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ISCTE

LICENCIATURA EM ANTROPOLOGIA
GÉNERO, EMOÇÕES E PODER
5.Jan.2009

Mulheres no boxe e homens bailarinos: o sexo social das


actividades desportivas e recreativas

ANA CANHOTO
N.º 27685
TURMA AB2

Introdução
As actividades desportivas e recreativas têm sexo?

Esta foi a primeira questão que se levantou na minha mente quando me predispus a realizar
este ensaio.
Há vários anos que pratico desporto, não por competição mas por razões lúdicas e salutares.
Experimentei várias modalidades: ballet, actividades gímnicas, dança contemporânea,
aeróbica e musculação. Na actualidade pratico boxe, ballet contemporâneo e salsa, como
recreação.
Recordo que devia ter aproximadamente três anos quando pela primeira vez fiz ballet. Como
primeira modalidade que frequentei não tenho hoje conhecimento se o fiz por gosto próprio se
por vontade dos meus progenitores, apenas reconheço de lembrança que gostava do ballet. Já
a dança contemporânea e a aeróbica, praticadas na minha adolescência, foram uma vontade,
um gosto e um prazer.
Quando há aproximadamente quatro anos um professor me convidou para experimentar uma
aula de boxe eu não recusei e hoje pratico-o com gosto. Desde que dei inicio à sua prática
percepciono e interpreto no discurso de quem me rodeia que este não é adequado a mulheres.
Já no que concerne ao ballet e à salsa parece existir uma aceitação por parte dos mesmos
como algo natural.
Estas constatações ocorreram, e ainda hoje são comuns, não só entre família e amigos, como
também entre colegas das três modalidades.
Sinto estar perante dois mundos distintos: o meu mundo de experiências e vivências, onde o
boxe e as modalidades de dança coexistem e se complementam, e o mundo dos outros, que
mostram senti-las como actividades inconciliáveis. Foi este modo de percepcionar que me
levantou a questão com que dei inicio a este ensaio e várias outras se seguiram:

Será o boxe um desporto masculino?


E as danças? São uma actividade recreativa feminina?
Como se sente uma mulher que pratica boxe? Mulher ou homem?
Como se sente um homem que pratica ballet? Homem ou mulher?
...

Decidi procurar compreender como a apreensão da masculinidade e da feminilidade nestas


modalidades são construções sociais num tempo e num espaço e como está modelado o nosso
modo de olhar estas práticas.

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Deste modo reduzi as minhas questões a uma única:

Porque atribuímos um discurso de género a estas modalidades?

Dado o meu envolvimento directo com o terreno, parti da aceitação da ambiguidade da minha
posição: nativa e distanciada.
Realizei entrevistas a alguns colegas e discorri da minha experiência pessoal, procurando,
através de bibliografia consultada, teorizar sobre a construção dos discursos de género nas
actividades acima mencionadas.
Para uma melhor compreensão em cada modalidade efectuei uma pequena introdução
histórica. Esta permite percepcionar como se estruturaram discursos de género associados à
prática destas modalidades.

Historicidade do boxe europeu


Com origem nas lutas de punho, praticadas em vários locais da Africa e do Egipto e que se
espalharam para o sul da Europa, o boxe foi um desporto olímpico na Antiguidade, integrando
os espectáculos gregos e romanos. Fazendo uso de uma tira de couro envolvendo nas mãos, e
posteriormente introduzindo pedaços de metal nestas, os pugilistas, na sua maioria escravos,
combatiam até à morte dentro num círculo marcado no chão. Terá sido esta marcação a
origem ao termo ringue1. Quanto à denominação da modalidade, na actualidade utilizam-se
ambas designações – boxe e pugilismo, sendo que a primeira tem origem no verbo to box –
em inglês significa bater com os punhos.
Segundo Monte Cox, membro da International Boxing Research Organization, as formas
arcaicas de pugilismo terão sido integradas nas ilhas britânicas através dos romanos durante o
século I (Cox s.d.). Em 393 d.c. este modelo de pugilismo foi abolido, dada a existência de
uma excessiva brutalidade, tendo sido retomado nos finais do século XVIII. O seu
aparecimento ocorreu em Inglaterra, com a primeira referência a publicitação em 1681, num
jornal londrino, de um combate de boxe (Holland 2008).

Os primeiros combates eram realizados sem luvas ou qualquer protecção nos punhos e eram
uma fusão do que hoje se designa de boxe e de wrestling2. Estes destacavam-se das lutas de
1
O termo ringue é um inglesismo, uma adaptação da palavra ring, em português círculo, o qual era marcado no
chão dos coliseus e teatros.
2
O termo wrestling é aqui aplicado como forma de luta de arena que permite a utilização de todas as partes do
corpo para atingir o oponente, ou para sofrer os golpes perpetrados por este; no boxe arcaico era permitida a
utilização dos pés e dos joelhos para bater no opositor.

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rua pela inclusão de regras, as quais tinham de ser cumpridas por ambos oponentes (Holland
2008).
Em 1719, com James Figg, exímio lutador e campeão de boxe inglês, ocorre uma maior
preocupação com o desenvolvimento técnico. Com James Figg, John “Jack” Broughton,
Daniel Mendoza e Tom Cribb são aplicadas novas regulamentações, as quais estão na origem
do reconhecimento desta modalidade (Holland 2008). A proibição de arranhar a zona ocular e
de bater no oponente após este estar caído foram as medidas introduzidas por Figg. Com John
Broughton foi assimilada a regra de um pugilista caído ou com o joelho no chão constituía a
derrota deste e o fim do combate. Broughton introduziu também algumas técnicas de defesa
(Cox s.d.).
Como consequência do Darwinismo Social de Herbert Spencer, em 1864 ocorre um
incremento na procura de desportos combativos por parte das classes média e alta. Estes eram
vistos como uma forma de demarcar os mais fracos dos mais fortes, valorizando a dor, o
dever, o sacrifício e a honra. Menciona Elliott Gorn, na sua obra The Manly Art: Bare-
Knuckle Prize Fighting in America, que, no caso norte-americano o boxe seria, no final do
século XIX e princípios do século XX, um divertimento das classes média e alta directamente
ligado à identidade masculina. Este facto denotava-se quer nos participantes quer nos
espectadores, para os quais este desporto se tornara um local de auto reivindicação da
diferença entre classes, religiões, origens e, o que nos refere como mais significante, a
diferença entre homens e mulheres. Este historiador considera que os esporádicos combates
entre mulheres apenas «… ”sublinham a dominação masculina da cultura da arena.”…»
(Wiggins 1987).
Em 1867 são aplicadas nos boxe as Regras do Marquês de Queensbury, destacando-se a
inserção dos rounds3 de três minutos, a penalização em caso de wrestling e a obrigação de
utilização de luvas, que estão em vigor na actualidade (Cox s.d.).
No final do XIX o boxe inglês entrou em declínio, com os imperativos das regras a estimular
alguns pugilistas a emigrar para os Estados Unidos da América para combater apenas com os
punhos (Holland 2008). Estes proporcionaram a popularidade do boxe no continente norte-
americano, o qual era efectuado com o uso dos punhos. O primeiro combate com aplicação
das regras ocorreu apenas em 1892, entre James J. Corbett e o Campeão do Mundo de Boxe
(de punhos) em Pesos Pesados John L. Sullivan, tendo este perdido a competição. A partir
desta data o boxe iniciou uma nova era (Cox s.d.).
A elevada popularidade do boxe estimulou a sua demonstração nos Jogos Olímpicos de St.
Louis, em 1904. Nos anos que se seguiram esta modalidade tornou-se parte integrante nas
3
O round consiste no tempo em que ao pugilista lhe é permitido bater, consistindo este em três minutos. Não são
permitidos, segundo as regras, mais de doze rounds.

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competições. Em 1912 foi novamente banido dos Jogos, devido à proibição da prática do
boxe pela lei nacional sueca. Este foi retomado em 1920, perdurando até hoje como
modalidade olímpica masculina (IOC 2008).

O boxe no feminino
No que concerne prática desta modalidade por parte das mulheres, os primeiros relatos
remetem para Londres nos anos 20 do século XVIII. Um dos primeiros combates registados
ocorreu em 1722, entre Elizabeth Wilkinson e Hannah Hyfield. Foi definido como regra deste
combate que ambas mulheres teriam de socar mantendo nas mãos meia coroa e a primeira que
deixasse cair alguma moeda perderia o combate. «De acordo com John Trenchard do London
Journal, as duas mulheres “mantiveram o Combate com grande Valor durante muito Tempo,
para a não menos Satisfação dos Espectadores.”» (Svinth 2000a, tradução nossa). É de
mencionar que os combates entre mulheres eram promovidos por James Figg, anteriormente
referido como figura de importante destaque no desenvolvimento técnico do boxe (Svinth
2000a).
As seguintes referências encontradas remetem para dois combates em 1768 e um em 1822 e
sobre os quais é referido que o treino das mulheres consistia na elevada ingestão de álcool,
concretamente gin (Svinth 2000a).
Com o desenvolvimento e popularidade do boxe no continente norte-americano, ocorrem
vários combates de boxe entre mulheres. A título de exemplo, em 1876 Nell Saunders
defronta Rose Harland, no salão de Harry Hill, pelo prémio de um prato em prata. Este salão
era frequentado por homens e mulheres, sendo que aos primeiros era cobrado um custo e as
segundas entravam gratuitamente. Devido a reformas políticas, esta casa foi encerrada em
1886 (Sidanova 2008).
Em 1889 o boxe feminino adquire popularidade entre os norte-americanos. Foram realizados
vários campeonatos, os quais tinham uma audiência masculina e frequentemente as mulheres
que combatiam faziam-no trajadas de modo semelhante aos homens, usando camisola e
ceroulas (Svinth 2000b).
Dez anos após o encerramento do salão de Harry Hill, o qual era frequentado por mulheres, o
Pavilhão dos Mecânicos de São Francisco torna-se o primeiro salão norte-americano a vender
a mulheres lugares reservados junto ao ringue (Svinth 2000b).
O boxe feminino foi, ainda, apresentado como evento nos Jogos Olímpicos de St. Louis.
Contudo, contrariamente à aceitação e popularidade do boxe masculino como modalidade
olímpica, as competições entre mulheres não foram bem recebidas pelo público e o boxe
feminino mantém-se inexistente como desporto olímpico (WBAN 1998).

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Devido à manifesta relação entre a ideia de luta de punhos e comportamentos considerados
masculinizados, durante décadas o boxe feminino foi visto como uma actividade exótica, não
acompanhando a popularidade do boxe masculino.
Constata-se que a admissão da profissionalidade das mulheres nesta modalidade ocorreu meio
século após a sua demonstração em St. Louis. Em 1954 realizou-se a primeira transmissão
pela televisão nacional norte-americana de um combate boxe feminino (WBAN 1998). No
entanto, muito embora a profissionalidade das mulheres fosse aceite, a primeira licença de
pugilista só foi atribuída em 1975. O reconhecimento oficial do boxe feminino norte-
americano ocorreu em 1993, tendo este dado origem à criação, durante os anos 90, de várias
organizações que actualmente regulamentam este desporto e organizam competições (WBAN
1998).
Em 2004 a estreia do filme Million Dollar Baby nos Estados Unidos da América, e em 2005
em vários países da Europa, estimulou um elevado interesse pelo boxe feminino. Muito
embora considerado por alguns críticos como uma ficção longe da realidade do boxe
feminino, esta fantasia cinematográfica parece ter instigado, quer as mulheres quer os
homens, a uma nova visão do boxe (McCoy 2005). Alguma modificação na ideologia está
patente na maior procura e frequência das mulheres nesta actividade em Portugal.
É deste modo o boxe feminino demonstra uma trajectória distinta do boxe masculino e de
outros desportos femininos, que adquiriram reconhecimento olímpico.

O discurso masculinizado do boxe


Tal como referi na Introdução deste ensaio, quando comecei a praticar boxe percepcionei, por
parte das pessoas a quem transmiti o meu gosto por praticar esta modalidade, que não se
apropriava às mulheres. Eu própria questionei esta competência e reconhecendo o meu
próprio receio nos primeiros dias em que efectuei boxe, sabendo à partida que todos
praticantes o faziam por recriação e não por competição, admiti a existência e permanente
presença de um discurso de género. Este evidencia-se não só nos não-praticantes, mas
também nos homens e mulheres que praticam esta modalidade.
Dorothy V. Harris referiu, no seu artigo «Femininity and Athleticism» do Handbook of Social
Science of Sport, que tradicionalmente os desportos têm sido um apanágio da masculinidade.
A seu ver é assumido que as exigências, quer físicas quer psicológicas, dos vários tipos de
desporto não são mais que um laboratório instigador de características masculinas. Este facto
está demonstrado na aceitação e elogio que a sociedade faz ao homem por este praticar
desporto. Contrariamente, o desporto parece não se coadunar com a imagem estereotipada da
mulher ideal (1981: 274).

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Declarou esta pioneira dos estudos da mulher no desporto (The Pennsylvania State University
1997), que estamos perante uma realidade, mas também de uma anomalia social, como
consequência do conflito entre papéis masculinos e femininos. Se o desporto está
directamente ligado a um papel masculino, a intrusão da mulher em terreno culturalmente
definido como pertencente ao homem origina a confusão dos atributos definidos para cada um
dos sexos (Harris, 1981). Esta categorização do desporto associado à masculinidade está bem
patente no boxe, o qual parece não se harmonizar com atributos socialmente femininos.
Simbolicamente identificada com a natureza, à mulher estão atribuídas actividades
relacionadas com a reprodução da vida. Contrariamente, ao homem estão imputadas funções
que socialmente se relacionam com a destruição da vida, como a caça e a guerra (Ortner 1974:
75). Deste modo, sendo o boxe não só um desporto, mas também um duelo, a sua
classificação não se articula com a reprodução, mas sim com a destruição.
Benjamin Wallace-Wells, editor do The Washington Monthly, definiu no seu artigo «Battered
Women»4, publicado em 2005, o boxe feminino como brutal e sem perspectivas de sucesso.
Na sua opinião «O boxe há muito existe num gueto cultural, revelando-se na sua corrupção e
violência.» (2005, tradução minha), sendo que o boxe feminino actua num gueto mais
profundo. Menciona a dificuldade de compreensão da razão pela qual as mulheres procuram
praticar boxe, pois a seu ver os combates são brutais, sexualizados e incontroláveis. Considera
que o sonho das mulheres em dar socos de modo tão duro e rápido como os homens se tornou
em algo feio e violento. No caso norte-americano e como desporto praticado pela classe
trabalhadora, contrariamente ao boxe masculino, as mulheres enganam-se ao associar este
desporto à emancipação (Wallace-Wells 2005).
Analisando este artigo, constatamos que, para este editor jornalístico, existe uma distinção
entre a prática do boxe por parte dos homens e por mulheres. Muito embora reconheça que
este desporto está associado a algo marginal na sociedade norte-americana, diferencia os
comportamentos – o boxe feminino é brutal, enquanto o boxe masculino é libertador.
Porque razão existe uma clara aceitação que o homem pode agredir fisicamente e uma mulher
não? O que existe na natureza do ser feminino distinto do ser masculino que a impossibilita de
executar combates de boxe?
No ginásio onde eu pratico, na actualidade somos quatro mulheres e cerca do dobro em
homens, sendo que dois são professores e destes um executa boxe com os restantes. Nem

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Não conhecendo o que o autor pretende com o termo, é nossa opinião que «Battered Women» poderá estar
relacionado com o «Battered Women Syndrome», sendo este a condição física e psicológica de uma mulher
vítima de violência doméstica quando ela própria assassina o seu violador. Este sindroma foi criado para defesa
legal das mulheres nos Estados Unidos da América (Dixon 2002). O boxe poderá, assim, ter origem no facto da
mulher psicologicamente se sentir “violada” e desse modo se exprimir através dos combates que este desporto
lhe faculta.

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sempre existe uma efectiva comparência de todos os sexos em sala, mas quando as quatro
mulheres estão presente é perceptível alguma preferência, por parte dos professores, em
realizar combates femininos e combates masculinos. Contudo, estes optam sempre por
diversificar as experiências, trocando os pugilistas com frequência. Quando o número de
mulheres é reduzido são realizados mais combates mistos.
Em quaisquer dos casos – combates femininos, masculinos ou mistos – existem visíveis
distinções físicas entre os pugilistas. Sejam eles homens ou mulheres, a condição fisiológica é
uma conjuntura inegável, a qual facilita ou dificulta as performances de cada praticante.
Porém, estas não são totalmente limitadoras, pois, como frequentemente nos refere um dos
professores, o boxe permite dançar, existindo sempre formas de combater mesmo com quem
nos parece, ao nosso olhar, mais forte fisicamente.
Ou seja, questiona-se então o que impede fisicamente uma mulher de ser pugilista. Porque
razão não poderá ela, segundo a natureza, praticar desportos combativos?
Não existe qualquer resposta que nos remeta para a biologia humana, pois, como acima
mencionámos, existem sempre diferenças fisiológicas entre os seres humanos, sejam eles
homens ou mulheres. A resposta encontramo-la na cultura, no que nos define como homem e
mulher e determina a distinção entre o que é masculino e o que é feminino.
Questionadas as colegas do boxe se sentem mais ou menos mulheres por praticarem boxe e
este ser considerado um desporto com uma explícita violência física, obtivemos como
resposta uma total associação com a feminilidade. Referiram sentir-se como mulheres e que o
boxe não as torna mais masculinas. Bem como a violência física não é uma característica
masculina, pois as mulheres também se agridem fisicamente.
Porém, mencionaram a existência da relação deste desporto com o masculino, principalmente
porque não existem quaisquer referências à prática de boxe feminino em Portugal. Foi
indicado o facto da televisão apenas transmitir combates masculinos, não existir qualquer
emissão de um combate feminino e só recentemente ter sido transmitida uma notícia sobre a
prática do boxe por mulheres. Bem como, a dificuldade de aceitação por parte dos familiares
e amigos, mulheres e homens, remete para a atribuição da masculinidade a este desporto. Este
é, sem dúvida para qualquer uma de nós praticante, um desporto dominantemente masculino.
Perante esta constatação, levantamos a questão de como chegámos ao boxe. A resposta é
única, pois qualquer uma de nós foi influenciada por um dos professores a experimentar
algumas aulas. Experienciámos e acabámos por gostar do desporto que hoje praticamos.
É deste modo que, quando questionado se o boxe tem sexo, eu respondo que sim
culturalmente e não biologicamente. Cultural sim, porque a sociedade ocidental o representa
como produto da masculinidade, como se estivesse relacionado com a natureza do homem,

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com a sua capacidade tornada naturalizada para a guerra. Fisicamente não, porque nenhuma
característica fisiológica da mulher a impede de praticar este desporto.
Porém, como referiu a socióloga Nancy Theberge, apesar da condição da mulher no desporto
se ter modificado ao longo das décadas, existe uma grande resistência à aceitação da mulher
como atleta (2000). A hegemonia masculina está ainda presente na actualidade do boxe,
baseada num corpo físico ideal, concretamente num corpo masculino e musculado,
enfatizando as diferenças de género. Este domínio masculino está patente na dificuldade que
as pugilistas do boxe amador e profissional mundial têm realizado para que o boxe feminino
seja reconhecido como desporto olímpico. A esperança encontra-se, neste momento, na
aceitação do Comité Olímpico para a realização de competições femininas nos Jogos
Olímpicos de Londres, em 2012.

O mundo das danças ocidentais

Historicidade do ballet
Considerado uma arte moderna o ballet é hoje definido como um entretenimento, uma
actividade recreativa teatral. Pode ser realizada em grupo ou a solo, acompanhada de música
ou vozes, e está directamente relacionado com a teatralidade dada a implicação do uso de
vestimentas específicas, de um ou mais cenários e de luzes. Divide-se em dois tipos de
movimentos distintos: o ballet clássico e o ballet contemporâneo ou moderno. O primeiro está
alicerçado na técnica tradicional dos bailados da corte francesa dos séculos XVII e XVIII e da
escola italiana do século XIX, tendo sido aperfeiçoado ao longo dos tempos. Tecnicamente
assenta em cinco posições dos pés, no volteio, no trabalho de pontas e nos movimentos de
batida, volta, elevação e extensão. O ballet contemporâneo tem origem numa reacção contra a
rigidez do ballet clássico, possibilitando todo e qualquer movimento corporal e a não
utilização de sapatilhas (Andros, Minn 2008a).
Pensa-se que o ballet terá a sua génese na Itália Renascentista. Esta arte terá sido levada para
França pela mão de Catarina de’Medici, através do seu casamento com o Duque d’Orleães e
futuro rei Henrique II. A rainha terá participado em bailados e, para satisfazer o seu filho e rei
Henrique III terá encomendado, em 1581, um bailado ao «Ballet Comique de La Reine», o
qual é hoje considerado por alguns peritos a primeira representação de ballet (Andros, Minn
2008b).
A importância do ballet na França torna-o uma actividade essencial para o reconhecimento de
pertença da corte francesa, tendo sido praticado pelos reis. Destaca-se o papel de Louis XIV
como bailarino e como fundador, em 1661, da Acadamie Royale de Danse, dirigida pelo seu

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mentor e coreografo5 Pierre Beauchamps, criador do vocabulário específico do ballet. Seguiu-
se, como dirigente da Acadamie, Louis Pécourt, o primeiro bailarino profissional (Andros,
Minn 2008b).
Até ao início do século XVIII o ballet era quase exclusivamente interpretado por homens, os
quais, se necessário, trajavam costumes femininos. A tardia entrada das mulheres no ballet e o
elevado peso das suas vestimentas ocasionava a reduzida importância do seu papel, tendo a
primeira bailarina – Mademoiselle de LaFontaine – alcançado a profissionalidade apenas em
1681. Com a redução do vestido das bailarinas e a adopção do uso de pequenas saias e
«calçons de précaution» o papel das mulheres alcançou alguma consideração (Beales 2004b).
Com a Revolução Francesa o ballet sofre modificações, quer na sua teatralidade quer nas
roupagens. Predominavam a linha imperial e os sapatos flexíveis (Beales 2004c). Quanto à
teatralidade destaca-se os resultados da Revolução Industrial e o dealbar do romantismo, os
quais viriam a transformar o ballet. Foi nesta era pré-romantica que, pela primeira vez foram
integradas as sapatilhas de pontas. Em 1832 estreia La Sylphide de Filippo Taglioni, o bailado
que viria a dar origem à assimilação do movimento en pointe e aos vestidos arredondados na
saia e com corpete ajustado ao corpo (Beales 2004c). Marie Taglioni, filha do coreógrafo,
apresentou-se vestida com uma saia branca em musselina, desenhada por Eugene Lami, o
percursor do tutu6 (Massey 2008).
Com a entrada na era do Romantismo a magia, a pureza, o heroísmo, o sacrifício e o amor
tornaram-se elementos essenciais nos bailados (Festival Ballet s.d). A expressão das emoções
torna-se cada vez mais valorizada. As mulheres passaram a ser a figura de destaque no ballet,
ocasionando a eminente redução do papel masculino. Este restringe-se a posicionar a mulher
de forma a evidenciar a beleza desta. Apenas na Rússia e na Dinamarca os papéis eram
igualmente importantes e valorizados.
Na segunda metade do século XIX ocorre um elevado desenvolvimento no ballet russo,
através da importação de bailarinos franceses, exímios na performance en pointe. Os bailados
passam a ser realizados em mais que um acto e são produzidas grandes peças hoje
consideradas clássicas (Beales 2004d).
Até aos anos 30 do século XX o ballet russo mantém-se em expansão. Nesta década são
vários os bailarinos e coreógrafos que procuram refúgio nos Estados Unidos da América,
desenvolvendo neste país o ballet. Destaca-se Georges Balanchine, considerado por alguns

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A aplicação do termo coreógrafo remete para o criador da coreografia, palavra derivada do grego khorea –
dançar, and graphein – escrever, ou seja, quem escreve a dança.
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O termo tutu designava, em jargão francês, o traseiro ou nádegas; alguns peritos atribuem a designação à
analogia entre o poço (hoje designado de balcão), local onde a plebe assistia aos bailados, e a saia. Devido à
existência de uma melhor visão dos corpos por debaixo da saia, a plebe referia a área do poço como a «anatomia
do “tutu”», tendo este termo sido absorvido posteriormente como designativo das vestes femininas (Cole 1997).

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peritos o responsável pela predominância da imagem de magreza no ballet e por várias
desordens alimentares que terão prejudicado e ainda hoje afectam as bailarinas (Beales
2004a). Não foi possível apurar se este facto também se estendeu aos bailarinos.
Com este bailarino e coreografo russo emigrado nos Estados Unidos desenvolve-se um novo
estilo de bailado, denominado Ballet Neoclássico, o qual viria estar na origem do Ballet
Contemporâneo. Influenciado pelo neo-romatismo russo, pelas danças modernas da Idade
Média, pelo folclore norte-americano e pelas várias formas de arte moderna, mantendo a
elegância, a precisão e a presença do Ballet Clássico, Balanchine atenua a rigidez da postura e
dos passos. Fomentando uma maior velocidade, reduz o tempo entre as sequências de passos e
introduz alguns gestos e vestes diferentes (Dance Alive 2008).
Como reacção ao Ballet Clássico, o Ballet Moderno sofre ainda influências de Isadora
Duncan e Michel Fokine.

O discurso feminizado do ballet


Tal como no boxe prevalece um discurso masculinizado, no ballet podemos constatar o
contrário. Culturalmente construído, quer no ballet clássico quer no ballet contemporâneo,
podemos verificar a existência de uma feminilidade discursiva.
Contudo, a análise do percurso histórico do ballet, anteriormente exposto, parece demonstrar
um certo paradoxo.
Criado por homens, o ballet foi durante muitos anos executado por estes, existindo uma total
redutibilidade do papel feminino. A troca de papéis terá ocorrido cerca de dois séculos após a
sua invenção, com a transformação da sociedade europeia após a Revolução Francesa e a
Revolução Industrial. Os homens perdem então importância e a figura feminina, totalmente
associada à delicadeza, à gentileza, a uma postura de graciosidade, passa a dominar os
bailados. Porém, nesta época foram os homens as grandes referências como coreógrafos.
Podemos destacar alguns dos bailados clássicos e seus primeiros coreógrafos:

⋅ Cinderella, por Louis Antoine Duport, estreado em 1813 (Charles 2002);


⋅ A Bela Adormecida, por Pierre Gardel, em 1825, sendo que a versão clássica actual
teve como coreógrafo Marius Petipa e estreou em 1890 (Charles 2000);
⋅ Giselle, por Jean Coralli e Jules Perrot, estreado em 1841 (Charles 2001b);
⋅ Coppélia, por Arthur Saint-Léon, estreado em 1870 (Charles 2001a);
⋅ O Lago dos Cisnes, por Marius Petipa, estreado em 1877 (Charles 1998a)
⋅ O Quebra-Nozes, por Lev Ivanov, estreado em 1892 (Charles 1998b);

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Muito embora fossem os homens os criadores, no corpo de ballet espelhava-se a idealização
da figura feminina, produto do Romantismo. A magia, o sobrenatural, o simbólico eram
elementos fundamentais de um bailado, sendo estes construídos como representações do ser
feminino. As mulheres eram espíritos, fadas, bruxas, figuras exóticas altamente ágeis e
ilusórias. O ballet, à semelhança de outras artes, apresentava-se à sociedade como uma
tentativa da cultura se conciliar com a natureza, sendo esta representada pela mulher.
No entanto, esta época artística terminou durante o século XIX e início do século XX, mas a
sociedade mantém como imagem do ballet a essência feminina. Nem a importância da figura
masculina no ballet russo parece ter modificado esta realidade. Ao ballet está atribuída uma
linguagem de exotismo baseada na figura da mulher en point e vestida de tutu.
Posteriormente, com o ballet contemporâneo e a dança moderna operaram-se algumas
transformações no que concerne à importância do homem e da mulher. Nestas a mulher
deixou de ser figura de destaque. Contudo, as representações construídas durante o
Romantismo permaneceram e estão interiorizadas na sociedade.
O acima exposto está espelhado no facto de que tenho apenas um colega a frequentar as aulas
de ballet clássico e ballet contemporâneo. Para além do professor, quaisquer dos dois tipos de
ballet são maioritariamente frequentados por mulheres.
O meu colega bailarino afirma compreender a razão pela qual o ballet está alicerçado na
imagem da mulher, nos atributos que a cultura atribui a esta, contudo não se sente menos
homem e mais mulher por frequentar estas modalidades recreativas. Porém, referiu que não
divulga que pratica ballet entre os seus amigos, pois o faz como complemento da Salsa e
reconhece que seria alvo de escárnio. Foi o professor da Salsa, comum ao Ballet Clássico e
Ballet Contemporâneo que o «convenceu» a experimentar, pelo facto das três modalidades
serem complementares. Considera que lhe é útil praticar o ballet, muito embora refira não se
sentir à vontade, pelo facto de não ter capacidade para realizar os movimentos tal como estes
lhe são exigidos. Quanto a esta exigência mencionou ser claramente mais fácil a uma mulher
efectuar os passos do que a um homem, sem ser capaz de nos explicar a razão desta sua
constatação.
É no âmbito de todo este discurso do ballet que consideramos importante referir o trabalho de
Les Ballets Trockadero de Monte Carlo, uma companhia de bailarinos masculina, fundada em
1974, que parodiam o ballet clássico e moderno. Recorrendo ao travesti, os Trocks, nome pela
qual são conhecidos, tem como repertório bailados como a Giselle, O Lago dos Cisnes, O
Quebra-Nozes, mas também as danças de Isadora Duncan, os bailados de George Balanchine,
entre outros. São dançarinos profissionais que incorporam a excessiva valorização da
feminilidade do ballet, atribuindo-lhe um carácter cómico, através da representação de

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pequenos acidentes e do exagero das incongruências da dança. Pretendem chamar à atenção
que um homem consegue dançar tudo e dançar com sapatilhas de pontas e en point como
espíritos da água, cisnes, princesas românticas, entre outras figuras, é um acto grandioso e não
um escárnio às danças como forma artística (Les Ballets Trockadero de Monte Carlo s .d.).
Os bailados que este grupo apresenta são demonstrativos de como uma justificação fisiológica
nem sempre é fundamento para as dificuldades da praticabilidade do ballet. Corpos pesados e
aparentemente pouco ágeis são capazes de se transformar através de um exercício físico
específico e demonstrar tantas capacidades quanto os corpos femininos.
Porém, é inegável o papel da cultura como construtora das representações da feminilidade do
ballet, pois mesmo este grupo de bailarinos recorre ao travesti, representando atributos
associados à mulher. Como tal, consideramos também importante mencionar a associação do
homem bailarino com a homossexualidade, pois esta baseia-se na representação do homem
feminizado.
Deste modo, o ballet conserva-se reproduzido sob uma forma discursiva construída no
feminino, sem que o decorrer dos séculos e a transformação da sociedade demonstre grandes
modificações. Como afirmou Dorothy V. Harris a «Masculinidade e feminilidade,
culturalmente definidas, têm sido extremamente resistentes à mudança.» (1981: 274).

Historicidade da salsa
Difícil de definir uma data, um local e uma personalidade para a sua invenção, é facto assente
se tratar de uma fusão de várias danças latinas-americanas. Alguns versados atribuem os
créditos da sua origem a Cuba, outros a Porto Rico, contudo, qualquer seja a sua
proveniência, estamos a falar de ritmos híbridos. Na música fundem-se sons africanos,
europeus e norte-americanos e na dança sobressaem os movimentos bamboleados das danças
africanas e das várias danças hispânicas: Mambo, Rumba, Bomba, Merengue, entre outras.
No que concerne à datação, apenas foi possível averiguar que o termo salsa, aplicado a uma
música dançável, terá sido cunhado em Nova Iorque no ano de 1933 por Ignacio Piñerio, um
compositor cubano. Difundido como termo atribuído à fusão de outros sons latino-
americanos, a verificabilidade da sua utilização ocorreu apenas nos anos sessenta, com o
lançamento de várias gravações discográficas nos Estados Unidos da América. Em 1974 o
lançamento de um disco de salsa por Larry Harlow popularizou esta forma de música e de
dança (Bartch 2008).
Quanto à modalidade de dança, e dado que a sua rigidez se resume ao acompanhamento da
música, com o bater dos pés ao som da clave e quatro passos de base, esta mistura de outros

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estilos tem permitido, ao longo dos tempos, uma elevada criatividade por parte dos
praticantes. Esta origina uma diversidade de estilos nos vários locais onde tem sido praticada.
Tal como está culturalmente definido nas restantes danças de salão, a salsa é dançada a par –
um homem e uma mulher, no entanto durante a performance desta dança a ambos é permitido
dançarem sem proximidade física directa. Contudo é regra fundamental o contacto ocular.

Os discursos de género na Salsa


Difícil de atribuir um discurso de género a esta dança de salão, esta mostra novamente algo de
paradoxal.
Nas danças de salão está definido como regra que o homem comanda todos os passos e a
mulher o segue. É o homem que define quando a dança começa e termina, para onde a mulher
se movimenta e como o faz. Muito embora, e tal como acima foi referido, exista alguma
liberdade da mulher nos momentos temporais em que não ocorre qualquer contacto físico, é
este que gere a maioria dos movimentos.
Contudo, e como referem os meus colegas desta modalidade recreativa, a mulher está sempre
em destaque. Os movimentos sensuais que esta realiza tornam-na na figura principal de toda a
dança. Mas, o facto de ser o homem gerir e a mulher a segui-lo permite-lhe desenvolver
atributos dominantemente masculinos, pois a responsabilidade de gerência dos movimentos
implica uma compleição física considerável. O dever masculino tem ainda outras implicações,
nas quais destacamos a permanente obrigação do homem pedir desculpa à mulher cada vez
que esta comete alguma incorrecção, pois todos os erros lhe estão imputados.
É deste modo que na salsa está atribuída ao homem uma responsabilidade que se coaduna
com a construção das representações masculinas, através da figura de um homem que manda
numa mulher, um homem activo que determina o movimento de uma mulher passiva.
Mas, se por um lado as representações da masculinidade parecem estar ao rubro, por outro a
carência de homens a praticar esta modalidade transmite a ideia contrária. É neste campo que,
questionados os meus colegas, estes responderam que talvez se deva ao facto de que a mulher
facilmente se adapta aos passos de dança, enquanto o homem, tendo mais responsabilidade,
tem também mais dificuldade em ajustar os seus movimentos corporais às exigências. Esta
constatação poderá originar a desistência dos mesmos.
Novamente esta modalidade de dança, tal como o ballet, demonstra estar associada às
representações da feminilidade, através do discurso da fisiologia. A mulher é descrita como
dançarina por natureza, enquanto o homem vê-se na obrigação de exercer um maior esforço
para atingir o grau de execução que lhe é exigido. É como se a biologia do seu corpo lhe

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dificultasse os movimentos da dança, enquanto a fisiologia da mulher referem-na como
adequada e adaptável a realizar qualquer tipo de bailado.
Foram estas dificuldades apresentadas que levaram a questionar porque razão têm interesse
em aprender a dançar salsa. As respostas remeteram para uma única razão. Afirmando que
entre homens as danças são encaradas como algo que pode colocar a sua masculinidade em
risco, são, no entanto, uma forma de conhecer e satisfazer as mulheres, mantendo o seu papel
masculino de líder.
Quando fizemos a mesma pergunta às mulheres, estas justificaram que as modalidades de
dança de salão são, por excelência, uma forma de conhecer outros homens. Reconhecendo o
seu papel passivo, o qual é plenamente aceite, estas mulheres referiram que essa passividade é
compensada pela recreação e pelas relações sociais que se adquirem praticando salsa. Estas
acontecem em sala de aula, mas também exteriormente, tendo-se tornado prática comum de
algumas destas mulheres a frequência de locais recreativos de danças de salão. Já no caso dos
homens, estes referiram raramente frequentarem estes locais, contudo mencionaram que a
salsa lhes permite hoje realizar outros movimentos de dança em locais de diversão nocturna.
Chamou-nos a atenção, que nas danças de salão, contrariamente aos desportos, parece existir
uma diferente relação entre competição e género. Nestas as exigências são semelhantes aos
desportos em geral, contudo nos discursos é sugerida a existência de uma maior aceitação da
capacidade das mulheres. É como se a natureza feminina a preparasse para os preceitos de
uma competição de salsa.
Citando Allison Yamanashi e Robert C. Bulman, investigadores norte-americanos das
relações de género,

«… enquanto os homens contemporâneos continuam a exercitar a masculinidade tradicional no seu


local de trabalho e em várias actividades recreativas, alguns homens estão a virar-se para actividades
como as danças de salão que lhes permite manifestar uma expressão alternativa da sua masculinidade
– uma que é mais leve, mais cooperativa, e artisticamente expressiva que a parte competitiva das suas
vidas diárias … As mulheres têm cada vez mais acompanhado os homens nos locais de emprego nos
últimos 40 anos e estão a viver os sonhos das feministas, que eram criticas das expectativas
tradicionais das mulheres. Contudo, as mulheres progressivas de hoje também procuram
oportunidades para expressar algo do tradicionalismo feminino – e participar das danças de salão
permite-lhes a oportunidade de expressar essas características únicas. As dançarinas de salão
demonstram que o género não é estático; contrariamente, as identificações de género são fluidas.»
(Yamanashi, Bulman 2007: 18-19).

As actividades desportivas e recreativas têm sexo?

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Considerando que a conclusão remete para a resposta da pergunta com que demos início a
este trabalho, consideramos que é com esta que devemos terminar; as actividades desportivas
e recreativas não têm sexo, mas têm género. Isto é, está atribuído a cada uma destas
modalidades um sexo social. O boxe existe na sociedade construído na representação da
masculinidade, pela relação com a competitividade, com a violência e com a ideia de corpo
físico musculado. O ballet é representado sob a forma discursiva da feminilidade, devido à
relação entre a graciosidade e beleza dos movimentos com os atributos considerados
femininos. As danças de salão são, a nosso ver, uma fusão de discursos, através do reforço da
masculinidade activa e da aceitação da feminilidade passiva.
Os últimos cinquenta anos do século XX trouxeram ao ocidente grandes modificações nas
relações entre homens e mulheres, como também a noção que existem novas identidades de
género, através do reconhecimento da existência da homossexualidade. Porém, as atribuições
de propriedades específicas a cada sexo têm referenciais históricos, existindo e persistindo na
actualidade. Mas também têm sofrido modificações à medida que as transformações
ideológicas vão ocorrendo. Este facto é perceptível no discurso do único colega que pratica as
duas modalidades de ballet: Clássico e Contemporâneo, para quem o ballet não o torna mais
feminino. Mas também nas colegas do boxe, cujo desporto não consideram transformar a sua
feminilidade. Quanto à salsa, destacamos a constatação de que a aceitação da passividade
feminina não ser considerado um acto de tradicionalismo do papel da mulher, mas sim uma
forma de identificação com este género.
Podemos afirmar que, nestes desportos e actividades nem o homem nem a mulher procuraram
ser semelhantes, mas sim distintos. Mantém-se a pretensão de separar os sexos através do
género, através da atribuição de características específicas. Porém, é inegável que a
estratificação dos papéis sociais sustenta discursos de desigualdade, os quais estão bem
evidenciados nas actividades de recreação: como mulher frequentemente me deparo com o
espanto e com a crítica por praticar boxe, tal como o meu colega bailarino não pode divulgar a
prática do ballet, pois colocará em risco a sua masculinidade.

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