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LAS ISLAS Y EL MUNDO A T ~ N T I C O

1580-1648

O periodo que medeia entre os finais do século xvi e a primeira


metade da centúria seguinte 6 o momento decisivo da Histdria das
ilhas e do Atlantico. As questões políticas sobressaem As demais e
anunciam uma globalizaçáo dos problemas. O principal palco é o
Atldntico que tem como pilares fundamentais as ilhas. Subjacente
aos conflitos está o afrontamento ao mar ibkrico, construido à
custa de pactos e bulas papais desde o skulo xv. O oceano da
segunda metade do seculo xvr era já um mar aberto. Os conflitos
europeus que irradiaram ao espaco oceânico contribulram para o
reconhecimento definitivo da sua total abertura aos diversos inter-
venientes europeus.
A instabilidade daqui resultante, expressa em batalhas navais,
assaltos de corsários reflectiu-se de forma evidente no quotidiano
das gentes insulares. E isto torna-se de tal modo evidente quando
as respostas tardavam ou não satisfaziam os seus objectivos fun-
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avolumar de preocupa~õese de busca imediata de soluções


pesou na opção por um poder forte. Filipe It apostou na sua cen-
tralizaqáo nas ilhas, certamente a pensar na eficdcia face as gran-
des questões, acabando com alguns dos poderes tradicionais. No
caso das ilhas portuguesas foi o golpe mortal à despbtica afir-
mação dos capitães donat6rios. A represália pela falta de lealdade
de alguns capitães foi o inicio da quebra paulatina de influencia
desta estrutura senhorial.
Estamos perante um momento de viragem na História das ilhas
e do Atlântico. A par das mudanqas pollticas, ganharam forma
outras de âmbito económico que sedimentaram o protagonismo do
mundo insular. Assim é de assinalar no perlodo consequente à
Restauração o reforço da aliança portuguesa com os ingleses e a
posi~ãoconcorrencial entre o vinho da Madeira e o de Canárias
est6 na origem da mudança. A afirmação do mundo colonial brita-
nico a partir do século xvii foi também favorável a esta viragem
fazendo com que as ilhas firmassem a forte vinculação ao Novo
Mundo.

O DOM[NIO DOS MARES E A POL(TICAATLANTICA

O s4culo xv marca o inicio da afirmacão do Atlantico, o novo


espaço oceanico revelado pelas gentes peninsulares. O mar, que até
meados do século xiv se mantivera alheio A vida do mundo euro-
peu, atraiu as atenqões e em pouco tempo veio substituir o rner-
cado e via mediterranicos. A abertura foi no inkio geradora de
conflitos com a disputa pela posse das Canárias, que se alargou,
depois, ao prbprio domínio do mar oceânico. Portugueses e castel-
hanos entraram em aceso confronto, servindo o papado de Arbitro
na partilha. Os franceses, ingleses e holandeses que, num primeiro
momento, foram apenas espectadores atentos, entraram também
na disputa a reivindicar um mare liberum (irto e, o mar livre,
aberto) e o usufruto das novas rotas e mercados. O Atlântico não
foi apenas o mercado e via comercial, por excelência, da Europa,
mas também um dos palcos principais em que se desenrolaram os
conflitos que definiram as opções políticas das coroas europeias,
expressas por meio da guerra de corso.
Las Isias y e1 Mundo Atlántico. 1580'1648

esta contenda polltico-econdmica, que o oceano gerou, o


tema que prenderá agora a nossa atenção. Aqui faremos um breve
sumário das questões, pondo em evidencia as que se tornam
imprescindíveis para a compreensão do protagonismo dos espaços
insulares. Na realidade, as ilhas foram os principais pilares da estra-
tégia de dominio do oceano e, por isso mesmo, todas as iniciativas
neste âmbito repercutiram-se de modo evidente nelas.
Quando os portugueses se lançaram, no século xv, a expbração
do oceano encontraram, a partida, um primeiro obstáculo. As
Canárias, que táo necessárias se apresentavam para o controlo
exclusivo do oceano, estavam já a ser conquistadas por Jean
Betencourt, um navegador francgs, financiado pelos mercadores de
Sevilha. Esta foi a primeira dificuldade, que causou inijmeros pro-
blemas a plena afirmação do mare clausum lusitano. Em face disso
a única possibilidade era tomar posse de uma das ilhas por con-
quistar (La Gomera, por exemplo) e avançar com o povoamento da
Madeira, que poderia funcionar como 6rea supkmentar no apoio
ao avanço das viagens para o Sul. Seguiram-se outras dificuldades
de igual importância que entravaram o progresso das viagens para
Sul. A procura de uma rota de regresso da costa africana além do
Bojador, preocupou os marinheiros e entravou a progresso das via-
gens para Sul. A volta pelo largo com a passagem pelos Açores foi
a solução mais indicada mas tardou em ser descoberta.
AOSPOUCOS O "mare clausum" transformou-se no "mare libe-
rum" partilhado por todos. Se é certo que a disputa peninsular
pelo domínio dos mares ficou solucionada o mesmo já não poderá
ser dito quanto à cobiça e empenho de outras coroas europeias. De
França questionou-se mesmo a partilha peninsular, solicitando-se o
texto do testamento de Adão onde isto estava estabelecido.
Perante isto restava aos que havia ficado de fora da partilha o
recurso a guerra de corso. O corso foi a resposta dada pelos exclul-
dos e ao dorninio iberico dos mares.
Aos demais povos europeus, habituados desde muito cedo as
lides do mar, s6 Ihes restava uma reduzida franja do Atl&-itico, a
norte, e o MediterrAneo. Mas tudo isto seria verdade se fosse atri-
buída força de lei internacional As bulas papais, o que na reali-
dade não sucedia. O cisma do Ocidente, por um lado, e a
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desvinculação de algumas comunidades da a l ~ a d apapal, por


outro, retiraram aos actos jurídicos a medieval plenitude "potes-
tatis". Deste modo em oposição a tal doutrina definidora do
mare clausum antepõe-se a do mare liberum, que teve em Grócio
o principal teorizador. A ijltima visão da realidade oceanica nor-
teou a intervenção de franceses, holandeses e ingleses neste
espaço. Os ingleses iniciaram em 1497 as incursões sucessivas no
oceano, enquanto os huguenotes de La Rochelte se afirmaram
como o terror dos mares, primeiro com o intento de assalto a
Gran Canaria e Tenerife em 1556, depois com o concretizado em
1566 A cidade do Funchal. Os franceses estiveram activos por
toda a década de cinquenta e depois de um período de curta
acalmia (1 559-69) os ataques voltaram a recrudescer desde 1579,
atingindo o auge na decada de oitenta. Na Madeira contaram
com a pronta resposta de Tristão Vaz da Veiga.'
O corso foi a principal arma de combate ao exclusivismo do atldn-
tico peninsular que ganhou maior adesão dos estados europeus no
século m. Daqui resultou que a partir de princlpios da centúria o perigo
principal para as caravelas não estava nas condi~óesgeo-clim4ticas, mas
sim da presença de intrusos, sempre disponlveis para assalta-las.
Corsários franceses e ingleses disputavam em posições estrategicas o
assalto aos navios peninsulares das carreiras oceanicas. Os mares dos
Açores e da proximidade do Estreito de Gibraltar estavam povoados
destes intrusos. A par disso os corsarios circulavam também na vizin-
hanq das principais cidades portuárias das ilhas aguardando a chegada
das embarcações do novo mundo ou a salda das riquezas locais.
A navegação tornou-se mais difícil e as rotas comerciais tiveram de
ser adequadas a uma nova realidade: surgiu a necessidade de artilha-Ias
e uma armada para as comboiar ate porto seguro. Perante a situação
de instabilidade nas ilhas a coroa procurou estabelecer um conjunto de
medidas de protec@o das populações e rotas comerciais. No último
caso salienta-se a criação de armadas com a função de patrulhar e
intervir quando fosse necesGrio contra os corsários que rondavam as
áreas. Em 1565 assinalam-se 43 embarca<ões e 2825 homens envolvi-

1 Cf . Saudades da Terra, caps. XXVII


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dos neste processo distribuídos pelas armadas da costa do Algaive, da


costa do reino, das ilhas, do Brasil, da Mina, da ilha da Madeira do
Norte de Africa e do Congo? Nas CanArias tivemos as armadas de D.
Alvaro de Bazan (1555-56 e 1558). Esta foi a estratégia mais eficaz no
combate ao corso e na defesa das ilhas.
Os Asores eram considerados estratégicos para o domínio dos
mares e segurança das rotas oceânicas. Daqui resultou a cobiça das
diversas potencias europeias pela sua posse aquando da união peninsu-
lar. Na década de oitenta os embates travados neste arquipblago eram
resultado não só da defesa da causa de D. Antonio Prior do Crato,
como legitimo sucessor 4 coroa, mas também, de disputa desta área.
Na verdade o empenhamento de ingleses e franceses na defesa da
causa deste pretendente ao trono acontece porque interessava a
posição estratégica das ilhas açorianas. E não ser6 mero acaso que a
resistência tenha sido organizada na ilha Terceira, o principal bastião das
rotas oceinicas. As ameaças constantes destes inimigos, mesmo após a
vitória castelhana fez sentir a necessidade de uma imponente fortaleza
em Angra, capaz de guardar as riquezas em circulação, p6las fora do
alcance da cobiça de qualquer cors6rio e certamente de suster os %ni-
mos exaltados dos angrenses.
A preocupação defensiva demonstra que o oceano deixou de ser
o mare clausum luso-castelhano passando a mare liberum de todos
os europeus, com especial evidência para os holandeses, ingleses e
franceses, que se afirmaram como os principais agentes do novo
empbrio oceanico. No caso ingles a posiçáo hegemónica foi conquis-
tada, em parte, a custa dos tratados de amizade, celebrados com
Portugal (I 654, 1661).

PIRATASE CORSARIOSNAS ILHAS

O mar deixou de ser um espace seguro povoando-se de


piratas e corsários. Eles punham-se de guarda aos grandes cen-
tros de trafico comercial para conseguir uma presa f6cil. A pre-
senqa de corsarios nos mares insulares deve ser articulada, por
um lado, de acordo com a importância que as ilhas assumiram

2 A W i , CoiecGo de S. Vicente, caixa 2 , liv. 3, fis. 491-492.


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mas geraram, despertadoras da cobiça de estranhos. Mas se as


condições definem a incidencia dos assaltos, os conflitos pollti-
cos entre as coroas europeias justificam-nos a luz do direito da
época. Deste modo, na segunda metade do século xvi, o afron-
tamento entre as coroas peninsulares definiu a presença dos
I
castelhanos na Madeira ou em Cabo Verde, enquanto os canfli-
'
tos entre as famllias regias europeias atribuíam a legitimidade
necessária As iniciativas, fazendo-as passar de mero roubo a
acçáo de represdlia: primeiro foi, desde 1517, o conflito entre
Carlos V de Espanha e Francisco I de França, depois os proble-
mas decorrentes da união ibbrica em 1 580. A última situacão 6
um dado mais no afrontamento entre as coroas castelhana e
inglesa despoletado a partir de 1557.
O periodo que decorre de princípios do século xvi é mar-
cado por inúmeros esforços da diplomacia europeia no sentido
de conseguir a solução para as presas do corso. Para isso
Portugal e França haviam acordado em 1548 a criação de dois
tribunais de arbitragem, cuja função era anular as autorizações
de represália e cartas de corso. Mas a sua existhcia não teve
reflexos evidentes na a c ~ ã odos corsarios. Note-se que é preci-
samente em 1566 que temos noticia do mais importante
assalto frances a um espaço portugu6s. Em Outubro Bertrand
de Montluc ao comando de uma armada composta de tr&s
embarcações perpetrava um dos assaltos mais terríveis à vila
Baleira e A cidade do Funchal. Só testemunhamos situação
parecida em 1589 com os ingleses no Faial e em 1599 com os
holandeses na cidade de Las Palmas e ilha de S. Tome.
Mos Açores o final do século xvi ficou marcado pelas perma-
nentes incursões de corsários ingleses. Isto é resultado do
afrontamento resultante da união peninsular com também da
concorrencia pelo domlnio dos mares e rotas comerciais. Aqui
actuaram Francis Drake, Richard Greenville, Martin Forbisher,
Walter Raleigh, o Conde de Essex e o de Cumberland. Na
década de oitenta foi assídua a presença de Francis Drake nos
mares dos Açores, mas o acontecimento mais notado foi o
desembarque do Conde de Cumberland na Horta em Setembro
ias Islas y e1 Mundo Atiantico. 1580-1 a8

de 1589.3 Incluso é referido em 1585 a notlcia da preparação


de uma armada sob o comando de Francis Drake para fazer
desembarcar nos A ~ o r e sD. António, Prior do Crato. Richard
Greenville morreu em 1591 no mar entre as ilhas de Flores e
Corvo quando comandava o famoso Revenge. Esta ficou con-
hecida com a batalha da ilha das Flores e pode ser entendida
como a mais dura vingança à Invencivel Armada (1 588)."
O perlodo em causa foi também funesto para as ilhas Canárias.
A riqueza das ilhas e a funcão de apoio A navegação das lndias foi
motivo suficiente para despertar o apetite dos corsários. A agudi-
z a ~ ã odos conflitos europeus na decada de oitenta fez com que
este fosse o momento em que as ilhas estiveram permanentemente
sujeitas às acções dos corsários ingleses e franceses. Em 1581 os
franceses actuaram em Lanzarote, Fuerteventura, La Gomera e El
Hierro. Mais frequente foi a presença dos ingleses, que desde a
década de sessenta estiveram ausentes dos mares do arquipblago.
Na década de oitenta tivemos apenas o ataque de Drake a Gran
Canaria, mas já na decada seguinte a sua presença era frequente
nas ilhas de Fuerteventura, Las Palmas, Tenerife e Lanzarote que
estiveram sob a ameaça constanten5Note-se que em 1591 Don Luis
de Ia Cueva y Benavides, capitan General e o bispo Suárez de
Figueroa quase ficavam prisioneiros dos ingleses no regresso da ilha
de Fuerteventura.
Nem sempre a actividade dos corsários foi de afrontamento
as populaqões, pois no caso da ilha das Flores 4 evidente a cum-
plicidade dos moradores com os corsários. Assim em 16 1 1 o cor-
sdrio ingl&s Pedro Eston era presença assídua nestes mares e do
agrado da população, estando mesmo de casamento marcado
com a filha do capitão mor da ilha.Was ilhas de La Gomera e El

3 Ver carta do capitão da ilha,, Gaspar Gonçahes Dutra, Arquivo dw Açores, vol. II, pp,304-306.
4 W a k r Raleigh, A Report uí the Tnrth d the fight about the Iles of Açwes, this L x t Sornmer...,
Londm,I 59 1, publ. Em traduçáo em Insulana, vol. XLVl, 1990, pp.281-33 1; Americo da Costa
Ramalho, "Sir Richard Greenville's last fight. A nav source", in Portuguese Essayç, Lihoa,
1968, pp.37-45; Maria Irene Braz Teixeira, "A Batalha da Ilha das Flores. Sir Richard Greenville e
o Revenge", in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Twceira, vol. 35-36, 1977-78, pp.199-315.
5 A. Rumeu de Armas, Pirateriasy Alãques Navaies contra Ias Isibs Canarias, Madrid, 1947-50.
6 Carlos G. Riley, Afinidades Atlânticas. As Relaçbes entre os A~orese a Gra-Bretanha, in
Insulana, P Delgada, 1992, p.Z 17, sep.
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Hierro e evidente a conivencia dos principais com os corsários


franceses, permitindo que se abasteçam a troco de os não
molestar. Esta atitude mereceu a imediata resposta das autorida-
des atrav6s da Inquisição.'
A presença de corsários na vizinhan~adas ilhas de Flores e
Corvo era permanente e resultava da posiçáo que assumiam na
rota de retorno da América e india. Aí se postavam os corsários que
amiudadas vezes tiveram de enfrentar a armada das ilhas que com-
boiavam as ernbarcaqões peninsulares. A assfdua permanencia 56
seria posslvel com o apoio da população local que Ihes fornecia
aguada e viveres frescos.
Nas ilhas da Guine (S. Tome e Cabo Verde) as décadas de
oitenta e noventa foram igualmente momentos de aflição para os
moradores. A presença de corsários europeus era igualmente cons-
tante. Assim no período de 1583 a 1598 a ilha de Santiago foi alvo
de cinco ataques. A conjuntura e a impossibilidade de a coroa ata-
car em todas as frentes levou a apostar na ilha de Santiago
reforçando a posição na estratégia de afirmação política e econó-
mica da Costa da Guiné.
A presenca e disputa dos holandeses rege-se por condições I
específicas, porque detinham interesses importantes na cultura 1
açucareira americana e procuravam assegurar o domínio de S. 1
Tome, Santiago e demais feitorias para acesso ao mercado de i
escravos. A isso juntava-se o empenho na rnanuten~ãodas rotas
do tráfico e de destruição dos interesses açucareiros da área.
Primeiro foi o ataque em 1598 i ilha de Santiago e, depois no ano
imediato a S. Torne, no seguimento do assalto a Las Palmas. Se
nesta última o saque foi o principal motivo da intervenção já em S.
Tom& o objectivo era a destruição da cultura da cana, dos engen-
hos de fabrico do açúcar e controlo da rota dos escravos.
O novo século anunciou-se como um momento de ligeira acal-
mia nos mares. 0 s conflitos das potencias europeias foram pautati-
namente sanados pelo que a permanente instabilidade de finais da
centúria pertenciam já i História. Assinadas as pazes com a

7 A. Rumeu de Armas, ob.cit., t.1 e II; Gloria Diaz Padilla, E/ Sefiorio en Las Canarias
!. G o m y E1 Hierro hasta 1700. El H k W Gomem, 1990,pp.502-505.
Occidentah. a
Las islas y e1 Mundo Atlántico. 1580-1648

Inglaterra a 18 de Agosto de 1604 as populações insulares respira-


ram de alívio, pois os corsários ingleses deixaram de os incomodar.
Com os holandeses as tréguas foram curtas, pois duraram de 1609
a 1621, reacendendo-se as hostilidades que conduziram a nova
situação de instabilidade.
Sanadas as ameaças dos corsários europeus apareceram os
mouros com um assalto de grandes propor~õesAs ilhas de Porto
Santo e Flores no ano de 1617.8 Tambem nas ilhas de Lanzarote e
Fuerteventura recrudesceu a sua ameaça. Em Lanzarote foi a san-
grenta invasão dos argelinos em 1618 como forma de represália as
incursões que os naturais faziam a costa de Berberia.
também constante a presenca dos holandeses no decuEo do
primeiro quartel do seculo xvii. Isto dever6 resultar da aparente
acalmia entre 1604 e 1616. A oposição de interesses na Europa e
no Atlântico ditava esta oposição que conduziu à represália penin-
sular com a interdição de entrada nos portos insulares e de comér-
cio, como ficou estabelecido por alvarA regi0 de 23 de Março de
1594. No entanto, a dificuldade de abastecimento de cereais ao
Funchal levou as autoridades locais a levantarem este embargo
mediante a exigênc~ade fornecimento de cereais. Entretanto com
os ingleses e franceses, passado o momento de hostilidade de
finais do s6culo xvi. Isto veio a permitir a presença de ingleses entre
1603 e 1628 e de franceses até 1635.'

A REPOSTA: ARMADAS
E FORTIFICAÇAO

O espaço insular não poderá considerar-se uma fortaleza inex-


pugnavel, pois a disseminação por ilhas, servidas de uma extensa
orla costeira impossibilitou uma iniciativa concertada de defesa.
Qualquer das solu~óesque fosse encarada, para alem de ser muito
onerosa, não satisfazia uma necessdria e eficaz política de defesa.
Perante isto ela era sempre protelada até que surgissem ameaças
capazes de impelir à concretização. O sistema de defesa costeiro

8 Para a Madeira veja-se Jorge Valdemar Guerra, O Saque dos Argelinos 3 Ilha do Porto
Santo em 1617, in Islenha, n0.8, 1991, pp.57-78.
9 Joel Serráo, Temas Históricos Madeirenses, Funchal, 1 992, pp. 1 29-1 41 .
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surge aqui com a dupla finalidade: desmobilizar ou barrar o


caminho ao invasor e de refúgio para populações e haveres. A
norma era a construção de fortalezas após uma ameaça e nunca
de uma acçao preventiva, pelo que após qualquer assalto de gran-
des proporções sucedia, quase sempre, uma campanha para fortifi-
car os portos e localidades e organizar as milícias e ordenanças.
Uma das consequ~nciasprincipais do assalto francgs de 1566
à cidade do Funchal foi o maior empenho da coroa e autorida-
des locais nos problemas da defesa da ilha e, principalmente, da
cidade que, por estar cada vez mais rica e engalanada, desper-
tava a cobiça dos corsários. O desleixo na arte de fortificar e
organizar as hostes custou caro aos madeirenses. A defesa da
ilha era uma necessidade premente. Reactivaram-se os planos e
recomendações anteriores no sentido de definir uma defesa efi-
caz da cidade a qualquer ameaqa. O regimento das ordenanças
do reino (1 549) teve aplicação na ilha a partir de 1559,
enquanto a fortificação teve regimentos (1567 e 1572) e um
novo mestre de obras, Mateus Fernandes. Perante a incessante
investida de corsários no mar e em terra firme houve necessi-
dade de definir uma estratbgia de defesa adequada. No mar
optou-se pelo necessdrio artilhamento das embarcações comer-
ciais e pela criacão de uma armada de defesa das naus em tran-
sito. Em terra foi o delinear de um incipiente linha de defesa dos
principais portos, ancoradouros e baías, capaz de travar o possi-
vel desembarque de intrusos. O plano completou-se no perlodo
de união das coroas peninsulares com a construqão da Fortaleza
de Santiago (161 1-1 6211, do Castelo de S. Filipe do Pico (1 603-
1637) e o aumento do troço de muralha costeira.
Igual impacto teve o assalto holandês a Las Palmas em
1599.1°O vexame infringido pelo invasor entre 26 de Junho e 8
de Julho levou as autoridades a repensar o plano de defesa da
cidade, reconstruindo-se fortalezas e erguendo-se novas de

10 Nbstor Alarno, Drake y Van der Doez en Gran Canaria, in Revista de Histeria, 1932,
75-100; 1933, 153-1 57; A. Rurneu de Armai, firaterias y Ataques Navales contra Ias
Idas Canarias. Madrid, vol.ll, pp.673-643, 784-920; J. Viera Y Calvijo, Historia Gwieral
de Ias Islas Canarias, vol. 1 1 1 , 224-232; L.Siernens, "Diario de Viaje...", in E1 Museo
Canano, n0.89-103, 196689. 15 5-1 86.
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forma a assegurar a seguranp da cidade. Note-se que jd na


dPcada de oitenta a coroa havia dado instruções a Leonardo
Torriani e Próspero Casola para proceder a fortificação e respec-
tivo plano de defesa das ilhas."
O aumento da capacidade de resposta conduziu tambPm a
que os assaltantes fossem forçados a investir na sua organização.
Deste modo aos iniciais actos isolados de embarcações de corso
sucederam-se as armadas organizadas para tal fim. Desta forma a
Filipe II não restava outra hipótese senão a de aumentar a capaci-
dade defensiva das ilhas e das rotas comerciais. Nas Canarias a
resposta da coroa está bem patente no plano de fortificação das
ilhas do arquipelago elaborado por Leonardo Torriani.12 Este
engenheiro foi nomeado por Fitipe II em 20 de Maio de 1587
para proceder a inspecção das fortificações do arquipblago e pre-
parar um plano de defesa das ilhas. Reforçou-se o plano de forti-
ficações com a construção de imponentes fortalezas e baluartes,
a partir do plano de Torriani. Em Lanzarote projectou a recons-
trucão do Castelo de S. Gabriel de modo a ser mais operacional
na defesa do porto de Arrecife. Organizou-se as forças perma-
nentes e a milícia. Unificou-se as milícias, deixando de existir a
divisão entre as ilhas realengas e senhoriais. Filipe II em 1587
estabeleceu o cargo de "sargentos mayores" para as ilhas e em
1625 decidiu unificar todas as forcas de poder na figura de "capi-
tán general", com intervenção política militar e judicial. Para o
cargo foi provido D. Luis de Ia Cueva y Benavides.
O plano de defesa das ilhas açorianas começou a ser esboçado em
meados do skculo dezasseis por Bartolomeu Ferraz, como forma de
resposta ao recrudescimento do corso, mas s6 teve plena concreti-
zação no último quartel da centúria. Aqui registam-se duas campanhas
de fortificação: em 1577 com Pedro de Maeda e em 1592 com Joáo
de Vilhena. Bartolomeu Ferraz havia apresentado A coroa o seu ras-
treio: as ilhas de S. Miguel, Terceira, S. Jorge, Faial e Pico estavam
expostas a qualquer eventualidade de cors6rios ou hereges; os portos
e vilas clamavam por mais adequadas condições de segurança.

1 1 J. Viera y Clavijo, Histofia General de /as /s/as Canarias, vol 1[1, SCT, 1979, pp.214-2 1 S.
12 Cf. do mesmo Descripcion delasislas Canarias, 5. C.Tenerife, 1978.
Segundo ele os açorianos precisavam de estar preparados para isso,
pois "orne percebido meo combatido" .I3 Daí terd resuhdo a reorgani-
zação do sistema de defesa levado a cabo por D. João I11 e D.
Sebastião. Foram estes monarcas que reformularam o sistema de
vigilância e defesa atravks de nwos regimentos. A construqáo do cas-
telo de S. BrAs em Ponta Delgada e, passados vinte anos, do castelo de
S. Sebastião no Porto de Pipas (em Angra) e de um Baluarte na Horta,
eis os resultados mais evidentes desta polttica. 2
Mais tarde, com a ocupação castelhana do arquipblago aço-
riano, foi muito sentida a necessidade de uma imponente fortaleza :

em Angra, capaz de guardar as riquezas em circulação e pb-Ias fora


do alcance da cobiça de qualquer corsário e de suster os animos
exaltados dos angrenses. Desde 1572 que se havia projectado uma
fortaleza para o Monte Brasil, mas sd em 1592 se deu início a
construção, a partir de um plano traçado por João de Vilhena, 56
concluído em 1643. As obras 56 ficaram conduidas após a restau-
raçáo em 1643. O plano foi traçado por Tibunio Spanochi a partir
de um projecto de defesa de D. Antdnio de Ia Puebla.
Pior foi o estado em que permaneceram as ilhas da costa e golfo da
Guine pois as insistentes acções de piratas e corsários não foram sufi- ,

aentes para demover os insulares e autoridades a avançar com um ade


quado sistema defensivo. São poucas as referências 3 sua defesa mas o
suficiente para atestar a precariedade. Ele resumia-se a pequenos
baluartes, muitas vezes sem qualquer utilidade.
Em S. Tomé começou a erguer-se a primeira fortaleza na Pwoaçáo
com o capitão Alvaro Caminha, que lhe chamava apenas torre, con-
cluída pelo sucessor Fernáo de Melo. No tempo de D. Sebastião, as
constantes investidas de codrios franceses - ficou celebre o de 1 567-
levaram A construção da fortaleza de São Sebastião, concluida em 1576
e reformulada em 1596 que devido A sua ineficácia demonstrada no
assalto holandês de 1599 ergueuse outra de apoio em Nossa Senhora
da Graça. Na ilha do Príncipe tivemos a primeira fortaleza nos princi-
pior do século mi.

13 Arquivo dos A~ores,vol. V, 3W-367(1 543); confronte-se Lbidern, vol. IV. I21 -124
[sem data).
Las Islas y e/ Mundo Atidntico. 1580-1 M8

Em Cabo Verde o empenho na defesa das povoações e portos


costeiros tardou uma vez que o principal alvo dos corsários,
nomeadamente franceses, estava no mar. Mais do que construir
fortalezas havia necessidade de limpar os mares e as rotas da pre-
senta destes intrusos. Para isso, e correspondendo aos pedidos
incessantes dos moradores, a coroa criou uma armada para
guarda e defesa do mar e costa. A petição dos moradores da
Ribeira Grande em 1542 apontava a necessidade de apetrechar o
porto da cidade com um sistema de defesa adequado. As insis-
tentes as queixas da população dando conta do estado de aban-
dono que a coroa os havia votado levou a coroa em 1581 a
incumbir o capitão da armada que se dirigia ao Brasil, Diego
Flores Valdez, de fazer um informe sobre a situação das ilhas. O
resultado esta lavrado em dois memorandos onde se dá conta
das medidas necessárias a protecção ao comércio marítimo na
zona e a segurança das principais povoalóes e portos costeiros.14
A presença de um engenheiro a bordo, isto é, Pedro Sarmento,
permitiu uma prospec~ãona Ribeira Grande e Praia de que resul-
taram os respectivos planos de fortificação.
Os assaltos de Francis Drake a Santiago (1578 e 1585) levaram à
construção no período filipino de uma fortaleza na Ribeira Grande
apoiada por um lanço de muralha. Estas fortalezas tiveram um papel
fundamental aquando dos assaltos holandeses de 1596 e 1598.Com
a restauração estabeleceu-se um plano de reorganização militar e
das fortificações com especial incidência na Praia e Santiago. Mesmo
assim parece que pouco mudou uma vez que em 1638 o governa-
dor Jeronirno Cavalcanti se queixava do estado deplordvel em que
encontrou a defesa das popula~õescosteiras. A inoperância do sis-
tema defensivo conduziu ao abandono da vila da Praia.

AS CONJUNTURAS POL~TICO-INS~TUCIONAIS
DO MUNDO IB~RICO

O perlodo que decorre de 1580 a 1648 foi marcado por


duas conjunturas importantes que marcaram de forma clara a
.-

14 António Brásio, Monurnenta Missidn6rid Africaria;2" serie, v01 111, pp 92-107.


ALBERTO VIEIRA

vida política e institucional das ilhas. A união peninsular na


década de oitenta augurava um reforço do mundo imperial
mas acabou por se transformar num pesadelo para os insula-
res. As dificuldades sentidas com a permanencia da guerra de
corso implicou o repensar da estrutura institucional com a
aposta na centralização com forte incidência militar. Passados
sessenta anos a união saldava-se num fracasso e a Restauração
da monarquia portuguesa veio a pautar um novo momento
para a afirmação das ilhas, merce da definitiva aposta da opção
atlântica.

NAS ILHAS
A UNIAOIB~RICA

A 14 de Setembro de 1580 Filipe I1 é aclamado rei em


Lisboa, sendo confirmado nas cortes de Tomar n o ano
seguinte. O processo de pacificação das regiões do império
português que no m&s de Junho haviam aclamado D. Antonio,
Prior do Crato, e rápido e s6 nos Açores, por ser um dos pilares
dos interesses em jogo, será demorada. Aqui a importância
geo-estrategica do arquip4lago fez com que os açorianos ficas-
sem reféns dos interesses de franceses, ingleses e castel hanos.
D. António Prior do Crato, com o apoio da França e Inglaterra,
estabeleceu a i o último reduto. Deste modo os interesses exter-
nos sobrepuseram-se ao patriotismo dos açorianos. A acla-
maqão do novo monarca solicitada em Agosto de 1580 por
Diogo Dias só veio a acontecer em Janeiro do ano seguinte em
Ponta Delgada. O corregedor Cipriáo de Figueiredo e o bispo
D. Pedro de Castilho assumiram posiç6es distintas. O primeiro
desde a Terceira chefiou a resistência ao invasor, enquanto o
segundo é fervoroso adepto de Filipe It, sendo forçado a refu-
giar-se em S. Miguel, onde a camara de Ponta Delgada havia
aclamado o novo rei em 31 de janeiro de 1581. Entretanto, o
novo monarca nomeou D. Ambrbsio de Aguiar Coutinho,
~overnadorGeral dos Ayores, que não ocupou o cargo por
morte brematura em 5 de Julho de 1 582.
Perante a divergencia de interesses as hostilidades aos novos
soberanos foram sangrentas e demorou três anos a pacificação e
Las Islas y e1 Mundo Atlanfico. 7 580-1648

reconhecimento do novo monarca.ls Foi necess6rio mobilizar todas


as forças navais e comandantes experientes: em 1581 de D. Pedro
de Valdes e O. Lope de Figueroa que deram lugar em 1582 e 1583
as do marquês de Santa Cruz, D. Alvaro de Bazdn. A primeira sal-
dou-se numa rotunda derrota castelhana na célebre batalha da
Salga, mas a segunda chefiada pelo Marquês de Santa Cruz saiu
vencedora na batalha naval de Vila Franca do Campo. Todavia, 56
em 1583 se concretizou a conquista da Terceira com o desembar-
que a 26 de Julho das forcas castelhanas em Porto de M6s. Para a
História ficaram três importantes batalhas.
16 na Madeira o processo foi distinto. D. Antonio apenas não foi
aclamado na ilha do Porto Santo16 e na vila da Ponta de Sol
(Madeira). Assim, podemos afirmar que a aristocracia e as insti-
t u i ~ ó e smunicipais estavam com o novo monarca." Antonio
Canialhal mobilizou homens para defender o Funchal de qualquer
assalto da esquadra francesa. Aqui os representantes da coroa fili-
pina s6 se tiveram que haver com um grupo restrito de personalida-
des afectas a D. Antbnio, uma vez que alguns se haviam juntado 4s
hostes de D. Antonio na ilha Terceira.'* Foi a ameaça de ocupação da
ilha por parte de uma armada franco-inglesa,lg que levou Filipe II a
ordenar em 19 de Março de 1582 a D. Agustin de Herrera que fosse
defender a ilha com uma expedição de 300 homens. O desembar-
que no Funchal teve lugar a 29 de Maio, com a maior quietação para
evitar qualquer alvoroço e no dia imediato, na presença de todas as
autoridades e povo, fez-se juramento de fidelidade ao novo rei.

15 Awlino de Freitas MENEZES, Os Apres e o Dornlnio Filipino.1- A Resist@nciaTerceirwise e as


fmplicaçóes na Conquista Espanhda, Angra do Heroíwno, 1987.
16 A atitude deçte munidpio foi imputada ao capitão Diogo Arestrelo, qw foi em 1 586 alvo
de rnúhpIas a-& do munidpio, sendo devarrado em 1606, wrn a perda da rrapitania;
vejase Anais do Munidpio do Porto Santo, Porto Santo, 1989,p. 7 6, nota 10; Aberto Artur
SARMENTO, Ensaiw Históricosda Minha Terra. Ilha da Madeira, vol. I, Funzhal, 1946, p.273
17 Contavam-se entre os adeptos de D. Antbnio os seguintes: os Camaras, o conde de
Mmioso que era capitão M a t a r i a de MacRico e que a p k u para TriMo da k i w , e o
capMOdO~doPnmSanto.
18 Confrontpse .RUMEU DE ARMAS, "El Conde de Lanzarote, capitán general de Ia isla de Ia
Madem(1582-1583)". in Anuario de Estudios Atiânbm, n1.30,1984, p p . 4 0 4 4 6
19 Ideia defendida já pw L. YMENS HERNANDE?, "he n a h Madera del Conde de
Lanzarote desde Ia perspectiva de Ias fuentes madeirenses", in Anuario de Estudios
Atlanticos, n0.25, 1979, pp.289-305. O texto de Gaspar Frlrtuow (Livro Segundo das
O Conde permaneceu na Madeira com as tropas enquanto
duraram as hostilidades na ilha Terceira. Com a batalha e decisiva de
conquista da ilha a 26 de Julho de 1582, por D. Alvaro Bazan, feste-
jada no Funchal a 1 de Setembro, ele recebeu a 2 de Setembro
autorização para a abandonar, ficando em seu lugar, como chefe do
presldio, D. Juan de Aranda, ao comando de uma guarnição de 500
homens onde se incluíam os 200 soldados andaluzes que haviam
chegado em Junho. As grandes dificuldades porque passou a força
ocupante, mais conhecida por tropa do presídio, não derivaram
tanto do possível afrontamento da população local, mas sim dos
problemas surgidos com o abaste~imento.'~ A cidade debatia-se j6
com esta situação vendo-a agora agravada com a presença de mais
500 homens. A conjuntura econbmica foi respons6vel por algum
ambiente de tensão que rodeou a força ocupante, com especial
referencia para o período que decorre desde1 589."
Nas ilhas portuguesas dos trópicos não foram tão evjdentes os
reflexos da mudança, tardando algum tempo a adaptação A nova
realidade. O interesse da adesão estava de ambos os lados. Os
Castelhanos que tinham garantido o acesso ao mercado de escra-
vos e os mercadores portugueses envolvidos no trafico interessados
nos mercados de destino. A noticia e adesáo de Cabo Verde a nova
monarquia aconteceu em finais de 1581 com o desvio da armada
do Capitão Diego Flores de Valdez que se dirigia ao Brasil. Filipe II
determinara que o mesmo procedesse ao juramento das autorida-
des da ilha e da Costa da Guine a sua soberania. No relatdrio

Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, p. 406-407)é muito sugestivo sobre isso:
"...depois quer foi julgado Portugal ser do catblico rei Filipe, senhor nosso, e teve posse &le,
mandou a ilha da Madeira por capitão-mor e governador dela o desembargador João
Leitáo, depois que chegou à ilha, de mandado do mesmo rei Filipe, por capitãemor dela e
da do Porto Santo, dom Augustinho Herrera, Conde de Lançarotee Senhor de Forimentura;
no qual tempo, na era de mil e quinhentos e oitenta e dois anos, foi, da banda do Norte,
António do Carvalhal a cidade do Funchal, com trezentos homens, que manteve 3 sua msb
cinco meses, do de Maio ati! Setembro, em sewi~odo Catblico rei Filipe, para ajudar a
defender a desembarcaçao dos franceses da armada de Dom Antbnio, que em aquele
tempo na ilha se espwava". A. RUMEU DE ARMAS, ibidm, pp.434455-459
20 Não obstante assinala-se nos primeiros anos da prewnça desta força alguma animosi-
dade com a populaçáo, que deu lugar a algumas alteraçbes, como sucedeu a 6 de
março de 1583; veja-se A.RUMEU DE ARMAS, art.cit., pp.468-473.
21 A.A.SARMENT0, ob.cit., vol.1, p. 188 e segs.
Las Islas y e1 Mundo Atldntico. 1580- 1 M8

enviado em 24 de Janeiro de 1582" sabe-se da existência de mui-


tos adeptos de D. António e dd-se conta da necessidade de
protecção das rotas e comércio da drea. A adesão a causa de
D. António não foi imediata, mas Filipe II soube perdoar a popu-
laqão por carta de 15 de Novembro de 1583,23 sendo apenas exe-
cutados os cabecilhas.
Nas ilhas de S. Tom4 e Príncipe o juramento de fidelidade ao
novo monarca foi imediato por parte do Capitão António Montetro
Maciel, tal como o testemunha o acto de 10 de Junho de 1581.
Aqui as maiores dif~culdadesporque passou a ilha nas últimas
décadas do século xvi estiveram nas revoltas de negros (1590 e
1595). A mais celebre de todas 4 a dos angolares que em 1595 se
sublevaram sob o comando de Amador. Note-se que esta instabili-
dade foi responsável pela crise da economia açucareira da ilha, no
que foi favorável à afirmação de novos mercados como o Brasil.

A união das coroas peninsulares não implicou a incorporação


do estado portugues. Estamos na verdade perante a união de
duas coroas e não de estados. A nova situação veio a provocar
mudanças em termos da geografia política do espaço atlantico
fazendo dele o palco principal dos conflitos entre as potencias
europeias. A situacão e o prelúdio da perda da posição hegemd-
nica dos reinos peninsulares nas rotas que os ligavam ao Novo
Mundo. Desde meados da centúrta que o direito à circulação tor-
nou-se universal ganhando esta tese um forte suporte jurldico e
filosófico. disso exemplo o "Mare Liberum"(l608) de Hugo
Grdcio. Os holandeses foram os que mais investiram em todas as
frentes assumindo uma posição relevante na afirmação do
mundo colonial." A tudo isto acresce o facto de o papado deixar
de assumir a força que deteve até ao momento do cisma e das

22 Monumenta Missionária Africana, 21 serie, vol. Ill, pp.92-96.


23 ibidem. l lP122.
.---
24 Ern 'm l:
m H&
ALBERTO VIEIRA

dissidencias religiosas do Norte da Europa. A falta repercute-se de


modo evidente na afirmação da via diplomática como único meio
de soluçáo dos conflitos.
A união das coroas peninsulares contribuiu apenas para agudi-
zar os antagonismos e os inimigos. A situação reflecte-se de
forma evidente no quotidiano das ilhas atrav4s da intervenção
dos piratas e corsdrios. Deste modo a principal consequ6ncia da
adesao das ilhas a nova monarquia ibérica foi a vulnerabilidade
face As investidas dos inimigos europeus.
Os cors6rios são os protagonistas principais. O corso a partir
da d4cada de oitenta tomou outro rumo, sendo as diversas
acções uma forma de represália a união das duas coroas peninsu-
lares. Ele ficou expresso na intervenção de diversas armadas:
Francis Drake (1581 -85), Conde de Cumberland ( 1 589),John
Hawkins, Martin Forbisher, Thomas Howard, Richard Greenville e
o Conde Essex (1597).Elas não se limitavam apenas ao assalto às
embarcações que regressavam A Europa carregadas de ouro,
prata, açúcar e especiarias, pois a sua intervenção tambkm se
estendia à terra firme onde procuravam abastecer-se de víveres e
6gua ou o volumoso saque. Como testemunho disso temos os
assaltos de 1585 na ilha de Santiago, em 1587 na das Flores e
inúmeras intervenções nas Canarias.
Consumada a legitimação e a soberania de Filipe II o arquipk-
lago de Cabo Verde entrou de imediato no centro das atenções das
potencias europeias beligerantes e em expansão no Atlântico. O
papel fundamental do arquipélago na ligação entre as plantações
açucareiras americanas com os centros africanos fornecedores de
escravos motivou o interesse dos outros europeus. Os ingleses
foram os primeiros a marcar presença atrav4s de Francis Drake. Foi
ele quem em 1585 pôs a saque a cidade de Santiago. Em 1598 foi
a vez dos holandeses que tomaram posse da vila da Praia. Tenha-se
em consideração que os Paises Baixos ao verem-se privados do for-
necimento do sal de Set~jbal,~~ procuraram suprir a falta com o das
ilhas de Boavista, Maio e'5al. Sabe-se que em 1 597 se juntaram na

25 Cf. V. Rau, Estudos sobre a Hístbria do Sal Portugues, Lisboa, 1984, pp. 1 61-165
Las Idas y el Mundo Atlántico. 1580-1648

ilha de Maio três navios ingleses, quatro navios franceses e outros


seis flamengos, todos em busca de sal. Filipe II, face as incessantes
investidas a Costa da Guine e Cabo Verde, foi forçado a apresentar
em 159126um "Regulamentação de Navegaqão Ultramarina",
onde a crença religiosa se tornava impeditivo do comércio colonial.
A mesma opção sucedeu nas Canárias, tendo funcionado o tr~bu-
na1 da inquisiçáo como instituição fiscalizadora. Esta medida rever-
teu em prejulzo, tendo em conta que o arquipélago ficou sujeito i
presença incómoda de corsários.
A conturbada conjuntura política, que se seguiu nos finais da
centúria quinhentista e princípios da seguinte, teve o condão de
conduzir à mudança do cenário. A crise dinástica e a consequente
união das coroas peninsulares levaram a uma abertura da área ao
com6rcio dos insulares, seus vizinhos e aos demais europeus,
nomeadamente, os holandeses. Perante isto Santiago deixou de ser
o principal entreposto dos Rios de Guinb, sendo evidentes os refle-
xos da situação na economia da ilha. Se é certo que num momento
determinado as ilhas se fecharam ao comercio com os inimigos
políticos e religiosos, também não 6 menos verdade que a uniáo
não conseguiu garantir o exclusivo dos mercados detidos pelas
monarquias ibéricas, agora unidas. Isto foi um passo para a partilha
do oceano por todas as potências europeias, que não prescindiram
da posição fundamental das ilhas.
No caso dos arquipélagos da Madeira e Açores não foi f6cil ao
novo monarca ~mporlimitações a presenca dos inimigos estrangei-
ros. Assim, não obstante a ordem de expulsão dos ingleses em
1589 e das posteriores medidas limitativas do trafico comercial
com a Europa do Norte, não se poderá dizer que a ilha viveu um
período de total rotura nas tradicionais relações com esta região.*'
Situação idêntica sucedeu com os franceses onde se assinala o
facto de João de Caus, frances, residente no Funchal há dezanove
anos, ter sido naturalizado português em 1 590.2aNa verdade, La

26 Monurnenta Missionária Africana, VOI. III, doc.77.


27 Esta ideia foi já defendida por Joel Serrão, O 'contrabando' Atlântico (1580-1590), in
Estudos Histbricos Madeirenses, Funchal, 1982, pp. 129-140.
28 ARM. CMF, registo geral, t. 111, fl. 48.
ALBERTO VIEIRA

Rochelle continuará a ser um porto de permanente contacto com


os de Angra, Faial e F ~ n c h a l Perante
.~~ isto poderá concluir-se que
o mercado das ilhas não foi tão afectado pelas alterações políticas
e consequentes represálias, como a primeira vista pode parecer.
Na Madeira e nos Acores continuou a afirmar-se a presença
britân~caque teve consumação plena na segunda metade do
século XVII.~O O mundo das ilhas manteve-se alheio ao jogo de inte-
resses europeus. Apenas nos espaços continentais atlantico (Africa
e Brasil) e no Oriente se tornava evidente o assalto dos beligerantes
,
As possessões portuguesas, acabando por fragilizar a hegemonia e
império que os portugueses havia conseguido em princípios do
século xvi. As akeraqões mais significativas ocorreram nas ilhas de
Cabo Verde e 5. Tomé e Principe pelo simples facto de ambos os
arquipelagos funcionaram como antecâmara dos centros abastece-
dores de escravos do litoral africano da Costa e Golfo da Guiné.
Note-se em Cabo Verde o reforço dos mercadores portugueses no
sistema de "assientos". Isto é apenas o exemplo da penetração
lusiada no mercado colonial americanon3I
Já nas Candrias a situacão assume distintas proporções
devido a intervenção do Tribunal da tnquisição de Las Palmas.32
Uma das formas usadas pelos mercadores ndrdicos para se furta-
rem à prisáo pelas autoridades das Canárias estava no recurso ao
pavilhão de um pals amigo e ao disfarce do nome, aportugue-
sando-o. isto ficou conhecido como comércio d i s f a r ~ a d oAliBs,
.~~

29 luliao Soares de Azevedo, Sobre o Comércio de La Rochelle com os A~oresno século


xwi, in Revista Portuguesa de Histbria, t. III; Nota e Documentos sobre o Com6rcio de
La Rochelle com a ilha Terceira no s6culo xvii, in Boletim Inst. Hist. I. Terceira, vol. VI,
1948.
30 Sobre os Açores veja-se: Nestor de Sousa, "Sinais da Presença BritAnica na vida
Açoriana (séculos xvii-xviii)" , i n Arquipélago, no especial Rela~õesAçores - GrB
Bretanha, P. Delgada, 1988, pp. 25-100; 1. G. Reis Leite, Os Fisher. Esboço Histórico de
uma Família A~oriana,Angra do Herolsmo, s.d..
31 6. Enriqueta Vila Vilar, Hispano-America y e1 Comercio de Esclavos. Los Asientos
Portugueses, Sevilla, 1977.
32 Cf . Francisco Fajardo Splnola, Las Conversiones de Protestantes en Canarias siglas. xvri
y XVIII, Las Palmas, 1996; Luis Alberto Anaya Hernhndez, ~udeoconvèk.ose Inquisicidn
en ias Isias Canarias(1402-7605))Las Palmas, 1996,
33 Alberto Vieira, O Comércio Disfarçado mas ilhas do Atlantico Oriental. O Processo de
Bartolome Cuello na tnquisiçio de Las Patmas(1591-98), in Anita Novinski (ed.),
Inquisiçao Ensaios xibre Mentalidade, Bruxarias e Arte, S. Paulo, 1992, pp.161-169.
eles eram e continuaram a ser os campeões do contrabando que
tinha por palco algumas ilhas como era o caso da ~ a d e i r a . ~
Um'
dos casos paradigmaticos e reveladores a desigual situação dos
mercadores estrangeiros entre as ilhas dos Açores e Madeira e as
Candrias, sucede com Bartolome Cuello, um mercador inglês
preso em Tenerife a 17 de Janeiro de 1592 e julgado em 1 597.35
Note-se que ele mesmo assim não conseguiu iludir a perseguição
das autoridades inquisitoriais de Canárias. A confissão deste
mercador perante o tribunal de Las Palmas 6 um retrato evidente
da actividade comercial dos nórdicos no perlodo de 1586 a
1 591. AI temos a definição do que se entendia como comércio
disfarçado: " ...y demais de 10s navios que... tiene declarado que
an venido Ia dicha isla de San Miguel con nombre de escoceses
con el mesmo engano.-10s dichos escoceses traen pasaportes
delRey dtEscosia.... 10s mercaderes que por Ias dichas vias tratan
en Espana tienen dellos de Francia y d'Escocia y de Flandres para
Ias mercadorias y Ias sellan con ellos ....y en quanto a 10s flamen-
cos de Olanda y Gelanda.. .. 10s susodichos tratan ordinariament
en Ynglaterra como vassallos de !a Reyna y que traen gran canti-
dad de ropa y de mercadorias lo que1 todo llevan a Espana y a
estas yslas y a Ias de San Miguel fingiendo ser alernanes de
Amburch y de Dunquerque en Flandres...." Esta pratica não foi
56 apan6gio de Bartolome Cuello, pois que se documentam
outros como Thomas Alder, Ht Web, Tomas Simon, luan Jurdan
e Paulo Bux.A união das coroas peninsulares é o principio do fim
da hegemonia ib4rica no Atlantico mas não do protagonisrno
das ilhas que continuaram a ser espaços intervenientes nas novas
realidades políticas e económicas que o final de seculo propiciou.
Por outro lado este momento contribuiu para o reforço das
relações comerciais dos espaços coloniais dos dois impérios
agora juntos.

34 Cf. Joel Serrão, Temas Histdricos Madeirenses, Funchal, 1992, pp129-140.


35 Cf. W. de Gray Btrch, Catalogue of the Cdlection of Original Manuscripts formerly
belonging to tl-ie Holy Office of the Inquisition in the Canary Islands, vol. III,
Londres, 1903, pp. 1026-1054; L. Alberti e A. 0. Wallis Chapman, English
Merchants and the Spanish Inquisition in the Canaries, Londres, 1912, .pp. 127-152.
ABERTO MEIRA

Na Madeira, como nos A~oresa permanhcia de uma força


ocupante sd alimentou os conflitos com os naturais. A hostili-
zaçáo As forças do presidio est6 documentada em 1583, altura
em que ocorreram dois motins com mortos. A situação obrigou a
guarnição a manter-se cativa na fortaleza. No caso da Madeira as
dif icuIdades porque passaram as forças ocupantes, conhecidas
como a tropa do presidio, não derivaram tanto do possível afron-
tamento da população local, mas sim dos problemas surgidos
com o a bastecirnent~.~~ A cidade debatia-se já com dificuldades,
vendo-a agora agravada com a presença de mais 500 homens. A
conjuntura foi deveras difícil no período de 1583 e 1637 e gerou
alguma instabilidade, mercê da falta de meios para sustentar a
guarniçáo, manifesta nos motins do s6culo x v i i (1 600, 1602,
4 623, 1626, 1627.'37O primeiro motim decorreu em 1583 com a
morte de um marinheiro portugugs mulato. Este facto fez despo-
letar a animosidade entre a população e as forças ocupantes. Por
isso as primeiras dbcadas do s&culo xvii foram pautadas por
momentos de aflição e inseguran~a.A situaçáo repercutiu-se no
relacionamento institucional entre o capitão do presldio e o muni-
cípio ou provedor da fazenda, principais responsáveis pelo abas-
tecimento da tropa.38
O periodo de união das coroas peninsulares teve reflexos evi-
dentes na figura institucional dos capitães, sendo exemplo disso
as posições assumidas por Rui Gonçalves da Camara e Tristão Vaz
da Veiga (a 19 de Outubro de 15851, respectivamente capitães da
ilha de S. Miguel e Machico, que foram cometidos de amplos
poderes ao serem nomeados governadores de S. Miguel e da
Madeira, respectivamente.

36 Não obstante assinala-se nos primeiros anos da presenGa desta forca alguma animosi-
dade com a popula~ao.que deu lugar a algumas alteraçoes, como sucedeu a 6 de
Março de 1583;veja-se A.RUMEU DE ARMAS. art. cit., pp.468-473.
37 A.A.SARMENT0, ob. cit., vol. I, p. 188 e segs.
38 Alberto VIEIRA e outros, "O municipio do Funchal (1550-1650) ...", in Actas do 1
Colóquio Internacional de Histbria da Madeira 1986, vol. II, Funchal,l990, pp.1006-
1009, 1013-1014
Las Islas y e/ Mundo Atlántico. 1580-1 648

Tristão Vaz da Veiga havia recebido a capitania de Machico das


máas do rei de Castela, em 25 de Fevereiro de 1582, ainda ei vida
do seu proprietArio, D. Francisco de Portugal, conde de Vimioso,
como pagamento do apoio dado A entrada das tropas em Lisboa.
Esta foi a última expressão plenipotenciária dos capitães: a alqada
foi, paulatinamente, reduzida at& se manter apenas no usufruto das
rendas e nos titulos honorífic~s.~~ A figura do Capitão dá lugar a
uma nova instituição. Em Janeiro de 1582 surge o Desembargador
Joáo Leitão acometido do "governo Geral de guerra e
Administrador da Fazenda Real", que serA substituido em Março
por D. Agustin de Herrera, como "Governador Geral da Madeira".
Com a sua saída retorna João Leitão as funções sendo coadjuvado
pelo Comandante do Presídio, D. Joáo de Aranda. Já em 1585
Tristão Vaz da Veiga surge como "Superintendente das coisas da
guerra, Governador das capitanias da ilha da Madeira e Alcaide Mor
da fortaleza de São Lourenço"." A figura de Governador e Capitão
General, que perdurou até 1834, aparece lavrada na nomeaçáo de
D. Luis de Miranda Henriques em 1640.41
Na Madeira e Açores os problemas resolviam-se pontualmente
com a presença do corregedor - um no primeiro e dois no segundo
- e sd a partir da união das coroas peninsulares o novo monarca viu
a necessidade de adequar a forma de governo das ilhas à vigente
nas Canárias: na Terceira foi o cargo de Governador Geral dos
Açores (1 581), assumido por D. Ambrosio de Aguiar Coutinho,
depois na Madeira em 1585, o de "Geral e Superintendente das
cousas da guerra"." Conquistada a ilha Terceira ficaram D. Alvaro
Bazan e D. Joáo de Urbina com o governo do arquipelago aço-

39 Sobre esta figura veja-se o que diz Gaspar Frutuasa, Livro Segundo das Saudades da
Terra, caps. XX-XXIX.
40 Gaspar Frutuoso (ob.cit., cap. XXVII) refere que o rei "o enviou A dita ilha por Geral e
Superintendente das coisas da guerra de ambas as capitanias dela, e que servisse de
alcaide-mor da fortaleza da cidade do Funchal..." para cumprir a "seu serviço e
defensão da ilha da Madeira".
41 Não existe consenso na historiografia quanto 3 definiçáo deste cargo. Cf.
"Governadores Gerais", in Elucidbrio Madeirense, vol. II, p.99-100; Darnião Peres, A
Madeira sob os Donatár~os,Funchal, 1914, J. C. Nascimento, Documentos para a
História das Capitanias da Madeira, Lisboa, 1930.
42 Damião PERES, O Problema dos Governadores Gerais da Ilha da Madeira, Porto, 1925.
ALBERTO VIEIRA

riano. Pertence-lhes a reorganiza~áodo governo. Note-se que


ambas as situa~õesse perpetuaram e após a restauração da inde-
pendencia em f 640.Assim nos Açores criou-se o lugar de Capitão
Mor dos Açores que acumulava com o de Mestre de Campo e
Governador do Castelo de S . Filipe.43A situação, obviamente que
não foi do agrado dos açorianos, nomeadamente dos terceirenses.
A nova estrutura administrativa propiciou uma maior atenção A
instituicão militar. Deste modo a Madeira passou a contar com uma
guarnição permanente com sede na Fortaleza de S. Lourenço, com-
posta pelas forças do presídio castelhano. Acresce, ainda, a figura
do "Superintendente das cousas da guerra" que tinha funções de
coordenar os assuntos militares e o fortificador da ilha. Tudo isto
revela a preocupação de reorganização da estrutura militar resul-
tante da pressão exercida pela permanência de corsários na vizin-
hança da costa.
Em Cabo Verde e S. Tome a afirmação da autoridade régia
torna-se mais evidente com a intervenção do corregedor: em 15'14
no segundo e 1517 no primeiro. Em S. Tom4 ele surgiu desde o inl-
cio como o funcionário supremo, retirando alçada aos donatarios.
Já em Cabo Verde a mudança foi paulatina: no começo adquiriu a
função de funcionário supremo, sendo conhecido em 1558 como o
ouvidor letrado. Em 1569 no arquipélago de Cabo Verde a tendên-
cia era para a concentração de poderes num só funcionario, sur-
gindo ai o Desembargador Antonio Velho Tinoco acumulando as
funções de Provedor da fazenda, dos defuntos e resíduos,
Corregedor e Capitáo da cidade da Ribeira Grande." Finalmente
em 1587 surge o cargo de Capitáo General, Governador e
Provedor da Fazenda Real, a quem competia a superintendência de
toda a actividade governativa das ilhas e Rios de Guiné. Para o
cargo foi nomeado Duarte Lobo da Gama.
Em CanSirias tivemos a mesma tendência unificadora de pode-
res com a figura do Capitan General, Governador e Presidente da
Audiencia surgida em 1589. D. Luis de La Cueva, senhor de

43 Urbano de Mendonca DIAS, A Vida de Nossos Avós, vol. III.


44 A.T. MOTA, " A primeira visita de um governador de Cabo Verde a Guin6 (António
Velho Tinoco c. 1575)". in Ultramar, VII, no 4, 1969.
, las Islas y e1 Mundo Atlántico. 158ü-'1648

B m a r (1589-1 594), a quem foi atribuído o cargo, representava o


d x i m o poder administrativo, militar e judicial, pois era o Capitán
General que acumulava em simultâneo os poderes de Governador
e Presidente da Real Audiencia, com sede em Las palma^.'^ Esta
situação foi de curta duração uma vez que em 1594 o governador
foi chamado a corte e retornou a anterior forma de governo.
Somente em 1625 com o conde Duque de Olivares retomou-se a
política de centralização de poderes. Assim, D. Francisco de
Anadla, Marques de Valparalso, foi enviado As ilhas como "Veedor
y Reformador de Ia guerra" e acabou em 1629 como Capitán
General Gobernador Presidente,*"str utura que se manteve até
1723.
De um modo geral podemos considerar que o municlpio nos
séculos wi e xvii desfrutava de ampla autonomia e de elevada parti-
cipaçáo das gentes na governanca. Todavia a prática municipal veio
a revelar alguns atropelos que levaram a coroa a limitar a alçada
por meio de funcionários régios, como o corregedor. Tendo em
conta a situação criada pelos monarcas filipinos, quando da união
das coroas peninsulares (1580-1640), procuraram cercear os pode-
res dos municípios portugueses procedendo a algumas mudanças
na estrutura na 0rg4nica.~'
Ao nível das diversas estruturas de mando nunca se alcançou
uma harmonia perfeita, uma vez que surgiram inúmeros conflitos,
dentro da prbpria instituição ou, o que era mais habitual, fora dela.
Para isso terá contribuído, por um lado, a insistente subdelegação
de poderes e, por outro, as dificuldades na pronta fiscalização por

45 Gaspar Frutuoxi (Livro Primeiro das Saudades da Terra, cap. XII) define a situaçáo do
seguinte modo: "cabeça e metrópolis de todas as sete, onde reside o tribunal e
audiencia real e desembargo de tr?s ouvidores seculares e regente, onde vão tãr todos
os casos e negkios de todas as outras ilhas, senão os crimes, os quais julgam e sen-
tenceiarn e executam os governadores de cada uma delas, porque nesta Gram
Candria hA, por si sb, governador que tem jurdiçao de baraço e cutelo, e o mesmo
tem cada uma das outras ilhas."
46 Cf. Leopoldo de La Rosa Olivera, Evolucidn de/ Régimen Local de Ias idas Canarias,
>
'

Islas Canarias, 1994.


47 Para o Funchal confronte-se Alberto Vieira e outros, O Município do Funchal (1550-
1650). in Actas do I Colóquio Internacional de história da Madeira, 1986, Funchal,
1990, pp.1004-1089.
parte da coroa. Uma reclamação da Madeira demorava meses a
obter a concordância do senhorio ou da coroa, e piorava no caso
de 5. Tom6 ou de Cabo Verde. O distanciamento da coroa e a falta
do "olho justiceiro" dos funcionários provocaram atropelos de que
foi vitima a vida mun~cipalmadeirense no seculo quinze e toda a
administração de Cabo Verde e S. Tomé para os séculos xvi e xvii.
Da nova estrutura institucional contava uma maior revitalização
do poder municipal, o aparecimento de novos municipios e de
outras estruturas de mando, para estabelecer-se uma barreira firme
aos hábitos entranhados na vivência quotidiana dos capitães. Deste
modo houve necessidade de estabelecer uma estrutura forte capaz
de enfrentar a nova realidade. Os atropelos i autoridade legítima
do rei aumentavam de acordo com a distância das capitanias aos
centros decisão no reino. A necessidade e celeridade na nomeação
dos funcionários régios para tais ilhas estavam bem patentes num
requerimento do município da Ribeira Grande (Santiago) em 1624:
"t que a gente dela é revoltosa; e que há homicídios e outros cri-
mes; o que se não houver governador haverá muitos mais; e que
os naturais por serem muitos vexarão e consumirão as pessoas que
Id estão deste reino, que são muito poucas, por ficarem livres e
senhores do governo". Foi por a i que a coroa começou, estabele-
cendo uma autoridade suprema: primeiro em S . Tome o cargo de
Capitão (1 541), depois em Cabo Verde o de Capitão Geral das
Ilhas (1578). Este ultimo veio a dar origem em 1600 ao Capitão
Governador, sendo substituido, a partir de 1640, pelo Capitão e
Governador General. Alem disso houve necessidade de definir uma
forma específica de governo para as ilhas. Os governadores e ouvi-
dores passaram a ser nomeados apenas por um período de tres
anos, findos os quais o seu governo deveria ser sujeito a uma sin-
dicância. Depois a coroa passou a enviar, com frequência, ouvido-
res ou desembargadores a sindicar a acção dos governadores,
ouvidores e capitães-mores.

A RESTAURACAO DA MONARQUIA PORTUGUESA E O MUNDO INSULAR

A restauração da monarquia em Portugal, a 1 de Dezembro de


1640, anuncia uma nova era para as ilhas. A noticia da restauração
prtuguesa foi r r m k i d a na Madeira a 26 de
intermbdio de um navio inglgs, proveniente de
m destino às Canarias." As cartas escritas pelo novo
s autoridades madeirenses sb chegaram ao Funchal a 10
Wilmiro, procedendo-se de imediato A aclamação do novo rei: a
iEeE de Janeiro no Funchal, a 13 do mesmo m&s em MachicoWe,
wmente, a 5 de Fevereiro no Porto Santo.
Fam indlito foi a aclamação do novo rei no senado funchalense, a
1I de Janeiro." Aí compareceram todos os oficiais da câmara, homens-
bons, demais autoridades, povo e o capitão do presidia, D. Tomás
trelásquez de Sarmiento. Entre a numerosa multidão foram notadas as
presenças de alguns fiéis seguidores do monarca castelhano: o procura-
dw do concelho, D. António Rojaç e o juiz Luís Fernandes de Oliveira,
que fora contador do referido presldio. Neste momento de euforia, por-
tugueses e castelhanos adamam em uníssono o n m rei. E, quando
tudo parecia continuar na mesma, eis que se levantou a 25 de Janeiros1
um alvorwo popular, chefiado por Manoel Homem da Camara, contra
os castelhanos e fiéis seguidores na administraçao: destituiram o juiz
Luis Fernandes Oliveira, o escriváo Manuel Teixeira Pereira e o provedor
da Fazenda, Manuel Vieira Cardoso.
A tropa do presídio não moveu qualquer acção de violencia, pois
havia sido desarmada e conduzida para as Canhrias. A coroa castel-
hana e o Cabildo de Tenerife ficaram esperando o pior com a possibi-
lidade de um assalto madeirense b ilha de Te~~erife,~~ o que nunca

48 A. Artur, O Alevantamento de D. João IV na Madeira, in Congresso do Mundo


Portugu&s, vol. MI. t.2, Lisboa, 1940. pp.191-198; idem, Documentos & Notas sobre a
bpoca de D. João W na Madeira .1&lGí 656. Funchal. 1940.
49 Arquivo Regional da Madeira. Camaia Municipal de Machico, na.85, fls.4.0-44; Idem,
Ibidem, n1.103. fls 28-28P.Num auto lavrado a 16 de Janeiro (Ibidem, f1.29) decidi-
ram agradecer a" merce que Deos nosso Senhor nos fes em nos dar por nosso rei
Dom Joao o quarto (...lu
50 Arquivo Regional da Madeira, Cdmara Municipal do Funchal, n0.1329, fls.7-9;
A.A.SARMENT0, História Militar da Madeira, hinchal, 1912. p.6
51 Arquivo Regional da Madeira, Cdmara Municipal do Funchal, nD.1329,fls. 10P-13;
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Prwedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal,
registo geral, m o IV, fl.202.
52 Confronte-se Santiago de LUXAN MEENDEZ, "Los Soldados &l Presidi de Ia Madera
que Fueron Desechados a Lanzarote em 1641: Contribucion a! Estudio de Ia
Coyuntura Restauracionista Portuguesa en Canarias", in IV jornadas de Estudios de
Lanzarote y Fuertwentura, Arrecife, 1989. \
~ guerras de fronteira no r e i m a
quista de P e r n a r n b u c ~e~nas
Entretanto a 16 de Fevereiro teve lugar nova reunião nos paqos do
concelho, bastante concorrida, para aprovar a saudaçáo ao rei d
enviar por um procurador. Nela foram notadas as ausências de João
Haptista Acciouli e Antdnio Carvalhal Esmeraldo. E uma vez que
estes, posteriormente, se recusaram, por vdrios motivos, a vir a
camara assinar a referida saudação, foram substituídos a 26 de
Fevereiro por Antonio de Aragão de Teive e Baltasar de Abreu
Berenguer, que o governador não quis reconhecer como
A atitude do novo monarca perante estes factos foi de hesitação:
a 2 de Agosto mandava proceder contra os revoltosos de 25 de
Janeiro, mas a 3 de Seternbr~~~ recomendava que não se procedesse
sobre isso enquanto não enviasse novo corregedor e governador, o
que ocorreu passados sete dias, com a nomeação de Nuno Pereira
freire para novo Governador, que s6 veio assumir as funções em 20
de Março do ano seguinte. Na vinda para a ilha foi acompanhado do
Dr. Gaspar Mousinho Barba, nomeado a 6 de Março5' para devassar
os tumultos. Mas ao último esperava um fim fatídico. O termo de
óbito lavrado a 29 de Dezembro de 1642 testemunha numa nota, à
margem, o sucedido: "No dito dia, veiu A camara, a prender Luís
Manuel Leme da Carnara. Levantou-se o povo que andava desenfre-
ado e lhe deram uma estocada. Não se confes~ou."~~ Esta situação

53 Jose António Gonçalves de MELO, 1030 Fernandes Vieira. Mestre-de-Campo do Terqo


da Infantaria de Pernambuco, 2 vols, Recife, 1956
54 Joao Cab~atdo NASCIMENTO, "Gente das ilhas nas Guerras da Restauta~áo",in
Anais da Academia Portuguesa de História, 'Ia sPrie, vol. VII, Lisboa, 1942, pp.427-
458; Ernesto GONÇALVES, "Os Madeirens- na Restauraçao de Portugal", in Das
Artes e da História da Madeira, val. Vil, n0.37,1%7.
55 Arquivo Regional da Madeira, Camara Municipal do Funchal, nol329, fls.24v0-26
56 Arquivo Regional da Madeira, Cimara Municipal do Funchal, no.l21 7, tomo VI, f1.53,
registada a 1 5 de Fweretro de 1 642.
57 Arquivo Regional da Maderra, CAmara Municipal do Funchal, regirto geral, tomo VI,
n0.1217, fi.55P; idem,Camara Municipal de Machico. n0.85,fls. 92-93P.
58 Arquivo Regional da Madeira, bbitos -Sé, rP.73,41.163
~

Las Isfas y ef Mundo Atfántico. 1580-1648

foi resultadoda devassaque o mesmo fez contra Manoel Homemda


Câmara, que o levoua uma ciladana casa da câmara, onde morreu,
sob o olhar complacente do governador.s9Perante isto o rei retroce-
deu, ordenando em 26 de Janeiro de 164460ao governador" que
para quietação dos moradores nessa ilhase dê meio, qual convêm, e
para que se evite os feitos de suas inimizadese ódios, ordenareis às
justiças que não procedam contra pessoa alguma por causa que
sucedeu no tempo da minha aclamação". Todaviao rei mandou a 28
de Julh061o Dr.Jorge de Castro Osório, Desembargador da Relação
do Porto, que viesse à ilhadevassar a referidamorte,maso mesmo
também acabou morto a 17 de Janeiro de 1645, sem que algo de
novo tivesseacontecido.
Tal como se viu mais uma vez a passagem do manifesto na
Madeira foi pacifica. O mesmo não se podará dizer nos Açores,
onde a presença, na ilhaTerceira,de uma guarnição castelhana sob
o comando de D. Álvaro de Viveiros,veio a gerar dificuldades. O
espaço açoriano, nomeadamente o porto de Angra era por demais
disputado pelos intervenientes no atlântico. Assim, se em 1580 se
haviam juntado as sinergias dos beligerantes face à passagem das
ilhas para o domínio castelhano, neste momento são os castelha-
nos que não querem abdicar da posição estratégica.
O reconhecimento da nova situação pelos açorianos foi uma
preocupação imediata dos conjurados. Deste modo a 21 de
Dezembro partia para os Açores Franciscode Orneias da Câmara,
CapitãoMorda vilada Praia,a quem fora incumbidaa missãode
aclamar o novo rei e com um plano secreto para tomar posse da
fortaleza do Monte Brasil.A tarefa era difícil,tanto mais que o
governador do presídio, D. Alvarode Viveiros,com sede o castelo

59 Arquivo Regional da Madeira, Câmara Municipal do Funchal, na 1217, fls.49-51, auto


da querela entre Manuel Homem da Câmara e o governador Luís de Miranda
Henriques, 15 de Abril de 1641; Arquivo Histórico Ultramarino, Madeira e Porto Santo,
n°.4846, p.307; A. A. SARMENTO, História Militar da Madeira, Funchal, 1912, p.7
60 Arquivo Regional da Madeira, Câmara Municipal do Funchal, na 1217, tomo VI,
fl.61vo; publicado por Alberto Artur SARMENTO, Documentos & notas sobre a época
de D. João IV na Madeira.1640-1656, Funchal, 1940, pp. XXXIV-XXXV.
61 Arquivo Regional da Madeira, Câmara Municipal do Funchal, n°.1217, registo geral, t. I
VI, fl.65. Apresentou-se em cãmara a 1 de Dezembro de 1644.

337
. -,

de S. Filipe Eo&êCedor da situacão estava ref ugiwle na hxpugn6-


vel fortaleza. O novo rei foi aclamado a 24 de Março de 1641 na
vila da Praia e daqui partir emissdrios com a noticia e a solicitar
apoio para o embate contra os castelhanos. Apenas na ilha de S.
Miguel, onde já se conhecia a notícia através da Madeira, os ofi-
I
ciais das carnaras de Ponta Delgada, Vila Franca do Campo e
Ribeira Grande se recusaram a fazer juramento ao novo ret antes
de receber cartas de Lisboa. Estas 56 chegaram em Abril, proce-
dendo-se então ao acto formal no dia dezanove. Em Angra o povo
e autoridades aguardavam com expectativa a aclamação do novo
monarca face aos manifestos movimentos de resist6ncia do gover-
nador do castelo. O cerco ao reduto do Monte Brasil durou doze
meses e os castelhanos só se renderam a 16 de Março de 1642
face a falta de mantimentos, munições e a demora na chegada de
uma armada de apoioaG2
Cabo Verde era um ponto estrategico fundamental para a recu-
peração do império atlântico. As hostilidades sempre evidentes
com os mercadores castelhanos, que sempre se furtavam ao paga-
mento de direitos, tornou fácil a aclamação do novo monarca por-
tuguês. Foi assim que sucedeu em 5 de Fevereiro de 1641 em
Santiago com a chegada das primeiras noticias de Lisboa. O gover-
nador reclamou confirma~áodo sucedido enviando um emissário a
Lisboa. Também em S. Tomé a noticia dada por uns franceses foi
saudada com alegria. A ilha mergulhava a vários anos numa grave
crise económica e a mudança política era uma esperança para os
moradores. Todavia o que se seguiu foi distinto. A 24 de Agosto os
holandeses ocupam Luanda, tornando-se numa ameaça para a
ilha, que se tornou uma realidade alguns dias depois com o cerco
de uma armada holandesa. A população refugiou-se no mato e

62 vasta a bibliografia sobre este momento de gloria e patriotismo dos terceirense: Frei
Digo das Chagas, "Relaçao do que aconteceu na cidade de Angra da ilha Terceira", in
Archivo dos Afores, vol.X, Ponta Delgada, 1878, pp. 193-232; Padre Leonardo Saa
Soto MAYOR, Alegrias de Portugal ou Idgrimas dos castelhanos na feliz aclamação de
El-Rei D. joão o quarto, Angra do Heroismo, 1957; Miguel C. ARAUJO. "A restau-
raGo na ilha Terceira (1 641-1 642}.Cerco e tomada do castelo de São Filipe do Monte
Brasil dos terceirenses", in Boletim do Instituto Histórico da ilha Terceira, vol. XVIII,
Angra do Heroismo, 1963.
r w&.&da em 1648. O retorno da soberania portuguesa 2
ilha aconteceu só em Setembro deste ano.
Outro facto significativo da adesáo insular aos objectivos da
monarquia restaurada foi a participacão nas campanhas de recupe-
ração de alguns espaços do Novo Mundo ocupados pelos holande-
ses, no Brasil e Luanda, e para a guerra peninsular. No Brasil
releva-se a iniciativa de João Fernandes Vieira, que segundo o
mesmo declarava em testamento "guiou a causa das felicidades de
que está gozando Portugal" ao expulsar os holandeses de
Pernambuco em 1654.63

AS CONSEQUENCIAS DA RESTAURACAODA MONARQULA PORTUGUESA

Se o período filipino representou o avolumar dos inimigos dos


interesses coloniais dos portugueses, j6 o Portugal Restaurado vai
buscar o apoio entre os rivais de Castela. Deste modo franceses,
holandeses e ingleses firmaram-se num primeiro momento como
os nossos principais aliados, usufruindo com isso alguns favores
que favoreciam o expansionismo. A 1 de junho de 1641 foi assi-
nado o tratado com a França e desde 21de Janeiro deste ano que
os holandeses usufruíam de liberdade comercial nas praças do
reino que ficou esclarecida no tratado de tréguas de 12 de Junho
de 1641. Neste tratado assinado em Haia ficaram estabelecidas
as tréguas entre Portugal e os Estados Gerais das Províncias
Unidas por um período de 10 anos. Mais tarde com o tratado
assinado a 20 de Outubro de 1648 pBs-se termo às hostilidades
sobre a posse do Brasil. O restabelecimento das relações com a
Inglaterra s6 aconteceu em 29 de Janeiro de 1642, certamente
atraídos pelo bom relacionamento com a Espanha.
A Restauração anunciou rnudan~asem termos institucionais
para as ilhas, que ficaram a depender do novel Conselho
Ultramarino, criado em 1642. A nova estrutura administrativa 6 um

63 Cf. A.A. Sarrnento, &end@ncia, Naturalidade e Mudança de Joao Fernandes Vieira,


Funchal. 791 1 ; J. A. Gonçalves de Melo, João FernandesVieira, 2 vols, Recife, 1967.
w
m
pela di
cava a atenqão da coroa.w
Ao nivel institucional as mudanças
governaçâo filipina acabaram por se institucionalizar. Os ç a p W
dos donatários perdem importancia e surge a figura da autoridade
m6xima com intervenção nos diversos domlnios, que na Madeira
ficou conhecida como governador e capitáo general e na Terceira
como Governador do Castelo de 5. Filipe e das ilhas dos A ç o r ~ .
Note-se que esta figura estava j6 estabelecida em S. Tom4 desde
1541 com o capitão e em Cabo Verde em 1578, com o capitão
general das ilhas. A partir de 1640 ficou institucionalizada a de
Capitão e Governador Geral.
No caso da Madeira a revolta lisboeta de 1 de Dezembro de
1640 preludia o fim do demorado perlodo de relacionamento
comercial e humano com o arquipklago da Madeira. A conjuntura
polftica e institucional rompeu com a tradi~ão.As mudanças então
operadas condicionaram uma política de represálias, documentada
para os anos de 1641-42 e 1662, que se repercutiu negativamente
nos contactos entre os arq~ipelagos.~~ A historiografia aponta o
confisco dos bens do filho vara0 de Sim30 Aciaioli, que casara com
a filha do Conde de Lan~arote,~~ depois foi o paulatino desapareci-
mento dos madeirenses nos portos de Canárias. E, factos insditos,
os poucos que conseguimos rastrear na documentação parece que-
rer ignorar ou apagar a origem, surgindo apenas com o eplteto de
vizinhos. Pelo menos 6 o que sucede com Domingos Pires, merca-
dor madeirense que na carta de fretamento de 13 de Setembro de
164567apenas se faz identificar como vizinho, quando em 1 6 2 F
não hesitava em declarar a origem madeirense.

64 Marmllo Caetano. O Conselho Ultramarino. Esboço da sua Histbria, Lisboa, 1967.


65 A.A.SARMEWT0, Ensaios Históricos da Minha Terra, vol. II, pp. 5-6.
66 Alberto Artur SARMENTO, Fasquias e ripas da Madeira, Funchal, 1951, pp.40-48. Esta
situaçao deverá ser enquadrada no diferendo que se arrastava desde a morte do
Marquh e teria mais a ver com a legitimidade ou nao desta sucesso. Sobre isto veja-
se Elisa TORRES SANTANA, ibidem, pp. 306307
67 Archivo Historico y Provincial de i a s Palmas, Protocolos, n0.2748,fls.42 1-422
68 lbidem,no.2725,fls.77-77P
.

L a Masy d Mundo AtlArttka

evidente, a partir de 1645, um hiato prolon-

sessenta actos em que participaram madeirenses,- apenas


. dez são
posteriores a 1640, sendo oito dos primeiros cinco anos dos pri-
meiros da última década. além disso numa relação das ernbar-
ca~õesvisitadas pelo tribunal do Santo oficio de Las Palmas para o
século xvii surgem 22 da Madeira e 18 dos Açores. Aqui é bastante
uma ausência nas décadas de quarenta a sessenta. A partir de
1645 a documentação madeirense emudece quanto a esta reali-
dade. Na vereação funchalense as referencias a abertura do preço
de trigo daí proveniente não têm mais lugar a partir de 1641. O
cereal de Lanzarote é agora substituído pelo maior reforço da rota
açoriano e pelo aparecimento de novos mercados, como a Berberia
e AmGrica do Norte.70
Sem duvida que o efeito mais nefasto da situacão foi para o
arquipélago das Canarias, que perdeu este ancoradouro,
Todavia ele não se radica na quebra do relacionamento corner-
cial com a Madeira, mas sim nas repercussões da represália por-
tuguesa e do fiel aliado britânico, evidentes no comércio do
vinho com o mercado colonial.
Os diversos pactos de amizade entre as coroas de Portugal e
Inglaterra sedimentararn as relações comerciais entre ambos,
favorecendo a oferta do vinho madeirense e açoriano nas coló-
nias britânicas da América Central e do Norte, com a lei de
navegação de Carlos 11, aprovada em 1641.71 A situação de pri-
vilegio ao comércio de vinho dos arquipélagos portugueses
repercutiu-se negativamente na economia das Canárias, tra-

69 Arquivo Historico y Provincial de Las Palmas, Protocolos, n0.2729, fls. 7vl-8; n0.2761,
f15.93-94.
70 Alberto VIEIRA, "O comercio de cereais das Canárias para a Madeira nos séculos xv-
xvii", VI Coloquio de Historia Canario-Americana, Las Palmas, 1984; Idem, "O
Comércio de cereais dos Açores para a Madeira no século xvii", in Os A~orese o
Atlantico (s&uios xrv- mi),Angra do Heroismo, 1978, pp. 663-665
71 Rupert CROFT-COOKE, Madeira, Londres, 1961, pp.26-28; André L.SIMON,
"lntroduction" e "Notes on Portugal Madeira and the Wines of Madeira", in The
Bolton Letters.Lettersof an English Merchant in Madeira 1695-1714, Londres, 1928
vando o processo de desenvolvimenh da er B Mt4~vinicg;llzr,
~ Stecklqt-n'ã& dkstant
a partir de finais do século X V I I . ~E.
mentar uma época de prosperidade no com&cio com Inglaterra,
reafirma a crise, que se aproximava: Así pues durante dicha cen-
turia algunos de 10s antiguos mercados canarios de vino se
estancaron y Ias islas portuguesas demonstraron ser unos com- i
petidores capaces y eficientes para 10s nuevos mercados ameri-
canos de ~ i n o " A. ~ideia
~ é reafirmada no estudo de António
Macíaz e Agustin Millares Cantero, que define o período de
1640 a 1670 com "de crisis de1 prolongado esplendor econó.
mico", que será resultado de"la oferta madeirense y de o
I
porto" que "comenzd a sustituir a Ia Canaria en e! mercado
ingle~"'~
O casamento de Carlos II de Inglaterra com D. Catarina de
Bragan~afoi o prelúdio disso, sendo definido por Viera y Clavijo
como um "golpe tan feliz para Ia isla de Ia Maderas como
infausto para Ias cana ria^".^^ Acresce ainda que a guerra de
Cromwell contra Espanha levou ao encerramento do mercado
londrino ao vinho de Canarias, no período de 1655 a 1660,
bem como ao estabelecimento de medidas preferenciais ao
envio de vinho das ilhas portuguesas para as colónias britanicas.
O texto da ordenança de 1663, repetido mais tarde na de 1665,
era claro: "Wines of t h e growth of Maderas, the Western
Islands or Azores, may be carried from thence t o any of the
lands, islands, plantatinos, & colonies, territories or places to
this majesty belonging, in Asia, Africa or America, in english
built ships. "76

72 A. Bethencourt MASSIEU, "Canarias e Inglaterra. el comercio de vinos (1650-1800)",


in Anuario de Estudios Atlanticos, n0.2, 1956, pp.195-308: IDEM, "Canar~asy el
comercio de vinos (siglo mi)", in Historia General de Ias islas Canarias, tomo, 111, 1977,
266-273;
73 "La economia vinicola de Tenerife en el siglo xvii: relación anglo-espanola en un
comercio de lujo", in Aguayro, no.138, Las Palmas, 1981, p. 29
74 "Canarias en Ia edad Moderna(circa 1500-1850)", in Historia de Los Pueblos de
Espana. Tierras fronterizas(1) Andalucia Canarias, Madrid, 1984, pp.319, 321
75 Citado por A. LORENZO-CACERES,Malvasia y Flastaff. 10s vinos de Canarias, ia
Laguna, 1941, p.19.
76 Andrk L.SIMON, "Notes o n Portugal, Madeira and the Wines of Madeira", in The
Bolton L e t t e ~Cetters
. of an English Merchant in Madeira 1695-1714, Londres, 1928.
las klas y e1 Mundo Atldntico. 1580- 1648

O fim da guerra de fronteiras, com as pazes assinadas em


W i d a 5 de Janeiro de 1668 e ratificadas a 13 de Fevereiro em
Lisboa, retomaram-se os contactos entre os doK O
reforce das rela$es poderá ser testernwbiado peta presença de
Bento de Figueiredo, como cônsul castelhano no F ~ n c h s l Mas
.~~
conthuaf-am as dificuldades de intervençao do arquipélago no
mercado colonial. Apenas com as pazes de Mrecht de 1713 se
abriram novas perspectivas ao arquipélago das Canbias. Mas isto
sucedeu numa altura em que os vinhos madeirenses e ~ o r i a r i o
haviam j& conquistado uma posigáo sbhda no mercado colonial
britanico. Deste modo poder-se-d afirmar que o W o perdedor da
conjuntura foi o arquipélago das Canaias, que se viu a braços com
uma grave crise econbmica, por falta de escoamento do vinho.79

No perlodo em questão são evidmks m u m a s de vulto que


abarcaram todos os domínios da vi& c k hhas e que as projecta-
ram para uma era nova. As m sáo s W ~ a t i v a 5Wer ao
nlvel econbmico, quer politico. A conjmtwa veio a i~e%r-se de
forma evidente no porvir das ilhas. Para dérn &soo príodo anun-
cia-se, pelo menos na primeira fase sob o signo da W i d a d e
provocada pela guerra no mar e em terra. O corso náo sb atormen-
tava as populaçóes costeiras como t a h é m prejuckava e actuava
como entrave ao normal curso das actividaâes comerciais. Todavia,
sanados os conflitos e assinadas as pazes a s i t u a l a retomou à
normalidade e as ilhas retomaram o curso de afirmaçáo progressiva
na economia atlantica.
O conflito subjacente a união das coroas veio evhnciar mais
uma vez a importancia das ilhas no intricado jogo de interesses
das potencias europeias. Mas aquilo que num curto espaço

77 A coma insistiu nesta nwa situagao, recomendando 3s autoridades madeirenses que


publicitassern o que foi feito por meio de um bar& a 8 de Maio. Veja-se Arquivo
Regional da Madeira, Camara Municipal do Funchal, n0.1215, fk.37P-.38
78 Ibidem, no.1 2 1 5, fls.58-58P, 17 de Dezembro de 1672.
79 G. STECKLEY, art. cit., pp.25-31
tempo foi privilkgio de apenas dois dos interessados passou pau-
latinamente a ser partilhado por todos. Assim, se em 1580 ainda
se pugnava pelo exclusivo dos mares, j6 em 1640 a opçáo não
fazia sentido quanto eles estavam totalmente abertos e devassa-
dos. A união peninsular, que se havia anunciado com uma estra-
tkgia dominadora do espaço attsntico e colonial, foi apenas uma
miragem, pois contribuiu para o acelerar da universal partilha do
oceano e das principais rotas de comercio que o rnercantilismo
depois procurou estabelecer um travão.
GERAL

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