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A AUTONOMIA E O DEVE E O HAVER DAS FINANÇAS DA

MADEIRA

ALBERTO VIEIRA

O discurso histórico é a ossatura fundamental que alicerça a autonomia político-administrativa.


Tudo isto porque a história local faz apelo à valorização do passado histórico regional e
permite reforçar a unidade definida pelo espaço geográfico. Uma região sem História
dificilmente poderá fazer valer as suas legítimas aspirações autonómicas. A História da
Autonomia, tal como hoje a entendemos, é recente mas rica em motivos e situações que
fortalecem o actual combate político. A autonomia e o debate político e institucional estão em
relação directa com os problemas financeiros. As primeiras vozes na luta pela autonomia
política insular partiram da constatação da realidade financeira pautada pela sangria da riqueza
arrecadada. A constatação do subdesenvolvimento regional, em contraste com as cada vez
maiores receitas conduzidas à metrópole, está na origem do debate e fervor autonomista. A
ideia de sangria financeira é patente no debate que teve lugar nas páginas dos jornais e teve
repercussão na voz dos deputados da Madeira na Assembleia Nacional. E, não será por acaso
que no debate político actual os opositores das autonomias insulares apontam o dedo acusador
à inversão de marcha do processo. Afirma-se de forma despicienda que as despesas foram
alimentadas pelas receitas do continente português, ignorando-se a receita que a região gerou,
dispõe e continuará a gerar.
Ao debate da actual conjuntura deverá juntar-se, sob pena de falsear a verdade do
relacionamento financeiro da região com a metrópole, a perspectiva histórica. O passado
histórico reafirma que ao longo dos últimos cinco séculos os madeirenses deram todo o
esforço de trabalho e riqueza para a valorização do espaço nacional. Isto demonstra que o
arquipélago foi compulsivamente solidário. Uma visão histórica do deve e haver das contas e
do relacionamento financeiro entre a Madeira e o reino evidencia que o passado foi pautado
por uma forte participação financeira da ilha. Foram os nossos avós que financiaram as
exorbitâncias da Coroa, as viagens a Índia e as elevadas despesas de manutenção e defesa das
praças africanas. A grande aventura das descobertas dos séculos XV e XVI seria possível sem
a existência de espaços, como a Madeira, geradores de elevados excedentes? E perante esta
posição solidária da Madeira do passado aguarda-se por idêntica atitude da mãe-pátria no
presente para que a recuperação do subdesenvolvimento seja possível. Hoje somos nós que
recorremos ao velho continente a reivindicar a cobrança dos "empréstimos", mas no passado a
coroa recorria as receitas madeirenses para colmatar o incessante deficit das finanças publicas.
Partindo desta candente conjuntura decidimo-nos por este projecto com o intuito de
esclarecer, em termos historiográficos, as relações financeiras entre a Madeira e o continente
no sentido de evidenciar se o tipo de relações que geriu este sector foi de tipo colonial. Os
dados que o presente estudo disponibilizará à opinião pública podem e devem contribuir para
uma reavaliação das opiniões vigentes sobre as relações financeiras do estado para com a
região. A ideia de uma ilha espoliadora dos meios financeiros do estado, que ganha expressão
em alguns sectores da sociedade e da política, deverá ser agora confrontada com a realidade
nua e crua dos dados estatísticos até 1974. A conjuntura dos últimos anos da autonomia
aguarda igual compilação para que as evidências possam rapidamente desfazer as falsas
ilusões que dominam o debate político ao nível financeiro.
A História da Autonomia confunde-se com a do devir histórico da ilha e, até à sua
afirmação em 1976, ganhou plena expressão nos momentos de crise e de forte agitação
política. Os momentos ímpares deste debate político, propiciado pela revolução liberal,
encontram-se com o movimento republicano e revolta da Madeira. Não obstante a
existência de alguns estudos esparsos ainda está por fazer a História da Autonomia. É um
objectivo que deve estar no horizonte das nossas preocupações. A ideia de colonialismo
adquiriu vários significados ao longo do processo histórico, ficando todavia a expressar
uma relação de dependência e exploração de uma determinada região ou colónia com o
centro/metrópole. Ora isso não implica a clássica visão de um espaço já ocupado que é alvo
de uma usurpação de fora. É neste quadro que devemos encarar a situação da Madeira. Por
outro lado é um facto indesmentível que a Madeira enquadra-se no processo de expansão
colonial portuguesa, sendo o primeiro passo desta estratégia e como tal irá manter-se por
muito tempo. A sua separação em termos políticos e administrativos será apenas resultado
da revolução liberal. E deste modo aquilo que a até então era colónia, adquire num lapso de
tempo o título de ilha adjacentes, sem que se tenha alterado o relacionamento típico. E
assim é que para muitos a sua sobrevivência está patente na figura do Ministro de
República, que como os anteriores representantes do poder central ocupa o Palácio /
Fortaleza de S. Lourenço.
O debate político cola-se por vezes à História na busca das razões que fundamentem
tal relacionamento institucional. E neste caso mantém actualidade o relacionamento da ilha
com o continente europeu, uma relação colonial que só poder dos liberais viu acabar em
completa ruptura com o passado. Na verdade, até então a Madeira merecia um tratamento
idêntico ao demais espaço colonial. Aliás, estava sob a mesma alçada do conselho
Ultramarino (1643-1833). Note-se que nas páginas do Patriota Funchalense, o bastião da
liberdade de opinião, reclamava-se contra o tratamento de colónia feito pelos “mandões de
Lisboa”. Deste modo desde 1832 a ilha deixou de ser uma colónia, passando a província
administrativa, igual às demais do continente. A Reforma de Mouzinho da Silveira é o corte
radical com o passado pelo menos em termos jurídicos, o que não implica que no plano real
esse tipo de relacionamento se tenha mantido até 1974.
Na verdade, o estatuto de colónia não resulta do facto de um espaço estar habituado à
chegada do europeu, pois se isso fosse condição Cabo Verde nunca teria mantido esse estatuto,
pois como quase todas as ilhas Atlânticas estava deserta à chegada dos Portugueses, excepção
apenas para as Canárias. A sua definição resulta fundamentalmente do relacionamento que se
estabelece entre a metrópole e a região. Ao nível político o estatuto colonial caracteriza-se por
uma profunda distância em relação aos centros de poder. São os governadores e capitães
generais que se comportam de forma altiva do interior da fortaleza do poder. As ordens
despóticas, a subserviência dos ilhéus, que reclamam em Lisboa através dos seus procuradores
e políticos à mesa da coroa e do orçamento umas magras migalhas da riqueza que remetem
anualmente. É o sentimento de orfandade perante uma autoridade paternalista e despótica. O
regionalismo como constatação dos desequilíbrios regionais e do esbanjamento dos seus
recursos por um poder estranho e distante, é revelador deste estatuto. Desta forma podemos
afirmar que o despontar do movimento autonomista resulta desta constatação do colonialismo
que define as relações institucionais.
Já ao nível económico e financeiro esta relação se revela na entrega de toda a
riqueza. As culturas são impostas para servir os caprichos da metrópole e todo o lucro situa-
se no sector da circulação fora da ilha. Sucedeu assim com a cana de açúcar que se
transformou na galinha dos ovos de ouro para a Coroa portuguesa entre finais do século XV
e princípios do seguinte. Aliás, toda a riqueza desta exploração económica, impostos
incluídos, é orientada para fora do espaço que a cria. Tão pouco sucede um investimento na
valorização do seu interesse. O pouco que retornava surge sob a forma de caridade da
própria Coroa, sob a forma de oferta. O Rei D. Manuel foi de todos o mais caridoso para
com os madeirenses mas também o que mais feriu das riquezas da ilha. Distribuiu benesses
e obras de arte aos madeirenses. Mas a dívida da dádiva madeirense era maior e ao que
parece ainda está por saldar.
A tarefa de reconstituir o movimento das finanças da região não é fácil. As
informações estatísticas só permitem seriações a partir do século XIX e mesmo nesta centúria
os dados são muitas vezes escassos. O carácter avulso dos dados estatísticos revela o pouco
cuidado na arrecadação nos impostos, pois parece que o desleixo em muitas ocasiões era total.
Nos últimos dois anos, o pouco tempo disponível, foi utilizado para proceder à recolha
incidindo-a nos séculos XIX e XX, momentos em que as exigências da Estatística facilitam a
nossa tarefa. O quadro que se segue é revelador do actual estádio de desenvolvimento dos
nossos trabalhos e, diga-se, tudo o que depois se afirma tem por base isto.

PERCENTAGEM DE ANOS COM DADOS

receita
100%
despesa

50%

0%
XV XVI XVII XVIII XIX XX TOTAL

As finanças do reino foram por norma demarcadas por um permanente deficit pelo que a coroa
teve necessidade de se socorrer a diversos meios para saldar a diferença. Desde o século XIV
que a forma mais usual de o solucionar era o recurso a pedidos e empréstimos. Era com estas
formas de financiamento que a coroa cobria o deficit e cobria as despesas bélicas, a boda do
casamento dos príncipes. O vigor demonstrado pelos madeirenses na defesa dos seus
interesses tem expressão neste episódio e pode ser reafirmada no papel do senado da câmara
do Funchal. Na verdade a Madeira era desde 1433 um espaço fora do controle da coroa,
dependendo do Mestrado da Ordem de Cristo e tendo o Infante D. Henrique como senhor.
Mas a riqueza da ilha estava na mira da coroa pelo que D. Manuel, que também foi senhor da
ilha, deu a machadada final no processo de auto governo dos madeirenses ao proceder em
1497 à “nacionalização” da Madeira. A carta régia que faz a ilha realenga é clara quanto ao
peso económico nas finanças do reino: "é uma das principais e proveitosas coisas que nós, e
real coroa de nossos reinos temos para ajudar, e financiamento de estado real, e encargos de
nossos reinos". Esta ideia da ilha perdurou por muito tempo de modo que em 1836 ainda
continuava a afirmar-se “que é uma das mais preciosas jóias da coroa de Vossa Majestade”.
A partir de finais do século XV toda a riqueza gerada na ilha deixou de pertencer ao
senhorio e passou para o usufruto da coroa, indo a tempo de financiar as grandes viagens
oceânicas e a excessiva despesa da Casa Real. Também, a partir daqui é evidente que a
Madeira perdeu a capacidade reivindicativa perante a coroa. O centralismo régio está patente
na submissão e pronto acatamento pela vereação de todos os regimentos e decretos régios. O
arquipélago foi uma importante fonte de receita para travar o endividamento do reino e manter
a opulência da casa senhorial e real. Esta elevada despesa só poderia ser coberta com as
receitas arrecadadas nas ilhas e nos novos espaços coloniais. E aqui quando se fala de ilhas é
quase sempre sinónimo da Madeira.
É evidente que durante o século XV e primeiro quartel do seguinte a principal fonte
de receita do mundo português estava no açúcar madeirense. As receitas advinham dos
direitos lançados e do comércio do açúcar apurado. Todavia os dados financeiros
disponíveis não evidenciam de forma clara esta situação. Perderam-se os livros de contas,
mas os poucos disponíveis não nos atraiçoam. Primeiro, o senhorio e depois a coroa
oneravam este produto com diversas tributações que conduziam a que amealhasse elevadas
quantias que usava em benefício próprio, no pagamento de tenças, esmolas, empréstimos e
dívidas. No primeiro registo das receitas do reino e possessões, datado de 1506, a Madeira
surgia com o valor mais elevado das comparticipações dos novos espaços insulares, com
5,3%. Até a década de trinta do século XVI os reditos fiscais resultantes da produção e
comércio do açúcar asseguraram parte importante das fontes de financiamento do reino e
projectos expansionistas.
Em 1529 com o Tratado de Saragoça foi encontrada uma solução provisória que a
curto prazo parecia agradar a ambas as partes. D. João III viu-se forçado a pagar 350.000
ducados para assegurar a posse das Molucas que afinal se encontravam dentro da área de
influência de Portugal. Mais uma vez é possível assinalar uma ligação à Madeira, pois terá
sido, segundo alguns, o madeirense António de Abreu o primeiro explorador. Por outro lado os
madeirenses contribuíram com avultada quantia de empréstimo para o pagamento do referido
contrato. Manuel de Noronha ficou com o encargo de arrecadar a contribuição madeirense.
João Rodrigues Castelhano é referenciado também como recebedor do referido empréstimo,
tendo desembolsado da sua fazenda 300.000 reais. A este juntaram-se Fernão Teixeira com
150.000 reais e Gonçalo Fernandes com 200.000 reais. O pagamento fez-se nos anos de 1530-
31 à custa dos dinheiros resultantes dos direitos da coroa sobre o açúcar.
O primeiro monarca a definir as regras rudimentares do orçamento foi D. Manuel, pelo
que o primeiro e mais rudimentar orçamento que se conhece data de 1526. De acordo com os
dados disponíveis as receitas fiscais orçaram em 166.347.611 reais, sendo 12.000.000 (=
7,2%) referentes apenas a Madeira, que conjuntamente com as demais possessões fora da
Europa totalizavam 37.630.000 (= 23%). A cidade de Lisboa, que apenas arrecadava 5% das
receitas, absorvia 17% das despesas, o que implicava o financiamento externo com o recurso
aos réditos arrecadados noutras províncias nomeadamente na Madeira, Açores e Costa da
Guine. Pelos dados fiscais de 1531 pode-se ter uma ideia da evolução da receita e despesa da
ilha. Mais de cinquenta por cento das receitas iam directamente para o reino a engrossar os
cofres da Fazenda Real. A partir desta informação, ainda que avulsa, conclui-se que os
madeirenses foram activos protagonistas da expansão lusíada dos séculos XV e XVI
emprestando a própria vida e reditos, arrecadados com a safra do açúcar, no financiamento
deste projecto e das exorbitâncias e caprichos quotidianos da Casa Real.

EVOLUÇÃO RECEITAS. 1506-1588(MILHARES DE REAIS)

Madeira
60
Açores
40 C. Verde

20

0
1506 1518-19 1588

Na primeira metade do século XVII a Madeira enfrentava algumas dificuldades económicas


que se reflectiram nas fianças públicas. A fonte de receitas transferiu-se para as demais
possessões e mesmo os Açores atingem valores mais elevados que a Madeira. Esta situação
vinha evoluído neste sentido desde o ano de 1588. O quadro financeiro do ano de 1607
revela esta precária situação das finanças madeirenses conduzindo a que a despesa
representa 94% da receita, o que corresponde ao valor mais elevado. A despesa não
suplanta 1,5% do total da despesa. Já em 1619 é evidente a recuperação económica da ilha,
subindo o saldo para os cofres do reino a 5,9%.
MOVIMENTO FINANCEIRO DA MADEIRA. PERCENTAGEM EM RELAÇÃO AO TOTAL
1607 e 1619

100,00%

80,00%
saldo
60,00% despesa
40,00% receita

20,00%

0,00%
1607 1619

No quadro das ilhas a Madeira continua a apresentar uma posição destacada mas desta feita
os Açores assumem a posição cimeira na quadro das ilhas. Por outro lado nas terras
ultramarinas afirmam-se em definitivo como a principal fonte de receita. Aqui, a Índia
assume uma posição cimeira. Em qualquer dos casos a despesa é muito diminuta, porque
também a estrutura administrativa não era muito pesada.

EVOLUÇÃO DAS RECEITAS NAS ILHAS. 1607-1681(em milhares de reis)


Madeira Açores C. Verde

40.000
30.000
20.000
10.000
0
1607 1619 1620 1681

Se atendermos apenas à participação madeirense na receita da coroa no decurso dos séculos


XVI e XVII somos confrontados com uma forte intervenção, tendo em conta a superfície, que
se articula de forma directa com as condições económicas da ilha. Assim, o açúcar foi o
principal gerador de um forte excedente de riqueza que diminuiu de forma espectacular com a
crise do século XVII.

RECEITA DA MADEIRA: PERCENTAGEM EM RELAÇÃO AO TOTAL DO


REINO
10

0
1506 1518 1526 1580-88 1607 1619

A partir do século XVI os dados estatísticos revelam-nos que Portugal tinha a principal fonte
de riqueza nas ilhas e possessões ultramarinas. Apenas a conjuntura resultante da união
dinástica na década de oitenta conduziu a uma quebra acentuada da receita das colónias. Em
qualquer das circunstâncias os novos espaços gerados com os descobrimentos revelam-se em
todos os momentos dos séculos XVI e XVII como a mais valia e principal fonte de
financiamento.
EVOLUÇÃO PERCENTUAL DA RECEITA DO REINO E POSSESSÕES
1 4 0
1 2 0
1 0 0
ilh a s
8 0 r e in o
6 0 c o lo n ia s

4 0
2 0
0
1 5 0 6 1 5 1 8 1 5 8 8 1 6 0 7 1 6 1 9

A Madeira, como centro gerador da riqueza do reino e a forma colonial da administração, não
passou despercebida aos locais e visitantes. No século XVIII a promoção do comércio do
vinho veio a gerar de novo elevada riqueza e a ilha parecia querer regressar aos velhos tempos
da opulência açucareira. É dentro desta ambiência que James Cook refere em 1768 que a coroa
arrecadava na ilha 20.000 libras por ano, mas poderia dar o dobro se estivesse nas mãos de
outro povo. Outro súbdito inglês em 1827 apontava o destino desta receita: "o rei pagava todas
as despesas das legações no estrangeiro [isto antes de 1820] com o excedente dos seus
rendimentos da Madeira. Todos os anos era transferida para Londres com esse fim uma
quantia de 50 a 80.000 Libras." O contraste entre esta crescente riqueza que todos os anos
enchia os cofres do reino e as condições cada vez mais precários da população madeirense é
evidente. Paulo Dias de Almeida, enviado à ilha para proceder ao estudo da defesa e rede
viária, foi confrontado com esta triste realidade e não hesitou em exclamar: “Esta colónia, que
já em quatro séculos, e tanto avulta nos reais cofres(quem o diria ?)...”.
O século XIX é um marco na plena afirmação do debate político, que para muitos
madeirenses foi alicerçado nos combates pela defesa do torrão natal. As mudanças políticas
tão pouco solucionaram as ancestrais questões. O combate político de finais do século XIX e
princípios do seguinte avivou os ideais autonómicos e conduziu ao estabelecimento da
autonomia administrativa por carta de lei de 12 de Junho de 1901. Esta evolução do quadro
político não fez esmorecer o debate político. A revolução liberal condicionou a mudança das
finanças públicas. Aboliram-se os encargos senhoriais e em contrapartida criaram-se novos
impostos. A partir de 1831 os orçamentos gerais do estado(OGE) revelam se o esforço
financeiro do estado na região apenas se resumiu às despesas correntes ou se foi pautado por
uma política de investimento. A informação completa sobre a arrecadação dos diversos
impostos está disponível nos Boletins estatísticos a partir de 1876. Os dados reunidos abarcam
todo o período até 1974, havendo apenas um hiato entre 1951-55. Durante este largo período
de cerca de um século o sistema tributário foi alvo de várias reformas que dão continuidade ao
processo iniciado com Mouzinho da Silveira. As mais importantes que dão continuidade ao
processo aconteceram em 1870 e 1881. A República, em 1910, foi o início de um segundo
momento de mudança do sistema tributário, assente na constituição de 1911 e nas reformas de
1922. O processo ganhou novo folgo com o golpe de estado de 1926, sendo o principal obreiro
das mudanças Salazar, quando Ministro das Finanças. O regime do Estado Novo apostou na
década de sessenta na reforma do sistema que só foi voltou a ser alterada passados vinte anos.
De uma forma global o movimento das receitas evidencia que a carga fiscal foi
onerada no período do Estado Novo no momento da sua consolidação na década de trinta. É
também neste período que a participação madeirense na receita nacional é reforçada. A
percentagem mais elevada, isto é 17%, acontece na década de trinta, o período de maior
dificuldade para a Madeira. Isto perdurou nas décadas seguintes, sendo apenas contrariado na
década de quarenta com a guerra. Situação semelhante a esta só aconteceu na primeira década
do século XX, sendo nos demais períodos valores inferiores, mas que nunca desceram para
além da barreira do 1%. Quanto à despesa do Estado na região a situação não é idêntica.
Assim, o valor mais elevado da intervenção é muito reduzido sendo apenas em três décadas
superior a 1%, quando, ao invés a receita sempre foi superior. Em qualquer dos casos onde a
despesa suplanta 1% temos também os valores mais elevados para a receita.
Os dados em apreço evidenciam que o “despesismo” madeirense era uma ilusão
prontamente evidenciada pelos números. Por outro lado se esquecermos a década de 60,
definida por algum investimento, como foi o caso do aeroporto, podemos afirmar que a
República iniciou um período de forte sangria financeira. A República jacobina foi
marcadamente centralista e que o movimento autonomista das primeiras décadas do século
XX, apoiado nos sectores políticos mais conservadores da sociedade madeirense, fez desta
orfandade e sangria financeira o cavalo de batalha para a luta autonómica. E eram
redobradas as razões para tal uma vez que o esforço de investimento financeiro do estado na
região não suplantava os 0,2%, quando o contributo financeiro da ilha para o todo nacional
chegava aos 12,5%. Note-se que no caso das províncias ultramarinas o panorama da
despesa é distinto, atingindo-se em 1914-15 os 16%. O contraste é evidente e mobilizador
de alguns sectores políticos da sociedade madeirense.
EVOLUÇÃO DA RECEITA E DESPESA. 1871-1974
15

14
Receita despesa
13

12

11

10

0
1971-74 1961-70 1951-60 1941-50 1931-40 1921-30 1911-20 1901-10 1891-00 1881-90 1871-80 1861-70 1851-60 1841-50 1831-40

O gráfico da despesa orçamentada revela que o estado não foi pródigo nas transferências
financeiras para a Região e revelou uma posição marcadamente colonial, uma vez que a quase
totalidade das verbas foram utilizadas como despesas correntes. As despesas de investimento
surgem de forma precária com os Ministérios do Reino(1843-53), Obras Públicas(1853-1911,
1947-74), Fomento(1912-18), Comércio e Comunicações(1918-1974). Este investimento está
orientado para a área das comunicações(66,70%), sendo menor no domínio da educação e
agricultura.

DESPESA 1831-1974
T O T A L M A D E IR A

1 E + 1 0

1 E + 0 9

1 E + 0 8

1 0 00 0 0 00

1 0 00 0 0 0

1 0 00 0 0

1 0 00 0

1 8 5 1 -6 0 1 8 9 1 -0 0 1 9 3 1 -4 0 1 9 7 1 -7 4
1 8 3 1 -4 0 1 8 7 1 -8 0 1 9 1 1 -2 0 1 9 5 1 -6 0

Os valores referentes ao século XIX demonstram que o investimento do Estado na região foi
fraco, sendo quase todo o dinheiro canalizado para as despesas correntes. A situação inverte-se
no século XX, mas deve ser apenas resultado da evolução do sistema administrativa com a
autonomia administrativa a partir de 1901. Deste modo, a Junta Geral ficou com o encargo de
importantes ónus financeiros que compreendia a despesa corrente de funcionamento de parte
significativa das estruturas do Estado na região, faltando-lhe para desenvolver infra-estruturas.
Neste pesado fardo incluía-se os encargos com os salários dos funcionários e professores, pois
só em 1971 os salários dos professores passaram para a alçada do Estado. Com a reforma de
1928 aumentou o pesado encargo das despesas correntes da Junta, uma vez que passou a
superintender os serviços dos ministérios do Comércio e Comunicações, Agricultura e
Instrução, do Governo Civil, policia cívica, saúde publica, assistência e previdência, que
estiveram dependentes dos ministérios do Interior e Finanças.

INVESTIMENTOS E DESPESAS CORRENTES. OGE 1831-1974


100%
Despesas correntes
80%
Investimentos
60%

40%

20%

0%
XIX XX

A relação entre a receita e a despesa revela, em qualquer das duas últimas centúrias, uma
situação desfavorável para a Madeira dando razão ao subdesenvolvimento a que a região foi
votada pelo Estado. O esforço contributivo da região no período do Estado Novo não foi
devidamente recompensado com o investimento. Mesmo assim é neste período que temos a
maior incidência e preocupação do Estado no investimento reprodutivo, com
empreendimentos vultuosos, como o porto, o aeroporto e os aproveitamentos hidroeléctricos e
hidro-agrícolas.
O saldo deste movimento é também abonador do facto de que a Madeira foi nos
últimos cinco séculos um destacado contribuinte dos cofres nacionais. A situação assumiu
maior evidencia nos dois séculos iniciais, mas manteve-se por todo o período. Os dados
estatísticos disponíveis evidenciam-se que essa relação é mais evidente nos dois últimos
séculos porque é também nestes que o desenvolvimento da Estatística permitiu uma mais fácil
recolha das séries. Todavia para as duas primeiras centúrias os dados isolados confirmam isto
com maior evidência. Aqui os dados referentes ao século XVI não o expressam porque se
reportam apenas à década de oitenta, um momento de crise da economia madeirense. Também
não podemos fiar-nos nos dados até agora disponíveis para o século XVIII, que evidenciam a
mais reduzida despesa do estado na Madeira, cifrando-se em apenas 8% da receita. Apenas
merecem fiabilidade os dados dos séculos XIX e XX(até 1974), em que o esforço financeiro
do estado na região foi respectivamente 55% e 44% da receita arrecada localmente. No
conjunto o total dos dados até ao momento disponíveis referem que o esforço financeiro do
estado foi inferior a metade da receita arrecada.
100%

80%

60%

40%

TOTAL
XVIII
XVII
XVI

XIX

XX
20%

0% RECEITA DESPESA SALDO

A excepção a esta situação ancestral de verdadeira sangria financeira do arquipélago é


quase inexpressiva e resume-se apenas a alguns anos para o período entre 1888-1967.
Mesmo assim os valores são pouco significativos e só assumem visibilidade nos anos
económicos de 1922-23, 1924-25 e 1967. Note-se que apenas nos anos económicos de
1922-23, 1963 e 1967 é evidente uma quebra acentuada das receitas, o que poderá reflectir-
se nesta relação. Mesmo assim os valores não alteram o curso normal da situação favorável
aos cofres do Estado.
A título de curiosidade a relação dos valores referentes aos primeiros anos da década
de setenta que antecederam a revolução de Abril evidenciam mais uma vez o abandono
ancestral a que foi votada a Madeira, pois apenas 27% dos dinheiros arrecadados na ilha
tiveram aplicação local. Isto demonstram mais uma vez que as relações da coroa e estado
para com o arquipélago, pelo menos ao nível financeiro, foram de tipo colonial. Estas
ganham forma quando a despesa é inferior a metade da receita, o que foi o caso da Madeira
como acabámos de ver. A ideia sai reforçada quando analisamos a forma como o Estado
aplicava os dinheiros através das diversas repartições e ministérios, uma vez que estes iam
maioritariamente para cobrir as despesas com o pessoal, muito dele destacado na ilha.
RECEITA, DESPESA E SALDO 1971-74

RECEITA
SALDO
1.885.343.885$
1.370.520.778$

DESPESA 514....

Um exemplo mais a provar o tratamento de tipo colonial nas aplicações financeiras do


estado na região está na forma como se procedia ao lançamento de infra-estruturas
imprescindíveis para o desenvolvimento da ilha. Estão neste caso as obras do porto do
Funchal e as obras no sentido da valorização dos aproveitamentos hidro-agrícolas e
eléctricos. Para o primeiro foi criada em 1913 a Junta Autónoma das Obras do Porto
Funchal com o objectivo e coordenar as referidas obras e conseguir os meios financeiros
necessários, para isso foi-lhe atribuído o direito de arrecadação do imposto sobre o tabaco.
As obras entre 1931 e 1933 custaram 5.353.000 escudos, enquanto as receitas do imposto
entre 1923 e 1932 foi de 25.123.841 escudos, isto é os gastos foram de apenas de 21%. Por
outro lado as obras contribuíram para um incremento do movimento do porto com
repercussão directa nas receitas da alfândega a partir de 1927 quadruplicaram. A promoção
do sistema de regadio e de electrificação foi o encargo da Comissão de Aproveitamentos
Hidráulicos criada em 1944. O investimento desta comissão entre 1944 e 1968 foi de
340.152 contos em que a comparticipação do Estado foi de apenas 29%, sendo 45% de
auto-financiamento.
Uma das formas para podermos avaliar a posição desfavorecida como a Madeira era
tratada é compararmos com os Açores e as províncias de Angola e Moçambique. O balanço
da situação, pelo memos para os anos de 1904 a 1914, revela de forma evidente que a
Madeira foi o espaço nacional mais prejudicado no primeiros anos do século XX, o que
demonstra que o rei D. Carlos e os primeiros governos republicanos abandonaram a ilha.
Note-se, ainda, que o déficit orçamento ultramarino era coberto pela metrópole com
financiamentos pagos pelo estado, o que levou Armindo Ribeiro(1849) a afirmar que as
relações ao nível orçamental não eram de tipo colonial.

Saldos. das ilhas e colónias 1904-1914

Angola
100%
Açores 80%

60%
Madeira 40%
20%
0%

O problema financeiro pesou de forma evidente no debate político sobre a autonomia. E,


para a maioria dos intervenientes é evidente o contraste entre uma ilha que alimentava
permanentemente os cofres de Lisboa e o abandono a que estava votada. Para a maioria de
todos os nós a conclusão é clara. As evidências estão aí e revelam que é chegado o
momento de a Madeira cobrar os juros da contribuição, fazendo com que a marcha dos
meios financeiros se inverta. A concretização não é uma esmola, tão pouco um ónus ao
erário nacional, mas tão só o resultado do equilíbrio harmonioso entre o deve e o haver que
faz esbater as assimetrias que a conjuntura económica, por vezes nos coloca.
Até ao presente o saldo das contas da região revela que a Madeira, não obstante o
esforço de investimento do Estado Novo, que ainda há muito a exigir daquilo que foi
pesado tributo dos madeirenses para a aventura ultramarina e progresso do país. Por fim
temos que reconhecer que, não obstante a informação trabalhada ser exígua e só contemplar
metade dos anos da despesa e 36% da receita, os dados apontam-nos para um saldo de
quase quatro milhões de contos, que de acordo com a média dos valores disponíveis poderá
alcançar na realidade os 22 milhões. Por outro lado se estes valores, maioritariamente dos
séculos XIX e XX, evidenciam o que acabamos de referir, que dizer quando for possível
apurar os dados para os séculos XV, XVI e XVIII, épocas de grande fulgor económico da
ilha. Aqui certamente que a redobrada riqueza fazia-se sentir de forma mais clara na receita,
fazendo crescer o bolo financeiro português.
SALDO
DESPESA
100% RECEITA

80%

60%

40%

20%

0%
anos apurado estimo

Por fim a primeira tentativa de conversão dos valores atrás assinalados em escudos de 1999
de modo a ponderar melhor a dimensão do problema. Os dados apurados são mais uma vez
reveladores de que o estado apenas deixou na ilha um quarto do total da verba arrecadada,
isto é, cerca de 15 milhões de contos. Todavia o valor estimado e corrigido aponta para uma
situação distinta, atingindo-se 10,5 biliões de contos, situação reveladora de que o Estado
sugador da riqueza da ilha nunca foi uma ilusão.

TOTAL EM ESCUDOS DE 1999


Total em escudos % Valor estimado %
apurado
Receita 20.297.496.297 --- 10.513.888.059.628$ --
Despesa 5.544.724.452 27% 18.046.183.930$ 00,18 %
Saldo 14.752.771.845$ 73% 10.495.841.875.698$ 99,82%

Saldo
Despesa
100% 100%
Receita
Saldo
80% 80%

60% Despesa 60%

40% 40%
Receita
20%
20%
0%
0% Valor estimado
valor apurado

Obs. O presente texto é apenas uma primeira abordagem e divulgação,


com os dados disponíveis no momento, do projecto de investigação
histórica subordinado ao tema genérico “O Deve e Haver nas Finanças da
Madeira”, em curso no âmbito da actividade do Centro de Estudos de
História do Atlântico.

© ALBERTO VIEIRA

Funchal. 24 de Março de 2000

Para saber mais consulte na Internet:


http://www.ceha-madeira.net/deve/deve.html
A AUTONOMIA E O DEVE E O HAVER DAS FINANÇAS DA
MADEIRA

ALBERTO VIEIRA

O discurso histórico é a ossatura fundamental que alicerça a autonomia político-administrativa.


Tudo isto porque a história local faz apelo à valorização do passado histórico regional e
permite reforçar a unidade definida pelo espaço geográfico. Uma região sem História
dificilmente poderá fazer valer as suas legítimas aspirações autonómicas. A História da
Autonomia, tal como hoje a entendemos, é recente mas rica em motivos e situações que
fortalecem o actual combate político. A autonomia e o debate político e institucional estão em
relação directa com os problemas financeiros. As primeiras vozes na luta pela autonomia
política insular partiram da constatação da realidade financeira pautada pela sangria da riqueza
arrecadada. A constatação do subdesenvolvimento regional, em contraste com as cada vez
maiores receitas conduzidas à metrópole, está na origem do debate e fervor autonomista. A
ideia de sangria financeira é patente no debate que teve lugar nas páginas dos jornais e teve
repercussão na voz dos deputados da Madeira na Assembleia Nacional. E, não será por acaso
que no debate político actual os opositores das autonomias insulares apontam o dedo acusador
à inversão de marcha do processo. Afirma-se de forma despicienda que as despesas foram
alimentadas pelas receitas do continente português, ignorando-se a receita que a região gerou,
dispõe e continuará a gerar.
Ao debate da actual conjuntura deverá juntar-se, sob pena de falsear a verdade do
relacionamento financeiro da região com a metrópole, a perspectiva histórica. O passado
histórico reafirma que ao longo dos últimos cinco séculos os madeirenses deram todo o
esforço de trabalho e riqueza para a valorização do espaço nacional. Isto demonstra que o
arquipélago foi compulsivamente solidário. Uma visão histórica do deve e haver das contas e
do relacionamento financeiro entre a Madeira e o reino evidencia que o passado foi pautado
por uma forte participação financeira da ilha. Os nossos avós que financiaram as exorbitâncias
da Coroa, as viagens a Índia e as elevadas despesas de manutenção e defesa das praças
africanas. A grande aventura das descobertas dos séculos XV e XVI seria possível sem a
existência de espaços, como a nossa ilha, geradores de elevados excedentes? O passado
histórico revela que a Madeira no passado foi solidária para com o Estado mas do outro lado
parece que nunca houve um reconhecimento disto e tão pouco uma mudança de atitude no
sentido de a retribuir. A actual conjuntura política induz-nos outra situação, uma vez que hoje
somos nós que recorremos ao velho continente a reivindicar a cobrança dos "empréstimos",
mas no passado foi a coroa recorrer as receitas madeirenses para colmatar o incessante deficit
das finanças publicas.
Partindo desta candente conjuntura decidimo-nos por este projecto com o intuito de
esclarecer, em termos historiográficos, as relações financeiras entre a Madeira e o continente
no sentido de evidenciar se o tipo de relações que geriu este sector foi de tipo colonial. Os
dados que o presente estudo disponibilizará à opinião pública podem e devem contribuir para
uma reavaliação das opiniões vigentes sobre as relações financeiras do estado para com a
região. A ideia de uma ilha espoliadora dos meios financeiros do estado, que ganha expressão
em alguns sectores da sociedade e da política, deverá ser agora confrontada com a realidade
nua e crua dos dados estatísticos até 1974. A conjuntura dos últimos anos da autonomia
aguarda igual compilação para que as evidências possam rapidamente desfazer as falsas
ilusões que dominam o debate político ao nível financeiro.
A História da Autonomia confunde-se com a do devir histórico da ilha e, até à sua
afirmação em 1976, ganhou plena expressão nos momentos de crise e de forte agitação
política. Os momentos ímpares deste debate político, propiciado pela revolução liberal,
encontram-se com o movimento republicano e revolta da Madeira. Não obstante a
existência de alguns estudos esparsos ainda está por fazer a História da Autonomia. É um
objectivo que deve estar no horizonte das nossas preocupações. A ideia de colonialismo
adquiriu vários significados ao longo do processo histórico, ficando todavia a expressar
uma relação de dependência e exploração de uma determinada região ou colónia com o
centro/metrópole. Ora isso não implica a clássica visão de um espaço já ocupado que é alvo
de uma usurpação de fora. É neste quadro que devemos encarar a situação da Madeira. Por
outro lado é um facto indesmentível que a Madeira enquadra-se no processo de expansão
colonial portuguesa, sendo o primeiro passo desta estratégia e como tal irá manter-se por
muito tempo. A sua separação em termos políticos e administrativos será apenas resultado
da revolução liberal. E deste modo aquilo que a até então era colónia, adquire num lapso de
tempo o título de ilha adjacentes, sem que se tenha alterado o relacionamento típico. E
assim é que para muitos a sua sobrevivência está patente na figura do Ministro de
República, que como os anteriores representantes do poder central ocupa o Palácio /
Fortaleza de S. Lourenço.
O debate político cola-se por vezes à História na busca das razões que fundamentem
tal relacionamento institucional. E neste caso mantém actualidade o relacionamento da ilha
com o continente europeu, uma relação colonial que só poder dos liberais viu acabar em
completa ruptura com o passado. Na verdade, até então a Madeira merecia um tratamento
idêntico ao demais espaço colonial. Aliás, estava sob a mesma alçada do conselho
Ultramarino (1643-1833). Note-se que nas páginas do Patriota Funchalense, o bastião da
liberdade de opinião, reclamava-se contra o tratamento de colónia feito pelos “mandões de
Lisboa”. Deste modo desde 1832 a ilha deixou de ser uma colónia, passando a província
administrativa, igual às demais do continente. A Reforma de Mouzinho da Silveira é o corte
radical com o passado pelo menos em termos jurídicos, o que não implica que no plano real
esse tipo de relacionamento se tenha mantido até 1974.
Na verdade, o estatuto de colónia não resulta do facto de um espaço estar habituado à
chegada do europeu, pois se isso fosse condição Cabo Verde nunca teria mantido esse estatuto,
pois como quase todas as ilhas Atlânticas estava deserta à chegada dos Portugueses, excepção
apenas para as Canárias. A sua definição resulta fundamentalmente do relacionamento que se
estabelece entre a metrópole e a região. Ao nível político o estatuto colonial caracteriza-se por
uma profunda distância em relação aos centros de poder. São os governadores e capitães
generais que se comportam de forma altiva do interior da fortaleza do poder. As ordens
despóticas, a subserviência dos ilhéus, que reclamam em Lisboa através dos seus procuradores
e políticos à mesa da coroa e do orçamento umas magras migalhas da riqueza que remetem
anualmente. É o sentimento de orfandade perante uma autoridade paternalista e despótica. O
regionalismo como constatação dos desequilíbrios regionais e do esbanjamento dos seus
recursos por um poder estranho e distante, é revelador deste estatuto. Desta forma podemos
afirmar que o despontar do movimento autonomista resulta desta constatação do colonialismo
que define as relações institucionais.
Já ao nível económico e financeiro esta relação se revela na entrega de toda a
riqueza. As culturas são impostas para servir os caprichos da metrópole e todo o lucro situa-
se no sector da circulação fora da ilha. Sucedeu assim com a cana de açúcar que se
transformou na galinha dos ovos de ouro para a Coroa portuguesa entre finais do século XV
e princípios do seguinte. Aliás, toda a riqueza desta exploração económica, impostos
incluídos, é orientada para fora do espaço que a cria. Tão pouco sucede um investimento na
valorização do seu interesse. O pouco que retornava surge sob a forma de caridade da
própria Coroa, sob a forma de oferta. O Rei D. Manuel foi de todos o mais caridoso para
com os madeirenses mas também o que mais feriu das riquezas da ilha. Distribuiu benesses
e obras de arte aos madeirenses. Mas a dívida da dádiva madeirense era maior e ao que
parece ainda está por saldar.
A tarefa de reconstituir o movimento das finanças da região não é fácil. As
informações estatísticas só permitem seriações a partir do século XIX e mesmo nesta centúria
os dados são muitas vezes escassos. O carácter avulso dos dados estatísticos revela o pouco
cuidado na arrecadação nos impostos, pois parece que o desleixo em muitas ocasiões era total.
Nos últimos dois anos, o pouco tempo disponível, foi utilizado para proceder à recolha
incidindo-a nos séculos XIX e XX, momentos em que as exigências da Estatística facilitam a
nossa tarefa. O quadro que se segue é revelador do actual estádio de desenvolvimento dos
nossos trabalhos e, diga-se, tudo o que depois se afirma tem por base isto.

PERCENTAGEM DE ANOS COM DADOS

100% receita
despesa

50%

0%
XV XVI XVII XVIII XIX XX TOTAL

As finanças do reino foram demarcadas por um permanente deficit pelo que a coroa teve
necessidade de se socorrer a diversos meios para saldar a diferença. Desde o século XIV que a
forma mais usual de o solucionar era o recurso a pedidos e empréstimos. Era com estas formas
de financiamento que a coroa cobria o deficit e cobria as despesas bélicas, a boda do
casamento dos príncipes. O vigor demonstrado pelos madeirenses na defesa dos seus
interesses tem expressão neste episódio e pode ser reafirmada no papel do senado da câmara
do Funchal. Na verdade a Madeira era desde 1433 um espaço fora do controle da coroa,
dependendo do Mestrado da Ordem de Cristo e tendo o Infante D. Henrique como senhor.
Mas a riqueza da ilha estava na mira da coroa pelo que D. Manuel, que também foi senhor da
ilha, deu a machadada final no processo de auto governo dos madeirenses ao proceder em
1497 à “nacionalização” da Madeira. A carta régia que faz a ilha realenga é clara quanto ao
peso económico nas finanças do reino: "é uma das principais e proveitosas coisas que nós, e
real coroa de nossos reinos temos para ajudar, e financiamento de estado real, e encargos de
nossos reinos". Esta ideia da ilha perdurou por muito tempo de modo que em 1836 ainda
continuava a afirmar-se “que é uma das mais preciosas jóias da coroa de Vossa Majestade”.
A partir de finais do século XV toda a riqueza gerada na ilha deixou de pertencer ao
senhorio e passou para o usufruto da coroa, indo a tempo de financiar as grandes viagens
oceânicas e a excessiva despesa da Casa Real. Também, a partir daqui é evidente que a
Madeira perdeu a capacidade reivindicativa perante a coroa. O centralismo régio está patente
na submissão e pronto acatamento pela vereação de todos os regimentos e decretos régios. O
arquipélago foi uma importante fonte de receita para travar o endividamento do reino e manter
a opulência da casa senhorial e real. Esta elevada despesa só poderia ser coberta com as
receitas arrecadadas nas ilhas e nos novos espaços coloniais. E aqui quando se fala de ilhas é
quase sempre sinónimo da Madeira.
É evidente que durante o século XV e primeiro quartel do seguinte a principal fonte
de receita do mundo português estava no açúcar madeirense. As receitas advinham dos
direitos lançados e do comércio do açúcar apurado. Todavia os dados financeiros
disponíveis não evidenciam de forma clara esta situação. Perderam-se os livros de contas,
mas os poucos disponíveis não nos atraiçoam. Primeiro, o senhorio e depois a coroa
oneravam este produto com diversas tributações que conduziam a que amealhasse elevadas
quantias que usava em benefício próprio, no pagamento de tenças, esmolas, empréstimos e
dívidas. No primeiro registo das receitas do reino e possessões, datado de 1506, a Madeira
surgia com o valor mais elevado das comparticipações dos novos espaços insulares, com
5,3%. Até a década de trinta do século XVI os reditos fiscais resultantes da produção e
comércio do açúcar asseguraram parte importante das fontes de financiamento do reino e
projectos expansionistas.
Em 1529 com o Tratado de Saragoça foi encontrada uma solução provisória que a
curto prazo parecia agradar a ambas as partes. D. João III viu-se forçado a pagar 350.000
ducados para assegurar a posse das Molucas que afinal se encontravam dentro da área de
influência de Portugal. Mais uma vez é possível assinalar uma ligação à Madeira, pois terá
sido, segundo alguns, o madeirense António de Abreu o primeiro explorador. Por outro lado os
madeirenses contribuíram com avultada quantia de empréstimo para o pagamento do referido
contrato. Manuel de Noronha ficou com o encargo de arrecadar a contribuição madeirense.
João Rodrigues Castelhano é referenciado também como recebedor do referido empréstimo,
tendo desembolsado da sua fazenda 300.000 reais. A este juntaram-se Fernão Teixeira com
150.000 reais e Gonçalo Fernandes com 200.000 reais. O pagamento fez-se nos anos de 1530-
31 à custa dos dinheiros resultantes dos direitos da coroa sobre o açúcar.
O primeiro monarca a definir as regras rudimentares do orçamento foi D. Manuel, pelo
que o primeiro e mais rudimentar orçamento que se conhece data de 1526. De acordo com os
dados disponíveis as receitas fiscais orçaram em 166.347.611 reais, sendo 12.000.000 (=
7,2%) referentes apenas a Madeira, que conjuntamente com as demais possessões fora da
Europa totalizavam 37.630.000 (= 23%). A cidade de Lisboa, que apenas arrecadava 5% das
receitas, absorvia 17% das despesas, o que implicava o financiamento externo com o recurso
aos réditos arrecadados noutras províncias nomeadamente na Madeira, Açores e Costa da
Guine. Pelos dados fiscais de 1531 pode-se ter uma ideia da evolução da receita e despesa da
ilha. Mais de cinquenta por cento das receitas iam directamente para o reino a engrossar os
cofres da Fazenda Real. A partir desta informação, ainda que avulsa, conclui-se que os
madeirenses foram activos protagonistas da expansão lusíada dos séculos XV e XVI
emprestando a própria vida e reditos, arrecadados com a safra do açúcar, no financiamento
deste projecto e das exorbitâncias e caprichos quotidianos da Casa Real.
EVOLUÇÃO RECEITAS. 1506-1588(MILHARES DE REAIS)

Madeira
60
Açores
C. Verde
40

20

0
1506 1518-19 1588

Na primeira metade do século XVII a Madeira enfrentava algumas dificuldades económicas


que se reflectiram nas fianças públicas. A fonte de receitas transferiu-se para as demais
possessões e mesmo os Açores atingem valores mais elevados que a Madeira. Esta situação
vinha evoluído neste sentido desde o ano de 1588. O quadro financeiro do ano de 1607
revela esta precária situação das finanças madeirenses conduzindo a que a despesa
representa 94% da receita, o que corresponde ao valor mais elevado. A despesa não
suplanta 1,5% do total da despesa. Já em 1619 é evidente a recuperação económica da ilha,
subindo o saldo para os cofres do reino a 5,9%.

MOVIMENTO FINANCEIRO DA MADEIRA. PERCENTAGEM EM RELAÇÃO AO TOTAL


1607 e 1619

100,00%

80,00%
saldo
60,00%
despesa
40,00% receita

20,00%

0,00%
1607 1619
No quadro das ilhas a Madeira continua a apresentar uma posição destacada mas desta feita
os Açores assumem a posição cimeira na quadro das ilhas. Por outro lado nas terras
ultramarinas afirmam-se em definitivo como a principal fonte de receita. Aqui, a Índia
assume uma posição cimeira. Em qualquer dos casos a despesa é muito diminuta, porque
também a estrutura administrativa não era muito pesada.

EVOLUÇÃO DAS RECEITAS NAS ILHAS. 1607-1681(em milhares de reis)


Madeira Açores C. Verde

40.000

30.000

20.000

10.000

0
1607 1619 1620 1681
Se atendermos apenas à participação madeirense na receita da coroa no decurso dos séculos
XVI e XVII somos confrontados com uma forte intervenção, tendo em conta a superfície, que
se articula de forma directa com as condições económicas da ilha. Assim, o açúcar foi o
principal gerador de um forte excedente de riqueza que diminuiu de forma espectacular com a
crise do século XVII.

RECEITA DA MADEIRA: PERCENTAGEM EM RELAÇÃO AO TOTAL DO


REINO
10

0
1506 1518 1526 1580-88 1607 1619

A partir do século XVI os dados estatísticos revelam-nos que Portugal tinha a principal fonte
de riqueza nas ilhas e possessões ultramarinas. Apenas a conjuntura resultante da união
dinástica na década de oitenta conduziu a uma quebra acentuada da receita das colónias. Em
qualquer das circunstâncias os novos espaços gerados com os descobrimentos revelam-se em
todos os momentos dos séculos XVI e XVII como a mais valia e principal fonte de
financiamento.

EVOLUÇÃO PERCENTUAL DA RECEITA DO REINO E POSSESSÕES


140
120
100
ilh a s
80 re in o
60 co lo n ia s

40
20
0
1506 1518 1588 1607 1619
A Madeira, como centro gerador da riqueza do reino e a forma colonial da administração, não
passou despercebida aos locais e visitantes. No século XVIII a promoção do comércio do
vinho veio a gerar de novo elevada riqueza e a ilha parecia querer regressar aos velhos tempos
da opulência açucareira. É dentro desta ambiência que James Cook refere em 1768 que a coroa
arrecadava na ilha 20.000 libras por ano, mas poderia dar o dobro se estivesse nas mãos de
outro povo. Outro súbdito inglês em 1827 apontava o destino desta receita: "o rei pagava todas
as despesas das legações no estrangeiro [isto antes de 1820] com o excedente dos seus
rendimentos da Madeira. Todos os anos era transferida para Londres com esse fim uma
quantia de 50 a 80.000 Libras." O contraste entre esta crescente riqueza que todos os anos
enchia os cofres do reino e as condições cada vez mais precários da população madeirense é
evidente. Paulo Dias de Almeida, enviado à ilha para proceder ao estudo da defesa e rede
viária, foi confrontado com esta triste realidade e não hesitou em exclamar: “Esta colónia, que
já em quatro séculos, e tanto avulta nos reais cofres (quem o diria ?)...”.
O século XIX é um marco na plena afirmação do debate político, que para muitos
madeirenses foi alicerçado nos combates pela defesa do torrão natal. As mudanças políticas
tão pouco solucionaram as ancestrais questões. O combate político de finais do século XIX e
princípios do seguinte avivou os ideais autonómicos e conduziu ao estabelecimento da
autonomia administrativa por carta de lei de 12 de Junho de 1901. Esta evolução do quadro
político não fez esmorecer o debate político. A revolução liberal condicionou a mudança das
finanças públicas. Aboliram-se os encargos senhoriais e em contrapartida criaram-se novos
impostos. A partir de 1831 os orçamentos gerais do estado (OGE) revelam se o esforço
financeiro do estado na região apenas se resumiu às despesas correntes ou se foi pautado por
uma política de investimento. A informação completa sobre a arrecadação dos diversos
impostos está disponível nos Boletins estatísticos a partir de 1876. Os dados reunidos abarcam
todo o período até 1974, havendo apenas um hiato entre 1951-55. Durante este largo período
de cerca de um século o sistema tributário foi alvo de várias reformas que dão continuidade ao
processo iniciado com Mouzinho da Silveira. As mais importantes que dão continuidade ao
processo aconteceram em 1870 e 1881. A República, em 1910, foi o início de um segundo
momento de mudança do sistema tributário, assente na constituição de 1911 e nas reformas de
1922. O processo ganhou novo folgo com o golpe de estado de 1926, sendo o principal obreiro
das mudanças Salazar, quando Ministro das Finanças. O regime do Estado Novo apostou na
década de sessenta na reforma do sistema que só foi voltou a ser alterada passados vinte anos.
De uma forma global o movimento das receitas evidencia que a carga fiscal foi
onerada no período do Estado Novo no momento da sua consolidação na década de trinta. É
também neste período que a participação madeirense na receita nacional é reforçada. A
percentagem mais elevada, isto é 17%, acontece na década de trinta, o período de maior
dificuldade para a Madeira. Isto perdurou nas décadas seguintes, sendo apenas contrariado na
década de quarenta com a guerra. Situação semelhante a esta só aconteceu na primeira década
do século XX, sendo nos demais períodos valores inferiores, mas que nunca desceram para
além da barreira do 1%. Quanto à despesa do Estado na região a situação não é idêntica.
Assim, o valor mais elevado da intervenção é muito reduzido sendo apenas em três décadas
superior a 1%, quando, ao invés a receita sempre foi superior. Em qualquer dos casos onde a
despesa suplanta 1% temos também os valores mais elevados para a receita.
Os dados em apreço evidenciam que o “despesismo” madeirense era uma ilusão
prontamente evidenciada pelos números. Por outro lado se esquecermos a década de 60,
definida por algum investimento, como foi o caso do aeroporto, podemos afirmar que a
República iniciou um período de forte sangria financeira. A República jacobina foi
marcadamente centralista e que o movimento autonomista das primeiras décadas do século
XX, apoiado nos sectores políticos mais conservadores da sociedade madeirense, fez desta
orfandade e sangria financeira o cavalo de batalha para a luta autonómica. E eram
redobradas as razões para tal uma vez que o esforço de investimento financeiro do estado na
região não suplantava os 0,2%, quando o contributo financeiro da ilha para o todo nacional
chegava aos 12,5%. Note-se que no caso das províncias ultramarinas o panorama da
despesa é distinto, atingindo-se em 1914-15 os 16%. O contraste é evidente e mobilizador
de alguns sectores políticos da sociedade madeirense.
EVOLUÇÃO DA RECEITA E DESPESA. 1871-1974

15
Receita despesa
14
13
12
11
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
1971- 1961- 1951- 1941- 1931- 1921- 1911- 1901- 1891- 1881- 1871- 1861- 1851- 1841- 1831-
74 70 60 50 40 30 20 10 00 90 80 70 60 50 40

A análise do gráfico atrás evidencia a situação desfavorável do empenho do Estado em aplicar


as verbas arrecadas em benefício do progresso da ilha. A única excepção surge na década de
sessenta mas isto resulta do facto de ainda não possuirmos dados para a receita dos anos de
1950 a 1959. Na década seguinte deverá notar-se a falta de dados para os anos de 1968 e 1969
e uma vez encontrados estes valores certamente se constatará que a “primavera marcelista”
não inverteu o curso salazarista.

A evolução da despesa orçamentada revela que o estado não foi pródigo nas transferências
financeiras para a Região e revelou uma posição marcadamente colonial, uma vez que a quase
totalidade das verbas foram utilizadas como despesas correntes. As despesas de investimento
surgem de forma precária com os Ministérios do Reino (1843-53), Obras Públicas (1853-1911,
1947-74), Fomento (1912-18), Comércio e Comunicações (1918-1974). Este investimento está
orientado para a área das comunicações (66,70%), sendo menor no domínio da educação e
agricultura.
DESPESA 1831-1974
T O T A L M A D E IR A

1 E+ 1 1

1 E+ 1 0

1 E+ 0 9

1 E+ 0 8

1 0 00 0 0 0 0

1 0 00 0 0 0

1 0 00 0 0

1 0 00 0

1 8 5 1 -6 0 1 8 9 1 -0 0 1 9 3 1 -4 0 1 9 7 1 -7 4
1 8 3 1 -4 0 1 8 7 1 -8 0 1 9 1 1 -2 0 1 9 5 1 -6 0
Os valores referentes ao século XIX demonstram que o investimento do Estado na região foi
fraco, sendo quase todo o dinheiro canalizado para as despesas correntes. A situação inverte-se
no século XX, mas deve ser apenas resultado da evolução do sistema administrativa com a
autonomia administrativa a partir de 1901. Deste modo, a Junta Geral ficou com o encargo de
importantes ónus financeiros que compreendia a despesa corrente de funcionamento de parte
significativa das estruturas do Estado na região, faltando-lhe para desenvolver infra-estruturas.
Neste pesado fardo incluía-se os encargos com os salários dos funcionários e professores, pois
só em 1971 os salários dos professores passaram para a alçada do Estado. Com a reforma de
1928 aumentou o pesado encargo das despesas correntes da Junta, uma vez que passou a
superintender os serviços dos ministérios do Comércio e Comunicações, Agricultura e
Instrução, do Governo Civil, policia cívica, saúde publica, assistência e previdência, que
estiveram dependentes dos ministérios do Interior e Finanças.

INVESTIMENTOS E DESPESAS CORRENTES. OGE 1831-1974


100%

80% Despesas correntes


Investimentos
60%

40%

20%

0%
XIX XX

A relação entre a receita e a despesa revela, em qualquer das duas últimas centúrias, uma
relação desfavorável para a Madeira dando razão ao subdesenvolvimento a que a região foi
votada pelo Estado. O esforço contributivo da região no período do Estado Novo não foi
devidamente recompensado com o investimento. Mesmo assim é neste período que temos a
maior incidência e preocupação do Estado no investimento reprodutivo, com
empreendimentos vultuosos, como o porto, o aeroporto e os aproveitamentos hidroeléctricos e
hidro-agrícolas.
O saldo deste movimento é também abonador do facto de que a Madeira foi nos
últimos cinco séculos um destacado contribuinte dos cofres nacionais. A situação assumiu
maior evidencia nos dois séculos iniciais, mas manteve-se por todo o período. Os dados
estatísticos disponíveis evidenciam-se que essa relação é mais evidente nos dois últimos
séculos porque é também nestes que o desenvolvimento da Estatística permitiu uma mais fácil
recolha das séries. Todavia para as duas primeiras centúrias os dados isolados confirmam isto
com maior evidência. Aqui os dados referentes ao século XVI não o expressam porque se
reportam apenas à década de oitenta, um momento de crise da economia madeirense. Também
não podemos fiar-nos nos dados até agora disponíveis para o século XVIII, que evidenciam a
mais reduzida despesa do estado na Madeira, cifrando-se em apenas 8% da receita. Apenas
merecem fiabilidade os dados dos séculos XIX e XX (até 1974), em que o esforço financeiro
do estado na região foi respectivamente 55% e 44% da receita arrecadada localmente. No
conjunto o total dos dados até ao momento disponíveis referem que o esforço financeiro do
estado foi inferior a metade da receita arrecada.

100%
90%
80%
70%
60%
50%
40%

TOTAL
XVIII
XVII

XIX
XVI

30%

XX
20%
10%
0%
RECEITA DESPESA SALDO

A excepção a esta situação ancestral de verdadeira sangria financeira do arquipélago é


quase inexpressiva e resume-se apenas a alguns anos para o período entre 1888-1967.
Mesmo assim os valores são pouco significativos e só assumem visibilidade nos anos
económicos de 1922-23, 1924-25 e 1967. Note-se que apenas nos anos económicos de
1922-23, 1963 e 1967 é evidente uma quebra acentuada das receitas, o que poderá reflectir-
se nesta relação. Mesmo assim os valores não alteram o curso normal da situação favorável
aos cofres do Estado.
A título de curiosidade a relação dos valores referentes aos primeiros anos da década
de setenta que antecederam a revolução de Abril evidenciam mais uma vez o abandono
ancestral a que foi votada a Madeira, pois apenas 27% dos dinheiros arrecadados na ilha
tiveram aplicação local. Isto demonstra mais uma vez que as relações da coroa e estado para
com o arquipélago, pelo menos ao nível financeiro, foram de tipo colonial. Estas ganham
forma quando a despesa é inferior a metade da receita, o que foi o caso da Madeira como
acabámos de ver. A ideia sai reforçada quando analisamos a forma como o Estado aplicava
os dinheiros através das diversas repartições e ministérios, uma vez que estes iam
maioritariamente para cobrir as despesas com o pessoal, muito dele destacado na ilha.
100%
80% saldo
despesa
60%
receita
40%
20%
0%

Um exemplo mais a provar o tratamento de tipo colonial nas aplicações financeiras do


estado na região está na forma como se procedia ao lançamento de infra-estruturas
imprescindíveis para o desenvolvimento da ilha. Estão neste caso as obras do porto do
Funchal e as obras no sentido da valorização dos aproveitamentos hidro-agrícolas e
eléctricos. Para o primeiro foi criada em 1913 a Junta Autónoma das Obras do Porto
Funchal com o objectivo e coordenar as referidas obras e conseguir os meios financeiros
necessários, para isso foi-lhe atribuído o direito de arrecadação do imposto sobre o tabaco.
As obras entre 1931 e 1933 custaram 5.353.000 escudos, enquanto as receitas do imposto
entre 1923 e 1932 foi de 25.123.841 escudos, isto é os gastos foram de apenas de 21%. Por
outro lado as obras contribuíram para um incremento do movimento do porto com
repercussão directa nas receitas da alfândega a partir de 1927 quadruplicaram. A promoção
do sistema de regadio e de electrificação foi o encargo da Comissão de Aproveitamentos
Hidráulicos criada em 1944. O investimento desta comissão entre 1944 e 1968 foi de
340.152 contos em que a comparticipação do Estado foi de apenas 29%, sendo 45% de
auto-financiamento.
Uma das formas de avaliar a posição desfavorecida como a Madeira era tratada é
compararmos com os Açores e as províncias de Angola e Moçambique. O balanço da
situação, pelo menos para os anos de 1904 a 1914, revela de forma evidente que a Madeira
foi o espaço nacional mais prejudicado nos primeiros anos do século XX, o que demonstra
que o rei D. Carlos e os primeiros governos republicanos abandonaram a ilha. Note-se,
ainda, que o déficit orçamento ultramarino era coberto pela metrópole com financiamentos
pagos pelo estado, o que levou Armindo Ribeiro (1849) a afirmar que as relações ao nível
orçamental não eram de tipo colonial.
Saldos. das ilhas e colónias 1904-1914

Angola
100%

Açores 80%

60%
Madeira
40%

20%

0%

O problema financeiro pesou de forma evidente no debate político sobre a autonomia. E,


para a maioria dos intervenientes é evidente o contraste entre uma ilha que alimentava
permanentemente os cofres de Lisboa e o abandono a que estava votada. Para a maioria de
todos os nós a conclusão é clara. As evidências estão aí e revelam que é chegado o
momento de a Madeira cobrar os juros da contribuição, fazendo com que a marcha dos
meios financeiros se inverta. A concretização não é uma esmola, tão pouco um ónus ao
erário nacional, mas tão só o resultado do equilíbrio harmonioso entre o deve e o haver que
faz esbater as assimetrias que a conjuntura económica, por vezes nos coloca.
Até ao presente o saldo das contas da região revela que a Madeira, não obstante o
esforço de investimento do Estado Novo, que ainda há muito a exigir daquilo que foi
pesado tributo dos madeirenses para a aventura ultramarina e progresso do país. Por fim
temos que reconhecer que, não obstante a informação trabalhada ser exígua e só contemplar
metade dos anos da despesa e 36% da receita, os dados apontam-nos para um saldo de
quase quatro milhões de contos, que de acordo com a média dos valores disponíveis poderá
alcançar na realidade os 22 milhões. Por outro lado se estes valores, maioritariamente dos
séculos XIX e XX, evidenciam o que acabamos de referir, que dizer quando for possível
apurar os dados para os séculos XV, XVI e XVIII, épocas de grande fulgor económico da
ilha. Aqui certamente que a redobrada riqueza fazia-se sentir de forma mais clara na receita,
fazendo crescer o bolo financeiro português.
SALDO
DESPESA
100%
RECEITA

80%

60%

40%

20%

0%
anos apurado estimo

Por fim a primeira tentativa de conversão dos valores atrás assinalados em escudos de 1999
de modo a ponderar melhor a dimensão do problema. Os dados apurados são mais uma vez
reveladores de que o estado apenas deixou na ilha um quarto do total da verba arrecadada,
isto é, cerca de 15 milhões de contos. Todavia o valor estimado e corrigido aponta para uma
situação distinta, atingindo-se 10,5 biliões de contos, situação reveladora de que o Estado
sugador da riqueza da ilha nunca foi uma ilusão.

TOTAL EM ESCUDOS DE 1999


Total em escudos % Valor estimado %
apurado
Receita 20.297.496.297 --- 10.513.888.059.628$ --
Despesa 5.544.724.452 27% 18.046.183.930$ 00,18 %
Saldo 14.752.771.845$ 73% 10.495.841.875.698$ 99,82%
100%
Saldo
80%

60% Despesa

40%
Receita
20%

0%
valor apurado

Saldo
Despesa
100% Receita

80%

60%

40%

20%

0%
Valor estimado

Obs. O presente texto é apenas uma primeira abordagem e divulgação,


com os dados disponíveis no momento, do projecto de investigação
histórica subordinado ao tema genérico “O Deve e Haver nas Finanças da
Madeira”, em curso no âmbito da actividade do Centro de Estudos de
História do Atlântico.

© ALBERTO VIEIRA

Funchal. 24 de Março de 2000

Para saber mais consulte na Internet:


http://www.ceha-madeira.net/deve/deve.html