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Em um evento em Campinas, Jéssica Campos encarna Jo, do animê Burst Angel, e Gabriel Niemietz

Braz vive Ken Masters, do game Street Fighter (à esquerda). No Japão, a dupla sagrou-se campeã
mundial de cosplay, variante do universo mangá no qual os fãs se vestem como os personagens – os
quadrinhos literalmente ganham vida. César Takagi (acima) zela por sua coleção importada do Japão.

que significam algo como “inconseqüente” e disciplina e da austeridade, ao lado de demonstra- têm começo, meio e fim. “Por isso, no Japão, são seus avôs, que praticamente não falam portu-
“desenho”. O nome foi escolhido para designar ções da vida cotidiana, exemplos de relações fa- lidas por toda a população. Meninos em fase es- guês – os desenhos facilitam a compreensão
os desenhos de Katsushika Hokusai, primeiro miliares, códigos sociais, aspirações profissionais colar, executivos nos trens a caminho do traba- dos kanji, os ideogramas. Em Assaí, interior do
artista do país a se dedicar a cenas do cotidiano, e comportamento sexual. lho, donas-de-casa, jovens universitários: sempre Paraná, onde 15% da população é descendente
ainda no século 19 – até então a arte figurativa há um mangá para cada grupo.” de japoneses – a maior colônia em proporção no
do Japão estava mais interessada em representar para os estudiosos, o sucesso global dos O fenômeno se repete nas colônias nipôni- país –, um grupo de professoras também aprimo-
o sagrado. Por volta dos anos 20, pasquins fran- mangás se deve em parte ao horizonte limitado cas no Brasil. A comunidade de Mombuca, em ra seus conhecimentos usando mangás.
ceses e ingleses entraram na moda no país com dos similares ocidentais. “Os super-heróis ame- Guatapará, na região paulista de Ribeirão Preto, Os mais antigos se inspiraram sempre nos tra-
forte presença de caricaturas. Depois vieram os ricanos esgotaram suas opções de vida”, avalia é formada por cerca de 100 famílias que ali che- ços de Osamu Tezuka, o mestre a quem os fãs
quadrinhos americanos, condenados ao fracas- Sonia. Invencíveis, eles se casaram ou mudaram garam na década de 1960. Na época, o mercadi- costumam reverenciar como o Manga no Kami-
so devido à falta de identificação com o público. radicalmente seu destino – o Homem-Aranha nho Kawakami já recebia do Japão, entre caixas sama, ou tão-somente o “Deus do Mangá”. Estu-
O quadrinho japonês nasceu sob essa montanha chegou ao ponto de reencarnar na Índia! Já os de chá e de algas marinhas, pacotes de mangás dante de medicina, Tezuka, falecido em 1989 aos
de referências. Com o fim da Segunda Guerra personagens orientais dispõem sempre de novas que acabavam lidos por toda a colônia. “Assim 60 anos, foi um pioneiro, admirador do teatro de
Mundial, eles foram reprimidos por um tempo, possibilidades porque são, simplesmente, seres que um morador terminava de ler, passava para Takarazuka, sua cidade, onde as atrizes usavam
antes de ganharem o mundo acompanhando humanos. “Os heróis dos mangás não são eter- outro”, diz o floricultor Massaharu Takagi, cujas
o rápido crescimento econômico do país. Em nos”, completa ela. “Eles refletem conflitos e an- histórias preferidas são as que têm esportes como Parte do trabalho de Maurício de Paiva desenvolve-se
cada página está embutida a representação ide- seios que fazem parte da vida real.” Assim como tema. Hoje, nas escolas de Mombuca, os quadri- hoje com a arqueologia na Amazônia. Mônica Canejo
ológica essencial japonesa, como a valorização da nas novelas televisivas, as histórias dos mangás nhos ajudam as crianças a manter a cultura de escreveu sobre a terra preta, na edição de setembro.

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maquiagem exagerada para ressaltar os olhos,
tornando-os imensos, característica que ele con-
sagrou como marca registrada de seus desenhos.
Sem preconceito artístico, buscando referências
no cinema americano e em Walt Disney, Tezuka,
contrariando a vontade de seus pais, abandonou
a medicina e se entregou aos mangás. Além de
personagens que se tornaram populares mundo
afora, como o Astro Boy, o autor criou histórias
épicas protagonizadas por figuras ilustres, como
Buda e Hitler, em séries que primam pelo precio-
sismo estético e narrativo.
O estilo vistoso de Tezuka foi transposto ain-
da para uma das leituras modernas dos mangás,
os chamados animês (do inglês animation), ver-
são televisiva dos quadrinhos. Quem era crian-
ça nos anos 70 deve se lembrar dos pioneiros
A Princesa e o Cavaleiro e Kimba, o Leão Branco,
ambos criações de Tezuka. A febre mundial se
espalhou nas décadas seguintes, com as séries
Dragon Ball, Pokémon e Cavaleiros do Zodíaco.
E acabou por inspirar a primeira série de mangá
100% brasileira: os Combo Rangers, criados há
seis anos por um desenhista de apenas 17 anos,
Fábio Yabu. A série fez grande sucesso na inter-
net antes de se tornar revista.

os animês também abriram as portas para um


novo gênero: o cosplay, a teatralização, no mun-
do real, dos personagens de mangás e animês.
A despeito da atual influência japonesa, o cosplay
nasceu nos Estados Unidos, nos anos 80, quando
fãs americanos começaram a se fantasiar como
personagens de filmes, sobretudo os das séries Jor-
nadas nas Estrelas e Guerra nas estrelas. O univer-
so dos mangás e animês logo influenciou os prati-
cantes. Concursos são realizados para premiar as
representações mais fiéis, sob critérios que levam
em conta performance e confecção das roupas –
que precisam ser artesanais e iguais às originais.
Em agosto, em Nagoya, no Japão, uma jovem de Grafites orientais ornam um túnel na avenida Paulista, em São Paulo, berço
peruca branca, armada até os dentes, entrou no da maior colônia de japoneses do país. A nova geração, como os jovens Ken e
palco com cara de poucos amigos ao lado de seu Akemi, leva às ruas o visual dos mangás. Ken anima festas infantis com o tema.
companheiro de cena, um robô de mais de 3 me-
tros de altura. Eram Jo e Jango, do animê Burst
Angel. Durante três minutos, tiros, canhões de lu-
zes coloridas e urros na platéia foram suficientes
para a avaliação do júri. Pouco depois, os brasilei-
ros Jéssica Campos e Gabriel Niemietz Braz (ou
Jo e Jango) eram anunciados como os campeões

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