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Editorial

E m seu quarto número, MATRIZ es apresenta no Dossiê as “Perspectivas

autorais nos estudos de comunicação”, dando prosseguimento às propo -

sições teóricas e metodológicas que delineam os estudos de comunicação.

Nesta edição, os artigos dos colaboradores revelam preocupações que, uma vez mais, vão das teorias aos objetos para a elas retornarem, estabelecendo diálogos e interfaces entre as várias abordagens propostas. Ismail Xavier apresenta uma reflexão sobre a crise do sujeito na atualidade a partir do filme Estorvo, de Ruy Guerra (2000), repondo a interrogação sobre o percurso das personagens – e da ordem familiar – em seu peculiar envolvimento com aspectos contundentes da violência social no Brasil contemporâneo. O autor afirma que, desde a década de 1990, o «cinema da retomada» focaliza a violência social, a corrupção e a crise institucional no Brasil. São poucos os

filmes que se afastam desta postura de transparência e de ajuste aos códigos dominantes no mercado, trabalhando dentro de um estilo afinado ao cinema moderno de autor, como vemos na obra analisada. Buscando reinventar o conceito de “classe social” a partir de uma aborda- gem crítica, Graham Murdock aponta que aos poucos este conceito foi substituí- do por outros que buscavam destacar não as invariâncias, mas as singularidades entre grupos sociais em conflito. Os rígidos contornos verticais da classe deram lugar aos horizontes abertos da diferença, mas uma quantidade impressionante de evidências empíricas confirma que ela permanece como uma força essencial para modelar a maneira como vivemos hoje, especialmente se tomarmos como referência os estudos de mídia e de comunicação.

Editorial E m seu quarto número, MATRIZ es apresenta no Dossiê as “Perspectivas autorais nos estudos

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O eixo articulador do texto de Eliseo Véron discute alguns aspectos do trabalho recente de Schaeffer

O eixo articulador do texto de Eliseo Véron discute alguns aspectos do trabalho recente de Schaeffer sobre o cogito cartesiano, e de suas consequências na história da filosofia e das ciências humanas e sociais. Além disso, apresenta a subjetivização das teorias dos signos e considera o caso da teoria da enunciação de Benveniste como um exemplo do que Schaeffer chama de “Tese da Exceção Humana”, mostrando as contradições da crítica de Benveniste ao princípio saussureano da arbitrariedade do signo. Os objetos da comunicação considerados em suas formas digitais tornam- se espaços privilegiados para a discussão proposta por Raúl Trejo. A internet pode ser considerada, ao mesmo tempo, parte do espaço público e parte da esfera pública, vista nos termos de Habermas. Nas páginas da web e em outros espaços da “Rede das redes”, há um intenso e aberto processo de socialização política e ideológica. Simultaneamente, demonstra o autor, há ainda limitações consideráveis à proeminente contribuição da internet nas deliberações sobre questões públicas. Os inúmeros desafios enfrentados pelas políticas culturais desde sua inven- ção, em meados do século XX, são tema do artigo de Antonio Albino Rubim. A primeira emergência das políticas culturais no cenário mundial, entre os anos 1970 e 1982, colocou um conjunto de desafios e ancorou sua legitimidade na construção das identidades nacionais, que ocupavam centralidade. A segunda emergência, ocorrida no final do milênio, está inscrita em uma sociabilidade alterada por um novo momento do capitalismo, na qual transversalidade e diversidade culturais são essenciais para entender os novos desafios propostos. No campo da midiologia, a análise sobre o protagonismo de Fernandes Pinheiro – que publicou, em 1859, estudo sobre a mítica introdução da imprensa no Brasil pelos holandeses – é considerada por José Marques de Melo um marco histórico para o conhecimento jornalístico brasileiro. O episódio é resgatado em seu artigo, que focaliza a conjuntura em que o trabalho foi divulgado, discutindo o papel ocupado pelos personagens principais, além de caracterizar sua autoria, a tese, os argumentos e o impacto na sociedade. Nesta edição, MATRIZ es inaugura uma nova seção: Entrevista – a exemplo dos artigos reunidos no Dossiê , trará perspectivas teóricas e metodológicas de destacados pensadores do campo da comunicação. Para inaugurá-la, Jesús Martín-Barbero responde a um roteiro de questões formulado por Maria Immacolata Vassallo de Lopes, de forma a compor o que se pode denominar de pensamento epistemológico deste autor sobre a comunicação ou a partir dela. Abrindo a seção Media Literacy, a reflexão sobre a televisão que narra a si mesma, na acentuação das práticas da neotevê, assinaladas por Eco, coloca em relevo seus processos mediadores, como se a realidade a ser apreendida

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EDIToRIAl

pelos espectadores fosse justamente aquela referente à interioridade do meio de comunicação. O artigo de Márcio Serelle pretende, a partir de noções de transparência e opacidade midiáticas, refletir sobre os sentidos dessas ope - rações de metalinguagem, presentes em diversos âmbitos da programação por meio da análise de dois programas televisivos: Profissão repórter e Cena aberta . A apresentação de conceitos para se compreender os processos de re - petição e serialização presentes na obra audiovisual contemporânea de ficção, ressaltando como certos aspectos da estética do melodrama e do romance popular contribuem para essa lógica da “inovação na repetição”, são objeto do artigo de Daniela Zanetti. Na seção Em Pauta , espaço que MATRIZ es dedica aos temas livres, três tex- tos contribuem para o esclarecimento de diferentes abordagens relacionadas às esferas dos discursos midiáticos em seus aspectos de produção e recepção. Ciro Marcondes Filho revê posicionamentos teóricos e paradigmas a partir de autores russos que inspiraram o estruturalismo. Ao dizerem que um semidiscurso estrutura os homens que, como tais, nada podem, estabelecem que a palavra permanece neutra, afirmação estranha às suas raízes hegelianas e marxistas; o paradigma deles, ao contrário, só pode ser heideggeriano, segundo o qual não há diferença entre o ser natural e o ser ideológico, só existindo o ser «marca- do». Aníbal Bragança, em seu artigo, trata das origens do Instituto Nacional do Livro, sua criação e funcionamento no contexto do avanço dos meios de comunicação de massa, destacando o papel de Monteiro Lobato como editor. As políticas públicas do estado brasileiro para o livro, a leitura e as bibliotecas, bem como a busca de uma regulamentação para o mercado do livro são temas trazidos pelo autor nessa discussão. As estratégias adotadas por emissoras locais integrantes de redes de televisão nacionais para inserirem conteúdos locais em sua programação, como forma de obter sua legitimação junto às comunidades, bem como de manter sua sustentabilidade, são abordadas por Ada Machado e Adriana Stürmer. O artigo traz como referência uma emissora gaúcha que adota políticas de produção editorial descentralizadas e utiliza seu espaço comercial para veicular conteúdos produzidos localmente. A seção Resenhas traz leituras de livros dos autores Bernard Miège, Jean- Louis Comolli e Cremilda Medina. Encerra o número a produção discente do PPGCOM-USP nas Teses e Dissertações defendidas no segundo semestre de 2008. Com esta edição, MATRIZ es anuncia sua parceria com a Editora Paulus e reafirma seu objetivo maior de continuar contribuindo para a qualidade dos debates no campo da Comunicação através de uma seleção especial de autores e de temas que pode ser aferida a seguir.

Os Editores

EDIToRIAl pelos espectadores fosse justamente aquela referente à interioridade do meio de comunicação. O artigo de

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O olho mágico, o abrigo e a ameaça:

convulsões – Ruy Guerra filma Chico Buarque

The Magic eye, the shelter and the threat:

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I S M A I L

X AV I E R *

Resu MO Desde a década de 1990, o «cinema da retomada» focaliza a violência social, a corrupção e a crise institucional no Brasil. São poucos os filmes que se afastam desta postura de transparência e de ajuste aos códigos dominantes no mercado, trabalhando dentro de um estilo afinado ao cinema moderno de autor. Um dos melhores exemplos nesta direção é Estorvo (2000), de Ruy Guerra, adaptação do livro de Chico Buarque. O artigo demonstrará como o filme, tal qual a obra original, opta por uma narrativa que nos desconcerta ao trabalhar na própria forma a crise do sujeito na atualidade, repondo nossa interrogação sobre o percurso das personagens – e da ordem familiar – em seu peculiar envolvimento com aspectos contundentes da violência social no Brasil. Palavras-chave: cinema brasileiro, violência social, cinema de autor, sociedade contemporânea

* Professor associado da Universidade de São Paulo e Coordenador do Grupo de Professores do CTR do Centro de Estudos da Metrópole. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Comunicação Visual.

A B s TRACT Since the 90’s, the «cinema of retaken» has focalized social violence, corruption and institutional crisis in Brazil. There are few dominant codes that stand back from this attitude of transparency in communication and from the settlement to the dominant codes in market, working according to a style tuned with the modern authorial cinema. One of the best examples of this is the movie Estorvo (2000), by Ruy Guerra, adaptation of the book by Chico Buarque. The article is going to demonstrate how the movie, as the book it is originated from, chooses a narrative that disconcerts us on presenting in its form the subject’s contemporary crisis. The movie also replaces our questioning about the characters – and the familial structure – course in their peculiar involvement with scathing aspects of the social violence in Brazil. Keywords: Brazilian cinema, social violence, authorial cinema, contemporary

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  • D esde meados dos anos 1990, o «cinema da retomada» tem focaliza- do a questão da violência social, da corrupção e da crise institucional no Brasil. Os cineastas têm lidado com os temas mais espinhosos da

agenda política – a desigualdade social, a exclusão da maioria da população dos benefícios trazidos pela modernização, a expansão do crime organizado e seus feudos, onde os marcos institucionais do Estado nacional não têm vigência. No cinema de ficção, essas questões chegam às telas num formato que adapta a experiência social a códigos de gêneros industriais consagrados, como ocorre nos «filmes de ação» Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, e Tropa de elite (2007), de José Padilha, no melodrama Carandiru (2003), de Hector Babenco, ou mesmo em thrillers que incorporam os motivos do film noir, como O invasor (2001), de Beto Brant – a mais interessante análise política feita por um filme brasileiro inserido nesta vertente do cinema de gênero. São muito poucos os filmes que se afastam desta postura de transparência na comunicação e de ajuste aos códigos dominantes no mercado, trabalhando dentro de um estilo mais afinado ao cinema moderno de autor e que propõe jogos mais enigmáticos e uma outra relação entre arte e entretenimento. Um dos melhores exemplos é Estorvo (2000), de Ruy Guerra, uma adaptação do livro homônimo de Chico Buarque. Tal como no texto de origem, a opção do filme é por uma narrativa que nos desconcerta e repõe até o fim nossa interrogação sobre o percurso das personagens – e da ordem familiar – em seu peculiar envolvimento com aspectos contundentes da violência social no Brasil contemporâneo. No romance, a narração em primeira pessoa traz a primeiro plano a expo - sição de uma subjetividade cujo descompasso com o andamento do mundo é, ao mesmo tempo, uma «reação a» e uma «expressão de» uma crise de valores que se faz mais visível nos territórios dessa anomia social já tematizada pela crítica. Marcando sua empatia com o livro, Estorvo é um filme político que, tal como é próprio à carreira de Ruy Guerra, projeta o padrão convulsivo da expe- riência em foco para o nível da forma visual e da estrutura narrativa. Há uma desfiguração do espaço urbano que espelha a excentricidade do protagonista, num jogo em que nossa relação com o mundo narrado é mediada, no filme não de forma exclusiva, por esta subjetividade exilada, figura sem nome. O cineasta traduz a estratégia formal do escritor, trazendo a primeiro plano toda a carga de ambiguidade que cerca o processo narrativo. Como Leon Hirszman, em São Bernardo (1972), Ruy Guerra opta pela destacada presença do texto de origem através do uso da voz over do protagonista que, no filme, tem de interagir com outros canais de imagem e de som, criando a típica pluralidade de vozes que perpassa a tradição do cinema moderno, desde Orson Welles.

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O procedimento da voz over tem conquistado muito espaço no cinema brasileiro contemporâneo, está disseminado pelas variadas formas e estilos, mas quase sempre dentro de um esquema em que ela se sobrepõe à imagem para narrar parte da história e realizar comentários dentro de uma postura mais pedagógica, voltada para operações de costura e de informação, como se vê em Cidade de Deus e em filmes cuja realização envolve uma conexão (estética ou de produção) com as experiências da teleficção – lembremos Redentor (2004), de Cláudio Torres, e O homem que copiava (2003), de Jorge Furtado (ver Xavier,

(2006:139-156).

Em contraste, Estorvo (Ruy Guerra, 2000), como também Lavoura arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho, e Corpo (2008), de Rubens Rewald e Rossana Foglia, para dar outros exemplos, definem um agenciamento de imagem e som original que retoma as disjunções e ambiguidades do cinema moderno, com uma constituição mais complexa do espaço e do tempo, construindo dissonân- cias na relação entre palavra e imagem. Estorvo, em particular, explora a voz over como expressão aguda de um tipo de crise do sujeito em que se evidencia a própria dificuldade de «dizer» o mundo e se inscrever no espaço da cidade. Neste aspecto, pode ser visto como o terceiro filme de uma rapsódia urbana que foi radicalizando a ideia de crise e de fragmentação da experiência, num gradiente que encontra seu primeiro termo em São Paulo S/A (1965), de Luiz Sérgio Person, e o segundo em O bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, que trabalham a crise do sujeito na cidade em chaves distintas. O filme de Ruy Guerra, como parte desta constelação, estimula o cotejo entre a imagem que ele oferece das relações entre o sujeito e a cidade contemporânea e as diferentes dinâmicas que o cinema dos anos 1960 produziu na interação entre voz e imagem. 1 Em São Paulo S/A, o descompasso entre o protagonista-narrador e uma certa ordem de coisas na sociedade industrial se expressa em termos de um realismo moderno que discute os problemas da urbanização e do crescimento econômico, produzindo a metáfora da cidade-máquina referida ao proces - so de acelerada expansão industrial do país no final dos anos 1950. Carlos, o protagonista, vive o mal-estar de quem não se ilude com o desvalor implicado no seu papel social como executivo de uma indústria de autopeças, mas não reúne forças para dar o salto e mudar de vida. Figura a meio caminho, não se sente em casa, gostaria de estar em outro lugar, ser outro. Amargurado, detesta o mundo medíocre em que tem sucesso. As tensões se agravam e ele se põe à deriva após uma explosão catártica em que rompe com a esposa (primeira cena do filme) e com o mundo do trabalho industrial. Conhecemos o seu trajeto através de um flashback que tem ele próprio como foco, quando recapitula

1.

Sobre a interação entre

voz e imagem em O bandi- do, ver as análises de Jean- Claude Bernardet (1991) e de Ismail Xavier (1993).

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ISMAIL XAVIER

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sua vida na cidade, numa combinação de cena e voz over que expõe a crise do sujeito dentro de coordenadas bem definidas num espaço público em que tudo se cruza como numa linha de montagem. A repetição dos ciclos do trabalho captura a todos numa engrenagem da alienação que o filme caracteriza como sociedade anônima. Em O bandido da luz vermelha, a figuração da crise já envolve uma flagrante descontinuidade; a narração se desfaz em estilhaços, voz e imagem escancaram seus conflitos na exposição do percurso de Jorginho, o marginal cuja carreira lhe deu nome e fama, construindo uma identidade que se mostra, no entanto, um simulacro produzido pelo discurso dos meios de comunicação. Tal como no film noir, a voz over do protagonista expõe as indagações de um sujeito que está só, contra todos, em termos bem distintos aos de Carlos de São Paulo S/A. Predomina um regime noturno da imagem, e a voz over do protagonista flutua na sucessão de enunciados contraditórios que fazem coro com outras vozes over – a par do seu conflito com as imagens – vindas de uma suposta emissora de rádio que pontua todo o filme com seus comentários. Vale a ironia e a chave paródica que dissolvem o aspecto trágico da experiência do herói, tratado no filme como um «pé de chinelo» perdido na periferia do Terceiro Mundo. Dadas as suas coordenadas históricas e a forma como Rogério a formaliza, a crise do sujeito se põe como alegoria das desilusões face às promessas do progresso industrial, ou das tentativas de revolução social vividas nos anos 1960. O sen- timento de impotência se traduz numa autodepreciação vinda de um narrador não confiável, um anti-herói que desqualifica o mundo e a sua própria condição. O ressentimento contra a engrenagem do dinheiro, típica do Carlos de São Paulo S/A, e o sentimento de impotência do bandido da luz vermelha já configuravam um mal-estar que Estorvo vem potencializar. Sua estrutura mais opaca faz ausentes as coordenadas realistas do filme de Person. A tonalidade sério-dramática torna mais intenso o desconforto causado pela fragmentação que o aproxima do filme de Sganzerla, pela forma como desestabiliza, desde o começo, a narrativa, e também pela maneira como projeta a morte do prota- gonista numa zona de simulação que se torna agora mais enigmática em seu torneio final. Estamos longe dos lances de bom humor que atenuam o desastre do bandi- do, o menino saído talvez da favela, pois nada se sabe ao certo. O protagonista de Estorvo não é o pequeno burguês eficiente na fábrica que, no momento da catarse, quer desfazer seus compromissos, nem compõe a identidade-simulacro do marginal pobre, abandonado à sua sorte sob a camada espessa do discurso da mídia. O estranhamento da cidade e o estar só diante do mundo são traços que retornam agora na figura cujo anonimato não esconde sua ancoragem social

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de moço de família, desocupado, movimentando-se pelo espaço urbano como que perseguido por um olhar imaginário que, no entanto, às vezes se cristaliza em ameaças efetivas que ele mal compreende. Excêntrico, ora ele exagera em suas reações paranóicas ao que supõe ser uma demanda do Outro, ora exibe uma apatia escandalosa diante de absurdos. Esses são traços de um comportamento que, no romance, se expõem através de uma percepção fragmentada do espaço e uma sucessão temporal baseada na parataxe: a ordem do tempo não supõe uma teleologia; a sucessão dos fatos não conjetura uma hierarquia, uma subordinação. As situações se sucedem,

2.

Ver Gérard Genette

ou de forma precipitada, aos atropelos, ou através de elipses que não acentuam motivações e intenções. A narração em voz over, ao expor os traços de memória e a vivência imediata do protagonista, em lugar de configurar um mundo de contornos definidos, evidencia a disposição do narrador a embaralhar percep- ções e conjeturas. No cinema, a voz over interage com o teor das cenas, pois o campo do visível não é instituído diretamente por ela, o que gera tensões entre o que o narrador diz e as ações que vemos desfilar na tela. Ao incorporar o texto de Chico Buarque, o filme traz o chamado narrador autodiegético, na tipologia proposta por Gérard Genette 2 , mas tal narrador tem seu estatuto alterado. No livro, o narrador-protagonista não é figura plenamente identificada, um nome que se apresenta e dá início a um relato em flashback. Não se define a «situ- ação épica» 3 de partida, nem há no final um retorno ao tempo zero que marcaria um suposto ponto de ancoragem apto a esclarecer de onde fala este sujeito que diz «eu». No filme, tais indefinições se complicam, pois há no seu corpo um

(1972). A teoria do discurso narrativo de Genette incor- pora, para a teoria literária, a noção de diegese, termo grego que a crítica de cinema fez circular desde os anos 50, na acepção de «mundo representado». É diegético tudo o que pertence ao universo ficcional instituído pela narração: os personagens, a ação, o espaço, o tempo. Um narrador autodiegético não apenas pertence ao mundo que seu relato instaura, mas é também o principal personagem em foco – enfim, ele conta a sua própria história.

contexto imagético e sonoro que ultrapassa a voz enunciadora e começa a atuar

3.

«Situação épica» se

antes mesmo que esta se manifeste. Ou seja, é a imagem (corpos, cenografia, luz) que estabelece a moldura para a voz e não esta que gera enunciados que sugerem imagens a serem atualizadas no ato de leitura. Na abertura, a trilha musical e as disposições do design já produzem uma certa atmosfera na sequência de apresentação dos créditos, e é somente depois desta que a voz se apresenta e diz “estou zonzo”, frase que se sobrepõe ao primeiro plano de um olho que se abre, como que procurando sair de um estado de torpor, para configurar um campo limítrofe entre sono e vigília que vai contaminar todo o movimento. Além dessas interações entre voz e imagem, o cinema permite um outro tipo de desdobramento que, neste caso, dá novo torneio à ideia de fragmentação do sujeito: a voz over do narrador-protagonista (que é a do próprio Ruy Guerra) não é a do ator que o interpreta (o cubano Jorge Perugorría). Com isto, a voz sem corpo, que paira acima do espaço da cena, intensifica o efeito espectral que assombra as vozes over no cinema, e se alojam num extracampo de figuras «quase mortas» que, ao mesmo tempo, exibem uma aura de poder, pois estão

refere às coordenadas de espaço e tempo da voz do narrador autodiegético; o lugar e o momento em que ocorre o ato de narrar a sua própria história. Há filmes que fornecem estas coordenadas, definem a cena (tempo e lugar) a partir da qual o narrador começa o seu relato, em geral, como recapitulação do passado recente ou remoto. Há filmes que não definem estas coordena- das; a voz (que relata e comenta) flutua sobre as cenas sem especificar de onde ela está falando.

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4. Sobre a conotação espectral das vozes over , ver Chion (1999:47). 5. Na análise do

4.

Sobre a conotação

espectral das vozes over,

 

ver Chion (1999:47).

5.

Na análise do livro,

Edu Teruki Otsuka (2001) caracteriza muito bem esta peculiar atenção do narrador a detalhes e a ausência de um movimento de síntese dos dados.

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supostamente livres da amarração de um corpo. 4 Em Estorvo, tal flutuação, no entanto, encontra uma regra que impõe limites, lhe retira poderes, pois, em consonância com o romance, a voz over conjuga o verbo no tempo presente, não havendo hiato temporal a distanciar o vivido e o narrado, tal como se percebe logo na primeira cena. O narrador quase sempre expõe as suas percepções no momento mesmo em que ocorrem seus confrontos práticos com o mundo, quando vemos o seu corpo na tela (um que tem outra voz, como observado). Há exceções, como as referências que ele faz ao passado – à infância e aos quatro anos de sua «vida de casado» já encerrada. São passagens bem demarcadas em que recuperamos a usual distância entre o vivido e o narrado. O que prevalece, no entanto, é uma «situação épica» peculiar que desliza junto com o relato. A tônica dominante é a sucessão que impele o personagem para frente, o que sugere um movimento progressivo que, no entanto, convive com um jogo de frases e situações recorrentes que trazem uma ideia de regressão e circularidade que, por sua vez, não define contornos claros, como veremos. Neste filme, a enunciação verbal que incorpora o texto do livro se desdobra ainda mais uma vez: temos o recurso a vinhetas que projetam na tela pequenos relatos ou observações lacônicas que compõem mais uma faceta da narração em primeira pessoa e interrompem o fluxo das cenas como num filme mudo. Há, portanto, supostamente vindos de uma mesma fonte (o protagonista), três fluxos verbais: a enunciação «fria» e concisa dos letreiros, a voz do corpo visível (ator) que fala e, com outro timbre, a voz do narrador over. Neste desdobramento, algo nos lembra Brecht – as interrupções, desconti- nuidades, estranhamentos – mas prevalece o efeito da desfiguração expressio- nista, no desconcerto das vozes, nas distorções da imagem e na desorientação dessa figura dilacerada em descompasso com um mundo que ele percebe em

mínimos detalhes, mas não organiza de forma coerente. 5 Em várias passagens, o comportamento da câmera faz uma rima com o tipo de olhar implicado no relato das vozes, de modo a buscar uma afinidade entre os diferentes canais de expressão, imprimindo no próprio estilo do filme a fragmentação e a desorien- tação, de modo a fazer o espectador vivenciá-las, ao invés de usufruir, no con- forto de um olhar externo, os dados da experiência em foco como informação clara e distinta. Prevalece a deriva do personagem, sua vivência perturbada do espaço-tempo e seus desencontros com as figuras humanas que o interceptam, num movimento que termina por nos implicar, pois tudo se contamina da tonalidade de sua experiência. A mescla indistinta do subjetivo e do objetivo compõe, no filme, uma variante do estilo indireto livre que se constitui toda vez que um texto literário com narrador autodiegético se inscreve no corpo de um filme e interage com os outros canais de enunciação.

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PROJ e ÇÕ es e si M e TR i A s : O JOGO de P e RM u TAÇÕ es

Desde a primeira sequência, está presente um motivo central: a incapacidade do protagonista em separar as suas projeções e os dados que recolhe do mundo externo. A primeira cena põe em foco um momento em que ele, mergulhado na apatia, responde com dificuldade a um apelo do mundo exterior. Após os créditos, temos a imagem já citada de um olho cobrindo toda a tela, piscando enquanto ouvimos uma voz dizer: estou zonzo. Segue-se um som de campainha que nos irrita enquanto passamos à imagem de um homem deitado na cama. Tudo produz, desde o início, a contaminação recíproca de sonho e vigília, num mundo povoado de forças imaginárias. Ele demora a reagir, e o estranhamento se traduz de imediato na forma criada pela grande-angular, ou seja, as imagens que deformam o corpo e a cenografia que o movimento do ator expõe (a sala do apartamento totalmente vazia). Fazendo conjeturas, ele se dirige ao «olho mágico» na porta de entrada para verificar quem reclama a sua presença. A voz over traz o comentário, passo a passo, de suas percepções não muito claras e de sua vaga lembrança de que teria visto, algum tempo antes, o estranho do outro lado da porta, evocado por um gesto típico que permanece em sua memória. Embora nada haja de sólido em suas conjeturas, a sua reação é de quem recebe o chamado do mundo como uma ameaça e deve tomar precauções. Na cena do olho-mágico, a montagem em campo-contracampo nos permite ver o rosto do protagonista e a figura do estranho no corredor; há um salto em nosso ponto de vista quando a voz over supõe que ele pode estar sendo visto pelo estranho lá fora, como se este também pudesse olhar pelo olho-mágico. Este efeito é decisivo para o imaginário que domina a cena, pois o dispositivo de proteção perde a assimetria que garantia sua função, de que resulta um senso de vulnerabilidade irremediável. A música, a luz e a visão do corpo do protagonista deformado pela lente contribuem para a atmosfera que gera as hipóteses não confirmadas pela cadeia de ações. Ele decide pela fuga, a música cria suspense, mas a montagem disjuntiva e a falta de coerência espacial sugerem que a perseguição é imaginária (projeção dele), composta de imagens-clichê do filme policial, aqui desconectadas, algo de que devemos desconfiar como narração de um fato. Ele deixa o edifício; o outro, supostamente, teria entrado em seu apartamento. A sequência se fecha com ele entrando num túnel, pri- meiro emblema do mundo da cidade, enquanto sua voz comenta que, apesar do inexplicável, tem certeza de que o outro continuará a persegui-lo. 6 Voltemos ao olho-mágico. A simetria aí construída – que torna o inte- rior e o exterior igualmente visíveis – contraria a experiência comum, e se faz metáfora ótica do estado do narrador ao longo do filme. Ele estará sempre em- baralhando interior e exterior, criando um espaço de incertezas e imaginando

  • 6. O tema da caça é

recorrente no cinema de Ruy Guerra, desde Os Fuzis; em Estorvo, ele segue inspiração vinda da trama urdida por Chico Buarque, mas torna tal motivo mais forte, como indicado nesta frase da voz over que dá o tom ao que virá, uma frase que não ocorre nesta passagem do romance.

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ameaças, num certo momento supondo até mesmo a sua salvação, diante de figuras enigmáticas ou grotescas que cortam o seu caminho. Em sua solidão feita de desencontros, ora ele excede, não tem função, atrapalha, ora é o mundo que excede, o estorva, criando demandas indesejáveis que agridem a sua prostração e contribuem para a sua forma idiossincrática de reagir a um estado crítico de

7.

O romance de Chico

Buarque encontrou uma densa recepção crítica, na qual me apoio em muitas passagens do meu texto, com especial referência às leituras de Roberto Schwarz (1999) e Edu Otsuka, já citada, e de Augusto Massi (1999).

coisas na sociedade. 7 Dado que seu relato e seu comentário, como regra, seguem rente aos fatos, ele não pode colocar as cenas em perspectiva, a não ser quando, levado por associações, faz referências ao passado mais remoto. A cada momento, o comen- tário oral expressa as incertezas da percepção, e os vários canais – a imagem, a música, o diálogo, a mise-en-scène – não são postos em conjunção para explicar o mundo, mas em disjunção, para expressar um estado de espírito. O corpo e a voz do ator, embora travados, são enérgicos no comportamento reativo diante de situações extremas, vivem as situações numa chave dramática que encontra na música seus pontos de ressonância. Em contraposição, o cansaço de tudo e o entorpecimento se expressam no grão da voz over narradora que pontua as cenas e as transições. Depois da falsa perseguição da abertura, ele se dirige à casa da irmã, num luxuoso condomínio protegido por câmeras e porteiros agressivos que termi- nam por deixá-lo entrar quando a autorização vinda pelo interfone neutraliza a péssima aparência do visitante. Ele encontra a irmã à beira da piscina, e a conversa entre eles nos informa sobre os assuntos da família: o seu pai falecido, a sua mãe só em seu apartamento, o cunhado rico que condena a indiferen- ça dele pelos interesses da família, em particular pela administração do sítio herdado, agora em total abandono. O seu olhar e os comentários em voz over deixam claro o seu afeto por ela. Mais ainda: a bela irmã o atrai e sabe disto. No momento, o essencial é que ele quer dinheiro. Ela assina o cheque como parte de uma rotina familiar; depois, se despede. Ele vai ao banco, retira o dinheiro e vai à estação rodoviária, lugar de novas faces, novos duplos, olhares supostamente ameaçadores, como o que ele vê num indivíduo a quem se refere como o da «camisa quadriculada». O protagonista vai de ônibus para o sítio da família, num movimento que irá repetir ao longo do filme, alternando cidade e campo, girando em torno do seu passado, fazendo tudo com uma aparente falta de interesse, como um autômato. Tal como a casa da irmã, o sítio será o lugar magnético que vai dominar a jornada. O motivo das fronteiras borradas marca todo o percurso. Por exemplo, quando ele entra pelo portão do sítio, a voz over diz que ele está «saindo» de um enclave – o mundo – que estaria cercado pelo sítio, território maior. Passagens e fronteiras têm faces reversíveis, num mundo em que a oposição entre o interior

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e exterior está submetida a toda sorte de permutações criadas pelas inversões curiosas entre atividade e passividade, entre a condição de vítima e a de agressor potencial. Em várias ocasiões, ao contrário do que acontece na cena de abertura, é ele quem estará do lado de fora tentando entrar e sendo rechaçado, ou quase. Não conseguirá entrar no apartamento da mãe morta, travado pela confusão no prédio, nem no edifício onde imagina estar morando um velho amigo da juventude que não sabe se está vivo. Neste caso, a voz rememora o caráter singular da figura, excêntrica nos interesses e nas palavras de ordem, polo de alusões a uma atração homoerótica não assumida que vem ecoar nas associações do narrador quando testemunha um fait divers bem em frente ao tal edifício. É exemplar o encadeamento de motivos e de imagens catalisados pelo melodrama popular e pela reportagem de TV que multiplicam conjeturas sobre o autor e sobre a vítima do crime (um homossexual?), matéria que reverbera em outros momentos da narrativa, quando observações sobre essa vítima deslizam para um detalhe ou outro referido ao corpo do amigo. Este episódio, e o que de memória nele se projeta, se insere num jogo de permutações que envolve personagens, lugares, atitudes, tudo mediado pela re- lação do protagonista com os mais diferentes estímulos, compondo um jogo de espelhos reiterado, como no caso do estranho atrás do olho-mágico e do homem com a camisa quadriculada. Isto cria um senso de equivalência, reversibilidade, envolvendo corpos, objetos, espaços e situações, o que às vezes resulta numa intimidade promíscua que equipara os espaços da vida segundo a norma e os da

8.

Roberto Schwarz, em

transgressão, num processo acelerado de dissolução de contornos que espelha uma crise das instituições e territórios da tradicional sociedade burguesa. 8 Ao mesmo tempo, o filme exibe como cenário urbano uma cidade imaginária – Estorvo foi filmado no Rio de Janeiro, em Lisboa e em Havana – em que se fala uma mescla de português e espanhol, espaço transnacional composto da justaposição de fragmentos – ruas vazias, ruínas, aglomerados de pobreza em contraste com os templos da sociedade de consumo a reafirmar o princípio ordenador da troca

seu artigo supra citado, analisa este movimento de trespasse de fronteiras e promiscuidade, colocando- o em relação com um diagnóstico da conjuntura referido à desmontagem dos pressupostos de tal ordenamento social.

acelerada, da compressão do espaço-tempo das redes de comunicação. 9

9.

Nesta direção, Luiz

O mosaico traz um espaço em ruínas e um protagonista em fuga a vivenciar os lugares na obliquidade de sua percepção singular, imediata, desse mundo que se mostra assolado pela ação mecânica de uma galeria de máscaras expres- sionistas que, por seu lado, contrasta com um resíduo de núcleo familiar ainda capaz de preservar as aparências e até um arremedo de senso comum, traços que, no entanto, não o tornam imune à barbárie nem isento de compromisso com ela, dado o fácil deslize de um campo para outro. Há muitos circuitos a percorrer nesta cenografia convulsa de Estorvo, o que engendra distintas leituras a privilegiar uma dimensão ou outra da anomia

Zanin Oricchio (2003:74- 78), descreve os traços do que chama de “geografia urbana indetectável” como expressão do aspecto radical do filme na dissolução das categorias que permitiam distinguir nacional e estrangeiro, centro e periferia.

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social e da própria errância do protagonista que, embora alheio ao dinamismo

10.

Quem melhor avançou

na análise da desterritoria- lização como “desposses- são de si mesmo” no filme de Ruy Guerra, foi Andréa França (2003: 44-48 e 203-214). Ela trabalha o filme como instância da “narrativa dissensual” (disposta em séries, múl- tiplos devires, dinamismo feito de desacordos) que questiona regimes de verdade totalizantes e opera no não-lugar que sela o estranhamento mútuo mundo-protagonista. O movimento da sua análise é o de adensar o perfil da experiência radical de abandono vivido por “esta espécie de estrangeiro dele mesmo” diante da corrosão e dos excessos de um mundo sem contornos. A opção de Andréa é por uma leitura que privilegia a pura errância dentro de um paradigma (“encontrar uma saída onde este mundo não soube encontrar”) que não requer a atenção maior a um espaço de memória que permita explorar um campo particular de conflitos associado ao padrão dos movimentos do protagonista, embora este padrão se manifeste.

que o cerca, dele não se desprega. 10 Em minha leitura, interessa explorar o teor específico do leitmotif da fuga, autoexílio, aqui condensado num protagonista que não é um citadino qualquer, tipo ideal, espécie de Everyman da urbanidade pós-industrial. Ele tem uma história de vida particular e uma origem de classe que se mostra decisiva na configuração de um padrão impresso no que parece haver de aleatório em seus movimentos no espaço alegórico criado pelo filme. Em sua deriva, há o trespasse de fronteiras, a confusão dos lugares, mas «ele insiste em operar nas margens de uma identidade familiar», tentando conjugar a memória – que repõe um imaginário da infância e uma intensidade de afetos de que não se esquece, nem abandona – e o recalque de sua condição de herdeiro do legado do pai e das normas de convívio de sua classe. Já observei que, levado por associações, o protagonista comenta eventos passados. Vez ou outra, a memória é ilustrada por planos rápidos que traduzem seu olhar e sua emoção diante da passagem evocada. E há dois flashbacks mais bem definidos, um trazendo uma passagem dos carinhos da infância em que a sua irmã é figura central, outro mais dramático trazendo a cena decisiva de seu desastre conjugal. A voz over complementa dados do passado e fala sobre o citado amigo da juventude, ressaltando que deixou de vê-lo desde que assu- miu o casamento. E não são escassos os comentários sobre os quatro anos de vida com sua mulher, de quem se separou num momento sugerido como não distante da situação que marca a abertura do filme, quando o vemos sozinho no apartamento vazio.

LAÇO s de FAMÍL i A

Há um padrão de repetições que tornam claro o papel do romance familiar na conformação da experiência. A perambulação, pontuada de acidentes, faz sempre o protagonista retornar à casa da irmã, ao apartamento da mãe, ao shopping center onde trabalha sua ex-mulher, ao apartamento onde viveram juntos e a um lugar-chave: o sítio da família, este agora ocupado por traficantes de drogas com sua plantação de maconha. Com os invasores, ele acaba por encetar uma esdrúxula negociação que resulta numa troca das joias da irmã – que havia roubado num gesto gratuito apenas na aparência – por uma mala cheia de maconha, sem intenção de consumi-la. Há um movimento de leva e traz conectado ao seu círculo de afetos (pessoas e lugares): primeiro, invade a zona proibida – o closet no quarto da irmã – de onde rouba as joias; depois, fará a troca no seu sítio-santuário, lugar de sua insistência, desde que movido por impulso próprio. Quando de posse da droga, tenta levar o produto da troca para

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o apartamento da mãe, pensando num armário em que ela guarda as relíquias do pai (este depositar a droga no território do pai morto não é propriamente uma alternativa prática; há nítida circulação simbólica). De qualquer modo, ele não tem sucesso, pois não consegue entrar no apartamento da mãe que acabara de morrer. A mala acaba ficando perdida no prédio, com destino tão incerto quanto o seu, como para confirmar a sua própria frase “o destino do homem é o destino da mala que ele carrega”. 11 A sua inserção na engrenagem da troca – que começa com a violação do closet da irmã e termina na tentativa de devolução da mala ao armário do pai – se conecta aos seus investimentos de desejo e rejeição na rede familiar, um sistema que gira em torno da atração pela irmã, algo que sua narração explicita de várias formas: em sua primeira visita a ela logo após a fuga da abertura do filme, no flashback com imagens da infância, nas visitas ao condomínio fechado, e na recordação da adolescência e da vigília noturna à espera da irmã na pedra do sítio. Esta matriz incestuosa se reitera de outras formas, numa tônica ainda mais nítida de apatia e recusa do mundo. Num certo momento, sua busca de apoio o leva ao apartamento da ex-mulher para pegar uma mala antiga com suas coisas; depois de um surto de incontinência urinária (quando se alivia na pia da cozinha), ele toma uma ducha e dorme na banheira enquanto a voz over explicita o seu desejo de permanecer neste invólucro úmido para sempre. Seu devaneio alaga o apartamento. Quando casado, ele não trabalhava, fican- do sozinho em casa deitado no sofá a ver TV, tão entorpecido em seu abrigo conjugal quanto na cena do início do filme, a ponto de sentir a chegada da mulher como uma invasão (que repercute no desconforto diante de estranhos ameaçadores do outro lado do olho-mágico). Corroborando o travo, o seu ar de sonso quando ela traz a notícia da gravidez e ele a induz a fazer um aborto, causa maior do colapso da relação. Mais para o final do filme, quando pressionado pelo cunhado e por um delegado de polícia a acompanhar uma operação que eles programaram para expulsar os traficantes do sítio, ele vai recusar a condição de proprietário her- deiro, substituto do pai. Este, embora ausente, domina um passado que tem clara incidência no percurso atual do protagonista que não deixa de se referir ao pai em duas ou três ocasiões. Numa delas, o velho empregado do sítio, ainda lá vivendo apesar dos traficantes, fala sobre a figura do antigo patrão, sobre seu poder discricionário e sobre a lealdade dos empregados, compondo o perfil tradicional do proprietário patriarca. O velho trata o protagonista como o «menino» da casa, forma do afeto que rebate sobre sua atual condição de impotência e marginalidade, exatamente quando o paraíso de seu lazer da infância se vê ocupado pelos traficantes.

  • 11. Temos aqui a reposição

do motivo da mala como repositório de identidade e destino, lugar de uma coleção arbitrária que se propõe como imagem desse «eu» sui generis, um motivo que se explicita em O bandido da luz vermelha , quando se consuma a deriva e o dilaceramento de Jorginho como «discurso dos outros».

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O sítio, antes território da família, está agora atropelado por um fluxo de trocas que dissolve fronteiras, liga o campo à cidade e completa a geografia confusa do autoexílio do protagonista que não transfere o afeto pelo santuá- rio da infância para um senso de propriedade na situação atual. Ao final, no momento em que testemunha a invasão da polícia, ele observa aflito, porém inerte por algum tempo, a violência da repressão, até que grita “chega” ao observar a figura sinistra do delegado repetindo o gesto já visto através do olho-mágico na abertura do filme. Ele reconhece o gesto, e nada assinala que havia reconhecido a fisionomia, embora se trate do mesmo ator, com aparência distinta. Retorna neste gesto do policial a figura da convocação, a mesma que apertou a campainha naquela manhã e que agora quer obrigá-lo a assumir um papel que ele não aceita. Sua reação é sair em fuga, repetindo o padrão da abertura como se fosse ele o intruso que não deveria estar ali. Afastando-se do delegado, ele mergulha na zona escura do sítio, e a voz over passa a evocar a infância e o amor pela irmã, elogiando a noite (essencial na experiência de espera da irmã na pedra) que privilegia a imobilidade, que oferece o abrigo na indefinição das coisas, um invólucro indiferenciado que enseja a viagem pessoal onde ele se sente em casa. Sua voz nos esclarece que a noite escura é o princípio ativo: uma vez completo o seu ciclo, é ela que abandona o vale para deixar entrar a luz do dia (outro exemplo de inversão que torna passiva a força ativa, e vice-versa). Fora do sítio, ele continua a atravessar a noite em plena chuva, caminha à deriva, mas seu instinto, ou o acaso, o levam ao ponto de ônibus conhecido, lugar simbólico onde ele, em outra ocasião, vislumbrou o estranho com a camisa quadriculada, o mesmo que surgira no filme, pela primeira vez, na rodoviária da cidade. Ele se aproxima do ponto e reconhece, de novo, a figura. Em verdade, ele vê a camisa, não o homem, e sua percepção produz um sentimento de ter- nura e alívio diante da imagem do que parece familiar. Ele corre para o abraço que se torna um momento de agressão – surpreendido na noite, o homem o esfaqueia. Temos aí a versão final do padrão de inversões entre passividade e atividade, agressão e afeto.

O F i M É O COM e ÇO: O CÍRC u LO dA s R e P e T i ÇÕ es

A camisa quadriculada condensa esse movimento de reduzir o mundo a uma superfície – movimento mais radical no livro, tendencial no filme, pois resta em seu campo visível a decalagem entre o olhar do protagonista e o olhar da câmera, por mais afinados que estejam. Num caso e noutro, retira-se de foco a marca individual dos corpos e compõe-se a colagem que dispõe dos fragmentos de distintas formas, quase sempre na tônica do choque. Os encontros humanos

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parecem estar reduzidos ao trespassar ou ser trespassado, exceto quando se assume a alienação, a distância, como regra. Para o protagonista, a única ex- periência terna de intimidade e afeto, toque positivo, está associada à figura da irmã, fonte da evocação nostálgica da noite, essa entidade superior. No mais, há aquela redução do mundo a uma superfície (como a camisa quadriculada), o que delimita um campo de percepção que expulsa as fisionomias, sugerindo uma crise da representação e da identidade. O mundo se torna uma «retícula», um campo aplainado de percepção como na pintura moderna, plano instável de encaixes e desencaixes feitos de elementos discretos 12 . A coesão dos corpos se desfaz e emerge um elenco de figuras distorcidas, tal como o rosto do pro- tagonista em sua derradeira imagem. Ferido, ele entra desequilibrado no ônibus, contraído pela dor e man- chado de sangue, procurando um apoio que acaba por encontrar na janela onde pressiona o seu rosto que se achata e desfigura, de modo a compor o emblema de todo o processo: neste momento, o seu corpo, em agonia, recolhe as feridas de toda a jornada. No longo close-up final, enquanto olhamos para a imagem grotesca, o narrador faz as suas últimas conjeturas sobre o futuro imediato. Sua palavra se faz da combinação das três fontes: a voz dramática do ator mergulhada na aflição, a voz over do narrador (Ruy Guerra), pausada e neutra, e o texto projetado na tela com fundo neutro, sem vida, fora do movimento. A combinação dos três canais articulados, em vez de produzir um senso de unidade, reitera de novo o efeito de cisão e estranhamento. Na fala, a primeira figura evocada é sua mãe a quem ele pensa procurar ao chegar de ônibus à cidade; depois, ele menciona o fato de sua irmã estar viajando e supõe uma possível ajuda: voltando, ela poderá lhe emprestar dinheiro para alugar um apartamento. Tal viagem poderia ser aquela para a Europa que ocorreu antes de tudo o que vimos, comentada por ela na cena à beira da piscina quando lhe mostrou as fotos tiradas no passeio, as primeiras fora de foco, as outras se tornando cada mais vez mais nítidas, fato que ele tomou como sinal da gradual melhora da irmã que se recuperava de um trauma. Na rede de repetições, reiteram-se os motivos do assalto ao condomínio e o da violação da irmã que teriam ocorrido – nos termos das ações que seguimos – logo antes da sequência final em que o protagonista acompanha o delegado até o sítio enquanto, supostamente, a irmã faz a viagem ao exterior. Dado este conjunto de referências cruzadas, podemos tomar as palavras do protagonista no ônibus como sugestão de um tempo circular, pois o hipo - tético futuro em que ele encontraria abrigo nos espaços familiares e alugaria um apartamento com o dinheiro da irmã pode ser também a situação imedia- tamente anterior ao momento em que, no apartamento vazio, o encontramos

  • 12. No livro de Chico

Buarque, o efeito de colagem está presente em muitos momentos, referido a gestos e rostos, acentuando aquele sentido de um mundo de duplos. Num texto literário, os cor- pos desconexos e as faces sem foco são mais fáceis de sugerir e de embaralhar no desfile de permutações. O senso de repetição se torna mais intenso, dado o maior controle que o escritor tem na sugestão de imagens e dos modos de percepção. No filme, há sempre o efeito da fisionomia dos atores – como a do homem da camisa xadrez e a do delegado que repõe a figura do início do filme – e de inúmeros detalhes do ambiente, um imperativo de perspectiva visual que Estorvo procura compensar achatando as imagens com rápidos movimentos de câmera, notadamente em suas elipses e sobressaltos.

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lá no começo. Para acentuar esta repetição de motivos, o filme acrescenta no final uma frase inexistente no romance. Diante de uma abrupta obscuridade que o surpreende em meio às conjeturas feitas no ônibus, ele diz: “ou é o túnel”. Em seguida, temos uma última vinheta com o letreiro “ou morri”. Isto introduz um ponto limite paradoxal para o processo de enunciação que sugere, então, duas temporalidades a inscrever o caminho que leva do olho mágico ao vidro do ônibus: há a enumeração dos dias em vinhetas que foram sugerindo uma linearidade precisa e medida, e há o círculo de repetições que se completa nesta fala que traz as conjeturas e termina com a evocação do

  • 13. O filme trabalha de

forma lúdica este jogo de avanços, recuos e ambiguidades: o delegado no final é encarnado pelo mesmo ator que vemos, no início, como o estranho do outro lado do olho- mágico; o texto de Chico Buarque faz a conexão pela repetição do gesto; o filme incorpora este dado, mas acresce a pergunta: como poderia estar com cabelo tão comprido alguns dias depois da cena inicial onde seu cabelo estava tão curto? A enumeração dos dias em vinhetas nos lembra a iro - nia dos letreiros de Buñuel que indicam intervalos de tempo em Um cão andaluz , lá claramente incompatí- veis com o espaço-tempo construído no filme.

túnel, motivo já presente na abertura. 13 Os pontos de ignição e de interrupção da jornada, oferecidos por en- contros inusitados, são estações de uma deriva que expõe os movimentos do narrador e seu confronto com um estado geral de beligerância na sociedade. Algo avança nas ações, embora pouco conexas, mas a reiteração de motivos e o primado da repetição que marca o movimento do narrador conferem uma inflexão especial ao percurso, um padrão regressivo de recusa do mundo que se desdobra no descarte dos protocolos do lugar do pai. A afirmação desta alteridade passa pela oposição entre a sua recusa inabalável de tal lugar e o antigo exercício «natural» do poder nos velhos tempos da figura paterna. Não surpreende seu alheamento diante da notícia do filho, por fim abortado, e sua negação das relações de poder próprias ao mundo do trabalho, seu mergulho na apatia cujo ponto utópico é o deleite da cena da ducha e sua letargia vaporosa. Em seu estranhamento do mundo e de si mesmo, o narrador não se queixa; é voz cansada num corpo entregue à ausência total de projetos. No plano político, um esboço de «consciência social», nos termos cobrados pelo amigo excêntrico da juventude, está agora dissolvido no torpor. No presente, a sua oposição tácita ao atual estado de coisas não exclui a sua inserção oblíqua nas malhas desta ordem delinquente, como agente de trocas espúrias que se perde numa rede de conflitos e num terreno movediço que o leva sempre de volta a cenários familiares. A montagem cria uma dialética de progressão e repetição em que todas as esferas parecem dominadas por uma única lógica, sugerindo uma contaminação já sem limites. O princí- pio geral de equivalência que caracteriza os fluxos de troca se projeta na esfera das fisionomias, a marcar a proliferação de relações especulares e repetições ao longo do filme. Em constante expansão, atropela fronteiras e dissolve unidades, seja no domínio do sujeito, da estrutura familiar ou do Estado. Nesta dinâmica, dissolve-se uma ordem patriarcal instituída desde os tempos coloniais, e o cenário de crise traz a primeiro plano essa

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figura do impasse, o narrador dissidente que diz “chega”, mas perambula em círculos, como um morto-vivo, entre a nostalgia do abrigo familiar, o desejo da irmã e a máquina implacável do mundo. Embora confuso em suas percepções, é muito firme em sua recusa dos valores de classe e de tudo o que, neste terreno, significa assumir o legado do pai, seja o trabalho, a reprodução da família ou a defesa da propriedade. Esta é uma constelação de motivos que o narrador sem nome de Estorvo partilha com André, o protagonista-narrador de Lavoura Arcaica , livro de Raduan Nassar, filme de Luiz Fernando Carvalho: a recusa do mundo em conexão com o incesto, a ausência de projeto, o travo na relação com o traba- lho, o perfil regressivo, a quase-morte (Xavier, 2005: 13-20). Em Árido Movie (2005), de Lírio Ferreira, a questão da recusa retorna, porém, Jonas, o prota- gonista, traz outro perfil, em consonância com o estilo do filme na lida com os trespasses e com a compressão do espaço-tempo. Ele é figura integrada na grande cidade, sintonizado com a engrenagem social. Livrou-se da rede familiar pela migração, mas vê seu mundo de sucesso ameaçado quando o núcleo de origem o convoca ao sertão árido para a missão de vingança pela morte do pai assassinado, tarefa de que ele se livra numa trama burlesca, pois Árido Movie é ironia pop, não tragédia. Em distintas chaves, o cinema brasileiro tem reiterado a lida com o motivo da fuga e a figura do impasse, com desfechos «em aberto» como se tornou típico no cinema das últimas décadas. Porém, quase sempre o tem feito em narrativas mais convencionais do que a de Estorvo, cuja notável figuração do irreconciliável assume dimensões de angústia e desconforto que o singularizam no contexto atual. O aspecto decisivo desta singularidade é de caráter estético, e se liga ao modo como a figura do impasse se dilacera e se projeta na composição das imagens e na estrutura que ata, com rigor, os pontos-limite do filme. O dispositivo da profundidade de campo, na abertura, instaura a irôni- ca simetria do olho-mágico que expressa o senso de vulnerabilidade do personagem – uma clareza de espaço ilusória. No desfecho, quando há a sintonia entre a câmera e o seu corpo na corrida para o abraço na chuva, é o mesmo binômio de profundidade (agora no movimento físico) e de miopia (na percepção que ele tem do Outro) que preside a inversão dos sinais do abrigo e da ameaça. Os mal-entendidos da grande angular deslancham a primeira e a última corrida, mas o plano final vem selar a contração do espaço visível: achata a imagem, confina o rosto que pressiona a parede de vidro como um peixe no aquário. Exaurido, ele expõe as fraturas, no corpo e na voz.

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Artigo recebido em 30 de março e aprovado em 20 de abril de 2009.

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Comunicação contemporânea e questões de classe

Contemporary communication and questions of social class

Comunicação contemporânea e questões de classe Contemporary communication and questions of social class G R A

G R A H A M

M U R D O C K *

Resumo Durante muitos anos, os estudos de mídia e comunicação partilhavam de um conceito comum a outras áreas do conhecimento: o conceito de classe social. Aos poucos, este conceito foi substituído por outros que buscavam destacar não as invariâncias, mas as singularidades entre grupos sociais em conflito. Os rígidos contornos verticais da classe deram lugar aos horizontes abertos da diferença. É hora de inverter esta percepção e insistir que sob a praia jazem as pedras do calçamento. A classe pode ter sido abolida retoricamente em muitos textos, mas uma quantidade impressionante de evidência empírica confirma que ela permanece como uma força essencial para modelar a maneira como vivemos hoje. Palavras-chave: mídia, comunicação, classe social, contemporaneidade

* Professor no Instituto para Comunicação de Massa na Universidade de Bergen, Noruega. Seus principais interesses estão no campo da Sociologia e Economia Política da Cultura.

Abst RAC t During many years, media and communication studies shared a common concep - tion with other knowledge fields: the conception of social class. Little by little, this conception was replaced by others that looked for standing out not the invariances, but the singularities between social groups in conflict. The strict vertical outlines of the social class gave place to the horizons opened by the difference. It is time to reverse this perception and insist on the idea that beneath the beach are the graves of pavement rocks. The social class could be rhetorically abolished from many texts, but the impressive amount of empirical evidence confirms that it remains as an essential force to model how we live today. Keywords: media, communication, social class, contemporaneity

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Comunicação contemporânea e questões de classe e XA m INAND o o e N tu LH

Comunicação contemporânea e questões de classe

e XA m INAND o o e N tu LH o

H ouve uma época, não muito tempo atrás, antes das atuais cercas de fron-

teiras serem construídas, quando estudos de mídia e comunicações eram

terra comum. Estudiosos de povoados longínquos convergiram-se para

reunir dados e colher novos estilos conceituais produzidos por cruzamento. As poucas estruturas que pontilhavam a paisagem eram na maior parte ocupações provisórias, abrigos temporários, construídos para atender necessidades ime- diatas. A única construção maior era uma torre de pedras escura e ameaçadora. Onde quer que você estivesse, seus olhos eram atraídos em direção a ela. Sua visibilidade a tornou um objeto de contínua especulação. Alguns partiram para investigar suas origens e transformações ao longo dos anos. Outros tentaram des- crever sua organização e operações. E alguns registraram as histórias daqueles que ali viveram e trabalharam, reunindo narrativas melancólicas de esperanças perdidas e vidas arruinadas ou relatando contos animados de heróica resistência e obstinada recusa. Entretanto, ao longo dos anos, rachaduras cada vez maiores foram aparecendo nas fundações da torre, até ela finalmente ser considerada deteriorada e demolida. Ela foi substituída por um novo desenvolvimento mo- derno de moradia, em que cada residência foi construída com um design único, refletindo as preferências pessoais e a personalidade do proprietário. Os rígidos contornos verticais da classe deram lugar aos horizontes abertos da diferença. Em conversas e debates sobre estas mudanças, a atenção passou da restri- ção estrutural para a autoexpressão, da mobilidade bloqueada para a fluidez, da necessidade para a vontade. Muitos comentaristas deram as boas-vindas a estas mudanças, argumentando que a avultante presença da torre havia retido pensamentos novos sobre estratificação por tempo demais, voltando o olhar do espectador para a mesma agenda limitada de investigação e debate. Eles ale- gremente declararam “a morte da classe” e festejaram seu papel como coveiros (Pakulski & Walters, 1996). Outros, entretanto, sentiram que talvez os relatos da morte tenham sido exagerados. Eles viram pessoas ainda examinando o entulho e imaginaram o espectro da classe ainda assombrando seus sonhos conceituais, como um zumbi em um filme de terror, cegando-os “para a realidade de nos- sas vidas” em um mundo em rápida mudança. (Beck, 1999: 25). Este argumento está desordenado. É a recusa em reconhecer que a classe permanece sendo um importante princípio estrutural de cada aspecto da vida no capitalismo recente, incluindo comunicações, que bloqueia uma visão abrangente das condições contemporâneas. Um dos slogans mais ressoantes que apareceram nas paredes e cartazes por toda Paris na primavera de 1968 foi «sob as pedras do calçamento, a praia». Esta promessa profundamente romântica pode ser considerada tema recorrente

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para a grande onda de pesquisa recente dedicada a descobrir as possibilidades para liberação pessoal e autoexpressão, ocultadas dentro do mundano e do circunscrito. É hora de inverter essa percepção e insistir que sob a praia jazem as pedras do calçamento. Isso é particularmente importante em estudos de mídia e cultura, onde muitos comentaristas passaram bastante tempo da última década detalhando a criatividade e o prazer do consumo cotidiano. Mas como Zigmunt Bauman aponta, “há vida após e além da televisão” e para muitas pessoas “a realidade permanece da mesma forma como era antes: árdua, dura, resistente e cruel” (Bauman, 1992: 155). A classe pode ter sido abolida retoricamente em mui- tos textos, mas uma quantidade impressionante de evidência empírica confirma que ela permanece como uma força essencial para modelar a maneira como vivemos hoje. É extremamente irônico que a «virada» teórica pós-moderna, que impulsionou questões de identidade, consumo e diferença para o centro da atenção acadêmica, coincidiu quase exatamente com a revolução neoliberal em diretrizes sociais e econômicas. É fácil “pensar que a classe não importa” se você permanece relativamente “não-afetado por privações e exclusões que ela causa” (Skeggs, 1997: 7). “O recuo da classe” é a expressão acadêmica perfeita “do novo individu- alismo” (Crompton, 1998: 9), uma conveniente perda de memória que evadiu o desgaste impiedoso da luta árdua por provisões de prosperidade e recursos públicos e ignorou a lacuna em constante crescimento entre as partes superior e inferior da escala salarial que, na Grã-Bretanha, não é vista desde o final do século XIX. Nós, portanto, nos encontramos na situação paradoxal onde “a clas- se foi redeclarada morta em um momento em que sua configuração econômica tornou-se ainda mais acentuada” (Westergaard, 1995: 113-4). Ignorar esta cruel realidade é colidir com a destruição da dignidade e da esperança e envolver, ainda que inconscientemente, a comemoração enganosa do negociante de uma expansão indiscriminada em escolha e oportunidade. Uma abordagem crítica, digna do nome, deve olhar abaixo desta retórica promocional e recuperar os mecanismos ocultos que reproduzem a desigual- dade estrutural. Para mim, e para muitos outros, esta é uma epifania pessoal e também um projeto intelectual, uma maneira de relacionar biografias a his- tórias, de tentar fazer ligações e “gerar teoria que possa falar através do vazio, para tornar a classe importante” (Skeggs, 1997: 15). Reconstruir a torre arruinada da análise de classe é crucial para este projeto. Isto não é um exercício de nostalgia, recuperação ou restauração. Nós “temos que repensar o que a classe significa na era do modernismo recente e um capitalismo mundial” (Dahlgren, 1998: 302) e cruelmente trabalhar outra vez os materiais e técnicas transmitidos por su- cessivos arquitetos, decidindo o que manter, o que modificar e o que descartar.

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Comunicação contemporânea e questões de classe FA b RICAND o D es IG uALDAD e O

Comunicação contemporânea e questões de classe

FA b RICAND o

D es IG uALDAD e

O processo não é novo. Antes de o século XIX completar duas décadas, era

claro que o vocabulário estabelecido de «classificações» e «posições» havia sido ultrapassado por acontecimentos. De modo geral, era severo demais captar a destruição criativa do capitalismo da antiga ordem social. Foi necessário um termo novo e mais flexível para descrever o padrão emergente das divisões eco- nômicas. Este termo era «classe». Mas como John Stuart Mill observou em 1834, a divisão tripartida da sociedade em “senhorio, capitalistas e trabalhadores” rapidamente se tornou tão ossificada e não-histórica quanto a visão feudal que ela havia substituído. Inúmeros comentaristas, ele lamentava-se,

parecem pensar na separação da sociedade nestas três classes como se elas fossem leis de Deus e não do homem, e raramente qualquer um deles parece ter proposto a si mesmo como um objeto de pesquisa, o que muda as relações daquelas classes de uma para a outra provavelmente é submetido no progresso da sociedade (Mill Apud Briggs, 1985: 3).

Dos vários escritores que aceitaram o desafio de mapear as mudanças nas relações da classe, Marx foi de longe o mais influente. Infelizmente, ele morreu conceitualmente deixando um testamento. Embora ele tenha visto a classe como um princípio fundamental de divisão social e a luta de classes como o instrumento de princípio da mudança histórica, ele nunca forneceu uma defi- nição concisa de o que exatamente ele queria dizer com classe. Como menciona na página final do último e inacabado volume de sua grande obra, O Capital , “o que constitui uma classe” é a óbvia “primeira pergunta a ser respondida” em qualquer análise de classe (Marx, 1863-7) mas, tentadoramente, o manuscrito é interrompido depois de algumas linhas, antes de ele apresentar uma resposta. Entretanto, na extensão de sua obra, é possível identificar cinco dimensões básicas para sua análise de classe: «estrutura da classe, formação da classe, cultura da classe, consciência da classe e ação da classe». Até seus críticos mais ferozes tendem a aceitar esta lista como uma pauta útil para pesquisa e debate.

e strutura da classe Como a maioria de seus contemporâneos e sucessores, Marx identificou classes com posição econômica. Para ele, a divisão principal estava entre aqueles que possuíam as formas tangíveis de propriedade – terra, bens imóveis, fábricas, ações – que poderiam ser usadas para gerar lucro, e aqueles cujo sustento de- pendia de negociar sua força de trabalho por um ordenado semanal ou um salário mensal. Em uma frase muito citada no início do Manifesto do Partido Comunista , escrito em 1848, quando tinha 30 anos, ele argumentou que a

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sociedade capitalista estava “se dividindo cada vez mais” ao longo desta falha geológica central, criando “duas grandes classes se enfrentando diretamente:

Burguesia e Proletariado” (Marx & Engels, 1848: 36). Muitos comentaristas interpre- taram mal esta observação. A intenção era caracterizar uma tendência em longo prazo, e não descrever a situação na época que ele escrevia. Embora Marx visse a polarização crescente como uma consequência inevitável de mais recursos produtores sendo concentrados nas mãos de grandes corporações e cada vez mais trabalhadores laborando por um salário e não por eles mesmos, em seu jornalismo e comentários polêmicos sobre acontecimentos contemporâneos, ele sempre era cuidadoso ao destacar as complexidades das divisões de classe da época. Seu ponto fraco era a classe média. Ele rapidamente admitiu que houvesse um grupo em proliferação de cama- das sociais “médias e intermediárias” criadas pelo crescimento das profissões, o aumento de ocupações administrativas e a expansão do funcionalismo público estadual, que estavam entre o capital e o trabalho, enfraquecendo, ou como ele dizia, “destruindo”, esta divisão central, mas ele insistia em argumentar que no final “isto não é importante para nossa análise” (Marx, 1863-7: 885). Esta destituição presunçosa, particularmente de especialistas e profissionais sem papel administrativo dentro de empresas capitalistas, apresentou contínuos problemas para analistas que queriam formular “um conceito marxista coerente sobre a estrutura da classe” (Wright, 1997b: 64). Dentro de seus modelos, as classes médias parecem um permanente grupo estranho.

Formação da classe

Para Marx, o controle sobre o capital não era simplesmente a posse definida da burguesia, era “o meio de explorar o proletariado” (Crompton, 1998: 27). Sua organização na produção consolidou a divisão central entre capital e trabalho. Junto com a maioria de seus contemporâneos, ele assumiu que o valor adicio- nado às matérias-primas durante sua conversão em bens vendáveis dependia do trabalho empregado nelas. Em seguida ele argumentou que os salários pagos pelos empregadores cobriam apenas parte deste valor, deixando um superávit destinado a eles mesmos. Portanto, o aparecimento da troca equiva- lente – «um pagamento condizente ao trabalho» – ocultou uma máquina de movimento perpétuo de exploração que produzia continuamente a desigualdade estrutural. Entretanto, em sua visão, havia uma bomba-relógio ativada no porão do capitalismo. Concentrar trabalhadores em grandes fábricas e alojamentos muito povoados poderia maximizar a eficiência industrial, mas isto também criou as condições para ideias associadas e ação comum, de uma maneira ir- real, de camponeses espalhados por toda a nação em assentamentos isolados.

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Contemporary communication and questions of social class D ossI ê sociedade capitalista estava “se dividindo cada

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Comunicação contemporânea e questões de classe Para Marx, os camponeses poderiam ser definidos analiticamente como uma

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Para Marx, os camponeses poderiam ser definidos analiticamente como uma classe, em virtude de sua posição comum no sistema de produção, mas eles não poderiam se tornar uma classe “por eles mesmos”, no encalço de seus interesses de maneira coletiva. Eles estavam destinados a permanecer como batatas em um saco, em uma localização compartilhada, mas inerte (ver Marx, 1852: 106). Ao mesmo tempo, a cultura de trabalhadores industriais não era uma garantia automática de militância.

Culturas da classe

Na mente de Marx, não havia dúvidas de que cada classe cria um conjunto “distinto e peculiarmente formado” de “sentimentos, maneiras de pensar e visões de vida” de sua experiência coletiva, em que membros continuamente se inspiram em suas tentativas de compreender a situação. Já ao nascer, as pessoas são acolhidas nestas culturas baseadas na classe e, através de uma contínua imersão em “tradição e formação”, elas passam a proporcionar o “ponto de início” tido como certo para visões, julgamentos e ações (Marx, 1852: 37). Ironicamente, os próprios gostos culturais de Marx, formados por ele ter sido criado em uma respeitável família alemã da classe média com forte tradição rabínica, demonstrava muito bem este processo, como ele reconheceu de maneira sarcástica. Quando a esposa de um simpatizante o provocou, apon- tando que ela não conseguia imaginar um homem cujos gostos aristocráticos se encaixavam tão bem na sociedade igualitária que ele prognosticava em seus escritos, ele foi honesto o suficiente para responder “Nem eu” (Marx apud Wheen, 1999: 296). Entretanto, ele teve que explicar como as pessoas poderiam se reconhecer como membros de uma classe específica.

Consciência da classe Como Michael Mann observou (1973: 13), a consciência da classe funciona em vários níveis facilmente separados. Para tornarem-se uma classe «por eles mesmos», os trabalhadores precisavam acessar uma linguagem que suportasse a oposição. As culturas de ocupações e áreas da classe traba - lhadora criaram fortes «identidades de classe», encorajando as pessoas a verem a si mesmas como membros de uma classe distinta, mas elas nem sempre consideravam os capitalistas como seu principal inimigo ou viam a luta contra eles como a grande maneira de alcançar a libertação pessoal e uma sociedade alternativa. Pelo contrário, como Frank Parking argumentou em uma influente demonstração, estes sistemas de sentido «subordinado» tendiam a enfatizar “vários modos de adaptação, ao invés de total oposição ao status quo ” (Parkin, 1972: 88).

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Ação da classe

Traduzir a identidade da classe para a luta de classes tem sido a principal missão

dos partidos socialistas. Desviar este movimento tem sido um dos maiores fatores de uma cultura de mídia comercializada fundamentada no consumismo. Como Marx notavelmente argumentou no capítulo inicial do primeiro volume de O Capital , o capitalismo apresenta-se como uma cornucópia de conveniências cujas origens são esquecidas na antecipação do prazer. A cultura promocional depende de projetar a atenção adiante, para o momento de posse, reprimindo imagens desconfortáveis da exploração envolvida na produção. Portanto, as mercadorias do consumidor aparecem como uma compensação por alienar trabalho, não uma continuação. Elas asseguram uma esfera de liberdade contra as ordens da necessidade. As instituições centrais da cultura promocional (fazer propaganda de agên- cias, lojas de departamentos, relações públicas), a moderna e comercial mídia de massa (jornais tablóides, transmissão comercial, revistas para consumidores, filmes) e partidos de trabalhadores e socialistas de massa eram todos produtos da modernidade capitalista. Elas surgiram mais ou menos ao mesmo tempo e suas visões concorrentes sobre a boa sociedade vêm se entrelaçando, como lutadores, desde então. Marx faleceu antes que a cultura promocional ou a mídia comercializada assumissem suas formas contemporâneas, mas ele não tinha dúvida de que o controle total “sobre os meios de produção mental” encontra-se, no final, com a classe capitalista (Marx & Engels, 1846: 64). Neste conceito, trabalhadores culturais e intelectuais são escalados como uma fração subordinada da classe capitalista, tenentes fiéis, engenhando ideias e representações que promovem as vantagens do sistema. Marx realmente admitiu que esta conveniente divisão de trabalho pudesse, às vezes, “desenvolver-se em certa oposição e hostilidade”, mas ele rapidamente acrescentou que onde quer que este conflito arrisque a sobrevivência da classe, ele “automaticamente vira nada” (Ibid.: 65). Ao mesmo tempo, ele era romântico demais para não acreditar que «arte» verdadeira e ideias fundamentais pudessem transcender lugar e tempo. Ele não teve dificuldade nenhuma em aplaudir Milton por criar Paraíso Perdido “pelo mesmo motivo que um bicho-da-seda produz seda. Era uma atividade de sua natureza”, apesar de ele depois ter vendido o manuscrito por 5 libras, enquanto condenava “a proletária literatura de Leipzig, que fabrica livros de acordo com a orientação de seu editor” (Marx, 1969: 401). Ele esquece de mencionar que, enquanto Milton já era um poeta renomado com um grande público leitor quando ele escreveu Paraíso Perdido, Leipzig, o escritor de pouca qualidade, era um soldado desconhecido no campo do imaginário efêmero. Isto levanta

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Contemporary communication and questions of social class D ossI ê Ação da classe Traduzir a identidade

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Comunicação contemporânea e questões de classe a possibilidade de que posições de classe também pudessem ser

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a possibilidade de que posições de classe também pudessem ser determinadas pelos recursos que os agentes principais trazem ao mercado.

moe DA s D e t R o CA

Esta ideia foi adotada pelo sociólogo alemão Max Weber, escrevendo nas décadas seguintes à morte de Marx, contra o ambiente de uma rápida expansão adicional nas classes médias e intermediárias, incluindo as classificações burguesas de profissionais culturais – jornalistas, professores, bibliotecários, cientistas, músi- cos, artistas visuais – que eram empregados não apenas nas indústrias culturais comerciais em rápida expansão, mas também em um conjunto crescente de instituições culturais financiadas publicamente. Weber compreendeu as novas divisões na estrutura de classe argumentando que a “distinção básica de Marx entre pessoas que possuem ou não possuem propriedades pode ser diferenciada mais além pelos tipos de propriedade ou serviços” que as pessoas levam ao

negociar sobre trabalhos e remunerações (Hall & John, 1997: 18) e incluir habili- dades adquiridas e educação formal como importantes moedas de troca. Em um livro bastante influente, Anthony Giddens ampliou ainda mais esta definição de capacidade de mercado para incluir “todas as formas de atributos importantes que as pessoas podem levar para um encontro comercial” (Giddens, 1981: 103). Como veremos, esta ideia geral tem sido desenvolvida de maneira mais fértil por Pierre Bourdieu, em seu modelo de formas concorrentes de capital.

e XPAN s Õ es e R e N oVAÇÕ es Disciplinando o grupo estranho

No começo da década de 1970, os comentaristas falavam cada vez mais sobre uma mudança fundamental na organização econômica do capitalismo, longe da ordem industrial clássica encaminhada por Marx em direção a um sistema centrado em serviços e controle sobre conhecimento e informação estratégi- ca. Alguns escritores o descreveram como uma “sociedade pós-industrial” (Bell, 1979), outros como uma «sociedade de informações», mas havia um en- tendimento comum de que “balconistas, professores, advogados e artistas de entretenimento” começavam a “exceder o número de mineradores, operários, estivadores e construtores” (Webster, 1995: 13). Esta mudança forçou os escritores marxistas a visitar novamente o grupo estranho de Marx – as classes médias. A tentativa mais consistente de repensar a análise de Marx veio de Eric Olin Wright. Ele começou argumentando que embora especialistas e profis- sionais difiram de trabalhadores industriais por serem capazes de exercer um grau de autodireção e autonomia, dentro do trabalho eles continuam sendo proletários porque ainda precisam vender sua força de trabalho para laborar.

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Consequentemente, eles se encontram em uma posição contraditória, com um pé em cada grupo. Entretanto, como Wright admitiu, este modelo não abrangeu profissionais que trabalhavam para instituições financiadas publi- camente. As universidades apresentam um problema específico. Daniel Bell, o principal teórico do «pós-industrialismo», argumentou que como elas exerciam um papel principal em codificar e testar o conhecimento em áreas importan- tes da atividade econômica emergente como processamento de informações, biotecnologia e novos materiais, elas eram as principais instituições na ordem econômica emergente (Bell, 1979: 198). Deixando a crença ilusória acadêmica de lado, obviamente há um caso a ser respondido aqui. Infelizmente, como Marx antes dele, Wright, ele próprio um professor universitário, conseguiu explicar a posição social de todos, menos dele mesmo. Isto o levou a rever sua posição e sugerir que a principal extremidade da estrutura da classe é organizada ao redor da distribuição de três tipos de bens – bens capitais, bens organizacio- nais (controlados por administradores) e bens de habilidade e conhecimento (possuídos por profissionais e especialistas) – com cada grupo tentando mono - polizar e explorar suas propriedades ao máximo, na luta sobre a distribuição do superávit. Como ele observa, esta solução bem típica de Weber atravessa os “grupos conceituais” criados pelos modelos marxistas (Wright, 1997b: 60) e sugere uma maneira de combiná-los que vê a “exploração como definição das divisões centrais dentro de uma estrutura de classe e capacidades de mercado diferenciais como definição das «camadas dentro das classes» (Wright, 1997: 36). Pierre Bourdieu também chega a uma síntese entre Marx e Weber, mas por um caminho diferente. Ele toma o conceito de capacidades de mercado de Weber e o converte na retórica de capital de Marx, argumentando que há três formas básicas de capital em circulação nas sociedades capitalistas: capital econômico, capital social – “composto de recursos com base em associação de grupo e uni- ões” – e capital cultural (Bourdieu, 1987: 4). Neste modelo, a estrutura de classe aparece como um espaço multidimensional onde as classes são definidas, em primeiro lugar, pela quantidade ou volume de capital possuído, em segundo por sua composição, e em terceiro lugar pela constituição e peso variáveis de suas propriedades ao longo do tempo conforme tentam maximizar suas vantagens, lutando para converter a mão inicial da cartada em três ases (Ibid.). Não inesperadamente, é a ideia do capital cultural que atraiu maior interesse entre estudiosos do ramo de Comunicação e Estudos Culturais. Entretanto, ele provou ser um conceito particularmente enganoso. Em al- guns pontos de sua obra, Bourdieu oferece uma definição relativamente limitada, igualando-o com “capital informacional”. Em outras partes, ele o identifica com o conhecimento subscrito por qualificações profissionais ou acadêmicas.

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Contemporary communication and questions of social class D ossI ê Consequentemente, eles se encontram em uma

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Comunicação contemporânea e questões de classe Mas, mais frequentemente, o define em termos de familiaridade com

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Mas, mais frequentemente, o define em termos de familiaridade com um conjunto específico de práticas e artefatos culturais, principalmente aqueles que adquiriram o que ele chama de capital simbólico, em virtude de ser classificado por importantes instituições culturais, como escolas e museus, digno de ser desejado e possuído (Bourdieu, 1973). Esta conversão seletiva de capital cultural em capital simbólico é, ele argumenta, uma das principais maneiras para a reprodução e legalização das desigualdades de classe. Seguindo os relatos de Marx sobre culturas de classe, ele argumenta que as experiências comuns criadas por localizações de classe específicas produ- zem conjuntos compartilhados “de esquemas generalizados de pensamento, percepção, apreciação e ação” que são passados à próxima geração através de rituais e conversas cotidianas da família e da vizinhança (Bourdieu, 1968). Entretanto, estes sistemas de sentido com base na classe, ou hábitos, como ele preferia chamá-los, não carregam peso igual dentro das instituições escolares e outras grandes instituições culturais. Pelo contrário, ele argu- menta, o sistema de educação identifica a cultura «real» com as formas de conhecimento e expressão possuídas pelas classes médias e estigmatiza o conhecimento nativo e gostos populares de culturas da classe trabalhadora como inferior e indigna de séria atenção. Isto coloca as crianças pertencentes à classe subordinada em permanente desvantagem. Como elas não foram socializadas no hábito legítimo dentro da família, elas precisam se esforçar mais para não ficar para trás. Muitas fracassam ou desistem, abandonando a educação em tempo integral com apenas uma rápida familiaridade de Cultura com «C» maiúsculo e geralmente com hostilidade em relação a ela. Como consequência, elas se excluem dos públicos para «alta» cultura, confirmando a vantagem simbólica da qual os grupos da classe média já desfrutam. Muitas vezes, mesmo aquelas que usam o sistema educacional com sucesso, como um caminho para ir além, se sentem como intrusas. Como Annete Kuhn observou:

Você pode tão facilmente incorporar os julgamentos de uma cultura diferente e

acreditar – não, «saber » – que há algo vergonhoso e errado com você

Você sabe

... que se agir como se tivesse direitos, você arrisca-se à exposição e à humilhação.

E você aprende que este sentimento pode voltar para lhe assombrar pelo resto da sua vida (Kuhn, 1995: 97-80, ênfase no original).

Este medo de ser intimado antes de alguma barreira oculta de julgamento e ser considerado inadequado influencia as vidas de muitas pessoas que parecem estar «lidando perfeitamente bem com o cotidiano». É um dos «danos ocultos» da classe, não menos real por ser frequentemente não mencionado (Sennett & Cobb, 1972: 33).

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Este argumento, e o modelo geral de Bourdieu, possui grandes implicações para o estudo de públicos de mídia e consumo, já que ele sugere que nós precisa- mos explorar os obstáculos simbólicos, além dos econômicos, para participação. Embora admitindo que o esquema de Bourdieu possa ajudar a responder pela classe marcada e diferenças educacionais em serviço, em locais culturais legalizados como galerias públicas, vários comentaristas argumentam que ele não ajuda muito a explicar atuais padrões de consumo de mídia, espe - cificamente audiências de televisão, em que a evidência aponta para “uma queda significativa das distinções com base na classe entre tipos de consumo cultural e sua respectiva hierarquia de valores” (Garnham, 1998: 188). Bourdieu responderia dizendo que os hábitos com base na classe estruturam não apenas «o que» as pessoas consumem, mas «como» elas consomem. Como ele destaca, “qualquer bem cultural, de culinária a música dodecafônica de filmes de faroeste, pode ser um tema para compreensão, variando de uma simples impressão real à apreciação escolar” (Bourdieu, 1968: 593). Se este não fosse o caso, seria muito difícil explicar como tantas pessoas que trabalham em estudos de mídia e cultura podem passar tanto tempo demonstrando que os produtos mais efêmeros das indústrias de comunicações podem ser lidos em mais de um nível e com respeito a inúmeras teorias. Entretanto, este trabalho de decodificação não é um monopólio acadêmico. Conforme um recente trabalho interpretativo sobre públicos de mídia mostrou, as pessoas constantemente leem nas entrelinhas e localizam programas de televisão, filmes ou grava- ções específicos em mapas emocionais e mentais, traçados por várias linhas de conhecimento, ressonância e julgamento. Algumas destas linhas serão traçadas pela socialização dentro da família e pela carreira educacional, mas outras serão acrescentadas mais tarde. Como Bourdieu observa, os hábitos são “duradouros, mas não eternos” e estão “constantemente sujeitos a expe - riências, e consequentemente afetados por elas de uma forma que reforça ou modifica sua estrutura” (Bourdieu & Wacquant, 1992: 133). A renovação de Bourdieu da análise de classe sugere três importantes lições para pesquisa sobre consumo cotidiano e públicos de mídia. Em primeiro lugar, embora tenhamos que começar com as restrições impostas pela distribuição desigual de bens materiais, devemos prosseguir para descobrir as dinâmicas sociais e simbólicas de participação e escolha. Em segundo lugar, precisamos explorar como a desigualdade em reconhecimento, respeito e legitimidade consentiu com as diferentes formas de cultura e os «danos ocultos» e resistências que elas cria- ram estruturaram profundas relações das pessoas para artefatos e experiências. Em terceiro lugar, precisamos examinar a interação entre sistemas de sentido com base na classe e outros discursos que oferecem recursos para identidade, interpretação e ação.

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Contemporary communication and questions of social class D ossI ê Este argumento, e o modelo geral

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Comunicação contemporânea e questões de classe Este último ponto foi desenvolvido de maneira muito fértil por

Comunicação contemporânea e questões de classe

Este último ponto foi desenvolvido de maneira muito fértil por David Morley, em seu influente estudo sobre respostas de público para o programa britânico diário sobre negócios, Nationwide. Ele começa argumentando que o estudo foi proposto para mostrar “como membros de diferentes grupos e clas- ses, compartilhando diferentes «códigos culturais» irão interpretar uma dada mensagem de maneira diferente de forma «sistematicamente relacionada» à sua posição sócio-econômica” (Morley, 1980: 15) mas ele prossegue sugerindo que “qualquer esquema adequado” também precisará “dirigir-se à multiplicidade de discursos em jogo dentro da formação social” (Ibid.: 21). Alguns deles, como os retóricos do socialismo ou sindicalismo militante (que seu grupo de admi- nistradores de lojas mobilizou em suas respostas) podem derivar de discursos de classe e apoiar identidades de classe, mas outros, como discursos feministas ou nacionalistas, apoiarão outros pontos de vista e outras identidades. Estes outros discursos tornaram-se um grande foco de estudo dentro dos estudos culturais, levando muitos escritores a esquecer sobre classe. Realmente, o campo tornou-se dominado crescentemente pelo “discurso sobre gênero, raça, etnia, sexualidade, em resumo, sobre quase todas as diferenças «exceto» as de classe” (Milner, 1999:145 – grifo no original). Em muitos relatos, a classe transformou-se em uma categoria que já não se atreve a pronunciar seu próprio nome.

D eb AIX o DA PRAIA

“A estranha morte da classe” (Milner, 1999: 173) em muitos estudos culturais contemporâneos representa uma importante quebra com a preocupação esta- belecida do campo em ridicularizar a confortável suposição de que a elevação da riqueza estava acabando com as antigas linhas de classe e criando uma sociedade mais aberta. Como Stuart Hall afirma em 1967, “todas as evidências nos levam a dizer que é falso descrever esta fluidez crescente como tendência à condição de «falta de classe». Seria mais correto dizer que estamos desfazen- do uma maneira de experienciar situações de classe e fazendo outra” (Hall, 1967: 94). Este argumento foi explorado empiricamente através de uma onda de trabalho sobre subculturas da juventude. Isto foi uma escolha altamente estratégica, já que um número crescente de escritores na época argumentava que a nova mídia de massa, particularmente as músicas pop e rock, havia criado uma cultura jovem universal que transcendia classes. Nesta visão tentadora, “adolescentes apareceram como os precursores da sociedade futura de consumo espetacular, anunciando a iminente chegada de uma sociedade capitalista sem classes” (Murdock & McCron, 1976: 17). A nova pesquisa foi estabelecida para demonstrar o poder de recuperação da classe mostrando como estilos e gostos subculturais eram fundamentalmente estruturados pela classe com base na

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distribuição de experiências e significados (ver Hall & Jefferson 1976; Murdock, 1974). Este trabalho foi corretamente levado à prova por escritores posteriores por suas tendências masculinas e etnocêntricas. Mas aprender a esquecer sobre a classe limitou justiça às complexidades lançadas por contínuas mudanças no sistema de estratificação.

IRR es P o N s A b ILIDAD es IN te L e C tuAI s

Além de levantar questões para pesquisa sobre públicos, os escritos de Bourdieu também apresentam dúvidas para o trabalho sobre as indústrias culturais. Ele inclui na classe dominante qualquer um que possua uma grande quantidade de qualquer tipo de capital. Isto o leva a endossar o argumento de Marx de que trabalhadores intelectuais são “melhor considerados como uma fração subordinada da mesma classe que a própria burguesia porque eles são capazes de explorar suas posses relativamente grandes de capital cultural para garantir importantes vantagens econômicas e sociais, mas não podem controlar os níveis de capital econômico ou social desfrutado pelos capitalistas” (Milner, 1999: 140). Outros escritores, particularmente John Frow (1995), questionaram esta conclusão, argumentando que muitas vezes intelectuais desfrutam de maior independência da burguesia que Bourdieu (ou Marx) permite, e que eles são mais utilmente vistos como uma classe separada, porém formada de maneira mais fraca, lidando com conhecimento criado por educação (uma posição que se aproxima da visão de Daniel Bell). Mesmo se aceitarmos isto como uma caracterização aceitável de intelectuais, expandindo o argumento para trabalhadores culturais de forma mais geral, alguns problemas são apre - sentados imediatamente, já que diversas grandes áreas do empreendimento cultural – propaganda, relações públicas e pesquisa de mercado – são mais obviamente atadas aos negócios de servir Capital. Nós podemos querer tratar deste problema diferenciando trabalhadores culturais que operam nos setores públicos e privados, pela razão de que instituições públicas são menos contro - ladas diretamente por ideologias e imperativos de mercado, embora dada a rápida marquetização de universidades e organizações públicas de transmissão nos últimos anos, isto não é contestável. Identificar a posição da classe de vários grupos de trabalhadores culturais e mapear seus graus de relativa autonomia não é apenas um exercício acadêmico. Isto traz reais consequências políticas. Políticas democráticas viáveis dependem de um comprometimento compartilhado para renegociar não simplesmente direitos individuais, mas o que queremos dizer com «bem comum». Isto requer debate e diálogo sobre fronteiras de classe e interesses de classe. As indús- trias culturais proporcionam os grandes espaços onde estes encontros agora

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Comunicação contemporânea e questões de classe acontecem. A relativa abertura deste espaço e sua hospitalidade para

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acontecem. A relativa abertura deste espaço e sua hospitalidade para discordar é, portanto, crucial para manter a vida democrática. Não há muita razão em argumentar por uma maneira de organizar a produção cultural ao invés de outra, a não ser que possamos demonstrar que formas e estruturas específicas de financiamento sejam mais prováveis de criar as condições que garantem a diversidade expressiva, crítica instruída, e abrem o debate exigido por uma democracia complexa. O vôo acadêmico da análise de classe basicamente deixou esta questão para trás, exibindo um desinteresse estudado nas responsabilidades sociais possuídas por intelectuais.

D est R u IÇÕ es

Quando A Distinção, grandioso estudo de Bourdieu sobre classe e cultura na França contemporânea, foi publicado em inglês em 1984, a destruição da aná- lise de classe estava em plena atividade. Ela foi impulsionada por inúmeros movimentos interligados. Primeiramente, a virada geral da estrutura social para a vida cultural dentro da sociologia retirou de maneira progressiva questões sobre processo econômico da pauta de pesquisa. O recém moderno “conceito de «cultura» como uma série de discursos, renegociados continuamente por todos aqueles que participam dela” teve o efeito de tornar “invisível o fato de que produtos culturais como livros, filmes, «ciência» ou propagandas” também eram “produtos do trabalho humano” empreendidos dentro de condições de trabalho e mercado específicas que funda- mentalmente moldaram sua direção, forma e diversidade geral (Huws, 1999: 32). Longe de ser «sem importância» e descomprometida como alguns comentaristas imaginavam, a produção cultural permaneceu inextricavelmente ligada à dinâ- mica capitalista e às relações de mercado. Realmente, a concentração adicional de importantes recursos produtivos nas mãos das novas grandes corporações de mídia, interessadas em todos os campos principais de comunicações, estreitou ainda mais estas ligações. Entretanto, em muitos escritos sobre mídia e cultura, as variáveis condições de produção apareciam em segundo plano, quando mencionadas. A atenção foi fixada de maneira firme na dinâmica do consumo concebido principal- mente como um sistema de sinais que criou novos espaços simbólicos para experimentos em identidade. Isto, por sua vez, desviou a atenção das possíveis ligações entre posição de classe e consumo para questões sobre as relações entre conveniências e autoexpressão, uma mudança refletida pelo movimento paralelo dentro da pesquisa de mercado, de identificar segmentos por classe e outras variáveis demográficas para mapeá-los usando categorias psicográficas com

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base nas peculiaridades e disposições pessoais do consumidor. Estas mudanças reproduziram o fetichismo de conveniências que Marx havia argumentado ser o enredo básico na grande narrativa do capitalismo, de contínuo crescimento de escolha e aperfeiçoamento. Os públicos ativos e consumidores nômades festejados na nova onda de estudos de cultura e mídia pareciam cada vez mais com os indivíduos autônomos do capitalismo de Adam Smith, alcançando a autorealização através de escolhas de mercado. Esta confortável história de satisfação e escolhas pessoais poderia ser sustentada não apenas esquecendo convenientemente as explorações envolvidas na produção de conveniência e ignorando as profundas desigualdades estruturais que o sistema reproduzia. Esta ênfase na escolha individual foi reforçada por uma nova ênfase na fluidez e pluralidade de identidades sociais. Como um sociólogo britânico co - locou, “Realmente acreditamos que na vida cotidiana as pessoas se consideram membros de uma classe, ao invés de afirmar serem bebedores, fumantes, tor- cedores de futebol?” (Saunders, 1989: 4-5). Este é um modelo clássico de Lego, em que divisões com consequências e pesos muito diferentes são simplesmente unidos e puxados na mesma direção, como os blocos coloridos em um jogo infantil de construção. Neste conceito, a classe foi reduzida a apenas outra diferença entre muitas (Coole, 1996). Não faz sentido que ela seja mais importante, mais duradoura e mais difícil de alcançar na prática, conforme o modo que vivemos e pensamos de nós mesmos. De fato, houve bastante evidência empírica de que a classe permaneceu como uma diferença que fez mais diferença do que muitas outras. Como dois outros sociólogos britânicos concluíram, a pesquisa disponível sugeria que “não havia razão para supor que nas décadas recentes, as classes na Grã-Bretanha – a classe trabalhadora inclusa – tenham mostra- do qualquer enfraquecimento em sua coesão social ou distinção ideológica” (Golthorpe & Marshall, 1992: 391). Mesmo se aceitarmos o argumento comum de que a consciência e culturas da classe trabalhadora tenham permanecido surpreendentemente elásticas no momento de mudança, ainda somos confrontados com o declínio do sindica- lismo, o comprometimento enfraquecido às políticas baseadas na classe e a as- censão de novos movimentos sociais, particularmente o feminismo e a ecologia. Os novos movimentos sociais certamente oferecem novos focos para campanha e novas identidades políticas, mas como Andrew Milner argumentou, eles são mais bem entendidos “como substitutos, não tanto para classe quanto para individualidade” (Milner, 1999: 168). Eles oferecem nós de solidariedade e co- munalidade em um mundo em crescente instabilidade e crueldade. Mas exigir os direitos prorrogados de consumo e escolha pessoal, embora louváveis neles mesmos, pouco desafia “a natureza fundamentalmente dividida em classes da

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Comunicação contemporânea e questões de classe sociedade recém capitalista” (Milner, 1999: 166). As grandes corporações podem

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sociedade recém capitalista” (Milner, 1999: 166). As grandes corporações podem não apenas viver confortavelmente com muitas das demandas reapresentando a si mesmas como mais «atenciosas» e preocupadas com o consumidor, elas também podem capitalizar criando novos mercados para substituir aqueles sob ataque, ou, se necessário, mover o off-shore para mercados emergentes em economias onde a sociedade civil é menos bem mobilizada e menos eficaz em fazer suas demandas serem consideradas. Entretanto, recentemente há sinais de que a longa retirada da análise de classe em teorias comunicacionais e culturais possa estar acabando. Como a música country diz, cada vez mais pessoas estão se esquecendo de lembrar de esquecer. Uma nova série de «conceitos de âmago cultural» de uma grande editora no campo inclui um volume sobre «classe» (Milner, 1999), enquanto que uma nova coleção estimula os “estudos culturais a voltarem à questão da classe social como um foco principal de estudo” (Munt, 1999). Podem ser apenas palha ao vento, mas a palha é indispensável na fabricação de tijolos.

R e C o N st R u ÇÕ es

Então, o que é que desejamos construir? Para ilustrar, deixe-me sugerir três áreas comuns onde a análise da classe continua sendo indispensável para uma compreensão adequada das atuais mudanças na organização de comunicações e cultura.

tRA b ALH o Cu Ltu RAL sob C API tALI smo «F L e X í V e L »

Não é surpresa que Marx, e todo comentarista posterior, tenha tido tanto traba- lho para situar os trabalhadores culturais em seus mapas da estrutura de classe. Esta categoria geral oculta um vasto conjunto de diferentes relações para produção capitalista e relações de mercado. Algumas foram mantidas por uma renda privada, ou no caso de Marx, por fundos doados por Engels sustentados por uma herança inesperada. Engels ganhava o dinheiro trabalhando para a firma da família, mas ele o entregava sem nenhuma restrição, dando ao grande sábio um raro grau de liberdade para organizar seu trabalho intelectual. Entretanto, isto é comparativamente fora do comum. A maioria dos trabalhadores culturais precisa se sustentar vendendo seus conhecimentos. Alguns trabalham para si mesmos como freelancers; outros abrem pequenas empresas e empregam algumas pessoas. Estes trabalhadores «semiautônomos», ou «independentes» como são chamados hoje em dia, produzem material específico («on spec ») e saem vendendo-o, ou tentam garantir uma comissão de um patrocinador. Entretanto, historicamente, sob o capitalismo, cada vez mais trabalhadores culturais têm sido empregados (em contratos de duração variada) por um dos

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grandes produtores culturais comerciais. Esta situação motivou um intenso e longo debate sobre os graus relativos da autonomia criativa que eles desfrutam. A discussão teve foco especificamente nas tensões entre os interesses po- líticos e comerciais de proprietários de um lado e a integridade profissional e ambições criativas de jornalistas, dramaturgos de televisão, produtores cine- matográficos e músicos de outro lado. A preocupação de que os proprietários irão explorar seu poder organizacional e econômico e colocar seus interesses privados à frente do interesse público tem abastecido continuamente objeções para novas concentrações de governança corporativa, enquanto que um cons- tante fluxo de evidência de abusos reais reforça os argumentos de que o domí- nio do Capital sobre a produção cultural cria uma “Mídia Rica”, porém uma “Democracia Pobre” (McChesney, 1999). Esta questão ainda é muito importante. Realmente, a recente ascensão de grandes corporações de mídia a torna mais pertinente do que nunca. Entretanto, ao lidar com ela, precisamos levar em consideração o movi- mento acelerado em direção a uma força de trabalho cultural mais «flexível», que está substituindo as carreiras vitalícias, ou até contratos relativamente longos, com um sistema de pagamento por resultados. O crescente parcela- mento de produção de programa para empresas «independentes» na televisão britânica é um bom exemplo. Uma enquete recente sobre condições de em- prego no mercado encontrou menos de um terço dos entrevistados (31%) na folha de pagamento das grandes organizações de transmissão, enquanto que 38% trabalhavam como freelancers (definidos como contratos de menos de um ano), 11% trabalhavam para produtores «independentes» e 15% eram pro - prietários de uma empresa de produção (Instituto Britânico de Filme, 1997: 8). Esta mudança para «outsourcing » receberá mais um impulso com a transição para tecnologias digitais, que irão concentrar a produção de programa em “pequenas equipes de recém-chegados especializados em computador” (Ursell, 1998: 151). As universidades britânicas, após a fortificação da segurança, têm seguido um movimento paralelo em direção à maior «flexibilidade» com uma mudança substancial em direção à casualidade e contratos de curto prazo e abolição dos acordos de posse tradicionais. Estes desenvolvimentos levantam questões interessantes sobre a posição da classe e associações de trabalhadores culturais e intelectuais dentro do capitalismo contemporâneo. Elas sugerem que uma grande divisão pode estar se abrindo entre grupos com condições relativamente seguras de emprego ou suas próprias empresas bem-sucedidas e aqueles funcionando em condições de permanente insegurança e dependência. As implicações de «flexibilidade» para a diversidade geral da expressão cultural merece uma investigação imediata.

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Contemporary communication and questions of social class D ossI ê grandes produtores culturais comerciais. Esta situação

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Comunicação contemporânea e questões de classe Entretanto, como o recente trabalho de Angela McRobbie sobre estilistas

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Entretanto, como o recente trabalho de Angela McRobbie sobre estilistas sugere, as ligações provavelmente não acontecerão imediatamente. Por um lado, os salários relativamente baixos de seus entrevistados uniram-se ao seu alto grau de insegurança financeira e a instabilidade de emprego sugeriu um processo de «proletarianização». Por outro, suas identidades ocupacio - nais, como universitários formados com um status de quase-profissional, significavam que eles constantemente “desprezavam ou rejeitavam aquelas habilidades associadas ao lado mais humilde da fabricação de moda” e por isso reproduziam “uma das mais tradicionais divisões de classe em seu próprio exercício de trabalho. Eles queriam acreditar que estavam acima do trabalho manual” (McRobbie, 1998: 187). A progressiva marcha de «flexibilidade» também nos leva de volta ao mo- delo multidimensional de formação de classe de Pierre Bourdieu. Entretanto, para utilizá-lo produtivamente, nós precisamos observar novamente as relações inconstantes entre posse de habilidades, reconhecimento formal e competência cultural que estão ocultadas em seu conceito neologístico de capital cultural. O rápido crescimento de processos em estudos de comunicações e cultura dentro da educação superior e a profissionalização crescente de treinamento de capaci- dades sugerem que o reconhecimento formal pode vir a exercer um papel mais importante em regular a entrada em mercados de trabalho culturais do que no passado. Ao mesmo tempo, a evidência emergente sugere que o capital social também está tornando-se fundamental. A enquete do Instituto Britânico de Filme constatou que contatos pessoais eram facilmente o canal mais importante que os entrevistados utilizaram para procurar e obter trabalho na televisão (Instituto Britânico de Filme, 1997: i). Como observado por Angela McRobbie, a inconstância da riqueza em mercados de moda aumenta a importância da contingência e serendipismo em proporcionar “oportunidades e sortes ines- peradas” através de reuniões e encontros inesperados (McRobbie, 1998: 179).

D IF e R e NÇA D e C LA sses

A maioria dos estilistas de McRobbie eram mulheres, e como ela observa, as inseguranças de sua situação de mercado impuseram custos pesados em suas escolhas pessoais. A interação entre gênero e classe tem sido um tema central nos escritos feministas, com muitos comentaristas argumentando que o «patriarcado» – a subordinação das vidas das mulheres aos interesses dos ho- mens – é tão importante, se não mais importante do que a classe, em reproduzir a desigualdade estrutural. Alguns analistas de classe responderam separando classe por gênero. Eric Wright, por exemplo, aceita com pesar que seu modelo de classe “provavelmente não fornece, e talvez não consiga fornecer, ferramentas

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adequadas para a compreensão de muitas questões importantes ligadas à opres- são de gênero” (Wright, 1997b: 60). Felizmente, alguns pesquisadores feministas não foram dissuadidos tão facilmente de explorar a interação entre classe e gênero. Como Carolyn Steedman observa, abordar “os danos percebidos de um sistema social através das experiências de mulheres e garotas sugere que abaixo das vozes de consciência de classe talvez haja outra linguagem, que pode ser ouvida para expressar os sentimentos dos que estão do lado de fora”, mas “não há linguagem que” também “não deixa os sotaques literais da classe expostos” (Steedman, 1996: 113-114). Após extenso trabalho etnográfico com um grupo de mulheres da classe trabalhadora no norte da Inglaterra, Beverley Skeggs conclui que “a classe é completamente fundamental para” suas vidas (Skeggs, 1997:161). Ela está espe- cificamente interessada na maneira com que a distribuição desigual de capital (no sentido ampliado de Bourdieu) combina com a circulação de discursos concorrentes de identidade, para reduzir suas ambições. Para elas, os danos ocultos de classe eram gerados de maneira muito forçada. “Elas nunca foram capazes de se sentirem confortáveis com elas mesmas, sempre convencidas de que outros irão encontrar algo deficiente e desagradável sobre elas” (Skeggs, 1997: 162). A imagem dominante das mulheres da classe trabalhadora como indecentes, perigosas e sexualmente insaciáveis foi uma fonte específica de preocupação. Em resposta, elas rejeitaram os modelos de individualismo ofe- recidos pelo feminismo e optaram por uma feminilidade “respeitável”. Mas, como Skeggs argumenta, suas reivindicações de respeitabilidade não devem ser lidas como sinais de submissão passiva, mas como o resultado de uma ativa “política emocional de classe”. Elas entraram em um sistema de avaliação “em desvantagem” onde “o acesso para avaliações positivas era limitado ou fechado”, mas apesar disso, elas estavam “sempre tentando tirar o melhor proveito de recursos limitados” (Skeggs, 1997: 161-162). Entretanto, as fronteiras de classe não estão completamente fixadas. As pes- soas conseguem sair e mudar de classe através da educação e do casamento. Os sofrimentos e alegrias da partida e as dificuldades de deslocar-se entre culturas eruditas e estabelecidas foram um grande tema no trabalho britânico inicial em estudos culturais. Richard Hoggart e Raymond Williams, e muitos da geração mais jovem que seguiram seu rastro, eram «garotos com bolsa de estudos» da classe trabalhadora que lutaram contra o sistema educacional para se tornarem pesquisadores e professores universitários. Como a pesquisa mais recente (1998) de Derek Wynne mostra, a organização estratégica do capital cultural é típica daqueles que se deslocaram para a classe média através da educação superior. Ela é a carta triunfal que eles possuem no jogo da distinção, um marcador

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Contemporary communication and questions of social class D ossI ê adequadas para a compreensão de muitas

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Comunicação contemporânea e questões de classe visível de sua chegada na nova localização. Em contraste, aqueles

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visível de sua chegada na nova localização. Em contraste, aqueles que seguiram seu caminho através da escola da vida ou abriram seus próprios negócios estão mais propensos a exibir seu controle de capital econômico, através do consumo proeminente. Eles olham para trás constantemente, procurando provar seu sucesso para aqueles deixados para trás. Entretanto, apesar deste alvoroço de pesquisa, na maioria dos contos de mo- bilidade, os protagonistas ainda são homens. O trabalho recente de Steph Lawler com mulheres da classe trabalhadora em ascensão trata deste desequilíbrio. Ela observa como a patologização da sexualidade da classe trabalhadora cruzou com “a falta de uma história de ser classe média” entre as mulheres com que ela conversou, para compor os danos ocultos criados pelos momentos em que elas “eram humilhadas pelos julgamentos (reais ou imaginados) de outras pessoas – julgamentos que dependiam da falta de julgamento «correto», conhecimento «correto», gosto «correto» das mulheres” (Lawler, 1999: 13). Elas sentiam que os hábitos que reivindicavam poderiam nunca existir totalmente e as disposições exigidas nunca serem possuídas completamente (Ibid.: 17). Elas estavam conde- nadas a serem eternas visitantes nas casas das outras pessoas, continuamente em seu melhor comportamento. Este trabalho emergente sugere que enquanto feministas estão certos em insistir que a classe sempre é engendrada, o gênero é sempre igualmente classi- ficado. Consequentemente, não é uma questão de escolher focar na classe «ou» na diferença, mas de explorar as maneiras que elas se cruzam. O trabalho mais recente sobre públicos de mídia tem usado variantes de metodologia de grupo de foco para explorar as interpretações e respostas das pessoas para filmes e programas de televisão. O problema é que estas oportunidades relativamente curtas e geralmente únicas não conseguem criar a profundidade de evidência que os argumentos desenvolvidos por Skeggs e outros exigem. Se formos rela- cionar biografias a histórias, nós precisamos de biografias que nos permitirão descobrir as ligações mais sutis entre subjetividades, discursos sociais e práticas culturais. Para isto, histórias de vida do tipo que Bourdieu coleciona em A Miséria do Mundo (1993) são essenciais. Se formos fazer justiça à complexidade das práticas de mídia cotidianas, precisamos mostrar como elas são formadas por jornadas pessoais, além de localizações sociais e discursos públicos.

m u DANÇA s m u NDIAI s

Entretanto, como C. Wright Mills destacou há algum tempo, uma análise verdadeiramente abrangente também precisa mover-se continuamente, para frente e para trás, do particular para o geral, religando “as características mais íntimas do ser humano com a transformação mais remota e impessoal”

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(Mills, 1970:14). Porque a maioria do trabalho até agora foi “baseada na conve - niente suposição de que a estrutura da classe e o estado da nação coincidem” (Breen & Rottman, 1998:16). A análise de classe não é tão bem provida para fazer estas ligações como deveria ser. Na era do capitalismo globalizado, esta é uma séria limitação. As últimas duas décadas viram um romance sustentado com a promoção de posse privada do neoliberalismo, dinâmicas de mercado e regulamento público mínimo, entre controle de compleições políticas muito diferentes. Durante este tempo, as três maiores nações do mundo, Rússia, China e Índia, que por maior parte do período pós-guerra estavam relativamente (embora de maneiras diferentes) isoladas do sistema do mundo capitalista, todavia reentra- ram nele, ainda que por caminhos e motivos diferentes. Este movimento tem maiores implicações para o papel de análise da classe em pesquisas de cultura e comunicações. Em primeiro lugar, como muitos escritores observaram, o desgaste e a retirada de barreiras reguladoras, associadas à ascensão de satélites transna- cionais e redes de computador, ampliaram maciçamente o alcance mundial de grandes corporações. Isto levanta a possibilidade de que podemos estar testemunhando a formação de uma nova «classe capitalista transnacional» composta pelos executivos das principais corporações transnacionais, políticos e empregados públicos estaduais que apoiam maior investimento interno e fluxos econômicos «sem fronteiras», e por último, mas não menos importante, os líderes das principais empresas de mídia. A dedicação desta classe não é para a nação-estado, mas sim para o novo campo de jogo da corporação mundial (Sklair, 1995: 133-137). Dentro desta formação, as empresas de comunicações desempenham um papel fundamental duplo. Em primeiro lugar, elas fornecem a infraestrutura de comunicações essen- cial que capacita esta nova classe geograficamente separada a desenvolver redes internas de troca e solidariedade. Mapear estes fluxos e ligações transnacionais emergentes é uma tarefa de pesquisa urgente. Em segundo lugar, elas procuram reorganizar comunicações públicas ao redor do consumismo nos interesses de expansão de mercado, promovendo-o como uma identidade e um modo de vida que transcende as fronteiras nacionais e não exclui ninguém. Entretanto, ao examinar o impacto desta intervenção, mais uma vez temos que encarar o problema de analisar a classe média. A rápida ascensão de marquetização e liberalização na China, Índia e Sudeste da Ásia levou a uma notável expansão tanto na posse de negócios quanto nas ocupações ligadas ao gerenciamento e manutenção de empresas comerciais. Este grupo emergente é geralmente chamado de a «nova» classe

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Contemporary communication and questions of social class D ossI ê (Mills, 1970:14). Porque a maioria do

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Comunicação contemporânea e questões de classe média ou os «novos ricos» (Buckley, 1999: 218) para distingui-los

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média ou os «novos ricos» (Buckley, 1999: 218) para distingui-los da classe média tradicional composta por profissionais independentes e emprega- dos públicos estaduais. Entretanto, alguns comentaristas preferem uma definição mais ampla que inclui empregados de escritório, profissionais e administradores públicos, além de donos de empresas e administradores corporativos (cf. Stivens, 1998: 15). Contudo, os analistas concordam que as classes médias desenvolvidas (embora definidas e subdivididas) são as precursoras do novo sistema consumidor. Na Índia e na China, o consumo está emergindo tanto como “uma base pro- funda para a identidade de grupo” (Appadurai & Breckenridge, 1995: 6) quanto como um terreno importante para concorrência e exibição social. O “estilo de vida da nova classe média” festejado na propaganda e na televisão popular puxa as ambições da classe inferior em direção a ela (McCarthy, 1994: 45). Ele oferece marcadores visíveis do «novo» e moderno contra o velho e obsoleto (Stivens, 1999: 5) enquanto que os fluxos constantes de pessoas e mercadorias voltando para «casa» de uma viagem e o estabelecimento diaspórico reforçam fortes contrastes entre o transnacional e o limitado, a abertura e a limitação (Lakha, 1999: 269). Os novos negociantes acenam chamando as pessoas a fazerem parte de uma comunidade nômade de consumidores cosmopolitas. Entretanto, se observarmos as vidas das mulheres, vemos novamente como as relações entre esta metaideologia e a formação da nova classe também estão profundamente engendradas e como as identidades suportadas são continuamente cruzadas por outros discursos. Em sua etnografia de mulheres espectadoras em Nova Déli, Purima Mankekar argumenta que o sistema estadual indiano de televisão do começo dos anos 1990 tratava membros femininos das classes móveis ascendentes como o principal mercado para os bens promovidos pelos patrocinadores comerciais dos programas, enquanto que simultaneamente procuravam atrair essas mulheres “no projeto de construção de uma cultura nacional” através de seu envolvimento em seriações dos grandes ciclos mitológicos indianos e em séries patrióticas dramatizando o papel central das mulheres na união, no lar e na pátria (Mankekar, 1993: 547). Ela argumenta que, como consequência, as liberdades de consumismo imaginadas estavam em permanente tensão com as obrigações apresentadas de nacionalismo e imagens comerciais da autor- realização das mulheres continuamente “circunscritas por metanarrativas de nação e família” (Ibid.: 553). Dulai Nag mostrou como esta tensão central é reproduzida no material de propaganda utilizado para promover os saris vestidos pelas mulheres Bengali de classe média. Alguns textos reforçam a posição do sari como o principal indicador de continuidade e nação utilizando

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citações de literatura Bengali do início do século XX. Outros evocam asso - ciações de modernidade consumidora mobilizando material de uma popular revista sobre filmes (Nag, 1991). Como este trabalho em desenvolvimento mostra, é precisamente porque são posicionadas como a vanguarda da transição em direção à modernida- de consumidora que as novas classes médias no geral, e em particular as mulheres da classe média, são o epicentro da luta expoente sobre os termos desta transição. Se o contexto do trabalho recente emergente da Índia e outras sociedades de marquetização confirma que a análise de classe continua sendo fundamental para compreender a mudança contemporânea, ele também demonstra mais uma vez a urgente necessidade de renová-la.

C o NCL us à o

Então o que podemos tirar desta discussão? Eu sugeriria cinco conclusões principais.

• Primeiro, que a determinação moderna de examinar as ligações variáveis

entre o nacional, o local e o mundial aplica-se com força particular à análise da classe.

• Segundo, que a abordagem mais promissora de mapear as formações da

classe no momento atual é fundamentar-se nas estimulantes sugestões de Pierre Bourdieu e trabalhar em direção a uma nova síntese das análises

marxistas de produção e exploração e discussões weberianas de capaci- dades de mercado.

• Terceiro, ao invés de objetar a classe à diferença, precisamos explorar

como as diferenças são classificadas e como, ao mesmo tempo, elas são

continuamente cruzadas com a organização da experiência de classe.

• Quarto, ao examinar o papel dos sistemas de sentido com base na classe em

fornecer recursos para interpretação e ação, nós devemos sempre procurar as maneiras com que eles interagem com outros discursos.

• E quinto, ao explorar as identidades de classe, devemos sempre ir além de

declarações evidentes de lealdade e filiação para examinar como as subje- tividades de classe são moldadas e subjugadas pela distribuição desigual de reconhecimento e respeito e pelos danos ocultos criados.

Contemporary communication and questions of social class D ossI ê citações de literatura Bengali do início

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Contemporary communication and questions of social class D ossI ê citações de literatura Bengali do início

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Comunicação contemporânea e questões de classe R e F e R ê NCIA s APPADURAi, A;

Comunicação contemporânea e questões de classe

R e F e R ê NCIA s

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GRAHAM MURDOCK

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Traduzido por Marcela Bianchini

Título original: Reconstructing the ruined tower: contemporary communications and questions of class.

Artigo recebido em 18 de março e aprovado em 14 de abril de 2009.

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Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica 1

Émile Benveniste and the subjectivizing of semiotics

Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica Émile Benveniste and the subjectivizing of semiotics E L

E L I S E O

V E R Ó N *

Resumo Primeiramente, discutem-se alguns aspectos do trabalho recente de Schaeffer sobre o cogito cartesiano e de suas consequências na história da filosofia e das ciências humanas e sociais. Em seguida discute-se a subjetivização das teorias dos signos e considera-se o caso da teoria da enunciação de Émile Benveniste como um exemplo que Schaeffer chama de “Tese da exceção humana”, mostrando, de acordo com o ponto de vista do autor, as contradições da crítica de Benveniste ao princípio saussureano da arbitrariedade do signo. Palavras-chave: cogito cartesiano, enunciação, subjetividade, arbitrariedade do signo

A B st RA ct At first we discuss some aspects of the recent work of Schaeffer about the Cartesian Cogito and its consequences in the History of Philosophy and Human and Social Sciences. Next, we discuss the subjectivizing of the sign theories and consider the case of enunciation of Émile Benveniste as an example that Schaeffer calls as Thesis of human exception, showing according to the author’s point of view, the contradictions in the Benveniste criticism to Saussure’s principle of arbitrariness of signs. Keywords: Cartesian cogito, enunciation, subjectivity, arbitrariness of signs

* Doutor em Linguística pela Universidade de Paris 8 e professor do Departamento de Humanidades, Licenciatura em Comunicação, da Universidade de San Andrés, Argentina.

1. Este trabalho é um fragmento de um livro em preparação, A semiose social 2 , que será lançado em 2010.

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Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica U ma discussão detalhada das características e das funestas

Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica

U ma discussão detalhada das características e das funestas consequên- cias históricas do dualismo cartesiano é o tema fundamental do último livro de Jean-Marie Schaeffer, La fin de l’exception humaine (O fim da

exceção humana, Schaeffer, 2007). O que Schaeffer chama a “Tese da exceção humana”, cujo fim seu livro anuncia e celebra, afirma que “na sua essência pro- priamente humana, o homem possuiria uma dimensão ontológica emergente em virtude da qual transcenderia ao mesmo tempo a realidade das outras formas de vida e sua própria «naturalidade»” (Schaeffer, 2007: 14). Antes de mais nada e, “além de suas formas técnicas, a Tese é uma imagem que se tem de si mesmo, seja o homem ocidental em geral, ou pelo menos sua variante ilustrada” (Ibid.: 25); é

uma “representação coletiva compartilhada” (Ibid.: 19), que o autor apresentará no fim do seu livro como uma “visão do mundo”. Dentro do campo filosófico, a Tese remonta na sua origem moderna ao dualismo cartesiano. Na época con- temporânea, a fenomenologia transcendental do último Husserl é uma forma extrema. O terreno privilegiado da sua elaboração foi, pois, a filosofia, mas a Tese manifesta-se também nas ciências sociais, quando o social aparece como lugar de transcendência – o homem social seria então «não-natural» e inclusive «antinatural» – e nas ciências humanas (entendidas por Schaeffer como as ciências que se ocupam da cultura), quando a criação de «sistemas simbólicos» faz com que o homem se oponha tanto ao «natural» quanto ao «social». Tudo isso, aos olhos de Schaeffer, não é somente aceitável mas também surpreendente:

Como é possível que os progressos importantes no conhecimento do ser huma- no aportados pela biologia, neurologia, etologia ou psicologia, não tenham sido saudados por todos os investigadores de ciências sociais, por todos os filósofos, por todos os investigadores no campo dos fenômenos da cultura, como possibi- litando o desenvolvimento de um modelo integrado do estudo do humano? Por que [esses progressos] provocaram, ao contrário, inumeráveis repúdios e reações segregacionistas? (Ibid.: 15).

A explicação reside na extraordinária pregnância histórica da Tese da exce- ção humana, cujos múltiplos aspectos e consequências o autor analisa e refuta. Segundo Schaeffer, a Tese repousa sobre quatro afirmações fundamentais. (1) Existe uma diferença de natureza entre o homem e todos os outros seres vivos, uma «ruptura ôntica» dentro do mundo da vida: o homem é irredutível à vida animal como tal. (2) Há uma ruptura dentro do próprio ser humano, que opõe de certo modo o homem a si mesmo: corpo/alma, afetividade/racionalidade, necessidade/liberdade, natureza/cultura, instinto/moralidade etc. Trata-se de um «dualismo ontológico interiorizado». (3) O que há de próprio e exclusi- vamente humano é o conhecimento. Schaeffer fala aqui de uma «concepção

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gnoseocêntrica do ser humano». (4) A via de acesso e o tipo de conhecimento do que se considera propriamente humano são radicalmente distintos dos meios cognitivos que nos permitem conhecer os outros seres vivos e a natureza inani- mada em geral. Os primeiros são «internalistas» (a forma fundante moderna foi o cogito ergo sum cartesiano), os segundos «externalistas». Trata-se, portanto, de um «ideal cognitivo antinaturalista». O dualismo ontológico proporciona a explicação da ruptura ôntica: esta última é a consequência do fato que o homem esteja constituído por dois com- ponentes irredutíveis: corpo/alma, com todas as oposições que se seguem desta dupla natureza. Se a minha leitura de Schaeffer está correta, o gnoseocentrismo e seu caráter antinaturalista (postulados 3 e 4) agregam-se aos dois primeiros postulados mas não derivam deles: o ser humano poderia ser dual sem que seu componente irredutível à ordem natural fosse de ordem cognitiva, e sem que este se duplicasse ao mesmo tempo em dois modos irredutíveis de conhecimen- to. O antinaturalismo não é somente um antibiologismo; dirige-se também a todos os «saberes externalistas» que se intitulam «positivos» ou «objetivos» e portanto implica no repúdio das ciências sociais e humanas na medida em que se apresentem como «saberes empíricos», «em terceira pessoa». A Tese se dota assim do que Schaeffer chama uma «imunidade epistemológica», que explicaria sua forte pregnância e sua persistência histórica. Essa imunidade repousa sobre o fato de que todos os saberes «externalistas» «pressupõem» o cogito fundante. No capítulo “Além do cogito”, tecnicamente o mais importante do seu livro em termos dos fundamentos lógico-epistemológicos da argumentação, Schaeffer sintetiza e configura de maneira exemplar o conjunto de provas relativas ao fracasso da demonstração cartesiana. A distinção decisiva me parece ser aquela entre o «cogito» restringido e o «cogito» ampliado. O primeiro, como expressa Schaeffer, “imparável e irrefutável”, mas tem esta definição porque no fundo se restringe à questão da autorreferencialidade e da contradição pragmática: o ato do pensamento (da enunciação) exemplifica a existência de quem pensa (de quem enuncia) e sua negação produz uma contradição pragmática, já que essa negação é, ao mesmo tempo, um ato de enunciação que exemplifica a existência de quem enuncia e que portanto, mostra o que se está negando. Este cogito além de “imparável” e “irrefutável”, constitui um “verdadeiro dispositivo experimen- tal” que posso reativar quantas vezes quiser “experimentando concretamente das características constitutivas de todo processo consciente: seu carácter

2.

Schaeffer retoma aqui

uma das obras de Gerald

indivisível… sua dinâmica integrativa e sua coerência” (Schaeffer, 2007: 77) 2 . O cogito ampliado, contudo, pretende ir muito além das questões da autorre - ferencialidade e da contradição pragmática (“preferivelmente inocentes”, diz Schaeffer), que compõem o cogito restringido. Descartes pretende provar, em

Edelman, mas deveria ter citado sobretudo Peirce.

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Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica primeiro lugar, que o cogito é o princípio definitivamente

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primeiro lugar, que o cogito é o princípio definitivamente inicial e autofunda- dor de uma ciência do entendimento; em segundo lugar, que sua natureza é a de um ser pensante, e em terceiro, que o pensamento é radicalmente distinto da extensão, da res extensa, e portanto do corpo. Schaeffer apresenta e dis- cute, de maneira convincente, as razões pelas quais este «cogito» cartesiano ampliado não proporciona uma «prova» em nenhum dos três casos. No que se refere ao primeiro ponto, o cogito pressupõe os instrumentos cognitivos da lógica. Já está presente o operador de implicação (“Penso, ergo, [logo, em consequência, portanto] existo”), e de modo mais geral, a metodologia da álgebra e a geometria, que estruturam o raciocínio dedutivo do «cogito», mas «que não podem ser derivados dele». O que está em jogo no segundo ponto é o deslizamento da argumenta- ção desde a posição autorreferencial pela qual a enunciação «exemplifica» a existência, até uma posição em que se afirma algo que se refere à natureza do «eu» enunciador, quer dizer “um ato proposicional de identificação referencial” (Schaeffer, 2007: 88), segundo o qual o «eu» enunciador é um «ser pensante». Podemos dizer que a demonstração cartesiana busca passar de uma tempora- lidade para outra, ou seja, da instantaneidade contida na coincidência entre a enunciação e a existência (a enunciação «eu penso» exemplifica a existência no

  • 3. “Eu sou, eu existo:

isto é certo; mas, por quanto tempo? A saber, tanto tempo quanto penso; porque poderia ser que, se eu deixasse de pensar, deixaria ao mesmo tempo de ser ou existir”, Segunda Meditação, 7.

momento em que a primeira ocorre 3 ) a uma temporalidade sobre uma essência durável, a natureza pensante do enunciador. Aqui Schaeffer recorre ao que se conhece das “autoatribuições errôneas” nos casos muito diversos da síndrome de personalidade múltipla, das anosognosias, das alucinações auditivas, para mostrar que não se pode postular que o «eu» que assume a enunciação esteja livre de qualquer «hetero-determinação» que poderia estar operando sobre ele. Não se pode objetar que isto implica fazer uso de «saberes externalistas», porque Schaeffer está discutindo a própria prova do cogito, sem a qual a distinção entre saberes «internalistas» e «externalistas» não se pode fundar, salvo que se diga que essa distinção esteja pressuposta , com o qual o cogito seria simplesmente um círculo vicioso. Nada justifica então aqui a paisagem da instantaneidade do cogito ergo sum, diante da durabilidade de uma essência pensante. A distinção entre saberes «externalistas» e «internalistas» tem precisa- mente a ver com o terceiro componente do cogito ampliado, que busca fundar a distinção radical entre res cogitants e res extensa, pelo qual o conhecimen- to desta última é segundo, derivado, com relação ao autoconhecimento da «essência pensante» que é o ser humano. Schaeffer mostra claramente que o caráter ontologicamente segundo da corporeidade não pode ser provado pelo cogito, e necessita da intervenção de outra proposição: «Se não penso, não sou». Entretanto, logicamente, do «Penso, logo existo» posso derivar: «Se não existo,

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não penso» mas não «se não penso, não existo» que é a proposição necessária para fundar o pensar como essência do ser humano. Nesta afirmação a respeito do fracasso em fundar a diferença radical en- tre saberes «internalistas» e «externalistas», isto é, do fracasso em legitimar a suposta imunidade epistemológica da “Tese da exceção humana”, repercutem claramente as teses dos famosos textos precoces de Peirce, publicados em 1868 no Journal of Speculative Philosophy (Peirce, 1868a e b), que juntos constituíram, no umbral da contemporaneidade, um formidável manifesto anticartesiano: (1) Não temos poder de introspecção, porque todo conhecimento do mundo interno deriva, por raciocínio hipotético, de nosso conhecimento de fatos externos. (2) Não temos poder de intuição, porque toda cognição está logicamente determi- nada por cognições anteriores. (3) Não temos poder de pensamento sem signos. (4) Não podemos conceber o que é absolutamente incognoscível. O fracasso da Tese implica, para Schaeffer, “fixar a questão da identidade humana no plano do destino de uma forma de vida, porém no indivíduo e em sua vida interior” (ibid.: 136) e, ainda assim, partir do domínio da humanidade sobre a vida animal terrestre, como fundamento de uma teoria e uma epistemologia adequadas, é uma “banalidade quase desesperadora” (Ibid.: 41), e suas consequências estão longe de ser triviais. Schaeffer enumera quatro. A primeira e fundamental é que o princípio da unidade da vida permite acabar com toda forma de dualismo, núcleo central do cartesianismo; a segunda, que as condições de diversificação da vida, tal como nos mostra a biologia da evolução, excluem qualquer forma de monocausalismo e de reducionismo 4 . A terceira resulta das leis da seleção natural, que permitem dar uma resposta para a evolução da vida sem nenhuma hipótese finalista. A quarta, finalmente, é o coletivo que a biologia deve postular, a saber, a espécie humana como uma «população mendeliana», que exclui todo essencialismo. A humanidade não é um tipo mas sim um processo em curso, cujo estatuto ontológico não é outra coisa que seu devir evolutivo. Fica assim definido um campo de conhecimento que Schaeffer denomina uma «episteme mesocognitiva», na qual não cabem operações fundacionais. A semiose humana é uma parte constitutiva, como havia antecipado Peirce, da evolução geral da vida tal como se produziu neste ínfimo fragmento do universo no qual nos encontramos. Ontogeneticamente, o conhecimen- to que podemos adquirir dela é local, externalista e falsificável (Ibid.: 137). Filogeneticamente, o mundo foi iniciado sem ela e terminará, sem dúvida, do mesmo modo, parafraseando a Lévi-Strauss, quem insistiu muito, desde o começo da sua obra sobre esta questão. 5 Entre os textos nos quais Peirce traçou os princípios da sua «cosmologia evolutiva» e a configuração de ideias cristalizadas neste último livro de Schaeffer,

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  • 4. Neste ponto Schaeffer,

apoiando-se em Kupiec (2000) e outros, é cético em relação à validade da metáfora algorítmica de um “programa” para descrever os processos genéticos e das hipóteses «instrucionistas».

  • 5. Cf. “O mundo começou

sem o homem e terminará sem ele”, frase da última página de Tristes trópicos:

Lévi-Strauss (1955).

Émile Benveniste and the subjectivizing of semiotics dossiê não penso» mas não «se não penso, não

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Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica transcorreu aproximadamente um século. Este atraso explica-se em parte

Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica

transcorreu aproximadamente um século. Este atraso explica-se em parte por fatores ideológicos e culturais, que mantiveram Peirce, em vida e a seus textos depois de sua morte, fora dos circuitos da comunicação acadêmica. Mas nestes cem anos aconteceram muitas outras coisas que, provavelmente, contribuíram para dificultar a convergência de conceitos que aqui interessa a nós. Um dos obstáculos mais importantes foi o que chamarei a «subjetivização» da reflexão sobre a linguagem. Em trabalhos anteriores discuti alguns aspectos da subjetivização das ideias semióticas (Verón, 2007). Entendo que subjetivização seja algo que se pode des- crever, com a ajuda do livro de Schaeffer citado, como o efeito da “Tese da exceção humana” sobre as teorias dos signos. No presente contexto me limitarei a um de seus momentos cruciais, a saber, quando a teoria contemporânea da enunciação cobra uma primeira forma, dinamizada pela questão filosófica do sujeito. Temos então que falar de Émile Benveniste que é, juntamente com Saussure e Jakobson, uma das grandes figuras da «versão européia» da linguística do século passado. Benveniste é o autor que mais claramente concebeu a linguística como essa disciplina que, dentro do campo das ciências, encarna de uma maneira única e privilegiada o que Schaeffer chamou a “Tese da exceção humana”. Para Benveniste, de fato, a linguística não é somente uma ciência entre as outras. “A partir do momento em que se trata do homem falante, o pensamento é rei, e o homem está por completo no seu querer falar, ele é sua capacidade de fala” (Benveniste, 1974: 19). Benveniste evoca a obsessão de Saussure, exercida em silêncio por anos, sua interrogação a respeito do valor da linguagem e a res- peito “do que diferencia a língua de qualquer outro objeto da ciência” (ibid.: 15). Para Benveniste, a linguística é essa disciplina que vai liderar a convergência de todas as ciências humanas em direção a uma “grande antropologia”, uma “ciência geral do homem” (Ibid.: 38). Entende-se assim que Benveniste tenha sido uma figura-chave nesse momento do estruturalismo no qual a linguística apareceu como a ciência modelo para todas as ciências humanas.

 

6.

Esta citação corres-

ponde a uma entrevista que Pierre Daix fez com Benveniste em 1968. Afirmar que o predo - mínio da linguística “é claramente reconhecido” em “tudo o que se tenta no domínio social” era obviamente um exagero. Nesse momento o estrutu- ralismo era um fenômeno essencialmente francês, para não dizer parisiense.

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Ela [a lingüística] pode proporcionar às ciências cuja matéria é mais difícil de obje -

tivar

modelos que não deverão ser necessariamente imitados de modo mecânico,

... mas que procuram uma certa representação de um sistema combinatório, de modo que essas ciências da cultura possam por sua vez organizar-se, formalizar-se, seguindo as pegadas da lingüística. Em tudo que se tenta já no domínio social, o predomínio da lingüística é claramente reconhecido. (Benveniste, 1974: 26) 6 .

O problema mais grave não é tanto essa vontade implicitamente impe - ralista, mas, no caso de Benveniste, ela é inseparável de duas hipóteses: que a linguagem representa uma ruptura qualitativa no processo da evolução natural,

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e que o fundamento dessa ruptura é indissociável da experiência única da subjetividade. O repúdio de toda hipótese de uma gênese e, portanto, de uma transição progressiva entre um mundo sem linguagem e um com linguagem, não é em Benveniste uma proclamação isolada, mas ligada a um momento fundamental da sua formulação das condições conceituais do que será a teoria da enuncia- ção: seu argumento contra a ideia de que a linguagem é um instrumento de comunicação.

Estamos sempre propensos a adotar essa imagem ingênua de um período original onde um homem completo descobriria um semelhante igualmente completo e entre eles, pouco a pouco se elaboraria a linguagem. É pura ficção. Nunca atin- gimos o homem separado da linguagem e nunca o vemos inventando-a. Não atingimos jamais o homem reduzido a si mesmo e procurando conceber a exis- tência do outro. O que encontramos no mundo é um homem falante, um homem falando com outro homem e a linguagem ensina a própria definição do homem (Benveniste, 1966: 259).

A imagem de dois homens completos que se propusessem a elaborar a linguagem é certamente uma ficção. Mas a imprecisão (enunciativa!) do «esta- mos sempre propensos» (quem?) permite suspeitar que se trata de um recurso puramente retórico a serviço de um argumento destinado a proscrever a ques- tão da origem. Estamos diante de uma ficção que foi inventada pelo próprio Benveniste: nos desenvolvimentos da paleontologia e da teoria da evolução ninguém expos a questão nestes termos. Convém ressaltar que André Leroi- Gurhan publica seu esplêndido livro Le geste et la parole no mesmo ano de 1966, mas compreende-se que no contexto do triunfo estruturalista, a obra deste grande paleontólogo evolucionista tenha permanecido na sombra, em contraste com Claude Lévi-Strauss.

...

a

comparação da linguagem com um instrumento – e há que se tratar de um

instrumento material para que a comparação seja simplesmente inteligível – deve encher-nos de desconfiança, como toda noção simplista a respeito da linguagem. Falar de instrumento é opor o homem à natureza. A picareta, a flecha, a roda não estão na natureza. São fabricações. A linguagem está na natureza do homem, que

não a fabricou (Benveniste , 1966: 259).

Totalmente de acordo: a comparação com o objeto material que é um instrumento resulta inadequada. A linguagem é uma dimensão constitutiva do homo sapiens, portanto faz parte da sua natureza e, consequentemente, da evolução natural. Mas «a capacidade» para fabricar instrumentos também,

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Émile Benveniste and the subjectivizing of semiotics dossiê e que o fundamento dessa ruptura é indissociável

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Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica considerando que o homo é um resultado da evolução.

Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica

considerando que o homo é um resultado da evolução. Faz-se necessário postular a linguagem nas espécies homo anteriores ao sapiens que começaram, justamente, a fabricar instrumentos? Boa pergunta, que talvez Benveniste respondesse que sim. Em todo caso é uma pergunta, entre muitas outras, sobre como tudo começou. No marco da teoria da evolução, nada pode nos impedir de propor a questão da origem da linguagem como um aspecto particular da estabilização da espécie. No entanto, a resistência de Benveniste a esta indagação é de certo modo visceral:

A linguagem não tem um começo ou uma aproximação nos meios de expressão empregados pelos animais. Entre a função sensório-motriz e a função represen- tativa há um umbral que somente a humanidade atravessou. Porque o homem não foi criado duas vezes, uma vez sem linguagem e outra com linguagem. O surgimento do Homo na série animal pode ter sido favorecido por sua estrutura corporal ou sua organização nervosa; ela resulta antes de mais nada da sua faculdade de representação simbólica, fonte comum do pensamento, da linguagem e da sociedade (Benveniste, 1966: 27).

Aqui Benveniste está claramente percorrendo um círculo vicioso: se a emergência da espécie “resulta «antes de mais nada» da sua faculdade de re- presentação simbólica”, não temos o direito de nos perguntar de onde saiu essa faculdade? A maneira em que Benveniste opõe os fatores propriamente biológicos (estrutura corporal, organização nervosa – ou seja, posição bípede e desenvolvimento cerebral) a esta faculdade de “representação simbólica”, que seria “antes de mais nada” o fator principal, sugere a postulação de um «umbral» que constitui uma ruptura, e que a teoria da evolução seria incapaz de explicar. Talvez outra boa pergunta consista em indagar se, eventualmente, e como, a função sensório-motriz se transforma em signo antes da emergência da linguagem. É claro que a teoria de Peirce tem todos os instrumentos con- ceituais necessários para levar adiante esta indagação. Mas, como veremos, os textos de Benveniste manifestam uma total incompreensão da obra de Peirce. O que Benveniste conserva desta «faculdade de representação simbólica», é seu caráter fundante:

O homem sempre sentiu – e os poetas com freqüência o cantavam – o poder fun- dante da linguagem, que instaura uma realidade imaginária, que anima as coisas inertes, que permite ver o que ainda não é, que traz de novo o que já desapareceu. É por isso que tantas mitologias, quando têm que explicar que no amanhecer dos tempos algo pode nascer do nada, propuseram como princípio criador do mundo esta essência imaterial e soberana, a Palavra (Benveniste, 1966: 25).

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As leituras posteriores da obra de Benveniste reconfortam claramente uma posição antievolucionista.

O problema da origem – diz Gérard Desson explicando a posição de Benveniste

– está falseado a partir do momento em que se aplica à linguagem a lógica evo - lucionista importada das ciências naturais. A noção de linguagem tem que ser

pensada antropologicamente em termos de cultura (

)

Na verdade, a questão da

... origem da linguagem aparece, senão como uma pergunta ruim, ao menos como uma pergunta que não tem resposta, na medida em que se confunde com a questão da origem do homem (Desson, 2006: 84-85).

Precisamente. Mas então a questão da origem do homem não tem resposta? Aparentemente não, porque em Benveniste o dualismo cartesiano se ex- pressa em todo seu esplendor.

Pensamos que deve estabelecer-se uma distinção fundamental entre duas ordens de fenômenos: por um lado, os dados físicos e biológicos, que apresentam uma

natureza «simples» (seja qual for sua complexidade) porque permanecem intei- ramente no campo em que se manifestam, e porque todas as suas estruturas se formam e se diversificam em níveis sucessivos alcançados na ordem do mesmo tipo de relações; e por outro lado, os fenômenos próprios do nível inter-humano que têm como característica o não poderem ser nunca considerados de maneira simples nem ser definidos na ordem da sua própria natureza, mas sim devem sempre ser reconhecidos como em dobro, pelo fato que se relacionam com outra coisa, seja

qual for seu «referente»(

)

Nenhuma ciência do homem escapará desta reflexão

... sobre seu objeto e sobre seu lugar no seio de uma ciência geral da cultura, «porque o homem não nasce na natureza, mas sim na cultura » (Benveniste, 1966: 44) 7 .

  • 7. Sublinhado do autor.

Mas então, de novo: de onde sai a cultura? Como se justifica que seja a linguística e somente ela, a ciência que encarna esta ruptura? Embora a resposta que Benveniste oferece a esta pergunta esteja diretamente relacionada com sua radical incompreensão da obra de Peirce, faz isso paradoxalmente com uma distinção entre sistema «interpretante» e sistema «in- terpretado», que parece inspirada neste último. A língua é o sistema interpretante de todos os sistemas de signos e, em consequência, da sociedade em seu conjunto.

Se observa nesta relação uma dissimetria fundamental, e podemos remontar à primeira causa dessa não-reversibilidade: é que a língua ocupa uma situação particular no universo dos sistemas de signos. Se chamamos S ao conjunto desses sistemas e L à língua, a conversão se faz sempre no sentido S → L , jamais ao inverso (Benveniste, 1974: 54).

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Émile Benveniste and the subjectivizing of semiotics dossiê As leituras posteriores da obra de Benveniste reconfortam

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Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica Benveniste reordena a tradição saussureana mediante outra distinção, 8.

Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica

Benveniste reordena a tradição saussureana mediante outra distinção,

  • 8. O texto fundamental

é aqui Semiologia da língua , publicado em 1969 na revista Semiótica (La Haya, Mounton & Co., I) e reproduzido depois como capítulo III de Benveniste (1974).

entre «semiologia» e «semântica». 8 Por um lado, a semiologia é uma ciência dos sistemas de signos considerados em si mesmos, dos quais a língua é o primeiro sistema, fundante e interpretante de todos os demais. Por outro lado, a fala de Saussure terá também sua ciência, que é a semântica, em que serão centrais o conceito de discurso e a teoria da enunciação. A semântica da língua é para Benveniste a teoria da relação do sujeito com o sistema da língua; outros falarão de «usos», e compreende-se como Benveniste aproximou-se, de fato, das propostas da pragmática britânica. Para Peirce, o interpretante é um dos três componentes do signo (o terceiro do signo) e como tal, fundamento da semiose na qual estão sub - mergidos os atores da comunicação. A língua, que já para Saussure era um objeto «construído», pode ser considerada um interpretante, não do ator mas sim do observador, do linguista. É claro que ao afirmar que a Língua é o interpretante da sociedade em seu conjunto, Benveniste está confundindo as duas posições. Quando um sujeito falante fala, não tem como Interpretante a Língua do linguista! Em A semiose social discuti claramente esta confusão entre objetos empíricos e modelos, entre o concreto e o abstrato, que já estava presente em Saussure e que permanece intacta em Benveniste (Verón, 1987: 3 a parte). É esta confusão que sustenta a aparente diferença entre a teoria estrutural, fundante de Benveniste, e o «empirismo» da pragmática anglo-saxã. Porque esta última se apresenta como uma teoria funcionalista dos usos. E a posição antifuncionalista de Benveniste, que repudia categoricamente a ideia de que a linguagem seja um instrumento, e faz da linguagem a dimensão constitutiva do sujeito falante e de sua identidade como sujeito, representaria um ponto de vista radicalmente distinto. Lembremos que a crítica à noção de instru- mento preludia a teoria «benvenistiana» da enunciação: nesse momento e, por assim dizer, desde uma posição fenomenológica, Benveniste descreve a relação do sujeito com a Língua através da dinâmica pronominal: é assim como, através da enunciação no discurso, o sujeito se apropria subjetivamente da Língua. O linguista está simplesmente reproduzindo o ponto de vista do sujeito falante submergido na semiose. E como se situa, com relação a esta descrição, a metalinguagem do linguista? A verdade é que não se situa em nenhuma parte, porque Benveniste não diferencia as duas posições, a de ator e a de observador, e assimila a segunda junto à primeira. Esta assimilação aparece com máxima clareza no famoso texto A natureza do signo linguístico (Benveniste, 1966: cap. 4), inteiramente fundado em um mal-entendido entre a posição do ator e a posição do observador. Benveniste

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dossiê

afirma que “há contradição entre a maneira com que Saussure define o signo lingüístico e a natureza fundamental que atribui a ele” (a saber o princípio da arbitrariedade). De acordo com Benveniste, o raciocínio de Saussure segundo o qual “a natureza do signo é arbitrária porque não tem, com o significado, «nenhum laço natural na realidade» é falsa” pelo recurso inconsciente e sub-reptício a um terceiro termo, que não estava compreendido na definição inicial. Este terceiro termo é a própria coisa, a realidade (Ibid.: 50). Nunca pude evitar o sentimento de que esta argumentação de Benveniste está marcada por uma certa má fé. Vejamos. Em primeiro lugar, Saussure não diz o que Benveniste afirma que ele tenha dito: não é «o signo» o que não tem com o significado nenhum laço natural na realidade, é o «significante». Saussure jamais raciocina em termos de uma relação entre «o signo» e «o significado», mas sim entre «significante» e «significado», sendo o signo o nome da rela- ção entre ambos. Como se depreende, ao falar de «signo» por um lado e de «significado» por outro, é Benveniste quem introduz – sub-repticiamente sem dúvida, inconscientemente não sei – um terceiro termo, para pretender depois que Saussure diz «significado» mas que esteja pensando no próprio objeto, na coisa real. Em segundo lugar, o princípio de arbitrariedade vale tanto para a relação do significante com o significado como para a relação do significante com o objeto ou coisa real (supondo que se pudesse ter acesso à coisa real sem passar pelo conceito ou pela imagem mental). O significante «sheep» tem uma relação arbitrária tanto com o animal «ovelha» como seu conceito na mente de um falante do inglês. A prova de Saussure é que «o mesmo animal e o mesmo conceito» estão associados, na mente de um francês, ao significante «mouton». Portanto, a distinção entre o conceito do objeto (o significado) e o «próprio objeto» na realidade (e a consequente denúncia da sua confusão sub- reptícia em Saussure) não têm pertinência alguma com respeito ao princípio da arbitrariedade do signo. Imediatamente depois, Benveniste diz: “Semelhante anomalia no racio - cínio tão rigoroso de Saussure não me parece imputável a um relaxamento da sua atenção crítica”. E sugere que se trataria de um traço distintivo do “pensamento histórico e relativista do fim do século XIX”. É aqui, quando Benveniste se dá conta que está tratando Saussure como estúpido, e tenta então justificar a sua interpretação localizando-o em um contexto histórico. Mas esta alusão surpreende o relativismo (“observa-se nos diferentes povos as reações que suscita um mesmo fenômeno: a infinita diversidade das atitudes e dos julgamentos leva a considerar que nada aparentemente seja necessá- rio”), não faz mais que expressar a incompreensão por parte de Benveniste

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Émile Benveniste and the subjectivizing of semiotics dossiê afirma que “há contradição entre a maneira com

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Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica da posição do observador, por um lado, e da

Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica

da posição do observador, por um lado, e da contingência, que é o próprio princípio da evolução natural, por outro lado.

Decidir que o signo lingüístico é arbitrário porque o mesmo animal se cha- ma bœuf em um país , Ochs em outro, equivale a dizer que a noção de duelo é «arbitrária» porque tem como símbolo o preto na Europa e o branco na China. Arbitrária, sim, mas somente sob o olhar impassível de Sirius ou para quem se limita a constatar de fora a relação estabelecida entre uma realidade objetiva e um comportamento humano, condenando-se assim a ver somente contingência (Ibid.: 51).

Este texto, que me parece particularmente extraordinário do ponto de vista sintomático, merece mais alguns comentários. Primeiro, a busca compulsiva da necessidade. Porque, quando corresponde evocá-la, se aplica às leis que o conhecimento científico formula, não à realidade à qual se aplicam. As leis da física e química são definidas, na epistemologia contemporânea da ciência, como necessárias, não como o processo histórico da evolução natural, infestado de contingência. Como ressaltou uma vez Stephen Jay Gould, com sua habitual eficácia: se pudéssemos «rebobinar», até o big-bang, o filme da evolução do universo, para que tudo recomeçasse desde o zero, o processo evolutivo, «sob as mesmas leis», seria com toda probabilidade totalmente distinto. Por exemplo, provavelmente nós não existiríamos. Quem está então confundindo realidade e representação: Saussure ou Benveniste? Porque, se «noção» equivale neste texto mais ou menos a «conceito», qual saussureano pensaria em afirmar que o conceito de «duelo é arbitrário»? O que é arbitrário é «a relação entre o conceito de duelo e uma determinada cor». Ante a suposta «contradição» saussureana, a proposição de Benveniste não deixa de ser uma banalidade: “Para o sujeito falante, há entre a língua e a realidade adequação completa: o signo recobre e comanda a realidade, ademais, «é» essa realidade” (Ibid.: 52). Dentro da sua língua, claro, o sujeito falante somente experimenta “adequação completa”. Mas quando Saussure argumenta sobre o arbitrário do signo, sai de uma determinada língua e compara línguas (atitude «relativista»): o linguista que insiste no caráter arbitrário do signo não é sujeito falante de nenhuma língua; está comparando as línguas a partir da posição do observador. Como ressalta claramente Schaeffer, a principal motivação que está atrás da “Tese da exceção humana” não é outra coisa que «a busca da necessidade na experiência subjetiva». Em Benveniste, a experiência subjetiva aparece como uma ruptura radical na evolução biológica, ruptura que a Língua, cuja gênese é inexplicável, faz possível.

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A consequência desta condensação particular das ideias sobre os signos que a obra de Benveniste produziu foi uma teoria da enunciação restrita ao campo da comunicação linguística oral, que modeliza as operações enun- ciativas através das quais o sujeito falante individual realiza a sua apropria- ção subjetiva da linguagem. Esta concepção se expressa na famosa fórmula:

“A enunciação é esta ativação da língua por um ato individual de utiliza- ção” (Benveniste, 1974: 80). Os três aspectos da enunciação que resultam desta definição (a análise do próprio ato, das situações em que ocorrem e dos instrumentos de sua realização, Ibid.: 81) constroem a teoria em torno do ato individual da fala. Esta proposta pode, no melhor dos casos, conduzir a uma linguística da conversação. Deste ponto de vista, o alcance do conceito «benvenistiano» de discurso foi claramente superestimado. A elaboração de uma teoria da enunciação pós-benvenistiana teve que ser então um processo histórico (em curso) centrado no esforço por desenvolver uma análise da discursividade, liberado, por fim, da subjetividade de um sujeito falante individual. Porque torna-se evidente que, como resultado da midiati- zação, os fenômenos da conversação oral entre pessoas constituem apenas um fragmento mínimo da semiose social da espécie. No marco do que acabamos de discutir, é possível compreender que a teoria de Peirce tenha resultado, aos olhos de Benveniste, como um conjunto opaco de reflexões, quando não ininteligível.

...

a

mesma palavra pode aparecer em várias variedades de «signo»: como quali-

signo, como sin-signo, como legi-signo. Não se vê então qual poderia ser a utilida-

de operativa de semelhantes distinções nem em que poderiam ajudar o linguista a construir a semiologia da língua como sistema (Benveniste, 1974: 44).

Deixando de lado que «construir a semiologia da língua como sistema» nunca foi um objetivo de Peirce, o estruturalista que Benveniste era, depois de tudo, não podia compreender que os três aspectos da semiose sejam di- mensões e não unidades mínimas estáveis. Mas, sobretudo, aparentemente não podia tolerar a semiose infinita. Vejamos esta citação, particularmente esclarecedora:

finalmente

estes signos, sendo todos signos uns dos outros, aqueles que não

... são signos poderão ser signos? Encontraremos o ponto fixo onde amarrar a PRIMEIRA relação de signo? O edifício semiótico que Peirce constrói não pode incluir-se a si mesmo em sua definição. Para que a noção de signo não se destrua nesta multiplicação ao infinito, é necessário que em alguma parte o universo admita uma DIFERENÇA entre o signo e o significado (Ibid.: 45) 9 .

  • 9. Os termos em

maiúscula aparecem assim no original.

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Émile Benveniste and the subjectivizing of semiotics dossiê A consequência desta condensação particular das ideias sobre

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Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica É assim que o crítico que acusou Saussure de

Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica

É assim que o crítico que acusou Saussure de ter confundido, quando propôs o princípio da arbitrariedade do signo, o significado com o objeto, é quem está desesperadamente em busca da «própria coisa». E utilizando para isso a oposição entre «signo» e «significado», oposição totalmente alheia ao pensamento de Saussure.

Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica É assim que o crítico que acusou Saussure de

R e F e R ê N ci A s

BENVENISTE, Émile (1974). Problèmes de linguistique générale. Paris: Gallimard, v 2.

(1966). Problèmes de linguistique générale. Paris: Gallimard, v 1.

_______ DESSON, Gérard (2006). Émile Benveniste, l’invention du discours. Paris: Editions In

Press. LÉVI-STRAUSS, Claude (1955). Tristes tropiques. Paris: Librairie Plon. PEIRCE, Charles Sanders (1868a). Questions Concerning Certain Faculties Claimed for Man. Journal of Speculative Philosophy, 2: 103-114. PEIRCE, Charles Sanders (1868b). Some consequences of Four Incapacities. Journal of Speculative Philosophy, 2: 140-157. SCHAEFFER, Jean-Marie (2007). La fin de l’exception humaine. Paris: Gallimard.

VERÓN, Eliseo (2007). Du sujet aux acteurs, La sémiotique ouverte aux interfaces. Capítulo 8 de: Jean-Jacques BOUTAUD y Eliseo VERÓN, Sémiotique ouverte. Itinéraires sémiotiques en communication. Paris: Hermès-Lavoisier.

_______

(1987). La sémiosis sociale. Fragments d’une théorie de la discursivité. Paris:

Presses Universitaires de Vincennes.

Émile Benveniste e a subjetivização da semiótica É assim que o crítico que acusou Saussure de

Traduzido por Celso RiCa Rdo de aguia R

Artigo recebido em 2 de abril e aprovado em 17 de abril de 2009.

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Internet como expressão e extensão do espaço público

Internet as an expression and extension of public space

Internet como expressão e extensão do espaço público Internet as an expression and extension of public

R A Ú L

T R E J O

D E L A R B R E *

Resumo

A Internet é, ao mesmo tempo, parte do espaço público e parte da esfera pública,

vista nos termos de Habermas. Nas páginas da web e outros espaços da Rede das redes, há um intenso e aberto processo de socialização política e ideológica. Simultaneamente, há ainda limitações consideráveis à proeminente contribuição da Internet nas deliberações sobre questões públicas. Palavras-chave: Internet, espaço público, socialização

* Jornalista, mestre em estudos latino-americanos e doutor em sociologia, é pesquisador no Instituto de Pesquisas Sociais da UNAM.

Abst RA ct

Internet is, at the same time, a part of the public space and a part of the public

sphere, understood in terms defined by Habermas. In web sites and other spaces of the Network of networks, there is an intense and open political and ideological socialization process. Simultaneously, there are still important limitations to the prominent contribution of the Internet in the publics affairs’s deliberation. Keywords: Internet, public space, socialization

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1. Tradução livre, de “Web Posting the Poetry”. Versão original disponível em: <http://www.authorsden. com/visit/viewPoetry. Internet como

1.

Tradução livre, de “Web

Posting the Poetry”. Versão

original disponível em:

<http://www.authorsden.

com/visit/viewPoetry.

Internet como expressão e extensão do espaço público

colocando poesia na Rede

Uma estupenda oportunidade para a comunidade de poetas aficionados disponibilizar poemas na rede sentir que são celebridade

Nada mais pensa, nossos pensamentos são lidos por pessoas a quilômetros de distância as quais nunca veremos das quais nunca saberemos

Velhos e experientes Jovens e entusiasmados Gente de todo o mundo de muitos contextos, de vários aspectos compartilharão sua palavra Podemos ter rápida retroalimentação que não teríamos se estivéssemos sozinhos

Quando escrevemos, não sabemos como responder à pergunta “É um poema?”, Sim ou não! Mas quando os divulgamos, se são escolhidos, estamos certos de que muita gente especializada irá lê-los e preferi-los, esse pensamento entusiasma o coração

Não temos que escrever uma e mais outra vez para enviar esses poemas às pessoas próximas e queridas mas simplesmente dizer-lhes que procurem na Rede

Podemos aprender a linguagem, o estilo, o ritmo e os esquemas de ideias de outros versos para ativar nossos sentidos.

Uma estupenda oportunidade para a comunidade de poetas aficionados

colocar poemas na rede sentir que são celebridade.

Prasanthi Uppalapati 1

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A autora desses versos é Prasanthi Uppalapati, uma moça hindu que tinha 22 anos quando os divulgou em um site de poesia em março de 2002. Naquela época, era graduada em Computação e como passatem-

po escrevia poemas em telegu (a língua de sua mãe, que é falada no sul da Índia),

em hindi, que é o idioma nacional de seu país, e em inglês. “Meu propósito principal ao colocar meu trabalho aqui é formar um grupo e criar um sentido de Vashudhaika Kutumbam (família global)” dizia então (Uppalapati, 2002). Cinco anos depois, Prashanthi, que vive no distrito de Andhra Pradesh, na Índia, administrava uma lista de discussão on-line destinada a “promover o espírito de serviço dos cidadãos” 2 .

A Rede , Am PL o teRRI t ÓRIo de IN teRcÂmbIo e socIALIZAÇÃo

2.

<http://groups.yahoo.

O site onde Prasanthi colocou esse e vários outros poemas é visitado por milhares de leitores e autores, especialmente estadunidenses. São aficiona- dos pela poesia, no geral mais interessados na promoção que na perfeição que possam atingir seus textos. As contribuições que são encontradas ali abordam os temas mais variados. Em novembro de 2008, os poemas especificamente relacionados com Internet eram pelo menos 150. A esta altura do desenvolvimento da Rede, já não é surpreendente que uma jovem do sul da Índia divulgue seus versos por esse meio, nem que graças a esse mesmo recurso articule uma comunidade de muitas dezenas de pessoas, de diversos lugares do planeta, que compartilham com ela alguns interesses. Tampouco causa assombro o interesse de milhões de autores de todos os gêneros literários que encontraram na Internet não só um espaço de publicação, como, além disso, de interação. É difícil saber até que ponto os critérios de qualidade literária foram modificados com a profusão de sites para a divulgação desses trabalhos. Mas, sem dúvida, a possibilidade de difundi-los e, somada a ela, a de conversar a distância com pessoas com as quais, de outra maneira, muito provavelmente jamais teriam tido qualquer relacionamento, transformou os pa- râmetros espaciais, os horizontes pessoais, a concepção que têm de seu entorno e do mundo, assim como a capacidade para socializar centenas de milhões de

com/group/tomakeadiffe - rence/>. Esta página web confirma a globalização das preocupações e dos acessos que a Rede torna possível quando, na sua página inicial, relata uma anedota que aconteceu com um amigo da jovem Prasanthi enquanto visi- tava uma praia mexicana.

usuários da Internet 3 . Para muitos desses internautas, a Rede é hoje parte de

3.

No final de 2008, os

suas experiências cotidianas e nela dispõem de novas opções para estabelecer, expandir e/ou diversificar seus vínculos sociais.

usuários da Rede em todo o mundo estavam chegando aos 1,5 bilhão, que representariam 22% dos cerca de 6,7 bilhões

 

Embora o acesso a ela seja limitado por exigências materiais e culturais evidentes (para navegar na Rede é preciso dispor de computador, de conexão e de certo conhecimento técnico), pode-se considerar que a Internet é uma coleção de es- paços, por definição, «abertos» à averiguação e, em muitos casos, à participação de quem a eles se assomam. A contemplação dos conteúdos colocados ali por

de pessoas que nesta data habitavam o planeta. (Internet World Stats.)

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Internet como expressão e extensão do espaço público outros usuários continua sendo muito superior ao exercício

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outros usuários continua sendo muito superior ao exercício de uma autêntica comunicação que, como afirmaram os fundadores do estudo desta disciplina, implicaria intercâmbio de mensagens de ida e de volta, de tal maneira que os receptores fossem também receptores de seus próprios conteúdos. Constatada essa insuficiência, hoje em dia é possível reconhecer pelo menos dois âmbitos na capacidade comunicacional e/ou informacional da Internet. Por um lado, a Rede está presente por si mesma na socialização de mensagens dos mais diversos assuntos: notícias e conhecimentos e, como todos sabemos, também futilidades e trivialidades. Por outro lado, a Internet propaga e arma- zena os conteúdos divulgados por outros meios: a imprensa escrita e, cada vez mais, o rádio e a televisão utilizam a Rede na busca de novos espaços para os materiais divulgados também da maneira convencional. Regulada por regras do mercado, na Internet, têm mais peso os conteúdos e sites das corporações comunicacionais, ou das instituições com mais recur- sos para projetos e divulgação que os conteúdos disponibilizados por cidadãos sem respaldo corporativo ou institucional. Porém, é cada vez mais frequente ganharem destaque textos, argumentos, imagens ou cenas difundidas por pequenos grupos ou por indivíduos que, de outra maneira, permaneceriam isolados e, inclusive, em silêncio. Essa possibilidade ratifica a abertura da Internet, à qual têm acesso para divulgar conteúdos, não somente os espe - cialistas com um conhecimento ou uma opinião específica, mas qualquer um dos usuários da Rede. Essa abertura propiciou, e permitiu até agora, que se propague uma gama de «cidadanias» do universo das redes. Além de inclusões nacionais, institucionais, ou até mesmo políticas ou gremiais, mas sem prescindir delas, os usuários da Internet navegam, divagam, encontram e, à vezes, debatem, compartilham e socializam com tanta assiduidade e de maneira tão notória que as redes in- formáticas já são reconhecidas como parte do espaço público contemporâneo. Essa é a opinião de autores como os professores Jean Camp e Y.T. Chien, da Universidade Harvard:

O papel da Internet como espaço público para cada cidadão (contra um espaço somente para profissionais, por exemplo) está sendo moldado por duas caracte- rísticas aparentemente contraditórias: a Internet é, ao mesmo tempo, onipresente e pessoal. O ciberespaço, diferentemente dos meios de caráter tradicional (ra- diodifusão, telefonias, indústria editorial, distribuição) e os tradicionais espaços públicos no mundo físico (o Centro de Boston, o Aeroporto Logan, a biblioteca metropolitana, a estação do trem etc.) permitem que a cidadania encontre novas formas para interagir econômica, política e socialmente (Camp & Chien: 2000).

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IN te RN et, es PAÇ o e es F e RA PÚ b LI cos N o P e N s A me N to de HA be R m A s

Sem ter alcançado a propagação que têm a televisão e o rádio entre as maiorias da nossa sociedade e possivelmente sem ter ainda a influência que a imprensa mantém no intercâmbio e, ocasionalmente, na deliberação diante das elites, a Internet pode ser reconhecida como meio de comunicação com características específicas. Não há dúvidas de que ela faz parte do espaço público. O que não está totalmente claro é até que ponto a Rede das redes é integrante da «esfera pública», de acordo com a conhecida distinção de Jürgen Habermas. Ao trazer para a discussão o conceito de “espaço público virtual”, o antro- pólogo brasileiro Gustavo Lins Ribeiro recupera a seguinte reflexão do próprio Habermas:

Em sociedades complexas, a esfera pública forma uma estrutura intermediária que faz a mediação entre o sistema político, de um lado, e os setores privados do mundo cotidiano e sistemas de ação especializados em termos de funções, de outro lado. Ela representa uma rede supercomplexa que se ramifica espacialmente em um sem número de arenas internacionais, nacionais, regionais, comunais e subculturais, que se sobrepõem umas às outras; essa rede articula-se objetivamente de acordo com pontos de vista funcionais, temas, círculos políticos etc., assumindo a forma de esferas públicas mais ou menos especializadas, mas ainda acessíveis a um público de leigos (por exemplo, em esferas públicas literárias, eclesiásticas, artísticas, feministas ou, mesmo, esferas públicas «alternativas» da política de saúde, da ciência e de outras áreas); além disso, ela é diferenciada por níveis, de acordo com a densidade da comunicação, da complexidade organizacional e do alcance, formando três tipos de esferas públicas: esfera pública «episódica» (bares, cafés, encontros na rua), esfera pública de «presença organizada» (encontros de pais, público que frequenta o teatro, concertos de rock, reuniões de partidos ou congressos de igrejas) e a esfera pública «abstrata», produzida pelos meios (leito- res, ouvintes e espectadores singulares e dispersos globalmente). Apesar dessas diferenciações, as esferas públicas parciais, construídas por meio da linguagem comum ordinária, são porosas, o que permite uma ligação entre elas (Habermas, apud Ribeiro, 2005: )

Não deixa de ser significativa a maneira como, nesse texto, Habermas enfrenta a definição de esfera pública, entendendo-a como mediadora entre a política e outros âmbitos e, por sua vez, empregando o símile de uma rede para descrevê-la. Os incontáveis cenários e locais de encontro virtual além dos limites geográficos e políticos, a interrelação de temas e enfoques, a convergência de opiniões especializadas, mesmo daqueles que não têm conhecimento de

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Internet como expressão e extensão do espaço público especialista, e inclusive a existência de espaços para

Internet como expressão e extensão do espaço público

especialista, e inclusive a existência de espaços para debater, examinar assuntos específicos e saber das notícias, poderiam constituir uma resenha de algumas das funções e da própria organização da Internet. Certamente, Habermas não pensava na Rede das redes de informática quando, em meados da década pas- sada, formulou essa explicação; mas ela cabe como se tivesse sido feita sob medida para a Internet que temos agora. Na leitura desse pensador alemão, é preciso fazer a distinção entre a «es- fera pública» como o território de interrelações de qualidade na qual se pode articular a deliberação capaz de criar opinião pública – ou seja, intercâmbio, discussão, argumentação – e o «espaço público» como um âmbito mais amplo e que não necessariamente é dominado pelo debate racional. Esta precisão, aplicada à Internet, foi desenvolvida pela pesquisadora Zizi Papacharissi, da Universidade Temple na Filadélfia:

Deveria ficar claro que um novo espaço público não é sinônimo de uma nova esfera pública. Como espaço público, a Internet proporciona outro foro para a reflexão política. Como esfera pública, a Internet poderia facilitar a discussão que promova um intercâmbio democrático de idéias e opiniões. Um espaço virtual incrementa a discussão; uma esfera virtual incrementa a democracia (Papacharissi, 2002: 11).

Podemos falar, assim, de um espaço público repleto de realidades cruas e que no mundo contemporâneo são fundamentais, embora não exclusivamente, ocupado pelos meios massivos de comunicação. A televisão e o rádio, e em menor proporção, a imprensa escrita, absorveram a atenção, a informação e o imaginário do público nas sociedades contemporâneas. Com frequência, diz-se, para sublinhar tanto a dependência com relação a esses meios como a natureza preponderante em seus conteúdos, que seus espectadores, mais do que cidadãos, são transformados em consumidores diante deles. A Internet foi incorporada ao elenco midiático, mas com diferenças substanciais com rela- ção àquelas vias de comunicação convencionais. A relevância que a Internet pode alcançar na solidificação de uma autêntica esfera pública fica clara ao lembrar o efeito civilizatório que o autor do conceito atribui a esse território de racionalidade e intercâmbio na construção da democracia. A saúde da esfera pública é definidora da estabilidade das sociedades e da solidez ou não de seus sistemas políticos. Diferentemente das sociedades antigas, reduzidas a pequenas comunidades ou onde somente uma parcela mínima dos cidadãos tinha oportunidade de opinar e influenciar nos assuntos públicos, hoje nossas sociedades de massa prescindem da existência de modos de representação, mas também de expressão, argumentação e divulgação que necessariamente incluem, de maneira preponderante, os meios de comunicação. Sem eles, as

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pessoas não tomam conhecimento dos assuntos públicos; isto é, não podem exercer uma autêntica cidadania. Porém, devidos a eles, ao mesmo tempo, a cidadania contemporânea costuma ser limitada porque os meios habitu- almente são orientados por interesses tão parciais que, longe de constituir territórios de socialização e deliberação, atuam como poderes antagônicos à democracia. Daí alguns dos apontamentos que o próprio Habermas apresenta quando se refere às contradições entre uma esfera pública sólida e a situação contem- porânea. Em um discurso que fez em Tóquio em 2004, o autor de Teoria da Ação Comunicativa explicava de que maneira criou esse conceito e alguns de seus alcances:

Como conseqüência, minha atenção teórica foi enfocada na esfera pública política. No misterioso poder da intersubjetividade, sua habilidade para unir o díspar sem eliminar as diferenças entre um e outro, sempre estive interessado no fenômeno geral do «espaço público» que já surge com simples interações. As formas da integração social ficam explícitas nas estruturas dos espaços públicos. O tipo específico de integração em uma sociedade particular corresponde ao grau de sua complexidade? Ou os espaços públicos revelam os atributos patológicos, sejam eles da anomia ou da repressão? Nas sociedades modernas, um espaço social particular, denominado a esfera pública política de uma comunidade democrática, desempenha um papel especialmente importante na integração dos cidadãos. Para as sociedades complexas, pode ser habitual se manter coerentes apenas por meio da solidariedade cívica – a abstrata, legalmente mediada, forma de solidariedade entre os cidadãos. E entre os cidadãos que já não podem conhecer uns aos outros cara a cara, somente o processo da opinião pública e a formação do arbítrio pode funcionar para reproduzir uma frágil forma de identidade coletiva. Por esta razão, o estado crítico de uma democracia pode ser medido, averiguando a vida de sua esfera pública política (Habermas, 2004).

Nessas breves aclarações, Habermas não delimita apenas o alcance da esfera pública, mas também acrescenta o adjetivo «política» para sublinhar a natureza das preocupações que nela se desenvolvem. Além disso, oferece, indireta, mas claramente, uma ambiciosa definição sobre a democracia, que ele vê como a solução para a necessidade de representação formal de uma sociedade, porém, também, como regime político em que há informação e deliberação suficien- tes para que os cidadãos opinem e influenciem sobre os assuntos públicos. O âmbito da esfera pública permite, então, que a coesão de uma sociedade derive, já não apenas da solidariedade entre aqueles que se reconhecem como parte de uma comunidade, mas, agora também, a partir da apropriação comum de

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Internet como expressão e extensão do espaço público informações, apreciações e valores que, em uma sociedade

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informações, apreciações e valores que, em uma sociedade de massa, podem ser propagados somente pelos meios de comunicação. A fortaleza ou não de uma sociedade dependerá, assim, da identidade coletiva que seus integrantes possam articular. E ela deve passar pelos meios de comunicação. O problema, como bem sabemos, está na parcialidade com a qual os meios propagam a realidade e, especificamente, os temas públicos em relação aos quais têm inclinações, interesses e, certamente, avaliações fragmentárias. Dominados por afãs corporativos e/ou estatais, os meios de comunicação tradi- cionais costumam assimilar o espaço público, mas de maneira tão interessada que nem sempre contribuem para colocar em ação a zona da esfera pública. A Internet reproduz em parte esses comportamentos, mas, além disso, oferece a eles diferentes tons e talvez resista a eles.

A be R tu RA e d I s P e R s à o , PARA do X os dA R ede Os sites da Internet que tratam de assuntos de interesse público são um recurso cada vez mais útil para fazer um diagnóstico da esfera pública. Entretanto, tam- bém, constituem um segmento indissociável dela mesma. Além da proliferação de informações e da abertura de uma quantidade praticamente infinita de sites para discussão dos mais diversos temas, a Internet pode ser reconhecida como zona privilegiada na demonstração e no reforço da esfera pública devido à sua arquitetura flexível e descentralizada. Em contraste com os meios tradicionais que, na maioria de nossos países, estão submetidos a uma crescente concentração corporativa, a Internet não tem um centro nem obedece a um só interesse mercantil, político nem ideológico. Diferentemente dos outros meios, que são definidos pela capacidade de que alguns dirijam mensagens a muitos, a Rede pode ser interativa, embora esse seja um atributo que ainda não é intensamente utilizado. Enquanto a televisão, o rádio ou a imprensa são forçados a empregar linguagens audiovisuais, acústicas ou escritas que já conhecemos, a Internet mostra uma notória versatilidade de formatos e recursos comunicacionais. Ao mesmo tempo, a ausência de hierarquias chegou a ser traduzida na falta de mecanismos para autenticar, organizar e depurar com critérios de qualidade os crescentes e abundantes conteúdos que há na Rede. Junto a suas capacidades democráticas, a Internet está se transformando em um ativo receptáculo de conteúdos que podem atrapalhar não apenas as buscas, mas, com frequência, a aptidão de cotejo, seleção e discernimento do mais paciente e experiente navegante do ciberespaço. Mais informação não necessariamente conduz ao melhor entendimento e, menos ainda, a uma maior reflexão por parte dos cidadãos das redes, especialmente quando essa informação está contaminada

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por trivialidades e mentiras. Na contradição entre a abertura e a dispersão da Rede, estão tanto as vantagens quanto os impedimentos da Internet para fortalecer a esfera pública. Se fosse necessário escolher entre as opções que com todas as suas con- tradições são oferecidas pela Internet e as desvantagens que isso significa para a democracia e para a cidadania, seguramente não ficaríamos com a Rede que temos agora. O reconhecimento de suas insuficiências e inclusive das perversões que ela pode significar para a democracia e para a cidadania, é relevante tanto para entendê-la como para tentar propiciar por meio dela práticas de maior e melhor utilidade social. No entanto, contrastes como os antes apontados levaram o próprio Habermas a conferir uma significação peculiar à ideia de esfera pública a partir do desenvolvimento da Rede. Esse pensador não costuma fazer referência ao desempenho específico dos meios de comunicação e, até onde tenhamos notícia, suas reflexões não resvalaram de maneira explícita no exame da Rede. Por isso, a alusão a esse assunto, realizada por Habermas durante um discurso em março de 2006, chamou a atenção:

O uso da Internet ampliou e fragmentou, ao mesmo tempo, os contextos da co - municação. Deve-se a isso o fato de que a Internet possa ter um efeito subversivo na vida intelectual dentro de regimes autoritários. Mas, concomitantemente, a vinculação cada vez menos formal e a reticulação horizontal dos canais de comunicação debilita as conquistas dos meios tradicionais. Isto enfoca a atenção de um público anônimo e disperso em assuntos e em informação específicos, per- mitindo que os cidadãos concentrem-se nos mesmos temas criticamente filtrados e nos fragmentos jornalísticos em qualquer momento. O preço que pagamos pelo crescimento do igualitarismo oferecido pela Internet é o acesso descentralizado a histórias não editadas. Neste meio, as contribuições dos intelectuais perdem sua capacidade para enfocar um discurso (Habermas, 2006).

Com tais advertências, esse fundamental pensador ressalta algumas das contradições que puderam ser reconhecidas na tensa complementaridade que existe entre a Internet e os meios de comunicação convencionais. A dicotomia ampliação/ fragmentação que a Rede das redes exerce em relação ao consumo, e, inclusive, aos conteúdos de meios como a televisão e o rádio, é entendida no contexto de sua capacidade para ser um espaço de interações entre os usu- ários ou destinatários de tais mensagens. Essa «reticulação horizontal» que constitui a estrutura essencial da Internet é apresentada por Habermas como antagônica em relação ao caráter fundamentalmente vertical – autoritário por definição, destacado em outras ocasiões – dos meios convencionais. Porém, no

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Internet como expressão e extensão do espaço público reconhecimento dessa característica, diferentemente de muitos autores que

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reconhecimento dessa característica, diferentemente de muitos autores que o ponderam como fonte de enriquecimento cultural, Habermas não chega a uma posição otimista. Ao contrário, ao lamentar a ausência de rigor com os conteúdos que circulam pela Rede, identifica nela um preocupante motivo para o empobrecimento da qualidade do debate na esfera pública de nossos dias. Os intelectuais que lançam ideias na Internet como se jogassem garrafas ao mar, nem sempre encontram receptores e menos ainda interlocutores para essas contribuições. A flexibilidade e seu caráter aberto, que são, em muitos sentidos, alguns dos melhores atributos da Internet, desse ponto de vista transformam- se em fatores de entorpecimento e empobrecimento da deliberação capaz de solidificar a esfera pública. As prevenções que o filósofo alemão sugere nesse breve parágrafo devem ser levadas muito em conta, mas merecem algumas considerações. A abun- dância de conteúdos é, de fato, um risco de distorção e inclusive de dispersão no intercâmbio de conhecimentos e pontos de vista. Contudo, o problema fundamental não está nessa profusão de conteúdos que temos à disposição na Internet, mas na nossa dificuldade para discernir quais contribuem, ou não, para a reflexão criativa dos assuntos públicos.

co N d IÇÕ es e R est RIÇÕ es Q ue LI m I tA m A es F e RA PÚ b LI c A

A exuberância de imagens, textos e sons de todo tipo é atordoante. O es - paço público que a Internet significa torna-se, dominado por tal excesso, em uma variedade de enorme mercado onde todos os comerciantes gritam e inclusive negociam com o possível comprador de acordo com seu inte - resse. O cibernauta, desse ponto de vista, não é considerado cidadão, mas simples consumidor. Porém, na Rede há também espaços que induzem ao diálogo, promovem a interação e, inclusive, de maneira explícita, abordam, documentam e enriquecem a reflexão sobre temas da maior relevância para nossas sociedades. Ali há estrondoso espaço público, mas também, junto com ele, há lugar para um exercício interado e racional, que talvez seja capaz de articular a esfera pública. A diferença em relação a outras formas da esfera pública está no já mencio - nado caráter aberto da Internet. A Rede tem capacidade para, precisamente, ir- radiar a discussão de assuntos públicos sem distinções de enfoques ideológicos, bandeiras políticas, fronteiras geográficas – uma vez resolvidas as limitações de conexão e alfabetização digital – além de barreiras sociais e materiais. O debate que nas áreas tradicionais da esfera pública fica restrito à imprensa escrita, ou a zonas do intercâmbio parlamentar ou acadêmico, pode ser acessível a todos os interessados. Além disso, essa organização reticular permite um exercício de

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comunicação horizontal, no qual as hierarquias nunca deixam de existir, mas são permeadas pela oportunidade que todos têm para opinar, refutar e oferecer novos elementos de discussão. Se a esfera pública é elemento indispensável para uma cabal democracia, a Internet contribui para ela não apenas como espaço para a deliberação, mas também, além disso, com uma arquitetura que por si mesma – embora nem sempre seja utilizada com tal propósito – propicia o intercâmbio entre iguais. Os espaços para que a Rede cumpra com tais funções já estão aí ou podem ser criados sem dificuldades significativas. O problema reside em que, ao utilizar a Internet, os cidadãos se reconheçam como tais ou, dito de outra forma, em que a aproveitem para compartilhar fatos, opiniões e ações comuns em assuntos relevantes para a vida pública. O professor chileno José Ignacio Porras considera, nesse sentido, que há uma relação de influência mútua entre a solidez de uma esfera pública capaz de propiciar usos racionais e politicamente frutíferos da rede e o desenvolvimento da própria Internet como componente dessa esfera pública. A extensa citação que fazemos desse pesquisador justifica-se devido à precisão de sua análise:

O último obstáculo que se interpõe ao pleno desenvolvimento do potencial da Internet como ferramenta para a melhoria da democracia é, sem dúvida, o mais complexo e difícil de superar. Referimo-nos à pré-existência de um desenvol- vimento maduro de uma esfera pública. Por tal desenvolvimento entende-se o espaço no qual os cidadãos debatem livremente os temas que afetam seu bem-estar comum, põe em questão a atuação das autoridades do governo e, como parte deste processo deliberativo recorrente, tomam forma os valores cívicos que guiam sua conduta. É possível distinguir algumas condições que diferenciariam o que podemos entender como um tipo ideal de esfera pública. A primeira destas condições seria a convicção entre os cidadãos de que existe uma relação direta entre sua participação na esfera pública e o desenvolvimento de seu bem-estar particular. Para isso, é preciso gerar entre os cidadãos uma expectativa racional de que por meio do exercício deliberativo poderão incidir nas decisões de seus governantes. Em segundo lugar, o desenvolvimento de uma esfera pública depende, também, de que exista entre todos os seus participantes um sentimento de pertencimento a uma comunidade. Tais sentimentos têm raízes nas experiências compartilhadas, passadas e presentes, pelas pessoas, de mútua necessidade e obrigação recíproca, que surgem no contexto de múltiplas atividades em comum e nas interações de caráter econômico, social, político e cultural. É este sentimento que dá disposição aos cidadãos para vincular seus interesses particulares ao bem público de sua comunidade. Por último, o desenvolvimento ideal de esfera

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Internet como expressão e extensão do espaço público pública requer a adoção, por parte dos cidadãos,

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pública requer a adoção, por parte dos cidadãos, de certas disposições que não se referem somente à aceitação formal e explícita das regras do jogo que estruturam o exercício deliberativo na esfera pública, mas do desenvolvimento de hábitos como a tolerância com os demais, a resistência ao abuso de poder ou a responsabilidade sobre as consequências de tomadas de decisão falíveis (Porras, 2005: 108-109).

Não entramos nisso para discutir se a esfera pública pode ter distintas gradações, ou seja, se podemos falar de um estágio de imaturidade e, por outro, de momentos de maior responsabilidade e discernimento na discus - são dos cidadãos, como sugere Porras. A outra opção seria que unicamente poderíamos falar dela em circunstâncias de pleno raciocínio na deliberação pública, o que, com toda certeza, nos obrigaria a considerar que nas socie - dades contemporâneas, tão suscetíveis como são ao ofuscamento, à gritaria e aos falatórios – e não nos referimos apenas ao grosso dos cidadãos, mas inclusive à classe política, aos operadores de mídia e aos intelectuais –, a esfera pública é um plano inexistente. Porras faz alusão a um «tipo ideal» de esfera pública que seria útil para a análise do que não são os espaços de discussão e intercâmbio em nossas sociedades. Porém, a descrição que faz dela inclui características sem as quais não só é impossível falar de uma esfera pública prototípica como de qualquer deliberação digna desse nome: em que seus participantes tenham confiança na utilidade desse intercâmbio e se reconheçam como parte de uma comunidade, em que o que é dito ali influencie nas decisões do poder, em que se respeitem, se reconheçam e se tolerem. Essas, que são pautas de qualquer discussão fru- tífera, encontram-se notavelmente escassas tantos nos espaços tradicionais por onde teria que transitar a edificação da esfera pública – o Congresso, os meios, as universidades – como nas áreas em recente expansão como, especialmente, a Internet.

o cIbeResPAÇo É A At IVI dAde socIAL de Quem o FReQue N tA

A Internet propaga e reorganiza conteúdos dos meios convencionais e en- gendra os seus próprios. A capacidade de armazenamento e distribuição proporcionada pelo amálgama da digitalização com as telecomunicações transformou a Internet no reservatório de conteúdos mais extenso, acessível e disperso que jamais havia existido. Mas sua importância não reside nos recursos tecnológicos que possibilitam o enlace e a manutenção dessa infinita teia de conexões e intercâmbios. Se nos provoca e deslumbra é, fundamen- talmente, devido aos amplos e versáteis usos sociais que a Internet suscita. Nas palavras do especialista Joan Mayans:

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O ciberespaço não é uma rede de computadores, mas o resultado da atividade social dos usuários e usuárias dos computadores conectados entre si espalhados – desigualmente, isso sim – por todo o mundo. Portanto, o ciberespaço é sociedade e não pode ser outra coisa que não sociedade (Mayans, 2003).

A sociabilidade é inerente à Internet. Esse traço, que Mayans explica com tanta clareza, constitui talvez o elemento principal que faz da Rede uma das áreas indispensáveis no espaço público, mas além disso, na construção da esfera pública contemporânea. Obviamente, todos os meios e espaços de comunicação são indispensáveis não unicamente por seus dispositivos tecnológicos, mas pelas consequências que essa capacidade de propagação de mensagens significa em relação à sociedade. Seria difícil, ou mesmo impossível, entender cabalmente o rádio sem seus ouvintes ou a imprensa sem os leitores que lhe dão sentido. Porém, no caso da Rede ou do ciberespaço, para empregar os termos que o autor anteriormente citado resgata, estamos diante de uma coleção de áreas de expressão e intercâmbio que simplesmente não teriam sentido algum sem a interação de seus usuários. Hipoteticamente, a televisão ou os jornais diários poderiam existir sem telespectadores ou leitores. Entretanto, a Internet não é um meio – ou meio dos meios como consideram alguns – no qual as mensagens sejam geradas a partir de emissores tão concentrados que não exijam necessariamente receptores. Mais ainda, a noção convencional que nos esquemas midiáticos tradicionais distingue emissores e receptores, na Rede tende a ficar corrompida porque, como lembramos antes, cada receptor, ao menos hipoteticamente, está em condições de ser também emissor. O ciberespaço é sociedade, diz esse autor catalão, e a fórmula não poderia ser mais contundente. No território ou nos territórios criados pelas redes in- formáticas são produzidas relações ao estilo das que existem no mundo off-line – no mundo não-virtual, dizem alguns – mas, além disso, surgem formas de relação entre as pessoas que criam novos estilos de sociabilidade. Essa mescla de formas de relações tradicionais e novas se desdobra junta- mente com os novos recursos tecnológicos. Os usos da Rede se estendem com uma rapidez e, sobretudo, com uma versatilidade que costumam deixar para trás aqueles que se encarregam de analisá-los e de entendê-los. O perfil da Internet como área necessária do espaço público é advertido em pelo menos três grandes temas: sua função como intermediária entre o poder político e os cidadãos, o desenvolvimento de áreas virtuais que reproduzem e criam novas formas de socialização e os recursos oferecidos para que as pessoas se apropriem dos mais variados conteúdos, para que suas próprias criações sejam difundidas.

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INF o R m AÇà o PÚ b LI c A e IN te RAÇà o e N t R e c I dA dà os e IN st I tu IÇÕ es

Na Internet contamos com mais informação do que nunca e como em nenhuma outra parte. Além das novas exigências em matéria de catalogação, discerni- mento e busca que requer essa proliferação incessante de mensagens, dados e interpretações, não resta dúvida que graças à Rede temos arquivos de dados que são propagados e atualizados com uma rapidez e um alcance até agora inéditos. No seu abastecimento de informação há cada vez mais dependência da administração pública, dos Congressos e de outras instituições estatais. Para todas elas é necessário não apenas ter presença na Internet, mas sobretudo, dispor parte de seus arquivos aos interessados. O que nem sempre aceitam de boa vontade ou de maneira plena: as reticências ao divulgar documentos e informações oficiais transformaram-se em uma nova fonte de tensão entre o poder político e os cidadãos. Contudo, a nova demanda de informação pública tende a obrigar essas instituições a serem escrupulosas com os dados divul- gados na Rede. E, sobretudo, a vida interna de tais instituições fica, ao menos parcialmente, exposta àqueles que se interessam por ela. A possibilidade de consultar atas judiciais, normas governamentais, esta- tísticas oficiais, registros dos debates parlamentares ou as publicações dos par- tidos políticos significa uma forma de abertura sobre cuja relevância talvez não tenhamos refletido o suficiente. Instituições que, por tradição e frequentemente por determinação, haviam permanecido distantes da sociedade, logo contam com endereços na Rede para que as pessoas conheçam seu desempenho. Isso não torna mais legítimo nem mais plausível o trabalho que realizam, mas em todo caso, o deixa menos opaco. As rotinas, exigências e novas necessidades daqueles que, graças à Rede, tornam-se usuários da informação que essas instituições fornecem e, eventu- almente, em seus interlocutores, tendem a criar novas pautas no trabalho das instituições estatais. Segundo Lins Ribeiro,

Para entrar no ciberespaço, é necessário possuir um computador, linha telefônica e ter acesso a um servidor pago ou gratuito, o que torna os habitantes do espaço- público-virtual uma elite. Diante disto, talvez seja melhor definir o ciberespaço como uma «esfera-pública-virtual» (e não como um espaço-público-virtual), destinada ao encontro de uma nova elite transnacional, uma perspectiva que, de diversas formas, está embutida na minha concepção de comunidade trans- nacional imaginada-virtual. No ciberespaço vai sendo configurada uma elite com outra experiência de tempo e de espaço, vinculada à administração de uma maioria ainda quase totalmente presa aos parâmetros existentes no mundo real (Lins Ribeiro, 2005: 14).

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Os organismos de transparência da informação pública que estão sur- gindo cada vez em mais países – como, no México, o Instituto Federal de Acesso à Informação – têm na Internet um dos principais ou o mais importante dos mecanismos para que os cidadãos solicitem e obtenham dados e documentos da administração governamental. As possibilidades de fazer consultas a qualquer momento e de qualquer lugar representa, pelo menos nesse campo, uma des-territorialização na relação entre cidadãos e entidades estatais. O mesmo ocorre no uso dos distintos serviços (trâmites, informação, orientação etc.) oferecidos pelo governo eletrônico. O fato de utilizar a Rede para se vincular aos cidadãos não garante a democratização do governo nem de suas decisões, mas constitui uma nova forma de relação entre uns e outros. Além das instituições estatais, também as de caráter social podem en- contrar espaços de expressão e relação com seu entorno na Rede. Muitas delas costumam ter presença pública escassa e/ou uma vida interna exces - sivamente fechada em si mesmas. É comum, por exemplo, que os sindicatos não informem sobre suas atividades, posições e inquietudes a não ser entre seus próprios filiados e, às vezes, nem sequer isso. As agremiações profissio - nais, instituições educativas e congregações religiosas, entre muitos outros organismos, podem ter na Rede espaços para afiançar sua própria identidade entre seus membros, mas além disso, para serem reconhecidas pelo resto da sociedade como integrantes ativas dela. À medida que as atas de assembleias sindicais, os documentos discutidos por grupos de médicos, advogados ou contadores, os planos de estudos das escolas, ou inclusive os sermões eclesiásticos são disponibilizados on-line , os cidadãos interessados neles, sejam membros ou não desses grupos, contam com vias para acessar estas até agora herméticas agremiações. A Rede pode ser uma vitrine adequada para que as organizações e instituições não governamentais divulguem suas palavras e ações, mas também um indispensável recurso para que a sociedade as examine. Na construção de pontes entre instituições e cidadãos, a Rede é um veículo para expor preocupações, solicitações e iniciativas da sociedade. Ali se encontra um campo vasto de interação e, também, de contraste e competência que pode assumir características expressamente políticas. Para o poder político e as or- ganizações sociais, a Internet constitui um inesgotável espaço no qual podem ser reconhecidas as opiniões dos cidadãos. Para estes, é importante preservar o caráter aberto da Rede como território de manifestação sem restrições. O especialista espanhol David Casacuberta explica essa relevância do ponto de vista da crítica com tendência política de esquerda:

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Por mais virtual que seja, a Internet é também um espaço, e é preciso garantir que seja o mais público possível. Em primeiro lugar, da perspectiva do acesso, que deve ser realmente universal. Mas também é necessário garantir um desenvolvi- mento livre e sem restrições das iniciativas cidadãs. Da mesma forma que uma prefeitura realmente progressista não acredita que a rua seja sua, e que fomenta as atividades culturais, artísticas e políticas sem nunca tentar dirigi-las, o mesmo deve acontecer na Rede. Diante das políticas dirigistas de « autoapontar feitos» e tentar vampirizar iniciativas espontâneas de cidadãos, a terceira esquerda deve financiar e colaborar com quantas iniciativas surgirem e potencializá-las. Porém sua missão não é dirigir ideologicamente essas propostas, mas canalizá-las e assegurar-se simplesmente de que sejam desenvolvidas sob uma perspectiva de liberdade, diversidade e solidariedade (Casacubierta, 2004).

A Rede, dessa maneira, é a área de interrelações com instituições tanto estatais quanto sociais e chega a constituir um novo espaço de disputa políti- ca. Nela, solucionam-se ou, ao menos, se amenizam os litígios mais variados, incluindo, com destaque, aqueles que tratam de temas de interesse público. Além disso, a própria rede é motivo de cobiça e afãs patrimonialistas tanto por parte do poder político quanto de organizações que se autointitulam como representantes do interesse da sociedade. A disputa pelo controle da Internet vai desde os esforços para monitorar e censurar conteúdos de naturezas diversas, até as divergências em torno das políticas para ampliar ou não o acesso e a promoção de conteúdos de interesse público.

N oVA s FR o N te IRA s e N t R e o PÚ b LI co e o PRIVA do

A interação na Rede imita as formas de relação sociais e pessoais que já existem off-line e, além disso, promove o surgimento de outras novas. Aos meios de comunicação tradicionais são oferecidos recursos para conhecer a opinião de pelo menos alguns segmentos de suas audiências (os mais ativos quando, obviamente, contam com acesso à Internet) por meio de seus websites ou do correio eletrônico. Essas formas de retroalimentação contrastam, embora de forma modesta, com a proverbial unilateralidade dos meios convencionais. As audiências deixam de ser entidades nebulosas e inatingíveis para se transfor- marem, ao menos parcialmente, em leitores, telespectadores ou rádio-ouvintes com nomes, inquietudes e sobrenomes muito concretos. Por outro lado, espaços como as salas de chat, ou o intercâmbio por meio de dispositivos de encontro sincrônicos como o Messenger, propiciaram o desen- volvimento de formas de intercâmbio, códigos e normas de relação e inclusive linguagens distintas das existentes até agora. Tanto em grupos amplos como

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no trato pessoal, tais áreas da Rede oferecem possibilidades de encontro onde a irrelevância que adquirem as distâncias geográficas e, em alguns casos, a dissipação das identidades individuais, são motivo para que sejam desenvolvidas relações que não existiriam se não por esses recursos e espaços. A socialização nesses espaços não necessariamente substitui a que existe fora dele. Os internautas que cultivam redes de relação com outros usuários da Rede, longe de se isolarem das comunidades sociais às quais pertenciam, costumam reforçar suas presenças nelas e fazer intercâmbios mais intensos. “A Internet respalda as redes sociais”, concluiu em 2006 um estudo do Pew Internet and American Life Proyect conduzido por especialistas como Jeffrey Boase e Barry Wellman (2006). De fato, grande parte do uso dos espaços de chat , assim como das páginas pessoais em sites como MySpace e Facebook – que adquiriram grande popularidade entre os jovens nos Estados Unidos e em outros países – se dedicam ao reforço, no ciberespaço, das relações de amizade que seus usuários já têm off-line . No final de 2006, o MySpace reunia mais de 110 milhões de perfis, a maior parte de jovens que utilizam esse recurso para compartilhar inquietudes com seus amigos, e estimava-se que a cada dia esse serviço recebia mais 230 mil membros (Andrews, 2006). Ali se reafirmam relações pessoais previamente existentes e se estabelecem outras novas, com pessoas que esses cibernautas ainda não conheceram e talvez nunca conhecerão pessoalmente. As modalidades que os intercâmbios afetivos adquirem nos espaços informáticos constituem novos desafios para o estudo das relações sociais e pessoais. Em outro plano, o uso da Rede também torna possível a socialização «cara a cara» entre aqueles que recorrem a sites públicos para, em primeiro lugar, se conectarem à Internet. Os cibercafés são espaços ao mesmo tempo públicos e privados. A partir daí, são criadas e reproduzidas relações sociais no ciberes- paço, mas, além disso, aqueles que o frequentam podem se relacionar entre si. “Cada um a seu modo, compartilhando um espaço comum”, diz a estudiosa espanhola Mercé Ribas Tur (2004: 4) sobre essa duplicidade de territórios e formas de relação:

Nos cibercafés nos encontramos em um espaço público onde ocorrem interações sociais que são majoritariamente online, gente que envia mensagens ou que con- versa nas salas de chat. Estas pessoas estão socializando, estão criando interações

e o fazem a partir de um lugar público, mas a partir de um anonimato e uma

privacidade e sem interação offline com os demais usuários

A rotina do público

... e do privado se rompe no momento em que os usuários que não se conhecem

começam a falar entre eles.

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O surgimento de novas fronteiras entre o público e o privado, ao mesmo tempo em que o desvanecimento das que já existem, constitui outro dos gran- des temas no reconhecimento da Rede como coleção de áreas fundamentais no exercício do espaço público contemporâneo. Por um lado, a vulnerabilidade dos sistemas de junção e codificação de dados pessoais permite que a informação privada chegue a ser do conhecimento público, às vezes, por abuso de alguns e, em ocasiões, simplesmente por descuido dos usuários da Rede. O consentimento para que fiquem depositados esses pequenos arquivos informáticos denominados cookies, onde são registradas nossas andanças pelo ciberespaço, nos navegadores com os quais acessamos a World Wide Web, permite que esses acessos sejam son- dados sem que tenhamos consciência disso. A facilidade com que nosso correio eletrônico se torna conhecido, por quem envia mensagens de spam, é outra face da vulnerabilidade que o usuário experimenta quando está em contato com a Rede. Por outro lado, a tensão está entre o caráter comercial e o aberto da Internet, onde há sites aos quais é preciso pagar para ter livre acesso; contudo, a grande maioria continua e continuará sendo de gratuitos. Em alguns sites, os usuários podem decidir se qualquer um pode ter acesso ao conteúdo que disponibilizam ou somente aqueles com os quais compartilhem a senha necessária para abrir um arquivo. E, sobretudo, a possibilidade de intercâmbio franco e espontâ- neo permitiu que na Rede estejam, disponíveis à curiosidade de quem quiser conhecê-los, conteúdos de natureza inicialmente privada. Com diversos formatos e protocolos, popularizaram-se recursos informá- ticos que, mesmo com a existência deles, propagam características, momentos ou dados próprios da vida privada das pessoas. As webcams ou câmeras de vídeo conectadas à Rede, que registram em tempo real o que ocorre em locais públicos – por exemplo, as câmeras montadas em várias esquinas da Times Square em Manhattan e cujas imagens podemos ver em nosso computador pessoal – transmitem cenas registradas na rua ou em recintos não privados. As webcams montadas no computador daqueles que querem mostrar por meio delas suas atividades privadas são, por sua vez, instrumentos para expor ao público a intimidade pessoal. A esses usos do registro em tempo sincrônico – nos quais vemos cenas em tempo real – acrescentou-se o, agora muito conhecido, uso do vídeo on-line para divulgar as cenas mais variadas. O sucesso significativo do YouTube, que permite colocar on-line vídeos caseiros e/ou de aficionados, aproveita o fascínio que sempre nos desperta a contemplação de assuntos alheios e o conhecimento das circunstâncias mais absurdas. Criado em fevereiro de 2005 por dois jovens com pouco capital, o YouTube foi vendido 21 meses depois ao grupo Google por 1,65 bilhão de dólares (Cloud, 2006).

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Os usos que milhões de usuários e visitantes fizeram do YouTube e de outros sites similares são tão versáteis e inovadores que ainda deverão ser estudados. A exibição de cenas privadas, que por si só despertariam pouco interesse, mas que logo são assistidas por multidões de cibernautas, constitui uma das práticas que determinaram o surgimento, mesmo que com veloz desaparecimento, de extravagantes ou insólitos personagens. O caráter privado desses conteúdos (que na maioria dos casos são absolutamente triviais e não têm conotações alarmantes nem escandalosas) é abolido pela superexposição à qual são expostos na rede. Em outros casos, o YouTube e similares divulgam vídeos de intenção política: mensagens de grupos de ativistas das mais diversas causas, registro de incidentes em processos eleitorais, reprodução de spots de campanhas, paródias de personagens e temas dessa natureza.

b L o G s , You tube , IP od FA c ILI tA m A APR o PRIAÇÃ o

de co N te Ú dos

Os blogs - esses arquivos abertos onde é possível colocar on-line, e de maneira muito simples, tanto texto quanto imagens e vídeos - diminuem, como nenhum outro recurso, a barreira entre o público e o privado. Assentados fundamen- talmente na expressão escrita, os blogs exigem que seus autores e leitores pra- tiquem a leitura e, em muitos casos, constituem, muito possivelmente, a fonte de informação textual mais abundante da qual se aproximam seus usuários. Ao término de 2008, havia mais de 133 milhões de blogs que mostravam conteúdos dos mais diversos temas 4 . Sobre esse recurso de comunicação e interação, em outro site (Trejo Delarbre, 2007), comentamos que seu caráter de diários abertos propiciou que a maioria desses blogs seja dedicada a relatar vicissitudes e reflexões pessoais de quem os colocar on-line. É preciso certo desprendimento, mas sobretudo, um intenso afã expressivo para disponibi- lizar nessa coleção infinita de janelas que é a Internet, a narração de assuntos extremamente pessoais (amizades, inquietudes, contrariedades, anseios, so - nhos etc.) que são divulgados por milhões de blogueiros, sobretudo jovens, que povoam a Rede com seus diários íntimos. O espaço público do qual faz parte a Internet enche-se de temas privados em virtude desse desnudamento emocional – e de repente também corporal – que praticam os autores de tais diários abertos. A blogosfera, diz o venezuelano Sebastián Delmont, “não é mais que a democratização do ego” (Rodríguez apud Delmont, 2005). Outros recursos permitem a colocação de imagens on-line, sejam elas em movimento como acontece no YouTube ou fixas como no Flickr, onde é possível manter álbuns de fotografias abertos à visitação de todos, ou reservados unica- mente a nossos amigos e familiares. Ali se manifesta outro entrecruzamento

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  • 4. Technorati é o maior

e mais popular agregador de blogs da internet, além de informar as tendências ditadas por blogueiros do mundo inteiro. O Technorati foi um dos pioneiros na web a utilizar a folksonomia, ou seja, a indexação de conteúdo por meio de tags (etiquetas), um sistema inovador de evidenciar o conteúdo de acordo com sua relevância. N.E.

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Internet como expressão e extensão do espaço público tanto entre os assuntos privados e públicos como

Internet como expressão e extensão do espaço público

tanto entre os assuntos privados e públicos como entre a abertura e o herme- tismo na Rede. Porém também exercita, nesses sites, a possibilidade de que cada usuário, sem ser profissional da elaboração ou distribuição de mensagens, possa reunir e divulgar seus próprios conteúdos. A utilização de telefones celulares para tirar fotografias e depois a opor- tunidade para colocá-las na Rede, fazem parte dos novíssimos recursos que permitem aos usuários comuns uma crescente apropriação dos conteúdos on e off-line. Quando são registradas em formato digital e graças às interfaces que possibilitam sincronizar o computador com dispositivos portáteis como o telefone celular, a câmera de fotos ou a agenda eletrônica, as imagens são colocadas em álbuns, blogs ou páginas web. Quem acessa essas imagens, e o mesmo ocorre com os textos que às vezes as acompanham, pode classificá-las de acordo com suas próprias preferências. A catalogação por «etiquetas» que os usuários colocam e que outros podem ratificar ou não, transformou-se em um recurso adicional para que as pessoas façam seus os conteúdos da e na Rede. Tais conteúdos podem ser localizados na Internet, mas não necessariamente permanecem apenas ali. Graças aos dispositivos portáteis que armazenam e permitem mostrar ou reproduzir arquivos digitais, as pessoas podem levar consigo seus documentos, e-mails, fotografias, sons ou vídeos. O Ipod e outros equipamentos de armazenamento em formato digital com os quais, de acordo com a capacidade do pequeno disco rígido de cada dispositivo, é possível acu- mular milhares de músicas e, mais recentemente centenas de vídeos segundo a preferência de cada um, transformaram-se em instrumentos notavelmente úteis para a apropriação individual dos conteúdos audiovisuais. Graças a eles, os usuários estabelecem ritmos, tempos e modalidades em seu consumo cultural. Além da possibilidade de baixar a música e outros conteúdos que cada um grava e armazena em seu computador, o Ipod e dispositivos similares per- mitem o intercâmbio horizontal dos arquivos digitais. O usuário, se assim o desejar, pode compartilhar com outros suas gravações, ou arquivos em outros formatos, seja em espaços habilitados para isso na Internet ou de maneira direta no Ipod , no PDA ou no telefone celular de seus amigos. Essa proliferação de recursos para adquirir e compartilhar conteúdos digitais abre novos desafios em áreas como o direito autoral, mas significa, antes de mais nada, novas formas de democratização do consumo cultural e, obviamente, recursos inéditos de apropriação desses conteúdos por parte das pessoas. Os usuários de tais dispositivos, articulados em torno da Rede, podem ser, além de tudo, produtores de suas próprias mensagens de caráter multimídia. A criação de podcasts, que são arquivos digitais em áudio e/ou vídeo colocados na Internet para que os interessados possam baixá-los em dispositivos portáteis

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como o IPod, está abrindo opções até agora desconhecidas tanto para a expres- são de e entre as pessoas como para a socialização desses conteúdos. Todos esses espaços, recursos e novos costumes na comunicação pessoal, mas também entre os indivíduos e as audiências de massa, estão remodelando o espaço público e, em menor, mas já constatável medida, começam a redefinir também a esfera pública. Nem um, nem outro, poderiam ser entendidos nem desenvolvidos, hoje em dia, sem a existência da Internet. Porém a amplitude e a abertura da Rede das redes não bastam por si só para civilizar o uso do espaço público, nem para tornar mais racional a deliberação na esfera pública. A Rede é de quem a aproveita e até agora foi utilizada de maneiras muito imaginativas, mas não necessariamente para intensificar o intercâmbio racional que seria capaz de ampliar e solidificar a esfera pública. De qualquer modo, o entusiasmo de seus usuários mais criativos, a vontade e a oportunidade que têm para se expressar, o caráter acessível e livre que significa para a expressão de preocupações das mais variadas naturezas, permitem reconhecer a Internet como componente essencial do espaço público. No meio desse oceano de falas - interesses, mensagens e espelhos - é possível encontrar expressões como as de Prasanthi Uppalapati, a moça hindu que, em busca de uma família global, escreve cândidos e iludidos versos à Rede.

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RAÚL TREJO DELARBRE

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Internet como expressão e extensão do espaço público BOASE , Jeffrey et al (2006). The Strength

Internet como expressão e extensão do espaço público

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Internet como expressão e extensão do espaço público BOASE , Jeffrey et al (2006). The Strength
Internet como expressão e extensão do espaço público BOASE , Jeffrey et al (2006). The Strength

Traduzido por Bartira Costa Neves e revisado por ÓsCar Curros M.

Artigo recebido em 6 de novembro de 2008 e aprovado em 5 de fevereiro de 2009.

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Políticas culturais e novos desafios

Cultural policies and new challenges

Políticas culturais e novos desafios Cultural policies and new challenges A N T O N I

A N T O N I O

A L B I N O

C A N E L A S

R U B I M *

Resumo

Inúmeros são os desafios enfrentados pelas políticas culturais desde sua invenção em meados do século XX. A primeira emergência das políticas culturais no cenário mundial, entre 1970 e 1982, colocou um conjunto de desafios e ancorou sua legitimidade na construção das identidades nacionais, que ocupavam centralidade. A segunda emergência, ocorrida no final do milênio, está inscrita em uma sociabilidade alterada por um novo momento do capitalismo, na qual: novos parâmetros econômicos estão presentes; a glocalização aparece como uma realidade; as comunicações e as redes ambientam a sociedade etc. Transversalidade e diversidade culturais são essenciais para entender os novos desafios. Palavras-chave: políticas culturais, transversalidade cultural, diversidade cultural, sociabilidade, identidade nacional

* Pós-doutor em Políticas Culturais e doutor em Sociologia. Docente do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade e do Programa de Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia.

Abst RAC t Countless are the challenges faced by cultural policies since its invention in middle of the 20th century. The first emergence of cultural policies worldwide, between 1970 and 1982 has put in motion a set of challenges and anchored its legitimacy in the construc- tion of national identities, which had central importance. The second emergence, now during the end of the millennium, rises in a sociability altered by a new moment of capitalism, in which: new economic parameters are present; glocalization is a reality; the society is enfolded by networks and the media etc. Transversality and cultural diversity are essential to understand these new challenges. Keywords: cultural policies, cultural transversality, cultural diversity, sociability, national identity

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Políticas culturais e novos desafios I números desafios são enfrentados pelas políticas culturais desde a sua

Políticas culturais e novos desafios

I números desafios são enfrentados pelas políticas culturais desde a sua

configuração contemporânea, a partir de meados do século XX. Aos ante -

riores, situados, em geral, no interior do campo cultural, agora são acres-

cidos outros desafios, advindos do transbordamento da cultura das fronteiras deste campo, processo em geral apreendido pela noção de transversalidade da cultura. Tal noção – cada vez mais usual em documentos de políticas culturais, porém não devidamente lapidada em termos conceituais – implica em uma ampliação do conceito de cultura, na busca de uma sintonia fina com a contemporaneidade em suas significativas mutações.

Para apreender esta nova circunstância em toda sua plenitude, é pre - ciso empreender uma trajetória analítica que aponte as diferenças entre a primeira emergência da temática das políticas culturais nos anos 1970 e o atual ressurgimento do tema no novo milênio e, em especial, assinale a diversidade de desafios colocados para as políticas culturais nas duas conjunturas históricas.

INV e NÇÃ o C o N tem P o RÂN e A DA s P o LÍ t ICA s C u Ltu RAI s

O tema das políticas culturais e de sua conformação não é, por certo, fácil e destituído de polêmicas. Não cabe aqui fazer uma arqueologia exaustiva do seu momento fundacional no mundo ou, pelo menos, no ocidente. As posições de grande parte dos autores que já se debruçaram sobre o tema comportam variações nada desprezíveis, mas parece existir alguma mínima convergência acerca de aspectos da temática. Tal convergência permite que, por exemplo, um estudioso como Xan M. Bouzadas Fernandez escreva:

Si nos atenemos a los diagnósticos efectuados acerca del nacimiento de las políticas culturales en los países occidentales, puede afirmarse que el período generalmente reconocido como fundacional de aquellas que pueden ser entendidas ya de un modo pleno como políticas culturales sería aquel que se extiende entre la década de los años trinta y los años sesenta del pasado siglo XX (FERNÁNDEZ, 2007a: 111).

Após esta afirmativa, o autor lista três experimentos que, acontecidos no período, poderiam se constituir neste ato fundacional: as iniciativas político-culturais da Segunda República Espanhola nos anos trinta; a ins - tituição do Arts Council na Inglaterra na década de quarenta e a criação do Ministério dos Assuntos Culturais na França, em 1959. Entretanto, o próprio autor reconhece que a iniciativa francesa, além de ser a mais estudada, tem maior densidade e envergadura, pois: “la creación del ministério de Cultura en Francia, constituye de entre todas la experiencia más acabada de institucionalización de la cultura” (Ibid: 111).

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Deste modo, assume-se, para efeito de desenvolvimento do texto, que a criação do Ministério dos Assuntos Culturais na França, com André Malraux em sua direção, pode ser tomada como este momento fundacional das políticas culturais, pelo menos no ocidente. Por óbvio, tal opção gera alguma polêmi- ca. Entretanto este caráter tênue e frágil parece inerente à escolha de marcos históricos que intentam substituir complexos processos, dispositivos dinâmi- cos, movimentos muitas vezes sutis e subterrâneos, por fronteiras imóveis e supostamente fixadas. A missão de Malraux não foi apenas instituir o primeiro ministério da cultura existente no mundo, mas conformar uma dimensão de organização nunca antes pretendida para uma intervenção política na esfera cultural. Como assinalou Herman Lebovics:

Cabe destacar um hecho de importancia: Malraux estabeleció el principio con- forme al cual las autoridades públicas tienen una responsabilidad para con la vida cultural de sus ciudadanos, del mismo modo que la tiene – si bien no en la misma medida en lo que respecta a la financiación – para con su educación, salud y bienestar (LEBOVICS, 2000: 292).

A intervenção do novo Ministério, não se deve esquecer, objetivava tam- bém a retomada do poderio cultural francês no ocidente e no mundo, bastante abalado no período posterior à Segunda Guerra Mundial, mas subordinava claramente esta perspectiva política a uma finalidade cultural. Se historicamente a relação entre cultura e política era sempre caracterizada pelo predomínio da finalidade política e pela instrumentalização da cultura, agora acontece uma radical guinada nesta história, inaugurando uma nova conexão, na qual a cultura era o fim e a política apenas o recurso para atingir este fim. Assim, André Malraux, com seu Ministério dos Assuntos Culturais, “in- ventou”, no dizer de Philippe Urfalino (2004) em seu já clássico livro, a política cultural em sua acepção contemporânea. Além de l’invention de la politique culturelle em sua concepção atual, o experimento de Malraux à frente do Ministério dos Assuntos Culturais produziu também outra contribuição essencial para o desenvolvimento das políticas culturais. Ele fez emergir os modelos iniciais e paradigmáticos de políticas culturais, com os quais ainda hoje lidam os dirigentes e os estudiosos do tema. O primeiro destes modelos já se encontrava embrionariamente inscrito nos objetivos definidos pelo decreto de 24 de julho de 1959, que institui o Ministério. De acordo com citação transcrita no texto de Xan Bouzadas Fernández (2007a:

124), no documento oficial está escrito:

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Cultural policies and new challenges D ossI ê Deste modo, assume-se, para efeito de desenvolvimento do

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Políticas culturais e novos desafios El ministerio de Asuntos Culturales habría de tener como misión el

Políticas culturais e novos desafios

El ministerio de Asuntos Culturales habría de tener como misión el hacer accesi- bles las obras capitales de la Humanidad, y en primer lugar de Francia, al mayor número posible de franceses, de garantizarle la más vasta difusión a nuestro patrimônio cultural, y de favorecer la creación de las obras de arte y del espíritu que lo enriquecen.

O decreto de criação e, mais que ele, as maisons de la culture, projeto prioritário de André Malraux em seus dez anos na direção do Ministério, con- formaram o modelo de ação cultural, ou melhor, de democratização cultural, que tem como alicerces: a preservação, a difusão e o acesso ao patrimônio cultural ocidental e francês canonicamente entronizado como «a» cultura. Isto é, único repertório cultural reconhecido como tal e, por conseguinte, digno de ser preservado, difundido e consumido pela «civilização francesa». Este patrimônio agora deveria ser democratizado e compartilhado por todos os cidadãos franceses, independente de suas classes sociais. Além da preservação, da difusão e do consumo deste patrimônio, tal modelo estimula a criação de obras de arte e do espírito, igualmente inscritas nos cânones vigentes na civi- lização francesa e ocidental. Este primeiro período, durante o qual se plasma o modelo inicial de políti- cas culturais, está marcado por uma nítida vocação: centralizadora, estatista e ilustrada, com um nítido viés de atenção para os aspectos estéticos e artísticos (FERNÁNDEZ, 2007b: 125). O rebelde ano de 1968 colocou em crise este modelo ao questionar hierarquias e cânones, atingindo e abalando esta visão elitista de cultura, embora as críticas iniciais ao modelo tenham começado a surgir já em 1966, em especial, com relação ao caráter excessivamente oneroso dos equipamentos culturais construídos. A respeito desta contestação, escreveu Herman Lebovics (2000: 282):

Bajo la proclama de “la imaginación al poder”, los estudiantes desafiaron el proyecto cultural del estado. Derribaron literalmente las Casas de la Cultura que había creado Malraux. A fines del verano, los directores de todas las Maisons de la Culture se reunieron em Villeurbanne y condenaron en forma unánime la natureza no democrática de la política cultural de los últimos diez años.

O segundo desenho paradigmático surge exatamente por contraposição ao modelo inaugural de política cultural. Ele reivindica uma definição mais ampla de cultura, reconhece a diversidade de formatos expressivos existentes, busca uma maior integração entre cultura e vida cotidiana e assume como condição da política cultural a descentralização das intervenções culturais (BOLÁN, 2006: 87).

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O modelo intitulado «democracia cultural» tem como um de seus polos dinâ- micos a criação de Centros de Animação Cultural, menores e menos onerosos que as Casas de Cultura, com financiamento partilhado com as autoridades locais, abertos e receptivos às culturas regionais. Esta alternativa havia sido proposta por gestores como F. Raison e P. Moinot, incorporados ao ministério neste novo instante. Ela será consolidada com a ascensão de Jacques Duhamel ao Ministério da Cultura no governo George Pompidou (FERNÁNDEZ, 2007b: 125). A municipalização da cultura como política está articulada com este movimento de deslocamento do lugar do estado nacional nas políticas culturais francesas (URFALINO, 2004: 309-334).

A u N es C o e A eme RG ê NCIA IN te RNACI o NAL D o tem A DA s P o LÍ t ICA s C u Ltu RAI s

Inventadas as políticas culturais, sua inserção como tema relevante na agenda pública internacional decorre não só do exemplo francês, mas principalmente da atividade desenvolvida no campo da cultura pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). A título de demonstração pode-se construir um quadro-resumo expressivo, panorâmico e não exaustivo, de sua atuação na área cultural, com bases nos principais pronunciamentos emitidos pela instituição multilateral.

Quadro 1

P RINCIPAIS INICIATI vAS CULTURAIS dA UNESCO

declaração Universal dos d ireitos de Autor

1952

declaração de Princípios de Cooperação Cultural Internacional

1966

Convenção sobre as Medidas que se devem adotar para proibir e impedir a Importação, a Exportação e a Transferência Ilícita de Bens Culturais

1970

Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural

1972

declaração sobre a Raça e os Preconceitos Raciais

1978

Recomendação Relativa à Condição do Artista

1980

Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular

1989

declaração Universal sobre a d iversidade Cultural

2001

Convenção sobre a Proteção e Promoção da d iversidade das Expressões Culturais

2005

Fontes: Site da Unesco e bibliografia utilizada.

Este quadro dá uma singela mostra da atividade continuada da Unesco no campo da cultura, uma das suas três áreas de ação, em conjunto com a educação e a ciência e tecnologia (EVANGELISTA, 2003). Esta atuação na esfera

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Cultural policies and new challenges D ossI ê O modelo intitulado «democracia cultural» tem como um

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Políticas culturais e novos desafios internacional possibilita debates, formação de pessoal e, em especial, agenda- mento

Políticas culturais e novos desafios

internacional possibilita debates, formação de pessoal e, em especial, agenda- mento de temas que vão ter importante incidência no cenário político e cultural. Mesmo países que foram submetidos a regimes ditatoriais, como foi o caso do Brasil, sofreram a influência deste agendamento e das decisões emanadas dos encontros da Unesco (BOTELHO, 2001: 89). Esta influência fica ainda mais evidente quando se considera a deliberada intenção do organismo multilateral na perspectiva de atuar ativamente no pata- mar das políticas culturais. Um outro quadro, tão ou mais sugestivo que o ante- rior, pode ser esboçado para as iniciativas da instituição na esfera específica das políticas culturais. Nele, pode-se observar nitidamente a atenção destinada pela Unesco ao tema das políticas culturais, em especial em um determinado período histórico. O expressivo conjunto de iniciativas concentrado por volta da década de 1970, mais precisamente entre 1970 e 1982, torna evidente a prioridade dada ao tema naquela conjuntura social, que, não por acaso, coincide com o momento de mutações das políticas culturais na França, em busca de um novo modelo.

Quadro 2 PRINCIPAI s INICIAt IVA s DA u N es C o NA esfe RA DA s P o LÍ t ICA s C u LtuRAI s

Mesa-redonda sobre políticas culturais – Mônaco

1967

Gênese da ideia de encontro sobre as políticas culturais

1968

Conferência Intergovernamental sobre os Aspectos Institucionais, Administrativos e Financeiros das Políticas Culturais – veneza

1970

Conferência Regional da Europa – Helsinki

1972

Conferência Regional da Ásia – Jacarta

1973

Conferência Regional da África – Acra

1975

Conferência Regional da América Latina e Caribe – Bogotá

1978

Conferência Mundial sobre as Políticas Culturais – Mondiacult – Cidade do México

1982

década Mundial do desenvolvimento Cultural

1988/1997

Criação da Comissão Cultura e desenvolvimento

1991

Conferência Intergovernamental sobre Políticas Culturais para o desenvolvimento

1998

Fontes: Site da UNESCO e bibliografia utilizada.

Além deste conjunto expressivo de encontros, a Unesco implementou outras atividades neste campo que não devem ser esquecidas. Na área edito- rial, por exemplo, ela publicou em 1969, como estudo preliminar e genérico para subsidiar o encontro de 1970, o livro Cultural Policy: a Preliminary Study,

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primeiro de uma coleção que foi editada ao longo da década de 1970, sob o título Studies and Documents on Cultural Policies. Tal coleção buscou analisar a situação da política cultural em países-membros de todos os continentes (BARBALHO, 2005: 33). O livro de Augustin Girard (1972) também traz dados interessantes sobre o assunto. Acompanhar os temas predominantes nos encontros interessa à reflexão, pois as temáticas dominantes expressam preocupações e orientações assumidas. Nesta perspectiva, além dos materiais disponibilizados no site da Unesco, este texto se vale também das análises elaboradas por Guillermo Cortés (2006) e por Eduardo Nivón Bolán (2006). As temáticas que marcam a conferência inaugural de 1970 buscam im- pulsionar a atuação dos estados na atividade cultural e a participação ativa da população na cultura, enfatizando o ser humano como princípio e fim do desenvolvimento. Na conferência regional da Europa o tema destacado é a democratização da cultura. As conferências regionais da África (1975) e da América Latina e Caribe (1978), não por acaso, deslocam seu centro de atenções e colocam em cena o tema da identidade cultural, que reaparece com força e ligado ao patrimônio na Conferência Mundial acontecida em 1982, na cidade do México. Nela, outros assuntos assumem importância, tais como: impulsionar o desenvolvimento cultural; indicar que este processo requer afirmação cultural (identidade, patrimônio e criatividade) e a famosa nova definição (ampla) de cultura, que tanta repercussão tem nas intervenções posteriores da Unesco e nas políticas culturais elaboradas em todo mundo. Devido ao seu amplo impacto, interessa relembrar esta célebre definição:

[

...

]

la cultura puede considerarse [

...

]

como el conjunto de los rasgos distintivos,

espirituales y materiales, intelectuales y afectivos que caracterizan una sociedad o un grupo social. Ella engloba, además de las artes y las letras, los modos de vida, los derechos fundamentales al ser humano, los sistemas de valores, las tradiciones y las creencias (CORTÉS, 2006: 25).

Por fim, em 1998, na Conferência Intergovernamental sobre Políticas Culturais para o Desenvolvimento, outras e novas questões ganham relevância, tais como: a integralidade e transversalidade da cultura e da política cultural; a política cultural como dado central da política de desenvolvimento (sustentável) e o patrimônio imaterial / intangível.

P o LÍ t ICA s C u Ltu RAI s em C e NA: PRI me IR o e PI s ÓDI o

A invenção francesa das políticas culturais na contemporaneidade e a ampli- ficação de sua vigência internacional, patrocinada pela Unesco, possibilitam

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Cultural policies and new challenges D ossI ê primeiro de uma coleção que foi editada ao

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Políticas culturais e novos desafios que o período compreendido entre os anos 1970 e os inícios

Políticas culturais e novos desafios

que o período compreendido entre os anos 1970 e os inícios dos 1980 seja perpassado pela primeira emergência do tema na cena pública mundial, com significativas repercussões em inúmeros países. Além da invenção francesa e da internacionalização propiciada pela Unesco, Eduardo Nivón Bolán sugere a generalização do compromisso dos estados com o bem-estar de seus cidadãos, acontecida naqueles anos, em especial nos países desen- volvidos, como um dos motivos para a ampliação do alcance das políticas culturais (BOLÁN, 2006: 88). Assim, não parece casual, por exemplo, que no Brasil tenha sido formu- lado no ano de 1975, em plena ditadura cívico-militar, um Plano Nacional de Cultura. Por óbvio, o PNC não foi elaborado apenas por influência de condicionantes externos. O lento e gradual processo de desagregação do auto - ritarismo e a necessidade do regime de obter algum grau de hegemonia, já que não podia mais recorrer cotidianamente à violência mais aberta e cruel, por certo têm impacto nesta continuada busca de intervenção na esfera cultural, cooptando intelectuais e artistas (ORTIZ, 1986). Mas a conjuntura externa não pode ser menosprezada para a compreensão da tessitura do único PNC até hoje existente no país. Somente agora, mais de trinta anos depois, está sendo elaborado no Brasil, pública e democraticamente, um outro Plano Nacional de Cultura (2007). A primeira emergência do tema das políticas culturais tem singularidades sobre as quais é preciso refletir. De imediato, sua íntima relação com a questão nacional: seja em seu nascedouro francês; seja na sua internacionalização via Unesco. Trata-se então, fundamentalmente, de articular cultura e nação. Ou melhor, de assinalar e desenvolver o papel estratégico da cultura na construção e/ou consolidação do nacional. Por certo, outras temáticas estão presentes – tais como patrimônio, desenvolvimento etc. – mas a discussão da cultura e das po- líticas culturais sempre está centralmente associada ao horizonte de afirmação das nações. Deste modo, a conformação da identidade nacional, operada pelo acionamento da cultura, fundamenta sua centralidade e legitima as políticas culturais naquela conjuntura. A ass ociação entre cultura, estado e identidade nacional é então possível em um instante no qual a nação se constitui no alicerce de organização do «sistema mundo» e ainda não está sendo colocada em questão pela nova or- dem ou por circunstâncias societárias que estão se configurando, e que logo irão marcar a contemporaneidade com uma nova dinâmica, conformada por um outro momento do capitalismo (cognitivo); pela globalização neolibe - ral (HOBSBAWM, 1996); e pela proliferação das comunicações e das redes (CASTELlS, 1996-1998).

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Cultural policies and new challenges

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A hegemonia neoliberal determina o colapso desta associação, ao impor a retração do estado e ao inibir sua iniciativa em quase todas as áreas de atu- ação, inclusive na cultural. Procedimento semelhante e simultâneo ocorre no panorama internacional relativo a algumas organizações multilaterais e seus vínculos com a cultura. Na época, o declínio das atividades da Unesco é visível, inclusive por conta da saída de países como os Estados Unidos da América e o Reino Unido. Ele pode ser constatado pela observação atenta do quadro anteriormente elaborado sobre o assunto. A centralidade então atribuída à cultura e o modo de conceber as políticas culturais são colocados em crise pela emergência internacional de uma ordem neoliberal, a partir das experiências inglesa e norte-americana, e pela disjunção acontecida entre as políticas cul- turais e a questão nacional. Daí o colapso da primeira emergência das políticas culturais no cenário mundial. No Brasil, a crise das políticas culturais – já fragilizadas por três tristes tradições nacionais: ausência, autoritarismo e instabilidade (RUBIM, 2008) – é aprofundada pela tentativa neoliberal do governo Collor, que reduziu drastica- mente a atuação do estado na cultura, inclusive extinguindo o Ministério, e pela consolidação de um projeto neoliberal no governo Fernando Henrique Cardoso e seu ministro da Cultura Francisco Weffort. Merece destaque a subsunção do tema da identidade nacional, sempre relevante nas políticas culturais no país. José Castello chega a anotar: “A política de «laissez-faire » do governo Fernando Henrique Cardoso permitiu que ficasse em segundo plano, por fim, a antiga (e talvez desgastada) questão da identidade nacional” (2002: 655-656). A gestão Fernando Henrique Cardoso / Francisco Weffort entronizou o mercado, em detrimento da identidade nacional, no núcleo de sua atuação cultural, através das chamadas leis de incentivo à cultura. Tais leis, de imediato, ocuparam quase integralmente o lugar das políticas de financiamento e – ato contínuo – tomaram o espaço das políticas culturais. Assim, o estado retraiu seu poder de deliberação político-cultural e passou a uma atitude quase passiva, através da qual apenas tinha a função de isentar, muitas vezes em 100%, as empresas que «investiam» no campo cultural. Em resumo, ainda que o recurso fosse, em sua quase totalidade, público, o poder de decisão sobre quais atividades deveriam ser apoiadas passou a ser de responsabilidade apenas das empresas. A ausência do tema das políticas culturais no cenário internacional e brasileiro foi ocasionada, por conseguinte, pela pretensão do mercado de ser capaz de resolver a questão cultural na nova conformação societária que estava se constituindo com base no «pensamento único». Ou seja, pela prevalência do mercado sobre a política como modalidade de organização da sociedade e da cultura.

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ANTONIO ALBINO CANELAS RUBIM

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Políticas culturais e novos desafios N oVA so CIA b ILIDAD e e P o LÍ

Políticas culturais e novos desafios

N oVA so CIA b ILIDAD e e P o LÍ t ICA s C u Ltu RAI s

A versão extremada do neoliberalismo não é hegemônica no mundo hoje. O neoliberalismo tem sido contestado no panorama internacional por inúmeros atos, manifestações e encontros, a exemplo dos fóruns sociais mundiais e cul- turais mundiais. O deslocamento de forças políticas neoliberais de governos de diversos países no cenário mundial e latino-americano aponta para um abrandamento da sua etapa mais belicosa e da crença nos supremos poderes do mercado. Entretanto, se é verdade que a fase fundamentalista não é vigente, impos- sível desconhecer a potente presença do neoliberalismo na atualidade, nem que os anos mais radicalmente neoliberais transformaram profundamente a sociabilidade contemporânea e, com isto, conformaram um novo mundo bastante distinto daquele existente nos anos da primeira grande emergência internacional das políticas culturais. Para pensar os novos desafios que in- terpelam as políticas culturais no mundo atual é necessário traçar, ainda que sintética e superficialmente, as linhas mais gerais da nova circunstância socie- tária conformada nos últimos anos, retendo tão somente os componentes que interessam ao tema em debate. A contemporaneidade tem sido associada a noções que enfatizam a cen- tralidade da dimensão do conhecimento: seja através do termo “sociedade do conhecimento” de uso e sentido aproximados à “sociedade da informação”, utilizado alternativamente por alguns organismos internacionais, a exemplo da Unesco; seja pelo recurso à expressão capitalismo cognitivo ou da infor- mação (JAMESON,1991). Apesar da profunda discrepância entre as formulações das inúmeras correntes teóricas e políticas, que se abrigam nestas vertentes de pensamento, interessa assinalar a convergente contemplação do conheci- mento como lugar central na caracterização da sociedade contemporânea. O conhecimento; a produção de bens simbólicos, do intangível e do imaterial; a desmaterialização através da miniatura e da nanotecnologia; enfim, todo um conjunto múltiplo e diversificado de novos processos conforma e, por conse- guinte, fornece a marca do novo momento que atualiza a sociedade. A crescente tessitura entre cultura e economia tem recorrido a expressões como “economia criativa” e “indústria criativa” (HARTLEY, 2005 e HOWKINS, 2001) para tentar dar conta da culturalização da mercadoria e da economia. Isto é, do espaço crescente ocupado pela dimensão simbólica e criativa na determinação do valor no mundo e na economia atuais. O aspecto mais visível e que conseguiu demandar maior atenção dos estu- diosos e dos cidadãos comuns foi, sem dúvida, o caráter global adquirido por este novo arranjo mundial. Não parece casual que a bibliografia existente sobre

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matriz es

Ano 2 – N º 2

primeiro semestr e de 2009

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