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REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE: PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

Marília Luiza Peluso*

“Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”. “Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o gato. “Não me importo muito para onde ir”, disse Alice. “Então não importa que caminho tome”, disse o Gato. CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no País das Maravilhas, p.

Introdução

62/63.

A preservação ambiental, cuja discussão perpassa todos os grupos sociais, revelou- se, como discurso e como prática, a grande preocupação da atualidade. Ao mesmo tempo, fazem-se as mais severas críticas aos inúmeros processos predatórios e chama-se cada vez mais atenção para os danos aos ecossistemas provocados tanto pelas grandes corporações internacionalizadas, quanto pelos atores sociais individualizados. Autores consideram a questão ambiental tão relevante para o século XXI, quanto foi a questão social para os séculos 19 e 20 (PÁDUA, 2005). Se verificarmos que a questão social continua com soluções muito precárias depois de dois séculos de propostas e que a ela se juntou a questão ambiental, só podemos estar com muito receio do potencial explosivo de tantos problemas.

Medidas de preservação e controle têm sido discutidas em todas as instâncias sob a égide de organismos internacionais, nacionais e pela sociedade civil, mas implementadas com as restrições, avanços e recuos próprios de práticas que envolvem fenômenos e processos tão polêmicos. Desde a criação do Parque Yellowstone, em 1872, até o Relatório Brundtland (O nosso futuro comum, relatório

da Comissão Mundial sobre o Meio ambiente e Desenvolvimento – CMMAD), em

1987, as elaborações teóricas foram se dando conta da complexidade dos fatos e da constante expansão do sistema capitalista (PIRES, 1998; BRESSAN, 1996). Passou-se, então, da exclusão total dos homens e suas atividades dos sistemas naturais a serem preservados até o conceito de desenvolvimento sustentável, com o qual se haveria de conciliar crescimento econômico e conservação ambiental no campo e na cidade, o que até então se considerava impossível (PIRES, 1998).

O desenvolvimento sustentável, acentua Droulers (2005), que deve seguir as

recomendações do Relatório Brundtland, de responder às necessidades das populações no presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de

responder às suas, tornou-se o novo leitmotiv das políticas públicas de organização

do território. As críticas ao Relatório Brundtland são muitas, principalmente ao seu

pressuposto de compatibilizar “interesses tão diversos quanto a busca do lucro, a lógica do mercado, a preservação da natureza e até mesmo a justiça social” (PIRES,

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1998:76). Entretanto, o desenvolvimento sustentável apresenta-se como o núcleo de uma nova maneira - um novo paradigma, como escreve Pires (2005) - de conceber as relações sociedade/natureza na busca de melhor qualidade de vida e maior bem- estar da sociedade, particularmente dos mais pobres. Uma das questões positivas de Brundtland é a temporalidade, ao trazer o futuro para o momento presente, o que implica em planejamento eficiente das riquezas, tanto global quanto localmente. Uma das questões ambíguas seria referir-se às necessidades das populações, quando nos encontramos num sistema econômico regido pela produção e consumo de mercadorias, muitas delas absolutamente desnecessárias e outras, francamente prejudiciais. O caráter de produção de mercadorias caracteriza o período técnico-científico-informacional, no qual uma tecnosfera se impõe sobre o espaço (SANTOS, 1997), com o objetivo de produzir mais e atingir número cada vez maior de pessoas.

O sistema produtor de mercadorias é espacializado e territorializado. Do ponto de vista da mercadoria, Santos (1997:83), conceitua o espaço da seguinte maneira: “O espaço, uno e múltiplo, por suas diversas parcelas, e através do seu uso, é um conjunto de mercadorias, cujo valor individual é função do valor que a sociedade, em um dado momento, atribui a cada pedaço de matéria, isto é, cada fração da paisagem”.

Mas, para produzir mercadorias é necessário apropriar-se de parcelas do espaço, o território que, por sua vez, como enfatiza Damiani (2002: 17), abarca as relações de poder, definindo territorialidades, nas quais o poder define as formas e os usos. Continua a autora: “Em outros termos, para pensar os fenômenos do território é fundamental pensar a ação estatista, aquela dos organismos que controlam parte da riqueza e a manipulam (DAMIANI, 2002:19).

Pretende-se, tendo em vista esses aspectos introdutórios, contribuir para a discussão das possibilidades de preservar o meio ambiente, tomando como ponto de partida o pressuposto de que a realidade nos escapa continuamente porque o mundo se transforma e junto com ele se transforma o sujeito conhecedor. Dessa maneira, como acentua Zizek (1996:26), a realidade nunca é diretamente “ela mesma”, mas “só se apresenta através de sua simbolização incompleta/falha”. Por isso, ela não é objetiva, mas objetivada como representações sociais, nas quais se articulam processos psíquicos, sociais, econômicos e espaciais em estruturas “de coerção e de crenças eficazes” (MOSCOVICI, 1998: 8). São as crenças que se posicionam entre o sujeito e o mundo, de tal maneira que: “entender a problemática do meio ambiente utilizando-se das representações sociais significa construí-la como decorrente de um imaginário dinâmico, cujo jogo dirige o olhar e o conhecimento do sujeito sobre o mundo que o cerca” (PELUSO, 2003:182).

Moscovici (2003) salienta dois aspectos das representações sociais: primeiro, elas convencionalizam e categorizam objetos, pessoas e acontecimentos e gradualmente estabelecem um modelo de certo tipo e partilhado por um grupo de pessoas. Todo novo elemento adere a esse modelo e se funde com ele. “Nós vemos apenas”, escreve ele, “o que as convenções subjacentes nos permitem ver e nós permanecemos inconscientes dessas convenções” (MOSCOVICI, 2003:35). Segundo, as representações sociais são prescritivas e impõe-se com força

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irresistível, “combinação de uma estrutura que está presente antes mesmo que nós comecemos a pensar e de uma tradição que decreta o que deve ser pensado” (MOSCOVICI, 2003:36). As representações sociais tornam-se, assim, núcleos estruturantes do pensamento, constituídos sobre conteúdos socialmente estruturados.

As representações sociais, entretanto, não são estáticas, pois, o sujeito, para Moscovici, não é uma réplica da sociedade. Ele mantém sua individualidade e seu poder criador. É sempre um sujeito individualizado que entra em jogo com a sociedade, pois “uma representação é sempre representação de alguém sobre alguma coisa” (MOSCOVICI, 1978: 27). A sociedade fala, porém é o sujeito que enuncia o discurso, construindo e reconstruindo a sociedade e seus objetos. A comunicação difunde as representações sociais, numa troca entre indivíduos e grupos, durante a qual eles inventam, diferenciam ou interpretam os objetos sociais ou as representações de outros grupos: “O que estamos sugerindo, pois, é que pessoas e grupos, longe de serem receptores passivos, pensam por si mesmos, produzem e comunicam incessantemente suas próprias e específicas representações e soluções às questões que eles mesmos colocam.” (MOSCOVICI, 2003: 45).

Como produtos sociais dinâmicos, a historicidade das representações sociais é proporcionada pela ancoragem, atividade psicológica que consiste na elaboração do novo, mas mantendo-se num “universo conhecido de referências”, um sistema de pensamento pré-existente (JODELET, 1985: 490).

As representações sociais são importantes ferramentas para tentar responder questões que se levantam sobre o meio ambiente e podem ser sintetizadas em três perguntas, feitas explícita ou implicitamente pelos estudiosos do tema, com os mais diferentes tipos de resposta: primeira, como se gestaram as crenças eficazes, ou seja, as representações sociais, sobre o meio ambiente? Segunda, como se manifesta seu potencial destrutivo? Terceira: quais são as possibilidades de uma gestão satisfatória para o futuro, considerando a realidade da situação presente?

As questões que se levantam sobre o meio ambiente são muitas e podem ser sintetizadas em três perguntas, feitas explícitas ou implicitamente pelos estudiosos do tema, com os mais diferentes tipos de resposta: primeira, como se gestaram as crenças eficazes, ou seja, as representações sociais, sobre o meio ambiente? Segunda, como se manifesta seu potencial destrutivo? Terceira: quais são as possibilidades de uma gestão satisfatória para o futuro, considerando a realidade da situação presente?

Essas questões serão desenvolvidas em três tópicos: no primeiro vai-se fazer um retrospecto histórico das relações sociedade/natureza e da criação de representações sociais, particularizando com o caso brasileiro e seus efeitos predatórios. No segundo tópico, Brasília e seu território imediato, o Distrito Federal, vão exemplificar as representações sociais e as práticas predatórias, mostrando as dificuldades de colocar políticas preservacionistas e de controle em prática. Finalmente, no último tópico, procura-se refletir sobre o caminho que já foi percorrido

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e as possibilidades de implementação do desenvolvimento sustentável, chamando a atenção para novas práticas ambientais surgidas recentemente no Brasil. As representações sociais do meio ambiente e o mundo das mercadorias: o Brasil

A problemática do meio ambiente e da sustentabilidade apresenta-se intimamente ligada às relações sociedade/natureza e seus desdobramentos históricos desde o período natural ao período técnico-científico informacional, de acordo com a periodização de Milton Santos. Nesse processo, na encruzilhada entre o indivíduo, a sociedade e meio ambiente, os homens inventaram representações sociais que diferenciaram e interpretaram diversas naturezas de acordo com suas condições materiais de vida.

No período de predominância do “meio natural”, eram “as condições naturais que constituíam a base material da existência do grupo” (SANTOS, 1997:187). O movimento de afastamento e de externalização do não-humano instituíram uma ordem social que se firmava cada vez mais em oposição à natureza, em que a baixa eficácia das técnicas mantinha os grupos submetidos e amedrontados. Como afirma Peluso (2003:185), desde muito cedo na história da humanidade: “ocorreu a separação simbólica entre o homem e a natureza e a magia lhes permite conjurar os perigos e mistérios com que se defrontavam, formando o que Duarte (1986: 15) denomina de ‘força produtiva auxiliar’” .

Com a magia se conjurava o medo do desconhecido e os perigos constantes que ameaçavam a vida dos grupos humanos. “O ‘mana, o espírito que move’”, escrevem Adorno e Horkheimer (1991: 29), “não é nenhuma projeção, mas o eco da real supremacia da natureza nas almas fracas dos selvagens”.

Os gregos inauguram novas relações com os elementos naturais e objetivaram uma visão utilitária do mundo, segundo recortes que reforçaram a ordem humana e o estudo científico da natureza, num processo que iniciou nova fase no Ocidente dos séculos XVI e XVII. Como corolário, acentua-se a dominação, com o desenvolvimento das técnicas e da ciência em que da real supremacia da natureza, passa-se para a real supremacia da sociedade. Precursor das novas representações, Bacon julgava necessário conhecer a natureza para melhor dominá- la: “se, contudo nos deixássemos guiar por ela na invenção, nós a comandaríamos na prática” (In ADORNO & HORKHEIMER, 1991:20).

A emergência do sistema capitalista e o desenvolvimento cada vez maior das forças

produtivas instituíram nova objetivação da natureza: não só se completa o processo de externalização como meio ambiente, como se transforma em recurso mercantilizado para a produção e o consumo. As condições naturais são agora instrumentalizadas como mercadorias produtoras de riquezas que, espacializadas e territorializadas, movimentam produção e comércio em escala global. O suporte material de tanta riqueza, a terra, instrumentaliza-se também para o mercado imobiliário e para o exercício do poder que, politicamente, distribui o excedente socialmente gerado da maneira mais lucrativa, sem preocupação com as condições ambientais locais.

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O sistema planetário de produção de riquezas corresponde ao que Santos denomina

de período técnico-científico-informacional, em que a técnica e a ciência – a tecnociência - modificaram a relação sociedade/natureza em novo sentido: a biotecnologia transformou a natureza em mercadoria de outro tipo, em informação genética. A imensa riqueza e as possibilidades da biodiversidade atuam no plano molecular e “a riqueza biológica, os recursos naturais, não são mais recursos naturais nem biológicos: foram reduzidos, no plano molecular, à condição de componentes” (GARCIA DOS SANTOS, 2001:35). A informação genética permite clonagens, desvendamento de linhagens humanas e animais, produtos medicinais, misturas genéticas para criar animais híbridos, transplantes e implantes mais eficientes, dos quais o Frankenstein, de Mary Shelley, foi uma pálida antecipação.

É ainda difícil saber até que ponto a tecnociência vai alterar as representações

sociais da natureza como a conhecemos, mas pode-se levantar como hipótese que

a instituição de novas mercadorias é mais uma volta do parafuso no domínio da

natureza. Garcia dos Santos antecipa novas relações com a terra, com a cidade e do próprio homem consigo mesmo. Com a importância cada vez maior do campo molecular, o homem deixou de ser a medida de todas as coisas e “a informação passou a ser a medida de todas as coisas e, por isso, ela é a riqueza principal” (GARCIA DOS SANTOS, 2001:31).

Frente aos novos contornos da importância do meio ambiente, pode-se levantar, como outra hipótese, que se distanciam cada vez mais a idéia de natureza dos pequenos agentes individuais e a idéia prevalecente entre os cientistas e as grandes corporações multinacionais. Para os últimos, o meio ambiente está diretamente implicado em suas vidas cotidianas sob a forma de conhecimento, dinheiro e poder. Para os pequenos, por exemplo, como os moradores de Águas Lindas, município empobrecido da periferia do Distrito Federal, o meio ambiente fica relegado a uma natureza estereotipada e desarticulada entre si, que não faz parte da vivência diária:

ar puro, verde, paisagem bonita, árvores, pássaros e rios, animais, plantas e matas (PELUSO & WADA, 2003).

Dentro desse momento de desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, em que a mercadoria se expande para domínios sempre novos e mais abrangentes, encontra-se o paradigma do desenvolvimento sustentável e as lutas ambientalistas internacionais e nacionais. Pode-se afirmar que o governo brasileiro é ativo na

questão ambiental, empenhando-se em ampliar o alcance dos decretos e leis com medidas de proteção e controle. Desde a criação do Parque Nacional de Itatiaia, em 1937, até o momento presente, o país passou por momentos extremamente importantes na construção de uma política ambiental, dos quais se destacam, na década de 70, a criação da primeira agência ambiental, a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA); na década de 80, a Política Nacional do Meio Ambiente e sua regulamentação, a obrigatoriedade de estudos de viabilidade e de impactos para

a concessão de licenças ambientais; na década de 90, a instituição do Ministério do Meio Ambiente e do IBAMA, a lei dos crimes ambientais, com penas para atividades

e práticas lesivas ao meio ambiente, o zoneamento econômico-ecológico.

Institucionalmente, a descentralização administrativa deu aos estados e municípios importante participação no planejamento e gestão ambientais, com competência

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para legislar sobre assuntos de seu interesse. Multiplicaram-se as secretarias do meio ambiente em todo o país.

Grande quantidade de entidades privadas e organizações não governamentais (ONGs) estão presentes e ativas no país. Algumas formam parte de movimentos preservacionistas supranacionais, como o Greenpeace e o WWF, enquanto outros, como a FUNATURA e a SOS Mata Atlântica, fazem parte de movimentos nacionais. Localmente, pessoas interessadas e preocupadas com o nível de degradação e desaparecimento de espécies nativas se unem e formam inúmeras associações para atuar na questão do meio ambiente imediato, propor medidas conservacionistas e cursos educacionais.

Entretanto, as ações governamentais e a atuação das entidades preservacionistas esbarram continuamente nas ambigüidades e contradições resultantes das representações sociais da natureza e do meio ambiente construídas no Brasil ao longo dos séculos. Os dois pólos nos quais se ancoram as representações brasileiras articularam-se logo no início da colonização: de um lado, a abundância de terras tropicais exóticas e desconhecidas e de outro, a expansão territorial lusa, para quem a apropriação da natureza era fonte de recursos e riquezas.

O jogo entre as duas representações conduziu à visão de terras edênicas,

inesgotáveis em riquezas à disposição do conquistador (PELUSO, 2003). Não há, portanto, limites para a conquista do território. Os discursos, oficiais ou não, costumam referir-se aos nossos 8.511.965 km 2 como totalmente ocupáveis, cultiveis, exploráveis, em contradição com as medidas de proteção e controle das várias instâncias administrativas e legislativas e das atividades dos grupos ambientalistas.

As relações sociedade/natureza construídas como decorrências das representações

sociais forjadas na conquista do território em busca de riquezas mostraram-se até

agora, contrárias aos esforços de controle das atividades e de proteção ao meio ambiente. Cidades e campo são vítimas ambos de crises ecológicas, às quais se junta a crise social da pobreza e da segregação.

Nossas cidades aumentam em número e tamanho e seus territórios se expandiram com novas funções e atividades, demandando áreas para habitação, comércio e

serviços. O crescimento se faz sobre as áreas naturais circundantes, de maneira quase sempre agressiva. Dentro das cidades, o que ainda permanece como natural

é de difícil preservação, como se o processo histórico de separação

sociedade/natureza fosse irredutível e definitivo. A dinâmica econômica, em que a terra é uma mercadoria, e a dinâmica da pobreza e da periferização excludentes, em que a terra é um meio de sobrevivência, impõem –se sobre o espaço e criam seus próprios vetores de expansão e de urbanização. Concomitantemente, a gestão deficiente dos atores em jogo pela apropriação territorial não consegue dirigir as ações no sentido da sustentabilidade do ambiente urbano e rural.

A degradação ambiental não é privilégio de cidades grandes, e muito menos

exclusivo das metrópoles. Os problemas ambientais das cidades pequenas e médias

se distinguem das grandes cidades pela amplitude e não pelos processos que levam

à degradação, no qual o capital imobiliário e a invasão de terras incorporam locais

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inadequados para a construção. Dois exemplos expressam os processos de insustentabilidade das cidades brasileiras.

O primeiro exemplo ocorre em uma cidade de mais ou menos 128.000 habitantes,

de ocupação relativamente antiga, datando de meados do séc. XIX. Trata-se de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, onde o crescimento das atividades industriais acarretou grande migração e expansão da cidade a partir dos anos 90. O plano diretor local, pressionado por interesses dos especuladores imobiliários e pelos interesses políticos, permitiu que se ocupassem lugares inadequados à urbanização, mas próximos à área central. Um deles foram as terras da bacia do ribeirão Chico de Paulo, onde se implantaram loteamentos em áreas de grande declividade e áreas inundáveis, em franco desacordo com a Lei N. 6.766, que dispõe sobre o parcelamento do solo urbano. Como resultado, o rio vai sendo assoreado e na época das chuvas ocorrem deslizamentos, inundações e erosões, com prejuízos materiais aos moradores (BERTOLI & SILVA, 2005).

O segundo processo ocorre numa metrópole, o Rio de Janeiro, com cerca de seis

milhões de habitantes, de ocupação antiga, do séc.XVI. A sub-bacia do rio Carioca,

um dos ícones da cidade, foi paulatinamente sendo ocupado e degradado por um padrão urbano que se mostra contrário a sustentabilidade, apesar dos movimentos de grupos preservacionistas locais e das leis municipais de preservação do meio ambiente. O crescimento populacional trouxe consigo a verticalização e a especulação imobiliária, com as quais as florestas que protegiam o manancial foram derrubadas para dar lugar à expansão da malha urbana. As favelas, que se localizam principalmente entre 60 e 200m acima do nível do mar, aumentaram cerca de 25% entre 1991 e 2000 e tendem a conurbação. Como conseqüência, o rio perde biodiversidade com os detritos jogados em suas águas, ocorrem erosão e deslizamento das encostas no período das chuvas e igualmente prejuízos e mortes aos moradores (SCHLEE; COELHO NETO & TAMINGA, 2005).

No campo, a agro-pecuária realizada sem atender aos princípios da sustentabilidade ocasiona graves problemas ambientais. A ocupação moderna dos cerrados da Região Centro-Oeste é um caso emblemático e extremamente grave. No Centro-

Oeste, as representações sociais das terras infindáveis colocadas para apropriação

e desfrute mostram-se particularmente intensas e as medidas preservacionistas são tomadas em doses muito pequenas para a grandeza do território.

A grande variedade de espécies vegetais e faunísticas dos cerrados, uma das mais

ricas do planeta, está ameaçada por uma agricultura moderna, em que pacotes tecnológicos possibilitaram a exploração de áreas semi-úmidas com solos frágeis e pouco férteis. As atividades implantadas desconsideram a biodiversidade, pois o ecossistema é erroneamente considerado pobre e nacionalmente relegado a plano secundário. As monoculturas, com o uso de inseticidas, convertem-se em atividades particularmente predatórias, porque destroem todo o meio ambiente, não respeitam

a legislação ambiental de proteção aos mananciais e à vegetação ribeirinha.

Grandes projetos hidrelétricos, o fogo e o fracionamento dos habitats naturais completam a destruição. Assim, os cerrados constituem-se numa das 25 áreas mais críticas do planeta e um dos dois hotspots brasileiros. O outro é a Amazônia, cuja destruição ocupa constantemente os meios de comunicação.

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As representações sociais do meio ambiente no mundo das mercadorias:

Brasília e o Distrito Federal.

A Capital Federal e seu território, o Distrito Federal de Brasília, com seus 5.789,16

km 2 distribuídos em áreas urbanas e rurais sintetizam perfeitamente bem as

representações sociais da natureza e os vários momentos da produção de mercadorias. Brasília sintetiza também os dois tipos recentes de governança, o primeiro, do planejamento modernista, racional e monolítico, e o segundo marcado pela redução do estado e pelas políticas neo-liberais em duas fases muito marcadas, a pré-eleitoral e a eleitoral. Na primeira, os governadores eram escolhidos pelo governo federal e na segunda, pelo eleitorado local.

O planejamento modernista tinha o Estado como o grande planejador, que se

reservava o domínio dos investimentos e das infra-estruturas, detinha o monopólio

do solo e o poder de desapropriar. Não havia preocupação com o tempo ou com os

recursos, pois o Estado detinha os recursos e controlava o tempo (PORTAS, 1996). Este tipo de Estado implementou a transferência da Capital quando o país se modernizava, internalizando a estrutura produtiva industrial. O planejamento era a ferramenta modernizadora e envolvia as áreas produtivas e de infra-estrutura, inclusive a modernização do próprio Estado, com o desenvolvimento da tecnoburocracia recrutada da classe média urbana.

O projeto modernizador se articulou com duas ordens do imaginário colonial: a

busca das riquezas a serem extraídas/produzidas da terra e a apropriação do território assentada na prática do conquistador colonial. Nesse imaginário, a natureza do Brasil Central foi considerada como “terra vazia”, incluindo-se aí a pecuária extensiva e a agricultura de subsistência, que não produzia riquezas, representada pela metáfora do deserto de homens e de atividades que seria redimido pelo progresso. Ou seja, a vasta área entraria no novo estágio de produção de mercadorias induzida pela construção de Brasília, que seria “o fator que iria desencadear novo ciclo bandeirante” (KUBITSCHEK DE OLIVEIRA, 1974: 8).

A ocupação do território seguiu as normas rígidas do planejamento modernista.

Inicialmente as terras do quadrilátero foram desapropriadas e a Companhia Urbanizadora do Planalto Central (NOVACAP) organizou a divisão social do espaço urbano e a segregação dos mais pobres: o centro urbano – Plano Piloto, de Lúcio Costa -, como lugar de moradia da tecnoburocracia civil e militar, Legislativo e Judiciário; as cidades-satélites como lugar de moradia dos trabalhadores, pequenos

empresários, pequenos funcionários públicos e, no final, todos os outros migrantes.

O comércio imobiliário reforçava a divisão social do espaço urbano e a segregação,

mas também permitia que membros das classes associadas de renda mais elevada

(profissionais liberais, empresários bem sucedidos) se localizassem no Plano Piloto

e nas áreas nobres dos Lagos Sul e Norte. Os mais pobres habitavam invasões e favelas dispersas pelas áreas urbanas e rurais.

A população do Distrito Federal cresceu rapidamente: em 1959 eram 64.324

habitantes; em 1970, 534.146; em 1980, 1.176. 908. A preocupação com a manutenção da função burocrática da cidade frente às pressões de todas as classes sociais por moradia, empregos e serviços públicos levou à restrição da oferta de

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moradia. A pequena quantidade de terras colocadas para venda não era suficiente para atender a todos e as pressões se avolumavam. Umas das soluções para a falta de oferta foi a construção de espaços ilegais com invasões de áreas públicas e privadas, nos quais a regra era a grilagem e o comércio irregular de terras para a formação de condomínios habitacionais para todas as classes de renda.

Dizer que a falta de uma política habitacional que contemplasse o crescimento vegetativo e migratório do Distrito Federal, foi a responsável pela grilagem de terras é apenas parte da verdade, pois em 1956 já se haviam detectado terras irregulares de uso urbano em áreas rurais. O fenômeno intensificou-se na década de 70, à medida que a pressão por moradia se acentuava, e a localização não respeitava qualquer planejamento ou uso futuro das terras. Assim, em 1985, dos 150 loteamentos recenseados, 84 deles encontravam-se na bacia do rio São Bartolomeu, o que inviabilizou a construção do segundo lago que abasteceria de água o Distrito Federal. Em 1995 foram contabilizados 529 condomínios irregulares, dos quais cerca de 50% situados em áreas de proteção ambiental. Ao mesmo tempo, os núcleos rurais transformam-se rapidamente em expansões urbanas desordenadas, como os núcleos rurais de Vicente Pires e de Samambaia.

Dizer que não houve preocupação com a conservação da natureza é igualmente parte da verdade. A primeira área protegida do Distrito Federal, o Parque Nacional de Brasília, foi criada em 1961 e destinava-se a preservar as Águas Emendadas, lugar de dispersão das bacias do São Francisco, Paraná e Paraguai. Em 1966, o Código Sanitário do Distrito Federal proibia núcleos habitacionais à montante do lago Paranoá e, em 1970, reforçou-se a proteção dos recursos hídricos do Plano Piloto, com o “Plano Diretor de Água, Esgoto e Controle da Poluição do Distrito Federal” (PLANIDRO). Em 1983, quando se acelerava a ocupação ilegal da terra, estabeleceram-se as áreas de proteção ambiental da bacia do lago Descoberto, cujas águas formam o maior reservatório do DF, e da bacia do rio São Bartolomeu, formador do outro lago para o abastecimento hídrico da Capital que, como já foi mencionado, terminou não sendo implantado.

Ao longo dos 45 anos de existência de Brasília foram sendo criadas novas áreas de preservação e conservação, que perfizeram cerca de 42% do território do DF. Para respaldar a legislação conservacionista, instituíram-se instrumentos legais para a efetiva atuação dos órgãos governamentais, como o Instituto de Ecologia e Meio Ambiente - IEMA, no que tange a danos ambientais, o Sistema de Gerenciamento Integrado de Recursos Hídricos, o Plano de Ordenamento Territorial (PDOT) e os Planos Diretores Locais (PDL). Com o poder específico de fiscalizar, prevenir e erradicar ocupações irregulares atua desde 1993, o Sistema Integrado de Vigilância do Solo - SIV/SOLO, composto de efetivos da Polícia Militar e da Polícia Civil.

Podemos levantar como hipótese para compreender o fenômeno dos loteamentos irregulares que a grilagem de terras é coerente com as representações sociais gestadas desde a colônia. Esse, por assim dizer, “chamado” à ocupação do território, que perpassa a formação sócio-econômica brasileira, levou a que, desde o início da construção da Capital, houvesse dificuldades em implementar uma gestão eficiente dos pequenos atores sociais dispersos, que permitisse regular suas estratégias de ocupação espacial.

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Quando as eleições chegaram em Brasília, em 1990, o Estado modernista, forte, planejador e auto-suficiente iniciava seu declínio e deixava de ser o motor do desenvolvimento, substituído pelo Estado neoliberal. Uma multiplicidade de atores autônomos e privados, cada um com uma maneira particular de ver a cidade e o urbano, começava a se impor. Nesse contexto, as políticas anteriores de restringir o uso da terra e perceber a cidade como um todo rígido e inalterável, transformou-se em seu oposto, o ressurgimento do negado, com a apropriação incontrolável da terra e o fracionamento do território.

Nesse processo rápido, incontrolável e desordenado de ocupação territorial, em que

o consumo acelerado dos recursos prometia levar ao esgotamento rápido dos

recursos naturais do território, o governo federal determinou, em 2001, a criação da

Área de Proteção Ambiental (APA) do Planalto Central, englobando o Estado de Goiás e as áreas não urbanas do Distrito Federal. O licenciamento de obras no perímetro da APA passou a ser feito pelo IBAMA, de tal maneira que, atualmente, cerca de 91% das terras dentro do quadrilátero sofrem algum tipo de restrição. A governança das áreas não urbanas e os usos que o GDF (Governo do Distrito Federal) pretenda lhes dar devem ser negociados com o governo federal.

Mas a governança neoliberal no Distrito Federal apresenta uma questão a mais, de grande importância espacial. As despesas da cidade, que antes das eleições eras assumidas pelo governo central, agora precisam encontrar recursos nas atividades e patrimônio locais. Depois das eleições, o governo federal financia somente as áreas de segurança, saúde e educação, e o GDF deve financiar seus próprios projetos. Há necessidade, portanto, de atrair investimentos produtivos, envolver segmentos empresariais, ser competitivo. O grande patrimônio do Distrito Federais ainda são suas terras, mas reguladas por instâncias supra-locais: as áreas rurais pela APA do Planalto Central e o centro urbano valorizado, o Plano Piloto, pelas normas do tombamento patrimonial estabelecidas desde 1987.

Assim, o poder local tem menos possibilidades de flexibilizar as normas ambientais e urbanísticas para dar lugar às estratégias espaciais dos grupos econômicos. Brasília

e seu território são muito “rígidos” para o que Acselrad (2005:7) denomina de

“flexibilização” institucional para favorecer os segmentos empresariais, como negociação das normas urbanísticas e/ou liberação de controle do uso do solo,

renúncia fiscal, oferta de terrenos e infra-estrutura, etc.

O controle sobre as edificações mostra-se, porém, difícil e infrações ao tombamento

do Plano Piloto estão presente por toda parte, com as responsabilidades divididas entre pequenos e grandes atores sociais. Pode-se citar, por exemplo, o aumento de mais um andar no gabarito dos prédios do Plano Piloto; edifícios que avançam pela área pública, dificultando a constituição da faixa arbórea das superquadras; a substituição das linhas retas modernistas por uma arquitetura pós-moderna descaracterizadora; invasão de áreas públicas por lojas, bares e estacionamentos. A privatização da orla do lago Paranoá começa com os moradores construindo cercas, churrasqueiras e quadras de esporte às margens do Paranoá e continua com grandes projetos do setor de diversão e do setor hoteleiro de alto luxo.

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As vantagens competitivas do Distrito Federal, tais como alto nível de renda e de demanda, recursos humanos qualificados, infra-estrutura de boa qualidade, atraem outros grandes empreendimentos, passíveis de trazer muitos recursos e, por isso,

de grande interesse para o governo e para o capital imobiliário. Um desses projetos,

e emblemático das representações sociais da natureza no Brasil e do novo momento

da sustentabilidade urbana, refere-se à criação de um grande centro de tecnologia da informação, denominado de Cidade Digital. Em 2002, foi aprovada a instalação do pólo tecnológico numa área de 123 ha dentro do Parque Nacional. A localização da área é privilegiada para a instalação de atividades: fácil acesso a todo o Distrito Federal pela Estrada Parque Indústria e Abastecimento (EPIA), proximidade ao Plano Piloto, ao Lago Norte e cidades-satélites. Verifica-se, então, que a lógica da localização industrial suplantou as intenções conservacionistas.

Por se encontrar numa área preservada, a flexibilização das normas ambientais devia ser negociada com o IBAMA. Depois de muita negociação, o órgão ambiental propôs como contrapartida para a perda dos 123 ha a incorporação de mais 14.000

ha à área do Parque. Entretanto, as áreas lindeiras a serem incorporadas ao Parque Nacional já estavam ocupadas por chácaras e fazendas, grandes parte delas irregulares, o que implicava na realocação de cerca de 400 famílias. Depois de ano

e meio de negociações, as novas áreas foram aprovadas em janeiro de 2006, mas 100 famílias deverão ser retiradas (CORREIO BRASILIENSE, 2006).

Como gerir a questão ambiental urbana do Distrito Federal, feita de diferentes problemas dispersos por todo o território? As políticas ambientais locais, a vigilância do IBAMA sobre a APA do Planalto Central e as políticas ambientais dos organismos internacionais de fomento, segundo as quais os empréstimos ao governo têm como contrapartida a sustentabilidade do meio, permitem esperar alguma contenção das irregularidades ambientais. Mas elas surgem a todo o momento em vários pontos do território e envolvem interesses os mais diversos.

O fato de que o GDF vai continuar incentivando as atividades produtivas permite prever a manutenção da atual taxa de crescimento populacional de 2,8% ao ano. Pode-se prever, igualmente, um aumento considerável no uso do solo e redução também das áreas preservadas e protegidas, pois terras que não produzem riquezas são contrárias às representações sociais que circulam na sociedade.

Para concluir: algumas reflexões

Pensar a questão ambiental e o desenvolvimento sustentável hoje deve estar vinculado ao mundo das mercadorias e de sua distribuição no espaço, que se tornou ele mesmo, um conjunto de mercadorias valorizado social e diferentemente. Para

produzir mercadorias, as territorialidades definem relações políticas de poder para a escolha e distribuição da riqueza. No final, a questão da sustentabilidade ambiental

é política e remete ao diálogo de Alice com o gato: o caminho a ser tomado depende do lugar para onde se quer ir.

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Mas o futuro não é totalmente livre, porque está condicionado pelo longo caminho do qual viemos, na luta pela sobrevivência que nos fez estar contra a natureza até poder dominá-la. Estamos, atualmente, com toda a tecnologia para fazê-lo e o clamor de Fausto, no século XVIII, encontrou sua resposta toda a ressonância no século XXI. Fausto se rebela contra o poder da natureza e pergunta: “Por que os homens têm que deixar as coisas continuarem sendo como sempre têm sido? Não é o momento do homem afirmar-se contra a arrogante tirania da natureza, de enfrentar as forças naturais em nome do “livre espírito que protege todos os direitos? (BERMAN apud PELUSO, 2003).

No percurso fáustico de dominação, a natureza deixou de ser um momento da reprodução da sociedade, cuja prática conformava subjetividades, como no totemismo, por exemplo. Agora, como “recursos naturas”, entra na reprodução da subjetividade capitalista, que a transforma em moeda para o mercado. Nessa categoria, a conservação e o controle são extremamente difíceis.

Verificou-se, ao longo desse artigo, que os governos instituíram uma legislação abrangente e moderna, capaz de direcionar eficazmente o planejamento e a gestão ambiental, criaram organismos públicos aptos a implementar as ações adequadas para a sustentabilidade ambiental. Entretanto, os mesmos governos têm dificuldades em cumprir a legislação, pois as pressões do mercado dissolvem as normas existentes e o território fica livre para todo tipo de apropriação. Nesse processo, geram-se padrões não sustentáveis de consumo da terra, em que a natureza é usada para além de sua capacidade de regeneração, como foi visto nos exemplos apresentados em três cidades de tamanhos, origens e funções diversas.

Se optarmos pelo paradigma da sustentabilidade, deve-se dar novo sentido ao ambiente. Os movimentos que propõem uma volta à natureza, como se pudéssemos considerá-la novamente o laboratório do trabalho humano não mais se sustenta e os laboratórios das grandes corporações estão aí para comprová-lo. Outro caminho é o movimento de trazer o futuro para o presente, de não comprometer o direito das próximas gerações ao meio ambiente, como propõe o Relatório Brundtland. Para atingir esse objetivo, a vontade política deverá moldar nossos corações e mentes em direção a sustentabilidade e implementar estratégias para alcançá-la.

Não devemos ser pessimistas com os resultados obtidos até agora. O otimismo é essencial em momentos de crise, pois é importante constatar que vem tomando vulto a idéia de um modelo de desenvolvimento que não agrida a natureza e priorize o ser humano, ou seja, aos poucos novas representações sociais começam a ser criadas para a objetivação da natureza e do meio ambiente.

Devemos nos lembrar sempre que os sujeitos não são passivos, mas inventores ativos não só na construção da sociedade e seus objetos, mas de soluções às questões que nos são colocadas pela realidade. Assim, as representações sociais são dinâmicas e capazes de estruturar novos tipos de pensamentos e de práticas, abrem possibilidades de promover a gestação de novos atores sociais que se mobilizem para a valorização da natureza, para um processo articulado e comprometido com a sustentabilidade e a participação. Os novos atores sociais serão as grandes corporações ou os atores individualizados? Recentemente tivemos

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dois casos extremos de indivíduos que se colocaram contra grandes corporações: o ambientalista Francisco Anselmo de Barros posicionou-se em defesa do Pantanal Matogrossense e D. Luís Flávio Cappio, em defesa do rio São Francisco.

Junto com eles, uma multidão de pessoas em postos importantes, ou fora deles, também se compromete com a sustentabilidade dos rios, das florestas, dos cerrados. Exemplos não faltam e farei referência a apenas um, ancorado em perdas sofridas pela comunidade. São Sebastião, região administrativa de Brasília, sofreu intensa degradação do cerrado devido à urbanização acelerada e aos loteamentos de baixa renda. Em 2004, a comunidade apresentou 13 casos de antavirose e cinco pessoas vieram a falecer. No ano seguinte, moradores se reuniram e transformaram as áreas degradadas, propícias ao aparecimento do rato silvestre transmissor da doença, em hortas comunitárias e locais de encontro de amigos (CORREIO BRASILIENSE, 2006).

Vê-se, dessa maneira, que casos extremos e práticas simples alternam-se e somam- se na defesa do meio ambiente e dirão que caminho devemos (e queremos) tomar para preservar esses planeta que é nossa morada e o será por muitos anos ainda.

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RESUMO: A preservação ambiental é a grande preocupação da atualidade em decorrência dos processos predatórios que se aceleram e dos danos que causam aos ecossistemas. Medidas de preservação e controle têm sido postas em práticas, seguindo os parâmetros do desenvolvimento sustentável e do Relatório Brundtland, que se apresentam como o núcleo de nova maneira de conceber as relações sociedade/natureza e de conciliação entre crescimento econômico/ conservação ambiental. Pretende-se contribuir para a discussão do tema no momento atual, em que predomina a produção de mercadorias. Pressupõe-se que a realidade é objetivada como representações sociais, nas quais se articulam processos psíquicos e sociais em sistemas de crenças que posicionam o sujeito frente ao mundo. Inicialmente, será feito um retrospecto histórico das relações sociedade/natureza e da criação de representações sociais, particularizando com o caso brasileiro e os problemas ambientais e individualizando com Brasília e o Distrito Federal. Por último, procura-se refletir sobre o caminho já percorrido e as possibilidades de implementação do desenvolvimento sustentável, chamando a atenção para novas práticas ambientais surgidas recentemente no Brasil. Palavras-chave: representações sociais; relações sociedade/natureza; problemas ambientais; desenvolvimento sustentável; Brasília; Distrito Federal; novas práticas ambientais.

ABSTRACT: Environmental preservation is today’s biggest preoccupation arising out of the accelerating predatory processes and the damage they cause to the ecosystems. Prevention and control measures have been put into practice following the parameters of the sustainable development and the Brundtland Report, that present themselves as the heart of a new way of conceiving the society/nature relations and the conciliation between economic growth and environmental conservation. This work is intended to contribute to the discussion of the subject matter nowadays, when there is the predomination of the production of goods. It is presupposed that the reality is aimed with social representations in which social and psychic processes are articulated in belief systems that locate the individual facing the world.Initially, it is going to be made a historic retrospect of the society/nature relations and the creation of social representations, particularizing the Brazilian case and the environmental problems and individualizing with Brasília and the Brazilian Federal District. Lastly, it is intended to reflect about the way already gone through and the possibilities of the sustainable development implementation, calling the attention to new environmental practices that have recently come to Brazil. Key-words: social representation; society/nature relations; environmental problems; sustainable development ; Brasília; Federal District; new environmental practices.

Informações sobre a autora:

* Profa. Dra. Marília Luiza Peluso Professora titular do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília, Brasília, DF.

Contato: peluso@unb.br

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