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CAPITAL O DE RISCO PARA EMPRESAS “SUSTENTÁVEIS”

Por (*) Denise de Mattos Gaudard


A algum tempo atrás li uma notícia que não tem diretamente haver com o Protocolo de
Quioto, nem do Mercado de Certificados de Credito de Carbono (CREs), mas que
poderia perfeitamente caber nas exigibilidades do desenvolvimento sustentável que é
exigido pelos parâmetros do Anexo III, constante no Protocolo. Sinceramente não
consigo deixar de sentir uma certa sensação de desconforto quando vejo empresas e
ou fundos de capital exclusivamente especulativo financiarem empresas que se auto
classificam como, digamos, " negócios verdes".
Mesmo aquelas com capital de origem essencialmente brasileira. Pessoalmente acho
que o dinheiro não tem mais pátria, seus donos não tem rosto nem qualquer escrúlupo,
seu credo é próximo lucro financeiro.

Assistimos investidas em todas as partes do Brasil, principalmente no Centro Oeste e


principalmente na Amazonia, onde estas empresas que trazem suas malas cheias de
alguns "generosos" euro-dólares, vem ao nosso país representando fundos financiados
por grandes conglomerados financeiros que estão muito longe de se preocuparem com
a sustentabilidade socioambiental inerente ou a exequidade de projetos que possam
realmente beneficiar ou melhorar a qualidade de vida das populações que vivem (e
dependem) diretamente da extratividade destes biomas.
Qual destas empresas realmente desenvolveram projetos que tenham contribuido para
preservar culturas e florestas nativas locais? O que realmente move os interesses que
estão por trás desses investimentos ? Será que os produtos de origem exclusiva da
floresta amazônica brasileira estariam sendo - mais uma vez - indiretamente
expropriados? Tomei conhecimento de alguns casos em que o milenar conhecimento
adquirido por gerações de comunidades indígenas brasileiras e produtos locais, são
comprados a preços vis e depois são levados do nosso país com as bênçãos ou pela
total omissão de nossas autoridades fiscalizadoras.
Continuamente assistimos, atônitos, produtos essencialmente brasileiros irem aos
poucos se tornando os principais princípios ativos de produtos cujas patentes e ou
marcas de cosmeticos vendidas em todo mundo através de um marketing, digamos,
baseado em "responsabilidade ambiental e social", acabam sendo vendidas para
grandes grupos multinacionais. Para ilustrar, cito o recentíssimo caso da The Body
Shop, que acabou de ser comprada pela gigante francesa L'Oréal, pela inacreditavel
soma de 1,14 bilhão de dolares. Boa parte dos produtos da TBS, são ainda originados
pela hoje bastante preocupada Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas
de Lago do Junco (MA), onde da qual fazem parte 147 famílias que já se mostram
bastante apreensivas com a venda da BS. Estas familias vivem da venda média de 50
toneladas de óleo de babaçu para a empresa britânica e faturou R$ 1,2 milhões em
2007. Ninguem sabe se a L'Oréal irá continuar as compras. A empresa francesa ainda
não se manifestou sobre os desdobramentos da aquisição da BS. Me pergunto então,
qual a participação de cooperativas como estas na valorização das ações de empresas
como a TBS? Será que a TBS chegaria a esta impressionante valorização sem os
insumos brasileiros? Dá o que pensar não acham?
Os bravos garotos e garotas do Ministerio Público, literalmente os maiores “salvadores
desta pátria” deveriam estar monitorando mais atentamente as atividades e a forma
como estas empresas operam ou vem operar aqui, na nossa tão cobiçada Amazonia.

(*)Denise de Mattos Gaudard tem graduação em Administração com ênfase em Gestão


Empresarial, pela Univ Santa Úrsula (USU-RJ). Pós-graduação em Economia pela
Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) e Comércio Exterior pela Univ Católica de Brasília
(UCB). Extensão em Educação Ambiental, pela Univ Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)
e Gestão de Projetos pelo Project Management Institute (PMI-RJ). Consultora de
Gestão Empresarial e Socioambiental, com foco em projetos de gestão de resíduos,
energia renovável, mercado de créditos de carbono e Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo (MDL).
Criadora do PROJETO BIOREDES que visa a implantação da formação de redes
cooperativadas que conjugam coleta seletiva com reciclagem reversa de oleo de
fritura feita por associações e ou cooperativas de catadores urbanos (junto a
prefeituras e com empresas financiadoras parceiras).
Escreve artigos em mídias nacionais, participa de seminarios, palestras e ministra
cursos sobre implantação de projetos MDL, florestais; modalidades Quioto e Não
Quioto

“O MEIO AMBIENTE É RESPONSABILIDADE DE TODAS AS PESSOAS, DE TODAS


AS PROFISSÕES.”