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AS ROTAS DE MIGRAÇÃO DE HOMENS, PLANTAS E MERCADORIAS.

A
valorização do Atlântico nos séculos XV e XVI conduziu a um intrincado traçado de
rotas de navegação e comércio que ligavam o Velho Continente ao litoral atlântico. Esta
multiplicidade de rotas resultou das complementaridades económicas e de formas de
exploração adoptadas. Se é certo que estes vectores geraram as referidas rotas, não é
menos certo que as condições mesológicas do oceano, dominadas pelas correntes, ventos
e tempestades, delinearam o seu rumo. As mais importantes e duradouras de todas as
traçadas neste mar foram sem dúvida a da Índia e a das Índias que galvanizaram as
atenções dos monarcas, da população europeia e insular, dos piratas e corsários. A par
disso a Madeira surge, nos alvores do século XV, como a primeira experiência de
ocupação em que se ensaiaram produtos, técnicas e estruturas institucionais. Tudo isto
foi, depois, utilizado, em larga escala, noutras ilhas e no litoral africano e americano. O
arquipélago foi, assim, o centro de divergência dos sustentáculos da nova sociedade e
economia do mundo atlântico: primeiro os Açores, depois os demais arquipélagos e
regiões costeiras onde os portugueses aportaram.

No traçado das rotas oceânicas situava-se o Mediterrâneo Atlântico com uma actuação
primordial na manutenção e apoio à navegação atlântica. As ilhas da Madeira e das
Canárias surgem nos séculos XV e XVI como entreposto para o comércio no litoral
africano, americano e asiático. Os portos principais da ilha da Madeira, Gran Canaria, La
Gomera, Hierro, Tenerife e Lanzarote animavam-se de forma diversa com o apoio a esta
navegação e comércio nas rotas da ida, enquanto nos Açores, com as ilhas de Flores,
Corvo, Terceira, e S. Miguel, surgem como a escala necessária e fundamental da rota de
retorno.

A posição demarcada do Mediterrâneo Atlântico no comércio e na navegação atlântica


fez com que as coroas peninsulares investissem aí todas as tarefas de apoio, defesa e
controle do trato comercial. As ilhas eram os bastiões avançados, suportes e símbolos da
hegemonia peninsular no Atlântico. A disputa pela riqueza em movimento neste oceano
será feita na área definida por elas, pois para aí incidiam piratas e corsários ingleses,
franceses e holandeses, ávidos das riquezas em circulação nas rotas americanas e indicas.
Uma das maiores preocupações das coroas peninsulares terá sido a defesa das
embarcações que sulcavam o Atlântico em relação às investidas dos corsários europeus.
A área definida pela Península Ibérica, Canárias e Açores era o foco principal de
intervenção do corso europeu sobre os navios que transportavam açúcar ou pastel ao
velho continente.

O papel da Madeira resulta muito do facto de ter sido o início da presença portuguesa no
Atlântico, e o primeiro e mais proveitoso resultado desta aventura. Gaspar Frutuoso1
testemunha esse papel de âncora atlântico quando afirma "... que Deus põs no mar oceano
ocidental para escala, refúgio, colheita e remédio dos navegantes..."

Vários são os factores que se conjugaram para esta situação. A inexistência de população,
em consonância com a extrema necessidade de valorização para o avanço das navegações

1 Livro primeiro das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, p.98.


ao longo da costa africana, favoreceram a rápida ocupação e crescimento económico da
Madeira. Por isso, a afirmação do arquipélago madeirense, nos primeiros anos dos
descobrimentos, foi evidente: porto de escala ou apoio para as precárias embarcações
quatrocentistas, que sulcavam o oceano; importante área económica, fornecedora de
cereais, vinho e açúcar; modelo económico, social e político para as demais intervenções
portuguesas no Atlântico2.

A juntar a tudo isso temos que o rápido progresso social, resultado do porvir económico,
condicionou o aparecimento de uma aristocracia-terratenente que, imbuída do ideal
cavalheiresco e do espírito de aventura, se embrenhou na defesa das praças marroquinas,
na disputa pela posse das Canárias e viagens de exploração e comércio ao longo da costa
africana e, até mesmo, para Ocidente.

A proximidade da Madeira ao vizinho arquipélago das Canárias, em conjugação com o


rápido surto do povoamento e valorização sócio-económica do solo, orientaram as
atenções do madeirense para as ilhas. Assim, decorridos apenas vinte e seis anos sob a
ocupação, os moradores da Madeira empenharam-se na disputa pela posse das Canárias,
ao serviço do infante D. Henrique. Em 1446 João Gonçalves Zarco, foi enviado a
Lanzarote, como plenipotenciário para afirmar o contrato de compra da ilha.
Acompanham-no as caravelas de Tristão Vaz, capitão do donatário em Machico e de
Garcia Homem de Sousa, genro de Zarco3. Mais tarde em 1451, o infante enviou nova
armada, em que participaram gentes de Lagos, Lisboa e Madeira, sendo de salientar, no
último caso, Rui Gonçalves filho do capitão do donatário do Funchal4.

A presença de gentes da Madeira continuará por todo o século XV em três frentes:


Marrocos5, litoral africano além do Bojador e terras Ocidentais. Na primeira e última a
presença dos madeirenses foi fundamental. A tradição refere que o primeiro homem a
lançar-se à aventura do descobrimento das terras Ocidentais foi Diogo de Teive, que em
1451 terá saído do Faial à procura da ilha das Sete Cidades, mas que no regresso apenas
descobriu as ilhas de Flores e Corvo6. Seguiram o seu exemplo outros madeirenses que
gastaram muito de sua fazenda para abrir o caminho, mais tarde, trilhado por Colombo.

Mesmo assim a valorização da Madeira no contexto da expansão europeia tem sido


diversa. A historiografia nacional considera-a um simples episódio de todo o processo e,
em face da posição geográfica, hesita no seu enquadramento, sendo levada, por vezes ao
esquecimento. A historiografia europeia, ao invés, não duvida em realçar a singularidade

2 Esta ultima ideia ficou expressa no nosso estudo sobre "A Madeira na rota dos descobrimentos e
expansão atlântica", in Revista da Universidade de Coimbra, vol. XXXIV, 1988, pp. 571-580.
3 José PEREZ VIDAL, "Aportación portuguesa a la población de Canarias. Datos", in Anuario de
Estudios Atlânticos, nº 14, 1968; A. SARMENTO, "Madeira & Canárias", in Fasquias e Ripas da
Madeira, Funchal, 1931, 13-14.
4 Monumenta Henricina, Vol. XI, 172-179.
5 Veja-se a resenha de feitos em Alberto Artur SARMENTO, A Madeira e as praças de África, Funchal,
1932; João José de Abreu e SOUSA, "emigração madeirense nos séculos XV a XVII", in Atlântico, nº.1,
Funchal, 1985, pp. 46-52.
6 Sobre esta figura veja-se o que diz Ernesto GONÇALVES, Portugal e a ilha, Funchal, 1992, pp.85-
118.
do seu processo neste contexto. A Madeira afirma-se no processo da expansão europeia
pela singularidade do seu protagonismo. Vários são os factores que o propiciaram, no
momento de abertura do mundo atlântico, e que fizeram com que ela fosse, no século
XV, uma das peças-chave para a afirmação da hegemonia portuguesa no Novo Mundo. O
Funchal foi uma encruzilhada de opções e meios que iam ao encontro da Europa em
expansão. além disso ela é considerada a primeira pedra do projecto, que lançou Portugal
para os anais da História do oceano que abraça o seu litoral abrupto. A fundamentação de
tudo isto está patente acção da ilha e das suas gentes.

À função de porta-estandarte do Atlântico, a Madeira associou outras, como "farol"


Atlântico, o guia orientador e apoio para as delongas incursões oceânicas. Por isso nos
séculos que nos antecederam, ela foi um espaço privilegiado de comunicações, tendo a
seu favor as vias traçadas no oceano que a circunda e as condições económicas internas,
propiciadas pelas culturas da cana sacarina e vinha. Uma e outra condições contribuíram
para que o isolamento definido pelo oceano fosse quebrado e se mantivesse um
permanente contacto com o velho continente europeu e o Novo Mundo.

Como corolário desta ambiencia a Madeira firmou uma posição de relevo nas navegações
e descobrimentos no Atlântico. O rápido desenvolvimento da economia de mercado, em
uníssono com o empenhamento dos principais povoadores em dar continuidade à gesta de
reconhecimento do Atlântico, reforçaram a posição da Ilha e fizeram avolumar os
serviços prestados pelos madeirenses. Aqui surgiu uma nova aristocracia dos
descobrimentos, cumulada de títulos e benesses pelos serviços prestados no
reconhecimento da costa africana, defesa das praças marroquinas, ou nas campanhas
brasileiras e Indicas7.

A par disso a Madeira surge, nos alvores do século XV, como a primeira experiência de
ocupação em que se ensaiaram produtos, técnicas e estruturas institucionais. Tudo isto
foi, depois, utilizado, em larga escala, noutras ilhas e no litoral africano e americano. O
arquipélago foi, assim, o centro de divergência dos sustentáculos da nova sociedade e
economia do mundo atlântico: primeiro os Açores, depois os demais arquipélagos e
regiões costeiras onde os portugueses aportaram. João de Melo da Câmara, irmão do
capitão da ilha de S. Miguel, resumia em 15328 de uma forma perspicaz a acção
madeirense no espaço atlântico. Segundo ele a sua família era portadora de uma longa e
vasta experiência "porque a ilha da Madeira meu bisavô a povoou, e meu avô a de São
Miguel, e meu tio a de São Tomé, e com muito trabalho, e todas do feito que vê...". Isso
dava-lhe o alento necessário e abri-lhe perspectivas para uma sua iniciativa no Brasil. Ele
reclamava o protagonismo do seu ancestral Rui Gonçalves da Câmara que em 1474
comprara a ilha de S. Miguel, dando início ao seu verdadeiro povoamento. A mesma
percepção surge em Gilberto Freire que em 1952 não hesita em afirmar o seguinte: A
irmã mais velha do Brasil é o que foi verdadeiramente a Madeira. E irmã que se estremou
em termos de mãe para com a terra bárbara que as artes dos seus homens,... concorreram

7 Confronte-se João José Abreu de SOUSA, "Emigração madeirense nos Séculos XV a XVII", in
Atlântico, nº.1, Funchal, 1985, pp. 46-52.
8 História da colonização Portuguesa do Brasil, vol. III, p.90; cf Vera Jane GILBERT, "Os primeiros
engenhos de açúcar"in Sacharum, nº.3, São Paulo, 1978, pp. 5-12.
para transformar rápida e solidamente em nova Lusitânia"9. Na verdade tudo o
concretizado em termos do mundo atlântico português teve por matriz o sucedido na
Madeira. A Madeira foi ao nível social, político e económico, o ponto de partida para o
"mundo que o português criou..." nos trópicos. Neste contexto é sumamente importante o
conhecimento do sucedido na Madeira quando pretendemos estudar e compreender as
outras situações.

O protagonismo das ilhas não se fica só pelos séculos XV e XVI, pois as navegações e
explorações oceânicas nos séculos XVIII e XIX levam-nas a assumir uma nova função
para os Europeus. De primeiras terras descobertas passam a campos de experimentação e
a escalas retemperadoras da navegação na rota de ida e regresso. Finalmente, no século
XVIII desvendou-se uma nova vocação: as ilhas como campo de ensaio das técnicas de
experimentação e observação directa, que comandam a ciência das "luzes", e escala das
constantes expedições científicas dos europeus. O enciclopedismo e as classificações de
Linneo(1735) têm nas ilhas um bom campo de experimentação.

O homem do século XVIII perdeu o medo ao mundo circundante e passou a olhá-lo com
maior curiosidade, deste modo como dono da criação estava-lhe atribuída a missão de
perscrutar os seus segredos. É esse impulso que justifica todo o afã científico que explode
nesta centúria. A insaciável procura e descoberta da natureza circundante cativou toda a
Europa, mas foram os ingleses quem entre nós marcaram presença, sendo menor a de
franceses e alemães10. Aqui são protagonistas as Canárias e a Madeira. Tudo isto é
resultado da função das mesmas como escala à navegação e comércio no Atlântico e para
fora deste. Foi também aqui que a Inglaterra estabeleceu a sua base para a guerra de corso
no Atlântico. Se as embarcações de comércio, as expedições militares cá tinham escala
obrigatória, mais razões assistem às científicas para esta paragem obrigatória. As ilhas
pelo seu endemismo, própria história geo-botânica, levavam obrigatoriamente a esse
primeiro ensaio das técnicas de pesquisa a seguir noutras longínquas paragens. Também
as ilhas foram um meio revelador dessa incessante busca do conhecimento da geologia e
botânica. Instituições seculares, como o British Museum, Linean Society, e Kew Gardens,
chegam a enviar especialistas a proceder à recolha das espécies. Os estudos no domínio
da geologia, botânica e flora são resultado deste presença fortuita ou intencional dos
cientistas europeus.

Esta foi uma moda, no decurso do século XVIII, que levou a que algumas instituições
científicas europeias ficassem depositárias de algumas dessas Colecções: o Museu
Britânico, a Universidade de Kiel, Universidade de Cambridge, Museu de História
Natural de Paris. E, por cá, passaram destacados especialistas da época, sendo de
destacar John Byron, James Cook, Humbolt, John Forster. A lista é infindável, contando-
se, entre 1751 e 1900, quase uma centena de cientista. Está aqui uma riqueza historial que
ainda não foi devidamente explorada. James Cook escalou a Madeira por duas
vezes(1768 e 2772), numa réplica da viagem de circum-navegação, mas desta feita
apenas com interesse científico. Os cientistas que o acompanharam intrometeram-se no

9 Aventura e Rotina, 2ªed., pp 440-446, 448-449


10Cf. "Algumas das Figuras Ilustres Estrangeiras que Visitaram a Madeira", in Revista Portuguesa, 72,
1953; A. Lopes de Oliveira, Arquipélago da Madeira. Epopeia Humana, Braga, 1969, pp. 132-134.
interior da ilha à busca das raridades botânicas para a sua classificação e depois revelação
à comunidade científica.

A tudo isto é de referenciar a função de hospital para a cura da tísica pulmonar ou de


quarentena na passagem do calor tórrido das colónias para os dias frios e nebulosos da
vetusta cidade de Londres. Esta função catapultou a ilha para um evidente afirmação. O
debate das potencialidades terapêuticas da climatologia propiciou um numeroso grupo de
estudos e criou uma escala de estudiosos, dentro e fora da ilha. Mais do que estes é de
salientar os demais que correspondem, ao seu apelo. As filas intermináveis de
aristocratas, escritores, cientistas desembarca no calhau e vão encosta fora à procura do ar
benfazejo da ilha. Vem daqui muito do espólio hoje disponível na Casa Museu Frederico
de Freitas e Biblioteca Municipal.

A Madeira recriava os mitos antigos e reserva-lhe um ambiente paradisíaco e calmo para o


descanso, ou, como sucede no século dezoito, o laboratório ideal para os estudos científicos;
o endemismo insular propiciava esta última situação. De acordo com isso as ilhas tornaram-
se no principal alvo de atenção de botânicos, ictiólogos, geólogos, o que levou Alfredo
Herrera Piqué a considera-las "a escala científica do Atlântico". Por isso foram os ingleses
os primeiros a descobrir as infindáveis qualidades de clima e paisagem e a divulga-las junto
dos seus compatriotas.

É esta quase esquecida dimensão da ilha como motivo despertador da ciência e cultura
europeia desde o século XVIII que importa realçar. Ela partiu de campo experimental dos
descobrimentos a sua afirmação, com a filosofia das luzes, como novo campo
experimental de nova ciência que desabrocha, mercê da sua nova função de escala das
expedições científicas. Mais uma vez fica demonstrado o activo protagonismo da
Madeira no devir histórico ocidental. A sua acção não se resume apenas aos planos
político-económico e social, pois se alarga ao científico, como acabamos de constatar.

Para os navegadores do século XV aquilo que mais os emocionou foi o denso arvoredo,
já para os cientistas, escritores e demais visitantes da ilha a partir do século XVIII aquilo
que mais chama à atenção é, sem duvida, o aspecto exótico dos jardins e quintas que
povoam a cidade. O Funchal se transformou assim num verdadeiro jardim botânico. Na
Europa desde o século XVI que começaram a surgir os jardins botânicos. Em 1545 temos
o de Pádua, seguindo-se o de Oxford em 1621. Em 1635 o de Paris preludia a arte de
Versailles em 1662. Em todos é patente a intenção de fazer recuar o paraíso11. As ilhas
não tinham necessidade disso pois já o eram.

Diferente é a atitude do homem do século XVIII. Aliás, desde a segunda metade do


século XVII que a atitude do homem perante as plantas mudou. Em 1669 Robert Morison
publica Praeludia Botanica, considerada como o principio do sistema de classificação
das plantas, que tem em Carl Von Linné (Linnaeus) (1707-1778) o seu principal
protagonista. A partir daqui a visão do mundo das plantas nunca será a mesma.

11. Richard Grove, Ecology, climate and Empire. Studies in colonial enviromental. History 1400-1940,
Cambridge, 1997, p. 46; J. Prest, The Garden of Eden: The Botanic Garden and the Re-creation of Paradise,
New Haven, 1981.
Contemporâneo dele é o Comte de Buffon que publica entre 1749 e 1804 a "Histoire
Naturelle, générale et particuliére" em 44 volumes. Os jardins botânicos do século XVIII
deixam de ser uma recriação do paraíso e passam a espaços de investigação botânica. O
Kew gardens em 1759 é a verdadeira expressão disso. Note-se que Hans Sloane(1660-
1753), presidente do Royal college of physicians, da Royal Society of London e fundador
do British Museum, esteve na Madeira no decurso das expedições que o levaram às
Antilhas inglesas12.

Por outro lado a aclimatação das plantas com valor económico, medicinal ou ornamental
adquire cada vez mais importância. Aliás, foi fundamentalmente o seu interesse
medicinal que desde o século XVII provocou o desusado empenho13. Assim em 1757 o
inglês Ricardo Carlos Smith funda no Funchal um desses jardins onde reúne várias
espécies com valor comercial. Já em 1797 Domingos Vandelli (1735-1816) e João
Francisco de Oliveira no estudo sobre a flora apresentam no ano imediato um projecto
para um viveiro de plantas. O viveiro foi criado no Monte e manteve-se até 1828. O
Naturalista francês, Jean Joseph d'Orquigny, que em 1789 se fixou no Funchal foi o
principal mentor da criação da Sociedade Patriótica, Económica, de Comércio,
Agricultura Ciências e Artes. Mas este foi um projecto efémero, uma vez que a sua
condenação como maçon em 1792 desfez todos os seus projectos. Aqui a ideia de
progresso alia-se com o conhecimento do meio natural que nos rodeia14.

De acordo com Elizabeth B. Keeney15 na América do Norte a partir de 1820 a Botânica


tornou-se muito popular, fazendo surgir a figura do "botanizers", isto aqueles que por
passatempo dedicavam-se à colecção, identificação e preservação das espécies botânicas.
Afirma-se até que a História Natural é um bom exercício para a mente dos jovens16.
Passados vinte anos o espectro muda no sentido da especialização surgindo as
associações especializadas como Smithsonian Institution(1846) e American Association
for the Advancement of Science(1848). Entretanto em Londres havia surgido em 1838 a
Botanical Society Club.

Em França, por iniciativa de G. Saint-Hilaire(1805-1861), foi criada em 1854 a Societé


Nationale de Protection de la Nature et D'acclimatation. Os franceses a partir da obra de
Buffon e Lamarckian foram os principais difusores da noção e prática de aclimatização.
Tudo isto liga-se directamente com o processo de colonização africana, no caso francês
assinala-se o processo em curso na Argélia17. Auguste Hardy é peremptório nesta
aproximação: "it may be said that the whole of colonization is a vast deed of
acclimatization"18. Esta opção ganhou adeptos em toda a Europa, merecendo o seguinte

12 Raymond R. Stearns, Science in the British Colonies of America, Urban, 1970


13 K. Thomas, Man and the Natural World. Changing attitudes in England. 1500-1800, Oxford, 1983, p. 27,
65-67.
14 Francisco Contente Domingues, "Jean Joseph d'Orquigny e a Sociedade Patriótica do Funchal", in Actas
do II Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1990, pp.231-245
15 The Botanizers-amateur scientits in nineteenth century America, Chapel Hill, 1992.
16 . Ibidem, p.45
17 Michael Osborne, Nature, the exotic, and the Science of French Colonialism, Bloomington, 1994
18 L'Algerie Agricole, Commerciale, Industrielle, Paris, 1860, p.7
comentário de Michael Osborne19: "The proliferation of accliatization societies and its
empires at midcentury indicates that acclimatization studies were tied to the pan-
European phenomenon of settler colonies".

Em 1850 José Silvestre Ribeiro, então governador civil da Madeira, avançou com um
plano de criação do Gabinete de História Natural, a partir da exposição inaugurada a 4 de
Abril no Palácio de S. Lourenço. Mas foi tudo em vão, uma vez que à sua partida em
1852 tudo se desfez. Note-se que nesse mesmo ano, a 23 de Setembro, surge a proposta
de Frederico Welwistsch20 para a criação de um jardim de aclimatação no Funchal e em
Luanda21. A Madeira cumpriria o papel de ligação das colónias aos jardins de Lisboa,
Coimbra e Porto. Note-se que este botânico alemão que fez alguns estudos em Portugal,
passou em 1853 pelo Funchal com destino a Angola. A presença na Madeira do Padre
Ernesto João Schmitz, como professor do seminário diocesano, levou à criação em 1882
um Museu de História Natural, que hoje se encontra integrado no actual Jardim botânico.

Só passado um século o tema voltou a merecer a atenção dos especialistas. São várias as
vozes que se ergueram em favor da criação de um jardim botânico na Madeira. Em 1936
refere-se uma tentativa frustrada de criação de um Jardim Zoológico e de Aclimatação
nas Quintas Bianchi, Pavão e Vigia, que contava com o apoio do Zoo de Hamburgo22.
Em 1946 António de Sousa da Câmara recomenda a criação de um jardim colonial.
Apelo que se refere em António C. Teixeira de Sousa e ganha grande alento em 1950
com a realização no Funchal da "I Conferência da liga para a protecção da natureza"". O
apelo de J. de Azevedo Pereira23 lançado neste evento teve repercussão nas autoridades
da Junta Geral que souberam criar em 1960 o tão desejado jardim botânico.

A criação do Jardim Botânico por deliberação da Junta Geral do Distrito Autónomo do


Funchal a 30 de Abril de 1960 é o corolário dessa defesa secular das condições da ilha
para a sua criação e a demonstração da sua importância científica revelada por destacados
investigadores botânicos que procederam a estudos24. Tenha-se em consideração que
esta iniciativa só foi possível graças à pertinaz acção de António Teixeira de Sousa como
Presidente da Junta Geral. Assim em 1952 adquiriu-se a Quinta do Bom Sucesso onde
ficaram os serviços da Estação Agrária, mas o objectivo era a criação do Jardim
Botânico.

Em qualquer dos momentos assinalados as ilhas cumprem de novo o papel de ponte e


adaptação da flora colonial. Os jardins de aclimatação são a moda do momento, que entre
nós tem por palco as amplas e paradisíacas quintas. O Marquez de Jácome Correia25

19 Ibidem, p.176
20 Cf. Ebarhard Axel Wilhelm, "Visitantes de língua Alemã na Madeira(1815-1915)", in Islenha, 6, 1990,
pp.48-67.
21 . "um Jardim de Aclimatação na ilha da Madeira", in Das Artes e da História da Madeira, nº. 2, 1950,
pp.15-16
22 César A. Pestana, A Madeira Cultura e Paisagem, Funchal, 1985, p.65
23. "Um jardim botânico na Madeira", in Das Artes e da História da Madeira, Vol. 2, n? 3, 1950, 24-26.
24 Cf Boletim da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, Abril de 1960; Rui Vieira, "Sobre o
'Jardim Botânico' da Madeira ", in Atlântico, 2, 1985, pp.101-109.
25 A Ilha da Madeira, Coimbra, 1927, p.173, 178
identifica as quintas do Palheiro Ferreiro e Magnólia como jardins botânicos. Estas são
viveiros de plantas, hospital para acolher os doentes da tísica pulmonar e outros
visitantes. O deslumbramento acompanha o interesse científico e convivem lado a lado
nas inúmeras publicações que o testemunham no século XIX.

Os jardins, através da harmonia do frondoso arvoredo e das garridas cores das flores têm
nos séculos XVII e XVIII um avanço evidente. Os bosques deixam de ser espaços de
maldição e as árvores entram no quotidiano das classes altas, alinhando-se em filas para
dar acesso à casa de moradia. Os jardins adquirem a dimensão de paraíso bíblico e como
tal espaço espiritual. Eles são a expressão do poder humano sobre a Natureza26. Na
Inglaterra do século XIX os jardins e as flores tornam-se muito populares27. Essa
ambiência chegou à ilha através dos mesmos súbditos de Sua Majestade. As ilhas
exerceram assim um fascínio especial sobre todos os visitantes e parece que nunca
perderam a sua imortal característica de jardins à beira do oceano. Deste modo
poderemos afirmar, com propriedade, que estas foram as ilhas jardins e que os seus
jardins continuam a ser o encanto dos que a procuram, sejam eles turistas ou cientistas.

A História do Meio Ambiente e Ecológica veio fazer apelo de novo ao pioneirismo da


Madeira, naquilo que o devir mostra a gesta europeia destruidora do meio envolvente. O
processo de expansão europeia não se afirma apenas pela novidade de descoberta de
novos mundos, mas também pelos efeitos destrutivos da presença do europeu sobre a
fauna e flora dos novos espaços. Tudo isto foi conseguido por exigências das leis do
mercado de então que definiu uma estrutura de monoculturas e exploração intensiva do
solo, através de culturas com elevado rendimento económico, como foi o caso da cana de
açúcar. Da leitura dos clássicos e da produção bibliográfica recente releva-se uma
situação particular que toca de novo o arquipélago da Madeira. A Madeira não se
posiciona apenas nos anais da História Universal como a primeira área de ocupação
atlântica, pioneira na cultura e divulgação do açúcar ao Novo Mundo, mas também como
o primeiro exemplo dos efeitos nefastos de uma exploração intensiva28.

A expansão europeia não se resume apenas ao encontro e desencontro de Culturas, mas


também marca o início de um processo de transformação ou degradação do meio. O
europeu carrega consigo a fauna e flora do seu convívio e com valor económico, que irão
provocar profundas mudanças nos novos ecossistemas. Com isto acontece que o espaço
vivido e natureza se universalizam. Nos séculos XV e XVI foram as viagens de
descobrimento, enquanto no século XVIII sucederam as de exploração e descoberta da
natureza, comandadas por ingleses e franceses.

A Madeira foi o viveiro de aclimatação nos dois sentidos. Da Europa propiciou a


transmigração da fauna e flora identificada com a cultura ocidental. No retorno foram as
plantas do Novo Mundo que tiveram de novo passagem obrigatória pela ilha. A riqueza

26Peter j. Bowler, Fontana History of environmental Sciences. N. Y., 1993.,p.111.


27. Cf. K. Thomas, ibidem, pp.207-209, 210-260
28, Madeira. Pearl of Atlantic, London, 1959 Veja-se Richard GROVE, Green Imperialism, N York, 1995,
pp. 5-29; idem, Ecology, climate and empire, Cambridge, 1997, p. 45; John PERLIN, A forest journey, N.
York, 1989.
botânica do Funchal resulta disso. O processo de imposição da chamada biota portátil
europeia, no dizer de Alfred Crosby29, foi responsável por alguns dos primeiros e
problemas ecológicos mais importantes. Quem não se lembra da praga dos coelhos do
Porto Santo30? Que dizer do incêndio que lavrou na ilha durante sete anos ? Estas
situações são assiduamente referenciadas pela actual historiografia norte americana que
se dedica ao estudo da História do meio ambiente, sendo o seu ponto de partida e alento
para esta incursão temática inovadora.

Outro facto também insistentemente referido é o da própria ilha da Madeira. O nome foi
o atributo para referenciar a abundância e aspecto luxuriante do seu bosque. Mas em
pouco tempo, as queimadas para abrir clareiras de cultura e habitação, o desbaste para
fruição das lenhas e madeiras, fizeram-na desmerecer tal epíteto. Da Madeira quase só
ficou o nome…!

A tradição refere que os navegadores portugueses atearam um incêndio à floresta densa


para poder penetrar, mas este ganhou tais proporções que os atemorizou. Foram sete anos
de chama acesa, diz a tradição. Todavia, hoje ninguém acredita nesta versão divulgada
por Francisco Alcoforado e repetida em Cadamosto e outros autores da época. Hoje
ninguém acredita nesta História, que a ser verdade teria reduzido a ilha a carvão… Esta
situação expressa uma realidade que pautará a expansão europeia e que só nos últimos
anos tem cativado a atenção do historiador. Tudo isto tem origem num produto devorador
que conquista a economia de mercado e que pautou a evolução da economia atlântica a
partir do século XV. O carrasco é o açúcar. A sua disponibilidade só é possível com esse
processo de degradação do meio que viu nascer os canaviais.

A Europa parte no século XV à procura do Eden bíblico ou descrito na literatura clássica


greco-romana. Foi este um dos motivos do empenho de Colombo, mas também dos
navegadores portugueses. O seu reencontro era encarado como uma conciliação com
Deus o apagar do pecado original de Adão e Eva. Esta imagem persegue quase todos os
navegadores quinhentistas e deverá estar por detrás do empenho daquelas que aportaram
à Madeira . Tenha-se em conta que as duas primeiras crianças nascidas na ilha, filhas de
Gonçalo Aires Ferreira tiveram nomes bíblicos de Adão e Eva31. Era o retorno ao Eden,
que aos poucos foi sendo perdido, tal como sucedera aos primogénitos Adão e Eva. A
recuperação desta imagem acontecerá mais tarde no século XVIII em que a ilha é de
novo o paraíso redescoberto para o viajante ou tísico ingleses, recuperado e revelado ao
cientista, seja ele inglês, alemão ou francês, através das recolhas ou da recriação através
dos jardins botânicos.

A cana de açúcar poderá ser considerada como a cultura agrícola mais importante da
História da Humanidade, pois provocou o maior fenómeno em termos de mobilidade
humana, económica, comercial e ecológica. A sua afirmação como cultura agrícola é

29 Imperialismo ecológico. A expansão biológica da Europa. 900-1900, S. Paulo, 1993.


30 Tenha-se em atenção que estes foram motivo de um estudo do botânico alemão Ernest Haeckel(1834-
1919 publicado em 1868. Foi ele quem em 1866 em "Generalle Morphologie" usou a palavra Oecologie.
Cf. Eberhard Axel Wilhelm, "Visitantes de Língua Alemã na Madeira(1815-1915)", in Islenha, 6, 1990, 48-
67.
31 Ernesto Gonçalves, "Adão e Eva", in Portugal e a ilha, Funchal, 1992, pp.13-18.
milenar e abrange vários quadrantes do planeta. É de todas as plantas domesticadas pelo
Homem aquela que acarreta maiores exigências. Ela quase que escraviza o homem,
esgota o solo, devora a floresta e dessedenta os cursos de água. A sua exploração
intensiva desde o século XV gerou grandes exigências em termos de mão-de-obra, sendo
responsável pelo maior fenómeno migratório à escala mundial que teve por palco o
Atlântico: a escravatura de milhões de africanos. Ligado a tudo isso está também um
conjunto variado de manifestações culturais que vão desde a literatura à música e à
dança.

Foi o Oriente quem descobriu a sua doçura, tendo a Papua Nova Guiné como Berço. Os
árabes fizeram-no chegar ao ocidente e foram os arautos principais da sua expansão.
Genoveses e venezianos encarregaram-se do seu comércio e Europa. Mas é nas ilhas que
ela encontrou um dos principais viveiros da sua afirmação e divulgação no Ocidente:
Creta e Sicília no Mediterrâneo, Madeira, Açores, Canárias, Cabo Verde e S. Tomé no
Atlântico Oriental Puerto Rico, Cuba, Jamaica, Demerara(…) nas Antilhas.

A realidade sócio-económica que serve de suporte ao açúcar diferencia-se no seu


percurso do Pacífico/Índico para o Mediterrâneo/Atlântico. Assim, no primeiro caso não
assume a posição dominante na economia, primando pelo carácter secundário, enquanto
no segundo é patente o seu efeito dominador na economia e sociedade/associação ao
escravo, que começa no Mediterrâneo e se reforça no Atlântico. As ilhas, pela limitação
do seu espaço, são as primeiras a ressentir-se desta realidade.

A consciência ecológica do homem hodierno serve de apelo a esta viragem regressiva à


História da Humanidade. O presente actua assim com expressão mediática para a
descoberta desse passado que pode ter algum efeito pragmático nas actuais políticas de
defesa do meio-ambiente, para que se alcance o limiar do século XIX com mais e melhor
ambiente, preservando aquilo que os nossos antepassados nos legaram.
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