Paulo Neto

RELENDO A B ÍBLIA, R EVENDO A T EOLOGIA Volume II
Análise crítica de alguns temas bíblicos de acordo com uma visão não dogmática.

Agradecimentos
Os nossos sinceros agradecimentos a todos os membros do Grupo Apologético Espírita – GAE, (www.apologiaespirita.org) pelo apoio e incentivo nas pessoas dos amigos Maurício C. Pimenta, Dr. João Frazão de Medeiros Lima e Hugo Alvarenga Novaes pelas suas valiosas sugestões aos textos colocados nesse nosso livro.

À minha esposa Rosana e aos meus filhos Ana Luisa, Rebeca e João Pedro, que souberam compreender o tempo que lhes retiramos para dedicar a esse livro.

Índice
Apresentação.................................................................................................................4 Prefácio.........................................................................................................................6 Nascido de uma virgem...................................................................................................8 Jesus de Belém ou de Nazaré?.......................................................................................24 A Fuga para o Egito......................................................................................................45 Bodas de Caná: o primeiro sinal.....................................................................................48 João Batista é mesmo Elias?..........................................................................................50 Eucaristia: Jesus a instituiu?..........................................................................................67 A conversa de Jesus com Nicodemos...............................................................................77 O Ritual do Batismo......................................................................................................89 A traição de Judas – uma história mal contada...............................................................106 A questão do bom ladrão.............................................................................................114 Espíritos em Prisão.....................................................................................................118 A morte de Agripa.......................................................................................................121 O antigo testamento foi revogado por Jesus?.................................................................124 Jesus ficava calado?....................................................................................................131 Ressurreição da Carne?...............................................................................................140 O que efetivamente nos salva?.....................................................................................145 Toda Escritura é mesmo inspirada?...............................................................................165 O Consolador veio no Pentecostes?...............................................................................183 Jesus pode ser considerado Deus?................................................................................192 A morte de Jesus foi para a remissão de pecados?..........................................................223 Conclusão Final..........................................................................................................255 Referências Bibliográficas.............................................................................................256

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Apresentação
A Bíblia é um livro excepcionalmente importante para toda a Humanidade. Foi o primeiro livro a ser impresso tipograficamente, sendo também a obra publicada no maior número de idiomas em todo o mundo. Para alguns, o livro representa a palavra de Deus, de capa a capa. Para outros, entretanto, seu texto deve conduzir à reflexão e apreciado como literatura alegórica, em muitas oportunidades. A Bíblia é chamada de “O Livro Sagrado”, pelo respeito exacerbado que, ao longo dos séculos, foi construído pela Igreja. A reforma protestante exaltou, ainda mais, o texto bíblico, buscando torná-lo inatacável. As gerações humanas se sucederam, sem que, mesmo quanto aos trechos da Bíblia notoriamente exagerados ou controversos se colocasse qualquer observação, sob pena de granjear, o audacioso que assim procedesse, o epíteto de herege ou sacrílego. É inegável o excepcional valor de muitos ensinamentos do livro. É inaceitável, contudo, afirmar-se ser, todo o seu conteúdo a palavra de Deus, tantas são as menções carentes de racionalidade. Com a evolução temporal, surgiram vários estudiosos que deliberaram esclarecer, debater e reparar as passagens bíblicas merecedoras de observação. No Brasil, anteriormente, destacaram-se, como críticos da Bíblia, o conspícuo Dr. Carlos Imbassahy, espírita convicto e militante e o Dr. Mário Cavalcanti de Melo, autor do livro “Da Bíblia aos Nossos Dias”, cujo subtítulo é: “Suas lendas, seus erros e contradições”, em obra prefaciada pelo Professor Deolindo Amorim. Hodiernamente, irrompe outro grande estudioso da Bíblia, em seus múltiplos aspectos, o estimado confrade Paulo da Silva Neto Sobrinho, com os mesmos objetivos colimados por aqueles precursores ilustres, qual seja, o de retirar as “escamas” que perduram nos olhos de tantos, incrustados num dogmatismo irremovível. O escopo de Paulo Neto, nesta obra, confunde-se integralmente ao daqueles baluartes, o que se pode depreender da transcrição que, com a devida vênia faremos, de excerto do prefácio do Professor Deolindo Amorim à obra de Mário Cavalcanti de Melo: “A preocupação do Autor, entretanto, é de quem, não estando conformado com certos ensinos bíblicos até agora aceitos como definitivos e verdadeiros, quer rasgar o véu que ainda encobre muitas passagens da Bíblia e, assim, afastar dúvidas ou equívocos sensivelmente prejudiciais à exata compreensão de muitos pontos da História.” A maior virtude desta nova obra analisadora e revisora dos textos bíblicos é o enfoque de novos aspectos, sob uma ótica, raciocínio e lógica diferentes. Entretanto, acontece com todos aqueles que buscam estudar a Bíblia com base no realismo, serem considerados heréticos e inimigos da fé. Anteriormente, Paulo Neto lançou outra apreciada obra sobre o mesmo tema: “A Bíblia à Moda da Casa”. Evidenciando o fato de que a análise do texto bíblico prossegue suscitando muito interesse, surgiu esta nova obra, com nova formatação, em que os temas são estudados em tópicos separados. As incongruências, insubsistências e diatribes são exaustivamente estudadas, e o Autor demonstra excepcional capacidade ao demonstrá-las, e mais, de extrair conclusões eivadas de racionalidade das suas colocações.

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Assim como aconteceu com a sua obra antecedente, “A Bíblia à Moda da Casa”, este novo trabalho do Autor é um libelo contra o fanatismo e o dogmatismo. Tudo porque o enfoque dado ao texto bíblico é calcado num raciocínio embasado na Doutrina dos Espíritos, de Allan Kardec. O Espiritismo trouxe novos conhecimentos e novas luzes, em campos do saber humano até então inamovíveis, seja pelo tradicionalismo, seja pela oclusão mental. “Mais vale repelir dez verdades do que admitir uma só mentira”, lecionou o Codificador. Paulo Neto embasa suas reflexões, observações e conclusões no conhecimento espírita, que vem amealhando ao longo de seus estudos, em estrita observância aos preceitos doutrinários. Todo o seu trabalho é, mui certamente, oriundo de exaustivas pesquisas e de uma busca incessante de fontes confiáveis, pois a abordagem e a temária mexe e incomoda aos exegetas de plantão. O embasamento é necessário e, muitas vezes, imprescindível, para abafar reações esdrúxulas dos que se sentem atingidos com a exposição realista que é apresentada. Não é possível, entretanto, que se continue aceitando como verdade intocável e inamovível certas colocações e certas passagens bíblicas, à vista de equívocos e impossibilidades que saltam à vista de quantos as compulsem. Esta não é uma obra de leitura, mas sim de estudo. Apresentada em tópicos , cada um deles vai suscitar reflexão por parte do leitor. Alguns dos raciocínios e explicações apresentados serão apreciados com surpresa, levando o leitor a uma pergunta inevitável: “como nunca pensei nisso antes?” Honra ao raciocínio, à crítica e à capacidade intelectiva de Paulo Neto, lançando esta nova obra sobre assunto tão delicado e tão profundo quanto o conteúdo da Bíblia. Usufruamos desse manancial de informações. Belo Horizonte, em 15/04/2005. Gil Restani de Andrade (1941-2006)

N.A.: Infelizmente o nosso companheiro e mestre Gil Restani desencarnou em 29/11/2006. A ele nossa eterna gratidão.

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Prefácio
Mantivemos, aqui nesse volume II, a apresentação do nosso companheiro Gil Restani de Andrade, por dois motivos. Um como uma singela homenagem póstuma a quem soube viver plenamente os ensinamentos Espíritas, pois era, como se diz, um Espírita de primeira linha. O outro, gostaríamos de justificar porque, quando ele fez o prefácio, o texto do livro era único, mas, por necessidade, acabou sendo publicado em dois volumes. Continuando com o nosso estudo da Bíblia, agora especificamente, aos textos do Novo Testamento, vamos rever as explicações oferecidas pela teologia dogmática, para sair das interpretações de conveniência, em busca daquilo que realmente deve ser entendido os textos. Como fizemos no Volume I, trabalhamos como se não tivéssemos nenhuma informação sobre os assuntos enfocados para que nada pudesse nos influenciar, já que os dogmas poderiam nos manter estacionados nas mesmas interpretações interesseiras, onde, para nós, se encontram os equívocos teológicos, que não causam preocupação a quase ninguém. Graças a Deus, estamos sentido uma crescente busca dos fatos acontecidos, isso, como não poderia deixar de ser, também acontece com os assuntos bíblicos. Disso vislumbramos um horizonte menos nebuloso para a geração futura, que não mais aceitará imposições dogmáticas, mas quererá, e com razão, saber das coisas usando para isso a lógica e a razão, longe do creio porque está escrito. Em não mudou muito em relação ao Volume I, ou seja, o nosso raciocínio sempre nos guiou para resultados completamente diferentes dos dogmas e interpretações que estávamos acostumados a acreditar. Entretanto, sempre nos apoiando em pesquisas formamos as bases consistentes e sólidas que nos levaram aos mesmos resultados, pelos quais já vimos no primeiro volume. A razão e lógica foram as bases que buscamos para sustentá-los. Continuamos ainda com certeza de que muitos dos nossos estudos irão chocar algumas pessoas, especialmente aos fundamentalistas que não arredam o pé daquilo que aprenderam. Mas a busca da verdade que fomos, nesse tempo todo, pautando os nossos estudos, não nos permitiu preocupar a qual resultado final poderíamos chegar. O choque mais extraordinário que tivemos foi quando, no estudo das citadas profecias a respeito de Jesus, não encontramos uma só que pudéssemos nos apegar como uma verdadeira profecia, explícita e direta, a seu respeito. Acreditamos que isso também irá chocar a muitos, entretanto, achamos que a verdade deverá se sobrepor, até mesmo porque Jesus nos recomendou: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Agora, mais do que nunca, entendemos o verdadeiro sentido dessa frase. Falava o Mestre justamente das adulterações, das interpolações, das interpretações de conveniência que fariam de seus ensinamentos, buscando, principalmente, subjugar os fiéis, os quais se tornam, em suas mãos, nada mais que simples joguetes do interesse do poder social ou financeiro, base fundamental de seus princípios, que nada tem, é claro, a ver com a verdade que liberta. E reafirmamos que esse nosso estudo poderá, se bem divulgado, causar descontentamento em determinada liderança religiosa, essa a qual mais evidência o interesse do poder e do dinheiro, da qual já falamos. Mas encontrará repercussão favorável naqueles em que, como nós, o mais importante é a verdade legítima, não a fabricada por interesses como essas que vigoram entre quase todas as denominações cristãs. Queremos ver outros autores, os mais gabaritados que nós, levando adiante essa ideia que iniciamos com esse livro Relendo a Bíblia, Revendo a Teologia, de forma a forçar uma revisão teológica, a qual achamos urgente e necessária de se fazer. Da mesma forma que no Volume I, os textos serão colocados, quando for possível, na ordem em que os assuntos aparecem no AT, quando isso não possível, serão colocados na ordem cronológica em que foram escritos.

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Nascido de uma virgem
Era costume muito comum de nossos antepassados colocar seus heróis como provindos de nascimentos sobrenaturais, cujas mães eram invariavelmente jovens virgens; ocorrência que também podemos verificar na mitologia de muitos dos povos da antiguidade, falando de deuses que, em contato com jovens virgens, geravam semideuses, os quais teriam, ao mesmo tempo, a condição de ser humano e divino. Mulheres virgens se engravidando de deuses, somente se vê isso na mitologia antiga, onde é coisa comum, conforme o que se poderá ver em vários autores, como, por exemplo, nos vários que citaremos a seguir. Pepe Rodríguez (1953- ), no capítulo III, item “Nascer de virgem fecundada por Deus foi um mito pagão bastante difundido em todo o mundo antigo anterior a Jesus”, do livro Mentiras fundamentais da Igreja Católica , afirma:
Lendas pagãs deste género foram obviamente integradas na Bíblia, não só nos referidos relatos dos nascimento de Sansão, de Samuel ou de João Batista, como, muito mais tarde, no relato do nascimento de Jesus. Regra geral, desde tempos remotos, quando o personagem anunciado era de primeira ordem, a mãe era sempre fecundada por Deus, através de um procedimento milagroso que, fosse ele qual fosse, confirmava claramente o mito da concepção virginal. Esta confirmação era particularmente patente na concepção dos deuses-Sol, uma categoria a que, como veremos, pertence a figura de Jesus Cristo. (RODRÍGUEZ, 2007, p. 100101) (grifo nosso).

E, um pouco mais à frente, completa:
Todos os grandes personagens, tenham sido eles reis ou sábios – como, por exemplo, os gregos Pitágoras (c. 570-490 a.C.) ou Platão (c 417-347 a.C.) –, ou se tenham tornado o centro de alguma religião e acabado por ser adorados como “filhos de Deus” (Buda, Krishna, Confúcio e Lao Tsé) foram mitificados pela posteridade como filhos de uma virgem. Jesus, surgido muito depois, mas destinado a desempenhar um papel semelhante ao que os seus antecessores haviam desempenhado, não podia ter um estatuto inferior ao deles. Desse modo, o budismo, o confucionismo, o tauismo e o cristianismo, ficaram indelevelmente marcados pelo facto de terem sido fundados por um “filho do Céu”, encarnado através do acesso directo e sobrenatural de Deus ao ventre de uma virgem especialmente escolhida e apropriada. (RODRÍGUEZ, 2007, p. 103) (grifo nosso).

Acrescentamos Hans Küng (1928- ), que também nos traz informações interessantes:
[…] Na mitologia greco-helénica os deuses também contraem “matrimónios sagrados” com filhas de humanos, dos quais nascem filhos de deuses tais como Perseu e Herácles ou também figuras históricas como Homero, Platão, Alexandre, Augusto. É impossível deixar de reparar no seguinte: a concepção virginal em si não é algo exclusivamente cristão! A ideia de concepção virginal, é, pois, segundo a exegese actual, utilizada com o objectivo de apresentar uma “justificação” (grego, “aitía”) para a existência do filho de Deus. […] (KÜNG, 1997, p. 56) (grifo nosso).

Edward Carpenter (1844-1929) traz curiosas observações, quanto ao tema; vejamos:

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Mas quase mais notável que a crença mundial nos salvadores é a lenda igualmente difundida de que eles nasceram de Mães-Virgens. Não há quase nenhum deus - como já tivemos a oportunidade de ver - que seja adorado como um benfeitor da humanidade nos quatro continentes, Europa, Ásia, África e América - que não tenha nascido de uma Virgem, ou pelo menos de uma mãe que atribuísse a concepção não a um pai humano, mas sim ao céu. E isso parece, à primeira vista, o mais surpreendente, porque acreditar em tal possibilidade é muito absurdo para nossa mente moderna. Tanto que, enquanto pareceria natural que tal lenda tivesse se espalhado espontaneamente em alguma parte incivilizada do mundo, achamos difícil entender como, nesse caso, teria se espalhado tão rapidamente por todas as partes, ou - se não se espalhou - como podemos explicar seu surgimento espontâneo em todas essas regiões. (CARPENTER, 2008, p. 108) (grifo nosso).

Carpenter lista também vinte e uma semelhanças da história de Jesus com histórias antigas de deuses, o que não deixa de ser algo surpreendente; vejamos o que ele diz:
A história de Jesus, como vemos, tem muita semelhança com as histórias dos antigos deuses Sol e com o percurso atual do Sol nos céus tantas coincidências, que não podem ser atribuídas à mera coincidência ou até mesmo a blasfêmias do Demônio! Vamos enumerar algumas delas. Há (1) o nascimento da Virgem; (2) o nascimento na manjedoura (caverna ou câmera subterrânea); e (3) em 25 de dezembro (logo depois do Solstício de Inverno). Há (4) a Estrela do Leste (Sírio) e (5) a chegada dos magos (os "Três Reis"); há (6) o Massacre dos Inocentes, e o vôo para um país distante (dito também de Krishna e outros deuses Sol). Há os festivais da Igreja de (7) Candelária (2 de fevereiro), com procissões das velas para simbolizar a luz crescente; há (8) a Quaresma, ou a chegada da primavera; há o (9) dia de Páscoa (normalmente em 25 de março) para celebrar a travessia do Equador pelo Sol; e (10) simultaneamente a explosão de luzes no Sepulcro Sagrado em Jerusalém. Há (11) a Crucificação e a Morte do carneiro-deus, na sexta-feira santa, três dias antes da Páscoa; há (12) a prisão feita com pregos em uma árvore, (13) o túmulo vazio, (14) a Ressurreição (nos casos de Osíris. Attis e outros); há (15) os doze discípulos (os signos do Zodíaco); e (16) a traição de um dos doze. Depois, há (17) o Dia do Meio do Verão, o dia 24 de junho, dedicado ao nascimento de João Batista, e correspondente ao dia de Natal; há as festas da (18) Assunção da Virgem (15 de agosto) e do (19) nascimento da Virgem (8 de setembro), correspondentes ao movimento do Sol por Virgem; há o conflito de Cristo e seus discípulos com os asterismos outonais, (20) a Serpente e o Escorpião; e finalmente há um fato curioso de que a Igreja (21) dedica o dia do Solstício de Inverno (quando qualquer um pode, naturalmente, duvidar do renascimento do Sol) a São Tomé. que duvidava que a Ressurreição fosse verdadeira! Algumas coincidências, mas não todas, estão em questão. Mas elas são suficientes, acredito eu, para provar - mesmo permitindo possíveis margens de erro - a verdade de nossa contenção geral. Entrar no paralelismo dos caminhos de Krishna, o deus Sol indiano, e Jesus demoraria muito tempo; porque, de fato, a semelhança é muito grande." Eu proponho, no entanto, ao final deste capítulo, que nos aprofundemos um pouco na festa cristã da Eucaristia, em parte por causa de sua relação com a derivação de rituais astronômicos e celebrações da Natureza já referidas, e em parte por causa da luz que a festa geralmente, seja ela cristã ou pagã, joga sobre as origens da Mágica Religiosa - um assunto que devo abordar no próximo capítulo. (CARPENTER, 2008, p. 35-36) (grifo nosso).

E, terminado essas citações, trazermos H. Spencer Lewis (1883-1939):
Posso acrescentar que nossos próprios registros de tradições antigas e escrituras sagradas contêm muitas referências a movimentos religiosos da antiguidade, cujo grande líder era considerado “O Filho de Deus”. A Índia teve um grande número de Avatares ou Mensageiros Divinos, Encarnados por Concepção Divina, tendo dois deles levado o nome de “Chrishna”, ou “Chrishna o Salvador”. Consta que Chrishna nasceu de uma

10 virgem casta chamada Devaki que, por sua pureza, fora escolhida para se tornar a mãe de Deus. Neste exemplo, encontramos a antiga história de uma virgem dando à luz um mensageiro de Deus divinamente concebido. Buda foi considerado por todos os seus seguidores como gerado por Deus e nascido de uma virgem chamada Maya ou Maria. Nas antigas histórias sobre o nascimento do Buda, tais como são compreendidas por todos os orientais e como são encontradas em seus escritos sagrados muito anteriores à Era Cristã, vemos como o poder Divino, chamado o Espírito Santo, desceu sobre a virgem Maya. Na antiga versão chinesa dessa história, o Espírito Santo é chamado Shing-Shin. Os siameses tinham igualmente um deus e salvador nascido de uma virgem e que eles chamaram Codom. Nesta velha história, a bela e jovem virgem fora informada com antecedência de que se tornaria mãe de um grande mensageiro de Deus e, um dia, enquanto fazia seu período usual de meditação, concebeu através de raios de sol de natureza Divina. O menino nasceu e cresceu de maneira singular e notável, tornou-se um protegido da sabedoria e fez milagres. Quando os primeiros europeus visitaram o Cabo Comorim, na extremidade sul da península do Industão, surpreenderam-se ao encontrar os naturais do lugar, que nunca haviam tido contato com as raças brancas, cultuando um Senhor e Salvador que fora divinamente concebido e nascera de uma virgem. E quando os primeiros missionários jesuítas visitaram a China, escreveram em seus relatórios que haviam ficado consternados por encontrarem na religião pagã daquela terra a história de um mestre redentor que nascera de uma virgem por concepção divina. Ao que consta, esse deus havia nascido 3468 anos a.C. Lao-Tse, o famoso deus chinês, também nascera de uma virgem, de pele negra, sendo descrita como a bela e maravilhosa como o jaspe. No Egito, bem antes do advento do cristianismo e muito antes do nascimento dos autores da Bíblia ou de qualquer doutrina concebida como cristã, o povo egípcio já tivera vários mensageiros de Deus nascidos de virgens por Concepção Divina. Hórus, segundo o sabiam todos os antigos egípcios, havia nascido da virgem Ísis, sendo sua Concepção e seu nascimento um dos três grandes mistérios ou doutrinas místicas da religião egípcia. Para eles, todos os incidentes ligados à Concepção e ao nascimento de Hórus eram pintados, esculpidos, adorados e cultuados como o são os incidentes da Concepção e do nascimento de Jesus pelos cristãos de hoje. Outro deus egípcio, Ra, nascera de uma virgem. Examinei uma das paredes de um antigo templo na margem do Nilo, onde há um belo quadro esculpido representando o deus Tot – o mensageiro de Deus – dizendo à jovem Rainha Mautmes que daria à luz um Divino Filho de Deus, que seria o rei e Redentor de seu povo. Ao nos voltarmos para a Pérsia descobrimos que Zoroastro foi o primeiro dos redentores do mundo a ser aceito como nascido em plena inocência, pela concepção de uma virgem. Antigos entalhes e pinturas deste grande mensageiro mostram-no cercado por uma aura de luz que inundava o humilde local de seu nascimento. Ciro, rei da Pérsia, também era tido como nascido de origem divina, e nos registros de seu tempo ele é chamado de Cristo ou Filho ungido de Deus e considerado mensageiro de Deus. (LEWIS, 2001, p. 7476) (grifo nosso).

Com o dito por esses escritores confirma-se, portanto, o que falamos a respeito de ser comum atribuir-se a certos personagens heroicos o nascimento de uma virgem. Entendemos como um fato perfeitamente aceitável, em virtude desses fatores culturais, querer-se também atribuir a Jesus essa condição de nascimento sobrenatural e, como não poderia deixar de ser, nascido de uma virgem. O que não é natural é procurar manter, a todo custo, essa visão ingênua, ainda nos dias de hoje. Por outro lado, os teólogos sempre quiseram colocar o sexo como coisa pecaminosa, motivo pelo qual Jesus não poderia ter vindo de “forma impura”; não é mesmo? Justifica-se, de certa maneira, o celibato sacerdotal, ou seja, os “santos” padres não poderiam praticar coisa considerada impura; assim não poderiam se casar. Outro fator, que provavelmente veio em apoio ao celibato, foi a questão da herança dos padres, que, se casados, não seria

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incorporada ao patrimônio da instituição religiosa da qual faziam parte, já que teria que ficar com os familiares. Bom; mas isso é uma outra questão; assim, voltemos ao assunto central do texto. Sempre dissemos que, por ser Jesus o primogênito, evidentemente, e pelo contexto cultural da época, já que viviam numa sociedade extremamente machista, Maria, ao se casar com José, era indubitavelmente virgem; assim, nesse sentido, podemos simbolicamente considerar Jesus como nascido de uma virgem. Outra coisa que sempre falávamos é quanto à questão do sexo ser impuro. Não admitimos essa hipótese de forma alguma, já que foi Deus que fez o ser humano em duas polaridades; a masculina e a feminina, com órgãos sexuais diferentes. Pensamos que, se o sexo for realmente “pecado”, devemos convir que Deus não foi muito justo conosco, pois, além de o conceber de forma a haver “atração fatal” entre os dois sexos – homem e mulher –, ainda por cima coloca prazer no ato sexual; mas de “espada em punho” diz: Se fizer é pecado ou é coisa impura. Absurdo teológico, que encontra campo fértil somente em cabeça de fanáticos, não na de pessoas dadas a utilizar a inteligência, de que Deus dotou a raça humana. Vejamos os argumentos de Carlos Torres Pastorino (1910-1980):
A IMPOSIÇÃO DIVINA do uso do sexo para manutenção e multiplicação de Sua criação, nos diversos estágios evolutivos (plantas, animais e homens) vem provar que o sexo é SANTO. Não podemos admitir que Deus, Sábio e Bom, tivesse imposto obrigatoriamente as Suas criaturas uma condição que, ao cumpri-la, as tornasse imperfeitas. Se no ato sexual houvesse uma leve imperfeição sequer, ou um sinal de atraso espiritual, esse Deus seria monstruosamente mau, pois teria obrigado Sua criação a ser imperfeita e atrasada, a fim de manter e multiplicar Suas obras. Portanto, compreendendo o ato sexual em si e a maternidade como perfeições altamente espiritualizantes (porque são o cumprimento de uma Lei Divina), achamos que Maria se engrandece perante Deus com a maternidade normal, porque assim dá demonstração de ser fiel e obediente cumpridora da Vontade Divina. Compreendendo bem esse problema, o jesuíta padre Teilhard de Chardin atribui à sexualidade um sentido cósmico e afirma que o mundo não se diviniza por supressões, mas por sublimação, e ainda: que o homem e a mulher tanto mais se unirão a Deus, quanto mais se amarem, não vendo apenas o objetivo admirável mas transitório da reprodução, mas o de dar plena expansão à quantidade do amor, liberado do dever da reprodução. E diz claramente, sem subterfúgios: a mulher é, para o homem, o termo susceptível de impulsionar esse progresso para a frente. Pela mulher, e só pela mulher, pode o homem escapar ao isolamento, no qual sua própria perfeição se arriscaria prendê-lo. (L'énergie humaine, édition Seujl, pág. 93 a 96). Realmente a união sexual dentro do amor é a imagem mais fiel da união do homem com a Divindade, e por isso os místicos denominam essa unificação do homem com Deus de Esponsalício. Na profecia de Isaías, o menino seria chamado Himmanu-El, que significa Deus conosco, exprimindo a grande verdade de que Deus ESTA REALMENTE DENTRO DE NÓS, está CONOSCO. (PASTORINO, vol. 1, 1964a, p. 55).

Se sexo for mesmo pecado, então Deus, de antemão, condenou Adão e Eva a pecar, e por consequência toda a humanidade, quando disse ao suposto primeiro casal: “Crescei-vos e multiplicai-vos!” (Gn 1,22.28). Se a mulher só “... será salva pela sua maternidade, desde que permaneça com modéstia na fé, no amor e na santidade” (1Tm 2,15), então ficamos num beco sem saída, pois, não havia como ser mãe sem fazer sexo (considerando a época de Paulo). Vejamos, na narrativa de Mateus, o texto no qual tomam base para afirmar sobre a virgindade de Maria; ampliamo-lo um pouco mais, pois temos uma importante consideração a fazer. Mt 1,18-25:”A origem de Jesus, o Messias, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do

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Espírito Santo. José, seu marido, era justo. Não queria denunciar Maria, e pensava em deixá-la, sem ninguém saber. Enquanto José pensava nisso, o Anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, e disse: 'José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e você lhe dará o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados'. Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: 'Vejam: a virgem conceberá, e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco'. Quando acordou, José fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado: levou Maria para casa, e, sem ter relações com ela, Maria deu à luz um filho. E José deu a ele o nome de Jesus”. Veja bem, caro leitor, que no texto bíblico está se afirmando que José, o pai, é filho de Davi, para estabelecer a ligação da criança como descendente do rei Davi. Ótimo isso, pois isso implica dizer que José é pai biológico de Jesus, porquanto, somente dessa maneira ele poderia ser descendente de Davi, a não ser que argumentem que o “Espírito Santo”, que creem ter fecundado Maria, seja também filho de Davi. Mas isso seria o máximo em apelação, não é mesmo? Lucas afirma que Maria estava “prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de Davi” (Lc 1,27). E, para não pairar dúvidas, quanto a Jesus ter nascido biologicamente de José, trazemos uma fala de Paulo aos romanos, quando, se referindo ao Mestre, disse: “... nascido da estirpe de Davi segundo a carne” (Rm 1,3). Portanto, admitir que Jesus não seja filho biológico de José está indo contrário ao que se deduz dos textos bíblicos; isso sem mencionarmos que não fere a lógica. Maria Helena de Oliveira Tricca (1940-1997) em Apócrifos I – Os proscritos da Bíblia, cita a obra “A história de José o carpinteiro”, na qual lemos: “Assim José o Carpinteiro, pai de Cristo segundo a carne, abandonou esta vida mortal e viveu cento e doze anos”. […] (TRICCA, 1995a, p. 197) (grifo nosso), o que corrobora o dito por Paulo. Isso nos induz a concluir que àquela época não tinham Jesus como fruto de fecundação do Espírito Santo, mas um homem, nascido de homem. Por outro lado, considerando que para os judeus “Ruah é palavra hebraica, feminina, que significa Espírito, […] (TRICCA, 1995b, p. 176), é pouco provável que a utilizassem para sustentar que Maria havia se engravidado de uma mulher. Pode-se ver que em o Evangelho de Felipe, consta exatamente isso:
17. Alguns dizem que Maria concebeu por obra do Espírito Santo. Esses se equivocam, não sabem o que dizem. Quando alguma vez uma mulher foi concebida de uma mulher? Maria é a virgem a quem Potência alguma jamais manchou. Ela é uma grande anátema para os judeus que são os apóstolos e os apostólicos. Esta Virgem que nenhuma Potência violou, [… enquanto que] as Potências se contaminaram. O Senhor não [teria] dito: “Pai meu que estás no céu”, se não tivesse outro pai; do contrário haveria dito simplesmente: “[Pai meu]”. (TRICCA, 1995b, p. 182) (colchetes do original)

Ao que parece, alguns tradutores prenderem-se aos dogmas instituídos; como exemplo, citamos o Pe. Matos Soares, de quem trazemos essa explicação para Mt, 1,16:
José, esposo de Maria. O Evangelista, descrevendo a genealogia de São José, conforma-se com o costume hebraico de só atender aos homens nas tábuas genealógicas. Todavia, dá-nos, ao mesmo tempo, a genealogia de Jesus, visto que Maria era também descendente de Davi. – Da qual nasceu Jesus. O Evangelista não diz que José gerou Jesus, pois o Salvador foi concebido no seio de Maria, por obra do Espírito Santo. São José não foi pai natural de Jesus, mas somente pai legal, como verdadeiro e legítimo esposo de Maria. (Bíblia Paulinas, 1957, p. 1178) (grifo nosso).

Nosso impasse está no seguinte: Ou Jesus é filho biológico de José, o que fazia dele o Messias esperado, ou é filho do “Espírito Santo” e não é o Messias.

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Era de se esperar que a dogmática, querendo sair do impasse, tentasse justificar-se dizendo que Maria também era filha de Davi; entretanto, “a emenda saiu pior que o soneto” (Bocage1), já que os judeus tinham a crença de que somente o homem é que dava a descendência; é por isso que todas as genealogias na Bíblia são traçadas em relação ao pai e não à mãe da pessoa. Voltemos ao passo de Mateus, especificando os versículos que falam de uma virgem e a suposta profecia dizendo que Jesus, como Messias e filho de Davi, veio cumprir: Mt 1,22-23: “Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: 'Vejam: a virgem conceberá, e dará à luz um filho. Ele será chamado Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco'”. Profecia: Is 7,14: “Pois saibam que Javé lhes dará um sinal: A jovem concebeu e dará à luz um filho, e o chamará pelo nome de Emanuel”. Qualquer estudioso bíblico, não compromissado com alguma teologia, verá que esse passo de Isaías nada tem a ver com Jesus. Devemos, para melhor compreendê-lo, dizer que é preciso ler os versículos anteriores, iniciando pelo 10, porquanto são sempre subtraídos quando tentam apontar essa profecia: Is 7,10-13: “Javé falou de novo a Acaz, dizendo: 'Pede para você um sinal a Javé seu Deus, nas profundezas da mansão dos mortos ou na sublimidade das alturas'. Acaz respondeu: 'Não vou pedir! Não vou tentar a Javé!' Disse-lhe Javé: 'Escute, herdeiro de Davi, será que não basta a vocês cansarem a paciência dos homens? Precisam cansar também a paciência do próprio Deus?'” Estritamente dentro do contexto o sinal que Deus promete é ao rei Acaz, cuja mulher, uma jovem, estava grávida, fato que podemos confirmar:
O reino do Norte (Efraim), cujo rei era Faceia, se aliou a Rason, rei de Aram, numa tentativa de se libertar do perigo assírio. Como o reino do Sul (Judá) não participou da coalizão entre o reino do Norte e Aram, estes dois temeram que Judá se tornasse aliado da Assíria; resolveram então atacar o reino do Sul, para destronar o rei Acaz e colocar no seu lugar o filho de Tabeel, rei de Tiro. Acaz teme o cerco e verifica a reserva de água da cidade. Isaías vai ao seu encontro e o tranquiliza, mostrando que não haverá perigo, pois continua válida a promessa de que a dinastia de Davi será perene, desde que se coloque total confiança em Javé. O sinal prometido a Acaz é o seu próprio filho, do qual a rainha (a jovem) está grávida. Esse menino que está para nascer é o sinal de que Deus permanece no meio do seu povo (Emanuel = Deus conosco). Bíblia Sagrada Pastoral, p. 954-955) (grifo nosso).

Então, temos que, pelo contexto bíblico e confirmado por essa explicação, fica fácil perceber que Deus, na verdade, promete um sinal ao rei Acaz e esse sinal é o filho do rei que estava por nascer. Dar uma explicação fora disso é tentar distorcer a interpretação realista do texto. Ademais, esse sinal é um fato presente e não algo para um futuro longínquo, ou seja, uma previsão; portanto, é agir fora do contexto, quando querem transformá-lo numa profecia a respeito de Jesus. Além do mais, o nome Jesus significa “Deus é salvação”; portanto, incontestavelmente, distinto de Emanuel que quer dizer “Deus está conosco”, exatamente o nome mencionado ao rei Acaz, o que a dogmática, cega pelo fanatismo, não consegue enxergar e, ao que parece, nem pretende. Ampliando a explicação do verbete Emanuel, transcrevemos:
É o nome dado por Isaías a uma futura criança cujo nascimento será, para o rei Acaz, o “sinal” da assistência divina (Is 7,14-17). A interpretação deste oráculo deve estar ligada ao significado do nome e ao alcance que terá na conjuntura daquele momento. O reino de Judá é ameaçado pelos sírios e efraimitas aliados, que querem acertar contas com a dinastia
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14 reinante, a mesma dinastia que se beneficia das promessas feitas a Davi. Em vez de recorrer a essas promessas, Acaz apela para a Assíria. Isaías condena este modo de agir e proclama: Deus está presente; ele está “conosco”. Qual será a criança cujo nascimento será portador de uma mensagem como esta? Como é ao rei, contemporâneo de Isaías, que o sinal será dado, o nascimento anunciado deve ocorrer proximamente. Será Ezequias – afirma-se muitas vezes, e com boas razões. Mas esta criança é descrita numa linguagem poético-mítica, concretamente irrealizável. O oráculo abre portanto uma perspectiva que vai além do rei em questão. Graças a este oráculo, os crentes, insatisfeitos com os reis históricos, esperarão por uma personagem que finalmente satisfará a esperança deles. Mateus e os cristãos posteriores a ele reconhecem em Jesus aquele que realiza plenamente o anúncio de Isaías (Mt 1,23). (Dicionário Bíblico Universal, p. 226) (grifo nosso).

Confirma-se, portanto, que a suposta profecia não se refere mesmo a Jesus, conforme ficou bem claro na explicação acima. Passar por cima do contexto histórico, ignorando as narrativas dos fatos, para aplicar ao que desejam, não é muito saudável, pois, a cada dia que passa, a crítica literária vai revelando. Não bastasse o que já apresentamos, há ainda um outro problema: é quanto ao significado da palavra hebraica almah usada em Isaías. Para os tradutores da Bíblia de Jerusalém “O termo hebraico “almah” designa, quer a donzela, quer uma jovem casada recentemente, sem explicitar mais” (Bíblia de Jerusalém, p. 1265). Quanto a essa questão, vejamos estas outras explicações:
O fato de os cristãos tomarem como própria a tradução da LXX e de a usarem nas controvérsias com os judeus, conduziu a uma progressiva rejeição desta versão pelos judeus que acabaram substituindo-a por novas traduções mais fiéis ao texto rabínico. Um exemplo típico de divergência entre o texto hebraico e o grego, citado em todas as controvérsias entre judeus e cristãos é Is 7,14, onde a LXX traduz o termo hebraico 'almâ, "jovem (casada ou recém-casada)", por parthénos, "virgem" em vez do mais apropriado neânis. Os judeus rejeitaram esta tradução da LXX, pois os cristãos viam nela uma profecia do nascimento virginal de Cristo (d. p. 621). (BARRERA, 1999, p. 369) (grifo nosso). Por outro lado, um erro de leitura pode originar um novo texto considerado inspirado, embora isto não signifique que a doutrina exposta derive necessariamente do erro textual cometido. O caso mais chamativo é a citação em Mt 1,22 de, ls 7,14: "a virgem conceberá um filho". Não se trata, neste caso, de erro do copista, nem de tradução errada. O que se produziu foi um deslocamento de significado. Os tradutores gregos entendiam perfeitamente o sentido da palavra hebraica 'almâ, traduzida por parthénos no sentido de "jovem" e não de "virgem". Os cristãos, que criam no nascimento misterioso de Cristo, interpretaram o texto de Is como profecia do nascimento "virginal" do Messias, atribuindo ao termo parthénos o significado de "virgem". (BARRERA, 1999, p. 397-398) (grifo nosso). Sustentar, como o faz a Igreja Católica, que almah de Isaías foi uma virgem implica persistir conscientemente num engano por motivos doutrinais interesseiros, sobretudo quando se sabe que as outras almah bíblicas foram corretamente traduzidas por moçoilas, como pode-se ver na almah de Provérbios (36) e nas alamoth do Cântico dos Cânticos (37) que, obviamente, segundo se deduz pelo contexto, perderam a sua virgindade, respectivamente, na sequência do 'rastro do homem” e da sua função no harém real. Todas as versões independentes – ou, simplesmente, não católicas – da Bíblia traduziram a almah de Isaías por moçoila (ou por donzela) (38), o que não só é lógico, como coerente com a sequência do texto de Isaías. Aliás, este, no início do texto citado, concentra-se apenas no nome que seria dado à criança, ignorando totalmente a mãe, o que seria absurdo se se tratasse de uma virgem, que, permanecendo tal, estivesse prestes a dar à luz. […]

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(36) “Três coisas me espantam e há uma quarta que não alcanço: o rasto da águia nos ares, o rasto da serpente sobre a rocha, o rastro do navio no meio do mar e o rastro do homem na moçoila” (Prov 30,18-19). (37) “Setenta são as rainhas, oitenta as concubinas, e inúmeras as moçoilas” (Cant 6,8). (38) O versículo 14, tal como aparece traduzido na Bíblia católica de Nácar-Colunga, “Eis que a virgem grávida dá à luz um filho e lhe põe o nome de Emmanuel”, não é uma tradução correcta do original, já que neste o que se diz é exactamente o seguinte: “Vês esta moçoila engravidada que vai dar à luz um filho. Seu filho chamar-se-á Emmanuel...” que tem um sentido descritivo absolutamente diferente, pois coloca o facto no presente, evitando, desse modo, qualquer especulação profética.

(RODRÍGUEZ, 2007, p. 131) (grifo nosso). A referência à profecia de Isaías é também estropiada. A passagem citada encontra-se efetivamente no livro desse profeta (VII, 14), mas, no contexto, ela não anuncia a vinda do Messias. A palavra hebraica alma nessa passagem significa “mulher jovem”, e não «virgem». E Isaías nada diz aí sobre o Messias: “Mas, antes que o menino saiba rejeitar o mal, e escolher o bem, o país do qual tu temes os dois reis será abandonado”. (Isaías, VII, 16). Isaías não atribui nada de sobrenatural ao seu nascimento, ele prediz que a criança verá a luz em uma época que precede de sete séculos a data dos evangelhos e diz, aliás, que o hão de chamar de Emanuel. Para eliminar esta contradição, Mateus pretende que um anjo visto em sonho por José lhe ordenou que desse ao menino o nome de Jesus, que quer dizer em hebreu “Deus Salvador”. Portanto, nada neste capítulo pode servir para confirmar a historicidade de Jesus. Ao contrário, sua genealogia, a concepção imaculada, a citação de Isaías, o anjo que apareceu a José, demonstram que Mateus procurou, bastante desajeitadamente aliás, juntar as profecias sobre o Messias, e os elementos dos cultos orientais, o que nos permite discernir facilmente as partes constitutivas do mito de Jesus. (LENTSMAN, 1963, p. 175) (grifo nosso). Mateus faz também referência a um antigo adágio do profeta Isaías: “eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel” como se dissesse que a gravidez de Maria era a realização dessa profecia (Isaías 7:14. (20). Mas Isaías faz referência a uma criança que deveria nascer na sua própria época, no século VIII a.C., cujo nascimento seria um sinal para o rei Ahaz, que então governava. A palavra hebraica (almah) que Mateus traduz por “virgem”, em sua versão grega, significa “jovem mulher” ou “donzela”, sem introduzir qualquer implicação miraculosa. (21). A criança receberia o nome pouco comum de Emanuel, que significa “Deus conosco”, e Isaías garante ao rei Ahaz que, antes que essa criança tenha idade suficiente para distinguir “o bem do mal”, os assírios que ameaçavam Jerusalém e a Judeia seriam removidos da face da terra. Ahaz não teria que esperar muito tempo. Mateus infere que a profecia de Isaías foi “realizada” pelo miraculoso nascimento virgem de Jesus – o que claramente não é o sentido do texto original. _______
(20) Todas as traduções da Bíblia foram feitas por mim, exceto se indicado de outra forma. Empreguei itálico para enfatizar determinadas partes. (21) A tradução grega da Bíblia hebraica, conhecida como Septuaginta ou LXX, usou a palavra parthenos em Isaías 7:14. Significa “virgem”, porém o sentido evidente do contexto não é o de uma mulher que engravida sem nenhum homem, mas de uma menina virgem que nunca fez sexo ficando grávida. Este bebê singular não nasceria de uma mulher que já teve filhos, mas de uma que era virgem quando ficou grávida. Como Mateus escreveu em grego e está citando Isaías, ele também usa a palavra parthenos. Quanto a Versão Revisada do Antigo Testamento foi publicada, em 1952, os tradutores empregaram corretamente o termo “jovem”, em vez do tradicional “virgem”, em Isaías 7:14. A tradução foi denunciada por muitos cristãos fundamentalistas como uma tentativa comunista diabólica de solapar a fé no “nascimento virgem de Cristo”.

(TABOR, 2006, p. 59-60) (grifo nosso). Durante esses anos sombrios Isaías fora conformado pelo nascimento iminente de um bebê real, indício de que Deus ainda estava com a casa de Davi. “Uma jovem (almah) está grávida e logo dará à luz um filho que se chamará Immanu-El (Deus-conosco)”(31) Seu nascimento seria ainda uma fonte de esperança, “uma grande luz”, para o traumatizado povo do norte, que “caminhava nas trevas” e na “profunda escuridão”. (32) Quando o bebê

16 nasceu, foi de fato chamado Ezequias, e Isaías imaginou toda a Assembleia Divina celebrando a criança real, que, como todos os reis davídicos, se tornaria uma pessoa divina e um membro do conselho celeste: no dia de sua coroação, ele seria chamado de “Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz!. (33). _______
(31) Isaías 7:14. Essa é uma tradução literal do versículo, não segue a versão tradicional da Bíblia de Jerusalém. (32) Isaías 9:1. (33) Isaías 9:5-7.

(ARMSTRONG, 2007, p. 25) (grifo nosso).

[…] Não há nenhuma evidência, a não ser nos tendenciosos escritos da Igreja surgidos depois, de que Jesus jamais tenha se considerado outra coisa a não ser um judeu entre judeu, buscando a realização do judaísmo – e, provavelmente, o retorno da soberania judaica no mundo romano. Como muitos autores já observaram, as diferentes linhagens de profecias hebraicas que foram forçadas a coincidir com o ministério de Jesus revelam a defesa da doutrina cristã, e muitas vezes a má formação cultural dos autores dos Evangelhos. Para moldar a vida de Jesus conforme as profecias do Velho Testamento, os autores dos evangelhos de Lucas e Mateus, por exemplo, insistem que Maria o concebeu virgem (parthenos em grego), em referência à versão em grego de Isaías 7,14. Infelizmente para os que gostam da ideia da virgindade de Maria, a palavra hebraica almá (para a qual parthenos é uma tradução errônea) significa simplesmente “mulher jovem”, sem qualquer implicação de virgindade. Parece quase certo que o dogma cristão do parto virgem, e boa parte da ansiedade resultante a respeito do sexo tenham resultado de uma tradução do original hebraico. (31) Outro golpe contra a doutrina do parto virgem é que os outros evangelistas, Marcos e João, parecem não saber nada a respeito disso – embora ambos se mostrem perturbados com as acusações de ilegitimidade de Jesus. (32) Aparentemente, Paulo acredita que Jesus era filho de José e Maria, e refere que Jesus “nasceu da semente de Davi segundo a carne” (Romanos 1,3 – ou seja, José era seu pai), e “nascido de mulher” (Gálatas 4,4 – significando que Jesus era realmente humano), sem referência alguma à virgindade de Maria. (33). _______
31. Ver B. M. Metzger e M. D. Coogan (eds), The Oxford companion to the Bible (Oxford: Oxford Univ. Press, 1993), pp. 789-90, e A. N. Wilson, Jesus: A live (Nova York: W. W. Norton, 1992), p. 79. Já foram observados muitos outros pares de citações entre o Velho e o Novo Testamentos que não sustentam: Mat 2,3-5 e Miq. 5,2; Mat. 2,16-18 e Jer. 31,15/Gên. 35,19; Mat. 8,18 e Isa. 53,4; Mat. 12,18 e Isa. 42,1-4; Mat. 13,53 e Sal. 78,2; Mat. 21,5 e Zac. 9,9/Isa.62,11. Mat. 27,9-10 afirma cumprir uma profecia que atribui erroneamente a Jeremias, quando, na realidade, aparece em Zacarias 11,12 – eis aí mais evidências de que “A Bíblia não erra”. 32. Era considerável o estigma ligado à ilegitimidade entre os judeus no século I d.C. Ver S. Mitchell, The gospel according to Jesus (Nova York: HarperColins, 1991). 33. Ver ibid., p. 78, e J. Pelikan, Jesus through the centuries (Nova York: Haper and Row, 1987), p. 80.

(HARRIS, 2009, p. 109) (grifo nosso).

Confirma-se, mais uma vez, que não se trata mesmo de alguma profecia que diz respeito a Jesus, mas de algo que aconteceu no século VIII a.C. Deixamos para citar Pastorino, por último, visto ele também apresentar algo que dissemos:
A profecia de Isaías afirma que uma virgem conceberá e dará à luz um filho. O termo virgem merece ser estudado. Em hebraico há duas palavras: betulân, que especificava a virgindade como certa; e almâh que exprimia uma oposição, sem garanti-la. Ora, Isaías escreve exatamente almáh. E verificamos que, em Deut. 22:23, a noiva, e mesmo a esposa recém-casada era chamada ne'arah betulâh. Em grego a palavra !"#$')+ exprime o mesmo: virgem, mas em sentido genérico tanto que as moças noivas e também as recém-casadas eram assim chamadas, e isso na própria Bíblia (cfe. Deut. 22:23; 1 Reis 1:2; Ester 2:3). Em

17 todas essas passagens, a palavra virgem designa a moça que é dada a alguém para deitar-se com ele, supondo-se que se trata de uma virgem, isto é, de moça ainda não ligada pelo casamento a um homem. A mesma designação é atribuída a Maria, demonstrando que, ao lhe ser dada como noiva, era virgem, o que é natural e normal. No entanto, em nenhum local dos Evangelhos se diz, nem se supõe, que Maria continuou Virgem depois. Ela era virgem quando concebeu, o que de modo geral ocorre com todas as moças. Esses nossos esclarecimentos não visam a diminuir o respeito e a veneração que todos temos pela Mãe Santíssima de Jesus, pois o fato da virgindade nenhuma importância apresenta diante da espiritualidade. (PASTORINO, vol 1, 1964a, p. 55) (grifo do original).

Além de corroborar o que foi dito a respeito da palavra almah, apresenta, no penúltimo parágrafo, um argumento que confirma o que nós dissemos a respeito de como podemos considerar Jesus nascido de virgem. Certamente, que uma tradução errada leva inevitavelmente a uma interpretação equivocada. Entretanto, algo bem mais curioso, que esse problema na tradução, encontramos na cultura persa com Tom Harpur (1929- ), ao citar Graves, quanto a uma profecia idêntica à de Jesus:
[…] Kersey Graves, no seu livro The World's Sixteen Crucified Saviours, cita uma profecia de Zoroastro, divindade persa: “Uma virgem deverá conceber e gerar um filho, e uma estrela deverá aparecer brilhando no meio-dia para indicar o acontecimento”. Zoroastro disse aos seus seguidores: “Quando virem a estrela, sigam-na até onde os levar. Adorem a criança misteriosa, oferecendo-lhe presentes com profunda humildade. Ela é na realidade a Palavra Onipotente que criou o céu. Ela é na realidade o seu Senhor e Rei eterno”. (HARPUR, 2008, p. 51) (grifo nosso)

Dessa fala de Graves temos mais alguns “graves” problemas, com os quais se estabelece uma semelhança desconcertante com fatos narrados a respeito de Jesus. Vejam, que a profecia de Zoroastro dizia de uma estrela que deveria levar ao menino, o que Mateus narra (cap. 2), magos seguindo uma estrela que localizou Jesus, ao qual ofereceram presentes, como também previsto oferecer a Zoroastro. Sobre estes presentes vejamos:
[…] ou os rituais como os efectuados na Pérsia, já na época do rei Dario I (521-486 a.C.), mas que provavelmente remontam a muito antes, em que os magos/sacerdotes ofereciam a Ahura-Mazda (o principal deus solar) (12) os presentes de ouro, incenso e mirra que aparecem citados em Mt 2,11. _______
(12) Na inscrição de Naqsh i Rustam, do tempo de Dario I, é afirmado que “Ahura-Mazda é um grande deus. Criou esta terra. Criou o céu. Criou o homem. Criou a felicidade do homem. Fez de Dario um rei”.

(RODRÍGUEZ, 2007, p. 105) (grifo nosso).

Ouro, incenso e mirra, tal e qual os magos ofereceram ao filho de Maria, conforme narrativa de Mateus (Mt 2,11), certamente, utilizaram-se de uma profecia persa para aplicá-la a Jesus. Geza Vermes (1924- ), em seu livro Natividade, também trata da concepção virginal e da profecia de Isaías; leiamos:
A concepção virginal em Mateus e a profecia de Isaías Até aqui, Mateus contou uma história desconcertante. A não ser pela alusão a algum tipo de envolvimento do Espírito Santo, uma expressão para designar o poder através do qual Deus age no mundo, o anjo do sonho não esclarece como Maria engravidou. O evangelista então intervém e lança uma nova luz sobre a questão valendo-se de uma profecia do Antigo

18 Testamento, segundo a qual uma virgem virá a dar à luz o Salvador do povo judeu. Na versão do Evangelho para as palavras de Isaías, diz a profecia: “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho que se chamará Emanuel, que significa 'Deus conosco'” (Isaías 7,14, em Mt 1,23). Este é o primeiro texto bíblico apresentado como prova por Mateus em sua narrativa da infância. Em Lucas não há nenhum. Mas esse testemunho profético, cujo objetivo é anunciar uma gravidez milagrosa ou concepção virginal, só é eficaz sob uma condição: ele funciona apenas se for seguida a versão da Septuaginta grega para Isaías 7,14, destinada a um público grecófono e interpretada como os leitores gregos o entenderiam. Como se sabe, a forma que subsistiu do Evangelho de Mateus é a grega e, como tal, seu alvo era obviamente um público grego. Contudo, o público original para o qual a tradição da narrativa do nascimento de Jesus foi desenvolvida era de judeus palestinos e o idioma em que foi inicialmente transmitida seria o aramaico ou, possivelmente, o hebraico, não o grego. Também é evidente que para esses palestinos, em sua maioria judeus da Galileia, o texto de Isaías teria sido extraído da Bíblia hebraica, não da Septuaginta grega. O que nos deixa em um verdadeiro dilema. Para aludir à mulher que virá a conceber e dar à luz um filho, Isaías 7,14 em hebraico não se refere a uma virgem, ou betulah em hebraico, mas a uma 'almah, isto é, "uma jovem mulher': termo neutro que não implica necessariamente virgindade. Por exemplo, no Cântico dos Cânticos 6,8 o termo “jovens mulheres” ('alamot) aparece em paralelo com "rainhas e concubinas", que seguramente não são virgens. Ademais, é muito improvável que a 'almah mencionada em Isaías 7, a jovem que no futuro próximo há de conceber e dar à luz um filho, seja virgem. O contexto sugere que ela já é casada, e esposa do então rei judeu, Acaz, ao fim do século VIII a.C. Quando fala em 'almah, o texto hebraico de Isaías em lugar algum especifica que ela ainda é virgem ou que está prevista uma concepção milagrosa de qualquer tipo. O sinal profético em Isaías 7,14, em hebraico, está não na condição virginal da mãe, mas no significado do nome que ela deverá dar a seu filho - “Emanuel” - sugerindo que o futuro príncipe, em conformidade com o bom augúrio expresso no nome, “Deus conosco”' trará proteção divina aos habitantes de Jerusalém, naquela época sob ameaça de dois reis inimigos que sitiavam a cidade (ver Isaías 7,16). Considerando tudo isso, a conclusão a que se chega é que o relato semita subjacente à versão grega de Mateus que conhecemos de forma alguma poderia conter uma previsão da concepção virginal do Messias. Como então esta noção entrou no Evangelho da Infância, de Mateus? Por puro acidente, o tradutor da Septuaginta usou para o termo hebraico 'almah de Isaías 7,14 a palavra grega parthenos (virgem), que, no entanto, pode também significar solteira ou mulher não-casada que não seja necessariamente virgem. O Mateus “grego” ou o editor grego do Mateus semita topou com essa tradução imprecisa e a adotou. Esse feliz achado permitiu-lhe apresentar a seus leitores de fala grega a concepção de Jesus como única e situada em posição muito superior a todas as outras concepções milagrosas do Antigo Testamento. Existe uma prova incontestável de que uma proporção substancial do público visado pelo texto final de Mateus era composta por gregos, que não tinham conhecimento do hebraico. Em Mateus 1,23, o nome hebraico “Emanuel” na citação de Isaías é apresentado com uma tradução para explicar seu significado: “Deus conosco”. Como se sabe, o original hebraico de Isaías não inclui tal interpretação e, o que é mais importante, ela também não consta da tradução grega da Septuaginta. Os judeus da diáspora, para quem a Septuaginta foi produzida, supostamente deveriam saber o que significava Emanuel. O comentário grego a essa citação em Mateus - “que significa Deus conosco” - é obviamente criação do próprio evangelista, para auxiliar seus leitores gregos não-judeus. Assim, aplicada a Maria, a profecia de Isaías em sua versão grega destinava-se a transmitir ao público grego da narrativa materna da infância que “Jesus-Emanuel” ou “o Messias-Filho de Deus” seria concebido através do Espírito Santo e milagrosamente gerado por Maria na condição de virgem. O Mateus grego, consequentemente, afirma que a concepção virginal é demonstrada pela citação de Isaías. No entanto, o argumento do evangelista está invertido. Ele quer que seu leitor entenda que o evento representa o cumprimento da profecia; em outras palavras, que a concepção de Jesus por

19 Maria ocorreu porque, de acordo com Isaías, assim estava predestinada por Deus. A verdade é bem o contrário: a ideia da “ parthenos que concebe”, fornecida pela profecia, é que motivou a história. Foi o texto grego de Isaías 7,14 que proporcionou a Mateus uma fórmula surpreendente para exprimir o caráter milagroso do nascimento de Jesus, como o cumprimento de uma previsão das escrituras. Repetindo pela última vez, a concepção virginal é uma extrapolação das palavras da Septuaginta, fazendo uso de material histórico, apresentada a, e compreendida por, leitores cristãos gentios helenistas do Evangelho de Mateus. A história do nascimento de Jesus, contada em aramaico ou hebraico e citando Isaías em hebraico, jamais poderia ter dado origem a tal interpretação. Mas em grego, em combinação com a exegese literal do nome “Emanuel = Deus conosco”' tornou-se a fonte da qual surgiu o conceito do Filho divino de mãe virgem. É preciso reiterar, mesmo que seja ad nauseam, que tal evolução somente foi possível em um meio cultural helenístico grecófono. Os antecedentes ideológicos da mitologia greco-romana e as lendas sobre a origem divina de figuras eminentes da época e de um passado recente (ver Capítulo 4) propiciaram um campo fértil para o crescimento do que viria a ser, no jargão teológico cristão, a Cristologia. Com o tempo, através de Paulo, de João e dos filosofantes Padres da Igreja gregos, essa ideia original evoluiu para a deificação de Jesus, Filho da Virgem grávida de Deus (Theotokos). Também é possível contestar que a ideia da concepção virginal inferida no texto de Mateus, com seu uso da versão da Septuaginta para Isaías, era de origem cristã-gentia helenística , pela posição adotada pelo antigo cristianismo judaico sobre o assunto. Facetas importantes da doutrina desses cristãosjudeus, conhecidos como os ebionitas ou os Pobres, foram preservadas nos escritos dos apologistas da Igreja, que procuravam refutá-las. Sob a denominação de ebionitas, devemos entender comunidades cristãs-judaicas que, após sua separação da Igreja cristã-gentia central, provavelmente na virada do século I d.C., sobreviveram ainda por mais duzentos ou trezentos anos. Através do Padre da Igreja Irineu, do fim do século II, que foi bispo de Lião, e do historiador da Igreja Eusébio de Cesareia, do século IV, sabemos que os ebionitas rejeitavam a doutrina do nascimento virgem. Eusébio deixa claro que, para eles, Jesus era “o filho de uma união normal entre um homem e Maria” (História Eclesiástica 3,27). Irineu anteriormente havia argumentado, usando frases emprestadas do Novo Testamento, que os ebionitas "se recusavam a entender que o Espírito Santo havia vindo a Maria e que o poder do Altíssimo a havia envolvido com sua sombra" (Contra as Heresias, 5,1, 3). Ele explicava ainda que a fim de sustentar seus ensinamentos e “puxar o tapete” da ortodoxia cristã, os ebionitas defendiam a versão grega de Teodósio e Aquila como mais correta do que a Septuaginta, e substituíram o parthenos (virgem) desta última pelo termo neanis (jovem mulher) em sua tradução de Isaías 7,14 (ibid. 3,21, 1). Na opinião deles, a prova de que a Septuaginta não era confiável representava o fim da doutrina de Mateus e da Igreja cristã a respeito de concepção virginal. Com efeito, a (almah do Isaías hebraico e o correspondente neanis de Aquila e Teodósio revelam a fragilidade da ideia do nascimento virgem, conforme concebida pelo Mateus grego. Sua adoção pelo evangelista (ou por seu editor final) tornou inevitável a revisão da formulação direta da genealogia (A gerou B etc.), com vistas a excluir a paternidade de José; e tem também o efeito imprevisto de prejudicar a prova montada para autenticar a legitimidade de Jesus como Messias descendente direto de Davi, através de José. (VERMES, 2007, p. 74-79) (grifo nosso).

Em A dinastia de Jesus: a história secreta das origens do cristianismo, o autor James D. Tabor (1946- ), tece explicações interessantíssimas a respeito da virgindade de Maria, que não podemos deixar de transcrevê-las:
[…] É fácil imaginar que os cristãos primitivos acreditavam em Jesus e o queriam tão louvado e celestial quanto qualquer dos heróis e deuses gregos e romanos, e se apropriaram dessa maneira de contar a história do seu nascimento como uma maneira de afirmar que Jesus era ao mesmo tempo humano e divino. Os intérpretes modernos, que adotam essa

20 abordagem para as histórias, afirmam habitualmente que José era provavelmente o pai, e que esses relatos sobrenaturais eram inventados pelos discípulos de Jesus para atribuir-lhe honras e promover seu status elevado de uma maneira comum a essa cultura. (TABOR, 2006, p. 76) (grifo nosso). [...] O ensinamento sobre a “virgindade perpétua” simplesmente não é encontrado no Novo Testamento e não faz parte dos primeiros credos cristãos. A primeira menção oficial a essa ideia só vem a partir de 374 d.C., com o teólogo cristão Epifânio. (3) A maior parte dos escritos cristãos primitivos anteriores ao século IV d.C. aceita naturalmente que os irmãos e irmãs de Jesus sejam filhos nascidos de José e Maria. (4) _______
(3) A ideia da virgindade perpétua de Maria foi afirmada no 2º Concílio de Constantinopla, em 553 d.C. e no Concílio de Latrão, em 649 . Embora seja uma parte do dogma católico solidamente estabelecida, nunca foi, no entanto, objeto de uma declaração de infalibilidade pela Igreja Católica Romana. (4) Essa é a chamada visão elvídica, em homenagem a Elvídio, um escritor cristão do século IV, que Jerônimo procura refutar. Eusébio, o historiador da igreja do século IV, cita regularmente fontes antigas e refere-se a irmãos de Jesus “segundo a carne”, certamente concebendo-os como filhos de Maria e José. Consulte Eusébio, Churc History 2.23;3.19.

(TABOR, 2006, p. 90) (grifo nosso). A própria disciplina dos historiadores os obriga a trabalhar dentro dos parâmetros de uma visão científica da realidade. As mulheres nunca engravidam sem um homem. Portanto, Jesus tinha um pai humano, quer consigamos identificá-lo, quer não. Os corpos mortos não ressuscitam – se considerados clinicamente mortos – como fora seguramente o caso de Jesus depois da crucificação romana e de três dias em uma tumba. Portanto, se a tumba estava vazia, a conclusão histórica é simples – o corpo de Jesus fora removido por alguém e possivelmente sepultado em outro local. Os historiadores podem se referir ao que foi dito por Paulo ou aos relatórios sobre as aparições que circulavam na altura em que os evangelhos foram escritos, mas esses escritos, feitos décadas depois do acontecimento, testemunham mais o desenvolvimento das crenças teológicas do que o que teria acontecido. Alguns estudiosos questionaram a veracidade histórica da própria história da tumba vazia, argumentando ter sido desenvolvida para sustentar a alegação teológica de que Jesus tinha sido ressuscitado dos mortos. Mas dada a natureza apressada e temporária do sepultamento de Jesus, era de esperar que a tumba estivesse vazia. Nunca houve a intenção de que Jesus permanecesse naquela tumba. A questão que se põe é: o que aconteceu com seu corpo? Onde e por quem poderia ter sido sepultado permanentemente? A resposta mais curta é que não sabemos, e qualquer sugestão é especulativa. Mas temos, ainda assim, algumas pistas em nossas fontes que nos permitem reconstruir algumas possibilidades plausíveis. Existem algumas histórias alternativas aos evangelhos do nosso Novo Testamento. Tertuliano,um autor cristão do século III, nos fala de uma polêmica em voga nessa época: o corpo de Jesus fora removido pelo jardineiro do cemitério, que temia ver suas plantas pisoteadas pelas multidões em visita à tumba. (14) Em um antigo texto medieval chamado Toledot Yeshu, o jardineiro leva o corpo e o sepulta em um riacho próximo, temendo que os discípulos se antecipassem e levassem o corpo, alegando que ele havia sido ressuscitado dos mortos. Há um texto copta do século VI d.C. que até nos diz o nome do jardineiro, Filógenes. Nessa versão, o jardineiro planeja levar o corpo para sepultá-lo condignamente, mas, à meia-noite, quando fora buscá-lo, a tumba estava rodeada de anjos e ele testemunhara Jesus ressuscitando dos mortos. (15). Todas essas histórias sobre um jardineiro parecem ser embelezamento ao evangelho de João, em que Maria de Madalena, confundindo Jesus com o jardineiro, ao encontrá-lo na tumba, pergunta-lhe: “Se foste tu que o tiraste, dize-me onde o puseste” (João 20:15). _______
(14) Tertuliano, De Spectaculis 30. (15) Book of the Resurrection of Christ by Bartholomew the Apostle 1.6-7.

(TABOR, 2006, p. 250-251) (grifo nosso).

O que ainda não conseguimos entender é que em Paulo, autor dos primeiros escritos cristãos e em Marcos autor do primeiro Evangelho, não se vê nada sobre virgindade de Maria,

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conforme constatou Hans Küng:
[…] Nas cartas de Paulo, os documentos mais antigos do Novo Testamento, refere-se de forma lapidar, sem mencionar nomes, o nascimento de Jesus “de uma mulher” (Ggl 4,4), mas não de “uma virgem” – com vista a acentuar a humanidade de Jesus. O Evangelho mais antigo de Marcos desconhece a história do nascimento e prossegue logo, sem todos os sonhos, com João Baptista e com a vida pública de Jesus e com os seus ensinamentos, sobre os quais infelizmente não se encontra uma palavra no apostolado. […] (KÜNG, 1997, p. 57) (grifo nosso).

Deduz-se disso que, muito provavelmente, tais coisas foram acrescentadas por conta do desenvolvimento da mitificação de Jesus, para elevá-lo à condição de um deus. Mais taxativo é o “erudito Alfred Loisy, especialista em estudos bíblicos e historiador das religiões” (RODRÍGUEZ, 2007, p. 98), cuja fala, citada por Pepe Rodríguez, transcrevemos:
“para afastar os relatos do nascimento milagroso e da concepção virginal, basta observar que foram ignorados por Marcos e por Paulo, e que entre o de Mateus e o de Lucas não há concordância, apresentando ambos todas as características de uma pura invenção” (4) _______
4. Cf. Loisy, A. (1908), Simples Réflexions, Paris, p. 158. Depois da publicação deste seu livro crítico, Loisy, tido por iniciador do modernismo, foi excomungado pela Igreja. Já anteriormente, em 1889, tinha sido obrigado a deixar de leccionar a cadeira de Hebreu e de Sagrada Escritura, de que era responsável no Instituto Católico de Paris, por ter sido acusado de cultivar ideias heterodoxas sobre a infalibilidade da Bíblia. Em 1903, um decreto do Santo Ofício (Inquisição) havia incluído cinco dos seus livros no Index (lista de livros cuja leitura era absolutamente proibida)

(RODRÍGUEZ, 2007, p. 98) (grifo nosso)

Na verdade, não há como não pensar na hipótese de invenção, visando “endeusamento” de Jesus, para igualá-lo com certos heróis e deuses da antiguidade.

o

Resolvemos fazer um levantamento nas Bíblias para ver qual seria os termos utilizados por elas nos textos de Isaías e de Mateus:
Bíblias consultadas 1-TEB 2-De Jerusalém 3-Do Peregrino 4-Santuário 5-Vozes 6-Novo Mundo 7-Ave-Maria 8-Paulinas 1957 - Pe Matos 9-Paulinas 1977 - Pe Matos 10-Paulinas 1980 – Pe. Matos 11-SBB 12-SBB- Nova versão (NTLH) 13-Anotada 14-Barsa 15-Shedd Isaías 7,14 A jovem A jovem A jovem A jovem A jovem Donzela Uma virgem Uma virgem Uma virgem Uma virgem Uma virgem A jovem A virgem Uma virgem A virgem Mateus 1,23 A virgem A virgem A virgem A virgem A virgem A virgem A virgem A virgem A virgem A virgem A virgem A virgem A virgem Uma virgem A virgem

22 16-SBTB A virgem A virgem

Das quatorze traduções, em seis delas constam em Isaías a jovem/donzela, ou seja, 47%. Embora não seja a maioria é bem significativo e pouco producente evocar para a tradução a palavra virgem, como se faz ao traduzirem Mateus. Aliás isso, consequentemente, prova a contradição em relação aos que traduziram Isaías como jovem/donzela. Além disso, ainda temos a SBB com duas “traduções” para o mesmo verso, só que um adaptado à linguagem atual. Não será o caso de constatar-se que os tradutores já estão chegando à conclusão de que a sociedade atual não está aceitando a “virgem” como estado físico, mas, sim, com a conotação de juventude? Por outro lado, ainda teríamos que desconsiderar que, em Mt 12,46 e Mt 13,55-56, são mencionados os irmãos de Jesus; inclusive, nesse último passo, nomearam os homens – Tiago, José, Simão e Judas-; as mulheres não são quantificadas e nem nomeadas, demonstrando como a sociedade machista da época as tratava. Apesar disso, a dogmática ainda afirma que Maria foi virgem antes, durante e após o parto. Haja fé para acreditar nisso! Para confirmar o que estamos falando, transcrevemos as seguintes explicações em notas de rodapé nas Bíblias:
Mt 2,25: Enquanto (ou até que) esta palavra portuguesa traduz o latim donec e o grego heos ou, que por sua vez estão calcados sobre a expressão hebraica ad ki que se refere ao tempo anterior a esse limite sem nada dizer do tempo posterior, cf. Gen 8,7; Sl 109,1; Mt 12,20; 1 Tim 4,13. A tradução exata seria: “sem que ele a tivesse conhecido, deu à luz...” pois a nossa expressão sem que tem o mesmo valor. Primogênito quer dizer o nascido em primeiro lugar, mas nada diz contra a virgindade perpétua de Maria pois, na Bíblia, tem o valor de um termo técnico para significar aquele que deve ser oferecido a Deus e resgatado segundo a Lei (Ex 13,2; Num 18,15-17), que viesse a ser o filho mais velho que continuasse filho único. Exemplo frisante do uso do termo nesse sentido, se encontra no epitáfio de Arsinoé que morreu “nas dores do parto do meu primogênito”. (Bíblia Barsa, p, 2 – NT). (grifo nosso). Mt 1,25: Mateus afirma a virgindade de Maria antes do parto. Que ela tenha permanecido virgem no parto e depois dele, nós o sabemos pelos santos Padres e pela Igreja, e é verdade de fé católica, isto é, universalmente admitida, embora ainda não tenha sido definida solenemente. (Paulinas 1980, p. 1061) (grifo nosso). Lc 1,34-35: Maria, ciosa da sua virgindade, da qual fizera doação a Deus, pede explicações acerca do ministério da maternidade divina, anunciado pelo anjo. A resposta é que Deus realizará um estupendo milagre. Ela se tornará mãe por virtude do Espírito Santo e dará à luz o Filho de Deus encarnado, conservando o privilégio da virgindade. (Paulinas 1980, p. 1121) (grifo nosso).

Considerando a localização histórica do evento, é totalmente anticientífico se afirmar que Maria se manteve virgem “no parto e depois dele”. O interessante é que, nessa última explicação, vão além do que se conhece de Maria para afirmar que ela tenha feito voto de castidade, e que, por algum ato milagroso, tenha, depois do parto, “conservado o privilégio da virgindade”. Quanto ao primeiro ponto, trazemos essa explicação dos tradutores da Bíblia de Jerusalém:
Lc 1,34: A “virgem” Maria é apenas noiva (v. 27) e não tem relações conjugais (sentido semítico de “conhecer”, cf. Gn 4,1 etc.). Este fato, que parece opor-se ao anúncio dos vv. 31-33, induz à explicação do v. 35. Nada no texto impõe a ideia de um voto de virgindade. (Bíblia de Jerusalém, p. 1787) (grifo nosso).

Então, temos, aqui, tradutores contra tradutores; não é fato? Em relação ao suposto “privilégio da virgindade” é algo que nos soa bem estranho, pois, naquela época, a mulher que não gerasse filhos era abandonada pelo marido e desprezada pela sociedade.

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Resta-nos um último ponto, que nos causou estranheza, em virtude da seguinte fala de Küng: “[…] uma das últimas profissões de fé (antes de Paulo) reza o seguinte na introdução: Jesus Cristo foi 'constituído Filho de Deus ao ressuscitar dos mortos' (Rm 1,4)”. (KÜNG, 1997, p. 73). Ora, se Jesus tornou-se “Filho de Deus” ao ressuscitar dos mortos, então qual o sentido de lhe atribuírem o nascimento como sendo por obra do Espírito Santo, que o fazia “filho de Deus”? Ou será que se tornou “filho de Deus” por ocasião do seu batismo (Mt 3,17; Mc 1,11; Lc 3,22)? Ou, ainda, quando Moisés e Elias lhe apareceram no Monte Tabor (Mt 17,5; Mc 9,7; Lc 9,35)? Entendemos que algumas pessoas devem reformular o conceito que têm de moral, pois achar que a moral do homem está relacionada a seu órgão sexual é desvirtuar totalmente o significado dessa palavra. Ainda vamos mais longe; achamos que devemos passar todos os conceitos teológicos do passado por uma ampla revisão, já que muitos deles estão impregnados de prepotência e de um egoísmo eclesiástico incomum, pelos quais verdades foram dobradas às conveniências religiosas, visando, a todo o custo, dominar a mente dos fiéis; quiçá era desejo dominar toda a humanidade... Intolerância, guerras, cruzadas, inquisição, etc. foram as armas utilizadas pelos religiosos do passado, apoiados pelos teólogos, para impor, a ferro e fogo, suas teorias completamente distorcidas dos ensinamentos de Jesus.

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Jesus de Belém ou de Nazaré?
Resolvemos fazer o presente estudo pelo motivo de já termos visto estudiosos bíblicos dizerem que Jesus não nasceu em Belém, fato, que a princípio, pareceu-nos estranho haja vista que sempre nos falaram que sim. Talvez o comodismo de aceitar certas coisas, sem questioná-las, especialmente, aquelas vindas de pessoas que, em nosso julgamento, parecem conhecer do assunto, nos fez acreditar nessa história a respeito da cidade do nascimento de Jesus. João Loes (1983- ), em reportagem, na revista IstoÉ, intitulada “A face humana de Jesus”, apresenta o seguinte sobre esse assunto:
Embora os evangelhos de Mateus e Lucas afirmarem que Jesus tenha nascido em Belém, é muito provável que isso tenha ocorrido em Nazaré. “Todos os grandes especialistas bíblicos são unânimes em admitir que Jesus nasceu em Nazaré”, afirma Frei Betto, religioso dominicano autor do recémlançado “Um homem Chamado Jesus”. Ao que tudo indica, Lucas e Mateus teriam escolhido Belém como cidade natal de Jesus para que suas versões da vida de Cristo se alinhassem a uma profecia do Antigo Testamento, segundo a qual o Messias nasceria na Cidade do Rei Judeu, ou seja, a Cidade de Davi, que é Belém. (LOES, 2009, p. 65, grifo nosso).

Realmente, Mateus dá como certo o nascimento de Jesus em Belém, seu objetivo parece confirmar o que foi dito na reportagem, que é o de fazer-nos crer que o nascimento nessa cidade tenha ocorrido para cumprimento de uma certa profecia, pois, ele, Mateus, mais do que qualquer um dos outros evangelistas, preocupava-se em relacionar os vários acontecimentos da vida de Jesus com algum tipo de profecia, chegando ao ponto de até mesmo de citar profecias inexistentes, como é o caso, por exemplo, do passo Mt 2,23, que iremos ver, no qual ele diz que profetas previram que Jesus “Será chamado o Nazareno”. Elaine Pagels (1943- ), professora de religião na Universidade de Princeton, confirma essa tendência do autor do Evangelho de Mateus: “[…] Hoje, porém, muitos estudiosos sugerem que a correspondência entre profecia e evento que Mateus descreve mostra que ele às vezes adaptou sua narrativa de modo a adequá-la às profecias”. […] (PAGELS, 2004, p. 114, grifo nosso). Mt 2,1-6: “Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes, alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, e perguntaram: 'Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para prestar-lhe homenagem’. Ao saber disso, o rei Herodes ficou alarmado, assim como toda a cidade de Jerusalém. Herodes reuniu todos os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei, e lhes perguntou onde o Messias deveria nascer. Eles responderam: 'Em Belém, na Judeia, porque assim está escrito por meio do profeta: 'E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais cidades de Judá, porque de você sairá um Chefe, que vai apascentar Israel, meu povo'”. A questão de Jesus ter nascido em Belém é hoje motivo de sérios questionamentos por parte dos estudiosos, como por exemplo, James D. Tabor (1946- ), professor do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte, graduou-se em doutorado pela Universidade de Chicago em Estudos Bíblicos e é especialista nos Manuscritos do Mar Morto, que em seu livro intitulado A dinastia de Jesus: a história secreta das origens do cristianismo, nos dá a seguinte informação:
Existem estudiosos do Novo Testamento que duvidam da validade

25 histórica até mesmo desse arcabouço básico, especialmente da história do nascimento de Jesus em Belém. Sustentam que a história de Belém foi provavelmente acrescentada para dar crédito a Jesus como Messias descendente de Davi, já que Belém era a cidade de Davi . Existem certos indícios de que a questão do local do nascimento de Jesus, na Galileia ou na Judeia, tornou-se uma questão de controvérsia e discussão dentro de grupos judeus (consulte João 7:40-44). (TABOR, 2006, p. 336, grifo nosso).

Podemos ainda citar uma conclusão emanada do Seminário de Jesus, “uma instituição composta por cerca de 100 pesquisadores, altamente qualificados, que, há 26 anos, se dedicam à investigação científica dos Evangelhos, em busca das palavras e ações autênticas de Jesus”. (SOUZA, 2011, p. 65): “ Jesus provavelmente nasceu em Nazaré, sua cidade natal. Lendas posteriores que localizam seu nascimento em Belém foram inventadas para satisfazer uma antiga profecia”. (SOUZA, 2011, 104, grifo nosso). Outros autores confirmam essa história da inclusão no texto do nascimento em Belém para relacionar o episódio ao cumprimento uma suposta profecia. Vejamos algumas outras interessantes conclusões dos especialistas participantes do Seminário de Jesus:
Jesus não nasceu de uma virgem; os pesquisadores do SJ duvidam que Maria tenha concebido Jesus sem relação sexual. O pai de Jesus foi José ou algum outro homem desconhecido que seduziu a jovem Maria […] (SOUZA, 2011, p. 104, grifo nosso). O recenseamento mundial, a viagem para Belém, a estrela no oriente, os astrólogos [reis magos], a fuga para o Egito e o retorno do Egito, o massacre das crianças, os pastores nos campos e o parentesco com João Batista são tudo ficções cristãs. (SOUZA, 2011, p. 104, grifo nosso). […] Os pesquisadores do SJ chegaram a concluir que apenas 18% (dezoito por cento) do total de palavras atribuídas a Jesus nos Evangelhos podem ser realmente consideradas autênticas e que apenas 16% (dezesseis por cento) do total de ações a ele atribuídas nos Evangelhos pode ser, de fato, consideradas autênticas, ou seja, aproximadamente 82% das palavras e 84% das ações atribuídas a Jesus nos Evangelhos não são verdades históricas, mas crenças cristãs (cf. FUNK & THE JESUS SEMINAR, p. 1) (SOUZA, 2011, p. 67, grifo nosso).

A Revista Superinteressante nº 183, publica um artigo do jornalista e editor Rodrigo Cavalcante intitulado “ Quem foi Jesus?”, do qual ressaltamos este interessante trecho:
[...] E o segundo problema, ainda mais grave, é que provavelmente Jesus não nasceu em Belém. “Há quase um consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu em Nazaré”, diz o padre Jaldemir Vitório, do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. Então por que o evangelho de Mateus diz que o nascimento foi em Belém? Vitório explica que o texto segue o gênero literário conhecido por midrash. Basicamente, o midrash é uma forma de contar a história da vida de alguém usando como pano de fundo a biografia de outras personalidades históricas. No caso de Jesus, ele explica, a referência a Belém é feita para associá-lo ao rei Davi do Antigo Testamento – que, segundo a tradição, teria nascido lá. (CAVALCANTE, 2002, p. 43, grifo nosso).

Pelo que se depreende desse texto, para o autor de Mateus, a família de Jesus residia em Belém, local de seu nascimento, tal fato se deu, conforme sua alegação, para se cumprir uma suposta profecia de Miqueias que diz: “Mas você, Belém de Éfrata, tão pequena entre as principais cidades de Judá! É de você que sairá para mim aquele que há de ser o chefe de Israel. A origem dele é antiga, desde tempos remotos”. (Mq 5,1 ou 5,2). A citação dessa “profecia’” de Miqueias é pura apelação, porquanto, quem a utilizou,

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simplesmente, pegou parte de um texto, fora do seu contexto, fato que leva quem o lê a crer numa realidade completamente diferente daquela que corresponde à verdade dos acontecimentos. Para entendermos o contexto é necessário continuarmos lendo a sequência da narrativa: “Pois Deus os entrega só até que a mãe dê à luz, e o resto dos irmãos volte aos israelitas. De pé, ele governará com a própria força de Javé, com a majestade e o nome de Javé, seu Deus. E habitarão tranquilos, pois ele estenderá o seu poder até as extremidades da terra. Ele próprio será a paz. Se a Assíria invadir o nosso território e quiser pisar o interior de nossos palácios, poremos em luta contra eles sete pastores e oito comandantes. Eles vão governar a Assíria com espada, a terra de Nemrod com punhal. Ele nos livrará da Assíria, se invadirem o nosso território, se atravessarem nossas fronteiras”. (Mq 5,2-5 ou 5,3-6). A pessoa de quem Miqueias está falando, nesse passo, é, provavelmente, Ezequias, filho do rei Acaz, Rei de Judá (721-693 a.C.), é nele que o povo hebreu deposita a sua esperança em livrá-lo da Assíria, portanto, nada tem a ver com alguma profecia a respeito de Jesus, por mais esforço exegético que se faça. Mateus, na continuação da narrativa, passa a informar da fuga da família de Jesus para o Egito, de onde todos retornam para morar em Nazaré: Mt 2,13-23: “Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar’. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).Vendo, então, Herodes, que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos. Cumpriu-se, então, o que fora dito pelo profeta Jeremias: Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem! (Jer 31,15). Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: ‘Levantate, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino’. José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Será chamado Nazareno”. Nesse trecho o autor de Mateus volta a “atacar” com as supostas profecias, citando mais três, que, também, nada têm a ver com Jesus. Será que Herodes tentou mesmo matar o menino, como é afirmado? O primeiro problema que se nos apresenta é “que Herodes faleceu quatro anos antes da era cristã” (WILSON, 2007, p. 11). Por isso essa suposta matança das crianças tem tudo para ser algo fictício, o que é fácil de se perceber, pois não há um relato sequer que João Batista, a essa época com menos de dois anos, tenha sido poupado por Herodes ou que, talvez, sua família tenha também fugido para escapar dele. Quanto a idade de João Batista basta ler Lucas (1,3944) para ver que a jovem Maria foi visitar Izabel, mãe de João, e esta, “cheia do Espírito Santo” (v. 41) reconheceu a gravidez de sua prima. Pepe Rodríguez (1953- ), destacado jornalista de investigação, especialista em religiões comparadas, com diversos livros já publicados, dá a respeito de Mt 2,13-18, citado acima, a seguinte opinião:
Este relato é o máximo: mostra um Herodes profundamente estúpido que, apesar de “perturbado” com a notícia do nascimento de um rei messias que podia destroná-lo (Mt 2,3-5), se revela incapaz de enviar os seus soldados a Belém, situada a pouca distância do seu palácio, para o prender e, em lugar de

27 mandar, ao menos, algum dos seus muitos espias da corte para que o informassem com diligência, ficou à espera das notícias de três magos desconhecidos que se haviam declarado adoradores do recém-nascido. Um recém-nascido que, conforme conta Mateus, já podia ter perto de dois anos, o que nos leva a perguntar: passou Jesus os seus dois primeiros anos num estábulo à espera dos magos?, ficou Herodes durante esses dois anos à espera dos magos sem tomar qualquer medida, mesmo depois de esse prazo ter passado?, eram tão idiotas os soldados de Herodes que não soubessem distinguir entre um recém-nascido e uma criança mais crescida, a ponto de Herodes ter de os mandar assassinar todos os nascidos “de dois anos para baixo”? Contrariamente ao que nos fazem crer Mateus, os dados históricos reais dizem-nos que Herodes não era um rei papa-açorda e sanguinário. Muito pelo contrário. Mas, ao silenciarem os factos descritos por esse evangelho, dizem-nos também que Mateus está a mentir. Não aparecem relatados em lado algum; nem mesmo nas Antiguidades Judaicas ou em qualquer outra das obras documentadas do historiador judeu Flávio Josefo (c. 37-103 d.C.): este autor, que lutou contra os Romanos na guerra judaica, nunca deixou passar em silêncio os massacres cometidos contra o seu povo, sendo assim impossível não ter contado – num relato minucioso, como são todos os seus – a notícia da matança das crianças, se esta tivesse efetivamente acontecido (15). Esta lenda, como restante mito evangélico sobre Jesus, é falsa. Na sua origem contam-se antigas tradições pagãs. Como é óbvio, foi introduzida por Mateus – o único texto canónico em que aparece – por um motivo muito concreto: reforçar a credibilidade do mito básico do cristianismo, mostrando como este dá cumprimento a duas supostas profecias sobre o Messias. _______
(15) Por outro lado, dado que os Judeus, submetidos ao Império Romano, não podiam aplicar a pena de morte aos seus próprios concidadãos, sem uma autorização explícita do governador imperial, não é razoável pensar-se que Herodes tenha ordenado a matança, como não é provável, caso tal tivesse acontecido, que o rei judeu não tivesse sido castigado pela autoridade romana.

(RODRÍGUEZ, 2007, p. 110-111, grifo nosso).

Por outro lado, segundo o escritor Werner Keller (1909-1980), “inexiste prova histórica ou arqueológica da ‘fuga para o Egito’”. (KELLER, 2000, p. 366). Sobre esse assunto, não nos estenderemos, porquanto, já o estudamos, pormenorizadamente, em nosso texto “A fuga do Egito”, disponível em nosso site www.paulosnetos.net, o qual sugerimos a você, caro leitor, a sua leitura. Os tradutores da Bíblia de Jerusalém explicam essa narrativa como sendo uma tentativa de ser fazer “um paralelo anterior na infância de Moisés, descrita pelas tradições rabínicas: segundo estas, quando o nascimento da criança foi anunciado, por meio de visões, ou por intermédio dos mágicos, o Faraó mandou chacinar as crianças recém-nascidas” (Bíblia de Jerusalém, p. 1705-1706). Vejamos esse episódio em Flávio Josefo (37-103 d.C.), o historiador hebreu:
[…] Um dos doutores da sua lei, ao qual eles dão o nome de escribas das coisas santas e que passam entre eles por grandes profetas, disse ao rei que naquele mesmo tempo deveria nascer um menino entre os hebreus, cuja virtude seria admirada por todo o mundo, pois aumentaria a glória de sua nação e humilharia o Egito, e cuja reputação seria imortal. O rei, assustado com a predição e seguindo o conselho daquele que lhe fazia essa advertência, publicou um edito pelo qual ordenava que se deveriam afogar todas as crianças hebreias do sexo masculino e ordenou às parteiras do Egito que observassem exatamente quando as mulheres fossem dar à luz, porque não confiava nas parteiras de sua nação. Esse edito ordenava também que aqueles que se atrevessem a salvar ou criar alguma dessas crianças seriam castigados com a pena de morte, juntamente com toda a família. (JOSEFO, 2003, p. 79, grifo nosso).

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O paralelo entre os dois personagens – Moisés e Jesus – é evidente: ambos representavam problemas políticos no futuro, com a possibilidade de virem a querer ocupar os cargos dos mandatários. Em relação à morte das crianças, Keller explica o seguinte:
Assim, hoje em dia usa-se de um cuidado bem maior do que outrora na apreciação da historicidade do infanticídio de Belém e, antes, tende-se a considerar o relato em questão como uma tentativa, condicionada à mentalidade contemporânea que visa realçar a importância de Jesus, pelos meios usados na época (para tanto, existe ainda uma certa autenticidade histórica, representada pelas atitudes efetivamente tomadas por Herodes em sua contenda com os fariseus, por causa do Messias. Veja o fim do capítulo precedente). No entanto, há ainda mais. O relato do infanticídio de Belém estabeleceu um nexo entre Jesus e Moisés, pois também desse último a Bíblia conta como escapou, milagrosamente, de perseguições idênticas, sofridas por parte do faraó egípcio (Êxodo 1.15, 2.10). (KELLER, 2000, p. 366, grifo nosso).

Corroborando o que foi dito acima, transcrevemos, respectivamente, de Roberto Carneiro Puccinelli Junior (1960- ), escritor, espiritualista e mestre em ciências e Bart D. Ehrman (1955- ), é Ph.D. em Teologia pela Princeton University, que dirige o Departamento de Estudos Religiosos da University of North Carolina, Chapel Hill. É especialista em Novo Testamento, igreja primitiva, ortodoxia e heresia, manuscritos antigos e da vida de Jesus, é a maior autoridade em Bíblia do mundo:
Outro exemplo é a matança de meninos de até dois anos, que teria sido ordenada por Herodes “em Belém e todo seu território” (Mt2:16). Mateus faz uso aqui de tradições rabínicas sobre a vinda de Moisés, segundo as quais tão logo o nascimento da criança foi anunciado por meio de visões e anúncios dos magos, o faraó teria mandado chacinar crianças recémnascidas do sexo masculino (*). Também se observa um paralelo com o livro do Êxodo, quando o rei do Egito manda as parteiras assistentes do povo hebreu assassinar todo recém-nascido menino e poupar a vida das meninas. Conforme explica Roselis von Sass em “O Livro do Juízo Final”, Jesus nasceu em 12 a.C., data confirmada também pelo Dr. Jerry Vardaman, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade do Mississípi e professor de religião. Nessa época, Herodes não estava preocupado com o nascimento de nenhum Messias, mas sim com dois de seus filhos que, segundo imaginava, tramavam a sua morte. Nesse ano ele foi com os filhos até Roma para que o imperador Augusto decidisse a questão, o qual não viu indícios de nenhuma rebelião e reconciliou pai e filhos. Ainda nesse ano de 12 a.C., Herodes presidiu a edição dos Jogos Olímpicos e até deu dinheiro do próprio bolso para garantir o sucesso do empreendimento. De preocupações com o Messias nascido, nem sinal. _______
(*) O faraó de fato tencionava matar os hebreus recém-nascidos do sexo masculino, mas não para se ver livre de uma criança chamada Moisés, e sim porque achava que o povo escravizado estava se tornando muito numeroso, o que poderia ser perigoso para o país. Ao leitor que desejar conhecer detalhes dessa história indicam-se as obras Aspectos do Antigo Egito ou Moisés, ambas publicadas pela Editora Ordem do Graal na Terra.

(PUCCINELLI JUNIOR, 2006, p. 192-193, grifo nosso). Quanto ao registro histórico, também devo chamar a atenção para o fato de que não há nenhum relato, em qualquer fonte antiga, sobre o rei Herodes massacrar crianças em Belém, ou em seus arredores, ou em qualquer outro lugar. Nenhum outro autor, bíblico ou não, menciona isso. […] (EHRMAN, 2010, p. 46, grifo nosso).

Para nós, fica nítido que a fuga da família de Jesus para o Egito foi utilizada também para tentar aplicar o que se supõe ser uma profecia de Oseias. Ao analisarmos a citada passagem desse profeta (Os 11,1) vemos que ela nem mesmo é uma profecia, pois, na verdade, trata-se de um fato já acontecido. Deve-se observar que o verbo “chamar” está no pretérito, o que indica fato do passado e não um evento a acontecer no futuro. Ademais,

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expressão “meu filho”, usada no passo, tem como referência o povo de Israel e não alguém em particular. Por outro lado, a matança das crianças é, por certo, uma tentativa de justificar uma suposta profecia de Jeremias (31,15). Porém, como já acontecido anteriormente, essa passagem também não é uma profecia, uma vez que se refere à tomada de Jerusalém por Nabucodonosor, rei da Babilônia, que subjuga o povo e o leva cativo para seu país, daí “o pranto de Raquel (sepultada em Ramá, perto de Belém) pelos filhos massacrados ou deportados pelos caldeus depois da destruição de Jerusalém em 596 a.C.,...” (Bíblia Sagrada, Edições Paulinas, p. 1062). A suposta ida da família de Jesus para Nazaré é, da mesma forma, algo que foi forjado para se relacionar ao cumprimento de mais uma profecia que teria sido dita por vários profetas. Entretanto, a bem da verdade, não há nenhuma profecia em que um só profeta tenha dito: “Será chamado Nazareno”; portanto, é pura invenção de Mateus ou de alguém que, por algum motivo, colocou isso lá. Considerações de Geza Vermes (1924- ), professor da Universidade de Oxford, é considerado um dos maiores especialistas acadêmicos sobre Manuscritos do Mar Morto e história do cristianismo, ao versículo “[Ele] será chamado Nazareno” (Mt 2,23):
Enquanto a descendência davídica de Jesus é um tema recorrente bem estabelecido nos Evangelhos, especialmente nos Sinóticos, sua proveniência da Judeia parece ser mais de uma vez ignorada ou contestada. As pessoas o viam não como sulista, mas como nascido e criado na Galileia. Ele era chamado de Jesus, o Nazareno, isto é, originário de Nazaré, ou, por extenso, o profeta Jesus de Nazaré da Galileia (Mt 21,11) . Nazaré e a região do lago da Galileia era sua patris, o que pode significar igualmente seu lugar de nascimento, sua cidade e sua pátria (Mc 6,4; Mt 13,57; Lc 4,24, Jn 1,46). Obviamente, alguns judeus locais se recusaram a aceitá-lo como o Messias justamente porque sabiam que ele era da Galileia e não “de Belém, a cidade onde vivia Davi” (Jo 7,41-42). Ademais, eles expressavam o preconceito sem dúvida originário da Judeia, segundo o qual nenhum grande profeta provinha da Galileia (Jo 7,52). Devemos reconhecer, portanto, que estamos em um impasse: o nascimento em Belém é asseverado com certeza teológica, mas é questionado no que parece ser conhecimento factual. (VERMES, 2007, p. 97, grifo nosso).

Apresentamos também as considerações de alguns tradutores:
O adjetivo provém, sem dúvida, do nome de Nazaré. Serviu para designar os cristãos (At 24,5). (Bíblia Sagrada Ave-Maria, p. 1286, grifo nosso). A palavra “Nazareno” pode ter um duplo sentido: habitante de Nazaré e “Nazir”, isto é, consagrado a Deus por um voto (Cf. Lv 21,12; Jz 23,57). Talvez Mt quisesse literariamente visar os dois sentidos: Jesus é de Nazaré e é consagrado especialmente ao Senhor. (Bíblia Sagrada Santuário, p. 1437, grifo nosso). “Nazareu” (nazôraios forma usada por Mt, Jo e At) e o seu sinônimo “nazareno” (nazarênos, forma usada por Mc; Lc tem as duas formas) são duas transcrições correntes do mesmo adjetivo aramaico (nasraya), derivado do nome da cidade de Nazaré (Nasrath). Aplicado primeiro a Jesus – indicando sua origem (26,69.71) – e depois a seus sequazes (At 24,5), esse termo ficou como designativo dos discípulos de Jesus no mundo semítico, enquanto no mundo greco-romano prevaleceu o nome de “cristão” (At 11,26). […] (Bíblia de Jerusalém, p. 1706, grifo nosso).

Ao que nos parece, o consenso é que o adjetivo “Nazareno”, aplicado a Jesus, está mais para designar a sua origem do que qualquer outra coisa, inclusive, o próprio autor de Mateus coloca Jesus indo habitar Nazaré para relacioná-lo a esse adjetivo, embora, a rigor, é mais lógico aplicá-lo a quem nasceu em Nazaré; porém, é certo que a principal preocupação desse autor era relacionar Jesus a uma suposta profecia do que ser lógico e coerente em seus relatos. Voltaremos a esse assunto mais ao final desse estudo.

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Existem outras passagens em Mateus nas quais cita-se uma cidade ou região relacionada a Jesus: Mt 3,13: “Jesus foi da Galileia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João, e ser batizado por ele”. Mt 4,12-13; “Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia. Deixou Nazaré, e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, nos confins de Zabulon e Neftali”. Mt 13,53-54: “Quando Jesus terminou de contar essas parábolas, saiu desse lugar, e voltou para a sua terra. Ensinava as pessoas na sinagoga, de modo que ficavam admiradas. Diziam: 'De onde vêm essa sabedoria e esses milagres?'” Mt 19,1: “Quando Jesus acabou de dizer essas palavras, ele partiu da Galileia, e foi para o território da Judeia, no outro lado do rio Jordão”. Mt 21,10-11: “Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou agitada, e perguntavam: 'Quem é ele?' E as multidões respondiam: 'É o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia'”. A citação inicial de Galileia (3,13), provavelmente trata-se de Nazaré. Jesus muda-se para Cafarnaum, ainda na Galileia (4,12-13), depois volta à “sua terra” (13,53-54), certamente, Nazaré, conforme é afirmado em: Novo Testamento Loyola, Bíblia de Jerusalém e Bíblia Santuário. E, finalmente, ele se transfere para a Judeia (19,1), chegando à Jerusalém (21,10-11). O interessante é que nessa cidade “que mata os profetas” ele foi reconhecido como Jesus de Nazaré, bem estranho se tivesse nascido em Belém, que é na Judeia, e que se localiza a cerca de 10 km ao sul de Jerusalém, que dizer, na própria região, onde dizem ter nascido, eles o conhecem como sendo de Nazaré. Mt 20,29-30: “Quando saía de Jericó, uma numerosa multidão o seguiu. Então dois cegos, sentados à beira da estrada, percebendo que Jesus passava gritaram: 'Senhor, tem piedade de nós, ó Filho de Davi!'”. Mc 10,46-47: “Jesus e os discípulos chegaram a Jericó. Quando ele já saía de lá com os seus discípulos, e acompanhados de uma numerosa multidão, o cego Bartimeu, filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho pedindo esmola. Tendo sabido que se tratava de Jesus de Nazaré, ele começou a gritar: 'Filho de Davi, Jesus, tem piedade de mim!'”. Lc 18,35-38: “Quando Jesus se aproximava de Jericó, um cego estava sentado à beira do caminho, mendigando. Ouvindo o barulho da multidão que passava, perguntou o que havia. Anunciaram-lhe: É Jesus, o Nazareno que está passando. Então, ele começou a gritar: 'Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!'". Relacionando-se os passos de Marcos e Lucas, podemos, mais uma vez, concluir que Nazareno quer significar nascido em Nazaré. É curioso como o “Espírito Santo” inspira os autores bíblicos de forma divergente, em Mateus é afirmado que são dois cegos, em Lucas e Marcos temos um só, inclusive, neste último autor é citado até o nome dele. E aí temos sérios problemas, caso S. Jerônimo esteja certo quando disse: “A Verdade não pode existir em coisas que divergem”. Vejamos, agora, as referências do Evangelho de Marcos: Mc 1,9: “Nesses dias, Jesus chegou de Nazaré da Galileia, e foi batizado por João no rio Jordão”. Mc 1,14: “Depois que João Batista foi preso, Jesus voltou para a Galileia, pregando a Boa Notícia de Deus”. Marcos tem que Jesus residia em “sua terra” Nazaré, portanto, não é fora de propósito presumir-se que, por não falar nada dele ter nascido em algum outro lugar, que essa cidade é

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o local onde ele nasceu. Fato que se pode confirmar levando-se em conta a própria fala de Jesus: Mc 6,1-6: “Jesus foi para Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam. Quando chegou o sábado, Jesus começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: 'De onde vem tudo isso? Onde foi que arranjou tanta sabedoria? E esses milagres que são realizados pelas mãos dele? Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco?' E ficaram escandalizados por causa de Jesus. Então Jesus dizia para eles que um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre seus parentes e em sua família. E Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré. Apenas curou alguns doentes, pondo as mãos sobre eles. E Jesus ficou admirado com a falta de fé deles”. Numa outra versão, o trecho destacado do versículo 4 tem o seguinte teor: “Um profeta só é estimado fora da sua terra natal” (Loyola), ou seja, aqui temos o próprio Jesus afirmando ser Nazaré o seu local de nascimento, que também é o sentido de “sua própria pátria” na versão acima. Ernest Renan (1823-1892), escritor, filósofo e historiador, que, na obra Vida de Jesus, em analisando a infância e a juventude de Jesus, objetivamente disse:
Jesus nasceu em Nazaré (1), pequena cidade da Galileia, que antes desse importante acontecimento não teve nenhuma celebridade (2). Durante toda a sua vida foi conhecido pelo nome de “Nazareno” (3), e só após entrarmos por um atalho bem complicado (4) é que seremos capazes de entender o porquê da lenda que diz ter ele nascido em Belém. Veremos adiante (5) o motivo dessa suposição e como ela era a consequência obrigatória do papel messiânico atribuído a Jesus (6). Ignora-se a data precisa de seu nascimento. Ele ocorreu sob o reino de Augusto, provavelmente por volta do ano 750 de Roma (7), ou seja, alguns anos antes do ano 1 da era que todos os povos civilizados datam como o dia oficial de seu nascimento (8). ______

(1) Mat., XIII, 54 e seg.; Marcos, VI, 1 e seg.; João, I, 45-46. (2) Ela não é mencionada nem nos escritos do Velho Testamento, nem em Josefo, nem no Talmude. Mas é nomeada na liturgia de Kalir, para o 9 de ab. (3) Mat., XXVI, 71; Marcos, I, 24; XIV, 67; Lucas, XVIII, 37; XXIV, 19; João, XIX, 19; Atos, II, 22; III, 6; X, 38. Comp. João, VII, 41-42; Atos, II, 22, III, 6; IV, 10; VI, 14; XXII, 8; XXVI, 9. Daí o nome de nazarenos (Atos, XXIV, 5), aplicado durante muito tempo aos cristãos pelos judeus, e que os designa ainda em todos os países muçulmanos. (4) Essa circunstância foi inventada para responder a Miqueias , V, 1. O recenseamento efetuado por Quirino, ao qual a lenda relaciona a viagem a Belém, data de pelo menos dez anos além do ano em que, segundo Lucas, Jesus teria nascido. Os dois evangelistas, de fato, situam o nascimento de Jesus sob o reino de Herodes (Mat., II, 1, 19, 22; Lucas, I, 5). Logo, o recenseamento de Quirino só aconteceu após a deposição de Arquelau, quer dizer, dez anos após a morte de Herodes, no ano 37 da era de Acio (Josefo, Ant., XVII, XIII, 5; XVIII, 5, 1; II, 1). A inscrição pela qual se tentava outrora estabelecer que Quirino fez dois recenseamentos é reconhecida como falsa (V. Orelli, Insc. Lat., nº 623, e o suplemento de Henzen nesse número; Borghesi, Fastos Consulares [ainda inéditos], no ano de 742). Quirino pode ter sido núncio por duas vezes na Síria, mas só houve recenseamento na segunda nunciatura (Mommsen, Res gestae divi Augusti, Berlim, 1865, p. 111 e seg.). O recenseamento, em todo caso, teria sido aplicado às partes reduzidas à província romana, e não aos reinados e tetrarquias, mormente enquanto vivesse Herodes, o Grande. Os textos pelos quais se tenta provar que algumas das operações de estatística e de cadastro determinadas por Augusto devem ter se estendido ao domínio de Herodes ou não têm a importância que se lhes quer dar ou são de autores cristãos, que tomaram este dado emprestado do Evangelho de Lucas. O que bem prova, aliás, que a viagem da família de Jesus a Belém não tem nada de histórico, que é o motivo a ela atribuído. Jesus não era da família de Davi (ver cap. 15) e, mesmo que fosse, não se conceberia, ademais, que seus pais tivessem sido forçados, por uma operação puramente cadastral e financeira, a ir se inscrever no local de onde seus ancestrais haviam saído mil anos antes. Impondo tal obrigação, a autoridade romana teria angariado para si pretensões carregadas de ameaças. (5) Cap. 14. (6) Mat., II, 1 e seg.; Luc., II, 1 e seg. A omissão desse relato em Marcos e as duas passagens paralelas, Mat., XIII, 54 e Marcos, VI, 1, nas quais Nazaré aparece como “a terra” de Jesus, provam a ausência de tal lenda no texto primitivo que forneceu o esboço narrativo dos Evangelhos atuais de Mateus e Marcos. É diante dessas objeções

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frequentemente repetidas que se terão acrescentado, quanto ao Evangelho de Mateus, reservas cuja contradição com o resto do texto não era tão flagrante a ponto de obrigar a correção dos locais que haviam sido descritos sob um ponto de vista muito diferente. Lucas, ao contrário (IV, 16), escrevendo refletidamente, empregou, para ser consequente, uma expressão mais amenizada. Quanto ao quarto evangelista, ele nada sabe da viagem a Belém; para ele, Jesus é simplesmente “de Nazaré”, ou “galileu”, em duas circunstâncias em que seria da maior importância lembrar seu nascimento em Belém (I, 45-46; VII, 4142). (7) Mateus, II, 1, 19,22; Lucas, I, 5. Herodes morreu na primeira metade do ano 750, correspondente ao ano 4 a.C. (8) Sabe-se que o cálculo q e serve de base à era vulgar foi feito no século VI por Dionísio, o Pequeno. Esse cálculo envolve certos dados puramente hipotéticos.

(RENAN, 2004, p. 99-100, grifo nosso).

Mais claro não precisa: Jesus nasceu em Nazaré é pura lenda colocá-lo nascendo em Belém. Mc 1,23-24: “Nesse momento, estava na sinagoga um homem possuído por um espírito mau, que começou a gritar: 'Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!'". Até mesmo um espírito mau reconhece Jesus como natural de Nazaré, eis o motivo dele o ter chamado de Nazareno. Nas versões: Novo Testamento Loyola, A Bíblia Tradução Ecumênica, Bíblia Sagrada Santuário, Bíblia Sagrada Ave-Maria e Bíblia do Peregrino, lemos “Jesus de Nazaré”, disso deduzimos que seus tradutores entendem o adjetivo Nazareno é aplicado a quem é natural de Nazaré. Apenas para curiosidade: se o homem estava possuído por “Um” espírito mau, qual a razão da pergunta “que queres de nós”, uma vez que aqui se denota ser mais de um? E não venham com o tal do plural majestático como explicação! Lucas também narra esse episódio (Lc 4,33-34). Mc 1,21: “Foram à cidade de Cafarnaum e, no sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar”. Mc 2,1: “Alguns dias depois, Jesus entrou de novo na cidade de Cafarnaum. Logo se espalhou a notícia de que Jesus estava em casa”. Mc 3,20: “Jesus foi para casa, e de novo se reuniu tanta gente que eles não podiam comer nem sequer um pedaço de pão”. Mc 9,33: “Quando chegaram à cidade de Cafarnaum e estavam em casa, Jesus perguntou aos discípulos: 'Sobre o que vocês estavam discutindo no caminho?'”. Sem dar nenhuma notícia de que Jesus tenha se mudado, Marcos já tem Jesus como residindo em Cafarnaum. Mc 16,5-6: “Então entraram no túmulo e viram um jovem, sentado do lado direito, vestido de branco. E ficaram muito assustadas. Mas o jovem lhes disse: 'Não fiquem assustadas. Vocês estão procurando Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vejam o lugar onde o puseram'”. O jovem vestido de branco diz à Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé que Jesus não estava mais lá no túmulo, pois havia ressuscitado. Este jovem, na visão de Mateus era um anjo, que desceu do céu (Mt 28,2-3), dessa forma, temos que o plano espiritual confirma que Jesus é de Nazaré e não de Belém. Seguindo com a nossa análise, vejamos o Evangelho de Lucas: Lc 1,26-27: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de Davi. E o nome da virgem era Maria”. Lc 2,39-40: “Quando acabaram de cumprir todas as coisas, conforme a Lei do Senhor,

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voltaram para Nazaré, sua cidade, que ficava na Galileia. O menino crescia e ficava forte, cheio de sabedoria. E a graça de Deus estava com ele”. Lc 2,51: “Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e permaneceu obediente a eles. E sua mãe conservava no coração todas essas coisas”. Em todos esses passos é fato incontestável que a família de Jesus morava em Nazaré, inclusive, o anjo enviado para avisar Maria sobre os futuros acontecimentos foi a Nazaré, cidade onde ela morava. O ponto que se há de resolver é que, conforme as supostas profecias o Messias nasceria em Belém, assim Lucas apresenta como justificativa um fictício recenseamento a mando de César Augusto, conforme se vê no passo a seguir. Lc 2,1-7: “Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa”. Vermes tem a seguinte opinião sobre o mencionado recenseamento:
Não há registro de nenhum censo imperial na época de Augusto. Houve um recenseamento fiscal na Judeia em 6/7 d.C. sob Quirino, governador da Síria, após a deposição de Herodes Arquelau e a transformação de sua etnarquia na província romana da Judeia. Porém, nenhum censo romano teria sido imposto a um rei dependente como Herodes, e tampouco Quirino foi governador da Síria durante a vida de Herodes. Finalmente, mesmo que tenha havido um censo na época do nascimento de Jesus, José não teria sido obrigado, sob as leis romanas, a viajar para a terra ancestral de sua tribo, e tampouco Maria teria sido obrigada a acompanhá-lo. Lucas parece ter combinado o censo que de fato houve sob Quirino, cerca de doze anos após o nascimento de Jesus, com o seu roteiro teológico. (VERMES, 2006, p. 255, grifo nosso).

Além disso, acreditamos que jornalista A. N. Wilson (1950- ), escritor, biógrafo e romancista, tem razão quando diz:
[…] Nenhum historiador antigo, por exemplo, faz a menor alusão a esse recenseamento universal ordenado pelo imperador Augusto. Josefo, em seu Antiguidades, menciona um recenseamento ocorrido na Judeia no ano 6 da EC e diz que tinha por finalidade contar cabeças antes do lançamento de uma capitação. A impopularidade desse imposto, e do recenseamento, provocou a insurreição chefiada por Judas de Gamala (mencionada pelo próprio Lucas nos Atos dos Apóstolos). (3). A finalidade desse recenseamento era puramente estatística. Não há razão para supor que qualquer uma das pessoas que foram contadas tenha recebido ordem de voltar à aldeia onde algum putativo antepassado teria residido mais de mil anos antes. ______
3. Atos, 5:37. Vide supra, 26.

(WILSON, 2007, p. 100, grifo nosso).

E dele ainda temos:
[…] O Evangelho, segundo Lucas, fixa-a especificamente numa época em que César Augusto exigiu que todos os indivíduos no Império Romano fossem submetidos a um recenseamento. Isso aconteceu no tempo em que Quirino era governador da Síria(1). Herodes, na época, era rei da Judeia(2). Esse fato aparentemente estabeleceria com grande precisão o nascimento de Jesus, até descobrirmos que Herodes faleceu quatro anos antes da era cristã e que

34 Quirino não foi governador da Síria durante o reinado de Herodes. Nenhum historiador do Império Romano faz a menor referência a um recenseamento universal durante o reinado do imperador Augusto, embora Flávio Josefo nos informe, no seu Antiguidades judaicas, que, de fato, houve um recenseamento na Judeia no ano 6 da era cristã. ____
1. Lucas, 2:2 2. Mateus, 2:1.

(WILSON, 2007, p. 10-11, grifo nosso).

Por outro lado, é difícil acreditar que José se lembrasse de seus antepassados que viveram até mil anos antes dele, ainda mais se levando em conta que, àquela época, provavelmente, não existiam registros nos quais pudesse apoiar-se para saber de sua árvore genealógica ancestral, que retroagia até o rei Davi. É o que nos afirma Bart D. Ehrman (1955- ):
Os problemas históricos em Lucas são ainda maiores. Para começar, nós temos registros relativamente confiáveis do reinado de César Augusto, e em nenhum deles há qualquer referência a um censo do império inteiro, para o qual todos teriam de se registrar retornando ao lar de seus ancestrais. E como isso poderia ter sido imaginado? José retorna a Belém porque seu ancestral Davi tinha nascido lá. Mas Davi viveu mil anos antes de José. Devemos imaginar que no império romano todos deveriam retornar ao lar de seus ancestrais de mil anos antes? Se fizéssemos um censo mundial hoje e cada um de nós tivesse de retornar à cidade de nossos ancestrais de mil anos antes, para onde você iria? Você consegue imaginar a absoluta perturbação da vida humana que esse tipo de êxodo universal exigiria? E consegue imaginar um projeto desse porte não ser mencionado em nenhum jornal? Não há nenhuma referência a um censo assim em qualquer fonte antiga, a não ser em Lucas. Então por que ele diz que esse censo aconteceu? A resposta pode parecer óbvia. Ele queria que Jesus nascesse em Belém, embora soubesse que era de Nazaré. Mateus também, mas ele fez com que Jesus nascesse lá de modo diferente. (EHRMAN, 2010, p. 46, grifo nosso).

São grandes, portanto, os problemas com os quais nos defrontamos, caso façamos opção de seguir as narrativas bíblicas preterindo os registros históricos. Apenas para deixar registrada outra curiosidade a respeito de Jesus, vejamos o seguinte passo: Lc 2,41-47: “Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. Quando o menino completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. Passados os dias da Páscoa, voltaram, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. Pensando que o menino estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a procurá-lo entre parentes e conhecidos. Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém à procura dele. Três dias depois, encontraram o menino no Templo. Estava sentado no meio dos doutores, escutando e fazendo perguntas. Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com a inteligência de suas respostas”. Então, todos nós acreditamos piamente nessa história, entretanto, o estudioso Geza Vermes trata essa história sobre os conhecimentos extraordinários de Jesus de doze anos junto aos doutores da lei como uma lenda (VERMES, 2006, p. 185). Lc 3,23: “Ao iniciar o ministério, Jesus tinha mais ou menos trinta anos e era, conforme se supunha, filho de José, filho de Eli”. Não vamos nem entrar no mérito de que em Mateus o pai de José é Jacó, e não Eli como aqui em Lucas, porquanto tem algo mais interessante para vermos. Observe, caro leitor, que Lucas não quis colocar a mão no fogo sobre quem era verdadeiramente o pai de Jesus, pois dizer que “conforme se supunha”, não é a mesma coisa que afirmar que é. Porém, aqui caímos num outro problema, pois se não for filho carnal de José, e, no caso, pensa-se que é

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filho do Espírito Santo, via de consequência, Jesus também não era descendente de Davi, fato que, obviamente, não fazia dele o Messias esperado. Lc 4, 14-16: “Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. Ele ensinava nas sinagogas, e todos o elogiavam. Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se havia criado. Conforme seu costume, no sábado entrou na sinagoga, e levantou-se para fazer a leitura”. Ao que tudo indica, aqui já temos Jesus residindo em outra cidade; é bem provável que seja Cafarnaum, como dito por Mateus e Marcos. Um fato que achamos interessante aqui é que Jesus “levantou-se para fazer a leitura”, porquanto, João afirma que ele “nunca estudou” (Jo 7,15), embora, contraditoriamente, no episódio da mulher adúltera (Jo 8,1-11), o próprio João tenha colocado Jesus escrevendo no chão (v. 6 e 8). Lc 23,5-6: “Eles, porém, insistiam: 'Ele está provocando revolta entre o povo, com seu ensinamento. Começou na Galileia, passou por toda a Judeia, e agora chegou aqui'. Quando ouviu isso, Pilatos perguntou se Jesus era galileu”. Galileu, obviamente, por ter nascido na Galileia, região onde se localizava Nazaré, portanto, mais uma afirmativa de que Jesus não era mesmo de Belém, que fica na Judeia. E a respeito do costume de se colocar a denominação da cidade de nascimento junto ao nome da pessoa, vejamos: Lc 23,50-51: “Havia um homem bom e justo, chamado José. Era membro do Conselho, mas não tinha aprovado a decisão, nem a ação dos outros membros. Ele era de Arimateia, cidade da Judeia, e esperava a vinda do reino de Deus”. Mc 15,42-43: “Ao entardecer, como era o dia da Preparação, isto é, a véspera do sábado, chegou José de Arimateia. Ele era membro importante do Sinédrio, e também esperava o Reino de Deus. José encheu-se de coragem, foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus”. Jo 19,38: “José de Arimateia era discípulo de Jesus, mas às escondidas, porque ele tinha medo das autoridades dos judeus. Depois disso, ele foi pedir a Pilatos para retirar o corpo de Jesus. Pilatos deu a autorização. Então ele foi e retirou o corpo de Jesus”. Nesses passos temos a prova desse costume na época, é por este motivo que se Jesus tivesse nascido em Belém, seria chamado de “Jesus de Belém”; porém, como o chamavam de Jesus de Nazaré, é forçoso, por lógica, ter que aceitar que ele era natural de Nazaré. Juan Arias (1932- ), padre escritor e jornalista, corrobora o que acabamos de falar:
[…] E hoje tudo leva a crer que Jesus não nasceu em Belém, como afirmam os evangelhos de Mateus e Lucas (Marcos e João nem menciona seu nascimento), mas em Nazaré. Segundo alguns biblicistas modernos, como Antonio Piñero, a notícia de que Jesus nasceu em Belém deve-se à intenção de fazer coincidir o nascimento do Messias com a profecia de Miqueias, tal como aparece na Bíblia, que diz o seguinte: “E tu, Belém Efrata, tu és pequenina entre os milhares de Judá! Mas de ti há de sair aquele que há de reinar em Israel”, justamente um texto citado por Mateus quando narra o episódio do nascimento. É a partir daí que Mateus e Lucas constroem o relato do nascimento em Belém. Mas de maneira bem diferente. Mateus fala da ira de Herodes que ordena a matança dos inocentes, o que Lucas ignora. Lucas, ao contrário, fala de um recenseamento decretado por César Augusto, que seria o motivo de os pais de Jesus se mudarem para Belém, fato que Mateus ignora. E, de fato, parece que não há provas históricas da existência desse censo naquela época e naquele lugar. Crossan diz isso com todas as letras: “Nunca houve um censo geral no tempo de Augusto”. Além do mais, o censo tinha uma finalidade fiscal, e cadastrar alguém longe do seu local de trabalho teria significado um verdadeiro

36 pesadelo para a burocracia. O mais provável é que Jesus tenha nascido em Nazaré. De fato, nos evangelhos ele nunca é chamado de “Jesus de Belém” e sim de “Jesus de Nazaré”, que era como se costumava chamar as pessoas, ou seja, pelo lugar de nascimento ou pelo nome do pai. Neste caso, ele teria sido “Jesus de José”, mas nunca foi chamado assim, provavelmente porque, como se sabe, os evangelistas não davam importância a São José, que é apresentado acima de tudo como um velho, devido à importância atribuída à virgindade de Maria antes e depois do parto. Curiosamente, o pai de Jesus é o grande desconhecido nos evangelhos e em toda a tradição cristã. Talvez por isso existam tantas lendas extraoficiais sobre sua pessoa. (ARIAS, 2001, p. 50-51, grifo nosso).

Devia-se prestar mais atenção no que se tem descoberto a respeito dos costumes do povo hebreu, porquanto, são, muitas vezes, peças importantes para a interpretação de um texto. Lc 24,19: “Jesus perguntou: 'O que foi?' Os discípulos responderam: 'O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em ação e palavras, diante de Deus e de todo o povo''. Nazareno, certamente, quer dizer natural de Nazaré, porquanto nas Bíblias Shedd, AveMaria, Vozes e Santuário em vez de “Jesus, o Nazareno”, as traduções constam “Jesus de Nazaré”. Além disso, fecha-se com o consenso anteriormente falado ao analisamos Mt 2,23. Lc 4,31: “Jesus foi a Cafarnaum, cidade da Galileia, e aí ensinava aos sábados”. Lc 7,1: “Depois que terminou de falar todas essas palavras ao povo que o escutava, Jesus entrou na cidade de Cafarnaum”. Jo 2,11-12: “Foi assim, em Caná da Galileia, que Jesus começou seus sinais. Ele manifestou a sua glória, e seus discípulos acreditaram nele. Depois disso, Jesus desceu para Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos. E aí ficaram apenas alguns dias”. Lucas e João mostram que Jesus pregava em Cafarnaum, não que residia lá, como Mateus (4,13) e Marcos (2,1; 3,20; 9,33) dizem, apesar deste último não informar que Jesus tenha mudado para essa cidade. Jo 1,43-46: “No dia seguinte, Jesus decidiu partir para a Galileia. Encontrou Filipe e disse: 'Siga-me'. Filipe era de Betsaida, cidade de André e Pedro. Filipe se encontrou com Natanael e disse: 'Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e também os profetas: é Jesus de Nazaré, o filho de José'. Natanael disse: 'De Nazaré pode sair coisa boa?' Filipe respondeu: 'Venha, e você verá'”. Jo 4, 1-3: “Os fariseus ficaram sabendo que Jesus atraía discípulos e batizava mais do que João. (Na verdade, não era Jesus que batizava, mas os seus discípulos). Ao saber disso, Jesus deixou a Judeia e foi de novo para a Galileia”. Jo 4,43-45; “Dois dias depois, Jesus foi para a Galileia. Mas o próprio Jesus tinha declarado: 'Um profeta nunca é bem recebido em sua própria terra'. Entretanto, quando ele chegou à Galileia, os galileus o receberam bem, porque tinham visto tudo o que Jesus havia feito em Jerusalém durante a festa. Pois eles também tinham ido à festa”. Jo 4,46-47: “[...] Ora, em Cafarnaum havia um funcionário do rei que tinha um filho doente. Ele ouviu dizer que Jesus tinha ido da Judeia para a Galileia. Saiu ao encontro de Jesus e lhe pediu que fosse a Cafarnaum curar seu filho que estava morrendo”. Certamente, que as várias citações da região da Galileia se refere à cidade de Nazaré, até mesmo porque Jesus se referindo a si mesmo disse “Um profeta nunca é bem recebido em sua própria terra” (Jo 4,44). E, aqui também, temos, mais uma vez, Jesus sendo reconhecido

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como de Nazaré e não de Belém (Jo 1,45), como se supõe, baseando-se em Mateus e Lucas. Jo 2,1-2: “No terceiro dia, houve uma festa de casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava aí. Jesus também tinha sido convidado para essa festa de casamento, junto com seus discípulos”. Segundo conseguimos apurar “Caná da Galileia fica localizada a cerca de treze quilômetros ao norte de Nazaré” (CHAMPLIN e BENTES, vol. 1, 1995a, p. 622), portanto, na região onde Jesus morava, e, conforme estamos vendo, ele nasceu, razão pela qual foi um dos convidados para a festa de casamento (Jo 2,1-12). Foi nessa cidade que Jesus de Nazaré iniciou o seu ministério (ver Jo 2,11). Jo 7,25-27: “Algumas pessoas de Jerusalém comentavam: 'Não é este que estão procurando para matar? Ele está aí falando em público, e ninguém diz nada! Será que até as autoridades reconheceram que ele é o Messias? Entretanto, nós sabemos de onde vem esse Jesus, mas, quando chegar o Messias, ninguém saberá de onde ele vem'”. Que interessante, aqui temos algo nitidamente contraditório, pois se diziam que o Messias viria de Belém (Jo 7,42), como aqui se afirma que “ninguém saberá de onde ele vem”? Jo 7,40-42: “Ouvindo essas palavras, alguns diziam no meio da multidão: 'De fato, este homem é mesmo o Profeta!' Outros diziam: 'Ele é o Messias'. Outros ainda afirmavam: 'Mas o Messias virá da Galileia? A Escritura não diz que o Messias será da descendência de Davi e que virá de Belém, povoado de onde era Davi?'” Jo 7,50-52: “Mas Nicodemos, um dos fariseus, aquele que tinha ido encontrar-se com Jesus, disse: 'Será que a nossa Lei julga alguém antes de ouvir e saber o que ele faz?' Eles responderam: 'Você também é galileu? Estude e verá que da Galileia não sai profeta'”. Em ambas as passagens se confirma que Jesus é da Galileia, região onde está localizada a cidade de Nazaré. Na primeira é até mesmo afirmado, ainda que de forma indireta, que Jesus não é de Belém, fato que outros autores perceberam, como, por exemplo, A. N. Wilson:
[…] Podemos observar, no entanto, que o Quarto Evangelho (de São João) afirma com toda clareza que Jesus não nasceu em Belém e que não fazia parte da linhagem de Davi. (2). Nesse Evangelho, as multidões não acreditavam na possibilidade de que ele seja o Messias porque veio da Galileia, e não de Belém. […] ______
2. João, 7:42.

(WILSON, 2007, p. 99, grifo nosso).

Veremos agora o próprio Mestre dizendo se chamar Jesus de Nazaré: Jo 18,1-12: “Tendo dito isso, Jesus saiu com seus discípulos, e foi para o outro lado do riacho do Cedron, onde havia um jardim. Ele entrou no jardim com os discípulos. Jesus já tinha se reunido aí muitas vezes com seus discípulos. Por isso, Judas, que estava traindo Jesus, também conhecia o lugar. Judas arrumou uma tropa e alguns guardas dos chefes dos sacerdotes e fariseus e chegou ao jardim com lanternas, tochas e armas. Então Jesus, sabendo tudo o que lhe ia acontecer, saiu e perguntou a eles: 'Quem é que vocês estão procurando?' Eles responderam: 'Jesus de Nazaré'. Jesus disse: 'Sou eu'. Judas, que estava traindo Jesus, também estava com eles. Quando Jesus disse: 'Sou eu', eles recuaram e caíram no chão. Então Jesus perguntou de novo: 'Quem é que vocês estão procurando?' Eles responderam: 'Jesus de Nazaré'. Jesus falou: 'Já lhes disse que sou eu. Se vocês estão me procurando, deixem os outros ir embora'. […]. Então a tropa, o comandante e os guardas das autoridades dos judeus prenderam e amarraram Jesus”.

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Por duas vezes Jesus se identifica como Jesus de Nazaré, a quem os guardas procuravam. Podemos ainda corroborar essa identificação trazendo o depoimento de Pedro, que possivelmente representa o pensamento dos outros discípulos. Em três momentos diferentes, ele disse: At 2,22: “Homens de Israel, escutem estas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem que Deus confirmou entre vocês, realizando por meio dele os milagres, prodígios e sinais que vocês bem conhecem”. At 4,10: “Pois fiquem sabendo todos vocês, e também todo o povo de Israel: é pelo nome de Jesus Cristo, de Nazaré, - aquele que vocês crucificaram e que Deus ressuscitou dos mortos, - é pelo seu nome, e por nenhum outro, que este homem está curado diante de vocês”. At 10,38: “Eu me refiro a Jesus de Nazaré: Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder. E Jesus andou por toda parte, fazendo o bem e curando todos os que estavam dominados pelo diabo; porque Deus estava com Jesus”. Nota-se a particularidade de que é afirmado que Pedro estava “cheio do Espírito Santo” (Jo 4,8) ao confirmar sobre a sua procedência: “Jesus Cristo, de Nazaré”. Então, se Pedro inspirado não disse “Jesus Cristo, de Belém”, é porque ele, certamente, não procedia da cidade de Davi. Em relação ao “A Escritura não diz que o Messias será da descendência de Davi e que virá de Belém, povoado de onde era Davi?” (Jo 7,42), na Bíblia Anotada temos a seguinte informação: da descendência de Davi. Veja 2Sm 7:12. Belém. Veja Mq 5,2 (p. 1332). Fomos confirmar o que se tem no passo 2Sm 7,12 e vimos que nele não há previsão alguma a respeito da vinda de Jesus; na verdade, o que temos é uma profecia a respeito de Davi. Vejamos o teor do passo: 2Sm 7,12-13: “Quando teus dias se cumprirem, e descansares com teus pais, então farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino”. Incluímos também o versículo 13, para demonstrar que esse descendente de Davi é o rei Salomão, reinou Israel 970 a 931 a.C. (Bíblia Shedd, p. 1789) que construiu o Templo de Jerusalém. Como sabemos, Salomão é filho bastardo de Davi, fruto de seu adultério com Betsabeia mulher do soldado Urias, cuja morte foi tramada pelo rei Davi, que instruiu a seus soldados para deixá-lo sozinho no front da batalha contra os amonitas. O interessante é que na própria Bíblia Anotada que cita esse passo (2Sm 7,12-16), encontramos:
Esta grande aliança que Deus, em graça, estabeleceu com Davi incluía as seguintes provisões: (1) Davi teria um filho que o sucederia e estabeleceria o seu reino, v. 12; (2) esse filho (Salomão), e não Davi, construiria o templo, v. 13a; (3) o trono do reino de Salomão seria estabelecido para sempre, v. 13b; (4) embora os pecados de Davi justificassem a disciplina, a misericórdia divina (heb., hesed; veja a nota sobre Is 2:19) seria eterna, vv. 1415; (5) a casa, o reino e o trono de Davi seriam estabelecidos para sempre (v. 16). […] (Bíblia Anotada, p. 415, grifo nosso).

Como distorcem as interpretações visando justificar mitos estabelecidos anteriormente, e não bastasse esse, foi também o que aconteceu com o outro (Mq 5,1 ou 5,2, dependendo da tradução). Na verdade, pegaram parte de um texto, que fora de seu contexto, pode dar uma ideia falsa do que realmente ele narra. Sobre Mq 5,1 ou 5,2, já falamos anteriormente, lá quase no início desse estudo. Jo 19,19: “Pilatos escrever também um letreiro e mandou colocá-lo no alto da cruz. Nele estava escrito: 'Jesus de Nazaré, o rei dos Judeus'”.

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Teor na versão da Bíblia Ave-Maria e Novo Testamento Loyola; porém, não são unânimes as traduções quanto à denominação de “Jesus de Nazaré”, na Bíblia Tradução Ecumênica se lê “Jesus, o Nazoreu” e na Bíblia de Jerusalém se tem “Jesus Nazareu”, e em todas as outras o que se vê é “Jesus Nazareno” ou “Jesus, o Nazareno”, entretanto, pelo que já vimos até aqui, não nos resta alternativa senão considerar a referência como sendo Jesus de Nazaré o nome escrito no letreiro. Em resumo o que já temos até aqui: 1) Mateus faz Jesus nascer em Belém, local onde morava os seus pais, conta a história da matança das crianças por Herodes e fuga da família de Jesus para o Egito e ao voltar passa a residir em Nazaré. 2) Para Lucas a família de Jesus morava em Nazaré, e para que Jesus nascesse em Belém apresenta um suposto recenseamento ordenado por César Augusto, pelo qual as famílias deveriam voltar às cidades de origem dos seus antepassados, mesmo que eles tenham vivido mil anos antes. 3) Marcos, no início do seu relato, coloca Jesus partindo de Nazaré para ir ao encontro de João Batista, do que se pode concluir que para ele essa era a cidade de nascimento de Jesus, pois caso não fosse ele, certamente, teria informado sobre isso. 4) Em João o relacionamento de Jesus com Nazaré acontece quando ele inicia o recrutamento dos seus discípulos, e um deles, Natanael, o reconhece como sendo de Nazaré. 5) Pelo que se depreende dos textos dos Evangelhos o povo, os discípulos, Pilatos e o próprio Jesus todos o reconhecem como de Nazaré, inclusive, não há um só passo em que ele é chamado de Jesus de Belém. Assim, diante disso tudo, particularmente, concluímos que Jesus é natural de Nazaré e não de Belém como nos querem fazer crer alguns interpretadores bíblicos, certamente, para justificarem dogmas instituídos pelas suas correntes religiosas ou calcados apenas nas tradições. Antes de finalizar vamos colocar dois pontos, nos quais se verá a opinião de vários autores, para que você, caro leitor, veja por si mesmo que de tudo quanto foi dito, ainda causa polêmica a questão da cidade de Nazaré ter existido ou não à época de Jesus e se em vez de Nazareno não seria Ele um nazireu? Nazaré existia ou não?
O modo pelo qual os autores dos evangelhos falam de Nazaré não é menos característico. Seu nome não figura no Antigo Testamento. Os autores judeus do século I também nada dizem sobre ela, se bem que eles se façam notar (particularmente Flávio Josefo) pela amplitude de suas informações sobre o pequeno país que era a Judeia. Ouve-se falar de Nazaré, pela primeira vez, nas fontes que datam do século III. Ora, nos evangelhos, Nazaré é chamada de “cidade”. (Mateus, II, 33; Lucas, I, 26; II, 39, etc.) Não parece, portanto, que Nazaré tenha sido uma cidadezinha perdida que pudesse ser ignorada por todos os historiadores da Judeia. Porém, por que se encontra esse nome tantas vezes nos evangelhos? Para explicar isso, convém lembrar que no Livro dos Juízes, no Antigo Testamento, fala-se, por duas vezes, que Sansão será o “nazareno de Deus”. A raiz dessa palavra em hebraico, nazir, significa um justo cuidadoso na observância estrita de certos ritos. Os autores dos evangelhos não conheciam a Judeia senão pelos textos do Antigo Testamento e achando visivelmente, que “nazareno” significava originário de Nazaré, deram esse nome ao lugar do nascimento do Cristo, sem sequer suspeitar que semelhante localidade ou vila não existia na Judeia. (LENTSMAN, 1963, p. 177, grifo nosso). Estive recentemente em Nazaré e fiz exaustivas pesquisas com o propósito de comprovar as declarações contidas nos registros Rosacruzes; a maioria de meus leitores ficará provavelmente surpresa em saber que, ao tempo em que Jesus nasceu, não havia cidade ou vila na Galileia com o nome de Nazaré e que a cidade que hoje traz este nome, na Galileia, não só é uma cidade recente mas também veio a ter este nome, por causa da insistência dos

40 investigadores em encontrar alguma localidade que tivesse o nome de Nazaré, na Galileia . (LEWIS, 2001, p. 57, grifo nosso). Houve grandes dificuldades na busca de um lugar que correspondesse ao nome de Nazaré, na Galileia, visto que nenhuma cidade com este nome fora mencionada no Velho Testamento e nenhum dos mapas antigos do tempo do Cristo revelava a existência desse local. Um pequeno povoado chamado “enNasira”, entretanto, foi localizado bem longe do Mar da Galileia e imediatamente rebatizado “Nazaré” e associado à infância de Jesus. A descoberta deste povoado en-Nasira ocorreu no terceiro século depois de Cristo, e desde então passou a ser conhecido pelo nome de Nazaré, embora ainda hoje continuem a faltar quaisquer evidências que justifiquem o uso desse nome. Em Marcos VI: 1,2 diz-se que Jesus voltou a seu próprio país e que Seus discípulos o seguiram e que, quando chegou o Shabat, ele começou a ensinar na sinagoga. No quarto verso do mesmo capítulo, Jesus se refere ao fato de que Ele era um profeta em Seu próprio país, entre seus próprios parentes e em Sua própria casa. Essas referências foram interpretadas como sendo relativas a Nazaré, a cidade onde muitos estudiosos da Bíblia acreditam que Jesus nasceu e passou a infância. Ora, se é verdade que Jesus retornou à Sua cidade natal e pregou na sinagoga para grandes multidões, não poderia ter sido em en-Nasira, ou a chamada Nazaré; mesmo no segundo e terceiro séculos após o nascimento de Jesus, en-Nasira ou Nazaré ainda não tinha uma sinagoga nem era suficientemente grande para possuir qualquer edificação ampla onde multidões pudessem ter ouvido Jesus pregando, nem havia multidões nas vizinhanças para ouvi-Lo. Portanto, as referências de Marcos à Sua cidade natal não podem ter sido relativas a en-Nasira. En-Nasira era tão-somente um povoado em torno de um poço chamado na época de “poço da casa da guarda”, embora, segundo descobri, tenha sido chamado, nos últimos anos, de “Poço de Santa Maria”. Esta mudança de nome e a atribuição de significado religioso a um local sem importância da Palestina é bem típica das modificações que estão sendo feitas naquele país para agradar os turistas. Procurando nos registros judaicos, vemos que estes confirmam que só nos livros do Novo Testamento, escritos muito após a vida de Jesus, há menção de Nazaré como uma cidade da Galileia, e que este local não é mencionado no Velho Testamento, nos escritos históricos de Josefo nem no Talmude. Durante a vida de Jesus, a cidade de Jafa era a mais importante na Galileia, sendo a que mais atraía os viajantes e era mais citada nos escritos históricos. Nos registros da Igreja Católica Romana e nas suas enciclopédias, vemos que o vilarejo en-Nasira era conhecido estritamente como um povoado judeu até o tempo de Constantino, havendo referências de ser habitado totalmente por judeus. Esta pequena aldeia, em volta de um poço, portanto, não poderia ter sido o centro da população gentia da Galileia. Hoje em dia há uma pequena igreja ou capela em Nazaré, a qual visitei, supostamente erigida sobre a gruta onde Maria e José viviam no tempo da anunciação, quando o arcanjo revelou a Maria o iminente nascimento da encarnação do Logos. (LEWIS, 2001, p. 61-63, grifo nosso). Será chamado Nazareno? (Mateus 2:23) – “... assim se cumpriu o que foi anunciado pelos profetas: <Ele será chamado Nazareno>”. Aqui, num pequenino trecho, não só um amontoado de erros, como muita mentira e má fé de Mateus (ou do escriba que fez o texto e atribuiu a ele a autoria do versículo). Mateus especializou-se em inventar “profecias retroativas” que aconteciam muitos anos (pelo menos 40 anos) depois dos fatos terem sido relatados como acontecido. Como também Mateus inventava muitas profecias do Antigo Testamento, sem que as citadas profecias realmente estivessem no Antigo Testamento. Isto porque, não existe um único registro no Antigo Testamento a respeito de Nazaré ou Nazareno. Trata-se de invencionice de Mateus (ou do escriba que escreveu por ele), escrevendo sobre a vida de Jesus mais de 70 anos após o seu nascimento e após a destruição de Jerusalém no ano 70, e tentando fazer coincidir, no ano 70, “profecias retroativas”, como se elas tivessem realmente se realizado. Aliás, Nazaré sequer existia como cidade quando Jesus nasceu. Existia, sim, o lago de Genesaré (Mar de Tiberíades), mas não a cidade de Nazaré, que somente veio a existir alguns anos (cerca de quinze anos) após Jesus ter nascido.

41 Vejamos a má fé de Mateus (ou do escriba que escreveu por ele). Ele afirma, após o ano 70, época da destruição de Jerusalém e da diáspora e extermínio dos essênios, portanto 70 anos depois de Jesus já ter nascido, que 70 anos antes iria se realizar uma “profecia retroativa” e que Jesus iria ser chamado de Nazareno. Uma profecia ao Contrário, relatada depois do fato ter acontecido, passados mais de 70 anos. Porém, o mais gritante é que além de Nazaré sequer existir quando Jesus nasceu, sendo impossível, dessa forma, tal registro, Mateus ainda confunde Nazireu com Nazareno, que são coisas completamente diferentes. (MACHADO, 2004, p. 168-169) (grifo nosso). Mark Lidzbarski chega a afirmar que, durante a vida de Jesus, nem teria existido um lugar geográfico chamado Nazaré. Contraargumentando, pode-se dizer que, embora não soubéssemos como era Nazaré nos tempos de Jesus, achados arqueológicos confirmam a existência daquele povoado (se é que uns precaríssimos abrigos podem ser chamado de “povoado”), no período entre cerca de 900 a.C. e 600 d.C., e esses achados incluem também peças datando do reinado de Herodes, o Grande (de 40 a 4 a.C.). Aliás, o comentário pouco lisonjeiro de Natanael, transmitido pelo Evangelho de São João: “De Nazaré pode, porventura, sair coisa que seja boa?...”, pode ser uma alusão à precariedade do lugarejo, todavia promovida a “cidade” pela Bíblia. Em todo caso, não há nenhum indício de Jesus, Maria e José. Somente desde o século XI da nossa era, o nome Nazaré ficou sendo comprovado pela Fonte da Virgem Maria, onde até hoje as mulheres vão buscar água com a qual enchem suas jarras, como o faziam nos tempos de Jesus... (KELLER, 2000, p. 367, grifo nosso).

Nazareno ou um Nazireu?
Da mesma forma, inexiste qualquer prova histórica ou arqueológica da “fuga para o Egito”, como tampouco existe prova da estada de Jesus em Nazaré. Aliás, a rigor, a Bíblia cita Jesus por muito mais vezes como “ nazireu” do que “nazareno”, e “nazireu” pode ter vários significados, mas normalmente não define o “homem de Nazaré”. Essa última interpretação poderia ser deduzida somente de maneira indireta, de um trocadilho com a palavra hebraica “nezer” = “vara”, veja Isaías 11,1; “Sairá uma vara do tronco de Jessé e uma flor brotará da sua raiz”. De fato, o Evangelho de São Mateus torna a citar o termo controvertido “nazareno” no contexto de uma profecia: “...e, chegando, habitou uma cidade chamada Nazaré, cumprindo-se desse modo o que tinha sido predito pelos profetas, que seria lá chamado Nazareno” (Mateus 2,23). Isso em nada facilita as coisas, pois não deixa bem claro a que profetas o texto se refere (a não ser Isaías, autor das palavras supracitadas). Talvez se pretenda estabelecer um certo nexo com o termo “nazireu” (“consagrado a Deus”, qualificação outrora atribuída a Sansão (Juízes 13,5 e 7, 16,17)), que exigiu uma certa ascese por parte da pessoa assim qualificada (ele devia observar determinados tabus); contudo, tal conjetura não deixará de implicar em certos problemas filológicos. Assim, também, aí torna a surgir um sinal de interrogação, e a esse respeito cumpre não silenciar o fato de alguns cientistas interpretarem os pronunciamentos dos Evangelhos, mencionando Nazaré como “cidade da infância e juventude” de Jesus, como meras construções, relacionadas com o título “nazireu”, não muito bem compreendido pelos evangelistas, os quais, por causa disso, reinterpretam-nos e sumariamente o substituíram por “nazareno”. (KELLER, 2000, p. 366-367). Em primeiro lugar, devemos tornar claro que o título de Nazareno não queria dizer que a pessoa que o tivesse fosse de uma cidade chamada Nazaré. O título de Nazareno era dado pelos judeus a pessoas estranhas que não seguiam sua religião e que pareciam pertencer a um culto ou seita secreta que existira ao Norte da Palestina por muitos séculos; podemos verificar na Bíblia Cristã que o próprio João Batista era chamado de Nazareno. Também encontramos muitas outras referências a pessoas conhecidas como nazarenos. Em Atos XXIV:5, encontramos um homem qualquer sendo condenado como provocador de uma rebelião entre os judeus em todo o mundo e sendo chamado de “líder da seita dos nazarenos”. Sempre que os judeus entravam em contato com alguém em seu país que fosse de outra religião, e especialmente se tivesse uma compreensão mística das coisas da vida e vivesse de acordo com um código

42 ético ou filosófico diferente do judaico, chamavam-no de Nazareno por falta de um nome mais adequado. Existiu realmente uma seita chamada Os Nazarenos, citada nos registros judaicos como uma seita de Primitivos Cristãos ou, em outras palavras, aqueles que eram essencialmente preparados para aceitar as doutrinas cristãs. De fato, os enciclopedistas e autoridades judaicas parecem concordar em que o termo Nazareno abrangia todos os cristãos que haviam nascido judeus, que não desejavam ou não podiam abrir mão de seu antigo modo de vida, mas que tentavam ajustar as novas doutrinas às antigas. As enciclopédias judaicas também afirmam ser bastante evidente que os Nazarenos e os Essênios tinham muitas características em comum, e mostravam, portanto, tendência para o misticismo. Os Essênios e Nazarenos, na verdade, eram considerados heréticos pelos judeus cultos, mas existe a seguinte diferença ou distinção no uso destes dois termos: os Essênios não eram tão conhecidos pela população da Palestina como os Nazarenos; um homem dificilmente era chamado Essênio a não ser por pessoas bem informadas, que conhecessem a diferença entre Essênios e Nazarenos, ao passo que muitos Essênios e membros de outras seitas que levavam uma vida peculiar ou não aceitavam a religião judaica eram chamados de Nazarenos. São Jerônimo, famosa autoridade bíblica, refere-se ao fato de que em seu tempo ainda existia entre os judeus, em todas as sinagogas do Oriente, uma heresia condenada pelos fariseus, cujos seguidores eram chamados de Nazarenos. Ele disse que estes acreditavam que Cristo, o Filho de Deus, havia nascido da Virgem Maria, havia sofrido sob Pôncio Pilatos e ascendido aos céus. “Mas”, disse São Jerônimo, “embora pretendessem ser ao mesmo tempo judeus e cristãos, não eram nem uma coisa nem outra”. Consultando as mais altas autoridades da Igreja Católica Romana, vemos que o título de Nazareno, aplicado ao Cristo, só ocorre uma vez na versão da Bíblia feita por Douai, e esta autoridade declara que o termo “Jesus Nazareno” foi uniformemente traduzido como “Jesus de Nazaré”, o que representa um erro de tradução, sendo a forma correta “Jesus, o Nazareno”. Em nenhuma parte do Velho Testamento existe a palavra Nazaré descrevendo uma cidade existente na Palestina, mas no Novo Testamento encontramos referências a Jesus regressando a uma cidade chamada Nazaré. Estas referências resultam da tradução da frase “Jesus voltando aos Nazarenos” para “Jesus retomando a Nazaré”. Um ponto interessante é reforçado pelas autoridades católicas romanas, que dizem que Jesus, embora fosse comumente chamado de Nazareno, não pertencia absolutamente àquela seita. Reunindo os registros judaicos e católicos romanos e comparando-os com as informações contidas em nossos próprios registros, verificamos que os nazarenos constituíam uma seita de judeus que, embora tentasse seguir os antigos ensinamentos judaicos, acreditava na vinda do Messias, que nasceria de maneira singular e seria o Salvador de sua raça. Depois de iniciado o ministério de Jesus, esses Nazarenos aceitaram Jesus como o Messias e também as doutrinas que Ele pregava, ao mesmo tempo que continuavam a tentar seguir muitos fundamentos de sua religião judaica. Os registros judaicos afirmam que os Nazarenos rejeitaram Paulo, o Apóstolo dos Gentios, e que alguns Nazarenos só exaltavam em Jesus o fato de ser um homem justo. (LEWIS, 2001, p. 57-60) Para efeito de argumentação, vamos conceder o benefício da dúvida e admitir que Mateus estivesse com falhas mentais (pois ele era contemporâneo de Jesus e que quando teoricamente escreveu o seu evangelho, logicamente já tinha mais de 80 anos) e com isso não se lembrou ou “confundiu” que Nazaré (a cidade) não existia quando Jesus nasceu, mas tão somente o lago de Genesaré. Entretanto, como Mateus pode ter “confundido”, novamente, Nazareno (nascido em Nazaré) com Nazireu (de Nazir), que é um judeu que tomou os votos de sacrifícios especiais, de não beber vinho, não comer uvas e não cortar os cabelos, que não era o caso de Jesus, pois Jesus era essênio, e como tal era adepto da eucaristia, do ritual do pão e do vinho, e comia uvas. Não podendo, por isso mesmo, ser um Nazireu. A profecia do Antigo Testamento a respeito do Nazireu, refere-se a Sansão e não a Jesus. Dessa forma, Mateus ao “confundir” a profecia do Antigo Testamento sobre Sansão, que era Nazireu, que não bebia vinho, não comia uvas e não cortava os cabelos, com Jesus, chamando-o de Nazareno, não é o que se pode dizer como um caso do acaso, quando a má fé e má intenção estão

43 bastante claras. Mas o pior de tudo é dizer que cumpriu-se a profecia do Antigo Testamento afirmando que o messias se chamaria Jesus, quando os nomes de “Jesus”, assim como Nazaré, sequer são citados no Antigo Testamento. [...] (MACHADO, 2004, p. 169) Nazareno Esse adjetivo significa “natural de Nazaré”. Essa palavra é usada no Novo Testamento referindo-se somente a Jesus, o qual tanto assim se chamou quanto foi chamado pelos outros. Ver Mat. 2:23, onde se lê que havia uma predição que dizia que Jesus seria chamado Nazareno. Mas a palavra também é usada no plural, em Atos 24:5, onde está em foco a seita dos “nazarenos”, isto é, os seguidores de Jesus. Isso mostra que Jesus foi chamado de “o nazareno” por parte de outras pessoas, amigas e inimigas, igualmente. Visto que o Antigo Testamento não menciona em parte alguma a cidade de Nazaré, ali também não se lê qualquer coisa sobre os possíveis nazarenos. Acresça-se a isso que alguns intérpretes têm confundido o significado de nazareno com o significado de nazireu (ver Núm. 6:1-21). No entanto, é possível que esteja em vista o termo hebraico netser, “ramo”, pois Jesus, em diversos trechos bíblicos é chamado de “renovo de Jessé”, ou seja, alguém pertencente à linhagem de Davi. […] O título Nazareno, ainda que para nós seja um título famoso, por causa de Jesus Cristo, nos dias dele geralmente era usado como termo de menoscabo (ver João 1:45 7:52). No plano terreno, Jesus não foi alguma árvore grandiosa, um filho reconhecido da casa real de Davi; mas tão somente um renovo de Jessé. No entanto, sua grande estatura espiritual finalmente propagou a sua fama pela terra inteira. Conforme dissemos acima, alguns comentadores relacionam a palavra “nazareno” aos indivíduos que, no Antigo Testamento, são chamados “nazireus” (ver Núm. 6:2; 12:18-20), os quais faziam certos votos difíceis de serem cumpridos, votos de consagração a Deus. Tais comentadores, pois, aplicam essa ideia a Cristo, imaginando que, na qualidade de nazareno, ele teria o mesmo propósito que tinham os nazireus. Assim interpretam Tertuliano, Jerônimo, Erasmo, Calvino e outros intérpretes modernos. Mas, a despeito dessa interpretação envolver uma aplicação útil, não parece que Mateus quisesse destacar tal coisa, em 2:23 de seu evangelho. Acrescente-se a isso que, tanto no hebraico quanto no grego, nazareno e nazireu têm grafia diferente. Também há alguma razão na interpretação que diz que Jesus seria desprezado, como habitante da obscura cidade de Nazaré. Todavia, não parece ser isso o que o autor sagrado quis destacar nessa passagem. O que ele realmente queria era mostrar que Jesus pertencia à família de Jessé, como o Renovo de Davi, e, secundariamente, que o lugar onde Jesus residiu como criança, e onde também deu início ao seu ministério, fora escolhido por Deus, apesar das diversas circunstâncias que poderiam ter servido de obstáculo a esse ministério. Quanto à expressão “Jesus de Nazaré”, ver Marc. 10:47; Luc. 24,19. Os espíritos imundos assim chamaram a Jesus (Mar. 1:24; Luc. 4:34), tal como o fizeram os anjos que anunciaram a sua ressurreição (Mar. 16:6). É os trechos de Mat. 26:71 e Mar.14:67 mostram que essa expressão foi usada pejorativamente pelos inimigos de Jesus. E acabou sendo dada, como apelido de menosprezo à comunidade cristã (Atos 24:5). E Jesus continuou a ser vinculado a Nazaré, mesmo após a sua ressurreição, pelos seus discípulos (ver Atos 2:22; 3:6; 10:38). (CHAMPLIN e BENTES, vol. 4, 1995d, p. 465). Após a morte de Herodes, novamente funciona a mediunidade onírica de José: em sonhos um anjo manda-o regressar à “terra de Israel”, como ainda hoje se diz: +, José obedeceu de imediato e (segundo Mateus) dispunha-se a regressar a Belém, quando “ouve dizer” que lá governava Arquelau, filho de Herodes. Instala-se nele o medo. Realmente, à morte de Herodes (4 A. C. ) Arquelau tinha 18 anos; mas como os judeus se opuseram a seu reinado, revoltando-se por não ter sido deposto o sumo sacerdote Joasar, ele mandou matar 3.000 judeus (Josefo, Ant. Jud. XVII, 9, 1). Mas à noite, outro sonho esclarece-o, indicando-lhe que se dirija à Galileia, “a uma cidade chamada Nazaré”. Como estamos vendo, essa cidade constituía para Mateus uma “novidade” absoluta. Parece que José e Maria nem a conheciam. Como conciliar com as palavras de Lucas, de que eles eram da cidade de Nazaré, isto é, que lá tinham nascido e residiam normalmente? Teria sido mais fácil dizer que do Egito regressaram à sua cidade de Nazaré... pois lá eles possuíam casa, a oficina de carpinteiro de José, os parentes e amigos. Entretanto, Mateus desconhece tudo

44 isso, mostra-o desejoso de ir para Belém (fazer o quê?) e só o aviso .em sonho. o faz dirigir-se para Nazaré, como se fora um local que eles pisassem pela primeira vez. E ainda explica: “para que se cumprisse a profecia, que o chama NAZOREU”. Nem é “nazareno”... Esse gentilício é usado quatro vezes por Marcos e duas vezes por Lucas. Mas o próprio Mateus emprega duas vezes nazoreu, que é utilizado uma vez por Lucas, três vezes por João, e sete vezes por Atos. Eram assim chamados (nazoreus) os cristãos por volta do ano 60 (At. 24:5). O Talmud denomina Jesus o NOZRI, e chama os cristãos NOZRIM. Notemos que não há profecia alguma que diga dever o Messias ser chamado “nazareno” nem “nazoreu”. A única frase que poderia ser aplicada seria a de Isaías (11:1) quando diz que “do tronco de Jessé sairá um rebento, e de suas raízes sairá um renovo (= nezêr) que frutificará. E o Espírito de YHWH se deterá nele”. Tendo Mateus apresentado Jesus como o último rebento (o renovo) na genealogia, pode ter feito mentalmente uma aproximação, embora forçada. (PASTORINO, vol. 1, 1964, p. 90) A Palavra “Nazareno” aparece com mais frequência sob a forma “Nazoreu” (nâshôray e nazôraios, em hebr. e grego). Porém, não se confunda essa palavra com “nazireu”! Com efeito, nos evangelhos temos onze vezes a forma nazoreu (Mt. 2:23 e 26:71; João, 18:5,7, e 19:19; Atos, 2:22; 3:6; 4:10; 6:14; 22:8; 24:5 e 26:9) contra seis vezes a forma “nazareno” (Marc. 1:24; 10:47; 14:67 e 16:6, e Luc. 4:34 e 24:19). Mesmo neste local o texto de Mateus varia nos códices entre nazarenus (Vaticano e outros) e nazoreu (Sinaítico e outros). (PASTORINO, vol. 6, 1969, p. 129) Segundo João (episódio omitido nos sinópticos) Jesus se aproxima da malta e pergunta “A quem procuram”. A resposta é rápida: “Jesus, o nazoreu”. No original não está “nazareno”, forma que só aparece em Marcos (1:24, 10:47; 14:67 e 16:6) e Lucas (4:34 e 24:19). A forma “nazoreu” está em Mateus (2:23 e 26:71), em Lucas (18:37); em João (18:5 e 7 e em 19:19) e nos Atos (2:22; 3:6; 4:10; 6:14; 22:8; 24:5 e 26:9), podendo reler-se o que escrevemos no vol. 1. _______
(*) Passos estudados: Mt 26:47-56; Marc. 14:43-52; Lc 22.47-53; João, 18:2-12 (N. A.).

(PASTORINO, vol. 8, 1971, p. 70).

Levando-se em conta o que está aqui abordado, sobre esses dois pontos polêmicos, ficamos sem saber para que lado ir, pois se nem os especialistas se entendem, que dirá de nós simples mortais? Em princípio, mantemos a nossa opinião anterior, por parecer-nos que a maioria das informações tende mais para o que lá concluímos. Certamente, que jamais iremos impor a nossa maneira de pensar a quem quer que seja, pois se advogamos para nós o direito de livre pensar, somos, moralmente obrigados a dá-lo aos outros.

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A Fuga para o Egito
De todos os quatro evangelistas, apenas Mateus fala sobre esse episódio (2,13-23), que teria acontecido com a família de Jesus, cujo teor transcrevemos: “Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar’. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1)”. “Vendo, então, Herodes, que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos. Cumpriu-se, então, o que fora dito pelo profeta Jeremias: Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem! (Jer 31,15)”. “Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino’. José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Será chamado Nazareno”. (texto: Bíblia Sagrada, Ed. Ave Maria). Por que será que somente Mateus cita tal acontecimento? Achamo-lo por demais importante, para que fosse esquecido pelos outros três evangelistas. Ou será que tal episódio de fato não teria ocorrido? Questionamentos que saltam à nossa mente, que, por estar livre das imposições dogmáticas das religiões tradicionais, nos leva a aplicar integralmente o: “examinai tudo, retende o que é bom” (1Ts 5,21). Segundo Werner Keller (1909-1980), em seu livro E a Bíblia tinha razão... (p. 366), “inexiste prova histórica ou arqueológica da ‘fuga para o Egito’”, e para não ficar só nisso, acrescenta: “tampouco existe prova da estada de Jesus em Nazaré”. Vê-se que por aí já nos deparamos com esses dois espinhosos problemas. Alguns tradutores explicam essa narrativa como “um paralelo anterior na infância de Moisés, descrita pelas tradições rabínicas: segundo estas, quando o nascimento da criança foi anunciado, por meio de visões, ou por intermédio dos mágicos, o Faraó mandou chacinar as crianças recém-nascidas” (Bíblia de Jerusalém, p. 1705-1706). Com respeito à morte das crianças, conta-nos Keller:
[…] Assim, hoje em dia usa-se de um cuidado bem maior do que outrora na apreciação da historicidade do infanticídio de Belém e, antes, tende-se a considerar o relato em questão como uma tentativa, condicionada à mentalidade contemporânea que visa realçar a importância de Jesus, pelos meios usados na época (para tanto, existe ainda uma certa autenticidade histórica, representada pelas atitudes efetivamente tomadas por Herodes em sua contenda com os fariseus, por causa do Messias. Veja o fim do capítulo precedente. No entanto, há ainda mais. O relato do infanticídio de Belém estabeleceu um nexo entre Jesus e Moisés, pois também desse último a Bíblia conta como escapou, milagrosamente, de perseguições idênticas, sofridas por parte do faraó egípcio (Êxodo 1.15, 2.10) (KELLER, 2000, p. 366)

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Quando o anjo aparece a José, dizendo para ele e sua família voltarem para Israel “porque morreram os que atentavam contra a vida do menino”, notamos que isso não faz sentido, pois, no início, a referência que se faz é a Herodes; o correto seria então dizer “morreu” e não “morreram”. O primeiro aviso em sonho, José o segue fielmente; quando do segundo, demonstra receio de voltar para Judeia, lugar indicado pelo anjo. Isso não condiz com seu comportamento anterior, pois, pensando em deixar Maria, um anjo lhe aparece em sonho avisando que o filho que ela levava na barriga é “obra do Espírito Santo”, já que ele ouve a voz do anjo e não abandona Maria. Apesar de relatado, esse fato não se coaduna com a cultura machista daquela época. E até a bem pouco tempo atrás se isso acontecesse aqui em nossa sociedade mesmo a mulher seria, com certeza, repudiada. E duvidamos que um homem, pela cultura daquela época, ou mesmo dessa de pouco tempo atrás, descobrindo que sua futura mulher estivesse grávida e esse filho não fosse dele, ainda ficaria com ela... Se José teve receio de ir para a Judeia porque estava sendo governada por um filho de Herodes, então, por que motivo foi para a Galileia que também estava sendo governada por outro filho dele, no caso, Herodes Antipas? Não estaria correndo o mesmo risco? Observamos que a primeira vez que Mateus cita o nome de alguma cidade relacionada a Jesus, diz de Belém da Judeia, local onde nasceu. Quando do retorno do Egito fala que José não quis voltar para a Judeia, do que podemos concluir que deveria ser especificamente a cidade de Belém. Cidade essa que, segundo se deduz das narrativas desse evangelista, teria sido o local onde Jesus viveu até que fosse para o Egito; só após a sua volta é que passou a morar em Nazaré. Entretanto, Lucas deixa muito claro que Maria e José viviam em Nazaré (1,26; 2,4); foram a Belém para se alistar no recenseamento; lá nasceu o menino e terminado os dias de purificação, o levaram ao Templo, em Jerusalém, para cumprirem as prescrições da Lei: “todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor” (Ex 13,2.15), após o que “voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade” (Lc 2,39), afirmando, um pouco mais à frente, que “foi a Nazaré, onde tinha crescido” (Lc 4,16). É uma divergência para a qual não encontramos nenhuma explicação plausível, a não ser de que a razão poderia estar mesmo com Lucas, já que também Marcos dá a entender que Jesus, até o dia em que foi batizado por João Batista, morava em Nazaré (Mc 1,9) e que Mateus, seguindo o que acreditavam na época, procurou adaptar a pessoa de Jesus às profecias sobre o Messias; por isso teria modificado a descrição dos acontecimentos, para sustentar esse pensamento. Entretanto, conforme já informamos anteriormente, não existe prova arqueológica da estada de Jesus em Nazaré, permanecendo, portanto, essa dúvida. Que os bibliólatras nos desculpem, mas, após esse estudo, a visão que passamos a ter dessa passagem não é coisa de que irão gostar, com certeza. Primeiro, a “fuga” para o Egito é uma situação criada para tentar aplicar o que dizem ser uma profecia de Oseias. Entretanto, ao analisarmos a passagem citada (Os 11,1), percebemos claramente que ela nem mesmo é uma profecia; trata-se, na verdade, de uma coisa já acontecida. Observe que o verbo “chamar” está no pretérito; portanto, fato do passado. E mais a expressão “meu filho”, utilizada na passagem, se refere ao povo de Israel e não a uma pessoa em particular. Segundo, a matança das crianças justificaria uma outra profecia, agora de Jeremias (31,15). Só que, como acontecido com a anterior, essa passagem também não é uma profecia; está relacionada à tomada de Jerusalém por Nabucodonosor, rei da Babilônia, que leva o povo de Israel, que acabara de subjugar, cativo para o seu país; daí “o pranto de Raquel (sepultada em Ramá, perto de Belém) pelos filhos massacrados ou deportados pelos caldeus depois da destruição de Jerusalém em 596 a.C.,...”. (Bíblia Sagrada, Edições Paulinas, p. 1062). Terceiro, a ida para Nazaré foi forjada para relacioná-la ao cumprimento de mais uma outra profecia que teria sido dita por vários profetas. Entretanto, a realidade é bem outra, pois não há nenhuma profecia em que, pelo menos, um só profeta tenha dito: “Será chamado Nazareno”; é pura invenção do autor bíblico. Sabemos que, o que estamos dizendo poderá chocar alguns; entretanto, aos que, acima de tudo, buscam a verdade, será ouvido de bom grado. A verdade que entendemos, não necessita ser imposta a ferro e fogo; ao contrário, quando alguém quer, por todos os meios, fazer com que os outros aceitem a sua verdade, é porque, com certeza, não está com ela, pois

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a verdade é algo tão cristalino que não necessita de nada mais, a não ser que seja mostrada. Os sábios a sentirão, enquanto que os ignorantes a contestarão. O que nos conforta é que não estamos sozinhos nessa busca. Recentemente, encontramos um artigo, onde parte do texto tem a ver com o que estamos tratando aqui, do qual transcrevemos:
(...) E o segundo problema ainda mais grave, é que provavelmente Jesus não nasceu em Belém. ‘Há quase um consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu em Nazaré’, diz o padre Jaldemir Vitório, do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte... Assim como o nascimento em Belém, a terrível execução de recém-nascidos ordenada por Herodes e a fuga de Maria e José para o Egito também teriam sido uma ‘licença poética do texto’, dessa vez para simbolizar que Jesus é o novo Moisés – já que essa narrativa é bem semelhante ao que se contava da vida do patriarca bíblico”. ‘Isso não foi uma criação maquiavélica para glorificar Jesus, era apenas o estilo literário da época’, diz Vitório. (CAVALCANTE, 2002, p. 43) (grifo nosso).

Sobre Jesus ter nascido em Nazaré e não em Belém é um assunto que, certamente, merece um estudo específico, o que fizemos no texto: “Jesus de Belém ou de Nazaré?”.

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Bodas de Caná: o primeiro sinal
Esse é o título da passagem em que João narra o primeiro milagre de Jesus. Apesar de temos refletido muito sobre ela, ainda não tínhamos nenhuma explicação que justificasse a atitude de Jesus em transformar água em vinho, para embebedar os convidados da festa de que participava. Vejamos o episódio: “No terceiro dia, houve uma festa de casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava aí. Jesus também tinha sido convidado para essa festa de casamento, junto com seus discípulos. Faltou vinho e a mãe de Jesus lhe disse: - Eles não têm mais vinho! Jesus respondeu: - Mulher, que existe entre nós? Minha hora ainda não chegou. A mãe de Jesus disse aos que estavam servindo: - Façam o que ele mandar. Havia aí seis potes de pedra de uns cem litros cada um, que serviam para os ritos de purificação dos judeus. Jesus disse aos que serviam: - Encham de água esses potes. Eles encheram os potes até a boca. Depois Jesus disse: - Agora tirem e levem ao mestre-sala. Então levaram ao mestre-sala. Este provou a água transformada em vinho, sem saber de onde vinha. Os que serviam estavam sabendo, pois foram eles que tiraram a água. Então o mestre-sala chamou o noivo e disse: - Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora. Foi assim, em Caná da Galileia, que Jesus começou seus sinais. Ele manifestou a sua glória, e seus discípulos acreditaram nele. Depois disso, Jesus desceu para Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos. E aí ficaram apenas alguns dias”. (Jo 2,1-12). Ao lermos essa passagem, podemos achar que Jesus tenha faltado com respeito à sua mãe quando diz: “Mulher, que existe entre nós? Minha hora ainda não chegou”. Hoje, se usássemos a expressão “mulher”, talvez pensaríamos ser mesmo um desprezo, entretanto, naquela época correspondia à palavra “senhora”, com que, atualmente, tratamos com respeito as mulheres. Jesus não estava negando qualquer relação entre Ele e sua mãe. A explicação que encontramos foi que o sentido seria “em si nós nada temos a ver com esta falta de vinho. Minha hora de fazer milagres ainda não chegou. Contudo, a teu pedido, antecipo esta hora” (Bíblia Sagrada Ave Maria, p. 1385). Mas qual é o verdadeiro sentido dessa passagem? Nós o vamos encontrar no que a pessoa encarregada da festa disse para o noivo: Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora.

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Considerando que, com esse primeiro ato público, Jesus inicia a sua missão, podemos dizer que o “vinho bom guardado até agora” são os ensinamentos de Jesus, superiores aos recebidos anteriormente, por meio de Moisés que seria simbolicamente o vinho de pior qualidade,. Até mesmo porque, e sem querer desmerecê-los, a humanidade daquela época não estava preparada para receber vinho de melhor qualidade, se assim podemos nos expressar. O que podemos confirmar com o que, por várias vezes, foi dito por Jesus: “aprendeste o que foi dito, eu porém vos digo”, deixando-nos bem claro que os ensinamentos anteriores não eram, daquele momento em diante, suficientes para “encher” o coração dos homens da verdade do Pai. Fatos que nos levam à conclusão de que Jesus veio trazer coisas novas. Os fariseus ficavam inconformados por Jesus não seguir as prescrições da Lei Mosaica, ao que obtiveram como resposta: “Não se coloca remendo de pano novo em pano velho, nem vinho novo em odres velhos” (Mt 9,16-27). Podemos ainda trazer como apoio a isso: “Em comparação com esta imensa glória, o esplendor do ministério da antiga aliança já não é mais nada” (2Cor 3,10), e “Dessa maneira é que se dá a ab-rogação do regulamento anterior em virtude de sua fraqueza e inutilidade – a Lei, na verdade, nada levou à perfeição – e foi introduzida uma esperança melhor pela qual nos aproximamos de Deus” (Hb 7,18-19). Assim, não temos dúvida alguma quanto à superioridade dos ensinamentos de Jesus, principalmente se entendermos o sentido dessa passagem como o que estamos propondo.

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João Batista é mesmo Elias?
Pelo fato de não aceitarem a reencarnação, muitas pessoas têm defendido a tese de que João Batista não teria sido Elias em nova encarnação. Evidentemente, partem de uma interpretação pessoal, completamente associada ao dogmatismo religioso em que vivem, resultando em algo que pouco ou nada tem a ver com os textos bíblicos. Faremos um estudo para ver qual é a realidade, esperando responder à pergunta inicial; mas, como sempre, em relação a esses, de quem falamos, não alimentamos a mínima pretensão de demovê-los de suas ideias com o que resultar desse estudo. A única coisa que irá modificar-lhes o pensamento será, por ironia do próprio destino, só mesmo a reencarnação, já que ela é uma lei natural, que não pergunta a ninguém se nela crê ou não, para que lhe sujeite e se cumpra o “é necessário nascer de novo” (Jo 3,3). Vamos analisar algumas passagens bíblicas para elucidar o caso. O povo hebreu esperava a volta de Elias, confiante nas duas profecias do Antigo Testamento, que afirmam sobre o seu retorno. Propositalmente, as colocaremos na ordem inversa, ou seja, da mais nova para a mais antiga. Leiamo-la: Eclo 48,10: “tu que foste designado nas ameaças do futuro, para apaziguar a cólera antes do furor, para reconduzir o coração dos pais aos filhos e restabelecer as tribos de Jacó”. Nos versículos 1 a 12 do capítulo 48 do livro Eclesiástico, escrito por volta do ano 200 a.C., está-se falando de Elias; então, a afirmativa de que “foste designado nas ameaças do futuro” refere-se a uma profecia a respeito da volta de Elias. Na sequência, diz-se que um dos objetivos de sua volta seria “para reconduzir o coração dos pais aos filhos”, exatamente o que iremos ver o anjo Gabriel afirmando a Zacarias sobre o personagem João Batista (Lc 1,14-18). E, certamente, corrobora o que encontramos em Malaquias (Ml 3,22-24[2]), que lhe é anterior, contendo essa mesma afirmação, conforme veremos um pouco adiante. E o versículo 11 inicia afirmando “Felizes os que te virem...”, o que dá conotação de algo a acontecer no futuro. A segunda passagem, onde, na verdade, se encontra a primeira profecia, está no último livro do A.T, que é o de Malaquias, que, segundo pudemos levantar, viveu cerca de 400 anos a.C. (Dicionário Prático - Barsa, p. 165); assim ele disse: Ml 3,1: “Vejam! Estou mandando o meu mensageiro para preparar o caminho à minha frente. De repente, vai chegar ao seu Templo o Senhor que vocês procuram, o mensageiro da Aliança que vocês desejam. Olhem! Ele vem! - diz Javé dos exércitos”. Mais à frente, esse mensageiro é identificado, no mesmo texto do próprio profeta Malaquias: Ml 3,23-24 ou 4,5-6: “Vejam! Eu mandarei a vocês o profeta Elias, antes que venha o grandioso e terrível Dia de Javé. Ele há de fazer que o coração dos pais voltem para os filhos e o coração dos filhos para os pais; e assim, quando eu vier, não condenarei o país à destruição total”. O passo seguinte é quando, no tempo de Herodes, rei da Judeia, um sacerdote chamado Zacarias recebe a visita de um anjo, que lhe anuncia que sua mulher Izabel, apesar de estéril, daria a luz a uma criança, cujo nome deveria ser João (Lc 1,5-13); caracterizando essa criança, o anjo Gabriel declara a Zacarias: Lc 1,15-18: “[...] ele vai ser grande diante do Senhor. Ele não beberá vinho, nem
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Em algumas traduções bíblicas essa passagem é citada como Ml 4,4-6.

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bebida fermentada e, desde o ventre materno, ficará cheio do Espírito Santo. Ele reconduzirá muitos do povo de Israel ao Senhor seu Deus. Caminhará à frente deles, com o espírito e o poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, preparando para o Senhor um povo bem disposto”. Afirmando que a criança virá “com o espírito e o poder de Elias”, se usa da linguagem de época, para confirmar que aquela criança seria o espírito de Elias reencarnado. Isso se confirma quando, na sequência, é dito “a fim de converter os corações dos pais aos filhos”, exatamente como consta em Eclesiástico (Eclo 48,10) e como também disse Malaquias na profecia que anteriormente citamos (Ml 3,22-24 ou 4,4-6), na qual também se afirma categoricamente que Elias haveria de voltar: “eu mandarei a vocês o profeta Elias”. No dia em que o menino foi levado para ser circuncidado, Zacarias, mudo por castigo imposto pelo anjo, escreve, numa tábua, o nome que deveria ser dado a seu filho: João. Fez isso porque queriam dar à criança o mesmo nome do pai ou de algum parente. Logo após, Zacarias profetiza dizendo várias coisas (Lc 1,67-79), e dentre elas destacamos: Lc 1,76-77: “E a você, menino, chamarão profeta do Altíssimo, porque irá à frente do Senhor, para preparar-lhe os caminhos, anunciando ao seu povo a salvação e perdão dos pecados”. Isso confirma, primeiro, a profecia anterior de Malaquias e, segundo, o que o anjo Gabriel havia dito a Zacarias, como para não deixar dúvidas de quem era aquele menino, embora, nos dias de hoje, haja os que, por puro dogmatismo, não enxergam isso. Na narrativa, em que se relata o início da pregação de João Batista, lemos: Lc 3,3-6: “E João percorria toda a região do rio Jordão, pregando o batismo de conversão para o perdão dos pecados, conforme está escrito no livro do profeta Isaías: ‘Esta é voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas. Todo vale será aterrado, toda a montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de Deus’”. Como se nota, João, mais uma vez, está sendo relacionado a uma profecia a respeito da vinda do Mensageiro. Mais à frente, João Batista é preso por Herodes, e da prisão, envia seus discípulos a Jesus. Logo após esse encontro de Jesus com os discípulos de João, ele, o Mestre, em se referindo à “voz que clama no deserto” diz: Mt 11,7-15: “O que é que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que vocês foram ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas aqueles que vestem roupas finas moram em palácios de reis. Então, o que é que vocês foram ver? Um profeta? Eu lhes afirmo que sim: alguém que é mais do que um profeta. É de João que a Escritura diz: 'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti'. Eu garanto a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino do Céu é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora, o Reino do Céu sofre violência, e são os violentos que procuram tomá-lo. De fato, todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. E se vocês o quiserem aceitar, João é Elias que devia vir. Quem tem ouvidos, ouça”. Na afirmação de que “é de João que a Escritura diz”, Jesus está relacionando João Batista exatamente à profecia de Malaquias a respeito do envio do mensageiro (Ml 3,1), identificado pelo próprio profeta como sendo Elias (Ml 3,22-24), conforme já vimos. Há, aqui, uma frase que nunca vimos ninguém comentar; entretanto, ela é muito singular. Estamos falando da frase: “Desde os dias de João Batista até agora”, expressão que, por lógica, só faria sentido se João Batista não fosse contemporâneo de Jesus. Mas acreditamos que é realmente isso que Jesus, de forma figurada, está afirmando o que, em outras palavras, poderia ser dito assim: “Desde os dias de Elias até agora”, já que, na

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sequência, ele arremata claramente que João é Elias, aquele mesmo que havia de vir. Na certeza de que muitos não acreditariam, completa: “quem tem ouvidos, ouça”, ou seja, quem quiser acreditar que acredite: João Batista é mesmo o Elias reencarnado. Vale também observar que Jesus nunca impôs sua maneira de pensar a ninguém, exemplo que muitos não se preocupam e nem fazem questão de seguir; principalmente, aqueles que tentam incutir na cabeça dos outros suas interpretações pessoais dos textos bíblicos; seriam eles os falsos profetas de quem Jesus sempre falava? Em Mt 7,21-23 Ele nos dá algumas pistas sobre quem poderiam ser esses falsos profetas: usariam o nome dele para: (1) profetizar; (2) expulsar demônios e (3) fazer muitos milagres. Será que é de alguns líderes religiosos atuais que Jesus está se referindo? Fica a resposta por sua conta, caro leitor. Como explicar que João Batista seja o maior de todos os homens, mas que no “Reino do Céu” ele é o menor? Somente com a possibilidade de evolução individual de cada um de nós. Se isso não for verdade, haveremos de, forçosamente, acreditar que Deus age com parcialidade, contrariando a afirmação de que “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34), o que faria de Sua “justiça” uma justiça por demais humana, privilegiando algumas pessoas em detrimento de outras. Em outra passagem Jesus volta, novamente, a afirmar sobre João ser Elias. Ei-la: Mt 17,1-13: “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, os irmãos Tiago e João, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou diante deles: o seu rosto brilhou como o sol, e as suas roupas ficaram brancas como a luz. Nisso lhes apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra, e disse a Jesus: ‘Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias’. Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra, e da nuvem saiu uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz’. Quando ouviram isso, os discípulos ficaram muito assustados, e caíram com o rosto por terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: ‘Levantem-se, e não tenham medo’. Os discípulos ergueram os olhos, e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes: ‘Não contem a ninguém essa visão, até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos’. Os discípulos de Jesus lhe perguntaram: ‘O que querem dizer os doutores da Lei, quando falam que Elias deve vir antes?’ Jesus respondeu: ‘Elias vem para colocar tudo em ordem. Mas eu digo a vocês: Elias já veio, e eles não o reconheceram. Fizeram com ele tudo o que quiseram. E o Filho do Homem será maltratado por eles do mesmo modo’. Então os discípulos compreenderam que Jesus falava de João Batista”. Transcrevemos a passagem por completo para podermos melhor explicá-la. Os espíritos Moisés e Elias aparecem no monte Tabor e conversam com Jesus, fato que Pedro, Tiago e João testemunham (e ainda dizem que os mortos não se comunicam...). Os discípulos, lembrandose das profecias a respeito da volta de Elias, ficam intrigados; daí pensaram: se Elias está aqui, então como na Escritura é dito que ele voltaria? Em consequência pedem uma explicação a Jesus: “O que querem dizer os doutores da Lei, quando falam que Elias deve vir antes?”. A resposta de Jesus sobre isso é categórica: “Elias já veio, e eles não o reconheceram”. Fato que por si só se explica porque o espírito que animou Elias esteve reencarnado como João Batista; entretanto, nem todos o reconheceram. É por isso que no texto consta “eles”, os doutores da Lei, e não “ninguém”, que abrangeria o desconhecimento por parte de todo mundo, inclusive dos apóstolos, de que João era Elias. Quanto aos apóstolos, podemos dizer que apenas queriam essa confirmação por parte de Jesus, pois já supunham que João era mesmo Elias, já que não teriam feito essa pergunta se não cressem na reencarnação. Será interessante vermos essa passagem pela narrativa de Marcos; leiamo-la: Mc 9,1-13: “E Jesus dizia: 'Eu garanto a vocês: alguns dos que estão aqui, não morrerão sem ter visto o Reino de Deus chegar com poder'. Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma lavadeira no mundo as poderia alvejar. Apareceram-lhes Elias e Moisés, que conversavam com Jesus. Então Pedro tomou a

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palavra e disse a Jesus: 'Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias'. Pedro não sabia o que dizer, pois eles estavam com muito medo. Então desceu uma nuvem e os cobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: 'Este é o meu Filho amado. Escutem o que ele diz!' E, de repente, eles olharam em volta e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao descerem da montanha, Jesus recomendou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles observaram a recomendação e se perguntavam o que queria dizer 'ressuscitar dos mortos'. Os discípulos perguntaram a Jesus: 'Por que os doutores da Lei dizem que antes deve vir Elias?' Jesus respondeu: 'Antes vem Elias para colocar tudo em ordem. Mas, como dizem as Escrituras, o Filho do Homem deve sofrer muito e ser rejeitado. Eu, porém, digo a vocês: Elias já veio e fizeram com ele tudo o que queriam, exatamente como as Escrituras falaram a respeito dele'". Será que o “ressuscitar dos mortos” aí equivale a reencarnar? Os discípulos discutiam sobre o que queria dizer “ressuscitar dos mortos” e, ao que parece, não chegaram a um denominador comum; assim, querendo um esclarecimento, perguntam a Jesus sobre a volta de Elias. Obviamente, como estavam conversando sobre ressurreição dos mortos, e nessa conversa sai o nome de Elias, é porque, certamente, tinham Elias como morto e não como um arrebatado. Muito interessante o que pudemos ver quanto ao teor do versículo 13, em duas outras traduções bíblicas bem antigas. Na Bíblia Paulinas (1957) e na Bíblia Barsa (1965), nesse verso consta o seguinte: Mc 9,13: “Mas digo-vos que Elias já veio (e fizeram dele quanto quiseram) como está escrito dele”. A diferença entre os textos bíblicos pode ter sido porque o que está aqui entre parênteses é, certamente, uma glosa. Conforme o Dicionário Bíblico, glosa “são os acréscimos feitos a um texto para explicá-lo, corrigi-lo e adaptá-lo. De modo geral colocados à margem pelos autores, as glosas são progressivamente inseridas no texto até pelos próprios copistas”. (MONLOUBOU e DU BUIT, 1997, p. 328). Assim, temos o texto original, sem a glosa: “Mas digo-vos que Elias já veio como estava escrito dele”, ou seja, corrobora as duas profecias, já citadas. Embora tudo isso quanto colocamos, até aqui, seja claro aos que não estão encabrestados por sua liderança religiosa, ainda continuarão aparecendo dogmáticos com argumentos contrários a essa verdade bíblica, colocando Jesus como mentiroso, já que foi Ele quem disse que João era Elias, e não nós, os Espíritas, fato que não há como contestar. Falta-nos ainda fazer uma análise da passagem que relata a morte de João Batista; é o que faremos agora; mas, primeiro, leiamo-la: Mt 14,7-11: “Então Herodes prometeu com juramento que lhe daria tudo o que ela pedisse. Pressionada pela mãe, ela disse: 'Dê-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista'. O rei ficou triste, mas por causa do juramento na frente dos convidados, ordenou que atendessem o pedido dela, e mandou cortar a cabeça de João na prisão. Depois a cabeça foi levada num prato, foi entregue à moça, e esta a levou para a sua mãe”. Considerando que a reencarnação está diretamente associada à lei de causa e efeito, a morte de João Batista é mais um fato que se ajusta ao nosso conjunto de provas, pois ele morreu exatamente da mesma forma que, quando estava encarnado como Elias, fez perecer os sacerdotes de Baal: teve a cabeça cortada. Vejamos o relato: 1Rs 18,40: “Então Elias disse a eles: ‘Agarrem os profetas de Baal. Não deixem escapar nenhum’. E eles os agarraram. Elias fez os profetas de Baal descer até o riacho Quison, e aí os degolou”. 1Rs 19,1: “Acab contou a Jezabel o que Elias tinha feito e como tinha matado a fio de espada todos os profetas”.

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E para que ninguém diga que a lei de causa e efeito não é bíblica, como ao gosto dos dogmáticos, apresentamos para sustentação do nosso entendimento as seguintes passagens: Jó 4,8: “Pelo que eu sei, os que cultivam injustiça e semeiam miséria, são esses que as colhem”. Jo 8,34: “Jesus respondeu: ‘Eu garanto a vocês: quem comete o pecado, é escravo do pecado’”. Mt 26,52): “Jesus, porém, lhe disse: ‘Guarde a espada na bainha. Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão’”. Gl 6,7: “Não se iludam, pois com Deus não se brinca: cada um colherá aquilo que tiver semeado”. Há uma passagem em que Jesus ressalta a lei de causa e efeito ao estabelecer uma correlação entre a doença de uma pessoa como consequência de, anteriormente, ter “pecado”. É o caso de um paralítico, que assim se encontrava há trinta e oito anos, que foi curado num dia de sábado. Pouco tempo depois Jesus o encontra no templo e lhe diz: “Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior” (Jo 5,14). Não resta dúvida que, perante essa fala de Jesus, podemos concluir que a paralisia desse homem estava diretamente relacionada a um “pecado” cometido por ele, embora, pelo texto não dê para sabermos se foi ou não de uma outra vida. Jesus ainda lhe adverte que se pecar outra vez a doença poderá ser pior, reafirmando essa lei. Vamos agora analisar as principais objeções que se levantam contra João Batista ser Elias reencarnado. Iremos dividi-las em dois grupos; um específico quanto a essa questão e o outro mais genérico, onde argumentam contra a reencarnação, dizendo que não é bíblica e que Jesus nunca pregou tal coisa. Convém ressaltar que as genéricas, não raro, têm sido usadas como rota de fuga e de compensação, perante a inocuidade das objeções específicas. 1 - Elias não poderia ter reencarnado porque não morreu, mas foi arrebatado.
Se João, o Batista, fosse mesmo Elias reencarnado, Elias teria de ter morrido para reencarnar. Ora, sabemos que Elias nunca morreu, pois foi arrebatado vivo ao céu (2Rs 2,11). Perguntamos aos espíritas qual o texto da Bíblia que confirma a morte de Elias? A resposta é: nenhum. Elias não morreu. Será que os espíritas aceitariam a Bíblia como um livro inspirado, ou vão torcer o significado do texto?

O grande problema é que muitas pessoas acreditam piamente em tudo que consta da Bíblia, como se, realmente, ela fosse, “capa a capa”, de inspiração divina. Certamente, o seria se não houvesse nela a mínima contradição; no entanto, podemos ver que elas existem; mas só percebem isso os que estão livres das “viseiras dogmáticas”. No presente caso, acontecem várias. Vejamo-las: a) Gn 3,19: “[...] tu és pó e ao pó tornarás”. Elias, caso tivesse sido arrebatado, não teria voltado ao pó conforme o que Deus estabeleceu aqui nessa passagem como coisa que acontecerá a todo ser humano. b) 1Cor 15,50: “Isto afirmo, irmãos, que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, [...]”. Se Elias foi arrebatado, certamente que foi para o reino dos céus no corpo físico, ou seja, com sua carne e seu sangue, fato que vem contrariar o que está aqui dito nesse passo. c) Jo 3,13: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do homem”. Se o arrebatamento de Elias for verdadeiro, então ele subiu ao céu, e antes do que Jesus, o que contradiz essa fala de Jesus, que foi a única pessoa que havia subido ao céu, e ninguém mais, conforme suas próprias palavras. d) Hb 9,27: “[...] aos homens está ordenado morrerem uma só vez [...]”.

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Se Elias não morreu - nem uma única vez -, fica evidente que essa passagem não se cumpriu. e) At 10,34: “[...] Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; [...]”. Explica-nos o Houaiss que acepção é: “escolha, predileção por alguém; inclinação, tendência em favor de pessoa(s) por sua classe social, privilégios, títulos etc.”. Consequentemente, se o tal do arrebatamento aconteceu a Elias, há evidente contradição com o texto aqui citado. E, por outro lado, considerando que Tiago disse que “Elias é homem fraco como nós” (Tg 5,17), qual seria então, a razão desse suposto privilégio de Elias, já que ele é igual a nós? f) Jo 6,63: “O espírito é que vivifica; a carne para nada aproveita; [...]”. Na possibilidade de Elias ter sido arrebatado, ele foi “em carne” para o mundo espiritual; mas isso é estranho em função do “a carne para nada se aproveita”; porquanto, nessa passagem, fica claro que o Espírito é que é o mais importante. g) Jo 4,24: “Deus é Espírito, [...]”. Agora, sim, é que as coisas se tornaram mais incoerentes, uma vez que Deus, sendo espírito - essa é a nossa semelhança para com Ele -, certamente vive em seu reino nessa condição. Entretanto, Elias teria que viver em corpo físico, caso tivesse sido arrebatado. Se for verdade o que disse Jesus, de que o “reino dos céus está dentro de vós” (Lc 17,21), então ele não é um lugar, mas um estado de consciência, ficando, portanto, sem qualquer sentido alguém ser arrebatado fisicamente. h) 2Cr 21,12: “Então lhe chegou às mãos uma carta do profeta Elias”. Nesse livro, o de Crônicas, está se afirmando que Elias envia uma carta a Jorão (forma abreviada de Jeorão), fato que comprova que ele não foi arrebatado coisíssima nenhuma, uma vez que o envio dessa carta aconteceu cerca de dez anos depois do seu suposto arrebatamento, o que comprovamos com: “De acordo com a cronologia de 2Rs, Elias tinha desaparecido antes do reinado de Jorão de Israel (2Rs 2; 3,1) e, portanto, antes de Jorão de Judá (2Rs 8,16; cf. no entanto 2Rs 1,17)” (Bíblia de Jerusalém, p. 607). A não ser que o correio daquela época não tenha sido tão eficiente quanto o atual e tenha atrasado a entrega dessa carta. Ainda temos o tradutor Russell P. Shedd (1929- ), teólogo evangélico, que assim tenta explicar o passo 2Cr 21,12:
Elias já havia subido aos céus antes da entrega da sua carta (cf. 2Rs 3,11), que soaria como uma voz de condenação vinda do além. Elias talvez profetizara os crimes de Jeorão, com os castigos que lhe sobreviriam, à sua família e à sua nação. Elias, também, foi formidável oponente de Jezabel, mãe de Atalia, e sogra de Jeorão. (Bíblia Shedd, p. 640) (grifo nosso).

A sua hipótese de que a carta “soaria como uma voz de condenação vinda do além” é, para nós, algo inusitado saindo da boca de um evangélico. Com apenas a informação de que “Elias já fora trasladado ao céu quando esta carta foi entregue a Jeorão”. (Bíblia Anotada, p. 586), sem maiores considerações, para, talvez, não terem que admitir o que Shedd coloca como uma possibilidade. É em 2Rs 2,11 que se narra o suposto arrebatamento de Elias, fato que causa divergência mesmo entre os teólogos; vejamos a opinião de uma equipe de tradutores católicos e protestantes: “O texto não diz que Elias não morreu, mas facilmente se pode chegar a essa conclusão” (Bíblia de Jerusalém, p. 509). 2 – No monte da transfiguração, quem apareceu foi Elias e não João Batista, como era de se esperar se João fosse a última encarnação de Elias.
Se João Batista fosse a reencarnação de Elias, aquele que teria aparecido no monte da transfiguração, deveria ser João Batista e não Elias (Mt 17,1-6). Pois

56 de acordo com a doutrina espírita: a última pessoa reencarnada é que deve aparecer.

Obviamente que, como um princípio geral, isso está certo; o que não se deve é generalizar, pois, de acordo com a Doutrina Espírita, o que acontece é isso: “Os Espíritos que se tornam visíveis se apresentam, quase sempre, sob as aparências que tinham quando vivos, e que pode fazê-los reconhecer”. (KARDEC, 1993h, p. 108). A expressão “quase sempre” retira o caráter genérico, abrindo a possibilidade de os espíritos apresentarem-se na forma em que as pessoas, às quais se dirigem, possam reconhecê-los; assim, “Podendo tomar todas as aparências, o Espírito se apresenta sob a que melhor o faça reconhecível, se tal é o seu desejo”. (KARDEC, 2007b, p. 146). Dessa forma, se o espírito apresentou-se como Elias e não como João Batista, é porque ele queria se fazer reconhecer como Elias e não como João; foi isso o que aconteceu. Portanto, pela Doutrina Espírita, há casos em que o espírito pode se manifestar com a aparência de qualquer outra encarnação, desde que tenha evolução moral para isso. O perispírito, como sendo o corpo espiritual, pode ser moldado à vontade do espírito, uma vez que ele possui entre suas propriedades a da plasticidade, que, com o poder do pensamento, permite ao espírito assumir uma outra aparência, mas sempre com a aparência de uma de suas encarnações. É o que se pode, inclusive tirar dessa fala de Kardec:
É assim, por exemplo, que um Espírito se faz visível a um encarnado que possua a vista psíquica, sob as aparências que tinha quando vivo na época em que o segundo o conheceu, embora haja ele tido, depois dessa época, muitas encarnações. Apresenta-se com o vestuário, os sinais exteriores - enfermidades, cicatrizes, membros amputados, etc. - que tinha então. Um decapitado se apresentará sem a cabeça. Não quer isso dizer que haja conservado essas aparências, certo que não, porquanto, como Espírito, ele não é coxo, nem maneta, nem zarolho, nem decapitado; o que se dá é que, retrocedendo o seu pensamento à época em que tinha tais defeitos, seu perispírito lhes toma instantaneamente as aparências, que deixam de existir logo que o mesmo pensamento cessa de agir naquele sentido. Se, pois, de uma vez ele foi negro e branco de outra, apresentar-se-á como branco ou negro, conforme a encarnação a que se refira a sua evocação e à que se transporte o seu pensamento. (KARDEC, 2007e, p. 323) (grifo nosso).

O perispírito, por ser totalmente maleável, terá a aparência que o espírito queira lhe dar, pela força do seu pensamento, conforme, por aqui, se confirma:
[…] Mas a matéria sutil do perispírito não possui a tenacidade, nem a rigidez da matéria compacta do corpo; é, se assim nos podemos exprimir, flexível e expansível, donde resulta que a forma que toma, conquanto decalcada na do corpo, não é absoluta, amolga-se à vontade do Espírito, que lhe pode dar a aparência que entenda, ao passo que o invólucro sólido lhe oferece invencível resistência. Livre desse obstáculo que o comprimia, o perispírito se dilata ou contrai, se transforma: presta-se, numa palavra, a todas as metamorfoses, de acordo com a vontade que sobre ele atua. Por efeito dessa propriedade do seu envoltório fluídico, é que o Espírito que quer dar-se a conhecer pode, em sendo necessário, tomar a aparência exata que tinha quando vivo, até mesmo com os acidentes corporais que possam constituir sinais para o reconhecerem. (KARDEC, 2007b, p. 81-82) (grifo nosso).

Quanto mais evoluído for um espírito, mais facilmente conseguirá dirigir sua vontade para moldar o perispírito na aparência que desejar. É o que Kardec nos explica:
[…] O Espiritismo nos faz compreender como podem os Espíritos achar-se entre nós. Comparecem com seu corpo fluídico ou espiritual e sob a aparência que nos levaria a reconhecê-los, se se tornassem visíveis. Quanto mais elevados são na hierarquia espiritual, tanto maior é neles o poder de irradiação. É assim que possuem o dom da ubiquidade e que podem

57 estar simultaneamente em muitos lugares, bastando para isso que enviem a cada um desses lugares um raio de suas mentes. (KARDEC, 2007c, p. 416) (grifo nosso).

No caso de João Batista, Jesus disse que entre os nascidos de mulher ele era o maior, assegurando, portanto, sua condição de espírito evoluído, embora Tiago tenha dito o contrário, fato que já citamos. 3 - A Bíblia fala que João Batista teve um ministério parecido com o de Elias (Lc 1,17). Este versículo será completamente esclarecido se comparado com a história de Elias e Eliseu (2Rs 2,9-15).
João Batista cumpriu funcional e profeticamente o ministério de Elias, pois entendemos o texto da seguinte maneira: João Batista, deveria fazer o seu ministério dentro do espírito ministerial de Elias (Ml 4,5-6; Lc 1,17). Em relação ao versículo que diz que João Batista ia no espírito de Elias (Lc 1,17), a Bíblia não diz que João Batista ia com o espírito de Elias. Existe uma grande diferença entre ir no espírito e ir com o espírito de Elias. A palavra no significa no mesmo ímpeto, semelhante. Para provar essa colocação, vamos ver como João Batista e Elias eram semelhantes. JOÃO BATISTA Perseguido por uma mulher (Herodias) e por um rei (Herodes). (Mt 14,3-5 e Mc 6,18-20) Usava uma capa de pelos. (Mt 3,4) Era intrépido. (Lc 3,7) Foi o último profeta. (Lc 16,16) ELIAS Foi perseguido por uma mulher (Jezabel) e por um rei (Acabe). (1Rs 19,1-3 e 1Rs 21,20) Usava também uma capa. (1Rs 19,19) Também era intrépido. (1Rs 18,27) Simboliza os profetas.

De doze livros bíblicos consultados [3], apenas quatro deles usam o “no”, o que, em termos percentuais, representa apenas 33% do total. Consequentemente, na maioria consta o termo “com”, e se nisto prevalecer a voz da maioria, então o argumento aqui enfocado cai por terra. Quanto à questão de ministério semelhante, é apenas uma tentativa inepta para que não fique evidenciada a ideia da reencarnação, uma vez que não é isso o que consta da Bíblia e nem mesmo poder-se-ia interpretar a passagem dessa maneira, uma vez que Jesus não deixou dúvidas ao dizer que “João é Elias que devia vir”. Se a intenção da profecia fosse mesmo indicar um “profeta semelhante”, bastaria a Malaquias usar a mesma expressão empregada em Dt 18,18, onde se diz: “Suscitarei um profeta semelhante a ti”. Por outro lado, se, às vezes, argumentam a não existência da reencarnação, pois essa palavra não consta da Bíblia, pelo mesmo motivo podemos aplicar à palavra “ministério”, que se usou na frase: “A Bíblia fala que João Batista teve um ministério parecido com o de Elias”. Ademais os que usam desse argumento e acreditam na Trindade, apenas provam falta de coerência ou, quiçá, excesso de esperteza em utilizar apenas de passagens que lhes convém. Vejamos agora a mencionada história de Elias e Eliseu: 2Rs 2,9-15: “Depois que passaram o rio, Elias disse a Eliseu: ‘Peça o que você quiser, antes que eu seja arrebatado da sua presença’. Eliseu pediu: ‘Deixe-me como herança dupla porção do seu espírito’. Elias disse: ‘Você está pedindo uma coisa difícil. Em todo caso, se você me enxergar quando eu for arrebatado da sua presença, isso que pede lhe será concedido; caso contrário, não será concedido’. E, enquanto estavam andando e conversando, apareceu um carro de fogo com cavalos de fogo, que os separou um do outro. E Elias subiu ao céu no redemoinho. Eliseu olhava e gritava: ‘Meu pai! Meu pai! Carro e cavalaria de Israel!’ Depois não o viu mais. Então Eliseu pegou sua própria túnica e a rasgou em duas partes. Pegou o manto de Elias, que havia caído, e voltou para a margem do Jordão. Segurando o manto de Elias, bateu com ele na água, dizendo: ‘Onde está Javé, o Deus de Elias?’ Bateu na água, que se dividiu em duas partes. E ele atravessou o rio. Ao vê-lo, os irmãos profetas, que estavam a certa
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Ver relação nas referências bibliográficas

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distância, comentaram: ‘O espírito de Elias repousa sobre Eliseu’. Então foram ao seu encontro, se prostraram diante dele”. Para o espírito de Elias repousar sobre Eliseu, há de ter havido a morte do tesbita. De igual modo vemos, nos dias de hoje, ocorrendo com inúmeras pessoas, esse fenômeno de espírito repousar, o que para nós não é outra coisa senão a influência de um espírito desencarnado sobre um encarnado. Mas exigir que àquela época entendessem dessa forma é pedir muito, com certeza. A relação das semelhanças, entre os dois profetas, está mais para se confirmar que João Batista é mesmo Elias do que para qualquer outra coisa. Por outro lado, a profecia de Malaquias é clara quanto à promessa do envio de Elias, pois o cita nominalmente, e não alguém semelhante a ele como mostramos, e nem Jesus disse que João era semelhante a Elias, como querem os dogmáticos, justamente para fugir sorrateiramente da ideia da reencarnação. 4 - João Batista disse claramente que não era Elias.
Em alguns passos parece haver uma combatemos tal ideia com a passagem bíblica: és, pois? És tu Elias? Ele disse: Não sou. És tu 1,21). Assim, é o próprio João Batista que nega ideia de reencarnação, mas “Então, lhe perguntaram: Quem o profeta? Respondeu: Não”. (Jo tal fato.

O que ocorre é que, quando o espírito passa a habitar um corpo físico, ele perde temporariamente a lembrança de suas outras vidas; daí ser perfeitamente normal a resposta negativa de João Batista à pergunta se ele era Elias. Por outro lado, aí ficaremos num dilema, pois em quem devemos acreditar: em Jesus que afirmou categoricamente que João Batista era Elias; ou no próprio João que disse não ser? De nossa parte estamos com Jesus, e pronto! Mas a lembrança de outras vidas pode surgir de uma hora para outra, o que, facilmente, poder-se-á confirmar lendo a obra do Dr. Ian Stevenson (1918-2007), Reincarnation and Biology : A Contribution to the Etiology of Birth Marks and Birth Defects, (Vol. I: Birthmarks, 1200 páginas e vol. II: Birth Defects and Other Anomalies, 1100 páginas) e a sinopse desse livro, Where Reincarnation and Biology Intersects: A Synops. Nessa obra o autor relata 225 casos de crianças que se lembraram de uma outra vida dos, nada menos, 2600 investigados por ele. A pesquisa do Dr. Stevenson, na opinião do pesquisador brasileiro, Dr. Hernani de Guimarães Andrade (1913-2003):
Pessoalmente, consideramos essa obra do Dr. Stevenson como uma das mais importantes e indiscutíveis evidências de apoio à ideia da reencarnação. É a culminação das investigações acerca de casos de reencarnação, devido à qual preconizamos vir a ocorrer dentro de poucos anos o total reconhecimento da reencarnação como uma lei biológica da natureza. (ANDRADE, 2000, p. 74) (grifo do original).

Os que se apegam demais à negação, não se dão conta de que, se naquele tempo não acreditassem que uma pessoa, que havia vivido, pudesse viver novamente num outro corpo, não haveria sentido nessa pergunta feita a João Batista, fato que comprova que, àquela época, se acreditava na reencarnação, um dos significados para a palavra ressurreição. E, para eles, o fato de Elias ter que voltar, inclusive num novo corpo, incontestavelmente era coisa pacífica no seio da população; isso porque, se assim não fosse, não teria havido razão para terem sido enviados sacerdotes e levitas para fazerem esse tipo de pergunta; veja o leitor que o povo tinha plena consciência da reencarnação, pois havia a certeza de que ele, João Batista, era a reencarnação de outro profeta, embora não tivessem a certeza de qual dos profetas ele era a reencarnação; daí a razão da pergunta, mandada a ele ser formulada: “ Tu és Elias?”. (Jo 1,21). Além disso, no Velho Testamento, temos um versículo que nos induz a concluir da existência de nossas vidas passadas: Sb 8,19-20: “Eu era um jovem de boas qualidades e tive a sorte de ter uma boa alma, ou melhor, sendo bom, vim a um corpo sem mancha”.

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(Sb 8,19-20), quanto à lembrança iremos usar dos argumentos do amigo de Jó, que lhe disse: “Somos de ontem, e nada sabemos” (Jó 8,9). E é óbvio que o contexto é outro, porém se refere a um passado remoto. É com ele que se pode explicar o porquê de João Batista ter negado ser Elias, pois não se lembrava de sua encarnação como o Tesbita. Entretanto, embora ele não soubesse quem ele foi em encarnação anterior, tinha plena consciência da missão que deveria cumprir (Jo, 1,23), ao afirmar que vinha realizar o que dissera Isaías (Is 40,3). Se João Batista não for mesmo Elias, então os cristãos que assim acreditam deveriam mudar de religião, já que é exatamente por esse motivo, ou seja, falta de cumprimento das profecias, que, para os judeus, Jesus não é o Messias e, por conseguinte, o judaísmo é que deveria ser a religião própria para abrigá-los. Já que, profeticamente, a vinda de Jesus teria que ser precedida da vinda de Elias, para anunciar a vinda do Messias. 5 – A alegação de que Elias seja João Batista não procede, tanto pelo contexto das Escrituras quanto pela pregação dele.
Quando o "Elias reencarnado" viu a Jesus, exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Para ele, que viria restaurar todas as coisas, é Jesus, e não nós através de sucessivas vidas, que pagamos o preço pelos nossos pecados. A revelação completa que hoje está na Bíblia confere com o que João Batista trouxe, hoje não precisamos mais oferecer cordeiros em expiação, Cristo, o Cordeiro de Deus, hoje, é a nossa páscoa (1Cor 5,7). Como os cordeiros do Velho Testamento expiavam os pecados?? Como eles deveriam ser?? Pedro responde em sua carta: "Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo" (1Pe 18,19).

Apesar de João Batista ter dito “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29), o fato é que ele também disse que “Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar”. (Mt 3,11). Portanto, em se considerando que o próprio João disse que Jesus é mais poderoso que ele, não pode prevalecer sua opinião à de Jesus. Reputamos ao Mestre a autoridade suprema para a qual devem convergir nossas atenções e prioridades. Neste caso, como Jesus identifica, claramente e sem rodeios, a identidade espiritual de João Batista, torna-se de importância secundária o que possa advir de seus discípulos, que venha a contradizer a qualquer de seus ensinos, uma vez que: “Nenhum discípulo está acima do mestre”. (Mt 10,24). Portanto, preferimos crer que a palavra final cabe a Jesus e não a Pedro, Paulo, João Batista ou a qualquer outro, no sentido de João Batista ser mesmo Elias, tanto pelo contexto das escrituras quanto pela pregação dele a seus discípulos, para os quais ensinava claramente sobre os “mistérios do Reino de Deus”. Os mesmos que, por fim, “compreenderam que Jesus lhes tinha falado a respeito de João Batista” (Mt 17,13). Quanto à questão de que “o sangue de Jesus lavou nossos pecados”, trata-se de mais uma opinião pessoal de autores bíblicos, contrária ao que Ele pregou. “A cada um segundo suas obras” (Mt 16,27), a parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37) e a do juízo final (Mt 25,31-46), são passagens que asseguram que, realmente, somos nós mesmos que nos salvamos. Os discípulos apenas transferiam a Jesus o papel da vítima do holocausto das práticas ritualísticas dos judeus, quando matavam um novilho, sem defeito, para a expiação dos pecados do povo. Diremos como Paulo de Tarso: “se Jesus morreu pelos nossos pecados: comamos e bebamos”, pois já estamos salvos. Entretanto, essa absurda ideia contém uma contradição, uma vez que, pelo costume da época, os pecados perdoados eram os anteriormente cometidos em relação ao momento do ritual. Não havia, portanto, nenhuma relação para com os pecados futuros. Podemos confirmar isso em “... Sua morte aconteceu para o resgate das transgressões cometidas no regime da primeira aliança; ...” (Hb 9,15) Por conseguinte, a crer nessa expiação dos pecados por Jesus, haveremos de arrumar outro Cristo para pagar pelos nossos, tomando-se como ponto de partida os ocorridos da sua morte até os dias de hoje. Outra opção é, quem sabe, ficar aguardando a vinda de um próximo “cordeiro”? E como fica o “não peques mais”? (Jo 5,14; 8,11).

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6 – João não era Elias, mas “o” Elias, ou seja, alguém com as qualidades de Elias.
Ainda em nossos dias usamos esse estilo de expressão: "Nunca mais surgirá um Rui Barbosa". "O Ronaldinho é um verdadeiro Pelé". São termos comparativos. [Se acreditais na vinda de um Elias], "e, se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que havia de vir" (Mt 11.14). Por suas mensagens vibrantes e seu corajoso desempenho diante de situações difíceis, Elias tornou-se símbolo dos profetas. Moisés, por exemplo, era símbolo da Lei (Lc 16.31). As profecias sobre a vinda de Elias não se contradizem. Muito pelo contrário. Vejam: Malaquias 4.5: "Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o dia grande e terrível do Senhor; e converterei o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha e fira a terra com maldição". Lucas 1.15-17: "Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe. E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos e os rebeldes, à prudência dos justos, com o fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto". Logo, as profecias da vinda de Elias se cumpriram em João Batista. Portanto, Elias veio na pessoa de João Batista. É esta a real interpretação de Mateus 11.14 e 17.10-13.

Os que assim argumentam se esquecem de mencionar que a frase "nunca mais surgirá um Rui Barbosa" não é sinônima de "nunca mais surgirá o Rui Barbosa", da mesma forma que correto é "Ronaldinho é um verdadeiro Pelé" e não "Ronaldinho é o verdadeiro Pelé". Por este motivo não consideramos que seja de uma boa lógica concluir que a expressão "ele é o Elias", seja o mesmo que dizer "ele é um Elias". Basta, para isso, observar atentamente como Jesus se expressa, de modo a não deixar sobre isso a menor sombra de dúvida: Mt 11,10: “É de João que a Escritura diz: 'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti'“. Mt 17,12: “Mas eu digo a vocês Elias já veio, e eles não o reconheceram”. E, além disso, não adianta se apegar demais a esse pormenor, tendo em vista que a expressão “é o Elias” (Mt 11,14) não consta de todas as traduções bíblicas como, por exemplo: Bíblia Pastoral – Paulus e Escrituras Sagradas – Novo Mundo. Nas edições SBTB e SBB já encontramos “é este o Elias”, e na Paulinas (1957, 1977 e 1980), na Bíblia Barsa, Bíblia Anotada – Mundo Cristão e na Bíblia Shedd, já lemos “ ele mesmo é o Elias”. Fica claro que, na maioria delas, o entendimento é objetivo, quando se afirma, embora de maneira um pouco diferente, que João Batistas é mesmo Elias, e não uma comparação, como querem os antirreencarnacionistas. Além das Bíblias que acabamos de citar, quanto ao fato de usarem o “ele mesmo é Elias” (Mt 11,14), que insistentemente afirmamos ao longo deste estudo, ainda podemos acrescentar a tradução de Louis-Isaac Le Maître de Sacy (1613-1684): “Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o Elias que há de vir”. Essa versão consta no Evangelho Segundo o Espiritismo (KARDEC, 2007c, p. 92), no qual Kardec utilizou-se dos textos bíblicos da tradução francesa da Bíblia de Sacy (KARDEC, 2007c, p. 26). Podemos ainda apresentar a tradução do professor Carlos Torres Pastorino (19101980), ex-sacerdote formado em Teologia e Filosofia, por um Seminário Católico em Roma, catedrático em grego, hebraico e latim, em a Sabedoria do Evangelho, vol. 3, (1964c, p. 13), que é a seguinte: “E se quereis aceitar (isto), ele mesmo é Elias que estava destinado a vir”. Pastorino, portanto, corrobora a tradução de Sacy, quanto ao uso do “ele mesmo”, que, no texto bíblico, em se referindo a João, não deixa margem a mirabolantes exegese, para fugir da realidade bíblica de que João Batista foi mesmo Elias reencarnado.

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Tudo nos leva a crer que essa deve ser a tradução correta, que reflete o texto original disponível, que foi mudado, justamente para escamotear a ideia da reencarnação, pois, com ela, o fiel salva a si próprio; não precisa, via de consequência, de líder que venha abrir a “porta do reino dos céus”, para que ele possa entrar. Essa simples suspeita tornou-se uma convicção diante desta explicação:
A tradução do vers. 14 não coincide com as comuns. Mas o grego é bem claro: kai (e) ei (se) thélete (quereis) decsásthai (aceitar, inf. pres. ) autós (ele mesmo) estin (é) Hêlías (Elias) ho méllôn (part. presente de mellô, destinado, "o que estava destinado") érchesthai (inf. pres.: a vir). A Vulgata traduziu: "et si vultis recipere, ipse est Elias qui venturus est ", em que o particípio futuro na conjunção perifrástica dá o sentido de obrigação ou destino do presente do particípio méllôn; acontece que o latim ligou num só tempo de verbo ( venturus est) o sentido dos dois verbos gregos ( ho méllôn érchesthai). Com essa tradução, porém, o sentido preciso do original ficou algo "arranhado". Se a tradução fora literal, deveríamos ler, na Vulgata (embora com um latim menos ortodoxo): " ipse est Elias debens venire", o que corresponde exatamente à nossa tradução: "ele mesmo é Elias que devia (estava destinado) a vir". Levados pela tradução da Vulgata, os tradutores colocam o futuro do presente (que deverá vir), quando a ação é nitidamente construída no futuro do pretérito. (PASTORINO, vol. 3, 1964c, p. 16) (grifo nosso).

A velha questão da tradução sempre se torna um problema para o entendimento do texto bíblico, além de não termos certeza absoluta de que o que ali está escrito corresponde de fato ao texto primitivo. Por outro lado, colocar Elias como corajoso é, no mínimo, falta de conhecimento bíblico, pois após ele degolar os profetas de Baal, foge, como se diz popularmente, com “o rabo entre as pernas”, de Jezabel, mulher de Acab, sétimo rei de Israel (875-853), que promete matá-lo por conta disso (1Rs 19,1-3). No máximo, no nosso entender, ele deveria ser considerado um sanguinário covarde, face a sua atitude de matar e fugir. Aliás, tomando das próprias palavras dos contraditores podemos dizer “Logo, as profecias da vinda de Elias se cumpriram em João Batista. Portanto, Elias veio na pessoa de João Batista”, uma vez que o espírito, que animava esses dois personagens, era o mesmo, ou seja, João Batista era Elias em nova encarnação. Dessa forma a profecia de Malaquias, na qual Deus prometeu enviar Elias, foi completamente cumprida. Aos que não acreditam nisso, devem apresentar-nos uma boa desculpa para justificar que Deus não tenha enviado Elias como prometeu, mas uma outra pessoa no lugar dele, tornando-O um enganador. Há também algumas objeções genéricas que merecem ser comentadas: 1 - Os judeus não criam em reencarnação, e sim na ressurreição dos mortos (Mc 6,14-16 e Lc 9,7-8). Será que é isso mesmo a verdade? Analisemos para constatar. Tomemos as passagens citadas: 1ª) Mc 6,14-16: “O rei Herodes ouviu falar de Jesus, cujo nome tinha-se tornado famoso. Alguns diziam: ‘João Batista ressuscitou dos mortos. É por isso que os poderes agem nesse homem’. Outros diziam: ‘É Elias’. Outros diziam ainda: ‘É um profeta como os profetas antigos’. Ouvindo essas coisas, Herodes disse: ‘Ele é João Batista. Eu mandei cortar a cabeça dele, mas ele ressuscitou!’". Interessante a argumentação de que Jesus fazia milagres pelos poderes de João Batista que agia sobre Ele. Isso é ressurreição do corpo físico? Não! Mas, então, o que é? É o que conhecemos por influência espiritual. Uma pessoa morre e, ressuscitada em espírito, passa a influenciar uma pessoa encarnada. Portanto, a ideia de ressurreição, nesta passagem, nada tem a ver com aquela ressurreição do final dos tempos, aceita pelos dogmáticos. Ressuscitar, nesse passo, é voltar à condição espiritual.

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2ª) Lc 9,7-9: “O governador Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo, e ficou sem saber o que pensar, porque alguns diziam que João Batista tinha ressuscitado dos mortos; outros diziam que Elias tinha aparecido; outros ainda, que um dos antigos profetas tinha ressuscitado. Então Herodes disse: ‘Eu mandei degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?’ E queria ver Jesus”. Nessa passagem é flagrante o uso da palavra ressurreição com o significado de reencarnação. Se as pessoas acreditavam que Jesus poderia ser Elias, Jeremias (Mt 16,14) ou um dos antigos profetas ressuscitado isso não é ressurreição, mas sim reencarnação, já que se fosse Jesus um deles, estaria num novo corpo, o de Jesus, obviamente. Quem pensa assim, acredita que alguém já morto poderia voltar num novo corpo como outra pessoa. É exatamente isso o que definimos como reencarnação; portanto, provamos que na época se acreditava em reencarnação, sim; só que para designá-la usavam a palavra ressurreição, que também possuía, àquela época, outros significados. Em uma certa oportunidade, Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?" Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas" (Mt 16,13-14). Isso confirma que o povo acreditava na ressurreição em outro corpo, reencarnação para nós. Só que há algo importante nessa passagem: é que Jesus não protestou contra essa crença popular, o que significa que, tacitamente, a confirma. É como diz um velho provérbio: “quem cala consente”. Alguém poderá perguntar: “Mas o que tem a ver ressurreição com reencarnação?” Ao que responderemos: dependendo do contexto, muita coisa; aliás, são conceitos semelhantes. Como?! Expliquemos, utilizando, para isso, esse passo citado (Mt 16,14) na versão de Lucas: Lc 9,19: “Eles responderam: 'Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que tu és algum dos antigos profetas que ressuscitou'". Observar bem o que pensavam a respeito de quem era Jesus: “tu és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. O que se pode entender disso é que o verbo “ressuscitar”, utilizado nessa frase, tem, indubitavelmente, a nítido significado de reencarnar. Se Jesus, segundo suspeitavam, poderia ser qualquer um dos antigos profetas, isso só é possível acontecer pela reencarnação. Por outro lado, como, nessa oportunidade, Jesus não combateu a ideia de que alguém poderia vir como uma outra pessoa, Ele, de certa maneira, sanciona a crença na reencarnação, pois, se não fosse uma realidade, certamente, que ele teria negado de forma contundente, de maneira a não deixar que as pessoas pensassem equivocadamente a respeito desse assunto. Russell Norman Champlin (1933- ), renomado exegeta protestante, analisando a passagem Mt 16,14, correlata a essa de Lucas (Lc 9,19), disse:
“Uns dizem: João Batista”. Mat. 14:1 demonstra que Herodes adotou essa teoria: “Este é João Batista; ele ressuscitou dos mortos”. Provavelmente, então, alguns dos herodianos também pensavam assim. Essa ideia circulava entre o povo. Dificilmente podemos crer que muitos pensavam que João Batista ressuscitara dos mortos, porque a maioria sabia que Jesus e João foram contemporâneos. Tal teoria, portanto, reflete a doutrina da transmigração da alma. É óbvio que essa crença exercia influência nas escolas dos fariseus, e, ainda que nunca tivesse sido totalmente aceita por todo o povo, muitos indivíduos (provavelmente a maioria) aceitavam-na como verdadeira. Conforme tais ideias se tinham desenvolvido nas escolas dos fariseus, dizia-se que ainda viviam as almas dos grandes profetas, e que em tempo oportuno, em momentos de grande necessidade, como alguma crise nacional, etc., tais almas poderiam tomar corpo novamente. No caso de João Batista, não podemos afirmar que essa crença refletisse a ideia da “reencarnação”, mas deve ser interpretada como “transmigração” ou “possessão”. Porém, uma vez admitida a ideia que Jesus era Elias, Jeremias, ou outro personagem do passado, então se pode afirmar que essa crença era idêntica à “reencarnação”. O termo “transmigração” é usado por muitas vezes como sinônimo de “reencarnação”. A identificação de Jesus com João Batista, pelo menos, poderia preservar a identificação de Jesus com a esperança messiânica, porque era crença geral, entre o povo,

63 que João era Elias reencarnado, e Elias seria o precursor do Messias. Mas pode-se afirmar, à base dessa ideia, que tais pessoas não aceitavam que Jesus fosse o Messias. (CHAMPLIN, vol. 1, 2005a, p. 443) (grifo nosso).

Esta aí uma prova de que os judeus acreditavam na reencarnação, que, para eles, consistia em ressuscitar em outro corpo. Mas, ainda vamos trazer outra fonte para comprovar essa questão. Nós buscaremos esta informação no historiador daquela época chamado Flávio Josefo, que viveu entre 37 a 103 d.C. Suas obras históricas são: “Antiguidades Judaicas”, “Guerra dos Judeus” e “Resposta de Flávio Josefo a Ápio”, que, em nosso caso, fazem parte do livro História dos Hebreus. Josefo, descrevendo a maneira de viver dos fariseus, coloca:
[...] Eles julgam que as almas são imortais, que são julgadas em um outro mundo e recompensadas ou castigadas segundo foram neste, viciosas ou virtuosas; que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida e que outras voltam a esta. [...]” (JOSEFO, 2003, p. 416).

E, quando alguns soldados, derrotados na guerra contra os romanos, pensavam em suicidarem-se, alerta-os dizendo:
[...] Não sabeis que Ele difunde suas bênçãos sobre a posteridade daqueles, que depois de ter chamado para junto de si, entregam em suas mãos, a vida, que, segundo as leis da natureza, Ele lhes deu e que suas almas voam puras para o céu, para lá viverem felizes e voltar, no correr dos séculos, animar corpos que sejam puros como elas e que ao invés, as almas dos ímpios, que por loucura criminosa dão a morte a si mesmos são precipitados nas trevas do inferno; [...] (JOSEFO, 2003, p. 600) (grifo nosso)

Assim, podemos dizer que os fariseus, grupo religioso que existia à época de Jesus, acreditavam numa ressurreição em outro corpo. Ora, isso não é nada mais nada menos do que aquilo que entendemos por reencarnação. Esse argumento de que os judeus não acreditavam na reencarnação, é, quase sempre, utilizado pelos fundamentalistas, porém, não contam a história toda. Vários autores afirmam que acreditavam sim, como, por exemplo, Severino Celestino da Silva (1949- ), em Analisando as Traduções Bíblicas, onde apresenta, para comprovação, esta frase do Rabino Arieh Karplan (1934-1983): “Não é possível entender a Cabalá sem acreditar na eternidade da alma e suas reencarnações” (SILVA, 2001, p. 158). Mais a frente, Celestino cita a opinião de uma outra pessoa:
Sobre a Reencarnação, apresentamos, aqui, para ilustrar, o depoimento do Rabino Shamai Ende, colaborador da Revista Judaica “Chabad News”, publicação de Dez a Fev 1998. Vejamos o texto na íntegra: “O conceito de Guilgul (Reencarnação) é originado no judaísmo, sendo que uma alma deve voltar várias vezes até cumprir todas as mitsvot(1) da Torá. Além disso, cada alma tem uma missão específica. Caso não tenha cumprido a sua, a alma deve retornar a este mundo para preencher tal lacuna. Somente pessoas especiais sabem exatamente qual é sua missão de vida. [...]”. ______
(1) Mitsvot – plural de mitsvá que significa mandamento ou prática de boas obras – caridade.

(SILVA, 2001, p. 161) (grifo do original).

O Rabino Philip S. Berg (1929- ), em Reencarnação as Rodas da Alma, afirma que:
A palavra hebraica para reencarnação é Guilgul Neshamot, que literalmente quer dizer ‘roda da alma’. É para esta vasta roda metafísica, com sua coroa

64 constelada de almas, como estrelas nas bordas de uma galáxia, que devemos dirigir nosso olhar, se desejamos ver além da aparência da inocência punida e da maldade recompensada. Guilgul Neshamot é uma roda em constante movimento e, ao girar, as almas vêm e vão diversas vezes, num ciclo de nascimento, evolução e morte e novo nascimento. A mesma evolução ocorre com o corpo no decorrer de uma única vida. Ocorre o nascimento, o crescimento das células, a paternidade e a morte – novos corpos produzidos pelos antigos, dando assim continuidade à forma física. É sempre um pai que concede sua semente para que haja continuidade, num processo sem fim. (BERG, 1998, p. 17-18) (grifo nosso).

Berg, quando desenvolve o tema dentro da ótica cabalista, diz a certa altura:
Entre todos os que aceitam a doutrina da reencarnação, talvez os cabalistas sejam os únicos que acreditam que uma alma pode retornar num nível inferior daquele que deixou em uma vida anterior. Efetivamente, se o peso do tikun (correção) for suficientemente pesado, uma alma humana poderá se encontrar reencarnada no corpo de um animal, de uma planta ou até mesmo de uma pedra. (BERG, 1998, p. 29) (grifo nosso)

O conceito Espírita difere sobremaneira, porquanto não admitimos retrocesso, ou seja, uma alma humana não reencarna nunca no corpo de um animal. “A Cabala é o significado mais profundo e oculto da Torá, ou Bíblia”, diz Berg, o que confirma que é um conhecimento do judaísmo místico, segundo suas próprias palavras. 2 - Fica claro que Jesus nunca ensinou a reencarnação. Dizer que Jesus nunca ensinou a reencarnação é forçar a barra, ignorando que ele não disse, em momento algum, que estavam em erro os que o supunham ser Elias, Jeremias, ou algum dos antigos profetas. É recusar a ver o que disse a Nicodemos “é necessário nascer de novo” (Jo 3,3). Certo é que em algumas Bíblias não é dito “nascer de novo”, mas “nascer do alto”. Entretanto, podemos ponderar que a tradução da palavra grega anóthem, segundo alguns estudiosos, tanto pode ser uma quanto a outra; daí, para não realçar a ideia da reencarnação, foi melhor colocar aquela que não levasse as pessoas a entenderem como reencarnação. Mas, pela dúvida de Nicodemos, fica claro que o sentido era nascer de novo mesmo: “Como é que um homem pode nascer de novo, se já é velho? Poderá entrar outra vez no ventre de sua mãe e nascer?” (Jo 3,4). Na sequência, Jesus não nega que seja sobre isso que está dizendo, mas reforça com outras palavras: “Eu garanto a você: ninguém pode entrar no reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito” (Jo 3,5), donde devemos tomar a água como símbolo da origem da matéria ou, como entendem alguns, uma analogia ao líquido amniótico. Por outro lado, mesmo que Jesus não a tivesse ensinado, isso não significa que ela não exista, pois, convém lembrar que Ele disse: “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16,12). 3 - A Bíblia combate tal ensinamento Curioso é que os contrários não se cansam de nos afirmar que a Bíblia não fala, em momento algum, em reencarnação; mas, quando o assunto é combatê-la, aí sim, nela se diz algo. Parece brincadeira! Só que, quando apresentam as passagens para comprovar o que alegam, verificamos que é pura interpretação equivocada, já que sempre as usam fora do seu contexto. Vejamos algumas, normalmente citadas. Hb 9,27: “[...] aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disto o Juízo”. Essa é uma das mais interessantes, já que nem mesmo se sabe quem é o autor; daí é singular que usem um autor completamente desconhecido para contestar o que Jesus afirmou: “João é Elias que devia vir” (Mt 11,14). Poderia ser um argumento forte contra a reencarnação se o autor tivesse dito: “aos homens está ordenado viverem uma só vez”.

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Lázaro, o filho da viúva de Naim e a filha de Jairo, entre outros que ressuscitaram, morreram duas vezes, provando que, em se acreditando nisso, a “ordem” contida na passagem é inconsistente. Mas, de qualquer forma, esse autor não está completamente errado, pois fisicamente em cada vida só morremos uma vez mesmo e em definitivo, por sinal. Ainda em relação a essa passagem: até o presente ninguém conseguiu nos esclarecer se haverá dois julgamentos ou não. Se “depois disto o Juízo”, e em algumas Bíblias, está “logo depois”, qual será a utilidade de mais um juízo no final dos tempos? Quem for condenado no primeiro, poderá se salvar no segundo? Mas, se ficarmos apenas no que se diz nessa frase, então ninguém ficará esperando a ressurreição no último dia para ser julgado. 4 – O homem não pode se salvar por si mesmo
“A Palavra de Deus, nos diz que é em Jesus que o homem consegue a expiação dos seus pecados (Jo 8,24; 1Jo 1,7-9). O homem só é salvo pela graça de Deus, sem nenhum esforço meritório (Ef 2,8-9; At 4,12; Rm 4,4-5)”.

Se isso for verdadeiro então o “Sede perfeitos como é perfeito o vosso pai celestial” (Mt 5,48) torna-se um ensinamento inoperante que Jesus nos passou, pois, certamente, numa vida só, espírito algum conseguirá ser perfeito como o Pai o é. Perfeito no passo, provavelmente tenha o mesmo significado de “[...] assim como é santo o Deus que os chamou, também vocês tornem-se santos em todo o comportamento, porque a Escritura diz: 'sejam santos, porque eu sou santo'” (1Pe 1,16) (ver também Lv 11,45; 19,2; 20,7-8). Mas ninguém disse que não conseguimos a salvação a não ser por Jesus; entretanto, ela não será pela graça e nem será pelo seu sangue derramado na cruz; porém unicamente seguindo os seus ensinamentos: “É pelo evangelho que vocês serão salvos” (1Cor 15,2) ou “Em Cristo, também vocês ouviram a Palavra da verdade, o Evangelho que os salva” (Ef 1,13). Certamente que, não fosse a graça de Deus em nos dar outra oportunidade, estaríamos fritos; portanto, é pela graça de Deus mesmo que somos salvos. Entretanto, não é salvação “de graça” como muitos pensam, pois haverá de ser “segundo a suas obras” (Mt 16,27), a crermos no que Jesus disse. Por outro lado, se a nossa salvação não estivesse em nossas mãos, então, Deus, certamente, salvaria a todos, já que isso só dependeria da vontade dele. Uma crença que se opõe à reencarnação é a do inferno eterno; mas não há como explicá-lo diante disso: “O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades” (Sl 103,8-10). Uma coisa que ainda estamos esperando é alguém nos provar que Deus tenha criado o inferno, lugar destinado ao suplício eterno dos contraventores de Suas leis. Que nos mostrem que a pena para os que não cumprem os Dez Mandamentos seja ir para o inferno, já que é nesse momento que Deus deveria tê-lo, certamente, criado. 5 - A proposta de uma vida feliz através da reencarnação não é atestada pela Bíblia. E nem poderia ser de outra forma, já que “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16,12). Como, naquela época, não tinham uma noção clara quanto a isso, não adiantaria explicar o que não eram capazes de entender. O que assegura uma vida feliz é a vivência do Evangelho em toda a sua plenitude, e a reencarnação é a oportunidade oferecida para todos aqueles que viveram e morreram, sem haverem tido a chance de ouvir o Evangelho. A reencarnação pode até não garantir uma vida feliz, mas garante a oportunidade de vivê-la. Em contrapartida, nossos críticos evitam dizer que a proposta contrária, a de vida única, não dá essa mesma garantia para todos. Aliás, nem mesmo os que se acham merecedores de uma vida futura feliz, apenas por pregarem o Evangelho, sem o praticar, têm essa garantia. Procuramos desenvolver esse estudo de forma a provar que essa questão de João Batista ser Elias é muito clara no Evangelho; tão clara como a luz do Sol ao meio-dia, num

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“céu de brigadeiro”. Entretanto, percebemos que por interesses, que não nos cabe aqui citálos, as lideranças religiosas procuram esconder isso de seus fiéis, mantendo-os na ignorância. Qualquer pessoa de bom senso, ou que não se encontra atrelada a dogmas, verá que isso é ponto irrefutável. Só não vê quem não quer. Finalizando, repetimos essas palavras de Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça” (Mt 11,15).

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Eucaristia: Jesus a instituiu?
Para justificar a eucaristia pegam o momento em que Jesus, ceando com os seus apóstolos, distribui o pão e o vinho. Fato acontecido, segundo alguns, na sexta-feira anterior à da sua crucificação. Vamos iniciar nossa análise comparando as passagens bíblicas que narram a ocasião considerada como sendo a instituição da eucaristia para, com isso, termos uma visão do assunto. Mt 26,26-29: Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu aos discípulos, e disse: "Tomem e comam, isto é o meu corpo." Em seguida, tomou um cálice, agradeceu, e deu a eles dizendo: "Bebam dele todos, pois isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados. Eu lhes digo: de hoje em diante não beberei desse fruto da videira, até o dia em que, com vocês, beberei o vinho novo no reino do meu Pai." Mc 14,22-25: Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu a eles, e disse: "Tomem, isto é o meu corpo." Em seguida, tomou um cálice, agradeceu e deu a eles. E todos eles beberam. E Jesus lhes disse: "Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos. Eu garanto a vocês: nunca mais beberei do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus." Lc 22,14-20: Quando chegou a hora, Jesus se pôs à mesa com os apóstolos. E disse: "Desejei muito comer com vocês esta ceia pascal, antes de sofrer. Pois eu lhes digo: nunca mais a comerei, até que ela se realize no Reino de Deus." Então Jesus pegou o cálice, agradeceu a Deus, e disse: "Tomem isto, e repartam entre vocês; pois eu lhes digo que nunca mais beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus." A seguir, Jesus tomou um pão, agradeceu a Deus, o partiu e distribuiu a eles, dizendo: "Isto é o meu corpo, que é dado por vocês. Façam isto em memória de mim." Depois da ceia, Jesus fez o mesmo com o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança do meu sangue, que é derramado por vocês”. Fato curioso é que João não fala absolutamente nada sobre essa distribuição de pão e vinho, considerando que ele também encontrava-se presente no evento; inclusive, se foi ele o discípulo a quem Jesus amava, certamente estaria a seu lado, pois é ele quem descreve com maior número de pormenores tal acontecimento. Se compararmos Mateus e Marcos, cujas narrativas são bem semelhantes, veremos que, no primeiro, consta um acréscimo da expressão “para remissão dos pecados”, o que poderá ser muito bem uma interpolação para justificar a ideia do sangue com poder para remir os pecados, embora Jesus tenha dito “a cada um segundo as suas obras” (Mt 16,27). Interessante é que nenhum dos dois evangelistas falou em “façam isto em memória de mim”, expressão essa só escrita em Lucas. Aí é a questão de se perguntar: qual deles falou a verdade? Logo, devemos entender o ato de comer e beber constante dessa passagem como uma metáfora, sob pena de se estar aceitando a pregação de canibalismo. Se na eucaristia está presente o corpo e o sangue de Jesus, não há alternativa a não ser entender tal prática como um ato, mesmo que simbólico, de canibalismo; não é mesmo? Mas o que devemos fazer, isto sim, é sair do nosso egoísmo para distribuir com os necessitados o pão nosso de cada dia. Entre fazer isso e comer o corpo e beber do sangue de Cristo, qual dos dois entendimentos está seguindo a orientação de “amar ao próximo como a si mesmo”? Por outro lado, é necessário decidir qual das três situações devemos aceitar, no que se refere à nossa salvação, já que, simultaneamente, pregam estas três hipóteses...:

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a) que basta somente receber o perdão de Deus; b) que já fomos perdoados pelo derramamento do sangue de Jesus; ou c) que seremos salvos pela simples condição de crer e de ser batizado (Mc 16,16). Vejamos o que Geza Vermes (1924- ) nos mostra, analisando essas palavras ditas por Jesus durante a ceia:
Quatro relatos da Última Ceia sobreviveram no Novo Testamento. Eles concordam entre si sobre vários pontos essenciais, mas também ostentam variações substanciais. Também é notável que o Evangelho de João não contenha qualquer relato da ceia de Páscoa compartilhada por Jesus e seus discípulos. Isto se deve sem dúvida ao fato de a prisão e crucificação de Jesus terem acontecido, segundo o Quarto Evangelho, um dia antes da festa, não podendo consequentemente ser questão de qualquer participação de Jesus numa ceia real de Páscoa. João especifica que os dignitários que entregaram Jesus a Pilatos recusaram-se a entrar em seu palácio, no pretório, a fim de permanecerem ritualmente puros “e poder comer a Páscoa” (ver João 18,28). Há um consenso geral entre intérpretes do Novo Testamento de que a narrativa da Última Ceia, com a sua exiguidade de detalhes concretos, foi escrita acima de tudo para registrar o que desde o princípio a igreja primitiva compreendeu como a instituição de um ritual religioso significativo, a Eucaristia. Queira ou não, essa visão eclesial afeta retrospectivamente o significado das palavras que presumidamente teriam vindo dos lábios de Jesus. (VERMES, 2006a, p. 344-345) (grifo nosso).

O teólogo John Dominic Crossan (1934-), co-fundador do The Seminar Jesus, citado por José Pinheiro de Souza (1938-), parece-nos ainda mais enfático, conforme se pode ver nestes dois parágrafos:
Por conseguinte, a Ceia Eucarística não pode ter sido instituída pelo Jesus Histórico. O renomado teólogo e ex-padre católico John Dominic Crossan, em seu livro O Jesus Histórico, argumenta que a Ceia Eucarística, interpretada literalmente, não é originária de Jesus histórico (cf. CROSSAN, 1994, p. 398-399). Mais precisamente, ele mostra que a Ceia Eucarística, como referida num dos livros mais antigos do cristianismo, o chamado Didaqué (ou “Instrução dos Doze Apóstolos”), escrito por volta do final do Século I de nossa era (mas descoberto somente no ano de 1883), nada tem a ver com os acréscimos posteriores católicos a respeito da Ceia Eucarística, supostamente instituída por Jesus, e sobre o suposto milagre da “transubstanciação”. Na Ceia Eucarística descrita no livo Didaqué (capítulos 9 e 10), “não há qualquer menção de uma refeição feita para comemorar a Páscoa, de uma última ceia, nem de alguma conexão com a morte de Jesus ou sua celebração”. (CROSSAN, 1994, p. 400). (SOUZA, 2011, p. 139) (grifo do original).

Na passagem de Mateus, em nota de rodapé, os tradutores da Bíblia de Jerusalém nos explicam: “Estamos no meio da ceia pascal. É em gestos precisos e solenes do ritual judaico (ações de graças a Iahweh pronunciadas sobre o pão e sobre o vinho) que Jesus enxerta os ritos sacramentais do novo culto que instaura” (p. 1751). Apenas uma perguntinha: ou enxertaram usando o nome de Jesus? Além do mais, isso se deu no primeiro dia dos pães ázimos (Mt 26,17); portanto, é mesmo um ritual judaico realizado durante a celebração da Páscoa. Essa ceia, com a distribuição de pão e vinho, fazia mesmo parte dos rituais judeus, conforme explica Ernest Renan (1823-1892):
[...] Naquela refeição, assim como em muitas outras (48). Jesus praticou seu rito misterioso da divisão do pão. Como se acreditou, desde os primeiros anos da Igreja, que a refeição em questão tivesse acontecido no dia de Páscoa e tivesse sido o banquete pascal, naturalmente veio a ideia de que a instituição eucarística se fizera naquele momento supremo. Partindo da hipótese de que Jesus sabia antecipadamente com precisão quando morreria, os discípulos

69 deveriam ter sido levados a supor que ele reservara para aquelas últimas horas uma enorme quantidade de atos importantes. Como, aliás, uma das ideias fundamentais dos primeiros cristãos era a de que a morte de Jesus fora um sacrifício, substituindo todos os da antiga Lei, a Ceia tornou-se o sacrifício por excelência, o ato constitutivo da nova aliança, o sinal do sangue derramado para a salvação de todos (49). O pão e o vinho, relacionados à própria morte, foram, dessa forma, a imagem do Novo Testamento, que Jesus selara com seus sofrimentos, a comemoração do sacrifício do Cristo até a sua vinda (50). Muito cedo esse mistério se fixou num pequeno relato sacramental, que possuímos em quatro versões (51) muito parecidas entre si. O quarto evangelista, tão preocupado com ideias eucarísticas (52), que descreve a última ceia com tanta prolixidade, que liga a ela tantas circunstâncias e discursos(53), não conhece esse relato. Isso prova que não considerava a instituição da Eucaristia como uma particularidade da Ceia. Para o quarto evangelista, o rito da Ceia é a lavagem dos pés. ______
(48) (49) (50) (51) (52) (53) Luc., XXIV, 30-31, 35, representa a divisão do pão como um hábito de Jesus. Luc., XXII, 20. I Cor., XI, 26. Mat. XXVI, 26-28; Marc., XI, 22-24; Luc., XXII,19-21; I Cor., XI, 23-25. Cap. VI. Cap. XIII-XVII.

(RENAN, 2004, p. 360-361) (Grifo nosso).

Seria interessante que aqui fôssemos ver essa passagem bíblica, citada por Renan, a primeira da lista acima, na qual ele disse ser, a divisão do pão, um hábito de Jesus, que, para um melhor entendimento, iremos começá-la num versículo anterior ao citado; então, leiamola: Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: "Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando." Então Jesus entrou para ficar com eles. Sentou-se à mesa com os dois, tomou o pão e abençoou, depois o partiu e deu a eles. Nisso os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. Então um disse ao outro: "Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?" Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os onze, reunidos com os outros. E estes confirmaram: "Realmente, o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão!" Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão. (Lc 24, 28-35). Jesus, depois de ressuscitado, foi reconhecido pelos dois discípulos, que estavam se dirigindo a Emaús, exatamente pelo ato de partir o pão. Dessa forma, a conclusão de Renan é absolutamente correta, não sendo, portanto, o ritual de partir o pão e beber vinho a instituição da eucaristia, rito sacramental praticado em determinadas correntes religiosas. Estranhamos que tal fato ainda venha a acontecer, pois a nós, da forma que é praticado, mais parece, voltamos a dizer, um ritual de canibalismo do que qualquer outra coisa. Povos primitivos acreditavam que, ao se comer o corpo de um guerreiro que haviam matado, a sua força e coragem, muito valorizadas por esses povos, passariam àquele que fizesse do guerreiro vencido o seu “prato do dia”. Qual será a razão para se justificar que os fiéis ainda “comam do corpo e bebam do sangue” de Jesus, que creem presentes na hóstia, após ser consagrada pelo sacerdote? Para nós é algo sem sentido, principalmente considerando que Jesus disse “não é o que entra pela boca que torna o homem impuro” (Mt 15,11); da mesma forma podemos entender que o que entra pela boca não torna o homem puro. Consequentemente podemos concluir que, mesmo que se coma algo sagrado (hóstia), ninguém tornar-se-á um ser purificado por isso. Pesquisando outras fontes sobre o assunto, encontramos o autor Bart D. Ehrman (1955- ), considerado a maior autoridade sobre o Novo Testamento do mundo, dizendo:
[...] Em um de nossos mais antigos manuscritos gregos, assim como em

70 vários testemunhos latinos, temos: E tomando o cálice, dando graças, ele disse: “Tomai-o, reparti-o entre vós, pois eu vos digo que não beberei do fruto da vinha a partir de agora, até que venha o reino de Deus”. E tomando o pão, dando graças, ele o partiu e o deu a eles, dizendo: “Isto é o meu corpo... Mas vede que a mão daquele que me trai está comigo nesta mesa” (Lucas 22,17-19). Contudo, na maioria de nossos manuscritos, há um acréscimo ao texto, que soará familiar a muitos leitores da Bíblia, visto que se assentou nas traduções modernas. Ali, depois que Jesus diz: “Isto é meu corpo”, ele continua dizendo as palavras: “'Que foi dado por vós; fazei isto em memória de mim', e fez o mesmo com o cálice após a refeição, dizendo: 'Este cálice é a nova aliança em meu sangue derramado por vós'”. Estas são as palavras, muito familiares, da “instituição” da Ceia do Senhor, registradas também sob uma forma muito similar na primeira carta de Paulo aos Coríntios (1 Coríntios 11,23-25). A despeito do fato de serem tão familiares, há boas razões para pensar que esses versículos não estavam no original do Evangelho de Lucas, mas que foram acrescentados para ressaltar que foram o corpo partido e o sangue derramado de Jesus que trouxeram a salvação “para vós”. [...] Além do mais, não se pode deixar de notar que os versículos, por mais familiares que sejam, não representam a própria compreensão que Lucas demonstra ter da morte de Jesus. É uma característica surpreendentemente do retrato que Lucas faz da morte de Jesus – por mais estranho que isso seja à primeira vista – que ele nunca, em nenhuma outra passagem, indica que a morte em si seja o que traz a salvação do pecado. Em nenhum outro lugar de toda a obra em dois volumes de Lucas (Lucas e Atos dos Apóstolos), se diz que a morte de Jesus foi “por vós”. De fato, nas duas ocasiões em que a fonte de Lucas (Marcos) indica que foi por meio da morte de Jesus que veio a salvação (Marcos 10,45; 15,39), Lucas mudou a disposição do texto (ou o eliminou). Em outros termos, Lucas tem uma compreensão diferente da forma com que a morte de Jesus conduz à salvação, diferente da de Marcos (da de Paulo e da de outros escritores cristãos antigos). (EHRMAN, 2006, p. 175-176). (grifo nosso).

Assim, dentro da visão desse renomado autor, um dos textos a que se apegam para justificar a eucaristia não é outra coisa senão uma adulteração dos originais bíblicos. E, pelo visto, ele não está sozinho em sua tese. Vejamos também a opinião de David Flusser (19172000):
Jesus seguia a ordem essênia em suas refeições de festa e, em especial, na última ceia, ou seguia a ordem não-sectária: vinho e pão? Segundo Mateus e Marcos, Jesus primeiro abençoava o cálice e depois o pão, mas a situação em Lucas é diferente. “Chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta páscoa, antes de meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando um cálice, havendo dado graças, disse: Recebei e reparti entre vós; pois vos digo que de agora em diante não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus. E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é meu corpo” (Lc 22:14-19). Aí termina o texto de Lucas, de acordo com o famoso Codex Bezae, a antiga tradução latina, e dois antigos manuscritos siríacos. Todos os leitores atentos reconhecerão com facilidade que o que se segue em Lucas nos outros testemunhos é tirado de 1 Cor 11:23-26, de modo que temos aqui a estranha situação de que no texto aceito aparecem dois cálices, um no começo e o outro no final. Tanto a Versão Padrão Revista como a Nova Bíblia Inglesa adotaram o ponto de vista correto, de que Lc 22:19b-20 não fazia parte do texto original de Lucas. Depois que Jesus disse do pão partido ‘Isto é meu corpo” fazendo alusão a sua iminente morte violenta, ele continuou e tornou-se mais explícito, dizendo: “Todavia a mão do traidor está comigo à mesa” (Lc 22:21). (FLUSSER, 2000, p. 227) (grifo nosso).

Confirma-se, portanto, que o texto de Lucas (Lc 22,19b-20) foi um acréscimo posterior.

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Geza Vermes, citado mais acima, nos informou que são registrados no Novo Testamento quatro relatos da Última Ceia, já citamos e analisamos três deles - Mt 26,26-29; Mc 14,22-25 e Lc 22,14-20 -, falta-nos, portanto, o último, que será visto agora. Apesar de aqui, neste estudo, aparecer cronologicamente posterior, na verdade, é o primeiro relato bíblico, escrito por volta do ano 57 d.C., enquanto, que os outros foram redigidos no período compreendido entre os anos de 65 a 80 d.C. (4) (BARRERA, 1999). Corroborando essa questão da primazia do relato de Paulo, argumenta Geza Vermes:
Há uma terceira ocorrência que, embora considerada pertencente à tradição oral pela maioria dos estudiosos, chama a minha atenção por sua peculiaridade. Relaciona-se ao relato de Paulo sobre o estabelecimento da refeição eucarística. Ele se queixou da divisão entre os membros da igreja de Corinto ao compartilharem da ceia do Senhor. Em vez de partilharem uma refeição comunal, os ricos e os pobres usavam provisões próprias, e o resultado era que alguns ficavam com fome enquanto outros se embriagavam (1Cor 11:20-21). Eles deveriam partilhar, ordenava Paulo, o mesmo pão, simbolizando o corpo, e a mesma taça, simbolizando o sangue do Senhor, fazendo-os contemplar a morte do Senhor até o seu retorno. A eucaristia de Paulo é basicamente um lembrete alegórico ou místico do fim violento de Jesus. Todavia, ele não se estende tão chocantemente quanto João (ver acima p. 32, n. 7), e mesmo um pouco menos do que os Sinópticos (Mt 26:26-9; Mc 14:22-5; Lc 22:15-20), na identificação real do pão e do vinho com o corpo e o sangue a serem respectivamente, comido e bebido. Paulo tem sua própria maneira de relatar o acontecimento tanto em 1Cor 11 quanto em 1Cor 10:16-7. Ele ensina que o propósito da união ou comunhão mística com o corpo e o sangue de Cristo é aglutinar simbolicamente os muitos membros da igreja num todo único. É claro, é concebível que Paulo tenha reeditado a versão tradicional – embora nem nos Evangelhos Sinópticos haja dois relatos iguais da instituição da eucaristia – e que a última ceia de João nada tenha a ver com a eucaristia. Mas parece-me que a fórmula introdutória de Paulo sugere que ele quisesse dizer algo original, e não apenas reproduzir a história tão amiúde repetida. Ao passar adiante a tradição da igreja e a ele transmitida por agentes anônimos, como a morte, o sepultamento, a ressurreição e as aparições posteriores de Jesus (1Cor 15:3-5), ele prefacia a sua declaração com “Transmiti-vos... aquilo que eu mesmo recebi” (1Cor 15:3). No caso da eucaristia, entretanto, está dito que a sua fonte é Jesus, implicando que lhe fora diretamente revelada. “Com efeito, eu mesmo recebi do Senhor o que vos transmiti” (1Cor 11:23). Se eu estiver certo na interpretação dessa passagem, isto quereria dizer que a narrativa de Paulo separa-se da tradição registrada nos Evangelhos Sinópticos por volta de quinze a quarenta e cinco anos mais tarde, visto que a primeira Epístola aos coríntios foi escrita em c. 55 d.C. Consequentemente, a redação de Paulo pode ter sido a fonte primária da formulação no Novo Testamento do estabelecimento da eucaristia. Em outras palavras, há grande chance de que a interpretação eucarística da refeição comunal da igreja seja devida a Paulo, e que os editores de Marcos, Mateus e especialmente de Lucas, que segue Paulo mais de perto, a tenham introduzido nas suas respectivas narrativas nos Evangelhos Sinópticos. (VERMES, 2006b, p. 86-87) (grifo nosso).

Vejamos o teor relativo ao trecho da primeira carta de Paulo aos coríntios: 1Cor 11,17-26: “Dito isso, não posso elogiar vocês, porque as suas assembleias, em vez de ajudá-los a progredir, os prejudicam. Antes de tudo, ouço dizer que, quando estão reunidos em assembleia, há divisões entre vocês. E, em parte, eu acredito nisso. É preciso mesmo que haja divisões entre vocês, a fim de que se veja quem dentre vocês resiste a essa prova. De fato, quando se reúnem, o que vocês fazem não é comer a Ceia do Senhor, porque cada um se apressa em comer a sua própria ceia. E, enquanto um passa fome, outro fica embriagado. Será que vocês não têm suas casas onde comer e beber? Ou desprezam a Igreja de Deus e querem envergonhar aqueles que nada têm? O que vou dizer para vocês? Devo elogiá-los? Não! Nesse ponto
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Marcos (anos 65-70), Mateus (anos 70/80) e Lucas (anos 70/80) (BARRERA, 1999, p. 287-289)

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não os elogio. De fato, eu recebi pessoalmente do Senhor aquilo que transmiti para vocês. Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, o partiu e disse: 'Isto é o meu corpo que é para vocês; façam isto em memória de mim'. Do mesmo modo, após a Ceia, tomou também o cálice, dizendo: 'Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que vocês beberem dele, façam isso em memória de mim'. Portanto, todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem deste cálice, estão anunciando a morte do Senhor, até que ele venha”. Você, caro leitor, deve ter observado que Ehrman e Flusser fizeram menção a esse passo, dando-o como sendo a origem do que consta em Lucas, exatamente, aquele que recomenda “Façam isto em memória de mim”, destoando de Mateus e Marcos que nada falam disso. O versículo final esclarece o objetivo da ceia: “Portanto, todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem deste cálice, estão anunciando a morte do Senhor, até que ele venha”, o que difere, em muito, daquilo que Lucas disse. Em James D. Tabor (1946- ), em A dinastia de Jesus: a história secreta das origens do cristianismo, vamos encontrar outras explicações que são bem interessantes de se ver:
Ironicamente, os mais antigos relatos da última refeição na quarta-feira à noite vêm de Paulo, e não de qualquer dos evangelhos. Em uma carta a seus seguidores na cidade grega de Corinto, escrita por volta de 54 d.C., Paulo passa adiante a tradição que dizia ter "recebido" de Jesus: "Jesus, na noite em que foi traído, tomou um pão, e tendo dado graças, partiu-o e disse: 'Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isso em memória de mim: Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: 'Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim'” (1 Coríntios 11:23-25). Essas palavras, tão familiares aos cristãos como parte da Eucaristia da Missa, são repetidas com ligeiras variantes em Marcos, Mateus e Lucas. Representam a síntese da fé cristã, o pilar do evangelho cristão: a humanidade está salva dos pecados pelo sacrifício do corpo e do sangue de Jesus. Qual é a probabilidade histórica de que essa tradição baseada naquilo que Paulo disse ter "recebido" de Jesus represente o que Jesus disse durante a última ceia? Tão surpreendente quanto possa parecer, existem alguns problemas autênticos a considerar. Em cada refeição judaica, o pão é partido, o vinho partilhado, e a bênção dada - mas a ideia de comermos carne humana e bebermos sangue, mesmo que simbolicamente, é de todo alheia ao judaísmo. A Torá proíbe especificamente a ingestão de sangue, não só para os israelitas, mas para todos. A Noé e a seus descendentes, como representantes de toda a humanidade, já tinha sido proibido "ingerir sangue" (Gênesis 9:4). Moisés tinha prevenido, "se qualquer homem da Casa de Israel ou gentio, residente no meio deles, ingerir qualquer espécie de sangue, eu me voltarei contra esse que ingere sangue e eliminá-lo-ei de seu povo" (Levítico 17:10). Em outra ocasião, Tiago, o irmão de Jesus, refere-se a isto como uma "exigência”, para que os não judeus pudessem juntar-se à comunidade nazarena - não ingerirão sangue (Atos 15:20). Essas restrições dizem respeito ao sangue de animais. Ingerir carne e sangue humanos não era proibido, era simplesmente inconcebível. Essa sensibilidade generalizada em relação à mera ideia de "beber sangue" mostra a improbabilidade de Jesus ter usado tais símbolos. Como dissemos, a comunidade essênica, em Qumrã, descreveu, em um de seus manuscritos, um futuro "banquete messiânico", no qual o Messias Sacerdotal e o Messias da linhagem de Davi sentar-se-iam com os membros da comunidade crente e abençoariam a sagrada refeição de pão e vinho como a celebração do Reino de Deus. Teriam certamente ficado espantados com qualquer simbolismo sugestivo de que o pão fosse a carne humana, e o vinho, o sangue. (10) Tal ideia simplesmente não poderia ter partido de Jesus como judeu. Portanto, qual a origem dessa linguagem? Se aparece primeiramente com Paulo, e ele não a recebeu de Jesus, então qual seria sua fonte? As maiores

73 semelhanças encontram-se em alguns ritos mágicos greco-romanos. Existe um papiro grego que registra um encantamento amoroso, no qual um macho pronuncia certos feitiços sobre um cálice de vinho, que representa o sangue que o deus egípcio Osíris tinha dado à sua consorte Ísis para que ela o amasse. Quando sua amante bebe o vinho, ela simbolicamente se une a seu amado pelo seu sangue. (11) Em outro texto, o vinho é transformado na carne de Osíris. (12) Simbolicamente, comer a "carne" e beber o "vinho" era parte de um rito mágico de união na cultura greco-romana. Devemos considerar que Paulo cresceu imbuído da cultura grecoromana, na cidade de Tarso, na Ásia Menor, fora da terra de Israel. Ele nunca conheceu ou falou com Jesus. A relação que ele pretendeu com Jesus é "visionária”, e não com um Jesus de carne e osso, caminhando na terra. Quando os Doze se reuniram para substituir Judas, depois da morte de Jesus, colocaram como condição para fazer parte do grupo ter estado com Jesus desde o tempo de João Batista até a crucificação (Atos 1:21-22). Ter visões e ouvir vozes não eram qualificações suficientes para um apóstolo. Em segundo lugar, e de forma ainda mais reveladora, o evangelho de João narra os acontecimentos daquela última refeição na noite de quartafeira, mas nunca se refere às palavras de Jesus instituindo essa nova cerimônia da Eucaristia. Se Jesus, na realidade, iniciou a prática de comer o pão como sendo seu corpo, e beber o vinho como sendo seu sangue na sua "última ceia" como poderia João tê-la omitido? O que João escreve, segundo todas as indicações, é que Jesus sentou-se para participar de uma refeição judaica comum. Após a ceia, ele se levantou, pegou uma bacia de água e um pano, e começou a lavar os pés de seus discípulos, mostrando como o professor e mestre deveria agir como criado - mesmo para seus discípulos. Jesus começou, então, a descrever como iria ser traído, e João nos diz que Judas abruptamente abandonou a ceia. O evangelho de Marcos está muito próximo, em suas ideias teológicas, àquele de Paulo. Parece possível que, em sua descrição da última ceia, feita uma década depois da de Paulo, Marcos tenha inserido o tradicional "coma o meu corpo" e "beba o meu sangue" em seu evangelho, influenciado pelo que Paulo afirma ter recebido. Tanto Mateus como Lucas baseiam inteiramente suas narrativas em Marcos, e Lucas é também um convicto defensor de Paulo. Tudo parece levar a Paulo. Como veremos, não há qualquer prova de que os primeiros seguidores judeus de Jesus, conduzidos ao quartel-general em Jerusalém por Tiago, o irmão de Jesus, tenham alguma vez praticado qualquer rito dessa natureza. Como todos os judeus, eles santificavam o vinho e o pão como parte de uma refeição sagrada, e provavelmente tinham presente a noite em que ele havia sido traído, lembrando-se da última refeição com Jesus. Na realidade, para resolver essa questão, precisamos de uma fonte independente, cristã, que não tenha sido influenciada por Paulo, que possa esclarecer a prática original dos seguidores de Jesus. Felizmente, em 1873, esse texto foi encontrado em uma biblioteca em Constantinopla. É intitulado Didache, e data do início do século II d.C. (13) Fora mencionado pelos primeiros autores da igreja, mas desaparecera até ser descoberto acidentalmente por um sacerdote grego, o Padre Bryennios, em um arquivo de manuscritos antigos. Didache significa "Ensinamentos”, em grego, e seu título completo é "Os Ensinamentos dos Doze Apóstolos”. Trata-se de um antigo "manual de instruções", provavelmente escrito para ser utilizado por aspirantes ao batismo cristão. Contém muitas instruções e exortações éticas, mas também capítulos sobre o batismo e a Eucaristia - a sagrada refeição do pão e vinho. É aí que entra a surpresa. Ele oferece as seguintes bênçãos para o pão e o vinho: No que se refere à Eucaristia, darás graças da seguinte forma. Em primeiro lugar, quanto ao cálice: "Damos-vos graças, Pai nosso, pela santa vinha de Davi, vosso filho, que nos destes a conhecer através de Jesus, vosso filho. Para vós a glória eterna". E quanto ao pão: Damos-vos graças, Pai nosso, pela vida e sabedoria que nos comunicastes através de Jesus, vosso filho. Para vós, glória eterna. (14) Notem que não há menção ao vinho, representando o sangue, ou ao pão, representando a carne. E, no entanto, é um registro da primeira refeição da Eucaristia cristã! Este texto nos faz lembrar muito das descrições da sagrada

74 refeição messiânica nos Manuscritos do Mar Morto. O que temos aqui é a celebração messiânica de Jesus como o Messias da linhagem de Davi, e a vida e a sabedoria que ele trouxe à comunidade. Evidentemente, essa comunidade de seguidores de Jesus nada sabia da cerimônia proposta por Paulo. Se a prática de Paulo viera realmente de Jesus, seguramente esse texto tê-la-ia incluído. Existe mais um ponto importante a esse respeito. Na tradição judaica, é o cálice de vinho que, primeiramente, é abençoado, depois o pão. Essa é a ordem que encontramos na Didache. Mas no relato de Paulo da "Ceia do Senhor", Jesus abençoa primeiro o pão, depois o cálice de vinho - justamente o oposto. Pode parecer um detalhe insignificante até examinarmos o relato de Lucas sobre as palavras de Jesus, durante a refeição. Embora ele siga basicamente a tradição de Paulo, ao contrário deste, Lucas fala primeiro no cálice de vinho, depois no pão e, em seguida, em outro cálice de vinho! O pão e o segundo cálice de vinho ele interpreta como o "corpo" e o "sangue" de Jesus. Mas quanto ao primeiro cálice - na ordem que se esperaria da tradição judaica - nada é dito que represente "sangue". Ao contrário, Jesus diz, "Eu vos digo, doravante não beberei da fruta da videira até a chegada do Reino de Deus" (Lucas 22:18). Essa tradição do primeiro cálice, só encontrada em Lucas, é uma pista do que deveria ter sido a tradição original antes de a versão Paulina ter sido inserida, agora confirmada pela Didache. Vista sob essa luz, essa última refeição tem sentido histórico. Jesus disse a seus seguidores mais próximos, reunidos secretamente na Sala do Andar Superior, que ele não partilharia com eles outra refeição até a chegada do Reino de Deus. Ele sabe que Judas iniciará, naquela noite, os procedimentos que culminarão com sua prisão. Suas esperança e prece são de que, da próxima vez em que estiverem sentados juntos para comer, dando a tradicional bênção judaica do vinho e do pão - o Reino de Deus já tenha chegado. Uma vez que Jesus se reuniu só com seu Conselho dos Doze, nessa última refeição privada, Tiago e os três outros irmãos de Jesus teriam estado presentes. Isso foi confirmado em um texto perdido chamado Evangelho dos Hebreus, que era usado por judeus-cristãos que rejeitavam os ensinamentos e a autoridade de Paulo. Sobrevive apenas em algumas citações, preservadas por autores cristãos, como Jerônimo. Uma das passagens nos diz que Tiago, o irmão de Jesus, depois de ter bebido do cálice que Jesus fizera circular, afiançou que também ele não comeria ou beberia até ver o Reino chegar." Portanto, temos aqui a prova textual de uma tradição que recorda a presença de Tiago na última refeição. ______
(10) Manuscritos do Mar Morto, The Messianic Rule (1QSa) 2.11-25. (11) The Demotic Maginal Papyrus of London and Leiden 15.1-6, em The Greek Magical Payri in Translation, incluing the Demotic Spells, ed. Hans Dieter Betz (Chicago: University of Chicago Press, 1968). (12) Papyri graecae magicae 7.643ff. (13)Didache é promunciado como did-a-quei. (14) Didache 9:1-3, em Bart Ehrman, trad. The Apostolic Fathers, Loeb Classical Library 24, vol. 1 (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2003), p. 431.

(TABOR, 2006, p. 215-219). (grifo nosso).

Realmente, a questão de comer carne e beber sangue para um judeu era algo impensável; por isso, Jesus, que nasceu, viveu e morreu como judeu, jamais teria dito isso. É bem possível que essa linguagem de Paulo, foi proposital para os gentios (=pagãos), que, certamente, estavam acostumados esse tipo de coisa. Em José de Souza Pinheiro (1938- ), encontramos apoio a essa hipótese:
Como nos esclarece o teólogo Franz Griese (cf. GRIESE, p. 174-175), no tempo de Paulo, os pagãos e os judeus costumavam sacrificar animais aos respectivos deuses. A carne desses animais sacrificados era consumida nos mercados públicos, na qualidade de carne de Júpiter (o Senhor dos deuses), carne de Minerva (deusa da sabedoria) etc., segundo as divindades a quem haviam sido sacrificados os animais. Os consumidores escolhiam a carne que mais lhes convinha, crendo que comendo essa carne recebiam uma bênção especial da divindade respectiva, e até entrar em certa união com ela, mediante aquela carne.

75 É da maior importância ter presente essas crenças da antiguidade, para compreender o sentido das palavras nos escritos daqueles que viviam naquela época e estavam imbuídos de suas ideias. Pois bem, o apóstolo Paulo, para induzir os novos cristãos, oriundos dos povos pagãos, a não participarem dos sacrifícios pagãos e não comerem a carne dos animais sacrificados aos ídolos, proíbe essa prática, substituindo-a pela "Ceia do Senhor", dizendo que, como pela carne dos ídolos, o homem participa dos "demônios", ou seja, dos "deuses pagãos", do mesmo modo pelo consumo do pão e do vinho eucarísticos o cristão participa do "Cristo da fé" (cf. GRIESE, p. 175). Mas, como afirma Griese (ibid.), não há a menor dúvida de que Paulo não acreditava numa participação literal da própria pessoa dos deuses pagãos, mediante a carne dos ídolos e, portanto, tampouco na participação literal da verdadeira pessoa de Cristo, mediante o pão e o vinho eucarísticos. Os coríntios (como Paulo) também tinham um conceito simbólico muito simples da eucaristia e, certamente, não tinham a convicção de que o pão seria o verdadeiro corpo e o vinho o verdadeiro sangue de Cristo. Eles apenas acreditavam que, ao comerem o pão e ao beberem o vinho, participavam do Cristo da fé, do mesmo modo como os pagãos acreditavam que participavam simbolicamente dos seus deuses comendo a carne dos animais sacrificados em sua honra (cf. GRIESE, p. 179). (SOUZA, 2011, p. 134) (grifo nosso).

Recorreremos agora a Edward Carpenter (1844-1929) que nos traz algo bem curioso a respeito da palavra eucaristia:
Eu já falei sobre várias das principais doutrinas do Cristianismo - ou seja, do pecado, do sacrifício, da Eucaristia, do Salvador, do Renascimento e da transfiguração - mostrando que eles não são únicos em nossa religião, mas sim comuns a quase todas as religiões do mundo antigo. A lista pode ser muito aumentada, mas não há necessidade de nos atermos a um assunto que, de modo geral, já foi compreendido. Dedicarei, no entanto, uma ou duas páginas para um exemplo, que eu julgo muito interessante e cheio de sugestão profunda. [...] E, ainda, o fato extraordinário é que uma crença parecida existe em todas as religiões antigas e pode nos remeter ao passado. A palavra hóstia, que é usada na missa católica para representar o pão e o vinho no altar, símbolos do corpo e do sangue de Cristo, vem do latim Hóstia, que no dicionário significa "um animal morto em sacrifício, uma oferta para compensar um pecado". Isso nos leva de volta ao estágio do totem, quando toda a tribo, como eu já expliquei, coroava um touro, um urso ou um outro animal com flores e prestavam-lhe honras com comida e adoração, sacrificavam a vítima para o espírito do totem da tribo e o comiam em uma festa eucarística - e o curandeiro ou sacerdote que dirigia o ritual vestia a pele desse animal como um sinal de que ele representava o totem -, divindade, participando do sacrifício de "si mesmo para si mesmo". Isso nos faz lembrar dos khonds em Bengal sacrificando seus meriahs coroados e enfeitados como deuses e deusas; dos astecas fazendo o mesmo; dos quetzalcoatl furando seus cotovelos e dedos para tirar sangue, oferecido em seu próprio altar; ou de Odin sendo pendurado, por vontade própria, em uma árvore. "Sei que fui pendurado em uma árvore que foi balançada pelo vento por nove longas noites. Uma lança atravessou meu corpo, fui levado a Odin. eu para mim”. E assim por diante. Os exemplos são infinitos. "Sou a oblação". diz Krishna no Bhagavad Gita (22). "Sou o sacrifício, a oferenda aos ancestrais". "No real conceito ortodoxo de sacrifício", diz Elie Reclus (23). "a oferenda consagrada, seja ela um homem, uma mulher ou uma virgem, um carneiro ou novilha, galo ou pombo, representa a divindade... _______
(22) Cap. IX, V. 16. (23) Primitive Folk, cap. VI.

(CARPENTER, 2008, p. 90-91) (grifo nosso).

Então, no fundo, temos que a eucaristia nada mais é que um ritual de origem pagã.

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É inacreditável que ainda se adotem, nos dias atuais, práticas religiosas tidas “como bíblicas”, quando, na verdade, são, em sua esmagadora maioria, atos pagãos, para usar uma expressão ao gosto dos teólogos. É o caso que estamos analisando, que é corroborado por Holger Kersten (1952- ) e Elmar R. Gruber (1955- ), que, narrando o culto persa a Mitra, dizem: “O serviço religioso semanal era realizado aos domingos, dia dedicado ao deus. A cerimônia mais importante do culto era uma ceia que constava de vinho e pão – oferecido na forma de hóstias consagradas que tinham o sinal da cruz”. (KERSTEN e GRUBER, p. 316). (grifo nosso). Curiosa é a frase a seguir, atribuída a Mitra, que nos coloca diante de um fato, em relação ao qual qualquer semelhança não é mera coincidência: "Aquele que não comer minha carne e não beber meu sangue para ser um comigo, e eu um com ele, aquele não conhecerá a salvação". (FREKE e GANDY, 2002, p. 11 e 52). Será que com a realização desses dois atos, simultaneamente, não teremos exatamente o que se faz no ritual da santa missa?

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A conversa de Jesus com Nicodemos
O que temos observado, e que achamos muito interessante, é que as pessoas que não acreditam na reencarnação fazem de tudo para retirar essa ideia da Bíblia, como se isso, por si só, fosse resolver a questão. Estes indivíduos pressupõem, ingenuamente, que se a Bíblia não disser nada sobre a reencarnação, esta não irá existir. Já falamos, e por várias vezes, que a Bíblia não é um compêndio de Ciência e que, por isso, não podemos determinar a existência ou não de qualquer uma das leis naturais com base em suas páginas. Para nós, a reencarnação está no âmbito das leis naturais, não tendo nada a ver com religião, como a querem levar a esse campo seus contraditores, para, daí, apresentarem a Bíblia como prova de sua não existência. Nosso objetivo será exatamente o de provar o contrário. Após retirarem, mudarem ou interpretarem de forma equivocada e tendenciosa algumas passagens, arrematam categóricos: “não está lá”. Isso satisfaz, evidentemente, aos que aceitam tudo sem questionar e aos que, subjugados pela liderança religiosa, não ousam contestá-la, esquecendo-se de que somente “onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade” (2Cor 3,17). Vamos analisar uma das passagens, talvez a que causa maior polêmica entre os antirreencarnacionistas de carteirinha, ou seja, os cristãos fundamentalistas, para extrair dela o seu significado. A passagem está em João capítulo 3, versículos de 1 a 12; leiamos: 1. Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um notável entre os judeus. 2. à noite ele veio encontrar com Jesus e lhe disse: “Rabi, sabemos que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém pode fazer os sinais que fazes, se Deus não estiver com ele”. 3. Jesus lhe respondeu: "Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”. 4. Disse-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e nascer?” 5. Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. 6. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito. 7. Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer de novo. 8. O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito”. 9. Perguntou-lhe Nicodemos: “Como isso pode acontecer?” 10. Respondeu-lhe Jesus: “És mestre em Israel e ignoras essas coisas? 11. Em verdade, em verdade, te digo: falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, porém não acolheis o nosso testemunho. 12. Se não credes quando vos falo das coisas da terra, como crereis quando vos falar das coisas do céu?” (Bíblia de Jerusalém). O realce, em negrito, aos termos dos versículos 3 e 7, é nosso, já que devemos destacá-los mais à frente. a) A Teologia Católica A polêmica instala-se por conta do termo grego anóthem, que, segundo os exegetas, tanto pode ser entendido como “de novo” quanto “do alto”. Isso é um prato cheio para que os teólogos tirem dessa passagem a ideia da reencarnação, para introduzirem a do batismo, para, com isso, justificarem este ritual. Uma das traduções que destacamos é a da Bíblia de Jerusalém, pelo motivo dela ter sido elaborada por uma equipe de tradutores católicos e protestantes. Nela lemos a seguinte explicação: “João emprega um termo grego, anóthem , que significa também ‘do alto’ (cf. 3, 7.31). Esse duplo sentido não existe na língua de Jesus e de Nicodemos”. (p. 1847). Aqui vemos um golpe de morte naqueles que querem buscar nisso um pretexto para retirar dessa passagem a ideia da reencarnação.

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Vejamos o que encontramos em outras Bíblias católicas: Ave Maria: no v. 4 está dito “renascer”, e quanto ao v. 5 explicam que é uma alusão ao batismo. (p. 1386). Pastoral: apenas no v. 3 usaram “do alto”, buscam, também, relacionar essa passagem ao rito do batismo. (p. 1356-1357). Barsa: aplicaram ao v. 3 a expressão “renascer de novo”, no v. 5 “renascer” e no 7 “nascer outra vez”. Embora não falem nada sobre batismo, implicitamente querem levar a essa ideia quando, no v. 5, ao invés de colocar “e do Espírito”, mudam para “e do Espírito Santo”. Um detalhe importante dessa Bíblia é sua antiguidade; foi editada em 1965, do que concluímos que nas edições mais recentes, a preocupação de retirar a ideia da reencarnação fica mais evidente. (Novo Testamento, p. 79). Santuário: Usam no v. 3 e 5 “de novo”; na explicação do v. 3 colocam:
O termo grego aqui empregado é ambíguo. Tanto se pode traduzir por ‘nascer de novo’ como por ‘nascer do alto’. Nicodemos entende-o no primeiro sentido, como se vê pelo contexto. Jesus, porém, reconduz a conversa ao seu caminho: os que pertencem ao Reino, não são os que nasceram da carne e do sangue (os descendentes de Abraão, como pensavam os judeus), mas os que nasceram de Deus (cf. Jo 1,13). Tal nascimento realiza-se no batismo (Jo 3,5). (p. 1574) (grifo nosso).

Do Peregrino: informam-nos que Nicodemos em grego quer dizer “vitória do povo”; aliás, muito significativo para a ideia da reencarnação. (p. 2552). Vozes: nos v. 3 e 7, aplicam o “do alto”, dando a seguinte explicação:
A expressão nascer do alto (v. 3) em grego pode ser entendida também como nascer de novo, como faz Nicodemos (v. 4), no sentido de ser concebido e dado à luz. Jesus, no entanto, fala de um novo nascimento de Deus, da água e do Espírito Santo (v.5), numa referência direta ao rito do batismo (cf. 1,12s). (p. 1275) (grifo nosso).

Aqui temos a confirmação de que, pelo contexto, a expressão deverá ser entendida como “nascer de novo”, pois foi assim que Nicodemos entendeu, conforme nos afirmam alguns tradutores da Bíblia. Não adianta, para justificar o contrário, querer comparar o significado de uma palavra colocada em textos diferentes, uma vez que ela poderia, muito bem, ter significados distintos, o que somente o contexto em que cada uma está poderá dar a conhecêlos. Quanto à questão do batismo, iremos falar mais à frente, noutro tópico. b) A Teologia Protestante Tanto a Novo Mundo, quanto a SBB e a Mundo Cristão, utilizam o “nascer de novo”. Dessa última transcreveremos as explicações a seguir:
3:3 nascer de novo. Lit., de cima (como em 3:31; 19:11), embora a palavra também signifique “outra vez”, “de novo” (Gl 4:9). O novo nascimento ou regeneração (Tt 3:5) é o ato de Deus que concede vida eterna ao que crê em Cristo. Como resultado, tal pessoa torna-se membro da família de Deus (1 Pe 1;23) com uma nova capacidade e um novo desejo de agradar a seu Pai celeste (2 Co 5;17). 3:5 Quem não nascer da água e do Espírito. Várias interpretações têm sido sugeridas para o termo água neste versículo: (1) Que ela se refere ao batismo como condição para a salvação. Isto, porém, contradiz muitas outras passagens do N.T. (Ef 2:8-9). (2) Representa o ato de arrependimento indicado pelo batismo de João. (3) Refere-se ao nascimento físico; assim, o versículo diria: “Quem não nascer a primeira vez da água e a segunda vez do Espírito”. (4) Significa a palavra de Deus, como em Jo 15;3. (5) É um sinônimo para o Espírito Santo, sendo esta a tradução: “da água, isto é, do Espírito”. Uma verdade é

79 clara: o novo nascimento vem de Deus através do Espírito. (p. 1322).

Vez por outra, recorremos a um renomado filósofo do século XVII, Baruch de Espinosa (1632-1677), já que, o que afirmou, ainda prevalece em nossos dias. Agora novamente o faremos; assim leiamos:
Admira-me bastante, pois, a engenhosidade de pessoas, como aquelas de quem já falei, que enxergam na Escritura mistérios tão profundos que se torna impossível explicá-los em qualquer língua humana e que, além disso, introduziram na religião tantas matérias de especulação filosófica que a Igreja até parece uma academia e a religião uma ciência, ou melhor, uma controvérsia. [...]. (ESPINOSA, 2003, p. 208). O comum dos teólogos, todavia, entende que se devem interpretar metaforicamente aquelas passagens em que se atribuem a Deus coisas que eles conseguem ver pela luz natural serem incompatíveis com a natureza divina, ao passo que tudo aquilo que escapa à sua capacidade de compreensão se deverá aceitar à letra. Porém, se todas as passagens daquele gênero que se encontram na Escritura tivessem obrigatoriamente de ser interpretadas e entendidas metaforicamente, então a Bíblia não teria sido escrita para o povo e para o vulgo ignorante, mas unicamente para os especialistas, designadamente os filósofos. (ESPINOSA, 2003, p. 213).

Aqui é interessante notar que mais um tiro mortal é dado, dessa vez em relação à questão de relacionar a passagem ao ritual do batismo como condição sine qua non para a salvação, conforme ainda podemos perceber em alguns argumentos teológicos. c) A Teologia Espírita Vamos apresentar os argumentos de um escritor espírita sobre este assunto. No livro “Analisando as Traduções Bíblicas ”, o autor Severino Celestino da Silva (1949- ), no capítulo XVII – A Reencarnação no Novo Testamento, ao se referir à passagem de João 3,1-12, diz-nos o seguinte:
Este é o texto que tem dado mais trabalho aos exegetas que querem negar a Reencarnação. No entanto, é o mais claro e contundente de todos, por isso, existe um verdadeiro malabarismo por parte destes, no sentido de obscurecer o verdadeiro e claro sentido desta passagem. Iniciamos pelo vocábulo “anóten” que em grego pode significar “de novo” e “do alto”. Nesta passagem, esse vocábulo significa realmente “de novo”, porém a maioria dos exegetas emprega o termo “do alto” para justificar a sua descrença na Reencarnação. Este malabarismo envolve também a questão gramatical na tradução do texto, como veremos mais adiante. Colocaremos, aqui, muitas observações e conceitos empregados, sobre este texto, feitos por Torres Pastorino na sua obra “Sabedoria do Evangelho”, com relação ao texto grego. Concordamos plenamente com todos os seus conceitos, razão por que o usaremos para reforçar nossa exegese. A análise do texto hebraico é de autoria e responsabilidade nossa. Muitos começam com a afirmação de que Jesus teria dito: “AQUELE QUE NÃO NASCER “DO ALTO”. Observe, no entanto, que a pergunta feita por Nicodemos, em seguida, denota que ele entendeu que Jesus falava realmente em nascer “de novo” e não “do alto”: Como “pode o homem, depois de velho, entrar pela segunda vez (duteron) no ventre materno?”. Esta ambiguidade de entendimento só acontece na língua grega, porque no hebraico, que foi realmente a língua em que Jesus dialogou com Nicodemos, este problema não existe. O texto é bem claro e jamais pode significar “do alto”. Diz o seguinte: (“im lô iauled ish mimkôr 'al lô-iukal lirôt et-malkut haelohim”) im=se, lô=não, iualed=incompleto do grau qal(1) do verbo “nolad”=nascer, ish=um homem, mimikôr=palavra composta, formada por mi=de + makôr=fonte de água viva, origem. Existe a expressão hebraica “Mekôr chaim” que quer dizer “fonte da vida”. Observe que não existe nada referente “ao alto”, no texto grego, como muitos querem se fazer entender. Assim, o Cristo fala que aquele que não nascer em origem, no sentido de se

80 voltar à fonte original da vida, ou seja, nascer novamente, “não poderá” (lôiuchal=incompleto do verbo iachôl=poder) ver o reino de Deus (lirôt etmalkut haelohim). Assim, no diálogo, a palavra grega “anóten” tem o sentido e significado de 'de novo', portanto, Jesus falava de retorno, ou seja, de Reencarnação mesmo, como foi visto no texto hebraico. Lembramos, ainda, que Nicodemos já era um cidadão de idade avançada e o Cristo lhe fala da Reencarnação (Nascer de Novo), como uma esperança e reconforto para ele, mostrando-lhe que a vida não termina com a morte, nem os velhos devem temer a morte, pois podem renascer e começar tudo novamente. Na sequencia, Cristo confirma que era isso mesmo que Ele queria dizer: “Quem não nascer de água (materialmente, com o corpo denso, dado que o nascimento físico é feito através da bolsa d’água do líquido amniótico), veja o cap. VII deste livro, Salmo 23 e de espírito (pneumatos), ou seja, que adquira nova personalidade no mundo terreno, em cada nova existência, a fim de progredir). Se Nicodemos entendeu ao pé da letra as palavras de Jesus, o Mestre as confirma ao pé da letra e reforça o seu ensino. Com efeito, o espírito, ao reentrar na vida física, pode ser considerado o mesmo espírito que reinicia suas experiências, esquecido de todo passado”. A questão gramatical: No texto em grego não há artigo diante das palavras “água” (ek ydatos= de água) “e espírito” (kai pneumatos), portanto, o texto fala em nascer “de água e de espírito”. Não é portanto, nascer da água do batismo, nem do espírito, mas de água (por meio da água) e de espírito (pela Reencarnação do espírito). O primeiro versículo do Gênesis (1:1) fala que no princípio criou Deus os Céus e a terra. A palavra 'céus' em hebraico “Shamaim” (2) - significa: “Carrega água”, “Ali existe água”; “fogo e água” que misturados um ao outro, formaram os Céus. Como podemos observar, tudo começou com as águas. Água é vida e essa era a crença geral naquela época. É lógico que o Cristo não falava de batismo e sim de retorno através da água. Lembramos ainda que 99% da constituição das células reprodutoras são água. Daí a explicação que segue: “o que nasce da carne (ek tês sarkos) com artigo (tês) em grego, é carne”, isto é com corpo físico, com toda a hereditariedade física herdada do corpo dos pais; “e o que nasce do espírito (ek tou pneumatos) é espírito”, ou seja, o espírito que reencarna provém do espírito da última encarnação com toda a hereditariedade pessoal (cármica) que traz do passado. E Jesus prossegue: “Por isso não te admires de eu te dizer: é-vos necessário nascer de novo”. Observe a diferença de tratamento: “dizer-TE” no singular, e “é-VOS” no plural, porque o renascimento é para todos, não apenas para Nicodemos. E mais: “o espírito sopra (isto é, age, reencarna, se manifesta onde quer), e não sabes de onde veio (ou seja, sua última encarnação), nem para onde vai (qual será a próxima). As palavras de Jesus foram de modo a embaraçar Nicodemos, que indaga: “como pode ser isso?” E Jesus: “Tu que (entre nós dois) é Mestre de Israel, te perturbas com estas coisas terrenas? Que te não acontecerá então, se te falar das coisas celestiais (espirituais)?”. Logicamente Jesus não podia esperar que Nicodemos entendesse as interpretações mais profundas desse ensinamento, nem tão pouco estava querendo ensinar-lhe o batismo, nesta passagem, como muitos querem justificar Se o Cristo falava realmente do batismo para Nicodemos, por que não o convidou a se batizar? E por que o próprio Cristo não o batizou? Leia em João 4:2 que Cristo não batizava, quem batizava eram os discípulos. E por que diante de tantas curas, milagres e encontros, como no da “Adúltera”, com “Zaqueu”, com o “Centurião”, com a “Cananeia”, Cristo nunca falou em batismo? Não seria uma oportunidade para este convite? No entanto, sua recomendação era para a mudança interior: “vai e não peques mais para que coisa pior não te venha acontecer”. E Jesus conclui exemplificando: “como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim o Filho do Homem será erguido da Terra”. (Veja a história

81 da serpente erguida no deserto no Livro Números – vaicrá- 21:4-9). Aqui o Cristo prevê o que aconteceria a Ele, ou seja, a sua morte na cruz para que hoje seja erguido na terra como filho de Deus e dirigente de toda a nação terrena. Paulo, em sua epístola a Tito 3:4-5, interpreta bem esta citação do Cristo: “Mas quando apareceu a vontade de Deus, nosso salvador, e o seu amor para com os homens, não por obras da justiça que tivéssemos feito, mas segundo sua misericórdia nos salvou pelo lavatório da reencarnação, e pelo renascimento de um espírito santo”. Aqui, Paulo deixa bem claro que Deus nos salvou não porque o tivéssemos merecido, mas por Sua misericórdia, servindo-se da reencarnação a qual é um “lavatório” (de água) e um “renascimento do espírito”. A palavra grega do texto a que se refere Paulo é !"#%%&'&)*!, “Palingenesia” – isto é, “renascimento”, “Novo Nascimento”, REENCARNAÇÃO. ______ (1) Esclarece-nos o autor do livro, Dr. Severino que: O termo QAL ou qal é uma palavra
hebraica que significa "Fácil" que tem o sentido gramatical de "forma fácil" ou "simples" de conjugação do verbo na língua hebraica. O verbo em hebraico possui sete graus de conjugação (Qal, nif'al, piel, pual, hif'iil, haf'al e hitpa'el.) Nesse caso específico foi colocado com relação ao verbo nascer (nolad-em hebraico). O incompleto que é o futuro do verbo na forma QAL que é a mais simples das conjugações. (2) Neste ponto é colocada a palavra em hebraico:

(SILVA, 2001, p. 238-242) (os grifos são do original).

Deixa-nos Severino Celestino, e com clareza meridiana, um posicionamento sereno e equilibrado diante da passagem analisada, embora saibamos que não irá agradar aos fundamentalistas. Mas como já o dissemos, não é este o nosso objetivo. Como sempre argumentam que, naquela época, não existia a ideia conceitual da reencarnação, devemos, por amor à verdade, apresentar as provas de que isso não tem fundamento. A primeira questão é que, se nós formos buscar a palavra “reencarnação” na Bíblia, não a encontraremos. Entretanto, facilmente encontraremos uma outra terminologia que é usada em algumas situações, com o conceito de reencarnação, e que é a palavra “ressurreição”. Quatro são as ideias que eles tinham sobre ressurreição: 1ª - alguém voltar a viver na condição de espírito; 2ª - reviver no mesmo corpo físico; 3ª - voltar a viver num outro corpo físico; e 4ª - ressurgir em espírito e, nessa condição, influenciar uma pessoa. Mais informações sobre essas quatro ideias poderão ser vistas no texto “Ressurreição, o significado bíblico”, disponível no site www.paulosnetos.net Para exemplificar a terceira ideia, podemos citar a narrativa de Lucas (9,18-20) sobre o episódio em que Jesus pergunta aos seus discípulos o que o povo pensava dele, ao que lhe responderam: "Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que tu és algum dos antigos profetas que ressuscitou". Pela resposta podemos perceber que é exatamente a ideia da reencarnação, pois Jesus só poderia ser Elias, Jeremias, que é citado em Mt 16,14, ou algum outro dos antigos profetas, se aceitassem essa possibilidade de ressurreição no sentido de reencarnação, termo, inclusive, usado no texto. A prova que não entendiam bem sobre a reencarnação, aqui com o nome de ressurreição, é pelo fato de terem citado João Batista, que foi contemporâneo de Jesus. Considerando que nos foi informado que Nicodemos era um fariseu, não podemos deixar de falar dessa classe política e religiosa que existia àquela época. Nós buscaremos esta informação num historiador que viveu naquele tempo, chamado Flávio Josefo (37-1-3 d.C.). Suas obras históricas são: Antiguidades Judaicas, Guerra dos Judeus e Resposta de Flávio Josefo a Ápio, que, em nosso caso, fazem parte do livro História dos Hebreus. E a título de informação transcrevemos:

82 Quem foi Flávio Josefo? Foi ele um escritor e historiador judeu que viveu entre 37 a 103 d.C. Seu pai foi sacerdote e sua mãe descendia da casa real hasmoneana. Portanto, Josefo era de sangue real. Ele foi muito bem instruído na vasta cultura judaica, bem como na grega. Falava perfeitamente o latim – o idioma do Império Romano, e também o grego. Logo cedo na vida demonstrou intenso zelo religioso, filiando-se ao grupo religioso dos fariseus. (...) (JOSEFO, 2003, p. 41).

Ele, descrevendo a maneira de viver dos fariseus, coloca:
(...) Eles julgam que as almas são imortais, que são julgadas em um outro mundo e recompensadas ou castigadas segundo foram neste, viciosas ou virtuosas; que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida e que outras voltam a esta. (...) (JOSEFO,2003, p. 416) (grifo nosso).

E quando alguns soldados, derrotados na guerra contra os romanos, pensavam em suicidar-se, alerta-os dizendo:
(...) Não sabeis que Ele difunde suas bênçãos sobre a posteridade daqueles, que depois de ter chamado para junto de si, entregam em suas mãos, a vida, que, segundo as leis da natureza, Ele lhes deu e que suas almas voam puras para o céu, para lá viverem felizes e voltar, no correr dos séculos, animar corpos que sejam puros como elas e que ao invés, as almas dos ímpios, que por loucura criminosa dão a morte a si mesmos são precipitados nas trevas do inferno; (...) (JOSEFO, 2003, p. 600) (grifo nosso).

Assim, é justo dizer que os fariseus acreditavam numa ressurreição em outro corpo, ainda que não se tenha dito quantas vezes. Ora, isso não é nada mais nada menos do que aquilo que entendemos por reencarnação. Podemos, ainda, para corroborar a afirmativa de que ela era crença no judaísmo, trazer para comprovação os conhecimentos contidos na Cabala, que, segundo seus estudiosos, é o significado mais profundo e oculto da Torá. O Rabino Philip S. Berg (1929- ), em Reencarnação as Rodas da Alma, diz que:
A palavra hebraica para reencarnação é Guilgul Neshamot, que literalmente quer dizer ‘roda da alma’. É para esta vasta roda metafísica, com sua coroa constelada de almas, como estrelas nas bordas de uma galáxia, que devemos dirigir nosso olhar, se desejamos ver além da aparência da inocência punida e da maldade recompensada. Guilgul Neshamot é uma roda em constante movimento e, ao girar, as almas vêm e vão diversas vezes, num ciclo de nascimento, evolução e morte e novo nascimento. A mesma evolução ocorre com o corpo no decorrer de uma única vida. Ocorre o nascimento, o crescimento das células, a paternidade e a morte – novos corpos produzidos pelos antigos, dando assim continuidade à forma física. É sempre um pai que concede sua semente para que haja continuidade, num processo sem fim. (BERG, 1998, p. 17-18).

Severino Celestino, citando o Rabino Shamai Ende, diz:
Sobre a Reencarnação, apresentamos, aqui, para ilustrar, o depoimento do Rabino Shamai Ende, colaborador da Revista Judaica “Chabad News”, publicação de Dez a Fev 1998. Vejamos o texto na íntegra: “O conceito de Guilgul (Reencarnação) é originado no judaísmo, sendo que uma alma deve voltar várias vezes até cumprir todas as mitsvot(1) da Torá. Além disso, cada alma tem uma missão específica. Caso não tenha cumprido a sua, a alma deve retornar a este mundo para preencher tal lacuna. Somente pessoas especiais sabem exatamente qual é sua missão de vida. [...]”. ______ (1) Mitsvot – plural de mitsvá que significa mandamento ou prática de boas obras –
caridade.

83 (SILVA, 2001, p. 161) (grifo do original).

Disso podemos concluir que Nicodemos, sendo um fariseu, fatalmente acreditava que alguém poderia voltar; entretanto, não sabia como isso poderia acontecer, razão daquelas suas perguntas a Jesus. Será que Jesus pregou o Batismo? Um fato incontestável é que Jesus nasceu, viveu e morreu como judeu. Também não há como discutir que o batismo não era a prática ritualística no judaísmo, que sabemos ser a da circuncisão, ato a que, segundo narrativa no Evangelho, o próprio Jesus foi submetido. Curioso é que, dos quatro evangelistas, somente João diz algo sobre o batismo. Primeiro, ele afirma que Jesus batizava (Jo 3,22); entretanto, logo depois contradiz o que disse antes dizendo que Jesus mesmo não batizava, mas sim os seus discípulos (Jo 4,2), o que nos deixa desconfiados, pois sabemos que os Evangelhos foram escritos em grego, exceto o de Mateus que foi em aramaico, e que João era iletrado, portanto, sem instrução (At 4,13); como, então, poderia ter escrito o Evangelho que lhe é atribuído? Por isso, não é absurdo supor que, na verdade, outra pessoa o escreveu, fato que nos coloca diante também da possibilidade de que os textos poderiam ter sido “ajeitados” aos interesses dogmáticos daquela época. Todavia, a contradição pode ser apenas aparente, já que o batismo de Jesus não era o mesmo batismo de João Batista. Sobre isso, encontramos uma passagem que diz: “Eu, na verdade, vos batizo em água, na base do arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu, que nem sou digno de levar-lhe as alparcas; ele vos batizará no Espírito Santo, e em fogo.” (Mt 3,11). Outrossim, considerando que Nicodemos “era membro do Conselho supremo chamado Sinédrio” (Bíblia Sagrada Ave Maria, p. 1386), portanto, entendedor das práticas ritualistas dos judeus, não teria cabimento a pergunta (És mestre em Israel e ignoras essas coisas?) feita por Jesus a ele. Se Jesus estivesse mesmo se referindo ao batismo, certamente, que para Nicodemos, era muito fácil de entender. Se ele desconhecia é porque, na verdade, era sobre outra coisa que Jesus lhe falava. Pelos seus questionamentos ao Mestre, fica claro que era algo mais profundo do que um simples batismo, tinha, portanto, que ser de um assunto mais complexo que esse. Com certeza, a reencarnação é algo assim, já que a maioria das pessoas por “ignorar essas coisas”, não sabem exatamente sobre “como pode um homem velho voltar a nascer de novo”; daí fazer a mesma pergunta que fez Nicodemos: “porventura irá entrar no ventre de sua mãe para nascer pela segunda vez?” A esses responderemos igual a Jesus: “Não te admires disso”. Sobre o que Nicodemos entendeu, transcrevemos esse trecho da história na versão de Huberto Rohden (1893-1981), renomado teólogo:
Então passa o Mestre a mostrar a seu novel discípulo que o principal não é fazer algo, mas ser alguém. – Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus. Nascer de novo? Nicodemos logo pensa em reencarnação material e replica: – Como pode um homem velho nascer de novo? E, um tanto irônico, acrescenta: – Será que pode voltar ao ventre de sua mãe e nascer mais uma vez? (ROHDEN, 2007, p. 73-74) (grifo nosso)

É importante esse entendimento de Rohden, porquanto mesmo sem aceitar a reencarnação, como se poderá ver no desenrolar de sua versão da história, ele admite que Nicodemos entendeu sim que o que Jesus falava era sobre reencarnação. Não obstante tudo isso, se o batismo nas águas fosse mesmo uma prática recomendada aos Cristãos, porque Paulo não deu ênfase a isso? Ele mesmo o responde: “Para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. É verdade, batizei também a família de Estéfanas, além destes, não sei se batizei algum outro. Porque

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Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para não se tornar vã a cruz de Cristo”. (1Cor 1,15-17). Kardec assim explicou o texto de João, em exame:
Para se apanhar o verdadeiro sentido dessas palavras, cumpre também se atente na significação do termo água que ali não fora empregado na acepção que lhe é própria. Muito imperfeitos eram os conhecimentos dos antigos sobre as ciências físicas. Eles acreditavam que a Terra saíra das águas e, por isso, consideravam a água como elemento gerador absoluto. Assim é que na Gênese se lê: "O Espírito de Deus era levado sobre as águas; flutuava sobre as águas; - Que o firmamento seja feito no meio das águas; - Que as águas que estão debaixo do céu se reúnam em um só lugar e que apareça o elemento árido; - Que as águas produzam animais vivos que nadem na água e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento." Segundo essa crença, a água se tornara o símbolo da natureza material, como o Espírito era o da natureza inteligente. Estas palavras: "Se o homem não renasce da água e do Espírito, ou em água e em Espírito", significam pois: "Se o homem não renasce com seu corpo e sua alma." E nesse sentido que a principio as compreenderam. Tal interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. Jesus estabelece aí uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. O que é nascido da carne é carne indica claramente que só o corpo procede do corpo e que o Espírito independe deste. (KARDEC, 2007c, p. 91) (grifo nosso).

Informa-nos, também o escritor L. Palhano Jr. (1946-2000):
(...) A água tinha grande simbolismo entre os hebreus; tanto o espírito como as águas são fecundos (Is 32:15; 44:3; Ez 36:25-27); o espírito é coisa que Deus envia e derrama, como água (Jl 3:1-2; Zc 12:10). Água era uma expressão para indicar influências boas ou más, como no (Sl 1:3): “Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem; e tudo quanto fizer prosperará”. (...) (PALHANO JR, 2001, p. 403) (grifo do original)

Daí a necessidade de entendê-la pelo seu simbolismo e não no sentido literal como querem se apegar os que não acreditam na reencarnação. Ademais, se compararmos os versículos 5 e 6 e a respectiva conclusão no 7, veremos que não poderá ser mesmo do batismo que Jesus falava. Existe uma evidente relação entre o versículo 5 e o 6, especificamente nas expressões “nascer da água” com “nasceu da carne é carne” e “nasceu do Espírito” com “nasceu do Espírito é espírito”. Essa relação nada tem a ver com batismo e nem mesmo com renovação espiritual como acreditam muitos outros, já que Jesus finaliza taxativo: “Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer de novo” (v. 7), significando que o homem fisicamente descende do homem, e o Espírito provém de Deus. Por outro lado, sendo a reencarnação coisa da terra, explicaria, indubitavelmente, essa fala final de Jesus a Nicodemos: “Se não credes quando vos falo das coisas da terra, como crereis quando vos falar das coisas do céu?” (v. 12). Uma outra questão para análise é: João Batista era Elias reencarnado? Após tecer comentários sobre o diálogo entre Jesus e Nicodemos, Allan Kardec conclui:
Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de S. Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. [...] (KARDEC, 2007c, p. 92).

Igualmente julgamos oportuno abordar essa questão, já que é um dos argumentos que

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reforçam a reencarnação, pois aqui irá nos ajudar a fortalecer a convicção que essa ideia era, de fato, não somente comum à época de Jesus, como também está presente no texto bíblico. Primeiramente, citaremos a passagem em que Jesus faz o reconhecimento público da identidade de João Batista, narrado em Mt 11,7-14: “Os discípulos de João partiram, e Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: ‘O que é que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que vocês foram ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas aqueles que vestem roupas finas moram em palácios de reis. Então, o que é que vocês foram ver? Um profeta? Eu lhes afirmo que sim: alguém que é mais do que um profeta. É de João que a Escritura diz: 'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti'. Eu garanto a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino do Céu é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora, o Reino do Céu sofre violência, e são os violentos que procuram tomá-lo. De fato, todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. E se vocês o quiserem aceitar, João é Elias que devia vir. Quem tem ouvidos, ouça’". A profecia citada por Jesus é a de Malaquias (3,1), que, mais à frente (vv 23-24), identifica quem será esse mensageiro: “Vejam! Eu mandarei a vocês o profeta Elias, antes que venha o grandioso e terrível Dia de Javé. Ele há de fazer que o coração dos pais voltem para os filhos e o coração dos filhos para os pais; e assim, quando eu vier, não condenarei o país à destruição total”. Quando o anjo anuncia a Zacarias que sua esposa estava grávida, diz ele sobre o menino: “Ele reconduzirá muitos do povo de Israel ao Senhor seu Deus. Caminhará à frente deles, com o espírito e o poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, preparando para o Senhor um povo bem disposto". (Lc 1,16-17). Além de fechar com a citação final da profecia de Malaquias, ressaltemos que ainda é sintomática a expressão “com o espírito e o poder de Elias”, compreensível aos que acreditam na reencarnação. Aqui merecem destaque dois versículos dessa citação que estamos analisando. O primeiro é aquele que diz “de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista” (Mt 11,11). Analisando-o, chegamos à conclusão que, se não houver uma etapa anterior em que as pessoas possam evoluir, João Batista foi um ser privilegiado, pois já veio “maior que todos os homens”; quer dizer, mais evoluído que todos os homens, fato que contraria o princípio de que “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34). No entanto, é plenamente coerente, quando se aceita a reencarnação como um fator de progresso do Espírito. Por outro lado, completa Jesus: “No entanto o menor no reino dos céus é maior que ele” (Mt 11,11), o que dentro de uma justiça divina, só poderá ocorrer se houver a todos nós a possibilidade de evoluirmos em outras vidas. O segundo é o que o segue, onde está dito: “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino do Céu sofre violência...” (Mt 11,12). Importante esta afirmativa, mas ela só caberia se João Batista tivesse vivido antes, já que não há sentido algum dizer isso citando uma pessoa contemporânea. Explicando melhor, poderíamos dizer que “desde o tempo em que João Batista viveu como Elias, o Reino dos Céus sofre violência...”; dessa forma ficará perfeitamente lógica a afirmativa, coisa que não acontecerá, se não aceitarmos que João Batista seja a reencarnação do profeta Elias,como também ficará de acordo com a afirmativa de Jesus: “João é Elias que devia vir” (Mt 11,14). Jesus, prevendo a incredulidade de muitos, ainda alerta: “Ouça quem tem ouvidos de ouvir” (Mt 11,15), ou seja, se quiser ouvir o que estou afirmando é exatamente isso: João Batista é o Elias reencarnado.

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A outra passagem, é aquela em que Jesus sobe ao monte Tabor e se transfigura (Mt 17, 1-9), ocasião em que aparecem os espíritos de Moisés e Elias e conversam com Jesus. Na sequencia (vv. 10-13) é narrada a dúvida dos discípulos, pois, ao verem Elias, ficaram preocupados em relação à profecia a respeito de sua volta (Ml 3,1.23-24). Explica-lhes Jesus: "Elias vem para colocar tudo em ordem. Mas eu digo a vocês: Elias já veio, e eles não o reconheceram. Fizeram com ele tudo o que quiseram..." (v. 11-12). A essa explicação “os discípulos compreenderam que Jesus falava de João Batista” (v. 13). Não precisa ser mais óbvio. Entretanto, algumas pessoas, dando mais crédito ao discípulo do que ao Mestre (Mt 10,24), alegam, contra a crença na reencarnação, que João Batista afirmou não ser Elias, esquecendo-se de que o mais importante e a afirmação de Jesus que ele era. Considerando que “Deus é Espírito” (Jo 4,24), “O espírito é que dá a vida a carne não serve para nada” (Jo 6,63) e “a carne e o sangue não podem herdar o Reino dos céus” (1Cor 15,50), não podemos aceitar que Elias tenha sido arrebatado de corpo e alma ao céu. Fatalmente, aconteceu a ele, como acontecerá a todos nós, o “e ao pó retornarás” (Gn 3,19). Estamos adiantando aos que tentariam justificar que João Batista não poderia ser Elias reencarnado, já que Elias não ultrapassou o portal da morte. Ainda poderemos colocar que, para algumas situações que passamos nessa vida, somente se acreditarmos na reencarnação é que encontraremos explicação satisfatória. Muitas das nossas dores e sofrimentos são provenientes de erros pretéritos, fato não ignorado na época de Jesus, já que supunham que uma pessoa poderia vir com certa deformidade em virtude do passado delituoso. Essa crença é perfeitamente percebida quando, ao verem um cego de nascença, os discípulos perguntam a Jesus: “Quem foi que pecou foi ele ou seus pais?” (Jo 9,2). Jesus faz uma relação clara entre nossos erros (pecados) e situações dolorosas, ao dizer a um doente que acabara de curar: “não peques mais, para que te não aconteça coisa pior” (Jo 5,14). Somente haverá sentido em se falar em carma, para nós espíritas Lei de ação e reação, se houver a crença na reencarnação, já que ambos os conceitos estão intimamente ligados. Poderemos ainda acrescentar que é pela reencarnação que todos nós um dia estaremos no reino dos Céus, uma vez que esse é o destino fatal de todos nós, já que é do desejo de Deus que todos os homens sejam salvos (1Tm 2,4). Certa feita, Jesus disse aos chefes dos sacerdotes e anciãos do povo “... Eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino dos Céus” (Mt 21,31), demonstrando claramente que, apesar de tudo, eles um dia estariam no Reino dos Céus; apenas que os detestáveis cobradores de impostos e as desprezadas prostitutas chegariam antes deles. André Luiz, pela psicografia de Francisco Cândido Chico Xavier (1910-2002), disse, ao comparar a encarnação do espírito num corpo físico, que é o mesmo que estarmos numa prisão. Então, lembramo-nos de um final de uma fala de Jesus em que afirma: “... você irá para a prisão. Eu garanto: daí você não sairá, enquanto não pagar até o último centavo" (Mt 5,25-26). Além do progresso, essa é também mais uma utilidade da reencarnação, ou seja, por ela todos nós, quitamos os nossos débitos perante as leis divinas. Aliás, preferimos a isso que irmos irremediavelmente para um inferno eterno, onde nunca conseguiremos pagar nossos débitos, situação em que a Justiça humana seria muito melhor que a divina. Concluímos seguramente, sem nenhum medo de estarmos errados, que realmente a passagem analisada diz da reencarnação. O contexto histórico nos dá conta de que a reencarnação era crença no judaísmo, embora com o nome de ressurreição. A grande dificuldade é que encontramos essa palavra com vários sentidos; daí a grande confusão que causa a alguns, principalmente àqueles que não querem, por razões dogmáticas, aceitar a reencarnação como uma realidade. Citaremos, para corroborar o que temos dito aqui, o que os pesquisadores Holger Kersten (1951- ) e Elmar R. Gruber (1955- ) disseram no livro O Buda Jesus:
Analisando as teorias de Pitágoras, descobrimos que sua teoria da reencarnação veio da Índia. Apesar de todos os expurgos, essa ideia também é preservada em várias passagens do Novo Testamento, a ponto

87 de ter-se a impressão de que esse conceito não-cristão foi ensinado pelo próprio Jesus. [...] Pode-se portanto afirmar que, nessa época, a ideia do renascimento e da transmigração da alma estava enraizada no sentimento popular dos judeus. Isso pode ser demonstrado em várias passagens do Novo Testamento. Lembramonos da pergunta dos discípulos a Jesus sobre o homem que era cego de nascença: “Quem pecou, ele ou os pais para que ele tenha nascido cego?” (João 9,20. A hipótese de que o próprio homem tivesse pecado pressupõe, naturalmente, que o pecado tivesse sido cometido numa vida anterior, constituindo uma aceitação da ideia do carma. [...] Essa crença evidente no renascimento que encontramos no Novo Testamento não era, de modo algum, familiar aos judeus dos primeiros tempos. Foi a filosofia helênica que a disseminou por todas as regiões dentro de sua esfera de influência. O conceito de renascimento (gilgul) só se tornou conhecido nos círculos judaicos por volta do início do nosso milênio. Os talmudistas acreditavam que Deus havia criado um número determinado de almas judias, que renasciam constantemente. Como punição elas, retornavam no corpo de animais. De acordo com essa ideia, o ser humano tinha que experimentar uma longa transmigração da alma (gul-neschama) até alcançar a redenção (tikkun – a harmonia). A ideia de que a redenção só ocorre quando é atingido o objetivo do desenvolvimento terreno indica a origem hindu e budista do conceito e só surgiu entre os judeus durante o período helênico. A ideia da reencarnação sem dúvida ocupou um lugar de destaque na visão que Jesus tinha da vida. Isso coloca duas possibilidades: ou Jesus era um mestre da sabedoria helenista que adotou o conceito de renascimento como uma abordagem filosófica, ou extraiu a ideia de fontes hindus. No entanto, a maneira pela qual a ideia do renascimento é integrada à sua mensagem, constituindo um componente fundamental de seu entendimento sobre a redenção, torna a hipótese das raízes hindus muito plausível. Apenas na Índia a reencarnação desfrutou de tal aceitação, e apenas na Índia ela esteve ligada a uma moral semelhante à que Jesus divulgou na Palestina. É por isso que os ensinamentos budistas de Jesus soavam tão estranho aos judeus. O tema renascimento está presente em muitas passagens do Novo Testamento15. Jesus fala de suas vidas passadas e de seu retorno, assumindo desta forma uma clara defesa da ideia da reencarnação. Sua referência mais explicita a uma existência anterior (“Antes que Abraão fosse, eu sou” - João 8:58) encontra um paralelo no mais antigo relato sobre a vida de Buda, o Nidanakartha, onde o Desperto é apresentado como um ser preexistente desde o início dos tempos. As passagens mais importantes do Novo Testamento em que Jesus revela sua crença no renascimento estão no Evangelho segundo João (João 3:1-4, 7:9-11). Infelizmente, elas têm sido enormemente mutiladas por traduções incorretas. Graças ao cuidadoso trabalho de Günther Schwarz, muitos desses erros foram corrigidos. Em diversas publicações, esse teólogo conseguiu restabelecer o texto aramaico original dos Evangelhos a partir das traduções gregas existentes, que usou então como base para urna nova versão alemã. O resultado de todos esses anos de trabalho é a obra Jesus-Evangelium16, na qual, com a ajuda de seu filho Jörn Schwarz, reuniu os quatro Evangelhos canônicos e fontes não-bíblicas. Esse "Evangelho de Jesus" será uma constante fonte de referência em nossa análise dos paralelos com o budismo. As citações dessa obra serão abreviadas como "JeEv". Na tradução correta, o verdadeiro significado das ideias de Jesus sobre o renascimento se torna evidente. Uma noite, sabendo que Jesus "fora enviado como mestre" (JeEv 5:11), Nicodemos, um fariseu, foi até ele. Na tradução alemã usual, a conversa com Nicodemos é acompanhada por incompreensíveis palavras de Jesus: "Se um homem não nascer do alto, não poderá ver o reino de Deus" (João 3:3). A versão não autorizada é menos enigmática: "Se o homem não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus". Nos séculos seguintes, a Igreja empenhou-se em suprimir do Novo Testamento todas as referências à reencarnação, sem contudo conseguir eliminá-las totalmente. Nessa nova versão, corretamente traduzida, a intenção das palavras de Jesus volta a se tornar clara. Nicodemos pergunta a Jesus: "O que devo fazer para entrar no Reino de Deus?" Jesus responde: "Em verdade, em verdade, vos digo: quem não nascer de novo e de novo, não poderá ser (re)admitido no Reino de Deus". Nicodemos então pergunta: "Como pode um

88 homem nascer de novo e de novo se já é velho? Pode ele voltar ao ventre da mãe e nascer de novo?" Ao que Jesus replica: "Não te admires do que eu disse, é preciso nascer de novo e de novo". O que está em questão é a readmissão no Reino de Deus como princípio e fim da existência humana. Essa lição deve ser compreendida à luz das passagens da Bíblia em que Jesus diz que João Batista é Elias que voltou à terra (Mateus 11:13-15, 17:10-13; Marcos 9:11-13) e em que ele próprio é considerado um Elias, um Jeremias ou um dos outros profetas renascido. Não existe pois nenhuma dúvida de que Jesus estava falando de um renascimento físico, no sentido hindu de reencarnação. Visto nesse contexto, o erro de tradução de um famoso versículo de Mateus (18:3) deve ser corrigido. Jesus supostamente teria dito: "Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças...", quando o surpreendente resultado da tradução correta é: "Se não renascerdes, não entrareis no Reino dos Céus"17. (JeEv 5:1216). ________
15. Otto Flink (Schopenhauers Seelenwanderungslehre und ihre Quellen) menciona as seguintes passagens: Mateus 14:1-2, 1Cor 15:35-55; Mateus 17:9-12; Lucas 9:7,8,19; Marcos 9:9-13; Mateus 19:28-30; João 3,3 e 3:8. Ele acredita que a ideia de carma está presente em João 9:2-3; Mateus 19:30; Mateus 5:4,26; Marcos 10:19-31; Lucas 18:2920. 16. Schwarz e Schwarz (1993). 17. Schwarz (1990), p. 46.

(KERSTEN e GRUBER, s/d, p. 129-132) (grifo nosso).

Acreditamos que, por motivos de interesses de poder e de dinheiro, a liderança religiosa atual não faz a mínima questão de esclarecer essas dúvidas, pois estariam colocando em risco esses seus interesses. Mas estamos confiantes em que, muito mais cedo do que querem alguns, a ciência dará o veredicto definitivo, quando provar categoricamente a lei natural da reencarnação, única coisa pela qual poderemos explicar inúmeros questionamentos humanos, e é por ela que a justiça e a misericórdia de Deus se manifestam em plenitude.

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O Ritual do Batismo
Sempre nos causou espécie ver passagens bíblicas mencionando o ritual do batismo, em particular a que relata o batismo de Jesus, uma vez que esse rito, conforme sabemos, não fazia parte das práticas religiosas dos hebreus. Assim, não descobrimos por qual motivo que, de uma hora para outra, aparece, na Bíblia, alguém realizando o batismo, porquanto, naquela época, a circuncisão (Lv 12,3) é que era o ritual praticado para a iniciação religiosa. Para nós só existe uma explicação possível para isso. Embora saibamos que ela não irá agradar aos fundamentalistas, mas, como buscamos a verdade, não nos resta senão a alternativa de deduzir que tal episódio seja fruto de interpolação. Mais ainda: ficamos convictos dessa possibilidade, quando os próprios textos bíblicos nos levaram justamente a essa hipótese. É o que se verá no desenrolar desse estudo. Cairbar Schutel (1868-1938), em O Batismo, assim relata:
Esta prática, que assinala períodos milenários, parece ter nascido na Grécia Antiga, logo após a constituição de uma seita que cultuava a Deusa da Torpeza, a quem denominavam Cotito e a quem os atenienses rendiam os seus louvores. Esta seita, constituída de sacerdotes que tinham recebido o nome de baptas, porque se banhavam e purificavam com perfumes antes da celebração das cerimônias, deixou saliente nas páginas da História esse ato como símbolo da purificação do Espírito. (SCHUTEL, 1986, p. 15).

Em Ademar Faria Júnior (1968- ) e Cláudio Bueno da Silva (1952- ), autores da obra Algumas contradições Bíblicas, encontramos mais detalhes dessa história:
O batismo com a água tem origens remotas no seio de diferentes povos, mas coube à influência grega sobre as estruturas romanas e hebraicas a adoção do batismo do arrependimento utilizado por João Batista às margens do rio Jordão. Na Grécia Antiga, havia os Baptas, que eram os sacerdotes da deusa Cotito. Para se tornar um adorador da deusa, havia a necessidade de se apresentar no templo e, dentro da piscina baptismal, se arrepender de todos os erros cometidos até aquele momento. A partir daí, o indivíduo estava em condições de ser mergulhado na piscina e se apresentar como um novo adorador da deusa. O batismo, portanto, é uma cerimônia eminentemente pagã e que foi absorvida pelas religiões tradicionais. (FARIA JÚNIOR E SILVA, 2013, p. 69)

Corroborando essa versão temos ainda o escritor Celso Martins (1942- ), que, em Nas Fronteiras da Ciência, afirma:
[...] Batizando as criaturas nas águas do Rio Jordão como símbolo da renovação espiritual de cada seguidor seu, João estava apenas lançando mão de um rito que remontava à Grécia antiga, pois o batismo é uma prática pagã que nos veio dos sacerdotes da deusa Cotito. Eles se banhavam antes de dedicar suas oferendas à referida deusa da mitologia dos gregos. Como tais sacerdotes se chamavam baptas, daí surgiu a etimologia da palavra batismo, banho em água, no ritualismo de muitas seitas cristãs e também orientais. (MARTINS, 2001, p. 30) (grifo do original).

Em Jesus e sua Doutrina, A. Leterre (1862-1936), por sua vez, nos diz ser outra a sua origem:
Os antigos persas apresentavam o recém-nascido ao padre, perante o Sol, simbolizado pelo fogo. O padre pegava a criança e a colocava em uma bacia com

90 água, a fim de lhe purificar a alma. Nessa ocasião o pai dava nome ao filho. [...] A cerimônia do batismo, no verdadeiro sentido de banho expiatório, já havia, também, na Índia, milhares de anos antes de existir a Europa, tendo daí passado para o Egito. Na Índia eram as águas do Gange, consideradas sagradas, como ainda hoje, que possuíam esta propriedade purificadora, apesar de ser o foco da cólera-morbo; do Gange passou-se para o Indus, igualmente sagrado, de onde se propagou ao Nilo, do mesmo modo sagrado, para, finalmente, terminar no Jordão, onde João as empregava com o mesmo fim e como simples formalidade do seu rito. (LETERRE, 2004, p. 172-173) (grifo do original).

Seja lá qual for a origem, o que fica claro, pelo acima exposto, é que ela está indubitavelmente ligada às práticas de povos ditos pagãos. Em Samuel Noah Kramer (18971990), vemos isso de forma mais clara:
Desde os dias do cativeiro em Babilônia, e daí em diante, o judaísmo apresenta um enxame de místicos religiosos com visões apocalípticas sobre o futuro do homem. Por meio desses visionários, diz o eminente orientalista W. F. Albright, "elementos inumeráveis da fantasia pagã e até mitos inteiros entraram na literatura do judaísmo e do cristianismo". Por exemplo, o rito do batismo - diz ele - remonta às religiões da Mesopotâmia, como também muitos dos elementos na história da vida de Cristo. Entre estes o Dr. Albright inclui a sua concepção por uma virgem, o seu nascimento relacionado com os astros, e os temas da prisão, da morte, descida aos infernos, o desaparecimento por três dias e posterior ascensão aos céus. (KRAMER, 1983, p. 169) (grifo nosso).

Foi por volta do ano 150 a.C., com a fundação da seita judaica dos essênios, que esse ritual de iniciação, passou a ser praticado na Palestina, conforme se lê em Russell N. Champlin (1933- ):
[…] Os manuscritos descobertos entre os Papiros do Mar Morto ilustram fartamente que os essênios (com quem João evidentemente se associou) eram uma seita que praticava o batismo, requerendo batismo de arrependimento para os convertidos, além de praticarem outras abluções entre eles. Os hinos de Qumran falam de batismo de fogo, tais como um rio em chamas que engolfaria os "lançados fora": e alguns bons intérpretes reputam esse batismo de fogo como algo que se refere ao juízo. Parece bem certo, porém, a despeito do conhecimento de João sobre tais ideias, que ele usa da ideia como algo benéfico, que visava o remanescente arrependido e não os incrédulos. (CHAMPLIN, vol. 1, 2005a, p. 288) (grifo nosso).

Sobre essa seita, explicam-nos Russell N. Champlin (1933- ) e J. M. Bentes: (1932- ):
ESSÊNIOS Eles formavam uma ordem monástica judaica, que parece ter surgido no século II A.C. Eles eram exemplos de uma incomum grandeza moral e pureza espiritual (embora houvesse alguns abusos e distorções). Provavelmente foi a primeira sociedade humana a condenar a escravatura, tanto como principio quanto como uma prática. Era uma sociedade comunal, esotérica e extremamente ascética. Procurava lugares isolados a fim de ali viverem e porem em prática a sua fé. Uma das regiões escolhidas era aquela em redor do mar Morto. Alguns estudiosos têm associado um ramo dessa seita com os Manuscritos do Mar Morto. Os essênios eram uma das três principais seitas judaicas, as outras duas eram os fariseus e os saduceus. (CHAMPLIN e BENTES, vol. 2, 1995b, p. 522) (grifo nosso).

Completando suas explicações, informam-nos:
A Teologia dos Essênios Grande parte do que os essênios acreditavam já foi descrita - nas seções

91 anteriores - deste artigo. Afastando-se do judaísmo comum, eles rejeitavam a guerra (pois eram pacifistas); demonstravam uma veneração especial pelo sol, embora não saibamos dizer até que ponto isso os conduzia. Eram comunistas religiosos. Proibiam juramentos. Se excluirmos essas coisas, contudo, suas crenças eram parecidas com as do judaísmo em geral. No entanto, eles eram um movimento restaurador exclusivista, que pensava que o antigo judaísmo apostatara, e que eles eram o verdadeiro Israel. Também é digno de menção o fato de que eles eram deterministas estritos . Eles criam na preexistência e imortalidade da alma, assumindo uma espécie de ponto de vista platônico-filônico sobre a alma. Também acreditavam na reencarnação. A alma, a princípio, habitava na pureza; mas então, ao unir-se com o corpo material, ficou aprisionada, e foi assim que a corrupção da alma teve início. Eles supunham que as almas boas iriam para a bem-aventurança, ao passo que as almas más seriam punidas eternamente. As influências religiosas a que estavam sujeitos, e que explicam em parte algumas de suas doutrinas e práticas, parecem ter vindo do judaísmo, especialmente do farisaísmo, do parseísmo, do paganismo sírio, do pitagoreanismo e do neoplatonismo. Como uma seita distinta, os essênios desapareceram após a destruição de Jerusalém (ano 70 D.C.). Nunca são mencionados no Novo Testamento, embora haja alusões às suas crenças quanto ao celibato, aos juramentos e ao ascetismo. Ver Mat. 5:34ss, 19:11,12 e Col. 2:8,18,23. A referência na epístola aos Colossenses, porém, quase certamente é ao gnosticismo. (CHAMPLIN e BENTES, vol. 2, 1995b, p. 524) (grifo nosso).

Ao se afirmar que “suas crenças eram parecidas com as do judaísmo em geral”, não há como não pensar que “quem parece” não é; assim, não se poderia dizer que praticavam o judaísmo, embora, cressem nisso. O estudioso Geza Vermes (1924- ), considerado um dos maiores especialistas dos manuscritos do Mar Morto, assim explica esse ritual:
A primeira imagem do batismo, originalmente um rito judaico de imersão, aponta para a purificação, tanto física como espiritual. Era uma prática comum, geralmente repetível e repetida. Era prescrita para a purificação ritual de judeus, sacerdotes e levitas e leigos israelitas, a fim de que eles pudessem entrar no santuário de Jerusalém e participar no culto do Templo. Em um nível mais prático, o banho cerimonial combinava higiene com a purificação alegórica que se voltava contra formas de impureza. Era imposto para marcar o fim de certas doenças contagiosas, como enfermidades dermatológicas ou genitais designadas por termos genéricos como “lepra” e “corrimento”. Um banho ritual também restaurava o estado de pureza após contatos com um corpo morto, após relações sexuais para ambos os sexos, e após a menstruação e o parto para as mulheres. Algumas formas específicas de batismo judeu só eram praticadas uma vez. Este é o caso do batismo de penitência pregado por João Batista, que visava eliminar a impureza do pecado e indicar a mudança na direção de uma via pia conducente ao Reino de Deus. Parece que os essênios de Qumrã submetiam-se a um banho ritual especial, dedicado à renovação espiritual durante a cerimônia de entrada no pacto sectário (1QS 5:1214). Fiando-se num costume que provavelmente remontava ao primeiro século d.C., o judaísmo rabínico também obrigava homens e mulheres gentios que desejassem se converter ao judaísmo a passar pelo batismo prosélito, além da circuncisão no caso do homem. Entretanto, seja reiterado ou único, o batismo judeus sempre conservou o seu simbolismo primário de banho ou purificação pela água. Em geral, Paulo não mostra interesse pelo ritual judaico e, se usa a noção de impureza, é sempre no sentido moral. Para ele, o batismo é dotado de um significado alegórico que nada tem a ver com banho. O tanque em que o batismo tinha lugar simboliza acima de tudo a tumba da qual Jesus levantou-se na Páscoa. Assim, quando os que passavam pela cerimônia de iniciação no mistério cristão eram imersos (isto é, enterrados) na água batismal, eles estavam abraçando alegoricamente a morte do Cristo ao juntar-se a ele em seu túmulo; e quando era reerguidos, estavam reencenando e comungando misticamente com a ressurreição de Cristo. Dali em diante, eles lhe pertenciam.

92 O drama é delineado por Paulo em poucas e pungentes palavras: “Ou não sabeis que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados? Portanto pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado detre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Rm 6:3-4) Reinterpretando deste modo a imagem original do rito batismal, Paulo ofereceu aos cristãos um meio para se apropriarem da virtude tanto da cruz como da ressurreição. Não é necessário dizer que, com a introdução generalizada da aspersão infantil em substituição à imersão na administração do sacramento, que originalmente era reservado apenas aos adultos iniciados e realizado na Páscoa, o poderoso simbolismo paulino foi morto de vez. (VERMES, 2006a, p. 111-112) (grifo nosso).

Vê-se, que, na opinião de Vermes, o ritual do batismo tem origem no ritual de purificação que os judeus eram obrigados a fazer para entrarem no Tempo e para algumas outras situações específicas. Como o ritual de iniciação religiosa dos judeus era a circuncisão, certamente, por isso, não encontramos o batismo em nenhum passo do Antigo Testamento. A primeira vez em que ele aparece, na Bíblia, é no Novo Testamento, quando João, o batista, às margens do rio Jordão, batizava, para o perdão dos pecados, aqueles que confessavam publicamente os seus (Mt 3,6). Jesus vai a seu encontro para ser batizado, mas João reconhecendo que o Mestre é maior que ele Lhe diz: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (Mt 3,14); entretanto, por insistência do Messias, batiza–O. Imediatamente após o batismo, uma voz, vinda do céu, afirma: “Este é o meu filho amado, que muito me agrada” (Mt 3,17). É-nos estranha essa atitude de Jesus, porquanto João Batista somente batizava os que vinham a seu encontro para confessar os seus pecados (Mt 3,5-6), o que, segundo Marcos, significava que fazia o batismo de conversão para o perdão dos pecados (Mc 1,4-5). Seria o caso de se perguntar: Jesus, então, tinha pecados? Estaria ele se convertendo naquele momento? Fica-nos difícil aceitar isso... Observamos que João Batista identificou Jesus como o Messias, fato confirmado pelo plano espiritual (a voz que vinha do céu); diante disso, concluímos que não haveria a mínima possibilidade de dúvida por parte da “voz que clama no deserto” de quem Ele era. Entretanto, isso não é um fato, pois, algum tempo depois, logo após ser preso, João Batista manda alguns de seus discípulos perguntarem a Jesus: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?" (Mt 11,2-3). Falta coerência nisso, já que, conforme relatado, João sabia perfeitamente quem era Jesus, e se, porventura, houvesse alguma dúvida de sua parte, ela teria sido completamente sanada pela manifestação espiritual ocorrida após o batismo, que apresenta Jesus como o Messias. Assim, a dúvida é de nossa parte para saber qual das duas situações realmente ocorreu, já que uma é contraditória à outra. Então, não é de todo improvável que a passagem, que relata o batismo de Jesus, é que não espelhe a realidade, que pode muito bem ter sido criada para validar e justificar o ritual do batismo realizado pelas igrejas ditas cristãs, pois, o que nos é claro é que elas, na verdade, praticam mesmo é o batismo de João. Tal prática ritualística vem, a nosso ver, contrariar o que o próprio João Batista afirmou: “Eu batizo vocês com água para a conversão. Mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. E eu não sou digno nem de tirar-lhe as sandálias. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3,11); o que é uma evidente demonstração de que o batismo que ele praticava era um ritual que, após a vinda do Messias, deveria deixar de ser ministrado. Ele colocava, isto sim, o batismo do “Espírito Santo e com fogo” como aquele a que todos deveriam se submeter, argumento esse que, também, se pode confirmar de uma ordem de Jesus aos apóstolos: “Não se afastem de Jerusalém. Esperem que se realize a promessa do Pai, da qual vocês ouviram falar: 'João batizou com água; vocês, porém, dentro de poucos dias, serão batizados com o Espírito Santo'" (At 1,4-5). Por isso, concluímos que o relato do batismo aplicado em Jesus é bem provável que seja mesmo uma interpolação, visto que o batismo que Jesus promete é o “com o Espirito Santo”, e não o “com água”. Assim, devemos ver que “O símbolo do batismo do Espírito (fogo) e o caráter e os resultados desse batismo mostram a superioridade do ministério de Jesus, em contraste com o de João” (CHAMPLIN, vol. 1, 1995a, p. 287-288). Não devemos desconsiderar que a figura do fogo e do vento são símbolos bíblicos que representam a presença divina

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(CHAMPLIN e BENTES, 2005b). Interessante é que os fariseus e os saduceus também queriam ser batizados (Mt 3,7); entretanto, foram prontamente rechaçados, já que João não via neles nenhuma postura de arrependimento. Essa atitude dele nos induz a acreditar que não era mesmo sua intenção colocar o batismo como um ritual, pois, se assim o fosse, ele teria batizado aquela “raça de víboras”. João Batista deixou claro o motivo mais importante pelo qual estava batizando ao dizer: "... para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água" e "... o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo" (Jo 1,31-33). Ou seja, foi apenas para ele identificar o Messias. Mas, uma vez cumprido esse propósito, já que a Lei e os profetas vigoraram até João (Mt 11,13 e Lc 16,16), deixa de ser necessário o batismo de água praticado por João, passando a vigorar, daí em diante, o batismo verdadeiro, o de Jesus. Este, sim, é o autêntico batismo cristão: com Espírito Santo e com fogo. Com o primeiro simbolicamente se limpa por fora; já com o segundo se transforma por dentro. Há uma curiosidade nessa passagem de João; vejamo-la a partir do versículo 29 ao 34, deixando em separado o que queremos ressaltar: “No dia seguinte, João viu Jesus, que se aproximava dele. E disse: "Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo. Este é aquele de quem eu falei: 'Depois de mim vem um homem que passou na minha frente, porque existia antes de mim'. 31. Eu também não o conhecia. Mas vim batizar com água, a fim de que ele se manifeste a Israel." 32. E João testemunhou: "Eu vi o Espírito descer do céu, como uma pomba, e pousar sobre ele. 33. Eu também não o conhecia. Aquele que me enviou para batizar com água, foi ele quem me disse: 'Aquele sobre quem você vir o Espírito descer e pousar, esse é quem batiza com o Espírito Santo'. 34. E eu vi, e dou testemunho de que este é o Filho de Deus." (Jo 1,29-34) Essa duplicidade de informações dos versículos 31-32 com 33-34 (observar os destaques em negrito), parecem-nos algo sem sentido, “soando” mais como uma tentativa de modificar o texto anterior, que pode até não ter sido o original, já que os originais foram totalmente “perdidos”, ao longo do tempo. Ademais, observemos que, embora Mateus, Marcos e Lucas afirmassem que Jesus tenha sido batizado, João, o evangelista, um dos discípulos bem próximo a Jesus, nada diz sobre isso. É singular este fato, para algo que dizem ser muito importante. E se o batismo fosse tão imprescindível como alguns afirmam, então, por que Jesus não atendeu a João Batista, que Lhe disse “eu é que devo ser batizado por ti” (Mt 3,14)? Sem contar que os apóstolos não foram batizados em água, mas o foram no Espírito Santo (At 1,4-5; 2,4). Exatamente por isso é que podemos reafirmar que, a nosso ver, o batismo em água não possui sustentação bíblica para a sua aplicação, pois estaria contrariando a determinação de Jesus, citada em At 1,4-5, cujo teor veremos mais adiante, que é o mesmo que foi revelado a João Batista (Jo 1,33). Vejamos que Paulo, o apóstolo dos gentios, percebe claramente essa diferença: “... Paulo... chegou a Éfeso e, achando ali alguns discípulos, perguntou-lhes: Recebestes vós o Espírito Santo quando crestes? Responderam-lhe eles: Não, nem sequer ouvimos que haja Espírito Santo. Tornou-lhes ele: Em que fostes batizados então? E eles disseram: No batismo de João. Mas Paulo respondeu: João administrou o batismo do arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que após ele havia de vir, isto é, em Jesus. Quando ouviram isso, foram batizados em nome do Senhor Jesus. Havendo-lhes Paulo imposto as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e falavam em línguas e profetizavam” (At 19,1-6). Com isso fica claro que o batismo de João, ou seja, o de água, não tinha valor; caso contrário, Paulo teria deixado as coisas como estavam, uma vez que já haviam sido submetidos ao batismo de João e não teria ministrado o batismo em nome do Senhor Jesus,

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que fica claro ser pela imposição das mãos. E quanto ao fato de se batizar “em nome de Jesus” e não “em nome da Trindade” queremos, neste momento, caro leitor, apenas chamar a sua atenção, pois iremos falar sobre isso um pouco mais à frente. Em outra oportunidade Paulo disse enfático: “De fato, Cristo não me enviou para batizar, mas para anunciar o Evangelho...” (1Cor 1,17), do que podemos ver claramente que, na sua convicção, fundamentada na orientação de Cristo, o batismo não era importante para salvação de ninguém. Além disso, parece-nos bastante inusitado que Jesus não tenha enviado Paulo, o “vaso escolhido” (At 9,15), para batizar, quando supostamente teria instruído os seus discípulos, quanto a essa prática. Aliás, é sabido que a expansão do cristianismo se deve exatamente a ele. Que Jesus tenha realmente orientado os discípulos sobre isso, é, para nós, algo controverso; porém, a instrução “ide e pregai a todas as nações” (Mt 28,19) confirma essa instrução a Paulo para anunciar o Evangelho, porquanto, trata-se da mesma coisa com palavras diferentes. O curioso é que Paulo vai ainda mais longe: também era contrário ao ritual que praticavam naquela época, no caso, a circuncisão. Senão vejamos: “De resto, cada um continue vivendo na condição em que o Senhor o colocou, tal como vivia quando foi chamado. É o que ordeno em todas as igrejas. Alguém foi chamado à fé quando já era circuncidado? Não procure disfarçar a sua circuncisão. Alguém não era circuncidado quando foi chamado à fé? Não se faça circuncidar” (1Cor 7,17-18). Evidentemente, não deixou de questionar tal ritual dizendo: “Qual é a utilidade da circuncisão” (Rm 3,1)? Ele, Paulo, responde demonstrando que isso não faz a menor diferença: ”Não tem nenhuma importância estar ou não estar circuncidado. O que importa é observar os mandamentos de Deus” (1Cor 7,19). Justificando o seu entendimento: “Então, será que Deus é Deus somente dos judeus? Não será também Deus dos pagãos? Sim, ele é Deus também dos pagãos. De fato, há um só Deus que justifica, pela fé, tanto os circuncidados como os não circuncidados” (Rm 3,29-30). Usando dos mesmos argumentos de Paulo, em relação ao batismo de água, diríamos: “não tem nenhuma importância estar ou não estar batizado, já que o que importa é observar os mandamentos de Deus”. Oportuno registrarmos estas considerações de Champlin a respeito de Paulo:
Dando prosseguimento às definições expostas pelo apóstolo Paulo, devemos também observar que em nenhuma de suas passagens dogmáticas acerca da salvação ele vincula o batismo em água com a mesma. Os capítulos primeiro a quinto de sua epístola aos Romanos, onde ele considera cuidadosamente toda a questão da justificação e com minúcias, devem ser objeto de nosso exame. Não há ali qualquer alusão ao batismo em água. Chegando ao sexto capítulo dessa mesma epístola, onde o batismo em água é símbolo de nossa união vital e essencial com Cristo, em sua morte e ressurreição - a morte ao pecado, a ressurreição à vida que conduz à salvação - é impossível pensarmos, por esse trecho, que o batismo em água ocupasse a elevada posição, no cristianismo primitivo, que o mesmo ocupa dentro do esquema falso da regeneração batismal. Ora, Paulo jamais teria ignorado a posição do batismo em água, em suas passagens dogmáticas sobre a salvação, se esse fizesse parte integrante da salvação. É muito árduo para a fé de quem quer que seja pensar que Paulo tenha defendido qualquer doutrina que se assemelhasse, ainda que remotamente, à regeneração pelo batismo, se por batismo, estivéssemos nos referindo ao ato externo de sermos batizados em água, mediante aspersão, derramamento, imersão ou qualquer outro modo. (CHAMPLIN, vol. 3, 2005c, p. 67) (grifo nosso).

Portanto, fica clara a posição do batismo em água no cristianismo nascente. Para análise e melhor entendimento desse assunto, podemos dividir os acontecimentos em dois períodos: o primeiro é relacionado aos que sucederam durante a vida de Jesus, enquanto que o segundo se refere aos ocorridos depois de sua morte. Isso é importante para separar o joio do trigo; mas, para tanto, devemos, primeiramente, questionar: Jesus batizou alguém? Orientou a seus discípulos a fazê-lo? Teriam sido eles batizados? Se Jesus falou de

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algum batismo, devemos procurar saber qual. Vejamos o que podemos encontrar no primeiro período dos acontecimentos. Quanto a saber se Jesus batizou alguém, só no Evangelho de João é que vamos encontrar algo a esse respeito. Em determinado momento ele diz que sim, ou seja, que Jesus batizava; porém depois desmentiu e disse que não; mas quem batizava eram seus discípulos (Jo 4,1-2). Em relação a seus discípulos é fato curioso, pois nenhum dos outros evangelistas afirmou isso; somente em João é que consta essa história, que mais parece ser “história” mesmo. Isso é incomum, pois não vemos, em momento algum, Jesus orientando a seus discípulos para que realizassem tal prática, o que podemos comprovar com o seguinte passo: “Então Jesus chamou seus discípulos e deu-lhes poder para expulsar os espíritos maus, e para curar qualquer tipo de doença e enfermidade... Jesus enviou os Doze com estas recomendações:... ‘Curem os doentes, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça, deem também de graça!...’” (Mt 10,1-8, ver tb Mc 3,14-15 e Lc 9,1-2). Por outro lado, mesmo que seja verdadeira a hipótese dos discípulos de Jesus estarem batizando, isso não significa que praticavam o batismo em água, porquanto, o texto de João (Jo 4,1-1) não especifica qual tipo de ritual eles estariam adotando. De outra feita, Jesus faz várias recomendações a setenta e dois discípulos (Lc 10,1) não estando, também, entre elas o batismo. Assim, observamos que Jesus, quando vivo, passou várias orientações aos discípulos, mas não há nenhuma relacionada ao batismo. Será que depois de morto teria mudado de ideia, uma vez que tal recomendação só aparece após este fato? É o que veremos agora. Entrando agora no segundo período, perguntamos: depois de sua morte, o que aconteceu? Encontramos no evangelho apenas duas passagens em que, supostamente, Jesus teria orientado o batismo. Falamos supostamente, pois demonstraremos que uma delas é interpolação grosseira e a outra um reconhecido acréscimo ao texto primitivo. Analisemos a primeira passagem em que aparecem as orientações de Jesus ressurreto aos discípulos (ver tb Mc 16,14-18): Mt 28,16-20: ”Os onze discípulos foram para a Galileia,... Então Jesus se aproximou, e falou: '... Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês...'”. Essa passagem é o que, por último, encontramos em Mateus, fechando, vamos assim dizer, o seu evangelho; porém, é somente nele que se vê a recomendação de se batizar “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”; ou seja, em toda a Bíblia é o único passo que diz isso. Chama-nos a atenção o fato de que, naquela época, não se acreditava na Trindade, provando que isso é uma vergonhosa interpolação para justificar a reimplantação de práticas ritualistas pagãs, posteriormente à morte de Jesus. Agiram dessa forma para transparecer que era coisa comum no período em que Ele ainda vivia entre os discípulos. Léon Denis (1846-1927), em Cristianismo e Espiritismo, disse:
Depois da proclamação da divindade de Cristo, no século IV, depois da introdução, no sistema eclesiástico, do dogma da Trindade, no século VII, muitas passagens do Novo Testamento foram modificadas, a fim de que exprimissem as novas doutrinas (Ver João I, 5,7). “Vimos, diz Leblois (145), na Biblioteca Nacional, na de Santa Genoveva, na do mosteiro de Saint-Gall, manuscritos em que o dogma da Trindade está apenas acrescentado à margem. Mais tarde foi intercalado no texto, onde se encontra ainda”. ______
(145) “As bíblias e os iniciadores religiosos da humanidade”, por Leblois, pastor de Strasburgo.

(DENIS, 1987, p. 272) (grifo nosso).

Grifamos apenas para ressaltar que a origem dessa informação foi tirada da fala de um

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pastor; isto é importante para demonstrar a imparcialidade de quem dá a notícia. Entretanto, para nossa própria e grata surpresa, conseguimos também perceber essa interpolação, ao lermos Orígenes (185-254), considerado como um dos “Pais da Igreja”, que viveu na Antiguidade cristã. Na sua obra apologética intitulada Contra Celso (cerca de 248), ele, refutando as críticas deste filósofo pagão contra os cristãos, transcreve, em seu discurso, muitas passagens bíblicas, e, entre elas, cita Mt 28,19 com o seguinte teor: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos” (ORÍGENES, 2004, p. 154), o que atesta que a expressão “batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” foi mesmo um acréscimo posterior, para, certamente, com ele se justificar o dogma da Trindade. O historiador e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, David Flusser (19172000), que lecionou no Departamento de Religião Comparada por mais de 50 anos, nascido na Áustria, foi estudioso da literatura clássica e talmúdica, conhecia 26 idiomas, informa que:
De acordo com os manuscritos de Mateus que foram preservados, o Jesus ressuscitado ordenou aos seus discípulos batizar todas as nações “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. A fórmula trinitária franca, aqui, é de fato notável, mas já foi mostrado que a ordem para batizar e a fórmula trinitária faltam em todas as citações das passagens de Mateus nos escritos de Eusébio anteriores ao Concílio de Niceia. O texto de Eusébio de Mt 28:19-20 antes de Niceia era o seguinte: “Ide e tornai todas as nações discípulas em meu nome, ensinando-as a observar tudo o que vos ordenei”. Parece que Eusébio encontrou essa forma do texto nos códices da famosa biblioteca cristã em Cesareia.75 Esse texto mais curto está completo e coerente. Seu sentido é claro e tem seus méritos óbvios: diz que o Jesus ressuscitado ordenou que seus discípulos instruíssem todas as nações em seu nome, o que significa que os discípulos deveriam ensinar a doutrina de seu mestre, depois de sua morte, tal como a receberam dele. (FLUSSER, 2001, p. 156) (grifo nosso).

O “ide e tornai todas as nações discípulas em meu nome, ensinando-as a observar tudo o que vos ordenei”, aqui citado, é algo que não se pode desprezar, porquanto, Eusébio de Cesareia (c. 265-339), defendendo a divindade de Cristo, em História Eclesiástica, nada advogou a favor da Trindade, que é justamente o que se quer fazer crer existir no texto de Mateus (28,19-20). É importante, também, transcrevermos a nota 75 em que Flusser menciona a sua base de informação:
Ver D. Flusser, "The Conclusion of Matthew in a New Jewish Christian Source", Annual of the Swedish Theological lnstitute, vol. V, 1967, Leiden, 1967, pp. 110-20; Benjamin J. Hubbard, “The Matthean Redaction of a Primitive Apostolic Commissioning", SBL, Dissertation Series 19, Montana, 1974. Mais testemunho da conclusão não-trinitária de Mateus está preservado num texto copta (ver E. Budge, Miscelleaneous Coptic Texts, Londres, 1915, pp. 58 e seguintes, 628 e 636), onde é descrita uma controvérsia entre Cirilo de Jerusalém e um monge herético. "E o patriarca Cirilo disse ao monge: 'Quem te mandou pregar essas coisas?' E o monge lhe disse: 'O Cristo disse: Ide a todo o mundo e pregai a todas as nações em Meu nome em cada lugar". O texto é citado por Morcon Smith, Clement of Alexandria and a Secret Cospel of Mark, Harvard University Press, Cambridge, Mass, 1973, p. 342-6. (FLUSSER, 2001, p. 170) (grifo nosso).

Na sequência, Flusser diz que...
“um testemunho adicional das versões mais curtas de Mt 28:19-20a foi descoberto há pouco tempo numa fonte judeu-cristã...” (FLUSSER, 2001, p. 156), citando como fonte: “Sh. Pinès, 'The Jewish Christians of the Early Centuries of Christianity According to a New Source', The Israel Academy of Sciences and Humanities Proceedings, vol. II, nº 13, Jerusalém, 1966, p. 25”. (FLUSSER, 2001, p. 170) (grifo nosso).

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Apresentamos o jornalista espanhol Pepe Rodríguez (1953- ), que abordando esse assunto, na obra Mentiras fundamentais da Igreja Católica , afirma o seguinte:
[…] a Igreja, ao basear-se em Mt 28,19, para afirmar que é católica, “porque a missão que lhe foi atribuída por Cristo se refere à totalidade do género humano”, comete dois atropelos. Por um lado, baseia-se num versículo que é uma interpolação, dado tratar-se de um versículo que foi posteriormente acrescentado ao texto original de Mateus. […] (RODRÍGUEZ, 2007, p. 210) (grifo nosso).

Para corroborar tudo isso, iremos apresentar a opinião de Geza Vermes, um dos maiores especialistas sobre a história do cristianismo, que, falando sobre esse passo, disse:
[...] Nos programas missionários anteriores, não houve questão quanto ao batismo, e menos ainda quanto a batizar nações inteiras. Além disso, o batismo administrado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo não tem precedente não só nos Evangelhos, mas também em qualquer lugar de todo o Novo Testamento. A fórmula que ocorre em Atos dos Apóstolos é batismo “em nome de” Jesus (At 2,38; 8,16; 10,48; 19,5) e, em Paulo, batismo “em Cristo” (Rm 6,3; Gl 3,27). Fora de Mateus, a fórmula trinitária, Pai, Filho e Espírito Santo ocorre pela primeira vez no manual litúrgico da igreja primitiva intitulado Didaqué ou Instrução dos Doze Apóstolos, que é datado da primeira metade do século II d.C. Tudo isso aponta para uma origem tardia de Mt 28,18-20. [...] (VERMES, 2006b, p. 377-378) (grifo nosso).

Com base nessa citação de Vermes, podemos colocar dois argumentos para contradizer essa passagem de Mateus: 1º) é que Jesus, quando vivo, não recomendou o batismo de água, mas um outro, o que veremos mais à frente; 2º) em Atos (2,38; 8,16; 10,48 e 19,5) temos a prova de que se batizava somente “em nome de Jesus”, evidenciando falta grave de quem fez a interpolação por não ter percebido esse pequeno detalhe. Eh!... Não há mesmo crime perfeito! Mas esse fato não passou despercebido pelos tradutores da Bíblia de Jerusalém, que o minimizam dizendo:
É possível que, em sua forma precisa, essa fórmula reflita influência do uso litúrgico posteriormente fixado na comunidade primitiva. Sabe-se que o livro dos Atos fala em batizar “no nome de Jesus” (cf. At 1,5+; 2,38+). Mais tarde deve ter-se estabelecido a associação do batizado às três pessoas da Trindade. Quaisquer que tenham sido as variações nesse ponto, a realidade profunda permanece a mesma. O batismo une à pessoa de Jesus Salvador; ora, toda a sua obra salvífica procede do amor do Pai e se completa pela efusão do Espírito. (explicação para Mt 28,19, p. 1758) (grifo nosso).

A segunda passagem, em que se supõe Jesus ter dito algo sobre o batismo, é essa: Mc 16,14-16: “Por fim, Jesus apareceu aos onze discípulos... disse-lhes: ’Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade. Quem acreditar e for batizado, será salvo. Quem não acreditar, será condenado’". Aqui se percebe claramente que atribuíram essas palavras a Jesus, fato tão óbvio que se torna difícil negar, especialmente se verificarmos dois pormenores na frase: “quem não acreditar, será condenado”. O primeiro é que para ela ser coerente com a afirmativa antecedente de “quem acreditar e for batizado, será salvo”, teria que ser uma sentença negativa da seguinte forma: “Quem não acreditar e não for batizado, será condenado”. No segundo, temos que se Jesus só pregou o amor, e sempre admitiu o livre-arbítrio (quem tem ouvidos ouça), jamais imporia um castigo condenando alguém a alguma coisa. Vale relembrar o que falou à mulher surpreendida em adultério, que Lhe foi apresentada para que dissesse o que fazer: “Eu também não a condeno. Pode ir, e não peque mais” . (Jo 8,1-11). Podemos até sugerir que se faça um teste de veracidade desse passo, recomendando o que se diz sobre os

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sinais que seguirão aos que creem. O teste é simples: basta que peguem em serpentes e bebam algum veneno mortífero, pois, na sequência imediata, o texto afirma que nada disso lhes fará mal (Mc 16,17-18). Essa, pagamos para ver... Além disso, se compararmos essa passagem com o que encontramos em Atos, veremos que não era esse o pensamento corrente, já que nessa outra nem se fala em batismo; vejamos: “Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e tua casa” (At 16,31). Desconcertante é que, nesse versículo, se diz que apenas “um da família” precisa crer para que sua casa, quer dizer, toda sua família, seja salva. Já no verso de Marcos a norma é outra, uma vez que não só nada foi dito dos familiares, mas, também, porque afirma que a regra para todos é: "quem crer e for batizado...", levando-nos a uma certeza de ser interpolação mal feita. Mais complexa fica essa questão da salvação, já que também está dito: “... o Evangelho que vos preguei,... por ele sereis salvos,...” (1Cor 15,1-2), deixando-nos completamente perdidos quanto a saber o que efetivamente irá nos salvar; fora o que foi afirmado por Jesus: “a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27). Entretanto, para não dar a impressão de que isto é só opinião nossa, vamos apresentar o que disseram os tradutores da Bíblia de Jerusalém. Leiamos suas observações relativas a Marcos, capítulo 16, versículos de 9 a 20:
O trecho final de Mc (vv. 9-20) faz parte das Escrituras inspiradas; é tido como canônico. Isso não significa necessariamente que foi escrito por Mc. De fato, põe-se em dúvida que este trecho pertença à redação do segundo evangelho. – As dificuldades começam na tradição manuscrita. Muitos mss, entre eles o do Vat. e o Sin., omitem o final atual... A tradição patrística dá também testemunho de certa hesitação. – Acrescentemos que, entre os vv. 8 e 9, existe, nessa narrativa, solução de continuidade. Além disso, é difícil admitir que o segundo evangelho, na sua primeira redação, terminasse bruscamente no v. 8. Donde a suposição de que o final primitivo desapareceu por alguma causa por nós desconhecida e de que o atual fecho foi escrito para preencher a lacuna. Apresenta-se como um breve resumo das aparições do Cristo ressuscitado, cuja redação é sensivelmente diversa da que Marcos habitualmente usa, concreta e pitoresca. Contudo, o final que hoje possuímos era conhecido, já no séc. II por Taciano e santo Ireneu, e teve guarida na imensa maioria dos mss gregos e outros. Se não se pode provar ter sido Mc o seu autor, permanece o fato de que ele constitui, nas palavras de Swete, “uma autêntica relíquia da primeira geração cristã”. (Bíblia de Jerusalém, p. 1785) (grifo nosso).

Apesar desses argumentos, é certo que ainda encontraremos pessoas que continuarão a aceitar a frase como verdadeira. Mesmo que fosse, por coerência, é muito improvável que Jesus tivesse falado do batismo de João. O mais certo é que tivesse se referido ao batismo "com Espírito Santo e com fogo", pois é o que sucede a todo aquele que crê em suas palavras e pratica seus ensinos. Concordamos plenamente com a afirmativa de que no texto existe solução de continuidade (Houaiss: divisão, interrupção, hiato), fácil de se perceber. Nos versículos 1 a 7, conta que, juntamente com Maria, mãe de Tiago e Salomé, Maria Madalena foi ao sepulcro bem cedo no primeiro dia da semana. Entraram no túmulo - o verbo no plural implica que foram as três -, porém nele encontraram somente um jovem que disse que Jesus havia ressuscitado e que era para elas darem essa notícia aos discípulos, orientando-os para irem para a Galileia onde o veriam. E aí seguem os versículos 8 a 11, que transcrevemos: “8. Então as mulheres saíram do túmulo correndo, porque estavam com medo e assustadas. E não disseram nada a ninguém, porque tinham medo. 9. Depois de ressuscitar na madrugada do primeiro dia após o sábado, Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios. 10. Ela foi anunciar isso aos seguidores de Jesus, que estavam de luto e chorando. 11. Quando ouviram que ele estava vivo e fora visto por ela, não quiseram acreditar”. Percebe-se que realmente falta algo para completar o versículo 8, pois a interrupção abrupta é evidente. Entretanto, isso não faz dos versículos 9 a 20 o complemento correto

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desse capítulo. Aliás, o que constatamos aqui foram três incoerências: 1ª) se foram ao túmulo também Maria, mãe de Tiago e Salomé, por que Jesus somente apareceu a Maria Madalena se essas três mulheres estavam juntas, até mesmo quando entraram no túmulo?; 2ª) se foi afirmado que encontraram no túmulo um jovem e não a Jesus, então, Ele, de fato, até aí, não aparecera a ninguém; 3ª) como o versículo 9 trata do mesmo fato dos versículos anteriores (1 a 7) e vemos no versículo 8 que as mulheres saíram correndo do túmulo, sem que Jesus tivesse aparecido a elas, mas apenas um jovem (anjo), como, na sequência (versículo 9), é dito ter Jesus aparecido a Maria Madalena, e só a ela? Ora, como foi o anjo que apareceu, Jesus só poderia ter aparecido após o anjo, hipótese em que elas já não estariam mais no túmulo, pois, de acordo com o versículo 8, elas saíram correndo; logo, igual às outras mulheres, ela já não estava mais lá; além disso, Madalena não estava sozinha... Que essa passagem de Marcos não deveria ser usada para sustentar o batismo que praticam é um fato. Inclusive é o que podemos comprovar pela opinião do tradutor da Bíblia Anotada que, em relação a Mc 16,9-20, diz: “... A discutível genuinidade dos vv. 9-20 torna pouco sábio construir uma doutrina ou basear uma experiência sobre eles (especialmente os vv. 16-18)” (Bíblia Anotada, p. 1265) (grifo nosso). E, especificamente, quanto ao versículo 16, ele explica: “Esta pode ser uma referência ao batismo do Espírito Santo (1Cor 12:13). O batismo com água não salva (veja as notas sobre At. 2:38; 1Pe 3:21)” (Bíblia Anotada, p. 1265) (grifo nosso). Entretanto, sabemos existir corrente religiosa que se apoia nela para não batizar as crianças, mas somente os adultos. Argumentam que é necessário “crer primeiro” para então ser batizado; e como uma criancinha não tem condições de crer em nada, não tem sentido batizá-la, só fazendo isso mais tarde, na época em que já tenha adquirido a capacidade de decidir por si mesma a sua crença em Jesus. Aliás, como Ele também não foi batizado em criança, tomam disso um outro argumento para não realizar o batismo naqueles que ainda estão se alimentando do leite materno. Seria até um bom argumento desde que não estivesse baseado nessa passagem. Mais outras opiniões sobre essa parte do evangelho de Marcos:
Mc 16,9-20: Este trecho difere muito do livro até aqui; por isso é considerado obra de outro autor. Os cristãos da primeira geração provavelmente quiseram completar o livro de Marcos com um resumo das aparições de Jesus e uma apresentação global da missão da Igreja. Parece que se inspiraram no último capítulo de Mateus (28,18-20), em Lucas (24,10-53), em João (20,11-23) e no início do livro dos Atos dos Apóstolos (1,4-14). (Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, p. 1307) (grifo nosso). Mc 16,1-8: A conclusão original do evangelho de Marcos é surpreendente e desconcertante, a ponto de os escritores posteriores terem acrescentado um epílogo, respaldado como canônico pela autoridade da Igreja... (Bíblia do Peregrino, p. 2446) (grifo nosso). Mc 16,9: A passagem 9-20 falta nos manuscritos mais antigos. Não é provavelmente de Marcos. (Bíblia Sagrada Editora Ave Maria, p. 1344) (grifo nosso). Mc 16:9-20: Estes versículos não aparecem em dois dos principais manuscritos do Novo Testamento, embora estejam presentes num grande número de outros manuscritos e versões. Se eles não forem parte genuína do texto de Marcos, o final abrupto do v. 8 deve-se, provavelmente, à perda dos versículos que formavam a conclusão original. […] (Bíblia Anotada, p. 1265) (grifo nosso).

Seguindo em nossa análise, veremos que, pelo evangelho de Lucas (cap. 24), nada foi recomendado aos discípulos com relação a esse nosso assunto. Mas, como Lucas, segundo os exegetas, é o autor do livro Atos dos Apóstolos, é nele que encontramos as recomendações de Jesus, na versão desse evangelista:

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At 1,1-5: “... Jesus começou a fazer e ensinar, desde o princípio, até o dia em que foi levado para o céu. Antes disso, ele deu instruções aos apóstolos que escolhera, movido pelo Espírito Santo... Estando com os apóstolos numa refeição, Jesus deu-lhes esta ordem: ‘Não se afastem de Jerusalém. Esperem que se realize a promessa do Pai, da qual vocês ouviram falar: 'João batizou com água; vocês, porém, dentro de poucos dias, serão batizados com o Espírito Santo’...”. Conforme já dissemos anteriormente, Jesus pregou, sim, um batismo, mas o batismo do Espírito Santo e não o da água. E aqui, dessa passagem, não consta que devemos ser batizados “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, como está em Mateus, evidenciando, mais uma vez, que isso é mesmo uma interpolação. E, em relação aos discípulos, o batismo do Espírito Santo, foi o único ao qual eles se submeteram; o que nos leva a concluir que, caso houvesse necessidade de batismo, esse é o que deveria ter sido feito. O cotejo entre “João batizou com água” e “vocês, porém,... serão batizados com o Espírito Santo” demonstra, de forma cristalina, ser este último o que deve prevalecer, conforme já o dissemos. Sobre esse passo, vejamos como Champlin o aborda:
Na história da interpretação desse batismo do Espírito Santo, originalmente se entendia que era algo separado e distinto do batismo em água; mas, finalmente, veio a ficar ligado a essa ordenança externa, especialmente naquelas porções da igreja cristã onde eram exageradas a importância e as bênçãos decorrentes do batismo em água. Porém, essa associação do batismo do Espírito Santo e sua operação, com o batismo em água, labora em erro patente, porque se trata de duas coisas inteiramente separadas, porquanto em sentido algum o batismo em água pode realizar o que o batismo do Espírito Santo visa fazer no crente. Alguns intérpretes procuram mostrar que o batismo em água confere ao indivíduo aquilo que o batismo do Espírito Santo promete fazer, e usam o trecho de Atos 19:1-6 na tentativa de demonstrá-lo. Porém, apesar de ser verdade que o batismo cristão em água é exaltado nessa passagem do batismo de João, contudo, o sexto versículo, que descreve a imposição de mãos por parte dos apóstolos, que conferiu aos indivíduos envolvidos no relato o batismo ou plenitude do Espírito, aparece como algo separado e distinto, isto é, uma ação distinta do batismo em água, que aparece no quinto versículo daquele mesmo capítulo, sendo evidente que as duas coisas não têm por intuito ser entendidas como se fossem a mesma coisa, partes integrantes de uma mesma ação e bênção. As interpretações sacramentais do batismo em água, entretanto, têm exagerado e obscurecido o seu sentido, o qual, apesar de importante, não é mesmo atribuído ao batismo do Espírito Santo. (CHAMPLIN, vol. 3, 2005c, p. 25) (grifo nosso).

Podemos, ainda nesse ponto, colocar o que Pedro disse: “Foi então que me lembrei da declaração do Senhor, quando disse: ‘É verdade que João batizou com água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo’” (At 11,16). Essa passagem confirma a citada anteriormente, na qual se encontra o que Lucas disse. E, por fim, vejamos a narrativa de João. Jo 20,19-23: “Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: ‘A paz esteja com vocês’. ‘... Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês’. Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo. Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados’". Em João não encontramos Jesus recomendando diretamente nenhum tipo de batismo. Mas, por outras passagens, já citadas, podemos entender que “ao soprar sobre os discípulos” Jesus estava realizando o batismo do Espírito Santo, aquele que tinha prometido a eles. Inclusive, era esse o praticado pelos discípulos; senão vejamos: At 2,38: “Pedro lhes respondeu: ‘Convertei-vos e cada um peça o batismo em nome

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de Jesus Cristo, para conseguir perdão dos pecados. Assim recebereis o dom do Espírito Santo’”. At 10,44-48: “Pedro ainda falava, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que escutavam seu discurso. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido de Jope com Pedro, ficaram admirados por verem que o dom do Espírito Santo tinha sido derramado também sobre os não-judeus. De fato, eles os ouviam falar em diversas línguas e glorificar a Deus. Então Pedro disse: ‘Quem poderá recusar a água do batismo a esses, que receberam o Espírito Santo da mesma forma que nós?’ E decidiu que fossem batizados em nome de Jesus Cristo...”. Observe, caro leitor, que uma parte do passo de Atos 10,44-48 tem tudo para ter sofrido uma interpolação; talvez por quererem justificar o batismo com água. Vejamos o trecho para análise: “Então Pedro disse: ‘Quem poderá recusar a água do batismo a esses, que receberam o Espírito Santo da mesma forma que nós?’”. Se dele retirarmos a expressão “a água do batismo” o texto estaria mais coerente em sua estrutura e significado; senão vejamos: “Quem poderá recusar a esses, que receberam o Espírito Santo da mesma forma que nós?” Assim, percebemos que a expressão “a água do batismo” não tem nada a ver com o assunto abordado por Pedro, que, certamente, questionava se essas pessoas iriam ser recusadas, mesmo depois de terem recebido o “dom do Espírito Santo”. Isso pode ser facilmente confirmado na sequência de Atos, quando narra Pedro tentando explicar o acontecido aos fiéis de origem judaica: At 11,15-18: “Logo que comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, da mesma forma que desceu sobre nós no princípio. Então eu me lembrei do que o Senhor havia dito: 'João batizou com água, mas vocês serão batizados no Espírito Santo'. Deus concedeu a eles o mesmo dom que deu a nós por termos acreditado no Senhor Jesus Cristo. Quem seria eu para me opor à ação de Deus?' Ao ouvir isso, os fiéis de origem judaica se acalmaram e glorificaram a Deus, dizendo: 'Também aos pagãos Deus concedeu a conversão que leva para a vida!'. Diante disso, a questão da expressão “a água do batismo”, em At 10,47, nos remete a uma interpolação, visando justificar a instituição do ritual do batismo de água. Ressaltamos, também, a questão falada anteriormente, quando comentamos At 19,1-6, sobre a fórmula do batismo, que, ao invés de “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, batizavam somente “em nome de Jesus”. Aliás, com relação a essa última expressão, podemos encontrar dez outras passagens [5] nas quais se diz para fazer algo “em nome de Jesus”, enquanto que nenhuma em relação à primeira, pois a única encontrada provou-se ser uma interpolação. Mesmo que se aceite o batismo de água, vê-se que a decisão de Pedro em At 10,48 foi a de batizar em nome de Jesus e não no da “santíssima” trindade. Em meio ao que conseguimos levantar nos Atos dos Apóstolos, encontramos duas passagens interessantes; uma confirma tudo a respeito do batismo do Espírito Santo, enquanto a outra estabelece um certo conflito com isso; vejamo-las: At 8,15-18: “Ao chegarem, Pedro e João rezaram pelos samaritanos, a fim de que eles recebessem o Espírito Santo. De fato, o Espírito ainda não viera sobre nenhum deles; e os samaritanos tinham apenas recebido o batismo em nome do Senhor Jesus. Então Pedro e João impuseram as mãos sobre os samaritanos, e eles receberam o Espírito Santo. Simão viu que o Espírito Santo era comunicado através da imposição das mãos...” At 19,3-6: “Paulo perguntou: 'Que batismo vocês receberam?' Eles responderam: 'O batismo de João'. Então Paulo explicou: 'João batizava como sinal de arrependimento e pedia que o povo acreditasse naquele que devia vir depois dele, isto é, em Jesus'. Ao ouvir isso, eles se fizeram batizar em nome do Senhor Jesus. Logo que Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles, e começaram a falar em línguas e a profetizar”.

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Mt 18,5; 18,20; 24,5; Mc 9,39; 9,41; 16,17; Jo 14,13-14; 14,26; 15,26; 16,23-24.26.

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Na primeira, a impressão que se tem é que havia um batismo em nome de Jesus, talvez se referindo ao batismo em água, e um outro no qual receberam o Espírito Santo; enquanto que, na segunda, o batizar em nome de Jesus se liga ao batismo do Espírito Santo, realizado pela imposição de mãos. Então surge a natural dúvida: haverá dois batismos? Bom; quem irá nos responder essa questão é Paulo, que, taxativo, disse aos efésios: “há um só Senhor, uma só fé, um só batismo“ (Ef 4,5). Há ainda uma outra passagem bíblica em que, apesar de não se relacionar ao batismo, querem os teólogos, com suas interpretações dogmáticas, atribuir-lhe tal sentido. É a passagem que narra o diálogo de Jesus com Nicodemos, conforme o evangelho de João: Jo 3,1-12: “[...] Jesus lhe respondeu: ‘Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus’. Disse-lhe Nicodemos: ‘Como pode um homem nascer, sendo velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e nascer?’ Respondeu-lhe Jesus: ‘Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer de novo. O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde ele vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito’. Perguntou-lhe Nicodemos: ‘Como isso pode acontecer?’ Respondeu-lhe Jesus: ‘És mestre em Israel e ignoras essas coisas? Em verdade, em verdade, te digo: falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, porém, não acolheis o nosso testemunho. Se não credes quando vos falo das coisas da terra, como crereis quando vos falar das coisas do céu?’” Sobre esse assunto, o primeiro ponto, inclusive, já poderíamos ter falado antes, quando citamos trechos do evangelho de João. É que nos parece muito estranho atribuir a autoria desse evangelho a ele, porquanto sabemos que foi escrito em grego - por volta de 100 d.C. - e que, como Pedro, João era iletrado e sem instrução (At 4,13), ficando-nos uma enorme suspeita de que “falaram” por ele; ou, então, isso veio por uma provável psicografia. O segundo é em relação ao fato de que Jesus não batizou nem recomendou batismo de água a ninguém, conforme estamos constatando neste estudo. Quanto ao conteúdo deste texto, não há explicação para que Nicodemos “ignorasse essas coisas”, sendo ele um membro do Sinédrio, especialmente se Jesus estivesse se referindo ao batismo, pois, se fosse isso mesmo, certamente ele O teria entendido. Se ignorava, é porque, na verdade, era sobre outra coisa que Jesus lhe falava. Pelos seus questionamentos a Jesus, fica claro que era algo muito mais profundo do que um simples ritual, como o do batismo; portanto, seria um assunto mais complexo que esse. Com certeza, a reencarnação é algo assim, já que a maioria das pessoas, por “ignorar essas coisas”, não sabe exatamente como pode “um homem velho voltar a nascer de novo; porventura, irá entrar no seio de sua mãe e nascer”? A esses, Jesus replicaria, como já o fizera antes: “Não te admires disso”. Para justificarem o batismo nessa passagem concentram seus argumentos no trecho “quem não nascer da água”, pretendendo jogar por terra todo o simbolismo que, naquele tempo, se via nisso:
[...] A água tinha grande simbolismo entre os hebreus: tanto o espírito como as águas são fecundos (Is 32:15; 44,3; Ez 36:25-27); o espírito é coisa que Deus envia e derrama, como água (Jl 3,1-2; Zc 12;10). Água era uma expressão para indicar influências boas ou más, como no (Sl 1,3): “Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem; e tudo quanto fizer prosperará”. [...] (PALHANO, 2001, p. 403).

Então, concluímos que Jesus, após sua ressurreição, manteve-se coerente com o que pensava sobre o batismo aquoso antes de sua morte; a mudança ocorreu por conta de interpolações e acréscimos. Ainda bem! A justificativa de alguns para o ritual do batismo, é porque todos, ao nascermos, trazemos como herança (genética?) o pecado original. De fato, é bastante “original” o pecado

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de Adão e Eva; apenas isso, pois, ao imputarem-no a todos nós, além de cometerem a maior das injustiças, é contrário ao que determina “a palavra de Deus”, para usar da linguagem dos dogmáticos: Dt 24.16: “Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais. Cada um será executado por causa de seu próprio crime”; ou Ez 19,20: “O indivíduo que peca, esse é que deve morrer. O filho nunca será responsável pelo pecado do pai, nem o pai será culpado pelo pecado do filho”. Mas, se tal coisa é verdadeira, se devemos ser batizados por conta do pecado original, então como justificar o batismo de Jesus, já que todos nós acreditamos que Ele tenha nascido puro? Por que Jesus nunca disse: Vá, seja batizado e será salvo? Evidentemente é porque Jesus nunca pregou o batismo de João, apesar de, conforme já o dissemos, encontrarmos uma passagem bíblica (Mc 16,14-16), sobre a qual já comentamos, colocando isso como se fossem palavras de Jesus. Por outro lado, entre o ritual do batismo praticado por João Batista e o realizado hoje em dia, há grande diferença, pois o anterior era o batismo do arrependimento que só era realizado após a pessoa confessar seus pecados, o que não acontece quando, por exemplo, se batiza uma criança recém-nascida. De fato, o batismo nos primeiros tempos do cristianismo era tido como sendo um ritual que conferia uma espécie de selo ao novo cristão, ao novo convertido, ou seja, o ritual não era uma causa, mas uma consequência da conversão. E hoje, mesmo no caso de pessoas adultas, que fizeram "estudo bíblico" para se batizarem, elas não confessam seus pecados nem antes, nem durante, nem após a cerimônia. Além disso, o ritual era o de submersão (mergulho); mas vemos que, nas práticas atuais, nem sempre o fazem dessa forma, já que, em determinadas correntes religiosas, apenas se esparge água sobre o crente, enquanto que em outras se derrama água sobre a sua cabeça. Com isso, ratificamos o que dissemos anteriormente sobre as igrejas cristãs praticarem mesmo é só o batismo de João. Mas, quem tem razão? Qual dos “Espíritos Santos” lhes está inspirando o batismo correto? E como saber se a pessoa, que está batizando, está mesmo inspirada por um espírito santo? Uma outra questão: as mulheres eram batizadas? Segundo narrativa bíblica, sim (At 8,12); mas isso é inusitado já que, pela cultura da época, as mulheres não tinham o menor valor; inclusive, parece-nos que nem mesmo participavam dos rituais religiosos (1Cor 14,3435), só admitidos aos homens. Convém relembrar ainda que o ritual de iniciação judaica era a circuncisão; obviamente, feita somente aos do sexo masculino. Sabendo-se que as mulheres estão salvas “por dar à luz filhos” (1Tm 2,15), não haveria necessidade de batizá-las visandolhes a salvação por esse ritual; não é mesmo? E como fica o pecado cometido por Eva, o famoso pecado original? Justificam alguns que, pelo fato de Jesus ter sido batizado, nós também devemos sê-lo. Embora já tenhamos demonstrado por que Jesus foi batizado (Jo 1,31.33), afirmamos que, se o simples fato dele ter sido batizado nos obriga a isso, então, por questão de coerência e de lógica, devemos manter o ritual da circuncisão, já que Jesus também se submeteu a tal prática. Ah! Só mais um lembrete: Jesus também foi crucificado... Quem se habilita? Outros mais, talvez, apresentem alguma passagem bíblica para corroborar o batismo, por puro apego a rituais, dos quais não querem largar mão; por isso não buscam uma visão do conjunto e se dão por satisfeitos com a primeira passagem que encontram. Muitos desses, provavelmente, irão querer contestar esse nosso texto; mas, se não pesquisam sobre o assunto e ainda ficam presos às interpretações dogmáticas, o que poderemos fazer?... A esses apenas apresentamos esta passagem: Hb 5,11-14: “Temos muito a dizer sobre este assunto, mas é difícil explicar, porque vocês se tornaram lentos para compreender. Depois de tanto tempo, vocês já deviam ser mestres; no entanto, ainda estão precisando de alguém que lhes ensine as coisas mais elementares das palavras de Deus. Em vez de alimento sólido, vocês ainda estão precisando de leite. Ora, quem precisa de leite ainda é criança, e não tem experiência para distinguir o certo do errado. E o alimento sólido é para os adultos que, pela

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prática, estão preparados para distinguir o que é bom e o que é mau”. Certamente, que, também, não poderemos desconsiderar os que, tentando justificar o batismo, virão a nós apresentando um documento, no qual dizem estar algumas recomendações de Jesus a seus discípulos, intitulado Didaquê, ou Ensino dos Doze Apóstolos. O escritor e tradutor Henry Bettenson (1910-1979), em Documentos da Igreja Cristã, cita essa obra informando que ela foi descoberta em Constantinopla no ano de 1875, com data incerta e autor desconhecido, procedência e importância controvertidas. (BETTENSON, 1967, p. 100). Vejamos, a transcrição:
VII. Quanto ao batismo, batizareis na forma seguinte: tendo como antecipadamente disposto todas as coisas, batizai em o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, em água viva; se não tiverdes água viva, batizai em outra água; se não puderdes em água fria, fazei em água quente. Se não tiverdes nem uma nem outra, derramai água na cabeça três vezes em o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Antes do batismo, jejuem, além de outros que o possam, o batizante e o postulante. A este último mande-se jejuar um ou dois dias antes. ….......................................................................................... IX. No tocante à eucaristia, dareis graças desta maneira: primeiramente sobre o cálice: “Damos-te graças, Pai nosso, pela santa vinha de Davi, teu servo, que nos deste a conhecer por meio de Jesus, teu Servo. A ti seja glória eternamente!”. Em seguida, sobre o pão partido: “Damos-te graças, Pai nosso, pela vida e pelo conhecimento que nos manifestaste mediante Jesus, teu Servo. A ti seja a glória eternamente! Como este pão achava-se disperso sobre os montes e, reunido, se fez um, assim, desde os confins da terra, seja congregada tua Igreja no teu Reino. Pois tua é a glória e o poder, por Jesus Cristo, eternamente”. Que ninguém coma nem beba da eucaristia, exceto os batizados em nome do Senhor, pois sobre ela disse o Senhor: “Não deis o que é santo aos cachorros”. (BETTENSON, 1967, p. 101) (grifo nosso).

Poder-se-ia nela encontrar uma boa justificativa para se “legalizar” o batismo; entretanto, fora os problemas de sua data e procedência, mencionada por Bettenson, vemos, pelo menos, dois outros: 1º) há uma forte incoerência entre o que se diz no item VII e no IX; pois, se no primeiro recomenda-se “batizar em o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, no último, é mencionado “os batizados em nome do Senhor”, exatamente a fórmula do batismo em Atos dos Apóstolos, que, seguramente, o “Senhor” se trata de Jesus, uma vez que a frase citada – “Não deis o que é santo aos cachorros” - é dele e consta em Mt 7,6; 2º) a determinação de que o postulante ao batismo também jejuasse, por um ou dois dias, não a vimos em nenhum outro lugar, razão pela qual, até se justifica, já que nenhuma igreja recomenda que se faça o jejum; consequentemente, isso implica em que tacitamente não a têm como verdadeira. Dessa questão do jejum, ainda podemos tira a conclusão de que, na verdade, somente se batizavam pessoas adultas, colocando a atitude dos que batizam crianças recém-nascidas em completo desacordo com as práticas que dizem decorrer da Bíblia. Um argumento bem interessante encontramos em Iakov Abramovitch Lentsman (19081967), que, em A Origem do Cristianismo, disse:
Os outros dogmas maiores do cristianismo brilham igualmente pela ausência no Apocalipse. Nada é dito aí sobre o batismo, por exemplo. “Não faças o mal à terra, lê-se no capítulo VII, versículos 3-4, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado com o selo a fronte dos servidores do nosso Deus. E ouvi o número daqueles que tinham sido marcados com o selo, cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel”. Ao enumerar essas doze tribos, o autor acrescenta para cada uma delas: doze mil “marcados com o selo”. Ele teria dito “batizados”, incontestavelmente, se o sacramento do batismo já existisse no seu tempo. Há no Apocalipse uma dezena de passagens em que se poderia esperar encontrar alusões ao batismo, mas nada há

105 sobre ele. (LENTSMAN, 1963, p. 114) (grifo nosso).

Sua conclusão, para nós, é um argumento excelente, que fica difícil ser refutado. Mas cabe-nos um esclarecimento final a respeito do batismo, aquele que era o praticado naquela época; para isso vamos recorrer a L. Palhano Jr. (1946-2000), que explica:
Batismo. (Do grego: bapto, mergulhar). Ritual de purificação. João Batista administrava um batismo de arrependimento para a remissão de pecados (Marcos 1,4), antecipando o batismo no espírito e em fogo (verdade) que o Messias exerceria (Mateus 3,10). O batismo cristão está arraigado na ação redentora de Jesus e o ato d'Ele, quando se submeteu ao batismo de João (Marcos 1,9), demonstrou e efetivou sua solidariedade com os homens. Na igreja primitiva, o batismo não era com água, mas com a imposição das mãos sobre aquele que se convertia e objetivava o chamado 'dom do espírito santo', isto é, sensibilizar aquele que era batizado para que ganhasse percepção espiritual ou mediúnica (Atos 19,6). O batismo com água é um mero ritual sem nenhum valor moral e os espíritas não devem se preocupar com isso. Trata-se de um sacramento dogmático que afirma ter ação salvadora um ato externo, ritualístico, mais uma obrigação religiosa que descaracteriza a obrigação do esforço próprio, para o merecimento da paz e da felicidade. O batismo de criancinhas, para apagar o 'pecado original', é o resultado da ação judaizante sofrida pelos cristãos, pois nada mais é do que a substituição do sinal da circuncisão ao oitavo dia de nascido para o filho varão. O espiritismo preconiza a inutilidade de qualquer culto, ritual, sacramento, paramento, sinal, para as coisas religiosas, visto que os verdadeiros adoradores de Deus o adoram em espírito e verdade (João 4,23). (PALHANO JR, 1999, p. 173).

Esperamos, caro leitor, que esse estudo lhe possa ser útil em alguma coisa, se não que, pelo menos, encontre algo para que reflita sobre a “verdade que liberta”.

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A traição de Judas – uma história mal contada
É interessante como alguns temas bíblicos não resistem a uma análise mais profunda. Vários deles, que já tratamos em outros textos, nos proporcionam a certeza de que muitas narrativas constantes da Bíblia são uma deliberada e sutil montagem para se chegar a um objetivo previamente definido. Daí porque muitas delas foram amoldadas a esse propósito, passando por cima da verdade histórica que tais escritos deveriam conter. Muitas pessoas se chocam com atitudes como essa nossa: a de uma análise crítica. Entretanto, não abrimos mão de fazer uso da inteligência com a qual nos dotou o Criador. Nós, seres humanos racionais, temos que usar esse dom, pois, não usá-lo é abdicar da única faculdade que nos difere dos animais, ditos irracionais; por isso, acreditamos que só ofendemos mesmo a Deus, quando não utilizamos a nossa inteligência plenamente. Reconhecemos, entretanto, ser muito difícil a inúmeras pessoas, principalmente as que não pesquisam, abandonar conhecimentos adquiridos, especialmente quando foram passados como verdades divinas, sob coação ideológica. Ou seja, o simples questionamento da veracidade das mesmas já é, por si só, considerado como grave ofensa à divindade. Essa possibilidade de heresia acaba gerando um bloqueio mental, em função do medo de crer-se num consequente castigo por esse tipo de “pecado”. Assim, somos “levados” a aceitar, sem o mínimo questionamento, o que nos tem sido imposto como verdade absoluta. Com o tempo, passamos ao despautério de defender ideias, que nunca analisamos ou criticamos, como se nossas fossem. O assunto que trataremos, desta vez, está relacionado a uma suposta traição a Jesus, que teria sido realizada por Judas Iscariotes, um de seus discípulos. Inclusive, tudo que consta na Bíblia sobre ele está somente nas passagens que iremos ver a seguir. Dizemos suposta, porquanto, particularmente, acreditamos que o Sinédrio tinha poderes de vida e morte sobre as pessoas, não precisava, portanto, de ninguém para delatar Jesus. O Sanhedrin ou o Grande Conselho dos Anciãos de Israel, com 71 homens sobre a presidência do sumo sacerdote, “podia decretar sentença de morte contra os judeus da Judeia por motivo de ofensa religiosa, mas não executá-la antes de confirmação do poder civil”. (DURANT, 1957, p. 211). Bart D. Ehrman (1955- ), especialista em Novo Testamento, em sua obra Quem escreveu a Bíblia: por que os autores da Bíblia não são quem pensamos que são, traz-nos a seguinte informação:
[…] Os autores de alguns dos livros do Novo Testamento não eram quem alegavam ser ou quem se imaginou que seriam. Em alguns casos, isso se deu porque um escrito anônimo, no qual o autor não indicava quem era, foi posteriormente atribuído a alguém que, na verdade, não o escreveu. Mateus provavelmente não escreveu Mateus, por exemplo, nem João, João; por outro lado, nenhum livro de fato alega ter sido escrito por uma pessoa chamada Mateus ou João. Em outros casos, isso aconteceu porque o autor mentiu sobre sua identidade, alegando ser alguém que não era. […] (EHRMAN, 2013, p. 19).

Essa é a razão pela qual usaremos a expressão “o autor de” ao referirmos aos Evangelhos, uma vez que, os estudiosos modernos não mais atribuem a autoria dos textos aos nomes que constam em seus títulos. O autor de Lucas, afirma que, após satanás ter entrado em Judas, este foi procurar os sacerdotes para ver de que maneira lhes entregaria Jesus (Lc 22,3-6). Os sacerdotes ficaram tão satisfeitos com essa ideia que combinaram em lhe dar dinheiro, uma vez que eles desejavam, de há muito tempo, eliminar “o herético”. Tal acontecimento se deu, na versão do autor desse Evangelho, antes da festa dos Ázimos; evidentemente, antes da ceia de páscoa, cujo prato principal era um cordeiro morto especificamente para essa finalidade. No entanto, segundo o autor de João, esse fato se deu após a ceia (Jo 13,26-27), apesar de um pouco

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antes, ele ter dito: “Enquanto ceavam, tendo já o diabo posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, que o traísse” (Jo 13,2), sendo, por conseguinte, omisso sobre qualquer combinação anterior entre Judas e os sacerdotes. Portanto, podemos verificar que há evidente conflito entre as narrativas, quanto ao tempo em que o fato se deu. Merece ser ressaltado que se a morte de Jesus foi para remissão de nossos pecados, como comumente se pensa ou insistem que creiamos, então, Judas não poderia, por coerência, ser considerado um traidor, porquanto devemos admitir que a missão dele, embora espinhosa, era a de entregar Jesus. Entretanto...
Nada disso faz muito sentido. Mesmo a solução religiosa mais comum – de que, embora Judas esteja efetivamente cumprindo a vontade de Deus, ele é culpado porque se rendeu a Satanás – não leva em consideração as contradições. Até o autor parece ter dificuldade ao tentar explicar a falta de lógica – como a questão dos discípulos se perguntando se Judas teria ido fazer compras tarde da noite. Não, isso não faz sentido. (CHURTON, 2009, p. 219, grifo nosso).

Concordamos plenamente com Tobias Churton (1960- ), não faz mesmo sentido algum. Quanto à questão dessa combinação com os sacerdotes, Mateus diz que Judas pediu dinheiro para lhes entregar Jesus (Mt 26,15), enquanto que Marcos (14,11) e Lucas (22,5) afirmam que foram os sacerdotes que tomaram a iniciativa de retribuir ao discípulo, dando-lhe dinheiro como recompensa pelo seu ato ignominioso. Um bom observador perceberá que, pelas suas narrativas, Mateus teve uma evidente preocupação, qual seja, a de relacionar Jesus com as profecias, inclusive, muito mais que os outros três autores dos Evangelihos. Daí ser ele o único que diz sobre o quanto Judas teria recebido, dando como certa a importância de trinta moedas de prata (Mt 26,15; 27,3). Essas duas passagens que falam disso são, geralmente, relacionadas a Zc 11,12-13, no pressuposto de que ela seja uma profecia; entretanto, os fatos ali narrados se referem ao próprio profeta Zacarias; não é, por conseguinte, uma revelação sobre algo que fosse ocorrer no futuro. Ainda sobre essa questão das moedas, é oportuno colocarmos o que, em O beijo da morte, nos informa Churton:
[…] A quantia de 30 peças de prata não era um preço convencional ou troca, mas um número profético, simbólico – foi o preço pago por um povo ingrato pelos serviços de Deus. Na profecia, a quantia é uma ninharia, não uma fortuna. Uma simples barganha de informações em troca de dinheiro dificilmente envolveria esses símbolos. Se Judas pensou que estava traindo “Deus”, era quase certo que ele estava louco, e, portanto, merecia compaixão, ou pelo menos uma cura. É opinião geral dos estudiosos que o relato da troca pela prata foi simplesmente extraído dos escritos proféticos e usado como uma história de “cumprimento”, para preencher uma falta de conhecimento do que aconteceu. Se esse for o caso, essa troca não pode ter um peso significativo na alegada culpa de Judas. (CHURTON, 2009, p. 234, grifo nosso).

Como se diz “vendeu barato”, portanto, até o valor, supostamente combinado, deixanos realmente na dúvida se tal troca, de fato, aconteceu. Ao narrar os acontecimentos durante a ceia, Mateus relata: “Enquanto comiam, Jesus disse: 'Eu lhes garanto: um de vocês vai me trair'. Eles ficaram muito tristes e, um por um, começaram a lhe perguntar: 'Senhor, será que sou eu?' (Mt 26,21-22). Achamos bem interessante é que todos eles não confiavam e si mesmo, pois ao dizerem “Senhor será que sou eu?” estavam demonstrando que intimamente tinham “potencial” para praticar tal ato ou “Será que todos eles estavam preocupados, pois todos tinham sido tentados a trai-lo – e suas negativas são expressões de culpa?” (CHURTON, 2009, p. 198). E Jesus, ao responder essa indagação de cada um dos discípulos sobre quem o trairia, teria dito: “Quem vai me trair, é aquele que comigo põe a mão no prato. O Filho do Homem vai morrer, conforme a Escritura fala a respeito dele..." (Mt 26,23-24). Passagem que é relacionada ao Sl 41,10, onde Davi

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reclama sobre um amigo que o trai. O que nos leva a concluir que tal passagem não é uma profecia; assim, não poderia estar relacionada a Jesus, como querem os que buscam, nas Escrituras, apoio para seus dogmas. Davi foi traído por um amigo, seu próprio conselheiro, de nome Aquitofel, conforme narrativa em 2Sm 15,12.31. O final trágico da vida desse “amigo da onça” foi enforcar-se (2Sm17,23); com isso, querem, igualmente, atribuir esse mesmo destino a Judas, como iremos ver mais à frente. Outra coisa que nos parece sem nenhum sentido, principalmente pela maneira com a qual Jesus agia para com os outros, é que Ele tenha, com efeito, se preocupado em delatar o seu traidor, conforme narrado em Jo 13,26, quando, para identificar quem o trairia, diz aos que o acompanhavam, naquela ceia, que seria a quem desse um pão molhado; dito isso, imediatamente, molha um pão e o entrega a Judas, delatando o pobre coitado. Talvez a preocupação aqui seja buscar mais uma forma de relacionar tal episódio a uma profecia sobre esse acontecimento, que sabemos não existir. Mateus (26,48) e Marcos (14,44) dizem que Judas havia combinado com os sacerdotes um sinal – o beijo – para que pudessem identificar quem era Jesus, e, obviamente, o colocam fazendo isso (Mt 26,49; Mc 14,45). Lucas, apesar de não relatar absolutamente nada sobre esse sinal, diz que Judas se aproximando de Jesus o saúda com um beijo (Lc 22,47). Enquanto que João não fala de ter havido uma combinação de sinal, nem que Jesus teria dito algo a respeito, e nem mesmo coloca Judas beijando a Jesus, já que, para ele, foi o Mestre que se adiantou, aos guardas acompanhados de Judas, se identificando a eles como sendo Jesus, o Nazareno, a quem procuravam (Jo 18,3-5). Fatos novamente conflitantes. Nenhum outro Evangelho, a não ser o de João, coloca Judas como sendo aquele que, entre os discípulos, cuidava da “bolsa”; vai ainda mais longe acusando-o de ladrão (Jo 12,6). Como uma acusação grave dessa não foi feita por mais ninguém? Aí ficamos com a dúvida de Churton que disse “O Evangelho de João nos informa – não sabemos com que justificação histórica – que Judas tomava conta da bolsa (do dinheiro)” (CHURTON, 2009, p. 192). Se Judas, realmente, fosse um gatuno, por que motivo o deixaram tomando conta do dinheiro? Alguém colocaria um ladrão como seu administrador financeiro? Não seria, evidentemente, para colocar a honra desse discípulo em jogo, fórmula encontrada para se justificar que, por ser assim, ele não teria também nenhum escrúpulo em trair o seu próprio Mestre? Essa hipótese, para nós, é a mais viável. Não bastassem os que já encontramos, aparecem-nos agora mais dois evidentes conflitos. O primeiro está relacionado à forma pela qual Judas deu cabo à sua vida, movido, segundo relata o autor de Mateus, por profundo remorso. Estranhamente é o único Evangelho que fala disso; nenhum outro autor apresenta uma linha sequer sobre Judas ter se arrependido. Continuando seu relato, o autor de Mateus diz que Judas se enforcou (27,5); entretanto, em Atos (1,18) está se afirmando que ele “precipitando-se, caiu prostrado e arrebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram”, mudando, desta maneira, a versão anterior a respeito de sua morte. Encontramos a seguinte explicação para esse passo: “Possivelmente a narração da morte de Judas enforcando-se, está inspirada na história da morte de Aquitofel (cf. 2Sm 17,23)” (Bíblia Sagrada Santuário, p. 1463). Conforme citamos anteriormente Aquitofel enforcou-se, mas querer, daí, apenas por inspiração, atribuir a Judas uma morte semelhante é lamentável, pois esse fato bíblico deveria ter sido relatado fielmente como ocorrido, aliás, não só esse, mas todos os outros; não como o autor do relato quer que tenha acontecido, o que nos coloca diante de uma mera suposição. Quem sabe se não houve uma outra justificativa para Judas se enforcar? É o que nos propõe Churton:
Quando o arqueólogo israelense Yigael Yadin escavou a fortaleza e o palácio de Massada, o mundo todo descobriu que no ano de 74 d.C. zelotes devotos, em sua determinação de manter sua religião livre da contaminação romana, estavam prontos a cometer suicídio em massa em vez de se render aos romanos. “Nunca novamente!” Talvez Judas tenha se enforcado para não se entregar aos soldados romanos. O cenário político mais detalhado que surgiu dessa pesquisa arqueológica deu outra direção à ideia do suicídio de Judas. […] (CHURTON, 2009, p. 190, grifo nosso).

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Já tivemos a oportunidade de ver algumas pessoas tentando conciliar os dois tipos de morte de Judas, dizendo várias coisas como, por exemplo, que no seu enforcamento ele teria caído num precipício. Mas será que isso pode ser levado em conta? O estudioso Bart D. Ehrman (1955- ), ex-evangélico, falando a respeito disso, afirmou:
Ao longo dos anos os leitores tentaram conciliar esses dois relatos da morte de Judas. Como ele podia se enforcar e cair “de cabeça para baixo”, para que sua barriga se abrisse e seus intestinos se espalhassem pelo solo? Interpretes engenhosos, querendo fundir os dois relatos em uma só narrativa verdadeira, tiveram grande dificuldade com isso. Talvez Judas tivesse se encorcado, a corda arrebentado e ele caído no chão de cabeça, se partido ao meio. Ou talvez tivesse se enforcado, e como isso não tivesse dado certo, então subiu em uma rocha alta e se jogou de cabeça n o campo. Ou talvez... bem, talvez alguma outra coisa. O importante, contudo, é que os dois relatos oferecem versões diferentes sobre como judas morreu. Por mais misterioso que seja dizer que caiu de cabeça e se rasgou, pelo menos isso não é se “enfocar”. […] (EHRMAN, 2010, p. 60-61, grifo nosso).

Ao pesquisarmos, para obtermos outras explicações, para nossa própria surpresa, deparamo-nos também com uma outra versão sobre sua morte; leiamos:
[…] a maneira como ele morreu. Existem essencialmente três tradições diversas sobre a questão: 1. A narrativa do livro de Atos parece indicar que a morte de Judas Iscariotes foi violenta, produzida por alguma espécie de queda incontrolável, evidentemente por algum precipício abaixo. 2. Há também a narrativa de Mat. 27:3-10, segundo a qual Judas Iscariotes enforcou-se. 3. Por semelhante modo, há uma história, preservada por Papias, discípulo do apóstolo João (ou do “presbítero”) de que Judas Iscariotes foi atacado por alguma enfermidade asquerosa, que causou uma excessiva inchação de seu corpo e que, estando ele nessas condições físicas, foi esmagado por uma carroça, em um lugar de estreita passagem, por onde ordinariamente poderia ter passado com sucesso, se não tivesse inchado tanto. (Ver J.A. Cramer, Catanae in Evangelia, S. Matthaei et S. Marci, Oxford: Typographeo Academico, 1884, sobre o vigésimo sétimo capítulo do evangelho de Mateus). Alguns intérpretes têm sugerido que essa história, preservada por Papias, na realidade é a mesma que aparece historiada nas páginas do livro de Atos e que a tradução que aqui aparece como “precipitando-se” (comum, de resto, a todas as traduções), traduz um termo médico obscuro (no grego prestheis), que indicava inchação excessiva. (Essa teoria é exposta na obra “The Beginnings of Christianity”, editores F.J. Foakes Jackson e Kirsopp Lake: Londres, The Macmillan Co. 1933, V. págs. 22-30). Além das ideias acima expostas, várias outras interpretações têm aparecido, ou de natureza inteiramente apócrifa, ou como variações das tradições já existentes. Alguns intérpretes têm asseverado que as palavras “...foi enforcarse...”, da passagem de Mat. 27:5, na realidade deveriam ser traduzidas por sufocou-se, deixando um tanto vago o modo real de sua morte. Outros estudiosos têm pensado que essas palavras significam que ele foi consumido pelo remorso de consciência. Mui provavelmente essas explicações vieram a lume na tentativa de reconciliar a narrativa do livro de Atos com o relato do evangelho de Mateus, posto que, mediante tais interpretações, nenhum modo especifico de morte pode ser atribuído à narrativa de Mateus. Tais tentativas, não obstante, não são bem fundadas, e nem têm sido bem recebidas pelos estudiosos em geral. Uma outra tentativa de reconciliação entre essas duas narrativas, é aquela que diz que as narrativas do evangelho de Mateus e do livro de Atos são descrições de várias etapas da morte de Judas. - A ideia é que Judas pendurouse por uma corda ou em um ramo, o qual ter-se-ia partido, precipitando-o para baixo e propiciando as condições descritas em Atos. Essa interpretação tem deixado a vários estudiosos satisfeitos; mas outros têm-na considerado

110 como mera tentativa de harmonizar os relatos bíblicos a qualquer custo, até mesmo ao preço da honestidade. É justo dizermos que o problema permaneceu praticamente sem solução nos tempos antigos; e para muitos intérpretes, é nesse ponto de insolubilidade que o problema se encontra até hoje. Mas todas as narrativas, até mesmo as lendárias, concordam sobre o ponto de que Judas Iscariotes sofreu alguma forma de morte violenta e horrenda. […] (CHAMPLIN e BENTES, 1995, p. 622, grifo nosso).

O segundo diz respeito ao destino dado às moedas. O autor de Mateus menciona que Judas as teria devolvido, atirando-as dentro do santuário, que, recolhidas pelos sacerdotes, foram, por deliberação deles, destinadas à compra do campo do oleiro, para servir de cemitério aos estrangeiros (Mt 27,3-10), citando que isso aconteceu para se cumprir o que dissera o profeta Jeremias. Mas essa história nos parece mal contada, pois em Atos se diz que o próprio Judas teria comprado um campo (At 1,18), que até poderia ser esse do oleiro; mas, de qualquer forma, está em conflito com a versão anterior. Na maioria das Bíblias em que consultamos, dizem que as profecias relacionadas a Mt 27,9: “Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço do que foi avaliado, a quem certos filhos de Israel avaliaram e deram-nas pelo campo do oleiro, assim como me ordenou o Senhor”, estariam nos passos: Zc 11,12-13 e Jr 32,5-16, ou Jr 18,1-4 e 19,1-3 (Bíblia Anotada, p. 1229) . Há, portanto, sérias dúvidas quanto à identificação da profecia específica relacionada ao episódio. Como já falamos sobre a citação de Zacarias, fica-nos, por conseguinte, apenas as de Jeremias para dizermos alguma coisa. Em notas explicativas sobre elas encontramos que: “A citação é uma combinação artificial de Jr 32,6-9 e Zc 11,12-12” (Bíblia do Peregrino, p. 2386); isso nos deixa diante da realidade de que, por se admitir que seja “uma combinação artificial”, estamos, certamente, diante de mais uma tentativa de se relacionar acontecimentos no Novo Testamento com ocorrências registradas no Antigo Testamento, tidas como se fossem verdadeiras profecias. Quem tiver a curiosidade de consultar a passagem citada de Zacarias não encontrará nela algo no qual se possa qualificá-la como profecia; são apenas fatos relacionados àquele momento vivido por esse profeta. E quanto a Jeremias, não se encontra absolutamente nada que ele tenha comprado alguma coisa por trinta moedas. Sobre a compra de um terreno, sim, como podemos ver em 32,6-12; mas uma situação circunstancial, explicada da seguinte forma:
À primeira vista se trata de um incidente: a compra e venda de um terreno segundo as normas e o procedimento da legislação judaica. O narrador se compraz em registrar todos os detalhes, mostrando que a lei foi estritamente cumprida e que o ato é juridicamente válido. O surpreendente dessa compra-evenda é que se realiza às vésperas da catástrofe inevitável. Que sentido tem nesse momento comprar um terreno para que fique em poder da família? Tudo já está perdido. Mas o absurdo do ato é a chave do seu sentido. Para efeitos legais imediatos, a compra nada servirá; para efeitos proféticos, é admirável ato de esperança no futuro. É um oráculo em ação, Jeremias profetiza ao vivo: não só palavras, nem ação simbólica, mas ato real jurídico. Esse ato significa o futuro que ele antecipa: a jarra de barro onde se guarda o contrato é um penhor que Deus concede. Apesar do que está para acontecer, a terra continua sendo propriedade dos judaítas: a terra prometida aos patriarcas e possuída durante séculos... (Bíblia do Peregrino, p. 1928).

Podemos ainda confirmar isso com a seguinte explicação: “A citação [Mt 27,9] é tirada na realidade de Zacarias (11,12-13). Mas, ele lembra também diversos versículos de Jeremias onde se faz menção do campo e do oleiro (32,6-6; 18,2-12)”. (Bíblia Ave-Maria, p. 1319). Ressaltamos que a expressão “ela lembra”, é uma afirmativa que depõe contra o próprio texto que, positivamente, diz ser de Jeremias essa profecia. Percebemos que as narrativas possuem diversos fatos conflitantes entre si, deixandonos na convicção que tudo não passa, na melhor das hipóteses, de um ajuste dos textos para se chegar a um objetivo pré-determinado, conforme já falávamos, desde o início. Para se ter uma ideia mais exata sobre isso, colocaremos a passagem Mt 27,1-26, que, para tornar a

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explicação mais fácil de ser entendida, iremos dividi-la em três partes: I) 1-2: De manhã cedo, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo convocaram um conselho contra Jesus, para o condenarem à morte. Eles o amarraram e o levaram, e o entregaram a Pilatos, o governador. II) 3-10: Então Judas, o traidor, ao ver que Jesus fora condenado, sentiu remorso, e foi devolver as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e anciãos, dizendo: “Pequei, entregando à morte sangue inocente”. Eles responderam: "E o que temos nós com isso? O problema é seu". Judas jogou as moedas no santuário, saiu, e foi enforcarse. Recolhendo as moedas, os chefes dos sacerdotes disseram: "É contra a Lei colocálas no tesouro do Templo, porque é preço de sangue". Então discutiram em conselho, e as deram em troca pelo Campo do Oleiro, para aí fazer o cemitério dos estrangeiros. É por isso que esse campo até hoje é chamado de “Campo de Sangue”. Assim se cumpriu o que tinha dito o profeta Jeremias: “Eles pegaram as trinta moedas de prata - preço com que os israelitas o avaliaram - e as deram em troca pelo Campo do Oleiro, conforme o Senhor me ordenou”. III) 11-26: Jesus foi posto diante do governador, e este o interrogou: “Tu és o rei dos judeus?” Jesus declarou: “É você que está dizendo isso”. E nada respondeu quando foi acusado pelos chefes dos sacerdotes e anciãos. Então Pilatos perguntou: “Não estás ouvindo de quanta coisa eles te acusam?” Mas Jesus não respondeu uma só palavra, e o governador ficou vivamente impressionado. Na festa da Páscoa, o governador costumava soltar o prisioneiro que a multidão quisesse...”. Para o que queremos colocar não é necessário citar toda a narrativa; assim, omitimos o restante da sequencia dessa última (vv. 16-26), pois até aqui, no versículo 15, já encontramos o suficiente para entendermos e percebermos que os versículos de 3-10 nada têm a ver com o contexto geral daquilo relatado na passagem. Inclusive, no versículo 3 está dito que Judas viu que Jesus havia sido condenado, quando, no desenrolar do texto, esse fato ainda não havia acontecido, que só veio acontecer mais à frente. A quebra brusca na sequencia dessa narrativa, não deixou de ser percebida pelo tradutor da Bíblia do Peregrino, conforme nos explica:
O episódio da morte de Judas interrompe estranhamente o curso do relato, como se a entrega de Jesus ao governador ultrapassasse suas previsões. Sabemos que a figura de Judas alimentou desde cedo fantasias legendárias. Lucas dá versão diferente (At 1,18-20). A morte violenta do perseguidor ou culpado é tema literário conhecido (p. ex. Absalão, 2Sm 18: Antíoco Epífanes, 2Mc9; em versão poética vários oráculos proféticos, p.ex. Is 14; Ez 28). Antes de morrer, Judas acrescenta seu testemunho sobre a inocência de Jesus. Confessa o pecado, mas desespera do perdão... (Bíblia do Peregrino, p. 23852386).

Isso vem confirmar todas as nossas suspeitas de que tudo foi um calculado “arranjo” visando ajustar os textos às conveniências dos interessados para que eles tivessem referências às suas idiossincrasias. E, em relação ao assunto tratado, temos fortes suspeitas de que vários outros trechos foram intercalados às narrativas bíblicas, para amoldá-los a um propósito determinado. Podemos citar, como exemplo, Mt 26,14-16; 21-25; 28,11-15; Mc 10,10-12; 14,18-21; Lc 22,3-6, 21-23; Jo 1,33; 11,12-16, para que você, caro leitor, faça uma análise mais aprofundada. Podemos ainda recorrer a Ernest Renan (1823-1892), que disse:
Quanto ao desgraçado Judas de Cariote, lendas terríveis correram sobre sua morte. Disseram que, com o prêmio de sua perfídia, comprara umas terras nos arredores de Jerusalém. Havia, justamente, ao sul do monte Sião, um local chamado Hakeldama (campo de sangue)(8). Pensou-se que era a propriedade adquirida pelo traidor(9). Segundo uma tradição, ele se matou(10). Segundo uma outra, ele levou um tombo na sua propriedade e, como consequência, suas entranhas se espalharam pelo chão(11). Segundo outras, ele morreu de uma espécie de hidropsia, acompanhada de circunstâncias repugnantes que foram tomadas como castigo do céu(12). O desejo de comparar Judas a

112 Achitofel(13) e de mostrar nele o cumprimento das ameaças que o Salmista pronunciou contra o amigo pérfido(14) pode ter dado ensejo a essas lendas. ______
8. São Jerônimo, De situ et nom. Loc. hebr., para a palavra Acheldama. Eusébio (ibid.) diz ao norte. Mas os itinerários confirmam a lição de São Jerônimo. A tradição que nomeia Haceldama à necrópole situada no fundo do vale de Hinon remonta pelo menos à época de Constantino. 9. Atos, I, 18-19. Mateus, ou melhor, seu interlocutor, deu aqui um tom menos satisfatório à tradição, a fim de ligar a isso a circunstância de um cemitério para estrangeiros, que se achava perto dali, e de encontrar uma pretensa confirmação em Zacarias, XI,12-13. 10. Mat. XXVII, 5. 11. Atos, l.c.; Pápias, em Ecumenius, Enarr, in Act. Apost., II e em Fr. Münter, Fragm. Patrum graec. (Hafniae, 1788, fasc. I, p. 17 e seg.; Teofilacto, em Mat., XXVII, 5. 12. Pápias, em Münter, l.c., Teofilacto, l.c. 13. II Sam., XVII,23. 14. Salmos LXIX e CIX.

(RENAN, 2004, p. 397, grifo nosso).

Ficamos a pensar como se sentiu e como ainda pode estar se sentindo Judas sobre tudo quanto lhe imputam como procedimento. O pobre coitado ainda é julgado e condenado, anos após anos, pelos ditos “cristãos”, que, com certeza, não cumprem o: “Não julgueis os outros para não serdes julgados, porque com o julgamento com que julgardes, sereis julgados e com a medida que medirdes sereis medidos” (Mt 7,1-2). Não bastasse isso, ainda é humilhado, malhado e, ao final, é espetacularmente “detonado”. Infelizmente esse nos parece ser o seu destino cruel, que se perpetua anualmente nas comemorações da Semana Santa realizadas por determinadas religiões cristãs tradicionais. Reabrimos esse “processo”, pois temos em mãos a revista Discovery Magazine de março/2005, com uma interessante reportagem intitulada Últimos momentos de Jesus, assinada pelo jornalista Walter Falceta Jr. (1971[?]- ), da qual transcrevemos os seguintes trechos:
(...) Mas pesquisas mais recentes lançam novos olhares especialmente sobre o odiado Judas – aquela figura que, vestida em boneco de trapos, mobiliza os malhadores nos Sábados de Aleluia. Ao contrário da tradição, os estudos modernos são mais complacentes com o discípulo dissidente, tido no imaginário popular como um homem ambicioso e sem caráter. O magistrado israelense Haim Cohn, ex-juiz da Suprema Corte de Israel, autor de O Julgamento e a Morte de Jesus, defende que, à época da Paixão, Jesus já era conhecido em Jerusalém e sabia-se de seu costume de meditar no Monte das Oliveiras. “ Não seria necessário, portanto, que alguém indicasse seu refúgio”, diz Cohn. Dessa forma, o episódio do “beijo da traição”, que teria sido protagonizado por Judas para indicar aos soldados romanos o momento adequado da captura de Jesus, pertenceria ao campo da lenda e não da realidade... Para outros especialistas, o perfil de Judas foi moldado para representar os arquétipos da maldade. De acordo com o bispo da Igreja Anglicana John Spong, de Newark (EUA), até o nome de Judas teria sido escolhido para remeter o inconsciente coletivo ao termo “judaísmo”, numa estratégia para marcar negativamente a imagem dos primeiros opositores do cristianismo. FICÇÃO NOS EVANGELHOS Na década passada, o padre Raymond Brown, ex-professor do Seminário Teológico União, de Nova York, produziu o mais detalhado estudo sobre o que aconteceu nos últimos dias da vida de Cristo. Um calhamaço de 1.600 páginas, o livro The Death of J. B. Howell the Messiah (“A morte do Messias”, ainda não editado no Brasil) compara os argumentos de vários intérpretes da Bíblia, os chamados exegetas, à luz de dados históricos. Em seus textos, Brown dá crédito aos escritos oficiais e estimula uma leitura conservadora das Escrituras. Mesmo assim, admite que o objetivo dos autores dos textos sagrados era evangelizar e não reconstituir fatos históricos. Segundo ele, é natural que tenham recorrido à ficção para expor suas ideias. Brown considera, por exemplo, que a história das 30 moedas que, segundo a Bíblia, Judas recebeu dos sacerdotes do Sinédrio

113 para entregar Cristo passou a simbolizar o suposto gosto dos judeus pelo dinheiro. (FALCETA JÚNIOR, p. 28-33, grifo nosso).

Isso vem, de certa forma, em apoio ao que deduzimos de nossos estudos bíblicos; sinal que não estamos sendo heréticos sozinhos, embora isso não nos preocupe, pois para nós o que é mais importante é que se restabeleça a verdade. Vejamos, agora, o que Geza Vermes (1924- ), renomado exegeta, diz sobre o trecho de Mateus, que cita Judas (Mt 27,3-10):
Mateus insere uma breve passagem sobre Judas entre o julgamento de Jesus pelo Sinédrio e a transferência do caso para Pilatos. Ele faz o traidor arrependerse e devolver o suborno. Os evangelistas são inocentes das especulações modernas sobre motivos elevados de Judas, tal como o seu desejo de forçar Jesus a revelar seu messianismo oculto. Não é dada nenhuma hora exata. Segundo Mateus, o julgamento de Jesus ocorre na casa de Caifás, mas o encontro de Judas com os chefes dos sacerdotes e os anciãos é situado no Templo, local diferente sem dúvida numa ocasião diferente. Como as autoridades sacerdotais se recusaram a aceitar o dinheiro de volta, Judas o jogou fora e, desesperado, enforcou-se. O restante da história tem toda a aparência de um conto folclórico artificialmente combinado com uma citação escritural para transformar o acontecimento em cumprimento de uma profecia. Deixados diante de um dilema – o que fazer com o dinheiro de sangue devolvido, impróprio para o tesouro do Templo –, os chefes dos sacerdotes decidem usá-lo para comprar um campo para o sepultamento de estrangeiros. Havia um terreno em Jerusalém conhecido como "Campo de Sangue", e uma tradição cristã primitiva o associava à desventura de Judas. O aspecto profético do incidente é amplamente produzido por Mateus. Diz-se que a citação é de Jeremias, mas trata-se de uma invenção ou, mais exatamente, de uma mistura adulterada de Zacarias 11,12-13 e Jeremias 18,2-3; 36,6-15. É impossível discernir nos extratos bíblicos sequer uma remota ligação com o episódio de Judas. Aqui, como em muitos outros lugares, Mateus empenha-se em retratar a história da Paixão, perturbadora para crentes e pouco atraente para supostos convertidos, como uma sequência de eventos profeticamente previstos e providencialmente predestinados. (VERMES, 2007, p. 53-54, grifo nosso).

Esse empenho de Mateus em relacionar Jesus a várias profecias, foi também percebido por nós, inclusive, objeto de um estudo à parte, com o título de “Será que os profetas previram a vinda de Jesus?”, que poder ser visto em www.paulosnetos.net. Fechamos com Churton, que disse: “Temos a liberdade de suspeitar que os autores dos Evangelhos realmente não sabiam o que aconteceu”. (CHURTON, 2009, p. 236).

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A questão do bom ladrão
A passagem de Lucas a respeito do “bom ladrão” é, muitas vezes, utilizada, principalmente pelos nossos detratores de plantão, para sustentar a ideia de que não existe a reencarnação. Não querendo entrar detalhadamente neste assunto, apenas gostaríamos de dizer para aqueles que não a aceitam, que vejam como ela é obvia nas seguintes passagens: Mt 17,12: “Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim farão eles também padecer o Filho do homem”. Mt 11,14-15: “E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Jo 3,3: “Jesus respondeu, e disse-lhe: 'Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus'”. Jo 3,7: “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo”. Vemos que, infelizmente, muitos ainda não “têm ouvidos de ouvir”. Não compreendemos como podem conceber uma Justiça Divina sem a reencarnação. Já que, para nós, a reencarnação é o único meio de “sermos perfeitos como o Pai Celestial” (Mt 5,48), conforme nos recomenda Jesus, a não ser que Ele nos tenha ensinado algo que não pudéssemos fazer, o que seria um absurdo. Voltando ao que nos propomos, achamos por bem fazer uma análise desse episódio, para que possamos encontrar a verdade. Vamos, então, às narrativas bíblicas sobre tal acontecimento, tiradas da Bíblia Anotada, Editora Mundo Cristão: Mt 27,44: “E os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificados com ele”. Mc 15,32: “Também os que com ele foram crucificados o insultavam”. Lc 23,39-43: “Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: 'Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também'. Respondendo-lhe, porém, o outro repreendeu-o dizendo: 'Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós na verdade com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez'. E acrescentou: 'Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino'. Jesus lhes respondeu: 'Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso'”. Jo 19,18: “Onde o crucificaram, e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio”. Ressaltamos que se a Bíblia, segundo dizem, é totalmente inspirada por Deus por que não narram os Evangelistas os mesmos fatos? Ora, se a fonte de inspiração é de uma mesma origem, Deus, deveriam ser tais narrativas completamente iguais, pelo menos quanto ao fundo. Poderemos até aceitar palavras diferentes, mas não com divergências quanto ao fato ocorrido; e aqui ele é narrado de forma diferente, conforme iremos observar a seguir: 1 – Quanto ao diálogo: Mateus, Marcos e João nada relatam de qualquer diálogo entre os três crucificados. 2 – Quanto à atitude: Mateus e Marcos dizem que os ladrões estavam, isto sim, entre os que escarneciam de Jesus. Só Lucas diz que Jesus teria dito para um deles que “hoje estarás comigo no Paraíso”.

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3 – Quanto à testemunha: João que estava ao pé da cruz, ou seja, a testemunha ocular, nada diz sobre este diálogo de Jesus com um dos ladrões. Por curiosidade, vamos ver como essa frase aparece nas Bíblias de outras editoras: Mundo Cristão: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Vozes: “Em verdade te digo: ainda hoje estarás comigo no paraíso”. Pastoral: “Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no paraíso”. Ave Maria: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso”. Barsa: “Em verdade te digo: que hoje serás comigo no paraíso”. Loyola: “Eu te asseguro: hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. Perguntaríamos, então, qual delas é a frase mais verdadeira? Enquanto algumas dizem “em verdade”, outras dizem “eu garanto” e “eu te asseguro”, apesar dessas Bíblias terem como origem o mesmo segmento religioso. Um detalhe que julgamos importante é que essa afirmação, atribuída a Jesus, pode ser encontrada nos documentos apócrifos: Evangelho de Nicodemos (TRICCA, vol. I, 1992a, p. 238), Descida de Cristo ao inferno (TRICCA, vol. I, 1992a, p. 261) e o denominado Declaração de José de Arimateia”, nesse, inclusive, é citado o nome dele como sendo Dimas (TRICCA, vol. II, 1992b, p. 285). Transcrevemos um trecho da fala do “bom ladrão”:
E enquanto ele pendia na cruz, ao ver os prodígios que se sucederam, acreditei nele e roguei a ele dizendo: “Senhor, quando reinares, não te esqueças de mim”. E ele logo disse-me: “Em verdade em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. (TRICCA, vol. I, 1992a, p. 261) (grifo nosso).

Observe, caro leitor, que a fala encontrada no apócrifo Descida de Cristo ao inferno é a mesma que se encontra no Evangelho de Lucas. Assim, ficamos na dúvida se a passagem de Lucas, a respeito do “bom ladrão”, não teria sido tomada exatamente desse e dos outros dois documentos, cuja autenticidade não foi reconhecida pela Igreja Católica, uma vez que ele mesmo declara que escreveu “após acurada investigação de tudo deste o início”, o que constata que ele não foi inspirado. Por outro lado, vários outros autores confirmam o que Severino Celestino da Silva (l1949- ) disse em seu livro Analisando as Traduções Bíblicas:
Sabemos que os manuscritos originais do Novo Testamento não possuíam pontuação, e em face do fato de o grego clássico (incluindo o grego koiné, no qual foi escrito o Novo Testamento) gozar de ampla liberdade no tocante à ordem das palavras, é impossível, à base do próprio texto grego, provar um lado ou outro dessas ideias contraditórias. (SILVA, 2001, p. 309-310)

Assim, não fica difícil entender que nas traduções colocaram a pontuação conforme a conveniência de cada tradutor. Analisando, especificamente essa frase, e, se admitirmos que isso realmente tenha acontecido, teremos uma contradição de Jesus, pois Ele mesmo disse: a cada um segundo suas obras. (Mt 16,27). E, quando do episódio com Madalena, após sua ressurreição, disse Ele a esta mulher: “Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). Ora, se Jesus, três dias após sua morte, ainda não tinha subido ao Pai, como Ele poderia ter afirmado ao “bom ladrão”, que hoje estarás comigo, ou seja, justamente no dia de sua morte na cruz? Outros questionamentos temos para apresentar: se muitos acreditam que, segundo as escrituras, os mortos ficam dormindo, como admitir a entrada dele direto ao paraíso? E como fica o tão falado dia do Juízo final, não haverá mais esse juízo?

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Por outro lado, o “bom ladrão”, ao reconhecer que “nós na verdade com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez”, ele está aceitando a justiça dos homens, e por mais forte razão, aceitaria a Justiça de Deus que lhe daria uma pena merecida. Assim, podemos concluir também que ele não estava pedindo uma recompensa por algo que não tivesse feito, mas, apenas que Jesus se lembrasse dele quando voltasse; certamente visando o perdão dos seus pecados, não é mesmo? Além disso, o dito “bom ladrão” (e, diga-se de passagem, é o único ladrão bom da história da humanidade) somente reconheceu que ele e o outro tinham motivos para morrerem crucificados, e que Jesus era um inocente sendo condenado; assim, já que não houve nem mesmo um simples arrependimento, por parte dele, por que o prêmio? Se for verdadeira essa regra, então, qual a vantagem de ser correto durante toda uma vida se podemos ir para o céu apenas por um arrependimento de última hora? Narra Mateus (20,20-23) que a mãe dos filhos de Zebedeu chega a Jesus com o seguinte pedido: “Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino”. Não vemos Jesus atendendo ao pedido desta abnegada mãe; ao contrário, disse-lhe: “Mas quanto a vos sentardes à minha direita ou à minha esquerda, não me cabe concedê-lo, porque estes lugares são destinados àqueles para os quais meu Pai os reservou”. Ora, se aqui Jesus afirma que não cabe a Ele conceder um lugar no Paraíso ou reino dos céus, como, então, promete um lugar ao “bom ladrão”? Será que Ele estaria contradizendo-se? Acreditamos que não, pois tanto nesse caso, quanto no outro, teria que agir sem conceder qualquer tipo de privilegio, ou seja, “a cada um segundo suas obras”.(Mt 16,27). Não bastassem os fatos acima, uma análise cuidadosa da cena do Calvário revela que o ladrão pode não ter morrido naquele mesmo dia, pois João (19,31-33) nos diz: "Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a Preparação (pois era grande o dia de Sábado), rogaram a Pilatos que lhes quebrassem as pernas, e que fossem tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade, quebraram as pernas do primeiro, e ao outro que com ele fora crucificado; mas, vindo a Jesus, e vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas". Arnaldo B. Christianini (? - ) aborda a questão do costume de quebrar as pernas em seu livro Subtilezas do Erro, de onde transcrevemos:
Por que "quebrar as pernas" dos justiçados? Porque o crucificado não morria no mesmo dia. Cristo foi caso excepcional e sabemos que não morreu dos ferimentos ou da hemorragia, mas de quebrantamento do coração. Morreu de dor moral por suportar os pecados do mundo. Mas os outros, não, e as crônicas descrevem o condenado esvaindo-se lentamente durante dias. Diz, por exemplo o comentário de J. B. Howell: "O crucificado permanecia pendurado na cruz até que, exausto pela dor, pelo enfraquecimento, pela fome e a sede, sobreviesse a morte. Duravam os padecimentos geralmente três dias, e às vezes, sete." (1) É óbvio que os homens de maior robustez física duravam até sete dias na cruz. No caso em tela, os judeus, não permitiram que se conservasse um criminoso na cruz no dia de sábado, pois consideravam um desrespeito à santidade do dia de repouso. "De acordo com o costume, quebravam as pernas dos criminosos depois de os haverem removido da cruz, deixando-os estendidos no chão, até que o sábado passasse. Depois do sábado haver passado, sem dúvida esses dois corpos foram outra vez amarrados na cruz, e lá ficaram diversos dias, até morrerem..." Se era necessário quebrar as pernas aos dois malfeitores, antes do pôr-dosol, é porque não haviam, morrido ainda. Na pior das hipóteses viveram ainda, pelo menos, um dia a mais que o Mestre. Como podia, um deles, estar no mesmo dia junto de Jesus? ______
(1) E. Howell, Comentário a S. Mateus, pág. 500.

(CHRISTIANINI, 1965, p. 274-275).

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Se era necessário quebrar as pernas aos dois malfeitores, antes do pôr-do-sol, é porque não haviam morrido ainda. Na pior das hipóteses, viveram ainda pelo menos um dia a mais que o Mestre. Como podia, um deles, estar no mesmo dia junto de Jesus? Já falamos, várias vezes, mas não custa repetir. Coloquemos a frase do seguinte modo: Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso. Veja como uma simples vírgula muda completamente o sentido do texto... Desta forma, é muito mais condizente com a Justiça Divina, pois um indivíduo somente irá para o Paraíso, quando tiver realizado as obras que justifiquem merecê-lo, não importando quanto tempo levará para isso. Também não estaria em conflito com o texto: “Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação, ...” (1Pd 1,17). E, para reforçar que Deus não faz mesmo acepção de pessoas, pedimos para consultar: Dt 10,17; 2Cr 19,7; Jó 34,19; At 10,34; 15,9; Rm 2,11; Ef 6,9 e Cl 3,25.

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Espíritos em Prisão
Reza o credo católico que Jesus “[...] padeceu sob o poder Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. Desceu aos infernos e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos; subiu aos céus e está sentado à mão direita de Deus-Pai, todo-Poderoso, de onde há de vir julgar os vivos e os mortos. [...]”. A pergunta é: o que Jesus teria ido fazer nos infernos? De onde tiraram essa ideia? Bom, parece-nos que isso foi retirado da primeira carta de Pedro (3,19-20), onde se diz que Jesus pregou “aos espíritos em prisão”, acrescentando que esses espíritos são os que foram desobedientes nos dias de Noé, ou seja, até antes do dilúvio. Disso se pode concluir que, pela Bíblia, a palavra espírito significa um ser humano desencarnado e que os espíritos exercem influência sobre os encarnados. É o que se verifica por várias passagens bíblicas, onde encontramos os espíritos (imundos ou impuros) exercendo domínio sobre uma pessoa (o possesso de Gerasa, em Mt 8,28-34; Mc 5,1-20 e Lc 8,26-39; o possesso de Cafarnaum, em Mc 1,21-28 e Lc 4,31-37, e o menino mudo e epilético, em Mt 17,14-21; Mc 9,14-29 e Lc 9,37-43). Os seres aos quais se denominam demônios são, sem sombra de dúvidas, os espíritos, tendo em vista que, pelas passagens citadas, as narrativas ora dizem demônio ora espírito impuro, demonstrando, portanto, que são palavras sinônimas. Mas, voltando à questão inicial, o que teria Jesus pregado a esses espíritos em prisão? A resposta ainda se encontra na primeira carta de Pedro (4,6), onde ele diz que “o Evangelho foi pregado também a mortos”. Resumindo: Jesus desceu aos infernos para pregar o Evangelho aos espíritos dos que haviam morrido até o dilúvio. Três questões nos surgem agora: a primeira, por que só pregou para os que viveram até Noé, e os que morreram após o dilúvio até o início de sua pregação não tiveram a oportunidade de receber essa pregação? Então onde fica “Deus não faz acepção de pessoas” (Rm 2,11)? A segunda, é que se Jesus foi pregar aos mortos, que se encontravam nos infernos (em prisão), é pelo fato de que esses condenados poderiam ser recuperados? Em função dessa possibilidade de recuperação, na qual acreditamos, podemos afirmar que na hipótese do inferno existir mesmo, ele não poderá ser eterno. Até mesmo porque somente se fica na prisão até que seja pago o último centavo da dívida (Mt 5,26). Terceira, se Jesus foi aos infernos pregar aos mortos concluímos que os mortos foram julgados; daí, haveria alguma explicação racional para o tal juízo final, onde serão julgados os vivos e os mortos? Vejamos agora o que dizem os teólogos. Os protestantes, nos explicam a expressão “pregou aos espíritos em prisão”, dizendo:
Alguns pensam que esta frase significa que Cristo, entre Sua morte e ressurreição, desceu ao Hades e ofereceu aos que viveram antes de Noé (v. 20) uma segunda oportunidade de salvação, uma doutrina que não tem apoio escriturístico. Outros pensam que foi apenas uma proclamação de Sua vitória sobre o pecado aos que estavam no Hades, sem o oferecimento de uma segunda chance. É Mais provável que este versículo seja uma referência ao Cristo pré-encarnado pregando através de Noé àqueles que, por terem rejeitado Sua mensagem, agora são ‘espíritos em prisão’. (Bíblia Anotada, p. 1566). (grifo nosso).

Já com relação à pregação do Evangelho a mortos, dizem:
a mortos, I.e., cristãos já falecidos O evangelho foi pregado àqueles mártires agora mortos. Eles foram julgados na carne e condenados ao martírio segundo padrões humanos de justiça, mas estão vivos espiritualmente depois da morte. Outra interpretação deste versículo relaciona esta pregação àquela

119 mencionada em 3:19. (Bíblia Anotada, p. 1566). (grifo nosso).

Diremos que o apoio escriturístico para a pregação de Jesus aos espíritos que estavam na prisão é confirmado pela própria passagem questionada, como também em 1Pe 4,6; mas em nota nessa passagem, dizem que Jesus teria ido pregar aos cristãos já falecidos. Essa hipótese é completamente sem sentido, para não dizer absurda, pois os que seguiam Jesus só foram chamados de cristãos mais tarde (At 11,26), por volta do ano 37 d.C., época da fundação da Igreja de Antioquia; isso, considerando que a morte de Jesus se deu na Páscoa de 30, nos dá aproximadamente 7 anos depois da morte de Cristo. Resta-nos portanto, a alternativa de que realmente Jesus foi pregar aos espíritos em prisão. Os católicos, por sua vez, explicam:
Provável alusão à descida de Cristo ao limbo. Quem sejam os espíritos aos quais Jesus foi pregar, é controverso. Há quem afirme que se trata dos espíritos maus, aos quais Cristo anunciou a derrota e a sujeição; outros, ao contrário, veem neles os incrédulos dos tempos de Noé; mas provavelmente são os justos do A. T. que haviam esperado no Cristo. (Bíblia Sagrada Paulinas, p. 1329-1330)

E, em relação aos mortos dizem:
Quanto a esses mortos, cfe 3,19. São os justos que morreram pelo dilúvio, entre os quais houve os que se arrependeram de seus pecados, embora esse arrependimento tardio, tendo salvo a alma, não serviu para salvar o corpo da morte. Há quem sustente tratar-se de mortos espirituais. (Bíblia Sagrada Paulinas, p. 1330).

A atitude de Jesus descer aos infernos apenas para anunciar aos espíritos maus a sua derrota e sujeição, não condiz com tudo que Ele pregou e exemplificou. Isso seria apenas uma demonstração de superioridade com consequente humilhação daqueles aos quais estaria se dirigindo; portanto, fora de propósito. Seriam os justos como sugerem? Se os justos estavam na prisão é porque mereceram castigo; ora, só pelo fato de se merecer castigo é uma consequência de não ser justo, pois justo merece prêmio, não castigo. Limbo? Ora, na Bíblia não encontramos nada a respeito. Afinal o que é isso? Segundo o Dicionário da Bíblia Barsa seria:
“residência das almas das crianças mortas sem terem sido batizadas, ...quem não tiver cometido pecado mortal não será castigado com o inferno e de que só os que tiverem tido o pecado original apagado pelo Batismo (de água, sangue ou desejo) é que entrarão no céu” (Dicionário Barsa, p. 159).

Ah! O que esses teólogos não inventam para justificarem seus dogmas?! Veja bem; criam um lugar que não existe, estabelecendo as condições para os que para lá irão; tudo sem nenhum apoio bíblico; apenas como justificativa a seus dogmas. Essa, por exemplo, do pecado original não condiz com: “ Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais: cada um será morto pelo seu próprio pecado” (Dt 24,16). Mas afinal, a quem Jesus teria pregado? Teria pregado a todos ou somente aos que morreram do dilúvio para trás? Já que todos podem dar a sua opinião, diremos que “provavelmente” Jesus tenha pregado a todos os espíritos que estavam “presos”, até mesmo porque Deus trata todos de igual modo. Mas presos onde? Acreditamos que no “umbral”, onde todos os espíritos, que ainda não possuem evolução suficiente para se desvincularem do planeta Terra, ficam presos nessa faixa em volta dela. Assim, não admitimos que o “inferno” seja eterno, nem que os “mortos” ficam dormindo à espera do juízo final. O grande problema que surgirá se aceitarem isso, é que vai para o beleléu a fortuna que fazem usando o dízimo não é mesmo? Alguém poderá dizer: Mas o credo que conheço não fala em “infernos”, cita “mansão dos mortos”. É fato; entretanto, ao que tudo indica mudou-se a forma de rezar o credo para fugir dos inevitáveis questionamentos. Estão querendo, como se diz popularmente, “tapar o

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Sol com a peneira” apenas isso. Não adianta, pois um dia a verdade haverá de aparecer.

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A morte de Agripa
A ingenuidade de muitos em acreditar piamente em todas as narrativas bíblicas, como se fossem verdades irrefutáveis, é digna de pena. A grande maioria dessas pessoas, se nem mesmo ousa admitir uma simples dúvida, que dirá contestar aquilo que se encontra relatado na Bíblia, já que pressupõem que tudo que ali está é plena verdade proveniente de Deus. Ainda não perceberam que, por conta da esperteza da liderança religiosa da antiguidade, tacitamente incorporada pela atual, foi o que transformou a Bíblia num livro cujo conteúdo passou a ser supostamente a palavra de Deus. Foi a forma fácil e prática que se encontrou para manter sob seu domínio os fiéis: ovelhas que não berram. Leiamos esse acontecimento conforme a narrativa bíblica: Herodes estava enfurecido com os habitantes de Tiro e Sidônia. Estes fizeram um acordo entre si e se apresentaram diante de Herodes, depois de conquistarem as graças de Blasto, o camareiro real. Eles pediam a paz, já que seu país recebia mantimentos do território do rei. No dia marcado, Herodes vestiu-se com os trajes reais, tomou seu lugar na tribuna, e lhes dirigiu a palavra oficial. O povo começou a clamar: "É a voz de um deus, e não de um homem!" Mas, imediatamente, o anjo do Senhor feriu Herodes, porque ele não tinha dado glória a Deus. E Herodes expirou, carcomido por vermes. (At 12,20-23) (grifo nosso). Segundo os tradutores da Bíblia Anotada, esse personagem é “Herodes Agripa I, neto de Herodes, o Grande, que reinara ao tempo do nascimento de Cristo. Agripa, pelo menos exteriormente, era um zeloso praticante dos rituais judaicos e era um patriota em questões religiosas” (p. 1378). E, em relação à sua morte, completam: “Josefo afirma que Herodes adoeceu subitamente durante seu discurso e, depois de cinco dias de sofrimento, morreu (44 A.D.)” (p. 1379). Vejamos então, para conferir, o que Josefo (37 a 103 d.C.), o historiador hebreu, fala a respeito desse assunto. A versão de Josefo, parece-nos ser bem diferente dessa que acabamos de citar. Vamos iniciar seu relato após Agripa ter sido preso, acusado por um liberto de nome Eutico, de desejara morte do imperador Tibério, para que seu amigo Caio o substituísse no poder:
Um dia, quando Agripa estava com outros prisioneiros diante do palácio, a fraqueza, que lhe causava a tristeza, fez que ele se apoiasse a uma árvore sobre a qual uma coruja veio pousar. Um alemão, que era do número desses prisioneiros, tendo-o notado, perguntou a um soldado que o olhava e que estava acorrentado com ele, quem era aquele homem; tendo sabido que era Agripa, o mais notável de todos os judeus pela glória de sua origem, rogou-lhe que se aproximasse dele, a fim de que pudesse ouvir de sua boca alguma coisa sobre os costumes de seu país. O soldado assim fez; o alemão, então, disse a Agripa, por meio de um intérprete: “Bem vejo que uma mudança tão grande e tão repentina de vossa sorte vos aflige, e que dificilmente acreditaríeis que a divina providência vos dará a liberdade, muito em breve. Mas eu tomo os deuses como testemunhas, os deuses que eu adoro e os que são reverenciados neste país, que me puseram nestas cadeias, de que, o que eu vos tenho a dizer, não é para vos dar uma vã consolação, sabendo, como eu sei, que quando as predições favoráveis não são seguidas de seus efeitos só servem para aumentar a nossa tristeza. Quero pois dizer-vos, embora com perigo, o que essa ave que acaba de voar sobre vossa cabeça vos pressagia. Estareis bem depressa em liberdade e elevado a tão grande poder, que sereis invejado por aqueles que agora têm compaixão de vossa infelicidade. Sereis feliz durante todo o resto de vossa vida e deixareis filhos que sucederão à vossa felicidade. Mas quando virdes aparecer de novo essa mesma ave, sabei que somente vos restarão cinco dias de vida. Eis o que os deuses vos pressagiam e como

122 eu tenho conhecimento disso, julguei dever dar-vos essa alegria, para amenizar vossos males presentes, com esperança de tantos bens futuros. Quando vos encontrardes em tão grande prosperidade não nos esqueçais, eu vos rogo, e trabalhai para nos tirar da miséria em que nos encontramos”. A predição desse alemão pareceu tão ridícula a Agripa, que provocou nele, naquele instante, uma gargalhada, tão forte que depois causou-lhe a ele mesmo, espanto e admiração. (JOSEFO, 2003, p. 425-426) (grifo nosso).

Será que essa profecia foi cumprida? Para sabermos o que aconteceu, continuemos o relato de Josefo um pouco mais à frente, cujo tempo decorrido é cerca de seis meses depois:
Trouxeram nesse mesmo tempo duas cartas de Caio; uma endereçada ao senado, com a qual lhe dava o anúncio da morte de Tibério e de que ele o havia escolhido para substituí-lo no império; a outra, a Pisão, governador da cidade, que dizia a mesma coisa, ordenando-lhe tirar Agripa da prisão e permitir-lhe voltar à sua casa. Assim ele se viu livre de todo temor: e embora estivesse ainda guardado, vivia no resto, como queria. Pouco depois, Caio veio a Roma para onde fez trazer o corpo de Tibério, mandando fazer-lhe, segundo o costume dos romanos, soberbos funerais. Ele quis pôr Agripa em liberdade, no mesmo dia, mas Antônia aconselhou-o a diferir, não, porque não sentisse afeto por ele, mas porque julgava que aquela precipitação iria contra o decoro, porque não se podia apressar tanto a liberdade daquele a quem Tibério conservava preso, sem manifestar ódio por sua memória. No entanto, alguns dias depois, Caio mandou chamá-lo e não se contentou em dizer-lhe que mandasse cortar os cabelos, mas lhe pôs a coroa na cabeça; depois fê-lo rei da tetrarquia que Felipe havia possuído e acrescentou-lhe ainda a de Lisânias. Quis também como sinal de seu afeto dar-lhe uma cadeia de ouro do mesmo peso da de ferro que ele havia usado e mandou em seguida Marullhe, como governador da Judeia. (JOSEFO, 2003, p. 427) (grifo nosso).

Então se a primeira parte da profecia, dita pelo alemão, foi cumprida, fica provado que os deuses, que lhe passaram a informação, estavam certos. Mas, e quanto à segunda parte da profecia, a que dizia a respeito de sua morte? Será que Agripa ouviu a coruja piar novamente? Voltemos à Josefo e leiamos:
No terceiro ano do seu reinado ele celebrou na cidade de Cesareia, que antigamente era chamada a Torre de Estratão, jogos solenes em honra do imperador. Todos os grandes e toda a nobreza da província, reuniram-se nessa festa; no segundo dia dos espetáculos Agripa veio bem cedo, pela manhã, ao teatro, com uma veste cujo forro era de prata trabalhada com tanta arte, que quando o sol o iluminava com seus raios, desprendiam-se reflexos tão vivos de luz, que não se podia olhar para ele sem se sentir tomado de um respeito, misto de temor. Mesquinhos bajuladores, então, com palavras melífluas que destilam veneno mortal no coração dos príncipes, começaram a dizer que até então haviam considerado seu rei, como um simples homem, mas que agora viam que o deviam reverenciar como um deus, rogando-lhe que se lhes mostrasse favorável, pois parecia que ele não era como os demais, de condição mortal. Agripa tolerou essa impiedade, que deveria ter castigado mui rigorosamente. Mas, logo levantando os olhos, viu uma coruja, por sobre sua cabeça, pousada numa corda estendida no ar e lembrou-se de que aquela ave era um presságio de sua infelicidade como outrora tinha sido de sua prosperidade. Soltou, então, um profundo suspiro e sentiu, ao mesmo tempo, as entranhas roídas por uma dor horrível. Voltou-se para seus amigos e disse-lhes: “Aquele que quereis fazer acreditar que é imortal, está prestes a morrer e essa necessidade inevitável não podia ser uma mais pronta convicção de vossa mentira. Mas é preciso querer tudo o que Deus quer. Eu era muito feliz e não havia príncipe de quem eu devesse invejar a felicidade”. Dizendo estas palavras, sentiu que as dores cresciam cada vez mais; levaram-no ao palácio e a notícia espalhou-se imediatamente, de que ele estava prestes a exalar o último suspiro. Logo todo o povo, com a cabeça coberta de um saco, segundo costume de nossos pais, fez oração a Deus pela saúde e todo o ar ressoou com gritos e lamentações. O príncipe que estava no quarto mais alto do palácio, vendo-os de lá, prostrados por terra, não pôde reter as lágrimas; as dores, porém, continuaram por cinco dias a fio e o levaram, aos cinquenta e quatro

123 anos de sua vida, sétimo do seu reinado, pois reinara quatro sob o imperador Caio, nos três primeiros dos quais ele só tinha a tetrarquia, que fora de Filipe, e no quarto, acrescentaram-lhe a de Herodes; nos três anos em que reinou sob Cláudio, esse imperador deu-lhe também a Judeia, a Samaria e Cesareia. Mas, embora suas rendas [*] fossem muito grandes, ele era liberal e tão magnânimo que era obrigado ainda a pedir emprestado. ______
[*] O grego diz: Mil e duzentas vezes dez mil, sem nada mais especificar.

(JOSEFO, 2003, p. 453). (grifo nosso).

Interessantíssimo é que as duas previsões, constantes da profecia, que foram ditas pelo alemão a Agripa, se cumpriram. Ora, ele mesmo afirmou a ter recebido dos deuses, o que então prova que não era somente o Deus dos hebreus que tinha profetas aqui na terra. Será que havia um acordo entre os deuses de ambos – o do alemão e o dos hebreus? Provavelmente; haja vista o cumprimento integral da profecia. Vejamos, agora, os pontos que foram aumentados: Lucas: Herodes estava enfurecido com os habitantes de Tiro e Sidônia. Estes fizeram um acordo entre si e se apresentaram diante de Herodes, depois de conquistarem as graças de Blasto, o camareiro real. Eles pediam a paz, já que seu país recebia mantimentos do território do rei. Josefo: Nada fala desse assunto. Coloca o evento quando do acontecimento de jogos solenes oferecidos por Agripa em honra ao imperador, ocasião em que se reuniram vários príncipes e toda a nobreza para essa majestosa festa. Lucas: No dia marcado, Herodes vestiu-se com os trajes reais, tomou seu lugar na tribuna, e lhes dirigiu a palavra oficial Josefo: Fala que Agripa chegou ao local dos jogos de manhã usando “uma veste cujo forro era de prata trabalhada com tanta arte, que quando o sol o iluminava com seus raios, desprendiam-se reflexos tão vivos de luz, que não se podia olhar para ele sem se sentir tomado de um respeito, misto de temor.” Não diz absolutamente nada de que Agripa tenha feito, da tribuna, algum tipo de discurso oficial. Lucas: O povo começou a clamar: "É a voz de um deus, e não de um homem!" Josefo: O motivo para que alguns o elevaram à categoria de um deus, foi justamente a roupa brilhante citada anteriormente. Condição não contestada por Agripa, que ainda, segundo Josefo, deveria tê-los castigados. E quem disse alguma coisa foram os mesquinhos bajuladores, o que pode não significar necessariamente que teria sido o povo, que dá uma ideia de que todos, ou pelo menos, a maioria dos que ali estavam. Lucas: Mas, imediatamente, o anjo do Senhor feriu Herodes, porque ele não tinha dado glória a Deus. E Herodes expirou, carcomido por vermes. Josefo: Após o episódio acima, Agripa vê uma coruja o que o faz lembrar-se da profecia que ouvira do alemão; daí sim é que ele fala ao povo contestando a sua condição de deus, assumindo sua condição de mortal e dizendo-lhes que brevemente estaria morto. O fato imediato é que ele começou a passar mal, sentindo muitas dores. Nesse estado, Agripa permaneceu por cinco dias, quando finalmente dá o seu último suspiro. Embora Josefo não fale nada sobre o enterro de Agripa, é de se presumir que aconteceu, pois, se tivesse ocorrido algo em contrário, seria ponto de destaque que não passaria despercebido por um historiador. Assim, Agripa não foi imediatamente carcomido por vermes, fato que, para salvar o texto bíblico, devemos considerar como épico. E mais: o motivo da morte de Agripa nada tem a ver com ele não ter dado glória a Deus. Por aqui provamos que, no presente caso, quem contou o conto, aumentou não foi um só ponto, mas vários. Os relatos históricos não podem ser preteridos às narrativas bíblicas, cujos autores não se preocuparam nem com a verdade histórica, nem mesmo com a ordem cronológica dos acontecimentos, a eles só interessavam os seus heróis enaltecidos. Sempre estamos ouvindo dogmáticos querendo salvar a veracidade dos textos bíblicos, relegando os fatos históricos, arqueológicos e mesmo científicos, na doce ilusão de que “tá na Bíblia é verdade”. Coitados, pois ainda acham que conseguirão tapar o Sol com uma peneira!

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O antigo testamento foi revogado por Jesus?
Neste texto estudaremos algumas passagens do Evangelho buscando compreender as palavras de Jesus, visando deixar o mais claro possível o que Ele pensava, de modo que também você, leitor, tenha elementos suficientes para tirar sua própria conclusão. Mt 5,17-18: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: 'Até que o céu e a terra passem, nem um 'i' ou um 'til' jamais passará da lei, até que tudo se cumpra'”. Essa é a passagem em que se apoiam para concluir que Jesus estaria confirmando toda a Bíblia. Mas, com essa fala, Ele estava apenas querendo dizer que devia se cumprir tudo que Dele está escrito na Lei e nos profetas, dizendo que nem um “i” ou nem um “til” do que ali consta deixaria de ser cumprido; isso ficará bem claro, no desenrolar desse estudo. Lc 10,25-28: “E eis que certo homem, intérprete da lei, se levantou com intuito de por Jesus em provas, e disse-lhe: 'Mestre, que farei para herdar a vida eterna?' Então Jesus lhe perguntou: 'Que está escrito na lei? Como interpretas?' A isto ele respondeu: 'Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo como a ti mesmo'. Então Jesus lhe disse: 'Respondeste corretamente; faze isto, e viverás'”. Se Jesus, quando disse a respeito da Lei (Mt 5,17-18), estivesse mesmo se referindo a todo o Pentateuco mosaico, estaria em contradição com esta passagem, pois considerou como correta a resposta do intérprete, que somente disse que está escrito o: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Ora, na legislação de Moisés existem muitas outras coisas para se cumprirem além dessas, que, segundo os exegetas, são, ao todo, 613 normas. Lc 16,16-17: “A lei e os profetas vigoraram até João; desde esse tempo vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele. E é mais fácil passar o céu e a terra, do que cair um til sequer da lei”. Se a Lei e os profetas vigoraram até João é porque depois de João está vigorando algo diferente, uma nova legislação. Ela não é nada mais nada menos que o Evangelho, ou seja, o Novo Testamento. A questão de “cair um til sequer da lei ” se refere a tudo que há nela com relação às profecias sobre a vinda de Jesus. Assim, os acontecimentos que iriam ocorrer com Ele é que seriam cumpridos e não, como querem alguns, que todas as ordenações contidas lá, devam ser rigorosamente seguidas. Até mesmo porque, como iremos ver mais adiante, especificamente algumas delas Ele as alterou profundamente, como é o caso, por exemplo, da questão do “olho por olho”. Lc 24,25-27: “Ele então lhes disse: 'Ó homens sem inteligência, como é lento o vosso coração para crer no que os profetas anunciaram! Não era preciso que Cristo sofresse essas coisas para entrar na glória?' E partindo de Moisés começou a percorrer todos os profetas, explicando em todas as Escrituras, o que dizia respeito a ele mesmo”. Após ressuscitar, Jesus caminha com dois discípulos que estavam indo para a aldeia de Emaús, e lhes explica o que constava nas Escrituras a respeito dele. Iniciando por Moisés, percorre todos os profetas, ou seja, esclarece-lhes somente o que era importante e que deveria ser cumprido nesse contexto. Portanto, confirma o que estamos dizendo desde o início, quer dizer, que Ele não veio revogar ou abolir as profecias a Seu respeito. Se tudo nas Escrituras fosse mesmo importante, não iria restringir-se a só explicar o que nelas diziam

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sobre Ele. E para provar que não estamos distorcendo os fatos, vejamos a passagem seguinte: Lc 24,44-45: “A seguir Jesus lhes disse: 'São estas palavras que eu vos falei, estando ainda convosco, que importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos'. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras”. Veja você, caro leitor, que é perfeitamente claro o que Jesus quis dizer quanto ao cumprimento das Escrituras. Não era, portanto, tudo quanto existia nelas, mas somente importava que se cumprisse tudo o que dele estava escrito nela, ou seja, sua origem da casa de Davi, sua missão, todo o seu padecimento que culminou com sua morte na cruz e sua gloriosa ressurreição. Assim, não há como entender de outra forma, a não ser que as palavras de Jesus não sirvam para nada ou que as queiramos distorcer. Jo 1,17: “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”. Aqui temos uma nítida demonstração de que a Lei de Moisés não é de suma importância para os cristãos, já que a VERDADE veio por Jesus Cristo, e é a Ele que nós procuramos seguir, e não a Moisés. Não poderemos dizer que a Lei de Moisés não teve o seu valor; é claro que teve; entretanto, como diz Jesus, somente até João (Lc 16,16). Isso porque, para um povo atrasado, ela foi um fator de desenvolvimento. Jo 1,45: “Filipe encontrou Natanael e lhe falou: 'Achamos aquele de quem escreveram Moisés na Lei e os Profetas, Jesus, filho de José de Nazaré'”. Passagem que vem confirmar que as profecias a respeito do Messias estavam se cumprindo no momento em que Jesus inicia a sua vida pública. E era justamente nisso que os hebreus esperavam, ansiosamente, que se cumprissem as Escrituras. Jo 7,23: “Se um homem recebe a circuncisão no sábado, para cumprir a Lei de Moisés, por que vos irritais contra mim porque curei totalmente um homem no sábado?”. Jo 8,5-7: “Na Lei, Moisés nos manda apedrejar as adúlteras; mas tu o que dizes? [...] Jesus [...] lhes disse: ‘Aquele de vós que estiver sem pecado, atire-lhe a primeira pedra'”. Se, realmente, as leis que Moisés passou ao povo hebreu fossem todas provenientes do Criador, por que nestas duas passagens não se diz: cumprir a Lei de Deus e Na lei, Deus nos manda, respectivamente? Porque eram leis de Moisés e não provenientes da divindade. Tanto é que, na questão da adúltera, Jesus não disse ao povo para cumprir a Lei; antes, ao contrário, revoga-a, inclusive, demonstrando uma inteligência que Lhe era peculiar. Deus também nunca diria: “Não cobiçar a mulher do próximo”, mandamento que realça ser, obviamente, um produto da cultura de uma sociedade machista daquela época; nada mais que isso, sendo, portanto, da forma que está expressa, lei dos homens e não de Deus. Paulo, em carta aos romanos, disse-lhes o seguinte: Rm 7,5: “Enquanto viviam segundo a carne, as paixões pecaminosas, estimuladas pela Lei, produziam fruto para a morte em nossos membros”. Podemos deduzir desta passagem, que a Lei estimulava paixões pecaminosas? Se for isto mesmo, é porque ela, a Lei, não era a VERDADE, que veio somente com Jesus. E no versículo seguinte continua: Rm 7,6: “Mas agora, livres da Lei, estamos mortos para aquilo que nos conservava prisioneiros, de sorte, que podemos servir a Deus conforme um espírito novo e não segundo a letra antiga”. Livres da Lei, ou seja, que não estamos mais submissos a ela. Não é claro isso? Se

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podemos servir a Deus conforme um espírito novo, qual seja, os ensinamentos de Jesus, por que ficar ainda apegados a Moisés (letra antiga)? O Antigo Testamento foi revogado, ou ainda queremos permanecer na dúvida? Mt 5,19-20: “Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”. Nosso quadro é: Jesus na passagem evangélica do Sermão do Monte, onde inicia dizendo os novos ensinamentos que deveremos cumprir. São as verdades que Ele passa a todos nós como roteiro de vida. São apenas os mandamentos que disse para que não os violássemos. A partir dali, também, é que altera e revoga a legislação de Moisés; confirmamos isso com as passagens relativas ao capítulo 5 de Mateus, que serão colocadas logo a seguir. Mt 5,21-22: “Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento'. Eu, porém, vos digo que todo aquele que (sem motivo) se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo”. Moisés: Não matarás. Jesus: que não devemos nem mesmo irar contra ou insultar ao nosso irmão. Mt 5,27-28: “Ouvistes que foi dito: 'Não adulterarás'. Eu, porém, vos digo: Qualquer um que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela. Moisés: Não adulterarás. Jesus: só o fato de olhar para uma mulher com intenção impura, já cometemos adultério. Mt 5,31-32: “Também foi dito: 'Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio'. Eu, porém, vos digo: Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério. Moisés: poder-se-ia repudiar a mulher. Jesus: se a repudiares estás expondo a mulher ao adultério. Mt 5,33-37: “Também ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos'. Eu, porém, vos digo: De modo algum jureis: Nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno”. Moisés: Não jurarás falso. Jesus: De modo algum jureis. Mt 5,38-42: “Ouvistes que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente'. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes”. Moisés: Olho por olho, dente por dente. Jesus: Quem te ferir na face direita, volta-lhe também a outra. Mt 5,43-48: “Ouvistes que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo'. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e

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bons, e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”. Moisés: Odiarás o teu inimigo. Jesus: Amai os vossos inimigos. Encontramos apoio ao nosso pensamento no exegeta Bart D. Ehrman (1955- ), que em sua obra O que Jesus disse? O que Jesus não disse?; quem mudou a Bíblia e por quê, assim se expressou:
Contudo, logo depois, os cristãos passaram a aceitar outros escritos ao lado das Escrituras judaicas. Essa aceitação pode ter tido origem no ensino autorizado do próprio Jesus, à medida que seus seguidores tomaram a sua interpretação das escrituras como dotada da mesma autoridade conferida às palavras das próprias escrituras. Jesus pode ter estimulado essa compreensão pelo modo como parafraseava alguns de seus ensinamentos. No Sermão da Montanha, por exemplo, vê-se Jesus expondo leis dadas por Deus a Moisés e depois dando sua própria e mais radical interpretação delas, indicando que a sua interpretação é a autorizada. (EHRMAN, 2006, p. 4041) (grifo nosso).

Reputamos a opinião de Ehrman como de grande importância, pois ele é considerado o maior especialista em Novo Testamento da atualidade. E, objetivamente, quanto à questão da revogação do Antigo Testamento, vejamos o que encontramos de apoio a essa tese no Novo Testamento: 1Cor 15,2: “É pelo evangelho que vocês serão salvos, contanto que o guardem de modo como eu lhes anunciei; do contrário, vocês terão acreditado em vão”. Ef 1,13: “Em Cristo, também vocês ouviram a palavra da verdade, o Evangelho que os salva”. Paulo deixa claro que é pelo Evangelho que seremos salvos; em outras palavras, ele não aceita o Antigo Testamento como algo com que possamos nos salvar. Hb 7,18-19: “Portanto, por um lado, se revoga a anterior ordenança, por causa de sua fraqueza e inutilidade (pois a lei nunca aperfeiçoou cousa alguma) e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus. E, visto que não é sem prestar juramento (porque aqueles, sem juramento, são feitos sacerdotes, mas este, com juramento, por aquele que lhe disse: O Senhor jurou e não se arrependerá; Tu és sacerdote para sempre); por isso mesmo Jesus se tem tornado fiador de superior aliança”. Hb 8,6-8.13: “Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas. Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de maneira alguma estaria sendo buscado lugar para segunda. E, de fato, repreendendo-os, diz: Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Quando ele diz Nova, torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado e envelhecido, está prestes a desaparecer”. Hb 10,9: “... Desse modo, Cristo suprime o primeiro culto para estabelecer o segundo”. Se até aqui ainda poderia existir alguma pequena sombra de dúvida, agora foi definitivamente dissipada por estas narrativas da carta aos Hebreus. Poderíamos até dizer: “quem tem ouvidos que ouça”, mas diremos quem tem olhos veja: a aliança anterior é fraca, inútil e com defeito, enquanto que a nova é superior a ela. Quanto ao “está prestes a desaparecer”, só não desapareceu ainda por causa da insistência de alguns que

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querem, a todo custo, manter viva a legislação de Moisés contida no Antigo Testamento. Repetindo: Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de maneira alguma estaria sendo buscado lugar para segunda. Corroboramos nossa ideia com Ehrman:
Já mencionei que esta é a visão apresentada na epístola dos Hebreus, do Novo Testamento, livro que tenta mostrar que a religião baseada em Jesus é superior à religião do judaísmo, em todos os sentidos. Para o autor de Hebreus, Jesus é superior a Moisés, que deu a Lei aos judeus (Hb 3); ele é superior a Josué, que conquistou a terra prometida (Hb 3); ele é superior aos sacerdotes que oferecem sacrifícios no templo (Hb 4-5); e, o mais marcante, ele é superior aos próprios sacrifícios (Hb 9-10). […]. (ERMAN, 2008, p. 78) (grifo nosso).

Clara, então, fica a questão de Jesus ser superior a Moisés. Mc 2,18-22: “Como os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando, foram lhe perguntar: 'Por que é que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, e os teus não?' Jesus lhes respondeu: 'Por acaso ficaria bem que os convidados para um casamento fizessem jejum, enquanto o esposo está com eles? Enquanto está, não convém. Mas virá um tempo em que o esposo lhes será tirado. Então sim, eles vão jejuar. Ninguém costura um remendo de pano novo em roupa velha. Do contrário o remendo novo, pelo fato de encolher, estraga a roupa velha e o rasgão fica pior. Ninguém põe vinho novo em velhos recipientes de couro. Caso contrário, o vinho arrebentaria os recipientes. Ficariam perdidos os recipientes e também o vinho. Para vinho novo, recipientes novos!'”. Seria o mesmo que Jesus dizer: Se vocês ficarem apegados aos ensinamentos de Moisés, não conseguirão suportar nem compreender o que agora vos trago. Onde se falava sobre os jejuns? Não é no Velho Testamento, que, tanto os fariseus e quanto os discípulos de João Batista, tiravam o que seguiam? Lembremo-nos de que “a Lei e os Profetas vigoraram até João” (Lc 16,16). Assim, não fica claro sua revogação por Jesus? Só não o é para os que ainda insistem em seguir Moisés. Mais claro fica quando tomamos da nota de rodapé constante do Novo Testamento, Edições Loyola, o seguinte: “Tanto o pano novo como o vinho novo são símbolos duma nova era (cf. At 10,11; Hbr 1,11; Gên 49,11-12); os cristãos devem estar animados dum espírito novo, incompatível com antigas prescrições do judaísmo já ultrapassadas” (p. 57). Há um episódio na vida de Jesus que nos levou a formar uma forte convicção que seus ensinamentos eram superiores aos de Moisés. É a passagem em que João narra, o que se supõe como sendo, o primeiro milagre de Jesus. Apesar de termos refletido muito sobre ela, ainda não tínhamos nenhuma explicação que justificasse a atitude de Jesus em transformar água em vinho, para embebedar os convidados da festa de que participava. Vejamos o episódio: Jo 2,1-11: “No terceiro dia, houve uma festa de casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava aí. Jesus também tinha sido convidado para essa festa de casamento, junto com seus discípulos. Faltou vinho e a mãe de Jesus lhe disse: 'Eles não têm mais vinho!' Jesus respondeu: 'Mulher, que existe entre nós? Minha hora ainda não chegou'. A mãe de Jesus disse aos que estavam servindo: 'Façam o que ele mandar'. Havia aí seis potes de pedra de uns cem litros cada um, que serviam para os ritos de purificação dos judeus. Jesus disse aos que serviam: 'Encham de água esses potes'. Eles encheram os potes até a boca. Depois Jesus disse: 'Agora tirem e levem ao mestre-sala'. Então levaram ao mestre-sala. Este provou a água transformada em vinho, sem saber de onde vinha. Os que serviam estavam sabendo, pois foram eles que tiraram a água. Então o mestre-sala chamou o noivo e disse: 'Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora'. Foi assim, em Caná da Galileia, que Jesus começou

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seus sinais. Ele manifestou a sua glória, e seus discípulos acreditaram nele”. Mas qual é o verdadeiro sentido dessa passagem? Nós o encontraremos naquilo que a pessoa encarregada da festa disse para o noivo: “Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora”. Considerando que, com esse primeiro ato público, Jesus inicia a sua missão, podemos dizer que o “vinho bom guardado até agora” são os ensinamentos de Jesus, superiores aos recebidos anteriormente, por meio de Moisés que seria simbolicamente o vinho de pior qualidade, até mesmo porque, e sem querer desmerecê-los, a humanidade daquela época não estava preparada para receber vinho (ensinamento) de melhor qualidade, se assim podemos nos expressar. Tudo o que já dissemos anteriormente sobre os ensinos de Jesus, vale para corroborar essa nossa opinião. Mas podemos ainda trazer como apoio a isso: “Em comparação com esta imensa glória, o esplendor do ministério da antiga aliança já não é mais nada” (2Cor 3,10), e “Dessa maneira é que se dá a ab-rogação do regulamento anterior em virtude de sua fraqueza e inutilidade – a Lei, na verdade, nada levou à perfeição – e foi introduzida uma esperança melhor pela qual nos aproximamos de Deus” (Hb 7,18-19). Concluímos que Jesus não se restringiu a só revogar os rituais e sacrifícios como alguns pensam, para nós, foi muito mais além disso. Comprovamos também que não distorcemos as narrativas da Bíblia à nossa conveniência, de que tanto nos acusam. São elas, exatamente, que nos dão uma base sólida para afirmar com absoluta certeza que: 1 – O cumprimento da lei e dos profetas a que Jesus se refere no Evangelho é apenas com relação às profecias contidas nas Escrituras sobre Ele mesmo; 2 – Que somente tem que ser cumprido da Lei: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. 3 – Que nunca disse para seguirmos toda a Lei, aqui entendida como todo o Pentateuco. É muito comum recorrerem aos apologistas do cristianismo primitivo para justificar esse ou aquele ponto, entretanto, quando é algo contrário à crença vigente passam por cima, como se não tivessem visto. Vejamos, por exemplo, o que encontramos em Justino de Roma. A opinião de Justino de Roma (c. 100-165 d.C.), tido como o melhor apologista do século II, é bem clara no debate que manteve com um sábio judeu, Trifão, que alguns estudiosos identificam como sendo o célebre rabino Tarfão, morto em 155, uma vez que Trifão seria a forma grega do hebraico Tarfão. (JUSTINO, 1995, p. 107). Desse debate, intitulado Diálogo com Trifão, que durou dois dias, transcrevemos:
[…] Contudo, nós não a [confiança] depositamos por meio de Moisés ou da Lei, pois nesse caso estaríamos fazendo o mesmo que vós. Com efeito, ó Trifão, eu li que deveria vir uma lei perfeita e uma aliança soberana em relação às outras, que agora devem ser guardadas por todos os homens que desejam a herança de Deus. A Lei dada sobre o monte Horeb já está velha e pertence apenas a vós. A outra, porém, pertence a todos. Uma lei colocada contra outra lei anula a primeira; uma aliança feita posteriormente também deixa sem efeito a primeira. Cristo nos foi dado como lei eterna e definitiva e como aliança fiel , depois da qual não há mais nem lei, nem ordem, nem mandamento. […] (JUSTINO, 1995, p. 127) (grifo nosso).

Mais claro que isso é querer muito; não é mesmo? Agora, podemos responder ao questionamento inicial: O Antigo Testamento foi revogado por Jesus? Sim; sem nenhuma sombra de dúvida. E é por isso que não nos sentimos na obrigação de cumprir nada do que consta nele, até mesmo para sermos coerentes com o que pensamos e por acreditar nessa fala de Jesus: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Por que Ele se colocou como sendo o caminho que conduz ao Pai e não a Moisés? É porque somente os seus ensinos é que devem ser seguidos. Esse é o entendimento a que chegamos. Entretanto, não há como obrigar ninguém a

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pensar como nós. A única coisa que pedimos é para que as pessoas deixem de se apegar em demasia aos velhos ensinamentos, como se eles fossem verdadeiros. A Terra já não é mais o centro do Universo, visto que o homem, percebendo a ignorância de tal afirmativa, finalmente, aceitou a voz da Ciência. Além de que, muitas coisas não foram mudadas pelas cúpulas religiosas, justamente para que elas conservassem, a todo custo, o domínio que têm sobre o povo e, também, para que pudessem mantê-lo a todo custo. Ainda hoje encontramos as que buscam incutir a validade dos ensinamentos do Antigo Testamento não se dando conta de que “rompestes com Cristo, vós que buscais a justiça na Lei; caístes fora da graça” (Gl 5,4). Sabemos que não fazem isso por ignorância, mas por esperteza visando dominar seus “fiéis”, a fim de conseguir e manter o “poder” e o “dinheiro” na base do que podemos chamar de terrorismo religioso.

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Jesus ficava calado?
Vez por outra, ouvimos a afirmativa de que não devemos responder a isso ou quilo, pois Jesus não respondeu a ninguém, sempre permanecia calado. Interessante como certas coisas facilmente são transformadas em mito. O mito, como sabemos, é algo que prolifera e mesmo que seja o maior erro, torna-se uma verdade para muitos. Isso acontece, pois, normalmente, não somos dados a questionamentos, preferindo seguir pela “trilha do bezerro” que abrir novo caminho pela mata. Recebemos recentemente um e-mail em que uma leitora nos propunha uma reflexão sobre nossa atitude de sempre defender a Doutrina Espírita dos ataques gratuitos feitos pelos detratores de plantão, nos sugerindo que, talvez, fosse melhor que ficássemos calados seguindo o exemplo do Mestre. Sinceramente, até então não tínhamos pensado mais seriamente sobre isso mas dessa vez, não sabemos o porquê, resolvemos ir à fonte para conhecer como exatamente as coisas se deram. Assim, caro leitor, apresentamos agora o fruto de nosso estudo sobre esse assunto. Iremos analisar várias passagens bíblicas a fim de podermos saber como era realmente o comportamento de Jesus: ficava mesmo calado? Não! Quem tiver curiosidade de ler mais detidamente o Evangelho verá que a liderança religiosa da época – escribas, fariseus, saduceus, sacerdotes e anciãos do povo - não deram tréguas a Jesus. Entretanto, as narrativas nos dão conta de que o Mestre jamais ficou calado, sempre os respondeu à altura e nem mesmo os poupou de, por várias vezes, chamá-los de hipócritas e em uma oportunidade os comparou a sepulcros caiados, brancos por fora e podres por dentro. Isso a nosso ver não é ficar calado. Ao reler essas passagens foi que nos demos conta disso. Veja, se temos ou não razão: Mt 5,20: “Com efeito, eu lhes garanto: se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu". Percebe-se por aqui que Jesus, em relação aos escribas e fariseus, já os tomava a conta de pessoas às quais não devíamos seguir o exemplo, cuja justiça não deveria ser imitada. Mt 12,1-8: “Naquele tempo, Jesus passou por uns campos de trigo, num dia de sábado. Seus discípulos ficaram com fome, e começaram a apanhar espigas para comer. Vendo isso, os fariseus disseram: 'Eis que os teus discípulos estão fazendo o que não é permitido fazer em dia de sábado!' Jesus perguntou aos fariseus: 'Vocês nunca leram o que Davi e seus companheiros fizeram, quando estavam sentindo fome? Como ele entrou na casa de Deus, e eles comeram os pães oferecidos a Deus? Ora, nem para Davi, nem para os que estavam com ele, era permitido comer os pães reservados apenas aos sacerdotes. Ou vocês não leram também, na Lei, que em dia de sábado, no Templo, os sacerdotes violam o sábado, sem cometer falta?. Pois eu digo a vocês: aqui está quem é maior do que o Templo. Se vocês tivessem compreendido o que significa: 'Quero a misericórdia e não o sacrifício', vocês não teriam condenado estes homens que não estão em falta. Portanto, o Filho do Homem é senhor do sábado'”. Essa questão de fazer algo no sábado era para eles um ponto de honra daí não perdiam oportunidade de importunar Jesus, quando ele fazia algo nesse dia. Ao ser questionado, sobre a atitude de seus discípulos em providenciar alimentação num dia de sábado, Jesus respondeulhes à altura não deixando passar batido, como se diria popularmente. Mt 12,9-14: “Jesus saiu desse lugar, e foi para a sinagoga deles. Aí havia um homem com uma das mãos paralisada. E, para poderem acusar Jesus, os fariseus perguntaram: 'É permitido fazer cura em dia de sábado?' Jesus respondeu: 'Suponham

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que um de vocês tem uma só ovelha, e ela cai num buraco em dia de sábado. Será que ele não a pegaria e não a tiraria de lá? Ora, um homem vale muito mais do que uma ovelha! Logo, é permitido fazer uma boa ação em dia de sábado'. Então Jesus disse ao homem: 'Estenda a mão'. O homem estendeu a mão, e ela ficou boa e sadia como a outra. Logo depois, os fariseus saíram e fizeram um plano para matar Jesus”. Na continuação da narrativa anterior vemos Jesus curando num dia de sábado mas, nem numa situação de estar praticando o bem, os intolerantes de sua época achavam certa essa atitude. Vemos, hoje em dia, os fundamentalistas agindo quase que da mesma forma. Os tempos mudam, mas, para muitos, é como se isso não ocorresse, já que ficam apegados ao passado. Mt 12,22-37: “Então levaram a Jesus um endemoninhado cego e mudo. Jesus o curou, de modo que ele falava e enxergava. E todas as multidões ficaram admiradas, e perguntavam: 'Será que ele não é o filho de Davi?' Os fariseus ouviram isso, e disseram: 'Ele expulsa os demônios através de Belzebu, o príncipe dos demônios!' Sabendo o que eles estavam pensando, Jesus disse: 'Todo reino dividido em grupos que lutam entre si, será arruinado. E toda cidade ou família dividida em grupos que brigam entre si, não poderá durar. E se Satanás expulsa Satanás, ele está dividido contra si mesmo. Como, então, o seu reino poderá sobreviver? Se é através de Belzebu que eu expulso os demônios, através de quem os filhos de vocês expulsam os demônios? Por isso, serão eles mesmos que julgarão vocês. Mas se é através do Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus chegou para vocês. Ainda: como alguém pode entrar na casa de um homem forte, e se apoderar de suas coisas, se antes não amarrar o homem forte? Só depois poderá roubar a sua casa. Quem não está comigo, está contra mim. E quem não recolhe comigo, espalha. É por isso que eu digo a vocês: todo pecado e blasfêmia será perdoado aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Quem disser alguma coisa contra o Filho do Homem, será perdoado. Mas quem disser algo contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, nem neste mundo, nem no mundo que há de vir. Se vocês plantarem uma árvore boa, o fruto dela será bom; mas se vocês plantarem uma árvore má, também o fruto dela será mau, porque é pelo fruto que se conhece a árvore. Raça de cobras venenosas! Se vocês são maus, como podem dizer coisas boas? Pois a boca fala aquilo de que o coração está cheio. O homem bom tira coisas boas do seu bom tesouro, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro. Eu digo a vocês: no dia do julgamento, todos devem prestar contas de cada palavra inútil que tiverem falado. Porque você será justificado por suas próprias palavras, e será condenado por suas próprias palavras'". Nem ainda saímos do capítulo doze e já encontramos mais uma outra situação em que a liderança religiosa, cega no seu saber, questiona a Jesus, quando o Mestre liberta uma criatura endemoninhada. Para seus adversários ele fazia isso porque era o príncipe dos demônios ao que Jesus lhes responde com maestria. E, destacamos, ao final ainda os chama de raça de cobras venenosas, atiçando a ira deles. Daqui percebemos que também a liderança religiosa nos dias atuais faz exatamente a mesma coisa em relação ao Espiritismo, que, apesar de libertar muitas pessoas das influências espirituais inferiores, é taxado de “obra do demônio”. Deveríamos repetir Jesus dizendo-lhes: raça de víboras? Mt 12,38-42: “Então alguns doutores da Lei e fariseus disseram a Jesus: 'Mestre, queremos ver um sinal realizado por ti'. Jesus respondeu: 'Uma geração má e adúltera busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas. De fato, assim como Jonas passou três dias e três noites no ventre da baleia, assim também o Filho do Homem passará três dias e três noites no seio da terra. No dia do julgamento, os homens da cidade de Nínive ficarão de pé contra esta geração, e a condenarão. Porque eles fizeram penitência quando ouviram Jonas pregar. E aqui está quem é maior do que Jonas. No dia do julgamento, a rainha do Sul se levantará contra esta geração, e a condenará. Porque ela veio de uma terra distante para ouvir a sabedoria de Salomão. E aqui está quem é maior do que Salomão'"

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Aos doutores da Lei e fariseus que queriam um sinal como prova de que Jesus era mesmo o Messias resposta de Jesus não se fez esperar; tanto que, nessa ocasião, os chama de geração má e adúltera. Mt 15,1-14: “Alguns fariseus e diversos doutores da Lei, de Jerusalém, se aproximaram de Jesus, e perguntaram: 'Por que os teus discípulos desobedecem à tradição dos antigos? De fato, comem pão sem lavar as mãos!' Jesus respondeu: 'Por que é que vocês também desobedecem ao mandamento de Deus em nome da tradição de vocês? Pois Deus disse: 'Honre seu pai e sua mãe'. E ainda: 'Quem amaldiçoa o pai ou a mãe, deve morrer'. E no entanto vocês ensinam que alguém pode dizer ao seu pai e à sua mãe: 'O sustento que vocês poderiam receber de mim é consagrado a Deus'. E essa pessoa fica dispensada de honrar seu pai ou sua mãe. Assim vocês esvaziaram a palavra de Deus com a tradição de vocês. Hipócritas! Isaías profetizou muito bem sobre vocês, quando disse: 'Esse povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim. Não adianta nada eles me prestarem culto, porque ensinam preceitos humanos.' Em seguida, Jesus chamou a multidão para perto dele, e disse: 'Escutem e compreendam. Não é o que entra na boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso torna o homem impuro'. Então os discípulos se aproximaram, e disseram a Jesus: 'Sabes que os fariseus ficaram escandalizados com o que disseste?' Jesus respondeu: 'Toda planta que não foi plantada pelo meu Pai celeste será arrancada. Não se preocupem com eles. São cegos guiando cegos. Ora, se um cego guia outro cego, os dois cairão num buraco'”. A liderança religiosa tinha um apego exagerado à tradição, fazia dela uma questão religiosa daí se espantarem quando os discípulos não lavaram as mãos antes de comerem. Novamente recebem de Jesus uma resposta à altura, que os chama de hipócritas e guias cegos. Mt 16,5-12: “Quando atravessaram para o outro lado do mar, os discípulos se esqueceram de levar pães. Então Jesus disse: 'Prestem atenção, e tomem cuidado com o fermento dos fariseus e dos saduceus'. Os discípulos pensavam consigo mesmos: 'É porque não trouxemos pães'. Mas Jesus percebeu, e perguntou: 'Por que vocês estão pensando na falta de pães, homens de pouca fé? Vocês ainda não compreendem, nem mesmo se lembram dos cinco pães para cinco mil homens, e de quantos cestos vocês recolheram? Nem dos sete pães para quatro mil homens, e quantos cestos vocês recolheram? Como é que não compreendem que eu não estava falando de pão com vocês? Tomem cuidado com o fermento dos fariseus e saduceus'. Então eles perceberam que Jesus não tinha falado para tomar cuidado com o fermento de pão, mas com o ensinamento dos fariseus e saduceus”. Aqui Jesus recomenda aos discípulos para não seguirem o ensinamento dos fariseus e saduceus. Ficamos a pensar se Jesus não manteria esse discurso à liderança religiosa atual! Assim, com essa atitude, Jesus deixa claro que os ensinamentos deles não são de cunho divino, mas apenas fruto de seus próprios interesses, tal e qual está acontecendo nos dias atuais. Mt 19,1-12: “Quando Jesus acabou de dizer essas palavras, ele partiu da Galileia, e foi para o território da Judeia, no outro lado do rio Jordão. Numerosas multidões o seguiram, e Jesus aí as curou. Alguns fariseus se aproximaram de Jesus, e perguntaram, para o tentar: 'É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?' Jesus respondeu: 'Vocês nunca leram que o Criador, desde o início, os fez homem e mulher? E que ele disse: 'Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne'? Portanto, eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar'. Os fariseus perguntaram: 'Então, como é que Moisés mandou dar certidão de divórcio ao despedir a mulher?' Jesus respondeu: 'Moisés permitiu o divórcio, porque vocês são duros de coração. Mas não foi assim desde o início. Eu, por isso, digo a vocês: quem se divorciar de sua mulher, a não ser em caso de fornicação, e casar-se com outra, comete adultério'. Os discípulos disseram a Jesus: 'Se a situação do homem com a mulher é assim, então é melhor não se casar'. Jesus respondeu: 'Nem todos entendem

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isso, a não ser aqueles a quem é concedido. De fato, há homens castrados, porque nasceram assim; outros, porque os homens os fizeram assim; outros, ainda, se castraram por causa do Reino do Céu. Quem puder entender, entenda'". Obviamente, que nesse episódio, os fariseus não estavam querendo se instruir, mas queriam colocar Jesus em situação difícil, ou seja, tudo que dissesse seria usado contra ele. Esse episódio é semelhante ao que nos acontece agora, quando algum fundamentalista emite perguntas capciosas, intentando colocar-nos contra a “palavra de Deus”. Mt 21,23-27: “Jesus voltou ao Templo. Enquanto ensinava, os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se aproximaram, e perguntaram: 'Com que autoridade fazes tais coisas? Quem foi que te deu essa autoridade?' Jesus respondeu: 'Eu também vou fazer uma pergunta para vocês. Se responderem, eu também direi a vocês com que autoridade faço isso. De onde era o batismo de João? Do céu ou dos homens?' Mas eles raciocinavam, pensando: 'Se respondemos que vinha do céu, ele vai dizer: 'Então, por que vocês não acreditaram em João?' Se respondemos que vinha dos homens, temos medo da multidão, pois todos consideram João como um profeta'. Eles então responderam a Jesus: 'Não sabemos'. E Jesus disse a eles: 'Pois eu também não vou dizer a vocês com que autoridade faço essas coisas'”. A todo momento Jesus era questionado quanto à sua autoridade, ao que sempre respondia altura dos seus interlocutores, de forma que os deixava acuados perante suas próprias colocações. Diríamos, popularmente: “perderam uma ótima ocasião de ficar calados”. Mt 21,33-46: "Escutem essa outra parábola: Certo proprietário plantou uma vinha, cercou-a, fez um tanque para pisar a uva, e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou a vinha para alguns agricultores, e viajou para o estrangeiro. Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos agricultores para receber os frutos. Os agricultores, porém, agarraram os empregados, bateram num, mataram outro, e apedrejaram o terceiro. O proprietário mandou de novo outros empregados, em maior número que os primeiros. Mas eles os trataram da mesma forma. Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu próprio filho, pensando: 'Eles vão respeitar o meu filho'. Os agricultores, porém, ao verem o filho, pensaram: 'Esse é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo, e tomar posse da sua herança'. Então agarraram o filho, o jogaram para fora da vinha, e o mataram. Pois bem: quando o dono da vinha voltar, o que irá fazer com esses agricultores?' Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: 'É claro que mandará matar de modo violento esses perversos, e arrendará a vinha a outros agricultores, que lhe entregarão os frutos no tempo certo'. Então Jesus disse a eles: 'Vocês nunca leram na Escritura: 'A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante; isso foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos'? Por isso eu lhes afirmo: o Reino de Deus será tirado de vocês, e será entregue a uma nação que produzirá seus frutos. Quem cair sobre essa pedra, ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair, será esmagado'. Os chefes dos sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas de Jesus, e compreenderam que estava falando deles. Procuraram prender Jesus, mas ficaram com medo das multidões, pois elas consideravam Jesus um profeta”. Constata-se, também, que Jesus não deixava por menos quando se defrontava com essa “raça de cobras venenosas”. Aqui, percebe-se, claramente, que a parábola é dirigida a eles tal fato, nitidamente percebido por todos, lhes aumentava a raiva que nutriam por Jesus. Aguardavam, assim, o momento propício para lhe darem o venenoso bote. Mt 22,15-22: “Então os fariseus se retiraram, e fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. Mandaram os seus discípulos, junto com alguns partidários de Herodes, para dizerem a Jesus: 'Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e que ensinas de fato o caminho de Deus. Tu não dás preferência a ninguém, porque não levas em conta as aparências. Dize-nos, então, o que pensas: É lícito ou não é, pagar imposto a César?' Jesus percebeu a maldade deles, e disse: 'Hipócritas! Por que vocês me tentam? Mostrem-me a moeda do imposto'. Levaram então a ele a moeda. E Jesus perguntou: 'De quem é a figura e inscrição nesta moeda?' Eles responderam: 'É de

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César'. Então Jesus disse: 'Pois deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus'. Ouvindo isso, eles ficaram admirados. Deixaram Jesus, e foram embora”. Nunca perderam uma oportunidade de colocar Jesus numa situação difícil, sendo isso cabalmente denotado nessa situação. Percebendo a segunda intenção deles, Jesus, sem meias palavras, disse-lhes: “hipócritas!” Não poucas vezes os chamou desse modo, apontando-lhes a falsidade. Mt 22,23-33: “Os saduceus afirmam que não existe ressurreição. Alguns deles se aproximaram de Jesus, e lhe propuseram este caso: 'Mestre, Moisés disse: 'Se alguém morrer sem ter filhos, o irmão desse homem deve casar-se com a viúva, a fim de que possam ter filhos em nome do irmão que morreu'. Pois bem, havia entre nós sete irmãos. O primeiro casou-se, e morreu sem ter filhos, deixando a mulher para seu irmão. Do mesmo modo aconteceu com o segundo e o terceiro, e assim com os sete. Depois de todos eles, morreu também a mulher. Na ressurreição, de qual dos sete ela será mulher? De fato, todos a tiveram'. Jesus respondeu: 'Vocês estão enganados, porque não conhecem as Escrituras, nem o poder de Deus. De fato, na ressurreição, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu. E, quanto à ressurreição, será que não leram o que Deus disse a vocês: 'Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó'. Ora, ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos'. Ouvindo isso, as multidões ficaram impressionadas com o ensinamento de Jesus”. A pergunta dos saduceus não tinha por objetivo esclarecerem-se sobre o assunto, mas, tão somente, constatar se Jesus possuía a capacidade de se explicar, já que, intimamente, acreditavam que não por conseguinte, adveio o desejo de pegá-lo com suas próprias palavras. Mt 22,34-40: “Os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito os saduceus se calarem. Então eles se reuniram em grupo, e um deles perguntou a Jesus para o tentar: 'Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?' Jesus respondeu: 'Ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, e com todo o seu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Ame ao seu próximo como a si mesmo. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos'”. Nem bem deixou os saduceus acuados, aparecem-lhe os fariseus, que, no íntimo, pensavam serem mais capazes que os primeiros. Assim, fizeram um novo questionamento a Jesus. Com certeza orgulhosos que eram, pensavam, intimamente, conduzirem Jesus àquilo que obstinadamente queriam: usar as palavras do Mestre para obterem um bom motivo de o matarem ou, na pior das hipóteses, confrontá-lo com o político. Mt 22,41-46: “Os fariseus estavam reunidos, e Jesus lhes perguntou: 'O que é que vocês acham do Messias? Ele é filho de quem?' Os fariseus responderam: 'De Davi'. Então Jesus disse: 'Como é que Davi, pelo Espírito, o chama Senhor, quando afirma: 'O Senhor disse ao meu Senhor: sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos debaixo dos seus pés'? Se o próprio Davi o chama de Senhor, como ele pode ser seu filho?' E ninguém podia responder a Jesus uma só palavra. Desse dia em diante, ninguém mais se arriscou a fazer perguntas a Jesus”. Nessa passagem, verifica-se que Jesus é quem os indaga. Agindo sabiamente, os coloca em uma situação embaraçosa. O feitiço virou contra o feiticeiro, diríamos. Enfrenta-os destemido, mesmo conhecendo suas reais intenções mas não os deixava sem respostas às suas indagações, por mais difíceis que fossem. Mt 23,1-12: “Jesus falou às multidões e aos seus discípulos: 'Os doutores da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Vejam como eles usam faixas largas na testa e nos braços, e como põem na roupa longas franjas, com trechos da Escritura. Gostam dos lugares de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas;

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gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, e de que as pessoas os chamem mestre. Quanto a vocês, nunca se deixem chamar mestre, pois um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos. Na terra, não chamem a ninguém Pai, pois um só é o Pai de vocês, aquele que está no céu. Não deixem que os outros chamem vocês líderes, pois um só é o Líder de vocês: o Messias. Pelo contrário, o maior de vocês deve ser aquele que serve a vocês. Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado'”. Ao recomendar a todos que não agissem como os doutores da lei e fariseus, implicitamente, estava chamando-os, indubitavelmente, de hipócritas. Jesus vai mais longe quando menciona que gostavam de serem vistos, dos primeiros lugares, de serem destacados na multidão, deixando a descoberto todo orgulho que acalentavam em seus corações. Podemos acrescentar que usavam a religião para esse fim, fato comum, também, nos dias de hoje, quando essa liderança religiosa, que se vê por aí, busca na religião um veículo de satisfação de seu próprio interesse, ao invés de se preocupar, efetivamente, com a salvação dos fiéis. Mt 23,13-36: "Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que desejam. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês exploram as viúvas, e roubam suas casas e, para disfarçar, fazem longas orações! Por isso, vocês vão receber uma condenação mais severa. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês percorrem o mar e a terra para converter alguém, e quando conseguem, o tornam merecedor do inferno duas vezes mais do que vocês. Ai de vocês, guias cegos! Vocês dizem: 'Se alguém jura pelo Templo, não fica obrigado, mas se alguém jura pelo ouro do Templo, fica obrigado'. Irresponsáveis e cegos! O que vale mais: o ouro ou o Templo que santifica o ouro? Vocês dizem também: 'Se alguém jura pelo altar, não fica obrigado, mas se alguém jura pela oferta que está sobre o altar, esse fica obrigado'. Cegos! O que vale mais: a oferta ou o altar que santifica a oferta? De fato, quem jura pelo altar, jura por ele e por tudo o que está sobre ele. E quem jura pelo Templo, jura por ele e por Deus que habita no Templo. E quem jura pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que nele está sentado. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês pagam o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho, e deixam de lado os ensinamentos mais importantes da Lei, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês deveriam praticar isso, sem deixar aquilo. Guias cegos! Vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês limpam o copo e o prato por fora, mas por dentro vocês estão cheios de desejos de roubo e cobiça. Fariseu cego! Limpe primeiro o copo por dentro, e assim o lado de fora também ficará limpo. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês: por fora, parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês constroem sepulcros para os profetas, e enfeitam os túmulos dos justos, e dizem: 'Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices na morte dos profetas'. Com isso, vocês confessam que são filhos daqueles que mataram os profetas. Pois bem: acabem de encher a medida dos pais de vocês! Serpentes, raça de cobras venenosas! Como é que vocês poderiam escapar da condenação do inferno? É por isso que eu envio a vocês profetas, sábios e doutores: a uns vocês matarão e crucificarão, a outros torturarão nas sinagogas de vocês, e os perseguirão de cidade em cidade. Desse modo, virá sobre vocês todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que vocês assassinaram entre o santuário e o altar. Eu garanto a vocês: tudo isso acontecerá a essa geração". Essa é, talvez, a passagem em que mais Jesus chamou a liderança religiosa de hipócrita. Aqui, desnudou aqueles falsos líderes, demonstrando que realmente preocupavamse tão somente com aquilo que pudesse satisfazer seus desejos, explorando, para isso, a fé do povo. Infelizmente, tal forma de proceder está presente nos “lideres” contemporâneos. Mc 2,1-12: “Alguns dias depois, Jesus entrou de novo na cidade de Cafarnaum. Logo se espalhou a notícia de que Jesus estava em casa. E tanta gente se reuniu aí que já não

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havia lugar nem na frente da casa. E Jesus anunciava a palavra. Levaram então um paralítico, carregado por quatro homens. Mas eles não conseguiam chegar até Jesus, por causa da multidão. Então fizeram um buraco no teto, bem em cima do lugar onde Jesus estava, e pela abertura desceram a cama em que o paralítico estava deitado. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: 'Filho, os seus pecados estão perdoados'. Ora, alguns doutores da Lei estavam aí sentados, e começaram a pensar: 'Por que este homem fala assim? Ele está blasfemando! Ninguém pode perdoar pecados, porque só Deus tem poder para isso!' Jesus logo percebeu o que eles estavam pensando no seu íntimo, e disse: 'Por que vocês pensam assim? O que é mais fácil dizer ao paralítico: 'Os seus pecados estão perdoados', ou dizer: 'Levante-se, pegue a sua cama e ande?' Pois bem, para que vocês saibam que o Filho do Homem tem poder na terra para perdoar pecados, - disse Jesus ao paralítico eu ordeno a você: Levantese, pegue a sua cama e vá para casa'. O paralítico então se levantou e, carregando a sua cama, saiu diante de todos. E todos ficaram muito admirados e louvaram a Deus dizendo: 'Nunca vimos uma coisa assim!'". Algumas vezes esses críticos não tinham coragem de externar suas ideias mas, mesmo assim, no íntimo, o faziam. Jesus, conhecendo-lhes o pensamento, rebate essa crítica “mental” para não perder mais essa oportunidade de provar-lhes a incoerência de suas atitudes. Mc 2,15-17: “Mais tarde, Jesus estava comendo na casa de Levi. Havia vários cobradores de impostos e pecadores na mesa com Jesus e seus discípulos; com efeito, eram muitos os que o seguiam. Alguns doutores da Lei, que eram fariseus, viram que Jesus estava comendo com pecadores e cobradores de impostos. Então eles perguntaram aos discípulos: 'Por que Jesus come e bebe junto com cobradores de impostos e pecadores?' Jesus ouviu e respondeu: 'As pessoas que têm saúde não precisam de médico, mas só as que estão doentes. Eu não vim para chamar justos, e sim pecadores'". Mas não havia nada que Jesus fizesse que agradasse essa liderança religiosa... Tudo quanto fazia era motivo de críticas. Será que é mera coincidência o que está acontecendo nos dias atuais em relação ao Espiritismo, ou será que os líderes religiosos de hoje são os saduceus e fariseus de antanho em nova reencarnação? Mc 2,18-22: “Os discípulos de João Batista e os fariseus estavam fazendo jejum. Então alguns perguntaram a Jesus: 'Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus fazem jejum e os teus discípulos não fazem?' Jesus respondeu: 'Vocês acham que os convidados de um casamento podem fazer jejum enquanto o noivo está com eles? Enquanto o noivo está presente, os convidados não podem fazer jejum. Mas vão chegar dias em que o noivo será tirado do meio deles. Nesse dia eles vão jejuar. Ninguém põe um remendo de pano novo em roupa velha; porque o remendo novo repuxa o pano e o rasgo fica maior ainda. Ninguém coloca vinho novo em barris velhos; porque o vinho novo arrebenta os barris velhos, e o vinho e os barris se perdem. Por isso, vinho novo deve ser colocado em barris novos'". O apego às determinações de Moisés também era um dos motivos pelos quais eles não deixavam de criticar as atitudes de Jesus, já que o Mestre não parecia muito disposto a seguir ao pé da letra tais recomendações. Analisando a sua resposta podemos entender que Jesus claramente sobrepõe seus ensinamentos aos de Moisés; todavia, apesar disso ser tão óbvio, a liderança religiosa finge não ver. Para ela é interessante manter também a legislação anterior, pois é desta a premissa de que só se salvará aquele fiel que, pontualmente, pagar o dízimo. Lc 16,14-15: “Os fariseus, que são amigos do dinheiro, ouviam tudo isso, e caçoavam de Jesus. Então Jesus disse para eles: 'Vocês gostam de parecer justos diante dos homens, mas Deus conhece os corações de vocês. De fato, o que é importante para os homens, é detestável para Deus'”. Mais uma vez, Jesus ressalta a hipocrisia dos fariseus. Assim como ocorria àquela época, a liderança religiosa atual caçoa daqueles que vêm justamente tentar restaurar os verdadeiros ensinamentos de Jesus mediante o Espiritismo.

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Lc 19,37-40: “Quando Jesus estava junto à descida do monte das Oliveiras, toda a multidão de discípulos começaram, alegres, a louvar a Deus em voz alta, por todos os milagres que tinham visto. E dizia: 'Bendito seja aquele que vem como Rei, em nome do Senhor! Paz no céu e glória no mais alto do céu'. No meio da multidão, alguns fariseus disseram a Jesus: 'Mestre, manda que teus discípulos se calem'. Jesus respondeu: 'Eu digo a vocês: se eles se calarem, as pedras gritarão'”. Nota-se que até mesmo o fato de Jesus ter sido aclamado pelos seus discípulos, incomodava os fariseus. Mas não ficaram sem resposta, já que esse é o estilo do Mestre, que perfeitamente estamos identificando ao longo desse estudo. Aqui, terminamos as passagens em que Jesus responde a todas as críticas dos seus opositores, dando, a todas elas, a devida resposta. Não os poupou ao chamá-los de hipócritas, raça de víboras, entre outras denominações. Entretanto, agora vamos apresentar uma atitude ainda mais enérgica de Jesus, a qual demonstra, perfeitamente, que ele não agia como um manso cordeirinho, conforme querem que pensemos. Vejamos: Mt 21,12-13: “Jesus entrou no Templo, e expulsou todos os que vendiam e compravam no Templo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas. E disse: 'Está nas Escrituras: 'Minha casa será chamada casa de oração'. No entanto, vocês fizeram dela uma toca de ladrões'”. Nesse ponto, mais energicamente ainda, agiu Jesus ao expulsar do Templo os cambistas e todos que estavam ali a vender, levando-nos a concluir que ele não era tão manso assim como querem pintá-lo. Acaba por insinuar que eram todos eles ladrões na toca. Bom; até agora somente apontamos passagens demonstrando que Jesus não cultivava o silêncio. Alguém poderia nos perguntar: “será que você não está distorcendo os fatos, considerando que, possivelmente, em algum momento, ele tenha mesmo silenciado?” A resposta é negativa: a verdade joga por terra toda essa ideia que tentam nos passar, ou seja, de um Mestre sem personalidade, pois, para nós, quem age tão mansamente assim é desprovido dessa característica. Vejamos então esta passagem: Mt 27,1-2.11-14: “De manhã cedo, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo convocaram um conselho contra Jesus, para o condenarem à morte. Eles o amarraram e o levaram, e o entregaram a Pilatos, o governador. Jesus foi posto diante do governador, e este o interrogou: 'Tu és o rei dos judeus?' Jesus declarou: 'É você que está dizendo isso'. E nada respondeu quando foi acusado pelos chefes dos sacerdotes e anciãos. Então Pilatos perguntou: 'Não estás ouvindo de quanta coisa eles te acusam?' Mas Jesus não respondeu uma só palavra, e o governador ficou vivamente impressionado”. Está aí a única passagem em que Jesus nada respondeu. Foi exatamente aquela em que os chefes dos sacerdotes e anciões o acusaram diante de Pilatos. Mas isso se justifica, pois consciente de seu destino, em relação à sua missão, simplesmente entregou-se a ele. Pensamos que, se tivesse resistido, teria sido solto, obviamente, assim, se sua missão era morrer na cruz, esse fato não deveria ocorrer, se ele se defendesse a sua missão não teria sido cumprida. A conclusão obtida nesse estudo é a seguinte: devemos sim, contestar todas as críticas e acusações que fazem ao Espiritismo, atitude perfeitamente compatível com a de Jesus, a quem devemos seguir incondicionalmente. Mas, para que não fiquemos adstritos apenas à nossa opinião pessoal, vejamos o que o confrade Divaldo Pereira Franco (1927- ), disse há tempos, especificamente em 17/06/2001, quando, ao comparecer no programa “Espiritismo Via Satélite”, pela Rede Visão, lhe fizemos esta pergunta: Caro Divaldo, considerando que Kardec no Projeto 1868, sugere que entre as atribuições da Comissão Central, a ser criada para coordenar o movimento espírita, estaria a refutação dos ataques ao Espiritismo resumimos que os Espíritos Superiores concordaram com essa recomendação de Kardec. Assim lhe perguntamos: será que hoje os Espíritos não concordam com isso, ou seja, que não devemos refutar os ataques

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à Doutrina Espírita ou isso é coisa dos Espíritas? A sua resposta foi:
Naturalmente devemos refutar. Mas refutar numa linguagem nobre. O difícil é encontrar as pessoas que possuam condições para enfrentar esses debates sem descerem aos níveis infelizes dos agressores. A nossa imprensa Espírita, na medida do possível, através de homens e mulheres admiráveis, tem refutado as agressões que o Espiritismo vem sofrendo. Ainda há pouco lemos aqui, na Internet, a Rede Visão refutando agressões muito dolorosas, desonestas e não autenticas veiculadas por uma revista protestante que a espalhou por todo o mundo. Espíritas de diferentes países receberam essa revista, inclusive na Bélgica e na Itália, na qual está exarado um ataque muito grosseiro à reencarnação, sem qualquer fundamento, porque toda a documentação é adulterada e direcionada e, no entanto, aqui a Rede Visão, através da Internet como pode ser lida, está enfrentando. E o vem fazendo com muita assiduidade. Nós devemos, sim, refutar todas as agressões à Doutrina nobre, mas nunca descermos ao baixo nível dos nossos agressores.

Apenas a título de informação: o que Divaldo cita que leu na Internet, são, por coincidência, textos de nossa autoria que estavam publicados no site da Rede Visão. O e-mail, do qual falamos no início, foi providencial e sinceramente já agradecemos ao autor por nos tê-lo enviado, pois ele foi motivo de estudo e reflexão de nossa parte. Se, antes, tínhamos alguma dúvida em relação à defesa da Doutrina Espírita, embora saibamos que o próprio Kardec não deixou por menos, fato que parece ser ignorado pela maioria dos Espíritas, agora não temos mais, pois enganam-se os que pensam que Jesus ficou o tempo todo calado; e é por ele que nos esforçamos, tentando seguir o seu exemplo.

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Ressurreição da Carne?
Não é de hoje que este assunto é encarado, pelos fiéis das inúmeras correntes religiosas cristãs, como uma coisa líquida e certa. Entretanto, a ciência vem afirmar que o nosso corpo físico, no processo de sua decomposição, restitui à natureza os elementos carbono, hidrogênio, azoto, oxigênio, etc. - de quem tomou emprestado. Este é mais um dos muitos motivos pelo qual não se concilia a Ciência com a religião, mas numa análise mais profunda, sem preconceito e nem dogmatismo, vimos que, biblicamente falando, a ressurreição nunca foi a da carne, como se apregoa por aí. Parece-nos que, pela análise de algumas passagens bíblicas, o que encontramos foi justamente o contrário. Vejamos: Mt 22,30: “De fato, na ressurreição, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu”. Todos nós acreditamos que, indiscutivelmente, os anjos não possuem corpo físico. Jesus afirma que na ressurreição os homens e mulheres serão como os anjos do céu, por isso não se casarão, Ele nos remete à questão da ressurreição espiritual. Jo 4,24: “Deus é Espírito”. Aqui temos um paradoxo, pois a nós, segundo a crença dogmática, caberia viver no plano espiritual na mesma condição de vida que tínhamos aqui no plano físico, enquanto Deus, nesse mesmo plano para o qual iremos, vive puramente na condição espiritual. Absurdo teológico incompatível com a lógica, pois o plano espiritual está para o corpo espiritual, como o plano terreno está para o corpo físico. Para a manutenção da vida do nosso invólucro carnal é necessário, dentre inúmeras coisas, oxigênio, água e alimentação. Será que haverá tudo isso no lugar para onde dizem que iremos após a morte? O pior é que todas essas coisas deverão existir tanto no céu quanto no inferno, já que muitos correm o risco de terem como destino o lago de fogo. Quem sabe um milagre resolva essa questão?... Jo 6,63: “... o espírito é que dá vida a carne de nada serve”. Será que os teólogos nunca leram essa passagem? Se a carne de nada serve, então qual a sua utilidade no plano espiritual? Lc 16,19-23: “Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, e dava banquete todos os dias. E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava caído à porta do rico... Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico, e foi enterrado. No inferno, em meio aos tormentos, o rico levantou os olhos, e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado”. Considerando-se que o rico foi enterrado, pode-se concluir que foi isso o que ocorreu também a Lázaro. Tendo acontecido isso, forçosamente somos obrigados a aceitar que esses dois personagens não foram para o outro lado da vida, se encontravam, conforme a narrativa, na condição de espíritos. Lc 23,43: “Jesus respondeu: ‘Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso’". Se essa afirmativa atribuída a Jesus for verdadeira, então a condição em que o “bom ladrão” transportou-se ao “paraíso” foi na condição espiritual, pois seu corpo deve, segundo o

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costume da época, ter servido de repasto aos urubus, já que os corpos dos executados, nessas condições, ficavam expostos para impressionar os transeuntes. Lc 23,46: “Pai em tuas mãos entrego o meu Espírito”. Acaso Jesus tivesse dito, pelo menos, “Pai, em tuas mãos entrego-me”, poderia haver alguma dúvida quanto ao fato. Entretanto, Ele entrega o seu espírito, já que sabia que a carne de nada serve, conforme já houvera afirmado. 1Cor 15,44-50: “... é semeado corpo animal, mas ressuscita corpo espiritual. Se existe um corpo animal, também existe um corpo espiritual,... a carne e o sangue não poderão herdar o reino de Deus”. Paulo, sempre usado para sustentar algumas interpretações de conveniência, é quem também podemos usar para contestar, por mais uma vez, a crença na ressurreição da carne. Observe que o apóstolo dos gentios diz taxativamente que ressuscita o corpo espiritual e arremata, como que para não deixar dúvidas, dizendo que o corpo físico não pode herdar o reino de Deus. Esses textos, aqui relacionados, são suficientes para reconhecermos que iremos ressuscitar no corpo espiritual e não no corpo físico, como ainda é aceito e defendido por muitos. Mas alguém poderia objetar dizendo que Jesus teria ressuscitado em corpo físico, fato que confirmaria a ressurreição da carne. Pelos relatos bíblicos Jesus foi crucificado às nove horas da manhã tempo insuficiente para que, às primeiras horas do dia, ocorresse primeiro a reunião do Sinédrio, depois, em relação a Jesus, sua prisão, as torturas que sofreu, sua condução a Pilatos, a Herodes, e a Pilatos novamente, para que caminhasse até o Gólgota carregando a cruz, deixando-nos em dúvida quanto aos fatos descritos como ocorridos. Uma coisa que poucas pessoas sabem é que a morte por crucificação não era imediata levava-se, segundo alguns estudiosos, de dois a três dias outros estendem esse tempo a até cinco dias.
[…] Jesus sabia muito bem como os romanos tratavam os líderes rebeldes. Herodes podia usar a espada, mas o método romano, aperfeiçoado ao longo de duzentos anos de história, era a crucificação. Chegava-se a demorar três dias para morrer, a agonia era insuportável, e as vítimas nuas serviam como exemplos infames e aterradores para o populacho. […] (TABOR, 2006, p. 193194). A morte por crucificação era um processo lento. Podia demorar dois ou três dias. (TABOR, 2006, p. 234) (grifo nosso).

Como não quebraram seus ossos, o que faziam para apressar a morte do condenado, e considerando o tempo entre a crucificação e a morte foi de apenas seis horas, resta-nos a dúvida, por não termos elementos seguros para acreditar no relatado. É tão evidente que o tempo foi curto que até Pilatos, quando foram reclamar-lhe o corpo, se surpreende de que Jesus há havia morrido (Mc 15,44). Como o dogmatismo não manda mais ninguém para a fogueira, querendo demonstrar previamente como os ímpios irão arder no fogo do inferno, pensadores têm surgido questionando até mesmo a veracidade dos próprios textos bíblicos, quanto à realidade da morte de Jesus na cruz. Essas dificuldades que acabamos de colocar, podem nos remeter a essa hipótese. Para se ver, por exemplo, que os relatos não são tão mais inquestionáveis assim, transcrevemos do capítulo “Jesus não morreu na cruz” constante do livro A Sociedade Secreta de Jesus, de autoria de Roméro da Costa Machado (1948- ), o seguinte trecho:
Ao raiar do dia, no sábado, vendo o sepulcro aberto e tendo o corpo de Jesus

142 sumido, os guardas, com medo de Pilatos, vão até os sacerdotes saduceus e contam-lhes a história do desaparecimento do corpo de Jesus. No que os sacerdotes saduceus tranquilizam os guardas e garantem que, caso a história chegue aos ouvidos de Pilatos, eles (os sacerdotes) iriam convencer Pilatos a não punir os guardas, deixando-os em paz, pois era sabido que os discípulos de Jesus iriam mesmo tentar roubar o corpo. Esta história está parcialmente contada em Mateus (28:11-15) Entretanto, como o cadáver de Jesus jamais apareceu e isto desmoronaria a tese da ressurreição, pois ninguém ressuscita sem morrer e para morrer tem que haver um cadáver; este corpo de Jesus morto jamais apareceu. E Mateus, novamente, conta exatamente esta história do roubo do corpo, mas depois diz que é mentira. Para os próprios cristãos, segundo evidências claras na Bíblia, Jesus não morreu na cruz. Senão vejamos: João (20:11-17) - Dois essênios de branco (confundidos como anjos) são vistos no sepulcro e Jesus – depois de "morto" - diz para Madalena, dentro do sepulcro, que ainda não havia morrido. “Jesus disse-lhe: - Não Me detenhas porque ainda não subi para Meu Pai". Lucas (24:4-5) - Dois essênios de branco, resplandecentes, estão no sepulcro vazio e falam para Madalena, Joana e Maria mãe de Tiago: - “Por que buscais entre os mortos Aquele que vive?" Mateus (28:3) - Um essênio, vestido de branco, estava no sepulcro e fala às mulheres sobre o desaparecimento do corpo de Jesus. (Aqui uma questão simples: Se Jesus tivesse morrido (matéria) e ressuscitado (espírito)... onde foi parar o corpo? Tinha de haver um corpo. Tinha de haver a matéria). Marcos (16:5) - Um jovem essênio, vestido de branco, guardava o túmulo de Jesus e fala com Madalena, Salomé e Maria Mãe de Tiago. - Aqui sai Joana e entra Salomé, mas tudo bem - (Novamente a mesma questão simples: Se Jesus tivesse morrido e ressuscitado... onde foi parar o corpo?) João (20:5-7) - Pedro entra no sepulcro e encontra ataduras de curativos e ligaduras espalhadas por toda parte. (Se Jesus havia morrido na cruz... por que colocaram ataduras, remédios, unguentos e ligaduras num "morto", como as que Pedro encontrou no sepulcro? Coloca-se atadura e remédio em morto?) Lucas (24:36-43) - Diante do espanto dos discípulos que imaginavam estar vendo um espírito, Jesus confessa aos discípulos, com todas as palavras que Ele não havia morrido na cruz. E para provar que era Ele mesmo, Jesus diz: - "Vede as Minhas mãos e os Meus pés?; Sou Eu mesmo!". E para provar que não era espírito e sim carne, complementa:- "Apalpai-me e olhai que um espírito não tem carne, nem ossos, como verificais que eu tenho!" E para encerrar de vez a discussão sobre espírito e matéria, Jesus pede comida aos discípulos ainda assombrados: - "Tendes aí alguma coisa que se coma?". Deram-lhe então uma posta de peixe assado e, tomando-a, comeu diante deles". Pode um relato ser mais claro? Ou seja, nem mesmo os cristãos, mais cegamente fiéis seguidores da Bíblia, podem acreditar na morte de Jesus na cruz, pois o relato de Lucas (24:26-43) é claro demais, cristalino demais, insofismável, resistente até ao mais insano dos exegetas de bicicleta. Jesus diz claramente que não havia morrido na cruz ("não ascendi ao pai"), que não era espírito e sim carne (e para provar que não era espírito e sim carne, complementa: Apalpa-me e olhai que espírito não tem carne nem ossos como verificais que eu tenho") e para finalizar Jesus pede comida e bebida, e de fato come peixe assado e bebe com os discípulos. (MACHADO, 2004, p. 297-300).

Argumentos que não encontramos meios de como rebatê-los ainda mais pelo fato de encontrarmos essa mesma informação em outra fonte. Vejamos:
Quando se refere à crucificação, o Alcorão diz o seguinte: ‘Eles não o mataram, não o crucificaram, mas isso lhes pareceu (Alcorão 4,156). ... Certos muçulmanos do Paquistão... para eles, Jesus foi de fato pregado à cruz, mas, quando o retiraram de lá, Ele ainda vivia. Então, livre da cruz, ele se curou e partiu para a Índia. (Revista Grandes Líderes da História, p. 29).

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Tudo isso de certa forma poderia vir a corroborar o que está escrito em At 1,3: “Foi aos apóstolos que Jesus, com numerosas provas, se mostrou vivo depois da sua paixão: durante quarenta dias depois apareceu a eles,...”. Lucas, “... após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio,...” (Lc 1,3), afirma que Jesus se mostrou vivo, o que confirmaria aquilo que encontramos em outras fontes. É aqui que ficamos em dúvida, pois se Jesus se apresentou fisicamente, então a tese, que apresentamos para uma reflexão, de que ele na verdade não morreu na cruz, seria uma possibilidade que deveria ser mais bem analisada. Todavia, alguém dirá: "Como é que os mortos ressuscitam? Com que corpo voltarão?" Insensato! Aquilo que você semeia não volta à vida, a não ser que morra. E o que você semeia não é o corpo da futura planta que deve nascer, mas simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie. A seguir, Deus lhe dá corpo como quer: ele dá a cada uma das sementes o corpo que lhe é próprio. Nenhuma carne é igual às outras: a carne dos homens é de um tipo, a dos animais é de outro, e de outro a dos pássaros e de outro ainda a dos peixes. Há corpos celestes e há corpos terrestres. O brilho dos celestes, porém, é diferente do brilho dos terrestres. Uma coisa é o brilho do sol, outra o brilho da lua, e outra o brilho das estrelas. E até de estrela para estrela há diferença de brilho. O mesmo acontece com a ressurreição dos mortos: o corpo é semeado corruptível, mas ressuscita incorruptível; é semeado desprezível, mas ressuscita glorioso; é semeado na fraqueza, mas ressuscita cheio de força; é semeado corpo animal, mas ressuscita corpo espiritual. Se existe um corpo animal, também existe um corpo espiritual. Calma, não somos nós que está dizendo isso é um outro Paulo, o de Tarso (1Cor 15,3544). Sua afirmação da existência do corpo espiritual é de tamanha clareza que não deveria deixar margem a dúvidas, nem tampouco o surgimento de interpretações equivocadas. Mas isso ainda não é tudo, pois quando, um pouco mais à frente, ele arremata a sua argumentação, a coisa fica ainda mais clara veja: “Eu lhes digo, irmãos, que a carne e o sangue não podem receber em herança o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade”. (1Cor 15,50). Há uma passagem muito elucidativa em que os saduceus, que afirmavam não existir ressurreição, perguntaram a Jesus sobre a situação de uma mulher que havia se casado com sete irmãos (para cumprir a lei do Levirato) queriam saber, quando da ressurreição, de qual dos sete ela seria mulher; que Jesus responde: “De fato, na ressurreição, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu” (Mt 22,30). Ora, todos nós aceitamos que os anjos são seres espirituais; daí, se seremos iguais a eles, então, consequentemente, também seremos seres espirituais, condição em que ressuscitaremos. A afirmação de “seres espirituais” implica necessariamente na existência de um corpo espiritual. Na sequência, ainda afirma Jesus: “Quanto à ressurreição dos mortos, não lestes o que Deus vos declarou: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó?’ Ora, ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos” (Mt 22,32-33). Veja bem se Deus é Deus de vivos, e os aqui citados foram Abraão, Isaac e Jacó, que já haviam morrido, concluímos que eles viviam na condição espiritual. Os que acham que a ressurreição será no final dos tempos, devem ficar desconcertados diante dessa passagem, pois, apesar do final dos tempos ainda não ter chegado, Jesus sugere que esses três personagens já estavam ressurretos e, portanto, vivos. A visão de Pedro sobre a morte e ressurreição de Cristo, também não deixa margem à ressurreição da carne. Segundo ele, o que aconteceu foi que Jesus “... Morto na carne, foi vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão,” (1Pe 3,18-19). Assim, diante disso e de tudo o que já colocamos anteriormente, como ainda advogar a ressurreição da carne? Ela, a ressurreição da carne, falando à maneira do gosto de muitos teólogos, não possui respaldo bíblico. Terminamos o estudo sobre esse assunto, esperando contribuir para o esclarecimento dessa questão; mas, obviamente, não passa por nossa cabeça a unanimidade em relação ao que expomos, já que muitas pessoas, infelizmente, possuem a mente fechada para qualquer coisa que vá de encontro ao seu pensamento original, mesmo sendo este completamente contraditório. Pior ainda são os adeptos do: “creio, ainda que absurdo!”. Percebemos em algumas pessoas, um certo medo de questionar o que a teologia tradicional lhes passou: isso é fruto de um terrorismo religioso, pois quem está com a verdade

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não teme absolutamente nada. Entretanto, os que são frágeis na convicção e os que sabem que suas ideias não são realmente verdadeiras, farão de tudo para contestar aquilo que possa contrariar seus interesses. Mas devemos lembrar Jesus que dizia: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Encerramos ressaltando que: “... onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade” (2Cor 3,17), do que é fácil concluir que, onde não há liberdade, o Espírito do Senhor não se encontra.

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O que efetivamente nos salva?
Vamos iniciar contando uma historinha fictícia e que não alcança, necessariamente, toda a justificativa que os evangélicos dariam para explicar a sua crença na salvação, tratamola de forma bem simples apenar para ter um ponto de partida. Apreensivo, chega o fervoroso crente, junto ao seu líder religioso, e pergunta: “Pastor, saberia me dizer o que acontecerá agora com meu pai, que acaba de morrer: ele irá para o céu ou para o inferno? O Sr. sabe, ele era um criminoso de mão cheia, tendo, em sua vida, cometido vários crimes. Gostaria de saber qual é o destino dele, pois, apesar de tudo o que fez, acreditava em Jesus, tinha uma fé inabalável e nem mesmo o dízimo omitiu em pagá-lo.”. O Pastor pensou um pouco, procurando “acessar” em sua memória a “pasta” contendo os seus conhecimentos bíblicos, para dar uma explicação plausível. Passados alguns minutos, respondeu: “Meu caríssimo irmão, a Bíblia diz: 'Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. (Ef 2,8)'”. Portanto, pela palavra de Deus, ele irá para o céu, pois tinha fé e a fé é o que nos basta para salvar-nos”. “Amém Pastor!”, respondeu o consulente, já mais tranquilo e certo que seu pai estaria no céu. Para o profeta Isaías, a questão seria bem mais complexa: “[...] Quando vossos juízos se exercem sobre a terra, os habitantes do mundo aprendem a justiça. Porém, se se perdoar o ímpio, ele não aprenderá a justiça, na terra da retidão ele se entregará ao mal e não verá a majestade do Senhor” (Is 26,9-10 – Bíblia Sagrada Ave Maria). O pensamento de que se deve exercer o juízo, ou seja, julgar e aplicar a devida pena, como forma de levar o criminoso a arrepender-se é tão claro, que ficamos sem saber o porquê das pessoas não o entenderem e daí ficarem buscando outras alternativas para a salvação. Procuramos essa mesma passagem em outras Bíblias: foi por aí que começamos a entender, o porquê de muitas das divergentes nas interpretações dos textos bíblicos. Vejamola na versão da SBB, cuja tradução é a normalmente adotada por algumas correntes protestantes: “[...] porque, havendo os teus juízos na terra, os moradores do mundo aprendem justiça. Ainda que se mostre favor ao ímpio, nem por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele pratica a iniquidade, e não atenta para a majestade do SENHOR”. (Is 26,9-10) Aqui, ter o entendimento igual ao que encontramos na tradução anterior, é, realmente, mais difícil, pois o fundo do pensamento está subentendido. Mas, embora varie na forma, a essência é a mesma. Se Deus, por algum motivo, deixasse de “castigar” um criminoso, estaria pervertendo o juízo. Ora, isso é algo que Ele não poderá deixar de fazer, sem que conflite com o teor deste passo: “Porque, segundo a obra do homem, ele lhe paga; e faz a cada um segundo o seu caminho. Também, na verdade, Deus não procede impiamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo”. (Jó 34,11-12). Ainda não conseguimos entender porque as pessoas divergem tanto em relação à nossa salvação, considerando-se que todos, supostamente, trabalham com a mesma fonte: os Evangelhos. Para uns, basta ter fé; para outros, é necessário praticar as boas obras. Isso deixa muitas pessoas em dúvida para saber qual é mesmo a base da nossa salvação. Paulo de Tarso é o autor bíblico mais utilizado para sustentar a questão da fé, como forma de salvar-se. Sabemos que ele não foi discípulo de Jesus; inclusive, no início do cristianismo, perseguia os cristãos, até que um dia, na estrada de Damasco, teve um encontro com o espírito de Jesus, que o questiona: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (At 9,4). A

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partir deste episódio, passa a dedicar-se, de corpo e alma, à propagação da doutrina do Mestre, conforme os relatos bíblicos. A sua missão foi, segundo entendemos, a de divulgar o Evangelho entre os pagãos; daí o chamarem de “Apóstolo dos gentios”. Fez diversas viagens para propagar a Boa Nova. São dele as principais cartas contidas no Novo Testamento, nas quais iremos buscar o seu pensamento a respeito desse assunto. Depois, iremos ver o que outras pessoas, daquela época, também pensavam, especialmente Tiago, Pedro, João e, decisivamente, aquele a quem nenhum ensino poderá contradizer: JESUS. Vejamos o pensamento de Paulo. Devemos confessar, de antemão, que não é nada fácil entender Paulo, pois, às vezes, parece contraditório, já que em algumas oportunidades levanos a crer que a fé é que salva, ao passo que em outras dá-nos a ideia que são as obras; enfim, as coisas ficam realmente muito confusas. Até Pedro reclamava isso de Paulo; veja: “É o que, aliás, ele ensina em todas as suas cartas. Nelas existem passagens de difícil compreensão; e existem pessoas ignorantes e inconstantes que lhes deformam o sentido, como aliás o fazem com outras partes das Escrituras, para a sua própria ruína” (2Pe 3,16). Pedro está, absolutamente, correto em seu pensamento; inclusive, poderemos, tranquilamente, aplicá-lo a inúmeros líderes religiosos dos dias de hoje, já que os vemos “deformando o sentido das Escrituras”. De início, é oportuno colocarmos a seguinte explicação:
O próprio Paulo não conheceu pessoalmente Jesus. O que ele fez foi a experiência do Cristo ressuscitado. Portanto, ao anunciar o Evangelho aos pagãos, foi preciso adaptá-lo à mentalidade dos ouvintes, respondendo às preocupações que eles tinham, conservado o que era essencial e deixando de lado o que não era importante. (Bíblia Sagrada Pastoral, p. 1438). (grifo nosso).

É importante ter isso em mente, já que o apóstolo dos gentios usava linguagem adequada aos ouvintes, o que, em algumas situações, pode levar a crer-se numa aparente contradição no que fala. Vejamos alguns trechos de Paulo, que colocaremos não na ordem em que aparecem na Bíblia; mas na cronológica aceita pelos exegetas: 1Ts 1,2-3: “Sempre damos graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações, lembrando-nos sem cessar da obra da vossa fé, do trabalho do amor, e da paciência da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai”. Nesta primeira passagem, que analisamos, observamos Paulo dar graças a Deus porque todos praticavam “obra da fé, do trabalho do amor”, já nos deixando mais seguro, quanto ao seu pensamento a respeito do que irá salvar-nos. 1Cor 13,1-13: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

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Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor”. Fica claro que Paulo prega o amor acima de tudo. Explicam-nos: “À diferença do amor passional e egoísta, a caridade (agápe) é um amor de dileção, que quer o bem do próximo. [...]” (Bíblia de Jerusalém, p. 2009). Ainda encontramos, mais esta: “Amor. A palavra grega é agape. [...] Agape é mais que afeição mútua; expressa a valorização altruísta no objeto amado. [...]” (Bíblia Anotada, p. 1449). Verificamos que há divergência quanto à acentuação dessa palavra. Nessa passagem, está óbvio que o amor (caridade) é maior que a fé, embora não implique dizer que não necessitamos da fé; pelo contrário, é por exatamente termos muita fé que praticamos a caridade. 1Cor 15,1-2: “Irmãos, lembro a vocês o Evangelho que lhes anunciei, que vocês receberam e no qual permanecem firmes. É pelo Evangelho que vocês serão salvos, contanto que o guardem do modo como eu lhes anunciei; do contrário, vocês terão acreditado em vão”. Esta é, talvez, a passagem mais clara, onde o pensamento de Paulo não deixa nenhuma margem a qualquer tipo de dúvida; nem mesmo com interpretações destorcidas consegue-se mudá-lo. Se é pelo Evangelho que seremos salvos, então nossa salvação está na aplicação, no nosso dia a dia, das leis divinas, ensinadas por Jesus, ou seja, é a prática do amor ao próximo. 1Cor 15,28: “E quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todos“. Para que “Deus seja tudo em todos”, é necessário que todos estejam no mesmo nível de moralidade, onde o amor possa ser a virtude por excelência, que deverá espelhar-se, diuturnamente, na ação de cada um de nós. Isso, não se consegue com penas eternas, nem com salvação de uns poucos privilegiados. Fica aí a questão: então o que é que consegue levar todos para o mesmo nível, para que “Deus seja tudo em todos”? 2Cor 5,10: “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal”. O Apóstolo Paulo volta, novamente, a falar sobre o “a cada um segundo suas obras”, reafirmando o seu pensamento. Se não estivermos extrapolando-o, acreditamos que aqui ele dá uma ideia de que temos algo além do corpo físico. Gl 2,16: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada”. Vejamos o que Paulo quer dizer com “não ser justificado pelas obras da lei”; afinal, de que obras ele falava? Certamente, que se referia às obras da Lei, ou seja, da Lei de Moisés, que, depois do advento de Jesus, não deve servir como base para a salvação aos que se dizem cristãos. Seremos justificados pelos nossos atos, ou seja, tornaremos justos pela fé em Cristo. Mas, voltamos a dizer, não fé passiva, só pela fé operante. Também João percebeu isso: “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Esta passagem merece ser completada pelo estudo que L. Palhano Jr. (1946-2000) faz em seu livro Aos Gálatas – A Carta da Redenção. Diz Palhano:
Para compreendermos melhor o texto acima, é preciso meditar e entrar no verdadeiro significado das expressões: “justificado”, “obras da lei”, “fé” e “carne”. É o que pretendemos fazer a seguir. O verbo empregado na epístola para justificado é dikaicó, característico de Paulo e tão empregado por ele, que é preciso entendê-lo de modo correto. Na margem da Revised Standard Version of

148 Bible, o termo é traduzido como “tido por justo”, isto é, considerado justo ou aprovado aos olhos de Deus; e o ponto a ser decidido era a maneira pela qual o indivíduo alcançaria uma posição aceitável diante de Deus (Guthrie). (38) Vamos agora à expressão “obras da lei”. Talvez devêssemos fazer aqui um parêntese para um estudo pormenorizado sobre essa expressão, mas não o faremos; acrescentá-lo-emos mais tarde ou em um apêndice. Por ora, vamos apenas destacar, sem mais delongas, o seu significado correto. A expressão grega ex ergon nomou tem sido traduzida para o português como “pelas obras da lei”, contudo pela proposta de Tenney (39), uma tradução mais exata seria “por obras legais”, isso porque a palavra “lei” foi usada sem o artigo definido, principalmente em certas frases escolhidas que transmitem significações especializadas. A ausência do artigo usualmente significa que a qualidade do conceito escolhido é salientado, em lugar da sua identidade, embora em Gálatas e em outras epístolas, Paulo se refira à “lei mosaica” como a principal concretização do conceito. Em Robertson (40) podemos ler claramente que, “em geral, quando nomos é indefinido em Paulo, refere-se à lei mosaica”, por consequente, “lei”, nessas instâncias, é um termo que se refere ao sistema de pensamento ou ao código de ação envolvido, em lugar de qualquer documento particular. É evidente então que Paulo estava se referindo não a que o indivíduo “não seria justificado por suas obras, mas sim, não seria justificado pelas obras da legalidade religiosa”, isto é, pelo cumprimento das formalidades preconizadas por códigos religiosos como “rituais”, “festas”, “cerimoniais”, “dogmas”, ou quaisquer exigências tais como “dízimos”, guardar os “sábados”, coisas deste tipo, mas que seria justificado “pela fé em Jesus Cristo”. Para um conceito mais científico de fé, podemos dizer que ela é a capacidade de sintonizar-se com Deus (Jesus Cristo, no caso, o representa) e, para isso, é preciso reconhecer a sua paternidade divina, amando-o sobre todas as coisas (Mt 22,37) e realizar a sua vontade, amando o próximo como a si mesmo (Mt 22,39). Como ensinou Jesus, aí estão toda a lei e os profetas. É óbvio que essa fé tem que vir acompanhada de obras que a testifiquem; ter fé só por ter de nada adianta. Dizer que crê em Cristo não salva ninguém, mesmo batendo no peito, porquanto: ... a quem pensar que a fé por si só é suficiente, sou levado a dizer: Acreditais na existência de Deus? No inferno, os demônios também acreditam e, no entanto, estremecem. Porventura ainda não vê, ó homem sem percepção, que a fé sem obras é inútil e morta? (Tg 2, 19 e 20). [...] Quanto à expressão “carne” (grego sarx), ela quer dizer “ninguém, nenhuma pessoa viva”, será justificado “pelas obras da lei”. Trata-se de uma sinédoque, uma figura de linguagem comum da vida diária, como “cérebros” em lugar de eruditos, “cabeças” em lugar de gado e “vapor” em lugar de navio. Temos assim as chaves da interpretação do versículo 2,16. Ele é muito importante para o entendimento da proposta de Paulo, não entendida ou distorcida pelos ditos “doutos das igrejas”. Vamos concluir o estudo desse versículo, traduzindo-o para uma linguagem mais atual, que nos mostra como ele deve ser entendido: Sabemos que o homem não é considerado justo nem aprovado por Deus pelo seu desempenho nas formalidades prescritas na lei, mas pela fé operante em Jesus Cristo. Nós próprios somos reconhecidos justos pela nossa fé e não pela obediência ao estipulado como lei, por reconhecermos que ninguém pode salvar-se apenas por praticar liturgias (obras da lei).
______ 38. Guthrie, D. Gálatas, introdução e comentários, São Paulo, Vida Nova, 1984, p. 107. 39. Tenney, M. C. Galatian: the charter of christiam liberty. Michigan, Eerdmans Publishing, 1950, p. 194. 40. Roberton, A. T. A grammar of the greek new Testament in the light of historical research, 3ª edição. New York, George H. Doran Co. 1919, p. 796.

(PALHANO JR., 1999, p. 76-79). (grifo nosso)

Exatamente a linha de raciocínio que adotamos. Gl 5,4-6: “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça

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tendes caído, Porque nós pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça. Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor”. Se querem seguir a lei mosaica, tudo bem, porém, considerem-se “separados do Cristo”. No fundo, a questão é bem simples: ou você segue Jesus e pode-se dizer cristão, ou segue Moisés, e assuma sua condição de judeu. Na atualidade, o que vemos é o somatório dos dois: cristão-judeu, dizem seguir Cristo, mas não abrem mão de Moisés. Paulo, não tinha a Lei mosaica como norma, inclusive, questiona a validade da circuncisão, contida nela; para ele, sendo “obras da lei” não mais tinha valor algum, porquanto, o que deveria prevalecer é o que Jesus pregou e ensinou. A expressão “a fé que opera pelo amor”, dá-nos a verdadeira ideia de Paulo a respeito do amor. Conforme dissemos anteriormente, é o amor que faz a fé ser operante; não é, portanto, uma fé no sentido de somente se crer. Gl 5,14: “Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Não foi isso exatamente o que Jesus disse? Entretanto, ao Jesus acrescentar que toda a Lei e os profetas se achavam contidos nesse mandamento, disse, em outras palavras, que da lei mosaica isso era o que poder-se-ia, realmente, considerar como lei divina. Gl 6,2: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo”. “Levar as cargas uns dos outros” não é a ação na caridade, por amor ao próximo? Não é assim, que, conforme Paulo, estaremos cumprindo a lei do Cristo? Não são, portanto, as obras da lei que fala, mas dessas obras – levar as cargas uns dos outros –, que são a expressão do ensinamento do Cristo. Com isso, fica impróprio argumentar, que é a fé que salva; não é mesmo? Gl 6,7-9: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna. E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido”. É o que chamamos de Lei de Ação e Reação, vulgarmente denominada de Carma. Não há como se iludir diante de alguma outra opção sedutora; tudo o que fizermos voltará contra nós ou a nosso favor. Se semearmos ódio, colheremos exatamente o ódio; se, ao contrário, plantarmos amor, ceifaremos amor. Por isso, Paulo adverte para não nos cansarmos de fazer o bem, pois na época da colheita é isso que iremos colher. Rm 2,5-8: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus; o qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: a vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade;”. Nessa passagem não existe dúvida alguma no que diz Paulo sobre o juízo de Deus, que: “recompensará cada um segundo as suas obras”. Aqui não contradiz o que Jesus colocou, conforme iremos verificar mais à frente, e a justiça, como a entendemos, exige isso. Rm 2,9-11: “Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego; porque, para com Deus, não há acepção de pessoas”. A consequência é tribulação e angústia, para quem faz o mal; glória, honra e paz para quem pratica o bem. Ora, isso só pode ocorrer pela ação do homem, ou seja, por suas próprias obras (=ações), o que podemos confirmar pela passagem imediatamente anterior. E para os

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que dizem ser os únicos salvos, ou os que se julgam na “religião eleita”, podemos acrescentar, usando Paulo, que: “Deus não faz acepção de pessoas”. Assim, perguntamos: de onde tiram a ideia absurda de que Deus estabelece algum tipo de privilégio? Rm 2,12-13: “Portanto, todos aqueles que pecaram sem Lei, sem Lei perecerão; e todos aqueles que pecaram com Lei, pela Lei serão julgados. Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados”. Novamente estamos diante de um pensamento que não deixa margem a qualquer tipo de dúvida; os que praticam as recomendações divinas são os que serão justificados, não os que somente as ouvem, mas permanecem de braços cruzados. A prática é mais importante que a fé. Como praticar a lei? Fazendo o bem ao próximo. Rm 3,21-28: “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei”. Paulo, veementemente, combatia os judaizantes, que eram os cristãos hebreus, que queriam de qualquer forma fazer com que os novos convertidos ao Evangelho, que ele chama de “fé em Jesus Cristo”, praticassem as exigências da Lei, ou seja, obras da lei moisaica. A circuncisão, por exemplo, foi motivo de grandes controvérsias no cristianismo primitivo. Alguns queriam que os neófitos fossem circuncidados, conforme determinava a Lei de Moisés; entretanto, outros como Paulo, achavam que não havia a mínima necessidade, já que a “graça” de Deus, por meio de Jesus, era superior às leis mosaicas. Assim, ao dizer que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei, está querendo dizer que o homem tornar-seia justo ao aderir ao Evangelho de Jesus, não sendo mais necessário cumprir as “obras da Lei”, ou seja, a legislação mosaica. Deixando bem claro, que não está pregando a fé inoperante como supõem alguns, mas, repetimos, a fé demonstrada pelas ações a favor do próximo. Visto dessa forma não contraria nada do que, por ele, foi dito e que já analisamos em itens anteriores. Rm 8,28-30: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”. Encontramos a seguinte explicação:
O projeto eterno de Deus é predestinar, chamar, tornar justo e glorificar a cada um e a todos os homens, fazendo com que todos se tornem imagem do seu Filho e reúnam como a grande família de Deus. O projeto não exclui ninguém. Mas o homem é livre: pode aceitar ou recusar tal projeto, pode escolher a vida ou a morte, salvar-se ou condenar-se. (Bíblia Sagrada Pastoral, p. 1450). (grifo nosso).

Veja bem, a questão da predestinação para sermos TODOS à imagem de Jesus. O que poderíamos dizer em outras palavras: pela vontade de Deus todos nós estaremos um dia na mesma evolução que Jesus. Seremos justificados em Jesus, quando aplicarmos, no dia a dia, os seus ensinamentos, sintetizados no amor incondicional. Portanto, a predestinação não é o “já se possuir um lugar garantido”, sem ter que fazer absolutamente nada; mas é algo que

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iremos chegar com nosso próprio esforço e pelas nossas próprias ações, nada de ser “de graça”. Rm 10,4-13: “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê. Ora, Moisés descreve a justiça que é pela lei, dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas. Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo”. Se perdermos de vista, o que, anteriormente, disse Paulo, poderemos concluir que agora ele prega a fé. Mas, ainda aqui, ele trata da questão de Deus não fazer acepção das pessoas, que todo aquele que invocar o nome de Jesus será salvo. Quem crê realmente em Jesus deve praticar o que ele ensinou; caso contrário, a crença é completamente inútil: “Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no reino do céu” (Mt 7,21). Talvez pelo público alvo, Paulo não quis dizer mais a fim de completar o que realmente pensava. Para eles, o fato extraordinário de Jesus ter ressuscitado dos mortos, era mais uma certeza de que Deus não estava abandonando o seu povo. Jesus iria continuar orientando, como ainda o faz, a todas as criaturas para que, na prática do Evangelho, todos possam salvar-se. Iremos ver posteriormente a salvação segundo Jesus, para não termos mais dúvidas sobre o que nos salva. Rm 13,8-11: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor. E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé”. Agora, Paulo está completamente, ou será melhor dizer explicitamente, de acordo com os ensinamentos de Jesus. E observe a afirmativa de que o cumprimento da lei é o amor. Amor a todos e de tal forma e intensidade que não conseguiremos ficar inertes ao vermos um irmão necessitado sem, imediatamente, entrarmos em ação, e o ajudarmos naquilo que ele precisar. Tal como Jesus, ele, Paulo, resume a lei mosaica a “amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. E se Paulo pregasse que somente a fé é que salva, não teria dito: “a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé”. Aceitar a fé é pouco; necessário é praticá-la, pois só assim demonstraremos que amamos o próximo como a nós mesmos. Ef 1,3-4: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor”. Tornar santo e irrepreensível diante de Cristo em amor é, segundo a máxima que nos deixou, o que devemos fazer, que não é outra coisa senão o “amar ao próximo como a nós mesmos”. Ora, quem ama ao próximo, certamente, presta-lhe auxílio todas as vezes que for necessário. Esse ato de caridade é realizado porque se tem muito amor. Ef 2,8-9: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”. Chegamos na passagem citada em nossa história, no início deste estudo. É comum vermos essa citação somente até o versículo nove, sem que coloquem a conclusão de Paulo

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(v.10,) que é importante para entender o seu pensamente de forma correta; Ei-lo: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2,10). “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé”, ou seja, o amor de Deus faz com que sejamos salvos. Na visão Espírita isso é mais claro, pois o amor de Deus nos arrasta a Ele, vamos assim dizer, de tal sorte que a única escolha que nós temos é se iremos devagar ou depressa. “Salvos por meio da fé” é fazermos o que determina Jesus em seu Evangelho, principalmente o “amar ao próximo como a nós mesmos”. Isso é um dom de Deus, porque, por sua exclusiva vontade, Ele quer que sigamos os exemplos do Mestre, uma vez que, Ele nos foi enviado, justamente, para servir-nos de modelo e guia. Se somos criados em Jesus Cristo é porque é o desejo de Deus que andemos nas boas obras, amando indistintamente a todos os que estão nessa caminhada conosco, já que nos predestinou exatamente para isso. Não foram as boas obras o que ele praticou o tempo todo em que esteve aqui na Terra encarnado? Cl 3,12-14: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; suportandovos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição”. Paulo entendeu muito bem, o ensinamento de Jesus, deixando-o mais claro ainda, aquele em que diz: “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus”. (Mt 5,48). Amor operante. Nada de só crer e achar que com isso está tudo bem. O amor incondicional é aquilo que nos ligará à perfeição, nada mais justo, pois “ Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Deus é amor.” (1Jo 4,8). Cl 3,15-17: “E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao SENHOR com graça em vosso coração. E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai”. Colocamos essa passagem para completar o pensamento de Paulo dito na anterior. A expressão “para a qual também fostes chamados em um corpo”, estaria implícita a preexistência do espírito? Particularmente pensamos que sim, pois, se fomos chamados em um corpo, é porque estávamos vivendo sem ele. Deseja Paulo que a palavra de Cristo habitasse em nós abundantemente, em toda a sabedoria, ou seja, que possamos entender tudo o que ele nos ensinou, demostrando isso na prática do dia a dia. A plenitude do amor em nós é a completa aplicação dos ensinamentos de Jesus, que tornar-se-ia, então, o “vínculo da perfeição”. 1Tm 2,1-4: “Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade; porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade”. Paulo exorta a Timóteo a praticar boas obras a favor de todos: amor altruísta! Perguntamos: Se Deus quer que todos os homens se salvem, quem poderá ser contra a vontade de Deus? Seria interessante também vermos o pensamento de Tiago (irmão do Senhor). Foi Tiago quem dirigiu a Igreja de Jerusalém. No chamado Concílio de Jerusalém, ano 49 d.C., foi a sua decisão prevaleceu na primeira divergência entre os cristãos na polêmica questão da circuncisão. Ele exercia uma forte liderança, muito maior que a de Pedro, tido como o primeiro Papa. As correntes religiosas se divergem quanto ao grau de parentesco de Tiago com Jesus.

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Os católicos colocam-no como primo, já que o termo irmão, segundo eles, servia para designar também primo. Os protestantes já o têm como meio irmão de Jesus. Entretanto ao usarem desse mesmo termo para designar alguns dos discípulos que eram irmãos, não dizem que eram primos. Mateus narra: “Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas? E não estão entre nós todas as suas irmãs? De onde lhe veio, pois, tudo isto?” (Mt 13,55-56). Não temos dúvida que eram mesmo irmãos consanguíneos de Jesus, até mesmo, porque a cultura da época exigia da mulher muitos filhos; caso contrário não seria uma boa esposa. Se isso estiver correto, é mais uma forte razão, para vermos que o pensamento de Tiago condiz com o de Jesus. Tg 1,22-27: “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era. Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito. Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”. Prática das obras ou fé? Não deixa margem para alguma dúvida: “cumpridores da palavra”. Essa colocação de Tiago é muito interessante: “A religião pura e imaculada para com Deus é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”, ou seja, prática do amor ao próximo pela realização dos atos de caridade. Tg 2,8: “Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis”. Este pensamento é igual ao de Paulo, e corresponde, também, ao que Jesus ensinou. Onde está dito alguma coisa sobre fé? Aliás, até mesmo Moisés chegou a recomendar isso (Lv 19,18). Tg 2,14-18: “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”. Ao terminar dizendo que mostrarei a minha fé pelas minhas obras, Tiago traz o conceito que falamos anteriormente, quando falávamos do pensamento de Paulo de ser uma fé operante. Quem tem fé deve mostrá-la com as obras que realiza. Que adianta ter fé se o irmão a seu lado passa fome? É o questionamento incontestável de Tiago para os que dizem que apenas a fé é que salva. Tg 2,21-23: “Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus”. Para provar que são as obras a base para a justificação, Tiago nos dá o exemplo de Abraão. Mostra que a fé é aperfeiçoada pelas obras. Tg 2,26: “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”.

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Não há o que contestar a clareza desse pensamento. É tão claro e objetivo, que continuamos não entendemos porque as pessoas ainda têm a coragem de dizer que é somente a fé que salva. Não podemos deixar de citar o pensamento de Pedro, que foi um dos discípulos de Jesus, inclusive, aceito por alguns como sendo o primeiro Papa, por isso devia conhecer mais profundamente os ensinamentos do Mestre. At 10,34-35: “Então Pedro, tomando a palavra, disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas;mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo”. 1Pe 1,17: “E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação”. Encontramos novamente a expressão que o julgamento será “segundo a obra de cada um”, reafirmando o pensamento de todos no cristianismo primitivo. Os homens, infelizmente, deturparam os ensinamentos de Jesus, para sua própria perdição. Também confirma que Deus não faz acepção de pessoas, ou seja, não há privilégios junto a justiça divina. 1Pe 3,8-12: “E, finalmente, sede todos de um mesmo sentimento, compassivos, amando os irmãos, entranhavelmente misericordiosos e afáveis. Não tornando mal por mal, ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo; sabendo que para isto fostes chamados, para que por herança alcanceis a bênção. Porque quem quer amar a vida, e ver os dias bons, refreie a sua língua do mal, e os seus lábios não falem engano. Aparte-se do mal, e faça o bem; busque a paz, e siga-a. Porque os olhos do Senhor estão sobre os justos, E os seus ouvidos atentos às suas orações; Mas o rosto do Senhor é contra os que fazem o mal”. Recomendações que já ouvimos, só que com outras palavras, de Paulo e Tiago. Tudo isso também condiz com os ensinamentos de Jesus. 1Pe 4,8-11: “Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados. Sendo hospitaleiros uns para com os outros, sem murmurações, cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá; para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e poder para todo o sempre. Amém”. Agora fica mais clara a questão do amor corresponder ao sentimento de caridade para com o próximo. Fechando: “A caridade cobre uma multidão de pecados”; é por isso que a máxima no Espiritismo é: “Fora da caridade não há salvação”, que, inclusive, é algo que todos podem fazer, independentemente de religião ou crença, ou seja, tem um caráter totalmente universalista. 2Pe 1,2-10: “Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor; visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo. E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele em quem não há estas coisas é cego, nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque,

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fazendo isto, nunca jamais tropeçareis”. Acompanhando o raciocínio de Pedro veremos que ele coloca a caridade entre as coisas importantes, que devemos acrescentar à nossa fé. Dizendo, ao final, que quem não possui essas coisas é cego, ou seja, não entendeu nada do ensinamento de Cristo e que, portanto, são “ociosos e estéreis no conhecimento de Cristo”, fechando magistralmente seu pensamento. João, o discípulo a quem Jesus mais amava, conhecia, portanto, seus ensinamentos. 1Jo 3,17-18: “Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”. Nem precisamos dizer mais nada, tão óbvio que fica a questão do amor expresso em obras. E aqui temos de uma das visões de João, registrada no Apocalipse, o seguinte: Ap 20,11-12: “[...] Vi então os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono. E foram abertos livros. Foi também aberto outro livro, o livro da vida. Então os mortos foram julgados de acordo com sua conduta, conforme o que estava escrito nos livros”. Particularmente não gostamos muito de citar o livro Apocalipse, por achá-lo muito cheio de metáforas e com isso abre-se sua interpretação a milhares de possibilidades. Apesar disso, no passo em questão é clara o critério de separação das almas, foram “julgadas de acordo com sua conduta”, conforme o que estava escrito nos livros, ou seja, nossas ações são “registradas” para que todas elas sejam medidas e pesadas. Da maneira de viver que os cristãos primitivos tinham, poderemos intuir sobre qual foi a mensagem que entenderam como norma de conduta para salvarem-se. At 2,42-47: “Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam. Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E a cada dia o Senhor acrescentava à comunidade outras pessoas que iam aceitando a salvação”. Aceitavam a salvação e por isso agiram como se todos fossem verdadeiramente irmãos, ajudando uns aos outros. Chegaram ao ponto de vender os seus próprios bens para repartir o dinheiro, no fundo, estavam demonstrando o amor ao próximo como a si mesmos, única “chave” que abre a porta que nos conduzirá à salvação. Veremos agora o pensamento de Jesus e não devemos nos esquecer que o discípulo não pode ser superior ao mestre, conforme nos alertara: “Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou” (Jo 13,16). Mt 5,3: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Mt 5,5: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”. Mt 5,8: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”. Será que Jesus não foi tão claro assim, quanto à questão do que devemos fazer para salvar-nos? Não se refere ele a coisas ligadas à nossa moralização, que cabe a cada um esforçar-se para fazer? E considerando o atual estado da humanidade, quando é que os mansos herdarão a Terra? Bem, pode ser que Deus mande outro dilúvio e resolva esta questão. É mais um questionamento, que fica sem resposta, levando-se em conta que “Deus não faz acepção de pessoas” e que tem em grau infinito a sua misericórdia e justiça.

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Mt 5,48 “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial”. Sendo a perfeição a nossa meta, como atribuir uma outra coisa como um fator que nos salvará? Se somente o crer em Jesus fosse o suficiente, por que motivo manda-nos ser perfeito, como perfeito é o Pai celestial? Mas que perfeição é essa que nos recomenda buscar? Nada mais que a perfeição do amor, uma vez que Deus é a expressão máxima do amor. Mt 5,17-20: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. Se os que violarem um destes mandamentos será o menor no reino dos céus, sinal que todos irão para lá, caso seja um lugar circunscrito. Portanto, a salvação é para todos, porém, condicionada a cumprir os mandamentos, mesmo que leve séculos para se conseguir isso. Mt 7,11-14: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhas pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas. Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram”. Se dar o inferno eterno para a grande maioria das pessoas é coisa boa? Então, podemos crer que houve uma inversão de valores. A coisa é bem simples: se nós que somos maus fazemos de tudo para dar somente coisas boas para nossos filhos, com muito mais razão Deus nos dará, pois o seu amor é infinitamente maior que o de um pai humano. Portanto, a hipótese de inferno eterno é fruto da ignorância humana, não é uma criação de Deus. A regra de ouro aqui estabelecida – fazer os outros o que queremos que os outros nos façam – é relacionada a atitude, que se todos nós aplicássemos, o mundo seria completamente outro. É na aplicação plena dessa lei, que iremos merecer estar junto com Deus, caso contrário, estaremos tomando uma direção errada, que nunca nos levará ao nosso objetivo. Porta larga e porta estreita simboliza os vícios e as virtudes, são eles que abrirão ou não as “portas” do “céu”. Assim, tudo, que aqui nesse passo expõe-se, tem a ver com reforma interior, agir no bem, nada de salvação “de graça” para ninguém, mas com esforço pessoal no sentido de domar suas más paixões, de forma, que a meta de amar ao próximo como a si mesmo seja atingida. Mt 7,21-27: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade. Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda”. Muitos religiosos ainda dizem que as pessoas estão salvas por pertencerem a uma determinada Igreja ou por apenas ter fé, ou por só crer em Jesus como salvador, etc.; entretanto, parecem que fazem vistas grossas a essa passagem da Bíblia. Quem não praticar os ensinos de Jesus, não receberá recompensa alguma. É bem simples!

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Mt 16,27: “Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras”. Como já prevíamos anteriormente a salvação para Jesus está nas obras, já que cada um será julgado pelas suas obras e não por crer, pertencer a alguma denominação religiosa, em muito, menos porque Jesus morreu na cruz. E ainda existem pessoas querendo contradizer Jesus, dizendo que são estas outras coisas que salvam, embora muitos deles, na prática diária, fazem do dízimo o instrumento de “sua própria salvação”: a financeira. Mt 18,1-4: “Naquela hora chegaram-se a Jesus os discípulos e perguntaram: Quem é o maior no reino dos céus? Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, quem se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no reino dos céus”. Fazer-se como crianças, significa deixar de lado as paixões, vícios, preconceitos, rixas, ódios, maledicência, intolerância, desejo de vingança, pois tudo isso representa inferioridade moral, que, certamente, é obstáculo para estarmos junto a Deus, por ser Ele a perfeição plena. E todo que nos afasta dela, consequentemente, também, nos afasta de Deus. Mt 18,23-35: “Por isso o reino dos céus é comparado a um rei que quis tomar contas a seus servos; e, tendo começado a tomá-las, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; mas não tendo ele com que pagar, ordenou seu senhor que fossem vendidos, ele, sua mulher, seus filhos, e tudo o que tinha, e que se pagasse a dívida. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, tem paciência comigo, que tudo te pagarei. O senhor daquele servo, pois, movido de compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem denários; e, segurando-o, o sufocava, dizendo: Paga o que me deves. Então o seu companheiro, caindo-lhe aos pés, rogavalhe, dizendo: Tem paciência comigo, que te pagarei. Ele, porém, não quis; antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Vendo, pois, os seus conservos o que acontecera, contristaram-se grandemente, e foram revelar tudo isso ao seu senhor. Então o seu senhor, chamando-o á sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste; não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, assim como eu tive compaixão de ti? E, indignado, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim vos fará meu Pai celestial, se de coração não perdoardes, cada um a seu irmão”. A moral da história é que ao devedor foi dado um prazo para pagar a dívida, portanto, tinha obrigação de fazer o mesmo com aquele que lhe devia. Ainda podemos tirar disso que a dívida há que ser paga, não é perdoada da forma como acreditam. O perdão de Deus existe quando ele nos dá oportunidades de reparar o mal praticado. Acontecerá de igual forma conosco, quando infligirmos as leis divinas, pois será necessária a reparação, única forma de harmonizarmos com elas. Ao que não “pagarem” suas dívidas serão metidos na prisão da carne, até que pagem. Mt 19,16-23: “E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: 'Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?' E ele disse-lhe: 'Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos'. Disse-lhe ele: 'Quais?' E Jesus disse: 'Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo'. Disse-lhe o jovem: 'Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?' Disse-lhe Jesus: 'Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me'. E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades. Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus”. Nessa passagem fica nítida a questão da prática da caridade. O jovem rico tinha fé e cumpria todas as outras determinações religiosas; entretanto não se preocupava com os

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necessitados, porquanto, ainda não os amavam como a si mesmo. Daí Jesus recomendar-lhe vender tudo e doar aos pobres para ter um tesouro no céu. Apegado demais aos bens terrenos, o jovem foi-se embora triste. Mt 20,1-16: “Porque o reino dos céus é semelhante a um homem, proprietário, que saiu de madrugada a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com os trabalhadores o salário de um denário por dia, e mandou-os para a sua vinha. Cerca da hora terceira saiu, e viu que estavam outros, ociosos, na praça, e disse-lhes: Ide também vós para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. Outra vez saiu, cerca da hora sexta e da nona, e fez o mesmo. Igualmente, cerca da hora undécima, saiu e achou outros que lá estavam, e perguntou-lhes: Por que estais aqui ociosos o dia todo? Responderam-lhe eles: Porque ninguém nos contratou. Disse-lhes ele: Ide também vós para a vinha. Ao anoitecer, disse o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até os primeiros. Chegando, pois, os que tinham ido cerca da hora undécima, receberam um denário cada um. Vindo, então, os primeiros, pensaram que haviam de receber mais; mas do mesmo modo receberam um denário cada um. E ao recebê-lo, murmuravam contra o proprietário, dizendo: Estes últimos trabalharam somente uma hora, e os igualastes a nós, que suportamos a fadiga do dia inteiro e o forte calor. Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço injustiça; não ajustaste comigo um denário? Toma o que é teu, e vai-te; eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom? Assim os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos”. Pelo trabalho todos receberam o mesmo pagamento, ainda que alguns tenham sido retardatários. É o que acontecerá conosco, todos fomos chamados, os que prontamente atenderam ao pedido, receberão mais cedo a sua recompensa, mas será exatamente a mesma que será dada aos que demorarem a atender ao chamado. Justiça é dar para todos a mesma recompensa, quando o esforço ou o trabalho for o mesmo, o tempo para realizar não é a medida, mas a capacidade de cada um fazer a tarefa, que lhe foi designada. Mt 21,31-32: “Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram eles: O segundo. Disselhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Pois João veio a vós no caminho da justiça, e não lhe deste crédito, mas os publicanos e as meretrizes lho deram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para crerdes nele”. Essa resposta que Jesus deu aos sacerdotes e anciãos do povo é muito interessante, porquanto, ele sabia que essa “turba” fazia tudo levá-lo à morte, e mesmo assim ele diz que irão para o “reino do Deus”; porém, os publicanos e as meretrizes, ou seja, aquelas pessoas que eles consideravam gente de má vida, chegariam na frente deles. Inclusive, Jesus acusa-os de não terem arrependido e nem acreditado em João Batista. Ora, se isso não aconteceu como é que iram merecer o “reino de Deus”, certamente, haverá outras oportunidades para que eles também possar arrependerem-se. Portanto, o reino de Deus é “para todos”, ninguém ficará de fora. Mt 25,31-46: “E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas; e porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o

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fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna”. Essa passagem simboliza o dia do juízo, dia em que todos devemos prestar contas a Deus de tudo o que fizemos. Quem foi para a direita de Deus (bom lugar) foram os de fé ou os que fizeram obras? As obras exemplificadas são: dar de comer aos famintos, vestir os nus, dar água a quem tem sede, hospedar os viajantes, visitar os doentes e os prisioneiros, tudo isso representa atos de amor ao próximo. No simbolismo, a separação dos bons dos maus é pela fé de cada um? Pela religião? Ou pelas obras praticadas a favor do próximo? Repetimos: “FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO”. Mc 16,14-16: “Por último, então, apareceu aos onze... disse-lhes: ’Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda a criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado’". É de conhecimento de todos nós que os versículos 16 a 20, do capítulo 16 do Evangelho de Marcos não fazem parte de alguns manuscritos antigos (Vat. E Sin.,) (Bíblia de Jerusalém, p. 1785), portanto, trata-se de um acréscimo por conta de um autor piedoso e desconhecido. Sua redação é tão conflitante que salta aos olhos; vejamos a frase: “quem não crer será condenado”. Para ela ser coerente com o que se afirmou antes, ou seja, “quem crer e for batizado será salvo”, haveria de ser uma sentença negativa da seguinte forma: “Quem não crer e não for batizado será condenado”. A expressão “não for batizado” ficou faltando, na “inspiração” da frase bíblica. Lc 10,25-37: “E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: 'Mestre, que farei para herdar a vida eterna?' E ele lhe disse: 'Que está escrito na lei? Como lês?' E, respondendo ele, disse: 'Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo'. E disse-lhe: 'Respondeste bem; faze isso, e viverás'. Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E' quem é o meu próximo?' E, respondendo Jesus, disse: 'Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; e, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; e, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar. Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?' E ele disse: 'O que usou de misericórdia para com ele'. Disse, pois, Jesus: 'Vai, e faze da mesma maneira'”. Essa parábola do Bom Samaritano é por demais conhecida de todos. Somente por ela já poderíamos saber o que, realmente, irá salvar-nos. O sacerdote representa todos os líderes religiosos preocupados consigo mesmo, sem nenhum sentimento de amor ao próximo. Pelo levita poderemos identificar todas as pessoas ligadas a uma determinada religião, que, apesar de possuírem alguém que os ensinem o que fazer, não fazem absolutamente nada a favor do próximo. São ambos, sacerdote e levita, egoístas como muitos dos crentes nos dias de hoje. O samaritano era considerado herege pelos dois religiosos que passaram, a passos largos, diante do homem caído à beira da estrada; entretanto, é o exemplo dele que Jesus

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recomenda seguir. Foi justamente este bondoso herege que, com obras, provou que tinha mais fé que os outros dois. Ele deveria ser um ponto de referência para determinadas pessoas que vivem a criticar a crença dos outros. Fiquem certos, de uma vez por todas, que, para Deus, somente será justificado quem praticar a lei de amor; lembrem-se: “A Deus ninguém engana” (Gl 6,7). Lc 19,1-10: “Tendo Jesus entrado em Jericó, ia atravessando a cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, o qual era chefe de publicanos e era rico. Este procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, porque era de pequena estatura. E correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque havia de passar por ali. Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa; porque importa que eu fique hoje em tua casa. Desceu, pois, a toda a pressa, e o recebeu com alegria. Ao verem isso, todos murmuravam, dizendo: Entrou para ser hóspede de um homem pecador. Zaqueu, porém, levantando-se, disse ao Senhor: Eis aqui, Senhor, dou aos pobres metade dos meus bens; e se em alguma coisa tenho defraudado alguém, eu lho restituo quadruplicado. Disselhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, porquanto também este é filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido”. Aqui, nesse passo, temos o tiro mortal na ideia da salvação ”de graça”. A fala de Jesus “hoje veio a salvação a esta casa”, é significativa, pois foi a mudança de atitude por parte de Zaqueu, que levou a essa consequência, nada, portanto, de salvar-se somente por crer em Jesus. Crer em Jesus ele, Zaqueu, creu, porém, foi pela sua nova postura diante da vida que a salvação chegou à sua casa. É dentro deste conceito, que “o filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido”, muito diferente da salvação “de graça”, pregada por aí. Jo 13,34-35: “Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos". Se o critério para a salvação fosse outro não havia nem sentido Jesus mandar seus discípulos amarem uns ao outros, como ele os havia amando. Muitas pessoas insistem em pegar frases soltas da Bíblia para tentarem justificar seus pensamentos. Ora, não há como afastar a frase do seu contexto imediato, e de todo o conjunto da Bíblia. E o que é mais curioso é que sempre dizem que somos nós é que fazemos isso. Aos que querem isolar passagens, em Dt 28,30 temos uma que servirá como um bom exemplo: “Desposar-te-ás com uma mulher, porém outro homem dormirá com ela; edificarás uma casa, porém não morarás nela; plantarás uma vinha, porém não aproveitarás o seu fruto”. Veja que ela, fora do contexto, é uma coisa absurda que Deus propõe a fazer. Entretanto, dentro do contexto é apenas uma ameaça que Deus está fazendo; vejamos no versículo 15 o início da narrativa: “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão”. O que vemos então? É pura e simplesmente “Deus” dizendo ao povo hebreu que, se não guardasse os seus mandamentos, Ele iria aplicar várias maldições, entre elas a do versículo 30, que escolhemos para exemplo. Essa narrativa, diga-se de passagem, está confirmando que não existe inferno, pois, se ele fosse real como querem alguns, “Deus” teria dito: “se não cumprirem meus mandamentos irão para o fogo do inferno”. Até mesmo porque: “Assim, também, não é vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca” (Mt 18,14). Se é vontade de Deus que ninguém se perca; ninguém se perderá e pronto! Quanto à questão da justiça divina, que muitas vezes falamos, podemos ter um bom exemplo na legislação brasileira, provavelmente a de muitos outros países, que assegura a todos os filhos (herdeiros) partes iguais na herança de seus pais, quando estes morrerem. Isso todos nós consideramos como um avanço da sociedade, pelo motivo de que, anteriormente, alguns pais davam cotas maiores, ou às vezes até tudo, para um dos filhos, em detrimento do restante. Ora, não acreditamos que a legislação divina seja pior que a humana para dar o reino

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do céu, caso seja um lugar circunscrito, a alguns privilegiados em detrimento de quase a totalidade das pessoas que formam a humanidade terrena. É inconcebível isso! Parece-nos que os evangélicos tomam de João e de Paulo a sua crença sobre a salvação, por isso achamos oportuno trazer ao nosso estudo as considerações que a nossa amiga Lúcia da Silveira Sardinha Pinto Souza (1966- ), ex-evangélica, fez a respeito da “salvação pela fé” a um evangélico:
A doutrina teológica central das igrejas evangélicas ensina a salvação pela fé através da graça, por acreditar que Jesus morreu na cruz por nossos pecados. Entretanto, esta forma de salvação NÃO é ensinada em Mateus, Marcos e Lucas (Evangelhos Sinóticos), que são os Evangelhos mais antigos, embora se tratem de cópias de cópias, conforme já falamos. O Evangelho de Marcos é considerado o mais antigo, seguido pelo de Mateus e Lucas, e então pelo de João (escrito cerca de 90 anos d.C.). A doutrina da salvação pela fé e redenção vem do livro de João, o último Evangelho a ser escrito. Nos Evangelhos Sinóticos, NÃO HÁ UMA ÚNICA PALAVRA sobre ter que acreditar em Jesus a fim de ir para o céu. Com exceção de Marcos 16:16, que é considerado pela maioria dos estudiosos bíblicos como uma interpolação, ou uma falsificação, considerando que muitos dos primeiros manuscritos do Evangelho de Marcos não contêm este versículo, Marcos nunca escreveu nada sobre ter que acreditar que Jesus morreu por você ou sobre "salvação pela fé". Os Evangelhos Sinóticos começaram a ser escritos por volta de 50 anos depois de Cristo. Se "ter que crer em Jesus para ser salvo" fosse a doutrina máxima do Cristianismo daquele tempo, por que é que Mateus, Marcos e Lucas não falam nada a respeito disso? Teriam omitido algo tão importante? De fato, Jesus disse que tudo o que você tem que fazer para Deus perdoar os seus pecados é isto: Mateus 6:14 "Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará". Quando alguém pergunta a Jesus diretamente o que ele tinha que fazer para ser salvo e ter a vida eterna, Mateus claramente registra uma salvação pelas obras: Mateus 19:16-21 "E eis que alguém, aproximando-se, lhe perguntou: Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom, só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. E ele lhe respondeu: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; o que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me". Ainda em Mateus, Jesus pregou sobre as bem-aventuranças que enfatizam que aqueles que têm bom caráter e boas atitudes herdarão o Reino de Deus, que é uma outra maneira de dizer que eles irão para o céu. Mateus 5:3 "Bem - aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus". Mateus 5:4 "Bem - aventurados os que choram, porque serão consolados". Mateus 5:5 "Bem - aventurados os mansos, porque herdarão a terra". Mateus 5:6 "Bem - aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos". Mateus 5:7 "Bem - aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia". Mateus 5:8 "Bem - aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus". Mateus 5:9 "Bem - aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus". Já no Evangelho de João, que foi escrito mais ou menos 40 anos depois do Evangelho de Mateus, nós temos versículos tais como:

162 João 3:16 "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna". João 3:18 "Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus". João 3:36 "Por isso quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus". João 8:24 "Por isso eu vos disse que morrereis nos vossos pecados; porque se não crerdes que eu sou morrereis nos vossos pecados". João 11:25 "Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá". Agora dê uma olhada no livro de Marcos. Ele também não menciona que você tem que acreditar em Jesus para ser salvo, exceto por um versículo no último capítulo de Marcos: Marcos 16:16 "Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado". Entretanto, repito, a maioria dos estudiosos acredita que este versículo é uma interpolação, ou uma falsificação, considerando que muitos dos primeiros manuscritos do Evangelho de Marcos não contêm este versículo, e além disso ele não se encaixa com todo o resto de Marcos que não ensina a "salvação pela fé". Tirando a parte da interpolação, Marcos nunca escreveu nada sobre ter que acreditar que Jesus morreu por você, sobre salvação pela fé ou sobre o conceito de redenção. Do mesmo modo, o Evangelho de Lucas é também como o Evangelho de Mateus e de Marcos e não menciona crença na "salvação pela fé". É claro que os evangélicos responderão dizendo que temos que colocar todos os Evangelhos juntos para se obter a história completa. Porém, os Evangelhos Sinóticos começaram a ser escritos só por volta de 50 anos depois de Cristo, portanto, se a doutrina da salvação pela fé fosse ponto central da pregação de Jesus, não era de se esperar que tanto Mateus quanto Marcos e Lucas escrevessem sobre isto de maneira muito clara em seus evangelhos? Por que ela não é mencionada de modo algum nos três primeiros Evangelhos? A razão lógica nos diz que eles nunca ouviram tal coisa e nem apoiavam tal ideia, porque ela só se desenvolveu mais tarde quando os primeiros líderes cristãos decidiram adicionar tal doutrina, no então Evangelho de João. O Evangelho de João foi o resultado do desenvolvimento da teologia da igreja daquele tempo. É neste livro que encontramos os versículos sobre salvação pela fé, sobre nascer de novo, sobre redenção, e sobre ter que acreditar que Jesus morreu por nossos pecados. Em muitas de suas páginas, você encontrará Jesus dizendo algo sobre ter que acreditar nele. Quando os evangélicos citam versículos do Evangelho sobre ser salvo, eles sempre se referem a João. Não é de se surpreender que para muitos evangélicos o Evangelho de João é o favorito. Todos os versículos mencionados sobre ter fé e acreditar em Jesus são do Evangelho de João. Mas é muito estranho que apenas no último Evangelho a ser escrito, que surgiu cerca de 90 anos d.C., seja o único a falar sobre "termos que acreditar em Jesus" para sermos salvos, isso ninguém pode negar. A Teologia da Salvação se desenvolveu no meio da Igreja enquanto os livros e cartas do Novo Testamento ainda estavam sendo escritos. Repare que, de acordo com Marcos, Cristo era um homem; mas, de acordo com Mateus e Lucas ele era um semideus; enquanto João insiste que ele era o próprio Deus. É interessante notar que Lucas, em seu Evangelho, por não ter conhecido Jesus pessoalmente, fez uma acurada investigação colhendo relatos das testemunhas oculares, e escreveu então a Teófilo um relato em ordem sobre tudo o que se passou. Dos Evangelhos Sinóticos, o de Lucas é o que foi escrito de maneira mais organizada. Ele fez o que um repórter faria hoje em dia. Entrevistou as testemunhas oculares que presenciaram tudo o que aconteceu na morte e ressurreição de Jesus e que também relataram tudo o que o Mestre ensinou. E o interessante é que no relato das testemunhas oculares, NÃO HÁ NADA sobre "ter que acreditar em Jesus" para ser salvo. Isto não é estranho? Porém, em Atos dos Apóstolos, Lucas passa a falar sobre "salvação pela fé" e não é muito difícil adivinhar o porquê disso - ele era companheiro e colaborador

163 do apóstolo Paulo, aquele cuja ênfase da pregação é a "salvação pela fé". É óbvio que quando Lucas escreveu Atos dos Apóstolos, ele já estava sob forte influência das ideias paulinas. A ênfase da pregação de Paulo está na salvação pela graça, pela fé e não pelas obras, como vemos em: Efésios 2:8-9 "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie". Entretanto, Paulo jamais se encontrou com Jesus (pelo menos não fisicamente)! Ele também nunca escreveu nada sobre o que Jesus disse. E considerando que ele nunca esteve com o Cristo histórico, ele obviamente não sabia e nem era qualificado para nos contar o que o Cristo histórico tinha ensinado quando esteve na Terra. Em compensação Tiago, que segundo a Bíblia Anotada por Scofield (Protestante), era irmão de Jesus (Mt. 13:55; Mc. 6:3; Gl. 1:18-19 "Decorridos três anos, então subi a Jerusalém para avistar-me com Cefas, e permaneci com ele 15 dias; e não vi outro dos apóstolos, senão a Tiago, o irmão do Senhor" ), e foi o chefe da primeira igreja cristã em Jerusalém, além de ter sido irmão de sangue de Jesus e ter convivido com o Mestre, é conhecido como o apóstolo das obras, pois a ênfase de sua carta está nas boas obras: Tiago 2:14 "Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode acaso semelhante fé salvá-lo?" Tiago 2:17 "Assim também a fé, se não tiver obras, por si só está morta". Aqui há, claramente, duas doutrinas opostas em jogo... qual devemos seguir? A que nos é ensinada nos Evangelhos Sinóticos e por Tiago; ou a que está no Evangelho de João, último Evangelho a ser escrito (cerca de 90 anos d.C.) e os ensinos de Paulo que não conviveu e nem conheceu o Jesus histórico? Este é um questionamento justo, não acha?" (SOUZA, L. S. S. P. http://www.apologiaespirita.org/apologia/artigos/025_Salvacao_pela_fe_ou_pel as_obras.pdf)

Antes de encerrar, não podemos deixar de falar sobre os rituais de sacrifícios ou rituais de expiação pelo pecado. A maioria das pessoas nem tem ideia do que se fazia na época de Moisés, quando foram, supostamente, instituídos por Deus. Dizemos supostamente porque o profeta Jeremias afirmou que: “[quando] os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios”. (Jr 7,21-22). Lv 1,1-9: “Iahweh chamou Moisés e da Tenda de Reunião falou-lhe, dizendo: 'Fala aos israelitas; tu lhes dirás: Quando um de vós apresentar uma oferenda a Iahweh, podereis fazer essa oferenda com animal grande ou pequeno. Se a sua oferenda consistir em holocausto de animal grande, oferecerá um macho sem defeito; oferecê-lo-á à entrada da Tenda da Reunião, para que seja aceito perante Iahweh. Porá a mão sobre a cabeça da vítima e esta será aceita para que se faça por ele o rito de expiação. Em seguida imolará o novilho diante de Iahweh, e os filhos de Aarão, os sacerdotes, oferecerão o sangue. Eles o derramarão por todos os lados, sobre o altar, que se encontra à entrada da Tenda da Reunião. Em seguida esfolará a vítima e a dividirá em quartos, e os filhos de Aarão, os sacerdotes, porão fogo sobre o altar e colocarão a lenha em ordem sobre o fogo. Depois os filhos de Aarão, os sacerdotes, colocarão os quartos, a cabeça e a gordura em cima da lenha que está sobre o fogo do altar. O homem levará com água as entranhas e as patas, e o sacerdote queimará tudo sobre o altar. Este holocausto será uma oferenda queimada de agradável odor a Iahweh”. (Bíblia de Jerusalém) (a mesma coisa está em Lv 1,10-13, para ofertas de gado miúdo e em Lv 1,14-17, para a de aves). Ficamos a imaginar que “belo” quadro nós podemos “pintar” com as determinações acima: sangue dos animais para tudo quanto é lado, mais parecendo com um ritual de magia negra. (Cruz!). Não podemos deixar de classificar esses rituais como próprios de religiões primitivas, nas quais achavam que os deuses aceitavam o sangue e a vida dos animais – algumas até de seres humanos –, como forma de perdoar seus “pecados”. O ritual de expiação, segundo os tradutores da Bíblia de Jerusalém:

164 A Expiação é o sacrifício pelo qual o homem que ofendeu a Deus, transgredindo a aliança, pode voltar à graça. O animal oferecido em sacrifício (kipper) foi interpretado como resgate ( koper; cf. Ex 30,12). Nos sacrifícios de expiação, os ritos de sangue desempenhavam papel primordial (17,11; cf. 4,1+; 4,12+). Conhecida pelos assírio-babilônicos e pelos cananeus, a expiação ligou-se aos fundamentos da Lei israelita. […] (Bíblia de Jerusalém, p. 162). (grifo nosso).

É, sem dúvida alguma, plágio dos rituais de outros povos, portanto, pagãos. Ao quererem transferir tal barbaridade à pessoa de Cristo, é onde reside o grande problema das religiões tradicionais, pois pensam que com um ritual totalmente pagão Deus irá “apagar” os pecados da humanidade. Da forma que vemos, são até incoerentes, por que para o sacrifício de Cristo na cruz ser algo desse tipo, faltou: a) “Porá a mão sobre a cabeça da vítima e esta será aceita”; b) “oferecerão o sangue. Eles o derramarão por todos os lados, sobre o altar”; c) “Em seguida esfolará a vítima e a dividirá em quartos”; d) “ o sacerdote queimará tudo sobre o altar” para que fosse “de agradável odor a Iahweh”. Tudo isso estritamente dentro das normas do ritual de expiação, mencionadas no passo acima citado (Lv 1,1-10). Ademais, como sempre vimos dizendo, os rituais eram feitos para pecados já cometidos, nunca para pecados futuros, daí precisamos arrumar um segundo Cristo, para ser sacrificado pelos pecados cometidos após a morte do primeiro Cristo; procedimento que teria que ser feito, novamente, com um terceiro Cristo, quarto, quinto,... E, talvez, o que vemos de maior importância, pois trata-se do valor dos sacrifícios. Considerando que “não falei nada nem dei ordem alguma sobre holocaustos e sacrifícios” (Jr 7,22) e “aprendei o que significa misericórdia quero, e não sacrifícios” (Os 6,6; Mt 9,13; 12,7), como atribuir algum valor expiatório aos sacrifícios, incluindo, ai, o que atribuem a Jesus? E, finalizando, colocaremos essa frase de Jesus: “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras. Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai”. (Jo 14,10-12). Veja bem: as obras que Jesus faz não vem dele, mas do Pai, e ele afirma que podemos fazer essas mesmas obras e até maiores; nos dá a certeza que as obras que fazemos serão para cumprir a vontade de Deus. Mas, quais são as obras de Jesus? No tempo que passou junto de nós, curou enfermos, deu vista a cegos, curou paralíticos, libertou pessoas de espíritos maus, enfim, somente obras de amor, o amor operante de que já falamos por várias vezes.

165

Toda Escritura é mesmo inspirada?
Sempre nos aparecem pessoas defendendo a origem divina da Bíblia, usando, para sustentar essa posição, da seguinte passagem: “Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, preparado para toda boa obra”. (2Tm 3,16-17). Ora, como foram os homens que a escreveram, retirar, dela mesma, algo para provar sua veracidade não seria agir com bom senso. É como aceitar o argumento de um falsário de que aquilo que ele fez é verdadeiro. Como já dissemos, em outras oportunidades, usar desse tipo de argumentação é ficar, literalmente, rodando em círculo. Aliás, os que fazem isso são, normalmente, aqueles que dificilmente leem alguma coisa fora do meio religioso em que vivem. Aí vale a frase: “Quem ouve um sino só escuta um som, não podendo, portanto, saber se está afinado” (LETERRE, 2004). Essa forma de argumentação é, segundo Rodrigo Farias (?- ), do tipo “Raciocínio circular ou Petição de Princípio”, que assim explica:
Esse é um erro comuníssimo em debates ou pregações religiosas. Trata-se simplesmente de afirmar a mesma coisa com outras palavras. Alguns exemplos: 1. "Por que a Bíblia é a Palavra de Deus? Ora, porque ela foi inspirada pelo próprio Criador." ou, ainda, no que eu chamaria de "variação Tostines": 2. "A Bíblia é perfeita porque é a Palavra de Deus. E como sabemos que ela é a Palavra de Deus? Pela sua perfeição." Esse exemplo é fácil de encontrar, especialmente nos meios evangélicos mais conservadores. É importante ressaltar que ele foi posto aqui apenas para ilustrar um tipo de raciocínio falacioso muito frequente, não para desmerecer a Bíblia ou a crença de quem quer que seja. Um exemplo laico agora: 3. "Eu acho que alpinismo é um esporte perigoso porque é inseguro e arriscado." Dizer que algo é "inseguro e arriscado" não é o mesmo que dizer que ele é "perigoso"? Ora, o que essa "explicação" acrescentou que justificasse a ideia de que alpinismo é perigoso? Nada. Simplesmente, repetiu-se a primeira afirmação com outras palavras. 4. "Por que eu sou a pessoa mais indicada para o trabalho? Porque eu descobri que, dentre todos os outros candidatos, e considerando minhas qualificações, eu sou a melhor pessoa para o trabalho." Valem as mesmas observações. Porém prestemos atenção num detalhe: às vezes, quando a "justificativa" é muito longa, podemos nos perder e não notarmos que a pessoa acabou não dando evidências para aquilo que disse. Um exemplo trágico poderia ser a frase de Goebbels, propagandista do regime nazista alemão: "Uma mentira, repetida muitas vezes, acaba se tornando uma verdade." Afirmações muito repetidas podem ganhar um status tal que as pessoas podem nunca ter parado para pensar realmente no porquê de acreditarem nelas. Crenças inculcadas desde a infância ou em períodos de fragilidade emocional são casos típicos. Por isso, tenhamos a máxima prudência com aquilo que nos chega aos ouvidos e com a maneira como abordaremos certas crenças arraigadas num debate; antes de questionar os outros, convém darmos uma olhada na nossa própria fé em certas premissas, que talvez nunca tenhamos analisado criticamente. (FARIAS, 2007, Internet).

166

O filósofo Baruch de Espinosa (1632-1677), em seu livro Tratado Teológico-Político, fez uma interessante observação, que é atualíssima; vejamo-la:
Toda a gente diz que a Sagrada Escritura é a palavra de Deus que ensina aos homens a verdadeira beatitude ou caminho da salvação: na prática, porém, o que se verifica é completamente diferente. Não há, com efeito, nada com que o vulgo pareça estar menos preocupado do que em viver segundo os ensinamentos da Sagrada Escritura. É ver como andam quase todos fazendo passar por palavra de Deus as suas próprias invenções e não procuram outra coisa que não seja, a pretexto da religião, coagir os outros para que pensem como eles. Boa parte, inclusive, dos teólogos está preocupada é em saber como extorquir dos Livros Sagrados as suas próprias fantasias e arbitrariedades, corroborando-as com a autoridade divina. (ESPINOSA, 2003, p. 114).

Falando a respeito das interpretações, que visam esconder as contradições existentes na Bíblia, Espinosa apresenta um argumento desconcertante, tanto quanto oportuno, qual seja:
Os comentadores, porém, na tentativa de conciliar essas contradições manifestas, inventa cada um aquilo que pode e o engenho lhe deixa, e, enquanto estão assim adorando as letras e as palavras da Escritura, mais não fazem, como já o dissemos, que expor os autores da Bíblia ao ridículo, a ponto de parecer até que eles não sabiam falar nem expor com nexo aquilo que tinham para dizer. (ESPINOSA, 2003, p. 181).

E, ainda, sobre os que creem cegamente em tudo que consta da Bíblia, não deixou, também, de fazer suas valiosas considerações, com o seguinte teor:
Julgam que é piedoso não se fiar na razão e no próprio juízo e que é ímpio duvidar daqueles que nos transmitiram os livros sagrados: mas isso não é piedade, é pura demência! Afinal, pergunto eu, o que é que os preocupa? O que é que receiam? Porventura a religião e a fé só podem ser mantidas se os homens forem totalmente ignorantes e despedirem definitivamente a razão? Se é isso o que pensam, então é porque a Escritura lhes inspira mais medo que confiança. (ESPINOSA, 2003, p. 225-226).

Sempre estamos recorrendo a esse renomado filósofo, porquanto, vemos muito do que fala como coisas bem atuais, que, se não o citássemos como origem, certamente, elas seriam tomadas como sendo de um autor hodierno. Uma posição que merece ser lembrada é a dos estudiosos Russel N. Champlin (1933- ) e J. M. Bentes (1932- ), constante de um dos volumes da obra Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia, da qual transcrevemos os trechos:
Finalmente, devemos lembrar que as declarações de que a Bíblia não contém erro alicerçam-se sobre o dogma humano e levaram séculos para se desenvolver. A própria Bíblia não revindica isso para si mesma. […] […] Mas, supor que eles [os autores sagrados] tivessem de estar certos em tudo não passaria de dogmas humanos que precisavam de séculos para se desenvolver. Os próprios autores não reivindicaram inerrância; e mesmo que o tivessem feito, não poderiam comprová-la. Aquele que precisa apelar para o mito da inerrância é um infante espiritual que precisa de mamadeira adredemente preparada. […] (CHAMPLIN e BENTES, 1995a, p. 36) (grifo nosso)

Tiro mortal: “aquele que precisa apelar para o mito da inerrância é um infante espiritual que precisa de mamadeira adredemente preparada”. Não vamos, neste presente estudo, relacionar textos bíblicos para provar que eles não são inspirados, porquanto já fizemos isso em várias outras ocasiões; apenas deixaremos registrado que nem tudo é o que nos parece ser:

167 Muitos anos se passariam, porém, antes que o jeovismo se tornasse uma religião do livro. Os exilados haviam levado muitos rolos do arquivo real de Jerusalém consigo para a Babilônia, e lá estudaram e editaram esses documentos. Se tivessem permissão de voltar para casa, esses registros da história e do culto do seu povo poderiam desempenhar um importante papel na restauração da vida nacional. Mas os escribas não encaravam esses Escritos como sacrossantos e se sentiam livres para acrescentar novas passagens, alterando-as para adequá-las à suas novas circunstâncias. Não tinham ainda noção alguma de texto sagrado. Na verdade, existiam muitas histórias no Oriente Médio sobre tábuas celestes que haviam descido miraculosamente à terra e comunicado conhecimentos secretos, divinos. Corriam histórias em Israel sobre as pedras gravadas que Jeová dera a seu profeta Moisés, que falara com ele face a face (4). Mas os rolos do arquivo de Judá não pertenciam a esse grupo e não desempenhavam nenhum papel no culto de Israel. _______ (4) Geo Widengren. The Ascension of the Apostle and the Heavenly Book , Uppsala e

Leipzig. 1950, passim; Wilfred Cantwell Smith, What Is Scripture? A Comparative Approach, Londres, 1993, p. 59-61.

(ARMSTRONG, 2007, p. 17-18) (grifo nosso). Embora fossem reverenciados, esses textos ainda não haviam se tornado “Escritura”. As pessoas sentiam-se livres para alterar Escritos mais antigos, mas havia um cânone de livros sagrados prescritos. Mas eles começaram a expressar as aspirações mais elevadas da comunidade. Os deuteronomistas que celebravam a reforma de Josias estavam convencidos de que Israel se encontrava no limiar de uma nova era gloriosa; contudo, em 622 ele foi morto num conflito em o Exército egípcio. […] (ARMSTRONG, 2007, p. 30) (grifo nosso). […] No fim do século II, houve uma explosão de piedade apocalíptica. Em novos textos, judeus descreveram visões escatológicas em que Deus intervinha poderosamente nos negócios humanos, estraçalhava a presente ordem corrupta e inaugurava uma nova era de justiça e pureza. Enquanto lutava para encontrar uma solução, o povo de Judá dividiu-se numa miríade de seitas, cada uma insistindo que somente ela era o verdadeiro Israel. (40). Esse foi, contudo, um período bastante criativo. O cânone da Bíblia ainda não fora finalizado. Ainda não havia Escritura definitiva, nenhuma ortodoxia, e poucas seitas sentiam-se obrigadas a se conformar a leituras tradicionais da Lei e dos Profetas. Algumas até se sentiam em liberdade para escrever Escrituras inteiramente novas. A diversidade do final do período do Segundo Templo foi revelada quando a biblioteca da comunidade de Qumram foi descoberta em 1942. _______
(40) Jacob Neusner, “Judaism and Christianity in the First Century”, in Philip R. Davies e Richard T. White (orgs.) A Tribute to Geza Vermes; Essays in Jewish and Christian Literature and History, Sheffield, 1990, p. 256-7.

(ARMSTRONG, 2007, p. 46-47) (grifo nosso).

Portanto a nossa proposta aqui será apenas a análise dessa frase com a qual abrimos esse estudo. Entretanto, para uma visão geral, traremos a seguinte informação resultante do grupo The Jesus Seminar (Seminário de Jesus), que contou, entre exegetas e teólogos, com cerca de duzentos acadêmicos, que se debruçaram, por sete anos, no exame dos Evangelhos.
Em última análise, esses acadêmicos chegaram à conclusão de que Jesus jamais disse 82% do que os evangelhos atribuem a ele. A maior parte dos 18% restantes foram considerados duvidosos, sobrando apenas 2% de dizeres incontestavelmente autênticos. (STROBEL, 2001, citando Gregory A. BOYDE, Jesus under siege, Wheaton, Victor, 1995, p. 88).

Ao que nos parece a informação de Boyde, em relação aos 2%, pode não estar totalmente correta, porquanto os percentuais apurados no Seminário de Jesus (SJ), têm outros valores:

168 […] Os pesquisadores do SJ chegaram a concluir que apenas 18% (dezoito por cento) do total de palavras atribuídas a Jesus nos Evangelhos podem ser realmente consideradas autênticas e que apenas 16% (dezesseis por cento) do total de ações a ele atribuídas nos Evangelhos pode ser, de fato, consideradas autênticas, ou seja, aproximadamente 82% das palavras e 84% das ações atribuídas a Jesus nos Evangelhos não são verdades históricas, mas crenças cristãs (cf. FUNK & THE JESUS SEMINAR, p. 1) (SOUZA, 2011, p. 67) (grifo nosso).

Isso leva-nos a crer que Boyde pegou os 18% e deduziu 16%, sobrando os 2%, quando na realidade, isso não poderia ter sido feito, pois versam sobre temas diferentes, ou seja, enquanto um trata de 18% das palavras o outro já se refere a 16% das ações. Mesmo levando-se em conta esses dois percentuais distintos, vê-se que a coisa é muito mais séria do que, inicialmente, poder-se-á supor. Uma outra opinião, que reputamos de grande valor, é a do ex-evangélico Bart D. Ehrman (1955- ), porquanto ele é considerado, segundo os entendidos, a maior autoridade em Bíblia do mundo. Ehrman é Ph.D. em Teologia pela Princeton University e dirige o Departamento de Estudos Religiosos da University of North Carolina, Chapel Hill. É especialista em Novo Testamento, igreja primitiva, ortodoxia e heresia, manuscritos antigos e na vida de Jesus. Ehrman gravou uma série de conferências, muito populares nos Estados Unidos, para a Teaching Company, além de ser prefaciador do livro Evangelho de Judas, publicado recentemente. Leiamos o que ele afirma em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse?:
[...] Eu sempre voltava a meu questionamento básico: de que nos vale dizer que a Bíblia é a palavra infalível de Deus se, de fato, não temos as palavras que Deus inspirou de modo infalível, mas apenas as palavras copiadas pelos copistas – algumas vezes corretamente, mas outras (muitas outras!) incorretamente? De que vale dizer que os autógrafos (isto é, os originais) foram inspirados? Nós não temos os originais! O que temos são cópias eivadas de erros, e a vasta maioria delas são centúrias retiradas dos originais e diferentes deles, evidentemente, em milhares de modos. (EHRMAN, 2006, p. 17). (grifo nosso). [...] Uma coisa é dizer que os originais foram inspirados, mas a verdade é que não temos os originais. Então, dizer que eles foram inspirados não me serve de grande coisa, a não ser que eu possa reconstruir os originais. E além disso, a vasta maioria dos cristãos, em toda a história da Igreja, não teve acesso aos originais, fazendo de sua inspiração um objeto de controvérsia. Nós não apenas não temos os originais, como não temos as primeiras cópias dos originais. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou as cópias das cópias das cópias dos originais. O que temos são cópias feitas mais tarde, muito mais tarde. Na maioria das vezes, trata-se de cópias feitas séculos depois. E todas elas diferem umas das outras em milhares de passagens. (EHRMAN, 2006, p. 20). (grifo nosso). Em suma, meus estudos do Novo Testamento grego e minhas pesquisas dos manuscritos que o contêm me levaram a repensar radicalmente o meu entendimento do que é a Bíblia. Antes disso – a começar de minha experiência de novo nascimento no ensino fundamental, passando por meu período fundamentalista no Moody, até chegar aos meus tempos de evangélico em Wheaton -, minha fé baseava-se completamente em uma certa visão da Bíblia como palavra infalível de Deus, integralmente inspirada. Agora, deixei de ver a Bíblia desse modo. A Bíblia passou a ser para mim um livro completamente humano. Do mesmo modo como os copistas humanos copiaram, e alteraram, os textos das Escrituras, outros autores humanos escreveram os originais dos textos das Escrituras. Ela é um livro humano do começo ao fim. E foi escrita por diferentes autores humanos, em diferentes épocas e em diversos lugares para atender a diferentes necessidades. Muitos desses autores sem dúvida se sentiam inspirados por Deus para dizer o que disseram, mas tinham suas próprias perspectivas, suas próprias crenças, seus próprios pontos de vista, suas próprias necessidades, seus próprios desejos, suas próprias compreensões, suas próprias teologias. Tais

169 perspectivas, crenças, pontos de vista, necessidades, desejos, compreensões e teologias deram forma a tudo o que eles disseram. Por todas essas razões é que esses escritores diferem um do outro. Entre outras coisas, isto significava que Marcos não disse a mesma coisa que Lucas porque não quis dar a entender o mesmo que Lucas. João é diferente de Mateus – eles não são os mesmos. Paulo é diferente dos de Atos dos Apóstolos. E Tiago é diferente de Paulo. Cada autor é um autor humano e precisa ser lido por aquilo que ele (supondo que se trate sempre de autores homens) tem a dizer. A Bíblia, feitas todas as contas, é um livro inteiramente humano. Essa era uma perspectiva inédita para mim, obviamente em tudo distinta da visão que eu tinha quando era um cristão evangélico – e que não é a visão da maioria dos evangélicos de hoje. (ERMAN, 2006, p. 21-22) (grifo nosso).

Mas será que Ehrman não estaria sendo radical? É o que veremos no decurso deste estudo. Ele certamente tem razão, quando diz:
[…] Para os escritores do Novo Testamento, incluindo nosso mais antigo autor, Paulo, as “escrituras” apontavam para a Bíblia judaica, a coletânea de livros que Deus dera a seu povo e que predizia a vinda do Messias, Jesus”. (EHRMAN, 2006, p. 40) (grifo nosso).

Em relação à Bíblia judaica, surge-nos um outro problema, porquanto a quantidade de livros que ela possuía não é a mesma que hoje vemos no Antigo Testamento constante das bíblias cristãs:
Os judeus tinham outros livros, que eram também muito importantes para sua vida religiosa, como por exemplo os livros dos profetas (como Isaías, Jeremias e Amós), os poéticos (Salmos) e os históricos (como Josué e Samuel). Por fim, algum tempo depois do início do cristianismo, uma série desses livros hebraicos – vinte e dois deles – passou a ser considerada cânon sagrado das Escrituras, a Bíblia judaica atual, aceita pelos cristãos como a primeira parte do cânon cristão, o Antigo Testamento (2). _______
(2) Para um esboço da formação do cânon judaico das Escrituras, ver: SANDERS, James. “Canon, Hebrew Bible”. In: FREEDMAN, David Noel (Ed.). The anchor Bible dictionary. New York: Doubleday, 1998, p. 1838-1852.

(EHRMAN, 2006, p. 30) (grifo nosso).

Essa informação, sobre a quantidade de livros, pode ser confirmada em Flávio Josefo (37-103 d.C.), um historiador hebreu, autor de História dos Hebreus, obra que, talvez, possa ser a fonte de Ehrman:
[...] Não pode haver, de resto, nada de mais certo do que os escritos autorizados entre nós, pois que eles não poderiam estar sujeitos a controvérsia alguma, porque só se aprova o que os profetas escreveram há vários séculos, segundo a verdade pura, por inspiração e por movimento do espírito de Deus. Não temos pois receio de ver entre nós um grande número de livros que se contradizem. Temos somente vinte e dois que compreendem tudo o que se passou, e que se refere a nós, desde o começo do mundo até agora, e aos quais somos obrigados a prestar fé. Cinco são de Moisés, que refere tudo o que aconteceu até sua morte, durante perto de três mil anos e a sequência dos descendentes de Adão. Os profetas que sucederam a esse admirável legislador, escreveram em treze outros livros, tudo o que se passou depois de sua morte até o reinado de Artaxerxes, filho de Xerxes, rei dos persas e os quatro outros livros, contêm hinos e cânticos feitos em louvor a Deus e preceitos para os costumes. Escreveu-se também tudo o que se passou desde Artaxerxes até os nossos dias, mas como não se teve, como antes, uma sequência de profetas não se lhes dá o mesmo crédito, que aos outros livros de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito, que ninguém jamais foi tão atrevido para tentar tirar ou acrescentar, ou mesmo modificar-lhes a mínima coisa. Nós os consideramos como divinos, chamamo-los assim: fazemos profissão de observá-los inviolavelmente e morrer com alegria se for necessário, para prová-

170 lo. [...] (JOSEFO, 1990, p. 712) (grifo nosso).

Podemos concluir que, no tempo de Josefo, o Antigo Testamento só possuía vinte e dois livros, enquanto que, hoje, na Bíblia usada pelos católicos, ele possui quarenta e seis livros, e na dos protestantes apenas trinta e nove livros. Visando apenas completar as informações sobre Josefo, transcrevemos:
[…] Josefo oferece informações sobre o cânon de livros inspirados dos judeus, cujo número diz reduzir-se a “somente 22” (Contra Apião 1,37-43). O cânon conhecido por Josefo difere do da Bíblia hebraica no máximo em um único livro, pela omissão do Ecl ou do Ct. (BARRERA, 199, p. 194) (grifo nosso). […] Como, quando e quem já tinha concordado que eram especiais? Em reação a esse ponto, só dispomos de um indício fragmentário, algumas afirmações feitas por Josefo na década de 90 d.C. Nelas, Josefo, comparava as escrituras judaicas com os muitos textos conflitantes dos gregos: os judeus, dizia, ele, não tinham milhares de livros inconsistentes, mas “apenas 22, que são devidamente reconhecidos e contêm os registros de todos os tempos”. Ele não relacionava quais eram estes livros, mas é certo que se referia aos cinco livros da lei, aos treze livros de história que recuavam até a época de Artaxerxes (todos escritos, segundo acreditava ele, pelos profetas) e aos quatro “livros de hinos a Deus e preceitos para a conduta humana” (Salmos, provérbios e, presumivelmente, o Cântico dos Cânticos e o Eclesiastes). Também conhecia outros livros além desses 22, mas os considerava inferiores, embora fossem livros de história (não tinha sido escritos por profetas). (FOX, 1996, p. 100-101) (grifo nosso).

Com isso, nós ficamos diante de uma nova encruzilhada: qual delas é a verdadeira? A de Josefo, a dos católicos ou a dos protestantes? Optamos pela de Josefo. Muito provavelmente temos no historiador, escritor e professor australiano Geoffrey Norman Blainey (1930- ) a razão pela qual o Novo Testamento foi juntado ao Antigo, usado pelo judaísmo:
Durante seus dois primeiros séculos de existência, o cristianismo enfrentou um obstáculo: competia com religiões criadas havia muito tempo. Os romanos tendiam a apreciar o antigo. Adoravam os deuses antigos. Sua admiração por Homero, Platão e Aristóteles devia-se, em parte, ao fato de serem antigos. Os romanos questionavam o seguinte: se o cristianismo continha uma verdade vital, por que essa verdade não foi descoberta pelos grandes homens do passado? Para vencer esse preconceito, os cristãos enfatizaram sua ligação com a religião judaica, muito mais antiga. (BLAINEY, 2012, p. 43) (grifo nosso).

Achamos bem plausível essa explicação de Blainey, que transcrevemos de sua obra Uma breve História do Cristianismo. Um ponto importante, que não podemos relegar à segundo plano, é o fato de saber se Paulo, quando escrevia, estava pensando que suas cartas fariam parte das Escrituras. Sobre isso vejamos o que Karen Armstrong (1944- ), estudiosa do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, diz:
[…] Paulo viajou muito na diáspora e fundou comunidades na Síria, na Ásia Menor e na Grécia, determinado a disseminar o evangelho até os confins da Terra antes que Jesus retornasse. Ele escreveu cartas a seus conversos, respondendo às suas perguntas, exortando-os e explicando a fé. Paulo nem por um instante pensou que fazia uma “Escritura”; como estava convencido de que Jesus retornaria ainda durante a sua vida, nunca imaginou que as gerações futuras estudariam cuidadosamente suas epístolas. Era considerado um mestre consumado, mas tinha plena consciência de que seu temperamento explosivo significava que não era apreciado em toda

171 parte. Contudo, suas cartas às igrejas de Roma, Corinto, Galácia, Filipos e Tessalônica (29) foram preservadas, e, após sua morte, no início dos anos 60, escritores cristãos que o reverenciavam escreveram em seu nome e desenvolveram suas ideias em cartas às igrejas de Éfeso e Colossos, e redigiram cartas supostamente póstumas dirigidas a Timóteo e Tito, companheiros de Paulo. ______
(29) A autoria da primeira epístola aos tessalonicenses é discutida; talvez ela não tenha sido escrita por Paulo.

(ARMSTRONG, 2007, p. 63-64) (grifo nosso).

Portanto, apoiar-se naquilo que, no Novo Testamento, se atribui a Paulo não é uma boa alternativa para justificar-se a inspiração divina da Bíblia. E no caso especifico das cartas dirigidas a Timóteo e a Tito, por terem sido escritas após a morte de Paulo, a única maneira de preservar a autoria delas, como sendo de Paulo, é considerá-las como resultado de uma psicografia, o que irá contrariar o dogma das igrejas cristãs sobre a impossibilidade de comunicação com os mortos. E para complicar ainda mais a situação, nem mesmo sabe-se, com segurança, quem foram os autores de seus livros; incluindo os do Novo Testamento, mais recentes do que os da Bíblia judaica:
[…] Ainda hoje, muitos estudiosos relutam em chamar os documentos forjados do Novo Testamento de fraudes – afinal, é a Bíblia que estamos falando. Mas a realidade é que, por qualquer definição do termo, é isso o que eles são. Um grande número de livros dos primórdios da Igreja foi escrito por autores que alegaram falsamente ser apóstolos para enganar os leitores e fazê-los aceitar seus livros e os pontos de vista que representavam. (EHRMAN, 2010, p. 154) (grifo nosso) "Não sabemos quem escreveu os evangelhos. Quando apareceram, eles circularam anonimamente, e só mais tarde foram atribuídos a figuras importantes da Igreja primitiva. (60) Os autores eram cristãos judeus, (61) que escreviam em grego e viviam nas cidades helenísticas do Império Romano. Eram não somente escritores criativos - cada um com suas tendências particulares -, mas também redatores competentes, que editaram materiais anteriores. Marcos escreveu por volta de 70; Mateus e Lucas no final dos anos 80, e João no final dos anos 90. Os quatro evangelhos refletem o terror e a ansiedade desse período traumático. […] _______
(60) Fredricksen, Jesus, p. 19. (61) Há uma crença muito difundida de que Lucas era gentio, mas não há prova incontestável disso.

(ARMSTRONG, 2007, p. 71) (grifo nosso).

Se não temos certeza de quem, realmente, são os autores dos Evangelhos, como lhes atribuir origem divina, a não ser por puro fanatismo religioso? E quanto ao Novo Testamento como um todo, é oportuno transcrever o que Ehrman diz de sua formação:
[…] Hoje, muitos cristãos podem achar que o cânon do Novo Testamento simplesmente surgiu um dia, logo após a morte de Jesus... nada mais distante da verdade. Tendo isso claro, podemos identificar a primeira vez em que um cristão listou os vinte e sete livros do nosso Novo Testamento – nem mais, nem menos. Por mais surpreendente que possa parecer, esse cristão escrevia na segunda metade do século IV, mais ou menos trezentos anos depois que os livros do Novo Testamento tinham sido escritos. O autor foi um poderoso bispo de Alexandria chamado Atanásio. No ano 367 E.C., Atanásio escreveu sua carta pastoral anual às igrejas egípcias sob sua jurisdição e, nela, incluiu um conselho acerca de quais livros deviam ser lidos como escritura nas igrejas. Ele relaciona vinte e sete livros, com exclusão de todos os demais. Essa é a primeira instância que chegou ao nosso conhecimento de alguém declarando que esse nosso conjunto de

172 livros era o Novo Testamento. Mas nem o próprio Atanásio resolveu a questão de uma vez por todas. Os debates continuaram durante décadas, durante séculos até. Os livros que hoje chamamos de Novo Testamento não foram reunidos em um cânon e declarados Escrituras, em instância última e final, sem que se passassem centenas de anos depois que os textos em si tinham sido produzidos. (ERMAN, 2006, p. 46) (grifo nosso).

Certamente que se os livros, que compõem o Novo Testamento, foram escritos trezentos anos antes de alguém citá-los como fazendo parte dele, muita coisa pode ter sido mudada em relação ao que realmente aconteceu, pois é sabido que “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Ademais, cabe-nos a pergunta: como foram escolhidos? Encontramos a resposta em Pepe Rodríguez (1953- ), autor do livro Mentiras fundamentais da Igreja Católica, como a Bíblia foi manipulada , do qual transcrevemos:
A seleção dos evangelhos canónicos foi feita no concílio de Niceia (325) e ratificado no de Laodiceia (363). O modus operandi, ou o processo utilizado, para distinguir entre textos verdadeiros e falsos, foi, segundo a tradição, o da “eleição milagrosa”. Foram apresentados, de facto, quatro versões para justificar a preferência pelos quatro livros canónicos: 1) depois de os bispos terem rezado muito, os quatro textos voaram por si sós e foram pousar-se sobre um altar; 2) puseram todos os evangelhos em competição sobre um altar e os apócrifos caíram ao chão, enquanto os canónicos não se mexeram; 3) depois de escolhidos, os quatro foram colocados sobre o altar e foi pedido a Deus que se neles houvesse qualquer palavra falsa os fizesse cair ao chão, o que não sucedeu com nenhum deles; 4) o Espírito Santo, na forma de uma pomba, penetrou no recinto de Niceia e pousando no ombro de cada bispo sussurrou a cada um deles quais eram os evangelhos autênticos e quais os apócrifos. Esta última versão revelaria, além do mais, que uma boa parte dos bispos presentes no concílio eram surdos ou muito incrédulos, visto ter havido grande oposição à selecção – por voto maioritário, que não unânime – dos quatro textos canónicos actuais. (RODRÍGUEZ, 2007, p. 68) (grifo nosso).

Seja lá qual tenha sido a forma de escolha, dentre as aqui apresentadas, não resta dúvida que ela não teve como base nenhum critério técnico, apenas valeram-se da sorte. E é nisso que acreditam ter sido inspirados... Como o fanatismo embota a inteligência das pessoas, cegando-as completamente. Diante de tudo isso, temos que ter muito cuidado ao tirar alguma coisa das Escrituras, pois nem tudo que está lá é inspiração divina, conforme confirma-nos Paul Johnson (1928- ), autor de História do cristianismo:
[…] o estudo dos textos escriturais, aplicando os novos métodos de análise histórica e com auxílio da filologia e da arqueologia, revelaram as Escrituras como uma coletânea de documentos muito mais complexa do que se havia imaginado até então – um assombroso composto de alegorias e fatos, a ser peneirado como qualquer outra peça de literatura antiga. (JOHNSON, 2001, p. 456) (grifo nosso).

Temos que abrir a mente para aceitar, pacificamente, essa triste realidade ou seremos levados de roldão pelo maremoto causado pelas descobertas arqueológicas ou pelo resultado da análise crítica dos textos bíblicos pelos especialistas. Essa passagem foi retirada da segunda carta a Timóteo, cuja autoria alguns exegetas ainda atribuem a Paulo. A nossa pesquisa, entretanto, nos remete a uma outra hipótese. O que julgamos importante dela é que constatamos que não foi só um crítico quem colocou, sob sérias dúvidas, essa suposta autoria de Paulo. É o que passaremos a ver a partir de agora. O primeiro da lista é Ernest Renan (1823-1892), filósofo e historiador, que, na sua obra sobre a vida apostólica de Paulo, disse:

173 [...] Imperfeitas e pesadas são as Epístolas apócrifas do Novo Testamento, por exemplo as escritas a Tito e a Timóteo; [...] [...] Cabe destacar ainda que Márcion, que em geral também se inspirou na crítica dos textos de Paulo e que repudiava com convicção as Epístolas a Tito e a Timóteo, admitira sem contestar, na sua compilação, as duas Epístolas citadas. [Colossenses e Efésios]. (RENAN, 2004a, p. 17) (grifo nosso). Sobram as duas Epístolas a Timóteo e a Epístola a Tito. Grandes obstáculos oferece a autenticidade destas três epístolas. Eu as considero como peças apócrifas. Para o provar, poderia demonstrar que a linguagem destes três textos não é a de Paulo; poderia destacar uma quantidade de períodos e de expressões ou exclusivamente próprias ou particularmente utilizadas pelo autor que, sendo características, deveriam encontrar-se em proporção análoga nas outras epístolas de Paulo, o que não acontece. Além disso, faltam-lhes outras expressões, que são como a assinatura de Paulo. Poderia principalmente mostrar que estas epístolas contêm um elevado número de detalhes que não se apropriam ao autor suposto, nem aos supostos destinatários. (36) A habitual característica das cartas elaborada com uma intenção doutrinária é a de que o falsário vê o público sobre a cabeça do destinatário e escreve a este coisas muito conhecidas, muito familiares, mas que o falsário pretende fazer conhecidas do público. As três epístolas que discutimos têm, num grau elevado, esta característica. (37) Paulo, cujas cartas autênticas são tão especiais, tão precisas, Paulo que, acreditando num fim do mundo próximo, nunca supõe que virá a ser lido através dos séculos, teria sido aqui um pregador geral, despreocupado com o seu correspondente para lhe fazer sermões que não tinham nenhuma relação com ele e dirigir-lhe um pequeno código de disciplina eclesiástica, considerando o futuro. (38) Mas estes argumentos, que por si só seriam decisivos, posso perfeitamente dispensá-los. Para provar a minha tese, utilizarei apenas argumentos que o sejam por assim dizer materiais; procurarei demonstrar que não existe maneira destas epístolas encaixarem-se nem no quadro conhecido nem no quadro provável da vida de Paulo. Inicialmente muito importante é a semelhança perfeita destas três epístolas entre si, semelhança que nos impede a admiti-las como autênticas ou a repeli-las como apócrifas. As particularidades que as distinguem profundamente das outras epístolas de Paulo são as mesmas. As expressões pouco usuais ao estilo de Paulo, encontram-se por igual em todas as três. As imperfeições, que tornam a sua linguagem indigna de Paulo, são idênticas. É esquisito que cada vez que Paulo escreve aos seus discípulos, se esqueça da sua maneira corriqueira, caindo nas mesmas divagações, nas mesmas bobagens. As próprias ideias dão lugar a uma observação análoga. As três epístolas estão repletas de conselhos vagos, exortações morais de que Timóteo e Tito, familiarizados por um comércio cotidiano com as ideias do apóstolo, não tinham nenhuma necessidade. Uma espécie de gnosticismo são os erros que nelas se combatem. Nas três epístolas a preocupação do autor não muda; reconhece-se a ideia obsidiante e incansável de uma ortodoxia já formada e de uma hierarquia já desenvolvida. Muitas vezes os três escritos repetem-se entre si (39) e copiam as outras epístolas de Paulo. (40) Sem dúvida que, se estas três epístolas foram ditadas por Paulo, todas são de um determinado período da sua vida, (41) distante em muitos anos do tempo em que redigiu as outras epístolas. Qualquer hipótese que coloque entre estas três epístolas um intervalo de três ou quatro anos, por exemplo, ou que coloque entre elas algumas das outras epístolas, deve ser repudiada inteiramente. Existe apenas uma única hipótese para explicar a semelhança das três epístolas entre si e a sua dessemelhança com as outras, ou seja, que é a de que foram escritas num espaço de tempo muito curto e muito tempo após as outras, numa época em que todas as circunstâncias que rodeavam o apóstolo tinham mudado, tendo ele envelhecido e alterado as suas ideias e o seu estilo. A possibilidade de provar essa hipótese, não significa que se resolva a questão. O estilo de um homem pode mudar; mas de um estilo o mais impressionante e inimitável que nunca existiu, não se passa para um estilo prolixo e sem vigor. (42) Além disso, tal hipótese é formalmente destruída pelo que nós conhecemos, com segurança, da vida de Paulo. A seguir, isso será demonstrado. ______
36 Por exemplo, as direções solenes (confronte-se com Filém., 1; e contudo Paulo era menos amigo de Filémon do que de Tito e Timóteo); as longas dissertações que Paulo faz sobre o seu apostolado (I Tim., I, 11 e seg.; II, 7), dissertações que, sendo dirigidas a um

174
discípulo, são completamente inúteis; a enumeração das suas virtudes (II Tim., 10,11); a sua convicção na salvação final (II Tim. IV, 8; cf. I Cor., IV, 3-4; IX, 27) I Tim., I, 13, é bem do estilo de um discípulo de Paulo. I Tim., II, 2, não pode explicar-se nos últimos anos de Nero; devia ser escrito depois da proclamação de Vespasiano. Ibid. V, 18, encontra-se aí citada com graphé uma passagem de Lucas, X,7: ora o Evangelho de Lucas não existia, pelo menos como graphé, antes da morte de Paulo. Por fim a organização das igrejas, a hierarquia, o poder presbiterial e episcopal são, nessas epístolas, muito mais desenvolvidos do que seria natural supor nos últimos anos da vida de Paulo (ver. Tit. I,5 e seg. etc.; Timóteo recebeu as insígnias espirituais pela imposição das mãos do colégio dos padres de Listres: I Tim., IV,14). A doutrina sobre o casamento I Tim., II, 15; IV,3: V,14 (cf. III, 4,12; V,10) é também de uma época mais atual e está em contradição com I Cor., VII, 8 e seg., 25 e seg. O destinatário das Epístolas a Timóteo supõe-se em Éfeso; por que não se encontra nestas epístolas nenhuma comissão, nenhuma saudação específica para os efésios? 37 Observe-se, por exemplo, II Tim., III,10-11, ou melhor, I Tim., I,3 e seg., 20; Tit., I,5 e seg., e a menção de Pôncio Pilatos, I Tim., VI, 13 etc. 38 Destaca-se a insignificância da passagem I Tim., III, 114-115, que procura mostrar razão destas inúteis ampliações. 39 Compare-se I Tim., I,4; IV,7; II Tim., II,23; Tit., III,9; I Tim. III, 2; Tit., I,7; I Tim., IV,1 e seg., II Tim., III, 1 e seg.; I Tim., II,7; II Tim., I,11. Observe-se a analogia na maneira de introduzir no assunto. I Tim., 1,3, e Tit. I, 5. 40 II Tim., I,3 (Rom., I,9), 7 (Rom., VIII,15); II,20 (Rom., IX, 21); IV, 6 ( Fil., I,30; II,17; III, 12 e seg.). 41 Nas duas epístolas que lhe são dirigidas observe-se que Timóteo figura como um homem ainda jovem: I Tim., IV,12; II Tim., II,22. 42 Apesar de Lamennais ter mudado muito, o seu estilo manteve sempre a mais perfeita unidade.

(RENAN, 2004a, p. 24-26) (grifo nosso).

Na sequência, Renan faz considerações sobre estas epístolas de Paulo, demonstrando que, pelas características e pelo conteúdo, não podem ser mesmo desse autor bíblico. Vejamos também o que Robin Lane Fox (1946- ), escritor e professor de História Antiga, disse:
[...] as duas epístolas a Timóteo são postas sob suspeita pelo estilo, e são por fim desautorizadas por seu conteúdo e por sua localização (um bispo único; a falta de conhecimento de Timóteo e sua descrição descabida dos acontecimentos que o cercavam). Seus autores foram muito ousados em sua falsificação. “Pedro, apóstolo de Cristo”, “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus”, é como se dizem chamar. Talvez estivessem escrevendo o que achavam que Pedro e Paulo “devessem” ter escrito, mas ainda assim mentiram para seus leitores. Se a Primeira Epístola a Timóteo é obra do século II, bem podia estar levando em conta o terceiro Evangelho quando cita o texto sobre “o salário do trabalhador”. Também atribuída a Paulo um texto enfático contra a ordenação das mulheres: “Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio” (I Timóteo 2:12). É a Segunda Epístola a Timóteo que contém o texto que os fundamentalistas tanto idealizam: “Toda escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir” (II Timóteo 3:16). A tradução é discutível, bem como a autoridade do texto. Isto dá uma boa ideia das complexidades envolvidas na veracidade da Bíblia: o texto que foi indevidamente empregado em apoio de uma visão literal da inspiração divina de toda a Bíblia é, ele próprio, obra de um autor que mentiu sobre sua identidade. (FOX, 1996, p. 125-125) (grifo nosso).

Agora iremos ver, para ampliar a abrangência de nossa pesquisa, o que dizem alguns tradutores bíblicos, pessoas com inegáveis conhecimentos sobre a Bíblia, cujos pensamentos destacamos:
As cartas a Timóteo e a Tito são dirigidas a dois dos mais fiéis discípulos de Paulo (At 16,14; 2Cor 2,13). Elas dão diretivas para a organização e conduta das comunidades confiadas a eles. É por isso que se tornou costumeiro, desde o século XVIII, chamá-las “pastorais”. Essas cartas divergem de maneira significava de outras cartas paulinas. Há considerável diferença de vocabulário. Muitas das palavras comuns em outras epístolas desapareceram, e

175 há também uma proporção muito maior de palavras não usadas em outro lugar por Paulo. O estilo não é mais apaixonado e entusiasta, mas mitigado e burocrático. O modo de resolver problemas mudou. Paulo simplesmente condena falso ensinamento em lugar de argumentar persuasivamente contra ele. Finalmente, é difícil situar essas cartas na vida de Paulo, assim como é conhecida dos Atos dos apóstolos. É compreensível, portanto, que a autenticidade das pastorais seja disputada. Muitos explicam as diferenças postulando um Paulo mais velho, que deve ter dado muito mais espaço a um secretário (possivelmente Lucas, 2Tm 4,11) e levando em conta que nada conhecemos da vida de Paulo subsequente à sua libertação da prisão em Roma. Igual número de estudiosos rejeitam tais argumentos como subjetivos demais, e sustenta que as pastorais foram compostas por um discípulo de Paulo no fim do século I para tratar de problemas de uma igreja muito diferente. Embora não impossível em si mesma, esta hipótese não é sustentada por qualquer evidência de que cartas pseudoepigráficas fossem comuns e aceitáveis. 2Ts 2,2 e Ap 22,18 mostram que os primeiros cristãos viam a necessidade de distinguir entre escritos autênticos e forjados. Uma posição intermediária entre esses dois extremos defende-a por uma minoria que acredita que um leal seguidor de Paulo herdou três cartas que Timóteo e Tito conservaram até sua morte. Ele então expandi essas cartas, acrescentando o que pensava que seria dito por Paulo diante das circunstâncias mudadas da igreja. As pastorais então não são do Apóstolo, mas contêm fragmentos paulinos autênticos (p.e., 2Tm 1,15-18; 4,9-15; Tt 3,12-14). A falta de concordância sobre a extensão e número dos fragmentos é uma séria fraqueza dessa hipótese, que também falha em prover qualquer evidência contemporânea desta pratica editorial postulada. A natureza insatisfatória de todas as hipóteses correntes sugere que poderia ter sido um engano tratar as pastorais como um bloco unificado. Nessa aproximação, observações e afirmações são confusas. O que é visto como verdadeiro para uma carta é afirmado como válido para as outras duas. O exame minucioso, porém, revela que 1Tm e Tt são mais próximas um da outra do que ambas a 2Tm. Se a última é considerada separadamente, não há objeções convincentes de elas terem sido escritas por Paulo. Dirigidas a indivíduo, sua divergência em relação a epístolas dirigidas a igrejas tem seu paralelo nas diferenças entre as cartas de Inácio à igreja de Esmirna e ao seu bispo, Policarpo. Uma vez que se reconheça que 2Tm 4,6 não é referência à morte próxima, 2Tm se coloca naturalmente dentro do último período da prisão de Paulo em Roma (At 28,16s), quando olhava para a liberdade. Se 2Tm é aceita como autêntica, o isolamento de 1Tm e Tt no corpus paulino torna-se cada vez mais marcante. Em particular elas desenvolvem uma visão do ministério que contrasta vividamente com o ethos missionário dinâmico de Paulo (1Ts 1,6-8; Fl 2,13-16. Predomina um conceito burguês pela respeitabilidade e aceitação, 1Tm 2,1-2; 6,2; Tt 3,1-2), e as qualidades dos ministros são as requeridas de todos os burocratas (1Tm 3,1-13; Tt 1,5-9). Deste modo houve uma evolução definida nas igrejas paulinas. Uma igreja entusiástica radiante com o Espírito tornou-se um cômodo lar. Todavia, embora a liderança carismática tenha dado caminho á direção institucional, não há evidência do tipo do episcopado monárquico atestado por Inácio de Antioquia. A autoridade na igreja é colegial, e os “bispos” (1Tm 3,22-5), têm as mesmas funções que os “anciãos” (1Tm 5,17). Cada “ancião” precisa ter as qualidades de “bispo” (Tt 1,6-9). Assim, 1Tm e Tt não deveriam ser datadas muito tardiamente no primeiro século. (Bíblia de Jerusalém, Introdução às Epístolas de Paulo, p. 19631964). “Epístolas pastorais” é o nome dado aos escritos dirigidos a Timóteo e a Tito, companheiros de missão de Paulo. A expressão caracteriza bem a natureza destas cartas, desde o II século atribuídas a Paulo. Elas contêm instruções e exortações sobre o reto desempenho do ministério pastoral nas comunidades, sobre a organização da Igreja e a luta contra as heresias. As três epístolas foram escritas na mesma época e pelo mesmo autor. [...] É difícil enquadrar estes dados na vida de Paulo como nos é conhecida dos Atos e de suas epístolas autênticas. Agora Paulo está algemado (2,9), enquanto na primeira prisão em Roma vivia em prisão domiciliar (At 28,16). Clemente Romano e o Cânon de Muratori admitem que Paulo, depois da primeira prisão romana, pregou na Espanha por certo tempo,

176 foi novamente preso e por fim martirizado em Roma. Ora, as epístolas pastorais supõem viagens de Paulo no Oriente após a prisão romana (61-63). Este quadro histórico depõe contra a autenticidade das Pastorais. Além do mais, a teologia, a linguagem e o estilo, a organização da Igreja e a luta contra as heresias dificilmente se coadunam com o que sabemos de Paulo a seu tempo. A hipótese de um secretário ter redigido as epístolas enquanto Paulo estava preso a segunda vez em Roma, ou de que nestas epístolas temos fragmentos autênticos, são insuficientes para afastar as sérias objeções da crítica contra a autenticidade das Pastorais. O mais provável é que o seu autor não seja um discípulo imediato de Paulo, mas um admirador da segunda ou da terceira geração cristã. Segundo o costume da literatura helenística e judaica da época, produziu estas cartas pseudônimas, atribuindo-as a Paulo a quem considerava o maior dos apóstolos. O motivo que o levou a escrever foi o desejo de ser fiel ao evangelho pregado pelo grande apóstolo, diante da ameaça das heresias e da necessidade de organizar bem as comunidades a fim de esconjurar os perigos para a fé apostólica. Neste sentido a 1Tm e Tt podem ser vistas como a primeira constituição eclesiástica, e a 2Tm como o discurso de despedida, ou o testamento espiritual de Paulo às vésperas de seu martírio. A data de composição pode ser colocada pelo ano 100. (Bíblia Sagrada Editora Vozes, As Epístolas Pastorais , p. 1407) (grifo nosso). Introdução [...] Supôs-se que as cartas fossem de Paulo, e acreditou-se nisso durante séculos. Porém surgiu a crítica dos estudiosos e, com ela, a dúvida, como indicam as passagens em que Paulo fala de si na primeira pessoa (p. ex. 1Tm 1,11.12-16; 2Tm 4,6-8.16-18 etc.) Autenticidade As razões contra a autenticidade são fortes; referem-se à linguagem, à mentalidade, à situação proposta, e afetam as três cartas como corpo. a) O vocabulário. Segundo um cálculo cuidadoso, de 848 palavras que as três cartas usam, 306 não aparecem no resto do chamado corpo paulino, 175 não constam no resto do NT; faltam palavras típicas do vocabulário paulino, outras frequentes escasseiam, algumas mudam de significado; díkaios significa honrado, pístis é um corpo de doutrina. Estilo: apararam-se a vivacidade, a paixão e o movimento; não argumenta para provar seu ensinamento; predomina uma tonalidade pacata e suave. A língua grega é mais depurada, mais próxima do grego helenístico. b) Mentalidade. A preocupação central das três cartas é garantir as igrejas como instituição, conservar o ensinamento tradicional e defender-se das ameaças de desvio doutrinal. Para isso é preciso nomear chefes competentes e confiáveis, manter a ordem e a concórdia, regular o culto. O autor repete o adjetivo “são/sã” para referir-se à ortodoxia, fala da “verdade”, repete que “alguns se afastaram de...” Ao ímpeto de evangelizar sucede aqui o esforço por manter. c) O quadro em que as cartas se inserem não combina com o que sabemos por outras informações de Paulo. Se o apóstolo vai morrer em breve (2Tm 4,58), como pode chamar Timóteo de jovem (1Tm 4,11)? O ancião deverá ter saído da sua prisão romana para retomar sua atividade no Mediterrâneo oriental. Essas razões somadas são mais fortes, mas não determinantes. Os defensores da autenticidade as rebatem, principalmente com evasivas; que com os anos o vigor e a combatividade de Paulo amainaram; que um tema diferente exigia uma linguagem nova; que se valia de um secretário redator; que seu pensamento tinha evoluído. E que em nossa informação sobre a atividade de Paulo há importantes lacunas, e aí as cartas poderiam encaixar-se. As réplicas são fracas: um ancião muda radicalmente de vocabulário? Esquece seus temas preferidos? Teorias sobre o autor Aceitando como mais provável a não autenticidade das três cartas, pensa-se que é um discípulo imediato ou mediato, da geração seguinte. Recorre à pseudonímia, procedimento corrente naquela época. Dá às suas instruções a forma de carta, escolhendo como destinatários dois insignes personagens do círculo paulino. Aceitamos que pôde utilizar material original do

177 apóstolo. Provavelmente sentia-se herdeiro legítimo de Paulo; talvez os rivais citassem Paulo, deformando seu ensinamento. Não faltou a teoria de um compilador que teria composto e dado forma às três cartas com fragmentos autênticos do apóstolo. Nada do que foi dito diminui o valor canônico das Pastorais. São parte integrante do NT, reconhecida sempre por todas as confissões religiosas. [...] A data de composição seria o final do séc. I ou começo do séc. II. (Bíblia do Peregrino, Introdução - Primeira e segunda carta a Timóteo e carta a Tito, p. 2847-2848) (grifo nosso).

Assim, por mais três fontes diferentes, chegamos à mesma conclusão de que a Epístola, em que se encontra o passo citado, visando tornar evidente a inspiração bíblica como sendo divina, não é de Paulo. À guisa de informação, detalhamos: Bíblia do Peregrino versão do Pe. Luís Alonso Schökel (1920-1998), contou com uma equipe de quatorze colaboradores; Bíblia Sagrada Ed. Vozes, coordenação geral Ludovico Garmus (1939- ), junto com mais onze pessoas, entre tradutores e revisores, e a Bíblia de Jerusalém, em cujo corpo, composto de católicos e protestantes, havia três coordenadores e um número de dezoito tradutores/revisores. Como se vê é uma quantidade respeitável de pessoas envolvidas, cuja competência não poder-se-á ser colocada em dúvida. Em nosso estudo, deparamos com essa frase escrita de duas maneiras diferentes, as quais transcrevemos apenas o início, porquanto, é ele o que nos interessa neste momento: “Toda Escritura é inspirada por Deus é útil para instruir, [...]” “Toda Escritura divinamente inspirada, é útil para ensinar, [...]” A primeira frase é encontrada nas Bíblias pelas versões Mundo Cristão, Traduções Novo Mundo, Santuário, Vozes, Ave Maria e Paulus: de Jerusalém, do Peregrino e Pastoral e a segunda pelas versões Barsa, Loyola, Paulinas, SBB. A equipe de tradutores da Bíblia de Jerusalém, que sabemos ter sido composta de exegetas católicos e protestantes, informa-nos (p. 2077) que, na Vulgata, ela se encontra dessa forma: “Toda Escritura, inspirada por Deus, é útil.” É interessante observar a mudança na redação dessa frase, porquanto dizer que “Toda Escritura é inspirada por Deus” é uma coisa bem diferente daquilo que se quer afirmar dizendo “Toda Escritura divinamente inspirada”. A ideia que se passa nessa última frase é que existem outras Escrituras, porém não inspiradas. Ora, isto vai ao encontro da afirmação de Paulo (e da conclusão apresentada pelos vários biblicistas citados), viabilizando-a como a de maior chance de ser a mais próxima do original. Isso agora compromete os próprios tradutores bíblicos, deixando-nos a crer na possibilidade de que mais lhes preocupavam eram suas ideias do que a dos autores aos quais traduziam. A afirmação pela frase de que “Toda Escritura é inspirada por Deus”, aproxima-se daquilo que Faria, denominou de “raciocínio do '8 ou 80'”, no caso, por conta do significado da palavra “toda” nesta frase. Não podemos deixar de mencionar que há um passo que pode muito bem ser usado para defender a ideia de que, pelo menos, as cartas de Paulo faziam parte das Escrituras; vejamo-lo primeiro pela versão da Bíblia de Jerusalém: 2Pe 3,16: “Isto mesmo faz ele em todas as cartas, ao falar nelas desse tema. É verdade que em suas cartas se encontram alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem, como fazem com as demais Escrituras (d), para a própria perdição”. Em nota explicam-nos, os tradutores:
(d) Lit.; “o resto das Escrituras”, com o que se compra a compilação feita e conhecida dessas cartas. Temos aqui um dos primeiros indícios de

178 equivalência entre os escritos cristãos e os livros do AT (cf. 1Mc 12,9+, 1Rs 5,27+). (Bíblia de Jerusalém, p. 2124) (grifo nosso).

Ao verem algo que parece justificar pontos defendidos pelas Igrejas, os nobres tradutores não levaram em conta fatos importantes que podem derrubar, e de fato derrubam, aquilo que querem defender como verdade, conforme iremos ver. Estranhamos o fato de alguma obra ser considerada “Escritura”, pois todas as vezes que o termo Escrituras foi usado se refere ao Antigo Testamento, o que podemos corroborar com Geza Vermes:
[...] Finalmente, as cartas de Paulo, que já formavam um corpo literário, são chamadas de “Escrituras” (3:15-16). Em todos os outros livros do Novo Testamento, e mesmo no cristianismo posterior, só o Velho Testamento ostenta este título. (VERMES, 2006, P. 137) (grifo nosso).

Isso nos remete à conclusão que tal fato pode ter sido construído depois, possivelmente algum copista tentando referendar as cartas de Paulo como também inspiradas. Por outro lado, os que ainda quiserem continuar aceitando o passo de Paulo a Timóteo (2Tm 3,16-17), devem ser pelo menos coerente, e considerar como Escritura inspirada apenas o Antigo Testamento. Em qualquer estudo de textos bíblicos é prudente vermos como constam em outras Bíblias o texto que queremos analisar, pois, geralmente, encontraremos coisas bem interessantes. Temos em mãos três Bíblias da Edições Paulinas (1957, 1977 e 1980), tradução de Pe. Matos Soares, das quais iremos transcrever o teor: 2Pe 3,16: “Como também (faz) em todas as suas cartas, em que fala disto, nas quais há algumas coisas difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes adulteram (como também as outras Escrituras) para usa própria perdição”. (Bíblia Sagrada Paulinas 1977, p. 1333; 1980, p. 1333). O texto das três seria idêntico, não fosse o da edição mais antiga (1957), ter a mais a expressão “(na fé)”, entremeio as palavras “inconstantes” e “adulteraram”; mas isso é insignificante e nem vem mesmo ao caso. O que queremos destacar é que um dos trechos que está em parênteses, mais especificamente o seguimento “como também as outras Escrituras”. Um texto bíblico colocado entre parênteses, geralmente, ocorre porque se trata de glosa (Bíblia de Jerusalém, p. 15), que é entendida como:
GLOSA. Diz-se de um texto, em geral de poucas palavras, que não pertence à obra original do autor mas foi acrescentado por outros (glosadores). A finalidade de uma glosa é explicar o texto existente. Inicialmente as glosas eram escritas à margem do texto. Mais tarde os copistas as introduziram no próprio texto. As modernas edições críticas dos textos originais, que são a base para as traduções vernáculas modernas, procuram eliminar tais glosas. (Bíblia Vozes, p. 1525) (grifo nosso)

Comparando-se o texto da Edições Paulinas com o da Bíblia de Jerusalém, vemos que a glosa já não é mais colocada entre parênteses, passando a fazer parte do texto. Ora, isso é querer levar o leitor a acreditar como inspirado um texto que é obra de um copista piedoso. Em razão disso, não teria nenhum sentido pegar esse passo de Pedro, pois dele baseiam-se numa glosa, ou seja, um acréscimo, para justificar que as cartas de Paulo já tinha “características” de Escrituras. Um exemplo disso é o que consta nesta nota:
16. As outras Escrituras: significa que no tempo do autor desta carta pelo menos um grupo de cartas paulinas Já era considerado de valor igual ao dos outros livros da Escritura. Este é "um versículo muito importante, pois contém em germe a doutrina da inspiração e da canonicidade do Novo

179 Testamento e, em segundo lugar, a regra hermenêutica que condena o livre exame na interpretação dos textos sagrados. Pedro mostra que conhece certo número de cartas paulinas e em parte as supõe conhecidas dos leitores. Isto nos deixa perceber que nas igrejas eram recolhidos como sagrados os escritos dos Apóstolos. É o começo da história da Cânone neotestamentário' (G. Saldarini). (Bíblia Sagrada – Paulinas, 1977, p. 1333) (grifo nosso).

Se, como disse Pe. Matos Soares, a regra de hermenêutica condena o livro exame, há também que se considerar, no mínimo, o contexto histórico bem como a origem e autoria do texto para, primeiramente, termos certeza se é autêntico ou não. O que temos encontrado é afirmações de que exegetas modernos não aceitam a Segunda carta de Pedro como autêntica. A título de exemplo, transcrevemos:
[…] Mas há outras complicações que põem em dúvida a autenticidade e sugerem data mais tardia. A linguagem apresenta notáveis diferenças em relação a 1Pe. Todo o cap. 2 é retomada, livre mas patente, da epístola de Judas. A coleção das epístolas de Paulo parece já formada (3,15s). O grupo apostólico é posto em paralelo com o grupo profético e o autor fala como se não fizesse parte deles (3,2). Estas dificuldades autorizam certas dúvidas que surgiram desde a antiguidade. Não apenas o uso da epístola não é atestado com certeza antes do séc. III, mas também alguns a rejeitaram, como o testemunham Orígenes, Eusébio e Jerônimo. Além disso, muitos críticos modernos recusam-se, por sua vez, a atribuí-la a são Pedro, e é difícil não lhes dar razão. […] (Bíblia de Jerusalém, p. 2105) (grifo nosso). O autor se identifica como “Simão Pedro” (1,1) e “testemunha” de Cristo (1,16-18). Mas, ao contrário da 1Pd que foi logo aceita como autêntica e canônica, sobre a 2Pd já na Igreja antiga pairaram dúvidas devido à grande diferença de linguagem entre as duas epístolas. A tardia aceitação da epístola pelas igrejas orientais e ocidentais (Séc. V/VI) e a sua dependência da epístola de Judas, composta após a morte de S. Pedro, levou a maioria dos exegetas a negar a autenticidade da 2Pd. (Bíblia Vozes, p. 1439) (grifo nosso). A Segunda Epístola de Pedro, longe de ser uma obra do apóstolo mais antigo de Jesus, é provavelmente a composição mais recente do Novo Testamento, datada de 125 d.C., senão depois. A análise literária mostra que foi composta depois da Epístola de Judas (escrita por volta de 100 d.C.), pela qual foi visivelmente influenciada. Além disso, o documento evidencia um desencanto conspícuo nas fileiras dos fiéis, causado pela prolongada demora do retorno de Jesus. O próprio autor não esperava testemunhar a Parusia (2Pd 1:14-15). As alusões a uma massa de falsos ensinamentos indica um crescimento do gnosticismo, o que aponta para o século II. […] (VERMES, 2006, P. 137) (grifo nosso).

O que não entendemos é o fato de mesmo sabendo que o autor da carta não é Pedro, por que motivo ainda a consideram inspirada? A culpa disso, certamente, é o dogmatismo, que, infelizmente, não deixa as pessoas enxergarem as coisas de um outro ângulo, pelo qual poder-se-ia descobrir o que é realmente verdadeiro ou não. O que se percebe dos que se apressam em apontar textos da Bíblia, para justificar sua origem divina, é que não se dão ao trabalho de pesquisa, não analisam nada. E questionar? Nem pensar! Já que, para eles, tudo que lá se encontra é absolutamente verdadeiro. É claro que, diante dessa premissa, certamente não conseguirão ver nenhum erro ou contradição, por mais óbvios que sejam. Apenas cabe-nos apresentar alguma coisa visando a corroborar tudo quanto foi colocado anteriormente, já que, pela consistência e coerência, inclusive, quanto ao número significativo de exegetas envolvidos nas traduções, revisões e estudos bíblicos aqui citados, nos alinhamos com as opiniões mostradas neste estudo Começaremos por um questionamento bem simples: será que o termo “Escritura”, dito por Paulo, se refere à Bíblia como um todo? A resposta iremos encontrar na explicação ao passo 2Tm 3,15-16: “Neste tempo, o NT estava ainda em período de gestação. Por isso, o termo 'Escrituras' refere-se, em concreto aos livros do AT”. (Bíblia Sagrada Edição Santuário,

180

p. 1768). Isso é um golpe mortal naquilo que se apresenta como forte indício da inspiração divina ser “capa a capa”. Mas estaria essa informação coerente com os textos bíblicos? Sim, pois Paulo foi, acima de tudo, um ferrenho defensor do Evangelho e que, ao mesmo tempo, combatia a Lei. Pode-se, por exemplo, vê-lo, num corpo a corpo, contra a circuncisão, ritual judaico, contido no Antigo Testamento (Lv 12,3) que determinava que todos os meninos deveriam ser circuncidados, aos oito dias de nascido. Isso era aplicado, talvez por analogia, aos convertidos não procedentes do judaísmo. Assim é que, nos primórdios do cristianismo, queriam aplicar essa lei aos que se convertiam a essa nova crença; mas que ainda não haviam sido circuncidados. A atitude de Paulo, quanto a isso, foi radical: “De resto, cada um continue vivendo na condição em que o Senhor o colocou, tal como vivia quando foi chamado. É o que ordeno em todas as igrejas. Alguém foi chamado à fé quando já era circuncidado? Não procure disfarçar a sua circuncisão. Alguém não era circuncidado quando foi chamado à fé? Não se faça circuncidar. Não tem nenhuma importância estar ou não estar circuncidado. O que importa é observar os mandamentos de Deus” (1Cor 7,17-19). Seu combate à legislação mosaica ainda poderá ser visto em: Rm 7,4-6: “Meus irmãos, o mesmo acontece com vocês: pelo corpo de Cristo, vocês morreram para a Lei, a fim de pertencerem a outro, que ressuscitou dos mortos, e assim produzirem frutos para Deus. De fato, quando vivíamos submetidos a instintos egoístas, as paixões pecaminosas serviam-se da Lei para agir em nossos membros, a fim de que produzíssemos frutos para a morte. Mas agora, morrendo para aquilo que nos aprisionava, fomos libertos da Lei, a fim de servirmos sob o regime novo do Espírito, e não mais sob o velho regime da letra”. Gl 2,21: “Portanto, não torno inútil a graça de Deus, porque, se a justiça vem através da Lei, então Cristo morreu em vão”. E o próprio Jesus, também estabelece essa divisão, entre a nova lei e a lei mosaica, quando disse que “a Lei e Profetas vigoraram até João” (Lc 16,16), ou seja, esse foi o período – de Moisés a João Batista -, no qual ela teve valor como regra religiosa, depois, só aquilo que estiver relacionado à missão de Jesus que foi a de implantar o Evangelho. Essa sim, foi a grande preocupação de Paulo, conforme, para exemplo, podemos ver nessas passagens: Rm 1,1: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo e escolhido para anunciar o Evangelho de Deus,” Rm 1,16: “Não me envergonho do Evangelho, pois ele é força de Deus para a salvação de todo aquele que acredita, do judeu em primeiro lugar, mas também do grego”. Rm 10,16: “Mas, nem todos obedeceram ao Evangelho. Isaías diz: 'Senhor, quem acreditou em nossa pregação?'" Rm 15,16: “Sou ministro de Jesus Cristo entre os pagãos, e a minha função sagrada é anunciar o Evangelho de Deus, a fim de que os pagãos se tornem oferta aceita e santificada pelo Espírito Santo”. 1Cor 1,17: “De fato, Cristo não me enviou para batizar, mas para anunciar o Evangelho, sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo”. 1Cor 9,16: “Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim; pelo contrário, é uma necessidade que me foi imposta. Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!”. 1Cor 15,2: “É pelo Evangelho que vocês serão salvos, contanto que o guardem do modo como eu lhes anunciei; do contrário, vocês terão acreditado em vão”. Ef 1,13: “Em Cristo, também vocês ouviram a Palavra da verdade, o Evangelho que os salva [...]”

181

2Ts 1,6-8: “Deus fará o que é justo: vai mandar tribulações para aqueles que os oprimem, e a vocês, que são agora oprimidos, como também a nós, ele dará descanso, quando o Senhor Jesus se manifestar. Ele virá do céu com seus anjos poderosos, em meio a uma chama ardente. Virá para vingar-se daqueles que não conhecem a Deus e não obedecem ao Evangelho do Senhor Jesus”. Deixaremos aos que, porventura, ainda queiram alegar que Paulo pregava a validade das “Escrituras”, como um todo, o ensejo de nos apresentarem as passagens em que ele estaria dando essa orientação. Nem mesmo a podemos considerar como sendo toda a revelação divina, pois Cristo não deixou dúvida quanto a isso ao afirmar: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas não podeis agora suportar” (Jo 16,12), reservando, portanto, para o futuro outras revelações, quando passariam a ter melhores condições de assimilá-las. E, para finalizar, vemos que todas as opiniões, que citamos neste estudo, a respeito de serem outros os autores das epístolas mencionadas, são, de fato, coerentes, o que poderemos confirmar com o próprio Paulo que reclamara sobre isso; vejamos: 2Ts 2,1-3: Agora, irmãos, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e ao nosso encontro com ele, pedimos a vocês o seguinte: não se deixem perturbar tão facilmente! Nem se assustem, como se o Dia do Senhor estivesse para chegar logo, mesmo que isso esteja sendo veiculado por alguma suposta inspiração, palavra, ou carta atribuída a nós. Não se deixem enganar de nenhum modo! Assim, não há alternativa mais coerente, senão aquela de aceitar a hipótese levantada por Renan de que as três cartas pastorais (as duas a Timóteo e uma a Tito) são, sem dúvida alguma, apócrifas. A consequência disso é que, por tabela, a pessoa encarregada de escolher os livros para comporem a “Vulgata”, S. Jerônimo (c. 347-420), fatalmente, também, ele não estava “totalmente” inspirado pelo Espírito Santo, segundo afirmou Clemente VIII (Papa de 1592 a 1605), derrubando todo o alicerce dos que advogam tal coisa. O biblicista José Reis Chaves (1935- ) trata deste assunto em seu livro A Face Oculta das Religiões, ele, pessoalmente, nos resumiu da seguinte forma:
É óbvio que se existisse a tal de inspiração tal qual dizem, São Jerônimo teria que ser o mais inspirado, pois foi ele que escolheu os livros tidos como canônicos (legais), verdadeiros, o que não aconteceu com os apócrifos (ocultos, desconhecidos), para formar a Vulgata. Lembremo-nos de que a Vulgata já existia, mas foi a de São Jerônimo que se tornou oficial e aprovada pelo Papa Dâmaso e passou a ser a Bíblia do cristianismo, com seu Velho e Novo Testamentos.

Por tudo isso, e, especialmente, por vários outros textos, nos quais estudamos inúmeras outras passagens bíblicas, acabam derrubando, inevitavelmente, e a contragosto de muitos bibliólatras, a crença literal de que é a palavra de Deus e de que ela é toda inspirada por Deus, colocando a Bíblia, como um livro de cunho eminentemente humano. Certamente, que nossa opinião, reconhecemos, não tem mesmo um grande valor, mas, pelo menos, ela vai ao encontro da conclusão pessoal a que também chegou Ehrman, considerado por muitos estudiosos como sendo a maior autoridade em Bíblia do mundo. Nosso conhecimento, pois, nem de longe se pode comparar com o dele. Antes de finalizar esse estudo, voltemos, mais uma vez, ao eminente filósofo holandês:
[...] Não quero, no entanto, acusar de impiedade os adeptos das várias seitas por adaptarem às suas opiniões as palavras da Escritura. [...] Acuso-os de não querer reconhecer aos outros a mesma liberdade e perseguir como inimigos de Deus todos os que não pensam como eles, por mais honestos e praticantes da verdadeira virtude que sejam, ao mesmo tempo que estimam como eleitos de Deus os que os seguem em tudo, ainda quando se trata de pessoas moralmente incapazes. (ESPINOSA, 2003, p. 215). [...] A fé, portanto, concede a cada um a máxima liberdade de filosofar, de tal modo que se pode, sem cometer nenhum crime, pensar o que se quiser sobre todas as coisas. As únicas pessoas que ela condena como heréticas e

182 cismáticas são as que ensinam opiniões que incitem à insubmissão, ao ódio, às dissensões e à cólera; em contrapartida, só considera fiéis aqueles que, tanto quanto a sua razão e as suas capacidades lhes permitem, espalham a justiça e a caridade. (ESPINOSA, 2003, p. 222).

Ao encerrar este estudo, convém deixar bem explícito que o nosso objetivo, desde o início, é somente a busca da verdade, aliás, essa deveria ser a meta de todos nós. Plena razão tem o teólogo alemão Holger Kersten (1951- ), quando disse:
Uma pessoa que frequenta uma igreja cristã não pode deixar de assumir uma postura crítica, frente à proliferação de obscuros artigos de fé, e dos deveres e obrigações que a envolvem. Sem termos tido outros conhecimentos, e por termos crescido sob a única e exclusiva influência do estabelecido, somos levados a acreditar que, por subsistirem há tanto tempo, devem, necessariamente, ser verdade. (KERSTEN, 1988, p. 12-13).

Em hipótese alguma deveremos deixar de procurar a verdade, porquanto, é através disso que estaremos indo ao encontro dessas palavras de Jesus: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Descobrimos um pensamento de Paulo, do qual temos, frequentemente, nos utilizado, e que é: “o Senhor é o Espírito; e onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade” (2Cor 3,17). Isso que nos leva à conclusão de que, onde não existe liberdade, o Espírito do Senhor não se encontra. Mas o que isso tem a ver com o assunto em pauta? Poderá alguém nos perguntar. Em princípio nada, mas quando ficamos sabendo o que ocorre “por detrás dos bastidores”, vemos sua aplicação prática. Leiamos o seguinte relato:
Bruce me convenceu a tentar me tornar um cristão “sério” e a me dedicar por inteiro à fé cristã. Isso significava estudar Escrituras em período integral no Moody Bible Institute, o que, entre outras coisas, implicaria uma drástica mudança de estilo de vida. ...matriculei-me no Moody, entrei e lá permaneci até o segundo semestre de 1973. A experiência no Moody foi intensa. Decidi me formar em teologia bíblica, o que significava encarar muito estudo bíblico e vários cursos de teologia sistemática. Ensinava-se uma só perspectiva em todos esses cursos, subscrita por todos os professores (eles todos assinavam um termo de compromisso) e por todos os estudantes (nós também o assinávamos): a Bíblia é a palavra infalível de Deus. Ela não contém erros. É completamente inspirada e é, em todos os seus termos, “inspiração verbal plena”. Todos os cursos que fiz pressupunham e ensinavam e ensinavam essa perspectiva; qualquer outra era considerada desviante e até mesmo herética. Acho que alguém pode chamar isso de lavagem cerebral. [...] (EHRMAN, 2006, p. 14) (grifo nosso).

Entendemos, assim, que, com esse modesto estudo, temos boas chances de convencer a muitos, mas não aos doutos e críticos, já que estamos cientes de que a “técnica de lavagem cerebral” se aplica por ai a mancheias, o que resulta na validade do ditado popular: “o pior cego é aquele que não quer ver”.

183

O Consolador veio no Pentecostes?
Os teólogos, se não todos, pelo menos na sua grande maioria, afirmam que o Consolador prometido por Jesus (Jo 14,16) teria vindo no dia de Pentecostes (At 2,1-4); quem sabe se não buscaram apoio a isso no documento apócrifo denominado Caverna dos Tesouros, do qual extraímos:
Decidiram jejuar, até receberem todos juntos o Espírito, o Paráclito, no dia de Pentecostes, ali mesmo onde estavam reunidos. Foram-lhes distribuídas línguas, e cada um partiu para ensinar os povos, de acordo com a língua que lhes fora dada;... (TRICCA, Apócrifos III, p. 100).

Se isso for verdade, então a base para essa afirmação é tirada de uma fonte considerada não inspirada, colocando, portanto, em sérios apuros os que assim pensam. O primeiro ponto importante a se levantar é aquele em que vamos demonstrar que o Consolador não é o Espírito Santo, porquanto, àquela época, nem ele nem essa terminologia existiam, uma vez que é uma criação posterior para sustentar o dogma da Trindade. Em toda a Bíblia a passagem Mt 28,19-20 é a única em que se nomeiam as supostas pessoas da Trindade. Sabemos que o dogma da Trindade se iniciou no Concílio Ecumênico de Niceia, em 325, quando Jesus foi divinizado; a providência seguinte foi também dar status de Deus ao Espírito Santo, fato que ocorreu no Concílio de Constantinopla, em 381. (CHAVES, 2006). Depois, foi só ajustar os textos do Novo Testamento a essa nova realidade; aí, onde havia “um” espírito santo (puro), transformaram em “o” Espírito Santo, eleito a terceira pessoa da Trindade. Ademais, estudiosos bíblicos têm esse passo de Mateus (28,19-20) como uma interpolação. Por exemplo, o historiador e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, David Flusser (1917-2000), que lecionou no Departamento de Religião Comparada, por mais de 50 anos, nascido na Áustria, estudioso da literatura clássica e talmúdica, e conhecedor de 26 idiomas, informa que:
De acordo com os manuscritos de Mateus que foram preservados, o Jesus ressuscitado ordenou aos seus discípulos batizar todas as nações “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. A fórmula trinitária franca, aqui, é de fato notável, mas já foi mostrado que a ordem para batizar e a fórmula trinitária faltam em todas as citações das passagens de Mateus nos escritos de Eusébio anteriores ao Concílio de Niceia. O texto de Eusébio de Mt 28:19-20 antes de Niceia era o seguinte: “Ide e tornai todas as nações discípulas em meu nome, ensinando-as a observar tudo o que vos ordenei”. Parece que Eusébio encontrou essa forma do texto nos códices da famosa biblioteca cristã em Cesareia. 75 Esse texto mais curto está completo e coerente. Seu sentido é claro e tem seus méritos óbvios: diz que o Jesus ressuscitado ordenou que seus discípulos instruíssem todas as nações em seu nome, o que significa que os discípulos deveriam ensinar a doutrina de seu mestre, depois de sua morte, tal como a receberam dele. (FLUSSER, 2001, p. 156). (grifo nosso).

Transcreveremos a nota (75) em que Flusser coloca sua base de informação:
Ver D. Flusser, "The Conclusion of Matthew in a New Jewish Christian Source", Annual of the Swedish Theological lnstitute, vol. V, 1967, Leiden, 1967, pp. 110-20; Benjamin J. Hubbard, “The Matthean Redaction of a Primitive Apostolic Commissioning", SBL, Dissertation Series 19, Montana, 1974. Mais testemunho da conclusão não-trinitária de Mateus está preservado num texto copta (ver E. Budge, Miscelleaneous Coptic Texts, Londres, 1915, pp. 58

184 e seguintes, 628 e 636), onde é descrita uma controvérsia entre Cirilo de Jerusalém e um monge herético. "E o patriarca Cirilo disse ao monge: 'Quem te mandou pregar essas coisas?' E o monge lhe disse: 'O Cristo disse: Ide a todo o mundo e pregai a todas as nações em Meu nome em cada lugar". O texto é citado por Morcon Smith, Clement of Alexandria and a Secret Cospel of Mark, Harvard University Press, Cambridge, Mass, 1973, pp. 342-6. (FLUSSER, 2001, p. 170).

Na sequência, Flusser diz que “um testemunho adicional das versões mais curtas de Mt 28:19-20a foi descoberto há pouco tempo numa fonte judeu-cristã...” (FLUSSER, 2001, p. 156), citando como fonte: Sh. Pinès, “The Jewish Christians of the Early Centuries of Christianity According to a New Source”, The Israel Academy of Sciences and Humanities Proceedings, vol. II, nº 13, Jerusalém, 1966, p. 25. (FLUSSER, 2001, p. 170). Em sua obra apologética intitulada Contra Celso (cerca de 248) Orígenes(185-254), refutando a esse filósofo pagão, cita inúmeras passagens bíblicas, entre as quais Mt 28,19: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos” (ORÍGENES, 2004, p. 154). O que prova incontestavelmente que a expressão “batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” é uma interpolação que foi colocada posteriormente para se justificar o dogma da Trindade. Essa interpolação é até fácil de ser comprovada, pois, enquanto no versículo se recomendava batizar “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19), os discípulos só o faziam “em nome de Jesus” (At 2,37; 10,48; 19,5), do qual também se utilizavam para expulsar os espíritos (At 16,18). Por outro lado, não foi por mera coincidência que esse acréscimo esteja no último passo do Evangelho de Mateus; certamente, como não encontraram outro lugar melhor para situá-lo acharam por bem colocá-lo ali mesmo, bem no final. Então, fica aí demonstrado, de forma clara, que essa expressão é uma interpolação. Assim, qualquer relação que se queira estabelecer entre o Consolador e o Espírito Santo não faz sentido algum. Um outro ponto, também não menos importante, é que devemos situar as coisas no tempo próprio. Assim, não é válido usar o Evangelho de João para justificar alguma coisa em Lucas, pois, como sabemos, os Evangelhos foram escritos em épocas diferentes. Segundo o prof. Julio Trebolle Barrer (?- ), Marcos por volta de 65 a 70, Lucas entre 70 e 80, Mateus no período de 70 e 80, e, finalmente, João, no ano de 90 (BARRERA, 1995, p. 287); mas é bom ressaltar que os estudiosos não se entendem quanto a essas datas. Desse modo, depois da morte de Jesus, até um certo período, os textos eram utilizados isoladamente; isso deve ter acontecido por não haver necessidade, à época, de uma “uniformização” das descrições dos fatos acontecidos com Jesus, já que não havia condições de se estabelecer uma sistematização no sentido de tornar os escritos esparsos em um único corpo doutrinário dos ensinamentos deixados pelo Mestre. O que pudemos corroborar com J. Lentsman (1908-1967):
Assim, cada evangelho era endereçado a um meio determinado, e tinha limitada, desse modo, sua esfera de ação a uma ou outra região. Sua inclusão no cânone deu-se muito mais tarde, como consequência de uma escolha dos escritos cristãos mais autorizados aos olhos dos crentes. (LENTSMAN, 1963, p. 38) (grifo nosso).

Mas, com a sistematização desses ensinamentos, visando dar uma característica sinóptica aos Evangelhos, certamente houve uma “necessidade” (para não dizer conveniência) de algumas “adequações” de alguns textos a algumas interpretações dos dirigentes religiosos de então. Vejamos:
Quanto aos livros do Novo Testamento, houve também certa confusão, já que além dos livros inspirados, circulavam outros que gozavam também de muito prestígio entre as comunidades cristãs, alguns dos quais atribuídos aos próprios Apóstolos. Em compensação, alguns dos livros inspirados não eram aceitos como tais por pessoas de prestígio na própria Igreja. Os Concílios de Hipona e de Cartago, celebrados em fins do séc. IV, pela primeira vez apresentaram uma lista oficial dos livros inspirados, tanto

185 do Novo como do Antigo Testamento, entre os quais se incluíram os deuterocanônicos também do Novo, que são: Epístolas de S. Tiago, 2ª e 3ª de S. João, de S. Judas, 2ª de S. Pedro, aos Hebreus e o Apocalipse. Como nenhum desses concílios africanos, por seu caráter local, implicasse a autoridade oficial da Igreja universal, houve necessidade de se proclamar de novo, em forma solene, a doutrina tradicional católica, o que se fez no Concílio Ecumênico de Florença, celebrado no ano de 1441 e, posteriormente, no de Trento em 1546, onde se enumeram de forma definitiva os livros que constituem a Bíblia. (Bíblia Barsa – A Igreja e a Bíblia, p. xii). (grifo nosso).

Então, somente após o final do séc. IV, é que temos algo próximo da Bíblia como a conhecemos hoje. E para ser mais específico, leiamos:
No ano de 367 E.C., Atanásio escreveu sua carta pastoral anual às igrejas egípcias sob sua jurisdição e, nela, incluiu um conselho acerca de quais livros deviam ser lidos como escritura nas igrejas. Ele relaciona nossos vinte e sete livros, com exclusão de todos os demais. Essa é a primeira instância que chegou ao nosso conhecimento de alguém declarando que esse novo conjunto de livros era o Novo Testamento. (EHRMAN, 2006, p. 46).

Isso significa que não assiste razão aos que, querendo interpretar uma passagem, relacionam, no sentido de completar, um escritor com outro. A se aceitar isso, então, preferimos ficar com a opinião de Orígenes de Alexandria (185-254), considerado um dos “Pais da Igreja”, porquanto foi um expoente do cristianismo nascente. Vejamos o que ele disse:
E como as práticas legais eram uma figura, penso eu, e a verdade era o que o Espírito Santo lhes ensinara, foi dito: “Quando vier o Espírito de Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena” (Jo 16,13); como se dissesse: à verdade integral das realidades das quais, não possuindo senão as figuras, vós acreditáveis adorar a Deus com a verdadeira adoração. De acordo com a promessa de Jesus, o Espírito de Verdade veio sobre Pedro e lhe disse, a respeito dos quadrúpedes e répteis da terra e dos pássaros do céu: “Levanta-te, Pedro, imola e come!” Ele voltou a si, embora ainda imbuído de superstição, pois mesmo ao ouvir a voz divina ele responde: “De modo algum, Senhor, pois jamais comi alguma coisa impura e profana”. E lhe ensinou a doutrina sobre os alimentos verdadeiros e espirituais com estas palavras: “Ao que Deus purificou, não chames tu de profano”. E depois desta visão, o Espírito de Verdade, conduzindo Pedro “à verdade plena”, lhe disse “o muito que vos dizer” que ele não podia “suportar enquanto Jesus estava ainda presente segundo a carne. (ORÍGENES, p. 122-123). (grifo nosso).

E é por isso que afirmamos que cada um deles tem que se explicar por si mesmo. Sendo assim, ou seja, que temos que relacionar o autor com ele mesmo, fomos buscar primeiramente Lucas. Em seu Evangelho pudemos encontrar apenas duas passagens que poderíamos entender como alguma promessa sendo feita: a primeira é onde João Batista diz que “Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16); e a segunda é quando Jesus recomenda aos discípulos não se preocuparem com o que irão falar, pois “nessa hora o Espírito Santo ensinará o que vocês devem dizer” (Lc 12,12). Ambas não servem de suporte, pelo simples motivo de que falam em Espírito Santo, que, conforme demonstramos, esse epíteto não “existia”, ainda. Jesus ressurreto, entre outras coisas, disse aos discípulos: “Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai prometeu. Por isso, fiquem esperando na cidade, até que vocês sejam revestidos da força do alto". (Lc 24,49), por que não Ele não falou “revestidos do Espírito Santo”? Muito estranho! Mas vejamos a opinião de um exegeta sobre esse versículo:
Lc 24,49: “... envio sobre vós a promessa de meu Pai...” A promessa que se cumpriu no dia de Pentecostes, antecipa também, neste passo bíblico, a declaração mais completa que se vê no livro de Atos, que Lucas tencionava escrever, a fim de completar a sua obra em dois volumes, que versa sobre as origens do cristianismo (Lucas-Atos); e não é mesmo impossível que Lucas já

186 tivesse dado início a essa obra, em algum estágio preliminar. Este versículo é paralelo a Atos 1,4-5, 8; 2,1-13. A promessa feita pelo Pai, que é o próprio Espírito Santo, não é claramente definida nos evangelhos sinópticos, mas poderemos aceitar o trecho de Luc. 11,13 como indicação sobre isso; e não há que duvidar que a mensagem de João Batista, na tradição evangélica mais primitiva, conforme nos é dada em Marc. 1;8 - “mas ele vos batizará com o Espírito Santo...” - deve ser compreendida como paralela à promessa aqui registrada. Trata-se, por conseguinte, da tradição evangélica mais remota. O evangelho de João a anuncia de forma ainda mais clara. (ver João 14:16 e 15:26). A ordem dada aos discípulos de se demorarem em Jerusalém, até que se cumprisse essa promessa, é paralela à passagem de Atos 1:4. (CHAMPLIN, 2005b, vol. 2, p. 247). (grifo nosso).

Observamos que o autor diz que a promessa não é claramente definida nos evangelhos sinópticos, embora tente, de alguma forma, estabelecer uma ligação dela com o Evangelho de João. O que ele não percebeu é que não poderia relacionar essa passagem de Lucas ao que consta em João, pelas razões já expostas. Em Atos dos Apóstolos, Lucas já narra da seguinte forma: At 1,4-8: “...'Não se afastem de Jerusalém. Esperem que se realize a promessa do Pai, da qual vocês ouviram falar: 'João batizou com água; vocês, porém, dentro de poucos dias, serão batizados com o Espírito Santo'... Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem as minhas testemunhas...'". Pelo que se pode entender, a promessa aqui é o batismo com o Espírito Santo; entretanto, está se prometendo o que não existe. No dia de Pentecostes é, quando se supõe, que houve o cumprimento dessa promessa; leiamos: At 2,1-4: “Quando chegou o dia de Pentecostes, todos eles estavam reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem”. Novamente aparece a expressão Espírito Santo, que só poderia ser entendida como “um espírito santo”, não a pessoa da Trindade que, conforme provado, não se falava dela ainda. Se cada um falava conforme o espírito lhe concedia, já não é mais o Santo; então, temos, nessa ocorrência, um fenômeno mediúnico, onde cada um falava sob a ação de um espírito. Aqui, percebe-se, claramente, a mediunidade em propulsão espontânea a todos os discípulos. Fato idêntico se repetirá novamente nos episódios conhecidos como o “Pentecostes samaritano” (At 8,14-17) e o “Pentecostes dos pagãos” (At 10,44-46) (CHAMPLIN, 2005c, vol. 3, p. 45). Vejamo-los: At 8,14-17: “Os apóstolos, que estavam em Jerusalém, souberam que a Samaria acolhera a Palavra de Deus, e enviaram para lá Pedro e João. Ao chegarem, Pedro e João rezaram pelos samaritanos, a fim de que eles recebessem o Espírito Santo. De fato, o Espírito ainda não viera sobre nenhum deles; e os samaritanos tinham apenas recebido o batismo em nome do Senhor Jesus. Então Pedro e João impuseram as mãos sobre os samaritanos, e eles receberam o Espírito Santo”. At 10,44-46: “Pedro ainda estava falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a Palavra. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido com Pedro, ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo também fosse derramado sobre os pagãos. De fato, eles os ouviam falar em línguas estranhas e louvar a grandeza de Deus...” Por isso, então, poder-se-á concluir, numa boa lógica, que, a supor seja o Espírito Santo o Consolador, ele veio por três vezes; a primeira aos discípulos (At 2,1-4), aos quais a promessa foi feita, e duas agora, nessas passagens, de uma forma generalizada. Assim, em qual delas deve-se ter como sendo o cumprimento da promessa de sua volta? Fica aí a nossa

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dúvida, porque a que se considera a primeira (At 2,1-4), os próprios textos bíblicos a relacionam a uma profecia de Joel, conforme se verá. Em relação ao Pentecostes narrado em At 2,1, temos duas observações importantes. A primeira é que, na própria Bíblia, esse fato não é relacionado à promessa do Consolador, mas a uma outra bem mais antiga; leiamos: At 2,14-18: “Então Pedro ...falou em voz alta: 'Homens da Judeia e todos vocês que se encontram em Jerusalém! Compreendam o que está acontecendo e prestem atenção nas minhas palavras: ...está acontecendo aquilo que o profeta Joel anunciou: 'Nos últimos dias, diz o Senhor, eu derramarei o meu Espírito sobre todas as pessoas. Os filhos e filhas de vocês vão profetizar, os jovens terão visões e os anciãos terão sonhos. E, naqueles dias, derramarei o meu Espírito também sobre meus servos e servas, e eles profetizarão”. Se aqui está se relacionando o fenômeno do Pentecostes à profecia de Joel, que viveu no século VIII a.C.; então, não está reservado o direito a ninguém de mudar isso, para relacioná-lo ao cumprimento da promessa do envio do Consolador. Podemos confirmar com Russell N. Champlin (1933- ):
No dia de Pentecoste, o Espírito Santo desceu sobre todos quantos estavam reunidos no mesmo cenáculo, num total de cerca de cento e vinte pessoas. Não se há de duvidar que essa dádiva do Espírito envolvendo mais do que os doze apóstolos, segundo fica subentendido no trecho de Atos 2:14, como também na profecia de Joel, conforme Simão Pedro mencionou em seu sermão, como interpretação daquela extraordinária ocorrência, que acabara de suceder. (Ver Atos 2:16-21 e Joel 2:28-32). Essa profecia revela-nos como o Espírito haveria de ser derramado sobre toda a carne, de modo pleno e transbordante. Os cento e vinte irmãos reunidos no cenáculo, pois, foram os primeiros a experimentar isso. (Champlin, 2005c, vol. 3, p. 45) (grifo nosso).

Comprova-se, então, como sendo a realização da profecia de Joel. A segunda observação é que, no dia citado como o Pentecostes, o fenômeno pode mesmo nem ter ocorrido, conforme se pode ver na explicação dada a respeito de At 2,1-13, cujo teor é: “O relato é simbólico. De fato, quando o autor escreveu, as comunidades cristãs já se haviam espalhado por todas as regiões aqui mencionadas”. (Bíblia Sagrada Pastoral, p. 1391). Certamente agiram com prudência em não dizer diretamente que o dito fenômeno não ocorreu, preferindo ir pelo caminho do simbólico, para salvar a Bíblia da contradição do texto bíblico com os fatos realmente ocorridos. Como em Lucas não encontramos nada, quem sabe se agora, ao analisarmos João, possamos encontrar algo?... Leiamos a passagem relacionada à promessa: Jo 14,15-26: "'Se me amais, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja sempre convosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conhecereis, porque ele habita convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros... Respondeu Jesus: '... Isto vos tenho dito, estando ainda convosco; mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as cousas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito'”. O que significa Consolador? Segundo Champlin, a palavra Consolador significa “alguém chamado para o lado de outrem, a fim de ajudar” (CHAMPLIN, 2005b, vol. 2, p. 534). Interessante essa afirmação de que enviaria “outro”; é sinal que Jesus se considerava como sendo um Consolador. E muito curioso, também, é que a cidade onde Jesus fixou residência, que se tornou centro do seu ministério, chamava-se Cafarnaum, que, segundo Pastorino, significa “cidade do Consolador” (PASTORINO, vol. 1, 1964a, p. 139). Neste passo Jesus também afirma que voltará. Se aqui o Consolador é especificado como o Espírito da Verdade, por que mais à frente ele passa a ser o Espírito Santo, epíteto

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esse que nem existia? Certamente que é por uma interpolação; ou, quem sabe, se esse último também não seria o Espírito de Verdade, que sofreu uma modificação na sua terminologia?... Jo 15,26-27: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim; e vós também testemunhareis, porque estais comigo desde o princípio”. Aqui se reafirma a identidade do Consolador como sendo o Espírito da Verdade, acrescentando que ele dará testemunho de Jesus. Um detalhe, que depois voltaremos a falar, é que Jesus afirma que os discípulos também iriam testemunhar. Jo 16,7-11: “Mas eu vos digo a verdade: ‘Convém-vos que eu vá, porque se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. Quando ele vier convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o príncipe desse mundo já está julgado’”. Percebemos que há uma estreita relação entre a vinda do Consolador com a questão de Jesus ter que partir, o que se justifica, porquanto Ele mesmo é quem o enviaria ou, quem sabe, voltaria para cumprir sua promessa: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros (Jo 14,18); inclusive, como está dito no passo, que ainda estabelece a missão do Consolador. Jo 16,12-14: "Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da Verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as cousas que hão de vir. Ele me glorificará porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar”. Jesus afirma que não falou tudo que era para ser dito aos discípulos, e que a missão do Espírito da Verdade, o Consolador, seria também para que fosse completado o seu ensinamento. Vejamos agora, a última passagem de João, na qual se vê a manifestação do Espírito Santo: Jo 20,19-23: “Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: 'A paz esteja com vocês'. Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor. Jesus disse de novo para eles: 'A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês'. Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: “Recebam o Espírito Santo. Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados”. O fato aqui relatado aconteceu exatamente no mesmo dia em que Jesus ressuscitou, o primeiro dia da semana; é, então, o dia de domingo, ou seja, o terceiro dia após ter sido sepultado. Nele Jesus afirma que o Pai o enviou e sopra sobre os discípulos o “Espírito Santo”. Assim, a promessa que João citou anteriormente foi cumprida aqui nesse momento, segundo a forma de entendimento dos adeptos das religiões tradicionais. Nesse ponto, iremos ver, em A Gênese, como Allan Kardec (1804-1869) abordou sobre o assunto, já que isso foi objeto de sua preocupação:
Anunciação do Consolador 35. Se me amais, guardai os meus mandamentos - e eu pedirei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco: - O Espírito de Verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê; vós, porém, o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós. - Mas o Consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e fará vos lembreis de tudo o que vos tenho dito . (S.

189 João, 14:15 a 17 e 26. - O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI.). 36. - Entretanto, digo-vos a verdade: Convém que eu me vá, porquanto, se eu não me for, o Consolador não vos virá; eu, porém, me vou e vo-lo enviarei. E, quando ele vier, convencerá o mundo no que respeita ao pecado, à justiça e ao juízo: - no que respeita ao pecado, por não terem acreditado em mim; - no que respeita à justiça, porque me vou para meu Pai e não mais me vereis; no que respeita ao juízo, porque já está julgado o príncipe deste mundo. Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas presentemente não as podeis suportar. Quando vier esse Espírito de Verdade, ele vos ensinará toda a verdade , porquanto não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tenha escutado e vos anunciará as coisas porvindouras. Ele me glorificará, porque receberá do que está em mim e vo-lo anunciará. (S. João, 16:7 a 14.). 37 - Esta predição, não há contestar, é uma das mais importantes, do ponto de vista religioso, porquanto comprova, sem a possibilidade do menor equívoco, que Jesus não disse tudo o que tinha a dizer, pela razão de que não o teriam compreendido nem mesmo seus apóstolos, visto que a eles é que o Mestre se dirigia. Se lhes houvesse dado instruções secretas, os Evangelhos fariam referência a tais instruções. Ora, desde que ele não disse tudo a seus apóstolos, os sucessores destes não terão podido saber mais do que eles, com relação ao que foi dito; ter-se-ão possivelmente enganado, quanto ao sentido das palavras do Senhor, ou dado interpretação falsa aos seus pensamentos, muitas vezes velados sob a forma parabólica. As religiões que se fundaram no Evangelho não podem, pois, dizer-se possuidoras de toda a verdade, porquanto ele, Jesus, reservou para si a completação ulterior de seus ensinamentos. O princípio da imutabilidade, em que elas se firmam, constitui um desmentido às próprias palavras do Cristo. Sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade, Jesus anunciou a vinda daquele que havia de ensinar todas as coisas e de lembrar o que ele dissera. Logo, não estava completo o seu ensino. E, ao demais, prevê não só que ficaria esquecido, como também que seria desvirtuado o que por ele fora dito, visto que o Espírito de Verdade viria tudo lembrar e, de combinação com Elias, restabelecer todas as coisas , isto é, pô-las de acordo com o verdadeiro pensamento de seus ensinos. 38 - Quando terá de vir esse novo revelador? É evidente que se, na época em que Jesus falava, os homens não se achavam em estado de compreender as coisas que lhe restavam a dizer, não seria em alguns anos apenas que poderiam adquirir as luzes necessárias a entendê-las. Para a inteligência de certas partes do Evangelho, excluídos os preceitos morais, faziam-se mister conhecimentos que só o progresso das ciências facultaria e que tinham de ser obra do tempo e de muitas gerações. Se, portanto, o novo Messias tivesse vindo pouco tempo depois do Cristo, houvera encontrado o terreno ainda nas mesmas condições e não teria feito mais do que o mesmo Cristo. Ora, desde aquela época até os nossos dias, nenhuma grande revelação se produziu que haja completado o Evangelho e elucidado suas partes obscuras, indício seguro de que o Enviado ainda não aparecera. 39 - Qual deverá ser esse Enviado? Dizendo: “Pedirei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador”, Jesus claramente indica que esse Consolador não seria ele, pois, do contrário, dissera: “Voltarei a completar o que vos tenho ensinado”. Não só tal não disse, como acrescentou: A fim de que fique eternamente convosco e ele estará em vós. Esta proposição não poderia referir-se a uma individualidade encarnada, visto que não poderia ficar eternamente conosco, nem, ainda menos, estar em nós; compreendemo-la, porém, muito bem com referência a uma doutrina, a qual, com efeito, quando a tenhamos assimilado, poderá estar eternamente em nós. O Consolador é, pois, segundo o pensamento de Jesus, a personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, cujo inspirador há de ser o Espírito de Verdade. 40 - O Espiritismo realiza, como ficou demonstrado (cap. 1, nº 30), todas as condições do Consolador que Jesus prometeu. Não é uma doutrina individual, nem de concepção humana; ninguém pode dizer-se seu criador. É fruto do ensino coletivo dos Espíritos, ensino a que preside o Espírito de Verdade. Nada suprime do Evangelho: antes o completa e elucida.

190 Com o auxílio das novas leis que revela, conjugadas essas leis às que a Ciência já descobrira, faz se compreenda o que era ininteligível e se admita a possibilidade daquilo que a incredulidade considerava inadmissível. Teve precursores e profetas, que lhe pressentiram a vinda. Pela sua força moralizadora, ele prepara o reinado do bem na Terra. [...] 42. - Se disserem que essa promessa se cumpriu no dia de Pentecostes, por meio da descida do Espírito Santo, poder-se-á responder que o Espírito Santo os inspirou, que lhes desanuviou a inteligência, que desenvolveu neles as aptidões mediúnicas destinadas a facilitar-lhes a missão, porém que nada lhes ensinou além daquilo que Jesus já ensinara, porquanto, no que deixaram, nenhum vestígio se encontra de um ensinamento especial. O Espírito Santo, pois, não realizou o que Jesus anunciara relativamente ao Consolador; a não ser assim, os apóstolos teriam elucidado o que, no Evangelho, permaneceu obscuro até ao dia de hoje e cuja interpretação contraditória deu origem às inúmeras seitas que dividiram o Cristianismo desde os primeiros séculos. (KARDEC, 2007e, p. 439-443) (negrito nosso, itálico do original).

Como foi citado o item 30 do capítulo I de A Gênese, iremos também transcrevê-lo para que o entendimento não fique prejudicado:
30 - O Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo, como este partiu das de Moisés, é consequência direta da sua doutrina. A ideia vaga da vida futura, acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que nos rodeia e povoa o espaço, e com isso precisa a crença, dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade à ideia. Define os laços que unem a alma ao corpo e levanta o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte. Pelo Espiritismo, o homem sabe donde vem, para onde vai, por que está na Terra, por que sofre temporariamente e vê por toda parte a justiça de Deus. Sabe que a alma progride incessantemente, através de uma série de existências sucessivas, até atingir o grau de perfeição que a aproxima de Deus. Sabe que todas as almas, tendo um mesmo ponto de origem, são criadas iguais, com idêntica aptidão para progredir, em virtude do seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência e que não há entre elas diferença, senão quanto ao progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e alcançarão a mesma meta, mais ou menos rapidamente, pelo trabalho e boa vontade. Sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais favorecidas umas do que outras; que Deus a nenhuma criou privilegiada e dispensada do trabalho imposto às outras para progredirem; que não há seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que os que se designam pelo nome de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que praticam o mal no espaço, como o praticavam na Terra, mas que se adiantarão e aperfeiçoarão; que os anjos ou Espíritos puros não são seres à parte na criação, mas Espíritos que chegaram à meta, depois de terem percorrido a estrada do progresso; que, por essa forma, não há criações múltiplas, nem diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas que toda a criação deriva da grande lei de unidade que rege o Universo e que todos os seres gravitam para um fim comum que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos à custa de outros, visto serem todos filhos das suas próprias obras. (KARDEC, 2007e, p. 37-38).

Considerando: a) que a expressão “Espírito Santo” não deveria ser relacionada ao Consolador; b) que temos que identificar com o texto do próprio evangelista, e não com de um outro, se o Consolador já veio ou não; c) que Jesus disse que voltaria; d) que também disse que os discípulos o testemunhariam; então, fatalmente, teremos que concluir que, dentro do Novo Testamento, não se encontra nenhuma passagem na qual poderemos afirmar que o Consolador teria voltado

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naquela época; portanto, isso nos remete a um tempo num futuro mais distante daquela época. Assim, o Espiritismo vem assumir essa condição de ser o Consolador, pelas razões expostas por Kardec e por ter João Evangelista, portanto, pelo pelo menos um dos discípulos testemunhando, embora não possamos afirmar taxativamente que outros não participaram só pelo motivo de não termos nada escrito a respeito deles. Apenas para esclarecer, informamos que, para nós, o Espírito da (de) Verdade é Jesus.

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Jesus pode ser considerado Deus?
Esse assunto torna-se recorrente, visto determinadas pessoas ainda insistirem na tese de que Jesus seja o próprio Deus, tomando-se uma ou outra passagem bíblica para justificar essa interpretação. Obviamente, que faz parte de quase todas as culturas religiosas a crença de que a divindade a qual prestavam culto viria a Terra e após fecundar uma mulher, essa sempre uma virgem, daria nascimento a um semideus. Se não estivermos nos enganando na interpretação do pensamento do psiquiatra suíço C. G. Jung (1875-1961), o fundador da psicologia analítica, isso poderia ser classificado como um arquétipo (JUNG, 1988). O certo é que Jesus, tendo nascido e vivido como um judeu, nunca diria tal coisa; é o que, de fato, percebemos pelas narrativas dos Evangelhos. A lei judaica seria implacável quanto a isso; certamente, que resultaria no apedrejamento, até a morte, do blasfemo, num rito sumário sem qualquer possibilidade de apelação para alguma instância superior. Como ainda não tivemos a oportunidade de fazer um estudo sobre o tema, vamos aproveitar esse momento para fazê-lo, de uma forma bem abrangente; para isso é necessário que analisemos várias passagens bíblicas, nas quais estaremos grifando os trechos que julgamos importantes, visando ressaltá-los. Mt 1,22-23: “Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: 'Vejam: a virgem conceberá, e dará à luz um filho. Ele será chamado Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco'”. Essa passagem certamente que nada tem a ver com o assunto; entretanto, vemos que, algumas vezes, é usada para justificar a condição de Jesus ser Deus, por ter vindo cumprir essa e muitas outras supostas profecias. Não vamos aqui estender muito a explicação sobre isso, pois ela poderá ser vista no seu todo em nosso texto “Será que os profetas previram a vinda de Jesus?”, disponível no site www.paulosnetos.net. Em Isaías é que iremos encontrar a conjecturada profecia relacionada a esse passo: “Pois saibam que Javé lhes dará um sinal: A jovem concebeu e dará à luz um filho, e o chamará pelo nome de Emanuel”. (Is 7,14). Entretanto, pelo contexto bíblico, iremos perceber que, na verdade, Deus está prometendo um sinal ao rei Acaz, que seria exatamente o filho dele que estaria por nascer, o que podemos confirmar com a seguinte explicação: “O sinal prometido a Acaz é o seu próprio filho, do qual a rainha (a jovem) está grávida. Esse menino que está por nascer é o sinal de que Deus permanece no meio do seu povo (Emanuel = Deus conosco)”. (Bíblia Sagrada Pastoral, p. 955). Outro fato curioso é que o nome Jesus significa “Deus é salvação”; obviamente, diferente de Emanuel que quer dizer “Deus está conosco”, que é aquele previsto na passagem tida como profecia para ser dado à criança. Mc 2,7: “Por que fala assim este homem? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão um só, que é Deus?” Mc 10,18: “Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? ninguém é bom, senão um que é Deus”. Jo 5,44: Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus? Jo 17,3: E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste. Rm 3,30: “De fato, há um só Deus que justifica, pela fé, tanto os circuncidados como os não circuncidados”.

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Rm 16,27: “ao único Deus sábio seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém”. 1Cor 8,4: “Quanto, pois, ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só”. 1Cor 8,6: “Contudo para nós existe um só Deus: o Pai. Dele tudo procede, e para ele é que existimos. E há um só Senhor, Jesus Cristo, por quem tudo existe e por meio do qual também nós existimos”. Gl, 3,20: “Ora, esse intermediário não representa uma pessoa só, e Deus é um só”. Ef 4,6: “Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos”. 1Tm 1,17: “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus, seja honra e glória para todo o sempre. Amém”. 1Tm 2,5-6: "Porque existe um só Deus. E entre ele e os homens há um só intermediário, que é Jesus Cristo seu Filho, que é, ele próprio, homem também; o qual se deu a si mesmo como preço da salvação de toda a humanidade. Esta é a mensagem que Deus trouxe ao mundo no momento oportuno" Tg 2,19: “Você acredita que existe um só Deus? Muito bem! Só que os demônios também acreditam, e tremem!” Jd 1,24-25: “Àquele que pode guardar-vos da queda e apresentar-vos perante sua glória irrepreensíveis e jubilosos, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo nosso Senhor, glória, majestade, poder e domínio, antes de todos os séculos, agora e por todos os séculos! Amém”. Um dos pontos fortes para que Jesus fosse elevado à condição de Deus está, certamente, na crença da Trindade, onde a divindade seria três pessoas, iguais e distintas ao mesmo tempo. Não iremos abordar essa questão aqui, por já ter jeito um estudo sobre o tema; mas iremos apenas argumentar que, por essas passagens, não há como atribuir tal coisa; julgamos ser interpretações equivocadas de quem quer vê-las assim, porquanto nenhum desses passos fala disso. E, para ver que crença de Deus ser um só não é coisa nova, citamos do Antigo Testamento: Dt 4,35: “Foi a você que lhe mostrou isso, para você ficar sabendo que Javé é o único Deus e que não existe outro além dele”. Dt 4,39: “Portanto, reconheça hoje e medite em seu coração: Javé é o único Deus, tanto no alto do céu, como aqui em baixo, na terra”. Is 44,6: “Assim diz Javé, o Rei de Israel, seu redentor, Javé dos exércitos: Eu sou o primeiro, eu sou o último, fora de mim não existe outro Deus”. Is 45,14: “Deus está somente com você e não existe nenhum outro, não existem outros deuses”. Is 45,18: “Porque assim diz, Javé, que criou os céus, o único Deus, que formou a terra, que a fez e a firmou em suas bases; ele não a fez para ser um caos, mas para ser habitada; Eu sou Javé e não existe outro”. Is 46,9: “Lembrem-se das coisas há muito tempo passadas, pois eu sou Deus, e não existe outro. Eu sou Deus, e não existe outro igual a mim”. 1Rs 8,60: “Assim, todos os povos da terra saberão que só Javé é Deus e que não há nenhum outro”. Se você, leitor, se interessar pelo tema Trindade, pedimos a sua permissão para lhe recomendar o nosso texto “Trindade: um mistério criado por um leigo, anuído pelos teólogos”, no site: www.paulosnetos.net.

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Mt 4,1-11: “Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome. Chegando, então, o tentador, disse-lhe: 'Se tu és Filho de Deus manda que estas pedras se tornem em pães'. Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: 'Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus'. Então o Diabo o levou à cidade santa, colocou-o sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: 'Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito; e: eles te susterão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra'. Replicou-lhe Jesus: 'Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus'. Novamente o Diabo o levou a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles; e disse-lhe: 'Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares'. Então ordenou-lhe Jesus: 'Vai-te, Satanás; porque está escrito: 'Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás'. Então o Diabo o deixou; e eis que vieram os anjos e o serviram”. No Evangelho segundo Marcos, o primeiro a ser escrito, segundo os especialistas, não se especifica essas três tentações; o autor diz, apenas, genericamente, que no período assinalado Jesus foi tentado por Satanás. No de Lucas, no final do relato, há algo interessante; nele narra-se: “Assim, tendo o Diabo acabado toda sorte de tentação retirou-se dele até ocasião oportuna” (Lc 4,13). O que nos chamou a atenção foi a expressão “retirou-se dele”, dando a impressão de que Jesus estava possuído pelo diabo, o que vai muito além das tentativas de levar o Mestre a fazer as cousas que lhe foram sugeridas por ele. Causou-nos muita estranheza o fato de Jesus, ao ser sugerido para adorar o tentador, tenha dito “não tentarás o Senhor teu Deus”, uma vez que o “dito cujo” o havia reconhecido apenas como o Filho de Deus e não como Deus. Essa afirmativa pode levar à interpretação de que aqui Jesus estaria insinuando que ele seria o próprio Deus, fato que não vemos a não ser em algumas narrativas de João, caso não tenhamos maior cuidado em buscar o sentido exato do que este fala. A grande dúvida que nos envolve é: se as tentações de Jesus, que aqui nos são narradas, de fato ocorreram, então, é evidente a contradição, em si considerando Jesus como sendo Deus, com o que foi dito por Tiago, pois, segundo ele “Deus não pode ser tentado pelo mal” (Tg 1,13); assim, não nos cabe aceitar Jesus como sendo mesmo o próprio Deus. Por outro lado, ampliando nosso campo de pesquisa, verificamos que essa suposta tentação de Jesus tem precedentes em outras culturas religiosas. O escritor, filósofo, filólogo e historiador francês Ernest Renan (1823-1892), por exemplo, nos informa um fato curioso; diz ele que “O deserto era, segundo a crença popular, a morada dos demônios”. (RENAN, 2004, p. 165). Aliás, até mesmo os hebreus assim pensavam, conforme comprovam estas passagens: Lv 16,10: “mas o bode sobre que cair a sorte para Azazel será posto vivo perante o Senhor, para fazer expiação com ele a fim de enviá-lo ao deserto para Azazel6”. Lv 16,20-22: “... Arão... apresentará o bode vivo; e, pondo as mãos sobre a cabeça do bode vivo, confessará sobre ele todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, sim, todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e envia-lo-á para o deserto, pela mão de um homem designado para isso. Assim aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles para uma região solitária; e esse homem soltará o bode no deserto”. Lv 17,7: “Daqui em diante e para sempre, os israelitas nunca mais oferecerão sacrifícios aos demônios do deserto, pois, se fizerem isso, estarão sendo infiéis a Deus”. Encontramos nessa crença, de que os demônios moravam no deserto, o motivo pelo qual Jesus foi levado ao deserto para ser tentado. E, segundo Juan Arias (1932- ), jornalista, pesquisador, escritor e ex-padre “o que o demônio propõe a Jesus em suas tentações são justamente coisas típicas dos magos, como voar através das nuvens ou transformar pedras em pães” (ARIAS, 2001, p. 177). Devemos também somar a isso uma outra crença, a de que os
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Azazel, conforme nos informam os tradutores da Bíblia de Jerusalém (p. 183-184), é o nome de um demônio que os antigos hebreus e cananeus acreditavam que habitasse o deserto.

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líderes espirituais deveriam sofrer algum tipo de tentação antes de iniciarem a sua missão. Vejamos alguns exemplos:
Mais ou menos com a idade de 30 anos, isto é, com a mesma idade de Jesus, Buda inicia sua carreira espiritual. Durante um jejum e penitência, é tentado pelo mal da mesma forma como Jesus o foi pelo diabo, após quarenta dias e quarenta noites de abstinência. No Oriente é comum uma história que atribui a Zoroastro uma semelhante tentação, que também aparece na saga dos santos cristãos. (KERTEN, 1988, p. 85) (grifo nosso). Durante sete dias Buda permaneceu sentado sob a árvore bodhi, sem se mover, em abençoado êxtase. Conta a lenda que, durante esse período, ele foi tentado por Mara, o demônio. (KERSTEN e GRUBER, 1995(?), p. 28) (grifo nosso). Na mesma linha, como o inimigo de Hórus era Sata, deduz-se que daí teria vindo a teoria de satanás e dos demônios contida nos evangelhos. Hórus, assim como Jesus mil anos depois, também lutou no deserto, durante quarenta dias, contra as tentações de Sata, numa luta simbólica entre a luz e a escuridão. (ARIAS, 2001, p. 112) (grifo nosso).

Portanto, as mencionadas tentações de Jesus nada mais são do que um reflexo de culturas religiosas, incorporadas aos Evangelhos para que o mesmo padrão do que acontecia com os que eram considerados filhos de deuses e/ou seus reveladores fosse mantido. Corroborando nosso entendimento, veja o leitor o que dizem os evangelhos: Mt 4,16-17: “Batizado que foi Jesus, saiu logo da água; e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito Santo de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele; e eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Mc 1,9-11: “E aconteceu naqueles dias que veio Jesus de Nazaré da Galileia, e foi batizado por João no Jordão. E logo, quando saía da água, viu os céus se abrirem, e o Espírito, qual pomba, a descer sobre ele; e ouviu-se dos céus esta voz: Tu és meu Filho amado; em ti me comprazo”. Lc 3,21-22: “Quando todo o povo fora batizado, tendo sido Jesus também batizado, e estando ele a orar, o céu se abriu; e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e ouviu-se do céu esta voz: Tu és o meu Filho amado; em ti me comprazo”. Jo 1,32: “E João deu testemunho, dizendo: Vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre ele”. Interessante é a divergência; afinal, o que se viu?: o Espírito Santo de Deus, o Espírito Santo ou simplesmente o Espírito? E como será que desceu sobre ele? Vejamos o que Bart D. Ehrman (1955- ) nos diz: “Ver, por exemplo, Marcos 1:10. Em grego, o versículo diz literalmente que o Espírito desceu 'para dentro' de Jesus”. (EHRMAN, 2008, p. 374) (grifo nosso). Ora, se o Espírito desceu para dentro de Jesus, caso seja esse espírito o Espírito Santo, então, pode-se concluir que os dois (Jesus e o Espírito Santo) são distintos um do outro. E mais que o Espirito Santo é maior do que Jesus, porquanto, somente após a “descida” desse espírito sobre Ele é que o Nazareno inicia a sua pregação ao povo, desempenhando a sua missão de Messias, após o caminho endireitado por João (Mt 3,3) ou seja, depois de estar sob a ação do Espírito Santo. Isso será confirmado em Mt 12,31-32, que analisaremos um pouco mais à frente. Mt 9,6-8: “'Pois bem, para que vocês saibam que o Filho do Homem tem poder na terra para perdoar pecados - então disse Jesus ao paralítico: Levante-se, pegue a sua cama e vá para a sua casa'. O paralítico então se levantou, e foi para a sua casa. Vendo isso, a multidão ficou com medo e louvou a Deus, por ter dado tal poder aos homens”.

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A expressão “Filho do Homem”, encontrada inúmeras vezes (doze vezes em Mateus, treze vezes em Marcos, vinte e seis vezes em Lucas e doze vezes em João), foi usada por Jesus para se colocar como um homem e não como o próprio Deus; fato que também pode ser observado, quando, após curar esse paralítico, a multidão louvou a Deus por ter dado tal poder aos homens, ou seja, com isso estavam se referindo a Jesus como homem; portanto, é certo que o tinham mesmo nessa condição, não como sendo o próprio Deus. Mt 11,27: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece plenamente o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Caso Jesus se considerasse Deus não havia razão para Ele dizer que recebera todas as coisas do Pai, porquanto, já as tinha por si mesmo. Mt 12,31-32: “É por isso que eu digo a vocês: todo pecado e blasfêmia será perdoado aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Quem disser alguma coisa contra o Filho do Homem, será perdoado. Mas quem disser algo contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, nem neste mundo, nem no mundo que há de vir.” Ora, se toda blasfêmia contra o Filho do Homem será perdoada e a contra o Espírito Santo nunca será, a conclusão, que depreendemos disso, é que ele, o Espírito Santo, é superior ao Filho do Homem, além de não ser Jesus. Então, a igualdade na Trindade, propalada pelos que nela creem, não existe. Se não existe, consequentemente, Jesus, não podendo ser o Espírito Santo, muito menos poderá ser Deus. Mt 12,48-49: “Ele, porém, respondeu ao que lhe falava: Quem é minha mãe? e quem são meus irmãos?·E, estendendo a mão para os seus discípulos disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos”. Mt 25,34-40: “Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.·E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes”. Mt 28,9-10: “E eis que Jesus lhes veio ao encontro, dizendo: Salve. E elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés, e o adoraram. Então lhes disse Jesus: Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão para a Galileia; ali me verão”. (fato ocorrido depois de sua ressurreição). Jo 10,17: “Disse-lhe Jesus: Deixa de me tocar, porque ainda não subi ao Pai; mas vai a meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Ao tratar a todos, povo e discípulos, como irmãos, Jesus, seguramente, o faz por ter a si mesmo nessa condição; não numa infinitamente mais elevada, que seria aquela se Ele fosse a própria divindade. E, numa outra oportunidade, afirmou: “Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que crê em mim, esse também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas; porque eu vou para o Pai;” (Jo 14,12). Ora, disso não podemos concluir outra coisa senão que Jesus se igualou a todos nós, a não ser que tenhamos o que aqui está dito como inverídico. Mt 14,23: “Tendo-as despedido, subiu ao monte para orar à parte. Ao anoitecer, estava ali sozinho”.

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Mt 26,36: “Então foi Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmane, e disse aos discípulos: Sentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar”. Mt 26,39: “E adiantando-se um pouco, prostrou-se com o rosto em terra e orou, dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”. Mt 26,44: “Deixando-os novamente, foi orar terceira vez, repetindo as mesmas palavras”. Lc 3,21: “Quando todo o povo fora batizado, tendo sido Jesus também batizado, e estando ele a orar, o céu se abriu;” Lc 6,12: “Naqueles dias retirou-se para o monte a fim de orar; e passou a noite toda em oração a Deus”. Lc 9,28: “Cerca de oito dias depois de ter proferido essas palavras, tomou Jesus consigo a Pedro, a João e a Tiago, e subiu ao monte para orar”. Mantendo-se a crença de que Jesus é Deus, julgamos totalmente fora de propósito Ele orar para si mesmo; tal coisa, por tão absurda, fere-nos a razão. Até onde sabemos somente os mortais comuns oram a Deus. E, inclusive, num desses momentos, Jesus pede a Deus para afastar dele o cálice, fraqueza não condizente com a sua condição de Espírito puro, mensageiro divino; pior ainda se ele fosse mesmo Deus. Mt 16,13-14: “Tendo chegado à região de Cesareia de Filipe, Jesus perguntou aos discípulos: ‘Quem dizem por aí as pessoas que é o filho do homem?’ Responderam: ‘Umas dizem que é João Batista, outras que é Elias, outras enfim, que é Jeremias ou algum dos profetas’”. Mt 26,67-68: “Então, cuspiram no seu rosto e cobriram-no de socos. Outros lhe davam bordoadas. E lhe diziam: ‘Mostra que és profeta, ó Cristo, advinha quem foi que te bateu?’” Jo 7,40: “Muitos daquela gente que tinham ouvido essas palavras de Jesus afirmavam: ‘Verdadeiramente ele é o profeta’”. Jo 9,17: “Perguntaram ainda ao cego: ‘Qual é a tua opinião a respeito de quem te abriu os olhos?’ Respondeu: ‘É um profeta’”. Lc 24,19 “... Jesus de Nazaré foi um profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e do povo”. At 2,22: “Homens de Israel, escutai o que digo: ‘Jesus de Nazaré foi o homem credenciado por Deus junto a nós com poderes extraordinários, milagres e prodígios. Bem sabeis as coisas que Deus realizou através dele no meio de vós’”. Por esses passos temos, seguramente, que o povo e os discípulos pensavam ser Jesus um profeta e não o próprio Deus; porém, não é só isso: Ele mesmo assim se qualificava; senão vejamos: Lc 13,33: “Entretanto devo continuar meu caminho hoje, amanhã e no dia seguinte, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém”. Mc 6,4-5: “Mas Jesus lhes dizia: ‘Um profeta só deixa de ser honrado em sua pátria, em sua casa e entre seus parentes. E não podia ali fazer milagre algum’”. Observamos, assim, que tanto o povo como os seus discípulos acreditavam que Jesus era um profeta, o que aqui, nesses passos, está sendo confirmado pelo próprio Mestre. Na passagem que se segue também veremos como o tinham. Mt 17,1-6: “Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, a Tiago e a João, irmão deste, e os conduziu à parte a um alto monte; e foi transfigurado diante deles; o seu

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rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: 'Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três cabanas, uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias'. Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu; e dela saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi. Os discípulos, ouvindo isso, caíram com o rosto em terra, e ficaram grandemente atemorizados”. Percebemos que Pedro, ao sugerir a construção de três cabanas7, uma para cada um dos personagens - Jesus, Moisés e Elias -, o faz porque tem os três no mesmo nível, ou seja, estabeleceu uma igualdade entre eles; via de consequência, tomou Jesus como um profeta, tal e qual os outros dois foram, sem qualquer tipo de privilégio, como aconteceria caso o visse como Deus. Mt 20,20-23: “Aproximou-se dele, então, a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, ajoelhando-se e fazendo-lhe um pedido. Perguntou-lhe Jesus: 'Que queres?' Ela lhe respondeu: 'Concede que estes meus dois filhos se sentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino'. Jesus, porém, replicou: 'Não sabeis o que pedis; podeis beber o cálice que eu estou para beber?' Responderam-lhe: 'Podemos'. Então lhes disse: 'O meu cálice certamente haveis de beber; mas o sentar-se à minha direita e à minha esquerda, não me pertence concedê-lo; mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai'”. Certamente que, se houvesse igualdade entre Jesus e Deus, Ele mesmo poderia ter atendido ao pedido da mãe dos filhos de Zebedeu; porém, não o fez e foi logo dizendo que somente o Pai poderia fazê-lo. Portanto, não há como aceitar que Jesus seja Deus, usando-se de seus próprios argumentos. Mt 24,30-36: “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com grande clangor de trombeta, os quais lhe ajuntarão os escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus. Aprendei, pois, da figueira a sua parábola: Quando já o seu ramo se torna tenro e brota folhas, sabeis que está próximo o verão. Igualmente, quando virdes todas essas coisas, sabei que ele está próximo, mesmo às portas. Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas coisas se cumpram. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras jamais passarão. Daquele dia e hora, porém, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, senão só o Pai”. Se encontramos alguma coisa que Jesus, o filho, não sabe, somente o Pai é que tem conhecimento, não há razão para supô-los uma só personalidade. Será que o Pai tem segredos para Jesus ou existem coisas que estariam acima do conhecimento deste? Qualquer que seja a resposta, dela nós só podemos concluir que nem tudo o filho sabe; portanto, diante disso, Jesus não pode ser Deus. Mt 27,46: “Cerca da hora nona, bradou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactani; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Totalmente fora de propósito, caso Jesus fosse Deus, Ele clamar a si próprio (Deus) por tê-Lo desamparado. Aliás, em outra oportunidade, Ele disse “meu Pai, vosso pai, meu Deus, vosso Deus” (Jo 20,17); portanto, reforçando sua condição de igualdade para conosco, uma vez que Ele não se coloca nem mesmo como alguém superior a qualquer um de nós, como também como sendo Deus. Por sua elevação moral, pode, nesse sentido, ser considerado superior, pois é um Espírito puro que nos foi enviado por Deus, para regenerar a humanidade. Mt 28,2: “E eis que houvera um grande terremoto; pois um anjo do Senhor descera do céu e, chegando-se, removera a pedra e estava sentado sobre ela”.
Algumas traduções trazem tendas, que significa, abrigos rústicos para residência temporária. (Bíblia Anotada, p. 1209).
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Na intimidade, ficamos confabulando com “os meus botões” sobre os grandes prodígios atribuídos a Deus, tais como criar o Universo, mandar chover para inundar a Terra de água, confundir a língua dos terráqueos, abrir o Mar Vermelho em duas muralhas, parar o Sol para aumentar as horas do dia, fazer chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra, derrubar as muralhas de Jericó, entre outros feitos extraordinários narrados na Bíblia, como não pôde mover uma simples pedra que fechava seu túmulo, foi preciso que um anjo, uma insignificante de suas criaturas, o fizesse? Diria um homem precavido: “Sei não, mas esse aí, que colocaram no túmulo, não poderia ser Deus”. Mc 1,24: “Que temos nós contigo, Jesus, nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus”. Tomando-se como verdadeira essa passagem, estaremos diante de uma situação bem embaraçosa, pois satanás, aquele que dizem ter sido expulso do céu, identifica Jesus como o Santo de Deus e não o próprio. Essa informação é importante, uma vez que ele, satanás, sendo um dos filhos de Deus, que vivia no reino dos céus (Jó 1,6), conhecia pessoalmente a Deus, vamos assim dizer, então, como atribuiu a Jesus outra condição? Diante do que se coloca aqui, não nos cabe aceitar Jesus como sendo mesmo o próprio Deus. Mc 10,18: “Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? ninguém é bom, senão um que é Deus”. Se Jesus não aceita o epíteto de bom, porquanto, segundo sua maneira de pensar, isso só pode ser atribuído a Deus; assim, não há outra conclusão a chegar senão a de que Ele não se considerava como sendo o próprio Deus, por mais que queiram, via dogmatismo, colocá-Lo nessa condição. Mc 10,27: “Jesus, fixando os olhos neles, respondeu: Para os homens é impossível, mas não para Deus; porque para Deus tudo é possível. É a resposta dada por Jesus, quando foi questionado sobre quem poderia ser salvo. Seria mais lógico, caso fosse a divindade, Ele ter se incluído nessa afirmativa, quem sabe, dizendo: “... porque para mim tudo é possível”. Mc 12,26-27: “Quanto aos mortos, porém, serem ressuscitados, não lestes no livro de Moisés, onde se fala da sarça, como Deus lhe disse: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ora, ele não é Deus de mortos, mas de vivos. Estais em grande erro”. Da mesma forma, que na situação anterior, aqui Ele deveria ter dito: “como eu já lhes disse: eu não sou Deus de mortos”. Mc 15,39: “Ora, o centurião, que estava defronte dele, vendo-o assim expirar, disse: Verdadeiramente este homem era filho de Deus”. Se o reconhecessem como Deus essa frase só teria sentido se estivesse dessa forma: “Verdadeiramente este homem era Deus”; até mesmo porque, devemos convir, satanás também é filho de Deus (Jó 1,6). Nesse caso, podemos até dizer que satanás seria filho de Jesus. Então como Jesus não o repreendeu como a um filho, quando ele O tentava no deserto? Lc 1,35: “Respondeu-lhe o anjo: 'Virá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus'”. Será que o anjo se enganou, ou realmente toda a corte celeste tem Jesus como um homem? Portanto, se O chamavam de “santo, filho de Deus” isso não é tê-lo como o próprio Deus. Quanto ao uso da expressão “filho de Deus”, o jornalista Pepe Rodríguez (1953- ) coloca o seguinte:

200 Jesus, apesar de saber que a expressão “Filho de Deus” tinha sido normalmente utilizada no Velho Testamento para designar figuras particularmente importantes da história hebraica – como David, Salomão, outros reis hebreus, o próprio Adão e os “filhos de Israel” –, em nenhuma passagem se refere a si próprio como filho de Deus (6), preferindo utilizar a expressão “Filho do homem”, um termo utilizado por Daniel (Dan 7,13) e que, em aramaico, significa simplesmente “homem”, “ser humano” e nada mais. Procurar dar-lhe um outro qualquer significado não passa de um exercício próprio de uma imaginação febril. ______
6. A única excepção encontramo-la em Jo 6,32-45: “Moisés não vos deu o pão do céu; é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o que baixou do céu e dá vida ao mundo. […] Eu sou o pão da vida; o que vem a mim deixará de ter fome, e o que crê em mim jamais sentirá sede, […] todo aquele que o Pai me dá vem a mim, e aquele que vem a mim não o deitarei fora, porque desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. […] Porque esta é a vontade de meu Pai, que todo aquele que vê o Filho e crê n'Ele recebe a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. […] Todo aquele que escuta o meu Pai e recebe o seu ensinamento, vem a mim...” Porém, como mostrámos no seu devido momento, o texto do Evangelho de João, escrito pelo grego João, o Ancião, em princípios do século II, revela um Jesus absolutamente deformado, que fala com uma prepotência descarada, contrariamente à humildade que o caracteriza nos relatos dos três sinópticos. Por exemplo, em Mc 10,18, deparamos com um Jesus que diz: “Porque me chamas bom? Ninguém, a não ser Deus, é bom”. Por outro lado, o Jesus do Evangelho de João fala de uma maneira azeda com os outros judeus e as suas afirmações soam a absurdas na boca de um judeu, quando tudo o que sabemos sobre ele é que foi um judeu. Esta autodesignação como filho de Deus não merece, pois, qualquer crédito, em termos históricos, além de nela ser claramente evidente a influência da filosofia platónica. Como se sabe, foi no contexto dessa filosofia que se desenvolveu a cristologia tal como a conhecemos hoje.

(RODRÍGUEZ, 2007, p. 178) (grifo nosso).

Baseando-nos no título da obra de Rodríguez, da qual transcrevemos esse texto, diremos que a elevação de Jesus ao status de um deus faz parte das “Mentiras fundamentais da Igreja Católica”. Lc 2,40: “E o menino ia crescendo e fortalecendo-se, ficando cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele”. Essa narrativa é uma das poucas referências à infância de Jesus. Nela não vemos sentido dizer que a graça de Deus estava sobre Ele, caso fosse o próprio Deus, uma vez que, para se chegar a essa conclusão, teria que ser afirmado algo mais ou menos assim: “a graça de Deus era ele”. Lc 3,23: “Jesus tinha cerca de trinta anos quando começou sua atividade pública. E, conforme se pensava, ele era filho de José, [...]”. Será que até aos trinta anos de vida, Jesus não foi considerado, pelos de Sua época, como sendo Deus, deixando-se para fazê-lo depois? Ou será que O tornaram Deus posteriormente? Ficamos com a segunda hipótese. Jo 1,1-14: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava chegando ao mundo. Estava ele no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória

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do unigênito do Pai”. Certamente, que Jesus sendo o Verbo de Deus, ou seja, aquele por quem Deus envia a Sua mensagem à humanidade, ao encarnar-se como ser humano, podemos considerar o Verbo se fazendo carne. Entretanto, o que não podemos fazer, por falta de lógica, é admitir que Jesus seja o próprio Deus encarnado, uma vez que se Deus não cabe num templo, com muito maior razão, não caberia num corpo humano, templo do Espírito. Salomão, com sua sabedoria, percebeu que: “Mas, na verdade, habitaria Deus na terra? Eis que o céu, e até o céu dos céus, não te podem conter; quanto mais esta casa que edifiquei!” (1Rs 8,27), ou seja, nem mesmo na Terra é admitido que Deus caiba, o que perfeitamente podemos entender, por se tratar de um ser infinito. E, quanto ao versículo 14, que diz “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós”, encontramos a seguinte explicação: “Esta expressão entre nós não é fiel ao original, que é em nós (do grego em hemin; e do latim in nobis, como está na Vulgata). (CHAVES, 2006, p. 136). (negrito nosso). Em http://www.bibliacatolica.com.br/ confirmamos que, de fato, em grego e latim, consta da forma aqui mencionada. O interessante é que isso muda completamente o sentido da frase, pois se o Verbo está em nós, é, certamente, a centelha divina que todos nós possuímos, não se pode dizer que somente Jesus a tenha. O filósofo, educador e teólogo Huberto Rohden (1893-1981) manifestou sua opinião sobre isso da seguinte forma:
Que é o Cristo, o Ungido, que os antigos hebreus chamavam Messias, o Enviado? O quarto Evangelho designa o Cristo com a palavra Logos, começando o texto com estas palavras: "No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus". A palavra grega Logos é muito anterior à Era Cristã. Os filósofos antigos de Alexandria e de Atenas, sobretudo, Heráclito de Éfeso, designavam com Logos o espírito de Deus manifestado no Universo. Logos seria, pois, o Deus imanente, em oposição à Divindade transcendente, que não é objeto de nosso conhecimento. A Vulgata Latina traduz Logos por Verbo: "No princípio era o Verbo..." Logos, Verbo, Cristo são idênticos e designam a atuação da Divindade Creadora, a manifestação individual da Divindade universal. Neste sentido, o Cristo é Deus, mas não é a Divindade. E neste sentido diz ele aos Homens: "Vós sois deuses"; os homens são manifestações individuais da Divindade Universal. A primeira e mais perfeita das manifestações da Divindade Universal, no Universo, é o Cristo, o Verbo, o Logos, que Paulo de Tarso chama acertadamente "o primogênito de todas as creaturas" do Universo. O Cristo é anterior à creação do mundo material. Ele é "o Primogênito de todas as creaturas". O Cristo não é creatura humana, mas a mais antiga individualidade cósmica, que, antes do princípio do mundo, emanou da Divindade Universal. O Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que Jesus designa com o nome Pai: "Eu e o Pai somos um, mas o Pai é maior do que eu". Deus, na linguagem de Jesus, significa uma emanação individual da Divindade universal. A confusão tradicional entre Deus e Divindade tem dado ensejo a intermináveis controvérsias entre os teólogos. Mas o texto do Evangelho é claro: o Cristo afirmou ser Deus, mas nunca afirmou ser ele a própria Divindade. (ROHDEN, 1996, p. 23-25) (grifo nosso).

Portanto, temos aí, por esse renomado teólogo ex-padre jesuíta, a confirmação de que Jesus não é Deus, com base nessa passagem de João. Encontramos, em nossa pesquisa, uma informação que será desconcertante para os que acreditam na divindade de Jesus, tomando-se esse trecho de João sobre o Verbo, porquanto ela nos induz a concluir que o passo em questão tem grande possibilidade de tratar-se de um plágio do livro Rig-Veda da Índia, no qual consta este verso: “No princípio era Brahman, com

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quem estava o Verbo, e o Verbo é Brahman” (traduzindo-se a palavra “Vak” do sânscrito como “Verbo”. (LEWIS, 2008, p. 45). Por outro lado, vemos a afirmativa de que Jesus é Filho unigênito, e João repete isso por mais quatro vezes (Jo 1,18; 3,16,18; 1Jo 4,9), enquanto em outras passagens se diz ser ele primogênito, estabelecendo um conflito, pois não se pode atribuir a uma mesma pessoa simultaneamente essas duas condições. Leiamos os passos: Rm 8,28-29:“E sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos;”. Cl 1,12-15: “dando graças ao Pai que vos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz, e que nos tirou do poder das trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho amado; em quem temos a redenção, a saber, a remissão dos pecados; o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;”. As afirmativas de que Jesus foi “o primogênito entre muitos irmãos” e “o primogênito de toda a criação” é um golpe mortal na crença de que Ele seja Deus, especialmente, aos que querem usar a razão e a lógica como base de sua análise. Rohden, provavelmente tomando dessas duas falas de Paulo, argumenta bem claro:
Quando Paulo de Tarso diz que o Cristo é o primogênito de todas as creaturas, supõe ele que o Cristo seja creatura, e não o Creador, e toda creatura é evolvível, de perfeição elástica, aumentável. Nenhuma creatura pode coincidir com o Creador. " (ROHDEN, 1996, p. 45) (grifo nosso).

Outro autor bíblico que colocou Jesus como primogênito foi o de Hebreus: Hb 1,1-6: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo; sendo ele o resplendor da sua glória e a expressa imagem do seu Ser, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo ele mesmo feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas, feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. Pois a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho? E outra vez, ao introduzir no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem”. Nesse passo, percebe-se que, para o autor, Jesus é superior aos anjos, os filhos de Deus (Jo 1,6) que, como sabemos, são Espíritos humanos desencarnados; certamente, por sua condição de Espírito puro, não se poderia dizer outra coisa dele. Ao que nos parece, ele não fez confusão alguma no sentido de tomar Jesus como sendo Deus; ele O vê como manifestação da divindade, coisa bem diferente daquilo que alguns autores querem fazer-nos crer; porém, uma coisa não se definiu claramente, pois, nesse passo, ele situa Jesus acima dos anjos, no que se segue, já faz justamente o contrário: colocando-O abaixo dos anjos: Hb 2,7-9: “Fizeste-o um pouco menor que os anjos, de glória e de honra o coroaste, todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que não lhe fosse sujeito. Mas agora ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele; vemos, porém, aquele que foi feito um pouco menor que os anjos, Jesus, coroado de glória e honra, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos”. É uma visão bem interessante, que, segundo acreditamos, contradiz o que se dogmatizou a respeito de Cristo, entronizando-O como a segunda pessoa da Trindade.

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Jo 1,15: “João deu testemunho dele, e clamou, dizendo: Este é aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim, passou adiante de mim; porque antes de mim ele já existia. Jo 8,58: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou”. Cl 1,17: “Ele existe antes de todas as coisas, e tudo nele subsiste”. Não compreendendo que todos os Espíritos preexistem, tomaram essa afirmativa sobre Jesus para sustentar a condição dele ser o próprio Deus. Certo estava o amigo de Jó ao dizer, embora em outro contexto, que “somos de ontem e nada sabemos” (Jó 8,9); mas, infelizmente, até o momento, isso não foi compreendido pelos teólogos, que não se deram conta do seguinte:
Disso ressalta um outro ensinamento de uma alta gravidade. Não se admitindo que a alma já viveu, é necessário, de toda a necessidade, que ela seja criada no momento da formação e para uso de cada corpo; de onde se segue que a criação da alma por Deus estaria subordinada ao capricho do homem, e, na maior parte do tempo, o resultado do deboche. […] (KARDEC, 1993f, p. 188) (grifo nosso).

Já, por muitas vezes, vimos pessoas usando o “eu sou” citado por João, para divinizar Jesus, ao estabelecerem uma relação dessa afirmativa com o que foi dito em Ex 3,14: “[...] Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós”. O que não fazem para chegar ao que querem?... Na verdade quanto ao “eu sou” da frase de João trata-se do verbo existir, ou seja, Jesus está afirmando que ele existia antes de Abraão, nada mais que isso. Simples, de ver isso: se em Êxodo, ao invés de “eu sou”, estivesse um dos nomes atribuídos a Deus, a fala ficaria: “Assim dirás aos olhos de Israel Jeová me enviou a vós”. Façamos a mesma coisa na frase de João: “[...] antes que Abraão existisse, Jeová”, ou seja, não tem cabimento, pois a frase ficará totalmente sem sentido, enquanto, que se entendermos o “eu sou” como “eu já existia”, isso perfeitamente se encaixa para se compreender o que foi dito. Além disso, em Jo 14,10-11 Jesus afirma que “ eu estou no Pai, e que o Pai está em mim”, ou seja, estar no Pai não é a mesma coisa que ser o pai e, por sua vez, o Pai está em mim, não significa dizer o Pai sou eu. Encontramos uma versão bem interessante para essa passagem de Êxodo: “Eu sou o Ser. Assim dirás aos filhos de Israel: O Ser me enviou até a vós” (ASCH, 1958, p. 115), que, acreditarmos, dá uma tradução mais lógica ao passo. Uma vez que citamos Paulo (Cl 1,17), é oportuno vermos também o que Pepe Rodríguez diz sobre ele:
Paulo deixou, no entanto, uma outra marca na doutrina, uma marca mais essencial e original que as precedentes. Estamos a referir-nos à preexistência de Cristo e ao seu papel fundamental após a ressurreição. Paulo não concebia Jesus como um deus encarnado, e ainda menos como a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Para ele, o Jesus da Ascensão era o “Filho do homem” dos místicos judeus. Segundo o ramo do ocultismo judeu, conhecido por Maaseh Bereshit – em que Paulo fora iniciado e que procurava saber, a partir da leitura do Génesis, como tinha sido criado o homem –, Deus criou o Homem Celestial à sua imagem, como Arquétipo (Filho do homem), e foi à imagem deste que Adão foi formado. Paulo integrou perfeitamente esta crença e adaptou-a ao seu objetivo, postulando que o Homem Celestial ou “Messias do Alto” encarnara em Jesus, o “Messias de Baixo”, transformando-o, assim, num Segundo Adão. (42). Por outras palavras, a origem do contributo determinante de Paulo para a cristologia radica em determinadas crenças do ocultismo rabínico, crenças que lhe eram caras desde a juventude e que não só se adaptaram perfeitamente à sua personalidade peculiar, como lhe fortaleciam a convicção de ser um eleito divino. “O Cristo de Paulo”, conclui Schonfield no seu estudo (43), “não é Deus, mas sim a primeira criação de Deus. Na concepção de Paulo, não há lugar para qualquer fórmula trinitária do credo de Anastásio, nem

204 para a outra doutrina por este defendida e segundo a qual o Filho foi “não feito, nem criado, mas gerado”. […] _____

42. É essa problemática que Paulo se refere quando, por exemplo, escreve; “Razão por que está escrito: “O primeiro homem, Adão, foi um ser psíquico dotado de vida”; o último Adão é um espírito que dá vida” (ICor 15,45). Descrições e desenvolvimentos similares encontram-se igualmente noutras epístolas enviadas por Paulo às comunidades da Ásia, aos Filipenses e aos Colossenses. 43. Cf. Schonfield, H. J. (1987), Jesús ¿Mesías o Dios?, Martínez Roca, Barcelona, pp. 188193.

(RODRÍGUEZ, 2007, p. 86-87) (grifo nosso).

Vê-se, portanto, que não há espaço para nos basearmos em Paulo visando elevar Jesus à categoria de um deus. Jo 4,34: “Disse-lhes Jesus: 'A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e completar a sua obra'”. Jo 5,30: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma; como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. Jo 6,38: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. Fica clara a condição de Jesus ser subordinado a Deus, vindo ao mundo pela vontade Dele, para cumprir determinada missão; por conseguinte, não temos como não vê-Lo como alguém que é inferior a Deus, embora, bilhões e bilhões de vezes moralmente superior a qualquer um de nós, seres humanos normais. Jo 5,43: “Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, a esse recebereis”. Jo 8,38: “Eu falo do que vi junto de meu Pai; e vós fazeis o que também ouvistes de vosso pai”. Jo 10,18: “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho autoridade para a dar, e tenho autoridade para retomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai”. Jo 10,29: “Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatálas da mão de meu Pai”. Jo 14,21: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele”. Jo 14,23: “Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me amar, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos nele morada”. Jo 15,10: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor”. Jo 15,15: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer”. Jo 15,23-24: “Aquele que me odeia a mim, odeia também a meu Pai. Se eu entre eles não tivesse feito tais obras, quais nenhum outro fez, não teriam pecado; mas agora, não somente viram, mas também odiaram tanto a mim como a meu Pai”. Ninguém chama a si mesmo de “meu Pai”, a não ser que esteja completamente fora do juízo. Até onde sabemos, não existe nenhuma lei natural que possa fazer alguém ser pai de si mesmo; portanto, aqui temos claramente a distinção entre Jesus e Deus. E não há desculpa de

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“mistério” que possa resolver essa questão. Jo 8,54: “Respondeu Jesus: 'Se eu me glorificar a mim mesmo, a minha glória não é nada; quem me glorifica é meu Pai, do qual vós dizeis que é o vosso Deus;'”. Jo 20,17: “Disse-lhe Jesus: 'Deixa de me tocar, porque ainda não subi ao Pai; mas vai a meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus'”. Verifica-se que Jesus se coloca exatamente na mesma condição que todos nós, pois se o Pai/Deus dele é o mesmo que o nosso, não podemos qualificá-Lo como sendo o próprio Deus, porquanto, dizer o contrário é não ser coerente com o que aqui Ele diz. Jo 10,25: “Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai, essas dão testemunho de mim”. O correto seria dizer “as obras que eu faço, faço em meu nome”, caso Jesus se considerasse o próprio Deus. Jo 10,30: “Eu e o Pai somos um”. Jo 14,20: “Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós”. Jo 17,22: “E eu lhes dei a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um;”. A primeira dessas passagens é a que é mais usada para sustentar a divindade de Jesus. O que não se faz para manter um dogma, pois aqui, de uma metáfora, fizeram uma realidade. Quando um padre diz ao casal, que abençoa, “agora vocês formam um só corpo”, tomando como base “o homem... se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24), devemos entender pelo sentido metafórico ou como coisa real? Da mesma forma, também não poderemos pegar o “Eu e o Pai somos um” a não ser no sentido figurado. E, tanto é verdade, que o que se diz em Jo 17,22 derruba aquilo que tomaram como verídico; inclusive, para serem coerentes teriam que tomá-lo também no mesmo sentido de Jo 10,30, mas não é isso o que fazem. Caso Jesus quisesse que entendêssemos alguma igualdade, certamente teria dito algo mais ou menos assim: “Eu e o Pai somos a mesma pessoa”; fala bem explicita, de modo a não deixar qualquer possibilidade de dúvidas. Aliás, o que estamos vendo é que dezenas de passagens nos apontam para o fato de que Jesus não é Deus, enquanto com apenas uma “meia-dúzia de seis”, num linguajar popular, tentam nos contradizer, tomando de uma interpretação ortodoxa, que visa apenas sustentar dogmas impostos a ferro e fogo. Recorramos novamente ao teólogo Rohden, que se manifestou da seguinte forma:
A visão de Jesus é inteiramente monista, e não monoteísta; para ele, há uma única Essência, que ele chama Pai, a qual se manifesta em muitas existências, ou creaturas. Depois de afirmar "Eu e o Pai somos um", acrescenta ele "mas o Pai é maior do que eu", como se dissesse: Eu, o Cristo, estou na Divindade mas não sou a Divindade; a Divindade é infinitamente maior do que eu. Ou então, em terminologia filosófica: Eu, a existência individual, sou uma manifestação da Essência Universal, que é maior que qualquer existência; vós também, meus discípulos, sois existências individuais, manifestações da Essência única da Divindade. A manifestação individual da Divindade Universal é por ele chamada Deus. Quando foi acusado de se dizer Deus, não o negou, e acrescentou que também os homens eram Deus, isto é, manifestações individuais da Divindade Universal: "Vós também sois deuses". Quando o Cristo se diz Deus, afirma ele que é uma manifestação individual da Divindade, mas não faz de si uma parcela ou pessoa da Divindade, como não faz dos homens parcelas ou pessoas da Divindade. Nenhuma creatura é parcela ou centelha da Divindade, como querem os poetas; se a Divindade se parcelasse, ela se diminuiria na razão direta do seu

206 parcelamento. As creaturas são apenas manifestações da Divindade, ou existencializações múltiplas da Essência una e única. (ROHDEN, 1996, p. 60-61) (grifo nosso).

E em Jesus Nazareno, Rohden, volta ao assunto, desta vez dizendo:
Há quase vinte séculos que a cristandade se agita em controvérsias sobre a questão se Cristo é Deus ou não, confundindo Deus com Divindade. Jesus faz ver aos seus adversários que ele, como a mais alta emanação individual (Deus) da Divindade não é escravo, mas Senhor do sábado, e não tem de obedecer a leis humanas. Em todo esse diálogo com seus ouvintes, afirma Jesus que o seu Cristo é Deus, mas que o Pai, que é a Divindade, é maior do que ele, o Cristo, a primeira e mais alta emanação individual da Divindade Universal. Entretanto, como os ouvintes não sabiam distinguir entre Deus e Divindade (Pai), compreendem mal as palavras de Jesus. Ele, porém, continua a afirma que está na Divindade e a Divindade está nele, embora a Divindade seja maior do que ele. Acrescenta que a Divindade também está em todos os homens, e todos os homens estão na Divindade, por isto, todo homem é Deus, uma emanação individual da Divindade, embora nenhum homem seja a própria Divindade Universal. Para ilustrar esta verdade, poderíamos fazer o seguinte paralelo. Um raio solar pode dizer: Eu e o Sol somos um; o Sol está em mim, e eu estou no Sol – mas o Sol é maior do que eu. Esta imanência de Deus nas creaturas é chamada “panenteísmo” (tudo em Deus), que não é “panteísmo” (tudo é Deus). A Divindade é a única Essência, que está imanente em todas as Existências. A Divindade é o Infinito, assim como a Essência única está em todas as Existências múltiplas. (ROHDEN, 2007, p. 103-104).

Rohden foi muito feliz em suas colocações; somente o fanatismo, que embota o raciocínio, impede de entendê-lo. Ademais falta aos fanáticos um pouco mais de coerência, pois deveriam dar a outros textos a mesma linha de interpretação que dão a “ Eu e o pai somos um” (Jo 10,30). Vejamos os passos: Rm 12,5: “Assim nós, embora muitos, individualmente uns dos outros”. somos um só corpo em Cristo, e

1Cor 10,17: “Pois nós, embora muitos, somos um só pão, um só corpo; porque todos participamos de um mesmo pão”. Gl 3,28: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. Em nenhuma dessas falas de Paulo, poderemos dar uma interpretação literal, teremos, pois, por lógica e bom senso, tomá-las no sentido simbólico, tal e qual devemos aplicar à fala de Jesus em João (Jo 10,30). Mais uma fala de Paulo: Gl 2,19-20: “Pois eu pela lei morri para a lei, a fim de viver para Deus. Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”. Se o “Cristo vive em mim” então, podemos concluir que Paulo é o Cristo. Sabemos ser apelação, mas é exatamente isso que fazem a respeito de Jesus, quando querem tomá-lo à conta de ser o próprio Deus. Acreditamos que as pessoas que creem na Trindade tomam Jesus por Deus, baseandose no “Eu e o Pai somos um”; entretanto, esse entendimento carece de lógica, pois, para

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também justificar o Espírito Santo como sendo Deus, não apresentam uma afirmativa como essa, no sentido de que o Espírito Santo e Deus também sejam um, ou mesmo uma semelhante, tal como: “Eu, o Pai e o Espírito Santo somos um”. Jo 14,28: “Ouvistes que eu vos disse: 'Vou, e voltarei a vós. Se me amásseis, alegrarvos-íeis de que eu vá para o Pai; porque o Pai é maior do que eu'”. Não fosse a teimosia em querer sustentar suas crenças, essa passagem seria o “tiro de misericórdia” na questão de Jesus ser Deus, porquanto, ele aqui foi taxativo em afirmar que Deus é maior do que ele, e o que é maior, por questões de razão e lógica, não pode, simultaneamente, ser visto como se fosse uma igualdade. Aliás, dizer que formam uma única entidade, mas distintas ao mesmo tempo, já é, para nós, uma grande contradição. Jo 15,1: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor”. Percebemos que se tem de fazer muito esforço exegético para querer sustentar a tese de que Jesus é Deus, porquanto, são inúmeras as passagens que nos apontam na direção contrária. O sentido metafórico aqui é claro, não podemos tomar um pelo outro, ou seja, Jesus como sendo o próprio Deus, pois a videira não pode ser tomada pelo cultivador, da qual é dono. Também, por lógica, não se deve tomar o filho com o pai, nem a coisa com o dono. Jo 20,26-28: “Oito dias depois estavam os discípulos outra vez ali reunidos, e Tomé com eles. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, pôs-se no meio deles e disse: 'Paz seja convosco'. Depois disse a Tomé: 'Chega aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; chega a tua mão, e mete-a no meu lado; e não mais sejas incrédulo, mas crente'. Respondeu-lhe Tomé: 'Senhor meu, e Deus meu!'. Essa é mais uma das passagens utilizadas para sustentar que Jesus é Deus. Preferimos tomar de outra tradução a expressão final de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!”, para facilitar o entendimento. É algo que sempre acontece conosco no dia a dia, quando nos surge um acontecimento extraordinário e exclamamos: “Meu Deus”. Ou ao encontramos um amigo que não vemos de longa data, lhe dizer: “Meu Deus, você aqui!”. Certamente, que não queremos elevar ninguém à categoria da divindade; é apenas uma forma de falar, tal e qual, acreditamos, aconteceu com Tomé. Aliás, causa-nos espécie essa fala de Tomé só ter sido narrada apenas por um dos evangelistas, quando fato semelhante a esse em importância - ida de Jesus do Pretório ao Calvário -, foi narrado pelos quatro (Mt 27,31-32; Mc 15,20-21; Lc 23,25-26 e Jo 19,16-17). At 2,22: “Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus, o nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis;”. Certamente que a afirmativa de Pedro, que Jesus era um varão aprovado por Deus, está bem longe de se atribuir a Ele uma condição divina, porquanto, ser aprovado varão é uma coisa, ser Deus é outra completamente diferente. Pepe Rodríguez, mencionando esse passo, assim explica a questão:
Os Actos dos Apóstolos atestam exactamente isso, ou seja, que a primitiva fé cristã distinguia cuidadosamente entre Deus e Cristo, como se vê, por exemplo, em Act 2,22, onde se diz:” Varões israelitas, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, credenciado por Deus a vossos olhos por seus milagres, prodígios e sinais que Deus fez por seu intermédio no meio de vós [...]”, ou em Act 7,55: “Ele [trata-se de Estêvão], cheio do Espírito Santo, olhou para o céu e viu a glória de Deus e Jesus em pé à direita de Deus”. A invejável vista de Estêvão talvez não seja tão boa como parece, se a tomarmos por um dos recursos literários de que Lucas habitualmente se serve para introduzir nos seus textos inspirados dados alheios aos próprios factos. No caso vertente, esse dado é a famosa visão de Mc 16,19, que supõe Jesus “sentado à direita de Deus”. É evidente, no entanto, que quer para Lucas como para Marcos, Deus e Jesus são duas entidades absolutamente separadas, diferentes e de natureza distinta. (RODRÍGUEZ, 2007, p. 175) (grifo nosso).

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Na opinião desse estudioso, em seu tempo, Jesus não era considerado Deus, isso foi coisa que aconteceu posteriormente, com o desenvolvimento do cristianismo, que muito abraçou das crenças pagãs. At 3,13: “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós entregastes e perante a face de Pilatos negastes, quando este havia resolvido soltá-lo”. A afirmativa de Pedro é categórica quanto à situação de Jesus de ser um servo glorificado por Deus, não cabendo nenhuma outra interpretação que eleve Jesus à condição de ser o próprio Deus, numa encarnação humana. At 3,22: “Pois Moisés disse: 'Suscitar-vos-á o Senhor vosso Deus, dentre vossos irmãos, um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser'”. At 3,26: “Deus suscitou a seu Servo, e a vós primeiramente vo-lo enviou para que vos abençoasse, desviando-vos, a cada um, das vossas maldades”. Continuando seu discurso, Pedro relaciona Jesus a Moisés que, segundo acreditavam, havia feito uma profecia de que Deus iria enviar um profeta semelhante a ele (Dt 18,15); disso só temos uma alternativa: aceitar que Pedro e todos os outros discípulos tinham Jesus como um profeta; não como a encarnação de Deus. Por outro lado, a crença dos judeus era que, segundo as profecias, Deus lhes enviaria um Messias (ungido); não que ele mesmo viria para restabelecer a sua aliança com o povo hebreu. At 4,27-31: “Porque verdadeiramente se ajuntaram, nesta cidade, contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho predeterminaram que se fizesse. Agora pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falam com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para curar e para que se façam sinais e prodígios pelo nome de teu santo Servo Jesus. E, tendo eles orado, tremeu o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com intrepidez a palavra de Deus”. Aí temos uma fala atribuída à comunidade cristã (v. 24), na qual se reafirma o que Pedro dissera a respeito de Jesus, tendo-o como um santo servo de Deus, o que nos indica ser essa a crença geral naquela época. At 5,31: “Sim, Deus, com a sua destra, o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão de pecados”. Ora, se Deus elevou Jesus à condição de Príncipe e Salvador é porque Ele estava numa situação inferior a essa, razão pela qual, não O podemos ter como Deus, pois isso implica em contradizer o que daí podemos entender. At 9,22: “Saulo, porém, se fortalecia cada vez mais e confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando que Jesus era o Cristo”. Se pela crença daquela época tinham Jesus como Deus, por que motivo Paulo não tentava provar isso, mas que Jesus era o Cristo? Cristo significa em grego ungido e em hebraico messias, portanto alguém subordinado à divindade e não ela própria. At 10,36-38: “A palavra que ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o Senhor de todos) esta palavra, vós bem sabeis, foi proclamada por toda a Judeia, começando pela Galileia, depois do batismo que João pregou, concernente a Jesus de Nazaré, como Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder; o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do Diabo, porque Deus era com ele”. O que aqui ocorre é semelhante ao passo anterior; portanto, se Deus ungiu a Jesus com

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“o Espírito Santo e com poder” é pelo fato de que Ele não gozava dessa condição, o que nos leva a acreditar que era inferior à nova situação; aquela depois de ungido e de ter recebido o poder. At 10,42: “este nos mandou pregar ao povo, e testificar que ele é o que por Deus foi constituído juiz dos vivos e dos mortos. Dessa fala de Pedro temos que Jesus disse que Deus o havia constituído juiz, como só se outorga uma condição dessa a quem não a tem, esse é o motivo que não nos permite concluir que Jesus seja Deus; até mesmo porque, no sentido real, ninguém concede alguma coisa a ele mesmo. Rm 1,1-4: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, e que com poder foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos - Jesus Cristo nosso Senhor,”. Aqui a coisa vai mais longe, pois, se Jesus foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade, nós outros o que somos? Ainda mantemos a ideia dos dois comentários anteriores, pois Jesus foi declarado ser algo que antes não era; consequentemente, não temos como elevá-Lo a uma situação de ser Ele o próprio Deus. Rm 1,8: “Primeiramente dou graças ao meu Deus, mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé”. 2Cor 12,21: “e que, quando for outra vez, o meu Deus me humilhe perante vós, e chore eu sobre muitos daqueles que dantes pecaram, e ainda não se arrependeram da impureza, prostituição e lascívia que cometeram.” Fl 1,2: “Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós”. Fl 4,19: “Meu Deus suprirá todas as vossas necessidades segundo as suas riquezas na glória em Cristo Jesus”. Fm 1,4: “Sempre dou graças ao meu Deus, lembrando-me de ti nas minhas orações”. Teria Paulo perdido essas oportunidades para afirmar que Jesus era Deus, ou definir Deus como sendo três pessoas? Acreditamos que não, porquanto, não era essa a concepção que faziam de Jesus àquela época, conforme está ficando cada vez mais claro nesse estudo. Rm 8,1-14: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado, para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Pois os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. Ora, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo Jesus há de vivificar também os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita. Portanto, irmãos, somos devedores, não à carne para vivermos segundo a carne; porque se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus”.

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Na verdade, não encontramos nada nessa passagem; porém, como a vimos ser citada (o que consta em negrito) para justificar que Jesus é Deus, resolvemos colocá-la aqui. Mas é certo que o Espírito de Deus habita em nós; não fomos criados à sua semelhança? O sentido figurado não pode ser outro a não ser esse. E realmente, se uma pessoa não tem o Espírito de Cristo, ou seja, age como Ele agiu, não é dele, porquanto, não o segue no exemplo. Rm 9,3-5: “Porque eu mesmo desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne; os quais são israelitas, de quem é a adoção, e a glória, e os pactos, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessas; de quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém. Muitas vezes deparamos com uma situação como essa; a de que a pontuação usada pelos tradutores pode nos levar a uma conclusão equivocada do que se está querendo dizer. Se no trecho final (v. 5) fosse dito: “[...] e de quem descende o Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas; Deus bendito eternamente. Amém”, perceberíamos que o sentido da frase é diferente do que se poderia pensar que aqui estar-se-ia se dizendo que Jesus é Deus. Quanto à questão da pontuação, é bom que se saiba:
[...] Um dos problemas com textos gregos antigos (o que incluiria todos os escritos cristãos mais primitivos, incluindo os do Novo Testamento) é que, quando eram copiados, não se usavam marcas de pontuação, não se fazia distinção entre minúsculas e maiúsculas e, o que é ainda mais estranho para leitores modernos, não havia espaços de separação entre as palavras. Este tipo de escrito sequencial é chamado de scriptuo continua e, é claro, muitas vezes, podia dificultar ler (nem falemos em entender) um texto. As palavras godisnowhere poderiam significar algo completamente distinto para um crente (God is now here = Deus está aqui agora) e para um ateu (God is nowhere = Deus não está em parte alguma) e o que significa dizer nojantardanoitepassadaamesaestavaabundante? Isso seria um acontecimento normal ou extraordinário? (EHRMAN, 2006, p. 58) (grifo nosso). Sabemos que os manuscritos originais do Novo Testamento não possuíam pontuação, e em face do fato de o grego clássico (incluindo o grego koiné, no qual foi escrito o Novo Testamento) gozar de ampla liberdade no tocante à ordem das palavras, é impossível, à base do próprio texto grego, provar um lado ou outro dessas ideias contraditórias. […] (SILVA, C., 2001, p. 309-310) (grifo nosso). […] Os manuscritos originais também não tinham sinais de pontuação. Estes foram introduzidos na arte de escrever em época recente. É claro, pois, que a pontuação moderna não é inspirada, e por isso não dá, às vezes, sentido às palavras do original. (SILVA, A., 1997, p. 77) (grifo nosso).

Disso conclui o teólogo Russell N. Champlin (1933- ) “Já que os primeiros manuscritos do N.T. são sem pontuação sistemática, editores e tradutores do texto devem inserir tais marcas de pontuação como parecem apropriadas à sintaxe e ao significado. […]” (CHAMPLIN, vol. 3, 2005c, p. 745). Isso, de fato, torna-se um problema muito sério, pois um sinal de pontuação mudado de lugar, acrescentado ou suprimido, seja por interesse ou não de quem o fez, pode alterar profundamente o sentido do texto. Para exemplificar isso, vejamos como o versículo 5, do passo citado, se encontra em outras traduções bíblicas: Bíblia do Peregrino: “[…] de sua linhagem segundo a carne descende o Messias. Seja para sempre bendito o Deus que está acima de tudo. Amém”. Bíblia Vozes: “[…] e deles é o Cristo segundo a carne. O Deus que está acima de tudo seja bendito pelos séculos! Amém”. Tradução Novo Mundo: “[…] e de quem [procedeu] o Cristo segundo a carne: Deus, que é sobre todos, [seja] bendito para sempre. Amém”. Observe-se que em todas, além da disposição dos vocábulos, há divergência na pontuação, o que também ocorre comparando-as com a que transcrevemos mais acima.

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Certamente, que o sentido delas, em relação à primeira, é completamente diferente em virtude da pontuação, entre um período e outro, pois, quer se usando um ponto, quer se usando os dois, não temos a mesma ideia de que no caso de usarmos uma vírgula, como no texto questionado. Assim, percebe-se que a intenção no texto é destacar Deus como sendo o verdadeiro e não a Jesus, o que se pode perfeitamente confirmar pelas próprias palavras de Jesus se referindo ao Pai: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste”. (Jo 17,3). As duas primeiras Bíblias – do Peregrino e Vozes - são de cunho católico e a última protestante. Acreditamos, sinceramente, que o significado seja o que daqui tiramos dessas traduções e não o da outra citada anteriormente. Isso porque, conforme estamos demonstrando, Jesus, àquela época, não era considerado como sendo o próprio Deus, somos obrigados a repetir. Esse fato veio a acontecer posteriormente, por imposição dos denominados “pais da Igreja”, cuja interpretação acabou prevalecendo; portanto, são eles os “pais da criança”, ou seja, os culpados de transformar Jesus em Deus; e, na sequência, para abrigar esse absurdo teológico, foi criada a Trindade, que conforme acreditamos, foi copiada de outras religiões mais antigas. O certo é que Paulo, autor da carta aos Romanos, não tinha Jesus como Deus. Esse fato é importante, porquanto ele viveu bem mais próximo dos acontecimentos do que os “pais da Igreja”. Leiamos o que ele disse aos colossenses: Cl 1,15-20: “Ele é a imagem do Deus invisível, o Primogênito, anterior a qualquer criatura; porque nele foram criadas todas as coisas, tanto as celestes como as terrestres, as visíveis como as invisíveis: tronos, soberanias, principados e autoridades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele existe antes de todas as coisas, e tudo nele subsiste. Ele é também a Cabeça do corpo, que é a Igreja. Ele é o Princípio, o primeiro daqueles que ressuscitam dos mortos, para em tudo ter a primazia. Porque Deus, a Plenitude total, quis nele habitar, para, por meio dele, reconciliar consigo todas as coisas, tanto as terrestres como as celestes, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz”. Caso Paulo realmente pensasse que Jesus fosse Deus, nunca iria dizer "ele é a imagem do Deus invisível" e "aprouve a Deus fazer habitar nele a plenitude”; e para quem afirma que "… não há senão um só Deus" (Rm 3,30), é porque não pensava em divinizá-lo ou em torná-lo um Deus; certamente usou uma metáfora para evidenciar a grandeza de Jesus, que sabemos ter participado da criação do mundo, como preposto de Deus. 1Cor 1,22-24: “Pois, enquanto os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos, mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus”. A figura de linguagem é notória; Paulo sempre colocou Jesus como mediador entre Deus e os homens (Gl 3,19-20; 1Tm 2,5) e, neste sentido, Ele está com o poder e a sabedoria de Deus, sem exatamente ser o próprio Deus. O autor de Hebreus, como exemplo, tem essa mesma visão de Paulo, ou seja, para ele também Jesus é mediador. (Hb 8,6; 9,15 e 12,24). 1Cor 8,4-6: “Quanto, pois, ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só. Pois, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual existem todas as coisas, e por ele nós também”. Gl 3,20: “Ora, o mediador não o é de um só, mas Deus é um só. Ef 4,46: “Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos”. 1Tm 2,5: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo

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Jesus, homem,”. Também seriam excelentes oportunidades para Paulo dizer que existe um só Deus e que nele há três pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo; entretanto, não o faz, porquanto, ainda não havia sido criada a crença na Trindade, o que só aconteceu posteriormente, conforme já o dissemos. Então, se aqui Jesus não foi elevado à categoria de um Deus, extemporaneamente, isso não deveria ter sido feito pelos teólogos dogmáticos. Na última passagem ainda se reforça a condição de Jesus ser homem, embora não se possa negar sua condição de mensageiro Divino, o maior Espírito que pisou o solo da Terra. 2Cor 4,4: “nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. Cl 1,13-15: “e que nos tirou do poder das trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho amado; em quem temos a redenção, a saber, a remissão dos pecados; o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;”. Confundir a imagem de uma pessoa com a própria pessoa é algo em que falta bom senso e lógica, aos que assim procedem. Se Jesus é a imagem de Deus, não pode ser, ao mesmo tempo, o próprio Deus, como a nossa imagem no espelho não é o nosso ser; é, na realidade, apenas um reflexo do “meu físico”. Gl 4,4-5: “mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei, para resgatar os que estavam debaixo de lei, a fim de recebermos a adoção de filhos”. Se, conforme se entende, Jesus não teria vindo destruir a Lei (Mt 5,17), tendo nascido de mulher e debaixo da lei, ou seja, nasceu de forma natural, como acontece a todos nós, pois essa é a Lei, então, ele é um ser humano, em igualdade de condições conosco. Aliás, Ele mesmo afirmou “Tudo o que eu fiz, vós podeis fazer e até muito mais” (Jo 14,13); dessa forma Ele se iguala a todos nós, sem se colocar na posição de um ser superior e divino. Essa frase torna-se impossível aplicar-se caso Jesus seja um ser divino, na condição humana, porém, totalmente factível, se Jesus for um homem em missão divina. Ef 4,11-13: “E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo;”. Ora, se podemos chegar à medida da estatura da plenitude de Cristo é sinal de que Ele não é Deus, porquanto, nunca chegaremos à plenitude de Deus, uma vez que, se isso pudesse acontecer, teríamos vários deuses; melhor dizendo, bilhões de deuses. Entretanto, não nos será impossível chegar ao estado de homem feito (espírito puro). Fp 2,5-11: “Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai”. Aqui temos uma declaração bem conflitante com o restante dos textos bíblicos, na qual supõem-se que Paulo declara ser Jesus igual a Deus; entretanto, parece-nos que os tradutores da Bíblia de Jerusalém pensam de outra forma; tanto é que a palavra Deus está grafada em letra minúscula, querendo significar um homem “não-pecador” (Bíblia de Jerusalém, p. 2049). Esclarece-nos ainda mais, dizendo que o versículo 6b possuiu “outras traduções menos prováveis: 'não considerou o estado de igualdade com Deus como presa a agarrar”, “não

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reteve ciumentamente a condição que o igualava a Deus”, (Bíblia de Jerusalém, p. 2049). Isso nos despertou a curiosidade para ver como consta em outras Bíblias. Vejamos:
Versões bíblicas
SBTB/TBS, SBTB Shedd Cristão e SBB e

Texto bíblico Fp 2,5-6:
"De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus”. “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;”. “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus: Ele, estando na forma de Deus não usou de seu direito de ser tratado como um deus”. “E haja entre vós o mesmo sentimento que houve também em Jesus Cristo. O qual tendo a natureza de Deus, não julgou que fosse nele uma usurpação ser igual a Deus:” “Comportai-vos entre vós assim, como se faz em Jesus Cristo: ele, que é de condição divina, não considerou como presa a agarrar o se igual a Deus”. “Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo: Ele tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade com Deus”. “Dedicai-vos mutualmente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus”. “Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus: Ele que era de condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus”. “Tende em vós os mesmos sentimentos que Cristo Jesus teve: Ele, subsistindo na condição de Deus, não pretendeu reter para si ser igual a Deus”. “Tende em vós os mesmos sentimentos que (houve) em Jesus Cristo, o qual, existindo na forma (ou natureza) de Deus, não julgou que fosse uma rapina o seu ser igual a Deus”. “Mantende em vós esta atitude mental que houve também em Cristo Jesus, o qual, embora existisse em forma de Deus, não deu consideração a ser igual a Deus”.

Mundo

De Jerusalém

Barsa

Paulinas/Loyola

Pastoral

Ave Maria

Santuário

Vozes Paulinas 1957, 1977 e 1980 Novo Mundo

Temos o velho problema das traduções que, em obediência à concepção individual do autor bíblico, acabaram por transformar Jesus no próprio Deus, sem nenhum fundamento no que Ele disse, mas, apenas, seguindo crença generalizada entre os povos antigos. E nisso foram bem mais longe, pois, enquanto os pagãos acreditavam que o seu deus vinha à terra e em contato carnal com uma mulher virgem gerava um semideus, os cristãos elevaram o seu semideus à condição de Deus. Tem plena razão o escritor José Pinheiro de Souza (1938- ), quando diz:
Do mesmo modo, os escritores cristãos da igreja primitiva (sobretudo Paulo e João), influenciados pela cultura mitológica dominante da época (a cultura grego-romana), onde era muito comum a crença em “encarnações divinas” e em “filiação divina”, não no sentido adotivo/metafórico/honorífico, mas no sentido natural (físico/biológico), para enaltecer ao máximo a pessoa de Jesus e as suas ações e, sobretudo, para dar credibilidade ao cristianismo nascente, absolutizaram-no, endeusando-o e fazendo-o super exclusivista, o único “Filho de Deus”, o único Deus encarnado (no sentido natural dessas expressões), o único salvador da humanidade, o único mediador entre Deus e os homens, o único fundador da verdadeira religião, o único que verdadeiramente ressuscitou dos mortos, etc. (SOUZA, 2010, p. 35-36).

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Mais à frente, acrescenta:
Paulo de Tarso, para dar credibilidade ao cristianismo primitivo e atrair seguidores de várias religiões do mundo pagão do Mediterrâneo, procurou converter os adeptos dessas religiões pagãs, utilizando a estratégia mítica de que Cristo também era uma divindade salvadora, vinda do céu, tendo nascido miraculosamente (como os demais deuses das religiões pagãs) mediante um parto virginal, tendo sido morto e ressuscitado para resgatar-nos de nossos pecados herdados do pecado de Adão e Eva. O Paulinismo, como estamos comprovando nesta obra, é, de fato, cópia e/ou incorporação de crenças, de cultos e de ritos de várias religiões pagãs de épocas mais antigas do que o cristianismo, destacando-se o culto a Ísis, a Dionisio e a Mitra. Para atrair seguidores para o cristianismo, Paulo fez sincretismo com elementos de várias religiões e filosofias, particularmente com elementos das religiões de mistério do Egito, da Grécia, do paganismo greco-romano, da Índia e de várias outras culturas religiosas mais antigas:
As evidências da grande semelhança entre a religião cristã e outras crenças do mundo antigo são volumosas, detalhadas, extremamente específicas e incrivelmente vastas, estendendo-se desde a sabedoria védica na Índia aos mitos nórdicos da Escandinávia, às lendas dos incas e à espiritualidade original dos povos indígenas da América do Norte (HARPUR, 2008, p. 43)

(SOUZA, 2010, p. 40-41) (grifo nosso).

Analisando-se friamente os textos bíblicos não podemos deixar de dar razão ao fato de que o cristianismo tem muito das religiões pagãs; somente não se vê isso por extremada ortodoxia. Cabe-nos ressaltar que o prof. Pinheiro é da opinião de que foi Paulo o responsável pela divinização de Jesus, conforme se vê nesse seu texto. Outra pessoa que pensa da mesma forma é a historiadora e advogada Paloma Sánchez-Garnica (1962- ), autora da obra O grande Arcano, da qual transcrevemos:
As massas arrastadas pela sua mensagem cresceram tanto nos anos posteriores à sua morte, que surgiram os oportunistas. A população romanizada gostava de ouvir a mensagem de Jesus de Nazaré. Mas essa população precisava de um homem superior, reclamava que essa mensagem procedesse de um ser divino, pois estava acostumada a venerar mil deuses. Não se podia apresentar o porta-voz daquelas palavras como um homem normal, e começouse a tergiversar o fundamental em toda essa farsa: a ressurreição de Jesus de Nazaré em corpo e alma, sua divinização levada ao extremo, equiparando-o ao próprio Deus, quando Ele em nenhum momento dissera que era Deus. […] Isso pode ser comprovado nos Evangelhos. Nenhum dos quatro evangelistas põe na boca de Jesus sua identificação com Deus; quando lhe é perguntado quem é, responde que é “filho do homem”, dando a entender que era um homem sem mais adjetivos, e isso já podia ser considerado corno a mais alta honraria. Foi nas Epístolas de Paulo que apareceu a expressão “Filho de Deus”, e precisamente a Paulo se atribuiu a origem dessa ideia da ressurreição e da divinização do homem. Assim tudo começou. A partir de então, surgiu uma profusão de ideias e de linhas de pensamento: as lutas e enfrentamentos foram numerosos, até que venceu uma dessas correntes; aquela fundada por Paulo e mantida pela corrente grega foi a que triunfou e se impôs ao restante; estabeleceu seu poder definitivamente no concílio de Niceia de 325 e afastou, destruiu, perseguiu ou considerou como hereges todos os que não estivessem de acordo com ela. Os textos originais dos Evangelhos foram alterados, porque era necessário adaptá-los à população a que eram dirigidos, uma população não judia, e sim romana, helenizada e com uma mentalidade distinta à dos judeus a quem Jesus havia se dirigido; sua verdadeira mensagem ficou em um segundo plano: valia tudo para aumentar o número de discípulos da nova religião. A partir desse momento, ou se estava com a Igreja ou contra ela. Em poucos anos, os perseguidos passaram a ser perseguidores; e assim se passaram dois

215 mil anos. (SÁNCHEZ-GARNICA, 2008, p. 427-428) (grifo nosso).

Nosso objetivo em trazê-la foi para vermos que também ela afirma que os textos originais dos Evangelhos foram adulterados, para adaptá-los aos dogmas estabelecidos. 1Tm 3,16: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória”. Esse passo é mais um dos que precisamos ver o teor em outras traduções, para podermos ver por qual motivo o tomam para sustentar que Jesus, como Deus, ter-se-ia manifestado na carne. Vejamos:
Versões bíblicas
SBTB SBB Shedd Cristão e Mundo

Texto bíblico 1Tm 3,16
“E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória ”. "E sem dúvida alguma grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, [...]”. “Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, […]”. “Seguramente, grande é o mistério da piedade: Ele foi manifestado na carne, justificado no Espírito, [...]”. “E visivelmente é grande o sacramento da piedade, com que Deus se manifestou em carne, foi justificado pelo espírito, [...]”. “Grande é, com certeza, o ministério da piedade. Ele foi manifestado na carne, justificado pelo Espírito, [...]”. “De fato, como é grande o mistério da piedade: ele se manifestou na carne, foi justificado no espírito, […]”. “Grande é sem dúvida o mistério de nossa religião: Manifestou-se corporalmente, justificado no Espírito, [...]”. “Sim, é tão sublime – unanimemente o proclamamos – o Mistério da bondade divina: manifestado na carne, justificado no Espírito, [...]”. “Em verdade, grande mistério é o da piedade. Manifestou-se na carne, foi justificado pelo Espírito, […]”. “Não pode haver dúvida de que é grande o mistério da piedade: Ele foi manifestado na carne, foi justificado no espírito, [...]” “E evidentemente é grande o mistério da piedade, que se manifestou na carne, que foi justificado pelo Espírito, visto pelos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, exaltado na glória ”. “Evidentemente, grande é o mistério da piedade: aquele que foi manifestado na carne, foi justificado em espírito, […]”.

De Jerusalém Barsa Paulinas/Loyola: Pastoral Do Peregrino Ave Maria Santuário Vozes Paulinas 1957, 1977 e 1980 Novo Mundo

Enquanto nas versões da SBTB e Barsa a personagem que se manifestou na carne foi o próprio Deus, nas restantes foi Jesus. Visando resolver o impasse buscamos orientação em Russell Norman Champlin, que dá a seguinte explicação para “... Aquele que foi manifestado na carne...”:
Essas palavras ensinam tanto a “preexistência”, como a “encarnação” de Cristo. (Ver o trecho de João 1:1-3;14 acerca dessas doutrinas bíblicas). A divindade de Cristo não é aqui ensinada diretamente, mas somente uma pessoa divina poderia ter realizado tudo quanto aqui é atribuído a Cristo. (Ver Heb. 1:3 quanto a notas expositivas sobre a “divindade de Cristo”). Além disso, esta epístola defende a “humanidade autêntica” de Jesus, o Cristo, o que era negado pelo docetismo ensinado pelos gnósticos. Cristo é a “epifania” de Deus, isto é, a sua “manifestação”. Assim

216 sucedeu quando da encarnação, e assim sucederá novamente quando de sua “parousia” ou segundo advento. (ver as notas expositivas completas a esse respeito, em I Tes. 4:15. Quanto à exposição dessas verdades, nestas epístolas pastorais, ver os trechos de I Tim. 6:14 e II Tim. 1:10, que frisam a primeira manifestação, e ver I Tim. 4:1,8, que salienta a segunda futura manifestação. O trecho de I João 3:2 pode ser comparado quanto à primeira manifestação; e o trecho de I Tim. 4:2 pode ser posto em confronto com a passagem presente, no tocante à ênfase sobre a autêntica humanidade de Jesus, como Verbo encarnado, onde tal ideia combate, uma vez mais, o docetismo dos gnósticos). A vinda de Cristo foi “... na carne...” Essa expressão é usada exclusivamente aqui, nas “epístolas pastorais”. (Comparar com João 1:14 e I João 4:2; II João 7; Rom 1:3; 8:3 e 9:5). O hino que encontramos aqui começa afirmando a verdade central do cristianismo, que faz parte do grande mistério da nossa fé. (CHAMPLIN, 2005e, p. 317) (grifo nosso).

Embora reconheça o real significado da expressão, Champlin busca dar-lhe o sentido de algo que dá sustentação à divinização de Jesus. É sempre a mesma história que ocorre com aqueles que ficam presos aos dogmas estabelecidos: não enxergam o óbvio. Quanto a explicação sobre a divergência nas traduções, encontramo-la em Bart D. Ehrman:
Em 1715, Wettstein foi à Inglaterra (em uma turnê literária) e teve completo acesso ao Códice Alexandrino, do qual já ouvimos falar quando abordamos Bentley. Uma parte do manuscrito mereceu a atenção particular de Wettstein: era uma daquelas questões acessórias de consequências enormes: dizia respeito ao texto de uma passagem-chave do livro de I Timóteo. A passagem em questão, I Timóteo 3, 16, fora usada durante muito tempo por defensores da teologia ortodoxa em apoio da visão segundo a qual o próprio Novo Testamento chama Jesus Deus. É que o texto, na maioria dos manuscritos, refere-se a Cristo como "Deus tornado manifesto na carne e justificado no Espírito". Como já indiquei no capítulo 3 deste livro, a maioria dos manuscritos abreviava os nomes sagrados (os chamados nomina sacra, e esse é o caso justamente aqui, onde o termo grego para Deus ( EO! é abreviado com duas letras, teta e sigma ( !), com uma linha traçada no topo das duas para indicar que se trata de uma abreviatura. Wettstein percebeu, ao examinar o Códice Alexandrino, que a linha sobre as duas letras fora feita em uma tinta diferente da que fora usada para as palavras circundantes, de onde se depreende que provinha de uma mão tardia (isto é, traçado por um copista posterior). Além disso, o traço horizontal do meio da primeira letra, , não fazia realmente parte da letra, mas era uma linha que vazara desde o outro lado do velho velino. Em outros termos, em vez de se tratar de uma abreviatura ( teta-sigma) de "Deus" ( !, a palavra era realmente formada por um ômicron e um sigma (O!), uma palavra completamente diferente, que significa simplesmente "quem". A redação original do manuscrito não falava, pois, de Cristo como "Deus manifestado na carne", mas de Cristo, "que foi manifestado na carne". De acordo com o testemunho antigo do Códice Alexandrino, Cristo deixa de ser explicitamente chamado de Deus nessa passagem. (ERMAN, 2006, p. 123) Na verdade, já vimos uma variação textual relacionada a essa controvérsia cristológica em nossa discussão, no capítulo 4, das pesquisas textuais de J.J. Wettstein. Wettstein examinou o Códice Alexandrino, atualmente na Biblioteca Britânica, e determinou que em 1 Timóteo 3,16, onde a maioria dos manuscritos fala de Cristo como “Deus tornado manifesto na carne”, esse manuscrito primitivo fala originalmente de Cristo “que foi tornado manifesto na carne”. A mudança, em grego, é muito sutil – é apenas a diferença entre as letras teta e ômicron ( ! e O!), que são muito semelhantes. Um copista tardio alterou a variante original, de modo que se deixou de ler “que” e passou a ler “Deus” (tornado manifesto na carne). Em outros termos, esse revisor tardio mudou o texto de modo a enfatizar a divindade de Cristo. É chocante perceber que a mesma correção ocorreu em quatro dos nossos outros manuscritos primitivos de 1 Timóteo. Todos eles encontraram revisores que mudaram o texto do mesmo modo, de modo que agora ele chama Jesus explicitamente de “Deus”. Esse se tornou o texto da vasta maioria dos manuscritos bizantinos (isto é, medievais) posteriores – e por isso se tornou o texto da maioria das traduções antigas da

217 Bíblias. (EHRMAN, 2006, p. 167).

Foi ótimo tomar conhecimento disso, pois agora temos argumentos para refutar aqueles que advogam que Jesus é o próprio Deus. 1Pe 3,18: “Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; sendo, na verdade, morto na carne, mas vivificado no espírito;”. A ressurreição espiritual de Jesus (vivificado no espírito) é um fato que leva muitas pessoas a divinizá-Lo, sem se darem conta de que todos os seres humanos também ressuscitarão; uns para a glória (viver como espíritos puros), outros para a perdição (planetas inferiores, onde haverá prantos e ranger de dentes). O dia em que o homem se render à realidade do Espírito, o que de fato somos, então entenderá isso; até lá continuará mantendo suas crenças, tal e qual crianças que, por exemplo, acreditam ser verdadeira a história, contada pelos adultos, de que os bebês são entregues por cegonhas. 1Jo 5,1: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é o nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, ama também ao que dele é nascido”. Entendamos o que significa a palavra Cristo: “O termo de origem grega significa 'ungido' e traduz o termo hebraico 'messias'. Os sumos sacerdotes (Lv 4,3-16; 15,16) e os reis de Israel (1Sm 12,3-5; 24,7.11; 2Sm 19,22) eram chamados de 'ungidos'”. (Bíblia Sagrada Vozes – p. 1520) e até mesmo Ciro, rei da Pérsia, um pagão recebe o título “ungido de Iahweh” (Is 45,1) (Bíblia de Jerusalém, p. 1325). Assim, percebemos que se trata de um título e não um nome próprio como muitas vezes vemos nomeando-O, quando o correto seria dizer: Jesus, o Cristo. Se outras passagens bíblicas trazem pessoas também consideradas como ungidos, então não podemos dizer que a condição de “ungido” O transforma em divino, já que sua divindade decorre de sua evolução espiritual. 1Jo 5,7-8: “Porque três são os que dão testemunho: o Espírito, e a água, e o sangue; e estes três concordam”. Em princípio, esse passo nada teria a ver com o caso; entretanto, ele consta de algumas Bíblias 8 com teor semelhante a este da Bíblia Anotada: “Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra]: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito”. Vejamos o que nos explicam sobre essa divergência (o que grifamos):
O texto dos vv. 7-8 é acrescido na Vulg. De um inciso (aqui abaixo entre parênteses) ausente dos antigos mss gregos, das antigas versões e dos melhores mss da Vulg., o qual parece ser uma glosa marginal introduzida posteriormente no texto: “Porque há três que testemunham (no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e esses três são um só; e há três que testemunham na terra); o Espírito, a água e o sangue, e esses três são um só” (Bíblia de Jerusalém, p. 2132-2133). (grifo nosso). De acordo com os melhores códigos, o texto original devia ser o seguinte: “O Espírito, a água e o sangue, e estes três são unânimes”. Estes vv. São conhecidos como o “Coma Joaneo”, cujo acréscimo tem sua autenticidade contestada embora seja verdadeira a doutrina nele exposta. (Bíblia Barsa, NT, p. 221). (grifo nosso). Depois de “os que dão testemunhos”, ?ABVgSyh,p omitem as palavras acrescentadas em mss. gr. Posteriores e na Vgc, a saber: 'no céu, o Pai, a Palavra, e o espírito santo; e estes três são um. (Trad. Novo Mundo, p. 1407). (grifo nosso).
Bíblia Sagrada – SBTB, Bíblia Anotada, Bíblia Shedd, Bíblia Sagrada – SBB, Bíblia Sagrada – Paulinas, 9ª, Bíblia Sagrada – Paulinas, 37ª ed. e Bíblia Sagrada – Barsa.
8

218

Jung, ao dizer que “não existe uma só passagem do Novo Testamento na qual a Trindade seja mencionada dum modo que possa ser expresso numa linguagem racional”, remete-nos a uma nota na qual ele explica o seguinte:
O chamado Comma Johanneum que, sob este ponto de vista, constitui uma exceção, é um caso comprovadamente tardio e de origem duvidosa. Como textus per se (texto em si) e como revelatum explicitum (como revelado explícito) seria a prova mais convincente da ocorrência da Trindade no Novo Testamento. Trata-se de 1Jo 5,7: “Porque são três os que testificam: o Espírito e a água e o sangue, e estes três estão de acordo, (isto é, convergem no testemunho de que Cristo veio “pela água e pelo sangue”. A Vulgata, neste lugar, traz a inserção tardia: “Quonian tres sunt, qui testiomonium dant in coelo: Pater, Verbum et Spiritus Sanctus: et hi tres unum sunt” [Porque três são os que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espirito Santo, e estes três são um só].[...] (JUNG, 1988, p. 27).

Um estudioso que também fala disso é o ex-evangélico Bart D. Ehrman, Ph.D. em Teologia pela Princeton University e dirige o Departamento de Estudos Religiosos da University of North Carolina, Chapel Hill. É especialista em Novo Testamento, igreja primitiva, ortodoxia e heresia, manuscritos antigos e na vida de Jesus; ele afirma:
Havia, contudo, uma passagem-chave das Escrituras que os manuscritosfonte de Erasmo não continham: trata-se do relato de 1 João 5,7-8, que os pesquisadores chamaram de o parêntese joanino, encontrado nos manuscritos da Vulgata latina, mas não na vasta maioria dos manuscritos gregos, uma passagem que foi, por muito tempo, a predileta entre os teólogos cristãos, dado que é a única passagem na Bíblia inteira que delineia explicitamente a doutrina da Trindade, segundo a qual há três pessoas na divindade, com todas as três constituindo um só Deus. Na Vulgata, a passagem é lida assim: Há três que conduzem o testemunho nos céus: o Pai, o Verbo e o Espírito e esses três são um; e há três que conduzem o testemunho na terra, o Espírito, a água e o sangue, e esses três são um. Trata-se de uma passagem misteriosa, mas inequívoca em seu apoio aos ensinamentos tradicionais da igreja sobre o "Deus trino que é um". Sem esse versículo, a doutrina da Trindade deve ser inferida de uma série de passagens combinadas para mostrar que Cristo é Deus, assim como o Espírito e o Pai, e que há, não obstante, um só Deus. Essa passagem, por seu turno, afirma a doutrina direta e sucintamente. Mas Erasmo não a achou em seus manuscritos gregos, nos quais simplesmente se lê: "Pois há três que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue, e esses três são um". Para onde foram "o Pai, o Verbo e o Espírito"? Eles não figuravam no manuscrito primário de Erasmo, nem em nenhum dos demais que ele consultou. Por isso, naturalmente, ele os deixou de fora de sua primeira edição do texto grego. Foi isso, mais do que qualquer outra coisa, que tirou do sério os teólogos de seu tempo, que acusaram Erasmo de adulterar o texto, numa tentativa de eliminar a doutrina da Trindade e de desvalorizar o seu corolário, a doutrina da divindade plena de Cristo. Particularmente Stunica, um dos editores-chefes da Poliglota Complutense, veio a público desacreditar Erasmo e insistir em que, em edições futuras, ele restituísse o versículo a seu lugar correto. Com o desenrolar dos fatos, Erasmo - provavelmente em um momento de descuido - concordou em inserir o versículo em uma futura edição de seu Novo Testamento grego, sob uma condição: que seus adversários produzissem um manuscrito grego no qual o verso pudesse ser encontrado (achá-lo nos manuscritos latinos não era o bastante). Dessa forma, produziu-se um manuscrito grego. Na realidade, ele foi produzido nessa ocasião. Parece que alguém copiou o texto grego das epístolas e, quando chegou à passagem em questão, traduziu o texto latino para o grego, dando o parêntese joanino em sua forma teologicamente aproveitável, familiar. O manuscrito providenciado para Erasmo era, em outras palavras, uma produção do

219 século XVI, feita sob encomenda. (EHRMAN, 2006, p. 91-92) (grifo nosso).

Assim, estamos vendo que a adição, que aparece em algumas traduções da Bíblia, tem o objetivo de se justificar a Trindade, dogma de Constantino, anuído pela Igreja Católica, o que poderá ser comprovado em nosso texto anteriormente indicado. Lembramos apenas que “Deus é realmente um, e é apenas em nossa capacidade limitada de conceber que Deus se torna três”. (Barth, Karl, 1969, apud LORENZEN, 2002, p. 57). 1Jo 5,20: “Sabemos também que já veio o Filho de Deu.s, e nos deu entendimento para conhecermos aquele que é verdadeiro; e nós estamos naquele que é verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”. Passagem ao gosto dos “divinizantes”, que, apressadamente, a apresentam para sustentar suas crenças. Só que a coisa pode não ser tanto quanto querem, visto que, essa passagem, na versão dos tradutores da Bíblia de Jerusalém, tem o seguinte teor: Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a inteligência para conhecermos o Verdadeiro (c). E nós estamos no Verdadeiro, no seu Filho Jesus Cristo. Este é o Deus verdadeiro e a Vida eterna. Explicam-nos, em nota, o seguinte: c) Deus, o único verdadeiro (Jo 17,3+; cf. 8,31); 1Ts 1,9; Ap3,4) e o único verdadeiramente conhecido pelo que ele é: Vida e Amor. (Bíblia de Jerusalém, p. 2134). O que significa dizer que “O verdadeiro” que negritamos no passo deve ser entendido como “Deus, o único verdadeiro”. Na Bíblia Sagrada Vozes, encontramos a seguinte redação: “Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna”. Observa-se, que o “este”, da tradução anterior, passa a ser “Ele”. Seus tradutores nos explicam “O Verdadeiro” dessa forma: o verdadeiro Deus, ou então, Deus, o Verdadeiro. (Bíblia Sagrada Vozes, p. 1553). O que faz ter o sentido diferente da tradução anterior. De igual modo a Bíblia Do Peregrino e Novo Testamento Loyola, encontramos “Ele”. Assim, percebemos que a polêmica toda, em torno dessa passagem, está ligada à questão de qual manuscrito se toma para as traduções. Por tudo que levantamos até o momento sobre o assunto, temos a convicção de que na passagem o “este” está se referindo a Deus e não a Jesus; essa ideia só se mantém por conta das traduções divergentes. Considerando que, conforme já o dissemos alhures, o povo (Mt 16,13-14; 26,67-68; Jo 7,40 e 9,17), os discípulos (Lc 24,19; At 3,22) e o próprio Jesus (Lc 13,33;. Jo 8,40 e Mc 6,45) diziam ser ele, o Mestre, um profeta; não somos nós que iremos negar isso, já que não vivemos naquela época. Seria de grande interesse ver como esse problema já vem de longa data, sem que ainda se tenha ouvido as “vozes que clamam no deserto”. Flávio Cláudio Juliano (em latim Flavius Claudius Iulianus) ou simplesmente Juliano (331-363) foi o último imperador pagão do Império Romano, e reinou entre 361 e a sua morte; vejamos o que Henry Bettenson (1910-1979), cita dele:
r. Juliano opina sobre cristianismo: O culto de Jesus e dos mártires Juliano Contra Christianos, apud Cirilo de Alexandria contra Julianum, X (op. IX.326ss) Mas, infortunadamente, não sois fiéis às tradições apostólicas: estas em mãos dos seus sucessores tornaram-se em máxima blasfêmia. Nem Paulo, nem Mateus, nem Lucas ou Marcos ousaram afirmar que Jesus é Deus. Foi o venerável João quem, constatando que grande número de habitantes das cidades gregas e italianas eram vítimas de epidemias, e ouvindo, imagino, que as tumbas de Pedro e Paulo se tornavam objeto de culto (privado, sem dúvida, mas sempre culto), João, repito, foi quem primeiro ousou fazer tal afirmação...

220 Este mal se deve a João. Quem, entretanto, denunciará a causa desta outra inovação, qual seja, a veneração dos corpos de muitos cristãos mortos ultimamente, além dos corpos dos apóstolos? Tendes enchido as praças com tumbas e monumentos... Opinais que no particular nem sempre valem as palavras de Jesus... (Mt 23.27) declarando que os sepulcros estão cheios de imundície... como podeis invocar a Deus acima deles? (BETTENSON, 1967, p. 49-50) (grifo nosso).

Ernest Renan (1823-1892) disse que “Jesus não declara em momento algum que ele seja Deus. Ele se diz em relação direta com Deus, se diz filho de Deus. A mais alta consciência de Deus existente no seio da humanidade foi a de Jesus”. (RENAN, 2004, p. 138). E mais à frente, encontramos:
Que jamais Jesus tenha pensado em se fazer passar por uma encarnação do próprio Deus, é uma coisa que não se pode duvidar. Tal ideia era profundamente estranha ao espírito do Judaísmo; não há nenhum vestígio dela nos Evangelhos sinóticos [25], só a encontramos indicada nas partes do quarto Evangelho que menos podem ser aceitas como um eco do pensamento de Jesus. Às vezes parece que Jesus toma precauções para repelir tal doutrina [26]. A acusação de passar por Deus, ou igual a Deus, é apresentada, mesmo no quarto Evangelho, como uma calúnia dos judeus [27]. Nesse último Evangelho, Jesus se declara menor que seu Pai [28]. Em outro lugar, confessa que o Pai não lhe revelou tudo [29]. Ele se toma por um homem além do comum, mas separado de Deus por uma distância infinita. Ele é filho de Deus; mas todos os homens o são ou podem tornar-se em diversos níveis [30]. Todos, a cada dia, devem chamar a Deus seu pai; todos os ressuscitados serão filhos de Deus [31]. No Antigo Testamento a filiação divina era atribuída a seres que não se pretendiam, de forma alguma, igualar a Deus [32]. A palavra “filho”, nas línguas semíticas e na língua do Novo Testamento, tem as mais variadas acepções [33]. Além disso, a ideia que Jesus faz do homem não é essa ideia humilde que um frio deísmo introduziu. Em sua poética concepção da natureza, um único sopro permeia o universo: o sopro do homem é o de Deus. Habitando no homem, Deus vive pelo homem, assim como o homem que habita em Deus vive por Deus [34]. O idealismo transcendente de Jesus nunca lhe permitiu ter uma visão clara de sua própria personalidade. Ele é seu pai, seu Pai é ele. Ele vive em seus discípulos, está em toda parte com eles [35]; seus discípulos são um, como ele e seu Pai são um [36]. A ideia, para ele, é tudo; o corpo, que faz a distinção das pessoas, não é nada. ______
[25] Certas passagens, como Atos, II, 22, a excluem formalmente. [26] Mat. IV, 10; VII, 21, 22; XIX, 17; Marc. I, 44; III, 12; X, 17, 18; Luc., XVIII, 19. [27] João V, 18 e seg.; X, 33 e seg. [28] João XIV, 28. [29] Marc., XIII, 35. [30] Mat. V, 9,45; Luc. III, 38; VI, 35; XX, 36; João, 1, 12-13; X, 34-35, Comp. Atos, XVII, 28-29; Rom. VII, 14-17, 19, 21, 23; IX, 26; II Cor. VI, 18; Gálat. III, 26; IV, I e seg.; Fíl. II, 15; epístola de Barnabé, 14 (p. 10, Hilgenfeld, segundo o Codex Sinaïticus).e, no Antigo Testamento, Deuter. XIV, 1 e sobretudo Sabedoria II, 13, 18.1 [31] Luc. XX, 36. [32] Gen. VI, 2; Jó I, 6; II, 1; XXVIII, 7; Salmo II, 7; LXXXII, 6; VII, 14. [33] O filho do diabo (Mat., XIII, 38; Atos, XIII, 10); os filhos deste mundo (Marc., III, 17; Luc., XVI, 8; XX, 34); os filhos da luz (Luc., XVI, 8; João, XII, 36); os filhos da ressurreição (Luc., XX, 36); os filhos do reino (Mat., VIII, 12; XIII, 38); os filhos do esposo (Mat., IX, 15; Marc., II, 19; Luc., V, 34); os filhos da geena (Mat., XXIII, 15); os filhos da paz (Luc., X, 6), etc. Lembremos que o Júpiter do paganismo é pater andron te theon te. [34] Comp. Atos, XVII, 28. [35] Mat. XVIII, 20; XXVIII, 20. [36] João X, 30; XVII, 21. Ver, em geral, os últimos discursos relatados pelo quarto Evangelho, principalmente o cap. XVII, que exprimem bem um lado do estado psicológico de Jesus, embora não se possa encará-los Como verdadeiros documentos históricos.

(RENAN, 2004, p. 260-264). (grifo nosso).

Bart D. Ehrman afirma incisivamente que “Os escritos originais do Novo Testamento, porém, raramente trazem algo tão categórico como a firmação 'Jesus é Deus'” (EHRMAN,

221

2008, p. 324), em nota ele explica: “Há algumas passagens que se aproximam disso (por exemplo, João 8:58, 10:30, 14:9) e eis uma das razões pelas quais os proto-ortodoxos gostavam delas, mas nenhuma faz menção explícita de Jesus como Deus”. (EHRMAN, 2008, p. 389). Juan Arias, jornalista, filólogo, escritor e ex-sacerdote, nascido Arboleas, Almería (Espanha) em 1932. Cursou teologia, filosofia, psicologia, línguas semíticas e filologia comparada na Universidade de Roma. Durante quatorze anos foi correspondente na Itália e no Vaticano para o jornal espanhol El País. Antes disso, cobriu para o jornal Pueblo trabalhos do II Concílio do Vaticano. Viajou inúmeras vezes ao redor do mundo acompanhando os papas Paulo VI e João Paulo II. É autor de vários livros, publicados em mais de dez idiomas. Recebeu o Premio a la Cultura de la Presidencia del Gobierno e o Castiglione de Sicilia como melhor correspondente estrangeiro. Atualmente é correspondente no Brasil para El País e membro do Comitê Científico do Instituto Europeu de Design. Da sua obra Jesus esse grande desconhecido transcrevemos:
Jesus era diferente. Sem nunca renegar a sua condição de judeu cioso da Lei, foi imensamente crítico em relação à religião fossilizada de seu tempo. Nunca se proclamou Messias nem Deus, mas os que o seguiam, diante dos prodígios que realizava, sentiam-no como tal ou desejavam que o fosse. E, por mais que ele às vezes protestasse, dizendo que não era ele mas Deus quem operava os milagres, as pessoas e até os próprios apóstolos acreditavam literalmente que o novo Reino que ele anunciava era também um reino temporal e concreto que devolveria a Israel a liberdade perdida. E confiaram nele. (ARIAS, 2001, p. 100-101) (grifo nosso).

Arias possui credenciais suficientes para darmos crédito ao que fala. Se tivesse num encontro com o Presidente dos Estados Unidos, certamente, que este lhe diria: “Esse é o cara”. Concluímos dizendo que criar um mito é fácil, derrubá-lo torna-se a coisa mais difícil, tarefa quase impossível mesmo, visto que a grande maioria de nós não tem humildade suficiente para reconhecer que está errado, de um lado; e de outro o apego aos conhecimentos adquiridos como certos faz com que neguemos quase tudo o que nos vem de forma contrária; mesmo diante de elementos comprobatórios das verdades que nos são apresentadas; ou seja, agimos puramente por preconceito. Nossa maneira de agir é tal qual a daqueles que não queriam olhar o céu pelo telescópio de Galileu... Se estendemos por demais esse estudo, não foi sem razão, visto tratar-se, como já o dissemos, de um assunto polêmico; por isso seguimos: “O rigor da crítica exige uma busca longa e precisa, um exame de cada ponto, depois dos quais, com vagar e precaução, podemos afirmar que estes autores dizem a verdade e aqueles outros mentem sobre os prodígios que narram”. (ORÍGENES, 2004, p. 440). Apenas mais três coisinhas, antes de finalizar, se nos permite a sua paciência, caro leitor. Todos nós temos repulsa aos rituais sangrentos de sacrifícios de animais; pior ainda quando, ao invés de animais, são utilizados seres humanos. A origem deles sabemos ser os rituais pagãos; mas, apesar disso, encontramos nas páginas da Bíblia, tanto um quanto o outro. Os rituais de expiação pelos pecados praticados pelos judeus envolviam animais – touros, bodes, carneiros, cabritos, etc. -, na tola esperança de serem perdoados de seus pecados, quando o supremo Criador do Universo passa a perdoá-los por ter sentido o “odor agradável” de carne assada. Aliás, não sabemos quem inventou essa história, pois Deus nega veementemente que tenha instruído tais barbaridades: “Pois quando tirei do Egito os antepassados de vocês, eu não falei nada nem dei ordem alguma sobre holocaustos e sacrifícios” (Jr 7,22) e também afirmou que “eu quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6); essa afirmação foi confirmada pelo Mestre que disse: “E amá-lo de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo, é melhor do que todos os holocaustos e do que todos os sacrifícios". (Mc 12,33). Manassés, rei de Judá (687-642 a.C.), chegou a sacrificar seu filho no fogo (2Rs 21,17), o que também fez Acaz, rei de Israel (737-732 a.C.) (2Cr 18,1-4). Jefté, nono juiz de Israel, para cumprir uma promessa idiota que fez, mandou queimar sua filha (Jz 11,30-40), até mesmo toda Jerusalém foi acusada de entregar seus filhos para serem queimados (Ez 16,20-21; Jr 19,4-5).

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Um outro sacrifício foi feito por Jerusalém; aquele que fazem questão de lembrar todos os anos na Semana Santa. É isso mesmo; embora, não tenham queimado Jesus, numa oferenda, não deixaram por menos; pregaram-no numa cruz. Sabemos que, na verdade, não foi um sacrifício oferecido; mas a cristandade tem sua morte como tal, o que corroboramos em Rohden:
Infelizmente, porém, a ideia do bode expiatório que morreu para o judaísmo, continua no cristianismo, com a diferença de que agora o bode expiatório não é mais um animal inocente, que, morrendo, extinga os pecados humanos, mas sim o único homem sem pecados que, segundo a teologia, paga com sua morte os pecados da humanidade. (ROHDEN, 1996, p. 96) (grifo nosso).

E aí, magistralmente, conclui:
Depois desse pagamento dos pecados da humanidade pelo sangue de Jesus, era de se esperar que o homem estivesse quite com a justiça divina; mas os teólogos ensinam que todo homem nasce de novo em estado de pecado, vive e morre cheio de pecados – não se sabe em virtude de que lógica... (ROHDEN, 1996, p. 97) (grifo nosso).

Aceitando isso como querem, ou seja, o Messias como um “bode expiatório”, então, estamos diante de mais um absurdo teológico: Deus aceitando a expiação do pecado da humanidade após um sacrifício humano, que foi o do seu filho Jesus. Dito isso, vamos às três coisas: 1ª) Como um sacrifício de uma pessoa até a morte pode redimir o pecado de uma outra?; 2ª) Caso Jesus seja mesmo Deus, ficaremos em grande dificuldade para entender, como Deus, descendo do céu, encarnando num corpo humano (Jesus), utiliza-se de sua morte na cruz para oferecer-se em sacrifício a si próprio visando a remissão dos pecados da humanidade. Não seria mais prático e, portanto, mais lógico fazer isso com um simples perdão?; 3ª) Considerando que os rituais de sacrifício eram feitos pelos pecados já cometidos, então devemos esperar um outro Cristo para morrer pelos nossos, os cometidos depois de sua morte até o presente? Fechando esse estudo, queremos apenas acrescentar que não temos a pretensão de demover os que advogam a divindade de Jesus, da ideia de ser ele o próprio Deus, nem convertê-los à nossa maneira de pensar; estamos apenas propondo uma reflexão sobre esse assunto, e os que tiverem “ouvidos de ouvir, que ouçam”. Você, caro leitor, poderá até estranhar o motivo pelo qual enveredamos nessa reflexão. Respondemos: É que sempre achamos impossível seguir o exemplo de Jesus considerando-o como sendo Deus; e pensando assim, nenhum esforço fazíamos para tal; entretanto, considerando-o um ser humano encarnado como todos nós, e deixando a sua evolução fora disso, é mais viável assim entender, embora saibamos não ser uma tarefa muito fácil.

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A morte de Jesus foi para a remissão de pecados?
Sempre ouvimos dos cristãos tradicionais, especialmente os do segmento evangélico, que Jesus teria morrido na cruz para remissão dos nossos pecados. É um descalabro, que, certamente, não corresponde aos fatos históricos, pois, na realidade, a sua morte foi por questões políticas, obviamente, com o incentivo dos líderes religiosos de sua época que não toleravam seu discurso. O que percebemos é que as pessoas, que pensam dessa forma, querem, de fato, é a salvação “de graça”, pela qual não têm que fazer, absolutamente, nada para “ganhar” o “céu”. Aliás, modernamente, tem-se entendido que o “céu” e o “inferno” são estados de consciência e não lugares geográficos. Acreditamos que essa visão seja mesmo a interpretação lógica, levando-se em conta que Jesus disse aos fariseus “o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17,21). Isso nos remete à conclusão que somente a transformação moral pode levar-nos a implantá-lo dentro dos nossos corações, de forma que todas as nossas ações sejam pautadas na recomendação de “amar ao próximo como a si mesmo” (Mt 19,19). É importante, para nosso estudo, saber a ordem cronológica dos textos bíblicos, pois isso nos auxiliará na tentativa de descobrir quem seria o autor epígrafe dessa crença de que a morte de Jesus foi para remissão dos pecados, que reputamos, absurda e de cunho totalmente pagão. Iremos basear-nos na ordem proposta pelo professor Julio Trebolle Barrera (?- ), doutorado em Filosofia Semítica e Teologia, membro do Comitê internacional de publicação dos Manuscritos do Mar Morto, autor de vários livros sobre crítica textual.
1 Tessalonicenses (51) 2 Tessalonicenses (51 ou anos 90) Gálatas (54-57) Filipenses (56-57) 1 Coríntios (57) 2 Coríntios (57) Romanos (58) Filêmon (56-57 ou 61-63) Colossenses (61-63 ou anos 70/80) Efésios (61-63 ou anos 90/100) Marcos (anos 65-70) Tito (65 ou 95-100) 1 Timóteo (65 ou 95-100) 2 Timóteo (66 ou 95-100) Hebreus (anos 60 ou 70/80) Mateus (anos 70/80) Lucas (anos 70/80) Atos dos Apóstolos (anos 70-80) 1 Pedro (64 ou anos 70/80) Tiago (62 ou anos 70/80) João (anos 90) 1 João (anos 90) 2 João (anos 90) 3 João (anos 90) Apocalipse de João (anos 90) 2 Pedro (100-150) (BARRERA, 1999, p. 287-289)

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Vejamos, então, qual será o critério para a “salvação”, se é pelas obras, pela morte de Jesus na cruz ou, se ainda, por algum outro motivo. Salvação pelas obras? O primeiro ponto a ser levantado é saber em que, de fato, consistia a “salvação” para Jesus. Acreditamos que podemos encontrá-la no que ele disse sobre qual o critério que será usado para o julgamento de cada um de nós e na parábola do juízo final, conforme consta, respectivamente, dos seguintes passos: Mt 16,27: “Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a própria conduta”. Mt 25, 31-46: “Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita, e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: 'Venham vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar'. Então os justos lhe perguntarão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?' Então o Rei lhes responderá: 'Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram'. Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: 'Afastemse de mim, malditos. Vão para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque eu estava com fome, e vocês não me deram de comer; eu estava com sede, e não me deram de beber; eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram visitar'. Também estes responderão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou sem roupa, doente ou preso, e não te servimos?' Então o Rei responderá a esses: 'Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram'. Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”. Em ambos os textos, podemos ver que, “quando o Filho do homem vier”, o julgamento terá como critério a avaliação das ações a favor do próximo, que é exatamente o que se afirma com a expressão: “a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27), cujo teor foi reforçado com o exemplo dado no segundo passo. Por outro lado, a própria ideia de ocorrer um julgamento já induz a conclusão lógica de que alguma coisa será medida, pesada ou avaliada o que, portanto, conflita com a morte de alguém visando a remissão de pecados, que nada mais é que uma crença de pagã. Os judeus adoraram-na em sua cultura religiosa, quando Moisés estabeleceu o ritual do bode expiatório para remissão dos pecados do povo. Vejamos o passo: Lv 16,5-16: “Receberá da comunidade dos filhos de Israel dois bodes para o sacrifício pelo pecado e um cordeiro para o holocausto. Depois de oferecer o bezerro como sacrifício pelo seu próprio pecado, e de ter feito a expiação por si mesmo e pela sua família, Aarão pegará os dois bodes e os apresentará diante de Javé, na entrada da tenda da reunião. Tirará a sorte sobre os dois bodes: um será de Javé e o outro de Azazel. Pegará o que foi sorteado para Javé e o oferecerá como sacrifício pelo pecado. Quanto ao bode que foi sorteado para Azazel, será colocado vivo diante de Javé, para fazer a expiação, e depois será mandado para Azazel no deserto. Aarão oferecerá o bezerro do sacrifício pelo seu próprio pecado. Em seguida fará o rito de expiação por si mesmo e por sua família, e imolará o bezerro. Então

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encherá um incensório com brasas tiradas do altar diante de Javé e pegará dois punhados de incenso aromático em pó. Levará tudo para trás do véu, e colocará o incenso sobre o fogo, diante de Javé; uma nuvem de incenso cobrirá a placa que está sobre o documento da aliança; assim ele não morrerá. Depois pegará sangue do bezerro e aspergirá, com o dedo, o lado oriental da placa; depois, diante da placa fará com o dedo sete aspersões de sangue. A seguir imolará o bode do sacrifício pelo pecado do povo e levará o sangue para trás do véu. Com esse sangue, fará o mesmo que fez com o sangue do bezerro, aspergindo sobre a placa e diante dela. Fará desse modo o rito de expiação pelo santuário, pelas impurezas dos filhos de Israel, pelas transgressões e por todos os pecados deles. Fará o mesmo com a tenda da reunião, estabelecida entre eles no meio de suas impurezas”. Por necessidade, Moisés atribuiu esse ritual como tendo origem divina. Embora não tenha nenhum sentido em julgá-lo por conta disso, não quer dizer que ainda devemos praticar atos tão bárbaros como os aqui mencionados. É bom deixar bem claro que Jesus, aquele a quem incondicionalmente seguimos, veio com a missão específica de ensinar o “caminho de Deus” (Mt 22,16), não para servir de bode expiatório para “lavar” os pecados dos homens. Aliás, acreditamos que para não ficar algo forte designá-lo de “bode expiatório”, buscam, capciosamente, amenizar denominando-o “cordeiro expiatório”. Mudaram o termo; porém, a função continuou a mesma: morrer paga pagar pelos pecados dos outros. Vejamos mais algumas passagens indicativas de que seremos responsabilizados pelas nossas ações: Ex 34,7: “Ele conserva seu amor por milhares de gerações, tolerando a falta, a transgressão e o pecado, mas não deixa ninguém impune: castiga a falta dos pais nos filhos, netos e bisnetos". Nm 14,18: “Javé, paciente e misericordioso, que perdoas a culpa e a transgressão, mas não nos deixas sem castigo; que castigas a culpa dos pais em seus filhos, netos e bisnetos”. A crença de que haverá punição é algo bem claro nesses dois passos; porém, salta aos olhos a injustiça de se penalizar os filhos pela culpa dos pais. Da forma como está, certamente entra em conflito com “Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais. Cada um será executado por causa de seu próprio crime” (Dt 24,16, ver também Jr 31,29-30 e Ez 18,20). É melhor explicarmos, pois, na verdade, não há injustiça alguma. Vamos ver o primeiro passo, na versão dos tradutores da Bíblia de Jerusalém: Ex 34,7: “[...] e castiga a falta dos pais nos filhos e nos filhos dos seus filhos, até a terceira e a quarta geração”. O problema é que a preposição “até”, utilizada no texto, diz que os filhos e netos sofrem pelos erros dos pais, coisa totalmente injusta, indigna mesmo daquilo que podemos chamar de Justiça Divina; porém, se ela fosse alterada para “na”, ainda que não fosse a tradução correta, nada de injusto aconteceria. Veja, caro leitor, que essa simples mudança da preposição faz uma enorme diferença, porquanto se a pena ocorrer “na” terceira e quarta geração, o próprio espírito infrator estaria pagando, em “suaves prestações”, pelo erro que cometeu, uma vez que reencarna como seu neto ou bisneto, o que tornará a lei justa, vamos assim dizer, pois o espírito, que está sendo punido, não é outro senão aquele mesmo que a transgrediu. Recentemente, tivemos a oportunidade de conhecer como é o teor deste texto (Ex 34,7) na Torá e o anterior que fala quase a mesma coisa (Ex 20,6): Ex 34,7: “[...] visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, sobre terceiras e quartas gerações.” (TEMPLO ISRAELITA, 2001, pag. 266, grifo nosso).

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Ex 20,6: “[...] que visito a iniquidade dos pais nos filhos, sobre terceiras e quartas gerações, aos que me aborrecem; […]”. (TEMPLO ISRAELITA, 2001, p. 214, grifo nosso). Certamente, que a preposição “sobre” não tem o mesmo significado de “até”, está mais para ter o de “na”, conforme nossa sugestão, um pouco mais acima, em alterar o “até”, que consta de muitas traduções bíblicas cristãs. Vale a pena colocar o que o profeta Ezequiel disse: Ez 18,20: “O indivíduo que peca, esse é que deve morrer. O filho nunca será responsável pelo pecado do pai, nem o pai será culpado pelo pecado do filho. O justo receberá a justiça que merece e o injusto pagará por sua injustiça”. Este é o senso de justiça que todos deveríamos ter: a pena deve somente ser aplicada ao próprio infrator. E, diante disso, cabe-nos fazer a pergunta: Como nos imputam o pecado de Adão e Eva, qual é a base que tomam para sustentar tamanho disparate? Em Deuteronômio encontramos um trecho bem significativo, do qual podemos tirar interessantes conclusões: Dt 25,1-3: “Quando houver demanda entre dois homens e forem à justiça, eles serão julgados, absolvendo-se o inocente e condenando-se o culpado. Se o culpado merecer açoites, o juiz o fará deitar-se no chão e mandará açoitá-lo em sua presença, com número de açoites proporcional à culpa. Podem açoitá-lo até quarenta vezes, não mais; isso para não acontecer que a ferida se torne grave, caso seja açoitado mais vezes, e seu irmão fique marcado diante de você”. Retomando de nossos comentários, que dissemos alhures: “absolvendo-se o inocente”: isto significa que não se deve condenar um inocente. “condenando-se o culpado”: por questão de justiça o culpado deverá ser condenado. “se o culpado merecer açoites”: sinal que pode haver situação especial em que o culpado não mereça receber um castigo; uma repreensão poderia, talvez, ser mais útil. “o juiz... mandará açoitá-lo em sua presença”: a presença pessoal do Juiz indica a necessidade de se ter certeza do cumprimento da pena, se o culpado a merecer. “com número de açoites proporcional à culpa”: sendo o castigo proporcional à culpa, significa que não poderá haver pena igual para todos os tipos de infração à lei. “podem açoitá-lo até quarenta vezes, não mais”: significa, incontestavelmente, que tudo tem um limite, que a pena não poderá ser eterna, muito menos de morte, já que a pena deve ser efetiva, mas não definitiva. Alguma dúvida quanto a necessária e justa punição, que se deve aplicar ao culpado? Aliás, é comum dizer-se, quando da ocorrência de algum crime bárbaro: “errou tem que pagar”. Será que esse mesmo senso de justiça, que advogamos, não se deve também atribuilo a Deus no julgamento que irá fazer? 2Sm 7,13-14: “Ele é que vai construir uma casa para o meu nome. E eu estabelecerei o trono real dele para sempre. Serei para ele um pai e ele será um filho para mim. Se ele falhar, eu o corrigirei com bastão e chicote, como se costuma fazer”. Merece ser ressaltado que a intenção é corrigir quem errou e não punir, como pensa a maioria das pessoas. A correção indica o uso do amor, para reconduzir o infrator ao caminho certo, já a punição leva-nos a crer em estar ela motivada pelo sentimento de vingança, no qual não há nenhum intuito de mostrar o que deveria ter sido feito, visando a melhoria do infrator. 1Rs 8,32: “Escuta do céu e age. Julga os teus servos: condena o culpado, dando-lhe o que merece, e absolve o inocente, tratando-o conforme a justiça dele”.

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Além de absolver o inocente é intrínseco ao critério de justiça condenar somente o culpado. Dessa forma, já se pode ver que a crença comum, naquela época, nada tem a ver com remissão de pecados. 2Mc 6,12-16: “Recomendo àqueles que lerem este livro, que não fiquem perturbados por causa de tais calamidades. Ao contrário, pensem que esses castigos não vieram para destruir, mas apenas para corrigir a nossa gente. É sinal de grande bondade não deixar por muito tempo sem castigo aqueles que cometem injustiça, mas aplicar-lhes logo a merecida punição. O Senhor não age conosco como faz com os outros povos, esperando pacientemente o tempo de castigá-los, até que os pecados deles cheguem ao máximo. Ele quis agir dessa forma conosco, para não chegarmos primeiro ao extremo dos nossos pecados, e só então nos castigar. Significa que ele nunca retira de nós a sua misericórdia. Mesmo quando nos corrige com desgraças, não está abandonando o seu povo”. Fantástica a assertiva de que “é sinal de grande bondade não deixar por muito tempo sem castigo aqueles que cometem injustiça”, melhor que isso não é preciso; porém, temos mais; sigamos em frente. Jó 34,11: “Deus paga ao homem conforme as suas obras e retribui a cada um conforme a sua conduta”. Pr 3,11-12: “Meu filho, não despreze a disciplina de Javé, nem se canse com o aviso dele, porque Javé corrige aqueles que ama, como o pai corrige o filho preferido”. Eclo 18,8-14: “A duração de sua vida é de cem anos no máximo. Como gota no mar e grão na areia, tais são os seus poucos anos frente a um dia da eternidade. É por isso que o Senhor tem paciência com os homens, e derrama sobre eles a sua misericórdia. Ele vê e reconhece que o fim deles é miserável, e por isso multiplica para eles o seu perdão. A misericórdia do homem é para o seu próximo, porém a misericórdia do Senhor é para todos os seres vivos. Ele repreende, corrige, ensina e dirige, como o pastor conduz o seu rebanho. Ele tem compaixão dos que aceitam a correção, e dos que se esforçam para lhe cumprir os mandamentos”. Is 26,10: “Se absolvermos o malvado, ele nunca aprende a justiça; sobre a terra ele distorce as coisas direitas e não vê a grandeza de Javé” Diante de coisas tão claras, como ainda querem atribuir a salvação ao fato de alguém ter sido morto não por sacrifício a favor de alguém; mas puramente, por questões políticas? No livro Apocalipse (anos 90), cuja autoria é incerta, mas, por tradição, é atribuída a João, discípulo de Jesus, temos, novamente, qual será o critério de julgamento: Ap 20,12-13: “Vi então os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono. E foram abertos livros. Foi também aberto outro livro, o livro da vida. Então os mortos foram julgados de acordo com sua conduta, conforme o que estava escrito nos livros. O mar devolveu os mortos que nele estavam. A morte e a morada dos mortos entregaram de volta os seus mortos. E cada um foi julgado conforme sua conduta”. Corrobora tudo quanto foi apresentado até agora, inclusive, do que ouvimos do próprio Jesus, negar isso é algo que só fanático consegue fazer sem lhe “doer” a consciência. Vemos duas coisas curiosas neste livro. A primeira diz respeito ao fato de que João era iletrado (At 4,13), portanto, não sabia escrever, por isso, se foi ele mesmo quem escreveu o Apocalipse, só pode ter sido na condição de médium de psicografia. A segunda, é que se tem o seu conteúdo como fatos que irão acontecer num tempo futuro, apesar de, no início e no fim desse livro, ter sido alertado de que “o tempo está próximo” (At 1,3; 22,10). Quanto a isso, podemos dizer que não somos só nós que pensamos assim:
[…] Em vez de ser um livro sobre um futuro distante, tornar-se uma porta do diálogo sobre os desafios do presente imediato. Torna-se um livro de advertências e de promessas.

228 Os leitores originais do Apocalipse viviam sob constante ameaça de opressão religiosa por parte das autoridades religiosas e do império romano. Naquele ambiente não se podia falar – e com toda certeza não se podia escrever – nem uma palavra de crítica contra o governo ou outras autoridades. Caso alguém fosse flagrado de posse de tal literatura subversiva, seria levado à prisão, ou talvez condenado à morte. Entretanto, se ninguém falasse ou escrevesse a respeito da opressão, esta teria vencido, controlando, silenciando e intimidando a todos. Será que existe uma alternativa? Sim, e esta é a genialidade da literatura do oprimido de um modo geral, e da literatura apocalíptica em particular. Eis o que fazer: dizer a verdade sobre aqueles que estão no poder – que são corruptos, sedentos por derramar sangue, e amaldiçoados – mas fazer isso secretamente. Não se menciona o “império romano”; menciona-se “a besta”. Não se fala sobre as autoridades religiosas corruptas; personificam-se estas mesmas autoridades como sendo “o falso profeta”. O imperador não é citado, mas conta-se a história de um dragão. Dessa forma recusa-se a ser silenciado pelo medo – e não se produz nenhuma evidência capaz de incriminação, as quais poderiam levar à tortura e também à morte os autores e os leitores de tal literatura. Se o Apocalipse fosse um plano sobre um futuro distante, teria sido ininteligível para seus leitores originais, tanto quanto para os leitores de todas as gerações seguintes; e seria verdadeiro e plenamente relevante somente para uma geração – a que vivesse no exato período de tempo a respeito do qual teriam sido feitos os prognósticos. Mas se o Apocalipse for, por outro lado, um exemplar da literatura do oprimido, repleto de advertências e promessas sempre relevantes, será então um presente para cada uma das gerações com os necessários inspiração, sabedoria e encorajamento. Dentro dessa perspectiva, o Apocalipse torna-se um livro poderoso sobre o Reino de Deus aqui e agora, disponível a todos. (MCLAREN, 2007, p. 216-218) (grifo nosso).

Portanto, o pastor Brain D. McLaren (1956- ), a quem se acabou de ler, corrobora aquilo que tínhamos intuído desde a muito tempo. Salvação pela morte de Jesus na cruz? A questão que se coloca é: será que Jesus falou alguma vez que a sua morte na cruz seria para remissão dos pecados da humanidade? Em princípio, muitos fiéis diriam que sim; porém, a passagem que tomam como base, carece de uma análise mais profunda, coisa que, dificilmente, esses fiéis fazem, já que, regra geral, confiam cegamente no que seus líderes lhes passam. Vejamos o passo, que, nas Bíblicas católicas, é, geralmente, intitulado de “Instituição da Eucaristia”, no qual isso é ventilado: Mt 26,26-29: “Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu aos discípulos, e disse: 'Tomem e comam, isto é o meu corpo'. Em seguida, tomou um cálice, agradeceu, e deu a eles dizendo: 'Bebam dele todos, pois isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados. Eu lhes digo: de hoje em diante não beberei desse fruto da videira, até o dia em que, com vocês, beberei o vinho novo no reino do meu Pai'”. Fora a questão estranha de Jesus ter recomendado, ainda que simbolicamente, que bebessem sangue, porquanto, isso era, expressamente, condenado pela legislação mosaica, que previa até mesmo a exterminação de quem o fizesse (Lv 3,17; 7,27; 17,10.14; 19,26), ainda temos que o derramamento de seu sangue seria para “remissão dos pecados”. Entretanto, quanto a isso, algo nos soou ser improvável, porquanto, nesse mesmo autor, lemos: “Aprendam, pois, o que significa: 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício'. Porque eu não vim para chamar justos, e sim pecadores” (Mt 9,13), fato que, para nós, conflita com o que se propõe nesse passo em análise. Para sairmos desse impasse, resolvemos pesquisar nos outros Evangelhos para ver como consta, pela pena de seus autores, a versão desse episódio. Foi aí que nos deparamos com uma nova surpresa, embora já intuitivamente esperássemos por ela. Vejamos,

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primeiramente, a versão de Marcos (anos 65-70), pois, pelo que os estudiosos dizem, foi nele que Mateus (anos 70/80) teve a sua fonte: Mc 14,22-25: “Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu a eles, e disse: 'Tomem, isto é o meu corpo'. Em seguida, tomou um cálice, agradeceu e deu a eles. E todos eles beberam. E Jesus lhes disse: 'Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos. Eu garanto a vocês: nunca mais beberei do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus'”. Se fosse nos dias atuais diríamos que Mateus, simplesmente, plagiou Marcos, pois, as palavras utilizadas por este, que foi o primeiro a escrever, são quase as mesmas com as quais Mateus narra o episódio. O único detalhe, mas importante, é que Mateus acrescenta a expressão “para remissão dos pecados”, que, obviamente, não se encontra em Marcos e nem nos outros dois evangelistas – Lucas e João. Esse fato torna evidente que o texto do Evangelho Segundo Mateus sofreu um acréscimo; a questão é saber se foi o próprio autor ou algum piedoso teólogo, preocupado em defender dogma de sua igreja. Podemos mesmo admitir que a expressão “para remissão dos pecados” não foi acrescentada pelo autor de Mateus, pois, julgamos como hipótese mais provável é que ela tenha sido uma adulteração dos textos ditos originais realizada por puro interesse dogmático. Tal fato não escapou ao teólogo e exegeta Russell Norman Champlin (1933- ), que assim explica:
“... para remissão...”: são palavras que não se encontram no evangelho de Marcos, no original grego, podendo ter sido acrescentadas como uma forma de interpretação pelo amor do evangelho de Mateus. Não obstante, é um comentário verdadeiro, consubstanciado por outras passagens. Jesus disse: “... que está sendo derramado...” como antecipação, como se o seu sangue já houvera sido derramado. (CHAMPLIN, vol. 1, 2005a, p. 596) (grifo nosso).

Embora tenha percebido o acréscimo, ele comentário verdadeiro, consubstanciado por outras estudioso apontar quais passagens corroboram isso estas que estamos analisando (Mt 26,28; Mc 14,24 e

tenta justificar-se dizendo que “é um passagens”; porém, faltou ao eminente que diz, por isso presumimos que sejam Lc 22,20).

Vejamos também a narrativa de Lucas (anos 70/80): Lc 22,17-20: “Então Jesus pegou o cálice, agradeceu a Deus, e disse: 'Tomem isto, e repartam entre vocês; pois eu lhes digo que nunca mais beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus'. A seguir, Jesus tomou um pão, agradeceu a Deus, o partiu e distribuiu a eles, dizendo: 'Isto é o meu corpo, que é dado por vocês. Façam isto em memória de mim'. Depois da ceia, Jesus fez o mesmo com o cálice, dizendo: 'Este cálice é a nova aliança do meu sangue, que é derramado por vocês'”. Como em Lucas não temos nada sobre sangue derramado para “remissão de pecados”; mas apenas “derramado por vocês”, sem nenhuma preocupação em determinar que tenha sido para remir pecados, seu depoimento é importantíssimo para vermos quem está com a razão, porquanto, ele mesmo afirmou que resolveu escrever depois de “fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio” (Lc 1,3). Se no resultado desse “estudo cuidadoso” não aparece, expressamente, nada sobre Jesus ter morrido para remissão de pecados, então, podemos, tranquilamente, concluir que isso não era crença comum àquela época. Assim, o acréscimo disso em Mateus, de duas uma: foi algo bem localizado, de alguns poucos crentes ou adulteração posterior, por recreação dos teólogos de antanho. Conforme já o dissemos a segunda opção é, para nós, a mais provável. Para completar o que os evangelistas disseram, vamos agora à narrativa de João (anos 90), que se assemelha ao episódio da última ceia, narrado pelos outros: Jo 6,51-59: “E Jesus continuou: 'Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come

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deste pão viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida'. As autoridades dos judeus começaram a discutir entre si: 'Como pode esse homem dar-nos a sua carne para comer?' Jesus respondeu: 'Eu garanto a vocês: se vocês não comem a carne do Filho do Homem e não bebem o seu sangue, não terão a vida em vocês. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim e eu vivo nele. E como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim, aquele que me receber como alimento viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Não é como o pão que os pais de vocês comeram e depois morreram. Quem come deste pão viverá para sempre'. Jesus disse essas coisas quando ensinava na sinagoga de Cafarnaum”. Nos outros três Evangelhos – Mateus, Marcos e Lucas –, temos que o sangue de Jesus foi para selar a nova aliança e não para remissão de pecados da humanidade, João destoa disso, buscou dar um outro significado. Nele também não vemos nada de ter sido algo para “remissão dos pecados”. Quanto a crença de que teria sido para selar a nova aliança, podemos, também acrescentar Paulo de Tarso que, com sua primeira carta aos coríntios (ano 57), confirma isso: 1Cor 11,23-25: “De fato, eu recebi pessoalmente do Senhor aquilo que transmiti para vocês. Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, o partiu e disse: 'Isto é o meu corpo que é para vocês; façam isto em memória de mim”. Do mesmo modo, após a Ceia, tomou também o cálice, dizendo: 'Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que vocês beberem dele, façam isso em memória de mim'”. Pela ordem cronológica, este foi o primeiro texto a ser escrito, que corrobora o que encontramos nos Evangelhos Sinópticos - Mateus, Marcos e Lucas –, quanto ao que, na época, acreditavam representar o sangue de Jesus derramado na cruz, inclusive, isso foi o que perceberam alguns tradutores bíblicos:
Como outrora no Sinal, o sangue das vítimas selou a aliança com Iahweh com o seu povo (Ex 24,4-8+; cf. Gn 15,1+), assim, sobre a cruz, o sangue da vítima perfeita, Jesus, selaria a “nova” aliança entre Deus e os homens (cf. Lc 22,20), a qual os profetas tinha anunciado (Jr 31,31+). Jesus atribui a si a missão de redenção universal que Isaías atribuído só “Servo de Iahweh” (Is 42,6; 49,6; 53,12, cf. 42,1+; cf. Hb 8,8; 9,14; 12,24). A ideia de nova aliança está presente também em Paulo, não só em 1Cor 11,25, mas em diversos outros contextos que mostram sua grande importância (2Cor 3,4-6; Gl 3,15-20; 4,24). (Bíblia de Jerusalém, 2002, p. 1752) (grifo nosso). A antiga Aliança ou pacto entre Javé e o seu povo tivera como sinal de contrato uma cerimônia de aspersão de sangue de animais (cf. Ex 24,8). A nova Aliança baseia-se no sangue de Jesus. (Bíblia Sagrada Santuário, 1984, p. 1480) (grifo nosso). O sangue da nova aliança: a primeira aliança de Deus com o povo foi selada pelo sangue das vítimas oferecidas em sacrifício. A nova aliança é feita pelo sangue das vítimas oferecidas em sacrifício. A nova aliança é feita pelo sangue de Cristo, vítima oferecida em sacrifício pelo gênero humano. (Bíblia Sagrada Ave-Maria, 1989, p. 1317) (grifo nosso). Aliança: A primeira aliança foi estabelecida pelo sangue aspergido de animais sacrificados (cf. Hb 9,19ss). A nova aliança tornou-se válida através do sangue vertido do Filho de Deus (Hb 8,7-13). (Bíblia Shedd, 2005, p. 1376) (grifo nosso).

Assim, todos os tradutores envolvidos nessas Bíblias citadas têm a morte de Jesus na cruz como um selo para a nova Aliança, nada de remissão de pecados da humanidade. Na verdade, quando admitem isso estão fazendo um paralelo com o que teria acontecido com Moisés:

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Ex 24,4-8: “Moisés colocou por escrito todas as palavras de Javé. Depois levantou-se de manhã, construiu um altar ao pé da montanha e doze estelas para as doze tribos de Israel. Em seguida, mandou alguns jovens de Israel oferecer holocaustos e imolar novilhos a Javé como sacrifício de comunhão. Moisés pegou a metade do sangue e colocou em bacias; a outra metade do sangue, ele a derramou sobre o altar. Pegou o livro da aliança e o leu para o povo. Eles disseram: "Faremos tudo o que Javé mandou e obedeceremos". Moisés pegou o sangue e o espalhou sobre o povo, dizendo: "Este é o sangue da aliança que Javé faz com vocês através de todas essas cláusulas". Caso insistam em considerar que o sangue de Jesus tenha sido para remissão dos pecados, veremos que, pelo que consta do ritual aqui descrito, faltou pegar o seu sangue e espalhá-lo sobre o povo, por mais tétrico e próprio de filmes de terror que isto seja. Julgamos que é desse ato que surgiu a ideia de que nenhum pacto poderia ser feito sem que fosse derramado sangue, conforme poder-se-á ver em Hebreus, cujo passo, um pouco mais à frente, iremos transcrever. Vejamos agora a explicação dos tradutores da Bíblia Vozes para a passagem de Mateus (Mt 26,26-29):
O testamento de sangue que será derramado por muitos para a remissão dos pecados (v. 28) é o conceito desenvolvido na epístola aos Hebreus (9,16-28). O sangue de Jesus presente no cálice vai adquirir o direito à redenção dos pecados e à graça e glória. É o último convívio de Jesus antes da morte (v. 29), garantia do banquete celeste no reino do Pai (8,11). (Bíblia Sagrada Vozes, 1989, p. 1208) (grifo nosso).

Parece-nos que aqui já temos uma pista para iniciar a busca a fim de saber qual é a origem dessa ideia de que o sangue de Jesus serviu para a remissão dos pecados da humanidade. Antigamente, admitia-se que o autor de Hebreus fosse Paulo, hoje não se sabe ao certo quem foi; provavelmente, tenha sido um seu seguidor, porquanto nele “Pode-se todavia reconhecer ressonâncias do pensamento paulino” (Bíblia de Jerusalém, p. 2083). É, pelo visto, já apareceu o pai dessa criança: 1Cor 15,3-4: “[...] Cristo morreu por nossos pecados, conforme as Escrituras; ele foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; [...]”. Rm 4,24-25: “[...] acreditamos naquele que ressuscitou dos mortos, Jesus nosso Senhor, o qual foi entregue à morte pelos nossos pecados e foi ressuscitado para nos tornar justos”. Rm 5,8-9: “Mas Deus demonstra seu amor para conosco porque Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Assim, tornados justos pelo sangue de Cristo, com maior razão seremos salvos da ira por meio”. Col 1,13-14: “Deus Pai nos arrancou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino do seu Filho amado, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados”. Ef 1,7: “Por meio do sangue de Cristo é que fomos libertos e nele nossas faltas foram perdoadas, conforme a riqueza da sua graça”. Paulo é o autor dessas cartas – 1ª Coríntios (ano 57), Romanos (ano 58); Colossenses (anos 61-63 ou 79/80), Efésios (anos 61-63 ou 90/100) –, cujos textos transcrevemos. É importante não esquecermos de que ele foi um judeu bem ortodoxo e que, pessoalmente, não conheceu a Jesus e nem era um dos seus apóstolos. Não podemos deixar de observar que em 1Cor 15,3-4, vemos dois fatos dos quais se diz ter acontecido “conforme as Escrituras”. É importante a elucidação de Champlin sobre isso:

232 […] Não está aqui em foco a coleção dos escritos neotestamentários, porquanto as epístolas paulinas aos Coríntios foram escritas antes dos evangelhos, não existindo ainda um “cânon” do N.T. quando Paulo registrou essas palavras. A alusão é ao A.T. e àquelas passagens que os cristãos primitivos consideravam como profecias sobre a morte expiatória de Cristo. […] (CHAMPLIN, 2005d, p. 237) (grifo nosso).

Na verdade, apesar de algumas tentativas de relacionar a passagens no A.T., não há uma só sequer que objetivamente poder-se-ia atribuir aos dois assuntos tratados por Paulo. Vários tradutores bíblicos mencionam Isaías 53, como sendo a profecia realizada; porém, é bom deixar claro que os versículos compreendidos entre Isaías 52,13–53,12, nos quais apresentam o servo sofredor, este, segundo o contexto, é a nação de Israel. Portanto não há sentido algum em querer atribuir tal epíteto a Jesus. Algo bem interessante encontramos em Pepe Rodríguez (1953- ), de cuja obra Mentiras fundamentais da Igreja Católica, como a Bíblia foi manipulada , transcrevemos:
[…] No texto conhecido como o Canto do Servo de Iavé (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13; 53,12), que deve ser lido no contexto do exílio e do cativeiro a que foi submetido o povo hebreu, o sacrifício expiatório dos sofrimentos do Servo (personificação da comunidade exilada e, portanto, do verdadeiro povo de Israel) é apresentado como tendo sido aceite por Iavé. Foi a maneira encontrada pela elite sacerdotal de assegurar a “salvação” de todo o povo, apesar de este nada ter feito para a merecer – “o Justo, meu Servo, muitos há-de justificar-se” (Is 53,11), ele “será a Aliança dos homens, a luz das nações” (s 42,6). Apesar de não haver qualquer relação entre estes textos do Velho Testamento e a história de Jesus, os cristãos transformá-lo-ão num pilar básico da sua fé, ao lê-los com a confirmação do “varão de dores” (Is 53,3) e o anúncio do papel do messias sofredor desempenhado pelo nazareno como a sua paixão e a sua morte. Ao tornar profético o relato de Isaías, extraviando conscientemente o seu verdadeiro sentido, a Igreja intentou conferir um sentido triunfante, glorioso e divino à execução de Jesus que, de outro modo, teria sido apenas um fracasso puro e simples. (RODRÍGUEZ, 2007, p. 191) (grifo nosso). Para justificar a execução de Jesus que, aos olhos do mundo, só podia passar por um fracasso da sua missão, desde cedo se começou a difundir a ideia de que era necessário que o nazareno morresse “segundo a Escritura”. Dito de outro modo, a sua crucificação não só estivera desde sempre prevista nos planos de Deus, como essa ocorrência se podia deduzir da leitura dos textos bíblicos. Para documentar uma tamanha asneira, a Igreja procedeu ao rastreio de todos os textos do Velho Testamento, até deparar com versículos que, devidamente manipulados e extraídos do seu contexto, pudessem ser convertidos em profecias virtuais do mistério da paixão de Cristo. Nessa perspectiva, a atitude cobarde dos discípulos de Jesus face à sua prisão encontrou fundamento profético em Zac 13,7; o suborno recebido por Judas, em Zac 11,13; a compra do campo do oleiro, em Jer 32,6; o discurso de Jesus perante o Conselho e a sua afirmação de que estaria sentado à direita do Pai e de que apareceria sobre as nuvens, em Dan 7,13, e no Salmo 110,1; as suas palavras “Tenho sede”, no Salmo 22,16; o episódio da esponja embebida em vinagre, no Salmo 69,22; a sua exclamação de se considerar abandonado por Deus, no Salmo 22,2; o eclipse do Sol, em Am 8,9; etc.(2). A crucificação em si – o facto de ser exposto num madeiro – era muito mais difícil de justificar profeticamente, pela boa razão de que a única profecia bíblica que se lhe podia aplicar conduzir a resultados demasiados perigosos. O texto que, com esse intuito, foi utilizado pelos primeiros cristãos figura no Dt 21,2223. Diz ele: "Quando um homem, culpado de uma falta que mereça a morte, for executado e exposto num madeiro, o seu cadáver não deverá passar a noite no suplício, mas o enterrarás no mesmo dia, porque um dependurado é objecto da maldição de Deus, e não deves manchar a terra que Iavé, teu Deus, quer partilhar contigo” (3) Terá sido Jesus amaldiçoado por Deus por ter sido “exposto num madeiro”? Que cada um, inspirado pela palavra de Deus, expressa através da legislação do Deuteronômio, tire as suas próprias conclusões. Em definitivo, foi nos Salmos 22 e 69, assim como no capítulo 53 de

233 Isaías (todo ele falso, como vimos), que a Igreja encontrou os textos necessários e suficientes para dar cobertura profética à paixão e Jesus. Não será exagero nosso, no entanto, voltar a lembrar que todos os textos ditos “proféticos” se aplicam única e exclusivamente a situações que ocorreram muitos séculos antes do nascimento de Jesus. Razão por que qualquer suposta profecia do Velho Testamento que se pretenda relacionar com a vida e a obra do nazareno carece absolutamente de fundamento (4). Ao vermos o modo como a Igreja forçou o sentido de muitos versículos do Velho Testamento, para os converter em profecias e, acto contínuo, os utilizar na sustentação da missão de que investiu Jesus, depois da sua execução, talvez convenha trazer à colação o aviso que se acha escrito em Mt 7,15-17: “Guardai-vos dos falsos profetas que vêm até vós vestidos de peles de ovelha mas que por dentro são como lobos rapaces. Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas no espinhos e figos nos cardos? Toda a árvore boa dá bons frutos, toda a árvore má dá maus frutos”. Este parece ser, sem dúvida, o parágrafo mais inspirado de Mateus. _______

2. Não vamos reproduzir todos os textos do Velho Testamento que supostamente profetizam as correspondentes passagens dos Evangelhos; ver-nos-íamos obrigados a transcrever o contexto de cada um deles, o que seria tão incómodo quão absurdo. Não deixamos, no entanto, de recomendar a quem tiver dúvidas sobre o que afirmamos que pegue numa Bíblia e proceda por si às referidas comparações e verá com os seus próprios olhos como foi desavergonhada e infantil a fabricação de profecias bíblicas relativas à paixão de Jesus. 3. Neste passo, não nos servimos do texto da Bíblia católica de Nácar-Colunga, que utilizamos em todo este livro, por estar escandalosamente mal traduzido. A verão que apresenta é a seguinte: “Quando alguém cometeu um crime digno de morte, que seja morto dependurado num madeiro, e o seu cadáver não ficará no m adeiro durante a noite, não deixareis de o enterrar no próprio dia, porque o enforcado é maldição de Deus, e não há-de manchar a terra que Iavé, teu Deus, te deu em herança”; a palavra “enforcado”, com que se pretende criar uma distância entre este passo e o tipo de morte que sofreu Jesus, não só aparece em nenhuma tradução objectiva da Bíblia (seja ela católica ou independente) como, inclusivamente, está ausente de outras versões absolutamente católicas. É o caso, por exemplo, da que nos servimos neste passo (Cf. Sagrada Bíblia, traduzida por Félix Torres e Severiano del Páramo, Apostolado de la Prensa, Madrid, 1928, p. 349). 4. Como o leitor poderá constatar por si próprio, é muito fácil encontrar profecias na Bíblia. Experimente fazer o que nós mesmos fizemos: ao abrirmos a Bíblia ao acaso, saíram-nos as páginas 704-705; quando começámos a ler, deparamos com este versículo: "Mesmo que se forme contra mim um exército, o meu coração manter-se-á firme. Mesmo que parta em guerra contra mim, não deixarei, mesmo então, de continuar tranquilo” (Sl 27, 3). A uma primeira leitura, é evidente que se trata de uma profecia claríssima de “Rambo” - especialmente do seu filme O Encurralado; ou talvez de um filme de James Bond; ou, melhor ainda, do líder sectário David Koresh, mortalmente cercado pelas forças especiais do FBI, no seu rancho de Waco; mas também pode estar a referir-se ao cerco final de Che Guevara em La Higuera pelo exército boliviano; ou, talvez seja urna descrição perfeita do comportamento do valente e honesto monsenhor Oscar Romero, assassinado em El Salvador; ou ainda pode estar a profetizar a detenção de Jesus de Nazaré por toda uma coorte do exército romano; ou, talvez...

(RODRÍGUEZ, 2007, p. 192-194) (grifo nosso).

Podemos, portanto, concluir que a morte e ressurreição de Jesus não foi profetizada por ninguém; é produto do delírio dogmático dos teólogos de antanho. Além disso não há nenhuma profecia a respeito de que, especificamente, alguém deveria ressuscitar no terceiro dia, nem mesmo em Oseias, conforme podemos ver: “Vinde, e tornemos para o Senhor, porque Ele despedaçou, e nos sarará, fez a ferida, e a ligará. Depois de dois dias nos dará a vida: ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele” (Os 6,1-2) (Bíblia Sagrada – SBB). Percebe-se que aqui, não se trata de ressurreição, mas de levantar alguém que, após vários castigos, fica quase desfalecido, sendo revigorado por Deus, num curto espaço de tempo. Então, fica evidenciado que tudo teve início por volta do ano de 57, data da sua primeira carta aos coríntios. De onde foi que Paulo tirou essa ideia é algo que ainda não conseguimos descobrir. Até mesmo porque a informação, que temos do professor de história Fida Mohammad Khan Hassnain (1924- ), conflita com essa crença entre os judeus:
Os judeus da Palestina nunca acreditaram em sacrifício humano, nem

234 na crucificação do messias pelos pecados do mundo. Os pagãos acreditam que seus deuses, Adonis, Attis, Osiris e Mitra morreram pelos pecados da humanidade. Foi Paulo que adotou a ideia de bode expiatório acentuando-a sobre o Cristo crucificado. A teoria do “pecado original” e redenção pela morte do Filho de Deus foi invenção de Paulo. Para mais esclarecimentos, veja Shamas, J. D., Where Did Jesus Die?, London Mosque, Londres, cap. 10, chamado “Redemption”. (HASSANAIN, 1999(?), p. 119) (grifo nosso).

Mas algo é possível: como ele pregou aos gentios, ou seja, aos pagãos, acostumamos a esse tipo de crença, provavelmente Paulo tenha se utilizado de uma linguagem simbólica para que pudesse sensibilizá-los para seguir a Cristo. Acreditamos que, em José de Souza Pinheiro (1938- ), encontramos apoio a essa nossa hipótese:
Como nos esclarece o teólogo Franz Griese (cf. GRIESE, p. 174-175), no tempo de Paulo, os pagãos e os judeus costumavam sacrificar animais aos respectivos deuses. A carne desses animais sacrificados era consumida nos mercados públicos, na qualidade de carne de Júpiter (o Senhor dos deuses), carne de Minerva (deusa da sabedoria) etc., segundo as divindades a quem haviam sido sacrificados os animais. Os consumidores escolhiam a carne que mais lhes convinha, crendo que comendo essa carne recebiam uma bênção especial da divindade respectiva, e até entrar em certa união com ela, mediante aquela carne. É da maior importância ter presente essas crenças da antiguidade, para compreender o sentido das palavras nos escritos daqueles que viviam naquela época e estavam imbuídos de suas ideias. Pois bem, o apóstolo Paulo, para induzir os novos cristãos, oriundos dos povos pagãos, a não participarem dos sacrifícios pagãos e não comerem a carne dos animais sacrificados aos ídolos, proíbe essa prática, substituindo-a pela "Ceia do Senhor", dizendo que, como pela carne dos ídolos, o homem participa dos "demônios", ou seja, dos "deuses pagãos", do mesmo modo pelo consumo do pão e do vinho eucarísticos o cristão participa do "Cristo da fé" (cf. GRIESE, p. 175). Mas, como afirma Griese (ibid.), não há a menor dúvida de que Paulo não acreditava numa participação literal da própria pessoa dos deuses pagãos, mediante a carne dos ídolos e, portanto, tampouco na participação literal da verdadeira pessoa de Cristo, mediante o pão e o vinho eucarísticos. Os coríntios (como Paulo) também tinham um conceito simbólico muito simples da eucaristia e, certamente, não tinham a convicção de que o pão seria o verdadeiro corpo e o vinho o verdadeiro sangue de Cristo. Eles apenas acreditavam que, ao comerem o pão e ao beberem o vinho, participavam do Cristo da fé, do mesmo modo como os pagãos acreditavam que participavam simbolicamente dos seus deuses comendo a carne dos animais sacrificados em sua honra (cf. GRIESE, p. 179). (SOUZA, 2011, p. 134) (grifo nosso).

Para a hipótese de ser um simbolismo temos como base o que Paulo disse na sua segunda carta aos coríntios (ano 57), onde a sua fala foi completamente diferente: 2Cor 5,10: “De fato, todos deveremos comparecer diante do tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a recompensa daquilo que tiver feito durante a sua vida no corpo, tanto para o bem, como para o mal”. Essa afirmação de Paulo vem ao encontro do que consta nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, quanto à questão do critério de julgamento; por isso, julgamos que esse era, verdadeiramente, o seu pensamento e, na pior das hipóteses, a crença daquela época; que, acreditamos, pode ser corroborado com o que se lê nestes passos: Gl 6,10: “De fato, todos deveremos comparecer diante do tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a recompensa daquilo que tiver feito durante a sua vida no corpo, tanto para o bem, como para o mal”. 1Cor 15,2: “É pelo Evangelho que vocês serão salvos, contanto que o guardem

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do modo como eu lhes anunciei; do contrário, vocês terão acreditado em vão”. Rm 1,16-17: “Não me envergonho do Evangelho, pois ele é força de Deus para a salvação de todo aquele que acredita, do judeu em primeiro lugar, mas também do grego. De fato, no Evangelho a justiça se revela única e exclusivamente através da fé, conforme diz a Escritura: 'o justo vive pela fé'”. Rm 2,5-8: “Pela teimosia e dureza de coração, você está amontoando ira contra si mesmo para o dia da ira, quando o justo julgamento de Deus vai se revelar, retribuindo a cada um conforme as suas próprias ações: a vida eterna para aqueles que perseveram na prática do bem, buscando a glória, a honra e a imortalidade; pelo contrário, ira e indignação para aqueles que se revoltam e rejeitam a verdade, para obedecerem à injustiça”. As várias falas de Paulo, indiscutivelmente, causam muita confusão, pois uma hora ele diz uma coisa, em outra hora diz algo diferente: Rm 10,9: “Pois se você confessa com a sua boca que Jesus é o Senhor, e acredita com seu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, você será salvo”. Será que a nossa salvação e tão simples assim: basta crer que Jesus ressuscitou dos mortos? Leiamos o que Fernando Travi (? - ), disse, ao que nos parece, referindo-se ao passo acima:
Outro petardo disparado pelos críticos diz respeito à doutrina da salvação defendida por Paulo. “Paulo diz que os pecados são perdoados se a pessoa acreditar que Jesus morreu na cruz por ela. É a doutrina da salvação em que o herói derrama seu sangue e todos são perdoados por causa dele. Enquanto isso, Jesus diz: 'Eu sou o caminho, a verdade e a vida'. Para Jesus, a salvação será dada àqueles que seguirem seus ensinamentos”, afirma Fernando Travi. (p. 64) (VASCONCELOS, 2003, p. 56-64) (grifo nosso).

Por outro lado, a questão da remissão de pecados, nas suas cartas, acima mencionadas (1Cor 15,3-4; Rm 4,24-25; 5,8-9; Col 1,13-14; Ef 1,7), também pode ser entendida como metáfora, que, talvez, ele tenha utilizado visando a conversão dos pagãos, evitando chocá-los com ensinamentos muito diferente daqueles que possuíam. Sobre Paulo, temos as seguintes explicações do teólogo alemão Holger Kersten (1951- ):
O que conhecemos hoje como cristianismo não passa de uma vasta e artificial doutrina de regras e preceitos criados por Paulo, e que pode ser melhor designado pelo nome de “Paulinismo”. O historiador eclesiástico Wilhelm Nestle, comentando a questão, diz que: “o cristianismo foi a religião fundada por Paulo, que substituiu o evangelho de Cristo por um evangelho sobre Cristo” (21). Paulinismo, nesse sentido, significa desvirtuamento e mesmo falsificação dos verdadeiros ensinamentos de Jesus por Paulo. Há muito tempo os teólogos modernos e os estudiosos da história da Igreja vêm afirmando abertamente que o cristianismo da Igreja organizada, cuja questão central é a compreensão da salvação como fruto da morte e do sofrimento de Jesus, se apoiou em fundamentos incorretos. “Tudo o que há de bom no cristianismo provém de Jesus e tudo o que há de mau, de Paulo”, escreveu o teólogo Overbeck (22). Associando a morte do Unigênito de Deus à redenção de nossos pecados, Paulo retrocedeu às primitivas religiões semíticas, em que os pais deviam imolar seus primogênitos. Paulo também é o responsável pelos dogmas do pecado original e da trindade, posteriormente incorporados pela Igreja. ______
21. Wilh. Nestle, Krisis des Christentums 1947, p. 89. 22. F. Overbeck, Christentum und Kultur – aus dem Nachlas, 1919.

(KERSTEN, 1988, p. 34-35) (grifo nosso).

236 Foi Paulo quem centralizou a atividade de Jesus em sua morte, mostrando que é através dela que o homem de fé se liberta de seus pecados, das misérias do mundo e do poder de satanás. Em suas cartas, Paulo não escreveu uma única palavra sobre o ensinamento atual de Jesus, nem menciona qualquer de suas parábolas; o que ele faz é apresentar sua própria filosofia e suas próprias ideias. (KERSTEN, 1988, p. 237) (grifo nosso).

Seguindo em frente. Veremos agora o que o autor de Hebreus, que não se sabe quem é, disse. Hb 9,15-23: “Desse modo, ele é o mediador de uma nova aliança. Morrendo, nos livrou das faltas cometidas durante a primeira aliança, para que os chamados recebam a herança definitiva que foi prometida. Onde existe testamento, é preciso que seja constatada a morte de quem fez o testamento. Pois um testamento só tem valor depois da morte, e não tem efeito nenhum enquanto ainda vive aquele que fez o testamento. É por isso que nem mesmo a primeira aliança foi inaugurada sem sangue. Quando anunciou a todo o povo cada um dos mandamentos da Lei, Moisés pegou sangue de novilhos e bodes junto com água, lã vermelha e hissopo. Em seguida, borrifou primeiro o próprio livro e todo o povo. E disse: "Este é o sangue da aliança que Deus faz com vocês." Do mesmo modo, borrifou com sangue também a tenda e todos os objetos que serviam para fazer o culto. E, segundo a Lei, quase todas as coisas são purificadas com sangue; e sem derramamento de sangue não existe perdão. Portanto, as cópias das realidades celestes são purificadas dessa maneira; mas as próprias realidades celestes devem ser purificadas com sacrifícios maiores do que esses”. O desconhecido autor de Hebreus (anos 60 ou 70/80), admite que a morte de Jesus tenha sido para selar a nova aliança, entretanto, avança um pouco mais e utiliza da Lei (Antigo Testamento) para justificar que “sem derramamento de sangue não existe perdão”, o que não tem nada a ver com o assunto que desenvolvia, até mesmo porque ele considerava que a Antiga Aliança havia sido revogada, conforme pode-se comprovar por estas passagens: Hb 7,18-19: “Portanto, por um lado, se revoga a anterior ordenança, por causa de sua fraqueza e inutilidade (pois a lei nunca aperfeiçoou cousa alguma) e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus. E, visto que não é sem prestar juramento (porque aqueles, sem juramento, são feitos sacerdotes, mas este, com juramento, por aquele que lhe disse: O Senhor jurou e não se arrependerá; Tu és sacerdote para sempre); por isso mesmo Jesus se tem tornado fiador de superior aliança”. Hb 8,6-8.13: “Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas. Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de maneira alguma estaria sendo buscado lugar para segunda. E, de fato, repreendendo-os, diz: Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Quando ele diz Nova, torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado e envelhecido, está prestes a desaparecer”. Se os ensinamentos de Jesus é que devem prevalecer, como então utilizar-se de algo que consta na legislação mosaica? E, não sem motivo, Jesus havia dito: “[...] 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício'. [...]” (Mt 9,13). Em razão disso, perguntamos: será que sacrifícios agradavam a Deus? A resposta encontra-se nestes passos: Is 1,11: “Que me interessa a quantidade dos seus sacrifícios? - diz Javé. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos. Não gosto do sangue de bois, carneiros e cabritos”. Jr 6,20: “[...] Os holocaustos de vocês não me agradam, seus sacrifícios não são do meu gosto".

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Além disso, ainda são condenados os sacrifícios que faziam os povos pagãos, especialmente os cananeus, cujas terras os hebreus iram espoliar: Dt 12,29-31: “Quando Javé seu Deus eliminar da sua frente as nações, na terra das quais você vai entrar para as desapossar; quando você as desapossar e aí estiver morando, preste atenção a si mesmo! Não se deixe seduzir; não imite essas nações, depois que elas forem eliminadas de diante de você. Tome cuidado para não procurar os deuses delas, dizendo: 'Como é que essas nações serviam seus deuses? Vou fazer a mesma coisa'! Não aja dessa maneira para com Javé seu Deus, porque elas faziam aos deuses delas tudo o que é abominação para Javé, tudo o que ele detesta. Essas nações chegaram até a queimar seus próprios filhos e filhas para os deuses delas!” Será que Deus é tão incoerente assim para condenar os sacrifícios praticados pelos cananeus e aceitar algum outro, incluindo o que atribuem a Jesus? Bem já questionava o profeta Samuel, que viveu por volta de 1095 a.C (WIKIPÉDIA): “ O que é que Javé prefere? Que lhe ofereçam holocaustos e sacrifícios, ou que obedeçam à sua palavra? Obedecer vale mais do que oferecer sacrifícios” (1Sm 15,22). Mas o pior ainda não é isso, é o que vem agora: Jr 7,21-23: “Assim diz Javé dos exércitos, o Deus de Israel: 'Ajuntem os holocaustos que vocês queimam, com seus sacrifícios, e comam essas carnes. Pois quando tirei do Egito os antepassados de vocês, eu não falei nada nem dei ordem alguma sobre holocaustos e sacrifícios. A única coisa que eu lhes falei e mandei, foi isto: Obedeçam-me, e eu serei o Deus de vocês, e vocês serão o meu povo. Andem sempre no caminho que eu lhes ordenar, para que sejam felizes'”. Ora, o que aqui está é que, pela própria “voz” de Deus, Ele nunca ordenou fazer holocaustos e sacrifícios, derrubando toda a legislação mosaica a respeito. Diante disso fica a questão: como acreditar que tenha aceito o (suposto) sacrifício de Jesus? Além disso, temos ainda este outro passo que, supomos, fulmina de vez com essa macabra ideia, digna de filmes de terror: Mc 12,28-34: “Um doutor da Lei estava aí, e ouviu a discussão. Vendo que Jesus tinha respondido bem, aproximou-se dele e perguntou: 'Qual é o primeiro de todos os mandamentos?' Jesus respondeu: 'O primeiro mandamento é este: Ouça, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor! E ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força. O segundo mandamento é este: Ame ao seu próximo como a si mesmo. Não existe outro mandamento mais importante do que esses dois”. O doutor da Lei disse a Jesus: 'Muito bem, Mestre! Como disseste, ele é, na verdade, o único Deus, e não existe outro além dele. E amá-lo de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo, é melhor do que todos os holocaustos e do que todos os sacrifícios'. Jesus viu que o doutor da Lei tinha respondido com inteligência, e disse: 'Você não está longe do Reino de Deus'. E ninguém mais tinha coragem de fazer perguntas a Jesus”. Diante do que foi dito acima é preciso acrescentar mais alguma coisa?! Acreditamos que não; porém, vamos seguir em frente, pois temos mais algumas coisas que precisam ser mostradas. Hb 10,11-18: “Cada sumo sacerdote se apresenta diariamente para celebrar o culto e oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que são incapazes de eliminar os pecados. Jesus, porém, ofereceu um só sacrifício pelos pecados e se assentou à direita de Deus. Doravante, ele espera apenas que seus inimigos sejam colocados debaixo de seus pés. De fato, com uma só oferta ele tornou perfeitos para sempre os que ele santifica. E é isso que o Espírito Santo atesta; de fato, após ter dito: 'Esta é a aliança que vou concluir com eles, depois daqueles dias, - diz o Senhor: Eu colocarei minhas leis em seus corações e as imprimirei na sua mente, e não me lembrarei mais dos seus pecados e de suas faltas'. Ora, quando os pecados já foram perdoados, não é mais preciso fazer ofertas pelos pecados”.

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Hb 13,11-13: “De fato, depois que o sumo sacerdote oferece o sangue no santuário pelos pecados do povo, os corpos dos animais oferecidos em sacrifício são queimados fora do recinto sagrado. Por esse motivo, também Jesus sofreu sua paixão fora de Jerusalém, quando purificou o povo com o seu próprio sangue. Portanto, saiamos também do recinto sagrado para ir ao encontro de Jesus, carregando a humilhação dele”. O autor de Hebreus procura desenvolver aqui outra tese sobre a morte de Jesus, passando, agora, não mais para selar a Nova Aliança, mas para remissão dos pecados. Essa crença, ao que tudo indica, acabou também por contaminar Pedro - 1 Pedro (ano 64 ou anos 70/80) – e João - 1 João (ano 90): 1Pe 1,1-2: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos que vivem dispersos como estrangeiros no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia. Vocês foram escolhidos de acordo com a presciência de Deus Pai e através da santificação do Espírito, para obedecerem a Jesus Cristo e serem purificados pelo seu sangue. Que a graça e a paz sejam abundantes para vocês”. 1Pe 1,17-19: “Vocês chamam Pai àquele que não faz distinção entre as pessoas, mas que julga cada um segundo as próprias obras. Portanto, comportem-se com temor durante esse tempo em que se acham fora da pátria. Pois vocês sabem que não foi com coisas perecíveis, isto é, com prata nem ouro, que vocês foram resgatados da vida inútil que herdaram dos seus antepassados. Vocês foram resgatados pelo precioso sangue de Cristo, como o de um cordeiro sem defeito e sem mancha”. 1Jo 1,6-7: “Se dizemos que estamos em comunhão com Deus e no entanto andamos em trevas, somos mentirosos e não pomos em prática a Verdade. Mas, se caminhamos na luz, como Deus está na luz, estamos em comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, o Filho de Deus, nos purifica de todo pecado”. 1Jo 2,1-2: “Meus filhinhos, eu lhes escrevo tais coisas para que vocês não pequem. Entretanto, se alguém pecou, temos um advogado junto do Pai: Jesus Cristo, o justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados; e não só os nossos, mas também os pecados do mundo inteiro”. Estranhamos que, nessa primeira carta, João (ano 90) tenha dito isso, porquanto, em seu Evangelho (ano 90), escrito no mesmo período, ele, em momento algum, desenvolve algo parecido. Antes de prosseguir, vejamos algumas considerações de renomados especialistas a respeito do episódio onde teria ocorrido a última ceia, do qual vimos aqui as narrativas dos vários autores bíblicos. Justificamos porque é desse fato que, geralmente, tomam para fundamentar que a morte de Jesus teria sido para remissão dos pecados. Por serem pertinentes ao presente estudo, vamos transcrevê-las. Geza Vermes (1924- ), no capítulo “As palavras de Jesus durante a Última Ceia” (Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Lc 22,15-20; 1Cor 11,23-26), diz:
Quatro relatos da Última Ceia sobreviveram no Novo Testamento. Eles concordam entre si sobre vários pontos essenciais, mas também ostentam variações substanciais. Também é notável que o Evangelho de João não contenha qualquer relato da ceia de Páscoa compartilhada por Jesus e seus discípulos. Isto se deve sem dúvida ao fato de a prisão e crucificação de Jesus terem acontecido, segundo o Quarto Evangelho, um dia antes da festa, não podendo consequentemente ser questão de qualquer participação de Jesus numa ceia real de Páscoa. João especifica que os dignitários que entregaram Jesus a Pilatos recusaram-se a entrar em seu palácio, no pretório, a fim de permanecerem ritualmente puros “e poder comer a Páscoa” (ver João 18,28). Há um consenso geral entre intérpretes do Novo Testamento de que a narrativa da Última Ceia, com a sua exiguidade de detalhes concretos, foi escrita acima de tudo para registrar o que desde o princípio a igreja primitiva compreendeu como a instituição de um ritual religioso significativo, a Eucaristia. Queira ou não, essa visão eclesial afeta

239 retrospectivamente o significado das palavras que presumidamente teriam vindo dos lábios de Jesus. (VERMES, 2006, p. 344-345) (grifo nosso).

O teólogo John Dominic Crossan (1934- ), co-fundador do The Seminar Jesus, parecenos ainda mais enfático, conforme podemos ver nessa citação do professor José Pinheiro de Souza (1938- ):
Por conseguinte, a Ceia Eucarística não pode ter sido instituída pelo Jesus Histórico. O renomado teólogo e ex-padre católico John Dominic Crossan, em seu livro O Jesus Histórico, argumenta que a Ceia Eucarística, interpretada literalmente, não é originária de Jesus histórico (cf. CROSSAN, 1994, p. 398399). Mais precisamente, ele mostra que a Ceia Eucarística, como referida num dos livros mais antigos do cristianismo, o chamado Didaqué (ou “Instrução dos Doze Apóstolos”), escrito por volta do final do Século I de nossa era (mas descoberto somente no ano de 1883), nada tem a ver com os acréscimos posteriores católicos a respeito da Ceia Eucarística, supostamente instituída por Jesus, e sobre o suposto milagre da “transubstanciação”. Na Ceia Eucarística descrita no livro Didaqué (capítulos 9 e 10), “não há qualquer menção de uma refeição feita para comemorar a Páscoa, de uma última ceia, nem de alguma conexão com a morte de Jesus ou sua celebração”. (CROSSAN, 1994, p. 400). (SOUZA, 2011, p. 139) (grifo do original).

Bart D. Ehrman (1955- ), considerado a maior autoridade sobre o Novo Testamento do mundo, argumenta:
[...] Em um de nossos mais antigos manuscritos gregos, assim como em vários testemunhos latinos, temos: E tomando o cálice, dando graças, ele disse: “Tomai-o, reparti-o entre vós, pois eu vos digo que não beberei do fruto da vinha a partir de agora, até que venha o reino de Deus”. E tomando o pão, dando graças, ele o partiu e o deu a eles, dizendo: “Isto é o meu corpo... Mas vede que a mão daquele que me trai está comigo nesta mesa” (Lucas 22,17-19). Contudo, na maioria de nossos manuscritos, há um acréscimo ao texto, que soará familiar a muitos leitores da Bíblia, visto que se assentou nas traduções modernas. Ali, depois que Jesus diz: “Isto é meu corpo”, ele continua dizendo as palavras: “'Que foi dado por vós; fazei isto em memória de mim', e fez o mesmo com o cálice após a refeição, dizendo: 'Este cálice é a nova aliança em meu sangue derramado por vós'”. Estas são as palavras, muito familiares, da “instituição” da Ceia do Senhor, registradas também sob uma forma muito similar na primeira carta de Paulo aos Coríntios (1 Coríntios 11,23-25). A despeito do fato de serem tão familiares, há boas razões para pensar que esses versículos não estavam no original do Evangelho de Lucas, mas que foram acrescentados para ressaltar que foram o corpo partido e o sangue derramado de Jesus que trouxeram a salvação “para vós”. [...] Além do mais, não se pode deixar de notar que os versículos, por mais familiares que sejam, não representam a própria compreensão que Lucas demonstra ter da morte de Jesus. É uma característica surpreendentemente do retrato que Lucas faz da morte de Jesus – por mais estranho que isso seja à primeira vista – que ele nunca, em nenhuma outra passagem, indica que a morte em si seja o que traz a salvação do pecado. Em nenhum outro lugar de toda a obra em dois volumes de Lucas (Lucas e Atos dos Apóstolos), se diz que a morte de Jesus foi “por vós”. De fato, nas duas ocasiões em que a fonte de Lucas (Marcos) indica que foi por meio da morte de Jesus que veio a salvação (Marcos 10,45; 15,39), Lucas mudou a disposição do texto (ou o eliminou). Em outros termos, Lucas tem uma compreensão diferente da forma com que a morte de Jesus conduz à salvação, diferente da de Marcos (da de Paulo e da de outros escritores cristãos antigos). (EHRMAN, 2006, p. 175-176) (grifo nosso).

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David Flusser (1917-2000), trás importante contribuição:
Jesus seguia a ordem essênia em suas refeições de festa e, em especial, na última ceia, ou seguia a ordem não-sectária: vinho e pão? Segundo Mateus e Marcos, Jesus primeiro abençoava o cálice e depois o pão, mas a situação em Lucas é diferente. “Chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta páscoa, antes de meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando um cálice, havendo dado graças, disse: Recebei e reparti entre vós; pois vos digo que de agora em diante não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus. E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é meu corpo” (Lc 22:14-19). Aí termina o texto de Lucas, de acordo com o famoso Codex Bezae, a antiga tradução latina, e dois antigos manuscritos siríacos. Todos os leitores atentos reconhecerão com facilidade que o que se segue em Lucas nos outros testemunhos é tirado de 1 Cor 11:23-26, de modo que temos aqui a estranha situação de que no texto aceito aparecem dois cálices, um no começo e o outro no final. Tanto a Versão Padrão Revista como a Nova Bíblia Inglesa adotaram o ponto de vista correto, de que Lc 22:19b-20 não fazia parte do texto original de Lucas. Depois que Jesus disse do pão partido “Isto é meu corpo” fazendo alusão a sua iminente morte violenta, ele continuou e tornou-se mais explícito, dizendo: “Todavia a mão do traidor está comigo à mesa” (Lc 22:21). (FLUSSER, 2000, p. 227) (grifo nosso).

James D. Tabor (1946- ), também apresenta explicações bem interessantes:
Ironicamente, os mais antigos relatos da última refeição na quarta-feira à noite vêm de Paulo, e não de qualquer dos evangelhos. Em uma carta a seus seguidores na cidade grega de Corinto, escrita por volta de 54 d.C., Paulo passa adiante a tradição que dizia ter “recebido” de Jesus: “Jesus, na noite em que foi traído, tomou um pão, e tendo dado graças, partiu-o e disse: 'Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isso em memória de mim: Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: 'Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim'” (1 Coríntios 11:23-25). Essas palavras, tão familiares aos cristãos como parte da Eucaristia da Missa, são repetidas com ligeiras variantes em Marcos, Mateus e Lucas. Representam a síntese da fé cristã, o pilar do evangelho cristão: a humanidade está salva dos pecados pelo sacrifício do corpo e do sangue de Jesus. Qual é a probabilidade histórica de que essa tradição baseada naquilo que Paulo disse ter “recebido” de Jesus represente o que Jesus disse durante a última ceia? Tão surpreendente quanto possa parecer, existem alguns problemas autênticos a considerar. Em cada refeição judaica, o pão é partido, o vinho partilhado, e a bênção dada - mas a ideia de comermos carne humana e bebermos sangue, mesmo que simbolicamente, é de todo alheia ao judaísmo. A Torá proíbe especificamente a ingestão de sangue, não só para os israelitas, mas para todos. A Noé e a seus descendentes, como representantes de toda a humanidade, já tinha sido proibido “ingerir sangue” (Gênesis 9:4). Moisés tinha prevenido, “se qualquer homem da Casa de Israel ou gentio, residente no meio deles, ingerir qualquer espécie de sangue, eu me voltarei contra esse que ingere sangue e eliminá-lo-ei de seu povo” (Levítico 17:10). Em outra ocasião, Tiago, o irmão de Jesus, refere-se a isto como uma “exigência”, para que os não judeus pudessem juntar-se à comunidade nazarena - não ingerirão sangue (Atos 15:20). Essas restrições dizem respeito ao sangue de animais. Ingerir carne e sangue humanos não era proibido, era simplesmente inconcebível. Essa sensibilidade generalizada em relação à mera ideia de “beber sangue” mostra a improbabilidade de Jesus ter usado tais símbolos. Como dissemos, a comunidade essênica, em Qumrã, descreveu, em um de seus manuscritos, um futuro “banquete messiânico”, no qual o Messias Sacerdotal e o Messias da linhagem de Davi sentar-se-iam com os membros da

241 comunidade crente e abençoariam a sagrada refeição de pão e vinho como a celebração do Reino de Deus. Teriam certamente ficado espantados com qualquer simbolismo sugestivo de que o pão fosse a carne humana, e o vinho, o sangue. (10) Tal ideia simplesmente não poderia ter partido de Jesus como judeu. Portanto, qual a origem dessa linguagem? Se aparece primeiramente com Paulo, e ele não a recebeu de Jesus, então qual seria sua fonte? As maiores semelhanças encontram-se em alguns ritos mágicos greco-romanos. Existe um papiro grego que registra um encantamento amoroso, no qual um macho pronuncia certos feitiços sobre um cálice de vinho, que representa o sangue que o deus egípcio Osíris tinha dado à sua consorte Ísis para que ela o amasse. Quando sua amante bebe o vinho, ela simbolicamente se une a seu amado pelo seu sangue. (11) Em outro texto, o vinho é transformado na carne de Osíris. (12) Simbolicamente, comer a “carne” e beber o “vinho” era parte de um rito mágico de união na cultura greco-romana. Devemos considerar que Paulo cresceu imbuído da cultura grecoromana, na cidade de Tarso, na Ásia Menor, fora da terra de Israel. Ele nunca conheceu ou falou com Jesus. A relação que ele pretendeu com Jesus é “visionária”, e não com um Jesus de carne e osso, caminhando na terra. Quando os Doze se reuniram para substituir Judas, depois da morte de Jesus, colocaram como condição para fazer parte do grupo ter estado com Jesus desde o tempo de João Batista até a crucificação (Atos 1:21-22). Ter visões e ouvir vozes não eram qualificações suficientes para um apóstolo. Em segundo lugar, e de forma ainda mais reveladora, o evangelho de João narra os acontecimentos daquela última refeição na noite de quartafeira, mas nunca se refere às palavras de Jesus instituindo essa nova cerimônia da Eucaristia. Se Jesus, na realidade, iniciou a prática de comer o pão como sendo seu corpo, e beber o vinho como sendo seu sangue na sua “última ceia” como poderia João tê-la omitido? O que João escreve, segundo todas as indicações, é que Jesus sentou-se para participar de uma refeição judaica comum. Após a ceia, ele se levantou, pegou uma bacia de água e um pano, e começou a lavar os pés de seus discípulos, mostrando como o professor e mestre deveria agir como criado – mesmo para seus discípulos. Jesus começou, então, a descrever como iria ser traído, e João nos diz que Judas abruptamente abandonou a ceia. O evangelho de Marcos está muito próximo, em suas ideias teológicas, àquele de Paulo. Parece possível que, em sua descrição da última ceia, feita uma década depois da de Paulo, Marcos tenha inserido o tradicional “coma o meu corpo” e “beba o meu sangue” em seu evangelho, influenciado pelo que Paulo afirma ter recebido. Tanto Mateus como Lucas baseiam inteiramente suas narrativas em Marcos, e Lucas é também um convicto defensor de Paulo. Tudo parece levar a Paulo. Como veremos, não há qualquer prova de que os primeiros seguidores judeus de Jesus, conduzidos ao quartel-general em Jerusalém por Tiago, o irmão de Jesus, tenham alguma vez praticado qualquer rito dessa natureza. Como todos os judeus, eles santificavam o vinho e o pão como parte de uma refeição sagrada, e provavelmente tinham presente a noite em que ele havia sido traído, lembrando-se da última refeição com Jesus. Na realidade, para resolver essa questão, precisamos de uma fonte independente, cristã, que não tenha sido influenciada por Paulo, que possa esclarecer a prática original dos seguidores de Jesus. Felizmente, em 1873, esse texto foi encontrado em uma biblioteca em Constantinopla. É intitulado Didache, e data do início do século II d.C. (13) Fora mencionado pelos primeiros autores da igreja, mas desaparecera até ser descoberto acidentalmente por um sacerdote grego, o Padre Bryennios, em um arquivo de manuscritos antigos. Didache significa "Ensinamentos”, em grego, e seu título completo é "Os Ensinamentos dos Doze Apóstolos”. Trata-se de um antigo "manual de instruções", provavelmente escrito para ser utilizado por aspirantes ao batismo cristão. Contém muitas instruções e exortações éticas, mas também capítulos sobre o batismo e a Eucaristia - a sagrada refeição do pão e vinho. É aí que entra a surpresa. Ele oferece as seguintes bênçãos para o pão e o vinho: No que se refere à Eucaristia, darás graças da seguinte forma. Em primeiro lugar, quanto ao cálice: “Damos-vos graças, Pai nosso, pela

242 santa vinha de Davi, vosso filho, que nos destes a conhecer através de Jesus, vosso filho. Para vós a glória eterna”. E quanto ao pão: “Damos-vos graças, Pai nosso, pela vida e sabedoria que nos comunicastes através de Jesus, vosso filho. Para vós, glória eterna”. (14) Notem que não há menção ao vinho, representando o sangue, ou ao pão, representando a carne. E, no entanto, é um registro da primeira refeição da Eucaristia cristã! Este texto nos faz lembrar muito das descrições da sagrada refeição messiânica nos Manuscritos do Mar Morto. O que temos aqui é a celebração messiânica de Jesus como o Messias da linhagem de Davi, e a vida e a sabedoria que ele trouxe à comunidade. Evidentemente, essa comunidade de seguidores de Jesus nada sabia da cerimônia proposta por Paulo. Se a prática de Paulo viera realmente de Jesus, seguramente esse texto tê-la-ia incluído. Existe mais um ponto importante a esse respeito. Na tradição judaica, é o cálice de vinho que, primeiramente, é abençoado, depois o pão. Essa é a ordem que encontramos na Didache. Mas no relato de Paulo da “Ceia do Senhor”, Jesus abençoa primeiro o pão, depois o cálice de vinho – justamente o oposto. Pode parecer um detalhe insignificante até examinarmos o relato de Lucas sobre as palavras de Jesus, durante a refeição. Embora ele siga basicamente a tradição de Paulo, ao contrário deste, Lucas fala primeiro no cálice de vinho, depois no pão e, em seguida, em outro cálice de vinho! O pão e o segundo cálice de vinho ele interpreta como o “corpo” e o “sangue” de Jesus. Mas quanto ao primeiro cálice – na ordem que se esperaria da tradição judaica – nada é dito que represente “sangue”. Ao contrário, Jesus diz, “Eu vos digo, doravante não beberei da fruta da videira até a chegada do Reino de Deus” (Lucas 22:18). Essa tradição do primeiro cálice, só encontrada em Lucas, é uma pista do que deveria ter sido a tradição original antes de a versão Paulina ter sido inserida, agora confirmada pela Didache. Vista sob essa luz, essa última refeição tem sentido histórico. Jesus disse a seus seguidores mais próximos, reunidos secretamente na Sala do Andar Superior, que ele não partilharia com eles outra refeição até a chegada do Reino de Deus. Ele sabe que Judas iniciará, naquela noite, os procedimentos que culminarão com sua prisão. Suas esperança e prece são de que, da próxima vez em que estiverem sentados juntos para comer, dando a tradicional bênção judaica do vinho e do pão – o Reino de Deus já tenha chegado. Uma vez que Jesus se reuniu só com seu Conselho dos Doze, nessa última refeição privada, Tiago e os três outros irmãos de Jesus teriam estado presentes. Isso foi confirmado em um texto perdido chamado Evangelho dos Hebreus, que era usado por judeus-cristãos que rejeitavam os ensinamentos e a autoridade de Paulo. Sobrevive apenas em algumas citações, preservadas por autores cristãos, como Jerônimo. Uma das passagens nos diz que Tiago, o irmão de Jesus, depois de ter bebido do cálice que Jesus fizera circular, afiançou que também ele não comeria ou beberia até ver o Reino chegar. Portanto, temos aqui a prova textual de uma tradição que recorda a presença de Tiago na última refeição. ______
(10) Manuscritos do Mar Morto, The Messianic Rule (1QSa) 2.11-25. (11) The Demotic Maginal Papyrus of London and Leiden 15.1-6, em The Greek Magical Payri in Translation, incluing the Demotic Spells, ed. Hans Dieter Betz (Chicago: University of Chicago Press, 1968). (12) Papyri graecae magicae 7.643ff. (13) Didache é promunciado como did-a-quei. (14) Didache 9:1-3, em Bart Ehrman, trad. The Apostolic Fathers, Loeb Classical Library 24, vol. 1 (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2003), p. 431.

(TABOR, 2006, p. 215-219) (grifo nosso).

Ao que tudo indica, essa questão de comer carne e beber sangue, com a qual se justifica o sacramento da eucaristia, tenha vindo do culto persa a Mitra: “Aquele que não comer minha carne e não beber meu sangue para ser um comigo, e eu um com ele, aquele não conhecerá a salvação”. (FREKE e GANDY, 2002, p. 11 e 52). Além desse, ainda temos:
O serviço religioso semanal era realizado aos domingos, dia dedicado ao deus. A cerimônia mais importante do culto era uma ceia que constava de vinho e pão – oferecido na forma de hóstias consagradas que tinham o

243 sinal da cruz. (KERSTEN e GRUBER, p. 316) (grifo nosso)

Bem clara a relação de Mitra com o que querem atribuir a Jesus. A morte de Cristo foi para resgate? A razão de colocarmos esse item está nisso que o prof. José Pinheiro explica:
[…] para a grande maioria dos cristãos, no contexto bíblico do Novo Testamento, o conceito mítico de “salvação” geralmente significa “redenção” (“resgate” ou “remissão”) do gênero humano, ou melhor, de seus “pecados”, pelo sangue de Cristo derramado na cruz, e também significa “felicidade eterna obtida após a morte”, em oposição ao conceito igualmente mítico de “condenação eterna” (SOUZA, 2007, p. 140).

Entendemos que a inclusão desse ponto é oportuna e pode evitar contra-argumentos baseados nos passos que mencionam algo relacionado a isso. Levando-se em conta o que consta dos Evangelhos, acreditamos, conforme já o dissemos, que a morte de Jesus foi por motivos políticos, que os líderes religiosos de sua época fizeram questão de “colocar mais lenha na fogueira”. Podemos afirmar isso, baseando-nos no pastor McLaren, que foi “recentemente apontado pelo Times como um dos 25 cristãos evangélicos mais influentes nos EUA” (MCLAREN, 2007, contracapa):
[…] Como vimos, a cruz era o equipamento de execução romana e era reservada especialmente para líderes de rebeliões. Qualquer um que proclamasse um reino rival ao reino de César seria forte candidato à crucificação. Isso é exatamente o que Jesus proclamou, e é exatamente disso que ele padeceu – em meio a outros dois que haviam feito o mesmo. (Os dois homens que são habitualmente chamados de ladrões e que foram crucificados com Jesus estavam mais para líderes ou agentes de rebeliões políticas fracassadas). […] (MCLAREN, 2007, p. 190) (grifo nosso).

Confirma, portanto, o que dissemos ser a causa da morte de Jesus. Paul Johnson (1928- ), escritor, jornalista e historiador britânico, católico conservador, é outro estudioso que confirma a execução de Jesus como causa política:
No momento de seu julgamento e paixão, Jesus tinha conseguido unir uma coalizão improvável – na verdade, sem precedentes – contra si: as autoridades romanas, os saduceus, os fariseus, até Herodes Antipas. E, ao destruí-lo, essa combinação antinatural parece ter agido com grande grau de aprovação popular. Que conclusões podemos tirar daí? A verdadeira execução foi consumada por romanos, sob a lei romana. A crucificação era a mais degradante forma de pena capital, reservada aos rebeldes, escravos amotinados e outros inqualificáveis inimigos da sociedade; era também a mais prolongada e dolorosa, embora Jesus tenha escapado de seus horrores em sua totalidade graças a uma morte incomumente rápida. Pilatos, o procurador da Judeia, é apresentado nos evangelhos canônicos como um executor relutante, dando início a uma imaginativa tradição cristã primitiva que, mais tarde, iria transformá-lo em crente e até santo. Essa ênfase caridosa, pode-se argumentar, foi introduzida após a ruptura final entre a antiga comunidade cristã e o sistema judaico estabelecido, a fim de impor aos judeus toda a responsabilidade moral pela morte de Jesus. Seguindo essa linha de raciocínio, estudiosos judeus e outros instaram que o julgamento perante o Sinédrio jamais ocorreu; as passagens que a ele se referem não são compatíveis com o que se sabe, com base em outras fontes, sobre os procedimentos e competência desse tribunal; que Jesus nada fizera que quebrasse a lei judaica, muito menos invocasse a pena capital; e que o episódio é uma ficção – Jesus simplesmente tinha se tornado inimigo dos romanos, que o consideravam um agitador. (JOHNSON, 2001, p. 42) (grifo nosso).

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Está aí, portanto, mais um que advoga a causa política para a crucificação de Jesus. Vejamos, agora, alguns textos bíblicos, cuja análise se faz necessária. Gl 4,4-5: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher, submetido à Lei para resgatar aqueles que estavam submetidos à Lei, a fim de que fôssemos adotados como filhos”. 1Cor 7,22-23: “Porque o escravo, que foi chamado no Senhor, é liberto no Senhor. Da mesma forma, aquele que era livre quando foi chamado é escravo de Cristo. Alguém pagou alto preço pelo resgate de vocês: não se tornem escravos de homens”. Mc 10,43-45: “Mas, entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos”. Tt 2,14: “Ele se entregou a si mesmo por nós, para nos resgatar de toda iniquidade e para purificar um povo que lhe pertence, e que seja zeloso nas boas obras”. 1Tm 2,5-6: “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou para resgatar a todos. Esse é o testemunho dado nos tempos estabelecidos por Deus”. Mt 20,26-28: “Entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês; e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se servo de vocês. Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir, e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos'”. A ordem cronológica dessas passagens é: Gálatas (anos 54-57), 1 Coríntios (ano 57), Marcos (anos 65-70), Tito (ano 65 ou anos 95-100), 1 Timóteo (ano 65 ou anos 95-100) e Mateus (anos 70/80). Assim, mais uma vez, temos Paulo como o inventor da ideia de que Jesus veio em resgate a favor de muitos. E, novamente, também vemos Mateus plagiando Marcos. Essa ideia de resgate em Paulo pode ser pelo fato dele ter Jesus à conta de primogênito (Rm 8,29; Col 1,15). É na legislação mosaica que veremos o que isso significava: Ex 13,1-2.11-16: “Javé falou a Moisés: 'Consagre a mim todos os primogênitos, todo aquele que por primeiro sai do útero materno entre os filhos de Israel, tanto dos homens como dos animais: ele pertencerá a mim'". “Quando Javé tiver introduzido você na terra dos cananeus e a tiver dado, como jurou a você e a seus antepassados, você reservará para Javé todos os primogênitos do útero materno; e a Javé pertencerá todo primogênito de sexo masculino, também dos animais que você possuir. O primogênito da jumenta, porém, você o resgatará, trocando por um cordeiro. Se você não o resgatar, deverá quebrar-lhe a nuca. Os primogênitos humanos, porém, você os resgatará sempre”. Amanhã, quando seu filho lhe perguntar: 'Que significa isso?' você lhe responderá: 'Com mão forte Javé nos tirou do Egito, da casa da servidão. O Faraó se obstinou e não queria deixar-nos partir; por isso, Javé matou todos os primogênitos do Egito, desde o primogênito do homem até o primogênito dos animais. É por isso que eu sacrifico a Javé todo primogênito macho dos animais e resgato todo primogênito de meus filhos'. Isso servirá como sinal no braço e faixa na fronte, porque Javé nos tirou do Egito com mão forte'". Pelo que se vê neste passo, todo primogênito era consagrado a Deus para ser sacrificado. No caso dos homens, o primogênito deveria ser resgatado. “A palavra 'resgatar' significa 'comprar ou readquirir por um preço'” (Bíblia Anotada, p. 98). Informam-nos os tradutores:
A oferta ou consagração de primogênitos se relaciona estreitamente com a oferta das primícias; é provável que os israelitas a tenham tomado de

245 outros povos. Alguns comentadores pensam até que, na sua origem, se tratava de sacrifício do primogênito, e aduzem o caso de Abraão (Gn 22). Sobre essa consagração legislam outros textos: Ex 22,29s; 34,19: Dt 13,14-16; 15,19-23. Contra o sacrifício de crianças há muitas referências no AT: considerase prática abominável. O texto presente serve para vincular o rito ao acontecimento do êxodo: o Senhor protegeu do “extermínio” os primogênitos israelitas, agora os reclama para si; e permite resgatá-los. (Bíblia do Peregrino, p. 129) (grifo nosso). Deus é o Senhor da vida. Por isso os primeiros frutos vegetais (as “primícias”) e as primeiras crias masculinas dos animais (primogênitos) e dos homens lhe são consagradas. Os primogênitos de animais puros são sacrificados. Os primogênitos humanos, como também os do jumento, são resgatados por outro animal a ser sacrificado. [...] (Bíblia Sagrada Vozes, p. 95) (grifo nosso).

Ambrogio Donini (1903-1991), historiador italiano, em sua obra Breve história das religiões, assim aborda a questão:
2. Uma terminologia típica No conceito de culpa e de redenção reflete-se, pois, a realidade da exploração e da servidão. A idéia de um “salvador”, destinado a libertar almas e corpos da expiação e do sofrimento, articula-se lentamente a partir deste enredo de exasperadas contradições de classe. A verdade é que o próprio têrmo “redenção”, que melhor caracteriza esta nova doutrina, é extraído dos costumes da vida dos escravos. Em latim redemptio significa originalmente o ato de um escravo que adquire a sua liberdade: o preço do resgate pode ser pago diretamente ou por um terceiro, sob várias formas, em favor do escravo. A concepção total do mito da salvação cristã já está contida nesta fórmula(1). Sendo o homem um pecador, e incapaz de libertar-se pagando à divindade o preço do seu resgate, intervém um “redentor”, o qual paga por ele com a sua paixão e a sua morte: esta é a essência da doutrina soteriológica entre os primeiros escritores cristãos gregos, latinos e sírios (Cirilo de Jerusalém, Gregório de Nazianzo, João Crisóstomo, Afraates sírio, Ambrósio, Jerônimo e Agostinho), os quais reelaboraram em têrmos de teologia a lenda cristã. Para alguns dêles, inclusive, o “preço do resgate” é pago a Satanás, que tinha o homem em seu poder; mas posteriormente o preço foge às mãos do demônio, porque Jesus, com a ressurreição, subtraiu-o. Sòmente numa sociedade em que a prática da emancipação dos escravos era plausível podia nascer a expressão com a qual a função de Cristo é definida em alguns trechos do Novo Testamento: aquela de ser um "preço de resgate para muitos” (2). O elemento nôvo consiste em que não se trata mais sòmente de um resgate dos padecimentos físicos. Também os deuses do Olimpo, como o deus de Israel, podiam libertar o homem dos inimigos e da violência, das calamidades e dos demônios; e em virtude disto freqüentemente eram definidos como “salvadores”. Quase todos os soberanos do mundo oriental receberam alternadamente o mesmo título, como libertadores dos seus povos ou instrumentos da ação benéfica da divindade. No código de Hamurábi, o rei é definido “salvador do povo reduzido à miséria”; no código sumério de Lipit-Istar o legislador apresenta-se como aquêle que “libertou da escravidão” os cidadãos de Nippur, Isin e Ur submetidos pelos conquistadores elamitas (3). A religião masdéia elaborou o mito do “salvador” zoroastriano, ou saoshyant, que surgirá no fim dos tempos à frente das fôrças do bem para derrotar o reino do mal e restaurar o poder absoluto de Ahura Masda, libertador do mundo (4). Mas a doutrina da redenção, no sentido acima indicado, penetra as suas raízes numa realidade completamente diversa. Estamos diante da idéia da libertação do homem da servidão da culpa, através do sacrifício cruento de um personagem divino ou divinizado, que se constitui “mediador” entre o ser supremo e o gênero

246 humano. Os teólogos dizem a verdade quando procuram destacar a originalidade desta concepção; mas não podem naturalmente compreender que o resgate espiritual substituiu lentamente, na consciência dos homens, aquela necessidade de resgate econômico e social que se revelava sempre mais difícil no terreno das relações de fôrça ou dos costumes legais. A alforria de um escravo não era originalmente um fenômeno excepcional; mas acabou tornando-se, à medida que se ampliava e consolidava o sistema da propriedade e da acumulação de bens materiais em poucas mãos. Na Índia, os casos de “resgate” e de emancipação eram bastante frequentes; a integração social do escravo liberto era imediata e completa. Entre os hebreus, o servo podia alforriar-se pagando ao patrão uma parte do preço de compra original, proporcionalmente ao número de anos que ainda deveria permanecer escravo; só se tem memória de um único caso de emancipação coletiva, num momento delicado da história de Israel, seguido, porém, logo depois de conjurado o perigo, da pretensão de reivindicar o direito de propriedade(5). Também na Grécia e em Roma, nos tempos mais antigos, o escravo podia, em teoria, “redimir-se” depois de alguns anos, graças às suas economias; mas raramente podia salvar-se consagrando-se a uma divindade ou em virtude de legado testamentário ou proclamação autônoma da parte do proprietário (6). Mas o seu estado de “liberto”, até o início do principado de Augusto, não bastava para torná-lo igual aos outros cidadãos; continuava privado do jus honorum e era mantido afastado dos negócios públicos. Em geral, às vésperas do surgimento do cristianismo, as possibilidades de um escravo alcançar a emancipação total não eram muito superiores àquelas que, hoje, na sociedade burguesa, tem um operário de tornar-se proprietário. O poeta latino Marcial vangloria-se de ter concedido a liberdade ao seu escravo Demétrio, que agonizava, com apenas 19 anos, para permitir-lhe ingressar em estado de liberdade no mundo subterrâneo (7); isto confirma que as relações de classe eram consideradas válidas tanto nesta como na outra vida. Não é necessário acrescentar que o conceito da “redenção”, que entrou na história dos homens como produto do seu modo de viver na época da escravidão, separou-se dialeticamente das suas raízes econômicas e sociais para desenvolver-se no caminho autônomo da ideologia – sempre porém nos limites de uma sociedade baseada na exploração do homem pelo homem – mesmo depois de terem desaparecido as razões de ordem material que caracterizavam o regime escravista. _______
1 Veja-se J. TOUTAIN, “L'idée religieuse de la rédemption” nos Annales de l'École des Hautes Etudes, Section des Sciences Religieuses, Paris, 1916-17. 2 Mateus, XX, 28; Marcos, X, 45. 3 “Eu sou Lipit-Istar, que trouxe a liberdade aos filhos e às filhas de Nippur, Ur e Isin; com os meus esforços libertei da escravidão os filhos e as filhas de Súmer e da Acádia” etc. (cf. Êxodo, XX, 2: “Eu sou o senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”). 4 É muito provável que se tenha estabelecido muito cedo entre o “salvador” masdeu e o “messias” judaico um processo de identificação. Num comentário latino ao evangelho de Mateus, os “reis magos”, vindos do país de Zoroastro, procuram o saoshyant (V. BOUQUET, Breve História das Religiões, cit., introdução). 5 Jeremias, XXXIV, 8-22. 6 W. L. WESTERMANN, The Slave system of Greek and Roman antiquity, Filadélfia, 1955. 7 "Sensit deficiens sua praemia meque patronum Dixit ad internas liber iturus aquas (Morrendo, teve a prova dos seus méritos e da minha generosidade, certo enfim de ir livre às águas infernais). Veja-se R. H. BARROW, Slavery in the Roman Empire (A escravidão no Império Romano), Londres, 1928, pág. 175.

(DONINI, 1965, p. 203-206) (grifo nosso).

Tomando-se de Paulo, entendemos que se houve algum resgate foi o de estarem livres da lei Gl 4,4-5, ou seja, de toda a legislação mosaica. Ao afirmar que “vocês já não estão debaixo da Lei, mas sob a graça” (Rm 6,14) e completando com “fomos libertos da Lei, a fim de servimos sob o regime novo do Espírito, e não mais sob o velho regime da letra” (Rm 7,6), ele colocava os ensinamentos de Jesus suplantando os anteriores, vindos por Moisés. E, especificamente, sobre a questão de alguém ser o “salvador da humanidade”, Edward Carpenter (1844-1929) e Joseph Campbell (1904-1987) abordam, respectivamente, esse tema da seguinte forma:

247 […] em seus aspectos mais sensíveis e espirituais, como nos ritos Mitrhaicos, Egípcios, Hindus e Cristão, uma pessoa passava pelo véu do maya e de seu mundo em constante mudança, e entrava na região da paz e poder divinos (17). Ou, novamente, a doutrina do Salvador. A essa eu também não preciso adicionar muito mais do que já foi dito. O número de divindades pagãs (em sua maioria nascida de virgens e mortas de uma maneira ou outra por seus esforços de salvar a humanidade) é tão grande (18) e, portanto, difícil de precisar. O deus Krishna na Índia, o deus Indra no Nepal e no Tibet morreram para a salvação dos homens; Buddha disse, de acordo com Max Muller (19), “Permita que todos os pecados existentes no mundo caiam sobre mim e o mundo será salvo”; o chinês Tien, o Sagrado – “com deus e existindo com ele para toda a eternidade” – morreu para salvar o mundo; o egípcio Osíris era chamado de Salvador, assim como Horus; assim como Mithra, da Pérsia; assim como o grego Hércules que venceu a morte apesar de seu corpo ser consumido pelas chamas da mortalidade, da qual ele subiu aos céus. O mesmo aconteceu com o frígio Attis, chamado de Salvador, e do sírio Tammuz ou Adônis – os dois que foram pregados a uma árvore, e depois renasceram de seus túmulos. Prometheu, o maior e mais antigo benfeitor da raça humana, foi pregado pelas mãos e pelos pés, com os braços abertos, às pedras do monte Cáucaso. Baco ou Dionísio, nascido da virgem Semele para ser o libertador da humanidade (Dionísio Bleutherios, como era chamado), foi cortado em pedaços, como Osíris. Mesmo em Quetzalcoatl, no México, o Salvador nasceu de uma virgem, foi tentado, jejuou por quarenta dias, morreu, e sua segunda vinda foi tão esperada que (como é bem conhecido), quando Cortes apareceu, os mexicanos, coitados, o receberam como o deus que voltara! (20) No Peru e entre os índios norte-americanos, no Norte e no Sul do Equador, lendas parecidas são, ou foram, encontradas. Apesar de falarmos pouco sobre o assunto, é o bastante para provar que a doutrina do Salvador é mundial e muito antiga, e que o Cristianismo meramente apropriou-se da mesma e (assim como os outros cultos) lhe deu algumas outras cores. Talvez essa doutrina original fosse muito melhor e muito mais conhecida, se a Igreja Cristã não tivesse feito um esforço enorme para tomar as devidas precauções e para extinguir todas as evidências dos atos pagãos relacionados a esse assunto. Há muita evidência de que a Igreja antiga tomou esse caminho com salvadores pré-cristãos (21); e nos últimos tempos a mesma política tem sido mostrada pelo tratamento no século XVI dos escritos de Sahagun, o missionário espanhol – cujo trabalho já mencionei. Sahagun era um homem educado e muito inteligente que, apesar de não aceitar as barbaridades da religião asteca, foi fiel o bastante para mostrar características nas maneiras e dos costumes das pessoas, e algumas semelhanças com a doutrina e prática cristãs. Isso deixou enfurecidos os intolerantes católicos da recém-formada Igreja Mexicana. Eles roubaram os manuscritos de Sahagun, de seu História das coisas da Nova Espanha (1560), e os esconderam, e foi depois de muita briga e a decisão da Corte Espanhola que Sahagun os teve de volta. Finalmente, aos oitenta anos de idade, depois de traduzi-los para o espanhol (do original mexicano), ele mandou seus manuscritos em dois grandes volumes para a Espanha, para que ficassem em segurança; mas quase imediatamente desapareceram e não mais foram encontrados! Apenas dois séculos depois foram reaparecer (1790) em um convento de Tolosa em Navarre. O lorde Kingsborough publicou-os na Inglaterra em 1830. Eu já falei sobre várias das principais doutrinas do Cristianismo - ou seja, do pecado, do sacrifício, da Eucaristia, do Salvador, do Renascimento e da transfiguração - mostrando que eles não são únicos em nossa religião, mas sim comuns a quase todas as religiões do mundo antigo. A lista pode ser muito aumentada, mas não há necessidade de nos atermos a um assunto que, de modo geral, já foi compreendido. Dedicarei, no entanto, uma ou duas páginas para um exemplo, que eu julgo muito interessante e cheio de sugestão profunda. Não existe nenhuma outra doutrina no Cristianismo que seja mais apreciada e reverenciada por seus fiéis, do que aquela em que Deus sacrificou seu único filho para salvar o mundo; também, uma vez que o filho não era apenas parecido com o pai, mas da mesma natureza do Pai, e igual a ele, sendo a segunda pessoa da Santíssima Trindade, o sacrifício foi uma imolação de si mesmo para o bem do mundo. A doutrina é muito mística, muito antiga e, de certa maneira, tão absurda e impossível, que tem sido um prato

248 cheio para piadas por parte dos inimigos da Igreja; e aqui podemos pensar, é uma crença que – seja ela considerada gloriosa ou obsoleta – é única e peculiar àquela Igreja. E, ainda, o fato extraordinário é que uma crença parecida existe em todas as religiões antigas e pode nos remeter ao passado. A palavra hóstia, que é usada na missa católica para representar o pão e o vinho no altar, símbolos do corpo e do sangue de Cristo, vem do latim Hóstia, que no dicionário significa “um animal morto em sacrifício, uma oferta para compensar um pecado”. Isso nos leva de volta ao estágio do totem, quando toda a tribo, como eu já expliquei, coroava um touro, um urso ou um outro animal com flores e prestavam-lhe honras com comida e adoração, sacrificavam a vítima para o espírito do totem da tribo e o comiam em uma festa eucarística – e o curandeiro ou sacerdote que dirigia o ritual vestia a pele desse animal como um sinal de que ele representava o totem –, divindade, participando do sacrifício de “si mesmo para si mesmo”. Isso nos faz lembrar dos khonds em Bengal sacrificando seus meriahs coroados e enfeitados como deuses e deusas; dos astecas fazendo o mesmo; dos quetzalcoatl furando seus cotovelos e dedos para tirar sangue, oferecido em seu próprio altar; ou de Odin sendo pendurado, por vontade própria, em uma árvore. “Sei que fui pendurado em uma árvore que foi balançada pelo vento por nove longas noites. Uma lança atravessou meu corpo, fui levado a Odin. eu para mim”. E assim por diante. Os exemplos são infinitos. “Sou a oblação”. diz Krishna no Bhagavad Gita (22). “Sou o sacrifício, a oferenda os ancestrais”. “No real conceito ortodoxo de sacrifício”, diz Elie Reclus (23). A oferenda consagrada, seja ela um homem, uma mulher ou uma virgem, um carneiro ou novilha, galo ou pombo, representa a divindade... _______
(17) Baring Gould, em seu livro Orig. Relig. Beliej, I. 401, diz: "Entre os Hindus antigos, Soma era uma divindade; ele é chamado de Provedor da Vida e da Saúde... Encarnou entre os homens, foi pego por eles, morto e triturado em um almofariz (aparentemente um deus de cereal e vinho). Mas ele ressuscitou das chamas e subiu ao céu para ser "Benfeitor do Mundo" e o “Mediador entre Deus e o homem. Por meio da comunhão com ele em seu sacrifício, o homem (que partilhava desse deus) tem uma confirmação de imortalidade, pois com esse sacramento obtém união com sua divindade”. (18) Ver uma considerável lista no livro de Doane, Bible Myths, cap. XX. (19) Hist. Sanskrit Literature, p. 80. (20) Ver o livro de Kingsborough, Mexican Antiquities, vol. VI. (21) Ver Apologia, de Tertúlio, c. 16; Ad aciones, c. XII. (22) Cap. IX, V. 16. (23) Primitive Folk, cap. VI.

(CARPENTER, 2008, p. 89-91) (grifo nosso). III. A LENDA DO SALVADOR DO MUNDO E impossível reconstruir o caráter, a vida e a verdadeira doutrina do homem que se tornou o Buda. Supõe-se que ele tenha vivido entre 563 e 483 a.C. Entretanto, sua mais antiga biografia, a do cânon páli, começou a ser escrita apenas por volta de 80 a.C. no Ceilão [atual Sri Lanka], a cinco séculos e 2.400 km de distância do verdadeiro cenário histórico. E a vida, a essa altura, tinhase tornado mitologia - segundo um padrão característico dos Salvadores do Mundo do período entre aproximadamente 500 a.C. e 500 d.C., seja na Índia, como nas lendas dos jainas, ou no Oriente Próximo, como na visão evangélica de Cristo. Em resumo, essa biografia arquetípica do Salvador fala de: 1. o descendente de uma família real 2. nascido milagrosamente 3. em meio a fenômenos sobrenaturais 4. sobre quem um santo ancião (Simão = Asita), logo apos o nascimento, profetizou uma mensagem de salvação do mundo, e 5. cujas façanhas na infância proclamam seu caráter divino. Na sequência indiana, o herói do mundo: 6. casa-se e gera um herdeiro 7. desperta para sua missão 8. parte, com o consentimento de seus progenitores (no jainismo), ou secretamente (o Buda)

249 9. para engajar-se em árduas disciplinas na floresta 10. que o confrontam, finalmente, com um adversário sobrenatural, sobre o qual 11. a vitória é alcançada. O último citado, o Adversário, é uma figura que nos tempos védicos teria aparecido como um dragão anti-social (Vritra) mas, em concordância com a nova ênfase psicológica, representa agora aqueles equívocos da mente que o mergulho do Salvador do Mundo nas suas próprias profundezas traz a luz, e contra os quais ele está lutando, tanto por sua própria vitória quanto para a salvação do mundo. Na lenda cristã, não há registro dos anos de juventude representados acima pelos estágios 6 a 8. Entretanto, os episódios culminantes (9 a 11) estão representados pelo jejum de quarenta dias no deserto onde se deu o confronto com Satã. Ademais, pode-se argumentar que as cenas infantis da matança dos inocentes pelo rei Herodes, o aviso do anjo a São José e a fuga da Sagrada Família correspondem simbolicamente ao 6, isto é, aos esforços do pai do futuro Buda para frustrá-lo em sua missão, confinando-o no palácio e fazendo-o casar-se depois do que (7) ele foi despertado para sua missão pela visão de um ancião, um homem doente, um cadáver e um iogue, ante o que (8) planejou fugir. Em ambos os casos a narrativa é a de um inimigo régio do espírito, lutando com todos seus recursos – sejam eles maléficos (rei Herodes) ou benignos (rei Suddhodana) – que se mostram vãos para frustrar o infante Salvador em sua predestinada missão. Seguindo seu encontro cara a cara com o Antagonista e vencendo-o, o Salvador do Mundo: 12. realiza milagres (caminha sobre as águas etc.) 13. torna-se um pregador errante 14. prega a doutrina da salvação 15. a um séquito de discípulos e 16. a uma pequena elite de iniciados 17. um dos quais, menos rápido para aprender do que o resto (Pedro = Ananda), (340) recebe o comando e se torna o modelo da comunidade leiga, enquanto 18. outro, obscuro e traiçoeiro (Judas = Devadatta), esta empenhado na morte do Mestre. Em várias versões da lenda são dadas diferentes interpretações aos ternas comuns, coincidindo com as diferenças de doutrina. Por exemplo, 2: enquanto a Virgem Maria concebeu do Espirito Santo, a rainha Maya, mãe do Buda, era uma verdadeira esposa de seu consorte; tampouco o Salvador do Mundo que ela era a luz era uma encarnação de Deus, o Criador do Universo, mas um j va reencarnado iniciando a ultima de suas inumeráveis vidas. Igualmente os itens 10-11: enquanto a vida do Buda atingiu o ápice na sua vitória sobre Mara sob a árvore Bodhi, a lenda cristã transfere a Árvore da Redenção para o estágio 19, isto e, a morte do Salvador, que na vida do Buda não é mais do que uma passagem pacífica no final de uma longa carreira de mestre. Pois o ponto principal do budismo não é – como no antigo sacrifício Soma – a imolação física do Salvador, mas seu despertar (bodhi) para a Verdade das verdades e, em consequência, a libertação (moksa) da ilusão (m!y!). Por isso, o ponto principal para o indivíduo budista não é se a lenda do Buda corresponde ao que de fato e historicamente ocorreu entre 563 e 483 a.C., mas se serve para inspirá-lo e guiá-lo para a iluminação. ______
340 Mateus 16:23; Mah!parinibbna-S$tta 61.

(CAMPBELL, 1995, p. 203-205) (grifo nosso).

Esses dois autores, confirmam, portanto, que a história de Jesus é semelhante à de outros personagens mitológicos, levando-nos a concluir que muitas coisas das ditas religiões cristãs, são fruto de aculturamento do que se acreditava nas religiões pagãs, por mais que isso cause constrangimento a seus crentes. Resta-nos ainda colocar Paul Johnson que, em Uma breve história do Cristianismo, nos informa:

250 […] Mais importante, porém, era que Paulo achava que não podia explicar a natureza da doutrina de Jesus sem recorrer a conceitos e termos que fossem compreensíveis para os que haviam sido criados no mundo greco-romano. Jesus previu sua paixão, mas não a explicara. Paulo tinha de explicá-la para um público que falava e pensava em grego. O ato da salvação tinha de ser mais amplo que o mero messianismo dos judeus que parecia, aos gregos, uma questão de política local, limitada em termos temporais e geográficos. O que era a Judeia, para eles? Paulo achava difícil explicar como por que Jesus era judeu, e mais ainda por que tinha de ser judeu. Assim, as circunstâncias que levaram à sua crucificação eram irrelevantes e ele as omite. Simplesmente, identificou o Jesus histórico como o filho preexistente de Deus, e interpreta a crucificação como um ato divino com intenções salvacionistas de importância cósmica. E, naturalmente, quanto mais Paulo pregava seguindo essa linha, mais claro ficava para ele que seu evangelho helenizado estava mais próximo da verdade, tal como ele a compreendia, que a restrição imposta pela visão intolerante do cristianismo judaico – se é que, de fato, ele poderia ser chamado de cristianismo. O mundo helênico podia aceitar Jesus como uma divindade, mas o judaísmo interpôs um abismo de diferenças entre Deus e o homem. E não havia nada na literatura judaica que sugerisse a ideia de um salvador encarnado da humanidade que se redimisse em virtude de sua própria morte sacrifical. (JOHNSON, 2001, p. 50-51) (grifo nosso).

Vê-se, portanto, que, no judaísmo, nada existia sobre um salvador que morreria para redimir a humanidade. Eles, na verdade, acreditavam num salvador político:
Aqui os olhos se voltam para o passado. O homem se representou o tempo futuro de salvação, segundo o modelo idealizado do antigo reino de Davi e por isso esperou pelo Salvador vindouro, como um novo Davi: Ungido rei pelo próprio Deus e dotado de poderes estupendos, o Messias libertará o povo judeu do domínio estrangeiro romano, com a palavra de sua boca, esmagará todos os inimigos de Israel, reerguerá a casa de Davi, reunirá as doze tribos dispersas no mundo e deixará que ressuscitem Jerusalém em todo o seu esplendor. Assim é que Israel enfim se tornará o povo sagrado de Deus, vivendo em equidade, justiça e pureza. Os povos gentios, porém, não terão parte no reinado de Deus, a não ser sob submissão e tributação. A redenção, aqui, é sobretudo esperada como libertação do jugo romano e, em consequência, apenas compreendida como uma protelação exagerada da vida eterna. (ZAHRNT, 1992, p. 27) (grifo nosso).

Portanto, é algo bem diferente da crença surgida posteriormente de um salvador que fosse redimir pecados. Fato que se pode muito bem comprovar na fala profética de Zacarias, pai de João Batista: Lucas 1,68-75: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo. Fez aparecer uma força de salvação na casa de Davi, seu servo; conforme tinha anunciado desde outrora pela boca de seus santos profetas. É a salvação que nos livra de nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam. Ele realizou a misericórdia que teve com nossos pais, recordando sua santa aliança, e o juramento que fez ao nosso pai Abraão. Para conceder-nos que, livres do medo e arrancados das mãos dos inimigos, nós o sirvamos com santidade e justiça, em sua presença, todos os nossos dias”. A salvação esperara, era, portanto, de conotação política e não espiritual. Por outro lado, vê-se que essa crença em um salvador é algo comum em outras culturas, como, por exemplo, entre os persas:
Mitra, um dos principais deuses da religião iraniana anterior a Zaratustra, era uma divindade do tipo solar – como se pode ver pela sua cabeça de leão – que expulsou do céu Ahriman (o mal). Formado a partir do antigo deus funcional indo-ariano Vohu-Manah (24), tornou-se objeto de um culto aparecido uns mil anos antes de Cristo e, após ter passado por diversas transformações, foi adoptado pela religião romana, de cujo panteão fez parte

251 até ao século IV d.C. Enquanto divindade, tinha por função carregar com os pecados da humanidade e expiar as suas iniquidades. Funcionava, assim, como princípio mediador colocado entre o bem (Ormuzd) e o mal (Ahriman), como dispensador de luz e de bens, encarregue de manter a harmonia no mundo e de proteger todas as criaturas. Uma espécie de messias que, segundo seus seguidores, devia voltar ao mundo como juiz dos homens. Sem ser propriamente o Sol, representava-o e era invocado como tal. Nas suas cerimônias, era apresentado num viril ou custódia, em tudo idêntica à que muitos séculos depois será utilizada pela Igreja cristã. O deus Mitra hindu, como o persa, é igualmente uma divindade solar, como se pode concluir pelo facto de ser um dos doze Adítias, filhos de Aditi, a personificação do Sol. Todas as personificações dos deuses solares acabam por ser vítima propiciatórias que expiam os pecados dos mortais, carregando com as suas culpas. Morrendo de morte violenta, são posteriormente ressuscitados. Assim, Osíris, que nasceu como um salvador ou libertador e veio ao mundo para pôr fim à tribulação dos humanos, teve que enfrentar na sua luta pelo bem o irmão Seth, ou Tifão, personificação do mal (posteriormente identificado como Satanás) que o vence temporariamente e o mata; depositado no seu túmulo, ressuscita e, ao fim de três dias (ou de quarenta, noutras versões), ascende aos céus. ______
24. Vohu-Manah, a exemplo de Hórus e de outros deuses-filhos, entre os quais se deve situar Jesus Cristo, tinha um papel fundamental, no contexto “Juízo Final”, como intermediário entre os humanos e o deus-pai. Acreditava-se que, quando uma alma chegava ao céu, Vohu-Manah se levantava do seu trono, a pegava pela mão e a conduzia até à presença do grande deus Ahura-Mazda e da sua corte celestial.

(RODRÍGUEZ, 2007, p. 117-118) (grifo nosso).

Observamos que Pepe Rodríguez informa tal crença em outras culturas, não só entre os persas; portanto, não se trata de novidade do cristianismo; ao contrário, mais parece ser um plágio. A opção de que a salvação seja por meio das obras, quer dizer, pelas nossas ações, é, para nós, além de ser a única na qual a justiça e misericórdia de Deus se manifestam plenamente é a mais lógica. Também é a que não se depara com uma série de problemas, que aconteceria com qualquer uma outra opção. Vejamos alguns problemas, que certamente, poderão ser estendidos por qualquer estudioso ou interessado em temas bíblicos: a) não contradiz o critério justo de avaliar “a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27, ver também Jó 34,11; Sl 28,4; 62,12; Pr 12,14; 24,12; Eclo 16,13; Jr 17,10; Lm 3,64; Ez 24,14; 33,20; Os 12,3, 2Tm 4,14; Ap 2,23); b) da mesma forma, não contradiz a determinação de que “cada um será executado por causa do seu próprio crime” (Dt 24,16) (ver também Jr 31,29-30; Ez 18,20). c) as ações dos homens não atingem a Deus; porém, às suas leis: “Se você pecar, que mal estará fazendo a Deus? Se você amontoa crimes, que danos está causando para ele? E se você é justo, o que é que está dando a ele? O que é que ele recebe de sua mão? Sua maldade só pode afetar outro homem igual a você. Sua justiça só atinge outro ser humano como você” (Jó 35,6-8). Dessa forma, sendo Deus totalmente “imune”, ou seja, não se ofende com o que fazermos, não há que se falar em remissão ou mesmo perdão de pecados. d) não se torna ilógico ao redimir pecados futuros, porquanto, os rituais de expiação de pecados praticados pelos hebreus eram todos expressamente pela “violação cometida” (Lv 4,13; 13-15) e não para “violações a cometer”; e) não ter seguido a ritualística de ofertas pelo sacrifício do povo, que era uma lei perpétua, quando pegavam dois bodes, um ofereciam a Deus, outro a Azazel, que supunham, viver no deserto (Lv 16,34); f) outro ponto da ritualística não seguido é quanto ao sangue da vítima que era espalhado pelo povo (Ex 24,4-8);

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g) em consequência do item b, teremos que arrumar um segundo Cristo para morrer pelos pecados cometidos pela humanidade depois da morte do primeiro Cristo; procedimento que teria que ser feito, novamente, com um terceiro Cristo, quarto, quinto, etc.; h) preferência divina pela misericórdia e não por sacrifícios (Mc 12,33, ver também Os 6,6); que não eram do agrado de Deus (Sl 51,7; Jr 6,20) e que nem mesmo foi instituído por Deus (Jr 7,22). Um passo que vem corroborar isso é: Is 1,11-17: “Que me interessa a quantidade dos seus sacrifícios? - diz Javé. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos. Não gosto do sangue de bois, carneiros e cabritos. […] Parem de trazer ofertas inúteis. [...] Quando vocês erguem para mim as mãos, eu desvio o meu olhar; ainda que multipliquem as orações, eu não escutarei. As mãos de vocês estão cheias de sangue. Lavem-se, purifiquem-se, tirem da minha vista as maldades que vocês praticam. Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem: busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva”. i) que, para ser coerente com os próprios textos bíblicos, essa suposta remissão de pecados poderia ser, no máximo, acontecido “[…] para o resgate das transgressões cometidas no regime da primeira aliança; […]” (Hb 9,15), o que nos remete ao item e; j) contrapondo ao item anterior temos que “Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados; e não só os nossos, mas também os pecados do mundo inteiro” (1Jo 2,2), o que abrigaria até mesmo as pessoas que não estavam nem aí para a mensagem de Jesus; k) temos como outras alternativas para a remissão dos pecados que não a morte de Jesus: 1ª) o batismo: "Assim apareceu João, o Batista, no deserto, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados”. (Mc 1,4); 2ª) o arrependimento: “e que em seu nome se pregasse o arrependimento para remissão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24,47); c) crer em Jesus: “A ele todos os profetas dão testemunho de que todo o que nele crê receberá a remissão dos pecados pelo seu nome”. (At 10,43). l) se há predestinação não tem sentido em falar-se também em remissão de pecados, conforme outra proposta de Paulo: Rm 8,28-30: “Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o projeto dele. Aqueles que Deus antecipadamente conheceu, também os predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, para que este seja o primogênito entre muitos irmãos. E aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos. E aos que tornou justos, também os glorificou”. Ef 1,5-¨6: “Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por meio de Jesus Cristo, conforme a benevolência de sua vontade, para o louvor da sua glória e da graça que ele derramou abundantemente sobre nós por meio de seu Filho querido”. Ef 1,11-12: “Em Cristo recebemos nossa parte na herança, conforme o projeto daquele que tudo conduz segundo a sua vontade: fomos predestinados a ser o louvor da sua glória, nós, que já antes esperávamos em Cristo”. m) se é para se apoiar em Paulo, então é preciso definir qual dessas opções deve prevalecer para a salvação: 1ª) pelas obras: “De fato, todos deveremos comparecer diante do tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a recompensa daquilo que tiver feito durante a sua vida no corpo, tanto para o bem, como para o mal” (Gl 6,10). 2ª) pela aplicação do Evangelho:

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“É pelo Evangelho que vocês serão salvos, contanto que o guardem do modo como eu lhes anunciei; do contrário, vocês terão acreditado em vão” (1Cor 15,2). 3ª) pela morte de Jesus: “[...] Cristo morreu por nossos pecados, conforme as Escrituras; ele foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; [...]” (1Cor 15,3-4). 4ª) por crer na ressurreição de Jesus: “Pois se você confessa com a sua boca que Jesus é o Senhor, e acredita com seu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, você será salvo” (Rm 10,9). 5ª) pela fé em Jesus: “Sabemos, entretanto, que o homem não se torna justo pelas obras da Lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo. Nós também acreditamos em Jesus Cristo, a fim de nos tornarmos justos pela fé em Cristo e não pela observância da Lei, pois com a observância da Lei ninguém se tornará justo”. Gl 2,16). A mensagem central de Jesus está no amor ao próximo, fora disso, ter-se-á um forte candidato a desilusão. O pastor Brain D. McLaren, que citamos mais no início, fala algo que prova a visão ampliada que devemos ter dos ensinamentos de Jesus: “Gandhi – não identificado como cristão, mas alguém com maior clareza do que muitos cristãos” (MCLAREN, 2007, p. 92), ou seja, ele reconhece um não-cristão mais cristão do que muitos que assim se denominam. Além disso, também reconheceu como verdade o fato de que “alguns teólogos e estudiosos chegaram à conclusão de que – certa ou errada – a mensagem da Igreja cristã se tornou uma mensagem completamente diferente da mensagem de Jesus” (MCLAREN, 2007, p. 117). E afinal, onde podemos encontrar a síntese dos ensinamentos de Jesus: “O modelo mais condensado do ensino de Jesus se encontra em Mateus, capítulos 5 a 7, em uma passagem geralmente conhecida por Sermão do Monte”. (MCLAREN, 2007, p. 147). Apenas acrescentaria: Fora disso não há salvação! Não podemos centrar nossa visão em Paulo; mas em Jesus que deixou bem claro que “Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor', entrará no Reino do Céu. Só entrará aquele que põe em prática a vontade do meu Pai, que está no céu”. (Mt 7,21) e, para que não restasse nenhuma dúvida completou: "Portanto, quem ouve essas minhas palavras e as põe em prática, é como o homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, mas a casa não caiu, porque fora construída sobre a rocha. Por outro lado, quem ouve essas minhas palavras e não as põe em prática, é como o homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, e a casa caiu, e a sua ruína foi completa!" (Mt 7,24-27). Sem precisar levar em consideração outras passagens, inclusive, já citadas por nós, somente essa daria para concluir que a prática do amor ao próximo é a base de nossa salvação, portanto, é algo relacionado com a nossa disposição íntima de agir a favor dele e não uma salvação de “graça”, pelo fato de alguém ter morrido na cruz, como querem muitos. Finalizando, vamos ainda transcrever uma passagem bem interessante: Lc 18,18-24: “Uma pessoa importante perguntou a Jesus: 'Bom Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?' Jesus respondeu: 'Por que você me chama de bom? Só Deus é bom, e ninguém mais. Você conhece os mandamentos: não cometa adultério; não mate; não roube; não levante falso testemunho; honre seu pai e sua mãe'. O homem disse: 'Desde jovem tenho observado todas essas coisas'. Ouvindo isso, Jesus disse: 'Falta ainda uma coisa para você fazer: venda tudo o que você possui, distribua o dinheiro aos pobres, e terá um tesouro no céu.

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Depois venha, e siga-me'. Quando ouviu isso, o homem ficou triste, porque era muito rico. Vendo isso, Jesus disse: 'Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus! De fato, é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus'”. O interlocutor de Jesus afirma que cumpria todos os mandamentos, porém, Jesus disse que faltava mais uma coisa: vender tudo o que tinha para distribuir aos pobres, ou seja, que fosse desapegado dos seus bens, doando-os aos necessitados, pois assim teria um tesouro no céu. Não temos como entender de outra forma que não a de ser a prática do amor a base para a nossa salvação, como muitas outras passagens demonstram claramente isso. Em nosso texto “O que efetivamente nos salva?”, disponível no site www.paulosnetos.net, além de desenvolver mais sobre esse tema, também tentamos, na medida do possível, ver Paulo com outros olhos; por considerar tal texto, de uma certa forma, como complemento do presente texto, nós o recomendamos a todos que leram o presente texto.

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Conclusão Final
Não há muito o que acrescentar em relação à conclusão que colocamos no primeiro volume, apenas reforçaríamos que “o Senhor é o Espírito; e onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade”. (2Cor 3,17), considerando que a grande maioria das igrejas ditas tradicionais não permitem a seus fiéis lerem livros que não os de sua igreja. Isso torna impossível aos que lhes seguem sair do encabrestamento a que são sujeito por esse tipo de comportamento. Mas é exatamente isso que eles querem, pois daí a arrancar-lhes o dízimo é coisa fácil, mais ainda que tomar pirulito de criança. Lembrando-nos de Jesus quando disse que “não se coloca remendo de pano novo e pano velho, nem vinho novo em odres velhos” (Mt 9,16-17), não seria de todo impróprio concluir que ele recomendava, aos de sua época, o desapego aos ensinamentos mosaicos, pois se não fizessem isso, não conseguiram receber aqueles que Ele, Jesus, estava passando. Entretanto, decorridos tanto tempo, ainda há muitas pessoas que bem serviriam essa recomendação, pois não se conseguem se desvencilhar de seguir a Moisés. Esperamos, sinceramente, que esse estudo, possa incentivar outros autores a fazerem o mesmo, pois há muito joio misturado no trigo, e, certamente, que não conseguimos com esse modesto trabalho fazer muita coisa a respeito disso. Há necessidade de juntarmos esforços neste sentido, de forma a tornarem límpidos os ensinos do Mestre, o que os fará plenamente compreendidos na essência, levando a todos nós, seres humanos, a termos condições de colocá-los em prática, já que os compreendemos bem. Jesus abençoe a todos os que advogam a causa da justiça e da verdade!

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Paulo da Silva Neto Sobrinho, é natural de Guanhães, MG. Formado em Ciências Contábeis e Administração de Empresas pela Universidade Católica (PUC-MG). Aposentou-se como Fiscal de Tributos pela Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. Ingressou no movimento Espírita em Julho/87, atualmente frequenta o Movimento Espírita em Belo Horizonte. Escreveu vários artigos que foram publicados em alguns sites Espíritas na Internet, entre eles:
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O Portal do Espírito: www.portalespirito.com/ Grupo de Apologética Espírita: www.apologiaespirita.org Panorama Espírita: www.panoramaespirita.com.br

Autor dos livros: - A Bíblia à Moda da Casa - Alma dos Animais: estágio anterior da alma humana?, e - Espiritismo, princípios, práticas e provas. - Os espíritos se comunicam na Igreja Católica (no prelo) Endereço: Rua Mar de Espanha, 633 – Aptº 401 Santo Antônio – Belo Horizonte. CEP 30.330-270. Site: www.paulosnetos.net e-mail: paulosnetos@gmail.com Tel: (31) 3296-8716