Você está na página 1de 22

FUNCIIAL NO CONTEXTO DAS MUDANÇAS

POLÍTICO-IDEOL~GICASDO SECULO XVII.

O CORSO E A GUERRA DE REPRESÁLIA

COMO ARMA

ALBERTO VIEIRA

Múliiplas c variadas riii,íScs I"i7~rarncom que o Funchal sc afirmasse no s&-

cujo XVIII conio um ccntro çhavc das irnnsformaçhs sócio-políticas então operadas, dc ambos os lados do occano. A ilha foi tamKm prntagonista no processo, concor- rendo para isso vhrios raciorcs. Aqui dcverá. sinalirar-se a forte prcsença da comu- nidade inglcsa e o Facto dcsta a icr tranfnrinado num iiiiportanic ccntro para a sua

nfirmaç50 colonial c maritima, a partir do si5culo xvii. Esta vinculação da ilha ao irnp5rio hrithico d bastante cvidcntc no quotidiano c dcvir histdrico madcirenses dos &ulos XVIII c xix ('1. O rcconhwimcnto da imprtância da anglicixaçãn da Mrulcira torna-se ncccssiírio para n cornprcensáo das mudanças opcradas ao longo do &ulo Xvi11c, dc mdo cspocial, a questão que nos ocupa - o cmo como arma

político-idcoltigica-

Para nlf m dcstn formulação do problcma iSpreciso ter em conta que a actividade do corso não sc esgoia na cobiça e pariilha da prcsa, pois a estc hencfício won6miç0,

quc 6 a m1A0 única do pirata (2), juntam-sc ouims ohjcclivos. E por isso quc o corso

coníiilos kIicos ou da

scjustifica tamhbm como toma dc rcptcsália rcsullante dos

('1 Confronte-sc Iksinond GRIXORY. The Bptipficrn~U-rurpr.c. A Hixiriry r$ thp Rriti.FIi in

Mutleiiw, London, 1988.

I?) Éncrcs~wassinalarque a diicrep entre pima e cdrioi!3 chave pyn 3 aoinpmnsk disto.

Assi111enquanto o primiro actuava por sua iniciativa dno seu objectivo wnas ccomíniico. o wpdo

visa a nun ILEÇILO IcgitimaJa por uina cana e ordcnançn dc como. Vcja-se L. Luis AZCARACA DE

BUSTAMANTE, Q Cor.wi Muciriiiori, MaJrid. 19.W.9 1. 111-132.

luta contra as op$es

do exclusivisrno econ6mico definidas pelas teses do rnam

clausum. O corso foi, aosim, no decurso do século xviir uma forma de extensão dos

conflitos europeus e)e merianos. veiculando tiesteÚltimo caso uma o~ãoplltice

-ideológica que marcou o Novo Mundo. Estes co&os

conhecidos como kurgcntes, porque se insurgiram contra as ptencias coloniais

europeiase abraçaram a bandeira do inâqendentisrno içada. primeiro, pelos norte-

-americanos. 8, na verdade, a declaração de independencia dos E.U.A.que fez

despoletar a nova situação. Neste fogo cruzado a Madeira, porque protagonista activo no relacionamenio entreos dois mundose pela forte presenqa da comunidade inglesa. não podia alhear- -se das rnudanqas políticas geradas pela difusão de novas ideias c repercussão das

suas consequencias. Na verdade, um porto não B apenas um recept4culo de

mercadorias, mas tamMm um meio difusor de doenças e ideias I'). E, na segunda

rnctde do séculoxvrrr, foi evidenteesta apwtqão (9.Para issocontribuiude forma

evidente o protagonismo do Funçhal. através do comdrcio do vinho, no rela- cionamentocomercial com os portos norte-americanos, mas tamtiém com as metr6-

pt~les.kste modo para situar a prohlcmátiçaem debate é necesssrio terem atenção,

não s6 as actividades de corso, mas tamhém, o activo relacionamento e interde pcndencia da Mdeira com este mercado, que em termos políticm esteve, desde o iíltimo quartel do século xvtir, em permanente cbulic;ão.

sul-americanos ficaram

1. A M&h

no contexto rlas ro&s e dos aiemdos &&os

do sécuh xv111

xvrir a Madeira firmou a sua vocação atlhtica, contri-

buindo para isso o fack de -osingleses não dispensarem o poso do Funchal e o vinho madeirense na sua estratkgia colonial. As diversas actas & navegação (1660, 1663, corroboradas pelos tratados de ami7adc. de que merece relevo especial o de Methuen (1703) ('1, foram os meios que abriram o caminho para que a Madeira

No decurso do.&ulo

(3) Cem-ga RUD~A Euny tu) ~&iibiXVItl, u urirbwrmid e o desujiiri buds. kht, 1988.

=fere que "dois em da três suw fomm & guerraw(pp. 255369).

(*) Sobre isto iox uma conferénciri do

hf. Rml-Wd profefidam FmM em 15 & Junho

& I989sobn: 'As Ciddeu Portuárkado Bnuir e publicadasob ilulo "Mn ofdonid Bmzil", in A. L.

KANAS e J. R. MCNEIL. Atluritic uwri~unwwieiie.r.Fmm Gdumbirr ihnrir#h h)liti~m1492-1888,N. York, 1W. pp. 174211; vejam aida Franklim W. KNIGHT e Peggy K. LISS, Pt*r citks: a7mm3

mlture, rsrd

wWiery ia t&eAtbuRiic Worki, Kmille. 199 1.

p) Antõnm LQI A. A luai dr>p&r

(h) Veja-w Public Rocord Ofíice.

rrm u Mu~P'NwTW.Li

1985. p-247-

8 1 111, curhLr dc1~1pririvil4giot du q1t briaifrri~w&rimPt~riugttt

dexde 1401 u Im.

entrasse na área de infl3ncia do mundo inglês c).Aos poucos. esta comunidade

ganhou urna posição de respeito na sociedade madeirense que, por vezes, se tor-

A presença e importância da feitoria inglesa, no decurso da

nava incomodativa (#).

&ulo

xviit, é uma realidade insofismável. A comunidade inglesa passou a usufruir na ilha de um estatuto difcrenciado

que lhe davaa possibilidadede de possuir um cemitériopróprio, desde 176 1.TamEm os mesmos tiveram direito a igreja própria, enfermaria, conservatória (4 e juiz

privativo. Sabemos, ainda, que estavam isentos do pagamento de qualquer direito

na alhdcga, cobrando, por iniciativa própria. um tributo sobre os tiarcos ingleses para as despesas da feitwia. A situação, segundo o governador João António de Sg Percira ("3. era antiga e contava com o hábito de "obsequiar os governadores para

os ter sempre propfcios afim de melhor continuar nos grandes interessesque tira

d'esta ilha+

".

g de acordo com este quadro que deve scr enquadrada a ocupação da ilha, por

duas vezes, por tropas inglesas: 1801- 1802 e 1807 a 18 14 (I').

Esta opção, ernhra

da primcira vez colhesse o governador de surpresa, parece ser desejada. pois em

1898 o governador de S. Miguel. dcpois de tornar conta do sucedido, manifestou o desejo que o mesmo succdc-se nos A~orcs,para evitar o perigo dos franceses .)2I( Mesmo assim os ingleses tiveram de se aver com a reacçao madcirense h sua influência na vida económica madeirense. Uma destas est8 patcnte nas palavras do

juiz do povo,

que em 1770 os responsabilizava pela situação de crise do comércio

do vinho resuitndo da impunidade com que actuavam na ilha (I3).

O Confmnt+m J. H. FISHER. Tkc Mefhuen u PtdI. O CtdIcir; un~L~-p~rfllgu?$de 117W

a 17iO.iiaW. IW.p.29.

I*) Em 1754 o Gowmdor Manuel SaIhhu AlhuquerqwImnta o exclusiva do cod~ioingldi

na ilh (AHU. Mudeirri e Pdiriri Smiri, nP 48-49).

C') Ribiic Rixmnl Olfcc. FO 81 111. fk. 278.31 & laneim de 1724.

(9 Veja-se AHU. Mdiru e Pt~rtciSuistri,'.n

317,W & Abril de t768. Soãre os

ingh na ilha

veja*

Fremando Augupio da SILVA. EIwWri MuJei-,

3 volr

Funchd 1984. enttadris

"inm.

epirangeirai.cmwmdordasingl-.

CemitérioBMi igrejas ingw A. A. SARMENTO.

"A Feitoria

Inglmn",

in F~~rquiu~dU hfudeiru.Funchd. 1951. pp. 99-IM; Hiiltcr MINCHINTON, "Britixh ReKidcntr

d thir pmbkmr in Miwkirn More 181r', in Actur rdri 11 C. I. H. M., Fuwhnl, 19W, pp:477-4!J2;

kmmdGREGORY, r&. d.;Cmham BLANDY(d.)C/I~<$Rmtirdt#lJIC ~S~~R~~I#CAII$&?

c~U-

pluiw d

nulfs rm th rnWj%trIr~ryuiMdiru, nirrhal, 1959.

("1 kja-se R. knda Augwto da SILVk IA.cit., vol. 111. "Ocupqh da Mideira por tropas inglm", pp. 5-6, A. A. SARMIWTO, Ejifluiofl Hi.rtriricths,vol. 111. Funchal, 1952, pp. l4&237; idem, Mridciru tmi u Im2, IW7 u iRI4.Nr~Iure &~rmentc~s,PunchaI, 1930. (9Em 27 de Pevueiro & t808 o god iriadei bavia-lheenviado urria carta relatando o

niicedido. Confrome~:Aryiu*w)drisACY)R,T,voI.XI. 359-360, 373-379,Fnuicigco d'Amyrle & FMa c MAIA, SuhsIdirw ptu a Histtbiu de S. Mixucl e Tcr:eirri. G@&s-~nerah 1766-/831,2.' ediçh Ponta

Delgadn. 198%.

(I1) A. R. M.,C. M. F., n.'

167, fls. 53-57 v, I7 de Março 1770.

De acordo com isto poderá afirmar-se que a Madeira funcionava para os ingleses como uma colónia quejogou um papel fundamental entrea metr6polee aspossesçõeç

norte-americanas das Indias cicidentais e orientais, assumindo uma dupla função para m ingleses: porto & apoio para as incursões no oceano e abastecedor de vinho

h embarcações e colónias.

A presença de amsadas inglesas no Funchal era constante e o relacionamento

com as autoridades locais amistoso, sendo recebidos pelo governador com tda a hospitalidade (I*). Destas relevam-se iis de 1799 e 1805, compostas, respectivamente

de 1OS e 1 12 embarcaçb (IS). Para aldm disto era dua a presença de uma esquadra

inglesa a patrulhar o mar rnadcirenw,, sendo a de 1780comandada por Jonhstone ('9).

A procura do nosso vinho multa também da feliz circunstância de ser n único

que não se deteriorava com as constantes mudança5 de clima, antes

adquiria propridadcs, mercê do balanço resultante da ondulqão do mar c do calor

tbrrido a que estava sujeito nos por&.

desde princípios do &ulo XVIII tcmos refcrtmcias a isso quc veio a dar origem ao

Esta constatação surge muito cedo. pois

pelo contrário,

vinho da da. Quem o confirma t o çonsul francês no Funchal, que justifica a

prcfcdncia dos ingleses pelo vinho Madcira cm detrimento do dc Bordbus ('9. Daqui rcsultou a sua afirmqão no mercado colonial europeu, com espia1 relevo para o hrithiço. Neste contexto releva-se a posic;ãodo mercadoamericano, dominado pelas col6nia.s das Indias Ocidentais e portos norte-americanos. O último destino sedimentou-se, a partir da segunda metade do sbculo xvrr, mercê de um activo relacionamento. Desde então o vinho da Madcira foi uma pre- sença assídua nos portos atHnticos - Boston, Charlesmn, N. York c Filadélfia, Ballimore,Virginia - ondeeratmado por Farinhas('#I.&ta contrapartidareforçou o relacionamentocomercia! c actuou como ci~unstanciafavomodora do progressa da economia viti-vinícola. Assim. se nos séculos xv e XVI a afirmação da cultura

dos canaviais foi conseguida com o suprimento frumcnthrio dos Açores e Canárias,

a partir de finais do século XVII é na América do Norte que se situa o cclciro ma- dcirense. Cedo a Madeira entrou na esfcra dos interessesnorte-americanos, sendo o

(") Riblic Recoml Olfice, FO 63n,mbse que por miem & 14 de Junho de 1722 as- e com deritino Li mldniu. pemiurn alguns dias no Fuwhd. A 20 de Janeiro & 17M s30 20 hos em

ial situaçnli.oourdcd peb consul.

(j3) AHU, Mdircr e Ptirfr) S~II~J,nP 1125. 1820.22 de OutOutubro de 1799 e 7 & Ouiubm & 1805.

(I') Ibidcm, n? 545,22 & Jwim ck 171W.

("1 Canm *: 25 Rveteim de 1741 e 27 tk Maio 177 l refrn-5

por Albd SILBeRT, "Un

Camfour rlr: 1'Atliiniique: b&re ( 1W 1820)". in B.r~t~rm'ue Finuqw.r, vol. XXII. 19S4, pp. 413414.

(IX) Cf. Jorge Mariina RIBEIRO, "Alguns aspton do wmkcio da Madeira com a América na

segunda metade XVIII", in Actm

pp. 389-401.

111 Gilriquir~l~iiiieriwtvitrriulde Hisklríu & Mdeiuu. Fuwhal, 1W3.

vinho o cara0 de visita. Note-se que as ilhas atlsinticas são conhecidas na documcn- tqão oficial norteamericana çomo as ilhas do vinho ("). Acresce que algumas das ilustres personalidades que estiveram na origem da independençia e, depois foram estadistas, não dispensaram a passagem pela Ma- deira para conhecer a terra donde brotava o vinho de que eram grandes apreciadores. São eles George Washington, Benjamin Franklin, John Admuiis e Thomas Jeffer- son Ia'). Também o nosso vinho esteve nas origens da convulsão que iniciou a luta pela independência norte americana. Estávamos em 1764 e o vinho da Madeira haviajãi conquistado o mercado e a Inglaterra, atravds do "sugar act" decidiu tributar as ligasiks directas com a ilha. Esta medida, que obrigava os navios da colónia a uma obrigatória ligação com a metrópole, não colheu adeptos e foi o motivo que despoletou o ideário da indepen- dençia. Assim em 1768 di-se a primeira desobediência com o navio Liherty, recusando-se John Hancock a pagar direitos pelas 100 pipas de vinho da Madeira entradas em Boston r').A isto seguiu-se o confronto de 1770, conhecido çomo o 44BostonTca Party". Certamente que este acontccimcnto e a ligaqão de alguns polí- ticos norte-americanos n50 foram alheios ao facto de o vinho da Madcira scr escolhido para o brinde da prmlamar;ão solene da independência. Todavia, esta nova situa~ãoimplicaria dificuldades acrescidas para a Madeira, merce do ancestral vinculo da ilha 21Mctropole e a quase impossibilidade de definir uma polltiça de neutralidade. Por algum tempo a Madeira perdeu, náo s6 um dos melhares consumidores do seu vinho, mas tamEm a contrapartida de cereais ("1. O resultado disto foi a fome que atormentou os madeirenses (21). Durante os oito anos do hluqueio pararam a$ embarcaghs nesta rota e o ambiente na ilha era visto pclas autoridades çomo de total consternação (*'). Pcrante a excessiva vincu1at;ão

I"') Veja-se A. GUIMERA RAVINA, "hislai dcl vino (M&irn,Apms e Canurius) y Ia Amtrim inglesa durmte e1 siglo XV I1I. Una uproxidn a su estudiu", in II C. I. H. M. Art~,Func hul. 1990, pp. W-9-34.confronte-wAlhit SILBERT, urf. til., pp. 420-428.

("1 T. B. DUNCAN, Atluntilh 1.clutid~.Mdim iImP A7rit-e~ uiid lhe G~peVerdes Ns Sevoiieetiih Ccnruv. C~timm~weurid Nuvi~uri~in,Chiçngo. 1972, pp. 250-252; Cf, Jorge Mertins RIBEIRO, uri.rif.,

pp. 341-3'62. (l')Hillcr 3. ZOBEL. Tk Bristriti Mu~sucw.N. York, 1978, p. 73;0.M. DICKERSON. Tk Nuvixu-

IUWIArfx wid lhe Amerirwn Revoluiirin, N. York, 1983, p.

Boxiriti Me~r'lsc*ti.cwid th~Advet~t($lhe Amric.uti R~vi)lutu>n,Buston, 1986. p. 115.

In;Juhn W. TYER, Srnu~~1er.c& Puirioi.r

(9Cf.Jorgt M. RIBEIRO, ui%cit,,pp. 391-392.

(IJ) AlW SILRERT, uri. cit.,

p. 423; veja-m Aims dos Passos VIEIRA. E~PIP~~II~(A~{wruu Hi~tqiriu

Hiiu Quotidiuwu du Mudeiru IIU ~oviverii~úci& Jfiúo Giqwlves du Cdniuru Giutinlui (1 777-178@,

Lisha, 189 I: Maria de Ludes de Frcitus FERRAZ, "A çid* do Punchd na I .' metade do século XVIII.

Prcgmsius Urtiums'', in I1 C. I. H. M. Atfux, pp. 2%1-28 1.

(")A.N.T.T

PJ.

R. E F.,n."1182,fl.29,22dcDezembnidc1776.

da Madeira ao mundo colonial britânico e em especial aos portos norte-americanos era inevitável que rt ilha fosse um dos primeiros alvos das convuIsbes políticas que envolveram a Europa e a América na segunda metade do século, atravbs da guerra de represalia expressa no corsti. A partir da dkada de 70 e até aos princípios do skulo seguinte os conflitos que em como palco os continentes europeu e americano alargam-se ao Atlantico. Ali&, neste momento o oceano é um activo protagonista das disputas entre os três principais beligerantes: Espanha. França e Inglaterra. Por isso Mario Hernandez Sãinchez-Barbar)define o século XVIII por três realidades: guerra, diplomacia e comercio. Entre elasexisteuma perfeita sintonia.A tudo isto junta-se a permanente preocupação com a organização militar e a dcCcsa da costa, porque o perigo espreita no mar a qualquer momento. É dentro desta mhiência que dcverã considerar-se a presenca dos corsários.

Para isso poderão assinalar-se dois momentos: o perido que decorre entre 1744 a

1736 definido pclo afrontamento de Inglaterra com a Franqa e Espanha; a época das grandes transfomac;õesdo skulo, com a prwlamq20 da independencia das col6nias

inglesas da América do Norte (e a conscqucnte guerra de independência até 1783),

a Revalução Francesa (1 779) e

as convulsóes que Ihe seguiram ate 1815. Neste

Último intervalo de tempo sucdcram-se novas al1erat;Ões no continente americano com a luta pela independência das colbnias de Espanha, que veio a gerar um novo

interlocutor para a guerra de çorso.

A dimensão assumida por esta guerra de represáliaestá bem patentenos números

das presas. No perioda dc 1793 a 1798 os franceses apresaram alguns milhares de embarcaçks dos inglws e aliados: em 1795 s6 o porto de Brcst tinha 700 presas inglesas e em 1798 contavam-se 3 199 navios comerciais apresados (2h). Perante a investida francesa não será de estranhar a acupqãu inglesa da Madcira, entendida como forma de preservar os interesses dos súbditos de Sua Magestade, mas tamhdm de estahelwer uma barreira ao avanço françes alim oceano.

Em todos os momentos a Madeira Funcionou como base para as inúmeras incursões dos corsários ingleses. A neutralidade, insistentemente proclamada no papel não passava disso, pois os ingleses afrontaram por diversas formas a atitude

do governador (27).

Desde a guerra de sucessão da Casa dc Austria que a Madeira

(=3EI mur en lu Hixtuh lie Adricu, Madrid. 1992, p. 239.

(Ih)Confmnte+eA. C. BAPTISTA, O Ressuvimrnto lii Muririhu Porni~ue.iuMJÚ~timc~Quurtel do Ski~lriXVIII, Lisbaa, 1957 (iase & licenciat um na Faculdbde de Letra<).

a Martinha de Mello e Cmm a

(2')

Em 1780 o Governador João Gonçalves da Cfiinara @icipa

presença& uiim esqudn inglew no Funchal. peúinúo iinstruçks pan manter absolutaneutnlid&lhi~leisr,

n? 545,22 de Janeiro).

teve esta vocação. Af estacionaram alguns navios corsfwios como sucedeu com a

baIandra do capitão Filipe Maré e o cordrio rei Jorge. Da resposta castelhana temos a presença do bergantim Santelmo Nossa Senhora Candelhia, sob o comando do

capitão Pwod de Soma Viúvo, possuidor desde 1739 de carta de corno

não foi feliz nas suas presas. Em 14 de Abril de 1748 apresou junto ao Cabo Girão, uma balandra inglesa que ao pretender vender o recheio viu embargado pelo bispo governador a favor dos ingleses. Depois tomou uma escuna inglesa na Ponta do Sol, mas acabou apresada pela nau inglesa Chesterfield, sendo arrematada pela alfindega do Funchal 124.Mais tarde em 1762 recomenda-se ao governador José Correia de para manter uma posiç8o neutra1 em face dos acontecimentos, mas que exerqa represdlia sobre os navios espanhóis e franceses, o que ia de encontro hs

p).Talavia

pretensões ingIesas (3').

Mesmo assim os ingleses não aceitaram este pacto de vizinhança, atacando os

navios costeiros ou de pescarias,como sucedeu em 1780I$'). E a situqão continuou

nos anos subsequentes, afirmando-sea Madeira como base para as incursões inglesas contra os navios castelhanos e franceses. O facto da ilha estar sob as ordens de Sua Magestadc, entre 180 1- 1802 e 1807- 18 14. favoreceu isso.Assim tivemos duas presas francesas e 2 1 çastelhanas (Q). Por seu turno os franceses faziam incidir mais a sua acção sobre as embarcações portuguesas, porque menos seguras e protegidas, do que as inglesas. Esta permanente ameaça da esquadra de Brest sobre o Funçhal jus- tificava-se mais pelo colahoraçionismo madcirense aos ingleses do que pela guerra declarada entre as coroas peninsulares. Os dados que documentam esta preocupante presença são eluçidativos. Em 1785 (") é uma esquadra de 12 embarcações sob o comando do general Le Comte d'Albert Derions. Depois a partir de 171R instalou- -se o pânico com os franceses a estabelecerem um bloqueio i ilha, o que lesou o

combrcio externo (34).

Nas Asores o corso teve maior incidência nos primeiros anos do skulo XIX. Os principais protagonistas europeus são os ingleses e caçtelhanos ('7. Todavia t entre os originhrios do continente americano que temos as acções mais violentas.

A inicwençãodoscomdrios americanos 6urna forma de reclamar o direito h indepen-

('1

A.

N.T. T P, I. R. E F., n? 972, fls. 233-235v. 24 dc Novembro.

("}A. N.T.T.R I. R. E F

(")A.N.T.T.,PI.R.EF.,~P~~S,~~S.16v-19.

('I) A. H. U.,Mudeiru e Por&)SJIIIO,n? 56I.

("1 Ibidern, n." 1S.M-ó0, 1.584, lSR9,1594.

n." 109, íin.79,82,83 v;A. F., n."970.fls. 16v+lTt.

(")

IbiAm. n? 760-761.

(H)A. H. U, Mudeiru e Porto Sruitn, n.' 1019 e 112h;veja-x tamMm A, H. U. M&iru e Porto

Sunto. n." 1476.

dencia. As acqões são lançadas contra as emharcaqões da rnetidpole e aliados, o que vem a atingir os portugueses. A isto acresce a guerra entre ingleses e noneamericanos no período de 18 12 a I8 15 que provocou um aumento desmesurado do número de

corsários.

Sem dúvida o facto mais importante deste momento d o combate naval que teve lugar na baia do Faia1 a 26 e 27 de Setembro de 18 14 entre o cor&o americano general Arrnstrong e uma divisão naval inglesa sob o comando do general Cokrane, que se dirigia para a Amkrica com a finalidade de atacar Louisiana ("). O corsário americano entrara no dia 26 no porto da Horta para fazer aguada, sendo perseguido pela divisão naval inglesa. Daqui resultou, na voz do governador da Horta. "um horroroso e sangrento comhak a que dcu logo o desvario, orgulho e soberba de um

insolente chcfc britânico, que não quis respitar a neutralidade com que Portugal se

acha na actual contenda entre sua Magestade hritlnica e os Estados Unidos da America" (M). Disto resultOu um direrendo diplomático manteve-se até meados da çenturia. Este facto marca o recrudescer das actividades dos corsários americanos que actuaram iamhLm contra os portugueses como rcpresãilia de colaboracionismo activo a favor dos ingleses. Este permanente afrontamento entre amhas as partes é definido pelo governadorda seguinte forma: "cntrc os vas.salos destas duas potencias huum ciume que os menos prudentes não sahcm wultar (9 A estes sucederam-se os chamados cors8rios insurgentes, a mando das ideais de independência das colónias de Castela na Ambrica do Sul ("1. A presença por- tuguesa nesta quereIa prende-se com o Brasil e com o conflito gerado sobre a dcfi- niqão das fronteiras, nomeadamente no Sul ("1. A ,ua acçáo incidiu com maior insislênçia nos Açores e CanBrias, sendo raraa presenqa nos mares da Madeira (42).

Com as pazes muitos deles passaram-se para o serviço dos insurgentes (%).

"

JOS~Calvet& Mqalhjies,Hi-v~driudusrelut.5es diplomumuti~:usentre Ptirtu~wicris EP~(I&F.YUnitlm du Adricu, Lish 199 1, p. 92. ( ") Aquiw dris A(:r>~.r.vol. XII, pp. 58-75: Marcclino Liq Anuis do Mutiiliipio dd Ht>rtu, Vila

A WNSO, Atriws ~m Nriwis PupPi.~&lhm. Angra, 1980,

Nova & Fain.innlicBo. 1943. pp. 665-682; J&

pp. 235.249: J&

Calvet MAGALHÁES, d.cit., pp. 74, 145 se@.

( )'

OA. H. U

A~,v~izs,Maço 6 1; veja-se An:hivri d0.r Ai.ores. XII, pp. 58-59,

(*I) ARM. Guvernr) civil. nP 51 8, fis. 89-93v, 22 de Fevereim de 1794.

(u') Franpir:XAVIER-GUERRA.MrHiPrtiirdude I~uLpr~irle~~riu.Madrid. 1992; Mcrle E.SIMMONS,

Lu Revo1111:itítiNorte-Amrí~unuen lu Ind~!ptuiliciude Hixpu~wmrirrr.Madrid. 19%

(4') Jaime CORTE.%~O,~l~xunrlre& Guxilirlri c ri iruiuh de Mdid, 9 vols,

Rio de Jnneim. 1952-

-I=; Luis Fermnd & ALMEIDA, "O Probleina de Fmteim no Sul do Bmil: o caso da colhia de

Sacramento", in Portu#ul rui Mutidri, vai. VI. pp. 191-201; vejam-se ainda neste voiume outm textw

assinadospor AICredo Pinheiro MARQUES e Mnx Justo GUEUES.

(") Manucl PAZ, 'Tordrior insurgentes en aguaq dc Canmiai (1 8 16- 1828)", in VI11 C. H. C. A

(19R8). vol. I, 1991, pp. 679493; Femando CASTELO-BKANCO, "Pirataria nas dguas da%Cdrias- -Madeira nos inícios do dculo XJX", in ibidem, t. li, pp. 82-95.

Nos Asores os anos de 1816 e 18 17 são os de maior actividade, mantendo-se estes em pcrmancnte actividade e em cruzeiro nas diversas ilhas do arquipilago ('3). As ilhas de Santa Maria e Flores eram o centro da sua intervenqão. A presença destes

cmãiriou d constante ao longo do ano mas com particular incidência nos meses de

Novembro a Janeiro e Maio a Junho.

2. O como sa guerra I repres&ih como arma iiieológica

Para atendermos a esta dimensão assumida pelo como no século xvrii torna-se necessário ter em conta alguma informaqão fundamental sohrc clc. Esiamos perante uma actividade regulamentada pelas ordcnanqas e cartas de corso (&) e é a partir dai que se podcrh compreender o seu alcance c múltiplos objectivos. O corsário para ser consideradocomo tal deveria ser possuidor de uma carta e ordcnanqadc corso.Aprimcira autorizavaa sua act;ãoenquanto a segunda estabelecia os parimctros em que ela dcveria ter lugar. Em qualquer dos casos cra o direito intcrnxional que servia de lcgitimaqão e fundamento a esta actividade. A viulaçáo destes rcqucsitos levava a que o scu autor fosse considerado pirata (9.Esta t5 uma rcgulamcnlar;2íoquc no concreto não mereceu o ernpcnho de muitos dos intervenicn- tcs. Notc-se quc americanos c inglcses são os que menos acataram as recorncndac;&cs sohrc o dirciio dos mares, aceiie por todos. Por exemplo, a viulaqão das @as terri- tririais, isto 6 o espaço mariiiino ao alcance de uma hornharda e ns portos ctisteims, ~Iosinglcses no aliontamento aos americanos e franceses, foi uma constante que

provocou algumas difiçuldadcs h diplomacia portuguêsa (4h).

Era a dcclarat;ão de guerra entre as naqr-s do réu e da vítima quc Icgalizava,

condic;áo Icgitimadora da

em Úllima insdncia, o acto (47). Mas ,ta

não foi a única

(*')A. H. U.,Aprw.~,Maço6Se66.12e 13deDezembro 1816.

("1 J. AZCAKRAGA y BUSTAMANTE, r&. cit.,

pp. 91. 131-1 32.

("1 Ein 1803 uma gakn enpdnholn fundamenta o apmsaincnio de um corsário inglês em Ponta hlgada coin tiaw nunm ordem que possuia. autorirando-a a tomar os navios fnnceses e holandeses

(Veja-se A. H.U.,Acomx,

maço 29.8 de Agosto). Ainda neste ano um corsirio ingles, que apreendera uina

galera espanhola, foi dniaestado pio governatlor pam apresentar a doclc~dc guerra e a patente de

como. caqo cmtr;ino%ria conrridentlo pinta (lhidem. iiqo 29. 23 de Agosto).

(4 A Qdriw~staçSodo govemadw de S. Miguel em 24 de Noveinbm de 18 I4 do consul ingiês 6

bastante clara (A. H. U., Acow.r, mwo 62). A mma recomendação surge nas o&nmçm: de mo, veja-

m J. AZCAKRAGA Y BUSTAMANTE,rih. ihit

pp.

2W7.

('") Ein 1W3 o consul espanhol apresentavauni prnteaopdo facto de umcorri8rio inglda ter apresado

n galera Nt Sr.' das Mercis, uina vez que n&i estava declarada guerra entre os dois paises (A. H. U

Airir~x,Maço 29).

actividade, uma vez que o corsoassentouquase sempre numa forma de enfrentamento pela posse das rotas e mercados coloniais. Foi, por exemplo, a luta contra o mam

clausum peninsular que sedimentou a guerra de corso nos séculos xv e xvi. Aliás, nos séculos xVIII e XIX, bastava o colaboracionismo de cidadãos e autoridades com inimigo para que tal acto fosse encarado pelos intervenientescomo legal ('R).Tam-

Mm a autorização para entrada dos portos das embarcações de corso e de venda das

presas eram consideradas como meio de colaboração. Neste caso as recomendqões

das autoridades portuguesas anotam a necessidade de respeito pela indispensável

hospitalidade (49).

Estes princfpios, para além de seguirem de perto as aportaç&s resultantes do

debate sobre a liberdade dos mares (.#I),

corso, de que se conhecem algumas

são exarados nas diversas ordenanças de Na espanhola de I718 é definida a presa

ideal:

"Han de ser de buena presa todos 10s navios pertencientes a enemigos y 10s

mandados por piratas, corsaros y outra gente que convicre la mar sin despacho de ningun prinçipe ni estado goverano" p2).

Por aqui ficajustificada a importânciaatribuída ao passaporte passadois emhar- cações que sulcavam os mares. Num deles, tirado ao acaso, ve-se que a justificação da concessão se coaduna com o atrás referido:

de que lhe não embarasem de forma alguma a viagem, antes para ella

lhe dom todo o favor, ajuda e beneficio que pede a aliança, amizade e boa corres- pondencia que ha entre as mesmas coroas" (9.

afim "

(*) Em 18 11 um navio mricano foi apresada por outro ing@r;em Angra sob o pretexto de kvnr

a bwrlo mrcaduriari pertencentes a va,Fdorr de países com quem a Cd 0FeianI-a estava em Guerra

(A. H. U, Ai:r~m.v,maço 52,3 1 &Apto). ('9 A%recomendaçm fwnm edw em 30 de Agmto de 1780, 17 de Setembro de 1790 e

3

de Junhode 1803 (A. H. U Portrr Sunlo, n? 1558, 130 1, 1638; Idem, Apre~.moço 1 1,29,42.

Mucieinre

("1 Tenha-se em oonsi&q& os comentários que w governadotes uc;orianos tecem quando relatam

o

sucedido nos mnre~,qorianw.Veja-= o quedizo guvedut & S. Miguelaos aconteciwntos& Horta

em 1814 (A. H. U

Apoties, maço 62,M de Novembro) ou do & Angra em 181 1 (A. H. U., Ac~~ms.

mmp 52.3 1 âe Agosto). I. AZCARRAGA Y BUSTAMANTE,r&. cit.,pp. 92-110,258-265.370-371.

(=) Ibidem p. 259.

(9A. R. M., Governo Civil, nP 523,228 v-229.8 dc Julho de 17W. pawpoite da galera ponugwsa

S.Fmixco Pmtector, mqta Guilhwrm:José Nunes. com ikstinu iGnciosi.

Atrás ficou estabelecido o pressuposto jurídico que legitimava o corso, resta-

-nos agora rastrear as motivações que cnformam as suas acçõcs. Sc nos séculos xv

a XVIIo corso estava orientado para o combate ao domínio exclusivo do Atlântico

por portugueses e castelhanos, para os séculos XVIIIe XIXos objcctivos serão outros. O cmpenho económico, a luta pela afirmação imperial esta sempre latente entre os tradicionais beligerantes europeus, que tiveram, que contar com mais um rival, os

povos das colónias. A isto deve juntar-se, ainda, os conflitos políticos e a declaração

de

guerra.

O

corso é aqui entendido pelos novos corsários americanos como uma forma

dc

combate contra as ancestrais ligações, controlo por parte da metrópole e de pro-

paganda do ideário dc independência quc despontou cm 1776 nas colónias inglcsas

da América do Nortc. No primciro momcnto a luta travou-sc cm duas frcntcs: o Atlântico oricntal,

dominando pclos marcs circum-vizinhos das ilhas, e o Caribc. No último dominaram, até fins do século XVII,os célcbres piratas Filibusteros e bucaneros (54).Estes actua- ram a mando dc franceses c inglcses, tcndo como objcctivo o colapso do comércio rcgular cntre as colónias cspanholas c a mctrópole, no caso Sevilha. Note-se que foi

a partir daqui quc ingleses c franccses conseguiram penetrar no Novo Mundo e estabelecer colónias nas ilhas do Caribe.

À parte isto é de relevar a acção dos corsários huguenotes, cm que militava nas

suas acções o fervor anti-religioso. Aliás o Funchal foi palco de um assalto, em 1566, destes, resta saber se a razão fundamental que o justifica foi a luta religiosa.

Gaspar Frutuoso (55)refere o acto de forma reprobatória apontando o anti-cato- licismo dos huguenotes, manifesto na profanação dos templos, como sucedcu com

a Sé.

O Padre Eduardo Pereira fez disto uma leitura inflamada, considerando-os

como "sectários, inimigos da nossa crença e política religiosa" e conclui que "a

político por hostilidade ao

trono; o religioso por ódio ao altar" (56).Esta foi também uma forma de manifestar

a sua oposição a A. R.Azevedo (57)que havia afirmado que o mesmo não se justifica

pelo "ódio religioso" mas sim pela "inveja governamental e o embate de interesses

dos cstados marítimos da Europa" pois "as crenças eram estranhas a esta pirataria

armada dos corsários tevc função político-rcligiosa

("') Confronte-se

Manuel

LUCENA

SALMORAL,

Madrid,

1992.

(")

Suududes

du Te/Tu, caps.

44

a 46.

Pimtus

Filibustems

y Corsurios

("') Pimtus

(") "Nota

e Corsúrios

nus ilhus udjucentes,

XXIX. Os Corsários",

in Suudude.f

Funchal,

du Term,

1975,

pp.

Funchal,

95

e 1873, pp. 728-736.

109.

103

en Américu,

sem çrenp" (%I.Todavia a opinião mais unsinime na historiografia d de que este foi um acaso, resultante da mB recexão rnadeirense a um pedido de refresco CW). Deste modo a pwnça do id&o religioso poder4 ser rasbeado, não na justificar;ão

do facto mas sim na forma de concretização.

Ao mesmo nível são considerados os assaltos & corsãrios argelinos às ilhas do

Porto Santo e Santa Maria, de que ficou dlchre o de 1617 (9.A ameaça dos arge- linos terminou em 1774 com a celebração de um pacto de amizade com Marrocos,

após o abandono & Mm@,

a ultima praça a manter a presença portuguêsa. Note

-seque nas vsrias dcligencias feitas na Mesa da ConsciCncia e ordens para o resgatar

das cativos insistia-se no facto "& ser muiio dela de tenra idade e don~ellasnobres a que convinha acudir com presteza pelo perigo que havia de poderem deixar a foe,

como alguns hiam deixando,

"

Cerlamente que esta insistente amqa de corsários argelinos não se justifica

unicamente como reprcdlia a presewa portuguesa na costa marroquins - onde os

também, pode ser enquadrada

no secular afrontamento religioso. 6 de salientar aqui a forma de wtuqlo e o

ohjcctivo dos corsários. A prcsa preferida consistia em mulheres e crian~as,rapina e dcscruir;ão dos templos religiosos e os testemunhos ancestrais, isto 6 os registos documentais da igrcja e muniçipio. O relacionamentocom os cativos não sc resumia apenas em negociar o rcsgatc mas tarnMrn ii sua conversão, o que vcio a suceder, sendo conhecidos como renegados (M). Scm dilivida, foi a partir do último quariel do século xvrri, com a dcçiaraçáo da

madcirenses tiveram uma activa participação-pois,

independencia da Am6iça do Norte e conjuntura politica çonsequente. que o corso foi uma arma ao serviço da poliiica. As transformações político-idml6giças porque passaram os continentes americano e europeu fizeram do Atlântico o espaço privile-

giado de embate. sendo o corso o meio usado. O oceano foi assim a via dc mQtua troca dc ideias, mas também o palco do seu debate e dcfcsa. E, ncstc pariicular, as

ilhasjogaram um papl fundamental.Os tds arquip4lagosdo Moditcrrâneoatlântico

Ibidem p. 733. (*I) Veja-se Ed. FALGAIROLLE, Une eqwditiwzjr~ui.~ri I'fIe de Mud$w rn 15iKi. Paris.

(')

Rcbelo & SILVA, Hisrn'riu d~ Pt~rtuptl,vds. III e IV, Li-

1971-71. pp. 134- 137,589-590.

1895;

Eduardo PEREIRA. rih. c-it.:Jorge ValdcmarGUERRA, 'TI Saqw dos argelinos hilha do Pono

Santoem Ih 17", IsIc~thu,n.-8. 199 I. 57-78:Jncinm Montcim. "Irmirsdes de pintas argelinos em I6 16 e

1675nos mm açorianm", in OI.irlr~w,vd. 6 I, n." B3. 1% 1, pp. 197-203. I") A. N. T. T., Regi.u;o h mw JP Con~:i2tu:iu C ortlpn.~,nP 65. fls. 297. 27 de Junho de 16 1 8,

publicado in Aquivri dris Aptm, vol. VII, p. 335.

ideniica t P situqk KCF ilh~& lan~mtee Fmmventun. veja-w Luis Albeno ANAYA HERNANDEZ,"Rcprcusiones del com beitierisaoen Caiwnnn dumte e1 riglo XVII cautivos y renegadm

canarim-, in V CíiI~quiiidr Histhit~C~1~ri~>-~rne~íu~I982),t. II, pp. 125-177.

(Madeira,Açorese Canárias)foram, mais umavez, a Arca charneira para a expressão

disso.

' Os contactos preferenciais com o continente americano. a assídua presença de

(mercado=

ou corsários) destas pamgens, foiam concerieza um poderoso

velculo de expansão do novo idcário politico saído da declaração da independência dos E. U. A. (1776). Este facto marca um novo momento da vida do até então conhecido como Novo Mundo e do oceano que o separa do Velho Mundo (9,e também uma nova funçãopara a guerrade corso. Por iniciativa dos norte-americanos o corso é utilizado como arma de afrontamento & metrópole e de afirrnar;iiodo idcá-

rio de indcpendCncia dascolónias.A ideia contagioutarnb5m as colóniasespanholas

(Argentina, Bolívia, Colomhia e Peru)e portuguesas (o BrasiI) (n). No caso das Canhias eles chegaram mesmo a incitar os moradores de Tenerife a suhlcvarem-se

contra a metrópole Arnbas as situações surgem como carolario da Revolução libcral (em Espanha no ano de 1808e em Portugal no de 1820). No prirnciro caw,de acordo com a acei- tação ou reprovação da Junta Central, tivemos as coldnias leais e as insurgentes. fi no seio das últimas que surgirão, com o patrocínio dos nortc-americanos os corsários insurgentes. Note-* que estes arvontvarn habitualmente a bandeira dos

E.U.A

sendo a tripulação das embarcações composta por marinheiros de diversas

proveniências, onde pontuavam. mais uma vez,os norteanericanos (""1.

A ligação dos insurgentes aos E. U.A. kf nsistentcmcnte rcferenciadanos relaió-

rios oficiais. Assim em 29 de Abril de 1817 reíere-se: "Se espalharam VOTES de que

os codrios, ou antes piratas, que causavam nos mares desta capitania e ora