Você está na página 1de 7

Os séculos XVIII e XIX são momentos de evidente aposta na valorização da arquitectura e arte

madeirenses. Apagados os momentos difíceis que sucederam a euforia açucareira dos séculos
XV e XVI, de novo a ilha está envolta em novo momento de fulgor económico desta feita criado
pelo vinho. A grande aposta na cultura da vinha e a valorização do vinho no mercado
consumidor colonial conduziram inevitavelmente a uma desusada riqueza que foi usada em
benefício próprio por todos os intervenientes. Os grandes proprietários aformosearam as suas
casas de residência. Os mercadores, nomeadamente os ingleses, transformaram as vivendas
sobradadas de cidade em lojas e escritórios de convívio, e as casas solarengas e quintas
adaptaram-nas ao seu gosto e exigências de conforto.

Os artefactos ingleses invadem o mercado madeirense e dão-nos meios mais adequados para a
afirmação do conforto diário. A isso junta-se o gosto pelo clássico. A tosca e utilitária mobília,
muitas vezes feita de madeira que do Brasil transportava o açúcar para a ilha, dá lugar ao
mobiliário estilizado. A chamada mobília Chippendale e Hepplewhite - sofás e cadeiras - dá o
toque de classe e compõe o ambiente para os saraus dançantes ou o célebre chá das cinco. Os
museus da Quinta das Cruzes e Frederico de Freitas são hoje os depositários de alguns dos
exemplares mais significativos que resistiram ao uso secular.

O espaço interior é valorizado. A casa torna-se no principal centro de convívio. Daqui resulta
que os espaços interiores se transformaram. Surgem as amplas salas ou salões de música, palcos
de inúmeras festas e saraus dançantes. Isabella de França em meados do século XIX descreve-
nos um destes bailes em que participou na casa do cônsul inglês. É um entre muitos os
testemunhos deste luxo e exuberância da sociedade oitocentista, gerados pela riqueza do vinho.

O espectáculo é mais evidente no cerimonial de recepção que no baile propriamente dito. As


fileiras de carros de bois e palanquins transportam as senhoras vergadas pelos sumptuosos
vestidos. As tais "saias de balão" que deram título ao romance de Ricardo Jardim que tem como
pano de fundo outro ambiente do quotidiano da época.

Os tectos destas amplas salas para os saraus dançantes ou para recepção aos convivas, numa
parte mesa são cobertas de tectos de estuque profusamente trabalhados e muitas vezes pintados.
Em muitos dos edifícios da época são evidentes esta moda trazida pelos ingleses para a ilha. As
decorações alusivas às da Grécia e Pompeia criadas por Roberto e James Adam são a principal
evidência disso e tiveram na casa de capitão Eusébio Gerardo de Freitas Barreto, hoje sede da
Marconi na ilha a sua mais perfeita expressão nos tectos do salão de música.
A História de muitos dos prédios que se anicham nas ruas vizinhas do cabrestante e da alfândega
são o alvo preferencial dos mercadores estrangeiros que chegam ao Funchal, no decurso do
século XVIII, atraídos pelo comércio do vinho. Muitas das pequenas casas térreas são demolidas
para dar lugar às sobradadas servidas de amplas caves para as pipas, sobrados de habitação e
escritórios. Uma imponente fachada ornada de cantarias e ferragens, uma torre avista-navios dão
o tom característico da arquitectura do vinho na ilha.

Ao percorrer as Ruas da Carreira, Netos, Pretas, Mouraria, Mercês, Nova de S. Pedro,


Conceição, Aranhas, Ferreiros, João Gago o transeunte depara-se com estes prédios de fachadas
rendilhadas em cantaria negra, rasgados por inúmeras janelas servidas de varandas em ferro
forjado. Aos que têm franqueadas as portas é possível redescobrir os tectos de estuque pintado.

Dos diversos imóveis que a riqueza do vinho fez erguer merecem a nossa atenção: O Palácio de
S. Pedro, hoje Museu Municipal, mas que se ergueu para residência do Conde de Carvalhal; os
paços do Concelho do Funchal, conhecido também como Palácio Torre Bela. A muitos destes
imponentes palácios junta-se um elemento arquitectónico típico da ilha, isto é a torre avista-
navios. Evidente em muitos dos edifícios da época que persistem na malha urbana da cidade.

A torre avista-navios preenche para a época uma dupla função. Como mirante lançado sobre a
baía permite saber-se da chegada e partida dos navios, daí o nome. Todavia e também um local
de convívio diário na casa. É o homónimo da casa de prazeres das quintas madeirenses.

Se na cidade as casas térreas dão lugar aos imponentes palácios, casas de habitação, escritórios e
lojas de comércio, os arredores ganham outra animação com a proliferação das Quintas. As
quintas são uma criação madeirense, sendo a expressão volumétrica da importância de algumas
das famílias madeirenses, onde o lazer se conjuga com o sector produtivo. A quinta não se
resume apenas ao espaço agrícola e à casa de habitação, pois a ela está indissociavelmente ligado
um jardim e mata. . Foi com os ingleses que elas ganharam nova forma e animação que
persistiram até aos nossos dias. Assim, perdem o seu carácter rústico e transformam-se em
espaços aprazíveis servidos de amplas ruas e jardins de inspiração oriental.

Ligado a isto está o aparecimento da "casa de Prazeres", isto é, um pequeno pavilhão no canto do
jardim que serve para ver a "vista", sendo espaço de convívio das senhoras nas tardes solarengas.
Ainda hoje é evidente a sua presença em inúmeras quintas e casas. A Casa da Calçada hoje
Museu Frederico de Freitas, ostenta ainda a sua Casa de Prazeres.

A nossa “Casa de Prazeres” é mais uma aportação inglesa indo buscar as suas origens à “house
of pleasure”, isto é os sumptuosos pavilhões orientais que na Madeira se adapta a esta especial
condição de mirante, em locais onde não havia a torre avista-navios.

Muitas das quintas madeirenses mudaram de mãos no decurso do século XVIII. Os ingleses,
enriquecidos com o comércio do vinho, fazem investimentos fundiários na ilha, com especial
destaque para as quintas e serrados de vinhas. Alguns adquirem as habitações já existentes e
transformam-nas em amplas quintas ajardinadas à moda da época. Outros do espaço arável ou de
pascigo fazem erguer imponentes casas. Estão neste último caso a Quinta do Vale Paraíso na
Camacha de John Halloway, a Quinta do Jardim da Serra, Calaça e do Santo da Serra de Henry
Veitch, a Quinta do Monte de James David Gordon.

Das demais adquiridas por ingleses podemos salientar: a Quinta do Til de James Gordon desde
1745 e que passou à família Miles em 1933; a Quinta da Achada que foi desde inícios do século
XIX pertença da família Penfeld e que em 1881 ficou na posse da família Hinton; a Quinta do
Palheiro do 1º Conde de Carvalhal que foi adquirida em 1885 por J. B. Blandy.

Os séculos XVIII e XIX são marcados por profundas mudanças na arquitectura civil e religiosa.
Os templos estão degradados e são incapazes de dar acolhimento aos cada vez mais numerosos.
As habitações de salas acanhadas não servem às exigências de conforto e de vida portas adentro.
Perante isto e a existência de meios financeiros capazes de dar corpo a esta mudança foi fácil ver
o camartelo avançar sobre a cidade e a erguerem-se amplas casas sobradas, servidas de torres
avista-navios, e novas igrejas.

Para além disso algumas contingências tomaram inadiável esta euforia de remodelação
arquitectónica. O terramoto de 1746 e na cidade as aluviões de 1803 e 1842, com elevados
prejuízos nos imóveis tornaram urgente a intervenção. Os resultados desta transfiguração são
evidentes na cidade e no meio rural. Enquanto nas casas de habitação o novo ergue-se dos
escombros do velho, nas igrejas ele alia-se de modo perfeito, ficando a testemunhar uma
evolução e adequação aos padrões de cada época. Deste modo os elementos arquitectónicos e
decorativos que marcaram a opulência açucareira passam a conviver com os novos gerados pelos
excedentes e riqueza do vinho. O que terá levado alguns a definir impropriamente como a
arquitectura do vinho. Este a existir estará nas grandes casas servidas de amplos terreiros onde
repousam as pipas e armazéns e oficinas de tanoaria como foi o caso de Cossart Gordon & Cº na
Rua dos Netos, ornados de latadas e de serrados de vinhedos nos arredores da cidade. Destes
últimos refere Henry Vizetelly em 1880 de em S. João de W. Leacock.

Através do texto de Henry Vizetelly (Facts about Port and Madeira. Londres, 1880) e das
gravuras que adicionou de Ernest A. Vizetelly podemos visitar algumas dessas expressões
arquitectónicas geradas pela cultura da vinha e comércio do seu néctar. Aqui são descritas as
instalações de algumas das mais importantes firmas inglesas: Cossart, Gordon and Cº, Krohn
Borthers & Cº, Blandy Brothers, Leacock and Company, Henry Dru Drury, Henriques and
Lawton, Mrs Welsh, R. Donaldson and Cº, Meyrelles Sobrinho e Cia, Henrique J. M. Camacho,
Augusto C. Bianchi, Sr. Cunha e Leal Irmãos e Cia.

Em todos é evidente a mesma distribuição do espaço. Uma fachada imponente que dá entrada
para um grande pátio coberto de latada que serve de logradouro comum às diversas arrecadações:
as lojas de fermentação e envelhecimento do vinho, a oficina de tanoaria, a estufa. O bom gosto
com que alguns souberam combinar e o cuidado que lhes atribuíam não passaram despercebidos
ao olhar atento de Henry Vizetelly que na casa de Blandy Brothers leva-o a afirmar que estava
perante um "verdadeiro museu de vinho".

A arte religiosa dos séculos XVIII e XIX é também testemunha e consequência da riqueza
gerada pela economia viti-vinicola. Os templos existentes ganham nova vida e riqueza e a depor-
se as contemporâneas exigências do culto os novos seguem uma nova geometria e gramática
decorativa.

Em 1714 a Alfândega do Funchal ficou servida com uma capela do orago de Santo António. O
estado de ruína do edifício de alfândega e a necessidade de o ajustar ao movimento marítimo de
então levaram a diversas transformações no decurso dos séculos XVIII e XIX.

O vinho tem expressão plástica particular no cadeirado da Sé do Funchal do século XVI onde são
visíveis os borracheiros e os bebedores de vinho, evidências que testemunham já a importância
da cultura nesta época. Os cachos e parras fazem parte da gramática decorativa do barroco. Esses
motivos de talha dourada são evidentes na Igreja do Colégio, obra de Brás Fernandes, construída
pelos Jesuítas no decurso do século XVII. A talha com o recurso a estes elementos indicadores
do vinho só vamos encontrar de novo num conjunto de mobília de sala existente nos escritórios
da Madeira Wine Company à Rua dos Ferreiros.
No decurso dos séculos XVIII e XIX o quotidiano do vinho é retratado pela pena de diversos
pintores e desenhadores europeus, nomeadamente ingleses, que tiveram oportunidade de passar
pela ilha. Parte significativa delas serviu para ilustrar livros sobre a ilha ou com capítulos a ela
dedicados. Os principais motivos retratados incidem sobre os lagares, os borracheiros, e as
balseiras. Os dois últimos elementos são os mais abundantes em toda esta iconografia visível
hoje no Museu Frederico de Freitas no Funchal.

Depois, disso só vamos encontrar expressão em Max Romer(1878-1960), um alemão refugiado


na Madeira em 1922 que se rendeu à evidências do meio. Nalgumas encomendas realizadas para
a Madeira Wine Cº e H. M. Borges & Cº deixou plasmadas as suas impressões com um retrato
impressionista da faina viti-vinicola.

ROTEIRO PARA UMA VISITA

Para o forasteiro a descoberta da ilha faz-se por inúmeras corridas à volta da ilha. O percurso
entre a Cidade, e o Porto Moniz, passa pelo Cabo Girão, e imprescindível. A todos impressiona a
altura e violência das escarpas. Esta primeira e dominadora impressão faz-nos esquecer o suor
dos primeiros cabouqueiros que cavaram, escarpas acima, os poios e traçaram as estradas e
túneis.

Na verdade, o que mais nos comove, ainda que no segundo momento, é a forca hercúlea do
íncola que foi capaz de transformar o rochedo num campo de cearas, vinhas e canaviais. Esta
trilogia agraria marcou o devir madeirense e surge como resultado de sermos os lídimos
herdeiros e divulgadores, além Atlântico, desta tradição agro-alimentar do mundo cristão.

Hoje a paisagem perdeu o verde dos canaviais e o dourado dos trigais mas, em contrapartida,
ganhou um novo e variado color latadas que cobrem os socalcos e engalanam os terreiros e
frontais das habitações são as responsáveis de tudo isto. O percurso até ao alto do Cabo Girão e
depois o relance pela encosta que se perde no horizonte ate ao Funchal impressionam a retina
como um arco-íris. A imagem persiste em quase todo o roteiro entre o Funchal e o Porto Moniz,
sendo apenas esquecido com a violência da encosta a partir de S. Vicente.
Perante nós estão cerca de 1900 ha de vinha, o que corresponde a 25% do espaço agrícola da
ilha. Na Primavera os rebentos que brotam das videiras fazem reverdecer e proteger os bacelos.
No Verão são os cachos pendentes a atribuir um novo visual. O Outono começa para nós com as
vindimas que, para além do colorido desusado da apanha da uva, marca uma nova e radical
mudança na paisagem: as diversas colorações de castanho, que anunciam a queda da folha,
impõem-se por entre os bacelos e o escuro do basalto.

É este arco-íris vitícola, propiciado pelos vinhedos que cobrem a encosta sul e norte da ilha, que
propomos para a primeira escala na rota do vinho. Ela aviva-nos a memória sobre os primórdios
da ocupação da Ilha. Perante nós desfilam homens, produtos e esperanças em boa hora
concretizadas com muito suor.

No regresso ao Funchal é o reencontro com o cosmopolitismo da vetusta urbe que nos propicia a
segunda escala na rota do vinho. Para trás ficaram as latadas de madeira e arame, as vinhas e os
pâmpanos de cachos de uvas. Agora, é o encontro com o luzidio e aromático rubinéctar que
envelhece nas vetustas adegas.

A passagem duma para a outra escala faz-se com o momento solene que são as vindimas. Por
isso, em Setembro, no Funchal e no Estreito de Câmara de Lobos a festa das vindimas recorda a
tradicional safra, hoje devorada pela moderna tecnologia. O presenciar este acto é um momento
único no regresso ao passado.

Na Madeira as vinhas e o vinho são duas realidades culturais diferentes. As primeiras


transportam-nos ao mundo rural enquanto o segundo leva-nos ao cosmopolitismo da urbe. Foi a
o mosto, transportado com muito esforço pelos borracheiros, se transformou, com a fermentação,
em vinho e, com os anos, num rubinéctar sem igual e incapaz de qualquer imitação.

O borracho, feito da pele de caprinos, foi a melhor solução encontrada para o transporte do vinho
do lagar a loja. O recipiente, porque maleável, adequava-se perfeitamente ao dorso do homem,
amenizando os esforço das prolongadas caminhadas pelas íngremes veredas. Esta foi uma
solução que persistiu até ao nosso século e que hoje só é possível encontrar em museu.

No Funchal ergueram-se imponentes edifícios. O burgo dos séculos XVIII e XIX pode ser
considerado, com propriedade a cidade do vinho. Para ele ergueram-se amplos espaços de
descalço das pipas e imponentes palácios para fruição dos seus proprietários. Hoje é possível
encontrar alguns testemunhos disso: as Ruas do Esmeraldo, Ferreiros e Netos, são os exemplos
mais característicos .

O edificio sede do Instituto do Vinho da Madeira é um local de passagem obrigatória nesta


peregrinação do vinho na Cidade. As suas paredes guardam a memória de dois séculos de
Historia do vinho Madeira. E, no rés do chão sob os centenares travejamentos, encontram-se
alguns materiais relacionados com a faina viti-vinicola, acompanhados de fotografias e gravuras
alusivas ao tema. Perante nós perfilha-se uma possível viagem ao passado, imprescindível para
conhecer o percurso histórico do nosso vinho. O percurso continua na Madeira Wine Company
onde um museu de empresa conduz ao passado de fulgor das empresas que estiveram na sua
origem em princípios do século. Das demais empresas só em D’Oliveiras e Artur Barros e Sousa
a imagem do passado persiste quase intacta. Nas demais as exigências da modernidade aliam-se
à tradição familiar ou empresarial, sendo a visita um raro momento para a sua constatação.

As quintas são uma criação madeirense, mas foram os ingleses que, a partir do século XVII, as
transformaram em locais de aprazível convívio. Os vastos espaços que contornam a habitação
foram revestidos de jardins coloniais, transformados em viveiros de plantas e flores exóticas.
Foram várias as funções. Primeiro casas de habitação dos seus construtores. Depois, hotéis e
pousadas para acolherem os inúmeros britânicos em busca de cura para a tísica pulmonar ou de
passagem para as colónias. São inúmeras as quintas que polvilham os arredores do Funchal,
nomeadamente em Santa Luzia e Monte, e por isso merecedoras da nossa atenção e ansiado pela
nossa visita.

A anglicização do Funchal só foi possível pela importância que assumiu para os súbditos de Sua
Majestade o comercio do presença da comunidade britânica foi e ainda é importante. O rumo
definido para o vinho é deles, que cedo se tornaram nos principais apreciadores e fruidores das
riquezas que o mesmo propiciou. Por isso a descoberta das suas indeléveis marcas pode
completar a visita. Para as bandas do Quebra-Costas a Igreja Anglicana e, bem próximo, na Rua
da Carreira, o Cemitério Britânico. Depois é o reencontro com os aprazíveis jardins da Quinta
Magnolia, outrora clube inglês, mas hoje espaço de todos.

Interesses relacionados