

174 N.T.: Manuscritos do Mar Morto, The Messianic Rule (1QSa) 2.11-25.
173

greco-romanos. Existe um papiro grego que registra


um encantamento amoroso, no qual um macho
pronuncia certos feitiços sobre um cálice de vinho, que
representa o sangue que o deus egípcio Osíris tinha
dado à sua consorte Ísis para que ela o amasse.
Quando sua amante bebe o vinho, ela simbolicamente
se une a seu amado pelo seu sangue. ( 175) Em outro
texto, o vinho é transformado na carne de Osíris. ( 176)
Simbolicamente, comer a “carne” e beber o “vinho”
era parte de um rito mágico de união na cultura
greco-romana.
Devemos considerar que Paulo cresceu imbuído
da cultura greco-romana, na cidade de Tarso, na Ásia
Menor, fora da terra de Israel. Ele nunca conheceu ou
falou com Jesus. A relação que ele pretendeu com
Jesus é “visionária”, e não com um Jesus de carne e
osso, caminhando na terra.
Quando os Doze se reuniram para substituir Judas,
depois da morte de Jesus, colocaram como condição
para fazer parte do grupo ter estado com Jesus desde o
tempo de João Batista até a crucificação (Atos 1:21-22).
Ter visões e ouvir vozes não eram qualificações
suficientes para um apóstolo.
Em segundo lugar, e de forma ainda mais reveladora,
o evangelho de João narra os acontecimentos
daquela última refeição na noite de quarta-feira, mas
nunca se refere às palavras de Jesus instituindo
essa nova cerimônia da Eucaristia. Se Jesus, na
realidade, iniciou a prática de comer o pão como sendo
seu corpo, e beber o vinho como sendo seu sangue na
sua “última ceia” como poderia João tê-la omitido? O
que João escreve, segundo todas as indicações, é que

175 N.T.: The Demotic Maginal Papyrus of London and Leiden 15.1-6, em The
Greek Magical Payri in Translation, incluing the Demotic Spells, ed. Hans
Dieter Betz (Chicago: University of Chicago Press, 1968).
176 N.T.: Papyri graecae magicae 7.643ff.
174

Jesus sentou-se para participar de uma refeição judaica


comum. Após a ceia, ele se levantou, pegou uma bacia
de água e um pano, e começou a lavar os pés de seus
discípulos, mostrando como o professor e mestre
deveria agir como criado – mesmo para seus discípulos.
Jesus começou, então, a descrever como iria ser traído,
e João nos diz que Judas abruptamente abandonou a
ceia.
O evangelho de Marcos está muito próximo, em
suas ideias teológicas, àquele de Paulo. Parece
possível que, em sua descrição da última ceia, feita uma
década depois da de Paulo, Marcos tenha inserido o
tradicional “coma o meu corpo” e “beba o meu
sangue” em seu evangelho, influenciado pelo que
Paulo afirma ter recebido. Tanto Mateus como Lucas
baseiam inteiramente suas narrativas em Marcos, e
Lucas é também um convicto defensor de Paulo. Tudo
parece levar a Paulo. Como veremos, não há qualquer
prova de que os primeiros seguidores judeus de
Jesus, conduzidos ao quartel-general em Jerusalém
por Tiago, o irmão de Jesus, tenham alguma vez
praticado qualquer rito dessa natureza. Como todos
os judeus, eles santificavam o vinho e o pão como parte
de uma refeição sagrada, e provavelmente tinham
presente a noite em que ele havia sido traído,
lembrando-se da última refeição com Jesus.
Na realidade, para resolver essa questão,
precisamos de uma fonte independente, cristã, que não
tenha sido influenciada por Paulo, que possa esclarecer
a prática original dos seguidores de Jesus. Felizmente,
em 1873, esse texto foi encontrado em uma biblioteca
em Constantinopla. É intitulado Didache, e data do início
do século II d.C. (177) Fora mencionado pelos primeiros
autores da igreja, mas desaparecera até ser descoberto
acidentalmente por um sacerdote grego, o Padre

177 N.T.: Didache é promunciado como did-a-quei.


175

Bryennios, em um arquivo de manuscritos antigos.


Didache significa “Ensinamentos”, em grego, e seu título
completo é “Os Ensinamentos dos Doze Apóstolos”.
Trata-se de um antigo “manual de instruções”,
provavelmente escrito para ser utilizado por aspirantes
ao batismo cristão. Contém muitas instruções e
exortações éticas, mas também capítulos sobre o
batismo e a Eucaristia – a sagrada refeição do pão e
vinho. É aí que entra a surpresa. Ele oferece as
seguintes bênçãos para o pão e o vinho:

No que se refere à Eucaristia, darás graças da


seguinte forma.
Em primeiro lugar, quanto ao cálice: “Damos-vos
graças, Pai nosso, pela santa vinha de Davi, vosso
filho, que nos destes a conhecer através de Jesus,
vosso filho. Para vós a glória eterna”. E quanto ao
pão: Damos-vos graças, Pai nosso, pela vida e
sabedoria que nos comunicastes através de Jesus,
vosso filho. Para vós, glória eterna. (178)

Notem que não há menção ao vinho,


representando o sangue, ou ao pão, representando a
carne. E, no entanto, é um registro da primeira refeição
da Eucaristia cristã! Este texto nos faz lembrar muito das
descrições da sagrada refeição messiânica nos
Manuscritos do Mar Morto. O que temos aqui é a
celebração messiânica de Jesus como o Messias da
linhagem de Davi, e a vida e a sabedoria que ele trouxe
à comunidade. Evidentemente, essa comunidade de
seguidores de Jesus nada sabia da cerimônia proposta
por Paulo. Se a prática de Paulo viera realmente de
Jesus, seguramente esse texto tê-la-ia incluído.
Existe mais um ponto importante a esse respeito. Na
tradição judaica, é o cálice de vinho que, primeiramente,

178 N.T.: Didache 9:1-3, em Bart Ehrman, trad. The Apostolic Fathers, Loeb
Classical Library 24, vol. 1 (Cambridge, Mass.: Harvard University Press,
2003), p. 431.
176

é abençoado, depois o pão. Essa é a ordem que


encontramos na Didache. Mas no relato de Paulo da
“Ceia do Senhor”, Jesus abençoa primeiro o pão, depois
o cálice de vinho – justamente o oposto. Pode parecer
um detalhe insignificante até examinarmos o relato de
Lucas sobre as palavras de Jesus, durante a refeição.
Embora ele siga basicamente a tradição de Paulo, ao
contrário deste, Lucas fala primeiro no cálice de vinho,
depois no pão e, em seguida, em outro cálice de vinho!
O pão e o segundo cálice de vinho ele interpreta como o
“corpo” e o “sangue” de Jesus. Mas quanto ao primeiro
cálice – na ordem que se esperaria da tradição judaica –
nada é dito que represente “sangue”. Ao contrário, Jesus
diz, “Eu vos digo, doravante não beberei da fruta da
videira até a chegada do Reino de Deus” (Lucas 22:18).
Essa tradição do primeiro cálice, só encontrada em
Lucas, é uma pista do que deveria ter sido a tradição
original antes de a versão Paulina ter sido inserida,
agora confirmada pela Didache.
Vista sob essa luz, essa última refeição tem sentido
histórico. Jesus disse a seus seguidores mais próximos,
reunidos secretamente na Sala do Andar Superior, que
ele não partilharia com eles outra refeição até a chegada
do Reino de Deus. Ele sabe que Judas iniciará, naquela
noite, os procedimentos que culminarão com sua prisão.
Suas esperança e prece são de que, da próxima vez em
que estiverem sentados juntos para comer, dando a
tradicional bênção judaica do vinho e do pão – o Reino
de Deus já tenha chegado.
Uma vez que Jesus se reuniu só com seu Conselho
dos Doze, nessa última refeição privada, Tiago e os três
outros irmãos de Jesus teriam estado presentes. Isso foi
confirmado em um texto perdido chamado Evangelho
dos Hebreus, que era usado por judeus-cristãos que
rejeitavam os ensinamentos e a autoridade de Paulo.
Sobrevive apenas em algumas citações, preservadas
por autores cristãos, como Jerônimo. Uma das
177

passagens nos diz que Tiago, o irmão de Jesus, depois


de ter bebido do cálice que Jesus fizera circular,
afiançou que também ele não comeria ou beberia até
ver o Reino chegar." Portanto, temos aqui a prova
textual de uma tradição que recorda a presença de
Tiago na última refeição. (179) (grifo nosso)

Realmente, a questão de comer carne e beber sangue


para um judeu era algo impensável; por isso, Jesus, que nasceu,
viveu e morreu como judeu, jamais teria dito isso.

É bem possível que essa linguagem de Paulo, foi


proposital para os gentios (=pagãos), que, certamente,
estavam acostumados esse tipo de coisa. Em José de Souza
Pinheiro, encontramos apoio a essa hipótese:

Como nos esclarece o teólogo Franz Griese (cf.


GRIESE, p. 174-175), no tempo de Paulo, os pagãos
e os judeus costumavam sacrificar animais aos
respectivos deuses. A carne desses animais
sacrificados era consumida nos mercados públicos, na
qualidade de carne de Júpiter (o Senhor dos deuses),
carne de Minerva (deusa da sabedoria) etc., segundo as
divindades a quem haviam sido sacrificados os animais.
Os consumidores escolhiam a carne que mais lhes
convinha, crendo que comendo essa carne recebiam
uma bênção especial da divindade respectiva, e até
entrar em certa união com ela, mediante aquela
carne.
É da maior importância ter presente essas crenças
da antiguidade, para compreender o sentido das
palavras nos escritos daqueles que viviam naquela
época e estavam imbuídos de suas ideias.

179 TABOR, 2006, p. 215-219.


178

Pois bem, o apóstolo Paulo, para induzir os novos


cristãos, oriundos dos povos pagãos, a não
participarem dos sacrifícios pagãos e não comerem
a carne dos animais sacrificados aos ídolos, proíbe
essa prática, substituindo-a pela “Ceia do Senhor”,
dizendo que, como pela carne dos ídolos, o homem
participa dos “demônios”, ou seja, dos “deuses pagãos”,
do mesmo modo pelo consumo do pão e do vinho
eucarísticos o cristão participa do “Cristo da fé” (cf.
GRIESE, p. 175).
Mas, como afirma Griese (ibid.), não há a menor
dúvida de que Paulo não acreditava numa participação
literal da própria pessoa dos deuses pagãos, mediante a
carne dos ídolos e, portanto, tampouco na participação
literal da verdadeira pessoa de Cristo, mediante o pão e
o vinho eucarísticos.
Os coríntios (como Paulo) também tinham um
conceito simbólico muito simples da eucaristia e,
certamente, não tinham a convicção de que o pão seria
o verdadeiro corpo e o vinho o verdadeiro sangue de
Cristo. Eles apenas acreditavam que, ao comerem o pão
e ao beberem o vinho, participavam do Cristo da fé, do
mesmo modo como os pagãos acreditavam que
participavam simbolicamente dos seus deuses comendo
a carne dos animais sacrificados em sua honra (cf.
GRIESE, p. 179). (180) (grifo nosso)

Recorreremos agora a Edward Carpenter (1844-1929)


que nos traz algo bem curioso a respeito da palavra eucaristia:

Eu já falei sobre várias das principais doutrinas


do Cristianismo – ou seja, do pecado, do sacrifício,
da Eucaristia, do Salvador, do Renascimento e da
transfiguração – mostrando que eles não são únicos

180 SOUZA, 2011, p. 134.


179

em nossa religião, mas sim comuns a quase todas


as religiões do mundo antigo. A lista pode ser muito
aumentada, mas não há necessidade de nos atermos a
um assunto que, de modo geral, já foi compreendido.
Dedicarei, no entanto, uma ou duas páginas para um
exemplo, que eu julgo muito interessante e cheio de
sugestão profunda.
[…].
E, ainda, o fato extraordinário é que uma crença
parecida existe em todas as religiões antigas e pode nos
remeter ao passado. A palavra hóstia, que é usada na
missa católica para representar o pão e o vinho no altar,
símbolos do corpo e do sangue de Cristo, vem do latim
Hóstia, que no dicionário significa “um animal morto
em sacrifício, uma oferta para compensar um
pecado”. Isso nos leva de volta ao estágio do totem,
quando toda a tribo, como eu já expliquei, coroava um
touro, um urso ou um outro animal com flores e
prestavam-lhe honras com comida e adoração,
sacrificavam a vítima para o espírito do totem da tribo e
o comiam em uma festa eucarística – e o curandeiro ou
sacerdote que dirigia o ritual vestia a pele desse animal
como um sinal de que ele representava o totem –,
divindade, participando do sacrifício de “si mesmo para
si mesmo”. Isso nos faz lembrar dos khonds em Bengal
sacrificando seus meriahs coroados e enfeitados como
deuses e deusas; dos astecas fazendo o mesmo; dos
quetzalcoatl furando seus cotovelos e dedos para tirar
sangue, oferecido em seu próprio altar; ou de Odin
sendo pendurado, por vontade própria, em uma árvore.
“Sei que fui pendurado em uma árvore que foi
balançada pelo vento por nove longas noites. Uma lança
atravessou meu corpo, fui levado a Odin, eu para mim”.
E assim por diante. Os exemplos são infinitos. “Sou a
oblação”. diz Krishna no Bhagavad Gita (181). “Sou o
sacrifício, a oferenda aos ancestrais”. “No real conceito

181 N.T.: Cap. IX, V. 16.


180

ortodoxo de sacrifício”, diz Elie Reclus, ( 182) “a oferenda


consagrada, seja ela um homem, uma mulher ou uma
virgem, um carneiro ou novilha, galo ou pombo,
representa a divindade.” (183) (grifo nosso)

Então, no fundo, temos que a eucaristia nada mais é que


um ritual de origem pagã.

É inacreditável que ainda se adotem, nos dias atuais,


práticas religiosas tidas “como bíblicas”, quando, na verdade,
são, em sua esmagadora maioria, atos pagãos, para usar uma
expressão ao gosto dos teólogos. É o caso que estamos
analisando, que é corroborado por Holger Kersten e Elmar R.
Gruber, que, narrando o culto persa a Mitra, dizem: “O serviço
religioso semanal era realizado aos domingos, dia dedicado ao
deus. A cerimônia mais importante do culto era uma ceia que
constava de vinho e pão – oferecido na forma de hóstias
consagradas que tinham o sinal da cruz”. (184) (grifo nosso)

Curiosa é a frase a seguir, atribuída a Mitra, que nos


coloca diante de um fato, em relação ao qual qualquer
semelhança não é mera coincidência: “Aquele que não comer
minha carne e não beber meu sangue para ser um comigo, e eu
um com ele, aquele não conhecerá a salvação.” ( 185) Será que
com a realização desses dois atos, simultaneamente, não
teremos exatamente o que se faz no ritual da santa missa?

182 N.T.: Primitive Folk, cap. VI.


183 CARPENTER, 2008, p. 90-91.
184 KERSTEN e GRUBER, p. 316.
185 FREKE e GANDY, 2002, p. 11 e 52.
181

A conversa de Jesus com Nicodemos

“O que existe, já havia existido: o que existirá,


também já existiu” (Eclesiastes 3, 15)

“Eu era um jovem de boas qualidades e tive a


sorte de ter uma boa alma, ou melhor, sendo
bom, vim a um corpo sem mancha” (Sabedoria
8, 19)

Ao dizer a Nicodemos, membro do Sinédrio e


pertencente à seita dos fariseus, “És mestre em Israel e ignoras
essas coisas? Jesus, certamente, estava falando de algo que ele
deveria saber, por ser um doutor da lei. Para nós, os espíritas,
trata-se da lei de reencarnação, coisa que os fariseus
acreditavam, como veremos, quem nos dá notícia disso é o
historiador hebreu Flávio Josefo.

O que temos observado, e que achamos muito


interessante, é que as pessoas que não acreditam na
reencarnação fazem de tudo para retirar essa ideia da Bíblia,
como se isso, por si só, fosse resolver a questão. Estes
indivíduos pressupõem, ingenuamente, que se a Bíblia não
disser nada sobre a reencarnação, é porque ela não existe. Já
falamos, e por várias vezes, que a Bíblia não é um compêndio
de Ciência e que, por isso, não podemos determinar a
existência ou não de nenhuma uma das leis naturais com base
em suas páginas.

Para nós, a reencarnação está no âmbito das leis


182

naturais, não tendo nada a ver com religião, como a querem


levar a esse campo os seus contraditores, para, daí,
apresentarem a Bíblia como prova de sua não existência. Nosso
objetivo será exatamente o de provar o contrário.

Após retirarem, mudarem ou interpretarem de forma


equivocada e tendenciosa algumas passagens, arrematam
categóricos: “não está lá”. Isso satisfaz, evidentemente, aos
que aceitam tudo sem questionar e aos que, subjugados pela
liderança religiosa, não ousam contestá-la, esquecendo-se de
que somente “onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a
liberdade” (2 Coríntios 3,17).

Vamos analisar uma das passagens, talvez a que causa


maior polêmica entre os antirreencarnacionistas de carteirinha,
ou seja, os cristãos fundamentalistas, para extrair dela o seu
significado.

Examinemos a passagem que está em João capítulo 3,


versículos de 1 a 12:

1. Havia, entre os fariseus, um homem chamado


Nicodemos, um notável entre os judeus. 2. À noite ele
veio encontrar com Jesus e lhe disse: “Rabi, sabemos
que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém
pode fazer os sinais que fazes, se Deus não estiver com
ele”. 3. Jesus lhe respondeu: “Em verdade, em verdade,
te digo: quem não nascer de novo não pode ver o
Reino de Deus”. 4. Disse-lhe Nicodemos: “Como pode
um homem nascer, sendo velho? Poderá entrar segunda
vez no seio de sua mãe e nascer?” 5. Respondeu-lhe
Jesus: “Em verdade, em verdade, te digo: quem não
nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino
de Deus. 6. O que nasceu da carne é carne, o que
nasceu do Espírito é espírito. 7. Não te admires de eu te
183

haver dito: deveis nascer de novo. 8. O vento sopra


onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde
vem nem para onde vai. Assim acontece com todo
aquele que nasceu do Espírito”. 9. Perguntou-lhe
Nicodemos: “Como isso pode acontecer?” 10.
Respondeu-lhe Jesus: “És mestre em Israel e ignoras
essas coisas? 11. Em verdade, em verdade, te digo:
falamos do que sabemos e damos testemunho do que
vimos, porém não acolheis o nosso testemunho. 12. Se
não credes quando vos falo das coisas da terra, como
crereis quando vos falar das coisas do céu?” (186) (grifo
nosso)

O realce, em negrito, aos termos dos versículos 3 e 7, é


nosso, já que devemos destacá-los mais à frente.

Como as três teologias Católica, Protestante e Espírita


tratam essa passagem:

a) Teologia Católica

A polêmica instala-se por conta do termo grego


anóthem, que, segundo os exegetas, tanto pode ser entendido
como “de novo” quanto “do alto”. Isso é um prato cheio para
que os teólogos tirem dessa passagem a ideia da reencarnação,
para introduzirem a do batismo, para, com isso, justificarem
este ritual.

Uma das traduções que destacamos é a da Bíblia de


Jerusalém, pelo motivo dela ter sido elaborada por uma equipe
de tradutores católicos e protestantes. Nela lemos a seguinte
explicação: “João emprega um termo grego, anóthem, que
significa também ‘do alto’ (cf. 3, 7.31). Esse duplo sentido

186 Texto da Bíblia de Jerusalém.


184

não existe na língua de Jesus e de Nicodemos”. (187) (grifo


nosso) Aqui vemos um golpe de morte naqueles que querem
buscar nisso um pretexto para retirar dessa passagem a ideia
da reencarnação.

Vejamos o que encontramos em outras Bíblias católicas:

Ave-Maria: no v. 4 está dito “renascer”, e quanto ao v.


5 explicam que é uma alusão ao batismo. (188)

Pastoral: apenas no v. 3 usaram “do alto”, buscam,


também, relacionar essa passagem ao rito do batismo. (189)

Barsa: aplicaram ao v. 3 a expressão “renascer de


novo”, no v. 5 “renascer” e no 7 “nascer outra vez”. Embora
não falem nada sobre batismo, implicitamente querem levar a
essa ideia quando, no v. 5, em vez de colocar “e do Espírito”,
mudam para “e do Espírito Santo”. Um detalhe importante
dessa Bíblia é sua antiguidade; foi editada em 1965, do que
concluímos que nas edições mais recentes, a preocupação de
retirar a ideia da reencarnação fica mais evidente. (190)

Santuário: Usam no v. 3 e 5 “de novo”; na explicação


do v. 3 colocam:

O termo grego aqui empregado é ambíguo. Tanto se


pode traduzir por ‘nascer de novo’ como por ‘nascer do
alto’. Nicodemos entende-o no primeiro sentido,
como se vê pelo contexto. Jesus, porém, reconduz a
conversa ao seu caminho: os que pertencem ao Reino,

187 Bíblia de Jerusalém, p. 1847.


188 Bíblia Sagrada – Ave-Maria, p. 1386.
189 Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, p. 1356-1357.
190 Bíblia Barsa – Novo Testamento, p. 79.
185

não são os que nasceram da carne e do sangue (os


descendentes de Abraão, como pensavam os judeus),
mas os que nasceram de Deus (cf. Jo 1,13). Tal
nascimento realiza-se no batismo (Jo 3,5). (191) (grifo
nosso)

Do Peregrino: informam-nos que Nicodemos em grego


quer dizer “vitória do povo”; aliás, muito significativo para a
ideia da reencarnação. (192)

Vozes: nos v. 3 e 7, aplicam o “do alto”, dando a


seguinte explicação:

A expressão nascer do alto (v. 3) em grego pode ser


entendida também como nascer de novo, como faz
Nicodemos (v. 4), no sentido de ser concebido e dado à
luz. Jesus, no entanto, fala de um novo nascimento de
Deus, da água e do Espírito Santo (v.5), numa
referência direta ao rito do batismo (cf. 1,12s). (193) (grifo
nosso)

Aqui temos a confirmação de que, pelo contexto, a


expressão deverá ser entendida como “nascer de novo”, pois
foi assim que Nicodemos entendeu, conforme nos afirmam
alguns tradutores da Bíblia. Não adianta, para justificar o
contrário, querer comparar o significado de uma palavra
colocada em textos diferentes, uma vez que ela poderia, muito
bem, ter significados distintos, o que somente o contexto em
que cada uma está poderá dar a conhecê-los.

191 Bíblia Sagrada – Santuário, p. 1574.


192 Bíblia do Peregrino, p. 2552.
193 Bíblia Sagrada – Vozes, p. 1275.
186

Quanto à questão do batismo, falaremos no próximo


capítulo.

b) Teologia Protestante

Tanto a versão bíblica Novo Mundo, quanto a SBB e a


Mundo Cristão, utilizam a expressão “nascer de novo”. Dessa
última transcreveremos as explicações a seguir:

3:3 nascer de novo. Lit., de cima (como em 3:31;


19:11), embora a palavra também signifique “outra vez”,
“de novo” (Gl 4:9). O novo nascimento ou regeneração
(Tt 3:5) é o ato de Deus que concede vida eterna ao que
crê em Cristo. Como resultado, tal pessoa torna-se
membro da família de Deus (1 Pe 1;23) com uma nova
capacidade e um novo desejo de agradar a seu Pai
celeste (2 Co 5;17).
3:5 Quem não nascer da água e do Espírito. Várias
interpretações têm sido sugeridas para o termo água
neste versículo: (1) Que ela se refere ao batismo como
condição para a salvação. Isto, porém, contradiz muitas
outras passagens do N.T. (Ef 2:8-9). (2) Representa o
ato de arrependimento indicado pelo batismo de João.
(3) Refere-se ao nascimento físico; assim, o versículo
diria: “Quem não nascer a primeira vez da água e a
segunda vez do Espírito”. (4) Significa a palavra de
Deus, como em Jo 15;3. (5) É um sinônimo para o
Espírito Santo, sendo esta a tradução: “da água, isto é,
do Espírito”. Uma verdade é clara: o novo nascimento
vem de Deus através do Espírito. (194)

Vez por outra, recorremos a um renomado filósofo do


século XVII, Baruch de Espinosa (1632-1677), já que, o que
afirmou, ainda prevalece em nossos dias. Agora novamente o

194 A Bíblia Anotada, p. 1322.


187

faremos; assim leiamos:

Admira-me bastante, pois, a engenhosidade de


pessoas, como aquelas de quem já falei, que enxergam
na Escritura mistérios tão profundos que se torna
impossível explicá-los em qualquer língua humana e
que, além disso, introduziram na religião tantas matérias
de especulação filosófica que a Igreja até parece uma
academia e a religião uma ciência, ou melhor, uma
controvérsia. […]. (195)

O comum dos teólogos, todavia, entende que se


devem interpretar metaforicamente aquelas passagens
em que se atribuem a Deus coisas que eles conseguem
ver pela luz natural serem incompatíveis com a natureza
divina, ao passo que tudo aquilo que escapa à sua
capacidade de compreensão se deverá aceitar à letra.
Porém, se todas as passagens daquele gênero que se
encontram na Escritura tivessem obrigatoriamente de
ser interpretadas e entendidas metaforicamente, então a
Bíblia não teria sido escrita para o povo e para o vulgo
ignorante, mas unicamente para os especialistas,
designadamente os filósofos. (196)

Aqui é interessante notar que mais um tiro mortal é


dado, dessa vez em relação à questão de relacionar a
passagem ao ritual do batismo como condição sine qua non
para a salvação, conforme ainda podemos perceber em alguns
argumentos teológicos. É a rota de fuga para não falar da
reencarnação, porém, só convence os que não pensam pela
própria cabeça.

195 ESPINOSA, 2003, p. 208.


196 ESPINOSA, 2003, p. 213.
188

c) Teologia Espírita

Vamos apresentar os argumentos do escritor espírita


Severino Celestino da Silva sobre este assunto. No livro
“Analisando as Traduções Bíblicas”, no capítulo XVII – A
Reencarnação no Novo Testamento, ao se referir à passagem de
João 3,1-12, ele diz o seguinte:

Este é o texto que tem dado mais trabalho aos


exegetas que querem negar a Reencarnação. No
entanto, é o mais claro e contundente de todos, por
isso, existe um verdadeiro malabarismo por parte
destes, no sentido de obscurecer o verdadeiro e claro
sentido desta passagem. Iniciamos pelo vocábulo
“anóten” que em grego pode significar “de novo” e
“do alto”.
Nesta passagem, esse vocábulo significa realmente
“de novo”, porém a maioria dos exegetas emprega o
termo “do alto” para justificar a sua descrença na
Reencarnação. Este malabarismo envolve também a
questão gramatical na tradução do texto, como veremos
mais adiante. Colocaremos, aqui, muitas observações e
conceitos empregados, sobre este texto, feitos por
Torres Pastorino na sua obra “Sabedoria do
Evangelho”, com relação ao texto grego. Concordamos
plenamente com todos os seus conceitos, razão por que
o usaremos para reforçar nossa exegese. A análise do
texto hebraico é de autoria e responsabilidade nossa.
Muitos começam com a afirmação de que Jesus teria
dito: “AQUELE QUE NÃO NASCER ‘O ALTO’”. Observe,
no entanto, que a pergunta feita por Nicodemos, em
seguida, denota que ele entendeu que Jesus falava
realmente em nascer ‘de novo’ e não ‘do alto’: Como
‘pode o homem, depois de velho, entrar pela
segunda vez (duteron) no ventre materno?’”.
189

Esta ambiguidade de entendimento só acontece na


língua grega, porque no hebraico, que foi realmente a
língua em que Jesus dialogou com Nicodemos, este
problema não existe. O texto é bem claro e jamais pode
significar “do alto”. Diz o seguinte: (“im lô iauled ish
mimkôr 'al lô-iukal lirôt et-malkut haelohim”) im=se,
lô=não, iualed=incompleto do grau qal ( 197) do verbo
“nolad”=nascer, ish=um homem, mimikôr=palavra
composta, formada por mi=de + makôr=fonte de água
viva, origem. Existe a expressão hebraica “Mekôr
chaim” que quer dizer “fonte da vida”. Observe que
não existe nada referente “ao alto”, no texto grego,
como muitos querem se fazer entender. Assim, o Cristo
fala que aquele que não nascer em origem, no sentido
de se voltar à fonte original da vida, ou seja, nascer
novamente, “não poderá” (lô-iuchal=incompleto do
verbo iachôl=poder) ver o reino de Deus (lirôt et-
malkut haelohim).
Assim, no diálogo, a palavra grega “anóten” tem o
sentido e significado de 'de novo', portanto, Jesus
falava de retorno, ou seja, de Reencarnação mesmo,
como foi visto no texto hebraico.
Lembramos, ainda, que Nicodemos já era um
cidadão de idade avançada e o Cristo lhe fala da
Reencarnação (Nascer de Novo), como uma esperança
e reconforto para ele, mostrando-lhe que a vida não
termina com a morte, nem os velhos devem temer a
morte, pois podem renascer e começar tudo novamente.
Na sequência, Cristo confirma que era isso mesmo
que Ele queria dizer: “Quem não nascer de água
(materialmente, com o corpo denso, dado que o

197 Esclarece-nos o autor do livro, Dr. Severino que: O termo QAL ou qal é uma
palavra hebraica que significa “Fácil” que tem o sentido gramatical de
“forma fácil” ou “simples” de conjugação do verbo na língua hebraica. O
verbo em hebraico possui sete graus de conjugação (Qal, nif'al, piel, pual,
hif'iil, haf'al e hitpa'el.) Nesse caso específico foi colocado com relação ao
verbo nascer (nolad-em hebraico). O incompleto que é o futuro do verbo na
forma QAL que é a mais simples das conjugações.
190

nascimento físico é feito através da bolsa d’água do


líquido amniótico), veja o cap. VII deste livro, Salmo
23 e de espírito (pneumatos), ou seja, que adquira
nova personalidade no mundo terreno, em cada
nova existência, a fim de progredir). Se Nicodemos
entendeu ao pé da letra as palavras de Jesus, o
Mestre as confirma ao pé da letra e reforça o seu
ensino. Com efeito, o espírito, ao reentrar na vida
física, pode ser considerado o mesmo espírito que
reinicia suas experiências, esquecido de todo
passado”.
A questão gramatical: No texto em grego não há
artigo diante das palavras “água” (ek ydatos= de água)
“e espírito” (kai pneumatos), portanto, o texto fala em
nascer “de água e de espírito”. Não é portanto, nascer
da água do batismo, nem do espírito, mas de água (por
meio da água) e de espírito (pela Reencarnação do
espírito).
O primeiro versículo do Gênesis (1:1) fala que no
princípio criou Deus os Céus e a terra. A palavra 'céus'
em hebraico “Shamaim” (198) - significa: “Carrega
água”, “Ali existe água”; “fogo e água” que
misturados um ao outro, formaram os Céus.
Como podemos observar, tudo começou com as
águas. Água é vida e essa era a crença geral naquela
época. É lógico que o Cristo não falava de batismo e
sim de retorno através da água. Lembramos ainda que
99% da constituição das células reprodutoras são água.
Daí a explicação que segue: “o que nasce da carne
(ek tês sarkos) com artigo (tês) em grego, é carne”,
isto é com corpo físico, com toda a hereditariedade
física herdada do corpo dos pais; “e o que nasce do
espírito (ek tou pneumatos) é espírito”, ou seja, o
espírito que reencarna provém do espírito da última

198 Neste ponto é colocada a palavra em hebraico: .


191

encarnação com toda a hereditariedade pessoal


(cármica) que traz do passado.
E Jesus prossegue: “Por isso não te admires de eu
te dizer: é-vos necessário nascer de novo”. Observe
a diferença de tratamento: “dizer-TE” no singular, e “é-
VOS” no plural, porque o renascimento é para todos,
não apenas para Nicodemos. E mais: “o espírito sopra
(isto é, age, reencarna, se manifesta onde quer), e
não sabes de onde veio (ou seja, sua última
encarnação), nem para onde vai (qual será a
próxima).
As palavras de Jesus foram de modo a
embaraçar Nicodemos, que indaga: “como pode ser
isso?” E Jesus: “Tu que (entre nós dois) é Mestre de
Israel, te perturbas com estas coisas terrenas? Que
te não acontecerá então, se te falar das coisas
celestiais (espirituais)?”.
Logicamente Jesus não podia esperar que
Nicodemos entendesse as interpretações mais
profundas desse ensinamento, nem tão pouco estava
querendo ensinar-lhe o batismo, nesta passagem, como
muitos querem justificar
Se o Cristo falava realmente do batismo para
Nicodemos, por que não o convidou a se batizar? E por
que o próprio Cristo não o batizou? Leia em João 4:2
que Cristo não batizava, quem batizava eram os
discípulos. E por que diante de tantas curas, milagres e
encontros, como no da “Adúltera”, com “Zaqueu”,
com o “Centurião”, com a “Cananeia”, Cristo nunca
falou em batismo? Não seria uma oportunidade para
este convite? No entanto, sua recomendação era para a
mudança interior: “vai e não peques mais para que
coisa pior não te venha acontecer”.
E Jesus conclui exemplificando: “como Moisés
ergueu a serpente no deserto, assim o Filho do
Homem será erguido da Terra”. (Veja a história da
192

serpente erguida no deserto no Livro Números – vaicrá-


21:4-9).
Aqui o Cristo prevê o que aconteceria a Ele, ou seja,
a sua morte na cruz para que hoje seja erguido na terra
como filho de Deus e dirigente de toda a nação terrena.
Paulo, em sua epístola a Tito 3:4-5, interpreta bem
esta citação do Cristo: “Mas quando apareceu a
vontade de Deus, nosso salvador, e o seu amor para
com os homens, não por obras da justiça que
tivéssemos feito, mas segundo sua misericórdia nos
salvou pelo lavatório da reencarnação, e pelo
renascimento de um espírito santo”.
Aqui, Paulo deixa bem claro que Deus nos salvou
não porque o tivéssemos merecido, mas por Sua
misericórdia, servindo-se da reencarnação a qual é um
“lavatório” (de água) e um “renascimento do
espírito”. A palavra grega do texto a que se refere
Paulo é παλιγγενεσίας “Palingenesia” – isto é,
“renascimento”, “Novo Nascimento”,
REENCARNAÇÃO. (199) (os grifos são do original)

Deixa-nos Severino Celestino, e com clareza meridiana,


um posicionamento sereno e equilibrado diante da passagem
analisada, embora saibamos que não agradará aos
fundamentalistas. Mas como já o dissemos, não é este o nosso
objetivo.

A questão é: O que pensavam os fariseus e o povo? Isso


é algo que merece ser estudado, pois sempre argumentam que,
naquela época, não existia a ideia conceitual da reencarnação,
devemos, por amor à verdade, apresentar as provas de que
isso não tem fundamento.

199 SILVA, 2001, p. 238-242.


193

O primeiro ponto a se colocar é que, se nós formos


buscar a palavra “reencarnação” na Bíblia, não a
encontraremos em canto algum. Entretanto, facilmente
identificaremos uma outra terminologia que é usada em
algumas situações, com o conceito de reencarnação, e que é a
palavra “ressurreição”.

Quatro são as ideias que eles tinham sobre ressurreição:

1ª – alguém voltar a viver na condição de espírito;

2ª – reviver no mesmo corpo físico;

3ª – voltar a viver num outro corpo físico; e

4ª – ressurgir em espírito e, nessa condição, influenciar


uma pessoa.

Mais informações sobre essas quatro ideias poderão ser


vistas em nosso texto “Ressurreição, o significado bíblico”,
disponível no site www.paulosnetos.net (200).

Para exemplificar a terceira ideia, podemos citar a


narrativa de Lucas (9,18-20) sobre o episódio em que Jesus
pergunta aos seus discípulos o que o povo pensava dele, ao
que lhe responderam: “Alguns dizem que tu és João Batista;
outros, que és Elias; mas outros acham que tu és algum dos
antigos profetas que ressuscitou”. (grifo nosso) Pela
resposta podemos perceber que é exatamente a ideia da
reencarnação, pois Jesus só poderia ser Elias, Jeremias, que é
citado em Mateus 16,14, ou algum outro dos antigos profetas,
se aceitassem essa possibilidade de ressurreição no sentido de

200 NETO SOBRINHO, link: http://www.paulosnetos.net/artigos/summary/3-


artigos-e-estudos/352-ressurreicao-o-significado-biblico
194

reencarnação, termo, inclusive, usado no texto. A prova que


não entendiam bem sobre a reencarnação, aqui com o nome de
ressurreição, é pelo fato de terem citado João Batista, que foi
contemporâneo de Jesus.

Considerando que nos foi informado que Nicodemos era


um fariseu, não podemos deixar de falar dessa classe política e
religiosa que existia àquela época. Nós buscaremos esta
informação num historiador que viveu naquele tempo, chamado
Flávio Josefo. Suas obras históricas são: Antiguidades Judaicas,
Guerra dos Judeus e Resposta de Flávio Josefo a Ápio, que, em
nosso caso, fazem parte do livro História dos Hebreus.

E a título de informação transcrevemos:

Quem foi Flávio Josefo? Foi ele um escritor e


historiador judeu que viveu entre 37 a 103 d.C. Seu
pai foi sacerdote e sua mãe descendia da casa real
hasmoneana. Portanto, Josefo era de sangue real. Ele
foi muito bem instruído na vasta cultura judaica,
bem como na grega. Falava perfeitamente o latim – o
idioma do Império Romano, e também o grego. Logo
cedo na vida demonstrou intenso zelo religioso,
filiando-se ao grupo religioso dos fariseus. […]. (201)
(grifo nosso)

Ele, descrevendo a maneira de viver dos fariseus,


coloca:

[…] Eles julgam que as almas são imortais, que são


julgadas em um outro mundo e recompensadas ou
castigadas segundo foram neste, viciosas ou virtuosas;
que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa

201 JOSEFO, 2003, p. 41.


195

outra vida e que outras voltam a esta. […]. (202) (grifo


nosso)

E quando alguns soldados, derrotados na guerra contra


os romanos, pensavam em suicidar-se, alerta-os dizendo:

[…] Não sabeis que Ele difunde suas bênçãos sobre


a posteridade daqueles, que depois de ter chamado
para junto de si, entregam em suas mãos, a vida, que,
segundo as leis da natureza, Ele lhes deu e que suas
almas voam puras para o céu, para lá viverem felizes
e voltar, no correr dos séculos, animar corpos que
sejam puros como elas e que ao invés, as almas dos
ímpios, que por loucura criminosa dão a morte a si
mesmos são precipitados nas trevas do inferno; […].
(203) (grifo nosso)

Assim, é justo dizer que os fariseus acreditavam numa


ressurreição em outro corpo, ainda que não se tenha dito
quantas vezes. Ora, isso não é nada mais nada menos do que
aquilo que entendemos por reencarnação.

Podemos, ainda, para corroborar a afirmativa de que ela


era crença no judaísmo, trazer para comprovação os
conhecimentos contidos na Cabala, que, segundo seus
estudiosos, é o significado mais profundo e oculto da Torá.

O Rabino Philip S. Berg, em Reencarnação as Rodas da


Alma, diz que:

202 JOSEFO, 2003, p. 416.


203 JOSEFO, 2003, p. 600.
196

A palavra hebraica para reencarnação é Guilgul


Neshamot, que literalmente quer dizer ‘roda da
alma’. É para esta vasta roda metafísica, com sua coroa
constelada de almas, como estrelas nas bordas de uma
galáxia, que devemos dirigir nosso olhar, se desejamos
ver além da aparência da inocência punida e da
maldade recompensada. Guilgul Neshamot é uma roda
em constante movimento e, ao girar, as almas vêm e
vão diversas vezes, num ciclo de nascimento, evolução
e morte e novo nascimento. A mesma evolução ocorre
com o corpo no decorrer de uma única vida. Ocorre o
nascimento, o crescimento das células, a paternidade e
a morte – novos corpos produzidos pelos antigos, dando
assim continuidade à forma física. É sempre um pai que
concede sua semente para que haja continuidade, num
processo sem fim. (204) (grifo nosso)

Severino Celestino, citando o Rabino Shamai Ende, diz:

Sobre a Reencarnação, apresentamos, aqui, para


ilustrar, o depoimento do Rabino Shamai Ende,
colaborador da Revista Judaica “Chabad News”,
publicação de Dez a Fev 1998. Vejamos o texto na
íntegra: “O conceito de Guilgul (Reencarnação) é
originado no judaísmo, sendo que uma alma deve
voltar várias vezes até cumprir todas as mitsvot (205)
da Torá. Além disso, cada alma tem uma missão
específica. Caso não tenha cumprido a sua, a alma
deve retornar a este mundo para preencher tal
lacuna. Somente pessoas especiais sabem
exatamente qual é sua missão de vida. […]”. (206)
(grifo do original)

204 BERG, 1998, p. 17-18.


205 N.T.: Mitsvot – plural de mitsvá que significa mandamento ou prática de
boas obras – caridade
206 SILVA, 2001, p. 161.
197

Disso podemos concluir que Nicodemos, sendo um


fariseu, fatalmente acreditava que alguém poderia voltar;
entretanto, não sabia como isso poderia acontecer, razão
daquelas suas perguntas a Jesus.

Outra questão que, naturalmente, surge é se Jesus


estaria, como querem alguns, pregando o Batismo?

Um fato incontestável é que Jesus nasceu, viveu e


morreu como judeu. Também não há como discutir que o
batismo não era a prática ritualística no judaísmo, que sabemos
ser a da circuncisão, ato a que, segundo narrativa no
Evangelho, o próprio Jesus foi submetido.

Curioso é que, dos quatro evangelistas, somente aquele


que escreveu o Evangelho Segundo João diz algo sobre o
batismo. Primeiro, ele afirma que Jesus batizava (João 3,22);
entretanto, logo depois contradiz o que disse antes, afirmando
que Jesus mesmo não batizava, mas sim os seus discípulos
(João 4,2). Esse registro nos deixa desconfiados, pois sabemos
que é quase um consenso entre os estudiosos que os
Evangelhos foram escritos em grego.

Ora, se João era iletrado, portanto, sem instrução (Atos


4,13); como, então, poderia ter escrito o Evangelho que lhe é
atribuído? Por isso, não é absurdo supor que, na verdade, outra
pessoa o escreveu, fato que nos coloca diante também da
possibilidade de que os textos poderiam ter sido “ajeitados”
aos interesses dogmáticos daquela época. Sobre a autoria dos
Evangelhos recomendamos o nosso texto “Os nomes dos títulos
198

dos Evangelhos designam seus autores?” (207).

Todavia, a contradição pode ser apenas aparente, já que


o batismo de Jesus não era o mesmo batismo praticado por João
Batista. Sobre isso, encontramos uma passagem que diz:
Mateus 3,11: “Eu, na verdade, vos batizo em água, na base do
arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais
poderoso do que eu, que nem sou digno de levar-lhe as
alparcas; ele vos batizará no Espírito Santo, e em fogo.”
(grifo nosso)

Outrossim, considerando que Nicodemos “era membro


do Conselho supremo chamado Sinédrio” (208), portanto,
entendedor das práticas ritualistas dos judeus, não teria
cabimento a pergunta (És mestre em Israel e ignoras essas
coisas?) feita por Jesus a ele. Se Jesus estivesse mesmo se
referindo ao batismo, certamente, que para Nicodemos, era
muito fácil de entender. Se ele desconhecia é porque, na
verdade, era sobre outra coisa que Jesus lhe falava. Pelos seus
questionamentos ao Mestre, fica claro que era algo mais
profundo do que um simples batismo, tinha, portanto, que ser
de um assunto mais complexo que esse.

Com certeza, a reencarnação é algo assim, já que a


maioria das pessoas por “ignorar essas coisas”, não sabem
exatamente sobre “como pode um homem velho voltar a
nascer de novo”; daí fazer a mesma pergunta que fez
Nicodemos: “porventura irá entrar no ventre de sua mãe para

207 NETO SOBRINHO, limk: http://www.paulosnetos.net/artigos/summary/6-


ebook/10-os-nomes-dos-ttulos-dos-evangelhos-designam-seus-autores0
208 Bíblia Sagrada – Ave-Maria, p. 1386.
199

nascer pela segunda vez?” A esses responderemos igual a


Jesus: “Não te admires disso”.

Vejamos o que nos coloca o escritor Bruno Bertocco, ex-


evangélico, em sua obra Cristianismo Redivivo:

Com referência ao nascer de novo, os que


pertencem às seitas evangélicas fazem uma
interpretação toda pessoal. Baseados em que também
Jesus falou a Nicodemos que se o homem não
nascesse da água e do espírito não poderia entrar no
reino de Deus, acrescentando que o que é nascido da
carne é carne e o que é nascido do espírito é espírito,
pensam que Jesus se referiu ao simbólico nascer de
novo da conversão e pelo ato do batismo das águas e
do Espírito Santo. Ora, se de fato o Mestre tivesse se
referido ao batismo da conversão, quando falou a
Nicodemos que lhe era necessário nascer de novo,
não teria observado a sua ignorância a respeito,
sendo ele um doutor da Lei e dos Profetas, já que se
tratava de um novo sacramento que ainda não estava
em prática. Portanto, não poderia ser por ele conhecido.
Mas a verdade é que Jesus falou do nascer de novo
pela reencarnação do espírito. Daí a sua
interrogação: “Pois é mestre em Israel e ignoras
estas coisas?” (209) (grifo nosso)

Sobre o que Nicodemos entendeu, transcrevemos esse


trecho da história na versão de Huberto Rohden (1893-1981),
renomado teólogo:

Então passa o Mestre a mostrar a seu novel


discípulo que o principal não é fazer algo, mas ser
alguém.

209 BERTOCCO, 1999, p. 178.


200

– Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer


de novo não pode ver o Reino de Deus.
Nascer de novo? Nicodemos logo pensa em
reencarnação material e replica:
– Como pode um homem velho nascer de novo?
E, um tanto irônico, acrescenta:
– Será que pode voltar ao ventre de sua mãe e
nascer mais uma vez? (210) (grifo nosso)

É importante esse entendimento de Rohden, porquanto


mesmo sem aceitar a reencarnação, como se poderá ver no
desenrolar de sua versão da história, ele admite que Nicodemos
entendeu sim que o que Jesus falava era sobre reencarnação.

Não obstante tudo isso, se o batismo nas águas fosse


mesmo uma prática recomendada aos Cristãos, porque Paulo
não deu ênfase a isso? Ele mesmo o responde:

1 Coríntios 1,15-17: “Para que ninguém diga que fostes


batizados em meu nome. É verdade, batizei também a
família de Estéfanas, além destes, não sei se batizei
algum outro. Porque Cristo não me enviou para
batizar, mas para pregar o evangelho; não em
sabedoria de palavras, para não se tornar vã a cruz de
Cristo.” (grifo nosso)

Kardec assim explicou o texto de João, em exame:

Para se apanhar o verdadeiro sentido dessas


palavras, cumpre também se atente na significação do
termo água que ali não fora empregado na acepção
que lhe é própria.

210 ROHDEN, 2007, p. 73-74.


201

Muito imperfeitos eram os conhecimentos dos


antigos sobre as ciências físicas. Eles acreditavam que
a Terra saíra das águas e, por isso, consideravam a
água como elemento gerador absoluto. Assim é que na
Gênese se lê: “O Espírito de Deus era levado sobre as
águas; flutuava sobre as águas; - Que o firmamento seja
feito no meio das águas; - Que as águas que estão
debaixo do céu se reúnam em um só lugar e que
apareça o elemento árido; - Que as águas produzam
animais vivos que nadem na água e pássaros que voem
sobre a terra e sob o firmamento.”
Segundo essa crença, a água se tornara o
símbolo da natureza material, como o Espírito era o
da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem
não renasce da água e do Espírito, ou em água e em
Espírito”, significam pois: “Se o homem não renasce
com seu corpo e sua alma.” E nesse sentido que a
princípio as compreenderam. Tal interpretação se
justifica, aliás, por estas outras palavras: O que é
nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito
é Espírito. Jesus estabelece aí uma distinção positiva
entre o Espírito e o corpo. O que é nascido da carne é
carne indica claramente que só o corpo procede do
corpo e que o Espírito independe deste. (211) (grifo
nosso)

Informa-nos, também o escritor L. Palhano Jr. (1946-


2000):

[…] A água tinha grande simbolismo entre os


hebreus; tanto o espírito como as águas são fecundos
(Is 32:15; 44:3; Ez 36:25-27); o espírito é coisa que
Deus envia e derrama, como água (Jl 3:1-2; Zc 12:10).
Água era uma expressão para indicar influências
boas ou más, como no (Sl 1:3): “Pois será como a

211 KARDEC, 2007c, p. 91.


202

árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o


seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem; e
tudo quanto fizer prosperará”. […]. ( 212) (grifo itálico do
original, negrito nosso)

Daí a necessidade de entendê-la pelo seu simbolismo e


não no sentido literal como querem se apegar os que não
acreditam na reencarnação. Ademais, se compararmos os
versículos 5 e 6 e a respectiva conclusão no 7, veremos que
não poderá ser mesmo do batismo que Jesus falava. Existe uma
evidente relação entre o versículo 5 e o 6, especificamente nas
expressões “nascer da água” com “nasceu da carne é carne” e
“nasceu do Espírito” com “nasceu do Espírito é espírito”. Essa
relação nada tem a ver com batismo e nem mesmo com
renovação espiritual como acreditam muitos outros, já que
Jesus finaliza taxativo: “Não te admires de eu te haver dito:
deveis nascer de novo” (v. 7), significando que o homem
fisicamente descende do homem, e o Espírito provém de Deus.

Por outro lado, sendo a reencarnação coisa da terra,


explicaria, indubitavelmente, essa fala final de Jesus a
Nicodemos: “Se não credes quando vos falo das coisas da
terra, como crereis quando vos falar das coisas do céu?” (v. 12).

Será que podemos afirmar que João Batista era Elias


reencarnado? Após tecer comentários sobre o diálogo entre
Jesus e Nicodemos, Allan Kardec conclui:

Se o princípio da reencarnação, conforme se acha


expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em

212 PALHANO JR, 2001, p. 403.


203

sentido puramente místico, o mesmo já não acontece


com esta passagem de S. Mateus, que não permite
equívoco: ELE MESMO é o Elias que há de vir. Não há
aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva.
[…]. (213) (grifo nosso)

Igualmente julgamos oportuno abordar essa questão, já


que é um dos argumentos que reforçam a reencarnação, pois
aqui irá nos ajudar a fortalecer a convicção que essa ideia era,
de fato, não somente comum à época de Jesus, como também
está presente no texto bíblico.

Primeiramente, citaremos a passagem em que Jesus faz


o reconhecimento público da identidade de João Batista,
narrado em Mateus:

Mateus 11,7-14: “Os discípulos de João partiram, e Jesus


começou a falar às multidões a respeito de João: ‘O que
é que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado
pelo vento? O que vocês foram ver? Um homem vestido
com roupas finas? Mas aqueles que vestem roupas finas
moram em palácios de reis. Então, o que é que vocês
foram ver? Um profeta? Eu lhes afirmo que sim: alguém
que é mais do que um profeta. É de João que a Escritura
diz: 'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente;
ele vai preparar o teu caminho diante de ti'. Eu garanto
a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum
é maior do que João Batista. No entanto, o menor no
Reino do Céu é maior do que ele. Desde os dias de João
Batista até agora, o Reino do Céu sofre violência, e são
os violentos que procuram tomá-lo. De fato, todos os
Profetas e a Lei profetizaram até João. E se vocês o
quiserem aceitar, João é Elias que devia vir. Quem
tem ouvidos, ouça’.” (grifo nosso)

213 KARDEC, 2007c, p. 92.


204

A profecia citada por Jesus é a de Malaquias (3,1), que,


mais à frente (v. 23-24), identifica quem será esse mensageiro:

Malaquias 3,1.23-24: “Vejam! Eu mandarei a vocês o


profeta Elias, antes que venha o grandioso e terrível
Dia de Javé. Ele há de fazer que o coração dos pais
voltem para os filhos e o coração dos filhos para os pais;
e assim, quando eu vier, não condenarei o país à
destruição total”. (grifo nosso)

Quando o anjo anuncia a Zacarias que sua esposa


estava grávida, diz ele sobre o menino:

Lucas 1,16-17: “Ele reconduzirá muitos do povo de Israel


ao Senhor seu Deus. Caminhará à frente deles, com o
espírito e o poder de Elias, a fim de converter os
corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria
dos justos, preparando para o Senhor um povo bem
disposto.” (grifo nosso)

Além de fechar com a citação final da profecia de


Malaquias, ressaltemos que ainda é sintomática a expressão
“com o espírito e o poder de Elias”, compreensível aos que
acreditam na reencarnação.

Aqui merecem destaque dois versículos dessa citação


que estamos analisando.

O primeiro é aquele que diz “de todos os homens que já


nasceram, nenhum é maior do que João Batista” (Mateus
11,11). Analisando-o, chegamos à conclusão que, se não
houver uma etapa anterior em que as pessoas possam evoluir,
João Batista foi um ser privilegiado, pois já veio “maior que
todos os homens”; quer dizer, mais evoluído que todos os
homens, fato que contraria o princípio de que “Deus não faz
205

acepção de pessoas” (Atos 10,34). Entretanto é plenamente


coerente, quando se aceita a reencarnação como um fator de
progresso do Espírito. Por outro lado, completa Jesus: “No
entanto o menor no reino dos céus é maior que ele” (Mateus
11,11), o que dentro de uma justiça divina, só poderá ocorrer se
houver a todos nós a possibilidade de evoluirmos em outras
vidas.

O segundo é o que o segue, onde está dito: “Desde os


dias de João Batista até agora, o Reino do Céu sofre
violência…” (Mateus 11,12). Importante esta afirmativa, mas
ela só caberia se João Batista tivesse vivido antes, já que não
há sentido algum dizer isso citando uma pessoa
contemporânea. Explicando melhor, poderíamos dizer que
“desde o tempo em que João Batista viveu como Elias, o Reino
dos Céus sofre violência…”; dessa forma ficará perfeitamente
lógica a afirmativa, coisa que não acontecerá, se não
aceitarmos que João Batista seja a reencarnação do profeta
Elias, como também ficará de acordo com a afirmativa de Jesus:
“João é Elias que devia vir” (Mateus 11,14).

Jesus, prevendo a incredulidade de muitos, ainda alerta:


“Ouça quem tem ouvidos de ouvir” (Mateus 11,15), ou seja, se
quiser ouvir o que estou afirmando é exatamente isso: João
Batista é o Elias reencarnado.

A outra passagem, é aquela em que Jesus sobe ao


monte Tabor e se transfigura (Mateus 17,1-9), ocasião em que
aparecem os espíritos de Moisés e Elias e conversam com
Jesus. Na sequência (v. 10-13) é narrada a dúvida dos
discípulos, pois, ao verem Elias, ficaram preocupados em
206

relação à profecia a respeito de sua volta (Mateus 3,1.23-24).


Explica-lhes Jesus: “Elias vem para colocar tudo em ordem. Mas
eu digo a vocês: Elias já veio, e eles não o reconheceram.
Fizeram com ele tudo o que quiseram…” (v. 11-12). (grifo
nosso) A essa explicação “os discípulos compreenderam que
Jesus falava de João Batista” (v. 13). Não precisa ser mais óbvio.

Porém, algumas pessoas, dando mais crédito ao


discípulo do que ao Mestre (Mateus 10,24), alegam, contra a
crença na reencarnação, que João Batista afirmou não ser Elias,
esquecendo-se de que o mais importante e a afirmação de
Jesus que ele era.

Considerando que “Deus é Espírito” (João 4,24), “O


espírito é que dá a vida a carne não serve para nada” (João
6,63) e “a carne e o sangue não podem herdar o Reino dos
céus” (1 Coríntios 15,50), não podemos aceitar que Elias tenha
sido arrebatado de corpo e alma ao céu. Fatalmente, aconteceu
a ele, como acontecerá a todos nós, o “e ao pó retornarás”
(Gênesis 3,19). Estamos adiantando aos que tentariam justificar
que João Batista não poderia ser Elias reencarnado, já que Elias
não ultrapassou o portal da morte.

Ainda poderemos colocar que, para algumas situações


que passamos nessa vida, somente se acreditarmos na
reencarnação é que encontraremos explicação satisfatória.
Muitas das nossas dores e sofrimentos são provenientes de
erros pretéritos, fato não ignorado na época de Jesus, já que
supunham que uma pessoa poderia vir com certa deformidade
em virtude do passado delituoso. Essa crença é perfeitamente
percebida quando, ao verem um cego de nascença, os
207

discípulos perguntam a Jesus: “Quem foi que pecou foi ele ou


seus pais?” (João 9,2).

Jesus faz uma relação clara entre nossos erros (pecados)


e situações dolorosas, ao dizer a um doente que acabara de
curar: “não peques mais, para que te não aconteça coisa pior”
(João 5,14). Somente haverá sentido em se falar em carma,
para nós espíritas Lei de ação e reação, se houver a crença na
reencarnação, já que ambos os conceitos estão intimamente
ligados.

Poderemos ainda acrescentar que é pela reencarnação


que todos nós um dia estaremos no reino dos Céus, uma vez
que esse é o destino fatal de todos nós, já que é do desejo de
Deus que todos os homens sejam salvos (1 Timóteo 2,4). Certa
feita, Jesus disse aos chefes dos sacerdotes e anciãos do povo
“… Eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as
prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino dos Céus”
(Mateus 21,31), demonstrando claramente que, apesar de tudo,
eles um dia estariam no Reino dos Céus; apenas que os
detestáveis cobradores de impostos e as desprezadas
prostitutas chegariam antes deles.

O Espírito André Luiz, pela psicografia de Francisco


Cândido Chico Xavier (1910-2002), disse, ao comparar a
encarnação do Espírito num corpo físico, que é o mesmo que
estarmos numa prisão. Então, lembramo-nos de um final de
uma fala de Jesus em que afirma: “… você irá para a prisão. Eu
garanto: daí você não sairá, enquanto não pagar até o último
centavo" (Mateus 5,25-26). Além do progresso, essa é também
mais uma utilidade da reencarnação, ou seja, por ela todos nós,
208

quitamos os nossos débitos perante as leis divinas. Aliás,


preferimos a isso que irmos irremediavelmente para um inferno
eterno, onde nunca conseguiremos pagar nossos débitos,
situação em que a Justiça humana seria muito melhor que a
divina.

Concluímos seguramente, sem nenhum medo de


estarmos errados, que realmente a passagem analisada diz da
reencarnação. O contexto histórico nos dá conta de que a
reencarnação era crença no judaísmo, embora com o nome de
ressurreição. A grande dificuldade é que encontramos essa
palavra com vários sentidos; daí a grande confusão que causa a
alguns, principalmente àqueles que não querem, por razões
dogmáticas, aceitar a reencarnação como uma realidade.

Citaremos, para corroborar o que temos dito aqui, o que


os pesquisadores Holger Kersten e Elmar R. Gruber disseram no
livro O Buda Jesus:

Analisando as teorias de Pitágoras, descobrimos que


sua teoria da reencarnação veio da Índia. Apesar de
todos os expurgos, essa ideia também é preservada
em várias passagens do Novo Testamento, a ponto
de ter-se a impressão de que esse conceito não-cristão
foi ensinado pelo próprio Jesus. […].
Pode-se portanto afirmar que, nessa época, a ideia
do renascimento e da transmigração da alma estava
enraizada no sentimento popular dos judeus. Isso pode
ser demonstrado em várias passagens do Novo
Testamento. Lembramo-nos da pergunta dos discípulos
a Jesus sobre o homem que era cego de nascença:
“Quem pecou, ele ou os pais para que ele tenha nascido
cego?” (João 9,20. A hipótese de que o próprio
homem tivesse pecado pressupõe, naturalmente,
209

que o pecado tivesse sido cometido numa vida


anterior, constituindo uma aceitação da ideia do carma.
[…].
Essa crença evidente no renascimento que
encontramos no Novo Testamento não era, de modo
algum, familiar aos judeus dos primeiros tempos. Foi a
filosofia helênica que a disseminou por todas as regiões
dentro de sua esfera de influência. O conceito de
renascimento (gilgul) só se tornou conhecido nos
círculos judaicos por volta do início do nosso
milênio. Os talmudistas acreditavam que Deus havia
criado um número determinado de almas judias, que
renasciam constantemente. Como punição elas,
retornavam no corpo de animais. De acordo com essa
ideia, o ser humano tinha que experimentar uma longa
transmigração da alma (gul-neschama) até alcançar a
redenção (tikkun – a harmonia). A ideia de que a
redenção só ocorre quando é atingido o objetivo do
desenvolvimento terreno indica a origem hindu e budista
do conceito e só surgiu entre os judeus durante o
período helênico.
A ideia da reencarnação sem dúvida ocupou um
lugar de destaque na visão que Jesus tinha da vida.
Isso coloca duas possibilidades: ou Jesus era um
mestre da sabedoria helenista que adotou o conceito de
renascimento como uma abordagem filosófica, ou
extraiu a ideia de fontes hindus. No entanto, a maneira
pela qual a ideia do renascimento é integrada à sua
mensagem, constituindo um componente fundamental
de seu entendimento sobre a redenção, torna a hipótese
das raízes hindus muito plausível. Apenas na Índia a
reencarnação desfrutou de tal aceitação, e apenas na
Índia ela esteve ligada a uma moral semelhante à que
Jesus divulgou na Palestina. É por isso que os
ensinamentos budistas de Jesus soavam tão estranho
aos judeus.
O tema renascimento está presente em muitas
210

passagens do Novo Testamento (214). Jesus fala de


suas vidas passadas e de seu retorno, assumindo
desta forma uma clara defesa da ideia da
reencarnação. Sua referência mais explicita a uma
existência anterior (“Antes que Abraão fosse, eu sou” -
João 8:58) encontra um paralelo no mais antigo relato
sobre a vida de Buda, o Nidanakartha, onde o Desperto
é apresentado como um ser preexistente desde o início
dos tempos.
As passagens mais importantes do Novo
Testamento em que Jesus revela sua crença no
renascimento estão no Evangelho segundo João
(João 3:1-4, 7:9-11). Infelizmente, elas têm sido
enormemente mutiladas por traduções incorretas.
Graças ao cuidadoso trabalho de Günther Schwarz,
muitos desses erros foram corrigidos. Em diversas
publicações, esse teólogo conseguiu restabelecer o
texto aramaico original dos Evangelhos a partir das
traduções gregas existentes, que usou então como base
para urna nova versão alemã. O resultado de todos
esses anos de trabalho é a obra Jesus-Evangelium (215),
na qual, com a ajuda de seu filho Jörn Schwarz, reuniu
os quatro Evangelhos canônicos e fontes não-bíblicas.
Esse “Evangelho de Jesus” será uma constante fonte de
referência em nossa análise dos paralelos com o
budismo. As citações dessa obra serão abreviadas
como "JeEv".
Na tradução correta, o verdadeiro significado das
ideias de Jesus sobre o renascimento se torna evidente.
Uma noite, sabendo que Jesus “fora enviado como
mestre” (JeEv 5:11), Nicodemos, um fariseu, foi até ele.
Na tradução alemã usual, a conversa com Nicodemos é

214 N.T.: Otto Flink (Schopenhauers Seelenwanderungslehre und ihre Quellen)


menciona as seguintes passagens: Mateus 14:1-2, 1Cor 15:35-55; Mateus
17:9-12; Lucas 9:7,8,19; Marcos 9:9-13; Mateus 19:28-30; João 3,3 e 3:8.
Ele acredita que a ideia de carma está presente em João 9:2-3; Mateus
19:30; Mateus 5:4,26; Marcos 10:19-31; Lucas 18:29-20.
215 N.T.: Schwarz e Schwarz (1993).
211

acompanhada por incompreensíveis palavras de Jesus:


“Se um homem não nascer do alto, não poderá ver o
reino de Deus” (João 3:3). A versão não autorizada é
menos enigmática: “Se o homem não nascer de novo,
não poderá ver o reino de Deus”. Nos séculos seguintes,
a Igreja empenhou-se em suprimir do Novo
Testamento todas as referências à reencarnação,
sem contudo conseguir eliminá-las totalmente.
Nessa nova versão, corretamente traduzida, a intenção
das palavras de Jesus volta a se tornar clara.
Nicodemos pergunta a Jesus: “O que devo fazer para
entrar no Reino de Deus?” Jesus responde: “Em
verdade, em verdade, vos digo: quem não nascer de
novo e de novo, não poderá ser (re)admitido no Reino
de Deus”. Nicodemos então pergunta: “Como pode um
homem nascer de novo e de novo se já é velho? Pode
ele voltar ao ventre da mãe e nascer de novo?” Ao que
Jesus replica: “Não te admires do que eu disse, é
preciso nascer de novo e de novo”.
O que está em questão é a readmissão no Reino de
Deus como princípio e fim da existência humana. Essa
lição deve ser compreendida à luz das passagens da
Bíblia em que Jesus diz que João Batista é Elias que
voltou à terra (Mateus 11:13-15, 17:10-13; Marcos 9:11-
13) e em que ele próprio é considerado um Elias, um
Jeremias ou um dos outros profetas renascido. Não
existe pois nenhuma dúvida de que Jesus estava
falando de um renascimento físico, no sentido hindu
de reencarnação. Visto nesse contexto, o erro de
tradução de um famoso versículo de Mateus (18:3) deve
ser corrigido. Jesus supostamente teria dito: “Se não vos
converterdes e não vos fizerdes como crianças…”,
quando o surpreendente resultado da tradução correta
é: “Se não renascerdes, não entrareis no Reino dos
Céus” (216). (JeEv 5:12-16). (217) (grifo nosso)

216 N.T.: Schwarz (1990), p. 46.


217 KERSTEN e GRUBER, s/d, p. 129-132.
212

Acreditamos que, por motivos de interesses de poder e


de dinheiro, a liderança religiosa atual não faz a mínima
questão de esclarecer essas dúvidas, pois colocariam em risco
esses seus interesses. Mas estamos confiantes em que, muito
mais cedo do que querem alguns, a ciência dará o veredicto
definitivo, quando provar categoricamente a lei natural da
reencarnação, única coisa pela qual poderemos explicar
inúmeros questionamentos humanos, e é por ela que a justiça e
a misericórdia de Deus se manifestam em plenitude.
213

A traição de Judas: uma história mal contada

“Afaste-se da boca enganosa e fique longe


dos lábios falsos.” (Provérbio 4,24)

É interessante como alguns temas bíblicos não resistem


a uma análise mais acurada. Vários deles, que já tratamos em
outros textos, nos proporcionam a certeza de que muitas
narrativas constantes da Bíblia são uma deliberada e sutil
montagem para se chegar a um objetivo previamente definido.
Daí porque muitas delas foram amoldadas a esse propósito,
passando por cima da verdade histórica que tais escritos
deveriam conter.

Muitas pessoas se chocam com atitudes como essa


nossa: a de uma análise crítica. Entretanto, não abrimos mão
de fazer uso da inteligência com a qual nos dotou o Criador.
Nós, seres humanos racionais, temos que usar esse dom, pois,
não usá-lo é abdicar da única faculdade que nos difere dos
animais, ditos irracionais; por isso, acreditamos que só
ofendemos mesmo a Deus, quando não utilizamos a nossa
inteligência plenamente.

Reconhecemos, entretanto, ser muito difícil a inúmeras


pessoas, principalmente as que não pesquisam, abandonar
conhecimentos adquiridos, especialmente quando foram
passados como verdades divinas, sob coação ideológica. Ou
seja, o simples questionamento da veracidade das mesmas já
é, por si só, considerado como grave ofensa à divindade. Essa
214

possibilidade de heresia acaba gerando um bloqueio mental,


em função do medo de crer-se num consequente castigo por
esse tipo de “pecado”. Assim, somos “levados” a aceitar, sem o
mínimo questionamento, o que nos tem sido imposto como
verdade absoluta. Com o tempo, passamos ao despautério de
defender ideias, que nunca analisamos ou criticamos, como se
nossas fossem.

O assunto que trataremos, desta vez, está relacionado a


uma suposta traição a Jesus, que teria sido realizada por Judas
Iscariotes, um de seus discípulos. Inclusive, tudo que consta na
Bíblia sobre ele está somente nas passagens que iremos ver a
seguir. Dizemos suposta, porquanto, particularmente,
acreditamos que o Sinédrio tinha poderes de vida e morte sobre
as pessoas, não precisava, portanto, de ninguém para delatar
Jesus. O Sanhedrin ou o Grande Conselho dos Anciãos de Israel,
com 71 homens sobre a presidência do sumo sacerdote, “podia
decretar sentença de morte contra os judeus da Judeia por
motivo de ofensa religiosa, mas não executá-la antes de
confirmação do poder civil”. (218).

Bart D. Ehrman, especialista em Novo Testamento, em


sua obra Quem escreveu a Bíblia: por que os autores da Bíblia
não são quem pensamos que são, traz-nos a seguinte
informação:

[…] Os autores de alguns dos livros do Novo


Testamento não eram quem alegavam ser ou quem
se imaginou que seriam. Em alguns casos, isso se deu
porque um escrito anônimo, no qual o autor não indicava

218 DURANT, 1957, p. 211.


215

quem era, foi posteriormente atribuído a alguém que, na


verdade, não o escreveu. Mateus provavelmente não
escreveu Mateus, por exemplo, nem João, João; por
outro lado, nenhum livro de fato alega ter sido escrito
por uma pessoa chamada Mateus ou João. Em outros
casos, isso aconteceu porque o autor mentiu sobre sua
identidade, alegando ser alguém que não era. […]. ( 219)
(grifo nosso)

Essa é a razão pela qual usaremos a expressão “o autor


de” ao referirmos aos Evangelhos, uma vez que, os estudiosos
modernos não mais atribuem a autoria dos textos aos nomes
que constam em seus títulos.

Iniciaremos, trazendo para análise, a seguinte passagem,


cujo teor parecerá que nenhuma ligação tem com o nosso
estudo:

Mateus 19,27-29: “Então Pedro tomou a palavra, e


disse: ‘Vê! Nós deixamos tudo e te seguimos. O que
vamos receber?’ Jesus respondeu: ‘Eu garanto a vocês:
no mundo novo, quando o Filho do Homem se sentar no
trono de sua glória, vocês, que me seguiram,
também se sentarão em doze tronos para julgar
as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver
deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos,
por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e
terá como herança a vida eterna.’” (grifo nosso)

Se Jesus disse que discípulos “também se sentarão em


doze tronos”, então, não há como, nesse momento histórico,
excluir o personagem Judas Iscariotes, sob pena de tornar Jesus
um mentiroso, o que seria algo sem lógica. A nosso ver, aqui

219 EHRMAN, 2013, p. 19.


216

temos uma prova de que a “profecia” a respeito de um traidor


entre os que seguiam Jesus é apenas um ajuste dos textos a
mais uma crença que se formou a respeito de Jesus.

O autor de Lucas, afirma que, após satanás ter entrado


em Judas, este foi procurar os sacerdotes para ver de que
maneira lhes entregaria Jesus (Lucas 22,3-6). Os sacerdotes
ficaram tão satisfeitos com essa ideia que combinaram em lhe
dar dinheiro, uma vez que eles desejavam, de há muito tempo,
eliminar “o herético”. Tal acontecimento se deu, na versão do
autor desse Evangelho, antes da festa dos Ázimos;
evidentemente, antes da ceia de páscoa, cujo prato principal
era um cordeiro morto especificamente para essa finalidade.

No entanto, segundo o autor de João, esse fato se deu


após a ceia (João 13,26-27), apesar de um pouco antes, ele ter
dito: “Enquanto ceavam, tendo já o diabo posto no coração de
Judas, filho de Simão Iscariotes, que o traísse” (João 13,2),
sendo, por conseguinte, omisso sobre qualquer combinação
anterior entre Judas e os sacerdotes. Portanto, podemos
verificar que há evidente conflito entre as narrativas, quanto ao
tempo em que o fato se deu.

Merece ser ressaltado que se a morte de Jesus foi para


remissão de nossos pecados, como comumente se pensa ou
insistem que creiamos, então, Judas não poderia, por coerência,
ser considerado um traidor, porquanto devemos admitir que a
missão dele, embora espinhosa, era a de entregar Jesus.
Entretanto…

Nada disso faz muito sentido. Mesmo a solução


217

religiosa mais comum – de que, embora Judas esteja


efetivamente cumprindo a vontade de Deus, ele é
culpado porque se rendeu a Satanás – não leva em
consideração as contradições. Até o autor parece ter
dificuldade ao tentar explicar a falta de lógica – como a
questão dos discípulos se perguntando se Judas teria
ido fazer compras tarde da noite. Não, isso não faz
sentido. (220) (grifo nosso)

Concordamos plenamente com Tobias Churton (1960- ),


não faz mesmo sentido algum.

Quanto à questão dessa combinação com os sacerdotes,


Mateus (26,15) diz que Judas pediu dinheiro para lhes entregar
Jesus, enquanto que Marcos (14,11) e Lucas (22,5) afirmam que
foram os sacerdotes que tomaram a iniciativa de retribuir ao
discípulo, dando-lhe dinheiro como recompensa pelo seu ato
ignominioso.

Um bom observador perceberá que, pelas suas


narrativas, Mateus teve uma evidente preocupação, qual seja, a
de relacionar Jesus com as profecias, inclusive, muito mais que
os outros três autores dos Evangelhos. Daí ser ele o único que
diz sobre o quanto Judas teria recebido, dando como certa a
importância de trinta moedas de prata (Mateus 26,15; 27,3).
Essas duas passagens que falam disso são, geralmente,
relacionadas a Zacarias 11,12-13, no pressuposto de que ela
seja uma profecia; entretanto, os fatos ali narrados se referem
ao próprio profeta Zacarias; não é, por conseguinte, uma
revelação sobre algo que fosse ocorrer no futuro.

220 CHURTON, 2009, p. 219.


218

Ainda sobre essa questão das moedas, é oportuno


colocarmos o que, em O beijo da morte, nos informa Churton:

[…] A quantia de 30 peças de prata não era um


preço convencional ou troca, mas um número profético,
simbólico – foi o preço pago por um povo ingrato pelos
serviços de Deus. Na profecia, a quantia é uma
ninharia, não uma fortuna.
Uma simples barganha de informações em troca de
dinheiro dificilmente envolveria esses símbolos. Se
Judas pensou que estava traindo “Deus”, era quase
certo que ele estava louco, e, portanto, merecia
compaixão, ou, pelo menos, uma cura.
É opinião geral dos estudiosos que o relato da
troca pela prata foi simplesmente extraído dos
escritos proféticos e usado como uma história de
“cumprimento”, para preencher uma falta de
conhecimento do que aconteceu. Se esse for o caso,
essa troca não pode ter um peso significativo na
alegada culpa de Judas. (221) (grifo nosso)

Como se diz “vendeu barato”, portanto, até o valor,


supostamente combinado, deixa-nos realmente na dúvida se tal
troca, de fato, aconteceu.

Ao narrar os acontecimentos durante a ceia, Mateus


relata: “Enquanto comiam, Jesus disse: 'Eu lhes garanto: um de
vocês vai me trair'. Eles ficaram muito tristes e, um por um,
começaram a lhe perguntar: 'Senhor, será que sou eu?'”
(Mateus 26,21-22). Achamos bem interessante é que todos eles
não confiavam e si mesmo, pois ao dizerem “Senhor será que
sou eu?” estavam demonstrando que intimamente tinham

221 CHURTON, 2009, p. 234.


219

“potencial” para praticar tal ato ou “Será que todos eles


estavam preocupados, pois todos tinham sido tentados a trai-lo
– e suas negativas são expressões de culpa?” ( 222). E Jesus, ao
responder essa indagação de cada um dos discípulos sobre
quem o trairia, teria dito: “Quem vai me trair, é aquele que
comigo põe a mão no prato. O Filho do Homem vai morrer,
conforme a Escritura fala a respeito dele…” (Mateus 26,23-24).
Passagem que é relacionada ao Salmo 41,10, onde Davi
reclama sobre um amigo que o trai. O que nos leva a concluir
que tal passagem não é uma profecia; assim, não poderia estar
relacionada a Jesus, como querem os que buscam, nas
Escrituras, apoio para seus dogmas. Davi foi traído por um
amigo, seu próprio conselheiro, de nome Aquitofel, conforme
narrativa em 2 Samuel 15,12.31. O final trágico da vida desse
“amigo da onça” foi enforcar-se (2 Samuel 17,23); com isso,
querem, igualmente, atribuir esse mesmo destino a Judas,
como iremos ver mais à frente.

Outra coisa que nos parece sem nenhum sentido,


principalmente pela maneira com a qual Jesus agia para com os
outros, é que Ele tenha, com efeito, se preocupado em delatar
o seu traidor, conforme narrado em João 13,26, quando, para
identificar quem o trairia, diz aos que o acompanhavam,
naquela ceia, que seria a quem desse um pão molhado; dito
isso, imediatamente, molha um pão e o entrega a Judas,
delatando o pobre coitado. Talvez a preocupação aqui seja
buscar mais uma forma de relacionar tal episódio a uma
profecia sobre esse acontecimento, que sabemos não existir.

222 CHURTON, 2009, p. 198,


220

Mateus (26,48) e Marcos


(14,44) dizem que Judas havia
combinado com os sacerdotes
um sinal – o beijo – para que
pudessem identificar quem era
Jesus, e, obviamente, o colocam
fazendo isso (Mateus 26,49;
Marcos 14,45). Lucas, apesar de
não relatar absolutamente nada
sobre esse sinal, diz que Judas se aproximando de Jesus o
saúda com um beijo (Lucas 22,47). Enquanto que João não fala
de ter havido uma combinação de sinal, nem que Jesus teria
dito algo a respeito, e nem mesmo coloca Judas beijando a
Jesus, já que, para ele, foi o Mestre que se adiantou, aos
guardas acompanhados de Judas, se identificando a eles como
sendo Jesus, o Nazareno, a quem procuravam (João 18,3-5).
Fatos novamente conflitantes.

Nenhum outro Evangelho, a não ser o de João, coloca


Judas como sendo aquele que, entre os discípulos, cuidava da
“bolsa”; vai ainda mais longe acusando-o de ladrão (João 12,6).
Como uma acusação grave dessa não foi feita por mais
ninguém? Aí ficamos com a dúvida de Churton que disse “O
Evangelho de João nos informa – não sabemos com que
justificação histórica – que Judas tomava conta da bolsa (do
dinheiro).” (223)

Se Judas, realmente, fosse um gatuno, por que motivo o


deixaram tomando conta do dinheiro? Alguém colocaria um

223 CHURTON, 2009, p. 192.


221

ladrão como seu administrador financeiro? Não seria,


evidentemente, para colocar a honra desse discípulo em jogo,
fórmula encontrada para se justificar que, por ser assim, ele
não teria também nenhum escrúpulo em trair o seu próprio
Mestre? Essa hipótese, para nós, é a mais viável.

Não bastassem os que já encontramos, aparecem-nos


agora mais dois evidentes conflitos.

O primeiro está relacionado à forma pela qual Judas deu


cabo à sua vida, movido, segundo relata o autor de Mateus, por
profundo remorso. Estranhamente é o único Evangelho que fala
disso; nenhum outro autor apresenta uma linha sequer sobre
Judas ter se arrependido. Continuando seu relato, o autor de
Mateus (27,5) diz que Judas se enforcou; entretanto, em Atos
(1,18) está se afirmando que ele “precipitando-se, caiu
prostrado e arrebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se
derramaram”, mudando, desta maneira, a versão anterior a
respeito de sua morte.

Encontramos a seguinte explicação para esse passo:


“Possivelmente a narração da morte de Judas enforcando-se,
está inspirada na história da morte de Aquitofel (cf. 2 Samuel
17,23)” (224). Conforme citamos anteriormente Aquitofel
enforcou-se, mas querer, daí, apenas por inspiração, atribuir a
Judas uma morte semelhante é lamentável, pois esse fato
bíblico deveria ter sido relatado fielmente como ocorrido, aliás,
não só esse, mas todos os outros; não como o autor do relato
quer que tenha acontecido, o que nos coloca diante de uma

224 Bíblia Sagrada – Santuário, p. 1463.


222

mera suposição.

Quem sabe se não houve uma outra justificativa para


Judas se enforcar? É o que nos propõe Churton:

Quando o arqueólogo israelense Yigael Yadin


escavou a fortaleza e o palácio de Massada, o mundo
todo descobriu que no ano de 74 d.C. zelotes devotos,
em sua determinação de manter sua religião livre da
contaminação romana, estavam prontos a cometer
suicídio em massa em vez de se render aos romanos.
“Nunca novamente!” Talvez Judas tenha se enforcado
para não se entregar aos soldados romanos. O
cenário político mais detalhado que surgiu dessa
pesquisa arqueológica deu outra direção à ideia do
suicídio de Judas. […]. (225) (grifo nosso)

Já tivemos a oportunidade de ver algumas pessoas


tentando conciliar os dois tipos de morte de Judas, dizendo
várias coisas como, por exemplo, que no seu enforcamento ele
teria caído num precipício. Mas será que isso pode ser levado
em conta? O estudioso Bart D. Ehrman, ex-evangélico, falando
a respeito disso, afirmou:

Ao longo dos anos os leitores tentaram conciliar


esses dois relatos da morte de Judas. Como ele
podia se enforcar e cair “de cabeça para baixo”, para
que sua barriga se abrisse e seus intestinos se
espalhassem pelo solo? Interpretes engenhosos,
querendo fundir os dois relatos em uma só narrativa
verdadeira, tiveram grande dificuldade com isso.
Talvez Judas tivesse se enforcado, a corda arrebentado
e ele caído no chão de cabeça, se partido ao meio. Ou

225 CHURTON, 2009, p. 190.


223

talvez tivesse se enforcado, e como isso não tivesse


dado certo, então subiu em uma rocha alta e se jogou
de cabeça no campo. Ou talvez… bem, talvez alguma
outra coisa.
O importante, contudo, é que os dois relatos
oferecem versões diferentes sobre como judas morreu.
Por mais misterioso que seja dizer que caiu de cabeça e
se rasgou, pelo menos isso não é se “enforcar”. […]. ( 226)
(grifo nosso)

Ao pesquisarmos, para obtermos outras explicações,


para nossa própria surpresa, deparamo-nos também com uma
outra versão sobre sua morte; leiamos:

[…] a maneira como ele morreu. Existem


essencialmente três tradições diversas sobre a
questão:
1. A narrativa do livro de Atos parece indicar que a
morte de Judas Iscariotes foi violenta, produzida por
alguma espécie de queda incontrolável, evidentemente
por algum precipício abaixo.
2. Há também a narrativa de Mat. 27:3-10, segundo a
qual Judas Iscariotes enforcou-se.
3. Por semelhante modo, há uma história,
preservada por Papias, discípulo do apóstolo João (ou
do “presbítero”) de que Judas Iscariotes foi atacado por
alguma enfermidade asquerosa, que causou uma
excessiva inchação de seu corpo e que, estando ele
nessas condições físicas, foi esmagado por uma
carroça, em um lugar de estreita passagem, por onde
ordinariamente poderia ter passado com sucesso, se
não tivesse inchado tanto. (Ver J.A. Cramer, Catanae in
Evangelia, S. Matthaei et S. Marci, Oxford: Typographeo

226 EHRMAN, 2010, p. 60-61.


224

Academico, 1884, sobre o vigésimo sétimo capítulo do


evangelho de Mateus). Alguns intérpretes têm sugerido
que essa história, preservada por Papias, na realidade é
a mesma que aparece historiada nas páginas do livro de
Atos e que a tradução que aqui aparece como
“precipitando-se” (comum, de resto, a todas as
traduções), traduz um termo médico obscuro (no grego
prestheis), que indicava inchação excessiva. (Essa
teoria é exposta na obra “The Beginnings of
Christianity”, editores F.J. Foakes Jackson e Kirsopp
Lake: Londres, The Macmillan Co. 1933, V. págs. 22-
30).
Além das ideias acima expostas, várias outras
interpretações têm aparecido, ou de natureza
inteiramente apócrifa, ou como variações das tradições
já existentes. Alguns intérpretes têm asseverado que as
palavras “…foi enforcar-se…”, da passagem de Mat.
27:5, na realidade deveriam ser traduzidas por sufocou-
se, deixando um tanto vago o modo real de sua morte.
Outros estudiosos têm pensado que essas palavras
significam que ele foi consumido pelo remorso de
consciência. Mui provavelmente essas explicações
vieram a lume na tentativa de reconciliar a narrativa do
livro de Atos com o relato do evangelho de Mateus,
posto que, mediante tais interpretações, nenhum modo
específico de morte pode ser atribuído à narrativa de
Mateus. Tais tentativas, não obstante, não são bem
fundadas, e nem têm sido bem recebidas pelos
estudiosos em geral.
Uma outra tentativa de reconciliação entre essas
duas narrativas, é aquela que diz que as narrativas do
evangelho de Mateus e do livro de Atos são descrições
de várias etapas da morte de Judas. – A ideia é que
Judas pendurou-se por uma corda ou em um ramo, o
qual ter-se-ia partido, precipitando-o para baixo e
propiciando as condições descritas em Atos. Essa
interpretação tem deixado a vários estudiosos
225

satisfeitos; mas outros têm-na considerado como


mera tentativa de harmonizar os relatos bíblicos a
qualquer custo, até mesmo ao preço da
honestidade.
É justo dizermos que o problema permaneceu
praticamente sem solução nos tempos antigos; e para
muitos intérpretes, é nesse ponto de insolubilidade que
o problema se encontra até hoje. Mas todas as
narrativas, até mesmo as lendárias, concordam sobre o
ponto de que Judas Iscariotes sofreu alguma forma de
morte violenta e horrenda. […]. (227) (grifo nosso)

O segundo diz respeito ao destino dado às moedas. O


autor de Mateus menciona que Judas as teria devolvido,
atirando-as dentro do santuário, que, recolhidas pelos
sacerdotes, foram, por deliberação deles, destinadas à compra
do campo do oleiro, para servir de cemitério aos estrangeiros
(Mateus 27,3-10), citando que isso aconteceu para se cumprir o
que dissera o profeta Jeremias. Mas essa história nos parece
mal contada, pois em Atos se diz que o próprio Judas teria
comprado um campo (Atos 1,18), que até poderia ser esse do
oleiro; mas, de qualquer forma, está em conflito com a versão
anterior.

Na maioria das Bíblias que consultamos diz que as


profecias relacionadas a Mateus 27,9: “Cumpriu-se, então, o
que foi dito pelo profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas
de prata, preço do que foi avaliado, a quem certos filhos de
Israel avaliaram e deram-nas pelo campo do oleiro, assim como
me ordenou o Senhor”, estariam nos passos: Zacarias 11,12-13

227 CHAMPLIN e BENTES, 1995, p. 622.


226

e Jeremias 32,5-16, ou Jeremias 18,1-4 e 19,1-3 ( 228). Há,


portanto, sérias dúvidas quanto à identificação da profecia
específica relacionada ao episódio.

Como já falamos sobre a citação de Zacarias, fica-nos,


por conseguinte, apenas as de Jeremias para dizermos alguma
coisa. Em notas explicativas sobre elas encontramos que: “A
citação é uma combinação artificial de Jeremias 32,6-9 e
Zacarias 11,12-12.” (229); isso nos deixa diante da realidade de
que, por se admitir que seja “uma combinação artificial”,
estamos, certamente, diante de mais uma tentativa de se
relacionar acontecimentos no Novo Testamento com
ocorrências registradas no Antigo Testamento, tidas como se
fossem verdadeiras profecias.

Quem tiver a curiosidade de consultar a passagem


citada de Zacarias não encontrará nela algo no qual se possa
qualificá-la como profecia; são apenas fatos relacionados
àquele momento vivido por esse profeta. E quanto a Jeremias,
não se encontra absolutamente nada que ele tenha comprado
alguma coisa por trinta moedas. Sobre a compra de um terreno,
sim, como podemos ver em Jeremias (32,6-12); mas uma
situação circunstancial, explicada da seguinte forma:

À primeira vista se trata de um incidente: a compra e


venda de um terreno segundo as normas e o
procedimento da legislação judaica. O narrador se
compraz em registrar todos os detalhes, mostrando que
a lei foi estritamente cumprida e que o ato é

228 A Bíblia Anotada, p. 1229.


229 Bíblia do Peregrino, p. 2386.
227

juridicamente válido. O surpreendente dessa compra-e-


venda é que se realiza às vésperas da catástrofe
inevitável. Que sentido tem nesse momento comprar um
terreno para que fique em poder da família? Tudo já está
perdido. Mas o absurdo do ato é a chave do seu sentido.
Para efeitos legais imediatos, a compra nada servirá;
para efeitos proféticos, é admirável ato de esperança no
futuro. É um oráculo em ação, Jeremias profetiza ao
vivo: não só palavras, nem ação simbólica, mas ato real
jurídico. Esse ato significa o futuro que ele antecipa: a
jarra de barro onde se guarda o contrato é um penhor
que Deus concede. Apesar do que está para acontecer,
a terra continua sendo propriedade dos judaítas: a terra
prometida aos patriarcas e possuída durante séculos…
(230).

Podemos ainda confirmar isso com a seguinte


explicação: “A citação [Mt 27,9] é tirada na realidade de
Zacarias (11,12-13). Mas, ele lembra também diversos
versículos de Jeremias onde se faz menção do campo e do
oleiro (32,6-6; 18,2-12).” (231) Ressaltamos que a expressão “ela
lembra”, é uma afirmativa que depõe contra o próprio texto
que, positivamente, diz ser de Jeremias essa profecia.

Percebemos que as narrativas possuem diversos fatos


conflitantes entre si, deixando-nos na convicção que tudo não
passa, na melhor das hipóteses, de um ajuste dos textos para
se chegar a um objetivo pré-determinado, conforme já
falávamos, desde o início. Para se ter uma ideia mais exata
sobre isso, colocaremos a passagem Mateus 27,1-26, que, para
tornar a explicação mais fácil de ser entendida, iremos dividi-la

230 Bíblia do Peregrino, p. 1928.


231 Bíblia Sagrada – Ave-Maria, p. 1319.
228

em três partes:

I) 1-2: De manhã cedo, todos os chefes dos sacerdotes e


os anciãos do povo convocaram um conselho contra
Jesus, para o condenarem à morte. Eles o amarraram e
o levaram, e o entregaram a Pilatos, o governador.

II) 3-10: Então Judas, o traidor, ao ver que Jesus fora


condenado, sentiu remorso, e foi devolver as trinta
moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e anciãos,
dizendo: “Pequei, entregando à morte sangue inocente”.
Eles responderam: “E o que temos nós com isso? O
problema é seu”. Judas jogou as moedas no santuário,
saiu, e foi enforcar-se. Recolhendo as moedas, os chefes
dos sacerdotes disseram: "É contra a Lei colocá-las no
tesouro do Templo, porque é preço de sangue". Então
discutiram em conselho, e as deram em troca pelo
Campo do Oleiro, para aí fazer o cemitério dos
estrangeiros. É por isso que esse campo até hoje é
chamado de “Campo de Sangue”. Assim se cumpriu o
que tinha dito o profeta Jeremias: “Eles pegaram as
trinta moedas de prata – preço com que os israelitas o
avaliaram – e as deram em troca pelo Campo do Oleiro,
conforme o Senhor me ordenou”.

III) 11-26: Jesus foi posto diante do governador, e este o


interrogou: “Tu és o rei dos judeus?” Jesus declarou: “É
você que está dizendo isso”. E nada respondeu quando
foi acusado pelos chefes dos sacerdotes e anciãos.
Então Pilatos perguntou: “Não estás ouvindo de quanta
coisa eles te acusam?” Mas Jesus não respondeu uma só
palavra, e o governador ficou vivamente impressionado.
Na festa da Páscoa, o governador costumava soltar o
prisioneiro que a multidão quisesse. […].”

Para o que queremos colocar não é necessário citar toda


a narrativa; assim, omitimos o restante da sequência dessa
última (vv. 16-26), pois até aqui, no versículo 15, já
229

encontramos o suficiente para entendermos e percebermos que


os versículos de 3-10 nada têm a ver com o contexto geral
daquilo relatado na passagem. Inclusive, no versículo 3 está
dito que Judas viu que Jesus havia sido condenado, quando, no
desenrolar do texto, esse fato ainda não havia acontecido, que
só veio acontecer mais à frente. A quebra brusca na sequência
dessa narrativa, não deixou de ser percebida pelo tradutor da
Bíblia do Peregrino, conforme nos explica:

O episódio da morte de Judas interrompe


estranhamente o curso do relato, como se a entrega de
Jesus ao governador ultrapassasse suas previsões.
Sabemos que a figura de Judas alimentou desde cedo
fantasias legendárias. Lucas dá versão diferente (At
1,18-20). A morte violenta do perseguidor ou culpado é
tema literário conhecido (p. ex. Absalão, 2Sm 18:
Antíoco Epífanes, 2Mc9; em versão poética vários
oráculos proféticos, p. ex. Is 14; Ez 28). Antes de morrer,
Judas acrescenta seu testemunho sobre a inocência de
Jesus. Confessa o pecado, mas desespera do perdão…
(232).

Isso vem confirmar todas as nossas suspeitas de que


tudo foi um calculado “arranjo” visando ajustar os textos às
conveniências dos interessados para que eles tivessem
referências às suas idiossincrasias. E, em relação ao assunto
tratado, temos fortes suspeitas de que vários outros trechos
foram intercalados às narrativas bíblicas, para amoldá-los a um
propósito determinado. Podemos citar, como exemplo, Mateus
26,14-16; 21-25; 28,11-15; Marcos 10,10-12; 14,18-21; Lucas

232 Bíblia do Peregrino, p. 2385-2386.


230

22,3-6, 21-23; João 1,33; 11,12-16, para que você, caro leitor,
faça uma análise mais aprofundada.

Podemos ainda recorrer a Ernest Renan, que disse:

Quanto ao desgraçado Judas de Cariote, lendas


terríveis correram sobre sua morte. Disseram que,
com o prêmio de sua perfídia, comprara umas terras nos
arredores de Jerusalém. Havia, justamente, ao sul do
monte Sião, um local chamado Hakeldama (campo de
sangue) (233). Pensou-se que era a propriedade
adquirida pelo traidor (234). Segundo uma tradição, ele se
matou (235). Segundo uma outra, ele levou um tombo na
sua propriedade e, como consequência, suas entranhas
se espalharam pelo chão (236). Segundo outras, ele
morreu de uma espécie de hidropsia, acompanhada de
circunstâncias repugnantes que foram tomadas como
castigo do céu (237). O desejo de comparar Judas a
Achitofel (238) e de mostrar nele o cumprimento das
ameaças que o Salmista pronunciou contra o amigo
pérfido (239) pode ter dado ensejo a essas lendas. (240)
(grifo nosso)

Ficamos a pensar como se sentiu e como ainda pode


estar se sentindo Judas sobre tudo quanto lhe imputam como

233 N.T.: São Jerônimo, De situ et nom. Loc. hebr., para a palavra Acheldama.
Eusébio (ibid.) diz ao norte. Mas os itinerários confirmam a lição de São
Jerônimo. A tradição que nomeia Haceldama à necrópole situada no fundo
do vale de Hinon remonta pelo menos à época de Constantino.
234 N.T.: Atos, I, 18-19. Mateus, ou melhor, seu interlocutor, deu aqui um tom
menos satisfatório à tradição, a fim de ligar a isso a circunstância de um
cemitério para estrangeiros, que se achava perto dali, e de encontrar uma
pretensa confirmação em Zacarias, XI,12-13.
235 N.T.: Mat. XXVII, 5.
236 N.T.: Atos, l.c.; Pápias, em Ecumenius, Enarr, in Act. Apost., II e em Fr.
Münter, Fragm. Patrum graec. (Hafniae, 1788, fasc. I, p. 17 e seg.;
Teofilacto, em Mat., XXVII, 5.
237 N.T.: Pápias, em Münter, l.c., Teofilacto, l.c.
238 N.T.: II Sam., XVII,23.
231

procedimento. O pobre coitado ainda é julgado e condenado,


anos após anos, pelos ditos “cristãos”, que, com certeza, não
cumprem o: “Não julgueis os outros para não serdes julgados,
porque com o julgamento com que julgardes, sereis julgados e
com a medida que medirdes sereis medidos” (Mateus 7,1-2).
Não bastasse isso, ainda é humilhado, malhado e, ao final, é
espetacularmente “detonado”. Infelizmente esse nos parece ser
o seu destino cruel, que se perpetua anualmente nas
comemorações da Semana Santa, realizadas por determinadas
religiões cristãs tradicionais.

Reabrimos esse “processo”, pois temos em mãos a


revista Discovery Magazine de março/2005, com uma
interessante reportagem intitulada Últimos momentos de Jesus,
assinada pelo jornalista Walter Falceta Jr., da qual
transcrevemos os seguintes trechos:

[…] Mas pesquisas mais recentes lançam novos


olhares especialmente sobre o odiado Judas – aquela
figura que, vestida em boneco de trapos, mobiliza os
malhadores nos Sábados de Aleluia.
Ao contrário da tradição, os estudos modernos são
mais complacentes com o discípulo dissidente, tido no
imaginário popular como um homem ambicioso e sem
caráter. O magistrado israelense Haim Cohn, ex-juiz da
Suprema Corte de Israel, autor de O Julgamento e a
Morte de Jesus, defende que, à época da Paixão, Jesus
já era conhecido em Jerusalém e sabia-se de seu
costume de meditar no Monte das Oliveiras. “Não seria
necessário, portanto, que alguém indicasse seu

239 N.T.: Salmos LXIX e CIX.


240 RENAN, 2004, p. 397.
232

refúgio”, diz Cohn. Dessa forma, o episódio do “beijo


da traição”, que teria sido protagonizado por Judas
para indicar aos soldados romanos o momento
adequado da captura de Jesus, pertenceria ao
campo da lenda e não da realidade…
Para outros especialistas, o perfil de Judas foi
moldado para representar os arquétipos da maldade. De
acordo com o bispo da Igreja Anglicana John Spong, de
Newark (EUA), até o nome de Judas teria sido escolhido
para remeter o inconsciente coletivo ao termo
“judaísmo”, numa estratégia para marcar negativamente
a imagem dos primeiros opositores do cristianismo.
FICÇÃO NOS EVANGELHOS
Na década passada, o padre Raymond Brown, ex-
professor do Seminário Teológico União, de Nova York,
produziu o mais detalhado estudo sobre o que
aconteceu nos últimos dias da vida de Cristo. Um
calhamaço de 1.600 páginas, o livro The Death of J. B.
Howell the Messiah (“A morte do Messias”, ainda não
editado no Brasil) compara os argumentos de vários
intérpretes da Bíblia, os chamados exegetas, à luz de
dados históricos. Em seus textos, Brown dá crédito aos
escritos oficiais e estimula uma leitura conservadora das
Escrituras. Mesmo assim, admite que o objetivo dos
autores dos textos sagrados era evangelizar e não
reconstituir fatos históricos. Segundo ele, é natural que
tenham recorrido à ficção para expor suas ideias. Brown
considera, por exemplo, que a história das 30 moedas
que, segundo a Bíblia, Judas recebeu dos sacerdotes do
Sinédrio para entregar Cristo passou a simbolizar o
suposto gosto dos judeus pelo dinheiro. (241) (grifo
nosso)

Isso vem, de certa forma, em apoio ao que deduzimos

241 FALCETA JÚNIOR, p. 28-33.


233

de nossos estudos bíblicos; sinal que não estamos sendo


heréticos sozinhos, embora isso não nos preocupe, pois para
nós o que é mais importante é que se restabeleça a verdade.

Vejamos, agora, o que Geza Vermes, renomado exegeta,


diz sobre o trecho do Evangelho de Mateus (27,3-10), que cita
Judas:

Mateus insere uma breve passagem sobre


Judas entre o julgamento de Jesus pelo Sinédrio e
a transferência do caso para Pilatos. Ele faz o
traidor arrepender-se e devolver o suborno. Os
evangelistas são inocentes das especulações
modernas sobre motivos elevados de Judas, tal
como o seu desejo de forçar Jesus a revelar seu
messianismo oculto. Não é dada nenhuma hora
exata. Segundo Mateus, o julgamento de Jesus
ocorre na casa de Caifás, mas o encontro de
Judas com os chefes dos sacerdotes e os anciãos
é situado no Templo, local diferente sem dúvida
numa ocasião diferente. Como as autoridades
sacerdotais se recusaram a aceitar o dinheiro de
volta, Judas o jogou fora e, desesperado,
enforcou-se. O restante da história tem toda
a aparência de um conto folclórico
artificialmente combinado com uma citação
escritural para transformar o acontecimento
em cumprimento de uma profecia. Deixados
diante de um dilema – o que fazer com o dinheiro
de sangue devolvido, impróprio para o tesouro do
Templo –, os chefes dos sacerdotes decidem usá-
lo para comprar um campo para o sepultamento
de estrangeiros. Havia um terreno em Jerusalém
conhecido como “Campo de Sangue”, e uma
tradição cristã primitiva o associava à desventura
de Judas. O aspecto profético do incidente é
234

amplamente produzido por Mateus. Diz-se que a


citação é de Jeremias, mas trata-se de uma
invenção ou, mais exatamente, de uma
mistura adulterada de Zacarias 11,12-13 e
Jeremias 18,2-3; 36,6-15. É impossível
discernir nos extratos bíblicos sequer uma remota
ligação com o episódio de Judas. Aqui, como em
muitos outros lugares, Mateus empenha-se
em retratar a história da Paixão, perturbadora
para crentes e pouco atraente para supostos
convertidos, como uma sequência de eventos
profeticamente previstos e
providencialmente predestinados. (242) (grifo
nosso)

Esse empenho de Mateus em relacionar Jesus a várias


profecias, foi também percebido por nós, inclusive, objeto de
um estudo à parte, com o título de “Será que os profetas
previram a vinda de Jesus?”, que poder ser visto em nosso site:
www.paulosnetos.net (243).

Fechamos com Churton, que disse: “Temos a liberdade


de suspeitar que os autores dos Evangelhos realmente não
sabiam o que aconteceu”. (244)

242 VERMES, 2007, p. 53-54.


243 NETO SOBRINHO, link: http://www.paulosnetos.net/artigos/summary/6-
ebook/201-ser-que-os-profetas-previram-a-vinda-de-jesus-v110
244 CHURTON, 2009, p. 236.
235

A questão do bom ladrão

“As ideias falsas, entregues à discussão,


mostram seu lado fraco, e se apagam diante
da força da lógica.” (ALLAN KARDEC)

A passagem de Lucas a respeito do “bom ladrão” é,


muitas vezes, utilizada, principalmente pelos nossos detratores
de plantão, para sustentar a ideia de que não existe a
reencarnação. Não querendo entrar detalhadamente neste
assunto, apenas gostaríamos de dizer para aqueles que não a
aceitam, que vejam como ela é obvia nas seguintes passagens:

Mateus 17,12: “Mas digo-vos que Elias já veio, e não


o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram.
Assim farão eles também padecer o Filho do homem.”
(grifo nosso)

Mateus 11,14-15: “E, se quereis dar crédito, é este o


Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir,
ouça.” (grifo nosso)

João 3,3: “Jesus respondeu, e disse-lhe: 'Na verdade, na


verdade te digo que aquele que não nascer de novo,
não pode ver o reino de Deus'.” (grifo nosso)

João 3,7: “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário


vos é nascer de novo.” (grifo nosso)

Vemos que, infelizmente, muitos ainda não “têm


ouvidos de ouvir”. Não compreendemos como podem conceber
uma Justiça Divina sem a reencarnação. Já que, para nós, a
reencarnação é o único meio de “sermos perfeitos como o Pai
236

Celestial” (Mateus 5,48), conforme nos recomenda Jesus, a não


ser que Ele nos tenha ensinado algo que não pudéssemos fazer,
o que seria um absurdo.

Voltando ao que nos propomos, achamos por bem fazer


uma análise desse episódio, para que possamos encontrar a
verdade. Vamos, então, às narrativas bíblicas sobre tal
acontecimento, tiradas da Bíblia Anotada, Editora Mundo
Cristão:

Mateus 27,44: “E os mesmos impropérios lhe


diziam também os ladrões que haviam sido
crucificados com ele.” (grifo nosso)

Marcos 15,32: “Também os que com ele foram


crucificados o insultavam.” (grifo nosso)

Lucas 23,39-43: “Um dos malfeitores crucificados


blasfemava contra ele, dizendo: 'Não és tu o Cristo?
Salva-te a ti mesmo e a nós também'. Respondendo-lhe,
porém, o outro repreendeu-o dizendo: 'Nem ao
menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós
na verdade com justiça, porque recebemos o castigo
que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal
fez'. E acrescentou: 'Jesus, lembra-te de mim quando
vieres no teu reino'. Jesus lhes respondeu: 'Em verdade
te digo que hoje estarás comigo no paraíso'.” (grifo
nosso)

João 19,18: “Onde o crucificaram, e com ele outros


dois, um de cada lado, e Jesus no meio”. (grifo nosso)

Ressaltamos que se a Bíblia, segundo dizem, é


totalmente inspirada por Deus por que não narram os
Evangelistas os mesmos fatos? Ora, se a fonte de inspiração é
de uma mesma origem, Deus, deveriam ser tais narrativas
237

completamente iguais, pelo menos quanto ao fundo.


Poderemos até aceitar palavras diferentes, mas não com
divergências quanto ao fato ocorrido; e aqui ele é narrado de
forma diferente, conforme observaremos a seguir:

1 – Quanto ao diálogo:

Mateus, Marcos e João nada relatam de qualquer diálogo


entre os três crucificados.

2 – Quanto à atitude:

Mateus e Marcos dizem que os ladrões estavam, isto


sim, entre os que escarneciam de Jesus. Só Lucas diz que Jesus
teria dito para um deles que “hoje estarás comigo no Paraíso”.

3 – Quanto à testemunha:

João que estava ao pé da cruz, ou seja, a testemunha


ocular, nada diz sobre este diálogo de Jesus com um dos
ladrões.

Para efeito de raciocínio estamos considerando que os


autores dos Evangelhos, sejam aqueles cujos nomes constam
dos títulos, como é a crença comum; porém, e a bem da
verdade, atualmente, não se sabe quem são, os estudiosos
têm-nos como completamente desconhecidos.

Por curiosidade, vamos ver como essa frase aparece nas


Bíblias de outras editoras:

Mundo Cristão: “Em verdade te digo que hoje estarás


comigo no paraíso.” (grifo nosso)

Vozes: “Em verdade te digo: ainda hoje estarás comigo


no paraíso.” (grifo nosso)
238

Pastoral: “Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará


comigo no paraíso.” (grifo nosso)

Ave-Maria: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no


paraíso.” (grifo nosso)

Barsa: “Em verdade te digo: que hoje serás comigo no


paraíso.” (grifo nosso)

Loyola: “Eu te asseguro: hoje mesmo estarás comigo


no paraíso.” (grifo nosso)

Perguntaríamos, então, qual delas é a frase mais


verdadeira? Enquanto algumas dizem “em verdade”, outras
dizem “eu garanto” e “eu te asseguro”, apesar dessas Bíblias
terem como origem o mesmo segmento religioso.

Um detalhe que julgamos importante é que essa


afirmação, atribuída a Jesus, pode ser encontrada nos
documentos apócrifos: Evangelho de Nicodemos ( 245
), Descida
de Cristo ao inferno (246) e o denominado Declaração de José de
Arimateia”, nesse, inclusive, é citado o nome dele como sendo
Dimas (247). Transcrevemos um trecho da fala do “bom ladrão”:

E enquanto ele pendia na cruz, ao ver os prodígios


que se sucederam, acreditei nele e roguei a ele dizendo:
“Senhor, quando reinares, não te esqueças de mim”. E
ele logo disse-me: “Em verdade em verdade te digo,
hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. (248) (grifo
nosso)

245 TRICCA, vol. I, 1992a, p. 238.


246 TRICCA, vol. I, 1992a, p. 261.
247 TRICCA, vol. II, 1995b, p. 285.
248 TRICCA, vol. I, 1992a, p. 261.
239

Observe, caro leitor, que a fala encontrada no apócrifo


Descida de Cristo ao inferno é a mesma que se encontra no
Evangelho de Lucas. Assim, ficamos na dúvida se a passagem
de Lucas, a respeito do “bom ladrão”, não teria sido tomada
exatamente desse e dos outros dois documentos, cuja
autenticidade não foi reconhecida pela Igreja Católica, uma vez
que ele mesmo declara que escreveu “após acurada
investigação de tudo deste o início”, o que constata que ele não
foi inspirado.

Por outro lado, vários outros autores confirmam o que


Severino Celestino da Silva disse em seu livro Analisando as
Traduções Bíblicas:

Sabemos que os manuscritos originais do Novo


Testamento não possuíam pontuação, e em face do
fato de o grego clássico (incluindo o grego koiné, no
qual foi escrito o Novo Testamento) gozar de ampla
liberdade no tocante à ordem das palavras, é
impossível, à base do próprio texto grego, provar um
lado ou outro dessas ideias contraditórias. (249) (grifo
nosso)

Assim, não fica difícil entender que nas traduções


colocaram a pontuação conforme a conveniência de cada
tradutor.

Analisando, especificamente essa frase, e, se


admitirmos que isso realmente tenha acontecido, teremos uma
contradição de Jesus, pois Ele mesmo disse: a cada um
segundo suas obras. (Mateus 16,27). E, quando do episódio

249 SILVA, 2001, p. 309-310.


240

com Madalena, após sua ressurreição, disse Ele a esta mulher:


“Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas
vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e
vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João 20,17). Ora, se Jesus,
três dias após sua morte, ainda não tinha subido ao Pai, como
Ele poderia ter afirmado ao “bom ladrão”, que hoje estarás
comigo, ou seja, justamente no dia de sua morte na cruz?

Outros questionamentos temos para apresentar: se


muitos acreditam que, segundo as escrituras, os mortos ficam
dormindo, como admitir a entrada dele direto ao paraíso? E
como fica o tão falado dia do Juízo final, não haverá mais esse
juízo?

Por outro lado, o “bom ladrão”, ao reconhecer que “nós


na verdade com justiça, porque recebemos o castigo que os
nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez”, ele está
aceitando a justiça dos homens, e por mais forte razão,
aceitaria a Justiça de Deus que lhe daria uma pena merecida.
Assim, podemos concluir também que ele não estava pedindo
uma recompensa por algo que não tivesse feito, mas, apenas
que Jesus se lembrasse dele quando voltasse; certamente
visando o perdão dos seus pecados, não é mesmo?

Além disso, o dito “bom ladrão” (e, diga-se de


passagem, é o único ladrão bom da história da humanidade)
somente reconheceu que ele e o outro tinham motivos para
morrerem crucificados, e que Jesus era um inocente sendo
condenado; assim, já que não houve nem mesmo um simples
arrependimento, por parte dele, por que o prêmio? Se for
verdadeira essa regra, então, qual a vantagem de ser correto
241

durante toda uma vida se podemos ir para o céu apenas por


um arrependimento de última hora?

Narra Mateus (20,20-23) que a mãe dos filhos de


Zebedeu chega a Jesus com o seguinte pedido: “Ordena que
estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e outro à tua
esquerda, no teu reino”. Não vemos Jesus atendendo ao pedido
desta abnegada mãe; ao contrário, disse-lhe: “Mas quanto a
vos sentardes à minha direita ou à minha esquerda, não me
cabe concedê-lo, porque estes lugares são destinados
àqueles para os quais meu Pai os reservou”.

Ora, se aqui Jesus afirma que não cabe a Ele conceder


um lugar no Paraíso ou reino dos céus, como, então, promete
um lugar ao “bom ladrão”? Será que Ele estaria contradizendo-
se? Acreditamos que não, pois tanto nesse caso, quanto no
outro, teria que agir sem conceder qualquer tipo de privilegio,
ou seja, “a cada um segundo suas obras” (Mateus 16,27).

Não bastassem os fatos acima, uma análise cuidadosa


da cena do Calvário revela que o ladrão pode não ter
morrido naquele mesmo dia, pois o autor do Evangelho de
João nos diz:

João 19,31-33: “Os judeus, pois, para que no sábado não


ficassem os corpos na cruz, visto como era a Preparação
(pois era grande o dia de Sábado), rogaram a Pilatos
que lhes quebrassem as pernas, e que fossem tirados.
Foram, pois, os soldados e, na verdade, quebraram as
pernas do primeiro, e ao outro que com ele fora
crucificado; mas, vindo a Jesus, e vendo-O já morto,
não Lhe quebraram as pernas.” (grifo nosso)

Arnaldo B. Christianini aborda a questão do costume de


242

quebrar as pernas em seu livro Subtilezas do Erro, de onde


transcrevemos:

Por que “quebrar as pernas” dos justiçados?


Porque o crucificado não morria no mesmo dia.
Cristo foi caso excepcional e sabemos que não morreu
dos ferimentos ou da hemorragia, mas de
quebrantamento do coração. Morreu de dor moral por
suportar os pecados do mundo. Mas os outros, não, e
as crônicas descrevem o condenado esvaindo-se
lentamente durante dias.
Diz, por exemplo o comentário de J. B. Howell:

“O crucificado permanecia pendurado na cruz até


que, exausto pela dor, pelo enfraquecimento, pela fome
e a sede, sobreviesse a morte. Duravam os
padecimentos geralmente três dias, e às vezes,
sete.” (250)
É óbvio que os homens de maior robustez física
duravam até sete dias na cruz. No caso em tela, os
judeus, não permitiram que se conservasse um
criminoso na cruz no dia de sábado, pois
consideravam um desrespeito à santidade do dia de
repouso.
“De acordo com o costume, quebravam as pernas
dos criminosos depois de os haverem removido da cruz,
deixando-os estendidos no chão, até que o sábado
passasse. Depois do sábado haver passado, sem
dúvida esses dois corpos foram outra vez amarrados na
cruz, e lá ficaram diversos dias, até morrerem…”
Se era necessário quebrar as pernas aos dois
malfeitores, antes do pôr-do-sol, é porque não
haviam, morrido ainda. Na pior das hipóteses viveram
ainda, pelo menos, um dia a mais que o Mestre.

250 N.T.: E. Howell, Comentário a S. Mateus, pág. 500.


243

Como podia, um deles, estar no mesmo dia junto de


Jesus? (251) (grifo nosso)

Se era necessário quebrar as pernas aos dois


malfeitores, antes do pôr do sol, é porque não haviam morrido
ainda. Na pior das hipóteses, viveram ainda pelo menos um dia
a mais que o Mestre. Como podia, um deles, estar no mesmo
dia junto de Jesus?

Já falamos, várias vezes, mas não custa repetir.


Coloquemos a frase do seguinte modo: Em verdade te digo
hoje, estarás comigo no paraíso. Veja como uma simples vírgula
muda completamente o sentido do texto… Desta forma, é
muito mais condizente com a Justiça Divina, pois um indivíduo
somente irá para o Paraíso, quando tiver realizado as obras que
justifiquem merecê-lo, não importando quanto tempo levará
para isso.

Também não estaria em conflito com o texto: “Ora, se


invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas,
julga segundo a obra de cada um, portai-vos com temor
durante o tempo da vossa peregrinação, […].” (1 Pedro 1,17).
E, para reforçar que Deus não faz mesmo acepção de pessoas,
pedimos para consultar outras passagens bíblicas que dizem
exatamente a mesma coisa. (252)

251 CHRISTIANINI, 1965, p. 274-275.


252 Deuteronômio 10,17; 2 Crônicas 19,7; Jó 34,19; Atos 10,34; 15,9; Romanos
2,11; Efésios 6,9 e Colossenses 3,25.
244

A morte de Agripa: quem conta um conto…

“A verdade não pode existir em coisas que


divergem.” (S. Jerônimo)

A ingenuidade de muitos em acreditar piamente em


todas as narrativas bíblicas, como se fossem verdades
irrefutáveis, é digna de pena. A grande maioria dessas pessoas,
se nem mesmo ousa admitir uma simples dúvida, que dirá
contestar aquilo que se encontra relatado na Bíblia, já que
pressupõem que tudo que ali está é plena verdade proveniente
de Deus. Ainda não perceberam que, por conta da esperteza da
liderança religiosa da antiguidade, tacitamente incorporada
pela atual, foi o que transformou a Bíblia num livro cujo
conteúdo passou a ser supostamente a palavra de Deus. Foi a
forma fácil e prática que se encontrou para manter sob seu
domínio os fiéis: ovelhas que não berram.

Vejamos o acontecido na morte de Agripa, conforme


narrativa em Atos dos Apóstolos:

Atos 12,20-23: “Herodes estava enfurecido com os


habitantes de Tiro e Sidônia. Estes fizeram um acordo
entre si e se apresentaram diante de Herodes, depois de
conquistarem as graças de Blasto, o camareiro real. Eles
pediam a paz, já que seu país recebia mantimentos do
território do rei. No dia marcado, Herodes vestiu-se
com os trajes reais, tomou seu lugar na tribuna, e
lhes dirigiu a palavra oficial. O povo começou a clamar:
‘É a voz de um deus, e não de um homem!’ Mas,
imediatamente, o anjo do Senhor feriu Herodes,
245

porque ele não tinha dado glória a Deus. E


Herodes expirou, carcomido por vermes.” (grifo
nosso)

Segundo os tradutores de A Bíblia Anotada, esse


personagem é “Herodes Agripa I, neto de Herodes, o Grande,
que reinara ao tempo do nascimento de Cristo. Agripa, pelo
menos exteriormente, era um zeloso praticante dos rituais
judaicos e era um patriota em questões religiosas” ( 253). E, em
relação à sua morte, completam: “Josefo afirma que Herodes
adoeceu subitamente durante seu discurso e, depois de cinco
dias de sofrimento, morreu (44 A.D.)” (254).

Vejamos então, para conferir, o que Josefo, o historiador


hebreu, fala a respeito desse assunto. A versão de Josefo,
parece-nos ser bem diferente dessa que acabamos de citar.
Vamos iniciar seu relato após Agripa ter sido preso, acusado por
um liberto de nome Eutico, de desejara morte do imperador
Tibério, para que seu amigo Caio o substituísse no poder:

Um dia, quando Agripa estava com outros


prisioneiros diante do palácio, a fraqueza, que lhe
causava a tristeza, fez que ele se apoiasse a uma
árvore sobre a qual uma coruja veio pousar. Um
alemão, que era do número desses prisioneiros, tendo-o
notado, perguntou a um soldado que o olhava e que
estava acorrentado com ele, quem era aquele homem;
tendo sabido que era Agripa, o mais notável de todos os
judeus pela glória de sua origem, rogou-lhe que se
aproximasse dele, a fim de que pudesse ouvir de sua
boca alguma coisa sobre os costumes de seu país. O

253 A Bíblia Anotada, p. 1378.


254 A Bíblia Anotada, p. 1379.
246

soldado assim fez; o alemão, então, disse a Agripa, por


meio de um intérprete: “Bem vejo que uma mudança tão
grande e tão repentina de vossa sorte vos aflige, e que
dificilmente acreditaríeis que a divina providência vos
dará a liberdade, muito em breve. Mas eu tomo os
deuses como testemunhas, os deuses que eu adoro e
os que são reverenciados neste país, que me puseram
nestas cadeias, de que, o que eu vos tenho a dizer, não
é para vos dar uma vã consolação, sabendo, como eu
sei, que quando as predições favoráveis não são
seguidas de seus efeitos só servem para aumentar a
nossa tristeza. Quero pois dizer-vos, embora com
perigo, o que essa ave que acaba de voar sobre vossa
cabeça vos pressagia. Estareis bem depressa em
liberdade e elevado a tão grande poder, que sereis
invejado por aqueles que agora têm compaixão de
vossa infelicidade. Sereis feliz durante todo o resto de
vossa vida e deixareis filhos que sucederão à vossa
felicidade. Mas quando virdes aparecer de novo essa
mesma ave, sabei que somente vos restarão cinco
dias de vida. Eis o que os deuses vos pressagiam e
como eu tenho conhecimento disso, julguei dever dar-
vos essa alegria, para amenizar vossos males
presentes, com esperança de tantos bens futuros.
Quando vos encontrardes em tão grande prosperidade
não nos esqueçais, eu vos rogo, e trabalhai para nos
tirar da miséria em que nos encontramos”. A predição
desse alemão pareceu tão ridícula a Agripa, que
provocou nele, naquele instante, uma gargalhada, tão
forte que depois causou-lhe a ele mesmo, espanto e
admiração. (255) (grifo nosso)

Será que essa profecia foi cumprida? Para sabermos o


que aconteceu, continuemos o relato de Josefo um pouco mais
à frente, cujo tempo decorrido é cerca de seis meses depois:

255 JOSEFO, 2003, p. 425-426.


247

Trouxeram nesse mesmo tempo duas cartas de Caio;


uma endereçada ao senado, com a qual lhe dava o
anúncio da morte de Tibério e de que ele o havia
escolhido para substituí-lo no império; a outra, a Pisão,
governador da cidade, que dizia a mesma coisa,
ordenando-lhe tirar Agripa da prisão e permitir-lhe
voltar à sua casa. Assim ele se viu livre de todo temor: e
embora estivesse ainda guardado, vivia no resto, como
queria. Pouco depois, Caio veio a Roma para onde fez
trazer o corpo de Tibério, mandando fazer-lhe, segundo
o costume dos romanos, soberbos funerais. Ele quis pôr
Agripa em liberdade, no mesmo dia, mas Antônia
aconselhou-o a diferir, não, porque não sentisse afeto
por ele, mas porque julgava que aquela precipitação iria
contra o decoro, porque não se podia apressar tanto a
liberdade daquele a quem Tibério conservava preso,
sem manifestar ódio por sua memória. No entanto,
alguns dias depois, Caio mandou chamá-lo e não se
contentou em dizer-lhe que mandasse cortar os cabelos,
mas lhe pôs a coroa na cabeça; depois fê-lo rei da
tetrarquia que Felipe havia possuído e acrescentou-lhe
ainda a de Lisânias. Quis também como sinal de seu
afeto dar-lhe uma cadeia de ouro do mesmo peso da de
ferro que ele havia usado e mandou em seguida
Marullhe, como governador da Judeia. (256) (grifo nosso)

Então se a primeira parte da profecia, dita pelo alemão,


foi cumprida, fica provado que os deuses, que lhe passaram a
informação, estavam certos. Mas, e quanto à segunda parte da
profecia, a que dizia a respeito de sua morte? Será que Agripa
ouviu a coruja piar novamente? Voltemos à Josefo e leiamos:

No terceiro ano do seu reinado ele celebrou na


cidade de Cesareia, que antigamente era chamada a

256 JOSEFO, 2003, p. 427.


248

Torre de Estratão, jogos solenes em honra do imperador.


Todos os grandes e toda a nobreza da província,
reuniram-se nessa festa; no segundo dia dos
espetáculos Agripa veio bem cedo, pela manhã, ao
teatro, com uma veste cujo forro era de prata trabalhada
com tanta arte, que quando o sol o iluminava com seus
raios, desprendiam-se reflexos tão vivos de luz, que não
se podia olhar para ele sem se sentir tomado de um
respeito, misto de temor. Mesquinhos bajuladores,
então, com palavras melífluas que destilam veneno
mortal no coração dos príncipes, começaram a dizer que
até então haviam considerado seu rei, como um simples
homem, mas que agora viam que o deviam reverenciar
como um deus, rogando-lhe que se lhes mostrasse
favorável, pois parecia que ele não era como os demais,
de condição mortal. Agripa tolerou essa impiedade, que
deveria ter castigado mui rigorosamente. Mas, logo
levantando os olhos, viu uma coruja, por sobre sua
cabeça, pousada numa corda estendida no ar e
lembrou-se de que aquela ave era um presságio de
sua infelicidade como outrora tinha sido de sua
prosperidade. Soltou, então, um profundo suspiro e
sentiu, ao mesmo tempo, as entranhas roídas por
uma dor horrível. Voltou-se para seus amigos e disse-
lhes: “Aquele que quereis fazer acreditar que é imortal,
está prestes a morrer e essa necessidade inevitável não
podia ser uma mais pronta convicção de vossa mentira.
Mas é preciso querer tudo o que Deus quer. Eu era
muito feliz e não havia príncipe de quem eu devesse
invejar a felicidade”. Dizendo estas palavras, sentiu que
as dores cresciam cada vez mais; levaram-no ao palácio
e a notícia espalhou-se imediatamente, de que ele
estava prestes a exalar o último suspiro. Logo todo o
povo, com a cabeça coberta de um saco, segundo
costume de nossos pais, fez oração a Deus pela saúde
e todo o ar ressoou com gritos e lamentações. O
príncipe que estava no quarto mais alto do palácio,
vendo-os de lá, prostrados por terra, não pôde reter as
249

lágrimas; as dores, porém, continuaram por cinco


dias a fio e o levaram, aos cinquenta e quatro anos
de sua vida, sétimo do seu reinado, pois reinara quatro
sob o imperador Caio, nos três primeiros dos quais ele
só tinha a tetrarquia, que fora de Filipe, e no quarto,
acrescentaram-lhe a de Herodes; nos três anos em que
reinou sob Cláudio, esse imperador deu-lhe também a
Judeia, a Samaria e Cesareia. Mas, embora suas
rendas (257) fossem muito grandes, ele era liberal e tão
magnânimo que era obrigado ainda a pedir emprestado.
(258) (grifo nosso)

Interessantíssimo é que as duas previsões, constantes


da profecia, que foram ditas pelo alemão a Agripa, se
cumpriram. Ora, ele mesmo afirmou a ter recebido dos deuses,
o que então prova que não era somente o Deus dos hebreus
que tinha profetas aqui na terra. Será que havia um acordo
entre os deuses de ambos – o do alemão e o dos hebreus?
Provavelmente; haja vista o cumprimento integral da profecia.

Vejamos, agora, os pontos que foram aumentados:

Lucas: Herodes estava enfurecido com os habitantes de


Tiro e Sidônia. Estes fizeram um acordo entre si e se
apresentaram diante de Herodes, depois de conquistarem as
graças de Blasto, o camareiro real. Eles pediam a paz, já que
seu país recebia mantimentos do território do rei.

Josefo: Nada fala desse assunto. Coloca o evento


quando do acontecimento de jogos solenes oferecidos por
Agripa em honra ao imperador, ocasião em que se reuniram

257 N.T.: O grego diz: Mil e duzentas vezes dez mil, sem nada mais especificar.
258 JOSEFO, 2003, p. 453,
250

vários príncipes e toda a nobreza para essa majestosa festa.

Lucas: No dia marcado, Herodes vestiu-se com os


trajes reais, tomou seu lugar na tribuna, e lhes dirigiu a palavra
oficial

Josefo: Fala que Agripa chegou ao local dos jogos de


manhã usando “uma veste cujo forro era de prata trabalhada
com tanta arte, que quando o sol o iluminava com seus raios,
desprendiam-se reflexos tão vivos de luz, que não se podia
olhar para ele sem se sentir tomado de um respeito, misto de
temor.” Não diz absolutamente nada de que Agripa tenha feito,
da tribuna, algum tipo de discurso oficial.

Lucas: O povo começou a clamar: "É a voz de um deus,


e não de um homem!"

Josefo: O motivo para que alguns o elevaram à


categoria de um deus, foi justamente a roupa brilhante citada
anteriormente. Condição não contestada por Agripa, que ainda,
segundo Josefo, deveria tê-los castigados. E quem disse
alguma coisa foram os mesquinhos bajuladores, o que pode
não significar necessariamente que teria sido o povo, que dá
uma ideia de que todos, ou pelo menos, a maioria dos que ali
estavam.

Lucas: Mas, imediatamente, o anjo do Senhor feriu


Herodes, porque ele não tinha dado glória a Deus. E Herodes
expirou, carcomido por vermes.

Josefo: Após o episódio acima, Agripa vê uma coruja o


que o faz lembrar-se da profecia que ouvira do alemão; daí sim
251

é que ele fala ao povo contestando a sua condição de deus,


assumindo sua condição de mortal e dizendo-lhes que
brevemente estaria morto. O fato imediato é que ele começou
a passar mal, sentindo muitas dores. Nesse estado, Agripa
permaneceu por cinco dias, quando finalmente dá o seu último
suspiro. Embora Josefo não fale nada sobre o enterro de
Agripa, é de se presumir que aconteceu, pois, se tivesse
ocorrido algo em contrário, seria ponto de destaque que não
passaria despercebido por um historiador. Assim, Agripa não foi
imediatamente carcomido por vermes, fato que, para salvar o
texto bíblico, devemos considerar como épico. E mais: o motivo
da morte de Agripa nada tem a ver com ele não ter dado glória
a Deus.

Por aqui provamos que, no presente caso, quem contou


o conto, aumentou não foi um só ponto, mas vários. Os relatos
históricos não podem ser preteridos às narrativas bíblicas, cujos
autores não se preocuparam nem com a verdade histórica, nem
mesmo com a ordem cronológica dos acontecimentos, a eles só
interessavam os seus heróis enaltecidos.

Sempre estamos ouvindo dogmáticos querendo salvar a


veracidade dos textos bíblicos, relegando os fatos históricos,
arqueológicos e mesmo científicos, na doce ilusão de que “tá
na Bíblia é verdade”. Coitados, pois ainda acham que
conseguirão tapar o Sol com uma peneira!
252

O Antigo Testamento foi revogado por Jesus?

“Ora, o progresso não pode se fazer senão por


ideias novas que venham, de tempo em
tempo, mudar o curso das ideias recebidas.
Repeli-las porque destroem as que nos foram
berço, é, aos nossos olhos, faltar com a
lógica.” (A. BRIQUEL)

Neste texto estudaremos algumas passagens do


Evangelho buscando compreender as palavras de Jesus,
visando deixar o mais claro possível o que Ele pensava, de
modo que também você, caro leitor, tenha elementos
suficientes para tirar sua própria conclusão.

Mateus 5,17-18: “Não penseis que vim revogar a lei ou


os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.
Porque em verdade vos digo: 'Até que o céu e a terra
passem, nem um 'i' ou um 'til' jamais passará da lei, até
que tudo se cumpra'.” (grifo nosso)

Essa é a passagem em que se apoiam para concluir que


Jesus confirmaria toda a Bíblia. Mas, com essa fala, Ele estava
apenas querendo dizer que devia se cumprir tudo que Dele está
escrito na Lei e nos profetas, dizendo que nem um “i” ou nem
um “til” do que ali consta deixaria de ser cumprido; isso ficará
bem claro, no desenrolar desse estudo.

Lucas 10,25-28: “E eis que certo homem, intérprete da


lei, se levantou com intuito de por Jesus em provas, e
disse-lhe: 'Mestre, que farei para herdar a vida eterna?'
Então Jesus lhe perguntou: 'Que está escrito na lei?
253

Como interpretas?' A isto ele respondeu: 'Amarás o


Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua
alma, de todas as tuas forças e de todo o teu
entendimento; e amarás o teu próximo como a ti
mesmo'. Então Jesus lhe disse: 'Respondeste
corretamente; faze isto, e viverás'.” (grifo nosso)

Se Jesus, quando disse a respeito da Lei (Mateus 5,17-


18), estivesse mesmo se referindo a todo o Pentateuco
mosaico, estaria em contradição com esta passagem, pois
considerou como correta a resposta do intérprete, que somente
disse que está escrito o: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o
teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de
todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo como a ti
mesmo”. Ora, na legislação de Moisés existem muitas outras
coisas para se cumprirem além dessas, que, segundo os
exegetas, são, ao todo, 613 normas.

Lucas 16,16-17: “A lei e os profetas vigoraram até


João; desde esse tempo vem sendo anunciado o
evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça
por entrar nele. E é mais fácil passar o céu e a terra, do
que cair um til sequer da lei.” (grifo nosso)

Se a Lei e os profetas vigoraram até João é porque


depois de João está vigorando algo diferente, uma nova
legislação. Ela não é nada mais nada menos que o Evangelho,
ou seja, o ensino de Jesus inserido no Novo Testamento. A
questão de “cair um til sequer da lei” se refere a tudo que há
nela com relação às profecias sobre a vinda de Jesus. Assim, os
acontecimentos que ocorreriam com Ele é que seriam
cumpridos e não, como querem alguns, que todas as
254

ordenações contidas lá, devam ser rigorosamente seguidas. Até


mesmo porque, como iremos ver mais adiante, especificamente
algumas delas Ele as alterou profundamente, como é o caso,
por exemplo, da questão do “olho por olho”.

Lucas 24,25-27: “Ele então lhes disse: 'Ó homens sem


inteligência, como é lento o vosso coração para crer
no que os profetas anunciaram! Não era preciso que
Cristo sofresse essas coisas para entrar na glória?' E
partindo de Moisés começou a percorrer todos os
profetas, explicando em todas as Escrituras, o que
dizia respeito a ele mesmo.” (grifo nosso)

Após ressuscitar, Jesus caminha com dois discípulos que


estavam indo para a aldeia de Emaús, e lhes explica o que
constava nas Escrituras a respeito dele. Iniciando por Moisés,
percorre todos os profetas, ou seja, esclarece-lhes somente o
que era importante e que deveria ser cumprido nesse contexto.
Portanto, confirma o que estamos dizendo desde o início, quer
dizer, que Ele não veio revogar ou abolir as profecias a Seu
respeito. Se tudo nas Escrituras fosse mesmo importante, não
iria restringir-se a só explicar o que nelas diziam sobre Ele. E
para provar que não estamos distorcendo os fatos, vejamos a
passagem seguinte:

Lucas 24,44-45: “A seguir Jesus lhes disse: 'São estas


palavras que eu vos falei, estando ainda convosco,
que importava se cumprisse tudo o que de mim
está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos
Salmos'. Então lhes abriu o entendimento para
compreenderem as Escrituras.” (grifo nosso)

Veja você, caro leitor, que é perfeitamente claro o que


255

Jesus quis dizer quanto ao cumprimento das Escrituras. Não


era, portanto, tudo quanto existia nelas, mas somente
importava que se cumprisse tudo o que dele estava
escrito nela, ou seja, sua origem da casa de Davi, sua missão,
todo o seu padecimento que culminou com sua morte na cruz e
sua gloriosa ressurreição. Assim, não há como entender de
outra forma, a não ser que as palavras de Jesus não sirvam
para nada ou que as queiramos distorcer.

João 1,17: “Porque a lei foi dada por intermédio de


Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus
Cristo.” ((grifo nosso)

Aqui temos uma nítida demonstração de que a Lei de


Moisés não é de suma importância para os cristãos, já que a
VERDADE veio por Jesus Cristo, e é a Ele que nós procuramos
seguir, e não a Moisés. Não poderemos dizer que a Lei de
Moisés não teve o seu valor; é claro que teve; entretanto, como
diz Jesus, somente até João (Lc 16,16). Isso porque, para um
povo atrasado, ela foi um fator de desenvolvimento.

João 1,45: “Filipe encontrou Natanael e lhe falou:


'Achamos aquele de quem escreveram Moisés na Lei
e os Profetas, Jesus, filho de José de Nazaré'.” (grifo
nosso)

Passagem que vem confirmar que as profecias a respeito


do Messias estavam se cumprindo no momento em que Jesus
inicia a sua vida pública. E era justamente nisso que os hebreus
esperavam, ansiosamente, que se cumprissem as Escrituras.

João 7,23: “Se um homem recebe a circuncisão no


sábado, para cumprir a Lei de Moisés, por que vos
256

irritais contra mim porque curei totalmente um homem


no sábado?” (grifo nosso)

João 8,5-7: “Na Lei, Moisés nos manda apedrejar as


adúlteras; mas tu o que dizes? […] Jesus […] lhes disse:
‘Aquele de vós que estiver sem pecado, atire-lhe a
primeira pedra'.” (grifo nosso)

Se, realmente, as leis que Moisés passou ao povo hebreu


fossem todas provenientes do Criador, por que nestas duas
passagens não se diz: cumprir a Lei de Deus e Na lei, Deus
nos manda, respectivamente? Porque eram leis de Moisés e
não provenientes da divindade. Tanto é que, na questão da
adúltera, Jesus não disse ao povo para cumprir a Lei; antes, ao
contrário, revoga-a, inclusive, demonstrando uma inteligência
que Lhe era peculiar.

Deus também jamais diria: “Não cobiçar a mulher do


próximo”, mandamento que realça ser, obviamente, um
produto da cultura de uma sociedade machista daquela época;
nada mais que isso, sendo, portanto, da forma que está
expressa, lei dos homens e não de Deus.

Paulo, em carta aos romanos, disse-lhes o seguinte:

Romanos 7,5: “Enquanto viviam segundo a carne, as


paixões pecaminosas, estimuladas pela Lei,
produziam fruto para a morte em nossos membros.”
(grifo nosso)

Podemos deduzir desta passagem, que a Lei estimulava


paixões pecaminosas? Se for isto mesmo, é porque ela, a Lei,
não era a VERDADE, que veio somente com Jesus. E no
versículo seguinte continua:
257

Romanos 7,6: “Mas agora, livres da Lei, estamos mortos


para aquilo que nos conservava prisioneiros, de sorte,
que podemos servir a Deus conforme um espírito
novo e não segundo a letra antiga.” (grifo nosso)

Livres da Lei, ou seja, que não estamos mais submissos


a ela. Não é claro isso? Se podemos servir a Deus conforme um
espírito novo, qual seja, os ensinamentos de Jesus, por que ficar
ainda apegados a Moisés (letra antiga)? O Antigo Testamento
foi revogado, ou ainda queremos permanecer na dúvida?

Mateus 5,19-20: “Aquele, pois, que violar um destes


mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar
aos homens, será considerado mínimo no reino dos
céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse
será considerado grande no reino dos céus. Porque vos
digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos
escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.”.

Nosso quadro é: Jesus na passagem evanglica do


Sermão do Monte, onde inicia dizendo os novos ensinamentos
que deveremos cumprir. São as verdades que Ele passa a todos
nós como roteiro de vida. São apenas os mandamentos que
disse para que não os violássemos. A partir dali, também, é que
altera e revoga a legislação de Moisés; confirmamos isso com
as passagens relativas ao capítulo 5 de Mateus, que serão
colocadas logo a seguir.

Mateus 5,21-22: “Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não


matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento'.
Eu, porém, vos digo que todo aquele que (sem motivo)
se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e
quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a
julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará
258

sujeito ao inferno de fogo.”

Moisés: Não matarás. Jesus: que não devemos nem


mesmo irar contra ou insultar ao nosso irmão.

Mateus 5,27-28: “Ouvistes que foi dito: 'Não


adulterarás'. Eu, porém, vos digo: Qualquer um que
olhar para uma mulher com intenção impura, no coração
já adulterou com ela.”

Moisés: Não adulterarás. Jesus: só o fato de olhar para


uma mulher com intenção impura, já cometemos
adultério.

Mateus 5,31-32: “Também foi dito: 'Aquele que repudiar


sua mulher, dê-lhe carta de divórcio'. Eu, porém, vos
digo: Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso
de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera;
e aquele que casar com a repudiada comete adultério.”

Moisés: poder-se-ia repudiar a mulher. Jesus: se a


repudiares estás expondo a mulher ao adultério.

Mateus 5,33-37: “Também ouvistes que foi dito aos


antigos: 'Não jurarás falso, mas cumprirás
rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos'.
Eu, porém, vos digo: De modo algum jureis: Nem pelo
céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser
estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade
do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não
podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a
tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem
do maligno.”

Moisés: Não jurarás falso. Jesus: De modo algum jureis.


259

Mateus 5,38-42: “Ouvistes que foi dito: 'Olho por olho,


dente por dente'. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao
perverso; mas a qualquer que te ferir na face direita,
volta-lhe também a outra; e ao que quer demandar
contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se
alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas.
Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que
deseja que lhe emprestes.”

Moisés: Olho por olho, dente por dente. Jesus: Quem te


ferir na face direita, volta-lhe também a outra.

Mateus 5,43-48: “Ouvistes que foi dito: 'Amarás o teu


próximo e odiarás o teu inimigo'. Eu, porém, vos digo:
Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos
perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai
celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e
bons, e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se
amardes os que vos amam, que recompensa tendes?
Não fazem os publicanos também o mesmo? E se
saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de
mais? Não fazem os gentios também o mesmo?
Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai
celeste.”

Moisés: Odiarás o teu inimigo. Jesus: Amai os vossos


inimigos.

Encontramos apoio ao nosso pensamento no exegeta


Bart D. Ehrman, que em sua obra O que Jesus disse? O que
Jesus não disse?: quem mudou a Bíblia e por quê, assim se
expressou:

Contudo, logo depois, os cristãos passaram a aceitar


outros escritos ao lado das Escrituras judaicas. Essa
aceitação pode ter tido origem no ensino autorizado do
260

próprio Jesus, à medida que seus seguidores tomaram a


sua interpretação das escrituras como dotada da mesma
autoridade conferida às palavras das próprias escrituras.
Jesus pode ter estimulado essa compreensão pelo
modo como parafraseava alguns de seus ensinamentos.
No Sermão da Montanha, por exemplo, vê-se Jesus
expondo leis dadas por Deus a Moisés e depois
dando sua própria e mais radical interpretação
delas, indicando que a sua interpretação é a
autorizada. (259) (grifo nosso)

Reputamos a opinião de Ehrman como de grande


importância, pois ele é considerado o maior especialista em
Novo Testamento da atualidade.

E, objetivamente, quanto à questão da revogação do


Antigo Testamento, vejamos o que encontramos de apoio a
essa tese no Novo Testamento:

1 Coríntios 15,2: “É pelo evangelho que vocês serão


salvos, contanto que o guardem de modo como eu lhes
anunciei; do contrário, vocês terão acreditado em vão.”
(grifo nosso)

Efésios 1,13: “Em Cristo, também vocês ouviram a


palavra da verdade, o Evangelho que os salva.” (grifo
nosso)

Paulo deixa claro que é pelo Evangelho que seremos


salvos; em outras palavras, ele não aceita o Antigo Testamento
como algo com que possamos nos salvar. Acreditamos que ver
ele vai mais além ao afirmar sobre a sua revogação:

2 Coríntios 3,14: “Mas os seus sentidos foram

259 EHRMAN, 2006, p. 40-41.


261

endurecidos: porque até hoje o mesmo véu está por


levantar na lição do velho testamento, o qual foi por
Cristo abolido.” (grifo nosso)

Esse versículo foi transcrito da Bíblia publicada pela


Sociedade Bíblica do Brasil, cujo teor poderá ser confirmado
com a versão bíblica utilizada por Cairbar Schutel (1868-1938)
na obra Espiritismo e Protestantismo:

2.ª Epístola aos Coríntios cap. III, 14: “Porém, os


seus sentidos foram endurecidos; porque até o dia de
hoje o mesmo véu fica por, levantar na lição do Velho
Testamento, O QUAL FOI REVOGADO POR CRISTO”.
(SCHUTEL e RIBEIRO JÚNIOR, 1987, p. 98, maiúscula
do original, grifo nosso)

A revogação do Antigo Testamento afirmada por Paulo,


faz todo o sentido quando a comparamos com o pensamento
do autor de Hebreus:

Hebreus 7,18-19: “Portanto, por um lado, se revoga a


anterior ordenança, por causa de sua fraqueza e
inutilidade (pois a lei nunca aperfeiçoou cousa alguma)
e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela
qual nos chegamos a Deus. E, visto que não é sem
prestar juramento (porque aqueles, sem juramento, são
feitos sacerdotes, mas este, com juramento, por aquele
que lhe disse: O Senhor jurou e não se arrependerá; Tu
és sacerdote para sempre); por isso mesmo Jesus se
tem tornado fiador de superior aliança.” (grifo
nosso)

Hebreus 8,6-8.13: “Agora, com efeito, obteve Jesus


ministério tanto mais excelente, quanto é ele
também mediador de superior aliança instituída com
base em superiores promessas. Porque, se aquela
262

primeira aliança tivesse sido sem defeito, de


maneira alguma estaria sendo buscado lugar para
segunda. E, de fato, repreendendo-os, diz: Eis aí vêm
dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa
de Israel e com a casa de Judá. Quando ele diz Nova,
torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna
antiquado e envelhecido, está prestes a desaparecer.”
(grifo nosso)

Hebreus 10,9: “[…] Desse modo, Cristo suprime o


primeiro culto para estabelecer o segundo.” (grifo
nosso)

Se até aqui ainda poderia existir alguma pequena


sombra de dúvida, agora foi definitivamente dissipada por
estas narrativas da carta aos Hebreus. Poderíamos até dizer:
“quem tem ouvidos que ouça”, mas diremos quem tem olhos
veja: a aliança anterior é fraca, inútil e com defeito,
enquanto que a nova é superior a ela. Quanto ao “está
prestes a desaparecer”, só não desapareceu ainda por causa da
insistência de alguns que querem, a todo custo, manter viva a
legislação de Moisés contida no Antigo Testamento. Repetindo:
Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem
defeito, de maneira alguma estaria sendo buscado lugar
para segunda.

Corroboramos nossa ideia com Ehrman:

Já mencionei que esta é a visão apresentada na


epístola dos Hebreus, do Novo Testamento, livro que
tenta mostrar que a religião baseada em Jesus é
superior à religião do judaísmo, em todos os sentidos.
Para o autor de Hebreus, Jesus é superior a Moisés,
que deu a Lei aos judeus (Hb 3); ele é superior a
Josué, que conquistou a terra prometida (Hb 3); ele é
263

superior aos sacerdotes que oferecem sacrifícios no


templo (Hb 4-5); e, o mais marcante, ele é superior aos
próprios sacrifícios (Hb 9-10). […]. (260) (grifo nosso)

Clara, então, fica a questão de Jesus ser superior a


Moisés.

Marcos 2,18-22: “Como os discípulos de João e os


fariseus estavam jejuando, foram lhe perguntar: 'Por
que é que os discípulos de João e os discípulos dos
fariseus jejuam, e os teus não?' Jesus lhes respondeu:
'Por acaso ficaria bem que os convidados para um
casamento fizessem jejum, enquanto o esposo está com
eles? Enquanto está, não convém. Mas virá um tempo
em que o esposo lhes será tirado. Então sim, eles vão
jejuar. Ninguém costura um remendo de pano novo
em roupa velha. Do contrário o remendo novo, pelo
fato de encolher, estraga a roupa velha e o rasgão fica
pior. Ninguém põe vinho novo em velhos
recipientes de couro. Caso contrário, o vinho
arrebentaria os recipientes. Ficariam perdidos os
recipientes e também o vinho. Para vinho novo,
recipientes novos!'.” (grifo nosso)

Seria o mesmo que Jesus dizer: Se vocês ficarem


apegados aos ensinamentos de Moisés, não conseguirão
suportar nem compreender o que agora vos trago. Onde se
falava sobre os jejuns? Não é no Velho Testamento, que, tanto
os fariseus e quanto os discípulos de João Batista, tiravam o
que seguiam? Lembremo-nos de que “a Lei e os Profetas
vigoraram até João” (Lc 16,16). Assim, não fica claro sua
revogação por Jesus? Só não o é para os que ainda insistem em

260 EHRMAN, 2008, p. 78.


264

seguir Moisés. Mais claro fica quando tomamos da nota de


rodapé constante do Novo Testamento, Edições Loyola, o
seguinte: “Tanto o pano novo como o vinho novo são símbolos
duma nova era (cf. At 10,11; Hbr 1,11; Gên 49,11-12); os
cristãos devem estar animados dum espírito novo,
incompatível com antigas prescrições do judaísmo já
ultrapassadas.” (261)

Há um episódio na vida de Jesus que nos levou a formar


uma forte convicção que seus ensinamentos eram superiores
aos de Moisés. É a passagem em que João narra, o que se
supõe como sendo, o primeiro milagre de Jesus. Apesar de
termos refletido muito sobre ela, ainda não tínhamos nenhuma
explicação que justificasse a atitude de Jesus em transformar
água em vinho, para embebedar os convidados da festa de que
participava.

Vejamos o episódio:

João 2,1-11: “No terceiro dia, houve uma festa de


casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus
estava aí. Jesus também tinha sido convidado para essa
festa de casamento, junto com seus discípulos. Faltou
vinho e a mãe de Jesus lhe disse: 'Eles não têm mais
vinho!' Jesus respondeu: 'Mulher, que existe entre nós?
Minha hora ainda não chegou'. A mãe de Jesus disse aos
que estavam servindo: 'Façam o que ele mandar'. Havia
aí seis potes de pedra de uns cem litros cada um, que
serviam para os ritos de purificação dos judeus. Jesus
disse aos que serviam: 'Encham de água esses potes'.
Eles encheram os potes até a boca. Depois Jesus disse:
'Agora tirem e levem ao mestre-sala'. Então levaram ao

261 Novo Testamento – Loyola, p. 57.


265

mestre-sala. Este provou a água transformada em vinho,


sem saber de onde vinha. Os que serviam estavam
sabendo, pois foram eles que tiraram a água. Então o
mestre-sala chamou o noivo e disse: 'Todos servem
primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão
bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho
bom até agora'. Foi assim, em Caná da Galileia, que
Jesus começou seus sinais. Ele manifestou a sua glória,
e seus discípulos acreditaram nele.”

Mas qual é o verdadeiro sentido dessa passagem? Nós o


encontraremos naquilo que a pessoa encarregada da festa
disse para o noivo: “Todos servem primeiro o vinho bom e,
quando os convidados estão bêbados, servem o pior. Você,
porém, guardou o vinho bom até agora”. Considerando que,
com esse primeiro ato público, Jesus inicia a sua missão,
podemos dizer que o “vinho bom guardado até agora” são os
ensinamentos de Jesus, superiores aos recebidos
anteriormente, por meio de Moisés que seria simbolicamente o
vinho de pior qualidade, até mesmo porque, e sem querer
desmerecê-los, a humanidade daquela época não estava
preparada para receber vinho (ensinamento) de melhor
qualidade, se assim podemos nos expressar.

Tudo o que já dissemos anteriormente sobre os ensinos


de Jesus, vale para corroborar essa nossa opinião. Mas
podemos ainda trazer como apoio a isso: “Em comparação com
esta imensa glória, o esplendor do ministério da antiga
aliança já não é mais nada” (2 Coríntios 3,10), e “Dessa
maneira é que se dá a ab-rogação do regulamento anterior em
virtude de sua fraqueza e inutilidade – a Lei, na verdade, nada
levou à perfeição – e foi introduzida uma esperança melhor
266

pela qual nos aproximamos de Deus” (Hebreis 7,18-19).

Concluímos que Jesus não se restringiu a só revogar os


rituais e sacrifícios como alguns pensam, para nós, foi muito
mais além disso. Comprovamos também que não distorcemos
as narrativas da Bíblia à nossa conveniência, de que tanto nos
acusam. São elas, exatamente, que nos dão uma base sólida
para afirmar com absoluta certeza que:

1 – O cumprimento da lei e dos profetas a que Jesus se


refere no Evangelho é apenas com relação às profecias
contidas nas Escrituras sobre Ele mesmo;

2 – Que somente tem que ser cumprido da Lei: Amar a


Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti
mesmo.

3 – Que nunca disse para seguirmos toda a Lei, aqui


entendida como todo o Pentateuco.

É muito comum recorrerem aos apologistas do


cristianismo primitivo para justificar esse ou aquele ponto,
entretanto, quando é algo contrário à crença vigente passam
por cima, como se não tivessem visto. Vejamos, por exemplo, o
que encontramos em Justino de Roma.

A opinião de Justino de Roma (c. 100-165 d.C.), tido


como o melhor apologista do século II, é bem clara no debate
que manteve com um sábio judeu, Trifão, que alguns estudiosos
identificam como sendo o célebre rabino Tarfão, morto em 155,
uma vez que Trifão seria a forma grega do hebraico Tarfão. ( 262).

262 JUSTINO, 1995, p. 107.


267

Desse debate, intitulado Diálogo com Trifão, que durou dois


dias, transcrevemos:

[…] Contudo, nós não a [confiança] depositamos por


meio de Moisés ou da Lei, pois nesse caso estaríamos
fazendo o mesmo que vós. Com efeito, ó Trifão, eu li
que deveria vir uma lei perfeita e uma aliança soberana
em relação às outras, que agora devem ser guardadas
por todos os homens que desejam a herança de Deus.
A Lei dada sobre o monte Horeb já está velha e
pertence apenas a vós. A outra, porém, pertence a
todos. Uma lei colocada contra outra lei anula a
primeira; uma aliança feita posteriormente também
deixa sem efeito a primeira. Cristo nos foi dado
como lei eterna e definitiva e como aliança fiel,
depois da qual não há mais nem lei, nem ordem, nem
mandamento. […]. (263) (grifo nosso)

Mais claro que isso é querer muito; não é mesmo?

Agora, podemos responder ao questionamento inicial: O


Antigo Testamento foi revogado por Jesus? Sim; sem nenhuma
sombra de dúvida. E é por isso que não nos sentimos na
obrigação de cumprir nada do que consta nele, até mesmo para
sermos coerentes com o que pensamos e por acreditar nessa
fala de Jesus: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém
vai ao Pai senão por mim” (João 14,6). Por que Ele se colocou
como sendo o caminho que conduz ao Pai e não a Moisés? É
porque somente os seus ensinos é que devem ser seguidos.

Esse é o entendimento a que chegamos. Entretanto, não


há como obrigar ninguém a pensar como nós. A única coisa que

263 JUSTINO, 1995, p. 127.


268

pedimos é para que as pessoas deixem de se apegar em


demasia aos velhos ensinamentos, como se eles fossem
verdadeiros.

A Terra já não é mais o centro do Universo, visto que o


homem, percebendo a ignorância de tal afirmativa, finalmente,
aceitou a voz da Ciência. Além de que, muitas coisas não foram
mudadas pelas cúpulas religiosas, justamente para que elas
conservassem, a todo custo, o domínio que têm sobre o povo e,
também, para que pudessem mantê-lo a todo custo.

Ainda hoje encontramos as que buscam incutir a


validade dos ensinamentos do Antigo Testamento não se dando
conta de que “rompestes com Cristo, vós que buscais a justiça
na Lei; caístes fora da graça” (Gálatas 5,4). Sabemos que não
fazem isso por ignorância, mas por esperteza visando dominar
seus “fiéis”, a fim de conseguir e manter o “poder” e o
“dinheiro” na base do que podemos chamar de terrorismo
religioso.
269

Jesus ficava calado?

“É uma pena, mas, quando se trata de


assuntos religiosos e espirituais, a superstição
e o medo da mudança que impregnam a
mente do público são profundos”. (TOM
HARPUR)

Vez por outra, ouvimos a afirmativa de que não devemos


responder a isso ou quilo, pois Jesus não respondeu a ninguém,
sempre permanecia calado. Interessante como certas coisas
facilmente são transformadas em mito. O mito, como sabemos,
é algo que prolifera e mesmo que seja o maior erro, torna-se
uma verdade para muitos. Isso acontece, pois, normalmente,
não somos dados a questionamentos, preferindo seguir pela
“trilha do bezerro” que abrir novo caminho pela mata.

Recebemos recentemente um e-mail em que uma leitora


nos propunha uma reflexão sobre nossa atitude de sempre
defender a Doutrina Espírita dos ataques gratuitos feitos pelos
detratores de plantão, nos sugerindo que, talvez, fosse melhor
que ficássemos calados seguindo o exemplo do Mestre.

Sinceramente, até então não tínhamos pensado mais


seriamente sobre isso mas dessa vez, não sabemos o porquê,
resolvemos ir à fonte para conhecer como exatamente as
coisas se deram. Assim, caro leitor, apresentamos agora o fruto
de nosso estudo sobre esse assunto.

Analisaremos várias passagens bíblicas a fim de


270

podermos saber como era realmente o comportamento de


Jesus: ficava mesmo calado? Não! Quem tiver curiosidade de ler
mais detidamente o Evangelho verá que a liderança religiosa da
época – escribas, fariseus, saduceus, sacerdotes e anciãos do
povo – não deram tréguas a Jesus. Entretanto, as narrativas nos
dão conta de que o Mestre jamais ficou calado, sempre os
respondeu à altura e nem mesmo os poupou de, por várias
vezes, chamá-los de hipócritas e em uma oportunidade os
comparou a sepulcros caiados, brancos por fora e podres por
dentro. Isso a nosso ver não é ficar calado.

Ao reler essas passagens foi que nos demos conta disso.


Veja, se temos ou não razão:

Mateus 5,20: “Com efeito, eu lhes garanto: se a justiça


de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos
fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu.”

Percebe-se por aqui que Jesus, em relação aos escribas e


fariseus, já os tomava a conta de pessoas às quais não
devíamos seguir o exemplo, cuja justiça não deveria ser
imitada.

Mateus 12,1-8: “Naquele tempo, Jesus passou por uns


campos de trigo, num dia de sábado. Seus discípulos
ficaram com fome, e começaram a apanhar espigas
para comer. Vendo isso, os fariseus disseram: 'Eis que
os teus discípulos estão fazendo o que não é permitido
fazer em dia de sábado!' Jesus perguntou aos fariseus:
'Vocês nunca leram o que Davi e seus companheiros
fizeram, quando estavam sentindo fome? Como ele
entrou na casa de Deus, e eles comeram os pães
oferecidos a Deus? Ora, nem para Davi, nem para os
271

que estavam com ele, era permitido comer os pães


reservados apenas aos sacerdotes. Ou vocês não leram
também, na Lei, que em dia de sábado, no Templo, os
sacerdotes violam o sábado, sem cometer falta?. Pois eu
digo a vocês: aqui está quem é maior do que o Templo.
Se vocês tivessem compreendido o que significa: 'Quero
a misericórdia e não o sacrifício', vocês não teriam
condenado estes homens que não estão em falta.
Portanto, o Filho do Homem é senhor do sábado'.”

Essa questão de fazer algo no sábado era para eles um


ponto de honra daí não perdiam oportunidade de importunar
Jesus, quando ele fazia algo nesse dia. Ao ser questionado,
sobre a atitude de seus discípulos em providenciar alimentação
num dia de sábado, Jesus respondeu-lhes à altura não deixando
passar batido, como se diria popularmente.

Mateus 12,9-14: “Jesus saiu desse lugar, e foi para a


sinagoga deles. Aí havia um homem com uma das mãos
paralisada. E, para poderem acusar Jesus, os fariseus
perguntaram: 'É permitido fazer cura em dia de
sábado?' Jesus respondeu: 'Suponham que um de vocês
tem uma só ovelha, e ela cai num buraco em dia de
sábado. Será que ele não a pegaria e não a tiraria de lá?
Ora, um homem vale muito mais do que uma ovelha!
Logo, é permitido fazer uma boa ação em dia de
sábado'. Então Jesus disse ao homem: 'Estenda a mão'.
O homem estendeu a mão, e ela ficou boa e sadia como
a outra. Logo depois, os fariseus saíram e fizeram um
plano para matar Jesus.”

Na continuação da narrativa anterior vemos Jesus


curando num dia de sábado mas, nem numa situação de
praticar o bem, os intolerantes de sua época achavam certa
272

essa atitude. Vemos, hoje em dia, os fundamentalistas agindo


quase que da mesma forma. Os tempos mudam, mas, para
muitos, é como se isso não ocorresse, já que ficam apegados ao
passado.

Mateus 12,22-37: “Então levaram a Jesus um


endemoninhado cego e mudo. Jesus o curou, de modo
que ele falava e enxergava. E todas as multidões
ficaram admiradas, e perguntavam: 'Será que ele não é
o filho de Davi?' Os fariseus ouviram isso, e disseram:
'Ele expulsa os demônios através de Belzebu, o príncipe
dos demônios!' Sabendo o que eles estavam pensando,
Jesus disse: 'Todo reino dividido em grupos que lutam
entre si, será arruinado. E toda cidade ou família
dividida em grupos que brigam entre si, não poderá
durar. E se Satanás expulsa Satanás, ele está dividido
contra si mesmo. Como, então, o seu reino poderá
sobreviver? Se é através de Belzebu que eu expulso os
demônios, através de quem os filhos de vocês expulsam
os demônios? Por isso, serão eles mesmos que julgarão
vocês. Mas se é através do Espírito de Deus que eu
expulso os demônios, então o Reino de Deus chegou
para vocês. Ainda: como alguém pode entrar na casa de
um homem forte, e se apoderar de suas coisas, se antes
não amarrar o homem forte? Só depois poderá roubar a
sua casa. Quem não está comigo, está contra mim. E
quem não recolhe comigo, espalha. É por isso que eu
digo a vocês: todo pecado e blasfêmia será perdoado
aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será
perdoada. Quem disser alguma coisa contra o Filho do
Homem, será perdoado. Mas quem disser algo contra o
Espírito Santo, nunca será perdoado, nem neste mundo,
nem no mundo que há de vir. Se vocês plantarem uma
árvore boa, o fruto dela será bom; mas se vocês
plantarem uma árvore má, também o fruto dela será
273

mau, porque é pelo fruto que se conhece a árvore. Raça


de cobras venenosas! Se vocês são maus, como podem
dizer coisas boas? Pois a boca fala aquilo de que o
coração está cheio. O homem bom tira coisas boas do
seu bom tesouro, e o homem mau tira coisas más do
seu mau tesouro. Eu digo a vocês: no dia do
julgamento, todos devem prestar contas de cada
palavra inútil que tiverem falado. Porque você será
justificado por suas próprias palavras, e será condenado
por suas próprias palavras'.”

Nem ainda saímos do capítulo doze e já encontramos


mais uma outra situação em que a liderança religiosa, cega no
seu saber, questiona a Jesus, quando o Mestre liberta uma
criatura endemoninhada. Para seus adversários ele fazia isso
porque era o príncipe dos demônios ao que Jesus lhes responde
com maestria. E, destacamos, ao final ainda os chama de raça
de cobras venenosas, atiçando a ira deles. Daqui percebemos
que também a liderança religiosa nos dias atuais faz
exatamente a mesma coisa em relação ao Espiritismo, que,
apesar de libertar muitas pessoas das influências espirituais
inferiores, é taxado de “obra do demônio”. Deveríamos repetir
Jesus dizendo-lhes: raça de víboras?

Mt 12,38-42: “Então alguns doutores da Lei e fariseus


disseram a Jesus: 'Mestre, queremos ver um sinal
realizado por ti'. Jesus respondeu: 'Uma geração má e
adúltera busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será
dado, a não ser o sinal do profeta Jonas. De fato, assim
como Jonas passou três dias e três noites no ventre da
baleia, assim também o Filho do Homem passará três
274

dias e três noites no seio da terra. No dia do


julgamento, os homens da cidade de Nínive ficarão de
pé contra esta geração, e a condenarão. Porque eles
fizeram penitência quando ouviram Jonas pregar. E
aqui está quem é maior do que Jonas. No dia do
julgamento, a rainha do Sul se levantará contra esta
geração, e a condenará. Porque ela veio de uma terra
distante para ouvir a sabedoria de Salomão. E aqui está
quem é maior do que Salomão'"

Aos doutores da Lei e fariseus que queriam um sinal


como prova de que Jesus era mesmo o Messias resposta de
Jesus não se fez esperar; tanto que, nessa ocasião, os chama
de geração má e adúltera.

Mateus 15,1-14: “Alguns fariseus e diversos doutores da


Lei, de Jerusalém, se aproximaram de Jesus, e
perguntaram: 'Por que os teus discípulos desobedecem
à tradição dos antigos? De fato, comem pão sem lavar
as mãos!' Jesus respondeu: 'Por que é que vocês
também desobedecem ao mandamento de Deus em
nome da tradição de vocês? Pois Deus disse: 'Honre seu
pai e sua mãe'. E ainda: 'Quem amaldiçoa o pai ou a
mãe, deve morrer'. E no entanto vocês ensinam que
alguém pode dizer ao seu pai e à sua mãe: 'O sustento
que vocês poderiam receber de mim é consagrado a
Deus'. E essa pessoa fica dispensada de honrar seu pai
ou sua mãe. Assim vocês esvaziaram a palavra de Deus
com a tradição de vocês. Hipócritas! Isaías profetizou
muito bem sobre vocês, quando disse: 'Esse povo me
honra com os lábios, mas o coração deles está longe de
mim. Não adianta nada eles me prestarem culto, porque
ensinam preceitos humanos.' Em seguida, Jesus chamou
275

a multidão para perto dele, e disse: 'Escutem e


compreendam. Não é o que entra na boca que torna o
homem impuro, mas o que sai da boca, isso torna o
homem impuro'. Então os discípulos se aproximaram, e
disseram a Jesus: 'Sabes que os fariseus ficaram
escandalizados com o que disseste?' Jesus respondeu:
'Toda planta que não foi plantada pelo meu Pai celeste
será arrancada. Não se preocupem com eles. São cegos
guiando cegos. Ora, se um cego guia outro cego, os dois
cairão num buraco'.”

A liderança religiosa tinha um apego exagerado à


tradição, fazia dela uma questão religiosa daí se espantarem
quando os discípulos não lavaram as mãos antes de comerem.
Novamente recebem de Jesus uma resposta à altura, que os
chama de hipócritas e guias cegos.

Mateus 16,5-12: “Quando atravessaram para o outro


lado do mar, os discípulos se esqueceram de levar pães.
Então Jesus disse: 'Prestem atenção, e tomem cuidado
com o fermento dos fariseus e dos saduceus'. Os
discípulos pensavam consigo mesmos: 'É porque não
trouxemos pães'. Mas Jesus percebeu, e perguntou: 'Por
que vocês estão pensando na falta de pães, homens de
pouca fé? Vocês ainda não compreendem, nem mesmo
se lembram dos cinco pães para cinco mil homens, e de
quantos cestos vocês recolheram? Nem dos sete pães
para quatro mil homens, e quantos cestos vocês
recolheram? Como é que não compreendem que eu não
estava falando de pão com vocês? Tomem cuidado com
o fermento dos fariseus e saduceus'. Então eles
perceberam que Jesus não tinha falado para tomar
cuidado com o fermento de pão, mas com o
ensinamento dos fariseus e saduceus.”
276

Aqui Jesus recomenda aos discípulos para não seguirem


o ensinamento dos fariseus e saduceus. Ficamos a pensar se
Jesus não manteria esse discurso à liderança religiosa atual!
Assim, com essa atitude, Jesus deixa claro que os ensinamentos
deles não são de cunho divino, mas apenas fruto de seus
próprios interesses, tal e qual está acontecendo nos dias atuais.

Mateus 19,1-12: “Quando Jesus acabou de dizer essas


palavras, ele partiu da Galileia, e foi para o território da
Judeia, no outro lado do rio Jordão. Numerosas
multidões o seguiram, e Jesus aí as curou. Alguns
fariseus se aproximaram de Jesus, e perguntaram, para
o tentar: 'É permitido ao homem divorciar-se de sua
mulher por qualquer motivo?' Jesus respondeu: 'Vocês
nunca leram que o Criador, desde o início, os fez
homem e mulher? E que ele disse: 'Por isso, o homem
deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e os
dois serão uma só carne'? Portanto, eles já não são
dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o
homem não deve separar'. Os fariseus perguntaram:
'Então, como é que Moisés mandou dar certidão de
divórcio ao despedir a mulher?' Jesus respondeu:
'Moisés permitiu o divórcio, porque vocês são duros de
coração. Mas não foi assim desde o início. Eu, por isso,
digo a vocês: quem se divorciar de sua mulher, a não
ser em caso de fornicação, e casar-se com outra,
comete adultério'. Os discípulos disseram a Jesus: 'Se a
situação do homem com a mulher é assim, então é
melhor não se casar'. Jesus respondeu: 'Nem todos
entendem isso, a não ser aqueles a quem é concedido.
De fato, há homens castrados, porque nasceram assim;
outros, porque os homens os fizeram assim; outros,
ainda, se castraram por causa do Reino do Céu. Quem
puder entender, entenda'.”
277

Obviamente, que nesse episódio, os fariseus não


estavam querendo se instruir, mas queriam colocar Jesus em
situação difícil, ou seja, tudo que dissesse seria usado contra
ele. Esse episódio é semelhante ao que nos acontece agora,
quando algum fundamentalista emite perguntas capciosas,
intentando colocar-nos contra a “palavra de Deus”.

Mateus 21,23-27: “Jesus voltou ao Templo. Enquanto


ensinava, os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo
se aproximaram, e perguntaram: 'Com que autoridade
fazes tais coisas? Quem foi que te deu essa autoridade?'
Jesus respondeu: 'Eu também vou fazer uma pergunta
para vocês. Se responderem, eu também direi a vocês
com que autoridade faço isso. De onde era o batismo de
João? Do céu ou dos homens?' Mas eles raciocinavam,
pensando: 'Se respondemos que vinha do céu, ele vai
dizer: 'Então, por que vocês não acreditaram em João?'
Se respondemos que vinha dos homens, temos medo da
multidão, pois todos consideram João como um profeta'.
Eles então responderam a Jesus: 'Não sabemos'. E
Jesus disse a eles: 'Pois eu também não vou dizer a
vocês com que autoridade faço essas coisas'.”

A todo momento Jesus era questionado quanto à sua


autoridade, ao que sempre respondia altura dos seus
interlocutores, de forma que os deixava acuados perante suas
próprias colocações. Diríamos, popularmente: “perderam uma
ótima ocasião de ficar calados”.

Mateus 21,33-46: “Escutem essa outra parábola: Certo


proprietário plantou uma vinha, cercou-a, fez um
tanque para pisar a uva, e construiu uma torre de
guarda. Depois arrendou a vinha para alguns
agricultores, e viajou para o estrangeiro. Quando
278

chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus


empregados aos agricultores para receber os frutos. Os
agricultores, porém, agarraram os empregados,
bateram num, mataram outro, e apedrejaram o
terceiro. O proprietário mandou de novo outros
empregados, em maior número que os primeiros. Mas
eles os trataram da mesma forma. Finalmente, o
proprietário enviou-lhes o seu próprio filho, pensando:
'Eles vão respeitar o meu filho'. Os agricultores, porém,
ao verem o filho, pensaram: 'Esse é o herdeiro.
Venham, vamos matá-lo, e tomar posse da sua
herança'. Então agarraram o filho, o jogaram para fora
da vinha, e o mataram. Pois bem: quando o dono da
vinha voltar, o que irá fazer com esses agricultores?' Os
chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo
responderam: 'É claro que mandará matar de modo
violento esses perversos, e arrendará a vinha a outros
agricultores, que lhe entregarão os frutos no tempo
certo'. Então Jesus disse a eles: 'Vocês nunca leram na
Escritura: 'A pedra que os construtores deixaram de
lado tornou-se a pedra mais importante; isso foi feito
pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos'? Por isso
eu lhes afirmo: o Reino de Deus será tirado de vocês, e
será entregue a uma nação que produzirá seus frutos.
Quem cair sobre essa pedra, ficará em pedaços; e
aquele sobre quem ela cair, será esmagado'. Os chefes
dos sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas de
Jesus, e compreenderam que estava falando deles.
Procuraram prender Jesus, mas ficaram com medo das
multidões, pois elas consideravam Jesus um profeta.”

Constata-se, também, que Jesus não deixava por menos


quando se defrontava com essa “raça de cobras venenosas”.
Aqui, percebe-se, claramente, que a parábola é dirigida a eles
tal fato, nitidamente percebido por todos, lhes aumentava a
279

raiva que nutriam por Jesus. Aguardavam, assim, o momento


propício para lhe darem o venenoso bote.

Mateus 22,15-22: “Então os fariseus se retiraram, e


fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma
palavra. Mandaram os seus discípulos, junto com alguns
partidários de Herodes, para dizerem a Jesus: 'Mestre,
sabemos que tu és verdadeiro, e que ensinas de fato o
caminho de Deus. Tu não dás preferência a ninguém,
porque não levas em conta as aparências. Dize-nos,
então, o que pensas: É lícito ou não é, pagar imposto a
César?' Jesus percebeu a maldade deles, e disse:
'Hipócritas! Por que vocês me tentam? Mostrem-me a
moeda do imposto'. Levaram então a ele a moeda. E
Jesus perguntou: 'De quem é a figura e inscrição nesta
moeda?' Eles responderam: 'É de César'. Então Jesus
disse: 'Pois deem a César o que é de César, e a Deus o
que é de Deus'. Ouvindo isso, eles ficaram admirados.
Deixaram Jesus, e foram embora.”

Nunca perderam uma oportunidade de colocar Jesus


numa situação difícil, sendo isso cabalmente denotado nessa
situação. Percebendo a segunda intenção deles, Jesus, sem
meias palavras, disse-lhes: “hipócritas!” Não poucas vezes os
chamou desse modo, apontando-lhes a falsidade.

Mateus 22,23-33: “Os saduceus afirmam que não existe


ressurreição. Alguns deles se aproximaram de Jesus, e
lhe propuseram este caso: 'Mestre, Moisés disse: 'Se
alguém morrer sem ter filhos, o irmão desse homem
deve casar-se com a viúva, a fim de que possam ter
filhos em nome do irmão que morreu'. Pois bem, havia
entre nós sete irmãos. O primeiro casou-se, e morreu
sem ter filhos, deixando a mulher para seu irmão. Do
mesmo modo aconteceu com o segundo e o terceiro, e
280

assim com os sete. Depois de todos eles, morreu


também a mulher. Na ressurreição, de qual dos sete ela
será mulher? De fato, todos a tiveram'. Jesus
respondeu: 'Vocês estão enganados, porque não
conhecem as Escrituras, nem o poder de Deus. De fato,
na ressurreição, os homens e as mulheres não se
casarão, pois serão como os anjos do céu. E, quanto à
ressurreição, será que não leram o que Deus disse a
vocês: 'Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o
Deus de Jacó'. Ora, ele não é Deus dos mortos, mas dos
vivos'. Ouvindo isso, as multidões ficaram
impressionadas com o ensinamento de Jesus.”

A pergunta dos saduceus não tinha por objetivo


esclarecerem-se sobre o assunto, mas, tão somente, constatar
se Jesus possuía a capacidade de se explicar, já que,
intimamente, acreditavam que não por conseguinte, adveio o
desejo de pegá-lo com suas próprias palavras.

Mateus 22,34-40: “Os fariseus ouviram dizer que Jesus


tinha feito os saduceus se calarem. Então eles se
reuniram em grupo, e um deles perguntou a Jesus para
o tentar: 'Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?'
Jesus respondeu: 'Ame ao Senhor seu Deus com todo o
seu coração, com toda a sua alma, e com todo o seu
entendimento. Esse é o maior e o primeiro
mandamento. O segundo é semelhante a esse: Ame ao
seu próximo como a si mesmo. Toda a Lei e os Profetas
dependem desses dois mandamentos'.”

Nem bem deixou os saduceus acuados, aparecem-lhe os


fariseus, que, no íntimo, pensavam serem mais capazes que os
primeiros. Assim, fizeram um novo questionamento a Jesus.
Com certeza orgulhosos que eram, pensavam, intimamente,
281

conduzirem Jesus àquilo que obstinadamente queriam: usar as


palavras do Mestre para obterem um bom motivo de o matarem
ou, na pior das hipóteses, confrontá-lo com o político.

Mateus 22,41-46: “Os fariseus estavam reunidos, e


Jesus lhes perguntou: 'O que é que vocês acham do
Messias? Ele é filho de quem?' Os fariseus responderam:
'De Davi'. Então Jesus disse: 'Como é que Davi, pelo
Espírito, o chama Senhor, quando afirma: 'O Senhor
disse ao meu Senhor: sente-se à minha direita, até que
eu ponha os seus inimigos debaixo dos seus pés'? Se o
próprio Davi o chama de Senhor, como ele pode ser seu
filho?' E ninguém podia responder a Jesus uma só
palavra. Desse dia em diante, ninguém mais se arriscou
a fazer perguntas a Jesus.”

Nessa passagem, verifica-se que Jesus é quem os indaga.


Agindo sabiamente, os coloca em uma situação embaraçosa. O
feitiço virou contra o feiticeiro, diríamos. Enfrenta-os destemido,
mesmo conhecendo suas reais intenções mas não os deixava
sem respostas às suas indagações, por mais difíceis que
fossem.

Mateus 23,1-12: “Jesus falou às multidões e aos seus


discípulos: 'Os doutores da Lei e os fariseus têm
autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso,
vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem.
Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não
praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no
ombro dos outros, mas eles mesmos não estão
dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. Fazem
todas as suas ações só para serem vistos pelos outros.
Vejam como eles usam faixas largas na testa e nos
braços, e como põem na roupa longas franjas, com
trechos da Escritura. Gostam dos lugares de honra nos
282

banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas;


gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, e
de que as pessoas os chamem mestre. Quanto a vocês,
nunca se deixem chamar mestre, pois um só é o Mestre
de vocês, e todos vocês são irmãos. Na terra, não
chamem a ninguém Pai, pois um só é o Pai de vocês,
aquele que está no céu. Não deixem que os outros
chamem vocês líderes, pois um só é o Líder de vocês: o
Messias. Pelo contrário, o maior de vocês deve ser
aquele que serve a vocês. Quem se eleva será
humilhado, e quem se humilha será elevado'.”

Ao recomendar a todos que não agissem como os


doutores da lei e fariseus, implicitamente, estava chamando-os,
indubitavelmente, de hipócritas. Jesus vai mais longe quando
menciona que gostavam de serem vistos, dos primeiros
lugares, de serem destacados na multidão, deixando a
descoberto todo orgulho que acalentavam em seus corações.
Podemos acrescentar que usavam a religião para esse fim, fato
comum, também, nos dias de hoje, quando essa liderança
religiosa, que se vê por aí, busca na religião um veículo de
satisfação de seu próprio interesse, ao invés de se preocupar,
efetivamente, com a salvação dos fiéis.

Mateus 23,13-36: “Ai de vocês, doutores da Lei e


fariseus hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para
os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar
aqueles que desejam. Ai de vocês, doutores da Lei e
fariseus hipócritas! Vocês exploram as viúvas, e roubam
suas casas e, para disfarçar, fazem longas orações! Por
isso, vocês vão receber uma condenação mais severa.
Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês
percorrem o mar e a terra para converter alguém, e
quando conseguem, o tornam merecedor do inferno
283

duas vezes mais do que vocês. Ai de vocês, guias cegos!


Vocês dizem: 'Se alguém jura pelo Templo, não fica
obrigado, mas se alguém jura pelo ouro do Templo, fica
obrigado'. Irresponsáveis e cegos! O que vale mais: o
ouro ou o Templo que santifica o ouro? Vocês dizem
também: 'Se alguém jura pelo altar, não fica obrigado,
mas se alguém jura pela oferta que está sobre o altar,
esse fica obrigado'. Cegos! O que vale mais: a oferta ou
o altar que santifica a oferta? De fato, quem jura pelo
altar, jura por ele e por tudo o que está sobre ele. E
quem jura pelo Templo, jura por ele e por Deus que
habita no Templo. E quem jura pelo céu, jura pelo trono
de Deus e por aquele que nele está sentado. Ai de
vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês
pagam o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho,
e deixam de lado os ensinamentos mais importantes da
Lei, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês
deveriam praticar isso, sem deixar aquilo. Guias cegos!
Vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo. Ai
de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês
limpam o copo e o prato por fora, mas por dentro vocês
estão cheios de desejos de roubo e cobiça. Fariseu cego!
Limpe primeiro o copo por dentro, e assim o lado de
fora também ficará limpo. Ai de vocês, doutores da Lei e
fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados:
por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios
de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês:
por fora, parecem justos diante dos outros, mas por
dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça. Ai de
vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês
constroem sepulcros para os profetas, e enfeitam os
túmulos dos justos, e dizem: 'Se tivéssemos vivido no
tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices na
morte dos profetas'. Com isso, vocês confessam que são
filhos daqueles que mataram os profetas. Pois bem:
acabem de encher a medida dos pais de vocês!
284

Serpentes, raça de cobras venenosas! Como é que


vocês poderiam escapar da condenação do inferno? É
por isso que eu envio a vocês profetas, sábios e
doutores: a uns vocês matarão e crucificarão, a outros
torturarão nas sinagogas de vocês, e os perseguirão de
cidade em cidade. Desse modo, virá sobre vocês todo o
sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue
de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de
Baraquias, que vocês assassinaram entre o santuário e
o altar. Eu garanto a vocês: tudo isso acontecerá a essa
geração.”

Essa é, talvez, a passagem em que mais Jesus chamou a


liderança religiosa de hipócrita. Aqui, desnudou aqueles falsos
líderes, demonstrando que realmente preocupavam-se tão
somente com aquilo que pudesse satisfazer seus desejos,
explorando, para isso, a fé do povo. Infelizmente, tal forma de
proceder está presente nos “lideres” contemporâneos.

Marcos 2,1-12: “Alguns dias depois, Jesus entrou de


novo na cidade de Cafarnaum. Logo se espalhou a
notícia de que Jesus estava em casa. E tanta gente se
reuniu aí que já não havia lugar nem na frente da casa.
E Jesus anunciava a palavra. Levaram então um
paralítico, carregado por quatro homens. Mas eles não
conseguiam chegar até Jesus, por causa da multidão.
Então fizeram um buraco no teto, bem em cima do lugar
onde Jesus estava, e pela abertura desceram a cama
em que o paralítico estava deitado. Vendo a fé que eles
tinham, Jesus disse ao paralítico: 'Filho, os seus
pecados estão perdoados'. Ora, alguns doutores da Lei
estavam aí sentados, e começaram a pensar: 'Por que
este homem fala assim? Ele está blasfemando! Ninguém
pode perdoar pecados, porque só Deus tem poder para
isso!' Jesus logo percebeu o que eles estavam pensando
285

no seu íntimo, e disse: 'Por que vocês pensam assim? O


que é mais fácil dizer ao paralítico: 'Os seus pecados
estão perdoados', ou dizer: 'Levante-se, pegue a sua
cama e ande?' Pois bem, para que vocês saibam que o
Filho do Homem tem poder na terra para perdoar
pecados, - disse Jesus ao paralítico eu ordeno a você:
Levante-se, pegue a sua cama e vá para casa'. O
paralítico então se levantou e, carregando a sua cama,
saiu diante de todos. E todos ficaram muito admirados e
louvaram a Deus dizendo: 'Nunca vimos uma coisa
assim!'.”

Algumas vezes esses críticos não tinham coragem de


externar suas ideias; mas, mesmo assim, no íntimo, o faziam.
Jesus, conhecendo-lhes o pensamento, rebate essa crítica
“mental” para não perder mais essa oportunidade de provar-
lhes a incoerência de suas atitudes.

Marcos 2,15-17: “Mais tarde, Jesus estava comendo na


casa de Levi. Havia vários cobradores de impostos e
pecadores na mesa com Jesus e seus discípulos; com
efeito, eram muitos os que o seguiam. Alguns doutores
da Lei, que eram fariseus, viram que Jesus estava
comendo com pecadores e cobradores de impostos.
Então eles perguntaram aos discípulos: 'Por que Jesus
come e bebe junto com cobradores de impostos e
pecadores?' Jesus ouviu e respondeu: 'As pessoas que
têm saúde não precisam de médico, mas só as que
estão doentes. Eu não vim para chamar justos, e sim
pecadores'.”

Mas não havia nada que Jesus fizesse que agradasse


essa liderança religiosa... Tudo quanto fazia era motivo de
críticas. Será que é mera coincidência o que está acontecendo
286

nos dias atuais em relação ao Espiritismo, ou será que os


líderes religiosos de hoje são os saduceus e fariseus de antanho
em nova reencarnação?

Marcos 2,18-22: “Os discípulos de João Batista e os


fariseus estavam fazendo jejum. Então alguns
perguntaram a Jesus: 'Por que os discípulos de João e
os discípulos dos fariseus fazem jejum e os teus
discípulos não fazem?' Jesus respondeu: 'Vocês acham
que os convidados de um casamento podem fazer jejum
enquanto o noivo está com eles? Enquanto o noivo está
presente, os convidados não podem fazer jejum. Mas
vão chegar dias em que o noivo será tirado do meio
deles. Nesse dia eles vão jejuar. Ninguém põe um
remendo de pano novo em roupa velha; porque o
remendo novo repuxa o pano e o rasgo fica maior ainda.
Ninguém coloca vinho novo em barris velhos; porque o
vinho novo arrebenta os barris velhos, e o vinho e os
barris se perdem. Por isso, vinho novo deve ser
colocado em barris novos'.”

O apego às determinações de Moisés também era um


dos motivos pelos quais eles não deixavam de criticar as
atitudes de Jesus, já que o Mestre não parecia muito disposto a
seguir ao pé da letra tais recomendações. Analisando a sua
resposta podemos entender que Jesus claramente sobrepõe
seus ensinamentos aos de Moisés; todavia, apesar disso ser tão
óbvio, a liderança religiosa finge não ver. Para ela é
interessante manter também a legislação anterior, pois é desta
a premissa de que só se salvará aquele fiel que, pontualmente,
pagar o dízimo.

Lucas 16,14-15: “Os fariseus, que são amigos do


dinheiro, ouviam tudo isso, e caçoavam de Jesus. Então
287

Jesus disse para eles: 'Vocês gostam de parecer justos


diante dos homens, mas Deus conhece os corações de
vocês. De fato, o que é importante para os homens, é
detestável para Deus'.”

Mais uma vez, Jesus ressalta a hipocrisia dos fariseus.


Assim como ocorria àquela época, a liderança religiosa atual
caçoa daqueles que vêm justamente tentar restaurar os
verdadeiros ensinamentos de Jesus mediante o Espiritismo.

Lucas 19,37-40: “Quando Jesus estava junto à descida


do monte das Oliveiras, toda a multidão de discípulos
começaram, alegres, a louvar a Deus em voz alta, por
todos os milagres que tinham visto. E dizia: 'Bendito
seja aquele que vem como Rei, em nome do Senhor!
Paz no céu e glória no mais alto do céu'. No meio da
multidão, alguns fariseus disseram a Jesus: 'Mestre,
manda que teus discípulos se calem'. Jesus respondeu:
'Eu digo a vocês: se eles se calarem, as pedras
gritarão'.”

Nota-se que até mesmo o fato de Jesus ter sido


aclamado pelos seus discípulos, incomodava os fariseus. Mas
não ficaram sem resposta, já que esse é o estilo do Mestre, que
perfeitamente estamos identificando ao longo desse estudo.

Aqui, terminamos as passagens em que Jesus responde


a todas as críticas dos seus opositores, dando, a todas elas, a
devida resposta. Não os poupou ao chamá-los de hipócritas,
raça de víboras, entre outras denominações. Entretanto, agora
vamos apresentar uma atitude ainda mais enérgica de Jesus, a
qual demonstra, perfeitamente, que ele não agia como um
manso cordeirinho, conforme querem que pensemos. Vejamos:
288

Mateus 21,12-13: “Jesus entrou no Templo, e expulsou


todos os que vendiam e compravam no Templo.
Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos
vendedores de pombas. E disse: 'Está nas Escrituras:
'Minha casa será chamada casa de oração'. No entanto,
vocês fizeram dela uma toca de ladrões'.”

Nesse ponto, mais energicamente ainda, agiu Jesus ao


expulsar do Templo os cambistas e todos que estavam ali a
vender, levando-nos a concluir que ele não era tão manso
assim como querem pintá-lo. Acaba por insinuar que eram
todos eles ladrões na toca.

Bom; até agora somente apontamos passagens


demonstrando que Jesus não cultivava o silêncio. Alguém
poderia nos perguntar: “será que você não está distorcendo os
fatos, considerando que, possivelmente, em algum momento,
ele tenha mesmo silenciado?” A resposta é negativa: a verdade
joga por terra toda essa ideia que tentam nos passar, ou seja,
de um Mestre sem personalidade, pois, para nós, quem age tão
mansamente assim é desprovido dessa característica. Vejamos
então esta passagem:

Mateus 27,1-2.11-14: “De manhã cedo, todos os chefes


dos sacerdotes e os anciãos do povo convocaram um
conselho contra Jesus, para o condenarem à morte. Eles
o amarraram e o levaram, e o entregaram a Pilatos, o
governador. Jesus foi posto diante do governador, e
este o interrogou: 'Tu és o rei dos judeus?' Jesus
declarou: 'É você que está dizendo isso'. E nada
respondeu quando foi acusado pelos chefes dos
sacerdotes e anciãos. Então Pilatos perguntou: 'Não
estás ouvindo de quanta coisa eles te acusam?' Mas
Jesus não respondeu uma só palavra, e o governador
289

ficou vivamente impressionado.”

Está aí a única passagem em que Jesus nada respondeu.


Foi exatamente aquela em que os chefes dos sacerdotes e
anciões o acusaram diante de Pilatos. Mas isso se justifica, pois
consciente de seu destino, em relação à sua missão,
simplesmente entregou-se a ele. Pensamos que, se tivesse
resistido, teria sido solto, obviamente, assim, se sua missão era
morrer na cruz, esse fato não deveria ocorrer, se ele se
defendesse a sua missão não teria sido cumprida.

A conclusão obtida nesse estudo é a seguinte: devemos


sim, contestar todas as críticas e acusações que fazem ao
Espiritismo, atitude perfeitamente compatível com a de Jesus, a
quem devemos seguir incondicionalmente.

Mas, para que não fiquemos adstritos apenas à nossa


opinião pessoal, vejamos o que o confrade Divaldo Pereira
Franco, disse há tempos, especificamente em 17/06/2001,
quando, ao comparecer no programa “Espiritismo Via Satélite”,
pela Rede Visão, lhe fizemos esta pergunta:

“Caro Divaldo, considerando que Kardec no Projeto


1868, sugere que entre as atribuições da Comissão
Central, a ser criada para coordenar o movimento
espírita, estaria a refutação dos ataques ao Espiritismo
resumimos que os Espíritos Superiores concordaram
com essa recomendação de Kardec. Assim lhe
perguntamos: será que hoje os Espíritos não concordam
com isso, ou seja, que não devemos refutar os ataques à
Doutrina Espírita ou isso é coisa dos Espíritas?”
A sua resposta foi:
290

Naturalmente devemos refutar. Mas refutar numa


linguagem nobre. O difícil é encontrar as pessoas que
possuam condições para enfrentar esses debates sem
descerem aos níveis infelizes dos agressores. A nossa
imprensa Espírita, na medida do possível, através de
homens e mulheres admiráveis, tem refutado as
agressões que o Espiritismo vem sofrendo.

Ainda há pouco lemos aqui, na Internet, a Rede


Visão refutando agressões muito dolorosas, desonestas
e não autênticas veiculadas por uma revista protestante
que a espalhou por todo o mundo. Espíritas de
diferentes países receberam essa revista, inclusive na
Bélgica e na Itália, na qual está exarado um ataque
muito grosseiro à reencarnação, sem qualquer
fundamento, porque toda a documentação é adulterada
e direcionada e, no entanto, aqui a Rede Visão, através
da Internet como pode ser lida, está enfrentando. E o
vem fazendo com muita assiduidade. Nós devemos,
sim, refutar todas as agressões à Doutrina nobre, mas
nunca descermos ao baixo nível dos nossos agressores.

Apenas a título de informação: o que Divaldo cita que


leu na Internet, são, por coincidência, textos de nossa autoria
que estavam publicados no site da Rede Visão.

O e-mail, do qual falamos no início, foi providencial e


sinceramente já agradecemos ao autor por nos tê-lo enviado,
pois ele foi motivo de estudo e reflexão de nossa parte.

Se, antes, tínhamos alguma dúvida em relação à defesa


da Doutrina Espírita, embora saibamos que o próprio Allan
Kardec (1804-1869) não deixou por menos, fato que parece ser
ignorado pela maioria dos Espíritas, agora não temos mais, pois
enganam-se os que pensam que Jesus ficou o tempo todo
291

calado; e é por ele que nos esforçamos, tentando seguir o seu


exemplo.
292

Ressurreição da Carne?

“[…] a carne e o sangue não poderão herdar o


reino de Deus”. (1 Coríntios 15,50)

Não é de hoje que este assunto é encarado, pelos fiéis


das inúmeras correntes religiosas cristãs, como uma coisa
líquida e certa. Entretanto, a ciência vem afirmar que o nosso
corpo físico, no processo de sua decomposição, restitui à
natureza os elementos – carbono, hidrogênio, azoto, oxigênio,
etc. – de quem tomou emprestado.

Este é mais um dos muitos motivos pelo qual não se


concilia a Ciência com a religião, mas numa análise mais
profunda, sem preconceito e nem dogmatismo, vimos que,
biblicamente falando, a ressurreição nunca foi a da carne, como
se apregoa por aí.

Parece-nos que, pela análise de algumas passagens


bíblicas, o que encontramos foi justamente o contrário.
Vejamos:

Mateus 22,30: “De fato, na ressurreição, os homens e as


mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do
céu.”

Todos nós acreditamos que, indiscutivelmente, os anjos


não possuem corpo físico. Jesus afirma que na ressurreição os
homens e mulheres serão como os anjos do céu, por isso não
se casarão, Ele nos remete à questão da ressurreição espiritual.
293

João 4,24: “Deus é Espírito.”

Aqui temos um paradoxo, pois a nós, segundo a crença


dogmática, caberia viver no plano espiritual na mesma
condição de vida que tínhamos aqui no plano físico, enquanto
Deus, nesse mesmo plano para o qual iremos, vive puramente
na condição espiritual. Absurdo teológico incompatível com a
lógica, pois o plano espiritual está para o corpo espiritual, como
o plano terreno está para o corpo físico.

Para a manutenção da vida do nosso invólucro carnal é


necessário, dentre inúmeras coisas, oxigênio, água e
alimentação. Será que haverá tudo isso no lugar para onde
dizem que iremos após a morte? O pior é que todas essas
coisas deverão existir tanto no céu quanto no inferno, já que
muitos correm o risco de terem como destino o lago de fogo.
Quem sabe um milagre resolva essa questão?…

João 6,63: “[…] o espírito é que dá vida a carne de nada


serve.”

Será que os teólogos nunca leram essa passagem? Se a


carne de nada serve, então qual a sua utilidade no plano
espiritual?

Lucas 16,19-23: “Havia um homem rico que se vestia de


púrpura e linho fino, e dava banquete todos os dias. E
um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava
caído à porta do rico. […] Aconteceu que o pobre
morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão.
Morreu também o rico, e foi enterrado. No inferno, em
meio aos tormentos, o rico levantou os olhos, e viu de
longe Abraão, com Lázaro a seu lado.”
294

Considerando-se que o rico foi enterrado, pode-se


concluir que foi isso o que ocorreu também a Lázaro. Tendo
acontecido isso, forçosamente somos obrigados a aceitar que
esses dois personagens foram para o outro lado da vida, se
encontravam, conforme a narrativa, na condição de espíritos.

Lucas 23,43: “Jesus respondeu: ‘Eu lhe garanto: hoje


mesmo você estará comigo no Paraíso’.”

Se essa afirmativa atribuída a Jesus for verdadeira,


então a condição em que o “bom ladrão” transportou-se ao
“paraíso” foi na condição espiritual, pois seu corpo deve,
segundo o costume da época, ter servido de repasto aos
urubus, já que os corpos dos executados, nessas condições,
ficavam expostos para impressionar os transeuntes.

Lucas 23,46: “Pai em tuas mãos entrego o meu


Espírito.”

Acaso Jesus tivesse dito, pelo menos, “Pai, em tuas mãos


entrego-me”, poderia haver alguma dúvida quanto ao fato.
Entretanto, diz que entrega o seu espírito, já que sabia que a
carne de nada serve, conforme já houvera afirmado.

1 Coríntios 15,44-50: “[…] é semeado corpo animal, mas


ressuscita corpo espiritual. Se existe um corpo animal,
também existe um corpo espiritual, […] a carne e o
sangue não poderão herdar o reino de Deus.”

Paulo, sempre usado para sustentar algumas


interpretações de conveniência, é quem também podemos usar
para contestar, por mais uma vez, a crença na ressurreição da
carne. Observe que o apóstolo dos gentios diz taxativamente
295

que ressuscita o corpo espiritual e arremata, como que para


não deixar dúvidas, dizendo que o corpo físico não pode herdar
o reino de Deus.

Esses textos, aqui relacionados, são suficientes para


reconhecermos que ressuscitaremos no corpo espiritual e não
no corpo físico, como ainda é aceito e defendido por muitos.

Mas alguém poderia objetar dizendo que Jesus teria


ressuscitado em corpo físico, fato que confirmaria a
ressurreição da carne.

Pelos relatos bíblicos Jesus foi crucificado às nove horas


da manhã tempo insuficiente para que, às primeiras horas do
dia, ocorresse primeiro a reunião do Sinédrio, depois, em
relação a Jesus, sua prisão, as torturas que sofreu, sua
condução a Pilatos, a Herodes, e a Pilatos novamente, para que
caminhasse até o Gólgota carregando a cruz, deixando-nos em
dúvida quanto aos fatos descritos como ocorridos.

Uma coisa que poucas pessoas sabem é que a morte por


crucificação não era imediata levava-se, segundo alguns
estudiosos, de dois a três dias outros estendem esse tempo a
até cinco dias.

[…] Jesus sabia muito bem como os romanos


tratavam os líderes rebeldes. Herodes podia usar a
espada, mas o método romano, aperfeiçoado ao longo
de duzentos anos de história, era a crucificação.
Chegava-se a demorar três dias para morrer, a
agonia era insuportável, e as vítimas nuas serviam
como exemplos infames e aterradores para o
296

populacho. […]. (264) (grifo nosso)

A morte por crucificação era um processo


lento. Podia demorar dois ou três dias. (265) (grifo
nosso)

Como não quebraram seus ossos, o que faziam para


apressar a morte do condenado, e considerando o tempo entre
a crucificação e a morte foi de apenas seis horas, resta-nos a
dúvida, por não termos elementos seguros para acreditar no
relatado.

É tão evidente que o tempo foi curto que até Pilatos,


quando foram reclamar-lhe o corpo, se surpreende de que Jesus
há havia morrido (Marcos 15,44).

Como o dogmatismo não manda mais ninguém para a


fogueira, querendo demonstrar previamente como os ímpios
arderão no fogo do inferno, pensadores têm surgido
questionando até mesmo a veracidade dos próprios textos
bíblicos, quanto à realidade da morte de Jesus na cruz. Essas
dificuldades que acabamos de colocar, podem nos remeter a
essa hipótese.

Para se ver, por exemplo, que os relatos não são tão


mais inquestionáveis assim, transcrevemos do capítulo “Jesus
não morreu na cruz” constante do livro A Sociedade Secreta de
Jesus, de autoria de Roméro da Costa Machado (1948), o
seguinte trecho:

264 TABOR, 2006, p. 193-194.


265 TABOR, 2006, p. 234.
297

Ao raiar do dia, no sábado, vendo o sepulcro aberto


e tendo o corpo de Jesus sumido, os guardas, com
medo de Pilatos, vão até os sacerdotes saduceus e
contam-lhes a história do desaparecimento do corpo de
Jesus. No que os sacerdotes saduceus tranquilizam os
guardas e garantem que, caso a história chegue aos
ouvidos de Pilatos, eles (os sacerdotes) iriam convencer
Pilatos a não punir os guardas, deixando-os em paz,
pois era sabido que os discípulos de Jesus iriam mesmo
tentar roubar o corpo.
Esta história está parcialmente contada em Mateus
(28:11-15) Entretanto, como o cadáver de Jesus jamais
apareceu e isto desmoronaria a tese da ressurreição,
pois ninguém ressuscita sem morrer e para morrer tem
que haver um cadáver; este corpo de Jesus morto
jamais apareceu. E Mateus, novamente, conta
exatamente esta história do roubo do corpo, mas depois
diz que é mentira.
Para os próprios cristãos, segundo evidências claras
na Bíblia, Jesus não morreu na cruz. Senão vejamos:
João (20:11-17) - Dois essênios de branco
(confundidos como anjos) são vistos no sepulcro e
Jesus – depois de "morto" - diz para Madalena, dentro
do sepulcro, que ainda não havia morrido.
“Jesus disse-lhe: - Não Me detenhas porque ainda
não subi para Meu Pai.”
Lucas (24:4-5) - Dois essênios de branco,
resplandecentes, estão no sepulcro vazio e falam para
Madalena, Joana e Maria mãe de Tiago: - “Por que
buscais entre os mortos Aquele que vive?”
Mateus (28:3) - Um essênio, vestido de branco,
estava no sepulcro e fala às mulheres sobre o
desaparecimento do corpo de Jesus. (Aqui uma questão
simples: Se Jesus tivesse morrido (matéria) e
ressuscitado (espírito)… onde foi parar o corpo? Tinha
de haver um corpo. Tinha de haver a matéria).
298

Marcos (16:5) - Um jovem essênio, vestido de


branco, guardava o túmulo de Jesus e fala com
Madalena, Salomé e Maria Mãe de Tiago. - Aqui sai
Joana e entra Salomé, mas tudo bem - (Novamente a
mesma questão simples: Se Jesus tivesse morrido e
ressuscitado… onde foi parar o corpo?)
João (20:5-7) - Pedro entra no sepulcro e encontra
ataduras de curativos e ligaduras espalhadas por toda
parte. (Se Jesus havia morrido na cruz… por que
colocaram ataduras, remédios, unguentos e ligaduras
num “morto”, como as que Pedro encontrou no
sepulcro? Coloca-se atadura e remédio em morto?)
Lucas (24:36-43) - Diante do espanto dos discípulos
que imaginavam estar vendo um espírito, Jesus
confessa aos discípulos, com todas as palavras que Ele
não havia morrido na cruz. E para provar que era Ele
mesmo, Jesus diz: – “Vede as Minhas mãos e os Meus
pés?; Sou Eu mesmo!”. E para provar que não era
espírito e sim carne, complementa: – “Apalpai-me e
olhai que um espírito não tem carne, nem ossos, como
verificais que eu tenho!”
E para encerrar de vez a discussão sobre espírito e
matéria, Jesus pede comida aos discípulos ainda
assombrados: – “Tendes aí alguma coisa que se
coma?”. Deram-lhe então uma posta de peixe assado e,
tomando-a, comeu diante deles.”
Pode um relato ser mais claro? Ou seja, nem mesmo
os cristãos, mais cegamente fiéis seguidores da Bíblia,
podem acreditar na morte de Jesus na cruz, pois o
relato de Lucas (24:26-43) é claro demais, cristalino
demais, insofismável, resistente até ao mais insano dos
exegetas de bicicleta. Jesus diz claramente que não
havia morrido na cruz (“não ascendi ao pai”), que não
era espírito e sim carne (e para provar que não era
espírito e sim carne, complementa: Apalpa-me e olhai
que espírito não tem carne nem ossos como verificais
299

que eu tenho") e para finalizar Jesus pede comida e


bebida, e de fato come peixe assado e bebe com os
discípulos. (266)

Argumentos que não encontramos meios de como


rebatê-los ainda mais pelo fato de encontrarmos essa mesma
informação em outra fonte. Vejamos:

[…] Portanto, Jesus não pode ter morrido na cruz.


Quando se refere à crucificação, o Alcorão diz o
seguinte: ‘Eles não o mataram, não o
crucificaram, mas isso lhes pareceu (Alcorão
4,156). […].

[…] Certos muçulmanos do Paquistão […] para eles,


Jesus foi de fato pregado à cruz, mas, quando o
retiraram de lá, Ele ainda vivia. Então, livre da cruz,
ele se curou e partiu para a Índia. Para os partidários
desta crença, o corpo de Jesus está enterrado perto de
Srinagar, na região da Caxemira. (267) (grifo nosso)

Tudo isso de certa forma poderia vir a corroborar o que


está escrito em Atos 1,3: “Foi aos apóstolos que Jesus, com
numerosas provas, se mostrou vivo depois da sua paixão:
durante quarenta dias depois apareceu a eles, […].” Em Lucas,
“[…] após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu
desde o princípio, […].” (Lucas 1,3), afirma que Jesus se
mostrou vivo, o que confirmaria aquilo que encontramos em
outras fontes. É aqui que ficamos em dúvida, pois se Jesus se
apresentou fisicamente, então a tese, que apresentamos para
uma reflexão, de que ele na verdade não morreu na cruz, seria

266 MACHADO, 2004, p. 297-300.


267 Revista Grandes Líderes da História, ano I, nº 1: Jesus, p. 29.
300

uma possibilidade que deveria ser mais bem analisada.

Todavia, alguém dirá: “Como é que os mortos


ressuscitam? Com que corpo voltarão?” Insensato! Aquilo que
você semeia não volta à vida, a não ser que morra. E o que
você semeia não é o corpo da futura planta que deve nascer,
mas simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie. A
seguir, Deus lhe dá corpo como quer: ele dá a cada uma das
sementes o corpo que lhe é próprio. Nenhuma carne é igual às
outras: a carne dos homens é de um tipo, a dos animais é de
outro, e de outro a dos pássaros e de outro ainda a dos peixes.
Há corpos celestes e há corpos terrestres. O brilho dos celestes,
porém, é diferente do brilho dos terrestres. Uma coisa é o brilho
do sol, outra o brilho da lua, e outra o brilho das estrelas. E até
de estrela para estrela há diferença de brilho. O mesmo
acontece com a ressurreição dos mortos: o corpo é semeado
corruptível, mas ressuscita incorruptível; é semeado
desprezível, mas ressuscita glorioso; é semeado na fraqueza,
mas ressuscita cheio de força; é semeado corpo animal, mas
ressuscita corpo espiritual. Se existe um corpo animal, também
existe um corpo espiritual.

Calma, não somos nós que está dizendo isso é um outro


Paulo, o de Tarso (1 Coríntios 15,35-44). Sua afirmação da
existência do corpo espiritual é de tamanha clareza que não
deveria deixar margem a dúvidas, nem tampouco o surgimento
de interpretações equivocadas.

Mas isso ainda não é tudo, pois quando, um pouco mais


à frente, ele arremata a sua argumentação, a coisa fica ainda
mais clara veja: “Eu lhes digo, irmãos, que a carne e o
301

sangue não podem receber em herança o Reino de Deus,


nem a corrupção herdar a incorruptibilidade”. (1 Coríntios
15,50).

Há uma passagem muito elucidativa em que os


saduceus, que afirmavam não existir ressurreição, perguntaram
a Jesus sobre a situação de uma mulher que havia se casado
com sete irmãos (para cumprir a lei do Levirato) queriam saber,
quando da ressurreição, de qual dos sete ela seria mulher; que
Jesus responde: “De fato, na ressurreição, os homens e as
mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu”
(Mateus 22,30). Ora, todos nós aceitamos que os anjos são
seres espirituais; daí, se seremos iguais a eles, então,
consequentemente, também seremos seres espirituais,
condição em que ressuscitaremos. A afirmação de “seres
espirituais” implica necessariamente na existência de um corpo
espiritual.

Na sequência, ainda afirma Jesus: “Quanto à


ressurreição dos mortos, não lestes o que Deus vos declarou:
‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó?’
Ora, ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos” (Mateus
22,32-33). Veja bem se Deus é Deus de vivos, e os aqui
citados foram Abraão, Isaac e Jacó, que já haviam morrido,
concluímos que eles viviam na condição espiritual. Os que
acham que a ressurreição será no final dos tempos, devem
ficar desconcertados diante dessa passagem, pois, apesar do
final dos tempos ainda não ter chegado, Jesus sugere que
esses três personagens já estavam ressurretos e, portanto,
302

vivos.

A visão de Pedro sobre a morte e ressurreição de Cristo,


também não deixa margem à ressurreição da carne. Segundo
ele, o que aconteceu foi que Jesus “[…] Morto na carne, foi
vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos
em prisão.” (1 Pedro 3,18-19)

Assim, diante disso e de tudo o que já colocamos


anteriormente, como ainda advogar a ressurreição da carne?
Ela, a ressurreição da carne, falando à maneira do gosto de
muitos teólogos, não possui respaldo bíblico.

Apresentaremos como duas testemunhas insuspeitas de


que antigamente não se acreditava na ressurreição física;
tratam-se do historiador hebreu Flávio Josefo e do teólogo
Orígenes de Alexandria, um dos designados pais da igreja.

Em História dos hebreus, Josefo diz o seguinte sobre os


essênios:

[…] esperavam passar desta vida para a melhore


acreditavam firmemente que, embora nosso corpo seja
mortal e corruptível, nossas almas são imortais e
incorruptíveis – de uma substância etérea, muito
sutil, encerrada no corpo, como numa prisão, onde uma
inclinação natural as atrai e retém – e que apenas se
veem livres destes laços carnais, que as prendem em
dura escravidão, quando elevam-se ao ar e voam com
alegria. (268) (grifo nosso)

Ora, se “nossas almas são imortais e incorruptíveis – de

268 JOSEFO, 2003, p. 555.


303

uma substância etérea, muito sutil”, consequentemente não


pode ser de matéria como é o nosso corpo físico.

Da obra Contra Celso, podemos tirar esses três trechos


dos argumentos de Orígenes:

[…] a alma dos mortos subsiste; e para quem


admite essa doutrina, a fé na imortalidade da alma ou,
pelo menos, na sua permanência tem fundamento.
Assim sendo, o próprio Platão, em seu diálogo sobre a
alma, diz que em volta de túmulos apareceram para
algumas pessoas “imagens semelhantes às sombras”,
homens que acabavam de morrer. E estas imagens que
aparecem em volta das sepulturas dos mortos vêm de
uma substância, a alma que subsiste no que
chamamos “corpo luminoso”. (269) (grifo nosso)

[…] Em nossas discussões com os judeus e também


entre nós, sabemos que só existe um Deus, aquele que
os judeus adoravam antigamente e ainda hoje
professam adorar, e estamos puros de qualquer
impiedade a seu respeito. Tampouco dizemos que
Deus ressuscitará os homens dentre os mortos com
a mesma carne e o mesmo sangue, como vimos
acima; dizemos que aquilo que foi semeado “corpo
psíquico na corrupção, na abjeção, na fraqueza” não
ressuscita no estado em que foi semeado. […]. ( 270)
(grifo nosso)

[…] porque sabemos que a alma, que por sua própria


natureza é incorpórea e invisível, precisa, quando se
encontra num lugar corporal qualquer, de um corpo
apropriado por sua natureza neste lugar. Ela carrega
este corpo depois de ter abandonado a veste,

269 ORÍGENES, 2004, p. 182.


270 ORÍGENES, 2004, p. 480.
304

necessária antes, mas supérflua para um segundo


estado, e a seguir, após tê-lo revestido por cima com
aquela veste que tinha inicialmente, porque precisa de
uma veste melhor para chegar às regiões mais
puras, etéreas e celestes. Ao nascer para o mundo, ela
abandonou a placenta que era útil à sua formação no
seio de sua mãe enquanto nela se encontrava; revestiu
por baixo o que era necessário a um ser que viveria na
terra. (271) (grifo nosso)

Portanto, temos por provado que à época de Jesus não


se acreditava na ressurreição da carne, e muito menos nos
séculos II e III d.C., no que se convencionou chamar de
cristianismo primitivo.

Terminamos o estudo sobre esse assunto, esperando


contribuir para o esclarecimento dessa questão; mas,
obviamente, não passa por nossa cabeça a unanimidade em
relação ao que expomos, já que muitas pessoas, infelizmente,
possuem a mente fechada para qualquer coisa que vá de
encontro ao seu pensamento original, mesmo sendo este
completamente contraditório. Pior ainda são os adeptos do:
“creio, ainda que absurdo!”.

Percebemos em algumas pessoas, um certo medo de


questionar o que a teologia tradicional lhes passou: isso é fruto
de um terrorismo religioso, pois quem está com a verdade não
teme absolutamente nada. Entretanto, os que são frágeis na
convicção e os que sabem que suas ideias não são realmente
verdadeiras, farão de tudo para contestar aquilo que possa
contrariar seus interesses. Mas devemos lembrar Jesus que

271 ORÍGENES, 2004, p. 567-568.


305

dizia: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João


8,32).

Encerramos ressaltando que: “[…] onde se acha o


Espírito do Senhor aí existe a liberdade” (2 Coríntios 3,17), do
que é fácil concluir que, onde não há liberdade, o Espírito do
Senhor não se encontra.
306

O Consolador veio no Pentecostes?

“A Liberdade de pensar e agir é um dos


direitos mais sagrados do homem e, portanto,
asas poderosas para o seu adiantamento
espiritual. Liberdade da qual ele nunca deverá
abrir mão, em hipótese alguma.” (HAMMED)

Os teólogos, se não todos, pelo menos na sua grande


maioria, afirmam que o Consolador prometido por Jesus (João
14,16) teria vindo no dia de Pentecostes (Atos 2,1-4); quem
sabe se não buscaram apoio para isso no documento apócrifo
denominado Caverna dos Tesouros, do qual extraímos: “[…]
Decidiram jejuar, até receberem todos juntos o Espírito, o
Paráclito, no dia de Pentecostes, ali mesmo onde estavam
reunidos. Foram-lhes distribuídas línguas, e cada um partiu
para ensinar os povos, de acordo com a língua que lhes fora
dada; […].” (272). Se isso for verdade, então a base para essa
afirmação é tirada de uma fonte considerada não inspirada,
colocando, portanto, em sérios apuros os que assim pensam.

O primeiro ponto importante a se levantar é aquele em


que vamos demonstrar que o Consolador não é o Espírito
Santo, porquanto, àquela época, nem ele nem essa
terminologia existiam, uma vez que é uma criação posterior
para sustentar o dogma da Trindade. Em toda a Bíblia a
passagem Mateus 28,19-20 é a única em que se nomeiam as

272 TRICCA, vol. III, 1995, p. 100.


307

supostas pessoas da Trindade, mesmo assim sem estabelecer


uma relação de unicidade entre elas.

Sabem os estudiosos que o dogma da Trindade se iniciou


no Concílio Ecumênico de Niceia, em 325, quando Jesus foi
divinizado; a providência seguinte foi também dar status de
Deus ao Espírito Santo, fato que ocorreu no Concílio de
Constantinopla, em 381. (273). Depois, foi só ajustar os textos do
Novo Testamento a essa nova e dogmática realidade; aí, onde
havia “um” espírito santo (puro), transformaram em “o” Espírito
Santo, eleito a terceira pessoa da Trindade.

Ademais, estudiosos bíblicos têm esse passo de Mateus


(28,19-20) como uma interpolação. Por exemplo, o historiador e
professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, David Flusser
(1917-2000), que lecionou no Departamento de Religião
Comparada, por mais de 50 anos, nascido na Áustria, estudioso
da literatura clássica e talmúdica, e conhecedor de 26 idiomas,
informa que:

De acordo com os manuscritos de Mateus que foram


preservados, o Jesus ressuscitado ordenou aos seus
discípulos batizar todas as nações “em nome do Pai e
do Filho e do Espírito Santo”. A fórmula trinitária franca,
aqui, é de fato notável, mas já foi mostrado que a
ordem para batizar e a fórmula trinitária faltam em
todas as citações das passagens de Mateus nos
escritos de Eusébio anteriores ao Concílio de Niceia.
O texto de Eusébio de Mt 28:19-20 antes de Niceia era o
seguinte: “Ide e tornai todas as nações discípulas em
meu nome, ensinando-as a observar tudo o que vos
ordenei”. Parece que Eusébio encontrou essa forma do

273 CHAVES, 2006.


308

texto nos códices da famosa biblioteca cristã em


Cesareia. 75 Esse texto mais curto está completo e
coerente. Seu sentido é claro e tem seus méritos óbvios:
diz que o Jesus ressuscitado ordenou que seus
discípulos instruíssem todas as nações em seu nome, o
que significa que os discípulos deveriam ensinar a
doutrina de seu mestre, depois de sua morte, tal como a
receberam dele. (274) (grifo nosso)

Transcreveremos a nota nº 75 em que Flusser coloca sua


base de informação:

Ver D. Flusser, "The Conclusion of Matthew in a New


Jewish Christian Source", Annual of the Swedish
Theological lnstitute, vol. V, 1967, Leiden, 1967, pp. 110-
20; Benjamin J. Hubbard, “The Matthean Redaction of a
Primitive Apostolic Commissioning", SBL, Dissertation
Series 19, Montana, 1974. Mais testemunho da
conclusão não-trinitária de Mateus está preservado
num texto copta (ver E. Budge, Miscelleaneous Coptic
Texts, Londres, 1915, pp. 58 e seguintes, 628 e 636),
onde é descrita uma controvérsia entre Cirilo de
Jerusalém e um monge herético. "E o patriarca Cirilo
disse ao monge: 'Quem te mandou pregar essas
coisas?' E o monge lhe disse: 'O Cristo disse: Ide a todo
o mundo e pregai a todas as nações em Meu nome em
cada lugar". O texto é citado por Morcon Smith, Clement
of Alexandria and a Secret Cospel of Mark, Harvard
University Press, Cambridge, Mass, 1973, pp. 342-6.
(275) (grifo nosso)

Na sequência, Flusser diz que “um testemunho adicional


das versões mais curtas de Mt 28:19-20a foi descoberto há

274 FLUSSER, 2001, p. 156.


275 FLUSSER, 2001, p. 170.
309

pouco tempo numa fonte judeu-cristã […]” (276), citando como


fonte: Sh. Pinès, “The Jewish Christians of the Early Centuries of
Christianity According to a New Source”, The Israel Academy of
Sciences and Humanities Proceedings, vol. II, nº 13, Jerusalém,
1966, p. 25. (277)

Orígenes de Alexandria (185-254), em sua obra


apologética intitulada Contra Celso (cerca de 248), na qual
refuta a esse filósofo pagão, cita inúmeras passagens bíblicas,
entre as quais Mt 28,19, com o seguinte teor: “Ide, portanto, e
fazei que todas as nações se tornem discípulos” ( 278). O que
prova incontestavelmente que a expressão “batizando-os em
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” é uma interpolação
que foi colocada posteriormente para se justificar o dogma da
Trindade.

Essa interpolação é até fácil de ser comprovada, pois,


enquanto no versículo se recomendava batizar “em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28,19), no
cristianismo nascente, os discípulos só o faziam “em nome de
Jesus” (Atos 2,37; 10,48; 19,5), do qual também se utilizavam
para expulsar os espíritos (Atos 16,18).

Por outro lado, não foi por mera coincidência que esse
acréscimo esteja no último passo do Evangelho de Mateus;
certamente, como não encontraram outro lugar melhor para
situá-lo acharam por bem colocá-lo ali mesmo, bem no final.
Então, fica aí demonstrado, de forma clara, que essa expressão

276 FLUSSER, 2001, p. 156.


277 FLUSSER, 2001, p. 170.
278 ORÍGENES, 2004, p. 154.
310

é uma interpolação. Assim, qualquer relação que se queira


estabelecer entre o Consolador e o Espírito Santo não faz
sentido algum, mais a frente voltaremos ao tema.

Um outro ponto, também não menos importante, é que


devemos situar as coisas no tempo próprio. Assim, não é válido
usar o Evangelho de João para justificar alguma coisa em Lucas,
pois, como sabemos, os Evangelhos foram escritos em épocas
diferentes. Segundo o prof. Julio Trebolle Barrera (?- ), Marcos
por volta de 65 a 70, Lucas entre 70 e 80, Mateus no período de
70 e 80, e, finalmente, João, no ano de 90 (279); mas é bom
ressaltar que os estudiosos não se entendem quanto a essas
datas.

Desse modo, depois da morte de Jesus, até um certo


período, os textos eram utilizados isoladamente; isso deve ter
acontecido por não haver necessidade, à época, de uma
“uniformização” das descrições dos fatos acontecidos com
Jesus, já que não havia condições de se estabelecer uma
sistematização no sentido de tornar os escritos esparsos em um
único corpo doutrinário dos ensinamentos deixados pelo
Mestre. O que pudemos corroborar com J. Lentsman (1908-
1967):

Assim, cada evangelho era endereçado a um meio


determinado, e tinha limitada, desse modo, sua
esfera de ação a uma ou outra região. Sua inclusão
no cânone deu-se muito mais tarde, como consequência
de uma escolha dos escritos cristãos mais autorizados

279 BARRERA, 1995, p. 287.


311

aos olhos dos crentes. (280) (grifo nosso)

Mas, com a sistematização desses ensinamentos,


visando dar uma característica sinóptica aos Evangelhos,
certamente houve uma “necessidade” (para não dizer
conveniência) de algumas “adequações” de alguns textos a
certas interpretações dos dirigentes religiosos de então.
Vejamos:

Quanto aos livros do Novo Testamento, houve


também certa confusão, já que além dos livros
inspirados, circulavam outros que gozavam também de
muito prestígio entre as comunidades cristãs, alguns dos
quais atribuídos aos próprios Apóstolos. Em
compensação, alguns dos livros inspirados não eram
aceitos como tais por pessoas de prestígio na própria
Igreja.
Os Concílios de Hipona e de Cartago, celebrados
em fins do séc. IV, pela primeira vez apresentaram
uma lista oficial dos livros inspirados, tanto do Novo
como do Antigo Testamento, entre os quais se
incluíram os deuterocanônicos também do Novo, que
são: Epístolas de S. Tiago, 2ª e 3ª de S. João, de S.
Judas, 2ª de S. Pedro, aos Hebreus e o Apocalipse.
Como nenhum desses concílios africanos, por seu
caráter local, implicasse a autoridade oficial da Igreja
universal, houve necessidade de se proclamar de novo,
em forma solene, a doutrina tradicional católica, o que
se fez no Concílio Ecumênico de Florença, celebrado no
ano de 1441 e, posteriormente, no de Trento em 1546,
onde se enumeram de forma definitiva os livros que
constituem a Bíblia. (281) (grifo nosso)

280 LENTSMAN, 1963, p. 38,


281 Bíblia Barsa – A Igreja e a Bíblia, p. XII.
312

Então, somente após o final do séc. IV, é que temos algo


próximo da Bíblia como a conhecemos hoje. E para ser mais
específico, leiamos:

No ano de 367 E.C., Atanásio escreveu sua carta


pastoral anual às igrejas egípcias sob sua jurisdição e,
nela, incluiu um conselho acerca de quais livros deviam
ser lidos como escritura nas igrejas. Ele relaciona
nossos vinte e sete livros, com exclusão de todos os
demais. Essa é a primeira instância que chegou ao
nosso conhecimento de alguém declarando que esse
novo conjunto de livros era o Novo Testamento. (282)

Isso significa que não assiste razão aos que, querendo


interpretar uma passagem, relacionam, no sentido de
completar, um escritor bíblico com outro. A se aceitar isso,
então, preferimos ficar com a opinião de Orígenes, considerado
um dos “Pais da Igreja”, porquanto foi um expoente do
cristianismo nascente. Vejamos o que ele disse:

E como as práticas legais eram uma figura, penso


eu, e a verdade era o que o Espírito Santo lhes
ensinara, foi dito: “Quando vier o Espírito de Verdade,
ele vos conduzirá à verdade plena” (Jo 16,13); como se
dissesse: à verdade integral das realidades das quais,
não possuindo senão as figuras, vós acreditáveis adorar
a Deus com a verdadeira adoração. De acordo com a
promessa de Jesus, o Espírito de Verdade veio
sobre Pedro e lhe disse, a respeito dos quadrúpedes e
répteis da terra e dos pássaros do céu: “Levanta-te,
Pedro, imola e come!” Ele voltou a si, embora ainda
imbuído de superstição, pois mesmo ao ouvir a voz
divina ele responde: “De modo algum, Senhor, pois

282 EHRMAN, 2006, p. 46.


313

jamais comi alguma coisa impura e profana”. E lhe


ensinou a doutrina sobre os alimentos verdadeiros e
espirituais com estas palavras: “Ao que Deus purificou,
não chames tu de profano”. E depois desta visão, o
Espírito de Verdade, conduzindo Pedro “à verdade
plena”, lhe disse “o muito que vos dizer” que ele não
podia “suportar enquanto Jesus estava ainda presente
segundo a carne. (283) (grifo nosso)

E é por isso que afirmamos que cada um deles tem que


se explicar por si mesmo. Sendo assim, ou seja, que temos que
relacionar o autor com ele mesmo, fomos buscar
primeiramente Lucas. Em seu Evangelho pudemos encontrar
apenas duas passagens que poderíamos entender como
alguma promessa sendo feita: a primeira é onde João Batista
diz que “Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com
fogo” (Lucas 3,16); e a segunda é quando Jesus recomenda aos
discípulos não se preocuparem com o que falariam, pois “nessa
hora o Espírito Santo ensinará o que vocês devem dizer” (Lucas
12,12). Ambas não servem de suporte, pelo simples motivo de
que falam em Espírito Santo, que, conforme demonstramos,
esse epíteto ainda não “existia”.

Jesus ressurreto, entre outras coisas, disse aos


discípulos: “Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai
prometeu. Por isso, fiquem esperando na cidade, até que vocês
sejam revestidos da força do alto.” (Lucas 24,49), por que
não Ele não falou “revestidos do Espírito Santo”? Muito
estranho! Mas vejamos a opinião de um exegeta sobre esse
versículo:

283 ORÍGENES, p. 122-123.


314

Lc 24,49: “… envio sobre vós a promessa de meu


Pai…” A promessa que se cumpriu no dia de
Pentecostes, antecipa também, neste passo bíblico, a
declaração mais completa que se vê no livro de Atos,
que Lucas tencionava escrever, a fim de completar a
sua obra em dois volumes, que versa sobre as origens
do cristianismo (Lucas-Atos); e não é mesmo impossível
que Lucas já tivesse dado início a essa obra, em algum
estágio preliminar. Este versículo é paralelo a Atos 1,4-5,
8; 2,1-13. A promessa feita pelo Pai, que é o próprio
Espírito Santo, não é claramente definida nos
evangelhos sinópticos, mas poderemos aceitar o
trecho de Luc. 11,13 como indicação sobre isso; e não
há que duvidar que a mensagem de João Batista, na
tradição evangélica mais primitiva, conforme nos é dada
em Marc. 1;8 – “mas ele vos batizará com o Espírito
Santo…” – deve ser compreendida como paralela à
promessa aqui registrada. Trata-se, por conseguinte, da
tradição evangélica mais remota. O evangelho de João
a anuncia de forma ainda mais clara. (ver João 14:16 e
15:26). A ordem dada aos discípulos de se demorarem
em Jerusalém, até que se cumprisse essa promessa, é
paralela à passagem de Atos 1:4. (284) (grifo nosso)

Observamos que o autor diz que a promessa não é


claramente definida nos evangelhos sinópticos, embora tente,
de alguma forma, estabelecer uma ligação dela com o
Evangelho de João. O que ele não percebeu é que não poderia
relacionar essa passagem de Lucas ao que consta em João,
pelas razões já expostas.

Em Atos dos Apóstolos, Lucas já narra da seguinte


forma:

284 CHAMPLIN, 2005, vol. 2, p. 247.


315

Atos 1,4-8: “[…] 'Não se afastem de Jerusalém.


Esperem que se realize a promessa do Pai, da qual
vocês ouviram falar: 'João batizou com água; vocês,
porém, dentro de poucos dias, serão batizados com o
Espírito Santo' […] Mas o Espírito Santo descerá sobre
vocês, e dele receberão força para serem as minhas
testemunhas […]'.” (grifo nosso)

Pelo que se pode entender, a promessa aqui é o batismo


com o Espírito Santo; entretanto, está se prometendo o que não
existe. No dia de Pentecostes é, quando se supõe, que houve o
cumprimento dessa promessa; leiamos:

Atos 2,1-4: “Quando chegou o dia de Pentecostes,


todos eles estavam reunidos no mesmo lugar. De
repente, veio do céu um barulho como o sopro de um
forte vendaval, e encheu a casa onde eles se
encontravam. Apareceram então umas como línguas de
fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um
deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e
começaram a falar em outras línguas, conforme o
Espírito lhes concedia que falassem.” (grifo nosso)

Novamente aparece a expressão Espírito Santo, que só


poderia ser entendida como “um espírito santo”, não a pessoa
da Trindade que, conforme provado, não se falava dela ainda.
Se cada um falava conforme o espírito lhe concedia, já não é
mais “o Santo”; então, temos, nessa ocorrência, um fenômeno
mediúnico, onde cada um falava sob a ação de um espírito.
Aqui, percebe-se, claramente, a mediunidade em propulsão
espontânea a todos os discípulos. Fato idêntico se repetirá
novamente nos episódios conhecidos como o “Pentecostes
samaritano” (Atos 8,14-17) e o “Pentecostes dos pagãos” (Atos
316

10,44-46) (285) Vejamo-los:

Atos 8,14-17: “Os apóstolos, que estavam em Jerusalém,


souberam que a Samaria acolhera a Palavra de Deus, e
enviaram para lá Pedro e João. Ao chegarem, Pedro e
João rezaram pelos samaritanos, a fim de que eles
recebessem o Espírito Santo. De fato, o Espírito ainda
não viera sobre nenhum deles; e os samaritanos tinham
apenas recebido o batismo em nome do Senhor Jesus.
Então Pedro e João impuseram as mãos sobre os
samaritanos, e eles receberam o Espírito Santo.”
(grifo nosso)

Atos 10,44-46: “Pedro ainda estava falando, quando o


Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a
Palavra. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido com
Pedro, ficaram admirados de que o dom do Espírito
Santo também fosse derramado sobre os pagãos.
De fato, eles os ouviam falar em línguas estranhas
e louvar a grandeza de Deus […].” (grifo nosso)

Por isso, então, poder-se-á concluir, numa boa lógica,


que, a supor seja o Espírito Santo o Consolador, ele veio por
três vezes; a primeira aos discípulos (Atos 2,1-4), aos quais a
promessa foi feita, e duas agora, nessas passagens, de uma
forma generalizada. Assim, em qual delas deve-se ter como
sendo o cumprimento da promessa de sua volta? Fica aí a
nossa dúvida, porque a que se considera a primeira (Atos 2,1-
4), os próprios textos bíblicos a relacionam a uma profecia de
Joel, conforme se verá na sequência.

Em relação ao Pentecostes narrado em Atos 2,1, temos


duas observações importantes. A primeira é que, na própria

285 CHAMPLIN, 2005, vol. 3, p. 45.


317

Bíblia, esse fato não é relacionado à promessa do Consolador,


mas a uma outra bem mais antiga; leiamos:

Atos 2,14-18: “Então Pedro […] falou em voz alta:


'Homens da Judeia e todos vocês que se encontram em
Jerusalém! Compreendam o que está acontecendo e
prestem atenção nas minhas palavras: […] está
acontecendo aquilo que o profeta Joel anunciou:
'Nos últimos dias, diz o Senhor, eu derramarei o meu
Espírito sobre todas as pessoas. Os filhos e filhas de
vocês vão profetizar, os jovens terão visões e os anciãos
terão sonhos. E, naqueles dias, derramarei o meu
Espírito também sobre meus servos e servas, e eles
profetizarão.” (grifo nosso)

Se aqui está se relacionando o fenômeno do Pentecostes


à profecia de Joel, que viveu no século VIII a.C.; então, não está
reservado o direito a ninguém de mudar isso, mormente os que
têm a Bíblia como a palavra de Deus, para relacioná-lo ao
cumprimento da promessa do envio do Consolador. Podemos
confirmar com Russell N. Champlin:

No dia de Pentecoste, o Espírito Santo desceu sobre


todos quantos estavam reunidos no mesmo cenáculo,
num total de cerca de cento e vinte pessoas. Não se há
de duvidar que essa dádiva do Espírito envolvendo mais
do que os doze apóstolos, segundo fica subentendido
no trecho de Atos 2:14, como também na profecia de
Joel, conforme Simão Pedro mencionou em seu
sermão, como interpretação daquela extraordinária
ocorrência, que acabara de suceder. (Ver Atos 2:16-21 e
Joel 2:28-32). Essa profecia revela-nos como o
Espírito haveria de ser derramado sobre toda a
carne, de modo pleno e transbordante. Os cento e
vinte irmãos reunidos no cenáculo, pois, foram os
318

primeiros a experimentar isso. (286) (grifo nosso)

Comprova-se, então, como sendo a realização da


profecia de Joel.

A segunda observação é que, no dia citado como o


Pentecostes, o fenômeno pode nem mesmo ter ocorrido,
conforme se vê numa explicação, em nota de rodapé, dada a
respeito de Atos 2,1-13, cujo teor é: “O relato é simbólico. De
fato, quando o autor escreveu, as comunidades cristãs já se
haviam espalhado por todas as regiões aqui mencionadas.” ( 287)
Certamente agiram com prudência em não dizer diretamente
que o dito fenômeno não ocorreu, preferindo ir pelo caminho do
simbólico, para salvar a Bíblia da contradição do texto bíblico
com os fatos realmente ocorridos.

Como em Lucas não encontramos nada, quem sabe se


agora, ao analisarmos João, possamos encontrar algo?…
Leiamos a passagem relacionada à promessa:

João 14,15-26: "'Se me amais, guardareis os meus


mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará
outro Consolador, a fim de que esteja sempre
convosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não
pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o
conhecereis, porque ele habita convosco e estará em
vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros
[…] Respondeu Jesus: '[…] Isto vos tenho dito, estando
ainda convosco; mas o Consolador, o Espírito Santo,
a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará
todas as cousas e vos fará lembrar de tudo o que vos

286 CHAMPLIN, 2005, vol. 3, p. 45.


287 Bíblia Sagrada Pastoral, p. 1391.
319

tenho dito'.” (grifo nosso)

O que significa Consolador? Segundo Champlin, a


palavra Consolador significa “alguém chamado para o lado de
outrem, a fim de ajudar.” (288)

Interessante a afirmação de Jesus de que enviaria


“outro”; é sinal que Ele se considerava como sendo um
Consolador. E muito curioso, também, é que a cidade onde
Jesus fixou residência, que se tornou centro do seu ministério,
chamava-se Cafarnaum, que, segundo Carlos Torres Pastorino
(1910-1980), significa “cidade do Consolador” (289).

Neste passo Jesus também afirma que voltará. Se no


início do trecho o Consolador é especificado como o Espírito da
Verdade, por que um pouco mais à frente ele passa a ser o
Espírito Santo, epíteto esse que nem existia à época?
Certamente que é por uma interpolação; ou, quem sabe, se
esse último também não seria o Espírito de Verdade, que sofreu
uma modificação na sua terminologia?… Pastorino, analisando
as ocorrências da expressão “tò pneuma tò hágion” (o Espírito
o santo), afirma que “Em João aparece uma só vez, e assim
mesmo em apenas alguns códices tardios, havendo forte
suspeição de haver sido acrescentado posteriormente (em
14:26).” (290).

Assim como em Jo 14,17 em que se afirma que o


Consolador é o Espírito da Verdade a passagem Jo 15,26,

288 CHAMPLIN, 2005, vol. 2, p. 534.


289 PASTORINO, vol. 1, 1964a, p. 139.
290 PASTORINO, 1964e, p. 95.
320

igualmente o faz; vejamos:

Jo 15,26-27: “Quando, porém, vier o Consolador, que


eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade,
que dele procede, esse dará testemunho de mim; e vós
também testemunhareis, porque estais comigo desde o
princípio”.

Aqui se reafirma a identidade do Consolador como sendo


o Espírito da Verdade, acrescentando que ele dará testemunho
de Jesus. Portanto, ao também identificá-lo como Espírito Santo,
ocorre uma dupla identificação, que, fatalmente, nos leva a
pensar em interpolação, confirmada pela informação de
Pastorino. Um detalhe, que depois voltaremos a falar, é que
Jesus afirma que os discípulos também testemunhariam.

João 16,7-11: “Mas eu vos digo a verdade: ‘Convém-


vos que eu vá, porque se eu não for, o Consolador
não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo
enviarei. Quando ele vier convencerá o mundo do
pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não
creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não
me vereis mais; do juízo, porque o príncipe desse mundo
já está julgado’.” (grifo nosso)

Percebemos que há uma estreita relação entre a vinda


do Consolador com a questão de Jesus ter que partir, o que se
justifica, porquanto Ele mesmo é quem o enviaria ou, quem
sabe, voltaria para cumprir sua promessa: “Não vos deixarei
órfãos, voltarei para vós outros (João 14,18); inclusive, como
está dito no passo, que ainda estabelece a missão do
Consolador.
321

João 16,12-14: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas


vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o
Espírito da Verdade, ele vos guiará a toda a
verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá
tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as cousas que
hão de vir. Ele me glorificará porque há de receber do
que é meu, e vo-lo há de anunciar.” (grifo nosso)

Jesus afirma que não falou aos discípulos tudo que era
para ser dito, e que a missão do Espírito da Verdade, o
Consolador, seria também para que fosse completado o seu
ensinamento.

Vejamos agora, a última passagem de João, na qual se


relata uma suposta manifestação do Espírito Santo:

João 20,19-23: “Era o primeiro dia da semana. Ao


anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do
lugar onde se achavam os discípulos por medo das
autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio
deles e disse: 'A paz esteja com vocês'. Dizendo isso,
mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos
ficaram contentes por ver o Senhor. Jesus disse de novo
para eles: 'A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me
enviou, eu também envio vocês'. Tendo falado isso,
Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito
Santo. Os pecados daqueles que vocês perdoarem,
serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não
perdoarem, não serão perdoados.’” (grifo nosso)

O fato aqui relatado aconteceu exatamente no mesmo


dia em que Jesus ressuscitou, o primeiro dia da semana; é,
então, o dia de domingo, ou seja, o terceiro dia após ter sido
sepultado. Nele Jesus afirma que o Pai o enviou e sopra sobre
os discípulos o “Espírito Santo”. Segundo a forma de
322

entendimento dos adeptos das religiões tradicionais, a


promessa que João citou anteriormente foi cumprida aqui nesse
momento.

Nesse ponto, iremos ver, em A Gênese, como Kardec


abordou sobre o assunto, já que isso foi objeto de sua
preocupação:

Anunciação do Consolador

35. Se me amais, guardai os meus mandamentos – e


eu pedirei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador,
a fim de que fique eternamente convosco: – O Espírito
de Verdade que o mundo não pode receber, porque não
o vê; vós, porém, o conhecereis, porque permanecerá
convosco e estará em vós. – Mas o Consolador, que é o
Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, vos
ensinará todas as coisas e fará vos lembreis de tudo o
que vos tenho dito. (S. João, 14:15 a 17 e 26. – O
Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI.).
36. – Entretanto, digo-vos a verdade: Convém que eu
me vá, porquanto, se eu não me for, o Consolador não
vos virá; eu, porém, me vou e vo-lo enviarei. – E,
quando ele vier, convencerá o mundo no que respeita ao
pecado, à justiça e ao juízo: – no que respeita ao
pecado, por não terem acreditado em mim; – no que
respeita à justiça, porque me vou para meu Pai e não
mais me vereis; no que respeita ao juízo, porque já está
julgado o príncipe deste mundo.
Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas
presentemente não as podeis suportar.
Quando vier esse Espírito de Verdade, ele vos
ensinará toda a verdade, porquanto não falará de si
mesmo, mas dirá tudo o que tenha escutado e vos
anunciará as coisas porvindouras.
323

Ele me glorificará, porque receberá do que está em


mim e vo-lo anunciará. (S. João, 16:7 a 14.).
37. – Esta predição, não há contestar, é uma das
mais importantes, do ponto de vista religioso, porquanto
comprova, sem a possibilidade do menor equívoco, que
Jesus não disse tudo o que tinha a dizer, pela razão de
que não o teriam compreendido nem mesmo seus
apóstolos, visto que a eles é que o Mestre se dirigia. Se
lhes houvesse dado instruções secretas, os Evangelhos
fariam referência a tais instruções. Ora, desde que ele
não disse tudo a seus apóstolos, os sucessores destes
não terão podido saber mais do que eles, com relação
ao que foi dito; ter-se-ão possivelmente enganado,
quanto ao sentido das palavras do Senhor, ou dado
interpretação falsa aos seus pensamentos, muitas vezes
velados sob a forma parabólica. As religiões que se
fundaram no Evangelho não podem, pois, dizer-se
possuidoras de toda a verdade, porquanto ele,
Jesus, reservou para si a completação ulterior de
seus ensinamentos. O princípio da imutabilidade, em
que elas se firmam, constitui um desmentido às próprias
palavras do Cristo.
Sob o nome de Consolador e de Espírito de
Verdade, Jesus anunciou a vinda daquele que havia de
ensinar todas as coisas e de lembrar o que ele dissera.
Logo, não estava completo o seu ensino. E, ao demais,
prevê não só que ficaria esquecido, como também que
seria desvirtuado o que por ele fora dito, visto que o
Espírito de Verdade viria tudo lembrar e, de combinação
com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, pô-las de
acordo com o verdadeiro pensamento de seus ensinos.
38. – Quando terá de vir esse novo revelador? É
evidente que se, na época em que Jesus falava, os
homens não se achavam em estado de compreender as
coisas que lhe restavam a dizer, não seria em alguns
anos apenas que poderiam adquirir as luzes
necessárias a entendê-las. Para a inteligência de certas
324

partes do Evangelho, excluídos os preceitos morais,


faziam-se mister conhecimentos que só o progresso das
ciências facultaria e que tinham de ser obra do tempo e
de muitas gerações. Se, portanto, o novo Messias
tivesse vindo pouco tempo depois do Cristo, houvera
encontrado o terreno ainda nas mesmas condições e
não teria feito mais do que o mesmo Cristo. Ora, desde
aquela época até os nossos dias, nenhuma grande
revelação se produziu que haja completado o Evangelho
e elucidado suas partes obscuras, indício seguro de que
o Enviado ainda não aparecera.
39. – Qual deverá ser esse Enviado? Dizendo:
“Pedirei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador”,
Jesus claramente indica que esse Consolador não
seria ele, pois, do contrário, dissera: “Voltarei a
completar o que vos tenho ensinado”. Não só tal não
disse, como acrescentou: A fim de que fique
eternamente convosco e ele estará em vós. Esta
proposição não poderia referir-se a uma individualidade
encarnada, visto que não poderia ficar eternamente
conosco, nem, ainda menos, estar em nós;
compreendemo-la, porém, muito bem com referência a
uma doutrina, a qual, com efeito, quando a tenhamos
assimilado, poderá estar eternamente em nós. O
Consolador é, pois, segundo o pensamento de
Jesus, a personificação de uma doutrina
soberanamente consoladora, cujo inspirador há de
ser o Espírito de Verdade.
40. – O Espiritismo realiza, como ficou
demonstrado (cap. 1, nº 30), todas as condições do
Consolador que Jesus prometeu. Não é uma doutrina
individual, nem de concepção humana; ninguém pode
dizer-se seu criador. É fruto do ensino coletivo dos
Espíritos, ensino a que preside o Espírito de Verdade.
Nada suprime do Evangelho: antes o completa e
elucida. Com o auxílio das novas leis que revela,
conjugadas essas leis às que a Ciência já descobrira,
325

faz se compreenda o que era ininteligível e se admita a


possibilidade daquilo que a incredulidade considerava
inadmissível. Teve precursores e profetas, que lhe
pressentiram a vinda. Pela sua força moralizadora, ele
prepara o reinado do bem na Terra.
[…].
42. – Se disserem que essa promessa se cumpriu
no dia de Pentecostes, por meio da descida do
Espírito Santo, poder-se-á responder que o Espírito
Santo os inspirou, que lhes desanuviou a inteligência,
que desenvolveu neles as aptidões mediúnicas
destinadas a facilitar-lhes a missão, porém que nada
lhes ensinou além daquilo que Jesus já ensinara,
porquanto, no que deixaram, nenhum vestígio se
encontra de um ensinamento especial. O Espírito
Santo, pois, não realizou o que Jesus anunciara
relativamente ao Consolador; a não ser assim, os
apóstolos teriam elucidado o que, no Evangelho,
permaneceu obscuro até ao dia de hoje e cuja
interpretação contraditória deu origem às inúmeras
seitas que dividiram o Cristianismo desde os primeiros
séculos. (291) (grifo itálico do original, negrito nosso)

Como foi citado o item 30 do capítulo I de A Gênese,


iremos também transcrevê-lo para que o entendimento não
fique prejudicado:

30. – O Espiritismo, partindo das próprias palavras


do Cristo, como este partiu das de Moisés, é
consequência direta da sua doutrina. A ideia vaga da
vida futura, acrescenta a revelação da existência do
mundo invisível que nos rodeia e povoa o espaço, e com
isso precisa a crença, dá-lhe um corpo, uma
consistência, uma realidade à ideia. Define os laços que

291 KARDEC, 2007e, p. 439-443.


326

unem a alma ao corpo e levanta o véu que ocultava aos


homens os mistérios do nascimento e da morte. Pelo
Espiritismo, o homem sabe donde vem, para onde vai,
por que está na Terra, por que sofre temporariamente e
vê por toda parte a justiça de Deus.
Sabe que a alma progride incessantemente, através
de uma série de existências sucessivas, até atingir o
grau de perfeição que a aproxima de Deus. Sabe que
todas as almas, tendo um mesmo ponto de origem, são
criadas iguais, com idêntica aptidão para progredir, em
virtude do seu livre-arbítrio; que todas são da mesma
essência e que não há entre elas diferença, senão
quanto ao progresso realizado; que todas têm o mesmo
destino e alcançarão a mesma meta, mais ou menos
rapidamente, pelo trabalho e boa vontade.
Sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais
favorecidas umas do que outras; que Deus a nenhuma
criou privilegiada e dispensada do trabalho imposto às
outras para progredirem; que não há seres
perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que os
que se designam pelo nome de demônios são Espíritos
ainda atrasados e imperfeitos, que praticam o mal no
espaço, como o praticavam na Terra, mas que se
adiantarão e aperfeiçoarão; que os anjos ou Espíritos
puros não são seres à parte na criação, mas Espíritos
que chegaram à meta, depois de terem percorrido a
estrada do progresso; que, por essa forma, não há
criações múltiplas, nem diferentes categorias entre os
seres inteligentes, mas que toda a criação deriva da
grande lei de unidade que rege o Universo e que todos
os seres gravitam para um fim comum que é a
perfeição, sem que uns sejam favorecidos à custa de
outros, visto serem todos filhos das suas próprias obras.
(292)

292 KARDEC, 2007e, p. 37-38.


327

Considerando que…

a) que a expressão “Espírito Santo” não deveria ser


relacionada ao Consolador;

b) que temos que identificar com o texto do próprio


evangelista, e não com de um outro, se o Consolador já veio ou
não;

c) que Jesus disse que voltaria;

d) que também disse que os discípulos o


testemunhariam;

Então, fatalmente, teremos que concluir que, dentro do


Novo Testamento, não se encontra nenhuma passagem na qual
poderemos afirmar que o Consolador teria voltado naquela
época; portanto, isso nos remete a um tempo num futuro mais
distante daquela época.

Assim, o Espiritismo vem assumir essa condição de ser o


Consolador, pelas razões expostas por Kardec e por ter João
Evangelista, portanto, pelo pelo menos um dos discípulos
testemunhando, embora não possamos afirmar taxativamente
que outros não participaram do surgimento do Espiritismo só
pelo motivo de não termos nada escrito a respeito deles.

Apenas para esclarecer, informamos que, para nós, o


Espírito de Verdade é Jesus; quem quiser ver isso com maiores
detalhes, terá oportunidade de fazê-lo, pois em breve
publicaremos o livro Espírito de Verdade, quem seria ele?
328

Jesus pode ser considerado Deus?

“A verdade é mais grandiosa que a mente finita


do homem, e nossa falta de habilidade de
perceber todos os aspectos e significados de
uma verdade não significa que esta não
exista.” (J.J. VAN DER LEEUW).

“O engano é necessário para se obter e


manter o poder e vantagem sobre os outros.”
(JOHN SNYDER)

Esse assunto torna-se recorrente, visto determinadas


pessoas ainda insistirem na tese de que Jesus seja o próprio
Deus, tomando-se uma ou outra passagem bíblica para
justificar essa interpretação. Obviamente, que faz parte de
quase todas as culturas religiosas a crença de que a divindade
a qual prestavam culto viria a Terra e após fecundar uma
mulher, essa sempre uma virgem, daria nascimento a um
semideus.

Se não estivermos nos enganando na interpretação do


pensamento do psiquiatra suíço C. G. Jung (1875-1961), o
fundador da psicologia analítica, isso poderia ser classificado
como um arquétipo (JUNG, 1988).

O certo é que Jesus, tendo nascido e vivido como um


judeu, nunca diria tal coisa; é o que, de fato, percebemos pelas
narrativas dos Evangelhos. A lei judaica seria implacável quanto
a isso; certamente, que resultaria no apedrejamento, até a
morte, do blasfemo, num rito sumário sem qualquer
329

possibilidade de apelação para alguma instância superior.

Como ainda não tivemos a oportunidade de fazer um


estudo sobre o tema, vamos aproveitar esse momento para
fazê-lo, de uma forma bem abrangente; para isso é necessário
que analisemos várias passagens bíblicas, nas quais grifaremos
os trechos que julgamos importantes, visando ressaltá-los.

Mateus 1,22-23: “Tudo isso aconteceu para se cumprir o


que o Senhor havia dito pelo profeta: 'Vejam: a virgem
conceberá, e dará à luz um filho. Ele será
chamado Emanuel, que quer dizer: Deus está
conosco'.” (grifo nosso)

Essa passagem certamente que nada tem a ver com o


assunto; entretanto, vemos que, algumas vezes, é usada para
justificar a condição de Jesus ser Deus, por ter vindo cumprir
essa e muitas outras supostas profecias. Não vamos aqui
estender muito a explicação sobre isso, pois ela poderá ser
vista no seu todo em nosso texto, já mencionado.

Em Isaías é que encontraremos a conjecturada profecia


relacionada a esse passo: “Pois saibam que Javé lhes dará um
sinal: A jovem concebeu e dará à luz um filho, e o chamará pelo
nome de Emanuel”. (Isaías 7,14). Entretanto, pelo contexto
bíblico, perceberemos que, na verdade, Deus está prometendo
um sinal ao rei Acaz, que seria exatamente o filho dele que
estaria por nascer, o que podemos confirmar com a seguinte
explicação: “O sinal prometido a Acaz é o seu próprio filho, do
qual a rainha (a jovem) está grávida. Esse menino que está por
nascer é o sinal de que Deus permanece no meio do seu povo
(Emanuel = Deus conosco)”. (293).
293 Bíblia Sagrada – Pastoral, p. 955.
330

Outro fato curioso é que o nome Jesus significa “Deus é


salvação”; obviamente, diferente de Emanuel que quer dizer
“Deus está conosco”, que é aquele previsto na passagem tida
como profecia para ser dado à criança.

Marcos 2,7: “Por que fala assim este homem? Ele


blasfema. Quem pode perdoar pecados senão um só,
que é Deus?” (grifo nosso)

Marcos 10,18: “Respondeu-lhe Jesus: Por que me


chamas bom? ninguém é bom, senão um que é
Deus.” (grifo nosso)

João 5,44: “Como podeis crer, vós que recebeis glória


uns dos outros e não buscais a glória que vem do único
Deus?” (grifo nosso)

João 17,3: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti,


como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele
que tu enviaste.” (grifo nosso)

Romanos 3,30: “De fato, há um só Deus que justifica,


pela fé, tanto os circuncidados como os não
circuncidados.” (grifo nosso)

Romanos 16,27: “ao único Deus sábio seja dada glória


por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém.” (grifo
nosso)

1 Coríntios 8,4: “Quanto, pois, ao comer das coisas


sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no
mundo, e que não há outro Deus, senão um só.”
(grifo nosso)

1 Coríntios 8,6: “Contudo para nós existe um só


Deus: o Pai. Dele tudo procede, e para ele é que
existimos. E há um só Senhor, Jesus Cristo, por quem
tudo existe e por meio do qual também nós existimos.”
(grifo nosso)
331

Gálatas 3,20: “Ora, esse intermediário não representa


uma pessoa só, e Deus é um só.” (grifo nosso)

Efésios 4,6: “Há um só Deus e Pai de todos, que está


acima de todos, que age por meio de todos e está
presente em todos.” (grifo nosso)

1 Timóteo 1,17: “Ora, ao Rei dos séculos, imortal,


invisível, ao único Deus, seja honra e glória para todo o
sempre. Amém.” (grifo nosso)

1 Timóteo 2,5-6: “Porque existe um só Deus. E entre


ele e os homens há um só intermediário, que é Jesus
Cristo seu Filho, que é, ele próprio, homem também; o
qual se deu a si mesmo como preço da salvação de toda
a humanidade. Esta é a mensagem que Deus trouxe ao
mundo no momento oportuno.” (grifo nosso)

Tiago 2,19: “Você acredita que existe um só Deus?


Muito bem! Só que os demônios também acreditam, e
tremem!” (grifo nosso)

Judas 1,24-25: “Àquele que pode guardar-vos da queda e


apresentar-vos perante sua glória irrepreensíveis e
jubilosos, ao único Deus, nosso Salvador, mediante
Jesus Cristo nosso Senhor, glória, majestade, poder e
domínio, antes de todos os séculos, agora e por todos os
séculos! Amém.” (grifo nosso)

Um dos pontos fortes para que Jesus fosse elevado à


condição de Deus está, certamente, na crença da Trindade,
onde a divindade seria três pessoas, iguais e distintas ao
mesmo tempo. Não abordaremos essa questão aqui, por já ter
jeito um estudo sobre o tema; mas iremos apenas argumentar
que, por essas passagens, não há como atribuir tal coisa;
julgamos ser interpretações equivocadas de quem quer vê-las
assim, porquanto nenhum desses passos fala disso. E, para ver
332

que crença de Deus ser um só não é coisa nova, citamos do


Antigo Testamento:

Deuteronômio 4,35: “Foi a você que lhe mostrou isso,


para você ficar sabendo que Javé é o único Deus e
que não existe outro além dele.” (grifo nosso)

Deuteronômio 4,39: “Portanto, reconheça hoje e medite


em seu coração: Javé é o único Deus, tanto no alto do
céu, como aqui em baixo, na terra.” (grifo nosso)

Isaías 44,6: “Assim diz Javé, o Rei de Israel, seu redentor,


Javé dos exércitos: Eu sou o primeiro, eu sou o último,
fora de mim não existe outro Deus.” (grifo nosso)

Isaías 45,14: “Deus está somente com você e não


existe nenhum outro, não existem outros deuses.”
(grifo nosso)

Isaías 45,18: “Porque assim diz, Javé, que criou os céus,


o único Deus, que formou a terra, que a fez e a firmou
em suas bases; ele não a fez para ser um caos, mas
para ser habitada; Eu sou Javé e não existe outro.” (grifo
nosso)

Isaías 46,9: “Lembrem-se das coisas há muito tempo


passadas, pois eu sou Deus, e não existe outro. Eu sou
Deus, e não existe outro igual a mim.” (grifo nosso)

1 Reis 8,60: “Assim, todos os povos da terra saberão que


só Javé é Deus e que não há nenhum outro.” (grifo
nosso)

Se você, leitor, se interessar pelo tema Trindade,


pedimos a sua permissão para lhe recomendar o nosso texto
“Trindade: um mistério criado por um leigo, anuído pelos
teólogos”, no site: www.paulosnetos.net. (294)

294 NETO SOBRINHO, link: http://www.paulosnetos.net/artigos/summary/6-


333

Mateus 4,1-11: “Então foi conduzido Jesus pelo


Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo.
E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois
teve fome. Chegando, então, o tentador, disse-lhe:
'Se tu és Filho de Deus manda que estas pedras se
tornem em pães'. Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito:
'Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra
que sai da boca de Deus'. Então o Diabo o levou à
cidade santa, colocou-o sobre o pináculo do templo, e
disse-lhe: 'Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui
abaixo; porque está escrito: Aos seus anjos dará ordens
a teu respeito; e: eles te susterão nas mãos, para que
nunca tropeces em alguma pedra'. Replicou-lhe Jesus:
'Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu
Deus'. Novamente o Diabo o levou a um monte muito
alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória
deles; e disse-lhe: 'Tudo isto te darei, se, prostrado, me
adorares'. Então ordenou-lhe Jesus: 'Vai-te, Satanás;
porque está escrito: 'Ao Senhor teu Deus adorarás, e só
a ele servirás'. Então o Diabo o deixou; e eis que vieram
os anjos e o serviram”. (grifo nosso)

No Evangelho segundo Marcos, o primeiro a ser escrito,


segundo os especialistas, não se especifica essas três
tentações; o autor diz, apenas, genericamente, que no período
assinalado Jesus foi tentado por Satanás. No de Lucas, no final
do relato, há algo interessante; nele narra-se: “Assim, tendo o
Diabo acabado toda sorte de tentação retirou-se dele até
ocasião oportuna” (Lucas 4,13). O que nos chamou a atenção
foi a expressão “retirou-se dele”, dando a impressão de que
Jesus estava possuído pelo diabo, o que vai muito além das
tentativas de levar o Mestre a fazer as cousas que lhe foram
sugeridas por ele.

ebook/200-trindade-o-mistrio-criado-por-um-leigo-anudo-pelos-telogos
334

Causou-nos muita estranheza o fato de Jesus, ao ser


sugerido para adorar o tentador, tenha dito “não tentarás o
Senhor teu Deus”, uma vez que o “dito cujo” o havia
reconhecido apenas como o Filho de Deus e não como Deus.
Essa afirmativa pode levar à interpretação de que aqui Jesus
insinuaria que ele seria o próprio Deus, fato que não vemos a
não ser em algumas narrativas de João, caso não tenhamos
maior cuidado em buscar o sentido exato do que este fala.

A grande dúvida que nos envolve é: se as tentações de


Jesus, que aqui nos são narradas, de fato ocorreram, então, é
evidente a contradição, em si considerando Jesus como sendo
Deus, com o que foi dito por Tiago, pois, segundo ele “Deus não
pode ser tentado pelo mal” (Tiago 1,13); assim, não nos cabe
aceitar Jesus como sendo mesmo o próprio Deus.

Por outro lado, ampliando nosso campo de pesquisa,


verificamos que essa suposta tentação de Jesus tem
precedentes em outras culturas religiosas. O escritor, filósofo,
filólogo e historiador francês Ernest Renan, por exemplo, nos
informa um fato curioso; diz ele que “O deserto era, segundo a
crença popular, a morada dos demônios”. ( 295). Aliás, até
mesmo os hebreus assim pensavam, conforme comprovam
estas passagens:

Levítico 16,10: “Mas o bode sobre que cair a sorte para


Azazel será posto vivo perante o Senhor, para fazer
expiação com ele a fim de enviá-lo ao deserto
para Azazel” (296) (grifo nosso)

295 RENAN, 2004, p. 165.


296 Azazel, conforme nos informam os tradutores da Bíblia de Jerusalém (p.
183-184), é o nome de um demônio que os antigos hebreus e cananeus
335

Levítico 16,20-22: “[…] Arão […] apresentará o bode


vivo; e, pondo as mãos sobre a cabeça do bode vivo,
confessará sobre ele todas as iniquidades dos filhos de
Israel, e todas as suas transgressões, sim, todos os
seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode,
e envia-lo-á para o deserto, pela mão de um homem
designado para isso. Assim aquele bode levará sobre si
todas as iniquidades deles para uma região solitária; e
esse homem soltará o bode no deserto.” (grifo nosso)

Levítico 17,7: “Daqui em diante e para sempre, os


israelitas nunca mais oferecerão sacrifícios aos
demônios do deserto, pois, se fizerem isso, estarão
sendo infiéis a Deus.” (grifo nosso)

Encontramos nessa crença, de que os demônios


moravam no deserto, o motivo pelo qual Jesus foi levado ao
deserto para ser tentado. E, segundo Juan Arias, jornalista,
pesquisador, escritor e ex-padre “o que o demônio propõe a
Jesus em suas tentações são justamente coisas típicas dos
magos, como voar através das nuvens ou transformar pedras
em pães.” (297) Devemos também somar a isso uma outra
crença, a de que os líderes espirituais deveriam sofrer algum
tipo de tentação antes de iniciarem a sua missão. Vejamos
alguns exemplos:

Mais ou menos com a idade de 30 anos, isto é, com


a mesma idade de Jesus, Buda inicia sua carreira
espiritual. Durante um jejum e penitência, é tentado
pelo mal da mesma forma como Jesus o foi pelo diabo,
após quarenta dias e quarenta noites de abstinência. No
Oriente é comum uma história que atribui a Zoroastro

acreditavam que habitasse o deserto.


297 ARIAS, 2001, p. 177.
336

uma semelhante tentação, que também aparece na


saga dos santos cristãos. (298) (grifo nosso)

Durante sete dias Buda permaneceu sentado sob a


árvore bodhi, sem se mover, em abençoado êxtase.
Conta a lenda que, durante esse período, ele foi
tentado por Mara, o demônio. (299) (grifo nosso)

Na mesma linha, como o inimigo de Hórus era Sata,


deduz-se que daí teria vindo a teoria de satanás e dos
demônios contida nos evangelhos. Hórus, assim como
Jesus mil anos depois, também lutou no deserto,
durante quarenta dias, contra as tentações de Sata,
numa luta simbólica entre a luz e a escuridão. ( 300) (grifo
nosso)

Portanto, as mencionadas tentações de Jesus nada mais


são do que um reflexo de culturas religiosas, incorporadas aos
Evangelhos para que o mesmo padrão do que acontecia com os
que eram considerados filhos de deuses e/ou seus reveladores
fosse mantido.

Corroborando nosso entendimento, veja o leitor o que


dizem os evangelhos:

Mateus 4,16-17: “Batizado que foi Jesus, saiu logo da


água; e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito
Santo de Deus descendo como uma pomba e
vindo sobre ele; e eis que uma voz dos céus dizia: Este
é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” (grifo
nosso)

Marcos 1,9-11: “E aconteceu naqueles dias que veio

298 KERSTEN, 1988, p. 85.


299 KERSTEN e GRUBER, 1995(?), p. 28.
300 ARIAS, 2001, p. 112.
337

Jesus de Nazaré da Galileia, e foi batizado por João no


Jordão. E logo, quando saía da água, viu os céus se
abrirem, e o Espírito, qual pomba, a descer sobre
ele; e ouviu-se dos céus esta voz: Tu és meu Filho
amado; em ti me comprazo.” (grifo nosso)

Lucas 3,21-22: “Quando todo o povo fora batizado,


tendo sido Jesus também batizado, e estando ele a orar,
o céu se abriu; e o Espírito Santo desceu sobre ele
em forma corpórea, como uma pomba; e ouviu-se
do céu esta voz: Tu és o meu Filho amado; em ti me
comprazo.” (grifo nosso)

João 1,32: “E João deu testemunho, dizendo: Vi o


Espírito descer do céu como pomba, e repousar
sobre ele.” (grifo nosso)

Interessante é a divergência; afinal, o que se viu: o


Espírito Santo de Deus, o Espírito Santo ou simplesmente o
Espírito? E como será que desceu sobre ele? Vejamos o que
Bart D. Ehrman nos diz: “Ver, por exemplo, Marcos 1:10. Em
grego, o versículo diz literalmente que o Espírito desceu 'para
dentro' de Jesus.” (301) (grifo nosso)

Ora, se o Espírito desceu para dentro de Jesus, caso seja


esse espírito o Espírito Santo, então, pode-se concluir que os
dois (Jesus e o Espírito Santo) são distintos um do outro. E mais
que o Espirito Santo é maior do que Jesus, porquanto, somente
após a “descida” desse espírito sobre Ele é que o Nazareno
inicia a sua pregação ao povo, desempenhando a sua missão
de Messias, após o caminho endireitado por João Batista
(Mateus 3,3) ou seja, depois de estar sob a ação do Espírito
Santo. Isso será confirmado em Mateus 12,31-32, que

301 EHRMAN, 2008, p. 374.


338

analisaremos um pouco mais à frente.

Mateus 9,6-8: “'Pois bem, para que vocês saibam que o


Filho do Homem tem poder na terra para perdoar
pecados – então disse Jesus ao paralítico: Levante-se,
pegue a sua cama e vá para a sua casa'. O paralítico
então se levantou, e foi para a sua casa. Vendo isso, a
multidão ficou com medo e louvou a Deus, por ter
dado tal poder aos homens.” (grifo nosso)

A expressão “Filho do Homem” é, inúmeras vezes,


encontrada: (doze vezes em Mateus, treze vezes em Marcos,
vinte e seis vezes em Lucas e doze vezes em João). Foi usada
por Jesus para se colocar como um homem e não como o
próprio Deus; fato que também pode ser observado, quando,
após curar esse paralítico, a multidão louvou a Deus por ter
dado tal poder aos homens, ou seja, com isso estavam se
referindo a Jesus como homem; portanto, é certo que o tinham
mesmo nessa condição, não como sendo o próprio Deus.

Mateus 11,27: “Todas as coisas me foram entregues


por meu Pai; e ninguém conhece plenamente o Filho,
senão o Pai; e ninguém conhece plenamente o Pai,
senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”
(grifo nosso)

Caso Jesus se considerasse Deus não havia razão para


Ele dizer que recebera todas as coisas do Pai, porquanto, já as
tinha por si mesmo.

Mateus 12,31-32: “É por isso que eu digo a vocês: todo


pecado e blasfêmia será perdoado aos homens; mas a
blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Quem
disser alguma coisa contra o Filho do Homem, será
perdoado. Mas quem disser algo contra o Espírito
339

Santo, nunca será perdoado, nem neste mundo, nem


no mundo que há de vir.” (grifo nosso)

Ora, se toda blasfêmia contra o Filho do Homem será


perdoada e a contra o Espírito Santo nunca será, a conclusão,
que depreendemos disso, é que ele, o Espírito Santo, é superior
ao Filho do Homem, além de não ser Jesus. Então, a igualdade
na Trindade, propalada pelos que nela creem, não existe. Se
não existe, consequentemente, Jesus, não podendo ser o
Espírito Santo, muito menos poderá ser Deus.

Mateus 12,48-49: “Ele, porém, respondeu ao que lhe


falava: Quem é minha mãe? e quem são meus irmãos?
·E, estendendo a mão para os seus discípulos disse: Eis
aqui minha mãe e meus irmãos.” (grifo nosso)

Mateus 25,34-40: “Então dirá o Rei aos que estiverem à


sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por
herança o reino que vos está preparado desde a
fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de
comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e
me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me
visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os
justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com
fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos
de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos?
ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na
prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em
verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um
destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a
mim o fizestes.·E responder-lhes-á o Rei: Em verdade
vos digo que, sempre que o fizestes a um destes
meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o
fizestes.” (grifo nosso)

Mateus 28,9-10: “E eis que Jesus lhes veio ao encontro,


dizendo: Salve. E elas, aproximando-se, abraçaram-lhe
340

os pés, e o adoraram. Então lhes disse Jesus: Não


temais; ide dizer a meus irmãos que vão para a
Galileia; ali me verão.” (fato ocorrido depois de sua
ressurreição). (grifo nosso)

João 10,17: “Disse-lhe Jesus: Deixa de me tocar, porque


ainda não subi ao Pai; mas vai a meus irmãos e dize-
lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e
vosso Deus.” (grifo nosso)

Ao tratar a todos, povo e discípulos, como irmãos, Jesus,


seguramente, o faz por ter a si mesmo nessa condição; não
numa infinitamente mais elevada, que seria aquela se Ele fosse
a própria divindade. E, numa outra oportunidade, afirmou: “Em
verdade, em verdade vos digo: Aquele que crê em mim, esse
também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do
que estas; porque eu vou para o Pai;” (João 14,12). Ora, disso
não podemos concluir outra coisa senão que Jesus se igualou a
todos nós, a não ser que tenhamos o que aqui está dito como
inverídico.

Mateus 14,23: “Tendo-as despedido, subiu ao monte


para orar à parte. Ao anoitecer, estava ali sozinho.”
(grifo nosso)

Mateus 26,36: “Então foi Jesus com eles a um lugar


chamado Getsêmane, e disse aos discípulos: Sentai-vos
aqui, enquanto eu vou ali orar.” (grifo nosso)

Mateus 26,39: “E adiantando-se um pouco, prostrou-se


com o rosto em terra e orou, dizendo: Meu Pai, se é
possível, passa de mim este cálice; todavia, não
seja como eu quero, mas como tu queres.” (grifo nosso)

Mateus 26,44: “Deixando-os novamente, foi orar


terceira vez, repetindo as mesmas palavras.” (grifo
341

nosso)

Lucas 3,21: “Quando todo o povo fora batizado, tendo


sido Jesus também batizado, e estando ele a orar, o céu
se abriu.” (grifo nosso)

Lucas 6,12: “Naqueles dias retirou-se para o monte a


fim de orar; e passou a noite toda em oração a Deus.”
(grifo nosso)

Lucas 9,28: “Cerca de oito dias depois de ter proferido


essas palavras, tomou Jesus consigo a Pedro, a João e a
Tiago, e subiu ao monte para orar.” (grifo nosso)

Mantendo-se a crença de que Jesus é Deus, julgamos


totalmente fora de propósito Ele orar para si mesmo; tal coisa,
por tão absurda, fere-nos a razão. Até onde sabemos somente
os mortais comuns oram a Deus. E, inclusive, num desses
momentos, Jesus pede a Deus para afastar dele o cálice,
fraqueza não condizente com a sua condição de Espírito puro,
mensageiro divino; pior ainda se ele fosse mesmo Deus.

Mateus 16,13-14: “Tendo chegado à região de Cesareia


de Filipe, Jesus perguntou aos discípulos: ‘Quem dizem
por aí as pessoas que é o filho do homem?’
Responderam: ‘Umas dizem que é João Batista, outras
que é Elias, outras enfim, que é Jeremias ou algum dos
profetas’.” (grifo nosso)

Mateus 26,67-68: “Então, cuspiram no seu rosto e


cobriram-no de socos. Outros lhe davam bordoadas. E
lhe diziam: ‘Mostra que és profeta, ó Cristo, advinha
quem foi que te bateu?’” (grifo nosso)

João 7,40: “Muitos daquela gente que tinham ouvido


essas palavras de Jesus afirmavam: ‘Verdadeiramente
ele é o profeta’.” (grifo nosso)
342

João 9,17: “Perguntaram ainda ao cego: ‘Qual é a tua


opinião a respeito de quem te abriu os olhos?’
Respondeu: ‘É um profeta’.” (grifo nosso)

Lucas 24,19: “[…] Jesus de Nazaré foi um profeta,


poderoso em obras e palavras diante de Deus e do
povo.” (grifo nosso)

Atos 2,22: “Homens de Israel, escutai o que digo: ‘Jesus


de Nazaré foi o homem credenciado por Deus junto a
nós com poderes extraordinários, milagres e prodígios.
Bem sabeis as coisas que Deus realizou através dele no
meio de vós’.” (grifo nosso)

Por esses passos temos, seguramente, que o povo e os


discípulos pensavam ser Jesus um profeta e não o próprio Deus;
porém, não é só isso: Ele mesmo assim se qualificava; senão
vejamos:

Lucas 13,33: “Entretanto devo continuar meu caminho


hoje, amanhã e no dia seguinte, porque não convém
que um profeta morra fora de Jerusalém.” (grifo nosso)

Marcos 6,4-5: “Mas Jesus lhes dizia: ‘Um profeta só


deixa de ser honrado em sua pátria, em sua casa e
entre seus parentes. E não podia ali fazer milagre
algum’.” (grifo nosso)

Observamos, assim, que tanto o povo como os seus


discípulos acreditavam que Jesus era um profeta, o que aqui,
nesses passos, está sendo confirmado pelo próprio Mestre. Na
passagem que se segue também veremos como o tinham.

Mateus 17,1-6: “Seis dias depois, tomou Jesus consigo a


Pedro, a Tiago e a João, irmão deste, e os conduziu à
parte a um alto monte; e foi transfigurado diante deles;
o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes
343

tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes


apareceram Moisés e Elias, falando com ele. Pedro,
tomando a palavra, disse a Jesus: 'Senhor, bom é
estarmos aqui; se queres, farei aqui três cabanas,
uma para ti, outra para Moisés, e outra para
Elias'. Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem
luminosa os cobriu; e dela saiu uma voz que dizia: Este
é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele
ouvi. Os discípulos, ouvindo isso, caíram com o rosto em
terra, e ficaram grandemente atemorizados.” (grifo
nosso)

Percebemos que Pedro, ao sugerir a construção de três


cabanas (302), uma para cada um dos personagens – Jesus,
Moisés e Elias –, o faz porque tem os três no mesmo nível, ou
seja, estabeleceu uma igualdade entre eles; via de
consequência, tomou Jesus como um profeta, tal e qual os
outros dois foram, sem qualquer tipo de privilégio, como
aconteceria caso o visse como Deus.

Mateus 20,20-23: “Aproximou-se dele, então, a mãe dos


filhos de Zebedeu, com seus filhos, ajoelhando-se e
fazendo-lhe um pedido. Perguntou-lhe Jesus: 'Que
queres?' Ela lhe respondeu: 'Concede que estes meus
dois filhos se sentem, um à tua direita e outro à tua
esquerda, no teu reino'. Jesus, porém, replicou: 'Não
sabeis o que pedis; podeis beber o cálice que eu estou
para beber?' Responderam-lhe: 'Podemos'. Então lhes
disse: 'O meu cálice certamente haveis de beber; mas o
sentar-se à minha direita e à minha esquerda, não
me pertence concedê-lo; mas isso é para aqueles
para quem está preparado por meu Pai'.” (grifo
nosso)

302 Algumas traduções trazem tendas, que significa, abrigos rústicos para
residência temporária. (Bíblia Anotada, p. 1209).
344

Certamente que, se houvesse igualdade entre Jesus e


Deus, Ele mesmo poderia ter atendido ao pedido da mãe dos
filhos de Zebedeu; porém, não o fez e foi logo dizendo que
somente o Pai poderia fazê-lo. Portanto, não há como aceitar
que Jesus seja Deus, usando-se de seus próprios argumentos.

Mateus 24,30-36: “Então aparecerá no céu o sinal


do Filho do homem, e todas as tribos da terra se
lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as
nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará
os seus anjos com grande clangor de trombeta, os quais
lhe ajuntarão os escolhidos desde os quatro ventos, de
uma à outra extremidade dos céus. Aprendei, pois, da
figueira a sua parábola: Quando já o seu ramo se torna
tenro e brota folhas, sabeis que está próximo o verão.
Igualmente, quando virdes todas essas coisas, sabei que
ele está próximo, mesmo às portas. Em verdade vos
digo que não passará esta geração sem que todas essas
coisas se cumpram. Passará o céu e a terra, mas as
minhas palavras jamais passarão. Daquele dia e hora,
porém, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem
o Filho, senão só o Pai.” (grifo nosso)

Se encontramos alguma coisa que Jesus, o filho, não


sabe, somente o Pai é que tem conhecimento, não há razão
para supô-los uma só personalidade. Será que o Pai tem
segredos para Jesus ou existem coisas que estariam acima do
conhecimento deste? Qualquer que seja a resposta, dela nós só
podemos concluir que nem tudo o filho sabe; portanto, diante
disso, Jesus não pode ser Deus.

Mateus 27,46: “Cerca da hora nona, bradou Jesus em


alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactani; isto é, Deus
meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (grifo
nosso)
345

Totalmente fora de propósito, caso Jesus fosse Deus, Ele


clamar a si próprio (Deus) por tê-Lo desamparado. Aliás, em
outra oportunidade, Ele disse “meu Pai, vosso pai, meu Deus,
vosso Deus” (João 20,17); portanto, reforçando sua condição de
igualdade para conosco, uma vez que Ele não se coloca nem
mesmo como alguém superior a qualquer um de nós, como
também como sendo Deus. Por sua elevação moral, pode,
nesse sentido, ser considerado superior, pois é um Espírito puro
que nos foi enviado por Deus, para regenerar a humanidade.

Mateus 28,2: “E eis que houvera um grande terremoto;


pois um anjo do Senhor descera do céu e, chegando-se,
removera a pedra e estava sentado sobre ela.” (grifo
nosso)

Na intimidade, ficamos confabulando com “os meus


botões” sobre os grandes prodígios atribuídos a Deus, tais
como criar o Universo, mandar chover para inundar a Terra de
água, confundir a língua dos terráqueos, abrir o Mar Vermelho
em duas muralhas, parar o Sol para aumentar as horas do dia,
fazer chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra,
derrubar as muralhas de Jericó, entre outros feitos
extraordinários narrados na Bíblia, como não pôde mover uma
simples pedra que fechava seu túmulo, foi preciso que um anjo,
uma insignificante de suas criaturas, o fizesse? Diria um
homem precavido: “Sei não, mas esse aí, que colocaram no
túmulo, não poderia ser Deus”.

Marcos 1,24: “Que temos nós contigo, Jesus, nazareno?


Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de
Deus.” (grifo nosso)
346

Tomando-se como verdadeira essa passagem, estaremos


diante de uma situação bem embaraçosa, pois satanás, aquele
que dizem ter sido expulso do céu, identifica Jesus como o
Santo de Deus e não o próprio. Essa informação é importante,
uma vez que ele, satanás, sendo um dos filhos de Deus, que
vivia no reino dos céus (Jó 1,6), conhecia pessoalmente a Deus,
vamos assim dizer, então, como atribuiu a Jesus outra
condição? Diante do que se coloca aqui, não nos cabe aceitar
Jesus como sendo mesmo o próprio Deus.

Marcos 10,18: “Respondeu-lhe Jesus: Por que me


chamas bom? ninguém é bom, senão um que é
Deus.” (grifo nosso)

Se Jesus não aceita o epíteto de bom, porquanto,


segundo sua maneira de pensar, isso só pode ser atribuído a
Deus; assim, não há outra conclusão a chegar senão a de que
Ele não se considerava como sendo o próprio Deus, por mais
que queiram, via dogmatismo, colocá-Lo nessa condição.

Marcos 10,27: “Jesus, fixando os olhos neles, respondeu:


Para os homens é impossível, mas não para Deus;
porque para Deus tudo é possível.” (grifo nosso)

É a resposta dada por Jesus, quando foi questionado


sobre quem poderia ser salvo. Seria mais lógico, caso fosse a
divindade, Ele ter se incluído nessa afirmativa, quem sabe,
dizendo: “porque para mim tudo é possível”.

Marcos 12,26-27: “Quanto aos mortos, porém, serem


ressuscitados, não lestes no livro de Moisés, onde se fala
da sarça, como Deus lhe disse: Eu sou o Deus de
Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ora, ele
347

não é Deus de mortos, mas de vivos. Estais em


grande erro.” (grifo nosso)

Da mesma forma, que na situação anterior, aqui Ele


deveria ter dito: “como eu já lhes disse: eu não sou Deus de
mortos”.

Marcos 15,39: “Ora, o centurião, que estava defronte


dele, vendo-o assim expirar, disse: Verdadeiramente
este homem era filho de Deus.” (grifo nosso)

Se o reconhecessem como Deus essa frase só teria


sentido se estivesse dessa forma: “Verdadeiramente este
homem era Deus”; até mesmo porque, devemos convir,
satanás também é filho de Deus (Jó 1,6). Nesse caso, podemos
até dizer que satanás seria filho de Jesus. Então como Jesus não
o repreendeu como a um filho, quando ele O tentava no
deserto?

Lucas 1,35: “Respondeu-lhe o anjo: 'Virá sobre ti o


Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a
sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado
santo, Filho de Deus'.” (grifo nosso)

Será que o anjo se enganou, ou realmente toda a corte


celeste tem Jesus como um homem? Portanto, se O chamavam
de “santo, filho de Deus” isso não é tê-lo como o próprio Deus.

Quanto ao uso da expressão “filho de Deus”, o jornalista


Pepe Rodríguez coloca o seguinte:

Jesus, apesar de saber que a expressão “Filho de


Deus” tinha sido normalmente utilizada no Velho
Testamento para designar figuras particularmente
348

importantes da história hebraica – como David,


Salomão, outros reis hebreus, o próprio Adão e os “filhos
de Israel” –, em nenhuma passagem se refere a si
próprio como filho de Deus (303), preferindo utilizar a
expressão “Filho do homem”, um termo utilizado por
Daniel (Dan 7,13) e que, em aramaico, significa
simplesmente “homem”, “ser humano” e nada mais.
Procurar dar-lhe um outro qualquer significado não
passa de um exercício próprio de uma imaginação febril.
(304) (grifo nosso)

Baseando-nos no título da obra de Rodríguez, da qual


transcrevemos esse texto, diremos que a elevação de Jesus ao
status de um deus faz parte das “Mentiras fundamentais da
Igreja Católica”.

Lucas 2,40: “E o menino ia crescendo e fortalecendo-se,


ficando cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava
sobre ele.” (grifo nosso)

Essa narrativa é uma das poucas referências à infância


de Jesus. Nela não vemos sentido dizer que a graça de Deus
estava sobre Ele, caso fosse o próprio Deus, uma vez que, para

303 6. A única excepção encontramo-la em Jo 6,32-45: “Moisés não vos


deu o pão do céu; é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o
pão de Deus é o que baixou do céu e dá vida ao mundo. […] Eu sou o pão
da vida; o que vem a mim deixará de ter fome, e o que crê em mim jamais
sentirá sede, […] todo aquele que o Pai me dá vem a mim, e aquele que
vem a mim não o deitarei fora, porque desci do céu, não para fazer a minha
vontade, mas a vontade daquele que me enviou. […] Porque esta é a
vontade de meu Pai, que todo aquele que vê o Filho e crê n'Ele recebe a
vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. […] Todo aquele que escuta
o meu Pai e recebe o seu ensinamento, vem a mim…” Porém, como
mostrámos no seu devido momento, o texto do Evangelho de João,
escrito pelo grego João, o Ancião, em princípios do século II, revela
um Jesus absolutamente deformado, que fala com uma prepotência
descarada, contrariamente à humildade que o caracteriza nos
relatos dos três sinópticos. Por exemplo, em Mc 10,18, deparamos com
um Jesus que diz: “Porque me chamas bom? Ninguém, a não ser Deus, é
349

se chegar a essa conclusão, teria que ser afirmado algo mais ou


menos assim: “a graça de Deus era ele”.

Lucas 3,23: “Jesus tinha cerca de trinta anos quando


começou sua atividade pública. E, conforme se pensava,
ele era filho de José, […].” (grifo nosso)

Será que até aos trinta anos de vida, Jesus não foi
considerado, pelos de Sua época, como sendo Deus, deixando-
se para fazê-lo depois? Ou será que O tornaram Deus
posteriormente? Ficamos com a segunda hipótese.

João 1,1-14: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava


com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio
com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio
dele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava
a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandece
nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.
Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João.
Este veio como testemunha, a fim de dar testemunho da
luz, para que todos cressem por meio dele. Ele não era a
luz, mas veio para dar testemunho da luz. Pois a
verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava
chegando ao mundo. Estava ele no mundo, e o mundo
foi feito por intermédio dele, e o mundo não o
conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o
receberam. Mas, a todos quantos o receberam, aos que
creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem
filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem

bom”. Por outro lado, o Jesus do Evangelho de João fala de uma maneira
azeda com os outros judeus e as suas afirmações soam a absurdas na boca
de um judeu, quando tudo o que sabemos sobre ele é que foi um judeu.
Esta autodesignação como filho de Deus não merece, pois,
qualquer crédito, em termos históricos, além de nela ser
claramente evidente a influência da filosofia platónica. Como se
sabe, foi no contexto dessa filosofia que se desenvolveu a cristologia tal
como a conhecemos hoje.
304 RODRÍGUEZ, 2007, p. 178.
350

da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de


Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós,
cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória,
como a glória do unigênito do Pai.” (grifo nosso)

Certamente, que Jesus sendo o Verbo de Deus, ou seja,


aquele por quem Deus envia a Sua mensagem à humanidade,
ao encarnar-se como ser humano, podemos considerar o Verbo
se fazendo carne. Entretanto, o que não podemos fazer, por
falta de lógica, é admitir que Jesus seja o próprio Deus
encarnado, uma vez que se Deus não cabe num templo, com
muito maior razão, não caberia num corpo humano, templo do
Espírito. Salomão, com sua sabedoria, percebeu que: “Mas, na
verdade, habitaria Deus na terra? Eis que o céu, e até o céu
dos céus, não te podem conter; quanto mais esta casa que
edifiquei!” (1 Reis 8,27), ou seja, nem mesmo na Terra é
admitido que Deus caiba, o que perfeitamente podemos
entender, por se tratar de um ser infinito.

E, quanto ao versículo 14, que diz “E o Verbo se fez


carne, e habitou entre nós”, encontramos a seguinte
explicação: “Esta expressão entre nós não é fiel ao original,
que é em nós (do grego em hemin; e do latim in nobis, como
está na Vulgata). (305) (grifo nosso)

No Site Bíblia Católica (306) confirmamos que, de fato, em


grego e latim, consta da forma aqui mencionada. O
interessante é que isso muda completamente o sentido da
frase, pois se o Verbo está em nós, é, certamente, a centelha

305 CHAVES, 2006, p. 136.


306 Link: http://www.bibliacatolica.com.br/
351

divina que todos nós possuímos, não se pode dizer que


somente Jesus a tenha.

O filósofo, educador e teólogo Huberto Rohden


manifestou sua opinião sobre isso da seguinte forma:

Que é o Cristo, o Ungido, que os antigos hebreus


chamavam Messias, o Enviado?
O quarto Evangelho designa o Cristo com a palavra
Logos, começando o texto com estas palavras:
“No princípio era o Logos, e o Logos estava com
Deus, e o Logos era Deus”.
A palavra grega Logos é muito anterior à Era Cristã.
Os filósofos antigos de Alexandria e de Atenas,
sobretudo, Heráclito de Éfeso, designavam com
Logos o espírito de Deus manifestado no Universo.
Logos seria, pois, o Deus imanente, em oposição à
Divindade transcendente, que não é objeto de nosso
conhecimento.
A Vulgata Latina traduz Logos por Verbo: “No
princípio era o Verbo...”
Logos, Verbo, Cristo são idênticos e designam a
atuação da Divindade Creadora, a manifestação
individual da Divindade universal.
Neste sentido, o Cristo é Deus, mas não é a
Divindade. E neste sentido diz ele aos Homens: “Vós
sois deuses”; os homens são manifestações individuais
da Divindade Universal. A primeira e mais perfeita das
manifestações da Divindade Universal, no Universo, é o
Cristo, o Verbo, o Logos, que Paulo de Tarso chama
acertadamente "o primogênito de todas as creaturas" do
Universo.
O Cristo é anterior à creação do mundo material. Ele
é “o Primogênito de todas as creaturas”. O Cristo
352

não é creatura humana, mas a mais antiga


individualidade cósmica, que, antes do princípio do
mundo, emanou da Divindade Universal.
O Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que
Jesus designa com o nome Pai: “Eu e o Pai somos
um, mas o Pai é maior do que eu”.
Deus, na linguagem de Jesus, significa uma
emanação individual da Divindade universal.
A confusão tradicional entre Deus e Divindade
tem dado ensejo a intermináveis controvérsias entre
os teólogos. Mas o texto do Evangelho é claro: o
Cristo afirmou ser Deus, mas nunca afirmou ser ele
a própria Divindade. (307) (grifo nosso)

Portanto, temos aí, por esse renomado teólogo ex-padre


jesuíta, a confirmação de que Jesus não é Deus, com base
nessa passagem de João.

Encontramos, em nossa pesquisa, uma informação que


será desconcertante para os que acreditam na divindade de
Jesus, tomando-se esse trecho de João sobre o Verbo,
porquanto ela nos induz a concluir que o passo em questão tem
grande possibilidade de tratar-se de um plágio do livro Rig-Veda
da Índia, no qual consta este verso: “No princípio era Brahman,
com quem estava o Verbo, e o Verbo é Brahman” (traduzindo-
se a palavra “Vak” do sânscrito como “Verbo”. (308)

Por outro lado, vemos a afirmativa de que Jesus é Filho


unigênito, e João repete isso por mais quatro vezes (João 1,18;
3,16,18; 1 João 4,9), enquanto em outras passagens se diz ser

307 ROHDEN, 1996, p. 23-25.


308 LEWIS, 2008, p. 45.
353

ele primogênito, estabelecendo um conflito, pois não se pode


atribuir a uma mesma pessoa simultaneamente essas duas
condições. Leiamos os passos:

Romanos 8,28-29:“E sabemos que todas as coisas


concorrem para o bem daqueles que amam a Deus,
daqueles que são chamados segundo o seu propósito.
Porque os que dantes conheceu, também os
predestinou para serem conformes à imagem de
seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre
muitos irmãos.” (grifo nosso)

Colossenses 1,12-15: “dando graças ao Pai que vos fez


idôneos para participar da herança dos santos na luz, e
que nos tirou do poder das trevas, e nos transportou
para o reino do seu Filho amado; em quem temos a
redenção, a saber, a remissão dos pecados; o qual é
imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a
criação.” (grifo nosso)

As afirmativas de que Jesus foi “o primogênito entre


muitos irmãos” e “o primogênito de toda a criação” é um golpe
mortal na crença de que Ele seja Deus, especialmente, aos que
querem usar a razão e a lógica como base de sua análise.

Rohden, provavelmente tomando dessas duas falas de


Paulo, argumenta bem claro:

Quando Paulo de Tarso diz que o Cristo é o


primogênito de todas as creaturas, supõe ele que o
Cristo seja creatura, e não o Creador, e toda creatura
é evolvível, de perfeição elástica, aumentável. Nenhuma
creatura pode coincidir com o Creador. (309) (grifo nosso)

309 ROHDEN, 1996, p. 45.


354

Outro autor bíblico que colocou Jesus como primogênito


foi o de Hebreus:

Hebreus 1,1-6: “Havendo Deus antigamente falado


muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos
profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo
Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e
por quem fez também o mundo; sendo ele o
resplendor da sua glória e a expressa imagem do
seu Ser, e sustentando todas as coisas pela palavra do
seu poder, havendo ele mesmo feito a purificação dos
pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas,
feito tanto mais excelente do que os anjos,
quanto herdou mais excelente nome do que eles.
Pois a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, hoje
te gerei? E outra vez: Eu lhe serei Pai, e ele me será
Filho? E outra vez, ao introduzir no mundo o
primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o
adorem.” (grifo nosso)

Nesse passo, percebe-se que, para o autor, Jesus é


superior aos anjos, os filhos de Deus (João 1,6) que, como
sabemos, são Espíritos humanos desencarnados; certamente,
por sua condição de Espírito puro, não se poderia dizer outra
coisa dele.

Ao que nos parece, ele não fez confusão alguma no


sentido de tomar Jesus como sendo Deus; ele O vê como
manifestação da divindade, coisa bem diferente daquilo que
alguns autores querem fazer-nos crer; porém, uma coisa não se
definiu claramente, pois, nesse passo, ele situa Jesus acima dos
anjos, no que se segue, já faz justamente o contrário:
colocando-O abaixo dos anjos:

Hebreus 2,7-9: “Fizeste-o um pouco menor que os


355

anjos, de glória e de honra o coroaste, todas as coisas


lhe sujeitaste debaixo dos pés. Ora, visto que lhe
sujeitou todas as coisas, nada deixou que não lhe fosse
sujeito. Mas agora ainda não vemos todas as coisas
sujeitas a ele; vemos, porém, aquele que foi feito
um pouco menor que os anjos, Jesus, coroado de
glória e honra, por causa da paixão da morte, para que,
pela graça de Deus, provasse a morte por todos.” (grifo
nosso)

É uma visão bem interessante, que, segundo


acreditamos, contradiz o que se dogmatizou a respeito de
Cristo, entronizando-O como a segunda pessoa da Trindade.

João 1,15: “João deu testemunho dele, e clamou,


dizendo: Este é aquele de quem eu disse: O que vem
depois de mim, passou adiante de mim; porque antes
de mim ele já existia.” (grifo nosso)

João 8,58: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em


verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu
sou.” (grifo nosso)

Colossenses 1,17: “Ele existe antes de todas as


coisas, e tudo nele subsiste.” (grifo nosso)

Não compreendendo que todos os Espíritos preexistem,


tomaram essa afirmativa sobre Jesus para sustentar a condição
dele ser o próprio Deus. Certo estava o amigo de Jó ao dizer,
embora em outro contexto, que “somos de ontem e nada
sabemos” (Jó 8,9); mas, infelizmente, até o momento, isso não
foi compreendido pelos teólogos, que não se deram conta do
seguinte:

Disso ressalta um outro ensinamento de uma alta


gravidade. Não se admitindo que a alma já viveu, é
356

necessário, de toda a necessidade, que ela seja criada


no momento da formação e para uso de cada corpo;
de onde se segue que a criação da alma por Deus
estaria subordinada ao capricho do homem, e, na
maior parte do tempo, o resultado do deboche. […]. ( 310)
(grifo nosso)

Já, por muitas vezes, vimos pessoas usando o “eu sou”


citado por João, para divinizar Jesus, ao estabelecerem uma
relação dessa afirmativa com o que foi dito em Êxodo 3,14:
“[…] Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós”.
O que não fazem para chegar ao que querem?… Na verdade
quanto ao “eu sou” da frase de João trata-se do verbo existir,
ou seja, Jesus está afirmando que ele existia antes de Abraão,
nada mais que isso. Simples, de ver isso: se em Êxodo, em vez
de “eu sou”, estivesse um dos nomes atribuídos a Deus, a fala
ficaria: “Assim dirás aos olhos de Israel Jeová me enviou a vós”.
Façamos a mesma coisa na frase de João: “[…] antes que
Abraão existisse, Jeová”, ou seja, não tem cabimento, pois a
frase ficará totalmente sem sentido, enquanto, que se
entendermos o “eu sou” como “eu já existia”, isso
perfeitamente se encaixa para se compreender o que foi dito.
Além disso, em João 14,10-11 Jesus afirma que “eu estou no
Pai, e que o Pai está em mim”, ou seja, estar no Pai não é a
mesma coisa que ser o pai e, por sua vez, o Pai está em mim,
não significa dizer o Pai sou eu.

Encontramos uma versão bem interessante para essa


passagem de Êxodo: “Eu sou o Ser. Assim dirás aos filhos de

310 KARDEC, 1993f, p. 188.


357

Israel: O Ser me enviou até a vós.” (311), que, acreditarmos, dá


uma tradução mais lógica ao passo.

Uma vez que citamos Paulo (Colossenses 1,17), é


oportuno vermos também o que Pepe Rodríguez diz sobre ele:

Paulo deixou, no entanto, uma outra marca na


doutrina, uma marca mais essencial e original que as
precedentes. Estamos a referir-nos à preexistência de
Cristo e ao seu papel fundamental após a ressurreição.
Paulo não concebia Jesus como um deus
encarnado, e ainda menos como a segunda pessoa
da Santíssima Trindade. Para ele, o Jesus da
Ascensão era o “Filho do homem” dos místicos judeus.
Segundo o ramo do ocultismo judeu, conhecido por
Maaseh Bereshit – em que Paulo fora iniciado e que
procurava saber, a partir da leitura do Génesis, como
tinha sido criado o homem –, Deus criou o Homem
Celestial à sua imagem, como Arquétipo (Filho do
homem), e foi à imagem deste que Adão foi formado.
Paulo integrou perfeitamente esta crença e adaptou-a
ao seu objetivo, postulando que o Homem Celestial ou
“Messias do Alto” encarnara em Jesus, o “Messias de
Baixo”, transformando-o, assim, num Segundo Adão.
(312).
Por outras palavras, a origem do contributo
determinante de Paulo para a cristologia radica em
determinadas crenças do ocultismo rabínico, crenças
que lhe eram caras desde a juventude e que não só se
adaptaram perfeitamente à sua personalidade peculiar,

311 ASCH, 1958, p. 115.


312 N.T.: É essa problemática que Paulo se refere quando, por exemplo,
escreve; “Razão por que está escrito: ‘O primeiro homem, Adão, foi um ser
psíquico dotado de vida’; o último Adão é um espírito que dá vida” (ICor
15,45). Descrições e desenvolvimentos similares encontram-se igualmente
noutras epístolas enviadas por Paulo às comunidades da Ásia, aos
Filipenses e aos Colossenses.
358

como lhe fortaleciam a convicção de ser um eleito


divino. “O Cristo de Paulo”, conclui Schonfield no seu
estudo (313), “não é Deus, mas sim a primeira criação
de Deus. Na concepção de Paulo, não há lugar para
qualquer fórmula trinitária do credo de Anastásio,
nem para a outra doutrina por este defendida e
segundo a qual o Filho foi ‘não feito, nem criado,
mas gerado’”. […]. (314) (grifo nosso).

Vê-se, portanto, que não há espaço para nos basearmos


em Paulo visando elevar Jesus à categoria de um deus.

João 4,34: “Disse-lhes Jesus: 'A minha comida é fazer a


vontade daquele que me enviou, e completar a sua
obra'.” (grifo nosso)

João 5,30: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa


alguma; como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo,
porque não procuro a minha vontade, mas a vontade
daquele que me enviou.” (grifo nosso)

João 6,38: “Porque eu desci do céu, não para fazer a


minha vontade, mas a vontade daquele que me
enviou.” (grifo nosso)

Fica clara a condição de Jesus ser subordinado a Deus,


vindo ao mundo pela vontade Dele, para cumprir determinada
missão; por conseguinte, não temos como não vê-Lo como
alguém que é inferior a Deus, embora, bilhões e bilhões de
vezes moralmente superior a qualquer um de nós, seres
humanos normais.

João 5,43: “Eu vim em nome de meu Pai, e não me

313 N.T.: Cf. Schonfield, H. J. (1987), Jesús ¿Mesías o Dios?, Martínez Roca,
Barcelona, pp. 188-193.
314 RODRÍGUEZ, 2007, p. 86-87.
359

recebeis; se outro vier em seu próprio nome, a esse


recebereis.” (grifo nosso)

João 8,38: “Eu falo do que vi junto de meu Pai; e vós


fazeis o que também ouvistes de vosso pai.” (grifo
nosso)

João 10,18: “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim


mesmo a dou; tenho autoridade para a dar, e tenho
autoridade para retomá-la. Este mandamento recebi
de meu Pai.” (grifo nosso)

João 10,29: “Meu Pai, que mas deu, é maior do que


todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu
Pai.” (grifo nosso)

João 14,21: “Aquele que tem os meus mandamentos e


os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama
será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me
manifestarei a ele.” (grifo nosso)

João 14,23: “Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me amar,


guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e
viremos a ele, e faremos nele morada.” (grifo nosso)

João 15,10: “Se guardardes os meus mandamentos,


permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu
tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e
permaneço no seu amor.” (grifo nosso)

João 15,15: “Já não vos chamo servos, porque o servo


não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos
amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei
a conhecer.” (grifo nosso)

João 15,23-24: “Aquele que me odeia a mim, odeia


também a meu Pai. Se eu entre eles não tivesse feito
tais obras, quais nenhum outro fez, não teriam pecado;
mas agora, não somente viram, mas também odiaram
tanto a mim como a meu Pai.” (grifo nosso)
360

Ninguém chama a si mesmo de “meu Pai”, a não ser que


esteja completamente fora do juízo. Até onde sabemos, não
existe nenhuma lei natural que possa fazer alguém ser pai de si
mesmo; portanto, aqui temos claramente a distinção entre
Jesus e Deus. E não há desculpa de “mistério” que possa
resolver essa questão.

João 8,54: “Respondeu Jesus: 'Se eu me glorificar a mim


mesmo, a minha glória não é nada; quem me glorifica
é meu Pai, do qual vós dizeis que é o vosso Deus'.”
(grifo nosso)

João 20,17: “Disse-lhe Jesus: 'Deixa de me tocar, porque


ainda não subi ao Pai; mas vai a meus irmãos e dize-lhes
que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e
vosso Deus'.” (grifo nosso)

Verifica-se que Jesus se coloca exatamente na mesma


condição que todos nós, pois se o Pai/Deus dele é o mesmo que
o nosso, não podemos qualificá-Lo como sendo o próprio Deus,
porquanto, dizer o contrário é não ser coerente com o que aqui
Ele diz.

João 10,25: “Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não


credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai,
essas dão testemunho de mim.” (grifo nosso)

O correto seria dizer “as obras que eu faço, faço em meu


nome”, caso Jesus se considerasse o próprio Deus.

João 10,30: “Eu e o Pai somos um.” (grifo nosso)

João 14,20: “Naquele dia conhecereis que estou em


meu Pai, e vós em mim, e eu em vós.” (grifo nosso)

João 17,22: “E eu lhes dei a glória que a mim me deste,


361

para que sejam um, como nós somos um.” (grifo


nosso)

A primeira dessas passagens é a que é mais usada para


sustentar a divindade de Jesus. O que não se faz para manter
um dogma, pois aqui, de uma metáfora, fizeram uma realidade.
Quando um padre diz ao casal, que abençoa, “agora vocês
formam um só corpo”, tomando como base “o homem... se
unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Gênesis
2,24), devemos entender pelo sentido metafórico ou como
coisa real? Da mesma forma, também não poderemos pegar o
“Eu e o Pai somos um” a não ser no sentido figurado. E, tanto é
verdade, que o que se diz em João 17,22 derruba aquilo que
tomaram como verídico; inclusive, para serem coerentes teriam
que tomá-lo também no mesmo sentido de João 10,30, mas não
é isso o que fazem.

Caso Jesus quisesse que entendêssemos alguma


igualdade, certamente teria dito algo mais ou menos assim: “Eu
e o Pai somos a mesma pessoa”; fala bem explicita, de modo a
não deixar qualquer possibilidade de dúvidas. Aliás, o que
estamos vendo é que dezenas de passagens nos apontam para
o fato de que Jesus não é Deus, enquanto com apenas uma
“meia-dúzia de seis”, num linguajar popular, tentam nos
contradizer, tomando de uma interpretação ortodoxa, que visa
apenas sustentar dogmas impostos a ferro e fogo.

Recorramos novamente ao teólogo Rohden, que se


manifestou da seguinte forma:

A visão de Jesus é inteiramente monista, e não


362

monoteísta; para ele, há uma única Essência, que ele


chama Pai, a qual se manifesta em muitas existências,
ou creaturas. Depois de afirmar "Eu e o Pai somos um",
acrescenta ele “mas o Pai é maior do que eu”, como se
dissesse: Eu, o Cristo, estou na Divindade mas não
sou a Divindade; a Divindade é infinitamente maior
do que eu. Ou então, em terminologia filosófica: Eu, a
existência individual, sou uma manifestação da Essência
Universal, que é maior que qualquer existência; vós
também, meus discípulos, sois existências individuais,
manifestações da Essência única da Divindade.
A manifestação individual da Divindade Universal é
por ele chamada Deus. Quando foi acusado de se
dizer Deus, não o negou, e acrescentou que também
os homens eram Deus, isto é, manifestações
individuais da Divindade Universal: “Vós também
sois deuses”.
Quando o Cristo se diz Deus, afirma ele que é uma
manifestação individual da Divindade, mas não faz
de si uma parcela ou pessoa da Divindade, como não
faz dos homens parcelas ou pessoas da Divindade.
Nenhuma creatura é parcela ou centelha da Divindade,
como querem os poetas; se a Divindade se parcelasse,
ela se diminuiria na razão direta do seu parcelamento.
As creaturas são apenas manifestações da
Divindade, ou existencializações múltiplas da Essência
una e única. (315) (grifo nosso).

E em Jesus Nazareno, Rohden, volta ao assunto, desta


vez dizendo:

Há quase vinte séculos que a cristandade se agita


em controvérsias sobre a questão se Cristo é Deus ou
não, confundindo Deus com Divindade.

315 ROHDEN, 1996, p. 60-61.


363

Jesus faz ver aos seus adversários que ele, como a


mais alta emanação individual (Deus) da Divindade não
é escravo, mas Senhor do sábado, e não tem de
obedecer a leis humanas.
Em todo esse diálogo com seus ouvintes, afirma
Jesus que o seu Cristo é Deus, mas que o Pai, que é a
Divindade, é maior do que ele, o Cristo, a primeira e
mais alta emanação individual da Divindade Universal.
Entretanto, como os ouvintes não sabiam distinguir entre
Deus e Divindade (Pai), compreendem mal as palavras
de Jesus. Ele, porém, continua a afirma que está na
Divindade e a Divindade está nele, embora a Divindade
seja maior do que ele. Acrescenta que a Divindade
também está em todos os homens, e todos os homens
estão na Divindade, por isto, todo homem é Deus, uma
emanação individual da Divindade, embora nenhum
homem seja a própria Divindade Universal.
Para ilustrar esta verdade, poderíamos fazer o
seguinte paralelo. Um raio solar pode dizer: Eu e o Sol
somos um; o Sol está em mim, e eu estou no Sol – mas
o Sol é maior do que eu.
Esta imanência de Deus nas creaturas é chamada
“panenteísmo” (tudo em Deus), que não é “panteísmo”
(tudo é Deus).
A Divindade é a única Essência, que está imanente
em todas as Existências. A Divindade é o Infinito, assim
como a Essência única está em todas as Existências
múltiplas. (316)

Rohden foi muito feliz em suas colocações; somente o


fanatismo, que embota o raciocínio, impede de entendê-lo.

Ademais falta aos fanáticos um pouco mais de

316 ROHDEN, 2007, p. 103-104.


364

coerência, pois deveriam dar a outros textos a mesma linha de


interpretação que dão a “Eu e o pai somos um” (Jo 10,30).
Vejamos os passos:

Romanos 12,5: “Assim nós, embora muitos, somos um


só corpo em Cristo, e individualmente uns dos outros.”
(grifo nosso)

1 Coríntios 10,17: “Pois nós, embora muitos, somos um


só pão, um só corpo; porque todos participamos de um
mesmo pão.” (grifo nosso)

Gálatas 3,28: “Não há judeu nem grego; não há escravo


nem livre; não há homem nem mulher; porque todos
vós sois um em Cristo Jesus.” (grifo nosso)

Em nenhuma dessas falas de Paulo, poderemos dar uma


interpretação literal, teremos, pois, por lógica e bom senso,
tomá-las no sentido simbólico, tal e qual devemos aplicar à fala
de Jesus em João (João 10,30).

Mais uma fala de Paulo:

Gálatas 2,19-20: “Pois eu pela lei morri para a lei, a fim


de viver para Deus. Já estou crucificado com Cristo; e
vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida
que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o
qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.”
(grifo nosso)

Se o “Cristo vive em mim” então, podemos concluir que


Paulo é o Cristo. Sabemos ser apelação, mas é exatamente isso
que fazem a respeito de Jesus, quando querem tomá-lo à conta
de ser o próprio Deus.

Acreditamos que as pessoas que creem na Trindade


365

tomam Jesus por Deus, baseando-se no “Eu e o Pai somos um”;


entretanto, esse entendimento carece de lógica, pois, para
também justificar o Espírito Santo como sendo Deus, não
apresentam uma afirmativa como essa, no sentido de que o
Espírito Santo e Deus também sejam um, ou mesmo uma
semelhante, tal como: “Eu, o Pai e o Espírito Santo somos um”.

João 14,28: “Ouvistes que eu vos disse: 'Vou, e voltarei a


vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que eu vá para
o Pai; porque o Pai é maior do que eu'.” (grifo nosso)

Não fosse a teimosia em querer sustentar suas crenças,


essa passagem seria o “tiro de misericórdia” na questão de
Jesus ser Deus, porquanto, ele aqui foi taxativo em afirmar que
Deus é maior do que ele, e o que é maior, por questões de
razão e lógica, não pode, simultaneamente, ser visto como se
fosse uma igualdade. Aliás, dizer que formam uma única
entidade, mas distintas ao mesmo tempo, já é, para nós, uma
grande contradição.

João 15,1: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o


viticultor.” (grifo nosso)

Percebemos que se tem de fazer muito esforço


exegético para querer sustentar a tese de que Jesus é Deus,
porquanto, são inúmeras as passagens que nos apontam na
direção contrária. O sentido metafórico aqui é claro, não
podemos tomar um pelo outro, ou seja, Jesus como sendo o
próprio Deus, pois a videira não pode ser tomada pelo
cultivador, da qual é dono. Também, por lógica, não se deve
tomar o filho com o pai, nem a coisa com o dono.
366

João 20,26-28: “Oito dias depois estavam os discípulos


outra vez ali reunidos, e Tomé com eles. Chegou Jesus,
estando as portas fechadas, pôs-se no meio deles e
disse: 'Paz seja convosco'. Depois disse a Tomé: 'Chega
aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; chega a tua mão,
e mete-a no meu lado; e não mais sejas incrédulo, mas
crente'. Respondeu-lhe Tomé: 'Senhor meu, e Deus
meu!'.” (grifo nosso)

Essa é mais uma das passagens utilizadas para


sustentar que Jesus é Deus. Preferimos tomar de outra tradução
a expressão final de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!”, para
facilitar o entendimento. É algo que sempre acontece conosco
no dia a dia, quando nos surge um acontecimento
extraordinário e exclamamos: “Meu Deus”. Ou ao encontramos
um amigo que não vemos de longa data, lhe dizer: “Meu Deus,
você aqui!”. Certamente, que não queremos elevar ninguém à
categoria da divindade; é apenas uma forma de falar, tal e
qual, acreditamos, aconteceu com Tomé. Aliás, causa-nos
espécie essa fala de Tomé só ter sido narrada apenas por um
dos evangelistas, quando fato semelhante a esse em
importância – ida de Jesus do Pretório ao Calvário -, foi narrado
pelos quatro (317).

Atos 2,22: “Varões israelitas, escutai estas palavras: A


Jesus, o nazareno, varão aprovado por Deus entre
vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus por ele
fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis.”
(grifo nosso)

Certamente que a afirmativa de Pedro, que Jesus era um

317 Mateus 27,31-32; Marcos 15,20-21; Lucas 23,25-26 e João 19,16-17.


367

varão aprovado por Deus, está bem longe de se atribuir a Ele


uma condição divina, porquanto, ser aprovado varão é uma
coisa, ser Deus é outra completamente diferente.

Pepe Rodríguez, mencionando esse passo, assim explica


a questão:

Os Actos dos Apóstolos atestam exactamente


isso, ou seja, que a primitiva fé cristã distinguia
cuidadosamente entre Deus e Cristo, como se vê, por
exemplo, em Act 2,22, onde se diz:” Varões israelitas,
escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, credenciado
por Deus a vossos olhos por seus milagres, prodígios e
sinais que Deus fez por seu intermédio no meio de vós
[...]”, ou em Act 7,55: “Ele [trata-se de Estêvão], cheio do
Espírito Santo, olhou para o céu e viu a glória de Deus e
Jesus em pé à direita de Deus”. A invejável vista de
Estêvão talvez não seja tão boa como parece, se a
tomarmos por um dos recursos literários de que Lucas
habitualmente se serve para introduzir nos seus textos
inspirados dados alheios aos próprios factos. No caso
vertente, esse dado é a famosa visão de Mc 16,19, que
supõe Jesus “sentado à direita de Deus”. É evidente,
no entanto, que quer para Lucas como para Marcos,
Deus e Jesus são duas entidades absolutamente
separadas, diferentes e de natureza distinta. (318)
(grifo nosso).

Na opinião desse estudioso, em seu tempo, Jesus não


era considerado Deus, isso foi coisa que aconteceu
posteriormente, com o desenvolvimento do cristianismo, que
muito abraçou das crenças pagãs.

Atos 3,13: “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o

318 RODRÍGUEZ, 2007, p. 175;


368

Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a


quem vós entregastes e perante a face de Pilatos
negastes, quando este havia resolvido soltá-lo.” (grifo
nosso)

A afirmativa de Pedro é categórica quanto à situação de


Jesus de ser um servo glorificado por Deus, não cabendo
nenhuma outra interpretação que eleve Jesus à condição de ser
o próprio Deus, numa encarnação humana.

Atos 3,22: “Pois Moisés disse: 'Suscitar-vos-á o Senhor


vosso Deus, dentre vossos irmãos, um profeta
semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos
disser'.” (grifo nosso)

Atos 3,26: “Deus suscitou a seu Servo, e a vós


primeiramente vo-lo enviou para que vos abençoasse,
desviando-vos, a cada um, das vossas maldades.” (grifo
nosso)

Continuando seu discurso, Pedro relaciona Jesus a


Moisés que, segundo acreditavam, havia feito uma profecia de
que Deus iria enviar um profeta semelhante a ele
(Deuteronômio 18,15); disso só temos uma alternativa: aceitar
que Pedro e todos os outros discípulos tinham Jesus como um
profeta; não como a encarnação de Deus.

Por outro lado, a crença dos judeus era que, segundo as


profecias, Deus lhes enviaria um Messias (ungido); não que ele
mesmo viria para restabelecer a sua aliança com o povo
hebreu.

Atos 4,27-31: “Porque verdadeiramente se ajuntaram,


nesta cidade, contra o teu santo Servo Jesus, ao qual
ungiste, não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos
369

com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo


o que a tua mão e o teu conselho predeterminaram que
se fizesse. Agora pois, ó Senhor, olha para as suas
ameaças, e concede aos teus servos que falam com
toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a
mão para curar e para que se façam sinais e prodígios
pelo nome de teu santo Servo Jesus. E, tendo eles
orado, tremeu o lugar em que estavam reunidos; e
todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com
intrepidez a palavra de Deus.” (grifo nosso)

Aí temos uma fala atribuída à comunidade cristã (v. 24),


na qual se reafirma o que Pedro dissera a respeito de Jesus,
tendo-o como um santo servo de Deus, o que nos indica ser
essa a crença geral naquela época.

Atos 5,31: “Sim, Deus, com a sua destra, o elevou a


Príncipe e Salvador, para dar a Israel o
arrependimento e remissão de pecados.” (grifo nosso)

Ora, se Deus elevou Jesus à condição de Príncipe e


Salvador é porque Ele estava numa situação inferior a essa,
razão pela qual, não O podemos ter como Deus, pois isso
implica em contradizer o que daí podemos entender.

Atos 9,22: “Saulo, porém, se fortalecia cada vez mais e


confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando
que Jesus era o Cristo.” (grifo nosso)

Se pela crença daquela época tinham Jesus como Deus,


por que motivo Paulo não tentava provar isso, mas que Jesus
era o Cristo? Cristo significa em grego ungido e em hebraico
messias, portanto alguém subordinado à divindade e não ela
própria.
370

Atos 10,36-38: “A palavra que ele enviou aos filhos de


Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o
Senhor de todos) esta palavra, vós bem sabeis, foi
proclamada por toda a Judeia, começando pela Galileia,
depois do batismo que João pregou, concernente a
Jesus de Nazaré, como Deus o ungiu com o
Espírito Santo e com poder; o qual andou por toda
parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do
Diabo, porque Deus era com ele.” (grifo nosso)

O que aqui ocorre é semelhante ao passo anterior;


portanto, se Deus ungiu a Jesus com “o Espírito Santo e com
poder” é pelo fato de que Ele não gozava dessa condição, o que
nos leva a acreditar que era inferior à nova situação; aquela
depois de ungido e de ter recebido o poder.

Atos 10,42: “este nos mandou pregar ao povo, e


testificar que ele é o que por Deus foi constituído
juiz dos vivos e dos mortos.” (grifo nosso)

Dessa fala de Pedro temos que Jesus disse que Deus o


havia constituído juiz, como só se outorga uma condição dessa
a quem não a tem, esse é o motivo que não nos permite
concluir que Jesus seja Deus; até mesmo porque, no sentido
real, ninguém concede alguma coisa a ele mesmo.

Romanos 1,1-4: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado


para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus,
que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas
santas Escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da
descendência de Davi segundo a carne, e que com
poder foi declarado Filho de Deus segundo o
espírito de santidade, pela ressurreição dentre os
mortos - Jesus Cristo nosso Senhor.” (grifo nosso)
371

Aqui a coisa vai mais longe, pois, se Jesus foi declarado


Filho de Deus segundo o espírito de santidade, nós outros o que
somos? Ainda mantemos a ideia dos dois comentários
anteriores, pois Jesus foi declarado ser algo que antes não era;
consequentemente, não temos como elevá-Lo a uma situação
de ser Ele o próprio Deus.

Romanos 1,8: “Primeiramente dou graças ao meu


Deus, mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque
em todo o mundo é anunciada a vossa fé”. (grifo nosso)

2 Coríntios 12,21: “e que, quando for outra vez, o meu


Deus me humilhe perante vós, e chore eu sobre muitos
daqueles que dantes pecaram, e ainda não se
arrependeram da impureza, prostituição e lascívia que
cometeram.” (grifo nosso)

Filipenses 1,2: “Dou graças ao meu Deus todas as


vezes que me lembro de vós.” (grifo nosso)

Filipenses 4,19: “Meu Deus suprirá todas as vossas


necessidades segundo as suas riquezas na glória em
Cristo Jesus.” (grifo nosso)

Filemon 1,4: “Sempre dou graças ao meu Deus,


lembrando-me de ti nas minhas orações.” (grifo nosso)

Teria Paulo perdido essas oportunidades para afirmar


que Jesus era Deus, ou definir Deus como sendo três pessoas?
Acreditamos que não, porquanto, não era essa a concepção que
faziam de Jesus àquela época, conforme está ficando cada vez
mais claro nesse estudo.

Romaos 8,1-14: “Portanto, agora nenhuma condenação


há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do
Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do
372

pecado e da morte. Porquanto o que era impossível à


lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando
o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado,
e por causa do pecado, na carne condenou o pecado,
para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós,
que não andamos segundo a carne, mas segundo o
Espírito. Pois os que são segundo a carne inclinam-se
para as coisas da carne; mas os que são segundo o
Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação
da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e
paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra
Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade
o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar
a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no
Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em
vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo,
esse tal não é dele. Ora, se Cristo está em vós, o
corpo, na verdade, está morto por causa do pecado,
mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito
daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em
vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo Jesus há
de vivificar também os vossos corpos mortais, pelo seu
Espírito que em vós habita. Portanto, irmãos, somos
devedores, não à carne para vivermos segundo a carne;
porque se viverdes segundo a carne, haveis de morrer;
mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo,
vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de
Deus, esses são filhos de Deus.” (grifo nosso)

Na verdade, não encontramos nada nessa passagem;


porém, como a vimos ser citada (o que consta em negrito) para
justificar que Jesus é Deus, resolvemos colocá-la aqui. Mas é
certo que o Espírito de Deus habita em nós; não fomos criados
à sua semelhança? O sentido figurado não pode ser outro a não
ser esse. E realmente, se uma pessoa não tem o Espírito de
Cristo, ou seja, age como Ele agiu, não é dele, porquanto, não o
373

segue no exemplo.

Romanos 9,3-5: “Porque eu mesmo desejaria ser


separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são
meus parentes segundo a carne; os quais são israelitas,
de quem é a adoção, e a glória, e os pactos, e a
promulgação da lei, e o culto, e as promessas; de quem
são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo
a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito
eternamente. Amém.” (grifo nosso)

Muitas vezes deparamos com uma situação como essa;


a de que a pontuação usada pelos tradutores pode nos levar a
uma conclusão equivocada do que se está querendo dizer. Se
no trecho final (v. 5) fosse dito: “[…] e de quem descende o
Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas; Deus
bendito eternamente. Amém”, perceberíamos que o sentido da
frase é diferente do que se poderia pensar que aqui estar-se-ia
se dizendo que Jesus é Deus.

Quanto à questão da pontuação, é bom que se saiba:

[…] Um dos problemas com textos gregos


antigos (o que incluiria todos os escritos cristãos mais
primitivos, incluindo os do Novo Testamento) é que,
quando eram copiados, não se usavam marcas de
pontuação, não se fazia distinção entre minúsculas
e maiúsculas e, o que é ainda mais estranho para
leitores modernos, não havia espaços de separação
entre as palavras. Este tipo de escrito sequencial é
chamado de scriptuo continua e, é claro, muitas vezes,
podia dificultar ler (nem falemos em entender) um texto.
As palavras godisnowhere poderiam significar algo
completamente distinto para um crente (God is now
here = Deus está aqui agora) e para um ateu (God is
nowhere = Deus não está em parte alguma) e o que
374

significa dizer
nojantardanoitepassadaamesaestavaabundante? Isso
seria um acontecimento normal ou extraordinário? ( 319)
(grifo nosso)

Sabemos que os manuscritos originais do Novo


Testamento não possuíam pontuação, e em face do
fato de o grego clássico (incluindo o grego koiné, no
qual foi escrito o Novo Testamento) gozar de ampla
liberdade no tocante à ordem das palavras, é
impossível, à base do próprio texto grego, provar um
lado ou outro dessas ideias contraditórias. […]. (320)
(grifo nosso)

[…] Os manuscritos originais também não tinham


sinais de pontuação. Estes foram introduzidos na arte
de escrever em época recente. É claro, pois, que a
pontuação moderna não é inspirada, e por isso não dá,
às vezes, sentido às palavras do original. (SILVA, A.,
1997, p. 77) (grifo nosso).

Disso conclui o teólogo Russell N. Champlin “Já que os


primeiros manuscritos do N.T. são sem pontuação sistemática,
editores e tradutores do texto devem inserir tais marcas de
pontuação como parecem apropriadas à sintaxe e ao
significado. […]” (321) Isso, de fato, torna-se um problema muito
sério, pois um sinal de pontuação mudado de lugar,
acrescentado ou suprimido, seja por interesse ou não de quem
o fez, pode alterar profundamente o sentido do texto. Para
exemplificar isso, vejamos como o versículo 5, do passo citado,
se encontra em outras traduções bíblicas:

319 EHRMAN, 2006, p. 58.


320 SILVA, C., 2001, p. 309-310.
321 CHAMPLIN, vol. 3, 2005c, p. 745.
375

Bíblia do Peregrino: “[…] de sua linhagem segundo a


carne descende o Messias. Seja para sempre bendito o
Deus que está acima de tudo. Amém.”

Bíblia Vozes: “[…] e deles é o Cristo segundo a carne.


O Deus que está acima de tudo seja bendito pelos
séculos! Amém.”

Tradução Novo Mundo: “[…] e de quem [procedeu] o


Cristo segundo a carne: Deus, que é sobre todos, [seja]
bendito para sempre. Amém.”

Observe-se que em todas, além da disposição dos


vocábulos, há divergência na pontuação, o que também ocorre
comparando-as com a que transcrevemos mais acima.
Certamente, que o sentido delas, em relação à primeira, é
completamente diferente em virtude da pontuação, entre um
período e outro, pois, quer se usando um ponto, quer se usando
os dois, não temos a mesma ideia de que no caso de usarmos
uma vírgula, como no texto questionado.

Assim, percebe-se que a intenção no texto é destacar


Deus como sendo o verdadeiro e não a Jesus, o que se pode
perfeitamente confirmar pelas próprias palavras de Jesus se
referindo ao Pai: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a
ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele
que tu enviaste”. (João 17,3). (grifo nosso)

As duas primeiras Bíblias – do Peregrino e Vozes – são de


cunho católico e a última protestante. Acreditamos,
sinceramente, que o significado seja o que daqui tiramos
dessas traduções e não o da outra citada anteriormente. Isso
porque, conforme estamos demonstrando, Jesus, àquela época,
não era considerado como sendo o próprio Deus, somos
376

obrigados a repetir.

Esse fato veio a acontecer posteriormente, por


imposição dos denominados “pais da Igreja”, cuja interpretação
acabou prevalecendo; portanto, são eles os “pais da criança”,
ou seja, os culpados de transformar Jesus em Deus; e, na
sequência, para abrigar esse absurdo teológico, foi criada a
Trindade, que conforme acreditamos, foi copiada de outras
religiões mais antigas.

O certo é que Paulo, autor da carta aos Romanos, não


tinha Jesus como Deus. Esse fato é importante, porquanto ele
viveu bem mais próximo dos acontecimentos do que os “pais
da Igreja”. Leiamos o que ele disse aos colossenses:

Colossenses 1,15-20: “Ele é a imagem do Deus


invisível, o Primogênito, anterior a qualquer
criatura; porque nele foram criadas todas as coisas,
tanto as celestes como as terrestres, as visíveis como as
invisíveis: tronos, soberanias, principados e autoridades.
Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele existe
antes de todas as coisas, e tudo nele subsiste. Ele é
também a Cabeça do corpo, que é a Igreja. Ele é o
Princípio, o primeiro daqueles que ressuscitam dos
mortos, para em tudo ter a primazia. Porque Deus, a
Plenitude total, quis nele habitar, para, por meio
dele, reconciliar consigo todas as coisas, tanto as
terrestres como as celestes, estabelecendo a paz pelo
seu sangue derramado na cruz.” (grifo nosso)

Caso Paulo realmente pensasse que Jesus fosse Deus,


nunca iria dizer “ele é a imagem do Deus invisível” e “aprouve
a Deus fazer habitar nele a plenitude”; e para quem afirma que
“… não há senão um só Deus” (Romanos 3,30), é porque não
377

pensava em divinizá-lo ou em torná-lo um Deus; certamente


usou uma metáfora para evidenciar a grandeza de Jesus, que
sabemos ter participado da criação do mundo, como preposto
de Deus.

1 Corínitos 1,22-24: “Pois, enquanto os judeus pedem


sinal, e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a
Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e
loucura para os gregos, mas para os que são chamados,
tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e
sabedoria de Deus.” (grifo nosso)

A figura de linguagem é notória; Paulo sempre colocou


Jesus como mediador entre Deus e os homens (Gálatas 3,19-20;
1 Timóteo 2,5) e, neste sentido, Ele está com o poder e a
sabedoria de Deus, sem exatamente ser o próprio Deus. O
autor de Hebreus, como exemplo, tem essa mesma visão de
Paulo, ou seja, para ele também Jesus é mediador. (Hebreus
8,6; 9,15 e 12,24).

1 Coríntios 8,4-6: “Quanto, pois, ao comer das coisas


sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no
mundo, e que não há outro Deus, senão um só. Pois,
ainda que haja também alguns que se chamem deuses,
quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e
muitos senhores), todavia para nós há um só Deus,
o Pai, de quem são todas as coisas e para quem nós
vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual existem
todas as coisas, e por ele nós também.” (grifo nosso)

Gálatas 3,20: “Ora, o mediador não o é de um só, mas


Deus é um só.” (grifo nosso)

Efésios 4,46: “Há um só corpo e um só Espírito, como


também fostes chamados em uma só esperança da
vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só
378

batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre


todos, e por todos e em todos.” (grifo nosso)

1 Timóteo 2,5: “Porque há um só Deus, e um só


Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus,
homem.” (grifo nosso)

Também seriam excelentes oportunidades para Paulo


dizer que existe um só Deus e que nele há três pessoas – o Pai,
o Filho e o Espírito Santo; entretanto, não o faz, porquanto,
ainda não havia sido criada a crença na Trindade, o que só
aconteceu posteriormente, conforme já o dissemos. Então, se
aqui Jesus não foi elevado à categoria de um Deus,
extemporaneamente, isso não deveria ter sido feito pelos
teólogos dogmáticos. Na última passagem ainda se reforça a
condição de Jesus ser homem, embora não se possa negar sua
condição de mensageiro Divino, o maior Espírito que pisou o
solo da Terra.

2 Coríntios 4,4: “nos quais o deus deste século cegou os


entendimentos dos incrédulos, para que lhes não
resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o
qual é a imagem de Deus.” (grifo nosso)

Colossenses 1,13-15: “e que nos tirou do poder das


trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho
amado; em quem temos a redenção, a saber, a remissão
dos pecados; o qual é imagem do Deus invisível, o
primogênito de toda a criação.” (grifo nosso)

Confundir a imagem de uma pessoa com a própria


pessoa é algo em que falta bom senso e lógica, aos que assim
procedem. Se Jesus é a imagem de Deus, não pode ser, ao
mesmo tempo, o próprio Deus, como a nossa imagem no
379

espelho não é o nosso ser; é, na realidade, apenas um reflexo


do “meu físico”.

Gálatas 4,4-5: “mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus


enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido
debaixo de lei, para resgatar os que estavam debaixo
de lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.” (grifo
nosso)

Se, conforme se entende, Jesus não teria vindo destruir a


Lei (Mateus 5,17), tendo nascido de mulher e debaixo da lei, ou
seja, nasceu de forma natural, como acontece a todos nós, pois
essa é a Lei, então, ele é um ser humano, em igualdade de
condições conosco. Aliás, Ele mesmo afirmou “Tudo o que eu
fiz, vós podeis fazer e até muito mais” (João 14,13); dessa
forma Ele se iguala a todos nós, sem se colocar na posição de
um ser superior e divino. Essa frase torna-se impossível aplicar-
se caso Jesus seja um ser divino, na condição humana, porém,
totalmente factível, se Jesus for um homem em missão divina.

Efésios 4,11-13: “E ele deu uns como apóstolos, e outros


como profetas, e outros como evangelistas, e outros
como pastores e mestres, tendo em vista o
aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério,
para edificação do corpo de Cristo; até que todos
cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento
do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida
da estatura da plenitude de Cristo.” (grifo nosso)

Ora, se podemos chegar à medida da estatura da


plenitude de Cristo é sinal de que Ele não é Deus, porquanto,
nunca chegaremos à plenitude de Deus, uma vez que, se isso
pudesse acontecer, teríamos vários deuses; melhor dizendo,
380

bilhões de deuses. Entretanto, não nos será impossível chegar


ao estado de homem feito (espírito puro).

Filipenses 2,5-11: “Tende em vós aquele sentimento que


houve também em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em
forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus
coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si
mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se
semelhante aos homens; e, achado na forma de homem,
humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a
morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o
exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre
todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo
joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da
terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor,
para glória de Deus Pai.” (grifo nosso)

Aqui temos uma declaração bem conflitante com o


restante dos textos bíblicos, na qual supõem-se que Paulo
declara ser Jesus igual a Deus; entretanto, parece-nos que os
tradutores da Bíblia de Jerusalém pensam de outra forma; tanto
é que a palavra Deus está grafada em letra minúscula,
querendo significar um homem “não-pecador” (322).

Esclarece-nos ainda mais, dizendo que o versículo 6b


possuiu “outras traduções menos prováveis: 'não considerou o
estado de igualdade com Deus como presa a agarrar”, “não
reteve ciumentamente a condição que o igualava a Deus”, ( 323).
Isso nos despertou a curiosidade para ver como consta em
outras Bíblias. Vejamos:

322 Bíblia de Jerusalém, p. 2049.


323 Bíblia de Jerusalém, p. 2049.
381

Versões bíblicas Texto bíblico Fp 2,5-6 (grifo nosso)


382

“De sorte que haja em vós o mesmo


SBTB/TBS, SBB e sentimento que houve também em Cristo
Jesus, que sendo em forma de Deus,
SBTB
não teve por usurpação ser igual a
Deus.”

“Tende em vós o mesmo sentimento que


Shedd e Mundo houve também em Cristo Jesus, pois ele,
subsistindo em forma de Deus, não
Cristão
julgou como usurpação o ser igual a
Deus.”

“Tende em vós o mesmo sentimento de


De Jerusalém Cristo Jesus: Ele, estando na forma de
Deus não usou de seu direito de ser
tratado como um deus.”

“E haja entre vós o mesmo sentimento


que houve também em Jesus Cristo. O
Barsa qual tendo a natureza de Deus, não
julgou que fosse nele uma usurpação
ser igual a Deus.”

“Comportai-vos entre vós assim, como se


faz em Jesus Cristo: ele, que é de
Paulinas/Loyola condição divina, não considerou
como presa a agarrar o se igual a
Deus.”

“Tenham em vocês os mesmos


sentimentos que havia em Jesus Cristo:
Pastoral Ele tinha a condição divina, mas não
se apegou a sua igualdade com
Deus.”

“Dedicai-vos mutualmente a estima que


Ave-Maria se deve em Cristo Jesus. Sendo ele de
condição divina, não se prevaleceu
de sua igualdade com Deus."

Santuário “Tende em vós os mesmos sentimentos


que havia em Cristo Jesus: Ele que era de
383

condição divina não reivindicou o


direito de ser equiparado a Deus.”

“Tende em vós os mesmos sentimentos


Vozes que Cristo Jesus teve: Ele, subsistindo
na condição de Deus, não pretendeu
reter para si ser igual a Deus.”

“Tende em vós os mesmos sentimentos


Paulinas 1957, que (houve) em Jesus Cristo, o qual,
existindo na forma (ou natureza) de
1977 e 1980
Deus, não julgou que fosse uma
rapina o seu ser igual a Deus.”

“Mantende em vós esta atitude mental


que houve também em Cristo Jesus, o
Novo Mundo qual, embora existisse em forma de
Deus, não deu consideração a ser
igual a Deus.”

Temos o velho problema das traduções que, em


obediência à concepção individual do autor bíblico, acabaram
por transformar Jesus no próprio Deus, sem nenhum
fundamento no que Ele disse, mas, apenas, seguindo crença
generalizada entre os povos antigos. E nisso foram bem mais
longe, pois, enquanto os pagãos acreditavam que o seu deus
vinha à terra e em contato carnal com uma mulher virgem
gerava um semideus, os cristãos elevaram o seu semideus à
condição de Deus.

Tem plena razão o escritor José Pinheiro de Souza,


quando diz:

Do mesmo modo, os escritores cristãos da igreja


primitiva (sobretudo Paulo e João), influenciados pela
cultura mitológica dominante da época (a cultura grego-
384

romana), onde era muito comum a crença em


“encarnações divinas” e em “filiação divina”, não no
sentido adotivo/metafórico/honorífico, mas no sentido
natural (físico/biológico), para enaltecer ao máximo a
pessoa de Jesus e as suas ações e, sobretudo, para dar
credibilidade ao cristianismo nascente, absolutizaram-
no, endeusando-o e fazendo-o super exclusivista, o
único “Filho de Deus”, o único Deus encarnado (no
sentido natural dessas expressões), o único salvador da
humanidade, o único mediador entre Deus e os homens,
o único fundador da verdadeira religião, o único que
verdadeiramente ressuscitou dos mortos, etc. (324)

Mais à frente, acrescenta:

Paulo de Tarso, para dar credibilidade ao


cristianismo primitivo e atrair seguidores de várias
religiões do mundo pagão do Mediterrâneo, procurou
converter os adeptos dessas religiões pagãs,
utilizando a estratégia mítica de que Cristo também
era uma divindade salvadora, vinda do céu, tendo
nascido miraculosamente (como os demais deuses
das religiões pagãs) mediante um parto virginal,
tendo sido morto e ressuscitado para resgatar-nos
de nossos pecados herdados do pecado de Adão e
Eva.
O Paulinismo, como estamos comprovando nesta
obra, é, de fato, cópia e/ou incorporação de crenças, de
cultos e de ritos de várias religiões pagãs de épocas
mais antigas do que o cristianismo, destacando-se o
culto a Ísis, a Dionisio e a Mitra. Para atrair seguidores
para o cristianismo, Paulo fez sincretismo com
elementos de várias religiões e filosofias,
particularmente com elementos das religiões de mistério
do Egito, da Grécia, do paganismo greco-romano, da

324 SOUZA, 2010, p. 35-36.


385

Índia e de várias outras culturas religiosas mais antigas:


As evidências da grande semelhança entre a
religião cristã e outras crenças do mundo antigo são
volumosas, detalhadas, extremamente específicas e
incrivelmente vastas, estendendo-se desde a
sabedoria védica na Índia aos mitos nórdicos da
Escandinávia, às lendas dos incas e à espiritualidade
original dos povos indígenas da América do Norte
(HARPUR, 2008, p. 43) (325) (grifo nosso)

Analisando-se friamente os textos bíblicos não podemos


deixar de dar razão ao fato de que o cristianismo tem muito das
religiões pagãs; somente não se vê isso por extremada
ortodoxia.

Cabe-nos ressaltar que o prof. Pinheiro é da opinião de


que foi Paulo o responsável pela divinização de Jesus, conforme
se vê nesse seu texto. Outra pessoa que pensa da mesma
forma é a historiadora e advogada Paloma Sánchez-Garnica,
autora da obra O grande Arcano, da qual transcrevemos:

As massas arrastadas pela sua mensagem


cresceram tanto nos anos posteriores à sua morte, que
surgiram os oportunistas. A população romanizada
gostava de ouvir a mensagem de Jesus de Nazaré. Mas
essa população precisava de um homem superior,
reclamava que essa mensagem procedesse de um ser
divino, pois estava acostumada a venerar mil deuses.
Não se podia apresentar o porta-voz daquelas palavras
como um homem normal, e começou-se a tergiversar o
fundamental em toda essa farsa: a ressurreição de
Jesus de Nazaré em corpo e alma, sua divinização
levada ao extremo, equiparando-o ao próprio Deus,

325 SOUZA, 2010, p. 40-41.


386

quando Ele em nenhum momento dissera que era Deus.


[…] Isso pode ser comprovado nos Evangelhos.
Nenhum dos quatro evangelistas põe na boca de Jesus
sua identificação com Deus; quando lhe é perguntado
quem é, responde que é “filho do homem”, dando a
entender que era um homem sem mais adjetivos, e isso
já podia ser considerado corno a mais alta honraria.
Foi nas Epístolas de Paulo que apareceu a
expressão “Filho de Deus”, e precisamente a Paulo
se atribuiu a origem dessa ideia da ressurreição e da
divinização do homem.
Assim tudo começou. A partir de então, surgiu uma
profusão de ideias e de linhas de pensamento: as lutas
e enfrentamentos foram numerosos, até que venceu
uma dessas correntes; aquela fundada por Paulo e
mantida pela corrente grega foi a que triunfou e se
impôs ao restante; estabeleceu seu poder
definitivamente no concílio de Niceia de 325 e afastou,
destruiu, perseguiu ou considerou como hereges todos
os que não estivessem de acordo com ela. Os textos
originais dos Evangelhos foram alterados, porque
era necessário adaptá-los à população a que eram
dirigidos, uma população não judia, e sim romana,
helenizada e com uma mentalidade distinta à dos judeus
a quem Jesus havia se dirigido; sua verdadeira
mensagem ficou em um segundo plano: valia tudo para
aumentar o número de discípulos da nova religião.
A partir desse momento, ou se estava com a Igreja ou
contra ela. Em poucos anos, os perseguidos passaram a
ser perseguidores; e assim se passaram dois mil anos.
(326) (grifo nosso)

Nosso objetivo em trazê-la foi para vermos que também


ela afirma que os textos originais dos Evangelhos foram

326 SÁNCHEZ-GARNICA, 2008, p. 427-428.


387

adulterados, para adaptá-los aos dogmas estabelecidos.

1 Timóteo 3,16: “E, sem dúvida alguma, grande é o


mistério da piedade: Aquele que se manifestou em
carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos,
pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido
acima na glória.” (grifo nosso)

Esse passo é mais um dos que precisamos ver o teor em


outras traduções, para podermos ver por qual motivo o tomam
para sustentar que Jesus, como Deus, ter-se-ia manifestado na
carne. Vejamos:

Versões
Texto bíblico 1Tm 3,16 (grifo nosso)
bíblicas

“E, sem dúvida alguma, grande é o


mistério da piedade: Deus se
manifestou em carne, foi justificado no
SBTB
Espírito, visto dos anjos, pregado aos
gentios, crido no mundo, recebido acima
na glória”.

“E sem dúvida alguma grande é o


mistério da piedade: Aquele que se
SBB
manifestou em carne, foi justificado em
espírito, […].”

“Evidentemente, grande é o mistério da


Shedd e Mundo piedade: Aquele que foi manifestado
Cristão na carne foi justificado em espírito,
[…].”

“Seguramente, grande é o mistério da


De Jerusalém piedade: Ele foi manifestado na carne,
justificado no Espírito, […].”

Barsa “E visivelmente é grande o sacramento


da piedade, com que Deus se
manifestou em carne, foi justificado
388

pelo espírito, […].”

“Grande é, com certeza, o ministério da


Paulinas/Loyola: piedade. Ele foi manifestado na carne,
justificado pelo Espírito, […].”

“De fato, como é grande o mistério da


Pastoral piedade: ele se manifestou na carne,
foi justificado no espírito, […].”

“Grande é sem dúvida o mistério de


nossa religião: Manifestou-se
Do Peregrino
corporalmente, justificado no Espírito,
[…].”

“Sim, é tão sublime – unanimemente o


proclamamos – o Mistério da bondade
Ave-Maria
divina: manifestado na carne,
justificado no Espírito, [...]”.

“Em verdade, grande mistério é o da


Santuário piedade. Manifestou-se na carne, foi
justificado pelo Espírito, […].”

“Não pode haver dúvida de que é grande


o mistério da piedade: Ele foi
Vozes
manifestado na carne, foi justificado no
espírito, […].”

“E evidentemente é grande o mistério da


Paulinas 1957, piedade, que se manifestou na carne,
que foi justificado pelo Espírito, visto
1977 e 1980 pelos anjos, pregado aos gentios, crido no
mundo, exaltado na glória.”

“Evidentemente, grande é o mistério da


piedade: aquele que foi manifestado
Novo Mundo
na carne, foi justificado em espírito,
[…].”

Enquanto nas versões da SBTB e Barsa a personagem


que se manifestou na carne foi o próprio Deus, nas restantes foi
Jesus. Visando resolver o impasse buscamos orientação em
Russell Norman Champlin, que dá a seguinte explicação para
389

“… Aquele que foi manifestado na carne…”:

Essas palavras ensinam tanto a “preexistência”,


como a “encarnação” de Cristo. (Ver o trecho de João
1:1-3;14 acerca dessas doutrinas bíblicas). A divindade
de Cristo não é aqui ensinada diretamente, mas
somente uma pessoa divina poderia ter realizado tudo
quanto aqui é atribuído a Cristo. (Ver Heb. 1:3 quanto a
notas expositivas sobre a “divindade de Cristo”). Além
disso, esta epístola defende a “humanidade autêntica”
de Jesus, o Cristo, o que era negado pelo docetismo
ensinado pelos gnósticos. Cristo é a “epifania” de Deus,
isto é, a sua “manifestação”. Assim sucedeu quando da
encarnação, e assim sucederá novamente quando de
sua “parousia” ou segundo advento. (ver as notas
expositivas completas a esse respeito, em I Tes. 4:15.
Quanto à exposição dessas verdades, nestas epístolas
pastorais, ver os trechos de I Tim. 6:14 e II Tim. 1:10,
que frisam a primeira manifestação, e ver I Tim. 4:1,8,
que salienta a segunda futura manifestação. O trecho de
I João 3:2 pode ser comparado quanto à primeira
manifestação; e o trecho de I Tim. 4:2 pode ser posto
em confronto com a passagem presente, no tocante à
ênfase sobre a autêntica humanidade de Jesus, como
Verbo encarnado, onde tal ideia combate, uma vez mais,
o docetismo dos gnósticos). A vinda de Cristo foi “... na
carne...” Essa expressão é usada exclusivamente aqui,
nas “epístolas pastorais”. (Comparar com João 1:14 e I
João 4:2; II João 7; Rom 1:3; 8:3 e 9:5). O hino que
encontramos aqui começa afirmando a verdade central
do cristianismo, que faz parte do grande mistério da
nossa fé. (327) (grifo nosso).

Embora reconheça o real significado da expressão,


Champlin busca dar-lhe o sentido de algo que dá sustentação à

327 CHAMPLIN, 2005e, p. 317.


390

divinização de Jesus. É sempre a mesma história que ocorre


com aqueles que ficam presos aos dogmas estabelecidos: não
enxergam o óbvio.

Quanto a explicação sobre a divergência nas traduções,


encontramo-la em Bart D. Ehrman:

Em 1715, Wettstein foi à Inglaterra (em uma turnê


literária) e teve completo acesso ao Códice Alexandrino,
do qual já ouvimos falar quando abordamos Bentley.
Uma parte do manuscrito mereceu a atenção particular
de Wettstein: era uma daquelas questões acessórias de
consequências enormes: dizia respeito ao texto de uma
passagem-chave do livro de I Timóteo.
A passagem em questão, I Timóteo 3, 16, fora usada
durante muito tempo por defensores da teologia
ortodoxa em apoio da visão segundo a qual o próprio
Novo Testamento chama Jesus Deus. É que o texto, na
maioria dos manuscritos, refere-se a Cristo como "Deus
tornado manifesto na carne e justificado no Espírito".
Como já indiquei no capítulo 3 deste livro, a maioria dos
manuscritos abreviava os nomes sagrados (os
chamados nomina sacra, e esse é o caso justamente
aqui, onde o termo grego para Deus (ΘEOΣ é abreviado
com duas letras, teta e sigma (ΘΣ), com uma linha
traçada no topo das duas para indicar que se trata de
uma abreviatura. Wettstein percebeu, ao examinar o
Códice Alexandrino, que a linha sobre as duas letras
fora feita em uma tinta diferente da que fora usada para
as palavras circundantes, de onde se depreende que
provinha de uma mão tardia (isto é, traçado por um
copista posterior). Além disso, o traço horizontal do meio
da primeira letra, Θ, não fazia realmente parte da letra,
mas era uma linha que vazara desde o outro lado do
velho velino. Em outros termos, em vez de se tratar de
uma abreviatura (teta-sigma) de “Deus” (ΘΣ, a palavra
era realmente formada por um ômicron e um sigma
391

(OΣ), uma palavra completamente diferente, que


significa simplesmente “quem”. A redação original do
manuscrito não falava, pois, de Cristo como “Deus
manifestado na carne”, mas de Cristo, “que foi
manifestado na carne”. De acordo com o testemunho
antigo do Códice Alexandrino, Cristo deixa de ser
explicitamente chamado de Deus nessa passagem. (328)

Na verdade, já vimos uma variação textual


relacionada a essa controvérsia cristológica em nossa
discussão, no capítulo 4, das pesquisas textuais de J.J.
Wettstein. Wettstein examinou o Códice Alexandrino,
atualmente na Biblioteca Britânica, e determinou que em
1 Timóteo 3,16, onde a maioria dos manuscritos fala de
Cristo como “Deus tornado manifesto na carne”, esse
manuscrito primitivo fala originalmente de Cristo “que foi
tornado manifesto na carne”. A mudança, em grego, é
muito sutil – é apenas a diferença entre as letras teta e
ômicron (ΘΣ e OΣ), que são muito semelhantes. Um
copista tardio alterou a variante original, de modo que se
deixou de ler “que” e passou a ler “Deus” (tornado
manifesto na carne). Em outros termos, esse revisor
tardio mudou o texto de modo a enfatizar a divindade de
Cristo. É chocante perceber que a mesma correção
ocorreu em quatro dos nossos outros manuscritos
primitivos de 1 Timóteo. Todos eles encontraram
revisores que mudaram o texto do mesmo modo, de
modo que agora ele chama Jesus explicitamente de
“Deus”. Esse se tornou o texto da vasta maioria dos
manuscritos bizantinos (isto é, medievais) posteriores –
e por isso se tornou o texto da maioria das traduções
antigas da Bíblias. (329)

Foi ótimo tomar conhecimento disso, pois agora temos


argumentos para refutar aqueles que advogam que Jesus é o

328 ERMAN, 2006, p. 123.


329 EHRMAN, 2006, p. 167.
392

próprio Deus.

1 Pedro 3,18: “Porque também Cristo morreu uma só


vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos
a Deus; sendo, na verdade, morto na carne, mas
vivificado no espírito.” (grifo nosso)

A ressurreição espiritual de Jesus (vivificado no espírito)


é um fato que leva muitas pessoas a divinizá-Lo, sem se darem
conta de que todos os seres humanos também ressuscitarão;
uns para a glória (viver como espíritos puros), outros para a
perdição (planetas inferiores, onde haverá prantos e ranger de
dentes). O dia em que o homem se render à realidade do
Espírito, o que de fato somos, então entenderá isso; até lá
continuará mantendo suas crenças, tal e qual crianças que, por
exemplo, acreditam ser verdadeira a história, contada pelos
adultos, de que os bebês são entregues por cegonhas.

1 João 5,1: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo,


é o nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o
gerou, ama também ao que dele é nascido.” (grifo
nosso)

Entendamos o que significa a palavra Cristo: “O termo


de origem grega significa 'ungido' e traduz o termo hebraico
'messias'. Os sumos sacerdotes (Lv 4,3-16; 15,16) e os reis de
Israel (1Sm 12,3-5; 24,7.11; 2Sm 19,22) eram chamados de
'ungidos'”. (330) e até mesmo Ciro, rei da Pérsia, um pagão
recebe o título “ungido de Iahweh” (Is 45,1) (331).

Assim, percebemos que se trata de um título e não um

330 Bíblia Sagrada – Vozes, p. 1520.


331 Bíblia de Jerusalém, p. 1325.
393

nome próprio como muitas vezes vemos nomeando-O, quando


o correto seria dizer: Jesus, o Cristo. Se outras passagens
bíblicas trazem pessoas também consideradas como ungidos,
então não podemos dizer que a condição de “ungido” O
transforma em divino, já que sua divindade decorre de sua
evolução espiritual.

1 João 5,7-8: “Porque três são os que dão testemunho: o


Espírito, e a água, e o sangue; e estes três concordam.”

Em princípio, esse passo nada teria a ver com o caso;


entretanto, ele consta de algumas Bíblias (332) com teor
semelhante a este da Bíblia Anotada:

“Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a


Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E
três são os que testificam na terra]: o Espírito, a
água e o sangue, e os três são unânimes num só
propósito.” (grifo nosso)

Vejamos o que nos explicam sobre essa divergência (o


que grifamos):

O texto dos vv. 7-8 é acrescido na Vulg. De um


inciso (aqui abaixo entre parênteses) ausente dos
antigos mss gregos, das antigas versões e dos
melhores mss da Vulg., o qual parece ser uma glosa
marginal introduzida posteriormente no texto:
“Porque há três que testemunham (no céu: o Pai, o
Verbo e o Espírito Santo, e esses três são um só; e há
três que testemunham na terra); o Espírito, a água e o

332 Bíblia Sagrada – SBTB, Bíblia Anotada, Bíblia Shedd, Bíblia Sagrada – SBB,
Bíblia Sagrada – Paulinas, 9ª, Bíblia Sagrada – Paulinas, 37ª ed. e Bíblia
Sagrada – Barsa.
394

sangue, e esses três são um só” (333) (grifo nosso)

De acordo com os melhores códigos, o texto


original devia ser o seguinte: “O Espírito, a água e o
sangue, e estes três são unânimes”. Estes vv. São
conhecidos como o “Coma Joaneo”, cujo acréscimo tem
sua autenticidade contestada embora seja verdadeira a
doutrina nele exposta. (334) (grifo nosso)

Depois de “os que dão testemunhos”, ?ABVgSy h,p


omitem as palavras acrescentadas em mss. gr.
Posteriores e na Vgc, a saber: 'no céu, o Pai, a Palavra,
e o espírito santo; e estes três são um. (335) (grifo nosso)

Jung, ao dizer que “não existe uma só passagem do


Novo Testamento na qual a Trindade seja mencionada dum
modo que possa ser expresso numa linguagem racional”,
remete-nos a uma nota na qual ele explica o seguinte:

O chamado Comma Johanneum que, sob este ponto


de vista, constitui uma exceção, é um caso
comprovadamente tardio e de origem duvidosa. Como
textus per se (texto em si) e como revelatum explicitum
(como revelado explícito) seria a prova mais convincente
da ocorrência da Trindade no Novo Testamento. Trata-
se de 1Jo 5,7: “Porque são três os que testificam: o
Espírito e a água e o sangue, e estes três estão de
acordo, (isto é, convergem no testemunho de que Cristo
veio “pela água e pelo sangue”. A Vulgata, neste lugar,
traz a inserção tardia: “Quonian tres sunt, qui
testiomonium dant in coelo: Pater, Verbum et Spiritus
Sanctus: et hi tres unum sunt” [Porque três são os que

333 Bíblia de Jerusalém, p. 2132-2133.


334 Bíblia Sagrada – Barsa, NT, p. 221.
335 Trad. Novo Mundo, p. 1407.
395

dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espirito


Santo, e estes três são um só].[…]. (336)

Um estudioso que também fala disso é o ex-evangélico


Bart D. Ehrman, Ph.D. em Teologia pela Princeton University e
dirige o Departamento de Estudos Religiosos da University of
North Carolina, Chapel Hill. É especialista em Novo Testamento,
igreja primitiva, ortodoxia e heresia, manuscritos antigos e na
vida de Jesus; ele afirma:

Havia, contudo, uma passagem-chave das Escrituras


que os manuscritos-fonte de Erasmo não continham:
trata-se do relato de 1 João 5,7-8, que os
pesquisadores chamaram de o parêntese joanino,
encontrado nos manuscritos da Vulgata latina, mas não
na vasta maioria dos manuscritos gregos, uma
passagem que foi, por muito tempo, a predileta entre
os teólogos cristãos, dado que é a única passagem
na Bíblia inteira que delineia explicitamente a
doutrina da Trindade, segundo a qual há três
pessoas na divindade, com todas as três
constituindo um só Deus. Na Vulgata, a passagem é
lida assim:
Há três que conduzem o testemunho nos céus: o
Pai, o Verbo e o Espírito e esses três são um; e há
três que conduzem o testemunho na terra, o Espírito,
a água e o sangue, e esses três são um.
Trata-se de uma passagem misteriosa, mas
inequívoca em seu apoio aos ensinamentos tradicionais
da igreja sobre o “Deus trino que é um”. Sem esse
versículo, a doutrina da Trindade deve ser inferida de
uma série de passagens combinadas para mostrar que
Cristo é Deus, assim como o Espírito e o Pai, e que há,

336 JUNG, 1988, p. 27.


396

não obstante, um só Deus. Essa passagem, por seu


turno, afirma a doutrina direta e sucintamente.
Mas Erasmo não a achou em seus manuscritos
gregos, nos quais simplesmente se lê: “Pois há três
que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue,
e esses três são um”. Para onde foram “o Pai, o Verbo
e o Espírito”? Eles não figuravam no manuscrito primário
de Erasmo, nem em nenhum dos demais que ele
consultou. Por isso, naturalmente, ele os deixou de fora
de sua primeira edição do texto grego.
Foi isso, mais do que qualquer outra coisa, que tirou
do sério os teólogos de seu tempo, que acusaram
Erasmo de adulterar o texto, numa tentativa de
eliminar a doutrina da Trindade e de desvalorizar o
seu corolário, a doutrina da divindade plena de
Cristo. Particularmente Stunica, um dos editores-chefes
da Poliglota Complutense, veio a público desacreditar
Erasmo e insistir em que, em edições futuras, ele
restituísse o versículo a seu lugar correto.
Com o desenrolar dos fatos, Erasmo –
provavelmente em um momento de descuido –
concordou em inserir o versículo em uma futura edição
de seu Novo Testamento grego, sob uma condição: que
seus adversários produzissem um manuscrito grego no
qual o verso pudesse ser encontrado (achá-lo nos
manuscritos latinos não era o bastante). Dessa forma,
produziu-se um manuscrito grego. Na realidade, ele foi
produzido nessa ocasião. Parece que alguém copiou o
texto grego das epístolas e, quando chegou à passagem
em questão, traduziu o texto latino para o grego, dando
o parêntese joanino em sua forma teologicamente
aproveitável, familiar. O manuscrito providenciado
para Erasmo era, em outras palavras, uma produção
do século XVI, feita sob encomenda. (337) (grifo nosso)

337 EHRMAN, 2006, p. 91-92.


397

Assim, estamos vendo que a adição, que aparece em


algumas traduções da Bíblia, tem o objetivo de se justificar a
Trindade, dogma de Constantino, anuído pela Igreja Católica, o
que poderá ser comprovado em nosso texto anteriormente
indicado. Lembramos apenas que “Deus é realmente um, e é
apenas em nossa capacidade limitada de conceber que Deus se
torna três”. (338)

1 João 5,20: “Sabemos também que já veio o Filho de


Deu.s, e nos deu entendimento para conhecermos
aquele que é verdadeiro; e nós estamos naquele que
é verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o
verdadeiro Deus e a vida eterna.” (grifo nosso)

Passagem ao gosto dos “divinizantes”, que,


apressadamente, a apresentam para sustentar suas crenças. Só
que a coisa pode não ser tanto quanto querem, visto que, essa
passagem, na versão dos tradutores da Bíblia de Jerusalém,
tem o seguinte teor:

Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a


inteligência para conhecermos o Verdadeiro (c). E
nós estamos no Verdadeiro, no seu Filho Jesus Cristo.
Este é o Deus verdadeiro e a Vida eterna. (grifo nosso)

Explicam-nos, em nota, o seguinte: c) Deus, o único


verdadeiro (Jo 17,3+; cf. 8,31); 1Ts 1,9; Ap3,4) e o único
verdadeiramente conhecido pelo que ele é: Vida e Amor. ( 339). O
que significa dizer que “O verdadeiro” que negritamos no passo
deve ser entendido como “Deus, o único verdadeiro”.

338 Barth, Karl, 1969, apud LORENZEN, 2002, p. 57.


339 Bíblia de Jerusalém, p. 2134.
398

Na Bíblia Sagrada Vozes, encontramos a seguinte


redação:

“Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu


entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E nós
estamos no Verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Ele é
o verdadeiro Deus e a vida eterna”.

Observa-se, que o “este”, da tradução anterior, passa a


ser “Ele”. Seus tradutores nos explicam “O Verdadeiro” dessa
forma: o verdadeiro Deus, ou então, Deus, o Verdadeiro. (Bíblia
Sagrada Vozes, p. 1553). O que faz ter o sentido diferente da
tradução anterior. De igual modo a Bíblia Do Peregrino e Novo
Testamento Loyola, encontramos “Ele”.

Assim, percebemos que a polêmica toda, em torno dessa


passagem, está ligada à questão de qual manuscrito se toma
para as traduções. Por tudo que levantamos até o momento
sobre o assunto, temos a convicção de que na passagem o
“este” está se referindo a Deus e não a Jesus; essa ideia só se
mantém por conta das traduções divergentes.

Considerando que, conforme já o dissemos alhures, o


povo (Mateus 16,13-14; 26,67-68; João 7,40 e 9,17), os
discípulos (Lucas 24,19; Atos 3,22) e o próprio Jesus (Lucas
13,33; João 8,40 e Marcos 6,4-5) diziam ser ele, o Mestre, um
profeta; não somos nós que negaremos isso, já que não
vivemos naquela época.

Seria de grande interesse ver como esse problema já


vem de longa data, sem que ainda se tenha ouvido as “vozes
que clamam no deserto”.

Flávio Cláudio Juliano (em latim Flavius Claudius


399

Iulianus) ou simplesmente Juliano (331-363) foi o último


imperador pagão do Império Romano, e reinou entre 361 e a
sua morte; vejamos o que Henry Bettenson (1910-1979), cita
dele:

r. Juliano opina sobre cristianismo: O culto de Jesus e dos


mártires Juliano Contra Christianos, apud Cirilo de
Alexandria contra Julianum, X (op. IX.326ss)
Mas, infortunadamente, não sois fiéis às tradições
apostólicas: estas em mãos dos seus sucessores
tornaram-se em máxima blasfêmia. Nem Paulo, nem
Mateus, nem Lucas ou Marcos ousaram afirmar que
Jesus é Deus. Foi o venerável João quem, constatando
que grande número de habitantes das cidades gregas e
italianas eram vítimas de epidemias, e ouvindo, imagino,
que as tumbas de Pedro e Paulo se tornavam objeto de
culto (privado, sem dúvida, mas sempre culto), João,
repito, foi quem primeiro ousou fazer tal afirmação…
Este mal se deve a João. Quem, entretanto,
denunciará a causa desta outra inovação, qual seja, a
veneração dos corpos de muitos cristãos mortos
ultimamente, além dos corpos dos apóstolos? Tendes
enchido as praças com tumbas e monumentos…
Opinais que no particular nem sempre valem as
palavras de Jesus… (Mt 23.27) declarando que os
sepulcros estão cheios de imundície… como podeis
invocar a Deus acima deles? (340) (grifo nosso).

Ernest Renan disse que “Jesus não declara em momento


algum que ele seja Deus. Ele se diz em relação direta com
Deus, se diz filho de Deus. A mais alta consciência de Deus
existente no seio da humanidade foi a de Jesus”. ( 341). E mais à

340 BETTENSON, 1967, p. 49-50.


341 RENAN, 2004, p. 138.
400

frente, encontramos:

Que jamais Jesus tenha pensado em se fazer


passar por uma encarnação do próprio Deus, é uma
coisa que não se pode duvidar. Tal ideia era
profundamente estranha ao espírito do Judaísmo; não
há nenhum vestígio dela nos Evangelhos sinóticos [ 342],
só a encontramos indicada nas partes do quarto
Evangelho que menos podem ser aceitas como um eco
do pensamento de Jesus. Às vezes parece que Jesus
toma precauções para repelir tal doutrina [343]. A
acusação de passar por Deus, ou igual a Deus, é
apresentada, mesmo no quarto Evangelho, como
uma calúnia dos judeus [344]. Nesse último Evangelho,
Jesus se declara menor que seu Pai [345]. Em outro
lugar, confessa que o Pai não lhe revelou tudo [ 346]. Ele
se toma por um homem além do comum, mas separado
de Deus por uma distância infinita. Ele é filho de Deus;
mas todos os homens o são ou podem tornar-se em
diversos níveis [347]. Todos, a cada dia, devem chamar
a Deus seu pai; todos os ressuscitados serão filhos de
Deus [348]. No Antigo Testamento a filiação divina era
atribuída a seres que não se pretendiam, de forma
alguma, igualar a Deus [349]. A palavra “filho”, nas
línguas semíticas e na língua do Novo Testamento, tem

342 N.T.: Certas passagens, como Atos, II, 22, a excluem formalmente.
343 N.T.: Mat. IV, 10; VII, 21, 22; XIX, 17; Marc. I, 44; III, 12; X, 17, 18; Luc.,
XVIII, 19.
344 N.T.: João V, 18 e seg.; X, 33 e seg.
345 N.T.: João XIV, 28.
346 N.T.: Marc., XIII, 35.
347 N.T.: Mat. V, 9,45; Luc. III, 38; VI, 35; XX, 36; João, 1, 12-13; X, 34-35, Comp.
Atos, XVII, 28-29; Rom. VII, 14-17, 19, 21, 23; IX, 26; II Cor. VI, 18; Gálat. III,
26; IV, I e seg.; Fíl. II, 15; epístola de Barnabé, 14 (p. 10, Hilgenfeld,
segundo o Codex Sinaïticus).e, no Antigo Testamento, Deuter. XIV, 1 e
sobretudo Sabedoria II, 13, 18.1
348 N.T.: Luc. XX, 36.
349 N.T.: Gen. VI, 2; Jó I, 6; II, 1; XXVIII, 7; Salmo II, 7; LXXXII, 6; VII, 14.
401

as mais variadas acepções [350]. Além disso, a ideia que


Jesus faz do homem não é essa ideia humilde que um
frio deísmo introduziu. Em sua poética concepção da
natureza, um único sopro permeia o universo: o sopro
do homem é o de Deus. Habitando no homem, Deus
vive pelo homem, assim como o homem que habita em
Deus vive por Deus [351]. O idealismo transcendente de
Jesus nunca lhe permitiu ter uma visão clara de sua
própria personalidade. Ele é seu pai, seu Pai é ele. Ele
vive em seus discípulos, está em toda parte com eles
[352]; seus discípulos são um, como ele e seu Pai são um
[353]. A ideia, para ele, é tudo; o corpo, que faz a
distinção das pessoas, não é nada. (354). (grifo nosso).

Bart D. Ehrman afirma incisivamente que “Os escritos


originais do Novo Testamento, porém, raramente trazem algo
tão categórico como a firmação 'Jesus é Deus'” (355), em nota
ele explica: “Há algumas passagens que se aproximam disso
(por exemplo, João 8:58, 10:30, 14:9) e eis uma das razões
pelas quais os proto-ortodoxos gostavam delas, mas nenhuma
faz menção explícita de Jesus como Deus”. (356)

Juan Arias, jornalista, filólogo, escritor e ex-sacerdote,

350 N.T.: O filho do diabo (Mat., XIII, 38; Atos, XIII, 10); os filhos deste mundo
(Marc., III, 17; Luc., XVI, 8; XX, 34); os filhos da luz (Luc., XVI, 8; João, XII,
36); os filhos da ressurreição (Luc., XX, 36); os filhos do reino (Mat., VIII, 12;
XIII, 38); os filhos do esposo (Mat., IX, 15; Marc., II, 19; Luc., V, 34); os filhos
da geena (Mat., XXIII, 15); os filhos da paz (Luc., X, 6), etc. Lembremos que
o Júpiter do paganismo é pater andron te theon te.
351 N.T.: Comp. Atos, XVII, 28.
352 N.T.: Mat. XVIII, 20; XXVIII, 20.
353 N.T.: João X, 30; XVII, 21. Ver, em geral, os últimos discursos relatados pelo
quarto Evangelho, principalmente o cap. XVII, que exprimem bem um lado
do estado psicológico de Jesus, embora não se possa encará-los Como
verdadeiros documentos históricos.
354 RENAN, 2004, p. 260-264
355 EHRMAN, 2008, p. 324.
402

nascido Arboleas, Almería (Espanha) em 1932. Cursou teologia,


filosofia, psicologia, línguas semíticas e filologia comparada na
Universidade de Roma. Durante quatorze anos foi
correspondente na Itália e no Vaticano para o jornal espanhol El
País. Antes disso, cobriu para o jornal Pueblo trabalhos do II
Concílio do Vaticano. Viajou inúmeras vezes ao redor do mundo
acompanhando os papas Paulo VI e João Paulo II. É autor de
vários livros, publicados em mais de dez idiomas. Recebeu o
Premio a la Cultura de la Presidencia del Gobierno e o
Castiglione de Sicilia como melhor correspondente estrangeiro.
Atualmente é correspondente no Brasil para El País e membro
do Comitê Científico do Instituto Europeu de Design. Da sua
obra Jesus esse grande desconhecido transcrevemos:

Jesus era diferente. Sem nunca renegar a sua


condição de judeu cioso da Lei, foi imensamente crítico
em relação à religião fossilizada de seu tempo. Nunca
se proclamou Messias nem Deus, mas os que o
seguiam, diante dos prodígios que realizava, sentiam-no
como tal ou desejavam que o fosse. E, por mais que ele
às vezes protestasse, dizendo que não era ele mas
Deus quem operava os milagres, as pessoas e até os
próprios apóstolos acreditavam literalmente que o novo
Reino que ele anunciava era também um reino temporal
e concreto que devolveria a Israel a liberdade perdida. E
confiaram nele. (357) (grifo nosso)

Arias possui credenciais suficientes para darmos crédito


ao que fala. Se tivesse num encontro com o Presidente dos
Estados Unidos, certamente, que este lhe diria: “Esse é o cara”.

356 EHRMAN, 2008, p. 389.


357 ARIAS, 2001, p. 100-101.
403

Concluímos dizendo que criar um mito é fácil, derrubá-lo


torna-se a coisa mais difícil, tarefa quase impossível mesmo,
visto que a grande maioria de nós não tem humildade
suficiente para reconhecer que está errado, de um lado; e de
outro o apego aos conhecimentos adquiridos como certos faz
com que neguemos quase tudo o que nos vem de forma
contrária; mesmo diante de elementos comprobatórios das
verdades que nos são apresentadas; ou seja, agimos
puramente por preconceito. Nossa maneira de agir é tal qual a
daqueles que não queriam olhar o céu pelo telescópio de
Galileu…

Se estendemos por demais esse estudo, não foi sem


razão, visto tratar-se, como já o dissemos, de um assunto
polêmico; por isso seguimos: “O rigor da crítica exige uma
busca longa e precisa, um exame de cada ponto, depois dos
quais, com vagar e precaução, podemos afirmar que estes
autores dizem a verdade e aqueles outros mentem sobre os
prodígios que narram.” (358)

Apenas mais três coisinhas, antes de finalizar, se nos


permite a sua paciência, caro leitor. Todos nós temos repulsa
aos rituais sangrentos de sacrifícios de animais; pior ainda
quando, em vez de animais, são utilizados seres humanos. A
origem deles sabemos ser os rituais pagãos; mas, apesar disso,
encontramos nas páginas da Bíblia, tanto um quanto o outro.
Os rituais de expiação pelos pecados praticados pelos judeus
envolviam animais – touros, bodes, carneiros, cabritos, etc. –,
na tola esperança de serem perdoados de seus pecados,

358 ORÍGENES, 2004, p. 440.


404

quando o supremo Criador do Universo passa a perdoá-los por


ter sentido o “odor agradável” de carne assada.

Aliás, não sabemos quem inventou essa história, pois


Deus nega veementemente que tenha instruído tais
barbaridades: “Pois quando tirei do Egito os antepassados de
vocês, eu não falei nada nem dei ordem alguma sobre
holocaustos e sacrifícios” (Jeremias 7,22) e também afirmou
que “eu quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus
mais do que holocaustos” (Oseias 6,6); essa afirmação foi
confirmada pelo Mestre que disse: “E amá-lo de todo o coração,
de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a
si mesmo, é melhor do que todos os holocaustos e do que
todos os sacrifícios.” (Marcos 12,33)

Manassés, rei de Judá (687-642 a.C.), chegou a sacrificar


seu filho no fogo (2Rs 21,1-7), o que também fez Acaz, rei de
Israel (737-732 a.C.) (2 Crônicas 18,1-4). Jefté, nono juiz de
Israel, para cumprir uma promessa idiota que fez, mandou
queimar sua filha (Juízes 11,30-40), até mesmo toda Jerusalém
foi acusada de entregar seus filhos para serem queimados
(Ezequiel 16,20-21; Jeremias 19,4-5).

Um outro sacrifício foi feito por Jerusalém; aquele que


fazem questão de lembrar todos os anos na Semana Santa. É
isso mesmo; embora, não tenham queimado Jesus, numa
oferenda, não deixaram por menos; pregaram-no numa cruz.
Sabemos que, na verdade, não foi um sacrifício oferecido; mas
a cristandade tem sua morte como tal, o que corroboramos em
Rohden:
405

Infelizmente, porém, a ideia do bode expiatório


que morreu para o judaísmo, continua no
cristianismo, com a diferença de que agora o bode
expiatório não é mais um animal inocente, que,
morrendo, extinga os pecados humanos, mas sim o
único homem sem pecados que, segundo a teologia,
paga com sua morte os pecados da humanidade. ( 359)
(grifo nosso)

E aí, magistralmente, conclui:

Depois desse pagamento dos pecados da


humanidade pelo sangue de Jesus, era de se
esperar que o homem estivesse quite com a justiça
divina; mas os teólogos ensinam que todo homem
nasce de novo em estado de pecado, vive e morre cheio
de pecados – não se sabe em virtude de que lógica…
(360) (grifo nosso).

Aceitando isso como querem, ou seja, o Messias como


um “bode expiatório”, então, estamos diante de mais um
absurdo teológico: Deus aceitando a expiação do pecado da
humanidade após um sacrifício humano, que foi o do seu filho
Jesus.

Dito isso, vamos às três coisas:

1ª) Como um sacrifício de uma pessoa até a morte pode


redimir o pecado de uma outra?;

2ª) Caso Jesus seja mesmo Deus, ficaremos em grande


dificuldade para entender, como Deus, descendo do céu,

359 ROHDEN, 1996, p. 96.


360 ROHDEN, 1996, p. 97.
406

encarnando num corpo humano (Jesus), utiliza-se de sua


morte na cruz para oferecer-se em sacrifício a si próprio
visando a remissão dos pecados da humanidade. Não
seria mais prático e, portanto, mais lógico fazer isso com
um simples perdão?;

3ª) Considerando que os rituais de sacrifício eram feitos


pelos pecados já cometidos, então devemos esperar um
outro Cristo para morrer pelos nossos, os cometidos
depois de sua morte até o presente?

Fechando esse estudo, queremos apenas acrescentar


que não temos a pretensão de demover os que advogam a
divindade de Jesus, da ideia de ser ele o próprio Deus, nem
convertê-los à nossa maneira de pensar; estamos apenas
propondo uma reflexão sobre esse assunto, e os que tiverem
“ouvidos de ouvir, que ouçam”.

Você, caro leitor, poderá até estranhar o motivo pelo


qual enveredamos nessa reflexão. Respondemos: É que sempre
achamos impossível seguir o exemplo de Jesus considerando-o
como sendo Deus; e pensando assim, nenhum esforço fazíamos
para tal; entretanto, considerando-o um ser humano encarnado
como todos nós, e deixando a sua evolução fora disso, é mais
viável assim entender, embora saibamos não ser uma tarefa
muito fácil.
407

Conclusão Final

Não há muito o que acrescentar em relação à conclusão


que colocamos no volume I, apenas reforçaríamos que “o
Senhor é o Espírito; e onde se acha o Espírito do Senhor aí
existe a liberdade”. (2 Coríntios 3,17), considerando que a
grande maioria das igrejas ditas tradicionais não permitem a
seus fiéis lerem livros que não os de sua igreja. Isso torna
impossível aos que lhes seguem sair do encabrestamento a que
são sujeito por esse tipo de comportamento. Mas é exatamente
isso que eles querem, pois daí a arrancar-lhes o dízimo é coisa
fácil, mais ainda que tomar pirulito de criança.

Lembrando-nos de Jesus quando disse que “não se


coloca remendo de pano novo e pano velho, nem vinho novo
em odres velhos” (Mateus 9,16-17), não seria de todo impróprio
concluir que ele recomendava, aos de sua época, o desapego
aos ensinamentos mosaicos, pois se não fizessem isso, não
conseguiram receber aqueles que Ele, Jesus, estava passando.
Entretanto, decorridos tanto tempo, ainda há muitas pessoas
que bem serviriam essa recomendação, pois não se conseguem
se desvencilhar de seguir a Moisés.

Esperamos, sinceramente, que esse estudo, possa


incentivar outros autores a fazerem o mesmo, pois há muito
joio misturado no trigo, e, certamente, que não conseguimos
com esse modesto trabalho fazer muita coisa a respeito disso.
Há necessidade de juntarmos esforços neste sentido, de forma
a tornarem límpidos os ensinos do Mestre, o que os fará
408

plenamente compreendidos na essência, levando a todos nós,


seres humanos, a termos condições de colocá-los em prática, já
que os compreendemos bem.

Jesus abençoe a todos os que advogam a causa da


justiça e da verdade!
409

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Paulo da Silva Neto Sobrinho é


natural de Guanhães, MG. Formado em
Ciências Contábeis e Administração de
Empresas pela Universidade Católica
(PUC-MG). Aposentou-se como Fiscal de
Tributos pela Secretaria de Estado da
Fazenda de Minas Gerais. Ingressou no
movimento Espírita em Julho/87. Escreveu
vários artigos que foram publicados em
seu site www.paulosnetos.net e alguns
outros sites Espíritas na Web, entre eles:
 O Portal do Espírito:
http://www.portalespirito.com/paulosns/paulosns.htm
 Geec:
http://www.geec.org.br/portal/index.php/articulistas/paulo-neto-
estudos-espiritas-e-biblicos
 Era do Espírito:
http://www.aeradoespirito.net/ArtigosPN/INDICE_ArtigosPN.html
Autor dos livros: a) impressos: 1) A Bíblia à Moda da
Casa, 2) Alma dos Animais: Estágio Anterior da Alma Humana?
3) Espiritismo, Princípios, Práticas e Provas, 4) Os Espíritos
Comunicam-se na Igreja Católica, 5) As Colônias Espirituais e a
Codificação e 6) Kardec & Chico: dois missionários; b) Ebook:
1) Racismo em Kardec?, 2) A Reencarnação tá na Bíblia, 3)
Manifestações de Espírito de pessoa viva (em que condições
elas acontecem), 4) Homossexualidade, Kardec já falava sobre
isso, 5) Chico Xavier, verdadeiramente uma alma feminina, 6)
Os nomes dos títulos dos Evangelhos designam seus autores? E
7) Apocalipse: autoria, advento e a identificação da besta.

Belo Horizonte, MG.


e-mail: paulosnetos@gmail.com
Tel.: (31) 3296-8716