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O MAR NA HISTÓRIA

DA MADEIRA

1. O MAR NO NOSSO IMAGINARIO E L-NRA. O mar P uma constante


no imagindrio lusiada. Foi com o mar que se cumpriu Portugal e durante muito tempo, no
dizer do poeta, o mar foi portugu?~.Tudo isto porque os portugueses se lançaram no século
XV A sua conquista. Abateram as barreiras do medo que atormentavam desde a antiguidade
o Atlantico. A mitica ilha que se perdeu e a Ophiusa - o espesso negrume intransponívet que
os portugueses souberam vencer ate abrirem as novas portas do Indico em 1487.
Com os descobrimentos portugueses do s4culo XV desfizeram-se os mitos da antiguidade
e medievalidade e cumpriu-se Portugal no Atldntico, que 6 como quem diz, o Atlantico
tornou-se portugues. Assim o canta ainda que ironicamente Fernando Pessoa na
"mensagem". Desta centenária gesta somos herdeiros e toda a nossa cultura e imaginário
são fruto disso. Olhando o nosso panorama literário é evidente a afirmaçáo do mar como
motivo científico ou po4tico. Camóes em os Lusíadas imortalizou essa parte que continuou a
dominar a inspira~iopoética de Fernando Pessoa da "Mensagem" ou da "Ode Marltima".
Em forma de poema ou prosa livre de diversa cariz o tema mereceu a desejada atenção.
Deste modo o mar e a gesta dos portugueses sáo uma constante da nossa literatura. Zurara
imortalizou o Infante D. Henrique em a "Crdnica de Guine", loáo de Barros e outros
cronistas deixaram-nos o relato disso, Fernão Mendes Pinto fez da sua "Peregrinação" um
manifesto e testemunho dum aventureiro e Bernardo Gomes de Brito recolheu as histdrias
trágicas da vida no mar em "Histbria Trágico Marítima" (1735-1736).Ou, ainda,, a "Nau
Catrineta", que tão bem o romanceio soube preservar. Acompanhar esse processo e abrir
uma das páginas mais nobres da Hist6ria de Portugal.
O Mar poderd assim ser definido na Histbria de Portugal e da ilha através e tr@s
momentos: a descoberta, a -frui~ão,o domínio e a disputa.

2. A DESCOSEMA DO MAR E DA ILHA. A descoberta do mar & um acto


simultâneo com a da ilha. Os portugueses demandam a sul a procura das terras mlticas e
verdadeiras, j6 debuxadas nos mapas. Tudo se passa numa ventura no desconhecido, mesmo
que tudo se repita por diversas vezes. A abordagem da Madeira acontece com o espectro do
espesso negrume que a escondia. E foi, segundo os relatos histbricos, a curiosidade em saber
o que ele escondia que se revelou a Madeira aos navegadores portugueses no ano de 1419.
Desfeita a incerteza e transposto o obstáculo é então o momento de celebrar e de descobrir
aquilo que se nos revela.
Joáo Gonçalves Zarco decide-se fazer o reconhecimento da costa. Este momento merece
ser referenciado, não sd por ser o primeiro encontro com a costa madeirense, mas também
pelas revelações que lhe permite no baptismo dos diversos acidentes da costa. A atençáo
dos marinheiros direcciona-se para a terra e o mar. Na primeira busca boas oportunidades de
abordagem e de fixaçào, enquanto no segundo move a sua atenqão a fauna marinha, do
i seu conhecimento ou não. Um bando de garajaus deu nome a uma ponta: Ponta do
, Garajau. 0 s lobos marinhos que no dizer do cronista, "era enquanto, e não foi pequeno
refresco para ha gente, porque matarão muitos delles, e tiverão na matança muito prazer e
festa", deram nome A Camara de Lobos. No ano imediato tratou-se do assentamento mas a
curiosidade por reconhecer terra que ficara no desconhecimento tinha agora lugar, com "o
correr a costa" até ao seu limite a Ponta do Pargo, assim chamada pelo facto de a i terem
pescado um pargo enorme: "e ho maior que até haquelle tempo tinhão visto, pela rezão do
qual peixe ficou nome aquella Ponta,ha do Pargo".
O facto da toponlmia da costa revelar algumas associações à fauna marinha é revelador
do interesse que os navegadores depositam nesta riqueza e o empenho com que a
observavam: Porto das Salemas (P. Santo), Baixa da Badajeira (Madeira). Na verdade o
Atlântico era desde a antiguidade um espaço privilegiado de pesca, descoberto desde o
s4culo VI A. C. pelos cartagineses. E aquilo que buscavam os portugueses não era s6 novas
terras, mas acima de tudo riquezas no mar e em terra. Tenha-se em atençáo, por exemplo,
que os primeiros frutos do reconhecimento da costa africana estáo no mar, 4 o dleo e pele
de lobo marinho das expediçóes posteriores à de 1436 ao Rio do Ouro, t a l como o
documenta Gomes Eanes de Zurara. Note-se ainda que alguns autores fazem eco da riqueza
em peixe dos mares da Madeira. Assim Cadamosto, em meados do século XV, refere ser
a ilha rica "em garoupas, dourados e outros bons peixes".

O MAR E OS SEUS RECURSOS. A revelação e descoberta do mar adquiriram


interesse devido a possibilidade de fruição das riquezas pisclcolas. Todavia a atenção do
europeu quanto ao mar não se orienta apenas neste sentido. O mar é a sua via de
comunicação e para se servir dela & preciso conhecê-la, atravbs dos sistemas de correntes e
ventos, além do conhecimento dos acidentes da costa, os baixios, etc. É neste contexto que
os portugueses iniciam uma acção pioneira que ir4 permitir o melhor conhecimento do mar
e das suas possibilidades. Surgem assim as cartas de marear, roteiros de viagem, tabelas
hidrográficas e regimentos, que vão permitir uma navegação com maior segurança. Neste
contexto são de referir os trabalhos de Duarte Pacheco Pereira, Joáo Lisboa, Andr4 Pires,
Pedro Nunes, lorge e Pedro Reinel. A ci@ncianáutica teve grande incremento com os
portugueses sendo o momento que medeia o último quartel do seculo XV e os princípios
do seguinte o de maior fulgor, permitindo a navegacão astronbmica.
O conhecimento do mar vai ainda permitir uma evoluçáo no sistema de construção das
embarcações na definição do velame. Tudo isto acompanhado de roteiros e cartas que
asseguram o traçado ideal permite navegar com maior seguranqa e rapidez. Note-se que no
caso da Madeira o calado das embarcações dos primórdios do sbculo XV não permitiam
suportar as invernias pelo que a ilha ficava isolada do reino por cerca de seis meses. Mas aos
poucos esse isolamento quebrou-se com o volume das embarcações e as soluções
engendradas para fugir As tempestades. Também a chamada carreira da [ndia estava
condicionada a determinadas bpocas do ano. O período de saída de ambos os lados deveria
ser bem calculado de modo a retirar bom rendimento do sistema de ventos e correntes
maritimas no Indico e AtlAntico.
Mesmo assim os naufraigios acontecem com alguma periodicidade e o mar é para muitos
portugueses a sua úftima morada. Mesmo assim a carreira da hdia revela um índice baixo de
sinistralidade. De acordo com V. M. Godinho nos registos desta carreira para o período de
1500 a 'i635. Assim em 912 partidas tivemos 84 perdas e em 516 regressos os danos foram
de 75 embarcações. Note-se que nos séculos XVII e XVHI inúmeras embarcacões da carreira
do Brasil, de regresso ao reino com a~iicarou tabaco, sendo vítimas de tempestade aportam
ao Funchal para reparaçáo do velame e mastros e cura dos doentes. A Madeira quanto a isso
nao foge a regra. A costa da ilha não oferece grandes enseadas de abrigo e desembarque e
o Funchal, que se afirmou como o principal porto, encontra-se situado numa zona da costa
que n%ooferece as melhores condiçóes de abrigo na estação invernosa devido aos ventos
que sopravam do quadrante sul. Mesmo assim para o período de 1727 a 1802 só estáo
registados 52 naufrAgios.
A Madeira não esteve alheada desta situação, pois aqui escalavam as naus portuguesas
da rota da Mina, Brasil e India, que aí se abasteciam de vinho e lenha; por vezes, muitas
embarcaçóes espanholas tambbm aportavam A ilha antes do refresco habitual das Candrias.
Assim sucedeu em 1498 com a expediç%o de Colombo. Esse serviço de apoio às
embarcaçóes portuguesas era assegurado e pago pelo provedor da Fazenda da Ilha. Defe
apenas se referencia, em 1517, a entrega de oitenta arrobas de lenha a uma nau que se
dirigia h india e do envio ao reino, em 1531, de duzentas pipas de vinho para a frota da
India. Por vezes as embarcaçbes escalavam a ilha para tomar o vinho necessdrio para a
viagem. Alids não foram 56 os portugueses que utilizaram o vinho madeirense na ementa
das naus que sulcavam o Atldntico, pois Tambem os ingleses o fizeram por diversas vezes; é
o caso, em 1533, da escala de Richard Eraen na sua viagem a Guine, que tomou algumas
pipas de vinho no Funchal. A Madeira Tambem provia as embarcações de retorno que por ai
passavam; assim sucedeu em 1528 com uma nau regia capitaneada por Andrb soares,
procedente de Mina, que recebeu do provedor da fazenda biscoito, pescado, azeite e vinho
para sustento dos dezoito tripulantes, no período de vinte dias de viagem até Lisboa.

3. O W M ~ OE DISPVCA DO MAR.A tradição literdiria aposta na ideia de um mar


indomável capaz de tragar as forças e ímpeto do homem. Para n6s o grande desafio aconteceu
com os portugueses que o souberam vencer no século XV, tal como faz eco Camóes no seu
poema imortal. Esta situaçao criou vantagens aos portugueses para a sua hegemonia no mar,
isto 4 mar descoberto por portugueses um mar que se fecha à presenv de outros. E a teoria
do "mare clausum" (mar fechado) que tanta pol4mica gerou no *ulo XVI.
+
O skculo XV marca o início da afirmação do Atlantico, o novo espaço oceânico
revelado pelas gentes peninsulares. O mar, que até meados do s4culo XIV se mantivera
alheio A vida do mundo europeu, atraiu as suas atenções e em pouco tempo veio substituir o
mercado e via mediterranicos. A abertura, como vimos, foi titubeante, mas'geradora, no
início, de conflitos: primeiro foi a disputa pela posse das Canarias, que se alargou, depois, ao
próprio domlnio do mar oceânico. Portugueses e castelhanos entraram em aceso confronto,
servindo o papado de árbitro nesta partilha. Os franceses, ingleses e holandeses que, num
primeiro momento, foram apenas espectadores atentos, entraram também na disputa a
reivindicar um mare liberum (o mar livre, aberto) e o usufruto das novas rotas e mercados.
Nestas circunst2ncias o Atlantico não foi apenas o mercado e via comercial, por excelência,
da Europa, mas tamb4m um dos palcos principais em que se desenrolaram os conflitos que
definem as opções pollticas das coroas europeias, expressas por meio da guerra de corso.
6 esta contenda político-económica, que o oceano gerou, o tema que prender6 agora
a nossa atenção. Aqui faremos um breve sumário das questões, pondo em evidência as que
nos parecem imprescindlveis para a compreensão do protagonismo dos espaços insulares.
Na realidade, como teremos oportunidade de ver, as ilhas foram os principais pilares
da estratégia de domlnio do oceano, e por isso mesmo todas as iniciativas neste âmbito
repercutiram-se de modo evidente nelas.
Quando os portugueses se lanqaram, no século XV, 3 exploracão do oceano
encontraram, a partida, um primeiro obstáculo. As CanArias, que tão necessArias se
apresentavam para o controlo exclusivo do oceano, estavam já a ser conquistadas por Jean
Betencourt, um estranho navegador, financiado pelos mercadores de Sevilha. Esta foi a
primeira dificuldade, que causou inúmeros problemas A plena afirmação do mare clausum
lusitano. Em face disso, só havia uma possibilidade: tomar posse de uma das ilhas por
conquistar (La Gomera, por exemplo) e avançar com o povoamento da Madeira, que poderia
funcionar como drea suplementar no apoio ao avanço das viagens para o Sul. Seguiram-se
outras dificuldades de importancia igual que entravaram o progresso das viagens para Sul.
A procura de uma rota de regresso da costa africana além do Bojador, preocupou os
marinheiros e entravou a progresso das viagens para Sul. A volta pelo largo com a passagem
pelos Açores foi a solução mais indicada, mas tardou em ser descoberta.

A PARTILHA DO MAR. Em 1434, ultrapassado o Bojador, o principal problema


não estava no avanço das viagens, mas sim na forma de assegurar a exclusividade a partir
daí, j6 que na drea aqukm deste limite isso náo fora conseguido. Primeiro foi a concessão em
1443 ao infante D. Henrique do controlo exclusivo das navegações e o direito de fazer
guerra a sul do mesmo cabo. Depois a procura do benepldcito papal, na qualidade
de autoridade suprema estabelecida pela " res publica christiana" para tais situaçóes. As
bulas de Eugknio IV (1445), Nicolau V (1450 e 1452) preludiaram o que veio a ser definido
pela bula "Romanus Pontifex" de 8 de Janeiro de 1454 e "inter coetera" de 13 de Março
de 1456. Nela se legitimava a posse exclusiva aos portugueses dos mares além do Bojador
pelo que a sua ultrapassagem para nacionais e estrangeiros sd seria possível com a anu&ncia
+
do infante D.Henrique.. Na iiltima situação surgem os castelhanos a partir da decada de
setenta, procurando intervir nas costas da Guine como forma de represália as pretensóes
portuguesas pela posse das Canárias. Não obstante as medidas repressivas definidas em
1474 contra os ~ntrusosno comércio da Guin6 a presença castelhana continuará a ser um
problema de soluçáo diflcil, apenas alcançado com cedências rnUtuas atrav4s do tratado
exarado em 1479 em Alcdçovas e depois confirmado a 6 de Março do ano seguinte em
Toledo. A cedgncia portuguesa estabeleceu a primeira partilha política do oceano,
sancionada pelo papa Sixto IV por bula "Aeterni patris" de 21 de Junho de 1481. A partir de
então ficou legitimada a posse exclusiva para Portugal do mar alem do Bojador. A esta
partilha do oceano, de acordo com os paralelos, sucedeu mais tarde outra no sentido dos
meridianos, provocada pela viagem de Colombo. O encontro do navegador em Lisboa com
D. João II, no regresso da primeira viagem, despoletou, de imediato, o litlgio diplomdtico,
uma vez que o monarca portugu?~entendia estarem as terras descobertas na sua drea de
domlnio. Mas, apressadamente, os reis católicos tiraram partido da presença de um
castelhano A frente do papado - Alexandre VI - e procuraram legitimar a posse das terras
descobertas como pertencendo a sua fatia do Atlântico, por bula de 4 de Maio de 1493,
alterada, depois, por outra de 26 de Setembro. O conflito só encontrou solução com novo
tratado, assinado em 7 de Julho de 1494 em Tordesilhas e ratificado pelo papa JOlio II em
24 de Janeiro de 1505. A partir de então ficou estabelecida uma nova linha divisbria
do oceano, a trezentos e setenta Ibguas de Cabo Verde.
A mesma ideia perseguiu os portugueses com a chegada ao Indico em 1498. Desde
então o rei passou a afirmar-se como " o senhorio da navegação nos mares da Etibpia,
ArAbia, Pérsia e India". Deste modo a presença de intrusos será sujeita a política de cartazes
ou licenças que permitiam a navegacão de estrangeiros. As disputas por esta "parte de leão"
reivindicada pelos portugueses foi interdita por parte de outras coroas que viam na expansào
colonial uma forma de afirmação. Primeiro os castelhanos e depois os franceses,'ingleses e
holandeses. Aos poucos o "mare clausurn" transforma-se no "mare liberum" partilhado por
todos. Se é certo que a disputa peninsular pelo domínio dos mares ficou solucionada
o mesmo já não poderá ser dito quanto a cobiça e empenho doutras coroas europeias.
De França questionou-se mesmo a partilha peninsular, solicitando-se o texto do testamento
de Adão onde isto estava estabelecido. Perante isto restava aos que havia ficado por fora da
partilha o recurso a guerra de corso. O corso 6 assim a resposta dada pelos excluídos ao
domínio iberico dos mares.
Aos demais povos europeus, habituados desde muito cedo as lides do mar, s6 Ihes
restava uma reduzida franja do Atlântico, a norte, e o Mediterraneo. Mas tudo isto seria
verdade se fosse atribuída força de lei internacional as bulas papais, o que na realidade não
sucedia. O cisma do Ocidente, por um lado, e a desvinculação de algumas comunidades da
alçada papal, por outro, retiraram aos actos jurídicos a medieval plenitude "potestatis".
Deste modo em oposição a tal doutrina definidora do mare clausum antepõe-se a do mare
liberum, que teve em Grócio o principal teorizador. A última visão da realidade oceanica
norteou a intervenção de franceses, holandeses e ingleses neste espaco. Os ingleses
iniciaram em 1497 as incursões sucessivas no oceano, enquanto os huguenotes de La Rochelle
se afirmaram como o terror dos mares, tendo assaltado em 1566 a cidade do Funchal.
A última forma de combate ao exclusivismo do atlântico peninsular foi a que ganhou
maior adesão dos estados europeus no século XVI. A partir de princípios da centúria o perigo
principal para as caravelas não resultou das condições geo-climdticas, mas sim da presença
de intrusos, sempre disponlveis para assalta-las. Deste modo a navegação foi dificultada e as
rotas comerciais tiveram de ser adequadas a uma nova realidade: surgiu a necessidade de
artilha-Ias e uma armada para as comboiar até porto seguro. As reclamações insistentes,
nomeadamente dos vizinhos de Santiago, levaram a coroa a estabelecer um conjunto de
armadas para protecção e defesa das Areas e rotas de comkrcio: costa ocidental do reino,
litoral algarvio, dos Açores, da costa e golfo da Guiné, do Bras~l.Eis algumas das
preocupações dos peninsulares nos s~culosXVI e XVII.

PIRATAS E C O R S ~ I O S .O mar deixou de ser um 'deserto acabando por estar


povoado de piratas e corsários. Estes punham-se de guarda aos grandes centros de trdfico
comercial, como o foi o Funchal, para conseguir uma presa fdcil. Aos castelhanos do século
XV sucederam-se os franceses no século XVI a que se seguiram os argelinos no século XVII.
Estes últimos actuam como repres6lia pela presença portuguesa em Africa e incidem a sua
acção sobre a ilha do Porto Santo. Cedo os franceses começaram a infestar os mares
circum-vizinhos da Madeira (1 550, 1566). A partir da união peninsular sucederam-se assaltos
franceses 3 Madeira, no que tiveram a pronta resposta de Tristáo Vaz da Veiga.
A presença de corsários nos mares insulares deve ser articulada, por um lado, de
acordo com a importancia que estas ilhas assumiram na navegação atlântica e, por outro,
pelas riquezas que as mesmas geraram, despertadoras da cobiça destes estranhos. Mas se
1 estas condições definem a incidencia dos assaltos, os conflitos pollticos entre as coroas
europeias justificam-nos a luz do direito da época. Deste modo na segunda metade
do século XVI o afrontamento entre as coroas peninsulares definiu a presença dos
castelhanos na Madeira ou em Cabo Verde, enquanto os conflitos entre as famílias régias
europeias atribuíam a legitimidade necessária a estas iniciativas, fazendo-as passar de mero
i roubo a acção de represhlia: primeiro foi, desde 1517, o conflito entre Carlos V de Espanha
e Francisco I de França, depois os problemas decorrentes da união iberica a partir de 1580.
Esta última çitua~ãoé um dado mais no afrontamento entre as coroas castelhana e inglesa
despoletado a partir de 1557.
! O perlodo que decorre nas duas décadas finais do século XVI é marcado por inúmeros
I
I
I esforços da diplomacia europeia no sentido de conseguir a solução para as presas do corso.
i Para isso Portugal e Franca haviam acordado em 1548 a criaqão de dois tribunais de
arbitragem, cuja funçio era anular as autorjzações de repres6lia e cartas de corso. Mas a sua
existencia não teve reflexos evidentes na acção dos corsários. Note-se que é precisamente
em 1566 que temos noticia do mais importante assalto frances a um espaço portugu?~.Em

t +
Outubro de 1566 Bertrand de Montluc ao comando de uma armada composta de tr?s
embarcações perpetrava um dos assaltos mais terríveis a vila Baleira e a cidade do Funchal.
Acontecimento parecido só o dos argelinos em 1616 no Porto Santo e Santa Maria, ou dos
holandeses em S. Tome.
A mui nobre e rica cidade do Funchal durante quinze dias ficou a mando destes
corsArios, que roubaram os produtos agrlcolas (vinho e açúcar), profanaram as igrejas(a Sé
do Funchal) e aprisionaram muitos escravos. Parte desta presa foi leiloada no momento da
partida com os residentes, ou então vendida na ilha de La Palma, onde fizeram escala. Deste
assalto ficaram alguns relatos e testemunhos presenciais, mas o mais pungente e
pormenorizado foi o de Gaspar Frutuoso, que no livro das "Saudades da Terra" dedicado a
Madeira descreve de modo sucinto os acontecimentos e condena o descuido das suas
gentes. Tal como refere a cidade estava " mui rica de muitos açucares e vinhos, e os
moradores prósperos, com muitas alfaias e ricos enxovais, muito pacífica e abastada, sem
temor nem receio do mal que náo cuidavam".
Uma das consequ6ncias principais deste assalto foi o maior empenho da coroa e
autoridades locais nos problemas da defesa da ilha e, principalmente, da sua cidade, que por
estar cada vez mais rica e engalanada despertava a cobiça dos cors6rios. O desleixo na arte
de fortificar e organizar as hostes custou caro aos madeirenses e, por isso, era um deseje
premente a defesa da ilha. Reactivaram-se os planos e recomendações anteriores no sentido
de definir uma defesa eficaz da cidade a qualquer ameaça. O regimento das ordenanças do
rerno (1549) teve aplicação na ilha a partir de 1559, enquanto a fortificação teve
regimentos (1 567 e 1572) e um novo mestre de obras, Mateus Fernandes. Perante
a incessante investida de corsários no mar e em terra firme houve necessidade de definir
uma estratbgia de defesa adequada. No mar optou-se pelo necessário artilhamento das
ernbarca~õescomerciais e pela criação de uma armada de defesa das naus em transito.
Em terra foi o delinear de um incipiente linha de defesa dos principais portos, ancoradouros
e balas, capaz de travar o possível desembarque destes intrusos.
As mudanças no domínio político e económico operadas ao longo dos seculos XVIII e
XIX não retiraram às ilhas a funqão primordial de escala e espaço de drsputa do mar oceano.
A frequhcia de embarcações manteve-se enquanto o corso ficou marcado por uma forte
escalada, entre finais da primeira centúria e princípios da seguinte. Aos tradicionais corsários
de França, Inglaterra, Holanda vieram juntar-se os americanos do norte e sul. Nestas
circunstancias as ilhas foram de novo confrontadas com uma conjuntura de instabilidade,
idhtica à de um século antes. Ela foi md para o comércio e segurança das populações
insulares. Entre 1763 a 1831 as ilhas da Madeira e Açores foram confrontadas com as
ameaças e intervenção do corso europeu (franceses, ingleses e espanhóis) e americano,
salientando-se nos últimos a represalia dos insurgentes argentinos. Ambos os arquipélagos
se evidenciaram como a encruzilhada de intercepçáo do fogo resultante da guerra de
represália americana e europeia. Por isso os interesses econ6micos insulares foram
molestados, nos períodos de maior incidência.
O mar que durante muito tempo havia sido povoado de monstros e adamastores estd
agora dominado por piratas e corsários. Aos primeiros os portugueses tiveram arrojo
suficiente para 05 desafiar, mas aos segundos faltou força e meios para os levar de vencida.
Tenha-se em conta que num espaço insular irnerso neste mar de contendas a s
vulnerabilidades são maiores. Ninguém ter4 possibilidade de defender eficazmente uma linha
de costa. Assim o testemunham as autoridades madeirenses ao longo dos seculos. Em 1793
dizia-se que a ilha estava "cercada de mar, e pela costa do sul, especialmente cheia de portos
abertos assaz mal guarnecidos e pouco susceptlveis de defesa." Esta realidade 4 um
permanente factor de instabilidade e temor do mar, ou daquilo que ele poder6 trazer, para o ilheu.

4. O MAR NO QUOTIDIAIYO E HIST~RIA. O mar é hoje incontestavelmente um


recurso importante. A sua presença 4 cada vez mais evidente no nosso quotjdiano, como via
de comunicação, espaço de lazer e recurso económico. Se nos reportarmos ao passado mais
evidente se torna a sua presença para espaços como as ilhas. Até ao advento dos meios
abreos o mar foi para os ilhéus aquilo que os aproximava ou afastava de outras ilhas e
espaços continentais. O mar foi e continua a ser a via fundamental de comunicaçao. Daí
advém que o mar estd preso a vista do ilheu e 12 uma presença permanente no seu
quotidiano. A sua ausência gera saudade. O ilhéu por muito tempo teve no mar o seu
cordão umbilical. Perante isto o ilhéu olha o mar com um misto de devoção e medo.
Esta atracção pelo mar condicionou desde o inicio a vocação do madeirense. Deste modo
a Madeira foi terra descoberta, mas também de descobridores. Na verdade, a Madeira,
arquip4lago e Ilha, afirma-se no processo da expansão europeia pela singularidade
da sua intervenção. VArios sáo os factores que o propiciaram, no momento de abertura
do mundo atlantico, e que fizeram com que ela fosse, no século XV, uma das peças chave
para a afirmaçáo da hegemonia portuguesa no Novo Mundo.

OS MMEIRENSES E O DOM~NIO DO MAR. O Funchal foi uma encruzilhada


de opções e meios que iam ao encontro da Europa em expansão. além disso ela P considera-
da a primeira pedra do projecto, que lancou Portugal para os anais da História do oceano
que abraça o seu litoral abrupto. A fundamentação de tudo isto está patente no real prota-
gonismo da ilha e das suas gentes. A função de porta-estandarte do Atlântico, a Madeira
associou outras, como "farol" Atlântico, o guia orientador e apoio para as delongas
incursões oceanicas. Por isso nos séculos que nos antecederam, ela foi um espaGo privilegia-
do de comunicações, tendo a seu favor as vias traçadas no oceano que a circunda e as
condiçóes econbmicas internas, propiciadas pelas culturas da cana sacarina e vinha. Uma e
outras condiçóes contribuíram para que o isolamento definido pelo oceano fosse quebrado e
se mantivesse um permanente contacto com o velho continente europeu e o Novo Mundo.
Como corolário desta ambiencia a Madeira firmou uma posição de relevo nas nave-
gações e descobrimentos no Atlântico. O desenvolvimento rdpido da economia de mercado,
em uníssono com o empenhamento dos principais povoadores em dar continuidade a gesta
de reconhecimento do Atlantico reforçaram a posi@o da Ilha e fizeram avolumar os serviços
prestados pelos madeirenses. Aqui surgiu uma nova aristocracia dos descobrimentos,
cumulada de tltulos e benesses pelos serviços prestados no reconhecimento da costa
africana, defesa das pra@s rnarroquinas, ou nas campanhas brasileiras e Indicas.
A posição geogrdfica da ilha, o seu processo rdpido de povoamento e valorização
econbmica projectou-a para uma rdpida afirmação no Atlantico Oriental. Assim, decorridos
apenas vinte e seis anos sob a ocupação, os moradores da Madeira empenharam-se na
disputa pela posse das Canárias, ao çervico do infante D. Henrique. Em 1446 joão Gonçalves
Zarco, foi enviado a Lanzarote, como plenipotenci6rio para afirmar o contrato de compra da
ilha. Acompanham-no as caravelas de Tristão Vaz, capítáo do donatário em Machico e de
Garcia Homem de Sousa, genro de Zarco. Mais tarde em 1451, o infante enviou nova
armada, em que participaram gentes de Lagos, Lisboa e Madeira, sendo de salientar, no
último caso, Rui Gonçalves filho do capitáo do donatdrio do Funchal.
Para a aristixracia madeirense o empenhamento nas acções marltimas e bklicas 6,ao
mesmo tempo, uma forma de homenagem ao senhor (monarca, donatário) e de aquisicão
de benesses e comendas. Zurara na aCrónica da GuinPn confirma isso, referindo
que a participação madeirense ia ao encontro dos principias e tradições da cavalaria
do reino. O que náo invalida a sua presença com outros objectivos, como sucede a partir
de meados do século XV. Os principais obreiros do reconhecimento e ocupaçáo da Madeira,
como criados da casa do infante D. Henrique, foram impelidos para a aventura africana, com
participação activa nas viagens henriquinas de 1445 e 1460 e nas aventuras belicas nas
praças africanas do norte, nos s4culos XV e XVI. Esta presença de gentes da Madeira
continuara por todo o seculo XV em três frentes: Marrocos, litoral africano além do Bojador
e terras ocidentais. Na primeira e última a presença dos madeirenses foi fundamental.
A tradicão refere que o primeiro homem a lançar-se A aventura do descobrimento das
terras ocidentais foi Diogo de Teive, que em 1451 terA saldo do Faial b procura da ilha das
Sete Cidades, mas que no regresso apenas descobriu as de Flores e corvo. Seguiram o seu
exemplo outros rnadeirenses que gastaram muito de sua fazenda para abrir o caminho, mais
tarde, trilhado por Colombo. A ilha estava em condíqóes de propiciar ao navegador as
informações consideradas imprescindlveis para o descobriinento das terras ocidentais.
Note-se que este apelo do Ocidente é uma consequ4ncia lógica do reconhecimento dos
Açores, ocorrido a partir de 1427, todavia as ilhas mais ocidentais (Flores e Corvo) s& em
1452 foram pisadas por marinheiros portugueses. A sua entrada no domínio lusiada deu-se
por mãos de Pedro Vasquez de Ia Frontera e Diogo de Teive em 1452, no regresso de uma
das viagens para o Ocidente A procura das ilhas mlticas.
As ilhas açorianas, por serem as mais ocidentais sob domínio europeu até à viagem de
Colombo, era o paradeiro ideal para os aventureiros interessados em embrenhar-se na gesta
descobridora dos mares ocidentais. Desde meados do século XV, madeirenses e açorianos
saem, com f requencia assldua, A busca de novas terras assegurando, antecipadamente, a
posse do que descobrissem por carta régia. de notar que este interesse dos insulares pela
descoberta das terras ocidentais 6 muito anterior a Colombo e persistiu ap6s 1492. A
primeira carta conhecida é de 19 de Fevereiro de 1462, sendo a posse das novas ilhas Lovo e
Capraria e outras que iria descobrir, dadas ao João Vogado. Ainda antes de 1492 temos
outras concessões a Rui Gonçalves da Cãmara(21 de Junho de 1473), Fernão Teles(28 de
Janeiro de 1474), Fernão Dulmo e João Afonso do Estreito(24 de Julho de 1486). Apbs a
primeira viagem de Colombo não esmoreceu o interesse dos insulares por tais viagens.
O Ocidente exerceu sobre os ilhéus, madeirenses e açorianos, um fascínio especial,
acalentado, ademais, pelas lendas recuperadas da tradição medieval. Por isso mesmo, desde
meados do s4culo XV, eles entusiasmaram-se com a revelação das ilhas ocidentais - Antília,
S. Brandáo, Brasjl. No extenso rol de aventureiros anónimos que deram a vida por esta
descoberta, permitam-nos que referencie os madeirenses Diogo de Teive, João Afonso do
Estreito, Afonso e Fernão Domingues do Arco. A. Bailesteros identifica este Último como o
piloto andnimo que em 1484 veio a Lisboa pedir ao rei uma caravela para, segundo
Fernando Colombo, "ir a esta tierra que via.". A estas iniciativas isoladas acresce toda uma
tradição literária e os dados materiais visíveis nas plagas insulares. A literatura fantástica, a
cartografia mítica o aparecimento de destroços de madeira e troncos de drvores nas costas
das ilhas açorianas acalentavam a esperança da exiçtència de terras a ocidente. Nas costas
das ilhas açorianas do Faial e Graciosa encalhavam alguns pinheiros, enquanto nas Flores
davam a costa dois caddveres com feições diferentes das dos cristãos e dos negros. Tudo isto
levantava o fervor dos aventureiros que com assiduidade se deparavam perante ilhas que
nunca existiram. A "décima ilha", por exemplo, nunca passou de uma miragem.
A curta permanencia de Colombo no Porto Santo e, depois, na Madeira possibilitou-lhe
um conhecimento das técnicas de navegação usada pelos portugueses e abriu-lhe as portas
aos segredos, guardados na membria dos marinheiros, sobre a existencia de terra a
Ocidente. BartolomP de Las Casas e Fernando Colombo falam que o mesmo teria recebido
das mãos da sogra "escritos e cartas de marear". Ambos os cronistas fazem do sogro um
destacado navegador quatrocentista. Tudo isto não passa de criação para enfatizar a ligação
de arnbas as famílias. Na verdade Bartolomeu Perestrelo, ao contrario de muitos genoveses
ou seus descendentes, não é referenciado nas crónicas portuguesas como navegador. Ele
apenas 6 referenciado como capitão do donatário da ilha do Porto Santo, por carta de
doação de um de Novembro de 1446, e na condição de povoador da ilha acompanhou Joáo
Goncalves Zarco e Tristáo Vaz em 1419. Mesmo assim em sua casa podia ser possível a
presença de tais documentos. Mais importantes foram os elementos que lhe terá fornecido o
seu cunhado Pedro Correia, capitáo da ilha Graciosa (Açores). Dai ele dava conta de outras
noticias das terras açorianas, sem esquecer os despojos estranhos que aportavam com
assiduidade As praias da ilha do Porto Santo.
Ai, na Madeira e Porto Santo, ouviu histórias e relatos dos aventureiros do mar, teve
acesso a provas evidentes da existència de terras ocidentais legadas pelas correntes marítimas
nas praias. Um destes vesttgios foi a castanha do mar, mais popularmente conhecida como
"fava de Colombo". Por tudo isto é legitimo de afirmar que o navegador saiu do
arquipelago, em data que desconhecemos, com a firme certeza de que algo de novo poderia
encontrar a Ocidente, capaz de justificar o seu empenho e da coroa. Durante os cerca de dez
anos que permaneceu em Portugal Cristtivão Colombo acompanhou de perto as expedições
portuguesas ao longo da costa africana. O fascínio do navegador pelo mar, conquistado no
Mediterrâneo como corsário ou comerciante, despertou-lhe o apetite para as navegações
atldnticas portuguesas. No momento em que se fixou em Lisboa toda a atenção e azáfama
estava orientada para o desbravamento da extensa costa africana alem do Bojador, conheci-
da como costa da Guine. Nesta kpoca era já conhecida e navegada toda a área costeira ate
ao Cabo de Santa Catarina, alcançado em 1474, no período do contrato de Fernão Gomes.
de salientar que a Madeira foi por muito tempo a escala obrigatbria das embarcações
portuguesas que se dirigiam a costa africana. Tal facto derivou de o Funchal ser o único
porto seguro, avançado no Atldntico, dispondo de excedentes de cereais e vinho, necessários
A dieta de bordo dos marinheiros. A par disso os madeirenses acalentavam, desde a decada
de quarenta, a aventura das navegaçóes africanas, interessado as famílias principais da ilha.
Por tudo isto é inevitdvel associar a viagem de Colombo A sua curta estadia nas ilhas da
Madeira e Porto Santo, onde contactou com a realidade atlantica, adquiriu as tkcnicas
necessárias para se embrenhar na aventura de busca das terras ocidentais. O retorno do
navegador h ilha, em 1498, no decurso da terceira viagem, pode e deve ser entendido como
o seu reconhecimento aos madeirenses. Aqui teve oportunidade de relatar, aos que com ele
acalentaram a ideia da existencia de terras a Ocidente, o que encontrara de novo.
O convívio com as gentes do Porto Santo havia sido prolongado e cordial pois em
Junho de 1498, aquando da terceira viagem, não resistiu a tentação de escalar a vila. A sua
aproximação foi considerada mau presságio pois os porto-santenses pensavam estar perante
mais uma armada de corsdrios. Desfeito o equívoco foi recebido pelos naturais da terra,
seguindo depois para a Madeira. A 10 de Junho de 1498 a chegada do navegador ao
Funchal foi saudada apoteoticamente, como nos refere frei Bartolomk de Las Casas, o que
provoca mais uma vez, a familiaridade com esta gentes e a esperança que elas depositavam
em tal empresa. O cronista remata da seguinte forma o ambiente de festa que o envolveu:
"le fu4 hecho mui buen recibimiento y mucha fiesta por ser alli muy conocido, que fué
vecino de ella en algún tiempo".
1. :.

O MAR C O M O VIA DE WMUNICAÇÁO. Mas o mar não é 56 a via que leva o


ilhku a aventura da descoberta, pois está sempre presente no dia a dia da ilha. Também as
condiçbes orográficas da ilha o arrastaram para outra ligação ao mar, como via fundamental
do desenvolvimento interno. Toda a economia madeirense 6 dominada pelo mar e define-se
pela litoralidade da sua implantaçao sócio-geográfica. A insuficihcia das comunicações
terrestres, que perdura ate ao nosso s~culo,evidencia a importancia de actuação das vias
marítimas materializadas numa teia complicada de rotas de cabotagem. A sua preferencia 4
muitas vezes relativizada em face dos acidentes e adversidades da costa e do mar, pois os
ventos e as correntes marltimas dificultam a sua utilização. A Madeira, dev~doaos
condicionalismos de ordem geográfica e climática, apresentava reduzidas possibilidades para
o desenvolvimento das vias e meios de comunica@o terrestres e marítimas. Esta condição
limitou as possibilidades de desenvolvimento económico, fazendo restringir essa actuação 3
faixa litoral sul entre Machico e a Calheta, espaço recheado de enseadas e calhetas para o
necessdrio movimento de cabotagem. Assim surgem portos em Machico, Santa Cruz,
Funchal, Ribeira Brava, Ponta de 501 e Calheta. O transporte da produção de açhcar da
Calheta do ano de 1509 para o Funchal fez-se por barqueiros, em conjunto ou
L individualmente; executava-se ao longo de todo o ano, mas habitualmente no período da
safra e de maior exportação, entre Março e Julho.
Ate 1508 todo o movimento com o exterior era feito a partir do Funchal. dai que existisse um
contínuo movimento de cabotagem, entre este porto e os restantes da ilha, para o escoamento
do acúcar. A partir de entáo, ao ser permitida a carga e descarga para a exportação do açúcar,
contribuiu-se para a valorização dos portos das partes do fundo em detrimento do Funchal. Esta
situação manteve-se por pouco tempo, pois no ano imediato a medida foi revqada.
O porto do Funchal surge no dealbar do s6culo XVI como o principal entreposto
madeirense do com4rcio atlântico. A zona ribeirinha do burgo funchalense, em redor da
alfândega nova, era o p61o principal de animação. Aí convergiam mercadores, carreteiros,
barqueiros, mareantes e curiosos. No calhau havia-se instalado em 1488 o cabrestante, cuja
exploração foi concedida em regime de monopólio a João Fernandes Mouzinho, com o foro
anual de cem reais. Desde 1568 a sua exploração seria entregue a uma sociedade, passando
em finais do S4culo a ser explorado por diversos mareantes que Aí construlram um número
variado de cabrestantes. O municlpio aforava não 56 a instalaçáo do cabrestante, mas
tamb4m as casas e os chãos necessários para a actividade desses mareantes e barqueiros. O
foro de um cabrestante variava entre duzentos a trezentos reais, enquanto o de um chio ou
casa se cifrava em trezentos reais.
Perante esta evidencia do mar no quotidiano madeirense será necessário descobrir os
testemunhos dos seus agentes ao longo da História. Note-se que o centro principal de
incidencia dos homens do mar se situava na zona ribeirinha do Funchal. Aí deparamo-nos
com 8 2 % dos barqueiros e 98% dos mareantes. Muitos destes encontravam-se
temporariamente ao serviço de embarcações que apartavam ao Funchal. Desses 12% são do
reino, nomeadamente de Tavira, Faro, Lagos, AlcAcer do Sal, Santarbm, Porto, Esposende,
Sesimbra, Gaja. Viana, Barcelos e Vila do Conde. Sendo assim, o movimento de embarcações
entre a Madeira e o reino era intenso, salientando-se neste último o litoral algarvio, a região
de Lisboa e a costa norte. A Existencia de mareantes fora do Funchal - Calheta, Santa Cruz,
Machico (3%) - evidencia Também a Existgncia de contactos dessas embarcações de
combrcio a longa distância nestas zonas costeiras.
A acostagern de navios e o serviço de carga e descarga foi por muitò tempo um
problema insolúvel para o porto do Funchaf. No século dezoito insiste-se na necessidade de
um molhe. Os estudos começaram em 1755 mas este s6 foi concluído no reinado de D. José.
O advento do s&culo XIX, acarreta novas exigências, mas a reivindicaçáo de um porto capaz
foi-se arrastando até A presente centúria. Nos séculos seguintes continuou a apostar-se no
mar como a via mais f6cil e rápida de comunicaçao, quer na vertente sul quer a norte.
A atestar esta valorização das comunicaçóes maritimas est6 a construçáo de cais nos
principais centros desse trafico. Assim temos na vertente Sul Ponta de 501(1850), Santa
Cruz(1870), Lazareto e Machico(1874), Faial(l901), Cimara de Lobos e Porto da Cruz(l903),
Ribeira Brava(1904-19081, Ponta da Oliveira e Caniço(1909), Ponta da Cruz(l910). E para a
vertente norte surgem os de S. Jorge(l910), Porto Moniz e Seixal(1916)

A CONSTRU@~ NAVAL. Mas o mar não 6 apenas a via que nos aproxima dos
outros, uma vez que também nos brinda com inúmeros recursos económicos. A pesca 6,a par
da actividade agricola, uma ocupas30 das gentes insulares. Ali& num espaço como a
Madeira, onde a orografia condicionou a circulaGo terrestre, o mar 6 a via fundamental que
liga os vdrios núcleos de povoamento que por isso mesmo no início 5e anicham no litoral. O
mar foi o meio de comunicaqão mais usual e importante da comunidade insular, pelo que
teremos de admitir a valorização da constryão naval; ela surge não apenas com a finalidade ,

de assegurar o fornecimento de embarcações de cabotagem, mas também para dar apoio A


navegaç%oatlantica, no reparo das embarcações fustigadas pelos acidentes ou pelas
tempestades oceainicas. Os estaleiros de construção e reparação naval proliferavam nas
principais ilhas do meio insular, sendo esta actividade transforrnadora regulamentada e apoia-
da pelas autoridades locais e centrais, que, por exemplo, asseguravam as licenças neceurias ,

para o corte das madeiras e definiam as dimensões e capacidade das embarca~iiesa construir.
Os estaleiros de Reparaçáo e Construção naval da Madeira situar-se-iam no Funchal, principal
porto da ilha e em Machico sede da capitania do norte, onde as madeiras eram abundantes.
A construçáo de embarcaçóes para a pesca est6 testemunhada desde o inicio da ocupação da ,
'
ilha. João de Barros refere mesmo que João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz fizeram duas
em barcaçóes no Porto Santo, certamente com troncos de dragoeiro, tal como refere Frutuoso. ,

As madeiras da ilha da Madeira foram muito apreciadas no seculo XV na construção


naval, no reino e na ilha. O seu uso imoderado nestas e noutras actividades conduziu A pau-
latina desarborização da ilha, pelo que as autoridades concelhias actuaram no sentido da
defesa do parque florestal madeirense, restringindo o uso das madeiras a sectores essenciais
da vida local. Deste modo proibiu-se a exportação de tabuado e limitou-se a construçao :
naval à constru~ãode caravelões a barcas "pera serviço e maneo das cousas e negocios da
ylha. ..". Em 1515 especificava-se que a madeira apenas deveria satisfazer as necessidades da
pesca do carreto, sendo interdita a sua venda para fora. Por esta razão em 1541 6 incrirnina-
do André Lourenço, mestre de moinhos de açGcar em Santa Cruz, por ter construido uma
embarcação de maiores dimensões do que as permitidas no regimento.

OS RECURSOS DO MAR. A pesca, ao contrário do que hoje acontece não era a


actividade exclusiva de alguns núcleos do sul, pois se alargava a toda a ilha. A afirrnaçio
desta actividade levou à criasão de núcleos piscatbrios que se afirmaram ao longo dos

+
I indústrias no nosso século levou A sua valorização. Em 1909 Adolfo Loureiro assinala os
seguintes portos piscatdrios: Funchal, Caniço, Porto Novo, Aldonça, Santa Cruz, Seixo,
Machico, Caniçal, Porto da Cruz, Faial, S. jorge, Ponta Delgada, S. Vicente, Seixal, Porto
Moniz, Ponta do Pargo, Paul do Mar, Jardim do Mar, Calheta, Fajã do Mar, Madalena do
Mar, Anjos, Lugar de Baixo, Tabua, Ribeira Brava, Campanirio, Camara Lobos e Porto Santo.
A presença dos grandes cetáceos está tambkm testemunhada na Madeira desde muito cedo.

I1 A primeira baleia conhecida na baia do Funchal 6 de 1595, enquanto em 1692 uma outra
capturada rendeu 64 000 réis, mas jd em 1899, ficou por menos de metade, isto é, 30.000 réis..
i Em 1741 Nicolau Soares pretendia estabelecer uma fábrica de transformaç=io de baleia
i na Madeira, mas a resistencia das indiistrias da Baía, temerosos da concorr?ncia, impediu-o
de levar por diante tal objectivo. A indústria em questão sb ter6 lugar apds a grande guerra,
conhecendo -se tr?s fabricas: Garajau, Ribeira Janela e Caniçal. A conserva de peixes
torna-se numa realidade nos primeiros anos da presente centúria: fabrica da Ponta da Cruz
de João A. Júdice Fialho (1909), fdbrica do Paul do Mar de Antdnio Rodrigues Br6s (1912),
transferida em 1928 para a Praia Formosa; Fábrica de Pedra Sina em S. Gonçalo de
Maximiano Antunes (1939); FAbrica de Machico (1949) de D. Catarina Andrade Fernandes
Azevedo, Francisco António Tenório e Luis Nunes Vieira; Fdbrica do Porto Santo (1944). A
partir daqui o pescado da ilha passará assim a ter dois destinos: o consumo público e a
indiistria de conservas, o que veio permitir um aumento das capturas. Até então o único
destino era o consumo público sob a forma de fresco ou salgado. tenha-se em conta o
interesse nas salinas em Câmara de Lobos e Praia Formosa de que existem testemunhos
desde o sbculo XVIII mas nunca adquiriram grande dimensão e interesse.
Desde o inicio da ocupaçáo da ilha que o peixe é um recurso destacado. Deste modo
sobre ele recai um imposto, isto 4, o dizimo do pescado, que onerava todos os barcos de
pesca. No Campandrio, Ribeira Brava e Tabua esse dizimo era cobrado pelos jesuítas, que
desde a segunda metade do século XVI tiveram assento na ilha.
O pescado acudia com maior assiduidade ao Funchal onde tinha escoamento imediato e
um preço mais favordvel. Deste modo sucedia que as diversas localidades da vertente sul
embora dispondo de núcleos piscatdrios debatiam-se quase sempre com a sua falta, por os
pescadores preferirem a sua venda na cidade. Face aos produtos as autoridades municipais
foram forçadas a tomar medidas. Em Machica os pescadores da vila estavam obrigados a a i
venderem 1/4 do pescado, passando em 1640 para 1/3. Já na Ponta do Sol a CAmara proibiu
em 1704 a sua venda para fora do concelho e em 1727 obrigava os pescadores a irem todos
os dias ao mar sob pena de 2 000 rkis. Mesmo assim o Funchal não estava devidamente
abastecido de pescado, necessitando importar arenque salgado de Inglaterra. A prova disso
está no facto do foral de 15 16 os isentar do pagamento do dizimo. Os madeirenses também
iam pescar às costas da Berbéria, um dos melhores bancos de peixe do Atlantico. Disso se
conclui face a uma reclarnaçio dos pescadores em 1596 face ao tributo que pagavam a João
Gonçalves de Ataíde pelo peixe que dai traziam. A par disso sucedem-se medidas
intimidatdrias aos pescadores de Camara de Lobos, obrigando-os, de acordo com mandato
de 1713, a descarregar o seu pescado no Funchal. Esta e outras situações levaram o
corregedor a organizar em 1783 um regulamento para a5 pescas nas ilhas da Madeira e
Porto Santo- Estabelecimento das Pescarias das ilhas da Madeira e Porto Santo- que náo teve
efeito. A par disso sucederam-se medidas de defesa desta industria através de regulamentos
que delimitavam a forma da pescada, quanto as redes a usar e no século XIX o uso abusivo
de bombas, testemunhadas no norte da ilha e P de Sol, situação que levou a uma portaria
de 1877 recomendando ao governador medidas contra essa prática.
A venda do pescado era feita na praça de acordo com condi~õesestabelecidas pelas
posturas. Todo o peixe deveria ser aí vendido a preços tablados e a todos os que
o procuravam, de modo a evitar o uso abusivo dos mais ricos que através dos seus escravos
procuravam tirar o peixe A forca as vendedeiras.
O mareante e o barqueiro, tal como o pescador, assentaram morada na zona ribeirinha
pelo apego ao mar, junto do burburinho do calhau, onde poderiam ouvir o marulhar
das ondas. A zona do calhau, hoje Corpo Santo, acolhia o maior número de marinheiros,
barqueiros e pescadores. A sua influencia foi dominante nesta área citadina. Em Machico,
Santa Cruz, Ribeira Brava, Calheta e na ilha do Porto Santo havia igualmente uma diminuta
comunidade de homens do mar com morada fixa junto ao calhau ou aos ancoradouros. A
pesca ocupava em 1914 mais de mil e quinhentos pescadores com 537 embarcações, já em
1931 temos 1500 pescadores servidos de 24 embarcações a motor e de 508 à vela ou a
remos.

REDESeOBRIR O MAR PARA A C I ~ ~ Q OAinteresse


. pelo mar n i o se reduziu
apenas A junção dos seus recursos econdmicos. Também 6 de registar uma aposta nos estudos
cientlficos a partir do s4culo XVII. A passagem d e alguns cientistas ingleses pela Madeira
propiciou uma primeira descoberta das raridades da sua fauna marinha.. Tenha-se em conta as
expedições de Hans Sloane(1687) e James Cook(1768 e 1772). J6 no decurso do skculo X1X
aumentou o interesse pela ilha, por parte de súbditos ingleses residente ou de passagem.
Destes podemos destacar os estudos de Richard Lowe(1833-1846), interrompidos com a sua
morte num naufrágio em 1874. James Yate Johnson seguiu-lhe o encalço e publicou alguns
estudos atb à sua morte em 1900. O empenho dos madeirenses neste estudo poderá ser
assinalado com Joáo José Barbosa du Bocage. O primeiro a apelar a isso foi Jose Silvestre
Ribeiro quando em 1850 criou o Gabinete de História Natural., que se apagou com a sua saída
em 1852. Todavia a aposta no estudo e divulgação dos recursos marinhos viria só a acontecer
mais tarde com a criação do Aqudrio do Museu Municipal, que abriu ao público em 1951.
A publicação do Boletim do Museu Municipal desde 1945, os estudos de Adão Nunes, Ado
Ifo C h r de Noronha e Gunter Maul vieram a dar conta de quão rico é o noxo património marinho.

A DEV-O E O MEDO. Nas comunidades piscatorias a devoção religiosa adquire


dimensão particular. Esta poderá incidir em qualquer dos santos patronos - S. Pedro o
pescador, S. Pedro Gonçalves Telmo - ou nos oragos do lugar, como é o caso de Na Senhora
i
i
da Piedade para o Cani~al,do Senhor dos Milagres para Machico, de Na Senhora da
Conceição no Porto Moniz e do Senhor Bom Jesus de Ponta Delgada(...). Santelmo era a
invocação 6bvia em momentos de tempestade. A ele associava-se as centelhas luminosas
que apareciam nas extremidades dos mastros dos navios, provocadas pela electricidade
I atmosfkrica. Este fen6meno ficou conhecido como o fogo de Santelmo. A devoçáo ao santo
, ocorria com particular incidencia no Funchal, ao cabo do Calhau, e em Cilmara de Lobos.
Em ambos os portos piscatbrios existe uma capela da sua invocaçáo, cujo culto era
assegurado por uma confraria da responsabilidade dos mesmos pescadores. Todavia
a confraria em questão apostava mais no auxilio mútuo aos pescadores e familiares. Cada
barco deveria entregar uma cotização h confraria que este administrava depois no auxilio em
caso de naufrAgio ou morte. Assim sucedeu no Funchal, Cdmara de Lobos e Calheta, onde
funcionou esta confraria. Já no presente s4culo todo esse apoio passou a actas desde t 939
centralizado Casa dos Pescadores.

EPILOGO. Olhando A histdria da ilha denota-se que o mar, embora obrigatoriamente


sempre presente, não adquire a dimensão que deveria merecer. No inicio, os madeirenses
sáo mais aventureiros do que marinheiros e, depois, continuam quase que a ignorar o mar e
os seus recursos. Para isso dever4 ter contribuido a polltica centralista da coroa, que sempre
estabeleceu limitaçóes a essa redescoberta do mar a partir das ilhas. São os entraves
ao desenvolvimento da construçáo naval e os segredos que medeiam os conhecimentos
sobre o mar.

Perante tudo isto o madeirense afirma-se como agricultor e aventureiro, que faz-se
transportar e As suas riquezas por outrem. De entre, os homens que tem por palco o mar,
s%oum grupo reduzido, o que gera algumas dificuldades nomeadamente no aproveitamento
dos seus recursos para a alimenta~ão.No passado foi insistente a falta de pescado para
abastecimento do mercado local, tornando-se indispensável a sua importação. De igual
forma o madeirense deixou entregue a mãos alheias a tarefa de estudo e conhecimento do
mar. foram os ingleses que tiveram o condáo de nos revelar quão rico era o mar que nos
rodeiam.

* Historiador

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