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E TECNOLOGIA DO AÇÚCAR

A MADEIRA, A EXPANSÃO E HISTÓRIA DA TECNOLOGIA DO AÇUCAR

com "

ALBER'IQ VIEIRA

CEHA

Avieira@nesos.net

sua pouca ciência e menos experiência,

saiu aquele assuqre assim tiio bom e tão fino."

[ Gaspm Frutuoso, Livro Qurirtci du Sdude.~du

Terru, vol.11, Ponta Delgada, 1981, p.21 1.1

A cana de aqúcar é de todas as plantas domesticadas pelo Homem a que

mais implicações teve na Hist6ria da Humanidade. O seu percurso multissecular, desde a descoberta remota na Papua (Nova Guiné) 5i 12.000 anos, evidência esta

realidade. A chegada ao Atlhtico, no século XV provocou o maior fenómeno migratório que foi a escravatura de milhões de africanos e teve repercussões ' evidentes na cultura literária, musical e liídica. Foi também no Atlântico que a cultura atingiu a plena afirmação económica, assumindo uma posição dominante

no sistema de trocas.

A rota do açúcar, na sua transmigração do Mediterrâneo para o Atlilntico,

tem na Madeira a principal escala. Foi na ilha que a planta se adaptou ao novo ecossistema e deu mostras da elevada qualidade e rendibilidade. A história do +ar na Madeira confunde-se com a conjuntura de expansão europeia e dos momentos de fulgor do arquipélago. A sua presença 6 multissecular e deixou rastros evidentes na sociedade rnadeirense. Dos séculos XV e XVI ficaram os imponentes monumentos, pintura e a ourivesariaque os embelezou e que hoje jaz

quase toda no Museu de Arte Sacra. Do século XIX e do primeiro quartel da

nossa centúria perduram ainda a maioria dos engenhos desta nova vaga de cultura dos canaviais. Aqui, a cana diversificou-se no uso industrial, sendo geradora do

hlcool, aguardente e, raras vezes, o aç6car

A Europa sempre se prontificou a apelidar as ilhas de acordo com a oferta

de produtos ao seu mercado. Deste modo, sucedem-se as designações de ilhas do

pastel, do açúcar e do vinho. Q a@car ficou como epiteto da Madeira e de

as,ande a aituia foi a vari&a 'de mndão que ~mfomoria

do outro lado do oceano das se

o qúw, uma vez que serviram de ponte à passagem do

levhcia que assume o estudo do

stimição da rota do açúcar. A

e.Primeiro, porque Foi

expansão ao espago exterior qualquer das casas as ilhas

acompanharam a dikpora europeia

ndividêncisi quotidiana das novas

es e monomias que, em muitos casos, se afirmaram como resuItada dele.

'A cana sacarina, pelas espeçificidades do cultivo,

, num &'-$e

especialiqão e morosidade do

psss Be transfmm@o em açúcar, implicou uma vivência particular, assente

wrnplex~&io-culttlral da vida e convivência @mana. Neste

contexto a M&im;x.mmtweWm ps@

&mk,

por ter sido a primeirã área

da~~~~k~or isso mesmo, foi aqui que se

'nova&&miaa&

) que materiüiizararn a

scindívrsl a análise da sitwqh r, exaustivamente, a civiliaçfio

os demais produtos e

agenas A intervengo no processo hidades aaps da mklam a

a Historiografia a definir o

i não est8vmos perante ram9

pretendia-se

bon;finar esta

rnica e social com o conceito.

m a &rPriogtafia

europeia,foram o princípio da

e da vimdqk aos escravos. Desb wado nas

Wntd mrn as primeims mqukios da qua pmid8 b Saa c, depois & Madeira, dbnh se

expandiram no Atlânticol. Diz-se, ainda, que a ligação do escravo, negro ou não, à cultura dos canaviais foi uma invenção do ocidente cristão, não havendo lugar

no mundo muçulmano. Neste

contexto

surgiu

o

conceito

Plantation,

ou

plantagem para os brasileiros,

a

definir

a

organização

social,

económica

e

política da agricultura que tinha por base este produt02. Sidney Greenfield3 estabeleceu para o arquipélago madeirense uma função primordial na afirmação da escravatura e relações económico-sociais envolventes: A Madeira foi o elo de

ligação entre "Mediterranean Sugar Production" e a "Plantation Slavery". Sucede que a escravatura da Madeira não assumiu uma posição similar à de Cabo Verde,

São

Tomé,

Brasil

ou

Antilhas,

não

obstante

o

surto

evidente

de

produção

açucareira.

Aqui,

ao invés

daquilo

que tem

lugar,

o escravo

não

dominou

as

relações sociais de produção:

ele

existiu,

sob

a

condição

de

operário

especializado ou não, mas a posição não era dominante, tal como sucedia nas áreas supracitadas.

A presença

do açúcar

na Madeira

enquadra-se

na tradição

Mediterrânea

desta cultura. Aliás, foi na Sicília que o infante D. Henrique viu o exemplo para a transformação económica da ilha, mandando vir socas de cana e mestres de

engenho. Os canaviais

Cadamosto, conhecedor desta ilha, estabelece uma comparação entre as ambas ilhas quanto à riqueza e processo económico.

existiam

na

Sicília

desde

o

século

X.

Note-se

que

O

açúcar

era,

acima

de

tudo,

um

complemento

fundamental

na

vida

económica da ilha. Sucedeu assim até meados do século XVI e, depois, a partir de finais do século XIX, tudo mudou. A riqueza chegou aos proprietários mas também a arraia-miúda, sendo um factor de progresso social. Com ele ergueram-

se igrejas - a Sé do Funchal é um exemplo disso -, amplos palácios que se rechearam de obras de arte de importação, testemunhos evidentes estão no actual Museu de Arte Sacra. A arte flamenga na ilha é um dom do açúcar. O Progresso sócio-económico da ilha, o protagonismo na expansão atlântica -- nos descobrimentos e defesa das praças africanas -- só foi conseguido à custa da elevada riqueza acumulada pelos madeirenses. Todos, sem diferença de condição

I Sobre a expansão do açúcar no Mediterrâneo veja-se: Carmelo TRASSELLI, Producción y comercio dei azúcar en Sicilia deI siglo XVIII ai XIX, Revista Bimestre Cubana, 72, 1957, 138- 141; José PEREZ VIDAL, La cultura de la cana de azúcar en el Levante espaiiol, Madrid, 1973; J. H. GALLOWAY, The Mediterranean sugar industry in Geographical Review, 67,1977, 177-194; William PHILIPS, Sugar production and trade in the Mediterranean at the end af the crusades, in

Meeting of two worlds, ed. Vladimir P. Goss, Michigan,

Seminario internacional. La cana de azucar en el Mediterrâneo, Motril, 1990

2 S. Mintz, SugarCJndsociety in Caribbean, New Haven, 1970, p. XIV; Eric R. Wolti'Sidncy

W. Mintz, Haciendas y plantaciones en Mesoamérica y Ias Antillas, in Enrique Florescemo(cord.), Haciendas, latifundios y plantaciones en America latina, Mexico, 1975; Philip D. Curtin, The rise and fall of the plantation complexoEssays in atlantic history, Cambridge, 1990.

1986, 383-406; Actas dei segundo

3 Madeira and the beginings of sugar cultivatian and plantation slaves, in COl1lparalive

perspectives onnewworld

plantation societies, N. York, 1979, pp. 236-252.

,bsocial,fmiram da riqueza. Até a opulência e luxúria da própria coroa, longe no Tareino,foi conseguida, por algum tempo, com o açúcar que a coroa arrecadava na U(iIha.

Y A canade-açúcar na primeira experiência além Europa demonstrou as %possibilidadesde rápido desenvolvimento fora do habitat mediterrânico. Gaspar njFrutuoso testemunha isso mesmo ao referir que "esta planta multiplicou de

drnaneira na terra, que he o assucar della o melhor que agora se sabe no mundo, o

lhe faz tem enriquecido muitos mercadores

,forasteiros e boa parte dos moradores da terrao4.Tal evidência catalizou as ,atenções do capital estrangeiro e nacional que apostou no seu crescimento e ,promoção, pois assim se poderá compreender o rápido arranque. Esta que, nos primórdios da ocupação do solo insular, se apresentava como uma cultura subsidiária, passou de imediato a dominante, situação que manteve por pouco tempo.

.,igual com o beneficio que se

PROJECÇÃO

DOS

CANAVIAIS

E

AÇÚCAR

MADEJRENSE

NO

MUNDO.

A Madeira afirmou-se no processo da expansão europeia pela singularidade do protagonismo. São vários os factores que o propiciaram, no

momento de abertura do mundo atlântico, e que fizeram com que ela fosse, no século XV, uma das pqas-chave para a afirrna~ãoda hegemonia portuguesa no Novo Mundo. O Funchal foi uma encruzilhada de opções e meios que iam ao encontro da Europa em expansão. Além disso a ilha é considerada a primeira pedra do projecto, que lançou Portugal para os anais da História do oceano que abraqa o litoral abrupto. A função de porta-estandarte do Atlântico, n Madeira associou outras, como "farol" Adântico, o guia orientador e apoio para as incursões oceânicas, Por isso ela foi um espaço privilegiado de comunicsições,

tendo a favor as vias traçadas no oceano que a circunda e as condições econbmicas internas, propiciadas pelas culturas da cana sacarina e vinha. Uma e outra contribuíram para que o isolamento definido pelo oceano fosse quebrado e assumisse um permanente contacto com o velho continente europeu e o Novo Mundo. Como corolário disto a Madeira firmou uma posição de relevo nas navegações e descobrimentos no Atlântico. O rápido desenvolvimento da

economia de mercado, em unissono com o empenhamento dos principais povoadores em dar continuidade à gesta de reconhecimento do Atlancico, reforçaram a sua posição e fizeram avolumar os serviços prestadcis pelos rnadeirenses. Aqui, surgiu uma nova aristocracia dos descobrimentos, cumulada .,,de títulos e benesses pelos serviços prestados no reconhecimento da costa

africana, defesa das praças marroquinas, ou nas campanhas brasileiras e indicas5.

A par disso a ilha foi, nos dvores do skculo XV,como a primeira experiencia de

ocupação em que se ensaiaram produtos, técnicas e estruturas institucionais, que depois foi utilizado, em larga escala. noutras ilhas e no litoral africano e americano.

O sistema institucional rnadeirense apresentava uma estrutura peculiar,

, definida pelas capitanias. Foi a 8 de Maio de 1440 que o infante D. Henrique

lançou a base da nova estrutura ao conceder a Tristão Vaz a carta de capitão de Machico. A partir daqui ficou estabelecido o sistema institucional que deu corpo ao governo português no Atlântico insular e brasileiro. Sem dúvida que o facto mais significativo da estrutura institucional deriva de a Madeira ter servido de modelo referencial para o delineamento institucional do espaço atlsntico. O monarca insiste, nas cartas de doação de capitanias posteriores, na fidelidade ao sistema trqado para a Madeira. Assim o comprovam idênticas concedidas aos novos capitães das ilhas dos Açores e Cabo Verde, tal como em S. Tomé e ~rasil~. João de Me10 da Câmara, irmão do capitão da ilha de S. Miguel, resumia em 1532' de uma forma perspicaz o protagonismo rnadeirense no espaço atiântico. Segundo ele a sua fitmíIia era portadora de uma longa e vasta experiência "porquea ilha da Madeira meu bisavB a povoou, e meu avô a de São Miguel, e meu tio a de São Tomé,e com muito trabalho, e todas do feito que

".

Isso dava-lhe o alento necessário e abri-lhe

perspectivas para uma

iniciativa de sucesso no Brasil. Ele reclamava o protagonismo do ancestral Rui

Gonçalves da Câmara que em 1474 comprara a ilha de S. Miguel, dando início ao

verdadeiro povoamento. A mesma percepção surge em Gilberto Freire que em

1952 não hesita em afirmar: "A irmã mais velha do Brasil 6 o que foi verdadeiramente a Madeira. E irmã que se estremou em termos de mãe para com

a terra bhbara que as artes dos seus homens, concorreram para transfomur rápida e solidamenteem nova ~usitâninia"~. Outra componente importante da afirmação da ilha como modelo de refesncia tem a ver com a organização da sociedade no espaço atlântico e da importância assumida pelo escravo. Mais uma vez a Madeira 6 o ponto de

parlida para a transformação social. De acordo com S. ~reenfield'ela serviu de

Confrontese João Josd Abreu de SOUSA, 'Emigração madeirense nos séculos XV LI

XVII", in Athtico, no. 1, Funchal, 1985, pp. 46-52.

David F.GOUVEIA. "A manufactura açucareira madeitense [ 1420- 15501", in Ailântico,

no. 10, Funchal. 1987, p. 13 1.

7 Sachanun, n0.3,SãoPaulo, 1978, pp. 5-12.

a Aventura e Rotinu. 20 ed 44046,448449

pp

9 i 'Madeira and the beginings of New World sugar cane cultivation and plnntation slavery: a study in wnstitution buiIdingW,inVera RUBIN e Artur TUNDEN (eds.),Con~parativepers~~ective.~ on sla,yer#iNm World Plantuíiur Socieries, N. York, 1977.

&& 0 "Mediterranean Sugar Production" e a "Plantation Sfavery"

v8 autor não faz mais do que retomar os argumentos aduzidos por

hdento desde a &cada de sessenta.Note-se que esta argumentação

verdade,

tdgixns reparos na formulação, mercê de novos estudos1'. Na

foi concretizado em termos do mundo atlântico português teve por

social, político e

sucedido na Madeira. A Madeira foi ao nível

eo, o ponto de partida para o "mundo que o português criou.:." nos Neste contexto 6 sumamente importante o conhecimento do sucedido nu

'''#&kitfa

quando pretendemos estudar e

compreender as

outras

situações.

"'blwmbo abriu as portas ao Novo Mundo e traçou o rumo da expansão da cana de

qtlcar. Note-se que esta cultura não lhe era alheia, pois o navegador tem no ~umiculmalgumas actividades ligadas ao comércio do açúcar na Madeira. O navegador, antes da relação afectiva ao arquipélago, foi, a exemplo de muitos

genoveses, mercador do açúcar madeirense. Em 1478 eIe encontrava-se no

Funchal ao serviço de PaoIo di Negro para conduzir a Gknova 2400 arrobas a

Ludovico Centurione. Com esta viagem e, depois da larga estância do navegador na ilha, Cofombo ficou conhecedor da dinâmica e importância do açúcar &U

Madeim. Em Janeiro de 1494, aquando da preparação da Segunda Viagem, o

navegador sugere aos reis cat6licos o embarque de 50 pipas de mel e 10 caixas de

açúcar da Madeira para uso das tripulações, apontarido o petíodo que decorre até

a Abril como o melhor momento pm o adquirir12. A isto podemos somar a passa m do navegador pelo Funchal no deamo da terceira viagem em Junho de

1498 =!I

podemos apontar como muito prov&veia presença & socas de canas da

Madeira na bagagem dos agricultores que o acompanhavam. Note-se que neste

momento a cultura dos canaviais havia adquirido o apogeu na ilha, mantendo-se

uma importante franja de canaviais ao longo da vertente sul.

A tradição anota que as primeiras smas de cana enviadas para o Novo Mundo sahm de L.Gomera. Todavia, a cultura encontrava-se ai em expansão, enquanto na Madeira estava j6 consolidada. Por outro Ido estão ainda por

descobrir as razões que conduziram Colombo, no decurso da terceira viagem, a

fazer um desvio da rota para escalar o Funchal. Na verdade, a Madeira foi a

primeira área do Atlântico onde se cultivou a cana-de-açircar que, depois, partiu h

conquista das ilhas (Açores, Canárias, Cabo Verde, S. To&

e Antilhas) e

111 "Pt.Boédents et paralèiles

wropehs de I'esclavage colonial", in Itdtuto, wl. 1 13,

Coimbra, 1949; "horigines coloniales de la civjlization atlantique. Antkcédents et types de

mnicture",in Jod of Wod History, 1953, pp. 378-398;Précédenrs médiévau de la colonie en

Adrique, Mkxiw, 1954; Les origines de lu civilieaiion ailaniique, Mêuchatel. 1966.

" Confronte-se Alfonso FRANCO SILVA, "La wlavitud en Andaiucia

".in

Studia, no. 47,

Ligboa, 1989, pp. 165-166;Alberto VIEIRA, Os escravos no orquipilngo da Madeira. siculos XV n

XVII, bchal, 1991.

" CA-

cOL~N,Texiosy doemos cutnpleros,Madrid, 1984, p. 160.

13 Fray Bartolomé de Ias CASAS, Hkoria

& Ins Indias, V01 . I, México, 1986,

p. 497.

continente americano. Por isso mesmo o conhecimento do caso madeirense assumeprimordial importância no contexto da História e geografia açucareira dos

sécas XV a XVII.

d';O açúcar da Madeira ganhou fama ao nível do mercado europeu. A sua

qualidade diferenciava-o dos demais e fê-lo manter-se como o preferido de . muitos consumidores europeus. Deste modo o aparecimento de açúcar de outras ilhas ou do Novo Mundo veio a gerar uma concorrência desenfreada ganha por aquele que estivesse em condições de ser oferecido ao melhor preço. Um testemunho disso surge-nos com Francisco Pyrard de Laval: "Não se fale em França senão no açúcar da Madeira e da ilha de S. Torné, mas este é uma bsigatela em comparação do Brasil, porque na ilha da Madeira não mais de sete ou oito engenhos a fazer açdcar e quatro ou cinco na de S. ~orn6"'~.E refere que no Brasil laboravam 400 engenhos que rendiam mais de cem mil urrobas que,

segundo o mesmo,são vendidas como da Madeira.

O mais significativo da situqão do novo mercado produtor de açúcar é que

o rnadeirense encontra-se indissociavelmente ligado a ele. Na verdade, a Madeira foi o ponto de partida do açúcar para o Novo Mundo. O solo madeirense confirmouas possibilidades de rentabilização e de abertura de novo mercado para

o açúcar. Tambem o incola foi capaz de agarrar esta opção, tornando-se no

obreiro da sua difusão no mundo Atlântico. A tradição anota que foi a partir da Madeira que o açúcar chegou aos mais diversos recantos do espaço atlântico ,e que os técnicos madeirenses foram responsáveis pela sua implantqição. O primeiro exemplo é Rui Gonçalves da Câmara, quando em 1472 comproii ri capitania da ilha de S. Miguel. Na expedição de posse da sua capitania fez-se acompanhar de canas da Lombada, que entretanto vendera a Joiío Esmeralda, e dos operários para a tornar produtiva. A estes seguiram-se outros que

corporizaramdiversas tentativas frustradas

ara fazer vingar a cana de açúcar nas

ilhas de S. Miguel, Santa Maria e Terceira .

I?

Em sentido contrário avançou o açúcar em 1483, quando o governador D. Pedro de Vera quis tornar produtiva a terra conquistada nas ~an~rias'"De novo a Madeira surge disponibilizar as socas de cana para que aí surgissem os canaviais. Todavia, o mais significativo é a forte presença portuguesa no processo de conquista e adequaqão do novo espaço a economia de mercadoi7. Os portugueses. em especial os madeirenses, surgem com frequência nas ilhas

l4 Viagem de Francisco Pyrard de Lavnl, Vol. I, Porto, 1944, p. 228.

lS Gaspar FRUTUOSO,Livro Quarto das Saudades da Terra, Vol. 11, pp. 59, 2G9-212;

V. M. GODINHO, Os Decobrirnentos e a Economia Mundial., Vol. IV, F. Carreiro da COSTA, "A

sua História" in Boktini dn CniizissFm

cultura da cana-deaçúcar nos Açores. AIgumas notas para a

Reguladora do Comdrcio de cereais &s

Açores, no 10, 1949. 15-3 1.

'"oquista

de lu Isla de Gm Canaria, La Laguna, 1933,p. 40.

I' José P~RU VIDAL, Los Portugueses en Canarias. Porluguesisims, Las Palmas, 199 1;

lig&&&

ao processo de arroteamento das terras, como colonos que recebiam

datas de terras na condição de trabalhadores especializados a soldada", ou de

operários especializados que construíam engenhos e os colocam em movimento. O avanço do açúcar para sul ao encontro do habitat que veio gerar o boom da pmdução, deu-se nos mos imediatos ao descobrimento das ilhas de Cabo Verde e

S. T&. Todavia, só nesta última, pela disponibilidade de água e madeiras, os canaviais encontraram condições para a sua expansão. Deste modo em I485 a

coroa recomendava a João de Paiva que procedesse à plantação de cana do açdcar. Para o fabrico do açicar refere-se a presença de "muitos mestres da ilha da Madeira".

'

A partir do século XVI a concorrência do açúcar das Canárias e S.Tomé

aperta o cerco do açúcar madeirense o que provocou a natural reacção dos

agricultores madeirenses. Deste mdo sucedem-se as queixasjunto da coroa, que

ficou testemunho em 152719.Em vereação reuniram-se os lavradores de cana para reclamar junto da coroa contra o prejuízo que lhes causava o progressivo

desenvolvimento desta cultura em S. Torné. A resposta do rei, no ano imediato2', remete para uma anitlise dos interesses em jogo e depois, no prazo de um ano,

seria tomada uma decisão, que parece nunca ter vindo. Notese que a exploração

fazia-se directamente pela coroa e a partir de I529 surgem os particulares

interessados nisso. Enquanto isto se passava, do outro lado do Atlhtico davam-se os primeiros passos no arroteamento das temas brasileiras. E, mais uma vez, é

notada a presença dos canaviais e dos madeirenses como os seus obreiros. A

coroa insistiu junto dos madeirenses no sentido de criarem as infra estruturas necessárias ao incremento da cultura. Ali&, o primeiro engenho ai erguido por

iniciativa da coroa contou com a participação dos rnadeirenses2'.Em 15 15 a

coroa solicitava os bons ofícios de alguém que pudesse erguer no Brasil o

primeiro engenho, enquanto em 1555 foi construido pelo madeirense João Velosa

um engenho a expensas da fazenda reaf2. Esta aposta da coroa na rentabilização

do solo brasileiro atravds dos canaviais levou-a a condicionar a forja de rnãiode-

obra especializada, que então se fazia na Madeira. Assim, em carpinteiros de engenho da ilha estão proibidos de ir à tem dos mouros.

1537~~os

IR Pedra MARTINEZ GALINDO, Protocolos de Rodrigo

par&, La hguna, 1982, pp. 67,84-W,GuiBermo CAMACHO Y

la cana de anlcar y Ia industria awcarera w Gran Canaria (1510-1535) in Anuario de EnFt1~lin.v Atlaniicos, nl 7,1961,35-38; Maria LUSA FABRELLAS, "Laproduccibn de azilcnr en Tenerife"

Fernandez (1520-1526). Primera

GALDOS, "Hcultivo de

in

Revista de História, na 100, 1952,454/475.

l9AIEM, CMP, Verea@?s 1527, ff. 23 v 1,26 de Março.

"MM,Doe-ntos Avulsos, n* 66,8 de Fevereiro 1528.

21 Alberto LAMEGO, "onde foi iniciado no Brasil a iavoum canavieira. onde foi levantado

o

primeiro engenho de a@af in B. Açhr, no32,1948, pp. 165- 168.

Arquiva Geral da Aifãndega de Lisboa, livro 54, fl. 41; Doctumntos para a Hh~óriado

Açúcar, ed. I, A. A. VoI I, Rio de Janeiro, 1954, pp. 12 1- 123,5 de Outubro I 555.

platina decréscimo da

E a partir daqui que se estabelece um vínculo com n Madeira,

vés do trafico ilegal de açúcar para o Funchd ou então ao europeu com a designação & Madeira. Este movimento seguiam-se as

ligações entre os que do outro lado do Atlhtico via florescer a cultura que na ilha ficavam sem os seus benefíciosn. Contra isso intervieram os

do a compra de @car

1610 os rnadeirenses

, por isso a edilidade

em

que estes

se

620 nas 1178 caixas

ar do Brasil e 1992 capacidade concomncial do açdcar insular irremediavelmente perdida. Os canaviais foram desaparecendo

mte das terras, dando lugar aos vinhedos. Apenas a conjuntura da

metade do32 século dezanove pemitiu o seu retorno. Mas foram

as tentativas para a produçáo & açúcar, s5 possível diante uma

perderam a h~ãode produtores do açúcar,

branco dos insulares, mas em contrapartida favoreceram uma produção

, "que agora M em Pemambum".

GOUVBIA+"A mmfactura madeirense (1420- 1550). smissão da tecrrologia açucareira", in Atlântico, no 10,

Pernambuco em cerca de cem mil réis de uma companhia

Poriiigal o Brrrrii e o Athtico (1570-1670),Vol. I, Lisboa, 1989, p. 248-249.

ANTT, PJRFF, no364.

' Cma gd

& Semia, Rio de Janeiro, 1987, idem, Nordeste, Rio de Janeiro,

,

,.a

& c aguardente. Daqui resultam as actuais sobrevivências da

eira e Canfias.

-7:

-

'h A moenda e o consequente processo de transformação da guarapa em

Wcar, mel, dcool ou aguardente projectaram as áreas produtoras de canaviais

->.

;+ ., para a linha da frente das inovações técnicas, no sentido de corresponderem as 'cada vez maiores exigências. A madeira e o metal foram a matéria-prima que deram forma a capacidade inventiva dos senhores de canaviais e engenhos. Nu moenda da cana utilizaram-se vários meios tkcnicos comuns ao mundo mediterrinico. A disponibilidade de recursos hídricos conduziu à generalização do engenho de água. Na Madeira, o primeiro engenho particular que temos conhecimento foi o de Diogo de Teive em 1452. E este terá sido o primeiro engenho que se veio juntar ao lagar do infante. O infante, donatário da ilha, detinha o exclusivo destas infra-estruturas e quem quisessem segui-lo deveria ter autorização sua. Este documento espelha apenas a situação. A estrutura resultou nas áreas onde era possivel dispor da força motriz da hgua fez-se uso da força animal ou humana. Os Ultimos eram conhecidos como trapiches ou almanjaras. O infante D.Fernando em 1468 refere as estruturas diferenciando os

engenhos de água, alçapremas e trapiches de besta. Até i generalimçiio dos

engenhos de cilindros horizontais no skulo XVII, a infra estrutura para espremer as canas era composta do engenho ou trapiche e da alçaprema. Não conhecemos qualquer dado que permita esclarecer os aspectos técnicos deste engenho3" Apenas se sabe, segundo Giulio Landi, que na década de trinta do século XVI funcionava um com o sistema semelhante ao usado no fabrico de azeite: "Os lugares onde com enorme actividade e habilidade se fabrica o açúcar estão em grandes herdades, e o processo é o seguinte: primeiramente,

depois que as canas cortadas foram levadas para os lugares acima referidos,

põem-nos debaixo de uma movida a água, a qual triturando e esmagando a cana, extrai-lhes todo o

Na ilha de São Miguel a cultura da cana está inegavelmente ligada aos rnadeirenses. A eles se deveu o transplante das socas e da tecnologia3? Gaspar Frutuoso conta que em Ponta Delgada Bastião Pires contratou o madeirense

33 Sobre a hist6ria dp engenho e a discussào das inovações tecnológicas o estudo inais

importante foi publicado por John e Cristian DANIELS, The origin of rhe sugar cane roller rnill.

Technology and Culture,vol. 29, no.3,1888, pp. 493-535. Ant6nio ARAGÁO, A Maaèira vista por estrmgeiros, Funchal , 1981, p. 87.

35 G&par Frutuoso, Livro Quarto das Saudades da Terra, vol.11, Ponta Delgada, 198 1,

p. 209-212.

-

deu ordem como se fez um engenho de besta, corno de

pastel, mas o assento da rnb diferente, porque era de uma pedra grande e mui &-a, a maneira de garnela ¢ furada pelo fundo, por onde o sumo das canas, que btro nela se moiam, ia por debaixo do chão, por uma calle ou bica, sair fora do

l'az,

Ao qual

:mdaimo da besta que moia, e assim fez fazer tarnbem

um fuso e caixa para

espremer o bagaço, e uma fornalha com uma caldeira em cima, a maior que então

%e achou, onde cozia aquela calda, e cozida a deitava em uma tacha e ao outro dia

Ma o mesmo, ate que fez c6pia de melado para se poder fazer assuqre ( ma pouca ciência e menos experihcia, saiu aquele assuqre. assim tão bom e tão

com

)

ml5;::- , ,I ,,

Uma das questões que mais tem gerado polémica prende-se com a

#Valuçiio da tecnologia usada para espremer a cana. O aparecimento e ~@er&qão dos cilindros horizontais e depois verticais é um processo tem ocupado os especialistas nos últimos anos sem se conseguir quer consenso. O primitivo trapenm era jd usado na Roma antiga itonas e sumagre, sendo, segundoPlínio, inventado por Arístreu, s dos pastores". Mas este tomou-se um meio pouco eficaz com a ralizaqão da produção e comércio no decurso do século xvi, sendo engenho de cilindros. fi aqui que as opiniões divergem. São

as hipóteses para a origem do sistema, sendo a mais antiga a que aponta a lução como uma descoberta meditemca. Dois teqtos clhssicos para o

açúicar -F.O. Von ~i~~rnann"e Noel Ded9-deram o mote atribuindo

a a Pietro Speciale, prefeito da Sicilia, um importante proprietário

fez testamento em 1474~'. Esta tese foi rebatida por Moacyr Soares

ra (1955) e Gil Methodio de Maranhão (1953) que demonstram a falta de

36 Gaspar FruRioso, Livro Quurto das Sa&s

da Term, vol. TI, Ponta Delgada,

C. GJESSING. The $&hifl for guindering mgar cone, Virgin Islands, 1477;MORENO FRAGINALS, E1 irsgenio, La . 1978;Marie Clhe AMOW, kan Vienne BEREN (eds). La Produciwn du vin e# de I

.-v

".

L Cf.Camlo Trasselli, Sioria de110 zLchro siciliana, Caltamissetia-rom, 1982. A tese fendida com base nos textos Pietro Panzano (opuscuium de auiore, primordiis e#progressu

fs urbis Panottri, 1471) e Gaspar Vaccaro Panebianw (Sul richiamo delh ccuura wchcrina h

sulk mgioni che b mgono, Lipomi, 1826), que conforme a publicaçllo por Moacyr Soares

(1955) dos textos é evidente a falta de fundamento.

fundamento da tese siciliana. Alguma Historiografia castelhana atribui esta invenção a Gonzalo de Veloza, vizinho da ilha de La Palma casado com a jovem madeirense, Luísa Bettencourt que em 1518 é referido como "haber inventado un ingenio para azúcar,,41na ilha de S. Domingos42.Todavia nos últimos anos os estudos sobre a História do Açúcar no oriente, nomeadamente na lndia e China, reforçaram a ideia de que o sistema de moagem da cana por cilindros têm aqui a sua origem43.Por outro lado os estudos sobre a História da Ciência revelam que o sistema de cilindros era conhecido na Europa sendo usado em diversas actividades industriais. A mais antiga referência reporta-se ao uso na China e Índia para descaroçar o algodão, fabrico de papel, e terá chegado à Europa a partir de meados do século XV44.David Ferreira Gouveia45 apresenta esta evolução como resultado do invento do madeirense Diogo de Teive, patenteado em 1452. Outros apontam para a origem chinesa. O engenho de três eixos surge mais tarde no Brasil sendo considerado também uma invenção portuguesa, inegavelmente ligada aos madeirenses aí radi- cados. Note-se que a primeira referência aos eixos para o engenho datam já do último quartel do século XV. Entretanto em 1477 Álvaro Lopes tem autorização do capitão do Funchal para que "faça hum enjenho de fazer açúcar que seja de

moo ou d'alçapremas, ou doutra arte

casa de caldeiras

qual enjenho será d'augoa com sua casa e

em 1485, D. Manuel isentava da dizima "quaes-

quer teyxos que forem necesarios para eyxos esteos cassas latadas dos enjenhos e

tapumes

1505 Valentim Femandes refere que o pau branco era usado no

fabrico de "eixos e prafusos pera os enjenhos de açúcar,,48.A isto associa-se o inventário do engenho de António Teixeira, no Porto da Cruz em que são referi-

o

,,46.Depois,

,,47.Em

41 RIO MORENO,JustoL. dei,Los iniciosde la agriculturaeuropeaen el NuevoMundo,

(1492-1542), Sevilla, 1991,p, 306. 42 Fernando ORTIZ, Los Primitivos Técnicos Azucareros de America, La Habana, 1955, pp. 13-18. Confronte-se Moacir Soares PEREIRA, A origem dos cilindros na moagem da cana (investigação em Palermo), Rio de Janeiro, 1955. 43 Cf. Estudos de J. Daniels e S. Mazumbar que seguem Moacyr Soares Pereira e Gil Methodio de Maranhão. 44 Cf. DANIELS, John e Christian Daniels, the origin of the sugar cane Roller mill, Tecnology and Culture; 1988, 29.3, pp. 493-535, SABBAN, François, I'industrie sucriere, le moulin a sucre et les relations Sino-Portugaises aux XVle-XVlIle siecles, Annales, 49.4 (1994),

817-861, Idem, Continuité et rupture Histoire des Techniques sucrieres en Chine Ancienne, Actas dei Tercer Seminario Internacional. Producción y Comercio dei Azúcar de cafia en Época Preindustrlbl, Granada, 1993,247-265, J. H. Galloway, The Technological Revolution in the Sugar Cane Industry During the Seventeenth century, ibidem, pp. 211-228.

Madeira. A manufactura açucareira

madeirense (1420-1550), inAtlântico, IV, 1985,260-272 46ANTT, Convento de Santa Clara, maço 13, n° 1,4 Julho 1477. 47ARM, Vol. XV, p. 150, Apontamentos de D. Manuel de 22 de Fevereiro. 48António BAlÃO, O manuscrito de Valentim Fernandes, Lisboa, 1940, p. 112.

45 " GOUVEIA, David

Ferreira, O

Açúcar da

t

dos como aprestos: rodas eixos, prensas, fornalhas espeques ( Também nou-

)49.

tro documento de 1546 refere-se a existência deste tipo de engenho nas fazendas

de Manuel damil em Câmara de Lobos, foreiras ao convento de Santa Clara, pois o mesmo declara que "aquelle anno mandou fazer a roda nova por ser velha a que ""

estava e não aproveitar para servir e os eixos servirem hum anno Por fim

tenha-se em conta que os primeiros engenhos construidos no Brasil, mais propri- amente em S. Vicente, são de eixos e que estes foram feitos por destros carpin- teiros rnadeirenses que acompanharam o governadorMem de ~á". A tudo isto deverá juntar-se o facto de que foi a partir da Madeira que se generalizou o consumo do açúcar, sendo necessário para isso uma produção em larga escala. A pressãio do mercado europeu conduziu a uma rápida afirmação da cultura na segunda metade do século XVI, situação que seria possível de ali- mentar com o recurso a inovações tecnológicas capazes de atenderem a tais soli- citações. Note-se que a evolução para o sistema de cilindros não reverte no melhor aproveitamento do suco da cana, mas sim vantagens acrescentadas para a rapidez no processo de esmagamento. A situaqgo que se vive na Madeira a partir de meados do século XV é de incremento da cultura que se alia a inovações tec- nológicas, que certamente o engenho de Diogo de Teive foi o primeiro exemplo. Se estas referências forem indício dos engenhos de cilindros quer dizer que é na Madeira que encontrámos a mais antiga referência desta tecnologia no

espago atlântico e será a partir da Madeira que a mesma se difundiu. Os

i madeirenses estiveram ligados a promoção da cultura e construção dos primeiros engenhos açucareiros nas ilhas Canárias, dos Açores, S. Tomé,e Brasil, chegando

i mesmo ao norte de Africa, situação que foi interditada pela coroa em 153752.Por

I i outro lado a sua origem não poderá associar-se a uma influência directa da índia ou da China, onde estiveram muitos madeirenses, uma vez que as primeiras referências são anteriores h primeira viagem de Vasco da Gama. Perante tantas wid€ncias não é possivel afirmar com toda a certeza que a expansão dos s se fez a partir do Funchal. Teremos de continuar no domhio das hipóteses, pois faltam-nos descrições e gravuras capazes de o @temunhar. Mas se olharmos ao que sucede com as demais áreas tudo se qmstrói no dominio da hip6tese e dificilmente teremos conclusões plausíveis dre os primórdios da evolução do sistema de cilindros na moagem da cana

" A. AUTUR, "Apontamentos hist6ricos de Machim", in DAHM, n 1, pp. 8-9. A dúvida

na data a atribuir ao inventário, que estã anexo ao seu testamento de 7 de Setembro de 1535, ou

3 de Setembro de 1495, data do testamento de Isabel de Vasconcdos sua esposa. ANTT, convento de Santa Cium, no.12,21 de Janeiro de 1546. Eddi Stols, um dos primeiros documentos sobre o engenho Shetz, em STio Vicente,

t. I, fl. 372 v, publ. in Arquivo Histórico da Madeira, vol. XIX (1990)

A palavra trapiche entrou depois no vocabulário do qúcar a designar todos as tipos de engenhos de cilindros usados para moer cana. Nos arredores do

Funchal, como em Arucas, existe uma localidade com este nome, o que prova ter existido ai um engenho deste tipo. Para São Tomé o Piloto Anónimo refere o uso dos "Braços dos negros e ainda mesmo cavalos". Deste iiltirno sistema temos

notícia da sua utilização apenas nos pdrdios da cultura da cana-de-açúcar na

Madeira, sendo pmco proviivel a continuação após a experiência do engenho de

Agua de Diogo de Teive, tendo em conta a disponibilidade de cursos de água e do possivel aproveitamento por meio & canalização através das Ievadas. o mesmo

não sucede nas Canárias, onde as datas diferenciam os engenhos de água dos de

- besta. As condições geo-hidrográficas foram propícias à generalização dos engenhos de água, de que os madeirenses foram exímios criadores. Aliás, nesta

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ilha estavam criadas as condições para a afirmação da cultura, pois enquanto a

primeira desfrutava de iniimeros cursos de água e de uma vasta área de floresta, disponibilizando lenha para as fornalhas e madeira de pau branco para a

construçãodos eixos do engenho.

Toda a animação s6cioecon6mica gerada pelo @car foi dominada pelo engenho, mas isto não significava que a exisencia de canaviais fosse sempre sinónimo da presença próxima de um engenho. Aqui, mais do que no Brasil, são inúmeros os proprietários incapazes de dispor de meios financeiros para montar

semelhante estrutura industrial e por isso socorriam-se dos serviços de outrems3.

No estimo da produção da capitania do Funchal para o ano de 1494 são referenciados apenas 14 engenhos para um total de 209 usufrutuários, dispondo de 431 canaviais". Por outro lado temos casos de alienaqão destes complexas a outrem, sem qualquer relação com os canaviais. Assim sucedeu em 1546 o convento de Santa Clara arrendou o engenho dos Socorridos, que fora de Rui Dias Aguiar, a Manuel ~amil~~. Não é fhcil estabelecer o número exacto de engenhos que laboraram nas ilhas. As informações disponíveis são, em muitos dos casos, dispares. Assim, para a Madeira em 1494 são referenciados apenas 14 engenhos, quando noutro documento de 1493%se dava conta da existência de 80 mestres de açúcar. Note- se ainda que Edmund von ~i~~ermann"refere existirem no Funchal I50 engenhos no início do século XVI, número que não se coaduna com os valores

53 Em 1499 (AHM,vol. XVII, nm.227,pp. 38&387,20 de Março) refere-se esta situaçilo e os

possíveis prejulms causados h arrecadaçlio do quinto.

;!m

Ii

V.RAU,ob. cit.

ANTT,convento uk Sunia Clara, no. 12, inventario de 21 de janeiro. [ifi'''' j6 ARM, RGCMF,T.I, pub1. in AHM,Vol. XVI, p. 87,doc. 21 Junho. " Histdria do açúcar, 194I, 13

55

s na do Funchal. A sua localização geográfica de maior incidência da cultura no século XVI.

de engenhos era reduzido. Assim, em 1602, 7 a 8 engenhos em laboraçãoS9.Esta aposta

levou ao necessário o estabelecimento de alguns incentivos i sua . Nesta d6cada fala-se apenas de quatro

os em 1650~'.Daí derivaram, enormes

por falta de engenhos suficientes. No hdré de Betaneor h6 três anos que não funcionava e seria dificil

aferir das &as

pelo estado em que se encontravaE. Ademais, do abandono dos

como sucedeu com a Companhia Fabril do agúcar (l868)",

empenho dos industriais rnadeirensesM.Os séculos XIX e XX

, PJRFF, no.396,20 de Outubro de 1648.

, PJRFF, 11'396, fl. 7 9 5 de Dezembro de 1651.

, PJRFF, no.396, fl.6 v", 25 de Maio de 1651.

S 76, fl. 178.180, alvd de 1 de Abril de 1870.

-se A. BEAUDRIMONT, du sucre et de la sa fabrica#iapi, Paris, Um privilégw industrial. Cartus as diversos jornaes, Punchal,

.

.'

.

mmrn O momento da grande inovação tecnol6gica dos engenhos e da fom de

4fabrico do qlcar. A revolução industrial foi provocada pela abolição da &r%&wturae pela crise que atingiu o mercado internacional do açúcar a partir de