_________________________________________________ Filosofia da Natureza de Hegel: chave de compreensão do idealismo objetivo e da polêmica de Hegel contra as ciências de seu tempo.

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Albertino Servulo Barbosa de Sousa Graduando em filosofia (UFC, Fortaleza) albertinosbs@professor.sme.fortaleza.ce.gov.br

RESUMO: A presente pesquisa se fundamenta no comentário do pensador Vittorio Hösle, a partir do ensaio Hegels System-Der Idealismus der Subjektivität und das Problem der Intersubjektivität. Conforme Hösle, a filosofia da natureza de Hegel é a seção mais desprestigiada de seu sistema filosófico, aparecendo poucos estudos sobre esse tema. Como conseqüência desse pouco interesse, Hösle comenta, que se perde a differentia specifica que faz do pensamento de Hegel o suprassumo de todo o idealismo alemão. Hösle indica que a pouca apreciação dada à filosofia hegeliana da natureza não tem fundamento filosófico. Faltando aos críticos um sólido e necessário saber em matemática e ciência natural. Nosso objetivo é mostrar os argumentos de Hösle que culminam nessas conclusões. Como ele entende que Hegel soluciona o problema da origem da Natureza, i.é., do ser que se apresenta a nós? Por que a filosofia da natureza é central para compreender a transição do idealismo subjetivo ao idealismo objetivo? Por que o saber matemático é necessário para compreensão da filosofia da natureza? Qual a relação da filosofia hegeliana da natureza com as ciências da natureza? Palavras-chave: Hegel, Natureza, Idealismo objetivo ABSTRACT: The present reseach is based on the comments of the thinker Vittorio Hösle about the essay Hegels System-Der Idealismus der Subjektivistát und das Problem der Intersubjektivitát. According to Hösle, the philosophy of nature of Hegel is the less prestige section from his philosophical system, with little studies about this theme As a consequence of this little interest, Hösle comments that it loses the differentia specifica which makes Hegel`s thought the base of all german idealism. Hösle tells that the little appreciation given to Hegel`s philosophy of nature has no philosophical foundation. So critics does not have a solid and necessary knowledge in mathematics and natural science. Our aim is to show the arguments of Hösle that lead to these conclusions. How does he solve the problem of the origin of nature, that is, of the being that presents itself to us? Why is the philosophy of nature the center to understand the trasition from subjective idealism to the objective one? Why is the mathematical knowlegde so necessary to understand the philosophy of nature? What is the relationship between Hegel`s philosophy of nature and the sciences of nature? Keywords: Hegel, Nature, idealism

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I. Introdução Segundo o comentário do pensador italiano Vittorio Hösle1 a filosofia da natureza é a secção mais negligenciada do sistema filosófico de Hegel. Esse pesquisador explica que esse domínio mais do que negligenciado é tido por muitos2 por totalmente ultrapassado, de tal maneira que, essa parte do sistema filosófico hegeliano é entendida como descartável e que, portanto na atualidade não tem com que contribuir no debate filosófico. Hösle3 se contrapõe a esse descuido da filosofia da natureza de Hegel e alerta que tal atitude promove conseqüências no próprio âmbito do conhecimento atingindo de uma só vez a história da filosofia e o próprio sistema filosófico hegeliano. A afirmação de que o desprezo a filosofia da natureza de Hegel implica na própria renuncia em compreender a História da Filosofia, tem dois importantes significados. O primeiro é relativo ao lugar, a influência, o alcance, que atingiu o pensamento hegeliano. Sua superioridade é um fato demonstrado nessas conseqüências apontadas no comentário de Hösle. O segundo significado repousa no fato de que deixando de compreender a história da filosofia é o mesmo que deixar de compreender o sentido da história da filosofia. Hösle4 afirma ainda que a recusa quase unânime da filosofia hegeliana da natureza não é uma recusa arraigada, pois de um modo geral falta aos opositores os pressupostos5 necessários para que somente assim possa ser emitido um argumento competente. Falta a crítica dirigida uma sólida compreensão da estrutura lógica do sistema de Hegel e simultaneamente conhecimentos das ciências naturais. Uma apreciação justa da filosofia da natureza de Hegel deve levar em conta o contexto histórico científico desse filósofo6. Hegel foi o último filósofo a contemplar todas as ciências naturais de seu tempo em

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VITTORIO HÖSLE, O sistema de Hegel: o idealismo da subjetividade e o problema da intersubjetividade, Conforme Hösle, os opositores da filosofia hegeliana da natureza podem ser agrupados em: cientistas naturais, Cf. p.311. Ver nota 2 Os pressupostos, que Hösle indica, para que seja emitido um juízo competente se resume a três: 1) uma

Trad. Antonio Celiomar pinto de Lima, São Paulo: Edições Loyola, 2007, p. 311.
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racionalistas críticos e hegelianos de esquerda. (Cf. 2007, p. 312)
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percepção da estrutura lógica do sistema de Hegel. 2) os questionamentos filosóficos que segundo a concepção de Hegel ultrapassam as ciências particulares. 3) conhecimento das ciências naturais na época de Hegel e na atualidade. (Cf. 2007, p.312)
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Hegel nasceu em 1770 e faleceu em 1831. O contexto histórico de Hegel é o final do século XVIII e início do

século XIX. (In: H. JAPIASSU, D. MARCONDES, Dicionário básico de filosofia, 3ªed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p.122)

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seu conjunto. Fato este comprovado segundo o comentário de Hösle7. Essa particularidade é considerável porque revela que Hegel tinha autoridade para fundamentar sua filosofia da natureza. É importante não esquecer que nesse momento, Hegel está inserido no contexto histórico onde a filosofia e as ciências naturais progridem cada vez mais distanciadas entre si, ou seja, uma época em que se cristalizou a tendência a especialização. Acerca da fundamentação sólida de Hegel, Hösle8 nos informa que Hegel estava bem informado da matemática do inicio do século XIX, fato esse considerável, uma vez que o saber matemático é necessário para compreensão da ciência9. Esse abrangente domínio que Hegel possuia pode ser visto na crítica que ele desenvolveu contra a fundamentação lógica do cálculo infinitesimal. Hösle10 não deixa, contudo, de assinalar aquilo que interpreta como os equívocos na filosofia da natureza de Hegel. Fazendo-lhes ressalvas e interpretando que os erros ocorreram porque em geral Hegel se apoiou justamente em resultados das ciências naturais de seu tempo. Resultados esses que no progresso espetacular das ciências foram revistos posteriormente. Um outro motivo dos equívocos hegelianos foi a confiança que Hegel depositou em fenômenos recém descobertos e ainda não confirmados teoricamente, o que pode ser visto no caso da eletricidade11 que somente com os trabalhos de Faraday e
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Cf. 2007, p.313. Cf. 2007, p.314 O saber matemático permitiu as ciências naturais uma linguagem objetiva para formular as leis da natureza. As

matemáticas foram, ao longo da história, os primeiros conhecimentos a atingir o estatuto de ciência no sentido em que entendemos. Este privilégio está, sem dúvida, ligado à própria natureza desse conhecimento e de seus objetos. A denominação de ciência “formal” que alguns filósofos, tanto neoplatônicos como neopositivistas, mas em sentidos diferentes, dão as matemáticas, sublinharia, de fato, certa independência relativamente à observação dos fenômenos e, por conseguinte, a possibilidade de se desenvolverem unicamente pelas forças do pensamento. A realidade, porém, não é tão simples assim. Pois, por um lado, muitas vezes os conceitos matemáticos foram forjados a propósito de questões colocadas pela observação empírica; por outro, se a matemática não é uma ciência da natureza, ela não deixa de ter verdadeiros objetos. ”(Cf. GILLES-GASTON GRANGER, Ciências formais e ciências empíricas, In: IDEM, A ciência e as ciências, Trad. Roberto leal Ferreira, São Paulo: Editora UNESP, 1994, p.59)
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Ver nota 8 O estudo da eletricidade nos tempos modernos pode ser considerado como tendo sido iniciado com as

pesquisas de William Gilbert (1544-1603). Os gregos sabiam que o âmbar revelava propriedades elétricas, mas Gilbert demonstrou não ser ele, de modo algum, o único a possuí-las. Eis a originalidade de Gilbert. Foi ele quem observou ainda que as forças elétricas eram de caráter diferentes. No decorrer do século XVIII importantes descobertas vieram a consolidar a doutrina da eletricidade. Entre as mais importantes a máquina de gerar cargas elétricas de Otto Von Guericke (1602-1686) e a garrafa de Leiden, criada na Holanda, por Peter Von Musschenbroek (1692-1791). Foram importantes instrumentos que vieram a comprovar empiricamente esse

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Maxwell atingiu explicação teórica aceitável. Para um melhor esclarecimento dos temas aqui introduzidos dividimos esse trabalho em três secções: transição do idealismo subjetivo ao idealismo objetivo, onde se busca mostrar por que com a filosofia da natureza de Hegel o idealismo atingiu a plenitude. Na segunda apresentamos a polêmica de Hegel contra as ciências de seu tempo. E concluimos com a terceira que almeja responder: qual a relação da filosofia da natureza de Hegel com a ciência contemporânea?

II. Transição do idealismo subjetivo ao idealismo objetivo No que diz respeito à história da filosofia, Hösle12, comenta que o desprezo a filosofia da natureza significa que se está deixando de compreender aquilo que é o mais original no
caráter diferente das forças elétricas, um misto de polaridade. Foi a partir dessas invenções que Benjamin Franklin (1706-1790) realizou uma série de pesquisas para demonstrar que o raio é um fenômeno elétrico. Em 1752 efetuou sua famosa experiência do papagaio de papel, recolhendo a carga elétrica de uma nuvem de tempestade numa garrafa de Leiden e provando que a dita carga conduzia aos mesmos efeitos que outra, produzida por máquina elétrica. Franklin supôs uma teoria que a carga elétrica estava localizada nas massas dos corpos. O inglês Stephen Gray (1666-1736) demonstrou em 1729 que essa teoria está errada, ou seja, a carga elétrica permanece totalmente na superfície dos corpos. Nesse momento essas descobertas pareciam indicar que a força elétrica era da mesma espécie que a gravidade, dizer que eram da mesma espécie é afirmar que atuam à distância, através do espaço vazio e obedecendo a uma mesma lei, a do quadrado inverso. A filosofia natural alemã (Cf. STEPHEN F. MASON, A filosofia natural alemã, In: IDEM, História da ciência: as principais correntes do pensamento científico, Trad. José Lacerda, Rio de Janeiro: Editora Globo, 1962, p.281-292.) interessou-se por um aspecto diverso da eletricidade, ou seja, o fenômeno da polaridade que parecia exemplificar perfeitamente a tensão oposta por eles admitida entre os pólos ou forças contrárias que haviam introduzido ordem no caos. Uma vez existente apenas uma espécie de poder subjacente ao desenvolvimento da natureza em sua filosofia, isto é, a do espírito universal, sustentavam eles que a luz, o magnetismo, as forças químicas e a eletricidade estavam todos relacionados entre si e são apenas aspectos diferentes de uma mesma realidade. Hans Christian Oersted (1777-1885), físico que foi discípulo de Friedrich Schelling (1775-1854). Inspirado nas idéias desse filósofo buscou encontrar a relação entre o magnetismo e a eletricidade. Mas foi o inglês Michael Faraday (1791-1867) que fez as pesquisas mais revolucionárias, relacionando os efeitos elétricos com outros fenômenos. Faraday sustentava que a matéria é onipresente, sob a forma de um éter, sem lacunas que funcionava como um veículo para as forças da natureza. Faraday rejeitava a teoria atômica da matéria, e com isso a concepção de que as forças atuavam a distância, no espaço vazio. Faraday definiu que a matéria está presente em todo lugar e não há espaço intermediário desocupado. (Cf. STEPHEN F. MASON, O progresso da eletricidade e do magnetismo, In: IDEM, op. cit. p.388-397)
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Cf. p.312.

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sistema filosófico hegeliano, ou seja, a transição do idealismo subjetivo ao idealismo objetivo. É nessa transição que repousa o âmago do projeto hegeliano; pois o idealismo objetivo é o resgate da metafísica como ciência. Aqui já se faz menção do motivo da centralidade da filosofia da natureza no sistema filosófico de Hegel. O idealismo é uma posição filosófica que de um modo geral, pode ser vislumbrado como o “ismo” que privilegia a idéia. Na história da filosofia13 essa concepção surge com variados conceitos, mas alguns ganharam notoriedade no debate filosófico. O pensamento cartesiano é um deles, sendo comumente associado ao idealismo metodológico, por defender o inatismo a partir da intuição pura, isto é, independente da experiência, sendo a episteme alcançada a partir desse método, isto é, das idéias inatas. Outro exemplo clássico é o idealismo kantiano, classificado como idealismo transcendental. Neste, rejeita-se a compreensão de que a idéia é resultante de uma consciência pura. Nesse caso, a idéia é concebida como produto de uma estrutura lógica universal, que formata somente os dados da empiria, sem nunca atingir o objeto. Uma terceira tradição de idealismo está associada à filosofia platônica, designada de idealismo metafísico. Nessa concepção, o Ser é a própria idéia, ou seja, a realidade é idéia. Essa via tem seu desdobramento na filosofia de Hegel que é considerada um subtipo desse idealismo. Entretanto somente este subtipo resolve, a partir da ciência da lógica14, o problema da origem da natureza. A tradição idealista privilegia a idéia
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ADÃO T. LARA, A filosofia ocidental do renascimento aos nossos dias: caminhos da razão no ocidente, Para compreender o sistema filosófico de Hegel é preciso ter em mente três concepções basilares sobre a sua

4ªed., São Paulo:Vozes, 1998, p.51-68.
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filosofia. A primeira é a posição de que a realidade é espírito. A segunda é a de que o espírito é dialético. E a terceira e última é que a dialética é especulativa. Daí segue as seguintes questões: 1) o que significa afirmar que a realidade é espírito? 2) o que significa conceber o espírito como dialético? 3) que significa dizer que a dialética é especulativa? Estas questões têm ainda pressupostos que suscitam outras questões mais fundamentais: 4) o que é espírito? 5) o que é dialética? 6) o que Hegel compreende como especulativo?. Antes do estabelecimento da filosofia de Hegel prevaleceu nas discussões filosóficas a concepção de Ser estático. Essa prevalência provocou a ruptura entre sujeito e objeto. Uma conseqüência dessa ruptura foi à compreensão da impossibilidade do conhecimento. Hegel se contrapõe a essa concepção e afirma que: “a crítica do conhecimento não é possível” [Cf. § 73 ao §76 in: G. W. F. HEGEL, Fenomenologia do Espírito, Trad. Paulo Meneses, Petrópolis: Vozes, 2005.] Na filosofia de Hegel argumenta-se que tudo se explica pelo desdobramento da idéia. Objetiva-se com essa posição filosófica retomar o lugar da metafísica nas discussões filosóficas usurpado pela teoria da impossibilidade da objetividade. O espírito é a idéia que se realiza e se contempla através do seu próprio desdobramento. Nesse sentido, pode-se afirmar que é com essa compreensão que a natureza em Hegel é central para o seu sistema filosófico, como ele mesmo declarou explicitamente: ”A ciência só pode surgir do saber fenomenal e do movimento”. [Cf. G. W. F. HEGEL, op. cit. §76 ao §78] Essa declaração nos revela a

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como fundamento do real o que acarreta um problema envolvendo natureza e idéia, um problema de fundamentação. A primeira, apesar de sua dependência em relação à segunda, é concebida como dotada de certa consistência própria. Como explicar a relação entre natureza e idéia nesses termos? Na filosofia de Hegel o idealismo atingiu a plenitude, porque priorizou completamente a idéia como essência da natureza; é o idealismo absoluto15. Este é o cerne de seus argumentos filosóficos na polêmica que desenvolveu contra a ciência de seu tempo.

III. A polêmica de Hegel contra as ciências de seu tempo Hösle16nos esclarece que a filosofia da natureza de Hegel assim como a Física de Aristóteles17, citado na obra de Hösle18 como uma exceção entre os grandes filósofos porque

importância da natureza. Ela é ponto de partida. Ela nos ensina o movimento da idéia absoluta. A semente contém em si a idéia de planta, não o é fora de si, mas será como razão desdobrada, ou seja, a semente é em si a planta, mas irá desaparecer como semente para tornar-se planta, isto é, retornar a si.
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R. G. Collingwood, comenta: “Kant admitiu que podemos conceber a coisa em si; mas deixou áqueles que lhe

sucederam a missão de descobrirem como é que de fato devemos e podemos concebê-la. Quem cumpriu essa missão como ponto de partida de toda a teoria cosmológica foi Hegel; rejeitando a pretensão exclusiva do pensamento científico ao título de conhecimento. (...) O Ser em geral não é nada em particular; assim, o conceito de ser puro transpõe-se, tal como Hegel o explica, para o conceito de nada. Esta passagem de um conceito para outro não é meramente uma transição subjetiva do nosso pensamento, é uma transição objetiva, pelo qual um conceito provém logicamente de outro que ele pressupõe. (...) Assim respondia hegel à questão de saber como é que a coisa em si podia ser criadora. (...) A idéia, é a causa imediata da natureza e a causa mediata, através da natureza, do espírito. Assim Hegel rejeita o idealismo subjetivo segundo o qual o espírito é o pressuposto da natureza; isso afirma Hegel, inverte a relação entre eles, e neste ponto Hegel prefere o conceito materialista de natureza como causa do espírito. Aos seus olhos o único erro deste conceito é fazer da natureza algo de absoluto, enquanto de fato, pensa Hegel, os idealistas subjetivos têm razão ao considerar a natureza como essencialmente dependente de algo; só com a diferença de que para Hegel esse algo é a idéia. E hegel concorda totalmente com Platão ao considerar a Ideia, não como uum estado, não assimilável em suma ao que quer que seja de subjetivo, mas sim a um domínio autocontido e auto-existente do Ser que é o objeto apropriado do espírito. A isto chama Hegel <<idealismo objetivo>>, como oposto ao idealismo subjetivo, ou <<idealismoabsoluto>>, pois concebe a Idéia como algo de real em si mesmo e não dependendo, seja de que maneira for, do espírito que a concebe.“( Cf. R. G. COLLINGWOOD, Hegel: a transição para a visão moderna de natureza.In: IDEM, Ciência e filosofia, Trad. Frederico Montenegro, 2ªed. Lisboa: Editorial Presença, s/d, p.194-196)
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Ver nota 10

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se ocupou com as ciências naturais de modo tão abrangente e detalhado quanto Hegel. Contém sim muita coisa desmentida empiricamente, no entanto para compreender as refutações empíricas é preciso um estudo da ciência no seu contexto histórico porque só assim atinge-se uma compreensão da filosofia da natureza. É frágil o argumento que se apóia na idéia de que basta uma formação na ciência natural contemporânea para a compreensão da ciência do passado como aquele que indica que ela foi facilmente substituída19. Uma característica da filosofia hegeliana da natureza consiste na crítica que ela desfere na ciência natural de seu tempo o que contribuiu para o descrédito da filosofia hegeliana. Já nos meados do século XIX era lugar comum a consideração de que a filosofia era um saber caudatário das ciências particulares. Entretanto Hösle20 afirma que foi justamente essa imposição que no final do século XIX e particularmente no início do século XX revelou os limites da ciência, isto é, revelou que as ciências naturais no contexto histórico de Hegel não significavam a conclusão do saber. A polêmica de Hegel contra as ciências de seu tempo não significou apenas um retrocesso em relação a elas, mas também um progresso. A investigação dessa questão conduz a busca visando verificar se a filosofia hegeliana da natureza pode contribuir para uma compreensão dos problemas filosóficos lançados pela ciência natural contemporânea. Inicialmente é preciso saber quais os problemas filosóficos são lançados pela ciência contemporânea. Depois de reconhecidas as questões filosóficas levantadas se faz necessário
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ARÍSTOTELES, Física. Trad. Guillermo R. de Echandía, Editorial Gredos S.A., 1995. Aristóteles defende na

sua filosofia da natureza que o repouso é o estado natural dos corpos e o movimento não, ou seja, a de que a tendência natural dos corpos é o repouso.
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Ver nota 12. Edwin Burtt ao comentar sobre as dificuldades da ciência copernicana nos esclarece como foi dificultoso o

estabelecimento da ciência moderna, dificuldades advindas do embate com a ciência que vigorava naquele contexto.“ (...) Acostumamo-nos tanto a pensar que a oposição ao grande astrônomo[Copérnico]baseava-se fundamentalmente em considerações teológicas ( o que, evidentemente, era bem certo á época0 que tendemos a esquecer as sólidas objeções científicas que podiam ter sido e foram levantadas contra a nova hipótese. (...) Os movimentos dos corpos celestes podiam ser identificdos tão corretamente pelo método de Ptolomeu quanto pelo de Copérnico. (...) Haviam certas objeções específicas à nova teoria, as quais, no estado que a observação astronômica e a ci~encia mecânica haviam alcançado àquela época, não podiam ser respondidas satisfatoriamente. Algumas delas, como a afirmação de que um corpo projetado verticalmente no ar deveria cair consideravelmente a oeste de seu ponto de partida, teoria de copérnico, para saber se estava correta, tiveram de esperar por sua refutação até que Galileu estabelecesse as bases da dinâmica moderna.“(Cf. EDWIN A. BURTT, Copérnico e Kepler: o problema da nova astronomia, In: IDEM, As bases metafísicas da ciência moderna,Trad. José viegas Filho e orlando Araújo henriques, Brasília: Editora UNB, 1999, p.29-32.)
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Ver nota 16.

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compreender com minúcias a polêmica de Hegel contra as ciências de seu tempo. Nela reside a contribuição filosófica hegeliana da natureza para as questões filosóficas da ciência contemporânea. Dentre as polêmicas de Hegel contra as ciências naturais de seu tempo. Encontra-se a sua crítica: a teoria científica de uma existência autônoma do calor. A teoria científica de que todos os fenômenos físicos têm uma materialidade. E ao princípio newtoniano da inércia que considerava pura abstração. A crítica de Hegel a ciência de seu tempo indignou o positivismo21 do século XX, contribuindo assim para a rejeição da filosofia da natureza. O positivismo do século XIX difundia a idéia de que a filosofia é um saber de segunda ordem em relação às ciências empírico-formais. O positivismo radical pensou assim tornar possível uma formulação das ciências naturais sem a presença da metafísica. Mas será possível mostrar que não foi possível essa ruptura? A história da ciência, saber que Hösle22 afirma raramente interessar aos cientistas naturais, revela que sim. Retomando a física aristotélica, citada por Hösle23, vê-se que Aristóteles sobreviveu em Galileu. O fato de Galileu haver tratado apenas de “movimentos locais” é revelador, pois só assim se pode explicar o que levou Galileu a estabelecer como base da filosofia natural, em um mundo que se move em torno do centro solar, uma lei da Inércia: “Todos os corpos conservam-se em estado de repouso, ou em movimento uniforme em linha reta, salvo se forem compelidos a mudar esse estado pela ação de forças exercidas sobre eles”. É no enunciado dessa lei científica que é encontrada duas sobrevivências aristotélicas que revela que há metafísica na física de Galileu24. Primeiro, é a indicação do estado de repouso, o corpo em movimento estaciona quando a força que o impele deixa de agir. Segundo é o primado do movimento padrão, único movimento propriamente e de que os demais são como que derivados, pois a ele regressam quando cessa a causa modificadora. Mas por que falar em repouso num mundo em movimento, onde tudo se move com ele? Copérnico já não havia demonstrado que o repouso é um ente de razão? E quanto ao movimento padrão ou uniforme? Este também é uma postulação metafísica. De
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“Em um sentido mais amplo, o termo <<positivismo>> designa várias doutrinas filosóficas do séculoXIX, que

se caracterizaram pela valorização de um método empirista e quantitativo, pela defesa da experiência sensível como fonte principal doconhecimento, pela hostilidade em relação ao idealismo e pela consideração das ciências empirico-formais como paradigmas de cientificidade e modelos para as demais ciências.“(Cf. H. JAPIASSU, D. MARCONDES, op. cit., p.217.) Ver nota 2. Ver nota 19. 24 C. CAMPOS, A metafísica na física de Galileu. In: IDEM, Reflexões sobre a relatividade, Rio de Janeiro: Editor José Olympio, 1948, p.47-55.
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onde surge essa postulação? Advém da idéia de fluxo, de contínuo da filosofia natural aristotélica. Essa compreensão de que a matéria é contínua está presente na física de Aristóteles, e ele buscou captar e limitar justamente nos movimentos locais. O movimento é concebido como um tender entre dois contrários, entre um estado inicial e final. Em Galileu se dá o mesmo, o movimento padrão é o continuum, por está entre os contrários. No fundo é essência, isto é, o que fica depois de eliminados os elementos não constantes ou na terminologia aristotélica, as possibilidades. Pode-se definir o movimento uniforme de Galileu, dizendo que ele é o constante que permanece depois de eliminadas as causas variáveis que o determinam, ou as forças diversas, no entanto essa eliminação só pode ser feita pela abstração. Portanto o movimento padrão é aquele mesmo ente de razão que na metafísica faz a forma, as essências, etc.. É o ente de razão, o que não varia, o elemento inabstraível da experiência depois de eliminados os acidentes. Como bem explicou o filósofo alemão Kant na sua Estética transcendental, que foi eliminando os elementos da experiência, não constantes, e fixou-se no da experiência inevitável, inabstraível, ou seja, a extensão, que se apresenta como condição do pensamento do objeto e que para ele se encontra a priori no espírito independentemente de todo objeto sentido ou de toda sensação, isto é, de toda experiência. Em suma, o movimento uniforme de Galileu é uma idéia metafísica, um ente de razão obtido por eliminação dos elementos causadores do movimento e dos movimentos dados na experiência sensível. A ciência moderna se baseia em dois entes de razão. O movimento uniforme e o repouso, não encontrados na experiência. Portanto a metafísica não foi eliminada esteve presente desde o inicio da ciência moderna.

III. Considerações finais Um fato que Hösle informa que foi significativo para mostrar o equívoco do positivismo radical foi o próprio desenvolvimento das ciências naturais no fim do século XIX e início do século XX que revelou que as ciências no tempo de Hegel não significavam o fim do conhecimento. Um exemplo categórico é a transição da ciência de proveniência newtoniana a ciência einsteiniana. Nessa nova imagem da natureza, chamada de teoria da relatividade25, o princípio da inércia é abandonado, isto é, não existe processo algum para determinar se um sistema de referência está em repouso absoluto; em outros termos, é impossível descobrir um movimento uniforme em relação ao éter. Nem mesmo há tempo
Cf. SHAHEN HACYAN, La teoría de la realividad de Einstein, In: IDEM, Relatividad especial para estudiantes de física, México: Fondo de Cultura Economíca, 1996, p.16.
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absoluto26. E o que isso significa? Seria o fim da metafísica e a supremacia das ciências empírico-formais? Na verdade no fundo da teoria da relatividade encontramos aquela mesma metafísica, que põe a razão dando existência e leis à natureza. Em Einstein, a relatividade pode reduzir-se a afirmação segundo a qual os objetos da experiência e os acontecimentos não são os mesmos para diferentes observadores. Na teoria da relatividade não é o sentimento do objeto, ou do acontecimento que é identificado com o objeto ou o acontecimento, mas é a percepção do objeto ou do acontecimento que é identificada com o objeto ou o acontecimento27. Essa identificação do acontecimento e sua percepção não passam de outra versão da concepção que leva na metafísica a identificar o ser e o pensar. E o que dizer da velocidade da luz no espaço, concebida independente da direção da propagação do movimento da fonte luminosa e do observador? Trata-se de um absoluto, ou seja, na teoria da relatividade nem tudo é relativo, existe um conceito absoluto, isto é, a velocidade da luz é invariável. Diante das considerações apresentadas aqui, podemos concluir parcialmente esta pesquisa, afirmando com o comentário de Hösle28 que na polêmica de Hegel contra as ciências de seu tempo uma contribuição para a ciência contemporânea foi sua crítica ao princípio da inércia, que Hegel reconheceu como uma pura abstração (não pertencendo nem à experiência nem ao conceito) que dava suporte a uma teoria empírico-formal. Na realidade os defensores da ciência do tempo de Hegel não perceberam a base lógica de suas objeções. Contudo Hösle29 afirma que a crítica de Hegel ao princípio da inércia foi confirmada pelo desenvolvimento da teoria geral da relatividade o que mostrou que a crítica filosófica de Hegel também tinha consistência científica.
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Cf. R. ARGENTIÈRE, A teoria da relatividade especial, In: IDEM, Aventura humana no espaço e no tempo, Cf. C. CAMPOS, Einstein e os problemas tradicionais da filosofia e da lógica, In: IDEM, op. cit., p.33-34. “Semelhantemente exata é a crítica de Hegel ao princípio da inércia, que também do ponto de vista da teoria

São Paulo: Editor Fulgor, 1962, p.35.
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da ciência e da metodologia é digna de nota pelo fato de Hegel reconhecer claramente que no caso deste princípio, se trata de abstração – a saber, da gravitação – que não é confirmada empiricamente por nada.”(Cf. VITTORIO HÖSLE, op. cit., p.316.)
29

“ Essa objeção de Hegel contra uma teoria que, em seu tempo, era considerada como validada ao extremo, em

termos teóricos tanto quanto empíricos, necessariamente excitaria os ânimos, especialmente por poder ser vista como plenamente consistente mesmo sem pressupostos especulativos; e, de fato, é desenvolvida na teoria geral da relatividade uma lei generalizada da inércia que – totalmente como Hegel exige -, conforme M. Born, “resume numa só expressão os fenômenos da inércia e da gravitação” (1969, p.291); segundo a teoria geral da relatividade, não há nenhum espaço livre de gravitação, o único em que o princípio newtoniano da inércia, em sua abstração, poderia ter uma realidade física. (Cf. VITTORIO HÖSLE, op. cit., p.316.)

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