Você está na página 1de 30

Funchal NO CONTEXTO DAS MUDANÇAS POLÍTICO-IDEOLÓGICAS DO SÉCULO

XVII. O CORSO E A GUERRA DE REPRESÁLIA COMO ARMA

Alberto Vieira

Múltiplas e variadas razões fizeram com que o Funchal se afirmasse no século XVIII como um centro chave das transformações sócio-políticas então operadas, de ambos os lados do oceano. A ilha foi também protagonista no processo, concorrendo para isso vários factores. Aqui deverá, sinalizar-se a forte presença da comunidade inglesa e o facto desta a ter tranformado num importante centro para a sua afirmação colonial e marítima, a partir do século XVII. Esta vinculação da ilha ao império britânico é bastante evidente no quotidiano e devir histórico madeirenses dos séculos XVIII e XIX 1 . O reconhecimento da importância da anglicização da Madeira torna-se necessário para a compreensão das mudanças operadas ao longo do século XVIII e, de modo especial, a questão que nos ocupa - o corso como arma político-ideológica. Para além desta formulação do problema é preciso ter em

cobiça e

conta que a actividade do corso

partilha da presa, pois a este benefício económico, que é a razão única do pirata 2 , juntam-se outros objectivos. É por isso que o corso se justifica também

como forma de represália resultante dos conflitos bélicos ou da luta contra as opções do exclusivismo económico definidas pelas teses do mare clausum. O corso foi, assim, no decurso do século XVIII uma forma de extensão dos

conflitos europeus 3 e americanos, veiculando neste último caso uma opção político-ideológica que marcou o Novo Mundo. Estes corsários sul-americanos ficaram conhecidos como insurgentes,

porque se insurgiram contra as potenciais colonias europeias e abraçaram a bandeira do independentismo içada, primeiro, pelos norte-americanos. É, na verdade, a declaração de independência dos E.U.A. que fez despoletar a nova situação. Neste fogo cruzado a Madeira, porque protagonista activo no relacionamento entre os dois mundos e pela forte presença da comunidade inglesa, não podia alhear-se das mudanças políticas

não

se

esgota

na

1 Confronte-se Desmond GREGORY, The Beneficent Usurpers. A History of the British in Madeira, London, 1988.

2 É necessário assinalar que a diferença entre pirata e corsário é a chave para a compreensão disto. Assim enquanto o primeiro actuava por sua iniciativa sendo o seu objectivo apenas económico, o segundo via a sua acção legitimada por uma carta e ordenança de corso. Veja-se L. Luis AZCARAGA DE BUSTAMANTE, El Corso Maritimo, Madrid, 1950, 91, 131-132.

3 Georges RUDÉ, A Europa no século XVIII, a aristocracia e o desafio burgês, Lisboa, 1988, refere que "dois em cada três anos foram de guerra"(pp.255-369).

geradas pela difusão de novas ideias e repercussão das suas consequências. Na verdade, um porto não é apenas um receptáculo de mercadorias, mas também um meio difusor de doenças e ideias 4 . E,

na segunda metade do século XVIII, foi evidente esta aportação 5 . Para isso contribuiu de forma evidente o protagonismo do Funchal, através do comércio do vinho, no relacionamento comercial com os portos norte- americanos, mas também com as metrópoles. Deste modo para situar a problemática em debate é necessário ter em atenção, não só as actividades de corso, mas também, o activo relacionamento e interdependência da Madeira com este mercado, que em termos políticos esteve, desde o último quartel do século XVIII, em permanente ebulição.

1. A Madeira no contexto das rotas e dos mercados atlânticos do século XVIII

No decurso do século XVIII a Madeira firmou a sua vocação atlântica, contribuindo para isso o facto de os ingleses não dispensarem o porto do Funchal e o vinho madeirense na sua estratégia colonial. As diversas actas de navegação (1660, 1665), corroboradas pelos tratados de amizade, de que merece relevo

especial o de Methuen (1703) 6 , foram os meios que abriram o caminho para que a Madeira entrasse na área de influência do mundo inglês 7 . Aos poucos, esta comunidade ganhou uma posição de respeito na sociedade madeirense que, por vezes, se tornava incomodativa 8 . A presença e importância da feitoria inglesa, no decurso do século XVIII, é uma realidade insofismável.

um

estatuto diferenciado que lhe dava a possibilidadede de possuir um cemitério próprio, desde 1761. Também os mesmos tiveram direito a igreja própria, emfermaria, conservatória 9 e juiz privativo.

A comunidade

inglesa

passou

a

usufruir

na

ilha

de

4 Sobre isto anote-se uma conferência do Prof. Russel-Wood proferida no Funchal em 15 de Junho de 1989 sobre "As Cidades Portuárias do Brasil" e publicada sob título "Ports of colonial Brazil",in A.L.KANAS e J.R. MCNEIL,Atlantic american societies. From Columbus through abolition 1492-1888, N. York, 1992, pp.174- 211; veja-se ainda Franklim W. KNIGHT e Peggy K. LISS, Port cities: economy, culture, and society in the Atlantic World, Knosville, 1991.

5 António LOJA, A luta do poder contra a Maçonaria, LIsboa, 1985, p.247.

6 Veja-se Public Record Office, FO 811/1, cartas dos privilégios da nação britânica com Portugal desde 1401 a

1805.

7 Confronte-se J. H. FISHER, The Methuen a Pombal. O Comércio anglo-português de 1700 a 1770, Lisboa, 1984, p. 29.

8 Em 1754 o Governador Manuel Saldanha Albuquerque lamenta o exclusivo do comércio inglês na ilha (AHU, Madeira e Porto Santo, nº.48-49).

9 Public Record Office, FO 811/1, fls.278, 31 de Janeiro de 1724.

Sabemos, ainda, que estavam isentos do pagamento de qualquer direito na alfândega, cobrando, por iniciativa própria, um tributo sobre os barcos ingleses para as despesas da feitoria. A situação, segundo o governador João António de Sá Pereira 10 , era antiga e contava com o hábito de "obsequiar os governadores para os ter sempre propícios afim de melhor continuar nos grandes interesses que tira d'esta ilha

este quadro que deve ser enquadrada a

ocupação da ilha, por duas vezes, por tropas inglesas: 1801-1802

e 1807 a 1814 11 . Esta opção, embora da primeira vez colhesse o governador de surpresa, parece ser

desejada, pois em 1898 o governador de S. Miguel, depois de tomar conta do sucedido, manifestou o desejo que o

mesmo sucede-se nos Açores, para evitar o perigo dos franceses 12 .

Mesmo assim os ingleses tiveram de se aver com a reacção madeirense à sua influência na vida económica madeirense. Uma destas está patente nas palavras do juiz do povo, que em 1770 os responsabilizava pela situação de crise do comércio do vinho resultado da impunidade com que actuavam na ilha 13 . De acordo com isto poderá afirmar-se que a Madeira funcionava para os ingleses como uma colónia que jogou um papel fundamental entre a metrópole e as possessões norte-americanas das Indias ocidentais e orientais, assumindo uma dupla função para os ingleses: porto de apoio para as incursões no oceano e abastecedor de vinho às embarcações e colónias. A presença de armadas inglesas no Funchal era constante e o relacionamento com as autoridades locais amistoso, sendo recebidos pelo governador com toda a hospitalidade 14 . Destas relevam-se as

de 1799 e 1805, compostas, respectivamente de 108 e 112 embarcações 15 . Para além disto era assídua a presença de

É de

acordo com

10 Veja-se AHU, Madeira e Porto Santo, nº 317, 30 de Abril de 1768. Sobre os ingleses na ilha veja-se Fernando Augusto da SILVA, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal 1984, entradas "ingleses", Estrangeiros, conservados dos ingleses, Cemitério Britânico, igrejas inglesas; A.A. SARMENTO, "A Feitoria Inglesa", in Fasquias da Madeira, Funchal, 1951, pp. 99-103; Walter MINCHINTON, "British Residents and their problems in Madeira before 1815", in Actas do II C.I.H.M., Funchal, 1990, pp. 477-492; Desmond GREGORY, ob. cit.; Graham BLANDY (ed.) Copy of Record of the establishement of the chaplaincy and notes on the old factory at Madeira, Funchal, 1959.

11 Veja-se Pe. Fernando Augusto da SILVA, ob. cit., vol. III, "Ocupação da Madeira por tropas inglesas", pp. 5-6; A. A. SARMENTO, Ensaios Históricos, vol. III, Funchal, 1952, pp. 146-237; idem, Madeira 1801 a 1802, 1807 a 1814. Notas e Documentos, Funchal, 1930.

12 Em 27 de Fevereiro de 1808 o governador madeirense havia-lhe enviado uma carta relatando o sucedido. Confronte-se: Arquivo dos Açores, vol.XI, 359-360, 373-379; Francisco d'Atayde de Faria e MAIA, Subsídios para a História de S. Miguel e Terceira. Capitães-generais 1766-1831, 2ª edição Ponta Delgada, 1988.

13 A.R.M., C.M.F., nº 167, fls. 53-57vº, 17 de Março 1770.

14 Public Record Office, FO 63/7, sabe-se que por ordem de 14 de Junho de 1722 as embarcações com destino às colónias permaneciam alguns dias no Funchal. A 20 de Janeiro de 1786 são 20 barcos em tal situação, coordenada pelo consul.

15 AHU, Madeira e Porto Santo, nº.1125, 1620, 22 de Outubro de 1799 e 7 de Outubro de 1805

uma esquadra inglesa a patrulhar o mar madeirense, sendo a de 1780 comandada por Jonhstone 16 .

A

procura

do

nosso vinho

resulta também da feliz

circunstância de ser

constantes mudanças de clima, antes pelo contrário, adquiria

propriedades, mercê do balanço resultante da ondulação do mar e

do calor tórrido

porões. Esta

constatação surge muito cedo, pois desde princípios do século

XVIII temos referências a isso que veio a dar origem ao vinho da

Funchal, que

justifica a

roda. Quem o confirma

preferência dos ingleses pelo vinho Madeira em

o

único que não se deteriorava com as

sujeito nos

a

que estava

é

o

consul francês no

detrimento do de Bordéus 17 . Daqui resultou a sua afirmação no mercado colonial europeu, com especial relevo para o britânico. Neste contexto releva-se a posição do mercado americano, dominado pelas colónias das Indias Ocidentais e portos norte-americanos.

O último destino sedimentou-se, a partir da segunda metade

do século XVII, mercê de um activo relacionamento. Desde então o

vinho da Madeira foi uma presença assídua nos portos atlânticos -

Boston, Charleston, N. York e Filadélfia, Baltimore, Virginia -

onde era trocado por farinhas 18 . Esta contrapartida reforçou o relacionamento comercial e actuou como circunstancia favorecedora do progresso da economia viti-vinícola. Assim, se nos séculos XV e XVI a afirmação da cultura dos canaviais foi conseguida com o suprimento frumentário dos Açores e Canárias, a partir de finais do século XVII é na América do Norte que se situa o celeiro madeirense. Cedo a Madeira entrou na esfera dos interesses norte-americanos, sendo o vinho o cartão de visita. Note-se que as ilhas atlânticas são conhecidas na documentação oficial norteamericana como as ilhas do vinho 19 .

Acresce que algumas das ilustres personalidades que

estiveram na origem da independência e, depois foram estadistas, não dispensaram a passagem pela Madeira para conhecer a terra

donde brotava o vinho de que eram grandes apreciadores. São eles

George Washington, Benjamin Franklin, John Adams e Thomas

Jefferson 20 . Também o nosso vinho esteve nas origens da convulsão que iniciou a luta pela independência norte americana. Estávamos em 1764 e o vinho da Madeira havia já conquistado o mercado e a Inglaterra, através do "sugar act" decidiu tributar as ligações directas com a ilha.

uma

Esta medida,

que

obrigava

os

navios da

colónia

a

16 Ibidem, nº.545, 22 de Janeiro de 1780.

17 Cartas de 25 Fevereiro de 1741 e 27 de Maio 1771 referenciadas por Albert SILBERT, "Un Carrefour de l'Atlantique: Madère (1640-1820)", in Economia e Finanças, vol. XXII, 1954, pp. 413-414.

18 Cf. Jorge Martins RIBEIRO, "Alguns aspectos do comércio da Madeira com a América na segunda metade XVIII", in Actas III Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1993, pp.389-401.

19 Veja-se A. GUIMERA RAVINA, "Las islas del vino (Madeira, Açores e Canarias) y la América inglesa durante el siglo XVIII. Una aproximacón a su estudio", in II C.I.H.M. Actas, Funchal, 1990, pp. 900-934, confronte-se Albert SILBERT, art. cit., pp. 420-428.

20 T. B. DUNCAN, Atlantic Islands. Madeira, the Azores and the Cape Verdes in Seventeenth Century. Commerce and Navigation, Chicago, 1972, pp. 250-252; Cf, Jorge Martins RIBEIRO, art.cit., pp.391-392.

obrigatória ligação com a metrópole, não colheu adeptos e foi o motivo que despoletou o ideário da independência. Assim em 1768 dá-se a primeira desobediência com o navio Liberty, recusando-se John Hancock a pagar direitos pelas 100 pipas de vinho da Madeira

entradas em Boston 21 . A isto seguiu-se o confronto de 1770, conhecido como o "Boston Tea Party". Certamente que este acontecimento e a ligação de alguns politicos norte-americanos não foram alheios ao facto de o vinho da Madeira ser escolhido para o brinde da proclamação solene da independência.

Todavia, esta nova situação implicaria dificuldades acrescidas para a Madeira, mercê do ancestral vínculo da ilha à Metropole e a quase impossibilidade de definir uma política de neutralidade. Por algum tempo a Madeira perdeu, não só um dos melhores consumidores do seu vinho, mas também a contrapartida de

cereais 22 . O resultado disto foi a fome que atormentou os madeirenses 23 . Durante os oito anos do bloqueio pararam as embarcações nesta rota e o ambiente na ilha era visto pelas autoridades como de total consternação 24 . Perante a excessiva vinculação da Madeira ao mundo colonial britânico e em especial aos portos norte-americanos era inevitável que a ilha fosse um dos primeiros alvos das convulsões políticas que envolveram a Europa e a América na segunda metade do século XVIII, através da guerra de represália expressa no corso.

A partir da década de 70 e até aos princípios do século seguinte os conflitos que têm como palco os continentes europeu e americano alargam-se ao Atlântico. Aliás, neste momento o oceano é um activo protagonista das disputas entre os três principais beligerantes: Espanha, França e Inglaterra. Por isso Mario

Hernandez Sánchez-Barba 25 define o século XVIII por três realidades: guerra, diplomacia e comércio. Entre elas existe uma perfeita sintonia. A tudo isto junta-se a permanente preocupação com a organização militar e a defesa da costa, porque o perigo espreita no mar a qualquer momento.

É dentro desta ambiência que deverá considerar-se a presença dos corsários. Para isso poderão assinalar-se dois momentos: o período que decorre entre 1744 a 1736 definido pelo afrontamento de Inglaterra com a França e Espanha; a época das grandes transformações do século, com a proclamação da independência das colónias inglesas da América do Norte (e a consequente guerra de independência até 1783), a Revolução Francesa (1779) e as convulsões que lhe seguiram até 1815. Neste último intervalo de

21 Hiller B. ZOBEL, The Boston Massacre, N. York, 1978, p. 73; O. M. DICKERSON, The Navigation Acts and the American Revolution, N. York, 1983, p. 177; John W. TYLER, Smugglers & Patriots Boston Merchants and the Advent of the American Revolution, Boston, 1986, p. 115.

22 Cf.Jorge M. RIBEIRO,art.cit.,pp.391-392.

23 Alberto SILBERT, art. cit., p. 423; veja-se Aires dos Passos VIEIRA, Elementos para a História da Vida Quotidiana da Madeira na governação de João Gonçalves da Câmara Coutinho (1777-1780), Lisboa, 1891;

Maria de Lurdes de Freitas FERRAZ, "A cidade do Funchal na 1ª metade do século XVIII. Freguesias Urbanas", in

II C.I.H.M

Actas, pp. 281-281.

24 A.N.T.T., P.J.R.F.F., nº 1182, fl. 29, 22 de Dezembro de 1776.

25 El mar en la Historia de América, Madrid, 1992, p. 239.

tempo sucederam-se novas alterações no continente americano com a luta pela independência das colónias de Espanha, que veio a gerar um novo interlocutor para a guerra de corso. A dimensão assumida por esta guerra de represália está bem patente nos números das presas. No período de 1793 a 1798 os franceses apresaram alguns milhares de embarcações dos ingleses e aliados: em 1795 só o porto de Brest tinha 700 presas inglesas e em 1798 contavam-se 3199 navios comerciais apresados 26 . Perante a investida

francesa não será de estranhar a ocupação inglesa da Madeira, entendida como forma de preservar os interesses dos súbditos de Sua Magestade, mas também de estabelecer uma barreira ao avanço francês além oceano.

Em todos os momentos a Madeira funcionou como base para as inúmeras incursões dos corsários ingleses. A neutralidade, insistentemente proclamada no papel não passava disso, pois os ingleses afrontaram por diversas formas a atitude do governador 27 .

Desde a guerra de sucessão da Casa de Austria que a Madeira teve esta vocação. Aí estacionaram alguns navios corsários como sucedeu com a balandra do capitão Filipe Maré e o corsário rei Jorge. Da resposta castelhana temos

a presença do bergantim Santelmo Nossa Senhora Candelária, sob o comando do capitão Pascoal de Sousa Viúvo,

possuidor desde 1739 de carta de corso 28 . Todavia não foi feliz nas suas presas. Em 14 de Abril de 1748 apresou junto ao Cabo Girão, uma balandra inglesa que ao pretender vender o recheio viu embargado pelo bispo governador

a favor dos ingleses. Depois tomou uma escuna inglesa na Ponta do Sol, mas acabou apresada pela nau inglesa

Chesterfield, sendo arrematada pela alfândega do Funchal 29 . Mais tarde em 1762 recomenda-se ao governador José Correia de Sá para manter uma posição neutral em face dos acontecimentos, mas que exerça represália sobre os navios espanhóis e franceses, o que ia de encontro às pretensões inglesas 30 .

aceitaram este pacto de

vizinhança, atacando os navios costeiros ou de pescarias, como

Mesmo

assim os

ingleses não

1780 31 . E a situação continuou nos anos subsequentes, afirmando-se a Madeira como base

para as incursões inglesas contra os navios castelhanos e franceses. O facto da ilha estar sob as ordens de Sua Magestade, entre 1801-1802 e 1807-1814, favoreceu isso. Assim tivemos duas presas francesas e 21 castelhanas 32 . Por seu turno os franceses faziam incidir mais a sua acção sobre as embarcações portuguesas, porque menos seguras

sucedeu em

26 Confronte-se A. C. BAPTISTA, O Ressurgimento da Marinha Portuguesa no Último Quartel do Século

XVIII, Lisboa, 1957 (tese de licenciatura na Faculdade de Letras).

27 Em 1780 o Governador João Gonçalves da Câmara participa a Martinho de Mello e Castro a presença de uma esquadra inglesa no Funchal, pedindo instruções para manter absoluta neutralidade Ibidem, nº.545, 22 de Janeiro).

28 A.N.T.T.,P.J.R.F.F.,nº972, fls.233-235vº, 24 de Novembro.

29 A.N.T.T., P.J.R.F.F., nº 109, fls. 79, 82, 83vº; A.F., nº 970, fls. 16vº-17.

30 A.N.T.T., P.J.R.F.F., nº 985, fls. 16vº-19.

31 A.H.U., Madeira e Porto Santo, nº 561.

32 Ibidem, nº 1556-60, 1584, 1589, 1594.

e protegidas, do que as inglesas. Esta permanente ameaça da esquadra de Brest sobre o Funchal justificava-se mais pelo colaboracionismo madeirense aos ingleses do que pela guerra declarada entre as coroas peninsulares. Os dados que documentam esta preocupante presença são elucidativos. Em 1785 33 é uma esquadra de 12 embarcações sob o comando do general Le Comte d'Albert Derions. Depois a partir de 1718 instalou-se o pânico com os franceses a estabelecerem um bloqueio à ilha, o que lesou o comércio externo 34 .

Nos Açores o corso teve maior incidência nos primeiros anos do século XIX. Os principais protagonistas europeus são os

ingleses e castelhanos 35 . Todavia é entre os originários do continente americano que temos as acções mais violentas. A intervenção dos corsários americanos é uma forma de reclamar o direito à independência. As acções são lançadas contra as embarcações da metrópole e aliados, o que vem a atingir os portugueses. A isto acresce a guerra entre ingleses e norteamericanos no período de 1812 a 1815 que provocou um aumento desmesurado do número de corsários. Com as pazes muitos deles passaram-se para o serviço dos insurgentes 36 .

Sem dúvida o facto mais importante deste momento é o combate naval que teve lugar na baía do Faial a 26 e 27 de Setembro de 1814 entre o corsário americano general Armstrong e uma divisão naval inglesa sob o comando do general Cokrane, que se dirigia para a América com a finalidade de atacar Louisiana 37 . O corsário americano

entrara no dia 26 no porto da Horta para fazer aguada, sendo perseguido pela divisão naval inglesa. Daqui resultou, na voz do governador da Horta, "um horroroso e sangrento combate a que deu logo o desvario, orgulho e soberba de um insolente chefe britânico, que não quis respeitar a neutralidade com que Portugal se acha na actual contenda entre sua Magestade britânica e os Estados Unidos da América" 38 . Disto resultou um diferendo diplomático

manteve-se até meados da centuria. Este facto marca o recrudescer das actividades dos corsários americanos que actuaram também contra os portugueses como represália de colaboracionismo activo a favor dos ingleses. Este permanente afrontamento entre ambas as partes é definido pelo governador da seguinte forma: "entre os vassalos destas duas potencias há huum ciume que os

menos prudentes não sabem ocultar "

39

33 Ibidem, nº760-761.

34 A.H.U, Madeira e Porto Santo, nº 1019 e 1126; veja.se também A.H.U, Madeira e Porto Santo, nº 1476.

35 A.H.U, Açores, Maço 11.

36 José Calvet de MAgalhães, História das relações diplomáticas entre Portugal e os Estados Unidos de América, Lisboa, 1991, p.92.

37 Arquivo dos Açores, vol. XII, pp. 58-75; Marcelino Lima, Anais do Município da Horta, Vila Nova de Famalicão, 1943, pp. 665-682; João AFONSO, Açores em Novos Papéis Velhos, Angra, 1980, pp. 235-249; José Calvet MAGALHÃES, ob.cit., pp.74, 145 segs.

38 0 A.H.U., Açores, Maço 61; veja-se Archivo dos Açores, XII, pp., 58-59.

39 ARM, Governo civil, nº.518, fls. 89-93vº, 22 de Fevereiro de 1794.

A estes sucederam-se os chamados corsários insurgentes, a mando dos ideais de independência das colónias de Castela na

América do Sul 40 . A presença portuguesa nesta querela prende-se com o Brasil e com o conflito gerado sobre a definição das fronteiras, nomeadamente no Sul 41 . A sua acção incidiu com maior insistência nos Açores e Canárias, sendo rara a presença nos mares da Madeira 42 . Nos Açores os anos de 1816 e 1817 são os de maior actividade, mantendo-se estes em permanente actividade e em cruzeiro nas diversas ilhas do arquipélago 43 . As ilhas de Santa Maria e Flores eram o centro da sua intervenção. A presença destes corsários é constante ao longo do ano mas com particular incidência nos meses de Novembro a Janeiro e Maio a Junho.

2. O corso e a guerra de represália como arma ideológica

Para atendermos a esta dimensão assumida pelo corso no século XVIII torna-se necessário ter em conta alguma informação fundamental sobre ele. Estamos perante uma actividade regulamentada pelas ordenanças e cartas de corso 44 e é partir daí que se poderá

como tal deveria ser

compreender o seu alcance e múltiplos objectivos.

O corsário para ser considerado

possuidor de

uma carta

e

ordenança de corso. A primeira

autorizava

a

sua acção

enquanto a segunda estabelecia os

parâmetros em que ela deveria ter lugar. Em qualquer dos casos

era

fundamento a esta actividade. A violação destes requesitos levava a que o seu autor fosse considerado pirata 45 . Esta é uma regulamentação que no

legitimação e

o direito

internacional que servia de

40 François XAVIER-GUERRA, Modernidad e Independencia, Madrid, 1992; Merle E. SIMMONS, La Revolución Norte-Americana en la Independencia de Hispanoamerica, Madrid, 1992.

41 Jaime CORTESÃO, Alexandre de Gusmão e o tratado de Madrid, 9 vols, Rio de Janeiro, 1952-1960; Luis

Ferrand de ALMEIDA, "O Problema de Fronteiras no Sul do Brasil: o caso da colónia de Sacramento", in Portugal

no Mundo, vol. VI, pp. 191-201; vejam-se ainda neste volume outros textos assinados por Alfredo Pinheiro MARQUES e Max Justo GUEDES.

42 Manuel PAZ, "Corsários insurgentes en aguas de Canarias (1816-1828)", in VIII C.H.C.A (1988), vol. I, 1991, pp. 679-693; Fernando CASTELO-BRANCO, "Pirataria nas águas das Canárias-Madeira nos inícios do século XIX", in ibidem, t. II, pp. 83-95.

43 A.H.U., Açores, Maço 65 e 66, 12 e 13 de Dezembro 1816.

44 J. AZCARRAGA y BUSTAMANTE, ob. cit., pp. 91, 131-132.

45 Em 1803 uma galera espanhola fundamenta o apresamento de um corsário inglês em Ponta Delgada com base numa ordem que possuia, autorizando-a a tomar os navios franceses e holandeses (Veja-se A.H.U., Açores, maço 29, 8 de Agosto). Ainda neste ano um corsário inglês, que apreendera uma galera espanhola, foi admoestado pelo governador para apresentar a declaração de guerra e a patente de corso, caso contrário seria considerado pirata (Ibidem, maço 29, 23 de Agosto).

concreto não mereceu o empenho de muitos dos intervenientes. Note-se que americanos e ingleses são os que menos acataram as recomendações sobre o direito dos mares, aceite por todos. Por exemplo, a violação das águas territoriais, isto é o espaço marítimo ao alcance de uma bombarda e os portos costeiros, pelos ingleses no afrontamento aos americanos e franceses, foi uma constante que provocou algumas dificuldades à diplomacia portuguesêsa 46 .

Era a declaração de guerra entre as nações do réu e da vítima que legalizava, em última instância, o acto 47 . Mas esta não foi a única condição

legitimadora da actividade, uma vez que o corso assentou quase sempre numa forma de enfrentamento pela posse

das rotas e mercados coloniais. Foi, por exemplo, a luta contra o mare

que

sedimentou a guerra de corso nos séculos XV e XVI. Aliás, nos séculos XVIII e XIX, bastava o colaboracionismo de cidadãos e autoridades com inimigo para que tal acto fosse encarado pelos

intervenientes como legal 48 . Também a autorização para entrada dos portos das embarcações de corso e de venda das presas eram consideradas como meio de colaboração. Neste caso as recomendações das autoridades portuguesas anotam a necessidade de respeito pela indispensável hospitalidade 49 .

as

aportações resultantes do debate sobre a liberdade dos mares 50 , são

exarados nas diversas ordenanças de corso, de que se conhecem algumas 51 . Na espanhola de 1718 é definida a presa ideal:

"Han de ser de buena presa todos los navios pertencientes a enemigos y los mandados por piratas, corsaros y outra gente que conviere la mar sin despacho de ningun principe ni estado goverano" 52 .

clausum peninsular

Estes princípios,

para

além

de

seguirem

de

perto

46 A admoestação do governador de S. Miguel em 24 de Novembro de 1814 do consul inglês é bastante clara (A.H.U., Açores, maço 62). A mesma recomendação surge nas ordenanças de corso, veja-se J. AZCARRAGA Y BUSTAMANTE, ob. cit., pp. 296-7.

47 Em 1803 o consul espanhol apresentava um protesto pelo facto de um corsário inglês ter apresado a galera Nª Srª das Mercês, uma vez que não estava declarada guerra entre os dois países (A.H.U., Açores, Maço 29).

48 Em 1811 um navio americano foi apresado por outro inglês em Angra sob o pretexto de levar a bordo mercadorias pertencentes a vassalos de países com quem a Grã Bretanha estava em Guerra (A.H.U, Açores, maço 52, 31 de Agosto).

49 As recomendações foram exaradas em 30 de Agosto de 1780, 17 de Setembro de 1790 e 3 de Junho de 1803 (A.H.U., Madeira e Porto Santo, nº 1558, 1301, 1638; Idem, Açores, maço 11, 29, 42.

50 Tenha-se em consideração os comentários que os governadores açorianos tecem quando relatam o sucedido nos mares açorianos. Veja-se o que diz o governador de S. Miguel aos acontecimentos de Horta em 1814 (A.H.U., Açores, maço 62, 24 de Novembro) ou do de Angra em 1811 (A.H.U., Açores, maço 52, 31 de Agosto).

51 J. AZCARRAGA Y BUSTAMANTE, ob. cit., pp. 92-110, 258-265, 370-371.

52 Ibidem, p. 259.

Por aqui fica justificada a importância atribuída ao passaporte passado às embarcações que sulcavam os mares. Num deles, tirado ao acaso, vê-se que a justificação da concessão se coaduna com o atrás referido:

afim "

de que lhe não embarasem de forma alguma a viagem,

antes para ella lhe dem todo o favor, ajuda e beneficio que pede

a aliança, amizade e boa correspondencia que ha entre as mesmas coroas" 53 .

Atrás ficou estabelecido o pressuposto jurídico que legitimava o corso, resta-nos agora rastrear as motivações que enformam as suas acções. Se nos séculos XV a XVII o corso estava orientado para o combate ao domínio exclusivo do Atlântico por portugueses e castelhanos, para os séculos XVIII e XIX os objectivos serão outros. O empenho económico, a luta pela afirmação imperial esta sempre latente entre os tradicionais beligerantes europeus, que tiveram, que contar com mais um rival, os povos das colónias. A isto deve juntar-se, ainda, os conflitos políticos e a declaração de guerra. O corso é aqui entendido pelos novos corsários americanos como uma forma de combate contra as ancestrais ligações, controlo por parte da metrópole e de propaganda do ideário de independência que despontou em 1776 nas colónias inglesas da América do Norte. No primeiro momento a luta travou-se em duas frentes: o Atlântico oriental, dominando pelos mares circum-vizinhos das ilhas, e o Caribe. No último dominaram, até fins do século XVII, os célebres piratas Filibusteros e bucaneros 54 . Estes actuaram a mando de

franceses e ingleses, tendo como objectivo o colapso do comércio regular entre as colónias espanholas e a metrópole, no caso Sevilha. Note-se que foi a partir daqui que ingleses e franceses conseguiram penetrar no Novo Mundo e estabelecer colónias nas ilhas do Caribe.

À parte isto é de relevar a acção dos corsários huguenotes,

em que militava nas suas acções o fervor anti-religioso. Aliás o Funchal foi palco de um assalto, em 1566, destes, resta saber se

a razão fundamental que o justifica foi a luta religiosa. Gaspar

Frutuoso 55 refere o acto de forma reprobatória apontando o anti-catolicismo dos huguenotes, manifesto na profanação dos templos, como sucedeu com a Sé.

O Padre Eduardo Pereira fez disto uma leitura inflamada, considerando-os como "sectários, inimigos da nossa crença e política religiosa" e conclui que "a armada dos corsários teve

53 A.R.M., Governo Civil, nº 523, 228vº-229, 8 de Julho de 1790, passaporte da galera portuguesa S. Francisco Protector, mestre Guilherme José Nunes, com destino à Graciosa.

54 Confronte-se Manuel LUCENA SALMORAL, Piratas Filibusteros y Corsarios en América, Madrid, 1992.

55 Saudades da Terra, caps. 44 a 46.

função político-religiosa

político por hostilidade ao trono; o

religioso por ódio ao altar" 56 . Esta foi também uma forma de manifestar a sua oposição a A. R. Azevedo 57 que havia afirmado que o mesmo não se justifica pelo "ódio religioso" mas sim pela "inveja governamental e o embate de interesses dos estados marítimos da Europa" pois "as crenças eram estranhas a esta pirataria sem crenças" 58 . Todavia a opinião mais unânime na historiografia é de que este foi um acaso, resultante da má recepção madeirense a um pedido de refresco 59 . Deste modo a presença do ideário religioso poderá ser rastreado, não na justificação do facto mas sim na forma de concretização.

Ao mesmo nível são considerados os assaltos de corsários argelinos às ilhas do Porto Santo e Santa Maria, de que ficou

célebre o de 1617 60 . A ameaça dos argelinos terminou em 1774 com a celebração de um pacto de amizade com Marrocos, após o abandono de Mazagão, a ultima praça a manter a presença portuguêsa. Note-se que nas várias deligências feitas na Mesa da Consciência e ordens para o resgatar dos cativos insistia-se no facto "de ser muito dela de tenra idade e donzellas nobres a que convinha acudir com presteza pelo perigo que havia de poderem "

deixar a fee, como alguns hiam deixando,

61

.

Certamente que esta insistente ameaça de corsários argelinos não se justifica unicamente como represália à presença portuguesa na costa marroquina - onde os madeirenses tiveram uma activa participação - pois, também, pode ser enquadrada no secular afrontamento religioso. É de salientar aqui a forma de actuação e o objectivo dos corsários. A presa preferida consistia em mulheres e crianças, rapina e destruição dos templos religiosos e os testemunhos ancestrais, isto é os registos documentais da igreja e municipio. O relacionamento com os cativos não se resumia apenas em negociar o resgate mas também à sua conversão, o que veio a suceder, sendo conhecidos como renegados 62 .

56 Piratas e Corsários nas ilhas adjacentes, Funchal, 1975, pp. 95 e 109.

57 "Nota XXIX. Os Corsários", in Saudades da Terra, Funchal, 1873, pp. 728-736.

58 Ibidem, p. 733.

59 Veja-se Ed.FALGAIROLLE, Une expedition française a l'île de Madère en 1566, Paris, 1895; Rebelo da SILVA, História de Portugal, vols. III e IV, Lisboa, 1971-71, pp.134-137, 589-590.

60 Eduardo PEREIRA, ob. cit.; Jorge Valdemar GUERRA, "O Saque dos argelinos à ilha do Porto Santo em 1617", Islenha, nº 8, 1991, 57-78; Jacinto Monteiro, "Incursões de piratas argelinos em 1616 e 1675 nos mares açorianos", in Ocidente, vol. 61, nº 283, 1961, pp. 197-203.

61 A.N.T.T., Registo da mesa de Consciência e ordens, nº 65, fls. 297, 27 de Junho de 1618, publicado in Arquivo dos Açores, vol. VII, p. 335.

62 . Idêntica é a situação nas ilhas de Lanzarote e Fuerteventura, veja-se Luis Alberto ANAYA HERNÁNDEZ,

"Repercusiones del corso berberisco en Canarias durante el siglo XVII cautivos y renegados canarios", in V Coloquio de História Canario-americana(1982), t.II, pp.125-177.

Sem dúvida, foi a partir do último quartel do século XVIII, com a declaração da independência da América do Norte e conjuntura política consequente, que o corso foi uma arma ao serviço da política. As transformações político-ideológicas porque passaram os continentes americano e europeu fizeram do Atlântico o espaço privilegiado de embate, sendo o corso o meio usado. O oceano foi assim a via de mútua troca de ideias, mas também o palco do seu debate e defesa. E, neste particular, as ilhas jogaram um papel fundamental. Os três arquipélagos do Mediterrâneo atlântico (Madeira, Açores e Canárias) foram, mais uma vez, a área charneira para a expressão disso. Os contactos preferenciais com o continente americano, a assídua presença de gentes (mercadores ou corsários) destas paragens, foram concerteza um poderoso veículo de expansão do novo ideário político saído da declaração da independência dos E.U.A. (1776). Este facto marca um novo momento da vida do até então conhecido como Novo Mundo e do oceano que o separa do Velho

Mundo 63 , e também uma nova função para a guerra de corso. Por iniciativa dos norte-americanos o corso é utilizado como arma de afrontamento à metrópole e de afirmação do ideário de independência das colónias. A ideia contagiou também as colónias espanholas (Argentina, Bolívia, Colombia e Peru) e portuguesas (o Brasil) 64 . No caso das Canárias eles chegaram mesmo a incitar os moradores de Tenerife a sublevarem-se contra a metrópole 65 .

Ambas as situações surgem como corolario da Revolução liberal (em Espanha no ano de 1808 e em Portugal no de 1820). No primeiro caso, de acordo com a aceitação ou reprovação da Junta Central, tivemos as colónias leais e as insurgentes. É no seio das últimas que surgirão, com o patrocínio dos norte-americanos os corsários insurgentes. Note-se que estes arvoravam habitualmente a bandeira dos E.U.A., sendo a tripulação das embarcações composta por marinheiros de diversas proveniências, onde pontuavam, mais uma vez, os norte-americanos 66 . A ligação dos insurgentes aos E.U.A. é insistentemente referenciada nos relatórios oficiais. Assim em 29 de Abril de 1817 refere-se: "Se espalharam vozes de que os corsários, ou antes piratas, que causavam nos mares desta capitania e ora se

63 Confronte-se François-Xavier GUERRA, Modernidad e Independencias, Madrid, 1992; Merle E. SIMMONS, La Revolucion Norte-Americana en la Independencia de Hispano-America, Madrid, 1992; Eric BEERMAN, España y la Independencia de Estados Unidos, Madrid, 1992; Carlos MELÉNDEZ, La Independencia de Centro América, Madrid, 1993.

64 Para o período das hostilidades, que decorre de 1822 até à assinatura do tratado de 29 de Agosto de 1823 conhece-se apenas uma presa nos Açores em 1823(AHU, Açores, maço 83, 23 de Setembro).

65 Manuel PAZ, art. cit., p. 686.

66 A.H.U., Açores, maço 69, 24 e Dezembro 1816, 14 de Fevereiro, 27 Março, 29 de Abril, 27 de Maio, 20 de Junho, e 12 de Dezembro de 1816.

diziam pertencentes aos insurgentes de Buenos Aires, ou ao chamado governo republicano do México, haviam efectivamente saído de Baltimor nos Estados Unidos d'America e não tripulados pela

maior parte por cidadãos dos mesmos estados " Um facto assinalável sucedeu em 30 de Abril de 1817 68 , relatado

pelo capitão da galera Marquês de Pombal, apresada por um corsário patriota de Buenos Aires. Segundo ele o corsário, quando o apresou arvorava a bandeira americana, sendo a tripulação também da mesma origem, todavia ao ver o bergantim americano içou a bandeira do México.

A declaração da independência dos Estados Unidos e a guerra

subsequente ditaram uma nova ordem internacional e mais uma vez geraram incómodos à posição portuguesa de neutralidade, tendo em

Inglaterra 69 . A primeira reacção foi de encerramento de todos os portos

aos barcos das colónias revoltadas (decreto de 4 de Julho de 1776), numa medida sem precedentes do Marquês de Pombal para agradar ao nosso aliado. A opção não foi nada benéfica para o país e principalmente para as ilhas da

Madeira e Açores 70 . E cedo o governo, reconhecendo o erro optou em 30 de Agosto de 1780 (ratificado a 13 de Julho de 1782) por uma posição de neutralidade. Todavia só reconhecemos o novo estado após as pazes de 1783.

É de salientar que a França, molestada nos seus intentos de

ocupação deste continente, foi a primeira nação a reconhecer o novo país, assinando em 1778 um tratado de comércio. Esta atitude foi compensada mais tarde com a Revolução Francesa (1789) surgindo os E.U.A. como o preferencial aliado dos franceses. O novo estado de coisas não se apresentava favorável à Madeira, sendo natural a apreensão do governador da ilha em 1793 71 quanto a um

conta a aliança com

67

.

possível ataque por "uns revoltozos francezes" a exemplo do que sucedeu em Nápoles. Entretanto João Marsden Pintard 72 , consul americano no Funchal, não nega o seu apoio à República Francesa 73 .

Esta propaganda causou apreensão nas autoridades locais. Em 21 de Setembro refere-se que estes "trabalhão para propagarem entre nós as suas perniciozas e abomináveis doutrinas com que nos tem procurado fazer huma guerra mais funesta que a de nos

67 A.H.U., Açores, maço 69.

68 Ibidem.

69 Veja-se José Calvet de MAGALHÃES, ob.cit., p. 17.

70 Confronte-se Pedro Soares MARTÍNEZ, História Diplomática de Portugal, Lisboa, 1986, pp.198, 202(nota 72)

71 A.R.M., Governo Civil, nº 58, fls. 6vº-9, 21 de Fevereiro.

72 Teve carta de consul a 8 de Novembro de 1791, veja-se A.R.M., C.M.F., XIII, fls. 16-17. Mas já exercia o cargo desde 1784, confronte-se João José Abreu de SOUSA, ob.cit., nota 67, p. 81; Jorge M. RIBEIRO, art.cit., nota 7,

p.400.

73 A.R.M., Governo Civil, nº 518, fls. 63vº, 66-vº, 3 e 4 de Novembro.

atacarem com as armas na mão" 74 . A situação estremou-se no ano imediato levando a aceso

conflito entre os navios mercantis norte-americanos e os de guerra ingleses, pois como se segue "entre os vassallos

destas duas potencias ha um ciume que os menos prudentes não sabem ocultar inclinado a discordia e tão propenço a fomentar desordens e intrigas" 75 .

O consul americano era considerado o principal agitador e suspeito nas convulsões que começavam a aparecer, como foi o caso

de "dois pasquins" que foram distribuídos anonimamente: um contra

o governador e o outro "dava ideas bem contrarias ao sistema das

monarquias; pois invitava a França, a quem chamava May, para que viesse libertar os moradores desta ilha" 76 . Daqui resulta o retrato de João Marsden

Pintard, consul americano: "Este homem he dotado de hum espirito intrigante, libertino e revoltozo adopta, applaude, e celebra com publicidade o actual sistema da convenção francesa; falla sobre este assumpto com muito desenvoltura; e neste ponto exemplifica muito mal a estes insulares; entre os quaes pouco, a pouco vai espalhando, e se poderão talvez introduzir no povo ideas contrarias ao sistema monarquico". Por isso mesmo faz votos "para que esta ilha seja livre deste insolente americano, antes que com o seu mao esemplo preverta aquelles vassallos portuguezes que elle poder seduzir e enganar" 77 .

é

despropositada, sendo resultado do temor que lhe infundia o

movimento maçónico,

afirma neste momento com alguma

Mais se refere que ele era "tão

".

A apreensão

do

governador

se

e

capitão

general não

que

pujança na cidade 78 . Também aqui a vinculação à Inglaterra favoreceu a penetração dos novos ideários políticos veiculados pela maçonaria. Na voz do corregedor Manuel Soares Lobão a sua presença no arquipélago prende-se com a importância assumida pela comunidade inglesa:

"A maçonaria n'esta ilha he antiga por duas razões: 1º porque sendo ela hum amplo estabelecimento da Inglaterra, onde não parece politicamente crime, o grande numero de inglezes, que de remotos tempos aqui tem vindo habitar e commerciar, consigo

tem trazido o instinto d'esta associação.2º porque he muito uzado n'esta ilha os paes de familia mandarem seus filhos a educarem e

a viajar a Inglaterra

origem britannica e esta não parece tão perniciosa." 79 .

He pois a maçonaria da ilha, de sua

74 Ibidem, nº 518, fls. 51vº-53vº, 21 de Setembro 1793.

75 Ibidem, nº 518, fls. 89-93vº, 22 de Fevereiro de 1794.

76 Ibidem, nº 518, fls. 93vº-97, 3 de Março de 1794.

77 Ibidem, nº 518, fls. 98vº-101, 3 de Março de 1793.

78 Confronte-se António Egídio Fernandes LOJA, A luta do poder contra a Maçonaria, Lisboa, 1986; A. H. de Oliveira MARQUES, História da Maçonaria em Portugal, vol. I, Lisboa, 1990, pp. 45-49, 61-69, 130-143.

79 AHU, Madeira e Porto Santo, nº.7283, 9 de Dezembro de 1823, já referenciado por A.SARMENTO,Ensaios Históricos da Minha Terra, vol.III, Funchal, 1952, pp121-122.

Na verdade, o principal perigo estava entre os franceses que "trabalhão para propagarem entre nós as suas perniciozas e abomináveis doutrinas com que nos tem procurado fazer huma guerra mais funesta que a de nos atacarem com as armas na mão" 80 . Tudo isto revela-nos que a actividade dos mercadores e consules suplantava muitas vezes o seu âmbito, podendo ser considerados também agentes políticos. Eles foram a peça chave de toda a agitação política que alastrou às ilhas. O consul estava em primeiro lugar, pois por seu intermédio divulgavam-se as informações e solucionavam-se os problemas que estes conflitos

provocavam 81 . Além disso ele, a exemplo do que sucede com o americano, poderá ser um agitador político. Também a sua função alarga-se à espionagem, fornecendo informações sobre o movimento comercial de amigos e inimigos. Neste caso temos a actividade do consul castelhano Luis Agustín del Castillo, que teve um papel primordial na defesa das presas castelhanas no período da guerra de sucessão de Espanha (1704-1713) 82 . É também, de acordo com esta estratégia, que deverão considerar-se os informes do consul francês 83 .

Daqui se conclui que a Madeira, pelo facto de ter sido uma base para o corso no Atlântico e mesmo no Pacífico 84 , de avanço em direcção

à América, foi também centro de observação e espionagem por parte de castelhanos 85 e franceses 86 . É esta actuação concertada que atribuiu aos arquipélagos da Madeira e Açores um papel fundamental na História do Atlântico no decurso do século XVIII e as transformou num importante veiculo difusor do ideário político saído das revoluções americana e francesa.

80 ARM, Governo Civil, nº518, fls.51vº-53vº, 21 de Setembro de 1793.

81 A documentação reunida no Foreign Office, referente à Madeira, testemunha de forma evidente esse protagonismo do consul.

82 Demetrio RAMOS, "Madeira, como centro del espionaje español sobre las actividades britânicas, en el siglo XVIII", in Actas do III Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal,1990, pp.191-199.

83 Albert SILBERT, art.cit.

84 Em Outubro de 1740 o corsário George Anson aportou ao Funchal com oito navios, sendo o seu destino o Pacífico. Veja-se George Anson A voyage round the world in the years MDCCXL,

London, 1748( com várias edições sendo a última de 1942).

85 Demetrio RAMOS, art.cit.,197-199.

86 Confronte-se Albert SILBERT, art.cit.

ACÇÕES DE CORSO NA MADEIRA E AÇORES (1756-1827)

DATA

LOCAL

CORSÁRIO

PRESA

1756

Madeira

?

navio castelhano

1762

Madeira

?

navio castelhano

1777.Out.

Açores

americano

nau portuguesa do Brasil

1780

Madeira

?

navio castelhano

1781.Mai.17

Flores

inglês Herlekin

bergantim português Monte Carmo e S. Francisco

1782

Açores

francês

navio inglês

1793

Madeira

de Nantes

?

1793.Mai.21

Açores

inglês

navio sueco

1796

Madeira

francês

galera do Brasil

1797.Jun.10

Açores

inglês

navio francês

Madeira

francês

navio português

Madeira

francês

navio português

Madeira

francês

galera americana Virginia e portuguesa Aníbal

1798

Madeira

francês

navio português

1799

Madeira

?

navio castelhano

Madeira

inglês

navio Fama (Castela)

.Abr.02

P. Delgada

armador Vitoria

bergantim hamburguês

1800.Nov.03

P. Delgada

inglês Herlekin

bergantim espanhol Três Amigos

1800-1801

Madeira

John Smith

6 presas de Castela

1801

Madeira

francês

1 presa portuguesa

1803.Mar.29

P. Delgada

armador Victori

galera holandesa

1803.Ago.17

P.Delgada

inglês general Gordon

galera espanhola Nª Srª das Mercês

1803.Set.15

P.Delgada

galera Amadora

escuna espanhola Ecce Homo

1804

Madeira

?

português

1804.Mai.26

Madeira

?

bergantim português Conceição

1805

Madeira

inglês

5 presas de Castela

1805.Jan.

Madeira

inglês

3 presas de Castela

1805.Mar.17

Madeira

nau inglesa Imortalité

espanhol El entrepid corines

1805.Jul.

Madeira

fragata inglesa Venus

bergantim espanhol Nª Srª Conceição

1806.Jun

Madeira

brigue escuna inglês Saracen

fragata espanhola

1806.Out.03

Açores

Monsieur Ladduc

bergantim inglês Ruth

1806.Dez.

Madeira

fragata inglesa Nereyde

corsario de Bilbau e corveta de Pontevedra

1806.1807

Madeira

aargelinos

?

1807.Fev.

Madeira

brigue guerra

inglês

navio guerra inglês

navio francês

fragatas Neryde e Cabian e escuna guerra Quail

1810

Madeira

galera inglesa The Valiant

fragata francesa Onnonier

1811.Ago.31

Açores

?

navio americano

1813

Madeira

inglês

bergantim americano

1814

Madeira

francês

-

1814.Nov.23

S. Miguel

americano

escuna inglesa Matilde

1816

Madeira

?

bergantim espanhol Nª Srª do Carmo

1816

Faial

?

brigue escuna de S. José Severino

1816

Stª Maria

?

fragata Espírito Santo

1816.Dez.03

Açores

?

bergantim José Severino Avelar

1816-Dez.12

Açores

?

lancha S. Miguel

1816.Dez.18

Açores

?

escuna portuguesa Nª Srª Piedade e Almas

1816.Dez.24

Açores

?

hiate D. José

1817

?

fragata hiate Nª. Srª Alívio, nau Nª Srª Piedade e Almas

1817

Stª Maria

?

2 barcos Castela, bombarda Nª Srª Dores e Flor do Cairo

1817.Abr.30

S. Miguel

Buenos Aires

galera Marquês de Pombal

1817.Abr.Mai

S. Miguel

?

bergantim S. Luis, bergantim Protector, bergantim Stº Cristo (beligerante)

1817.Mai.

Stª Maria

?

barco Senhor dos Paços e Livramento

1817.Jun.20

S. Miguel

?

barco de Rabo de Peixe

1817.Jun.28

S. Miguel

americano

português

1817.Jul.22

S. Miguel

?

escuna portuguesa

1817.Jul.24

Flores

?

2 barcos

1817.Jul.26

S. Miguel

?

escuna portuguesa Boa Nova

1817.Dez.05

S. Miguel

?

bergantim espanhol

1817.Dez.17

S. Miguel

?

escuna inglesa Sarah

1818

Madeira

?

galeras Luisa e Ninja, escuna Maria, galera Rainha dos Mares, bergantim Restaurador

1818

Madeira

?

6 navios portugueses

1820

Madeira

?

navio português

1820

Madeira

?

brigue português Providencia

1821

Açores

?

hiate português Conceição, contra-escuna Feliz Ventura

1822

Madeira

inglês

bergantim inglês Betsey

1823

Madeira

?

navio espanhol Armonia

1823

Açores

corsario do Brasil

4 barcos portugueses

1826

Faial

?

escuna americana

1827.Fev.06

Faial

?

brigue Flor do Pará

1827.Nov.12

Açores

?

2

navios do Brasil

DATA

BREVE CRONOLOGIA

ACONTECIMENTO

1756

Guerra dos Sete anos

1763.Fev.10

Tratado de Paris entre Grã-Bretanha, França e Espanha

1773.Dez.10

Boston Tea Party

1775

Guerra da Independência norte-americana

1776.Jul.04

Declaração da Independência dos EUA

1783.Set.03

Tratado de Versailles põe termo à guerra norte-americana

1788.Jun.21

Entrada em vigor da contribuição norte-americana

1789.Jul 14

Tomada da Bastilha

1804.Jan.01

Republica de Haiti

1808

Conspiração de Lima (Perú)

1810.Mai-Setembro

Insurreição geral das Colónias de Espanha

1811.Jul. 05

Proclamação da Independência da Venezuela

1814.Jun.04

Abdicação de Napoleão

1815.Jan.25

Estado da Costa Rica

1815.Out.11

Estado da Guatemala

1815.Dez.11

Estado de Honduras

1816.Jul.09

Declaração de Independência das Províncias Unidas de Sudamérica (Argentina)

1816.Jul.28

Proclamação da Independência do Perú

1818

Independência do Chile

1819.Ago.07

Indpendência de Nova Granada

1819.Dez-17

Fundação da República da Colombia

1820

Instauração do regime liberal em Portugal

1821.Jul.28

Proclamação da Independência do Perú

1821.Set.15

Independência de Guatemala

1821.Nov.

Independência da Colombia

1821.Dez.

Independência da Republica de S. Domingos

1822.Out.12

Proclamação da Independência do Brasil

1823.Jul.01

Confederação das Províncias Unidas da América Central

1825.Ago.06

Independência do Perú

1825.Ago.25

Independência do Uruguai

1825.Ago.29

Portugal reconhece a Independência do Brasil