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AS CONSTITUIÇÕES STNODAIS E A ADMINISTRAÇÃO DAS DIOCESES INSULARES (ANGRA, FUNCHAL

E MS

PALMAS) NOS SECULOS xv A xwr

As Constituições Sinodais assumem uma função primordial na compreensão da vivència religiosa das populações abrangidas pebs bispados a que se dirigem;o impacto do fenomeno religioso sobre a sociedade conduziu-nos a vdorização destas normativas, que não se resumem apenas a estabelecer a expressão ritual e normas de con- duta do clero, mas também abrangem inúmeras indicaç&s dirigidas aos leigos. A ideia de comparar os textos das Constitui@es, disponíveis para os tr&s arquipdlagos, resultou da necessidade de verificar o modo de actuaçh desta instituiçfio nos espaços insulares. A exem- plo do que fizemos ao nivel das instituições municipais, por meio do estudos das posturas, pretende-se definir os traços comuns e par- ticulares dessa, expressos através do articulado das diversas constituiçdes.

AS DIOCESES INSULARES

E antiga a tradição episcopal nas ilhas do Atlântico Oyientai,

pois o primeiro bispado, com o nome de Fortuna foi criado em 4 de

ANovembrode 13511; note-se que em I3442 o papa Clemente VI havia atribuído a D. Luis de la Cerda o principado da Fortuna e que a presença da igreja neste arquipélago remonta a 1291, altura em

que dois franciscanos terá0 acompanhado Teodbsio Dória e Giolino

de Vivaldi na sua expedição3.Mas até as viagens de conquista leva- das a cabo por Jeande Bettencourt a partir de 1402 a igreja n8o con- seguiu firmar uma posição segura capaz de atender a necessária evangekação dos guanches; as várias iniciativas de baptismo em

166

Aberta Fm*m

Agaete, Telde, Puerto de La Cruz e La Gomera não haviam surtido

efeitos. Deste modo o antigo bispado da Fortuna, que apenas existiu no papel, foi substituido pelo novo de RubicBo, criado por bula papai de 7 de Julho de 14044, ficando sufragãneo do de Se-

villia.

Entretanto desinteligèncias de vária ordem, resultantes do cisma do Ocidente, condicionariram a sua haçãao; primeiro a cria- çBo por Martinho V do novo bispado em Fuerteventura a 20 & Novembro de 14245, que não surtiu efeito, abrangendo as ilhas de

Gomera, La Palma, Tenerife e Canária; depois a ordem

de transferência do bispado de Rubicão para Las Palmas em 26 de Agosto de 1439, por ordem de Eugenio V, que não se realizou devido a morte inesperada do bispo Frei Fernando de Calvetos. A sua concretização viria a ter lugar em l46F a pedido de Don Diego de Illescas. O conturbado processo de conquista, a desorganizaqão do Papa&, mercê do cisma do Ocidente, contribuiram para essa indefi-

Hierro, La

niçb da estrutura religiosa, estabelecida nas Canárias. Deste modo so a partir do governo de lhn Diego de Muros o bispado k uma rea-

lidade instituciondizada mercê da reaíizaqh do primeiro sínodo em

1497 e da sua primeira visita episcopal no ano imediato8. O seu exemplo foi seguido pelos bispos pteriores, wmo D. Fernando de Arce e D . Cristóbal de Cámara y Murga, que convocaram sinodos,

respectivamente, em 15 14 e 1629.

Nas ilhas portuguesas, em que a coroa havia cedido o direito de posse e patronato a Ordem de Cristo, por carta regia de 14339, a

intervenção religiosa depender8 do vicariato de Tomar. Todavia em 14691°a bula «Rornanus Pontifexn, contrariando essa realidade fez submeter os arquipélagos da Madeira e dos Açores it jurisdição epis- oopal do recdm-criado bispado de Tanger, contradizendo assim a

coradiFgo de W'ocesis mllk,

estabíecida

por

Caiisto íii em

1

145641.Mas o prior de Tomar ripostou a esta medida e em 147212

recomendava aos seus súbditos da ilha que não recebessem o bispo de Tânger, o que na realidade veio a suceder.

Com a subida ao trono de D.Manuel em 1496, entb senhor e mestre dos domínios inerentes a Ordem de Cristo, pmurou-se por fim a esta situação particular; primeiro fazendo reverter para a Coroa o dominio civil, depois retirando ao vicariato de Tomar a jurisdição eclesibtica por meio da misiç8o em 15 1413 do bispado

do Funchal, sendo provido no cargo D.Diogo Pinheiro, vigário de

o direita de

~adroado~~. Com a criaçiio destanova diocesetoda ajurisdiçfm eciesibtica das terras {(desdeo Cabo 8ojador att A Zndim passam para a depen-

Tomar, ao memos tempo que restituiu B @roa

dência directa do bispado em questiio. Esta situação manteveee atd

1533, data em que D.João IiI solicitou ao papa Clemente VTT a criam de novas dioceses (Angra, S. Tiago, S. Tome, Santa

Cararina-Goa) e a eIevaçao da catd do Funchal

it categoria de

metrqmiitrtnrt e primaz; o desejo foi atendido e a 31 de Janeiro15 o

Sumo Pontifice acedeu a referida solicitaçw o Funchal ficava agora abrangendo !ia Madeira e Porta Santo, as fias Desertas e Selvagens, e aquela pme continental de &ca, que entesta com a diocese de Srifm e bem assim tadas as terras do Brasa, tanto as jB

descobwtas, como as que se vierem a descobririr. Tadavia em 155 117a papa Jiiuo LII,revogava essa detemime& ordenandu que

o Funchal fosse novamente bispado, abran~ncbapenas o arquipe-

lago da Madeira e ficasse sufrag&m do arcebispado de Lisboa,

criado Wm a diocese da Baia. A Wica altmaçAo ao seu temi&

rio, que posteriormente teve lugar, resultou da anexação em 15601u

do Case10 de AIguim.

A geogrdflca das áreas, primeiro dependentes do

virariato de Tomar, depois da Diocese do Funchal, condicionarm

de fm evidente a administração eclesi&tica, obrigando h neces-

sária reforma de 1533 e 1551; as três primeiros bispos nomeados para o Funchd nunca assentaram morda na diwese, gerando inii-

meras difxuldades na sua administraçiio corrente. Entretanto as

Areas sufkagheas coma os Açores permanedm em pior situação, não obstante a reguiar presença dos visitadore~~~.Na realidade sd a

partir da criaçw do bispado, com o governo de Frei Jorge Santiago (15521561) em Angra e de D. Jeriinbm Bmto (1574-1585) no

Fumhal é que a sua estrutura e a prhtica religiosa ganharam nwo vigor.

Tal eorm refere Gaspar FruW o bispado do Fmhal

encontrava-se numa situação cdamitosa «<porquefdtavão Ccmsti-

Uiqüea Siodab, que ho teve desta nao de igreja militante, e governo

&Ua has quaes elle ordenou, e fez com assas e6tudos pmdencia e @era@o, fundadastodasno sacrossanctoconciiiatridentino e ws

sagrados caoones (,

)),.

Sendo estas constibig0es de D. JerOnimo

BW3 aprovadas em 1579, as mais antigas que se conhecem do

bisgado da Funchai é de estranhar o faca de se referenciar no pró-

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logo das aprovadas em Angra (1 55 9) por D. Frei Jorge de Santiap o uso das constituições do FunchaI atd essa data22,certamente que o Furrchd teria umas constituições anteriores Bs de 1579, que se perderam.

Na realidade a obrigamiedade da realizaçao dos sindos s6

ficou estabelecida com o concílio de Trenlo, no entanto em data anterior a promulgaçW dessas recom- realizaram-se alguns

sinodos, mas wm rara assiduidade; siio exemplo disso os realizados

nas Ceuiárias por D.Diego de Muros (29 de Outubro de

14971, D,

Frei Antonio de h Peiia (26 de Fevereiro

de 1506), D. Fernmdo

de Arce (15 de Abril a 7 de Dezemh de 15 15). Nas ilhas portu-

guesas 86 hi noticia de um,realizado em data anterior bis determina- . ções tridentinas Foi o síndo de Angra em 4 de Maio de 1559, o bico que se realizou nos séculos XVI e XVII nessa diocese22.

De acordo oom a determinação definida na

24a. sessb do Con-

dio de Trento m sinodosprovinciais deveriam ser oonvoc& trie- ndmente e os diocesanos anuhenteU. Todavia essa medida nunca

foi levada a s6no e ningukm foi capaz de a pôr em prhtica, agenas se

@erA

referenciar uma maior preocupação na sua realizaçb, que

nunca conseguirá atingir os prazos estipulados; em Angra o primeiro

sfaodo Post-Tridentino teve lugar em 1797 com Frei Jose d'Ave Maria Leite da Costa e Silva, em Las Palmas tivemos dois condios

diotesmos oonvwdas por D.Crisubi de Ia Chwa y Mwga

(1629) e D. PedroManud Ddvila y Cirdenas ( 1735) em que foram

aprovadas as respectivas constinri~sZ4,no Funchal, ao inds,

suaderam-se vários sinodos (1575,1597,1602,16 15,1622,1629,

trimk&m algwnas

1634,

1680,

1690) em que

se tiprovaram

No Funchal as oonstituiç6es mais importantes foram promulga-

1597, sendo de salientar que, as iiltimas, dei iniciativa

de D. Luís de Figueirdo de Lemos,f~erarn-sea exemplo das de

Lisboa, aprovadas em tituiçiíes Extravagantes».

O século Xw t definido em termos de estnitura religiosa da Cristandade Ocidental como um momento do seu activo protago- niwno, primeira a tentativa de reforma levada a cabo por Lutem e

1566, com o mesmo titulo de «Com-

das em 1578 e

Calvino, depois a resposta do papa& por meio da convocaçiio, em 1542, do Concilio de Trento, e ti afhaçç8o dos jesuítas como o bas- ti% dessa resposta, conhecida como «contra-reforma».

-

.

i

j

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m~8titWasinodois e a odnninisimqfo dm dioceses insulares

169

A igreja e os seus membros haviam entrado na vida fAcil,

deixando-se corromper pelas solicitaçdes materiais;a situaqgo era

deveras grhnk: m conventos era patente a indisciplinae a quebra

da rnord com as

tinha do seu sem nas paróquias apegando-se aos vicios da socie-

aventuras sexuais, enquanto o clero regular se abs-

dride. Todavia esta situaç-

atingia também a alta hierarquia da

igreja catblica; assim os bispos eleitos recusavam-se w assumir o

governo do seu episcopado, preferindo a vida mundana da corte. Note-se que os primeiros bispos nomeados para as dioceses das

Cdas e da Madeira nunca ai se fixaram a tão pouco proce-

deram indispenshel visita As suas paróquias.

Na Mira o primeiro bispo a pisar o solo da diocese foi D.

Ambrósio, em nome do arcebispo D . Martinho de Portugal, que ai

esteve em 1538 acompanhado de dois visitadores -Jordão

Alvaro Dias-;

Jorge e

havendo peste no Fuachal o bispo desembarcou em

Mmhico onde «crismou e deu ordens e fez as os oficios compe-

tentes aio caqp prwtificiJ do dito arcebispado~~~.Tal como refere

Gaspar Frutuoso os visitadores «executaram em toda a ilha seu ofí-

cio (

)

com mito rigor e aspereza» n-he

para smar {{os

caios que os vigdrios tinham feito nas Almas»z7.Na realidade foi a

partir da sua intentenç8o que se reorganizaram as paróquias,

estabeiecerdwe normas rigorosas para a preservação dos seus pr6-

prim @vos,

através dos livros de regise.

o msmo autor que, não obstante o arcebispo

nunca ter vindo residi no Funchal, governou bem o arcebispado,

Diz- &da

dando

),liberdades

ao seu cabido «rendas e honras e descm ( e

fmvildgios largos, e constituiçdes compativeis~.Estas constitui-

Qões seriam assim.as primeiras que passaram a reger o arcebispach

e que mais tade são referenciadas nos A~ores;todoivia n8o há noti-

cia da malizaçãio de qualquer sinado;quando muito @erA

ser uma

akphção das de Lisboa que depois aqui se usou e nos outros bispa-

ch que surgiram a partir deste.

Depois mm a morte do arcebispo D. Mddm em 1547 a

permaneow vaga até 155 1, nesse periodo esteve no Funchd o bispo

B.Sarello,das Canhias, que deu«ordens amuitas pessoas e correu

a toda crisarindo comummente a todos os que disso tinham

~~~.

*rd&

Em 1552 foi provido D. Frei Gaspar do Casal, que na Xlha e o hcto mais saliente foi ter participado no conci-

ão de Trento. O seu sucessor, D. Jorge de Lemos29, nomeado em

1556 foi quem na verdade deu forma a aplicqãao das orientaç&s tri-

denh na ilha, sendo seguido depois por D. Jerónimo Barreto (1874-85) e D. Luis de Figueiredo de Lemos (1586-1608) conside- rados os verdadeiros obreiros da reforma tridentina na Ma-

deira30.

A pratica de organizaqào das instituiçdes religiosas e do ritual

religioso iniciada por D. JerCmimo Barreto em 1578 teve continui-

dade com D. Luis de Figueiredo de Lemos ( 1597,1602), Frei Lou-

renço de Tavora (1615), D. Femando Jerónimo (1622, 1629,

16341. D. Frei Anthio da Sdva Teles e

D. Frei Jost de Santa

Mari&-(1610); destes oito shodos que se realizaram no Funchal I apenas se publicaram as constituiç6es de dois (1578 e 1597)3Le conhecem-se as de outro manu~critas~~,pois dos demais se perde-

ram. Este evidente alheamento do episcopado em relaçaio a reali- dade das paróquias da &mese torna-se mais evidente nas que se situavam fora do arquipdlago madeireme. E o caso dos Açores que até A criação do bispado de Angra em 1533 estiveram sujeitos a

visita dos prelados ai enviados em visita pelo prior de Tomar e

depois bispo do Funchalf3.Note-se ainda que as referidas visitas tin- ham lugar apenas na Terceira ou em SAo Miguei, ficando as demais ilhas entregues a si prdprias.

A realização do Concilio de Trento (1545-1 563) definiu uma

nova redidade para a teologia e pr8ticri instituciond da hierarquia

religiosa, definidas por um novo modelo de catecismo, pela unifor-

mização do ritual religioso e combate ao absentismo34.Nesse con- texto a intervença dos bispados, atraves dos concíüos diocesanos,

era a forma mais correcta de fazer dmar as mrmativas tridentinas

ao quotidiano. De acordo com eis normas estabelecidas nas diversas sessões do Concíiio de Trento foram elaboradas as novas constitui-

@es capazes de atenda aos novos desejos da pritica religiosa.

Em Treato insistiu-se numa maior intervenqão do clero na vida das pardquias, wmbatendoae o absentismo e os desvios morais, e

reli-

giosa e das suas condições materiais; esta intenção resultou, na prh-

tica, o aparecimento dos seminários, a assiduidade das visitas par&& e a melhoria subtancial das suas condiçdes de sobrevi- vência com o aumento das cbngnias.

na dignificação das funções, por meio de uma meihor formaçao

A formação do clero atravts dos seminários era uma condição

indispensivel para esta mudança; esta medida &a reclamada nos concibos de Micea e Toledo, mas teve plena concretização com o

As constituçdes sinodais e a administmçdo das dioceses insulms

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Madeira o Seminário surge em 1566 por ini- Barreto e nas Canhrias, não obstante e insis-

tência dos bispos desde 1483, em 1582 este foi criado35.A par disso é de considerar a presença do Coldgio dos Jesuitas, conside- rado o principal bastião da Contra-Reforma; primeiro na Madeira e nos Açores (1570 em Angra, 1591 em Ponta Delgada e 1652 na

concilio de Trento. Na ciativa de D. Jerdnimo

Horta), depois nas Canárias (1694 em La Orotava e 1696 em Las

Palmas). Note-se que neste último arquipélago estiveram vkrias missões de jesuítas (1566, 1613, 1631 e 1660) sem fundar co-

ldgio36.

Uma das recomendações mais importantes saídas do Concilio Tridentino foi a necessidade das visitas pastorais, de dois em dois anos; estas nem sempre se cumpriram com o necessário rigor. Das actas lavradas aquando das mesmas pode-se avalizar o nivel de reli- giosidade popular e o maior ou menor impacto das recomendações sinodais e papais3'. Nos três arquipélagos foram divulgados alguns livros dessas visitas que nos dáo conta de uma comum situa- ção da religiosidade popular38. Quanto A necessidade de valorizaçáo do patrimbnio do clero no sentido de criar as condições necessiirias ao seu magistério registam-se os acrescentamentos das congruas e ordinárias; para os

1563, 1569 e 1591,

Açores ficaram estabelecidas pelos aivarás de

enquanto na Madeira tivemos os de 1572 a 1598, estabelecendo

acrescentamentos aos valores em questão39.Também nas Cand-

rias a parte económica do clero mereceu a devida atenção do episco- pado. Aqui nas diversas constituições sinodais que se aprovaram nos séculos Xv a xvn e atribuidoum lugar de relevo a administração dos réditos da igreja, de que se destaca o diezmo eclesiástico. Por reclamação do ayuntamiento de La Laguna de 1526 foi solicitada a reforma dos beneficias da ilha de Tenerife, a que se juntaram as demais ilhas, o que foi atentido por cédula rkgia de 1528, em que o monarca, uma vez que pertenciam a «su real patronaton ,estabelece i nova forma de distribuição dos benef~cios~~.A par desses benefícios paroquiais a coroa otorgou em 1486 o senhorio de A@imes a câmara episcopa141. Nas constituiçóes de Don Diego de Muros de 1497 e 1506 e atribuída particular atenção aos reditos da igreja, resultantes dos diezmos; a situação repete-se nas constituiçdes de Feniando Arce (15141515), D. Cristóbal de la Cámara y Murga (1629) e D.

Pedro Manuel Dávila y Cárdenas (1736). Comparada esta reali-

172

-

J41-

Yieim

dade com a das constituições dos Açores e da Madeira conclui-se que nesse arquipdlago o sector emnómico era um dos aspectos que

mais preccupava o clero. A pria disso tambcim se poder8 dizer que,

quer na Madeira quer nos Açores, a referida probledtica não era

motivo de grande preocupação. Note-se que nestes dois arquiM1a-

gos os beneficia e aongnias estavam devidamente estubeleckh pela coroa e que a preocupaçao do slnodo era apenas recomendara

ba administração do patrimdo das pardquias.

-

-

I

OS SINODOS E AS CONSTITUIÇOES SINODAIS

A necessidade de reunião assídua dos sinodos episcopais e o

consequente

estabelecimento de

constituipões

e

resultado

da

reforma tridentina. Todavia antes da concretização do Concílio de

Trento estava j8 estabelecida a obrigatoriedade destas iniciativas

reurganição da estrutura eclesiástica. Deste modo temos os sino- dos realizados nas ilhas Canárias por D. Diego de Muros (1497 e

1506) e D. Fernando Vázquez de Arce (15141515). Nos bispados

de

:

,

de Angra e Funchal, de criação recente, apenas se reconheceram as constitui@es de 15 5 9 estabelecidas por D. Frei Jorge de Santiag~~~,

n&o obstante se referir urnas mais antigas do Funchal. É de salientar que no Funchal as primeiias constituições sino-

dais foram publicadas apiis o concilio tridentino e que as recomen- dações sobre a mncretizaçao dos sinodos, foram mais ou menos cumpridas, tendo-se realizado, atd finais do século XVII, nove reu- nides, de que resultaram as respectivas isnstituipões. Entretanto

para Angra não se conhece nenhumareunião desse tipo, posterior a essa data, enquanto em Las Paimas apenas teve lugar, em tempo de

D.Cristóbal de la Cámara y Murga (1629). Perante isto t legítimo conciuir que a igreja deparou com a natural inércia da estrutura eclesiistica e dos seus prelados, tomando-se difícil o combate ao absentismo como o recomendavam as orientações tridentinas; a ausênciados prelados, a dispersãrogeo- grifica das paróquias condicionaram, de forma evidente, essa situa-

Vejam-se as iniimeras dificuldades sentidas em Canarias para a convocação dos sinodos. Para o presente estudo dedicamos a nossa atenção As constitui- çóa sinodais dos três bispados lavradas nos séculos xv a XvIrI:

Angra (1559), Funchal (1578, 1602) e Las Palmas (1497, 1514

1

As constihrções sinodais e a adrninistra@fodas dioceses insulares

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15, 1629). Numa breve anhlise L constituiçóes publicadas (suma- riadas em quadro anexo) constatam-se inumeras semehanças no

seu articulado, por demais evidentes entre as de Angra e Funchal. Na realidade mbas estas constituições devera basear-se num texto comum, que teria o das de Lisboa aprovadas no sinodo de 25 de Agosto de 153644.

As constituições sinodais dos três bispados tem sempre como matriz as dos arcebispados de Lisima e Sevilha. O confkonto das constituipões em causa atesta essa subjugação ao articulado das constituiçóes peninsulares, situação que também sucede no caso das posturas municipais, conformeo demonstramos noutro estudo4$. Facto peculiar sucede com o vicariato de Tomar, que apds a criaçlto da diocese do Funchal se manteve como «nullis diocesis)), mas regendo-se por constituiç6es prirprias aprovadas no sinodo de 18 a 22 de Junho de 1554&. Esta situaçáo associada a referida ante- riormente nas constituiq6es de Angra de 1559 atestam que as sino- dais de D. Jerónimo Barreto (1578) não foram as primeiras estabelecidas para o bispado do Funchal e que com a criação do bis- pado se fizeram as primeiras, que o regeram ate 1578 e que depois foram usadas em Angra e TornaF. Alias F. A, Silva48refere-nos

que o arcebispo D. Martinho de Portugal fez umas constituições dio-

cesanas que serviram de regra do governo do bispado do Funchal, enquanto Antonio de VasconcelI~s~~refere que estas teriam sido

estabelecidas por D, Diogo Pinheiro, que servia simultaneamentede

bispo do Funchal e vigario de Tomar. Por outro lado se confrontarmos as constituiçdes sinodais de

Angra (155 9) com as do Funchal(15 7 8) constata-se que a interven- ção das normativas tridentinas no seu postulado foi pouco significa- I tiva, singindo-se apenas a aspectos doutrin~os com pouco significado no seu articulado. No caso das CanBnas, que dispomos de cinco textos de diferentes constituiçdes (1494, 1506, 1514-15, 1629, I736), as mudanças mais significativas surgem nas duas últi- mas, aprovadas em época tardia.

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A DOUTRINA DAS CONSITUIÇÓES

A doutrina expressa nas constituiçdes pode ser subdividida em

&no0 domíuios: os sacramentos, o ritual religioso, o clero, a admi-

*traç&o do patrimdnio e da justiça, pecados e desvios. Enquanto os

dois primeiros se mantêm quase sem a1terWe.s de acordo com as

contingências da conjuntura e das novas questões que ele gera os demais adaptam-se aos novos desafios e realidades; ai a fundamen- tal alteração teve lugar @s o Concilio de Trento, como forma de adequar o seu articulado As referidas nomativas.

A intervenção do concilio ia no sentido de manter uma certa uniformidade no ritual religioso, quer ao nível da Santa Missa, quer da administração dos sacramentos. Note-se que antes do concilio reinava a indisciplina na sua administração o que gerava por vezes situma escandalosas. Aqui assumia particular destaque o casa- mento; eram inumeros os casamentos clmdestinos e consangui- neos50.Os aspectos doutrinários incidem, preferencialmente, sobre o baptismo, confissão,comunhão e matrirnonio. As normativas tridentinas estabeleciam essa necessáriaunifor- mização do ritual desses sacramentos e por isso encontramos as mesmas recomendações nas constituições, ainda que expressas de outra forma. Mas aqui e acolá subsistem algumas peculiaridades. Assim nos Açores insiste-se na doutrinação, baptismo e casamento dos infibis vindos da Guine, Indias e Brasils1,enquanto na Madeira,

D. Luis Figueiredo de'kmos estabelecia um capitulo especial, de

recomendação para os escravos52,o mesmo sucedendo nas C&- riass3em que se tamkm atenção a administraçiio do matrimdnio. Esta prewupa* pelos escravos era natural em ambos os arquipé- lagos onde a escravatura assumiu uma dimensãorelevante na defini-

ção da sua estrutura s~ciai~~. Estabelecidas as normas reguladoras da administração dos

sacramentos a atenção vira-se agora para o clero, procurando-se defini3 padrões de vida «honesw e exemplar.

Confrontadas as constituições post-tridentinas wm as anterio- res constata-se uma maior atençiío nas primeiras a administração do

vão no sentido de uma

maior formação do clero, devendo ser examinados «se sabem qual he a matéria e forma dos sacramentos da igreja, e como se nrlminis-

tram e se sabem bem cantar, porque devem os que as ditas ordens

ter taes qualidades que possam logo exercitar tudo o que a

sauramento da ordem; as recomend-es

@em

ellas pertence (

)»55.

Dai certamente surge a necessidade de cria-

ção dos seminhios, uma das determinaqjes mais importantes esta-

belecidas no Concilio de Trento.

A par disso as constituições e o próprio concilio insistem na vida regrada do clero, de modo a evitarae situações escandalosas e

As constitup-es sinoduis e a administmçlio das dioceses insulares

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lesivas da sua condqão. Para isso recomendavam-se certos precei- tos no vestir e normas de sociabilidade, coibindo-se o clero de activi- dades decorosase do convívio e coabitação com concubinasS6.Este ultimo aspecto mereceu especial atenção das ordenaçoes estableci- das pelos monarcas port~guesas~~. Outro domhio a que o concilio de Trento deu muita atenqão foi o combate ao absentismo do clero, obrigando a residir na sede da paróquia e a cumprir com as suas obrigaçõess8.Estas recomenda- pões surgem apenas nas constituifles sinodais post-tridentinas:

Funchal (1585, 1597) e Las Palmas (1629). Mas para que isso

acontecesse era necessário garantir ao clero meios de subsistência adequados e capazes de os manter afastado das tarefas mundanas e residentes na sua paróquia. Deste modo o concilio de Trento aten- deu também a esse aspecto da vida do clero procurando

garanti-lo.

A sobrevivência do clero dependia dos dizims arrecadados,

dos beneflcios e da administração dos bens que pertenciam a igreja e

que, de um modo geral, lhe haviam sido doados por disposições tes- tarnenWias. Em todas as constituições existem normas para a utili- zação e administração destes meios, sendo de destacar a irnporthcia que lhes d atribuída pelas de Las Palmassg. São múltiplas as recomendapões quanto ao ritual religioso, que se revelam idênticas nos diversos bispados, nas constituições apro- vadas após o concflio de Trento. Assim foi ordenado um missa!, um

breviário e um catecismo, únicos para toda a igreja60,acabando-se

desta forma com a anarquia cultual.A par disso definiram-se regras

sobre a forma de expressão do culto nas missas, ofícios, horas e pro- cissões. Quanto a estas últimas estabelecia-se, no caso da Madeira, a obrigatoriedade do Corpus Christi, Visitação de Nossa Senhora, Ladainhas, Sexta-Feira Santa e Santiago Menor padroeiro da cidade, quanto aos Açores mantinnam-se as duas primeiras e adicionava-se a do Anjo Custodio, para as Canárias não ficaram determinadas as procissões obrigatorias mas apenas a forma de par- ticipação do clero, leigos e autoridades no referido acto, tal como se ordenava para a Madeira e Açores.

A intervenção do clero (cura, beneficiado, ecdnomo, tesou-

reiro) merecia uma regulamentação especifica de distribuiçw de

tarefas e de devoção; a sua participação nos oficios divinos, procis- sões, as horas do breviário e os cuidados na guarda e obsenthcia

das vigílias ejejuns mereciam

a sua atenção. Na Madeira e nos Aço-

re~Spr&e~ounb~c~gShamdn~fi~ do apontador, emarrqdb de anuiar as a&nuirts, para pos-

teri&

entmrrmenfo, mérecirim espedd atenção na Wira e nos Apes,

admoestqã;o*

Alguns aspeds cultzaaís.wpedi~ú8,como o das exeiquias e o

sendo de refetir o excessivo aidado na &@mia do mtai cumpri-

mentodatrin~demissase&queem~&sesac~osn&o

Wsem pacto,

Omesmosepkr+dizei.qurmta&festasdamoehnewssi-

dade de guardar ir úmbgm e

sant%icados. Nases dias osfre-

gumes deverim ir h missa çom os filhos e fdarre e estavam

proibidm de foizer qdquer trabdho, sobpena de exmmmbiio; ape-

nas dgumas actividades, como er recolha do cereal das eiras, eram

pmdtidas, ma s6 depois do jmW.

ornamentos do &ar e ~lsdfaius fhirgicas -gm Mrn ata$& das mmtituiç&s da Madeira e dos Açores, o&

tsrm-

8e

estipulamos~satermmoseuuso,~e~d

usados. Nas wa apms 8& referidas as xsw è its mHQahs

da igreja.

Ao nlvel doei dÚa emãaem as oficiais de Nt&a desi&

br~~@r,-d~~8 GbfldW) Com

@o de co~~.Nqs doia bispadas pgmses esse encargo

dependia do ouv'kbr, e s tw .@m A-8

um para wüa h,senda

a Terceira com 40k1um para cada caphnh, empnta na

Miraerade ~,,repQomfraraAr&n,wtruparaoP~

Santo e os mtmtes para a Madeira9um em

O património da igreja, &&ido

cwMQ.

piio imSvisl para as &i&

des&eul~,asaafaimep~f'~~~p

bnMa do dizima eddco a as dom testam&aal

rtqda

uma ajustada ~~@ão,capaz.demaer um adequado wuy

h.Estas medidas multavam da necessidade de opmxemar, d-

tmdoaaprapri~1nbe%4dapm~doderomleipi.~mq

nido isso se tomasse pbssk0I atakleceu-se, ma

e na

Madeira, a necessidade âe imi livro do tombo onde Eossem inm -

riados tocios mes bem, &eis

n imhv&, que Iha ~~

Etp9uaatanaMad&~eao~Açotesa~adaçsodos~~I

eelesisstiaos estavadada plaa imthQ&s &gim,rias CanW I

cmptia iIgreja asua gões (1497,1506,1514""p-

BB para a sua admUua@o.

,peloquenas dioefsas.-

880 eatabtlecidasnormasm-I

I

As cortstitugões sinodais e a administragáo das dfoceses insula~s

177

Note-se que na Madeira e nos ~çures~~constituições insis- tem para que os actos a cargo do clero não deveriam ser negociados,

ficando a cada cristão o encargo de estabelecer o valor da esmola a

ser pago, enquanto nas Canárias com as constituições de 1497 cada acto litiirgim tinha um preço estabelecido e as sepulturas não era permitido vender. Não obstante existir o tribunal do Santo Oficio e a priipriajus- tiça rbgia definir a sua alçada de diversos dominios que d8o corpo it justiça eclesiástica, esta tem um lugar de relevo na vida do bispado e p-uias dele dependentes. Para isso a igreja estabeleceu uma

estruturajudicibia, defínhdo a área e intervenção do ouvidor ecle-

siástico, do bispo e do papa. O clero, o visitador em serviço faziam parte desta estrutura estando todos coajidos a declarar os pecados píblicos e a clamar por justiça. Os domínios de intervençfm da justiça eclesiltica não se resu-

miam apenas aos aspectos estritamente religiosos, mas também se

embrenhavam noutros domínios da sociedade, colidindo, por vezes, a sua acqão com a da justiça secular6$estão neste caso os onzenei- ros, banqueiros, feiticeiros e benzedeiros. Pelo lado português as ordena@& rbgias, e pelo lado castehano o código das Siete Pad- das reclamam-nos essa comum intervenção. Todavia aqui é necessirio referir a justiça destinada ao clero, por um lado, e leigos, por outro. Enquanto a primeira intervem no sentido de estabelecer normas de comportamento exemplar para os membros da igreja, a segunda procura assegurar a sua prhtica reli- giosa e evitar os indmeros desvios sociais e religiosos; a sua inter- venção vai desde os barregueiros e onzeneiros am feiticeiros, / bnzedeiros, etc. De entre estes destacam-se ainda os sacrilegos, iato 6, os que atentam antra a integridade física do clero, as mani- festações culturais e alfaias e paramentos religiosos. Para estes e os demais que incorriam em ((pecados* graves a pena mais severa, que íhes podia ser aplicada, era a exoornunh8o; a respectiva carta era passada pelo bispo, havendo no entanto penas que s6 poderiam ser atribuidas pelo Papa, conforme relação estabelecida no final das Cmstituições da Madeira e dos Açores66. A igreja tinha a sua própria estrutura judiciária montada em

c& bispado e dessa organização e dos seus elementos se ccupam

: @e significativa das constituições dos tres bispados em causa6'. N@9obstante a sua intervenção alcançar alguns domínios de socie-

I &de erajunto do clero que esta instituiçh definia con maior rigor a

sua intervenç&, uma vez que a imunidade eclesihtica retirava aos

tribunais seculares essa alçada6&.Deste modo no caso das Canárias

a

casos e pecados ou desvios =i& ai referenciados estão quase sem- pre, relacionados com o cimow- Sendo a excomunlGo a arma mais poderosa da justiça eclesib-

tica é natural que a Igreja aposte nas consequências da sua.aplica- ção para fazer cumprir as normas de conduta estabelecidas e

reprimir os refractarios.

As excomunhao em si representava apenas e exclusão do rdu do

dominio dos cristãos na igreja e do cumequente acesso aos actos liturgicos. Mas na realidade as suas consequencias sociais eram muito mais funestas, pois conduziam a uma maça social violenta e era isso que afastava a igreja, apontando a tdos os excomungados

por meio de editais a porta da igreja70.

sua acçao incidia preferencialmente neste grupo,de modo que os

JURISDIÇÃOCIVIL E ECLESIASTICA

Não é facil a delirnitaç* da área jurisdicional da justiça ao

nivel secular e religioso,pois que iarimeras das recomendações esta- tuidas pela igreja ganham plena adesgo no articulado das leis e orde-

naçdes rdgias. O código h

Siete Partidas. um dos principais

fundamentos da legislaçb peninsular, define logo na primeira par- 'tida essa situaçáo Ao se dedicar por inteiro ao estado «ecle-

sii~ticon~~.

vemos surgir inúmeras determinações que depois ficafam estatuidas,quer nas ordenaws régiasportuguesas, quer nas consti-

tuições sinodais; na compilaçao feita em tempo de D. Afonso V,

dedica-se um capítulo especial do segundo Iivro para ~trautar&

leix,que fallam acerca das igrejas, e mosteiros e clerigos sagraaes,e

Ai sb incorporadas todas as determinaçks concorda-

religiosos»

das entre a Santa e os monarcas

sas determinações existem alguns titulos especiFicos para a igreja e

seus prelados. Essa matéria poder8 ser resumida em cincoaspectos:

a imunidade eclesiástica, o património da igreja, a vida e honesti-

dade do clero, dos pecados e desvios e a situação particular dos

Para albm des-

judeus e mo~ros'~.

Em face destas determinaçóes o clero gozava de uma posição privilegiada na sociedade. Assim ao abrigo da imunidade miesi&-

As ninstihiç+es sinodais e a ahinis&

rdm diomes insulares

179

tica este +inh~iseqiíado servip ditar, d& hpdq&s fiscais e de foro, nbpdbmb, de acordo com esta iiltixna &wtqãQ, ser citado

em tribunal, mh situações especiais7s.

PeranbeHh~sftuaçãoespecial do clero sucedia que muitos rece-

biam 6rtklis- thWores para serem detentora desses privllkgios ou

para !%gimjustiça secular. Para isso houve uma determinaç8o

por parte da igreja, primeiro com Leiío X e depois com o Concilio de Trem, em que se procurava estabelecer um traviio a essa concessão de urdens menores; a partir de então 96 podia ser minorista os pos- su4dores,depatrimdnio e de acordo com as ordenaqôes rnanuelinas e

filipinas*estes rlão usufmiam do direito de