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18 de março

ABORTO
de 2009

Dimensão Católica

Tudo por Jesus, nada sem Maria

A menina, o aborto e a excomunhão-


Esclarecimentos sobre um fato recente.

Por Pe. Francisco Faus

O estado da questão
Durante um bom número de dias, a mídia televisiva, falada
e escrita tem dado especial destaque ao caso doloroso da

Dimensão Católica: D.N.A. de Deus! Tudo por Jesus, nada sem Maria!
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menina de 9 anos, estuprada pelo padrasto em Alagoinha


(Pernambuco), bem como à excomunhão em que teriam
incorrido os responsáveis pelo aborto dos gêmeos,
concebidos pela menina em decorrência do estupro.
O noticiário e os comentários da mídia, de modo geral,
enfatizaram a severidade do Arcebispo do Recife, por “ter
excomungado” a mãe da menina e os médicos que
realizaram o aborto; e, ao mesmo tempo, criticaram a
suposta benignidade que o arcebispo teria mostrado em
relação ao estupro.
Baste citar, como exemplo disso os dois textos seguintes:
- “O arcebispo Cardoso Sobrinho, que excomungou a mãe
da menina” (pé da foto do prelado publicada num jornal de
grande difusão)
- “D. José defende não excomungar o padrasto da menina
de nove anos que a estuprou” (manchete de mais de meia
página em importante jornal).
Pois bem. Nenhuma dessas duas afirmações é exata.
Ambas contêm um erro, objetivamente são uma inverdade.
Não se pretende aqui julgar a intenção nem a boa fé dos
jornalistas que fizeram essas afirmações: como qualquer
ser humano, podem precipitar-se e errar por ignorância.
Mas parece necessário – a bem da verdade – facilitar
algum esclarecimento especializado a respeito.

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O Arcebispo de Recife excomungou alguém?


A resposta é: não. D. José Cardoso Sobrinho não puniu
ninguém com excomunhão. Limitou-se a declarar que a
mãe e os médicos diretamente responsáveis pelo aborto
tinham incorrido numa pena automática prevista pela lei da
Igreja. Com efeito, o cânon 1398 do Código de Direito
Canônico vigente diz assim: «Quem provoca o aborto,
seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae
sententiae» (o que significa, na linguagem jurídico-
canônica, “por sentença dada pela própria lei”, ou seja, é
uma pena tipificada no Código em que se incorre
automaticamente ao cometer o delito).

Significado das penas eclesiásticas


Antes de explicar em que consiste a excomunhão, parece-
me necessário lembrar que as penas eclesiásticas (penas
canônicas), têm – à diferença das penas da legislação
comum – uma significação pastoral. Concretamente, visam,
como tudo no direito da Igreja, o bem das almas, a
salvação das almas (a salus animarum), que é o fim da
Igreja, um fim espiritual. Essas penas têm, portanto, como
finalidade proteger, salvaguardar, evitar que seja lesada a
integridade espiritual e moral da comunidade dos fiéis
católicos, e procurar o bem espiritual do próprio culpado,
movendo-o ao arrependimento e à expiação.
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Tenha-se em conta, além disso, que as penas canônicas:


a) São aplicadas pela autoridade ou pela lei da Igreja
exclusivamente aos fiéis católicos, uma vez que são os
únicos sujeitos sobre os quais a Igreja tem jurisdição
(Neste sentido, nem a lei nem a autoridade da Igreja
podem interferir para nada nas atuações delituosas de
membros de outras religiões, ou de pessoas sem nenhuma
religião);
b) No direito, em geral, todas as “penas” consistem numa
“privação” de bens (o Código Penal brasileiro prevê, p.e.,
como todos os Códigos penais, penas de privação de
liberdade, de bens materiais, etc.). No caso da Igreja, ela
só pode aplicar penas que privem de alguns “bens”
próprios da Igreja, não da sociedade civil (p.e. privar dos
Sacramentos, de funções de ministros sagrados, de cargos
eclesiásticos, etc.).

Em que consiste a excomunhão?


Em primeiro lugar, a excomunhão é uma das três únicas
penas que podem ser aplicadas automaticamente (latae
sententiae) pela própria lei. Chamam-se, desde tempo
imemorial, “penas medicinais” ou “censuras” (ver Código de
Direito Canônico, cânones 1131 a 1135).
Têm o nome de “medicinais” precisamente porque visam
despertar a consciência do fiel que delinqüiu para a
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gravidade de sua atuação, e movê-lo assim ao


arrependimento. E ao mesmo tempo, como dizia acima,
visam defender a integridade da fé e da moral da
comunidade católica.
Como se vê, as “censuras” têm uma finalidade
eminentemente espiritual. Mais ainda, se a excomunhão
não foi declarada pela autoridade, pode até ficar restrita ao
âmbito da consciência do fiel que nela incorreu (e que dela
deverá tratar com seu confessor ou superior eclesiástico).
Naturalmente, no momento em que o excomungado se
arrepende pode obter com toda a facilidade, sem
necessidade de nenhum processo judicial, a absolvição da
censura e do pecado, seguindo as normas do direito (Ver
cânones 1356 a 1358) .
Esta pena, prevista para pouquíssimos casos
especialmente graves, consiste, segundo o cânon 1131, na
proibição de:
1) exercer qualquer participação ministerial em cerimônias
de culto (p.e., no caso dos leigos – que é o que agora se
contempla –, ficam proibidos, enquanto não for absolvida a
censura, de ser acólitos, ser ministros da Comunhão, ou
leitores na Missa, etc.);
2) receber os sacramentos (Crisma, Penitência, Eucaristia,
Unção, etc.);
3) exercer ofícios ou encargos eclesiásticos (p.e., ser juiz
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eclesiástico, administrador da Cúria, dirigente de uma


pastoral paroquial ou diocesana, etc.).

Nota 1: Dado que o direito canônico indica que toda lei


penal deve ser interpretada em sentido estrito, restritivo, a
excomunhão não proíbe assistir à Missa (sem comungar,
porém), nem participar junto com outros fiéis de orações e
devoções que não constituam “cerimônias de culto”: por
isso, subsiste a liberdade de participar, p.e., da prática
coletiva de devoções não-litúrgicas, como o terço, de
novenas, vigílias, etc.; também se pode continuar a ser
membro de sociedades religiosas (mas sem ocupar cargos
nelas).

Nota 2: Na mente da Igreja, a pena de excomunhão não


pressupõe em absoluto que o excomungado esteja
excluído da salvação eterna. No direito penal, a Igreja julga
atos externos e impõe penalidades externas (por isso, é
doutrina comum que a pessoa excomungada que, depois
de incorrer na pena, se arrepende sinceramente do pecado
com propósito de se confessar, fica na hora em estado de
graça diante de Deus). Este é o sentido do velho princípio
que diz que, em matéria de direito, de internis non iudicat
Ecclesia (A Igreja, no seu direito – que é um âmbito
diferente do Sacramento da Penitência –, não julga o
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interior da alma).

Duas manifestações do espírito pastoral da lei eclesiástica


A) Condições para poder incorrer em pena eclesiástica :
a) ter a idade penal canônica: 16 anos completos;
b) existência de uma lei que puna o ato delituoso. Não
pode haver arbitrariedade. O princípio geral – que só em
casos gravíssimos, insólitos e urgentes, admitiria exceção
(ver Cânon 1399) –, é o seguinte : nulla poena sine lege
poenali (nenhuma pena pode ser aplicada se não está
contemplada em lei penal prévia);
c) que esse ato delituoso seja “pecado grave”: ou seja, um
pecado em matéria grave, cometido com plena advertência
e consentimento deliberado. Se, de acordo com a moral
católica, avaliando-se o grau de responsabilidade de uma
conduta o pecado, este ato não pode ser considerado
moralmente grave, não se incorre na pena.

B) O direito da Igreja, no caso das três censuras previstas


no cânon 1331 (excomunhão, interdito – semelhante à
excomunhão, mas com menos conseqüências – e
suspensão de ordens e funções, no caso de bispos, padres
ou diáconos), estabelece situações em que os que
cometem o ato delituoso não incorrem na pena (limitamo-
nos agora aos leigos, pois há diversas penas previstas para
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clérigos; p.e. um padre que viola o segredo da Confissão,


fica excomungado latae sententiae):
a) não incorrem na pena os menores de 16 anos, como já
víamos;
b) não incorre quem, sem culpa, ignorava estar violando
uma lei, ou ignorava que havia uma pena anexa à lei. Se o
ignorava em boa fé, não incorreu mesmo na pena (coisa
que o direito comum, na sociedade civil, não admite);
c) não incorre quem agiu impelido por medo grave, ainda
que seja “relativo” (ou seja, medo que talvez não afetaria
outros, mas afeta o interessado por circunstâncias
pessoais), ou sob forte ímpeto emocional (de paixão),
mesmo que isso não tenha impedido totalmente a
deliberação da mente e o consentimento da vontade.
Sobre essas isenções, tão amplas e benignas, ver os
cânones 1323 e 1324 do Código de Direito Canônico.

Por que não foi excomungado o estuprador?


Depois do que já foi considerado, a resposta parece
bastante óbvia.
Como é natural, a Igreja não multiplica as excomunhões
para todos e cada um dos crimes possíveis. Seria absurdo
que previsse uma excomunhão para todos os delitos que o
Código penal brasileiro contempla, alguns deles tão graves
ou mais do que o crime de aborto (p.e. assassinar uma
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mãe e o bebê que carrega no colo, crime recentemente


acontecido).
Além disso, um bispo não dispõe, por assim dizer, de um
estoque ilimitado de excomunhões para ir impondo-as
arbitrariamente em qualquer caso grave. Também os
bispos estão submetidos à lei eclesiástica e devem
obedecê-la: princípio da “legalidade” penal.
Por que, então, o aborto sim, e o assassinato, ou o estupro,
ou o roubo à mão armada, ou o incêndio doloso, etc., não
são punidos na lei geral da Igreja com excomunhão?
Porque todos os fiéis católicos sabem, perfeitamente e sem
a menor dúvida, que se trata de pecados graves, de crimes
inclusive horrendos, abomináveis. Não há perigo, portanto,
de que a consciência dos católicos seja, neste ponto,
confundida ou desorientada. Ou seja, não há um perigo de
engano ou de dano para a fé ou a moral da comunidade
católica.
Um exemplo claro disso. Quando se deu, em São Paulo, o
lamentável caso da Escola Base, em que uma precipitação
desinformada de uma parte da mídia televisiva e escrita
divulgou uma calúnia que resultou na destruição moral,
psíquica e financeira de toda uma família inocente, a Igreja
não fulminou nenhuma excomunhão contra os jornalistas
responsáveis pela divulgação da calúnia: o povo cristão
não precisava disso, pois ficou evidente – ao se conhecer a
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verdade dos fatos – que aquela atuação de órgãos e


elementos da mídia fora uma falta gravíssima.
Pelo contrário, hoje em dia um pecado gravíssimo como o
aborto – que, moralmente, não admite exceções –, pelo fato
de ser defendido como lícito por juristas, professores,
médicos, legisladores, e até mesmo aprovado pelas leis
comuns, pode induzir os fiéis católicos ao equívoco de que
“o que é legal é lícito, é moral”. Por isso, a penalização
eclesiástica do aborto é uma atitude de zelo pastoral
destinada a alertar, a manter incontaminada a consciência
cristã em um tema de grande importância em que
facilmente os fiéis poderiam ser levados a engano.

Pe. Francisco Faus


São Paulo, março de 2009

Data Publicação: 12/03/2009

Editora Cléofas
www.cleofas.com.br

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