CATEGORIAS DE ESPAÇO E TEMPO EM FEUERBACH ______________________________________________________________________ Albertino Servulo Barbosa de Sousa* INTRODUÇÃO Essa pesquisa é um breve delineamento do pensamento

de Ludwig Feuerbach com o objetivo de apresentar, a partir do texto: Teses Provisórias Para a Reforma da Filosofia, as considerações desse filósofo a respeito das categorias de espaço e tempo. Por que investigar as categorias de espaço e tempo em Feuerbach? A justificativa precípua dessa pesquisa repousa na observação de que esse filósofo apesar de apresentar considerações gerais acerca dessas categorias faz afirmações taxativas sobre o espaço e o tempo, isto é, afirmações não destituídas de pressupostos que são explicitadas a partir de fragmentos no interior de alguns de seus escritos. Concorre a esse fato o conhecimento de que o espaço e o tempo são objetos de pesquisas de importantes pensadores da filosofia e da ciência. O debate acerca das categorias de espaço e tempo está diretamente relacionado a embates de temas importantes na filosofia não sendo uma questão irrelevante, mas um tema fundamental na teoria do conhecimento. Ademais, na ciência contemporânea os conceitos de espaço e tempo absolutos foram revisados, pois o conceito de matéria foi substituído como conceito fundamental da ciência pelo conceito de campo. Ancorado nessas justificativas afirmamos a relevância do estudo das categorias de espaço e tempo em Feuerbach, pois seu materialismo é uma oposição ao idealismo absoluto que ao seu ver hipostasia a natureza. Portanto, nossa suposição é de que as considerações de Feuerbach, acerca do espaço e do tempo, como instâncias não absolutas, tem aproximações com o conceito de espaço-tempo da ciência atual. Visando examinar e explicitar essa questão de forma
sistemática, a pesquisa está dividida em duas seções. A primeira apresenta de modo conciso um relato do desenvolvimento das teorias do espaço e do tempo. A segunda parte procede à pesquisa apresentando o significado de espaço e tempo a partir das considerações gerais de Feuerbach.
Mestrando em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Ceará. Graduado em Matemática e Ciências pela Universidade Estadual do Ceará, bolsista CAPES e membro do GEM: Grupo de Estudos MARXISTAS FILOSOFIA-UFC, grupo coordenado pelo Prof. Dr. Eduardo F. Chagas, Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Ceará.
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TEORIAS DO ESPAÇO E DO TEMPO O filósofo da ciência Max Jammer afirma que as categorias de espaço e tempo são objetos recorrentes nas investigações da filosofia, fundamentalmente no âmbito da metafísica e da epistemologia, onde consagrados filósofos fizeram de suas teorias do espaço e do tempo as bases fundamentais de seus sistemas filosóficos. Jammer afirma que as pesquisas experimentais e observacionais, juntamente com especulações filosóficas e inclusive teológicas, moldaram o conceito de espaço e de tempo. De modo geral, no centro do debate sobre essas categorias estão duas teorias: a primeira admite a categoria de espaço como propriedade posicional dos objetos materiais e a segunda defende o espaço como continente de toda a natureza. Jammer restringe o debate ao conceito de espaço uma vez que, ao seu ver, na antiguidade e na modernidade se tinha a mesma consideração conceitual acerca do tempo (JAMMER, 2010, p.23-25). O físico britânico S. W. Hawking, também sustenta essa tese de que o conceito de tempo absoluto era comumente aceito na tradição, pois considera que:

Tanto Aristóteles quanto Newton acreditavam no tempo absoluto. Isto é, acreditavam que se pode, sem qualquer ambiguidade, medir o intervalo de tempo entre dois eventos, e que o resultado será o mesmo em qualquer mensuração, desde que se use um relógio preciso. O tempo é independente e completamente separado do espaço (HAWKING, 1998, p.39).

Portanto a divergência, tanto na antiguidade quanto na modernidade, era acerca da categoria espaço, discussão que Max Jammer afirma concentrar-se em duas teorias. A primeira concebendo o espaço como propriedade posicional do mundo dos objetos materiais, sendo a pressuposição de que o espaço sem um objeto material é inconcebível, ou seja, é a concepção de espaço como lugar. Essa teoria foi cristalizada pela Fisica de Arístóteles, que não admite o espaço não material, pois se o espaço é o lugar não há sentido em falar de espaço sem objeto material, pois é o mesmo que falar do não-lugar. A segunda teoria, que concebe o espaço como continente de todos os objetos materiais, é a admissão de que um objeto material só pode ser concebido como existente no espaço, ou seja, significa que o espaço existe independente dos objetos materiais, é a consideração de que há um espaço absoluto.

Foi a física newtoniana que consolidou a categoria de espaço absoluto no pensamento moderno, estabelecendo esse conceito a partir de considerações metaempíricas e teológicas; o que sugnifica dizer que o espaço absoluto da ciência moderna é, ao mesmo tempo, uma especulação metafísica e religiosa (BURTT,1991,p.204). Em suma, a segunda teoria pressupõe o contrário da primeira, isto é, na teoria que concebe o espaço como propriedade posicional do mundo natural o espaço não tem uma realidade em si mesmo, sua existência depende da matéria, por isso não se concebe o vazio. Enquanto na teoria que admite o espaço como continente de toda a natureza, o espaço tem uma realidade superior a matéria, pois considera-se que os objetos materiais só podem existir no espaço (JAMMER, 2010, p.17-18). Em sua digressão sobre essas pressuposições que cercam a categoria espaço, Jammer acusa o materialismo clássico de introduzir premissas favoráveis a teoria do espaço absoluto, que podem ser vistas como a postulação de uma realidade extracorporal, uma vez que a admissão do vazio significa conceber uma existência distinta da matéria (JAMMER, 2010, p.37). A postulação de um espaço vazio é contestada por Aristóteles que, diferentemente dos atomistas, não concebe o espaço e o tempo como quantidades descontínuas (ARISTÓTELES, 2005, p.50). Aristóteles estabeleceu o conceito de espaço como fronteira adjacente de um corpo continente, que significa considerar o espaço como lugar, intentando suprimir incoerências lógicas como as que estão presentes nas definições dos atomistas (JAMMER, 2010, p.42). De fato, Aristóteles na sua Física concebe o espaço, isto é, o lugar, como sendo uma realidade material, pois ele compreende que o corpo continente tem de estar em contato em todos os pontos com o corpo contido. Porém, essa concepção da teoria aristotélica do espaço contradiz a própria posição de Aristóteles que concebe o Universo como um todo contínuo (JAMMER, 2010, p.45). Em suma, a concepção aristotélica de espaço como lugar serviu de base para as formulações de teorias do espaço até o século XIV, consolidando na antiguidade o espaço como sendo: heterogêneo, anisotrópico e contínuo (JAMMER, 2010, p.49). Voltando-se para o exame das teorias do espaço na modernidade, Jammer afirma que a obra de Newton, Principia, é fundamental para a compreensão da categoria espaço nesse período, que se configurou como espaço absoluto. Newton consolida a concepção de espaço absoluto arraigado no pressuposto de uma concepção realista da matemática. Segundo Jammer, para Newton a matemática não é um sistema puramente

hipotético de proposições logicamente dedutíveis de axiomas e definições. Ele concebe que há uma relação entre matemática e natureza; compreendendo que se podem deduzir princípios matemáticos dos fenômenos naturais e a partir desses explicar as propriedades e ações de todos os fatos naturais, daí decorre o título de sua obra principal, Princípios matemáticos da filosofia natural. Jammer comenta que Newton fez uma separação entre ciência e metafísica, com sua declaração hypotheses non fingo, intentando evitar qualquer tentativa de fundamentação transcendente (JAMMER, 2010, p.131-133). Com esse lema, Newton foi o primeiro a fazer a demarcação entre ciência e filosofia. Contudo, Newton não conseguiu manter essa demarcação radical entre ciência e metafísica, o seu conceito de espaço absoluto é a exceção. Para compreender a teoria do espaço de Newton é necessário compreender os fundamentos da sua física, isto é, além do espaço e do tempo, força e massa são os outros conceitos fundamentais da física newtoniana. Em Newton a força é um ser físico real e retomando a tese de Galileu, concebe a massa o atributo essencial da matéria, o que significa uma oposição ao cartesianismo que considerava a extensão a principal característica da matéria. O conceito newtoniano de “ponto de massa” é o marco dessa oposição. Newton concebe o movimento como a condição primordial dos objetos materiais. E o espaço, como correlato do ponto de massa, é necessariamente introduzido na sua filosofia da natureza, cuja necessidade é similar a condição do vácuo em relação ao átomo no materialismo clássico, a lei da inércia nos esclarece sobre essa necessidade. O conceito newtoniano de espaço absoluto é concebido como pré-requisito necessário para justificar a lei da inércia ou primeira lei do movimento, pois o movimento uniforme exige um sistema de referência diferente de qualquer espaço relativo arbitrário. Ademais, o próprio estado de repouso pressupõe o espaço absoluto, a necessidade de um lugar imóvel. Contudo, apesar da lei da inércia pressupor a existência necessária do espaço absoluto, não indica nenhum meio pelo qual esse espaço possa ser validado experimentalmente; uma tentativa de fazê-lo foi por meio do movimento uniforme, mas o problema mostra-se apenas transferido uma vez que esse fenômeno sofre da mesma carência, isto é, de prova experimental. (JAMMER, 2010, p.134-142). Einstein acrescentou um apêndice no seu ensaio, A teoria da relatividade especial e geral, tratando sobre o problema do espaço e sobre as mudanças graduais no conceito de espaço resultante da concepção relativística (EINSTEIN, 1999, p.9). Segundo Einstein, o problema da física newtoniana é que ela é obrigada, devido ao

conceito de aceleração, a atribuir ao espaço e ao tempo uma existência real e independente. Somente assim podia explicar as leis do movimento. De acordo com Einstein, desde a antiguidade os filósofos resistiram a essa pretensão de atribuir realidade física ao espaço vazio.
Newton mesmo, assim como seus contemporâneos dotados de senso crítico, sentiu-se constrangido em atribuir tanto ao espaço em si como ao seu estado de movimento uma realidade física; na época, porém, não havia outra saída, se queria atribuir à mecânica um sentido claro. Já é bastante pretensioso termos que atribuir ao espaço em geral uma realidade física, sobretudo ao espaço vazio. Desde os tempos mais antigos, os filósofos manifestaram resistência contra esta pretensão (EINSTEIN, 1999, p.111).

Segundo Einstein, na mecânica newtoniana as categorias de espaço e tempo têm dupla função; por um lado, tem a função de suporte do acontecer físico, por outro, tem a função de sistema inercial. A matéria é concebida como consistindo de “pontos” cujos movimentos constituem o acontecer físico. Os eventos são descritos por meio de coordenadas do espaço e do tempo. A realidade material, nessa visão, é por um lado concebida como formada de espaço e tempo, e por outro, como pontos materiais de existência permanente movendo-se em relação ao espaço e ao tempo. Concebe-se assim uma existência independente ao espaço e ao tempo. Para Einstein, essa ideia, da realidade física como independente dos sujeitos que a experimentam, é expressa de modo drástico do seguinte modo: “se hoje a matéria deixasse de existir, restariam apenas o espaço e o tempo” (EINSTEIN, 1999, p.119). Contudo, explica Einstein, essa visão foi suplantada com o estabelecimento do conceito de campo na ciência contemporânea. Esse conceito foi criado no interior da própria mecânica clássica com o objetivo de auxiliar a compreensão dos casos em que a matéria era tratada como contínua. Por isso, no início de seu estabelecimento, o conceito de campo parecia não estar associado ao problema do espaço-tempo e nem a pretensão final de substituir o conceito de ponto material.
A superação desse ponto de vista resultou de uma evolução que, de início, parecia nada ter a ver com o problema do espaço-tempo – o surgimento do conceito de campo e a pretensão final de substituir em princípio o conceito de partícula, ponto material. No quadro da física clássica, o conceito de campo foi criado como um conceito auxiliar, nos casos em que a matéria era tratada como contínua (EINSTEIN, 1999, p.118-119).

Portanto, de acordo com a origem do conceito de campo onde não existia matéria também não podia existir campo. Para Einstein, os campos não pretendem outra coisa senão a descrição de um dado estado da matéria. Porém, esse aspecto fundamental do conceito de campo começou a mudar quando no início do século XIX, constatou-se experimentalmente que os fenômenos de interferência e propagação da luz podiam ser explicados como um campo de ondas análogo ao campo das oscilações mecânicas em um sólido. Essa verificação fez surgir à necessidade de introduzir um campo que era capaz de existir também no espaço vazio o que significa dizer na ausência de matéria ponderável. Einstein afirma que essa verificação criou uma situação paradoxal na ciência, uma vez que o conceito de campo parecia restrito a descrever os estados no interior da matéria, isto é, o conceito de campo para ser interpretado exigia a presença de matéria. Foi a partir desse problema que se passou a considerar, como sua solução, a existência de uma matéria no espaço considerado vazio, que recebeu o nome de éter. Porém, a teoria do éter, fez surgir à questão de como, do ponto de vista mecânico, se comporta o éter em relação aos corpos ponderáveis. Ou seja, a questão que se impôs era saber se o éter participava dos movimentos dos corpos ou se suas partículas estariam em repouso umas em relação ás outras. Para a mecânica clássica vale a equivalência de todos os espaços inerciais; mas o fundamento da teoria eletromagnética postulava o privilégio de um espaço inercial particular, o do éter luminoso em repouso; persistindo, portanto, a situação insatisfatória paradoxal. Em suma, para Einstein, ao apontar a equivalência física de todos os sistemas inerciais, a teoria da relatividade especial tornou manifesta a insustentabilidade da hipótese de um éter em repouso. Por isso, foi necessário renunciar a ideia de que o conceito de campo eletromagnético deva ser considerado como um substrato material. Einstein diz, que tanto a mecânica clássica quanto a teoria da relatividade especial consideram o espaço (espaço-tempo) como tendo uma existência independente, seja em relação à matéria, no caso da primeira teoria, seja em relação ao campo, no caso da segunda. Mas, de acordo com a teoria da relatividade geral, o espaço não tem existência própria em relação ao que o preenche e que depende de coordenadas. Em síntese, no sentido da teoria da relatividade geral de Einstein, um espaço vazio, isto é, um espaço sem campo, não existe (EINSTEIN, 1999, p.120-129).

ESPAÇO E TEMPO EM FEUERBACH Acerca da concepção de espaço e tempo em Feuerbach consideramos nesse artigo apenas algumas passagens presentes principalmente no ensaio, Teses provisórias para a reforma da filosofia (1842), guardando o procedimento de apresentar aquelas que tratam diretamente das categorias de espaço e tempo. Essas poucas passagens sobre o espaço e o tempo são concisas e aforisticas. Contudo, aparecem como afirmações taxativas sobre esse tema. Sabemos pelos próprios escritos de Feuerbach que ele se considerava mais um pesquisador do que propriamente um preceptor, pois segundo ele este último é incansável na arte de ensinar, sendo capaz de dizer alguma coisa várias vezes. Porém, Feuerbach considera que é bastante razoável que se diga algo apenas uma vez. Ele afirma que de fato se considera um espírito aforístico, contudo no sentido de saber distinguir o necessário do supérfluo (FEUERBACH, 2009, p.14). Feuerbach é um filósofo materialista, segundo essa posição filosófica a matéria é o existente. Para a filosofia especulativa, que Feuerbach se opõe, a ideia tem uma anterioridade em relação à matéria, ao espaço e ao tempo; significando que possui uma existência independente desses, sendo, portanto o pensar inespacial e intemporal. Feuerbach considera a matéria no espaço e no tempo e se contrapõe ao idealismo que postula um ser separado dessas instâncias. Para Feuerbach, o espaço e o tempo são as formas que possibilitam a existência; se algo existe então está no espaço e no tempo. A negação dessas instâncias só é possível como indicação de seus limites, ou seja, é impossível negar o espaço e o tempo; seria como negar a existência e afirmar o não existente que não pode ser afirmado. O que dizer então da existência do espaço e do tempo distinta da existência da matéria? E um pensamento intemporal? Para Feuerbach, tanto o pensamento intemporal quanto a vontade intemporal, são puras quimeras, ou seja, não existem. Portanto, ele pressupõe que, vontade, sensação e pensamento são instâncias localizadas no espaço e no tempo. Pensamento, vontade e sensação são de algum modo representações inseparáveis da matéria. Para Feuerbach: tempo, espaço e matéria são inseparáveis, pois só há existência no espaço e no tempo.
O espaço e o tempo são as formas de existência de todo ser. Só a existência no espaço e no tempo é existência. A negação do espaço e do tempo é sempre apenas a negação dos seus limites, não do seu ser. Uma sensação intemporal, uma vontade intemporal, um pensamento intemporal, um ser intemporal são quimeras. Quem não tem tempo algum, também não tem em geral tempo nem impulso para querer e pensar. (FEUERBACH, 2001, p.26).

Feuerbach ao afirmar que a negação do espaço e do tempo é sempre negação dos seus limites, está evidenciando nessa consideração que não concebe o espaço desvinculado da matéria, da práxis humana. Essa pressuposição fica mais clara quando em outra assertiva ele se refere explicitamente a negação do espaço e do tempo perpetrado pela metafísica. E qual é essa negação? É a afirmação de um espaço e um tempo absolutos, o mesmo que dizer que na essência das coisas não tem espaço e tempo, isto é, de que há uma existência não-material separada da existência material. É o que está pressuposto numa afirmativa que considera algo desvinculado do espaço e do tempo. Em suma, Feuerbach considera que essa negação do espaço e do tempo não tem apenas implicações teóricas, mas tem também consequências práticas, políticas, pois é a negação da própria história.
A negação do espaço e do tempo na metafísica, na essência das coisas, tem as mais funestas conseqüências práticas. Só quem em toda parte se encontra no ponto de vista do tempo e do espaço possui igualmente na vida tacto e entendimento prático. O espaço e o tempo são os primeiros critérios da práxis. Um povo que exclui o tempo da sua metafísica e diviniza a existência eterna, isto é, abstrata, isolada do tempo, exclui também consequentemente o tempo da sua política e diviniza o princípio da estabilidade, contrário ao direito, à razão, à história. (FEUERBACH, 2001, p.26).

Na obra, A essência do cristianismo, que expõe uma oposição a uma existência metafísica, Feuerbach, discorrendo sobre o mistério da providência e da criação a partir do nada, explicita que o espaço, o tempo e a matéria são inseparáveis e o mundo que realmente existe tem matéria. Essa existência material é negada quando se produz um mundo a partir da vontade e lhe atribui uma existência arbitrária.
No mais profundo da tua alma queres que não exista nenhum mundo, porque onde existe mundo existe matéria e onde existe matéria existe opressão e choque, espaço e tempo, limitação e necessidade. No entanto, existe um mundo, uma matéria. Como retiras o mundo da mente para que ele não te incomode no sentimento delicioso da alma ilimitada? Somente fazendo do próprio mundo um produto da vontade, dando a ele uma existência arbitrária (FEUERBACH, 2002, p.127).

É preciso observar que a consideração feuerbachiana de que onde existe mundo existe matéria e onde existe matéria existe espaço e tempo, não significa que a filosofia de Feuerbach é uma defesa de um purismo materialista. Feuerbach por meio de suas afirmações taxativas não deixa dúvidas de que o mundo é matéria, porém não é um materialismo puro. Essa pressuposição sobre o materialismo não purista de Feuerbach

foi muito bem compreendida por Marx que dedicou vários escritos comentando a obra de Feuerbach e num deles afirma: “É certo que Feuerbach tem em relação aos materialistas puros a grande vantagem de que ele compreende que o homem é também objeto sensível” (MARX; ENGELS, 2007, p.32).

CONSIDERAÇÕES FINAIS Em suma, as considerações sobre o espaço presentes na física newtoniana que atribui ao espaço absoluto uma justificativa científica, a saber, a prova da lei da inércia e outra que o considera como sendo o lugar do divine sensorium, são refutadas pelos pressupostos implícitos nas afirmações gerais de Feuerbach acerca do espaço e do tempo. Em síntese, a critica feuerbachiana se dirige a pressuposição de uma existência para além do mundo físico. Em Feuerbach encontramos a negação da existência de um ser para além da natureza, pois ele concebe a natureza no espaço e no tempo. Ademais, Feuerbach também explicita sua posição contrária ao tempo absoluto, categoria não tematizada na tradição. Para Feuerbach, essa separação do tempo em relação ao desenvolvimento histórico é arbitrária e tem consequências práticas, pois diviniza o princípio da estabilidade o que é uma contradição com a história.
Um povo que exclui o tempo da sua metafísica e diviniza a existência eterna, isto é abstrata, isolada do tempo, exclui também consequentemente o tempo da sua política e diviniza o princípio da estabilidade, contrário ao direito, à razão, à história. A filosofia especulativa fez do desenvolvimento sem o tempo uma forma, um atributo do absoluto. Mas esta separação do desenvolvimento e do tempo é uma verdadeira obra prima da arbitrariedade especulativa (FEUERBACH, 2001, p.27).

Por fim, pode-se dizer que a aproximação que as categorias de espaço e tempo em Feuerbach têm com a concepção que a ciência contemporânea estabeleceu a partir do conceito espaço-tempo, em especial na física einsteiniana e deixando para uma pesquisa posterior as implicações que o conceito de campo dessa ciência promoveu na ideia tradicional de matéria, é a consideração de que tais instâncias são inseparáveis, posição que a tradição filosófica e a ciência moderna não concebiam.

REFERÊNCIAS ARISTÓTELES. Órganon: categorias. Tradução de Edson Bini. Bauru, SP: EDIPRO, 2005. _____________. Física. Trad. Guillermo R. de Echandía, Editorial Gredos S.A., 1995. BURTT, E. As bases metafísicas da ciência moderna. Tradução de José Viegas Filho e Orlando Araújo Henriques. Brasília: Editora UNB, 1991, p.189-229 EINSTEIN, A. A teoria da relatividade especial e geral. Tradução de Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999. ___________. Relativity the special and general theory. Translated by Robert W. Lawson. New York: Dover Publications, INC, 2001. FEUERBACH, L. Teses provisórias para uma reforma da filosofia. In: Princípios da Filosofia do Futuro e outros. Tradução de Artur Mourão. Lisboa: Edições 70, 2001. _______________. Preleções sobre a essência da religião. Tradução de José da Silva Brandão. Petrópolis: RJ: Vozes, 2009. ________________. A essência do cristianismo. Tradução de José da Silva Brandão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. HAWKING, S. W. Uma breve história do tempo: do big bang aos buracos negros. Tradução de Maria Helena Torres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. HEIDEGGER, M. O conceito de tempo. Tradução de Irene Borges Duarte. 2ªed. Lisboa: Edições Fim de Século, 2008, p.25 JAMMER, M. Conceitos de espaço: a história das teorias do espaço na física. Tradução Vera Ribeiro. 3ªed. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2010. KANT, I. Exposição transcendental do conceito de espaço. Exposição transcendental do conceito de tempo. In: Crítica da razão pura. Tradução de Manuela P. dos Santos. 6ªed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, p.63-87. MARX, K. ENGELS, F. A ideologia alemã. Tradução de Rubens Enderle, Nélio Schneider e Luciano Martorano. São Paulo: Boitempo, 2007 NEWTON, I. Principia: princípios matemáticos da filosofia natural – Livro I. Tradução de Trieste Ricci et all. 2ªed. São Paulo: EDUSP, 2008, p.13-53. _______________, Principia: princípios matemáticos de filosofia natural: o sistema do mundo – Livro II e III. Tradução de André Koch Torres Assis e Fábio Duarte Joly. São Paulo: EDUSP, 2008, p. 327-340.

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