O presente relatório foi realizado no âmbito do projeto “Violence in Transit” (JUST/2010/DAP3/AG/1231), financiado pela Comissão

Europeia, ao abrigo do Programa Daphne III, Direção Geral da Justiça. O projeto foi coordenado pela Associazione On the Road Onlus (Itália) e desenvolvido em colaboração com os parceiros: EAPN Portugal - Rede Europeia Anti Pobreza (Portugal), Fundació Apip – Acam (Espanha), Europe Consulting (Itália) e os parceiros associados: Ferrovie dello Stato Italiane (Itália), OSCE-Organization for Security and Co-operation in Europe - The Office of the Special Representative and Co-ordinator for Combating Trafficking in Human Being (Aústria).

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O relatório reflete apenas as opiniões dos autores, a Comissão Europeia não é responsável pela utilização das informações aqui contidas.

Relatório de Investigação Nacional

Projeto Violence in Transit S. Bento no coração da cidade do Porto
Uma abordagem etnográfica à estação ferroviária

JUNHO 2012

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Violence in Transit

FINANCIADOR Projeto "Violence in Transit" - Ref. Num. JLS/2009-2010/DAP/AG/1231 Programa Específico DAPHNE III Programa Geral “Direitos Fundamentais e Justiça” ENTIDADE PROMOTORA EAPN Portugal /Rede Europeia Anti Pobreza ENTIDADE RESPONSÁVEL PELA INVESTIGAÇÃO A3S - Associação para o Empreendedorismo Social e a Sustentabilidade do Terceiro Sector EQUIPA TÉCNICA Carlota Quintão (coordenação) Ana Luísa Martinho Mário Borges Pedro Machado Sandra Oliveira FOTOGRAFIA: Silvana Torrinha CARTOGRAFIA: Paula Alexandra Rodrigues TRADUÇÃO PARA INGLÊS: Fernando Paz, James Sinclair, Andrea Gaspar
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Relatório de Investigação Nacional

Indice
Enquadramento 1. O desenho da investigação 1.1. A fase de exploração 1.2. A fase clandestina 1.3. A fase a descoberto 2. A Estação de S. Bento no coração da cidade 2.1. S. Bento e o território urbano - o cenário 2.2. As perceções e vivências dos habitantes do espaço social 2.3. A perspetiva dos atores institucionais 2.4. S. Bento no coração da cidade - um retrato dinâmico 5 8 9 12 16 19 19 30 42 50

3. Conclusões e pistas para a investigação e a intervenção 59 3.1. Questões para a investigação 60 3.2. Pistas para a intervenção 70 Bibliografia Anexos 74 76

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AGRADECIMENTOS CP - Comboios de Portugal, E.P.E. Rede Ferroviária Nacional – REFER, E.P.E

LISTA DE SIGLAS CP – Comboios de Portugal EAPN Portugal / Rede Europeia Anti Pobreza OTS – Organizações do Terceiro Setor PSP – Polícia de Segurança Pública REFER – Rede Ferroviária Nacional RRMD – Redução de Riscos e Minimização de Danos TS – Trabalhadores do sexo
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Enquadramento
Este estudo enquadra-se no projeto transnacional Violence in Transit. Este projeto é financiado pelo Programa Específico DAPHNE III - Programa Geral “Direitos Fundamentais e Justiça” e promovido por uma parceria de quatro organizações de três países: a Associação On the Road Onlus (coordenador do Projeto) e a Europe Consulting de Itália, a Associação para a Promoção e a Inserção Profissional de Espanha, e a EAPN Portugal. O seu objectivo é o de investigar e experimentar modelos de intervenção sobre fenómenos de violência juvenil em locais de transporte de passageiros, ou outros de mobilidade de pessoas, nomeadamente estações ferroviárias em centros urbanos. A eleição destes temas surge em continuidade com o trabalho dos parceiros italianos, que nos últimos anos têm desenvolvido projetos neste tipo de espaços, de que são igualmente exemplos fronteiras territoriais nacionais ou portos de transportes náuticos. A experiência destes parceiros revela que estes territórios tendem a constituir-se como espaços privilegiados de contacto com fenómenos relacionados com diversas formas de violência, criminalidade e exclusão social. No caso de estações ferroviárias em meios urbanos verifica-se a ocorrência de fenómenos como tráfico de drogas, prostituição, concentração de sem abrigo ou delinquência. Mais concretamente este trabalho identificou como fenómeno emergente a concentração de grupos de jovens associados a novas subculturas desviantes. Neste contexto, estas estações podem ser perspectivadas como espaços físicos e sociais que poderão apresentar características que favorecem a ocorrência destes fenómenos. Por exemplo, tendem a ser edifícios de grande escala, cujas respetivas infraestruturas ferroviárias têm impactes significativos na estruturação do território urbano envolvente, criando espaços onde se verifica um fraco controlo social. A sua implantação tem implicações na ocupação e divisão funcional dos espaços e nas respetivas atividades económicas e sociais que se desenvolvem em torno destes equipamentos de transporte de passageiros e mercadorias,
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designadamente estruturas de armazenamento, acessos e transportes rodoviários. Por vezes, as estações são também estruturas periféricas relativamente a outros locais de maior centralidade simbólica e maior concentração das dinâmicas populacionais, como praças ou parques urbanos, o que dificulta igualmente o controlo social. São ainda espaços que facilitam o anonimato devido à elevada circulação de pessoas, e uma das vias de chegada à cidade de pessoas que são ‘de fora’ e, consequentemente, mais vulneráveis. Esta experiência constitui o ponto de partida para o desenho de um projeto de investigação-ação que visa aprofundar o trabalho desenvolvido em Itália e explorar estes temas em Espanha e Portugal, através de três estudos de caso. Respectivamente estes são: Pescara, Barcelona e Porto. No caso do Porto o projecto seleccionou S. Bento, uma das duas estações de comboios da cidade. Globalmente o projeto estrutura-se em quatro fases: 1) realização das investigações nacionais; 2) desenho e implementação de experiências de intervenção sobre os fenómenos estudados nos três casos; 3) reflexão em torno da criação de um modelo de planeamento e intervenção sobre estes fenómenos sociais, centrado nas características específicas deste tipo de território; 4) ações de disseminação e transferência de resultados. Para a realização das investigações nacionais e atendendo à comparabilidade dos resultados, o projeto definiu orientações, incluindo instrumentos comuns de recolha de informação primária. Estas orientações são as de uma abordagem centrada no território em análise com recurso a métodos etnográficos, nomeadamente à técnica da observação em complementaridade com entrevistas com atores locais. O presente estudo concretiza a primeira fase do projeto na componente de investigação portuguesa. A partir das linhas gerais de enquadramento do projeto e das suas margens de flexibilidade no ajustamento às características específicas de cada caso, desenhamos uma abordagem ancorada num paradigma de investigação qualitativa, de base indutiva e fenomenológica. O conhecimento e as percepções prévios da equipa de investigação, bem como os primeiros resultados da fase exploratória,
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evidenciaram a maior capacidade heurística desta opção, comparativamente com uma abordagem orientada por uma lógica hipotético-dedutiva. Efectivamente, a combinatória de problemáticas teóricas centrais para o projeto - violência, juventude e estações ferroviárias/locais de mobilidade de pessoas - surge com um carácter excêntrico no contexto nacional. Ou seja, a hipótese segundo a qual as estações ferroviárias são locais privilegiados de ocorrência de fenómenos de violência juvenil, não encontra sinais empíricos significativos, nem eco na investigação científica em Portugal. No entanto, a estação de S. Bento constitui reconhecidamente um território onde se manifestam problemáticas identificadas igualmente pela experiência italiana, entre as quais a delinquência, a prostituição ou a toxicodependência. Neste sentido, este estudo de caso configura-se pertinente para a exploração da hipótese de existência de uma relação entre as características específicas deste tipo de espaço físico e social e a manifestação de fenómenos no campo teórico mais amplo da pobreza e exclusão social. Perante este contexto, situamos a investigação numa perspetiva eminentemente exploratória, orientada por questões abertas de partida. Estas visam compreender e caracterizar as problemáticas sociais presentes no território de S. Bento, e a violência juvenil em particular, bem como, de perscrutar a relação entre a ocorrência destes fenómenos e as características específicas deste espaço. Realizada entre dezembro de 2011 e abril de 2012, esta investigação assume a configuração de um estudo etnográfico, dentro dos limites de recursos disponíveis, nomeadamente da escassez de tempo. Com apenas 12 semanas de trabalho de terreno, a possibilidade de aplicação de técnicas etnográficas mais exigentes, nomeadamente as de participação dos investigadores na própria realidade empírica estudada, ficou inviabilizada à partida. Este estudo estrutura-se em três pontos. O primeiro dá conta do desenho e percurso da investigação, o segundo apresenta os resultados da análise empírica e o último apresenta as conclusões e pistas para as fases subsequentes do projecto.
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1. O desenho da investigação
Esta investigação foi pautada por um paradigma de análise intensiva centrado na compreensão em profundidade do objeto de estudo Estação de S. Bento. Com base num número restrito de dimensões de análise, privilegiamos uma abordagem interpretativa situando a investigação num contexto de descoberta, ao invés de procurar testar hipóteses. Partimos para a exploração do nosso objeto empírico através de três questões de partida: 1. Como se caracteriza S. Bento enquanto estudo de caso de um espaço cuja função relativa ao transporte de passageiros origina uma forte mobilidade de pessoas? 2. Que fenómenos sociais no quadro da pobreza, da exclusão social e da violência juvenil se verificam em S. Bento? 3. Em que medida está a ocorrência desses fenómenos associada à estação e às características específicas deste espaço? Seguimos os procedimentos metodológicos próprios de abordagens qualitativas que nos permitiram assegurar uma “triangulação perspectivacional” (Pais,2000, p. 14). Adotamos particularmente os princípios teórico-metodológicos e os instrumentos de recolha de informação empírica próprios da etnografia. A técnica de observação, complementada com o recurso ao diário de campo, desempenhou um papel estruturante na estratégia de abordagem ao terreno. Esta técnica, presente desde a fase exploratória, implicou uma reflexão permanente das estratégias de ‘estar’ no terreno e de interagir com os seus atores. Designadamente implicou um percurso faseado, durante o qual as técnicas complementares de recolha de informação (análise bibliográfica e entrevistas) foram estrategicamente planeadas e redesenhadas em função do conhecimento e experiência adquiridos. Foram portanto valorizadas as técnicas abertas de recolha de dados e as amostras intencionais/teóricas, com desenhos de investigação emergentes ou em cascata (Pais, 2000, p. 14), caracterizadas pelo recurso a um certo ecletismo metodológico. A abordagem foi essencialmente indutiva e fenomenológica, tendo partido do terreno para enformar toda a investigação, ou seja, valorizou-se a
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“experiência como ponto de partida para a generalização do conhecimento” (Freixo, 2009, p. 77). A investigação estruturou-se em três fases. O próximo esquema resume o trajeto realizado, o qual seguidamente é descrito em detalhe. Quadro 1 | Percurso da Investigação

Fonte: autores

1.1. Fase exploratória
No momento de partida a equipa de investigadores trazia na bagagem os instrumentos científicos mencionados, bem como um património vivido do próprio objeto de estudo. Efetivamente, S. Bento está localizada no centro da cidade, na qual todos os investigadores residem e/ou desenvolvem a sua vida quotidiana, sendo igualmente utilizadores da estação. Neste contexto, a primeira estratégia adotada foi a de proceder a deambulações pelo território, ao que podemos chamar de “observação flutuante” (Pais, 2000: 14). Tratou-se neste caso de experienciar o espaço, para lá do senso comum e das preconceções
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dos investigadores, para observar um retalho do território urbano como objeto de estudo científico. Nesta fase inicial de interação social, referida por vários autores (Arborio e Fournier, 1999; Peretz, 2000) como essencial para conhecer o terreno e aumentar o sucesso da relação do observador com o meio, procuramos uma ruptura epistemológica com a familiaridade adquirida no quotidiano. Nesta primeira imersão no terreno, não recorremos a nenhum instrumento de registo, valorizando a reflexão crítica de desconstrução dos aprioris e do seu potencial enviesamento da análise. Complementarmente à observação flutuante procedemos à inventariação dos atores sociais potencialmente relevantes para entrevistar. Identificamos 25 atores, incluindo as organizações com responsabilidade direta sobre a gestão e segurança do espaço público, OTS e outros informantes privilegiados. Foram realizadas três entrevistas exploratórias1. Junto da CP visamos explicar os objetivos e a metodologia do projeto, esclarecer os procedimentos logísticos e formais do trabalho de terreno e recolher informação sobre os fenómenos de violência e exclusão percecionados no território, bem como sobre as suas intervenções face aos mesmos. Junto de dois informantes privilegiados, com relações de proximidade com os fenómenos em análise, realizamos entrevistas em contextos mais informais. Paralelamente, demos início à pesquisa bibliográfica em bases de dados on-line, bibliotecas, centros documentais, instituições e sites de referência2. Os objetivos foram os de inventariar a produção de investigação em Portugal sobre os temas em análise entre 2001 e 2011. Selecionámos um conjunto de palavras-chave de acordo, por um lado, com a matriz de análise espacial (estação de S. Bento, Porto, estações/locais de mobilidade de passageiros), por outro, com as problemáticas teóricas da investigação. Neste domínio privilegiamos primeiramente a violência juvenil (juventude/jovens; violência), e complementarmente outras palavras e conceitos que foram surgindo associados a estes fenómenos, tais como: delinquência, criminalidade,

1. Anexo I| Guião de entrevista exploratória 2. Anexo II |Lista das bases de dados consultados 11

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pobreza, exclusão social, marginalidade e diversas problemáticas dentro do campo dos comportamentos desviantes: consumo de drogas, trabalho sexual, sem-abrigo, entre outras. Esta fase de trabalho levou a uma conclusão central para o curso da investigação. Constatamos como desadequada a ênfase dada ao fenómeno da violência juvenil. A expressão deste fenómeno evidenciou-se sem relevância no caso concreto, tanto pela nossa observação, como pelos testemunhos dos atores entrevistados. Os fenómenos observados não envolvem particularmente a população jovem e o cenário é o da manifestação de vários tipos de desvio social. Este tema está também ausente das prioridades das entidades responsáveis pela segurança pública e pela gestão das estruturas ferroviárias ao nível nacional, assumindo um caráter residual, episódico e disperso. É igualmente um tema ausente das preocupações da investigação científica. Neste sentido, esta variável passou a ter um estatuto igual às restantes variáveis de análise, no quadro mais amplo das problemáticas de exclusão social. Desta fase resultaram ainda outros instrumentos importantes, nomeadamente: - Uma análise espacial aprofundada e sistematizada num primeiro mapa de caracterização do espaço físico e social da estação, identificando os atores, as vivências e as configurações de diferentes micro espaços. - Um ajustamento das grelhas de observação3. Para além da reorganização dos registos em dois campos de observação – “caracterização espaço/ator” e “caracterização fenómeno/ator” – foram incluídas novas categorias de preenchimento com ênfase em dados qualitativos, bem como um espaço para o diário de campo. - Uma primeira categorização do levantamento bibliográfico por índice temático e obras de referência. Estes resultados levaram-nos a conduzir a investigação para uma nova fase.

3. Anexo III |Grelha de observação direta 12

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1.2. Fase clandestina
Nesta fase desenvolvemos, paralelamente, um aprofundamento do trabalho de terreno e a análise bibliográfica. Prosseguimos o trabalho de terreno centrado na técnica de ‘observação direta’ na medida em que foi particularmente orientada para investigar “comportamentos que não são facilmente verbalizados” (Peneff, 1992 cit. Por Arborio e Fournier, 1999, p.20). Foi inviável aplicar a técnica de observação participante, na medida em que implicaria um “período prolongado de persistência no terreno” (Caria, 2003: 12), enquanto membro do grupo estudado. Procedemos a uma “observação presencial” ou in situ (Pais, 2000: 14). A observação não participante é caracterizada por Almeida e Pinto (1995) como aquela em que não existe “intervenção do observador nos grupos, nas situações, nos processos sociais em análise” (p. 108). No sentido de garantir o habitual funcionamento das rotinas no espaço, bem como a sua melhor compreensão, optamos por desenvolver uma observação clandestina (Arborio e Fournier, 1999; Peretz, 2000). Foram preenchidas 19 grelhas de observação, com os respetivos registos de diário de campo. Pretendeu-se com uma abordagem descritiva, ao longo da nossa familiarização com o terreno, apreender quais eram as realidades que se iam repetindo e também quais eram as singularidades de cada situação. Os diários comportam um conjunto de considerações metodológicas e “dicas” para o futuro trabalho de campo, registos das conversas com as pessoas que habitam o espaço e que testemunham os fenómenos sociais em análise e informação de cariz subjetivo - primeiras impressões; aspetos surpreendentes e confirmações de expectativas prévias; notas da experiência individual de cada investigador. Assim, podemos afirmar que o próprio processo de redação do diário de campo, e o processo reflexivo a montante e a jusante do mesmo, se traduzem num “processo de construção do sentido” (Fernandes, 2003, p. 26). Procedemos a uma observação metódica e sistemática, distribuída pelos diversos dias da semana e horas do dia. Num curto espaço de tempo a clandestinidade e discrição dos observadores foi colocada em causa. A observação por períodos de tempo longos, sobretudo
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por um investigador isolado, ficou claramente comprometida. Sendo poucas as pessoas que permanecem duradouramente no espaço, os próprios investigadores tornavam-se igualmente alvo de observação. Com efeito, importa ressalvar que os locais de observação são exíguos e que o fluxo de pessoas não permite a permanência dos investigadores em regime de anonimato. Os agentes de segurança em particular, pela incumbência das suas funções, procedem a uma análise cuidadosa do comportamento de todos os que permanecem na estação, condicionando o ‘estar’ dos investigadores no terreno. Neste sentido, a estratégia passou por realizar turnos mais pequenos e com maior alternância entre os observadores, conjugados com a marcação de observações mais longas, que denominamos de ‘maratonas de observação’. Estas últimas permitiram uma melhor compreensão das mudanças dos fenómenos em análise ao longo de um dia completo. Simultaneamente foram realizadas as entrevistas semidiretivas a instituições com intervenção no território em análise. Foi estabelecido um critério de seleção dos entrevistados segundo uma lógica espiral progressiva em função da sua relação com o espaço e da sua intervenção direta no mesmo - do centro (estação) para a periferia (território envolvente). Realizámos entrevistas a um total de seis atores institucionais: três, a representantes de organismos de segurança da estação (o inspetor responsável pela Segurança Ferroviária da CP; agentes da Polícia Ferroviária) e espaço envolvente (agentes da Polícia de Segurança Pública); três, a técnicos das OTS com intervenção direta na zona de S. Bento (a APF, através do Espaço Pessoa, Centro de Encontro e Apoio a Prostitutas (os) Médicos do Mundo e a Arrimo). O guião de entrevista foi constituído por tópicos de modo a deixar aos entrevistados uma certa liberdade, que se refletiu na duração das mesmas e na diversidade das respostas. As entrevistas decorreram nas sedes das instituições, por opção dos entrevistados. Nesta fase do trabalho de terreno, concluímos ter esgotado a viabilidade da observação clandestina e esgotado igualmente as entrevistas aos atores institucionais que mais direta e significativamente têm intervindo em S. Bento. A restante lista de atores inventariados foi considerada potencialmente útil para pensar nas estratégias de intervenção a implementar nas próximas fases do projeto.
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Do ponto de vista da caracterização do objeto de estudo, as conclusões revelam uma uniformidade e congruência dos resultados obtidos a partir da observação e dos testemunhos dos entrevistados. O cenário geral dos fenómenos que ocorrem no território, bem como a sua manifestação em diferentes microespaços, estava globalmente apreendido. Estas conclusões conduziram a investigação para uma nova fase de observação declarada, articulada com as entrevistas abertas aos atores que habitam o território. Neste sentido, construímos um guião de raiz4 dirigido a estes interlocutores que pretendeu captar de forma aberta as suas perceções sobre o território. Designadamente, o novo guião possibilitou uma maior liberdade de conteúdos, ao não introduzir temas não abordados pelos entrevistados, e uma maior fluidez de discurso, permitindo assim apreender as construções de sentido dos próprios sujeitos. Paralelamente ao trabalho de terreno, a análise bibliográfica e documental seguiu uma estratégia de seleção e análise de conteúdo orientada pelo seguinte esquema lógico. Figura 1| Esquema lógico

Fonte: autores

4. Anexo IV | Guião aberto entrevista aos atores residentes 15

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As principais conclusões desta análise foram as seguintes: - A investigação sobre a violência juvenil em Portugal é muito escassa, e é nula relativamente ao caso específico deste fenómeno no Porto ou em espaços de trânsito ou mobilidade de passageiros, incluindo a estação de S. Bento. - Existe uma grande produção científica sobre violência, contudo abordando esta temática em sentido amplo ou com uma especial incidência nos temas da violência sobre a mulher e sem uma correlação significativa com o tema da juventude. Em termos teóricos o tema da juventude surge particularmente enquadrado no conceito de delinquência. - Os comportamentos desviantes nos jovens tendem a ser investigados em cruzamento com o consumo de drogas e outros fatores condicionantes, nomeadamente com os contextos desfavorecidos de origem ou a parentalidade deficitária. Desta análise resultaram fichas de leitura que sustentaram a investigação quer no domínio metodológico, quer no domínio teórico, permitindo sistematizar um conjunto de instrumentos concetuais para a leitura da especificidade dos diferentes fenómenos observados. Conceitos como os de comportamento desviante, marginalidade, delinquência, criminalidade, violência, pobreza e exclusão social, são fundamentais para a apreender a complexidade do nosso objeto de estudo. Neste ponto apercebemo-nos também da necessidade de concluir o trabalho de terreno e avançar para o tratamento e análise dos dados empíricos, para posteriormente completar a pesquisa e análise bibliográfica. Tratou-se de completar a pesquisa da informação relevante, nomeadamente aquela relativa à caracterização e análise do território urbano.

1.3. Fase a descoberto
A fase final da investigação foi dedicada à conclusão do trabalho de terreno, ao tratamento e à análise da informação, bem como à conclusão da análise documental.
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Realizámos uma observação direta e declarada, na medida em que foi articulada com entrevistas abertas aos atores que habitam o território de estudo (que lá passam grande parte do seu quotidiano). O princípio desta abordagem foi o de elaborar um número restrito de questões abertas, sem pressupor de partida a existência ou a focalização da conversa sobre as problemáticas sociais em análise. O guião de entrevista foi constituído apenas por dois temas gerais – as perceções e vivências sobre a estação e sobre a intervenção sobre a mesma – os quais constituíram tópicos para o aprofundamento das conversas. Procurou-se um ambiente informal, a fim de deixar os entrevistados à vontade face à situação de entrevista que sabemos representar sempre um momento “sob o constrangimento de estruturas sociais” (Dias in Esteves; Azevedo, 1998: 43). No mesmo sentido, estas entrevistas foram feitas na estação e nos respetivos locais de trabalho e de lazer dos entrevistados. Os resultados foram conversas com orientações e conteúdos muito diversificados, e com durações e níveis de profundidade bastante variáveis entre si. Realizamos um conjunto de 34 entrevistas, a pessoas que trabalham no território, cinco das quais pessoas que experienciam situações de exclusão social (consumidores de drogas e TS). O guião de entrevista foi o mesmo para ambos os tipos de interlocutores. A estratégia de abordagem aos atores no terreno foi distinta para os diferentes espaços físicos que compõem a globalidade do território em análise e para os diferentes atores. Junto dos atores que se situam no exterior da estação, declarámos que nos encontrávamos a colaborar com a EAPN Portugal numa caracterização/descrição de S. Bento. Alguns lojistas recusaram-se a falar, alegando indisponibilidade ou manifestando receio, eventualmente relacionadas com situações irregulares de imigração. No interior da estação, o nosso contacto direto com comerciantes e seguranças foi precedido da comunicação prévia por parte do responsável pelo Gabinete de Segurança Ferroviária. Podemos afirmar que abordamos a quase totalidade do universo de atores e que a taxa de sucesso foi elevada.
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No que se refere às pessoas envolvidas nos fenómenos sociais em análise, optamos por uma abordagem em bola de neve. Solicitamos inicialmente a mediação de dois atores distintos. Por um lado, a uma das lojistas entrevistada, a qual revelou uma proximidade com estas mulheres que diariamente se encontram no local, e particular sensibilidade para com a temática. Por outro lado, à OTS que intervém diretamente em S. Bento e, mais concretamente, ao educador de pares que com esta colabora. Obtivemos uma amostra de cinco entrevistas, três homens consumidores de drogas e duas mulheres TS. O limite temporal da investigação impediu o alargamento da amostra. No entanto, importa sublinhar que, do ponto de vista quantitativo, as estimativas do número de pessoas envolvidas nos dois fenómenos mencionados e que habitam regularmente o espaço indicam valores na ordem da dezena, no caso das mulheres TS, e das duas dezenas, no caso dos consumidores de drogas. Para além destas duas problemáticas e perante a compreensão da complexidade dos fenómenos desviantes identificados, importa ainda referir a expectável dificuldade de acesso à maioria das pessoas envolvidas nos mesmos. A ilegalidade das práticas de alguns, a profunda reprovação social das práticas de outros ou ainda as condições de saúde mental ou os estados de consciência alterados, são alguns dos fatores que implicariam uma abordagem mais complexa e prolongada no tempo. A matriz de análise territorial que guiou o nosso estudo, bem como a natureza da informação e da abordagem que adotamos levou-nos a uma apresentação dos resultados inspirada nos contributos da antropologia visual. O próximo capítulo expõe estes resultados. Os temas são abordados com o rigor científico exigido a um estudo desta natureza, sendo a análise do território apresentada com o recurso a uma linguagem cinematográfica que pretende permitir a visualização do mesmo e dos seus fenómenos, particularmente a quem desconhece o território (Ribeiro, 2004).
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Começamos pela nossa análise descritiva do objeto de estudo e do seu enquadramento no território urbano, a partir da observação e da análise documental. Procuramos ilustrar a reflexão com recurso à fotografia e à cartografia. Seguidamente são apresentadas as perspetivas dos protagonistas deste cenário: as pessoas que habitam este espaço social e os atores institucionais que sobre ele intervêm. Concluímos a apresentação destes resultados com a proposta de uma narrativa imagética - ‘Um dia comum em S. Bento’ -, de inspiração cinematográfica e literária, convidando o leitor a colocarse na experiência do “estar” e observar o nosso objeto de estudo. No capítulo final sistematizamos as conclusões da análise dos dados empíricos a partir das problemáticas teóricas em análise. Trata-se de contribuir para a problematização da hipótese das estações ferroviárias como espaços privilegiados para a manifestação de fenómenos de pobreza e exclusão social, e para o diagnóstico de necessidades e recursos, lançando pistas para a fase de intervenção. Este estudo assume portanto um perfil etnográfico, quer pelo desenho da investigação, quer pelas opções de tratamento e apresentação dos resultados. Exemplos claros desta “análise holística do social” (Caria, 2003, p.14) são a combinação eclética de técnicas qualitativas, o recurso ao diário de campo, as orientações relativas ao prolongamento das observações por períodos mais extensos, ou o recurso a uma linguagem visual. Todavia, o enquadramento da investigação, nomeadamente os objetivos e a programação do Violence in Transit, impediram a integração de elementos, por regra centrais, das abordagens etnográficas. Impediram designadamente, um período prolongado de permanência no terreno e a aplicação da técnica de observação participante (Caria, 2000, p. 12).

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2. A estação de S. Bento no coração da cidade
2.1. S. Bento e o território urbano – o cenário
S. Bento situa-se na Sé, uma das mais antigas freguesias do Porto e local de estabelecimento dos primeiros povoados que deram origem à cidade. Analisando o desenvolvimento urbano do território, a estação encontra-se precisamente na fronteira entre a cidade medieval e a cidade moderna, que se desenvolveu ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX. O centro histórico, composto por quatro freguesias (Sé, Miragaia, S. Nicolau e Vitória), é, desde 1996, reconhecido pela UNESCO como Património Mundial, dadas as suas idiossincrasias paisagísticas, patrimoniais, históricas e culturais. A zona classificada circunscreve, além de outras áreas adjacentes, toda a extensão abrangida pelo traçado medieval das antigas muralhas Fernandinas, erigidas no séc. XIV com o intuito de proteger o burgo que aí se consolidava. Estas freguesias são ainda hoje habitadas por populações locais com culturas identitárias de forte expressão bairrista. Do ponto de vista físico são áreas urbanas envelhecidas, onde existe um elevado número de edifícios devolutos, não obstante a significativa intervenção ao nível das políticas de requalificação urbana e de revitalização económica, social e cultural de que tem sido alvo. Esta zona histórica prevalece dedicada à função residencial, incluindo pequeno comércio e serviços de proximidade, mas também às funções comerciais, de serviços e associadas ao turismo, típicas dos atuais centros urbanos. Alvo de numerosas intervenções nos últimos anos, incluindo o realojamento de parte da população em concelhos limítrofes, esta zona tem verificado uma intensa perda e envelhecimento populacional. Os últimos dados dos Censos do INE disponíveis ao nível da freguesia, indicam uma população aproximada de 13 000 habitantes em 2001 e uma perda populacional superior a
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50% relativamente aos censos de 1981, quando este valor era de 28 000 habitantes. Estima-se que esta tendência se tem agravado nesta zona, à semelhança da perda populacional verificada para o conjunto das freguesias que compõem a área delimitada da cidade do Porto, com 327 mil habitantes em 1981, 302 mil em 1991 e 237 mil em 2011. De acordo com o Diagnóstico Social do Porto5, “no contexto urbano portuense, o centro histórico é caracterizado como uma zona problemática em termos sociais, com elevadas taxas de desemprego, proliferação de marginalidade, tráfego de estupefacientes, marginalidade e pequena delinquência. Esta característica tem vindo a ser atenuada, pelo facto de ser uma zona com um elevado poder de atração turística, e também por ser um ponto de referência da vida noturna. […] A degradação do edificado provoca uma sensação de insegurança muito grande, que se torna demovedor de vontades de permanecer na zona, bem como um facto dissuasor de atrair novos residentes. Se aliarmos a migração, a obsolescência do comércio tradicional, a insegurança, deparamo-nos com um dos principais triângulos constrangedores do desenvolvimento da Zona” (p. 23). A cidade moderna expandiu-se, em torno deste núcleo urbano medieval. Novas vias rasgaram a cidade a norte e noroeste para as zonas dos Aliados, da Batalha e de São Lázaro (o que hoje se designa por ‘baixa da cidade’, não obstante o caráter montanhoso do território). Ao longo do rio, em continuidade com a Sé, estendeu-se a mancha de bairros populares, que se expandiu significativamente no século XX com a industrialização da zona oriental da cidade. Só nos

5. O Diagnóstico Social do Porto é desenvolvido pela Rede Social Concelhia. “A Rede Social é um fórum de articulação e congregação de esforços das autarquias e de entidades públicas ou privadas com vista à erradicação ou atenuação da pobreza e da exclusão e à promoção do desenvolvimento social. [...]A gestão, dinamização, acompanhamento e avaliação do Programa Rede Social é da competência do Ministério da Solidariedade e da Segurança Social.” (Fonte: site da Segurança Social, disponível em: http://195.245.197.202/left.asp?03.06.10, consultado a 13.05.12). 21

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séculos XIX e XX, a cidade cresceu na direção poente, nomeadamente para a zona da Boavista, que integra a atual delimitação do centro urbano do Porto. Todavia, este é já um território significativamente distante do nosso objeto de estudo. Após o crescimento das periferias urbanas que formam hoje a área metropolitana do Porto, e da consequente desertificação da baixa e degradação do centro histórico, estas zonas tem sido alvo de processos de requalificação, de que são exemplos a Iniciativa Comunitária URBAN, Porto Capital Europeia da Cultura 2001 ou as intervenções resultantes da classificação de Porto Património Mundial. Numa escala mais ampla, importa igualmente mencionar a entrada em funcionamento do Metro do Porto (2002), pelo impacto estrutural na rede de transportes urbanos e suburbanos. O Metro reforçou nomeadamente, as alternativas ao transporte ferroviário entre a zona oriental da cidade - a estação de Campanhã – e o centro da cidade – S. Bento. De acordo com os dados da CP (E1), se no primeiro ano de entrada em funcionamento do Metro, a estação de S. Bento verificou uma perda de 5% no volume total de passageiros, no segundo ano, este volume inverteu a tendência, aumentando para 15%. Atualmente a zona histórica e a ‘baixa da cidade’ verificam fenómenos de valorização imobiliária, de aumento do interesse turístico, intensificação da vida noturna, cafés, restaurantes, hotéis, bares, etc. Os próximos mapas apresentam o enquadramento de S. Bento no território urbano.

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MAPA 1 – Delimitação do centro urbano da cidade do Porto

MAPA 2 - Localização de S. Bento no centro histórico do Porto

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Num período marcado pela expansão da rede ferroviária em Portugal, a estação de S. Bento iniciou o seu funcionamento em 1896, apesar de a sua inauguração oficial só ter sido realizada 20 anos mais tarde. Construído sobre o local do antigo Convento de S. Bento de Ave-Maria, o edifício que a alberga detém um elevado valor patrimonial. Referenciada nos roteiros turísticos e considerada, em agosto de 2011 pela revista Travel + Lesure, como uma das mais belas estações do mundo, S. Bento é conhecida pelos paneis de azulejos que forram as paredes do átrio principal, alusivos a acontecimentos ou períodos que marcaram a história do país. Dado o seu valor patrimonial, o edifício torna-se num dos grandes pontos de atração da cidade, recebendo diariamente inúmeras visitas turísticas. Esta relação com a indústria do lazer torna-se também evidente pela localização de um Posto de Turismo, a escassos metros da estação. Desde 1877 que a estação ferroviária de Campanhã servia já a cidade do Porto. Apesar da preponderância que esta assumia no transporte de passageiros e mercadorias, subsistia o inconveniente da sua localização na zona oriental, então periférica ao perímetro da cidade e longe do centro urbano. S. Bento estabeleceu esta ligação, cumprindo assim uma função ‘metropolitana’ e facilitando igualmente a ligação à capital. A esta função ‘metropolitana’ acresce, com a progressiva construção da rede ferroviária, a função de ligação direta com outras regiões do país. S. Bento é hoje o ponto terminal da linha regional do Norte e das linhas suburbanas do Douro, Minho e Guimarães. No ano de 2011 a estação verificou uma média diária de 31850 passageiros, correspondendo 95% deste movimento a serviço suburbano. Campanhã é o ponto de ligação aos serviços de longo curso, designadamente à linha regional do sul, bem como aos serviços internacionais. Numa perspetiva morfológica e topográfica, S. Bento situa-se no topo de uma elevação rochosa, no limite do centro histórico
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medieval. Das traseiras da estação (lado este), e até à zona da Batalha, o terreno ergue-se num novo bloco granítico perfurado por um túnel que serve a circulação ferroviária que dá acesso à gare. A norte, a estação está no limiar da cidade moderna, através da continuidade da Praça Almeida Garrett com a Avenida dos Aliados, a Rua de Sá da Bandeira e a Rua 31 de Janeiro. Esta última, com uma inclinação íngreme liga a estação à Praça da Batalha. O edifício possui três frentes: a porta norte, que permite o acesso à Rua da Madeira; a porta poente, entrada principal voltada para a Praça Almeida Garrett; e a porta sul, que liga à Rua do Loureiro. Trata-se, portanto, de um espaço circunscrito no território, rodeado por vias de circulação automóvel estreitas.

A Estação de S. Bento

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MAPA 3 - Levantamento funcional de S. Bento e ruas envolventes

O território urbano em análise envolve funções diversas, tais como residenciais, comerciais, turísticas e de lazer, como se pode observar no mapa que a seguir se apresenta. A Rua do Loureiro é contígua ao bairro da Sé e caracteriza-se pela sua função habitacional, mas também pelo comércio e, pontualmente, por pensões e serviços de proximidade. É uma rua com uma longa tradição no comércio de eletrodomésticos e de outros produtos eletrónicos de baixo preço, bem como afamada pela venda de produtos de contrabando e contrafação. Recentemente, esta rua tem sido escolhida por imigrantes indoasiáticos que aí sediam as suas lojas de vestuário, ‘bugigangas’ e comércio de produtos de baixo preço. É uma rua com circulação automóvel apesar do seu perfil estreito e acidentado. Liga a Praça da Batalha com S. Bento, sendo uma zona onde é historicamente reconhecida a presença de casas de alterne e vida boémia.
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Rua do Loureiro

No lado oposto, na Rua da Madeira, a habitação é escassa e verifica-se uma concentração de serviços de restauração, frequentes nas imediações das estações ferroviárias. São cerca de cinco tascos, casas de pasto ou cafés. Há ainda um estabelecimento de diversão noturna. A circulação automóvel existente realiza-se apenas numa parte da rua e para acesso dos moradores e cargas e descargas, bem como ao parque de estacionamento ao ar livre, pertencente à estação. A rua vai estreitando e subindo convertendo-se em escadas que levam, mais uma vez, à Praça da Batalha.
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Rua da Madeira

Na frente da estação existem estabelecimentos comerciais e de serviços característicos dos espaços urbanos centrais, como um posto de turismo, cafés-esplanada, lojas de recordações turísticas, um cabeleireiro ou um hotel de luxo. O edifício da estação integra uma combinatória de serviços, para além da sua função central de transporte de passageiros. Nas partes exteriores laterais, tanto na Rua da Madeira como na Rua do Loureiro, existe um parque de estacionamento automóvel ao ar livre. No edifício central funcionam os serviços da própria CP e um quartel de Bombeiros. O interior da estação é composto por quatro espaços: o átrio, a gare e espaços de circulação que ligam às saídas laterais. Na gare concentram-se serviços como uma cafetaria, uma banca de doces tradicionais, quiosques de revistas, roupa e relógios, uma livraria, uma casa de venda dos famosos vinhos da região do Douro e uma loja de serviços de lazer turístico.
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Interior da Estação de S. Bento

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Resumidamente S. Bento é uma estação localizada no coração do centro urbano, e está diretamente ligada à Avenida dos Aliados que é o ponto central da baixa da cidade. Esta Avenida é um local carismático com elevado valor simbólico, onde se localiza a Câmara Municipal e onde se tendem a concentrar as grandes celebrações populares e manifestações cívicas. O cenário é o típico dos espaços ‘nobres’ dos centros urbanos em geral. Aqui se localizam cafés-esplanada, lojas de recordações turísticas, bancos, serviços de proximidade, hotéis, McDonalds, entre outros. S. Bento apresenta a particularidade de estar localizada na fronteira territorial da cidade moderna com a cidade medieval. A primeira caracterizada por um quotidiano frenético e tendencialmente anónimo, animado diariamente por migrantes pendulares que estabelecem com a baixa uma relação meramente funcional. Mais recentemente é também frequentada por novos residentes e a vida noturna é mais intensa. A segunda, a cidade de tradição bairrista e popular, onde prevalecem lógicas de utilização do espaço urbano associadas à função residencial combinadas com as restantes lógicas do centro urbano. Numa observação mais micro, o seu edifício está fisicamente circunscrito, quer pelas vias de circulação automóvel estreitas, quer pela sua implementação na morfologia do terreno.

2.2. As perceções e vivências dos habitantes do espaço social
Apresentada a estação e da sua inscrição no território urbano, começamos por dar conta das perceções e das vivências dos atores sociais que, por diversas razões, ocupam grande parte do seu quotidiano neste espaço. Começamos por apresentar o leque de atores ‘residentes’ e qual a sua expressão na nossa amostra de 36 entrevistados (Quadro 2): 29 pessoas que desenvolvem
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atividade profissional no espaço; cinco pessoas envolvidas nos fenómenos sociais em estudo; dois informantes privilegiados, que não sendo ‘residentes’, frequentam ou frequentaram regularmente este espaço. Estes atores são trabalhadores de estabelecimentos de comércio a retalho ou hotelaria e restauração (no interior da própria estação ou nas ruas envolventes), bem como vendedores ambulantes. Encontramos também taxistas (n=3), alguns dos quais com longas carreiras profissionais neste local (28, 10 ou 3 anos) e funcionários de serviços públicos como nomeadamente um posto de turismo. Alguns atores desenvolvem atividade neste local há mais de 20 anos (n=10), outros há menos de seis anos (n=12). Entre estes últimos é expressiva a presença de imigrantes de origem indoasiática (n=3) dedicados ao comércio. Dos atores com responsabilidade direta de gestão e intervenção sobre o espaço (n=6), destaque para os agentes de segurança da CP (n=2). São indivíduos que desempenham estas funções há vários anos e cujas competências (particularmente valorizadas pelos empregadores) passam por um conhecimento aprofundado e por uma de interação significativa com os atores e os fenómenos que decorrem na estação. São ainda funcionários de limpeza (n=1) que observam e vivenciam, o espaço interior da estação bem como os seus micro-espaços internos (casas de banho, sala de espera, etc.) e bombeiros (n=3), atores com conhecimento estrutural do espaço e ai sediados desde 1987. Por fim, importa apresentar as ‘personagens do espaço’, identificadas como os rostos das problemáticas sociais (N=5). Abordámos duas mulheres envolvidas na prática de trabalho sexual, uma com idade aproximada de 20-30 anos, e outra com cerca de 50 anos. Neste último, a prática de trabalho sexual foi iniciada há dois anos. Abordámos igualmente um educador de pares de uma equipa de rua de RRMD com intervenção no local, com uma história de consumo de drogas de 34 anos, e dois consumidores de drogas há mais 10 anos, com idades aproximadas de 30 e 50 anos.
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Quadro 2 | Caracterização dos entrevistados
Categoria de análise
Função

Variáveis
Lojistas, funcionários de serviços públicos e vendedores ambulantes Pessoas envolvidas nos fenómenos sociais Taxistas Seguranças e Bombeiros Informantes privilegiados Funcionários da limpeza Total < 2 anos 2 - 6 anos 7 - 10 anos 11 - 15 anos 16 - 20 anos 21 - 25 anos 26 - 30 anos 31 - 35 anos 36 - 40 anos > 40 anos Total NS/NR/NA < 20 anos 20 - 29 anos 30 - 39 anos 40 - 49 anos 50 - 59 anos 60 - 69 anos > de 70 anos Total Feminino Masculino Total Portuguesa Estrangeira Total

N
22 5 3 3 2 1 36 4 11 1 2 0 2 2 1 3 3 29 5/34 0 3 12 13 7 1 0 36 17 19 36 33 3 36

%
61.1 13.9 8.3 8.3 5.6 2.8 100 13.8 37.9 3.5 6.9 0 6.9 6.9 3.5 10.3 10.3 100 14.7 0 8.3 33.3 36.1 19.5 2.8 0 100 47.2 52.8 100 91.7 8.3 100

Tempo de “residência” no local

Idade

Sexo

Nacionalidade

Fonte: autores com base nas entrevistas abertas aplicadas aos residentes
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2.2.1. Vivências e as perceções sobre a estação
Começamos por perguntar aos atores residentes como caracterizam a estação de S. Bento. As respostas demonstraram perceções e vivências de um mosaico de fenómenos, que sistematizamos em torno de três categorias de análise, a saber: “Há um ambiente pesado”; “Não se passa nada”; “Há de tudo”. Na primeira categoria encontramos 16 entrevistados (44,4%). Descrevem a estação como o “bas fond da cidade do porto” (E27); “isto está de caixão à cova” (E3); “isto é o fim do mundo” (E14), “é uma miséria”, “esta podridão, era limpar esta podridão” (E28). É uma “zona pobre e desabitada” (E4), onde se pode observar uma contínua degradação paisagística e do espaço físico (E6 e E18), vandalismo e falta de iluminação (E8), a “pobreza dos taxistas” (E25 e E26), a crise dos pequenos negócios (E2, E3, E6, E8, E10), um “ambiente com pobres, drogados, alcoolismo” (E29), “paneleiros, prostituição e muita droga” (E30 e GO18). Um local onde, segundo as ‘personagens do espaço’, “o pessoal anda-se a fazer à vida” (GO20 B e GO20C). Estas perceções levam alguns ‘residentes’ a descrever a estação como um espaço inseguro (E1) ou um espaço onde, embora não aconteçam situações graves, as pessoas continuam a sentir receio (E21), “dá-me a ideia de serem pessoas de não fazer mal, mas é um local que inspira algum receio” (E27). Numa perspetiva oposta, oito residentes (22,2%) consideram que “não se passa nada” na estação (E18 e GO19). Percecionam este espaço como “um local seguro” “ninguém se mete comigo” (E15 e GO19), a não recear (E16), “mesmo à noite”(E19), um local de “muito respeitinho” (E28), mesmo para os turistas, “não se tenta nada com eles” (GO20A). Um espaço com o qual têm uma boa relação (E7), central e bem localizado (E9), de muito comércio, muito movimento e muitos turistas (E24) e que, muitas vezes, “nem nos apercebemos da sua beleza” (E2 e E16). De forma intermédia, e com uma expressão significativamente inferior classificamos dois entrevistados (5,6%), que referem que “aqui há de tudo, gente feia a gente bonita” (E19) e “há de tudo um pouco” (GO20A).
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Alguns dos atores (25%) comentam as mudanças positivas que têm ocorrido no espaço, ao referir a diminuição “dos enganadores durante o dia” (E2), dos roubos (E16, GO20C), do lixo e da toxicodependência (E17, E28, GO20 B), da “drogaria e dos semabrigo” (E21) e dos alcoólicos do interior do país (E29). Apenas três ‘residentes’ apresentam uma visão inversa, indicando que “por causa do pessoal se fazer à vida, é de cortar à faca” (GO20A), há um aumento da degradação da zona (E13) e um “aumento da marginalidade e roubos; é um foco de droga” (E20). Os testemunhos da globalidade dos entrevistados permitiram uma análise mais detalhada sobre os fenómenos sociais que percecionam e as suas manifestações na apropriação e vivência do espaço físico. Neste sentido dão conta da geografia social do espaço, nomeadamente do que designamos por ‘microcosmos do desvio’. As fronteiras entre estes microcosmos não são evidentemente estanques, a leitura aqui apresentada procura destacar divisões analíticas relevantes.

A Rua do Loureiro Demarcar este microcosmo específico pareceu-nos relevante por duas razões. Em primeiro lugar, apenas ‘residentes’ deste micro espaço (n= 9) cingem as suas observações a este microcosmos, sendo praticamente inexistentes referências ao outro lado, ou à frente da estação. Em segundo, percecionam apenas duas problemáticas: o trabalho sexual feminino e a mendicidade. São dinâmicas que integram o quotidiano da Rua, julgadas negativamente por alguns atores: figuras “com mau aspeto, semblante negativo e pesado, uns desgraçados” (E1). O trabalho sexual feminino é uma das temáticas mais recorrentes (GO18, GO19, E14, E18, E30), referenciado como um fenómeno “visível” (E16) e incorporado no dia-a-dia: “ouvem-se as negociatas” (E27). Descrito como um fenómeno que não causa problemas e que se realiza em pensões (E7 e E18), mas que “traz podridão ao local” (E13), “mau aspeto” (E16) “é um cancro” (E19). Convidados a aprofundar a sua leitura sobre as características deste
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fenómeno, os atores referem que existem raparigas muito jovens (E4, E14 e E27) que trabalham para poderem consumir (E4 e E13, E15 e E27): “há mulheres da vida para a droga” (E15) e que a grande parte dos clientes são idosos (E16) do interior do país (E29). Indicam, igualmente, presenciar conflitos entre as TS e os clientes (E12), roubos a clientes, sobretudo mais velhos (E13), vandalismo às vitrinas das lojas (E13). Os testemunhos das ‘personagens do espaço’ confirmam alguns roubos a clientes por colegas de ‘profissão’ (GO18). Acrescentam conflitos e situações de violência entre: as TS e os comerciantes (GO18 e GO19); as TS e algumas mulheres de etnia cigana (GO18); a agressividade e o não pagamento por parte dos clientes de etnia cigana e ucranianos (GO18). Referem ainda a diminuição do número de clientes e do valor da remuneração (GO20 C). A referência ao fenómeno dos sem-abrigo centra-se na preocupação dos ‘residentes’ com uma ‘figura’ específica, o caso isolado de uma idosa que pernoita na Rua e que tendo já estado institucionalizada rejeita qualquer apoio (E14, E15, E17, E29, E30 e GO19). Consideram que esta devia ser retirada do espaço, mesmo que involuntariamente (E14, E15, E17, E30 e GO19).

A Estação e a Rua da Madeira O segundo microcosmos que identificamos é um território híbrido integrando o espaço interior e a frente da estação, em continuidade com a Rua da Madeira. Conjuntamente estes três micro espaços físicos são o território de um mosaico social do desvio. As características físicas e de ocupação do espaço social favorecem a ocorrência de fenómenos tendencialmente mais ocultos (Fernandes, Carvalho; 2000), quer pela sua natureza ilícita ou ilegal, quer pela menor aceitação social das práticas em causa. É uma rua estreita, íngreme e com áreas de menor iluminação, constituindo um espaço de ligação ao território urbano mais anónimo. Este mosaico pode ser dividido em seis categorias de análise, que passamos a descrever: trabalho sexual masculino e homossexualidade; toxicodependência; alcoolismo; mendicidade; sem-abrigo; e “esquemas”.
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Na primeira categoria de análise, alguns ‘residentes’ indicam que os TS são relativamente jovens (Info1, E15, E20 e E29) e que estão a aumentar (E20 e E30). Os clientes pertencem a uma faixa etária mais velha (E15): “entre velhos e paneleirinhos” (E15). Indicam que as práticas sexuais ocorrem nas casas de banho da estação que parece um “bordel para o engate” (E8), e nas escadas da Rua da Madeira (E8, E13 e E16). Um dos informantes privilegiados refere que o trabalho sexual masculino se deve a “situações de extrema pobreza”, e os consumidores de drogas entrevistados acrescentam que são “homossexuais a fazerem-se à vida” (GO20 A e GO20B). Para além do trabalho sexual masculino, outras práticas associadas à homossexualidade são igualmente sublinhadas: são identificadas figuras como “voyeurs que circulam pela estação”, principalmente, depois das 16h/17h (E27). A homossexualidade é considerada como: persistente, “o maior nojo da estação”, “homens a fazer sexo com homens já viu?!” (E28); sem pudor, “fizeram porcaria ao vivo” (E16), sem cuidado, principalmente sem respeito às crianças (E30); intrusiva, “gays na casa de banho a observar”, E25). A toxicodependência é mencionada por grande parte dos ‘residentes’, inclusivamente os próprios TS e consumidores de drogas entrevistados (E11, E14, E18, E25, E26, GO18 e GO20C) não sendo porém um tema desenvolvido. É diversas vezes associada ao trabalho sexual feminino (E4, E13, E15 e E27). Apenas dois “residentes” se mostram preocupados, afirmando que existe um “foco de droga no interior: consumo e tráfico” (E20), e que “há aqui muita droga” (E30). O alcoolismo está igualmente presente associado a: “bêbados” (E18, E30 e GO18); consumidores habituais e matinais (informante2); consumo juvenil problemático aos fins-de-semana (E29); aos TS (E27). Relativamente à mendicidade, são indicados alguns episódios (E18, E25 e E29), mas apenas um ‘residente’ se refere a esta problemática como “é só miséria, mendigos” (E14).
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Quanto ao fenómeno dos sem-abrigo, os entrevistados referem haver “pessoas que dormem por aí” (E30); “não têm feito mal a ninguém” (E7), alguns pedem para se aquecerem no inverno dentro da estação (E29). “Esquemas” é uma designação de gíria que se refere a situações diversas, desde contrabando (relógios falsos (E2); relógios e telemóveis (E27) e GO20A); carteiristas (E4, E18, E29, E30) e oportunistas (GO20 C); “habilidades” (E6); “vigaristas que andam por aí” (E8); roubos e furtos dentro da estação (E12, E20, E25, E26, E27 e GO20 C). Os consumidores de drogas e os TS entrevistados enunciam diversas das suas próprias práticas, corroborando as perspetivas dos restantes ‘residentes’. Questionados sobre a existência de uma relação direta entre os fenómenos que testemunham e vivenciam, e a estação de S. Bento, os atores ‘residentes’ revelaram que a mesma corresponde a um local de oportunidades. Com efeito, por um lado, a grande maioria dos entrevistados relaciona os fenómenos descritos com a localização física e as dinâmicas do espaço; é “ponto estratégico desde sempre”, “uns por necessidade, outros por vício” (E20 e E30). Mais concretamente para os sujeitos envolvidos nos fenómenos em análise, surge como um “ponto terminal”(E29): espaço central (GO20A); de trânsito constante de passageiros: “entrar e sair de gente” (GO20B); “ponto de chegada do interior” dos clientes do TS (GO18); local que facilita a mendicidade e o acesso a dinheiro (GO20C). Um espaço físico e social que possibilita uma “lufada de ar fresco” das vidas quotidianas (E1) e motiva a que “as pessoas só comprem bilhete de vinda” para a estação (E15). Por outro lado, os três entrevistados (incluindo os 2 informantes privilegiados) consideram que as problemáticas sociais da estação de S. Bento são transversais à cidade: “são também um pouco o que se passa por toda a baixa” (E7; E27); a “cena gay” estende-se para as zonas da Batalha, Sá da Bandeira, centros comerciais do centro da cidade, entre outras, e onde S. Bento é apenas um dos locais (Info2; E30).
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2.2.2. Perceções sobre a intervenção e sugestões
O segundo tema abordado nestas entrevistas foi o da intervenção. Questionámos os ‘residentes’ relativamente às respostas sociais existentes no território em análise e solicitamos que indicassem necessidades e/ ou sugestões para o futuro da intervenção na área de S. Bento. Uma primeira ideia que constatamos desta auscultação, prende-se com o desconhecimento, por parte da maioria dos ‘residentes’, sobre as OTS com intervenção na área (E4, E17, E25 e E26), apenas reconhecida por sete entrevistados (E1, E8, E29, E30, G018, GO19 e GO20 B). Nesta matéria os entrevistados tendem a centrar-se sobre a intervenção da polícia e da CP. Os que reconhecem o trabalho das OTS, referem a existência de equipas que fazem a distribuição de bens alimentares na Rua da Madeira (E1) e na entrada do metro (E30), “há quem venha dar comida” (E29), “equipas que vêm dar comida aos sem-abrigo” (GO19). Alguns testemunhos identificam ainda o trabalho levado a cabo pela equipa de rua do Espaço Pessoa, na Rua da Madeira (E8 e E30). Nestas entrevistas é possível detetar dois posicionamentos distintos face a esta intervenção. Alguns ‘residentes’ referem a ausência de uma equipa de rua que intervenha junto das TS. Outros valorizam a intervenção da actual equipa de RRMD a operar no local (GO20A), compreendendo o seu impacto na saúde pública (E30). Outros ainda criticam veementemente este tipo de intervenção: “já viu isto, isto não tem jeito nenhum, só neste país?!” (E8); “a intervenção no sentido de garantir a comodidade dos passageiros da CP, nomeadamente junto à Rua da Madeira, torna-se por vezes complicada de gerir” (E30). A maioria dos entrevistados (n=16 ) menciona a intervenção policial, apesar de apresentarem perspetivas diferenciadas acerca da mesma. Para uns (n=8), a avaliação é tendencialmente positiva, quer pelo exemplo da intervenção conjunta entre a polícia de proximidade e os serviços camarários, para afastar os sem-abrigo do espaço da estação (E7 e E21), quer pelo aumento do policiamento. Referem concretamente os giros pedestres da PSP (E4
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e GO20C), a presença de polícia à paisana (E15) ou nas rondas (E30) e o surgimento de uma nova brigada da PSP, Tourism Patrol que circula com regularidade pela estação (E30). A par do reforço da presença de agentes de autoridade, embora com foco de atuação ao nível do controlo dos taxistas (E26), são ainda valorizadas as rusgas policiais (E16). Para outros entrevistados (n=8), verificamos uma postura crítica relativamente à insuficiente intervenção da polícia na dispersão das problemáticas locais, dado que “a rua já tem nome e já não há nada que queiram ou possam fazer” (E8), e “a preocupação não é muita” (E27). Nesta perspectiva mais crítica sobre esta intervenção, o policiamento é adjetivado de “reduzido” (E6 e E20), insuficiente (GO20A) e “desatento/ pouco interventivo” (E11, E12 e E13). Os entrevistados referem, igualmente, a intervenção da CP (n=11), na figura do segurança da estação. No geral, é descrito como “um bom profissional, um profissional atento” (E26) que faz “um esforço para realizar um bom trabalho” (E27), com o qual “se pode contar” (E16). Na descrição do seu desempenho é mencionada a intervenção na contenção do TS no interior da estação (E12, E13, E30 e GO20C); o controlo das práticas homossexuais de engate na casa de banho masculina (E25 e E30); o controlo de situações anómalas (E29); e o apoio aos utentes (E29) e às TS, quando estas o solicitam (GO19). Conforme já referimos, no interior da estação existem casas de banho públicas, cuja manutenção é da responsabilidade de uma empresa privada de limpeza. Estes equipamentos são referidos por vários entrevistados, essencialmente enquanto espaços de práticas de TS masculino/homossexualidade e consumo de drogas. Para uma lojista, ainda que esta externalização do serviço tivesse por objetivo controlar “aquelas coisas”, na prática “não tem dado resultado” (E20). Com uma visão distinta, a funcionária de limpeza, afirma que, apesar de as práticas sexuais não estarem erradicadas, os consumos de droga diminuíram significativamente (E28). Finalmente importa apresentar as sugestões de intervenção deixadas pelos atores locais. Para facilitar a leitura, as estratégias sugeridas estão agrupadas em quatro categorias, conforme se pode observar no quadro 3.
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Quadro 3|Sugestões de Intervenção
Categorias de intervenção
1. Revitalização do espaço e/ou comércio

n
6

%

Sugestões

16,7 - Maior dinamismo da Associação de Comércio do Porto (E2). - Estratégias de revitalização do comércio tradicional e melhorias do espaço (E2, E11, E8 e E17). - Melhoria da iluminação do espaço (E2 e E4), maior higienização do espaço (E17 e GO19), e aumento do número de casas de banho públicas (E17). - Aumento da vigilância (E8) e do controlo do tráfego na Rua do Loureiro (GO19). 25,0 - Apoio alimentar e habitacional aos sem-abrigo (E1, E4, E26 e E30). - Legalização do TS (E4) e a reestruturação de um espaço não identificado para o exercício do TS (GO18). - Apoio aos “drogados” (E25) através, por exemplo, do aumento das ER intervenientes na toxicodependência (GO20A) e da reinserção dos utentes (E7), “com maior incentivo ao trabalho e menos aos rendimentos” (E26), ou com a oferta de alternativas de vida “ao pessoal” (GO20C). 27,8 - Dispersão de fenómenos e de figuras (E7): “era limpar isto” (E14 e E15); “correr com a prostituição”, (E6), “acabar com a podridão” (E13); retirar a “mulher das castanhas que dá um mau aspeto à estação” (E18); “era tirar as pessoas daqui, os drogados” (GO20B). - Vigilância nas casas de banho para evitar estratégias de engate (E25), ”de resto nada, era só esta podridão, limpar esta podridão dos homossexuais” (E28); a intervenção na casa abandonada na Avenida Vimara Peres, utilizada para consumos (E14). - A intervenção das equipas de rua devia restringir-se a locais específicos “próprios para esse trabalho” e afastados dali (E8). 27,8 - Intensificação do policiamento (pedestre, E4), (E8; E26, E27 e GO20A). - Uma permanência prolongada e uma intervenção ativa (E6 e E12). - Aumento do policiamento enquanto apoio ao Segurança da estação (“segurança não chega”, E20 e E25). - Reforço dos Seguranças da estação (E30). - Construção de uma esquadra mais próxima (E30).

2. Intervenção social com as ‘personagens do espaço’

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3. Estratégias ‘higienistas’

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4. Reforço policial

10

Fonte: autores com base nas entrevistas aos atores locais
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Relativamente à categoria de intervenção revitalização do espaço e/ ou comércio, podemos verificar que se trata de uma preocupação revelada essencialmente nos testemunhos dos lojistas. Contrariamente aos dados verificados pela CP, alguns destes atores (n=3, E2, E3 e E8) indicam, como uma das causas para esta crescente desertificação, a entrada em funcionamento do Metro, por retirar passageiros pedonais do território em análise. Neste sentido, as suas sugestões tendem a centrar-se na dinamização do espaço e da sua higiene e aspeto visual. Quanto à segunda categoria, relacionada com a intervenção direta com as ‘personagens do espaço’, são sugeridas estratégias concretas orientadas para as suas necessidades, especificamente para as problemáticas associadas aos sem-abrigo, aos TS e ainda ao consumo de drogas. Para os primeiros, é sugerido um maior apoio alimentar e habitacional. No que concerne ao TS, é focada a necessidade de legalização do mesmo (E4), bem como a utilização de um espaço para o exercício do TS (GO18), no qual as trabalhadoras não necessitem de se exporem. Por fim, no apoio aos “drogados” (E25), são propostas medidas ao nível do aumento das equipas de rua intervenientes na toxicodependência (GO20A) e da reinserção dos utentes (E7), com maior incentivo ao trabalho e menos aos rendimentos (E26), ou com a oferta de alternativas de vida “ao pessoal” (GO20C). A terceira categoria de intervenção agrupa as sugestões de estratégia ‘higienista’, as quais passam pela erradicação da estação dos fenómenos sociais em análise, através da exclusão dos seus protagonistas. Nesta perspetiva, alguns entrevistados salientam ainda um posicionamento crítico face ao trabalho desenvolvido pelas equipas de rua, ao considerar que este se devia implementar apenas em locais específicos, fora do território em análise. Na última categoria, diretamente relacionada com a anterior, os ‘residentes’ sugerem uma clara intensificação do policiamento. É sugerido que esta intensificação se traduza no aumento de quer de efetivos, quer de articulação com as demais forças de segurança, quer ainda pela instalação de um equipamento próximo da estação. Apesar das numerosas sugestões de intervenção, alguns entrevistados referem não ser necessário ou possível qualquer
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melhoramento. Dois entrevistados referem que “não é preciso nada, não nada” (E21, E24). Outros dois defendem que não é possível alterar o cenário descrito com novas intervenções, uma vez que “não há nada a fazer, já está implementado, desde sempre a Estação foi conhecida por isso [o trabalho sexual]” (E19), e que “não há nada a fazer, [...] quem tem força para isso?!” (E28).

2.3. A perspetiva dos atores institucionais
Nesta secção apresentamos os testemunhos dos seis atores institucionais, ‘protagonistas da intervenção’ em S. Bento. Estes foram selecionados com base num critério espiral de interferência das suas atividades como nosso objeto de estudo. O critério para a não inclusão na amostra de outros atores inicialmente inventariados, foi o grau nulo ou escasso de intervenção no território. A nossa amostra é composta por organizações que atuam em duas áreas de intervenção, a saber: ao nível da gestão e segurança da Estação e da segurança do território envolvente, e ao nível da intervenção social nos fenómenos sociais em análise. No primeiro grupo de organizações (Quadro 4), entrevistamos a CP, bem como dois dos seus organismos de segurança: o gabinete de segurança e a polícia ferroviária. Esta última, apesar de constituir um órgão da PSP, está afeto exclusivamente à segurança das estações e dos comboios. Por fim, entrevistamos ainda a esquadra da PSP com intervenção direta no território em análise. Ao nível das organizações com intervenção social, entrevistamos três OTS: os Médicos do Mundo, o Espaço Pessoa e a Arrimo (quadro 4). A Médicos do Mundo atua em situações de emergência médica nas ruas adjacentes à estação, tendo, como tal, uma intervenção esporádica e específica. O Espaço Pessoa, da Associação para o Planeamento da Família (APF) e a Cooperativa Arrimo, desenvolvem um tipo de trabalho semelhante, no que toca aos princípios da RRMD associados ao consumo de drogas. Ambas as organizações desenvolvem trabalho continuado na zona de S. Bento, trabalhando a RR e a reinserção social do utente, numa perspetiva holística.
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Relatório de Investigação Nacional

Quadro 4| Caracterização das instituições auscultadas
Instituições Tipo de Área de intervenção intervenção
CP

Intervenção direta em S. Bento

Empresas/serviç Prestação de serviços de Juntamente com a REFER é os público com transporte ferroviário nacional proprietária e gestora de todo intervenção ao e internacional de passageiros. o equipamento nível da segurança - Defesa de pessoas e de bens O gabinete de segurança da empresa ferroviária situa-se na estação de Campanhã mas atua em - Articula com vários todas as estações da CP e nos elementos de segurança dois parques de para atuar junto de estacionamento de S. Bento situações que ponham em (apesar de concessionados) risco os clientes, os funcionários e o património. Assegurar a segurança dos passageiros, transmitir sentimento de segurança. Trata também de libertar a linha quando surge um incidente, agiliza o desimpedimento da linha. Sede: estação das Devesas (Gaia) São 20 agentes para patrulhar 86 estações. Não atuam nas imediações da estação de S. Bento, apenas no seu interior e nos comboios

Gabinete de Segurança Ferroviária

Polícia ferroviária

PSP - 9ª esquadra

Responsável pela segurança em: Situa-se na zona histórica e atua no patrulhamento na - 5 freguesias do Centro zona da estação. urbano; - estação de S. Bento; - 4 estações de Metro. OTS com intervenção ao nível social e de reinserção Prestação de cuidados de saúde e capacitação dos alvos nas diversas áreas de vida (prevenção de comportamentos de risco). Filosofia de intervenção SOS, ou seja, intervenção no sentido de diagnosticar situações sinalizadas ou detetadas na Rua, prestar Projetos desenvolvidos por toda a grande área central do grande Porto. Intervenção nas ruas adjacentes à estação em situações de urgência.

Médicos do Mundo

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cuidados imediatos necessários e encaminhar para instituições locais de referência para um acompanhamento continuado Espaço Pessoa RR e Minimização de Danos associados ao consumo de drogas. Educação para a saúde nos consumos; Identificação de necessidades globais; Intervenção ao nível da redução de riscos e VIH. Arrimo RR e Minimização de Danos associados ao consumo de drogas. Defesa dos direitos dos UD; Prestação de cuidados de saúde Educação para a saúde. Programa de substituição opiáceo no cimo Rua Loureiro Horário noturno de 2ª a sábado das 19h às 22h na estação de S. Bento

Fonte: autores com base nas entrevistas realizadas aos atores institucionais

Foram realizadas oito entrevistas semiabertas, conforme se pode verificar no quadro XX com a caracterização dos entrevistados.

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Relatório de Investigação Nacional

Quadro 5| Caracterização dos entrevistados
Categoria de análise
Cargo

Variáveis
Responsável/Coordenador de departamento e/ou de projeto(s)(CP) Comandante / Adjunto de comandante de esquadra (PSP) Comercial, Marketing operacional (CP) Total < 2 anos 2 - 6 anos 7 - 10 anos 11 - 15 anos 16 - 20 anos > 21 anos Total NS/NR/NA < 20 anos 20 - 29 anos 30 - 39 anos 40 - 49 anos 50 - 59 anos 60 - 69 anos > de 70 anos Total Feminino Masculino Total

N
5 2 1 8 0 5 0 0 1 0 6 2 0 1 5 1 1 0 0 8 2 6 8

%
62,5 25,0 12,5 100 0 83,3 0 0 16,7 0 100 25,0 0 12,5 62,5 12,5 12,5 0 0 100 25,0 75,0 100

Tempo de trabalho na organização e no território em análise

Idade

Sexo

Fonte: autores com base nas entrevistas realizadas aos atores institucionais

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A recolha de informação teve por base o guião pré-definido, incidindo sobre os seguintes tópicos: a caracterização da organização, a sua intervenção global e as atividades específicas desenvolvidas no território em análise; o seu conhecimento dos fenómenos em estudo6; a avaliação da intervenção que tem sido realizada; e identificação de outras necessidades de intervenção. Os testemunhos dos entrevistados confirmam e aprofundam os dados para uma geografia social do espaço em análise. Com efeito, no que se refere à identificação e caracterização dos fenómenos sociais que ocorrem no território, estes testemunhos são congruentes entre si e também relativamente ao retrato traçado pelos ‘residentes’. As diferenças de perspetiva entre estes seis atores institucionais são relativas às preocupações centrais da intervenção, que variam naturalmente com as suas diferentes missões. Do lado da Rua do Loureiro, confirma-se a centralidade da prostituição feminina, associada à existência de pensões onde estas práticas são realizadas. Existem casos de mulheres consumidoras de drogas e a ocorrência pontual de pequenos furtos a clientes ou de desacatos entre as TS e proxenetas. Estes fenómenos apresentamse relativamente estáveis e abrangendo um número aproximado de uma dezena de mulheres. A Rua da Madeira surge como pólo de incidência particular de outros fenómenos. Todavia a divisão espacial entre esta rua e o resto dos espaços da estação e do espaço urbano envolvente, não surge de forma tão expressa. Ou seja, os restantes fenómenos identificados tendem a ser mais difusos no território em análise. A prostituição masculina e as atividades associadas ao ‘engate gay’ estão polarizadas entre os sanitários públicos da Rua da Madeira, os sanitários do interior da estação e outros locais da baixa da cidade. A OTS com intervenção direta nestas problemáticas há cerca de 15 anos afirma a dificuldade de desenvolver trabalho

6. O guião especificava: violência, marginalidade, agitação e decadência na área de referência, bem como a evolução do trabalho sexual, toxicodependência, semabrigo e jovens envolvidos em atos de violência. 46

Relatório de Investigação Nacional

dirigido a esta população. Estas práticas não são em muitos casos reconhecidas pelos próprios sujeitos envolvidos. A instituição está atualmente a realizar um estudo orientado para trabalhar esta problemática. Os cafés e casas de pasto existentes nesta rua são local de paragem frequente de homens de idades variáveis com problemas de alcoolismo. As situações de delinquência e/ou violência, não sendo estranhas no dia-a-dia, tendem a não representar um problema relevante de perturbação da ordem pública. Trata-se sobretudo de situações pontuais relacionadas com o consumo ou venda de drogas e desacatos associados à concentração de pessoas nomeadamente ao fim de semana. Efetivamente, o clube noturno ai localizado imprime uma agitação adicional a esta rua, associada igualmente ao funcionamento dos referidos estabelecimentos de restauração. No interior da estação são relatadas ainda situações em que grupos de jovens, provenientes dos comboios regionais, nomeadamente de “Guimarães, Barga e Aveiro, chegam no último comboio da noite e apanham o primeiro da manhã seguinte” (E2), especificamente para fazer vida noturna na cidade. Pontualmente há situações de distúrbio nos horários relativos aos primeiros comboios da manhã, associados a consumos de álcool e drogas por parte destes grupos de jovens. O consumo de drogas surge como uma problemática transversal no território e é descrito como um fenómeno que tem verificado uma evolução positiva, quando comparado com o cenário da década anterior. A Sé constituía nessa altura um dos maiores mercados de tráfico de drogas da região do norte do país, verificando-se uma correlação direta entre a chegada de comboios de vários destinos e a circulação direta de pessoas para o bairro da Sé. As intervenções de requalificação urbana e social da zona histórica, associadas a outras políticas de segurança e policiamento fizeram reduzir substancialmente este fenómeno. Atualmente a Sé volta a ser reconhecida pelas forças policiais como um dos maiores mercados de droga da região, mas a visibilidade do fenómeno mantem-se
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reduzida. Diversos fatores podem contribuir para explicar este facto, desde a significativa redução da população desta zona, a mudanças nas substâncias traficadas e respetivos comportamentos associados, ao maior controlo social do centro urbano. No que se refere à problemática dos sem-abrigo, a quase totalidade dos entrevistados (5) indicam mudanças relevantes. Tratava-se de um fenómeno “muito visível e numeroso, relacionado com a toxicodependência” (E2); “neste momento é um problema quase inexistente” (E4), com exceção do caso isolado de uma idosa. Sem alternativas de resposta social a este caso, a CP manifesta preocupação e permeabilidade, não aplicando a regra de impedir que sem-abrigo procurem passar a noite junto da estação (E2, E5). Esta diminuição é relacionada com a entrada em vigor da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas Sem-abrigo7 (E4, E7), a qual resultou “numa melhoria significativa na zona” (E4) e numa “maior articulação entre projetos, equipas e técnicos para o realojamento” (E7) das pessoas em situação de sem-abrigo. A estação é também vista como um local ligado à pequena marginalidade, a qual não tem local, hora ou protagonista específicos, pelo que ocorre pelos diferentes espaços. As situações de furtos carteiristas são referidas por vários entrevistados (E2, E3, E4, E5, E6, E7,), ainda que com menor intensidade nos últimos anos. São ainda situações de “venda de material contrafeito” (E5), quer no interior da estação e dos comboios quer na Rua do Loureiro (E1, E2, E5, E6). Apesar do conhecimento aprofundado que os entrevistados da CP têm sobre o conjunto destes fenómenos, sublinham no entanto como foco da sua atenção principal no presente, outros dois fenómenos que ocorrem no interior dos próprios comboios e em diversas estações da rede urbana e suburbana e noutras estruturas ferroviárias nacionais. Estas são as principais ocorrências a que responde também a Polícia Ferroviária.

7. A Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas Sem Abrigo, entrou em vigor em 2009 e “corresponde a um conjunto de orientações gerais e compromissos das diferentes entidades, cuja operacionalização deve ser implementada a nível local, no âmbito das redes sociais locais” (2009, p.6). 48

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No primeiro caso, refira-se a situação dos grupos de cidadãos estrangeiros/imigrantes. Conotados com uma aparência andrajosa, com défices ao nível dos cuidados de higiene e com comportamentos considerados como socialmente inapropriados, estes grupos perturbam frequentemente o serviço da CP, designadamente porque muitos destes indivíduos estão em situação irregular no país e viajam frequentemente sem pagar bilhete (E2). No segundo caso são referidas situações de vandalismo associado à atividade de grafitti no exterior dos comboios (E2) e nas estruturas ferroviárias. Estas situações ocorrem, essencialmente em locais resguardados, como são o túnel da estação de S. Bento, os locais de recolha das carruagens, entre outros. Como referimos anteriormente, os posicionamentos dos diferentes atores entrevistados varia com as suas missões e a suas competências intervenção no espaço. Neste sentido, as OTS enfatizam preocupações nomeadamente ao nível da cobertura de respostas sociais. O discurso tende a centrar-se no respeito pelas opções dos utentes e na defesa dos seus direitos (E7), na melhoria do trabalho de intervenção social (E4) e no desenvolvimento de respostas de qualidade (E3) e de maior proximidade (E7). Nomeadamente destacam a necessidade de incidir no âmbito das estratégias de (re)integração social estruturadas e prolongadas, articulando o trabalho entre diferentes instituições (E3). A CP e as forças policiais e de segurança tendem a centrar-se na prevenção e antecipação de situações de alteração da ordem e de atentado contra o património e as pessoas, visando erradicar ou minimizar a ocorrências destes fenómenos. Efetivamente, a criação da própria Polícia Ferroviária revela-se um exemplo paradigmático da estratégia de intervenção destas entidades. Esta unidade foi criada em 2002 para dar resposta a uma série assaltos ocorridos nos comboios com ligação às praias (E2). A resposta criada, de forma célere, revelou-se eficaz, ao sanar o fenómeno e foi considerado útil manter esta força policial no sentido de prevenir estas e outras ocorrências. Outros exemplos desta forma de atuar são orientações concretas para a intervenção dos agentes de segurança da estação, centradas no papel dissuasor da sua presença junto de indivíduos
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reconhecidamente envolvidos ou suspeitos de envolvimento nos fenómenos descritos. As forças de segurança destacam o facto de a estação ser uma zona de policiamento prioritário (E5) mas que as ocorrências têm vindo a diminuir (E6). Foram ainda feitas referências a outras duas situações em que outros atores locais (hotéis, comerciantes, entre outros), procedem a diligências judiciais ou de influência política para evitar situações como o funcionamento de pensões associadas à prática da prostituição e o afastamento para outros locais da atividade das OTS que se dedicam à distribuição de refeições a sem-abrigo por parte.

2.4. S. Bento no coração da cidade um retrato dinâmico
Retratada a estação através de três perspetivas distintas – a análise descritiva do território pelos investigadores, a vivência do espaço pelos seus ‘residentes’ e a experiência dos atores da intervenção – nesta secção convidamos o leitor a uma visualização dinâmica do quotidiano do nosso objeto de estudo. Pretendeu-se obter uma narrativa imagética verbal que articulasse o contributo da antropologia visual (a produção e utilização de imagens na pesquisa), com o recurso a uma inspiração cinematográfica e literária. Esta narrativa procurará dar conta da articulação, justaposição ou orgânica entre as diferentes dimensões analíticas. Uma dimensão matricial de base territorial, relativa às características físicas da estação de S. Bento: incluindo o valor patrimonial do edificado, o enquadramento morfológico e topográfico, a circunscrição viária que envolve o edifício e o seu enquadramento no coração do centro urbano. Uma dimensão funcional, relativa à estruturação da vida urbana e ao seu papel de plataforma/lugar de mobilidade (ponto de partida e ponte de chegada) de passageiros de diferentes partes do país e exterior, mas com funções também de transporte metropolitano da zona oriental da cidade. E por fim, uma dimensão social centrada na experiência quotidiana dos habitantes do espaço.
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Apesar do caráter ilustrativo, ainda que verosímil, do conteúdo que compõe esta narrativa, as descrições sustentam-se nos dados recolhidos particularmente ao longo da observação, assim como na sua análise sistemática e seleção metódica. A observação decorreu no inverno, desde final de dezembro a final de fevereiro. Deste modo, assegurada a validade científica de todos os atores e fenómenos descritos neste capítulo, pretende-se narrar fragmentos ilustrativos da realidade. Uma realidade que será ilustrada em fragmentos do que poderia ser ‘um dia comum em S. Bento’ que, unificados temporalmente, convidam o leitor a colocar-se na experiência do “estar” e observar o nosso objeto de estudo. O despertar de S. Bento Ainda é noite. Embora se veja luz através dos vitrais da estação, as portas permanecem fechadas. O frio obriga ao refúgio nos cantos do edifício, de cinco pessoas dispersas que aguardam. O silêncio é por vezes interrompido pelo barulho dos autocarros e de alguns carros que descem a Praça Almeida Garrett. Junto às portas centrais, no parque dos táxis, um jovem dorme no chão. O seu corpo cedeu ao cansaço de uma noite de diversão e copos na Rua da Madeira. Fluxos descontínuos de jovens entram e saem da Rua da Madeira, onde, ao fundo, se pode observar uma aglomeração de pessoas à porta do clube noturno, preparando-se para entrar. À medida que vai amanhecendo, vão chegando às portas da estação grupos de jovens. Cansados, com o frio e com sono, vão ocupando as escadas vazias. 05h30 as portas abrem. Na gare já se vê a luz do comboio urbano procedente de Porto – Campanha. Ouve-se a voz off a anunciar a sua chegada, ao mesmo tempo que, no quadro de partidas, é indicada a linha do comboio regional em direção a Aveiro, destino de grande parte dos jovens que, a passo lento, se dirigem para a respetiva plataforma. O segurança deambula, com passos vagarosos mas firmes, por toda a extensão da estação. Detém-se no átrio. A praça permanece deserta e o tráfego automóvel é ainda reduzido. Em frente da estação, circulam três homens alcoolizados, com idades superiores a 65 anos.
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Na entrada lateral da Rua do Loureiro, uma mulher idosa semabrigo levanta-se das escadas, afastando os cobertores. Encosta os cartões a uma parede próxima das cancelas do parque de estacionamento e sobe a rua. O segurança observa-a de longe. Um indivíduo emagrecido e de vestes andrajosas irrompe pela estação carregado com sacos plásticos. Entra na sala de espera e, depois se de acomodar nas cadeiras, ainda vazias, adormece. Progressivamente, o número de passageiros vai aumentando. Na sala de espera, o sem-abrigo dorme, encostado na cadeira. Ressona alto. Surge o segurança: - “Vá lá, agora vai ter de sair. Já está aqui há bastante tempo. Também tem que compreender que isto não é nenhum quarto.” Os passageiros trocam olhares, uns de recriminação, outros de apoio. Sem responder, o sem-abrigo pega nos seus haveres, levantase e sai. Dirige-se para a Rua da Madeira. Há poucas pessoas na rua. Ouve-se a abertura das grades dos estabelecimentos e as queixas de um comerciante, indignado com o vomitado no passeio. Quatro indivíduos permanecem à porta de um tasco enquanto conversam e fumam. O movimento intensifica-se. O cheiro a café surge do interior de um dos estabelecimentos. O som ambiente do trânsito é mais intenso na Praça Almeida Garrett. Ao longe, escutam-se a buzina de um automobilista impaciente e um autocarro a arrancar. A afluência de passageiros aumenta consideravelmente. Os passageiros dirigem-se para a gare, alguns procuram os espaços ensolarados. Há também quem prefira o átrio para observar os quadros de chegadas e partidas. Outros ficam parados na entrada principal, sacudidos pelo fluxo crescente de gente a mover-se em todas as direções. Dois gunas8 atravessam o átrio em direção à gare, cruzando-se com um junkie perto das máquinas de bilhetes. Este circula

8. Os Gunas podem ser descritos como jovens residentes em zonas do grande Porto cuja imagem e formas de estar correspondem a um determinado estereótipo, do qual faz parte a associação à delinquência e consumo de drogas (Pinto; 2009). 52

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freneticamente dentro de um perímetro reduzido. Aborda os transeuntes, ‘cravando’ dinheiro e cigarros. Os pedidos são recusados. As pessoas não respondem, ignoram e fixam o olhar em frente. Repetidamente vai abordando quem passa. Há um passageiro que cede e acaba por lhe oferecer um cigarro. O segurança não está por perto. No átrio surge uma mulher atarantada. Vai até à entrada principal e aí permanece por uns momentos. Dá meia volta e regressa ao átrio. Segue para a porta lateral da Rua do Loureiro. Encosta-se à porta e ai permanece. O decorrer da manhã O movimento de passageiros e de comboios diminui. Um homem de facto escuro e pasta de documentos na mão passa em frente às portas centrais e detém-se para comprar castanhas junto da vendedora ambulante. Esta vai conversando e rindo com os taxistas e com as figuras ‘residentes’ que estão de passagem. Entram e saem da Rua da Madeira, assobiam e partem a correr. Nas escadas da rua, já o próximo da Batalha há duas seringas, invólucros de toalhetes e ampolas de água vazias. Em baixo, junto ao parque de estacionamento, um arrumador9 conta as moedas e três jovens fumam um charro. Na Avenida dos Aliados o trânsito de carros e peões é intenso. Esta azáfama contrasta com a calmaria das ‘personagens do espaço’ que deambulam. No interior da estação os passageiros são poucos. Encostados a ler o jornal, entretidos pela literatura da feira do livro, ou a tomar café, aguardam a partida dos dois comboios parados nas linhas. Os comerciantes dos quiosques observam as pessoas que circulam. Uma ou outra destas pára para comprar tabaco. O segurança vagueia pela gare conversando, ora com colegas maquinistas, ora com as colegas da limpeza.

9. Os arrumadores são indivíduos que ajudam os condutores no estacionamento de veículos, na expectativa de obterem algum rendimento. 53

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Entram gunas na Gare. O segurança deteta-os. Encaminham-se para o quiosque de venda de relógios e espreitam a montra. O segurança aproxima-se. O grupo dispersa. Na frente da estação os carros circulam. Os autocarros passam e as paragens desertificam-se por momentos. Ouve-se o barulho intenso das obras do edifício em frente. Na praça dos táxis, uma viatura da Tourism Patrol está estacionada. Dois agentes estão com um indivíduo. Mexem em papéis que vão buscar ao interior da viatura. Uma mulher fuma um cigarro enquanto presencia a cena da polícia. Comenta com dois homens que estão ao seu lado: - “Só sabem [a polícia] fazer disto. Ainda ontem à noite, quando saí daqui, eles estavam a pegar com um rapaz… Devia ser por causa do visto…” Os odores dos menus diários oferecidos pelos restaurantes e cafés intensificam. Dois homens idosos conversam junto às escadas que sobem da Rua da Madeira para a Rua 31 de janeiro. Deste local observam-se outros homens idosos isolados, dispersos pelas imediações. Um disfruta do sol e da temperatura amena, outro procura um encosto na porta da estação, outro ainda vagueia. No átrio, os flashes das máquinas dos turistas atraem o olhar daqueles que aguardam comboio, abstraídos da história nacional retratada nos azulejo. O movimento da tarde Dois agentes da PSP circulam pela estação. Mudou o turno, o segurança é outro. As ‘personagens do espaço’ vêm e vão. Na gare, um junkie recolhe beatas do chão. Aproxima-se das máquinas dos bilhetes e introduz os dedos no orifício do troco. Olha atentamente para o chão. Os comboios não são muitos. Há passageiros sentados. Entra um mendigo, abordando cada uma das pessoas individualmente: - “Falta-me 47 cêntimos para poder comer. Não me pode dar uma ajudinha, por favor?” Uma senhora dá-lhe uma moeda. Aparece o segurança: - “Já sabe que isso aqui não pode ser!” Perto da entrada dos sanitários, um homem idoso encosta-se à parede. Dá uns passos em frente e regressa ao ponto inicial. Entra
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nos sanitários e sai novamente. Circula, olhando à sua volta e sai dirigindo-se à porta lateral da Rua da Madeira. Minutos depois sai um jovem da casa de banho. Na Rua da Madeira, os proprietários das casas de pasto comentam o fraco movimento, culpam o metropolitano e a Câmara. Procuram sobreviver à crise com ofertas de refeições tradicionais vantajosas, mas nada parece resultar. Na Rua do Loureiro, a tarde é de trabalho, mas a conversa vai no mesmo sentido. Uma mulher está sentada nas escadas. Aborda um indivíduo com cerca de 45 anos. Este afasta-se. Algum tempo depois, a mulher continua no mesmo sítio. Está acompanhada de uma outra. Conversam. As lamúrias das mulheres e dos comerciantes são semelhantes: os clientes escasseiam. O sol está já baixo. Sentados nos carros estacionados, dois homens observam a entrada lateral, parecem procurar alguém específico. As portas da pensão permanecem fechadas. As duas mulheres entram no café em frente. Surge outra mulher que é abordada por dois gunas que chegam de carro: Guna: How much? [perguntam do carro] Mulher: Twenty. [permanece sentada nas escadas] Guna: Ãh? Mulher: Twenty. Guna: Ãh? Mulher: Twenty. Guna: Como? Mulher: Vinte! A mulher desloca-se ao carro e, do lado de fora, pelo vidro, falam durante uns minutos. Os gunas partem. A mulher dirige-se a um outro indivíduo que a observava e conversam. Entram na pensão. O rebuliço do fim do dia São 18h30. Hora de maior movimento de comboios e passageiros. No átrio circula uma pequena multidão. Observam-se algumas correrias de passageiros atrasados. Os passageiros distribuem-se pelos espaços da estação. O quadro de partidas é o motor do
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movimento. Indicada uma nova plataforma de partida, uma massa de gente desloca-se para a gare. O segurança caminha entre o átrio e a gare. Esforça-se no sentido de não perder o ângulo de visão destes dois espaços, mesmo quando presta alguma assistência ou fornece informações. Neste frenesim irrompe um homem alcoolizado gritando e gesticulando freneticamente. Dois jovens desentendem-se e envolvem-se em agressões físicas. Antes mesmo de o segurança chegar, outras pessoas já intervieram. Momentos de confusão rapidamente diluídos no rebuliço do final da tarde. Outro indivíduo procura insistentemente vender a sua história aos transeuntes: - “Boa tarde. Eu faço parte de uma associação de apoio a extoxicodependentes. É uma associação que vive do contributo e de donativos das pessoas…” Na Rua do Loureiro, as lojas fecham e o movimento diminui. A Rua da Madeira funciona como um ponto de passagem para a Rua 31 de janeiro. Ao final de tarde a luz escasseia. Um homem, parado em frente ao café, come um pacote de batatas fritas. Depois de terminar, arranja o cabelo e a barba com o auxílio do espelho de um carro estacionado. Desprovida de grande movimento, esta rua é um espaço de conforto para as ‘personagens do espaço’ e um ponto de intervenção da equipa de rua em RRMD. Forma-se uma pequena aglomeração de aproximadamente uma dezena de consumidores de drogas. Conversam com os técnicos da equipa de intervenção. Perto da equipa, há um junkie com uma folha de alumínio na mão. Abandona o local e segue no sentido da Rua Mouzinho da Silveira. A noite O sol desapareceu completamente. O céu está límpido. O movimento dos transeuntes é escasso. O som dos automóveis diminui. Ouvem-se as gaivotas a sobrevoar a entrada da estação. O fluxo de passageiros reduziu substancialmente. Restam duas ou três ‘figuras’ que deambulam. Uma mulher vagueia na entrada principal e interpela um transeunte: Mulher: Arranja-me 70 cêntimos.
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Transeunte: Não tenho. Mulher: Estás teso? Transeunte: Não tenho trocos. O movimento de pessoas e veículos é cada vez mais esporádico. No interior da estação, as funcionárias aproveitam para limpar grandes extensões do chão das plataformas. As ruas laterais estão desertas, por vezes sentem-se cheiros nauseabundos. Na frente da estação, nas escadas que dão acesso ao lado da Rua do Loureiro, dois indivíduos conversam e olham em redor. Um deles afasta-se na direção do cruzamento com a Rua Mouzinho da Silveira. Pouco tempo depois, um jovem circula com uma garrafa de cerveja na mão. Parece impaciente. Encontra-se com outro e sobem a Rua da Madeira até às escadas. Regressam de imediato. O primeiro jovem encaminha-se para a Avenida dos Aliados. São 00h45. O Segurança começa a solicitar aos transeuntes que abandonem a estação. Parte o último comboio urbano em direção a Aveiro e as portas fecham. Há um travesti encostado à parede da última porta ainda aberta.

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3. Conclusões e pistas para a investigação e a intervenção
As investigações nacionais do Violence in Transit convidam ao estudo de um caso, de uma realidade empírica à escala micro analítica, para explorar problemáticas teóricas de grande complexidade. Convidam, concretamente, à problematização do objecto de estudo, cruzando variáveis de natureza tangível, como as características do espaço físico e da sua ocupação económica e social, com variáveis de natureza mais intangível e complexa, como as apropriações sociais do espaço e a manifestação de fenómenos de violência juvenil, pobreza e exclusão social. Para responder a este desafio, desenvolvemos uma abordagem compreensiva de cariz indutivo e fenomenológico, desenhando um percurso de investigação baseado numa estratégia analítica cumulativa. Assim, procurando dar resposta à primeira questão de partida, abordámos a estação de S. Bento através de uma leitura das características mais tangíveis do objeto de estudo. Tratou-se de caracterizar o cenário, estabelecendo o contexto de referência para o aprofundamento do trabalho empírico, e de reunir elementos para a problematização teórica das qualidades heurísticas de S. Bento como estudo de caso no contexto da investigação transnacional. Apreendido e descrito o cenário, prosseguimos a análise procurando dar resposta simultaneamente à segunda e terceira questões de partida, abordando o objeto de estudo através das perspectivas de dois tipos de actores protagonistas na vida social deste espaço. Pretendeu-se identificar e caracterizar os fenómenos sociais no quadro da pobreza e da exclusão social e de explorar em que medida a ocorrência desses fenómenos está associada às características específicas da estação. Em consonância com a abordagem qualitativa e fenomenológica adotada, apresentamos em primeiro lugar os resultados da auscultação dos atores que designamos por ‘residentes’, ou seja, as
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pessoas que, por razões profissionais ou de outra ordem, ocupam grande parte do seu dia na estação e nas suas imediações. Quisemos dar conta das perceções e vivências dos atores que protagonizam continuamente o quotidiano deste espaço social sobre o mesmo, sem que os temas em análise tivessem sido induzidos pelos investigadores. À trama de histórias e de personagens que estas perceções e vivências revelaram, acrescentámos seguidamente a leitura dos actores institucionais que protagonizam a intervenção. A abordagem a estes atores foi orientada para uma exploração das suas perspectivas analíticas e reflexivas, tendo em conta os papéis que desempenham, nomeadamente de garantia da ordem e da segurança do espaço (forças policiais), de gestão e garantia da qualidade dos serviços de transporte (CP) e de intervenção nos próprios fenómenos em análise (OTS). Em último lugar, concluímos a análise empírica elaborando uma narrativa de inspiração cinematográfica, entendendo-a como um meio de partilha de um conhecimento experiencial e compósito adquirido pela equipa ao longo da investigação. Chegado a este ponto, propomo-nos cumprir duas tarefas: 1) a de sistematizar os resultados deste percurso avaliando em que medida os dados empíricos recolhidos permitem responder às questões de partida da investigação e contribuir para a problematização teórica das hipóteses subjacentes ao Violence in Transit e 2) a de reunir pistas para a intervenção tendo em conta os elementos de diagnóstico de necessidades e recursos.

3.1. Questões para a investigação
i) Como se caracteriza S. Bento enquanto estudo de caso de um espaço cuja função relativa ao transporte de passageiros origina uma forte mobilidade de pessoas? S. Bento é o estudo de caso de uma estação ferroviária, situada no coração de um centro urbano e numa zona histórica, classificada como Património Mundial da Humanidade. O próprio edifício da
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estação, datado do início do século XX, é classificado como um imóvel de elevado valor patrimonial e turístico. A estação constituiu portanto um elemento central na história do desenvolvimento económico e social da cidade na época moderna. O desenvolvimento da cidade seguiu um padrão semelhante ao verificado em numerosos centros urbanos. Depois dos fenómenos de terciarização, de desertificação e de degradação do centro urbano, bem como do correlativo crescimento das regiões periféricas, nas últimas duas décadas a cidade registou mudanças muito significativas. A zona histórica e a ‘baixa’ (zona moderna) têm verificado sucessivos processos de requalificação urbana e de revitalização económica, social e cultural, bem como um acréscimo considerável do turismo. Actualmente verifica-se no centro do Porto um processo típico do que os sociólogos, geógrafos e urbanistas têm designado de gentrificação. Sendo a segunda maior cidade do país, o Porto regista 240 000 habitantes e polariza uma área metropolitana com mais de 1,6 milhões de habitantes. Enquanto centro urbano de grande dimensão à escala nacional, a cidade desempenha historicamente um papel de polo de atração, não obstante a degradação de importantes indicadores de desenvolvimento económico e social que se tem verificado nos últimos anos em toda a região, nomeadamente os relativos ao mercado de trabalho. S. Bento é uma das duas estações ferroviárias da cidade, ligada à estação de Campanhã, esta última localizada na zona oriental da cidade e fora dos limites do centro urbano. A principal função de S. Bento na rede de transportes (95%) é a de ligação suburbana e regional (Minho, Douro e Aveiro), cumprindo igualmente a função de ligação à linha do Norte que permite o acesso a destinos de longo curso, nacionais e internacionais. S. Bento regista uma média de cerca de 35 000 passageiros por dia e é uma estrutura física relativamente pequena com 8 linhas férreas (6 activas) e com uma gare com extensão de 180 metros. Construída no sopé de uma colina a estação têm três lados (sul, poente e norte). Estas características significam nomeadamente a exequibilidade e eficácia (posteriormente confirmada) de uma forte vigilância e controlo social do espaço.
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Na análise deste espaço físico e do território envolvente, os temas da pobreza e exclusão social surgem como incontornáveis para a própria compreensão do desenvolvimento urbano. A sua presença histórica e estrutural no centro da cidade é reconhecida e actualizada nos diagnósticos sociais deste território ao longo dos anos. Esta presença manifesta-se igualmente através dos impactos das políticas de reabilitação urbana combinadas com as políticas de habitação social (que tendem a expulsar a população empobrecida das zonas ‘nobres’ da cidade para as periferias urbanas), através das manchas de espaços devolutos assinalados nos levantamentos cartográficos e funcionais do centro urbano, e ainda pela evidência empírica da mendicidade, da toxicodependência ou de outros fenómenos que se observam pontualmente por todo o centro urbano e também em S. Bento. ii) Que fenómenos sociais no quadro da pobreza, da exclusão social e da violência juvenil se verificam em S. Bento? Em resposta à questão aberta - como caracteriza S. Bento? – os atores ‘residentes’ revelaram o predomínio hegemónico de indicadores negativos de representação social do espaço, associados às problemáticas da pobreza e exclusão social. Muitos entrevistados utilizam expressões radicais de síntese, tais como “podridão”, “o fim do mundo” ou “o bas du fond da cidade do Porto”, e/ou sublinham um mosaico de fenómenos sociais de exclusão, tais como “paneleiros, prostituição e muita droga” ou “um ambiente com pobres, drogados e alcoolismo”. Constata-se que a violência assume uma centralidade latente em grande parte destes testemunhos e vivências. Expressa-se sobretudo sob a forma de referência ao sentimento de insegurança, ou inversamente na valorização da segurança. Efectivamente, mesmo os entrevistados que expressaram uma percepção mais positiva deste espaço, fazem-no por referência a uma expectativa de violência latente, induzida pelo reconhecimento das características estruturais do cenário. Exemplos desta constatação são a recorrência da expressão “receio”, ou ainda, a preponderância de sugestões de intervenção com base em perspectivas higienistas e de policiamento.
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É através do que Bourgois (2009) apelida de violência invisível que esta problemática se manifesta de forma mais significativa. Ou seja, entendendo a violência enquanto elemento estrutural na organização da vida social ao longo da história e em diferentes culturas, tendendo a assumir formas de coerção disfarçadas e legitimadas, e portanto não reconhecidas entre perpetradores e vítimas, tais como o medo e a sujeição. Este autor identifica três dimensões de reprodução da violência invisível: uma dimensão estrutural, associada às limitações das oportunidades de vida propiciadas pelas condições económicas e sociais do meio; uma dimensão normalizada através dos valores culturais, das práticas e das interações quotidianas que reproduzem as diferenças sociais; uma dimensão simbólica enquanto internalização das estruturas de controlo social e da estigmatização pelas vítimas. Estão presentes no cenário descrito exemplos de violência entendida desta forma, tanto em críticas de alguns ‘residentes’ ao que consideram uma insuficiente ação por parte das forças policiais e de segurança na “limpeza da podridão” do espaço, como na ação dissuasora do segurança da estação sobre os mendicantes ou grupos de jovens suspeitos de delinquência, ou ainda, no comentário resignado de uma mulher que se prostitui, relativo aos insultos frequentes de que é alvo. Do ponto de vista da aceção comum de violência como agressão física, a expressão deste fenómeno assume fundamentalmente um carácter episódico. Exemplos concretos são os conflitos entre mulheres que se prostituem e clientes ou proxenetas, o pontual vandalismo contra as vitrinas das lojas ou desacatos associados à concentração de pessoas e ao consumo de drogas ou álcool. Em linha com a constatação inicial da investigação, o tema da violência juvenil não surge como variável central para a compreensão deste estudo de caso. A juventude é um indicador etário pouco relevante para a caracterização e compreensão dos fenómenos em causa. Os indicadores mais relevantes neste campo são as escassas referências a situações de jovens do sexo masculino em contextos familiares de pobreza que recorrem à prática da prostituição, e situações de abuso de drogas e álcool
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por parte de grupos de jovens, associadas à vida nocturna durante os fins-de-semana. Deste ponto de vista, ao contrário do sugerido pelo desenho do projeto, este estudo de caso convida a olhar com mais atenção a problemática do envelhecimento, bem como a do género. Alcoolismo, a procura de prostituição masculina e feminina e práticas de engate homossexual, são fenómenos e comportamentos que estão associados a homens, muitos dos quais com idades superiores a 60 anos, e que compõem a paisagem quotidiana de S. Bento. O mosaico de problemáticas sociais, evidenciado pelos testemunhos dos ‘residentes’, foi corroborado e complementado pelos atores institucionais. Alguns dos elementos deste mosaico, correspondentes a personagens do enredo, encontram-se claramente em condições de privação e marginalidade extremas, de que são exemplos os sem-abrigo que visitam regularmente a estação, bem como de outras pessoas que praticam mendicidade de forma igualmente frequente. Dentro deste limiar, ou na sua fronteira com condições de vulnerabilidade menos extremas, encontram-se designadamente pessoas toxicodependentes e alcoólicas. No primeiro caso são homens e mulheres adultos de várias faixas etárias. No segundo caso, tendem a ser homens com idades superiores a 40 anos. Outra presença permanente são mulheres e homens que se dedicam à prática da prostituição, estes últimos consideravelmente mais ocultos à observação direta. Estas práticas estão frequentemente, mas não exclusivamente, associadas ao abuso de drogas. Outros elementos deste mosaico evocam diferentes conceitos para dar conta de outras práticas, por sua vez correspondentes a diferentes personagens do enredo, nomeadamente os de delinquência, criminalidade, desvio social ou comportamento desviante. Os fenómenos e práticas que identificamos nestes domínios não implicam necessariamente um grau extremo de vulnerabilidade. Pelo contrário, revelam frequentemente uma capacidade superior de mobilização de recursos de diversas naturezas.
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As práticas que designamos por “esquemas” (carteiristas, furtos, contrabando, pequeno tráfico de drogas) podem, em grande medida, ser enquadradas pelos conceitos de delinquência ou criminalidade, pelo seu carácter de práticas reconhecidas e sancionadas pelo quadro jurídico-legal (Negreiros, 1990). A presença estrutural deste tipo de práticas conduz inevitavelmente a considerar as problemáticas teóricas associadas às trajectórias e carreiras desviantes (Negreiros, 2008) como um dos aspectos centrais do cenário de reprodução da pobreza e exclusão social neste território. A amplitude do conceito de comportamento desviante, enquanto transgressão ou violação de normas e de expectativas de um determinado grupo ou comunidade (Negreiros, 1990; Antunes, 1999), permite enquadrar a generalidade do mosaico descrito. Evocá-lo para a compreensão deste território é útil sobretudo para dar conta de fenómenos que não são matéria do foro jurídico e que não encontram enquadramento heurístico suficiente no conceito de pobreza, designadamente as práticas dos clientes da prostituição masculina e feminina, bem como as práticas de engate homossexual. Neste campo a ênfase coloca-se no plano da reprovação social e da estigmatização, evocando o conceito de exclusão social para uma compreensão adequada destas realidades empíricas. A percepção de uma parte significativa dos interlocutores entrevistados é a de que a manifestação deste mosaico de fenómenos verifica uma tendência de melhoria e estabilização. Para compreender a evolução da manifestação destes fenómenos no território, importa analisar as estratégias de intervenção de que este tem sido alvo ao longo do tempo. De acordo com o fenómeno de gentrificação verificado ao longo das últimas duas décadas no Porto, as prioridades políticas têm-se centrado em criar as condições de competitividade territorial segundo os padrões das sociedades de capitalismo avançado, onde a cidade se apresenta como um símbolo supremo de um ideal de desenvolvimento económico e social. Na prossecução deste ideal tipo, o tratamento dos fenómenos da pobreza e da exclusão social assume um carácter instrumental face à finalidade em causa,
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evidenciando a ordem hegemónica de valores onde estas problemáticas são secundarizadas. Neste sentido, a tendência de intervenção preponderante no território urbano em análise tem sido a de intensificação de estratégias higienistas, quer através das políticas de requalificação urbana, quer através das políticas sociais, nomeadamente nos campos da habitação e a da ação social. A partir da década de 1990, estas intervenções começaram por reverter o cenário de extrema degradação da zona histórica, incluindo o desmantelamento de um dos maiores mercados de droga da região, num momento em que a problemática da toxicodependência atingia em Portugal uma proporção alarmante. Estas intervenções foram abrangendo progressivamente um território mais amplo incluindo a ‘baixa’ da cidade. Dada a centralidade territorial de S. Bento, os impactos destas intervenções têm sido manifestos no espaço da estação e nas suas imediações. O cenário de concentração de sem-abrigo, de toxicodependentes e o trânsito de pessoas associado a estes fenómenos diminuiu consideravelmente na estação. Para este efeito concorreram igualmente as estratégias de intensificação da segurança e do policiamento. No que se refere ao policiamento, é de destacar a eleição do espaço público de localização da estação como prioritário, a presença regular de uma força policial especificamente destacada para o acompanhamento das actividades turísticas, bem como a criação de uma força policial ferroviária própria para a intervenção no interior das estações e dos comboios. A criação desta última força policial é aliás, como afirmámos, paradigmática do modelo de intervenção preventivo e dissuasivo privilegiado. No que se refere à segurança da estação, as estratégias seguem a mesma orientação, assegurando a vigilância e o controlo social contínuos deste espaço. Como os nossos resultados empíricos evidenciaram, a figura do segurança da estação é central na implementação destas políticas, na medida em que as suas funções principais implicam uma interação direta com os atores do mosaico social de pobreza e exclusão.
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A perspetiva dos atores institucionais entrevistados com funções de segurança e policiamento, espelha a tendência de estabilização e endogeneização destes fenómenos, cujo tratamento está integrado no quotidiano da gestão deste espaço. A atenção prioritária destes atores centra-se em fenómenos emergentes ou para os quais as estratégias de vigilância e dissuasão não proporcionam ainda mecanismos eficazes de controlo. Nesta categoria encontram-se os cidadãos estrangeiros/imigrantes que viajam na rede de serviços de transporte, ou dos grafiters que procurando locais de expressão ao longo das linhas e estruturas ferroviárias, fora da vigilância omnipresente, praticam atos classificados de vandalismo, contra o património da CP. A legitimação destas lógicas é reforçada por aproximadamente um terço dos atores ‘residentes’ que considera que este tipo de intervenção deveria ser intensificado. Num sentido diferente, uma parte mais pequena destes atores, entre os quais os cinco entrevistados em situação de exclusão social, considera que a intervenção neste espaço se deveria centrar nas necessidades e problemas da população desfavorecida. Esta perspectiva é obviamente partilhada, por inerência das suas missões, pelas OTS que intervêm neste espaço. Os testemunhos destes atores institucionais revelam a mesma tendência de estabilidade deste mosaico de fenómenos. Esta estabilidade está também associada ao reconhecimento de uma melhoria dos modelos de articulação institucional nas respostas sociais, bem como à sinalização dos casos individuais e cobertura das suas necessidades imediatas. A prioridade de intervenção que resulta dos seus diagnósticos é a da necessidade de criação de respostas orientadas para processos de reinserção social continuados e acompanhados ao longo do tempo. Não sendo possível quantificar os fenómenos em causa, podemos no entanto afirmar que o número aproximado de personagens ‘residentes’ envolvidas no mosaico descrito ronda actualmente as dezenas ou mesmo a centena. Importa sublinhar ainda que sendo esta uma zona prioritária de policiamento, o registo de incidentes tem sido residual.
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Em síntese, S. Bento é o estudo de um caso de um retalho de território urbano, onde a pobreza e a exclusão social se manifestam de forma endógena e cuja análise em profundidade espelha os mecanismos da sua reprodução estrutural. A estação constitui um polo de manifestação destes fenómenos, mas não um polo da sua concentração, eficazmente evitada por uma forte vigilância e controlo social. A cabal compreensão dos mesmos implica, necessariamente, considerar o território mais abrangente, bem como outros pontos do centro urbano. iii) Em que medida está a ocorrência destes fenómenos associada à estação e às características específicas deste espaço? A investigação empírica permitiu reunir dois conjuntos de resultados distintos tendo em vista a resposta a esta terceira questão de partida. Um primeiro conjunto é relativo às respostas dos actores ‘residentes’, quando lhes foi colocada a questão de qual a relação entre os fenómenos sociais que identificaram nos seus testemunhos e a estação de S. Bento. Estas respostas dão pistas para refletir sobre a relação entre a ocorrência destes fenómenos e a função de transporte de passageiros e correlativa concentração e mobilidade de pessoas. A estação é percepcionada como um “lugar de oportunidades” de diversos pontos de vista. Por um lado, é uma localização privilegiada para o negócio dos comerciantes e prestadores de serviços e é o ponto de chegada de clientes do interior do país para as mulheres que se prostituem. Por outro lado, as características propiciam o exercício de “esquemas”, bem como as práticas de sobrevivência quotidiana para os atores em situação de marginalidade extrema (como a mendicidade ou o abrigo). Visto de outra perspectiva, esta percepção está também associada a um sentido histórico e à polaridade que S. Bento assume no cenário mais amplo da pobreza e exclusão social na cidade, como o sugerem as expressões “ponto terminal”, “espaço central” ou “ponto estratégico desde sempre, uns por necessidade, outros por vício”.
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A função de transporte de passageiros e a correlativa concentração de pessoas em trânsito constitui, portanto, uma característica incontornável para a compreensão do mosaico de problemáticas sociais. Todavia, estas mesmas características são similares a outros pontos do centro urbano onde circulam milhares de transeuntes, onde se localizam outras estruturas de transportes e onde ocorrem fenómenos semelhantes. Neste contexto, a autonomização de indicadores empíricos para a resposta a esta terceira questão de partida é particularmente difícil de concretizar. Procurando igualmente contribuir para dar resposta a esta questão de partida, a abordagem etnográfica ao território privilegiou como dimensão de análise a apropriação social do espaço físico. Os resultados desta análise permitiram identificar uma segmentação do espaço, o que aprofunda a compreensão do mosaico de fenómenos encontrado mas não contribui para esclarecer a questão de partida. Do ponto de vista do desenvolvimento do território urbano, a primeira aproximação ao terreno tinha já revelado a singularidade da localização de S. Bento na fronteira da cidade medieval, de tradição popular e bairrista, com a cidade moderna de natureza mais impessoal e favorável ao anonimato. A expressão dos referidos fenómenos no espaço da estação corrobora esta constatação inicial, ao apresentar uma geografia de “micro cosmos do desvio” consonante. Os dados da observação e das entrevistas evidenciam a polarização de fenómenos distintos num lado e noutro da fronteira. Do lado da Rua do Loureiro, contígua ao bairro da Sé e onde permanecem funções residenciais e de comércio tradicional, os fenómenos verificados enquadram-se no que podemos designar por um território de pobreza ‘normalizada’ ou instituída, onde a mendicidade, mas sobretudo a prostituição feminina, são as expressões históricas e socialmente endogeneizadas, não obstante a sua representação como “podridão” ou “cancro”. Na transição para a cidade moderna, do lado da Rua da Madeira incluindo a maior parte do espaço interior da estação, tendem a polarizar-se os fenómenos que resistem a esta institucionalização ou normalização social. Esta resistência está associada quer ao seu carácter no limiar da ilegalidade e da criminalidade, quer à
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profunda reprovação e estigmatização social, como são os casos do abuso de álcool e drogas e da homossexualidade – “o maior nojo da estação”. Este lado da fronteira é portanto um território de opacidade acrescida, que beneficia do maior anonimato propiciado pelas características físicas e da ocupação social do espaço. Estes resultados, bem como os resultados globais da abordagem etnográfica escolhida pelo Violence in Transit, convidam a encarar S. Bento como um palco privilegiado para observar não tanto a emergência ou a concentração de fenómenos de pobreza e exclusão social, mas também – e sobretudo – os mecanismos estruturais da sua reprodução. A metodologia de investigação implementada teve a virtude de revelar a trama de interações quotidianas entre os diferentes atores sociais, através das quais se reproduzem continuamente os processos interpessoais e os mecanismos macro estruturais de exclusão social. As características que tornam este espaço privilegiado são a sua função de transporte de passageiros, o seu carácter de atração turística e a sua localização no coração de um centro urbano em processo de gentrificação. Localizada num território mais amplo caracterizado pelo aumento crescente do controlo social e da vigilância policial, a estação ferroviária é porventura um dos retalhos de território urbano onde este controlo e vigilância assumem uma expressão máxima. Esta afirmação encontra uma das suas manifestações mais evidentes no papel do personagem segurança da estação, protagonista no enredo do dia-a-dia da vida de cada um dos sujeitos que compõem o mosaico de pobreza e exclusão, bem como no decorrer das horas e dos minutos de um dia trabalho de observação direta no terreno, pela equipa de investigadores.

3.2. Pistas para a intervenção
Perante as conclusões da investigação, importa por último, refletir sobre as oportunidades para a intervenção pelo Violence in Transit. Um primeiro elemento chave para esta reflexão é de ordem
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temática. Deste ponto de vista, a pobreza estrutural e a reprodução dos mecanismos de exclusão social surgem como os temas centrais, num contexto de estabilidade da manifestação das problemáticas sociais. Assim, os resultados da investigação convidam sobretudo a desenhar uma intervenção orientada para a reflexão crítica em temas como: - As representações da pobreza e da exclusão social e a sua reprodução através da endogeneização dos mecanismos da desigualdade social aos níveis individual e colectivo e objectivo e subjectivo. - O carácter histórico destas problemáticas no centro da cidade do Porto, os modelos de intervenção social implementados e os seus respectivos resultados e impactos. - Os cenários de evolução da situação tendo em conta o actual contexto de crise e as tendências no campo das políticas sociais. Ainda no plano temático, e considerando a configuração empírica dos diferentes fenómenos do mosaico de problemáticas descrito, os resultados da investigação convidam a aprofundar a reflexão sobre o diagnóstico social do território. Alguns dos temas específicos identificados são os seguintes: - O cruzamento destas mesmas problemáticas com as questões do envelhecimento e do género. - As questões do tratamento social da homossexualidade e do desconhecimento e difícil acesso à população envolvida em práticas de prostituição masculina. - A prevalência de situações de extrema marginalidade, não obstante a melhoria significativa das estratégias de intervenção social, para as quais as respostas sociais ao nível da intervenção primária e secundária permanecem insuficientes. - As dificuldades de desenvolver respostas de reinserção social duradouras. Um segundo elemento-chave para a intervenção são as características específicas do espaço físico e social de S. Bento. As mesmas características que fazem da estação um palco privilegiado de observação dos mecanismos de reprodução da exclusão social
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constituem oportunidades extraordinárias para o desenho de uma intervenção orientado para um trabalho de sensibilização social abrangente. Ações que assumam este espaço como palco poderão contar com uma grande diversidade e quantidade de públicos, designadamente: - Três dezenas de milhares de clientes da CP por dia, incluindo uma grande quantidade de população que reside nas regiões do Douro, Minho e Aveiro e na Área Metropolitana do Porto; - Milhares de transeuntes diários na baixa do Porto, incluindo turistas; - Centenas de pessoas que neste estudo designamos por atores ‘residentes’, incluindo os comerciantes e prestadores de serviços no local e imediações e as próprias pessoas em situação de vulnerabilidade social. A estas acrescem as pessoas que habitam nos edifícios envolventes à estação onde permanece a função residencial. - Os atores institucionais responsáveis pela intervenção em S. Bento Desde logo as próprias entidades gestoras, CP e REFER, bem como as OTS e as forças policiais – PSP, polícia ferroviária e equipas de acompanhamento das actividades turísticas. Por fim, e em linha com esta listagem de potenciais públicos-alvo para o desenho da intervenção, importa ter em conta outros atores que poderão, influenciar, contribuir e/ou beneficiar das ações a implementar (stakeholders). Entre estes, entidades públicas, privadas e do terceiro sector, de que são exemplos as seguintes: - A Câmara Municipal, as Juntas de Freguesia e outras entidades com tutela sobre as diferentes áreas de política sectorial (ação social, emprego, igualdade de género, requalificação urbanística, promoção turística, etc.). - Os agentes privados com interesses neste espaço do território urbano, entre os quais agentes imobiliários e turísticos. - As OTS com intervenção no centro urbano do Porto. - As universidades e os investigadores dedicados ao estudo destes fenómenos na cidade.

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Bibliografia
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Anexos

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Indice de Anexos
Anexo I Guião de Entrevista Exploratória Anexo II Bibliotecas e sites consultados Anexo III Grelha de observação direta Anexo IV Guião aberto entrevista aos atores residentes

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Anexo I
Guião de entrevista exploratória
Procedimentos exploratórios
Objetivo: Identificar algumas partes interessadas que possam fornecer informações e ajudar a identificar os seguintes elementos: - Áreas do interior da estação e sua envolvência em que se verifiquem episódios de violência juvenil ou risco potencial de ocorrência de fenómenos violentos envolvendo jovens, tanto como vítimas e/ou como agressores. - O público-alvo da intervenção: através dos atores privilegiados a entrevistar, recolher uma descrição do jovem alvo envolvido nos fenómenos de interesse do projeto em termos de idade, nacionalidade, sexo, comportamento desviante (método, a frequência, a participação de outros atores sociais). Em cada área de intervenção será identificada nesta fase, pelo menos 6-7 partes interessadas, ou seja, os responsáveis de segurança (forças de segurança pública como operadores da segurança privada) responsáveis pela gestão ferroviária e responsáveis pelas ONGs que trabalham com os grupos-alvo; representantes políticos locais (cidade ou distrito) com responsabilidade nas áreas da segurança urbana e políticas de juventude. O grupo de trabalho vai facultar um mapa da estação e área urbana adjacente, com a identificação dos locais entrevistados. Recomenda-se também a recolha de dados estatísticos. Por exemplo, solicitar os dados de relatórios policiais/ intervenções sobre os fenómenos sociais em análise junto das forças de segurança, assim como a recolha dos comunicados de imprensa com episódios de notícias locais e posições da sociedade civil sobre as temáticas de interesse do projeto às agências de meios de comunicação locais (jornais, televisão e web media).
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Passos para entrevistas de mapeamento: 1) obter um mapa da estação ferroviária e do território envolvente; 2) identificar as partes interessadas (stakeholders); 3) reunir com as partes interessadas, para apresentar o projeto (objetivos, ações, duração, ações planeadas), fazer as entrevistas (entrevistas gravadas); 4) identificar as áreas de interesse, em mapas, com a colaboração das partes interessadas; 5) transcrever as entrevistas e elaborar um breve relatório sobre os resultados das mesmas Durante esta primeira fase serão planeadas e executadas as versões preliminares do mapeamento das áreas e das grelhas de observação.

Guião da Entrevista Primeira parte: descrição dos stakeholders
1.1 Nome da organização 1.2 Instituição / organização • Forças de Segurança • Entidade pública • Associação Comercial/ Empresas privadas • Associação de moradores • ONG • Outros (especifique)…………………… No caso da instituição / organização prestar serviços ao público-alvo, preencher a segunda parte 1.3 Endereço, número de tabela 1.4 Nome de contacto

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Segunda parte: relação com a área de intervenção
2.1. Qual a missão e quais as atividades desenvolvidas pela organização referentes a esta área territorial? (A resposta pode envolver-se no domínio da segurança e da prevenção da criminalidade (no caso das forças de segurança); na programação da intervenção (instituições públicas); na atividade comunitária (associações cívicas), na atividade produtiva/económica, entre outros) 2.2. Qual a localização física da organização no território? A resposta envolve tanto a identificação da sede, lojas, escritórios, como a presença ocasional (controle das forças policiais, as atividades pontuais em momentos específicos do ano, atividades exclusivas - festas, campanhas, etc.), neste caso pedir para quantificar a presença (horas, dias) 3.1 Qual é a leitura que faz dos fenómenos de violência, marginalização, miséria, degradação, no território de intervenção? Particularmente em referência ao envolvimento de jovens (com menos de 30 anos de idade). 3.2 Com a ajuda do mapa territorial identificar as áreas em que os fenómenos ocorrem. 3.3 Solicite informações específicas sobre os diferentes grupos alvo e a sua evolução ao longo do tempo. A pergunta pode ser formulada da seguinte forma: Ao longo dos últimos cinco anos, a situação é diferente no que diz respeito à presença de:

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Prostituição
5 Anos atrás Presença: número Nacionalidade Idade Questões / problemas Hoje

Toxicodependência
5 Anos atrás Presença: número Nacionalidade Idade Questões / problemas Hoje

Sem Abrigo
5 Anos atrás Presença: número Nacionalidade Idade Questões / problemas
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Hoje

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Os jovens envolvidos em atos de violência e exclusão social
5 Anos atrás Presença: número Nacionalidade Idade Questões / problemas Hoje

3.4 Indique as suas principais preocupações em relação à segurança na Estação de S. Bento e território envolvente? 3.5 Diga, na sua opinião, se a sua organização propôs/ implementou iniciativas específicas para prevenir e/ou combater a degradação urbana e a insegurança? 3.6 A sua organização participa em redes locais, em coordenação com outras partes interessadas: • Forças de Segurança • Instituição pública • Associação Comercial/ Empresas privadas • Associação de Moradores na área • ONG • Outros (especifique)…………………… Nome e objetivo da rede, coordenação, .... Descreva as atividades realizadas na sua organização nos últimos cinco anos em relação aos fenómenos de interesse para o projeto [prevenção e redução da violência juvenil nas áreas de mobilidade (estações)]. Descreva as atividades na sua organização para os próximos dois anos.

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Segunda parte
Guia para as organizações que prestam serviços ao público-alvo Público-alvo • Sem abrigo • Toxicodependência • Prostituição • Jovens envolvidos em atos de violência e exclusão social • Outros……………………… Atividade • Gestão de centros de alojamento de médio-longo prazo (mais de 30 dias) • Gestão de centros de alojamento para casos de emergência social (até 30 dias) Gabinete de atendimento ao público • Dias - horários……………………… Tipo de serviços prestados: • Orientação para a saúde e área social • Micro-projectos de inclusão social e laboral • Escuta • Trabalho em rede com outros serviços • Participação em redes locais • Outro (especificar) …………………………………………… • Oferta de comida, cobertores, medicamentos e outros materiais de apoio à saúde preventiva Explique como decorre a atividade (horários, modalidade, operadores envolvidos, ..) • Trabalho de proximidade, trabalho de rua, contato com clientes no exterior das instalações, nos locais de estacionamento, nos locais de trabalho, nos locais de passagem. Explique como decorre a atividade (horários, modalidade, operadores envolvidos, ..)
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• Atividades de lazer/entretimento, de educação e de juventude Explique como decorre a atividade (horários, modalidade, operadores envolvidos, ..) • Outras atividades Explique como decorre a atividade (horários, modalidade, operadores envolvidos, ..)

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Anexo II
Listagem bibliotecas e centros de documentação consultados
Lista de bibliotecas e centros de documentação:
Bibliotecas de instituições de ensino superior Faculdade Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra Faculdade de Direito da Universidade do Porto/Coimbra/Lisboa? (togliere il punto interrogativo) Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra Faculdade de Letras da Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Instituto Superior de Serviço Social do Porto Universidade do Minho Centros de Investigação e documentação Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa CES - Centro de Estudos Sociais CIES - Centro de Investigação e Estudos de Sociologia EAPN Portugal / Rede Europeia Anti Pobreza CIG – Comissão para a Igualdade de Género IDT – Instituto da Droga e da Toxicodependência Fundação da Juventude Catálogos On-Line B-on Springer Web of Science Páginas WEB Nacionais Fórum Não Governamental para a Inclusão Social Link: http://foruminclusao.no.sapo.pt/
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Anexo III
Grelha de observação
Listagem de itens e códigos para preenchimento da grelha
0. Pontos de observação e Hora Identificação de ponto de observação: R. Madeira; R. Loureiro; Estação; Frente à estação; outro: qual? Fluxo de pessoas (FE) Fluxo elevado (FM) Fluxo médio (FB) Fluxo Baixo Aspetos sociodemográficos Sexo M= masc. F = fem. T = transg. Nacionalidade P= Portuguesa E = Estrangeiro (se possível, especificar a nacionalidade) Grupo etário 1) <12 2) 12-15 3) 16-20 4) 20-30 5) 30-40 6) 40-50 7) 50-60 8) 60-70 9)> 70
89

1.

2.

Violence in Transit

3.

Estilo de apresentação Identificação do tipo adereços, apresentação mais ou menos formal, aspeto de sem-abrigo, etc. Formas de interação I = um indivíduo G = Grupo —> especificar o nº de elementos de grupo Formas de apropriação do espaço Uma descrição da relação com o espaço e com as estruturas/serviços da estação (ex.: Utiliza o comboio?). [5.1] Sempre o mesmo ponto (estáticos) [5.2] A vaguear pela estação [5.3] À espera de apanhar o comboio [5.4] Outra. Qual? Agentes de segurança na zona Tipo de agentes (—> especificar o nº de agentes e seus comportamentos/funções) PSP Seg. Ferroviária (PSP-SF) PSP Turismo (PSP-T) Empresas privadas (EP) Outro (Especificar) Nenhum (0) Descrição de eventuais comportamentos desviantes ou situações problemáticas vividas pelos indivíduos observados. Desemprego (DS) Abandono escolar (AE) Venda de drogas (VD) Alcoolismo (A) Distúrbio psíquico (DS) Microcriminalidade (MC) Sem-abrigo (SA) Uso de drogas (UD) Trabalho sexual (TS) Exploração de trabalho Mendicidade (M) sexual (ETS) Nenhuma (N) “Arrumador de carros” (AC)

4.

5.

6.

7.

90

Data

De (Hora)

Até (Hora)

Nome do Observador

Caracterização do Espaço - Ator Registo Hora Fluxo de Passageiros Agentes de Autoridade Outras Observações10 Tipologia Número Comportamento(s)/ Postura

1 2 n Estilos de Formas de Comportamentos apresentação apropriação Desviantes/ (descrição) do espaço Problemáticas Sociais

Caracterização do Fenómeno - Ator Hora e Aspetos Interação Local de Sociodemográficos Observação o

Sexo Nacionalidade Idade Individual Grupo (nº)

1 2 n

10. Nesta categoria incluir presenças, movimentações, eventos não usuais que, não só alteram a caracterização do espaço da Estação, mas também o comportamento dos passageiros, as dinâmicas da Estação e, ulteriormente, pode afetar os nossos alvos e respetivas atividades

Relatório de Investigação Nacional

Diário de campo (notas de terreno e notas metodológicas) + Registo conversasional

91

Relatório de Investigação Nacional

Anexo IV
Guião aberto entrevistas aos atores residentes
Listagem de itens e códigos para preenchimento da grelha
0. Pontos de observação e Hora Identificação de ponto de observação: R. Madeira; R. Loureiro; Estação; Frente à estação; outro: qual? Fluxo de pessoas (FE) Fluxo elevado (FM) Fluxo médio (FB) Fluxo Baixo Aspetos sociodemográficos Sexo M= masc. F = fem. T = transg. Nacionalidade P= Portuguesa E = Estrangeiro (se possível, especificar a nacionalidade) Grupo etário 1) <12 2) 12-15 3) 16-20 4) 20-30 5) 30-40 6) 40-50 7) 50-60 8) 60-70 9)> 70
93

1.

2.

Violence in Transit

3.

Estilo de apresentação Identificação do tipo adereços, apresentação mais ou menos formal, aspeto de sem-abrigo, etc.

4. Formas de interação I = um indivíduo G = Grupo —> especificar o nº de elementos de grupo 5. Formas de apropriação do espaço Uma descrição da relação com o espaço e com as estruturas/serviços da estação (ex.: Utiliza o comboio?). [5.1] Sempre o mesmo ponto (estáticos) [5.2] A vaguear pela estação [5.3] À espera de apanhar o comboio [5.4] Outra. Qual?

6. Agentes de segurança na zona Tipo de agentes (—> especificar o nº de agentes e seus comportamentos/funções) PSP Seg. Ferroviária (PSP-SF) PSP Turismo (PSP-T) Empresas privadas (EP) Outro (Especificar) Nenhum (0) 7. Descrição de eventuais comportamentos desviantes ou situações problemáticas vividas pelos indivíduos observados. Desemprego (DS) Abandono escolar (AE) Venda de drogas (VD) Alcoolismo (A) Distúrbio psíquico (DS) Microcriminalidade (MC) Sem-abrigo (SA) Uso de drogas (UD) Trabalho sexual (TS) Exploração de trabalho sexual (ETS) Mendicidade (M) “Arrumador de carros” (AC) Nenhuma (N)

94

Data

De (Hora)

Até (Hora)

Nome do Observador

Caracterização do Espaço - Ator Registo Hora Fluxo de Passageiros Agentes de Autoridade Outras Observações11 Tipologia Número Comportamento(s)/ Postura

Caracterização do Fenómeno - Ator Hora e Aspetos Interação Local de Sociodemográficos Observação o

Estilos de Formas de Comportamentos apresentação apropriação Desviantes/ (descrição) do espaço Problemáticas Sociais

11. Nesta categoria incluir presenças, movimentações, eventos não usuais que, não só alteram a caracterização do espaço da Estação, mas também o comportamento dos passageiros, as dinâmicas da Estação e, ulteriormente, pode afetar os nossos alvos e respetivas atividades

Sexo Nacionalidade Idade Individual Grupo (nº)

95

Violence in Transit

Diário de campo (notas de terreno e notas metodológicas) Registo conversacional Caracterização Localização Grupo etário Sexo Nacionalidade 16-20 20-30 30-40 40-50 50-60 60-70 > 70 Masculino................... Portuguesa Estrangeiro (se possível, especificar a nacionalidade)........................ Há quanto tempo trabalha aqui? 1ª Abordagem A) Caracterização do espaço B) Necessidades diagnosticadas C) Intervenção realizada (abordada somente quando a questionámos sobre a temática) 2ª Abordagem Feminino...................

96

European Commission Directorate - General Justice

Daphne III programme Project code: JUST/2010/DAP3/AG/1231

Partnership

Fundación Apip - Acam
europeconsulting
cooperativa sociale

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