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Desoneração da cesta básica visa o controle da inflação em sintonia com os objetivos eleitorais

Batalha contra a carestia tem sido travada no corpo a corpo, com o governo procurando encadear as medidas econômicas com a agenda da reeleição 12/3/2013 - 02:11 - Antonio Machado

A desoneração do PIS/Cofins e do resíduo do IPI sobre os produtos da cesta básica

consolida o modelo de administração dos preços pelo governo para impedir que a inflação acumulada em 12 meses estoure o teto da meta de variação anual (6,5%) e o Banco Central não se veja forçado a acionar a taxa Selic, reduzida a 7,25% ao ano.

A batalha contra a inflação tem sido travada no corpo a corpo, com o governo procurando

encadear as medidas de política econômica com a agenda eleitoral da presidente Dilma Rousseff. Sua campanha para se reeleger em outubro de 2014 foi lançada precocemente.

O plano de voo, contudo, não contempla ignorar a carestia em nenhum cenário.

Mas admite que a inflação oscile entre 5% e 6% em 12 meses, já que há o receio de que

a convergência à meta central de 4,5% enfraqueça o consumo - principal propulsor do modesto crescimento da economia.

Isso viria com aumento de juros, com o controle do crédito ou com a contenção do gasto público ou um pouco de cada coisa. Nada agrada aos desígnios eleitorais. A parcimônia fiscal implica que a receita cresça ao ritmo da despesa, que avança à base de 6,6% anual acima da inflação. Ao anunciar a desoneração da cesta básica em cadeia de rádio e TV, Dilma destacou a redução dos juros “para os mais baixos níveis da história”. Tais coisas revelam a equalização da política econômica a um plano de ação para sensibilizar o eleitor.

O Banco Central tem sugerido que um pequeno ajuste da Selic, algo como 1 ponto de

percentagem (pingado em quatro altas de 0,25% nas reunião do Copom, por ai), já seria suficiente. E não bem só para garantir a queda da inflação. Afinal, a previsão oficial é que ela tende a murchar no segundo semestre, sobretudo pela desinflação do que a teria incitado: os preços da alimentação. Qual a estratégia?

Como “o governo assustou demais o empresário ao longo dos últimos trimestres com seus truques contábeis, as trapalhadas regulatórias, a flexibilização do tripé macroeconômico e outras estripulias”, diz o professor Carlos Eduardo Gonçalves, da Faculdade de Economia da USP, mostrar-se “anti-heterodoxo” aos mercados, subindo a

taxa de juro básica, pode ser uma forma, segundo ele, de Dilma reconquistar a confiança do investidor. É uma hipótese interessante.

De limão e limonada

Se o governo estivesse tão confiante na desinflação dos alimentos, como sustentam o BC

e economistas da Fazenda, não haveria motivo de tomar medidas de afogadilho. A

desoneração da cesta básica viria de qualquer jeito, sobretudo porque Dilma vetou projeto igual proposto pelo PSDB e aprovado pelo Congresso no ano passado.

A boa nova estava no pacote de mesuras aos sindicatos a ser aberto no feriado de 1º de

maio. Dilma o antecipou, a pretexto de marcar o Dia Internacional da Mulher, devido à previsão de que o IPCA em 12 meses até março, deixado à própria sorte, tendia a estourar o teto da inflação e chegar a 6,55%.

Na sondagem semanal do BC, o mercado projetava aumento do IPCA em março de 0,43%. Com a desoneração da cesta básica, o aumento começa a ser revisado para algo entre 0,35% e 0,40%, desinflando também o IPCA de abril e maio.

Cesta ficou mais leve

A alíquota de 9,25% do PIS/Cofins foi reduzida a zero para carnes, açúcar, manteiga,

margarina, óleo de soja, café e papel higiênico. Para sabonete e pasta de dente, a

alíquota saiu de 12,5% para zero. No caso de açúcar e sabonete, únicos da cesta básica

a pagarem IPI, o imposto de 5% também foi zerado. Os demais itens da cesta (leite,

feijão, arroz, farinha de trigo, massas, batata, legumes, frutas e pão) já não pagavam tributos federais, só ICMS (tributo estadual).

A desoneração tem custo estimado de R$ 5,5 bilhões ao Tesouro este ano, e de R$ 7,4

bilhões em 2014. Se repassada integralmente aos preços, tiraria 0,60 ponto percentual do IPCA. O repasse será menor porque parte do corte deve ser apropriada pelo varejo e

indústria.

Cerco está se fechando

As simulações embutem uma aposta e um custo. A desoneração impacta a parte discricionária do orçamento fiscal, um troco, mas é ele que custeia o investimento público, os repasses voluntários a estados e municípios e o Bolsa Família. Se a Selic subir, essa conta já justa poderá ficar precária. Além disso, toda aposta comporta riscos.

O maior deles é que há duvidas sobre o diagnóstico de que o grosso da inflação só

repercuta os choques de preços de gêneros perecíveis e grãos, não o desacerto entre oferta e demanda impelida a crédito e transferências, o que inclui as desonerações. Ela aumenta a renda para o consumo do que mais pressiona a inflação: serviços e, como viés, bens industriais, depois que câmbio mais apreciado e tarifas encareceram as importações. O cerco se fecha.

Porque crescemos pouco

É improvável que o governo sancione uma reviravolta que derrube a inflação ao mesmo

tempo em que alce o investimento e a indústria os dois pilares bambos da política

econômica. Com jeito, foi o que o BC transmitiu na ata da penúltima reunião do Copom:

os problemas são decorrentes da oferta deficiente, não da demanda insuficiente.

É grande a expectativa sobre o que dirão os liderados de Alexandre Tombini, presidente

do BC, na próxima ata. Ela sai na quinta-feira. Começa a se formar o senso de que as

empresas andarão de lado, sem certeza sobre as margens de lucro na configuração atual

da política econômica e confiança de que os custos serão cadentes.

A resposta viria de programas de produtividade do componente de energia por unidade

produzida a gastos em automação e em inovação. Também é preciso reativar o canal

exportador, sem o qual a produção interna será sempre atrasada tecnologicamente, além

de gravosa nas relações de troca. É pouco o que há nesta direção.