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Alfred Hitchcock apresenta H H i i s s t t ó ó r r

Alfred Hitchcock apresenta

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Alfred Hitchcock apresenta H H i i s s t t ó ó r r i

Obras da série Alfred Hitchcock apresenta

Carrossel do crime Histórias pra ler no escuro Histórias que nunca serão repetidas Enterro de primeira classe Histórias pra assustar o Mão Branca Histórias pra ler com a porta trancada Histórias pra noites sem luar Histórias pra tirar o sono Histórias que mamãe nunca me contou Histórias que não me deixaram fazer na tevê Histórias pra ler nas sextas-feiras Histórias pra ler no cemitério Querem ver minha caveira Histórias de arrepiar o cabelo Histórias assombrosas Histórias do arco-da-velha Histórias mal-assombradas Um presente de terror A roleta da morte Histórias que nunca esqueci Histórias pra leitores sem medo Histórias que ninguém gostaria de viver Xeque-mate Histórias de alta tensão Histórias que nunca esquecerei Histórias macabras Histórias pra dar calafrio Histórias de mau-agouro

de alta tensão Histórias que nunca esquecerei Histórias macabras Histórias pra dar calafrio Histórias de mau-agouro

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Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos

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Digitalizado em abril de 2011

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Título original ianque

Tales to make your teeth chatter

Copirraite © 1980, Davis Publications, Inc. O contrato celebrado com o autor proíbe a exportação deste livro a Portugal

Direitos de publicação exclusiva em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇO DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171, 20921 Rio de Janeiro, RJ que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil

Rua Argentina 171, 20921 Rio de Janeiro, RJ que se reserva a propriedade literária desta tradução

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[orelha]

O inglês Alfred Hitchcock, é até hoje, considerado um incomparável mestre do suspense. Sabia, como ninguém, explorar os instintos humanos ao contar uma história, sempre impregnada de momentos de intensa expectativa e pavor, que tornaram seus filmes inesquecíveis, alguns figurando entre as maiores obras-primas que o cinema produziu. Os mesmos critérios adotados em seus filmes usava pra escolher os contos das coletâneas em livro. Exemplo disso é O escravo, de Henry Slesar, uma história fascinante, brutal, angustiante, relatando a mais estranha aposta que dois homens poderiam fazer. Um favor, de Stephen Wasylyk, é um conto diferente. Trata dum ex-herói de guerra marcado pra morrer, alvo da vingança dum milionário psicopata por causa dum comentário aparentemente inconseqüente. O desfecho é surpreendente e terrível, pois envolve o relacionamento mais profundo que um homem pode ter. Testemunha inocente, de Irving Schiffer, mostra como um fato corriqueiro, aparentemente banal, pode representar a solução dum mistério insolúvel, segundo tudo indicava. Foi o que descobriu a linda secretária Júlia ao morrer a milionária esposa de seu chefe. Já Estênio e Bárbara Sherwood tiveram um problema diferente. Ricos, felizes, ainda jovens, deixando Nova Iorque em pleno inverno, de carro, buscando o sol da Flórida. E no meio do

inverno, de carro, buscando o sol da Flórida. E no meio do caminho tiveram uma aventura

caminho tiveram uma aventura estranha e terrível. Essa é a história do conto de Robert Colby, Uma prisão na estrada do sul. Se um carro é da mesma marca, ano, cor, placa, e até as coisas que deixaste dentro lá estão, não há por que duvidar que se trata de teu carro. Mas não foi isso que aconteceu com Hérbio Crain. Estranhou o barulho do motor, a folga no pedal de freio e chegou à conclusão de que havia Algo estranho, que é o título do magnífico conto de James Michael Ullman, que mostra como o terror pode espreitar atrás dos fatos mais insólitos. E o humor não poderia ser excluído desta esplêndida seleção. O velhinho humilde, maltrapilho, vestindo um casaco que tinha o dobro de seu tamanho, escondeu uma lata de salsicha no bolso. Ao chegar à caixa, levando no carrinho apenas um pacote de leite, um pão amanhecido e um saco de comida canina, surgiram quatro assaltantes mascarados. O que aconteceu a partir desse momento, tragicômico mas que deixa um sorriso nos lábios do leitor, só se descobrirá quando chegar à última página de A lata de salsicha, justamente o título do conto de Joyce Harrington. Assim são os contos escolhidos por Hitchcock: Fascinantes, cheios de mistério e suspense, reunidos em coletâneas que quando terminamos de ler estamos, invariavelmente, com uma sensação de expectativa e ansiedade e aguardando a próxima seleção!

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ÍÍnnddiiccee

O escravo Henry Slesar

Os dentes no caso Carl Henry Rathjen

A essência da justiça Hal Ellson

Um favor Stephen Wasylyk

A vítima do ano Jack Ritchie

Testemunha inocente Irving Schiffer Prisão na estrada do sul Robert Colby Não somos esse tipo de gente Samuel W. Taylor Problema de peso Duane Decker Algo estranho James Michael Ullman

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A grande caçada Talmage Powell

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A lata de salsicha Joyce Harrington

112
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Tudo começou cum espirro Donald E. Westlake

122
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A

prova no bolso Harold Q. Masur

112 Tudo começou cum espirro ● Donald E. Westlake 122 A prova no bolso ● Harold

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OO eessccrraavvoo

Henry Slesar

SS entindo a iminência dum pedido de casamento Inger se preparou pro jantar com cuidado especial e sem sacrificar da pontualidade. Corey gostava que suas mulheres fossem bonitas, pontuais e, normalmente, alguns anos maisS S

jovens que Inger podia alegar ser. Mas, ainda beirando os 30 anos, ela se recusara a sofrer pontada de desespero durante o namoro de dois meses. Como um bom presságio, Corey a levou ao Windward. Era caro e íntimo. Velas bruxuleavam. Os martínis foram servidos em copos gelados. Depois da refeição, enquanto tomavam café e conhaque, os olhos dele se fixaram afetuosamente nos dela, sua voz baixou uma oitava. Se não fosse pelo fato da atenção dela se desviar subitamente a um homem de boca larga e sorridente, o momento poderia ter chegado. O sorriso do homem era tão efusivo e tão obviamente dirigido a Corey que ela teve certeza duma interrupção. Estava certa. O homem se aproximou da mesa e cortou o ânimo de Corey.

— Olá, Core. Pensei ter te reconhecido antes mas está muito escuro aqui dentro. Ele presenteou Inger com uma exibição dos dentes brancos e compridos,

alongando o rosto atarracado. Os olhos eram dum azul bem claro, o cabelo louro se encurvava no final de cada mecha. Inger olhou a Corey e sentiu um choque quase elétrico pelo que viu. Os músculos em torno da boca de Corey relaxaram, estavam tremendo.

— Olá, Ray. — Disse Corey, balbuciando depois de breve hesitação. — Esta é Inger Flood. Inger, Ray Chaffee. Inger murmurou:

— Como vais?

— Que maravilha! — Disse Chaffee, com uma exclamação de admiração. — Tens muito bom-gosto, Core. Imagino que tiveram um jantar íntimo e

extremamente agradável. E uma pena que tenhas de ir embora agora?, hem, Core.

— Pelo-amor-de-deus!, Ray.

— Mas tiveste sorte, Core. Eu poderia ter te reconhecido antes do filé. Foi filé, não é?, senhorita Flood. Core nunca teve muita imaginação pra comer. — Ambos comemos um filé. — Declarou Inger, decidida a se manter controlada. — Também não tenho muita imaginação.

O sorriso se desvaneceu, deixando uma expressão de malícia afável.

— Vamos logo, Core. — Disse Chaffee, a voz musical. — Trates de ir embora.

Deixes o conhaque. O terminarei por ti. Ainda tens crédito aqui. Não é? Pois

passes na caixa e avises pra porem a nota em tua conta. Vamos, Core, te mexas!

O choque de Inger se transformou em perplexidade. Corey estava se levantando.

— Inger, lamento muito

— Lamentas? Mas o que está acontecendo?

— Tenho de ir embora. — Murmurou, desesperado. — Telefonarei a ti mais

tarde. A tua casa. — Nada disso! — Interveio Chaffee, bruscamente. — Chega de telefonema

nesta noite, Core. Pares de financiar a companhia telefônica. Vás a casa e te deites.

Amanhã

Inger começou a se levantar também mas, inacreditavelmente, a mão do estranho estava em seu ombro, a empurrando de volta à cadeira.

Ora! Veremos o que se poderá fazer amanhã.

a mão do estranho estava em seu ombro, a empurrando de volta à cadeira. Ora! Veremos

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— Ficarás aqui, senhorita Flood. Não precisas ter pressa.

— Mas o que é isso?! — Disse Inger, finalmente sentindo raiva. Corey, queres fazer o favor de dizer a esse homem

— Não precisas fazer onda. — Disse Chaffee, suave e zombeteiro.

Se sentou ao lado de Inger. Corey hesitou mais um instante, até que Chaffee lhe sacudiu a mão bruscamente, num gesto autoritário. Corey se virou, como se atingido por um chicote invisível e se encaminhou à porta, a tensão estampada nas

costas. Inger fez outra tentativa de se levantar mas Chaffee a segurou no cotovelo.

— Fiques, por favor. Não vás ainda. Não é agradável ficar sentada aqui sozinha.

— Não ficarei sentada sozinha. — Disse, rispidamente. — Nem contigo. E tires

a mão de meu braço ou começarei a gritar. Poderás descobrir o que isso significa

pra teu crédito. Não havia sinal de Corey na rua. Inger esperava que surgisse de repente num portal e explicasse a brincadeira. Mas, exceto por um táxi parado a alguma distância, a rua estava deserta. Fez sinal ao táxi. Na manhã foi despertada pelo telefone e não pelo despertador.

— Inger?

— Vás ao Inferno!

— Não posso te culpar por estar tão zangada. — Murmurou Corey. — Não

posso te explicar agora mas prometo que ainda o farei. Eu não sabia que Chaffee

estava no restaurante. Pra ser sincero, nem sabia que estava na cidade. Pensei ter me livrado do filho-da-puta durante seis semanas, que sua companhia o tivesse enviado à América do Sul numa missão especial.

— Ó, Corey, te cales! — Exclamou Inger, se sentando na cama. — Foi uma

brincadeira de mau-gosto e ainda não estou completamente desperta pra ouvir um pedido de desculpa.

— Queres almoçar comigo?

— Não.

— Por favor!, Inger.

O encontrou num restaurante do qual nunca ouvira falar antes, num bairro fora de mão. Não fez conexão entre a obscuridade do restaurante e Ray Chaffee até que tateou o caminho no interior escuro pra alcançar a mesa isolada de Corey, no fundo.

— Quero que me digas uma coisa, Corey. Estás te escondendo daquele homem?

— Como assim?

— Este buraco que escolheste parece ser freqüentado apenas por curtidores

portugueses e gente parecida. O escolheste apenas por causa de teu amigo?

— Não digas bobagem. — Corey sorriu. — É um restaurante agradável e sossegado. Muito bom pra namorar.

Ele a beijou na boca, obtendo uma retribuição apenas parcial. Depois pediu os drinques e, sem esperar a pergunta, tratou de responder:

— Claro que foi uma brincadeira o que aconteceu ontem na noite. Mas é uma coisa tão estúpida que quase desafia explicação.

— Mas tentes explicar.

— É uma espécie de aposta, uma brincadeira permanente que tenho com Chaffee.

— Mas quem é? Trabalhas pra Chaffee? É teu patrão?

— Não. É apenas um amigo, usando a palavra no sentido mais amplo. É

engenheiro de computador. Estivemos juntos na universidade. Chaffee, eu e mais

alguns outros tínhamos uma roda de pôquer que acabou sendo dissolvida por dois

na universidade. Chaffee, eu e mais alguns outros tínhamos uma roda de pôquer que acabou sendo

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ou três casamentos. Sabes como são essas coisas.

— Não. Não sei. A maneira como aquele homem ordenou que saísses. E a

maneira repulsiva como

Corey se recostou nas sombras e riu. O divertimento parecia genuíno mas Inger

não estava convencida.

— Devo ter parecido um idiota. Mas tinha de ser assim, meu bem. Não posso esperar que compreendas. Tudo o que espero Abruptamente parou de falar.

obedeceste

— O que é?

— Não espero alguma coisa agora. Mas dentro de dois minutos

— O que mudará em dois minutos?

— Talvez muita coisa.

Corey meteu a mão no bolso e tirou uma caixa pequena, revestida de veludo.

Inger prendeu a respiração, enquanto ele acrescentava:

— Te lembras do que te falei daquela débil-mental de quem estava noivo?

— Leila?

— Isso mesmo, Leila. E te lembras de que falei que devolveu o anel de noivado?

Inger ficou rígida enquanto ele levantava a tampa, mas a caixa estava vazia.

— Não estou entendendo.

— Eu não permitiria que usasses o maldito anel daquela mulher. Passei na

joalheria nesta manhã e acertei uma troca. Podes passar lá a qualquer hora e

escolheres o anel que quiseres. Isso é, se quiseres.

Inger olhou da caixa vazia ao rosto dele mas outra imagem se interpôs. Era um garção, carregando um telefone vermelho.

— Mas o que é isso? — Resmungou Corey. — Deve ser um engano.

— Não, senhor — declarou o garção. — É mesmo pra ti, senhor Jensen.

Corey pegou o fone e disse um alô perplexo. A centímetros de seu ouvido, Inger ouviu a voz metálica de Ray Chaffee:

— Passarinho, passarinho, por que fugiste de casa? Ela está pegando fogo e teus filhos morrerão.

— Ray, seu miserável!

— Estás sendo insolente, meu velho. E sabes que não tolerarei insolência.

— O que queres? Como soubeste que eu estava aqui? Estás me seguindo de

novo?

— Caias fora daí, Corey. Tua presença num lugar assim me ofende. Estou no

outro lado da rua, numa cabina telefônica. Espero te ver passar a porta dentro de dois minutos. Não, serei camarada: Dou três minutos.

— Corey, desligues esse telefone! — Interveio Inger, a cabeça zumbindo.

Foi exatamente o que Corey fez. Inger pensou que a brincadeira terminara mas estava enganada. Corey estava largando o guardanapo em cima da mesa e empurrando a cadeira a trás.

— Escutes, Inger

— Não! Não me digas! Irás mesmo embora?

— Tenho de ir, meu bem. É uma coisa que não posso evitar. Tomes aqui! — Pôs

a caixa de veludo na mão dela. — O nome da joalheria está escrito na parte de

dentro da tampa. Talvez possas passar lá ao voltar a casa nesta noite.

— Corey. — Disse ela, incisivamente — Se saíres daqui agora e não me

explicar por que

— Peças algo pra comer. — Ele lançou um olhar nervoso à porta e largou uma

daqui agora e não me explicar por que — Peças algo pra comer. — Ele lançou

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nota de 10 dólares em seu prato. — Peças rosbife. É muito bom aqui. Ligarei a ti mais tarde.

— Se fores embora agora, não quero que me telefones mais tarde!

Mas ele foi. Inger não pediu o almoço. Usou o dinheiro pra pagar os drinques e foi embora sem se impressionar com o grunhido de insatisfação do garção. Chegou faminta ao escritório às 3h e comeu uma torta horrível comprada no carrinho de café.

Corey apareceu no apartamento dela, sem avisar, em volta das 22:30h. Inger já

se vestira pra deitar, com uma camisola tão transparente que a situação poderia ser provocadora. Mas o ânimo de Corey e também o dela, se diga de passagem, impediam qualquer coisa além de conversa e uísque. Se sentaram na pequena sala de estar, um tanto desarrumada.

— Muito bem, Inger. Contarei toda a história. Não o podia fazer antes, pois isso fazia parte do acordo. Mas estive com Ray e concordou. Até gostou da idéia de saberes, o que proporcionou uma emoção vulgar ao desgraçado.

Parou de falar, terminou o escocês que tinha no copo. Inger esperou recomeçar:

— Sou seu escravo, Inger.

Ele se levantou pra tornar a encher o copo, usando a ação como pretexto pra não

a fitar.

— Sei que parece absurdo, mas não é tanto assim. Não estou querendo dizer que

me comprou num leilão de escravo ou que temos alguma relação sexual maluca no

estilo de Krafft-Ebing. Ambos somos corretos, embora essa seja uma maneira um tanto exagerada de descrever Ray Chaffee. O que estou querendo dizer é que tenho de fazer tudo o que mandar, praticamente tudo. Claro que nada faria que me causasse um mal físico. Não pode me mandar, por exemplo, pular duma janela. Isso não estaria nas regras.

— Regras?

— Sou escravo há quase 10 meses. Restam menos de 10 semanas pra que tudo

acabe. Mas não precisas ficar preocupada. Pensei muito em ti, pensei em nós, nesta

situação, decidi que não deveria te encontrar, até que este maldito ano chegasse ao fim. Mas com Chaffee viajando, pensei que poderia correr o risco.

— Correr o risco de quê?

— Afinal, estava na América do Sul. Deve ter morrido de raiva por ser enviado

até lá justamente agora. Estava começando a gostar de ter um escravo, de poder

mandar nalguém e ser sempre obedecido. E se tornava mais mesquinho a cada dia, pensando em novas maneiras de me fazer sofrer.

— Não posso estar ouvindo direito, Corey. Devo ter me deitado há uma hora e tudo não passa dum sonho.

— No caminho a cá — continuou Corey, muito tenso — tentei decidir o que era

pior: Contar a ti ou nada dizer. Qualquer que fosse a decisão eu poderia te perder.

Não queres outro drinque?

— Não.

— Pois quero.

Corey foi encher o copo mais uma vez. Quando voltou estava disposto a enfrentar os olhos dela.

— Inger, contarei toda a verdade. Há cerca de 10 meses, Chaffee, eu e mais dois caras tínhamos uma roda de pôquer e garotas.

— Não mencionaste as garotas antes.

— Elas jamais atrapalhavam o pôquer. Seja como for, estávamos todos sentados

— Não mencionaste as garotas antes. — Elas jamais atrapalhavam o pôquer. Seja como for, estávamos

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em torno duma mesa numa noite, bebendo. Começamos a falar sobre escravidão. Isso é, a escravidão nos dias atuais. Ainda existe, sabes. Há muito tráfico de escravo no Oriente Médio e lugares assim. Houve uma coisa em que, todos concordamos. Ou melhor, duas. A primeira foi: A escravidão não é horrível? Nada há de original nisso, é claro, mas é o primeiro sentimento de quem sempre viveu à sombra da bandeira ianque. Mas também concordamos que a escravidão podia ser terrível pro escravo mas era, certamente, algo muito bom pro amo. Pondo de lado todas as considerações morais, o que há de tão ruim em ter dois ou três escravos? Encaremos a verdade: Devia ser uma coisa maravilhosa. Era o que fez a escravidão tão popular durante muitos séculos, mesmo em civilizações supostamente esclarecidas, como a grega e romana. Sabiam que era moralmente errado o que faziam mas não dispunham de máquina pra tornar a vida confortável e por isso justificavam a prática. Mesmo hoje, penses em todas as pessoas que vivem disputando criados. Te lembres das mulheres gordas nos clubes femininos, passando a metade da vida dando ordens às criadas e a outra metade falando delas. E quando uma delas diz Minha Bernice é uma jóia preciosa, está se referindo à criada mais como uma escrava, mais como se fosse uma preta escrava sulista dos velho tempo do que como empregada remunerada. Não estou certo?

— Por favor, Corey, me poupes os comentários sobre a injustiça social.

— Está bem. Está bem. O que estou querendo dizer é que a escravidão é

atraente. Chaffee até encontrou uma citação de Tolstói a respeito, embora eu ache que só a procurou depois da aposta.

— Aposta?

— É sobre isso que quero falar: A maneira como tudo começou. Sabes quem foi

Tolstói. Uma espécie de santo russo, defensor da liberdade individual. Só que escreveu, em seu diário, que a escravidão é um mal, mas um mal extremamente agradável.

— Mas ainda continua a ser um mal. Não é?

— Por que é involuntária. Os escravos não escolhem ser o que são. São

arrebanhados por traficantes ou vendidos pelos próprios pais, como acontecia com

as meninas na China antiga. Ou eram capturados em guerras, como no caso dos gregos e romanos. Mas se a escravidão fosse voluntária, se fechando o vazio moral

— Foi isso o que fizeste? Voluntariamente te ofereceste pra ser escravo?

— De certa forma, Inger. De certa forma. Foi assim que a noite terminou, numa

espécie de aposta que Chaffee e eu fizemos. Bebêramos muito, mas mesmo, assim

definimos os termos, as regras e condições. Uma das regras era o sigilo e é isso o que está me permitindo violar nesta noite.

— Estás falando sério? Não é brincadeira?

— Não, Inger, não é brincadeira. Infelizmente, é a pura verdade. Chaffee

apostou que eu não poderia sobreviver como seu escravo durante um ano. Mas o prazo está quase acabando. Eu ganho, ele perde e as coisas voltam ao normal. Mas eu não poderia desistir agora. Entendes? Depois de 10 meses eu seria louco se desistisse, mesmo que me pedisses, mesmo que impusesses uma condição pra encher aquela caixa que dei a ti.

— Não achas que estás querendo demais?

— Eu não poderia desperdiçar esses 10 meses, Inger. Chaffee me fez conhecer o

Inferno e pode se tornar ainda pior, mas não lhe darei a satisfação de desistir antes

que o ano termine.

— Pareceis duas crianças estúpidas! Deveríeis levar uma boa surra!

de desistir antes que o ano termine. — Pareceis duas crianças estúpidas! Deveríeis levar uma boa

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— Não foi tão terrível assim no começo. — Disse Corey, olhando o teto. —

Chaffee não estava acostumado a ter um escravo. A princípio me pedia pra fazer as coisas, era polido, sempre usava por favor. E todas as ordens eram ínfimas, como fazer pequenos serviços, ir à biblioteca, chamar táxi. Era um trabalho fácil.

— E depois mudou?

— Não podia me pedir pra fazer algo que pusesse em risco minha saúde, emprego ou dinheiro

— Mas podia te humilhar. Eis algo que podia fazer.

Não podia me obrigar a fazer coisas malucas em público. Nada que pudesse fazer com que a polícia me prendesse. Mas qualquer outra coisa. Sou obrigado a fazer ou não seria seu escravo. Entendes? Um escravo obedece sem questionar.

Isso é a própria essência, a incapacidade de recusar as ordens do amo. Mas Chaffee levou muito tempo, quase meio ano, pra descobrir alegria nisso.

— Alegria?

— Isso mesmo. — Corey revirava o copo entre as mãos, interminavelmente. —

Há uma alegria nisso, quase um êxtase. É mais do que a conveniência de ter alguém pra executar todas as ordens. No fundo há algo de poder. É por isso que as pessoas se digladiam buscando poder político, social, financeiro. Qualquer um. É o

prazer de dominar as pessoas, a fazer obedecer pelo simples ato de estalar o chicote. Inger deixou escapar um muxoxo de repulsa.

— É verdade, meu bem. Sou o escravo e é o amo, mas posso perceber o que faz.

O poder total sobre outro ser humano. Depois de seis meses Chaffee começou a sentir que o tempo se escoava rapidamente e foi ficando desesperado e mesquinho. As ordens se tornaram mais brutais e mais freqüentes. Foi nessa ocasião que deixamos de ser amigos e nos tornamos o que somos agora: Amo e escravo. Apenas isso, nada mais que isso. E foi também nessa ocasião que começou a gostar. Inger se aproximou dele, parecendo inebriada e linda.

— E não desistirias? Nem mesmo que eu pedisse?

— Já te disse. Se tivéssemos nos conhecido há cinco ou seis meses, antes de

Chaffee começar a estalar o chicote, talvez eu estivesse disposto a desistir, a perder todos os meses que já investira. Mas não agora.

— Corey, me amas?

— Por-deus-do-céu! Ainda não disse isso?

Mais tarde, ela pediu de novo.

— Não, Inger, não é possível. Achas que aquelas situações nos restaurantes

foram horríveis? Pois já houve outras bem piores. Tenho feito todos os tipos de

serviço sujo. Já fui seu valete, mordomo, faxineiro. Já abri mão de muitas noites, de fins de semana, até das horas de almoço, sempre que assim quis. E então passou a me seguir em toda parte, me obrigando a renunciar a hábitos, prazeres, amigos.

— E às mulheres também?

— Me obrigou a romper com todas as namoradas. Houve uma ocasião, quando

procurou a garota com quem eu saía e contou o que eu era.

— Pensei que as regras básicas.

— Só se aplicam a mim. O amo não precisa guardar segredo. Só o escravo está obrigado. E naquela noite contou a ela. E a débil mental

— Foi Leila?

— Isso mesmo. E talvez Chaffee me tenha feito um favor nesse caso. Mas não

a ela. E a débil mental — Foi Leila? — Isso mesmo. E talvez Chaffee me

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esquecerei a maneira como nos abordou.

— E disse a ela que eras seu escravo?

— Disse e provou. Me obrigou a rastejar na frente dela. E aquela débil mental

riu. Achou que era engraçado, hilariante. Pediu a Chaffee que a deixasse ter um

pouco de ação, queria brincar também. E no resto da noite fui também escravo

dela, porque isso é parte do acordo. Se tens um amo passas a ser escravo de toda a raça humana.

— Oh, Corey! — Inger pressionou o rosto contra o ombro dele. — Como

pudeste agüentar isso? Por que não o mataste? Eu teria esmagado a cara dele e a

dela também!

— Tens razão, Inger. Os escravos se revoltam. E isso faz parte da diversão. Só que eu não o podia fazer. Entendes? Havia investido demais. O telefone tocou. Já passava de meia-noite e o telefone de Inger era normalmente silencioso naquela hora.

— Devo atender? — Sussurrou ela. — achas que é

— Tenho certeza que é.

Inger atendeu e a voz de Ray Chaffee disse, suavemente:

— Como vais?, boneca. Estás com o ouvido doendo? Nosso garotinho já chorou

todas as mágoas?

— Estou contente, que tenhas ligado, senhor Chaffee. — Disse Inger. — Muito

satisfeita. Assim tenho a oportunidade de dizer o que penso a teu respeito.

— Poupes teu fôlego. — disse Chaffee, friamente. — Me deixes falar com o rapazinho.

— Só depois de me ouvires.

— Me enches o saco e eu descarregarei em cima dele. Estás entendendo?, boneca.

Inger hesitou um instante mas acabou passando o fone a Corey. E o ouviu dizer:

— Está certo. Já entendi. Está bem. Está bem. Eu disse que faria e farei.

Suspendeu o telefone, na direção de Inger. Mas não a olhou, enquanto dizia, a voz sem inflexão:

— Ray quer que eu vá embora agora, meu bem. Mas não quer que fiques

solitária. Disse que terá o maior prazer em vir até aqui pra fazer companhia a ti. Disse que conhece uma maneira de te manter quente e satisfeita.

— Corey!

— Eu agradeceria se concordasses, Inger. Não posso te obrigar, é claro, mas consideraria um grande favor a mim se deixasses Ray subir agora. Via fone ela podia ouvir o risinho seco e musical de Chaffee.

— Saias daqui! — Gritou Inger. — Sumas da minha frente!, Corey.

— Por favor, Inger. Poderia ao menos falar com ele?

Ele estendeu o fone a mais perto mas Inger recuou. Corey engoliu em seco e

tornou a aproximar o fone de sua boca, dizendo:

— Com todos os diabos, já fiz o que mandaste! Mas ela não quer falar contigo e isso é uma coisa que não posso controlar! Desligou e se virou a Inger, com os olhos marejados de lágrima.

— Prometi que diria isso, meu bem. Era o preço por te contar a verdade.

— Não me ouviste? Sumas daqui, Corey. Não te quero aqui. E nunca mais quero

tornar a te ver. Nunca mais! Corey deu de ombros. Não era um gesto de indiferença mas de resignação. E depois saiu, fechando a porta sem fazer barulho.

ombros. Não era um gesto de indiferença mas de resignação. E depois saiu, fechando a porta

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Inger não tornou a ter notícia dele até o fim de semana. Corey telefonou na tarde de sábado e falou cum sussurro de conspirador:

— Estou na galeria Frederick. Na Médisson. Inverti as posições desta vez e

passei a o espionar. Seu apartamento fica no outro lado da rua e acabei de o ver

saindo com o carro. Assim, podemos nos encontrar em segurança.

— Pode ser seguro mas não significa que eu queira te ver. — Disse ela, friamente.

Mas Inger acabou indo à galeria. Estava cheia de paisagem ondulante. Corey a recebeu cum sorriso triste e disse:

— Esqueci de pedir que trouxesses dramamina.

Em vez de rir Inger começou a chorar, embora não alto demais que incomodasse

os demais freqüentadores da galeria. Corey a levou a um canto, protegendo a ambos com o cardápio, 1 enquanto dizia.

— Tenho uma idéia. Meu acordo com Chaffee durará mais nove semanas. Não

quero te ver até lá. Nem tentarei te encontrar. Acabaria descobrindo. E isso só serviria pra piorar a situação.

— Nove semanas? Mas isso é terrivelmente injusto!, Corey.

— Mas é o único jeito. É melhor o fazer pensar que rompemos, pois só assim

nos deixará em paz. Te deixará em paz. Depois disso, caso não tenhas conhecido

outro homem que te interesse, até lá

— Seu idiota! — Disse ela, tragicamente, o segurando nas lapelas. — Achas que eu poderia querer algum outro?

— Vamos até a joalheria, Inger. Agora. Se estiveres com meu anel no dedo,

talvez isso faça uma grande diferença. Ela escolheu um diamante solitário, sem baguete 2 ou engaste fantasioso. Corey achou que o anel era desnecessariamente austero, mas Inger queria assim mesmo. Voltando a casa o lembrou de que ainda não fizera um pedido de casamento formal. Ele disse que queria o cenário romântico apropriado. Assim, subiram a rua

59 e pegaram uma charrete, entrando no parque. Inger chorou durante a maior

parte do tempo, mesmo depois do pedido de casamento. O abraçou freneticamente, sussurrando:

— Corey, vamos juntos até minha casa. Não me deixes agora. Viste aquele

homem horrível se afastando. Talvez não nos incomode. Venhas comigo, por

favor, Corey. Foram ao prédio de apartamento em que Inger morava. Um pequeno conversível marrom estava estacionado perto do toldo da frente. Ray Chaffee não estava ao volante mas Corey conhecia o carro.

— Está aqui, Inger. É melhor eu ir embora.

— Não, Corey, por favor! Pode estar esperando no saguão ou no corredor, lá em cima. E tenho medo dele!

— Não precisas ter. Não tem como te dominar. Se tentar algo digas que

chamarás a polícia. Se ameaçar contra mim digas que não te importas, que já

rompemos.

— Isso é horrível!

— Telefonarei a ti mais tarde.

Corey se virou e se afastou rapidamente. Exatamente como receara, Inger encontrou Chaffee esperando, sentado numa poltrona azul bastante velha, no

1 No texto em papel está protegendo a ambos com um programa, o que não faz sentido. Programa significa programa mas também roteiro, prospecto. No caso só pode se tratar do cardápio. Nota do digitalizador

2 Baguete: sf Ornato da meia, na altura do tornozelo. Diamante de face superior retangular, lapidado com 25 facetas. Pão comprido, de farinha de trigo. Nota do digitalizador. http://www.kinghost.com.br/

lapidado com 25 facetas . Pão comprido, de farinha de trigo. Nota do digitalizador. http://www.kinghost.com.br/ 14

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saguão.

— Boa noite, senhorita Flood. Por acaso viste nosso amigo, senhor Jensen?

— Não, não tenho visto teu amigo e também não quero ver. Nunca mais!

— Nesse caso não estarias procurando um novo amigo? — Ele sorriu. — Não

sou uma mercadoria tão desprezível assim. Talvez um pouco suja mas ainda capaz

de prestar bom serviço.

— Boa noite. — disse Inger, quando elevador chegou. Mas ele pôs a mão na

porta.

— Não comeces com brincadeira, senhorita Flood. Onde estás escondendo o

rapazinho? O meteste no armário ou debaixo de tua cama? Inger ficou parada. Havia um porteiro nas proximidade, provavelmente lendo o

Daily News na frente do elevador de serviço. Pensou em o chamar mas acabou mudando de idéia.

— Está bem. Por que não sobes e verificas pessoalmente? De qualquer forma,

preciso perguntar uma coisa. Ele ficou surpreso. Durante um momento Inger o deixou desequilibrado mas, entrando no apartamento, se recuperou e passou o braço na cintura dela. Inger deu um passo de dança pra se desvencilhar e disse:

— Quero que me faças um favor. Canceles essa aposta que fizeste com Corey. Ele ficou desconcertado e divertido.

— Queres que eu liberte o escravo? Que emita uma proclamação de

emancipação?

— Isso mesmo. Já está cansado da brincadeira e acho que o mesmo acontece

contigo. Por mais estranho que pudesse parecer, o sorriso se desvaneceu.

— Queres saber duma coisa? Tens toda razão. Se tornou um fardo terrível, não

apenas ao pobre Corey mas também a mim. Sabia que dá muito trabalho ter um escravo? É uma responsabilidade e tanto. É como herdar uma grande fortuna. A

pessoa fica na obrigação de ter sempre de fazer algo a propósito. Acordo, às vezes, durante a noite, tentando imaginar como poderei usar Corey no dia seguinte. Parece doentio. Não é? Mas provavelmente estás pensando que sou doente. Corey deve ter dito que sou mesquinho e brutal.

— E não é verdade?

— Todos os amos parecem mesquinhos e perversos a seus escravos. Mas não te

preocupes. O velho Corey terá o que merece.

— Quanto vale?

— Como?

— Quanto vale vossa aposta? Estou disposta a fazer um acordo, senhor Chaffee.

— Não sei do que estás falando.

— Estás apavorado com a possibilidade de Corey completar um ano de

escravidão. Não podes deixar de tentar imaginar as coisas mais horríveis pra o obrigar a desistir. Mas também tenho direito a Corey. E se fizeres o que eu disser, darei um jeito pra que fiques com teu dinheiro. Tornando a sorrir, ele perguntou:

— É uma proposta?

— É, sim. Se suspenderes a aposta, imediatamente, prometo que receberás até a última moeda que Corey ganhar.

— Achas mesmo que podes controlar o rapazinho à vontade? Mas que coisa

interessante! Chaffee passou a mão no cabelo louro e liso. Então foi avançando, lentamente,

vontade? Mas que coisa interessante! Chaffee passou a mão no cabelo louro e liso. Então foi

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em direção a Inger.

— Queres saber duma coisa? Recomendo que experimentes outra forma de

persuasão. Não podes compreender como tenho pouco interesse por dinheiro. As mãos dele estavam em cima de Inger, que deu uma volta com o corpo e se descobriu nos braços dele. Chaffee era mais forte do que parecia e ela ficou

apavorada. O golpeou com a mão esquerda, no rosto. Bateu com toda força e sentiu a ponta do diamante cortar a carne. O olho se avermelhou e inchou quase que no mesmo instante. Chaffee soltou um berro de dor e cobriu o rosto cuma das mãos.

— Me machucaste! — Gritou ele, furioso. — Sua estúpida! Por que tinhas de fazer isso? Ele tirou do bolso um longo lenço impecavelmente dobrado e o comprimiu

contra o rosto. Olhou depois o vestígio de sangue no lenço. Empalideceu e Inger chegou a pensar que ele desmaiaria.

— Sua estúpida! — Repetiu Chaffee.

Ele tornou a comprimir o lenço contra o rosto e saiu pela porta. Inger olhou o anel de noivado em seu dedo, tocou no diamante e disse em voz alta:

— O melhor amigo duma mulher.

Ela não sabia que horas eram quando as batidas começaram! Sabia apenas que não era uma hora oportuna pra alguém fazer todo aquele tumulto na porta de seu apartamento. Olhou o mostrador luminoso do relógio no criado-mudo. Já passava de três horas da madrugada. Pegou o roupão no pé da cama e foi à sala, querendo

apenas silenciar aquelas batidas terríveis e obscenas em sua porta. A abriu e deparou com os dois, Chaffee e Corey. Chaffee sorria horrivelmente. Havia algo disforme no sorriso, algo no rosto que pertencia ao nevoeiro dum pesadelo. Inger levou um momento pra descobrir que o problema estava no rosto. A face estava inchada, meio arroxeada, a pele lustrosa e esticada. Desviou a cabeça e olhou a Corey, imaginando por que romperiam o sossego de sua noite. Depois que todos foram à sala de estar, Corey encontrou o interruptor que inundou a tudo com uma claridade desagradável.

— O que aconteceu?, Corey.

— Inger

— A voz era sufocada, os punhos estavam cerrados. — Que deus-

me-ajude agora, Inger. Não deverias ter feito o que fizeste

— Digas a ela. — Ordenou Chaffee.

Corey estendeu o braço e tocou no braço dela.

— O machucaste, Inger. E poderia ter sido um ferimento muito grave.

— Diga a quem ela machucou. — Ordenou Chaffee.

— Ao mestre. — Disse Corey, os dentes cerrados. — Olhes o que fizeste com ele, Inger. Estás vendo?

— Me largues!, Corey. — Disse Inger.

— E agora digas a ela. — Acrescentou Chaffee. — Vamos, Corey, diga à

senhorita Flood o que tem de fazer.

— Não te zangues comigo, querida. Depois desta noite não irei. Prometeu que

nada mais haveria depois desta noite. Te deixaremos em paz. Nós dois. Mas tens de o fazer.

— Fazer o quê?

— Dar um beijo. — Disse Corey. — Sinto muito, Inger. Beijes o olho. O

machucaste. Está realmente muito ferido. Beijes o olho, Inger! A empurrava em direção a Chaffee, forçando o rosto dela a encontro do olho ferido. Chaffee estava sorrindo. Só que não era um sorriso mas uma máscara de

o rosto dela a encontro do olho ferido. Chaffee estava sorrindo. Só que não era um

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morte, um risus sardonicus. Inger gritou e bateu em Corey, que tentou segurar suas mãos. Inger podia ver o sofrimento estampado no rosto dele. O detestava e ao mesmo tempo sentia pena. Corey conseguiu finalmente imobilizar os pulsos dela e estava gritando alguma coisa a Chaffee. Inger ficou inerte, enquanto Corey a conduzia ao sofá. Ela fechou os olhos e ouviu Corey dizer outras coisas a Chaffee, meio irado, meio apaziguador. Ela não abriu os olhos até ouvir Chaffee dizer:

— Muito bem, rapazinho. Já cumpriste teu dever.

Inger virou a cabeça e divisou Chaffee se encaminhando à porta. E Corey o seguiu. O escravo, obediente, cumprida a tarefa, acompanhava o amo. Saíram, deixando Inger sozinha.

Setembro passou e depois a maior parte de outubro. Inger só teve notícia de Corey uma vez. Era uma carta, mal datilografada no papel timbrado do escritório. E dizia:

Inger Sei que agora me odeias. Faz sentido dizer que eu te amo? Os grilhões se rompem no domingo, 28 de outubro. Então ligarei a ti. E não te culparei por algo que possas me dizer.

Corey

Ela conhecera um homem com quem simpatizara no início de outubro. Era atraente e parecia ter dinheiro. Saiu com ela três noites numa semana e tentou a seduzir no fim de semana seguinte, embora sem muito empenho. Quando Inger começou a chorar, ele a levou a confessar que estava apaixonada por outro homem. Ela tentara pensar em Corey como morto, desaparecido, alguém que fora embora a

sempre. Mas sabia que nenhuma dessas coisas era verdade. Ele ainda estava perto e 28 de outubro, o dia da libertação, estava próximo. Inger disse ao homem que não

o veria mais. Na sexta-feira anterior ao dia 28 uma amiga chamada Sílvia foi à casa de Inger,

a fim de lá passar o fim de semana. Seu apartamento estava sendo pintado e ela era alérgica ao cheiro de tinta. Ela passou a maior parte do tempo falando sobre um homem chamado Leonardo, que era casado, pedindo conselho a Inger, em voz queixosa, e ficando emburrada sempre que ouvia a opinião de que devia o largar. Na noite de sábado, estimulada pelo álcool, Inger perdeu o retraimento normal e falou a Sílvia sobre Corey Jensen. A amiga ficou escutando, fascinada, seus próprios problemas românticos momentaneamente esquecidos. Concordou efusivamente com a conclusão de Inger:

— Terrível! Pavoroso! Podes estar certa de que ficas muito melhor sem ele! Quanto mais falava a respeito de Corey, no entanto, quanto mais Sílvia concordava, mais Inger compreendia o quanto sentia saudade dele.

— Achas que telefonará? — Indagou Sílvia, de olhos arregalados. — Achas que terá essa coragem?

— Não sei.

Sílvia ainda estava dormindo, na manhã de domingo, quando Inger acordou e começou a olhar o telefone. Ainda não tocara às 2h, quando Sílvia foi embora, ansiosa em não perder um encontro vespertino com Leonardo. Às 3h, Inger chegou à conclusão de que seu orgulho não valia o suspense. Ligou ao apartamento de Corey. O telefone estava ocupado e ela desligou apressadamente, na esperança de que fosse Corey tentando lhe falar. Nada aconteceu. Quinze minutos depois já discara o número tantas vezes que o dedo

que fosse Corey tentando lhe falar. Nada aconteceu. Quinze minutos depois já discara o número tantas

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estava doendo. Se forçou a esperar meia hora antes de tornar a discar. O telefone, tocou muitas vezes mas ninguém atendeu. Inger se censurou por tomar uma decisão errada. Vestiu uma capa pouco depois das 4h e saiu. Pegou um táxi pra ir ao apartamento de Corey, tentando não pensar no certo ou errado, em orgulho ou vergonha. Inger esperava ter de enfrentar a necessidade de acampar na porta dele mas teve sorte. Corey abriu a porta, carregando o telefone como se fosse uma valise.

— Espero que seja a mim que estás ligando. — Disse ela, jovialmente. — Ou já esqueceste que prometeras telefonar? Ele retorceu o fio do telefone entre os dedos.

— Juro que eu ligaria a ti, Inger. Só que aconteceu um problema. Me dês só um minuto.

— Está certo. Eu não estava mesmo esperando que te jogasses a meus pés. Mas

ainda estou com teu anel e precisava descobrir se deseja que o conserve.

— Claro que é justamente isso o que estou querendo! As palavras deveriam ter sido acompanhadas por um abraço, mas Corey ainda estava ocupado com o telefone.

— Te sentes, meu bem. Esperes só um minuto, enquanto dou este telefonema. Ele pôs o telefone na mesa e discou.

Alô? Aqui é Corey Jensen de novo. Já sei. Já sei. Mas pensei que poderias ter

— A voz se alterou, furiosa. — Mas trabalhas pra ele! Está Basta dar meu recado.

sabido algo desde bem. Está bem

Desligou, batendo o fone com toda força.

— O que foi?, Corey. Pareces não estar muito bem.

— Inger, faças o favor de esperar.

Estava discando outra vez, o rosto molhado de suor. Precisava fazer a barba, os fios brilhavam com a umidade.

Não, não

estou querendo insinuar algo. Queria apenas saber se o viste. Sabes se Ronnie está em casa? Não, não precisas te incomodar. Se não sabes onde Ray está, com certeza não vai aparecerá aí. Não posso falar agora. Já estou atrasado. Adeus, Marta. Ele desligou. Antes que pudesse discar de novo, Inger interveio:

— Já chega!, Corey. Se não podes dispor dum minuto pra mim entre telefonemas, então é melhor eu ir embora! Ele reagiu suavemente à ameaça:

— Não entendes, meu bem. Estou tentando o encontrar. Não está no apartamento e a criada não sabe onde.

— Marta? Sou eu, Corey. Sei que é muito difícil, mas viste Ray?

— Quem?

— Ray Chaffee. Sumiu! — Corey esfregou as mãos na calça, nervosamente. — Acho que o desgraçado está tentando fugir!

— Por causa da aposta? Por que venceste?

O telefone tocou e ele saltou pra atender. — Isso mesmo, sou senhor Jensen. É verdade, pedi a ligação. Alô? Senhor

Isso mesmo. É urgente localizar senhor Chaffee. Acho que está

É, sim, uma

Sei que

embarcando num avião da Panagra hoje mas não sei qual é o vôo

Valdez!

questão de vida ou morte é contra o regulamento, mas

Uma pessoa de sua família está muito doente Como?

Ele fez uma pausa, os olhos faiscando.

— Já entendi. Vôo 33, decolando às 6:30h

Não, um recado não adiantará.

Ele fez uma pausa, os olhos faiscando. — Já entendi. Vôo 33, decolando às 6:30h Não,

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Poderá pensar que é um engano

obrigado, senhor Valdez. Desligou, exalando fúria e triunfo.

Posso chegar ao aeroporto a tempo

Muito

— É mesmo verdade! Está tentando trapacear indo à América do Sul!

— Não estou entendendo, Corey.

— A viagem em junho. Estava arrumando um emprego lá, preparando a fuga.

— Mas por quê? Ele perdeu tanto dinheiro assim?

— Tenho de sair agora, Inger. Preciso chegar ao aeroporto a tempo.

Se encaminhava ao armário mas Inger se postou na frente.

— Dinheiro? — Gritou Corey. — Achas mesmo que apostamos dinheiro?

— Mas apostastes!

— Só que nunca falei em dinheiro. Essa foi tua conclusão. E também não foi

propriamente uma aposta. Foi uma troca, um acordo, uma barganha. Entendes

agora?

— Corey!

— Agora pensa realmente que estou doente. Não é? Pois podes pensar o que

bem quiseres. Mas uma coisa posso garantir, Inger: Não conseguirá escapar. Teve

seu ano e agora terei o meu!

— Um ano? Está querendo dizer que é teu escravo agora, durante um ano?

— Isso mesmo, meu bem. senhor Chaffee pagará sua dívida. Me obrigou a

pagar e agora é sua vez. Estou com o chicote na mão e terá de pular quando eu mandar, mesmo que eu tenha de o arrancar a força daquele avião! Fez menção de seguir à porta e Inger o segurou no braço.

— Pelo-amor-de-deus!, Corey. Não faças isso! O deixes ir embora. Não podes

fazer consigo o que fez contigo. Seria horrível demais. Não é humano!

— Pares com isso!, Inger. É uma longa viagem até o aeroporto e preciso

— Corey, eu não poderia suportar outro ano assim!

— Mas será que não entendes que desta vez não será a mesma coisa? Desta vez

é o escravo e eu o amo Isso não faz diferença! Não há diferença entre as duas coisas! Eu não poderia me casar contigo nessa circunstância. Não poderia suportar! Não me casarei contigo!, Corey. Durante um momento a respiração dele se aquietou, os olhos perderam um pouco do brilho febril. Então disse:

— Sinto muito, Inger, mas não posso evitar. Nada posso fazer agora. Já é tarde demais.

Saiu rapidamente, fechando a porta. Inger se adiantou e tornou à abrir, gritando enquanto ele se afastava no corredor, a caminho do elevador, uma voz tão estridente como ela nunca imaginara que possuísse:

— Vás logo! Podes ir! Vás procurar teu precioso escravo! Espero que sede mui felizes um com o outro! Inger fechou a porta, sentindo que devia chorar, mas incapaz de produzir lágrima. E pensou:

— Aposto que serão mesmo muito felizes. Tenho certeza de que serão.

mas incapaz de produzir lágrima. E pensou: — Aposto que serão mesmo muito felizes. Tenho certeza

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OOss ddeenntteess nnoo ccaassoo

Carl Henry Rathjen

NN inguém desconfiava de que ele fosse um assassino. Era apenas uma parte da multidão, postada a alguma distância de McCabe, o chefe do departamento de polícia, de três homens, de Vista do Vale, enquanto

aguardavam o início solene da escavação prà construção da nova fábrica de processamento alimentício. Ele até acrescentou seus comentários aos gracejos

dirigidos ao prefeito Bronson, que não realizaria a cerimônia com sua tradicional pá de placa de ouro e enfeitada com fita.

— Será que ninguém confia mais em ti com uma pá na mão?, prefeito.

— Acho que estás ficando mole de te sentares, na prefeitura, fazendo nada!

Sorrindo jovialmente, prefeito Bronson subiu na escavadeira. Se sentando, estendeu as mãos aos botões de controle, reluzindo. A caçamba da escavadeira se estendeu pra cravar os dentes de aço na terra macia: Enquanto recuava, abrindo uma trincheira, McCabe percebeu que desenterrara ossos humanos.

— Esperes um instante!, prefeito. — Gritou McCabe.

Atrás dele a expressão do assassino não estava diferente, exteriormente, dos

outros rostos aturdidos que se inclinavam a diante, ansiosos, querendo ver mais de perto. Os olhos castanhos e a voz de McCabe assumiram jeito autoritário. Gritou o nome dum de seus guardas::

— Tratai de recuar! Knapperman, mantenhas todo mundo longe desta área!

Depois que a multidão estava sob controle, McCabe se adiantou. A escavadeira

atingira o meio do esqueleto, desenterrando vértebras e costelas. Um osso pélvico estava parcialmente encravado na parede esquerda da trincheira. Disse o prefeito Bronson, a voz trêmula:

— Não há sinal de roupa. Deve ser um índio, que já está enterrado aqui há mais de 100 anos.

— Está aqui há muito tempo. — Concordou McCabe. — Não há carne nos ossos. Apontou à parede direita da trincheira, onde a terra caíra e expusera um maxilar, antes de acrescentar:

— Mas aquela placa dentária não sugere que a morte ocorreu há 100 anos. —

McCabe falou a trás, sem virar a cabeça: — Knapperman, chames o médico legista. E depois faças um cordão de isolamento nesta área. Vasculhes tudo, procurando possíveis pistas, assim que ele acabar. McCabe abriu o canivete e começou a remover a terra, cuidadosamente, até deixar completamente expostas as dentaduras superior e inferior. Não eram de

plástico rosado, como as modernas. A cor básica era escura, quase como a terra, exceto pelo rosa pra imitar as gengivas.

— Dentaduras vulcanizadas. — Murmurou.

Cautelosamente, McCabe descobriu mais uma parte do crânio. No frontal, logo acima e entre as órbitas dos olhos, encontrou um buraco de bala. Estava bem situado demais pra ser considerado tiro acidental. E o fato do corpo ter sido enterrado também indicava que não fora um acidente. — Aconteceu, provavelmente, há muitos anos. Alguém pode lembrar o desaparecimento inexplicado dum homem que usava dentadura diferente das que se fazem atualmente?

Alguém pode lembrar o desaparecimento inexplicado dum homem que usava dentadura diferente das que se fazem

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Se empertigando lentamente, McCabe olhou os rostos curiosos da multidão, particularmente os de meia-idade e mais velhos. Todos os olhos se encontraram com os seus. Durante um momento todos os olhares na multidão foram vazios. E depois alguém mencionou um nome. Alguém mais comentou que o homem possuía dentes como os dum cavalo. Mais recordações e discussões se seguiram. McCabe quase desejou não ter perguntado.

— Está bem. Está bem. — McCabe suspirou. Talvez pudesse ter uma noção da

época em que acontecera. Se virou a Jess Parkinson, que vendera o terreno prà construção da fábrica.

— Quando foi a última vez que araste esta terra?, Jess.

— Nunca a arei, nos 20 anos em que me pertenceu. A usava como pasto. Às

vezes revolvia um pouco a terra mas nunca arei de verdade.

— De quem era a terra antes?

— Não sei. Perguntes a ele. — Jess sacudiu o polegar em direção ao grisalho

Verne Warner, que tinha uma agência imobiliária e um escritório de corretagem de

seguro na cidade.

— Fui eu mesmo quem vendeu a propriedade a ele, Mac. — disse Warner. —

Era parte dum espólio que estava sendo liquidado, tendo o banco como executor.

Pertencera à família Hammond:

— Hammond? — Repetiu McCabe, tentando situar o nome. Warner sacudiu a

cabeça.

— Foram todos mortos num acidente de carro. Foi antes de te mudares a cá com

teus filhos, depois que tua esposa McCabe acenou com a cabeça tristemente, ao se lembrar, desolado, de que Joan fora a vítima inocente dum assalto a banco na cidade grande.

— Há quanto tempo Hammond possui este terreno?

— Tanto quanto posso me lembrar. — Respondeu Warner. — E olhes que já

estou aqui há 40 anos. Tornou a sacudir a cabeça, enquanto McCabe olhava a trincheira.

— Não, Mac, não foram eles. Os Hammond eram trabalhadores e respeitáveis,

freqüentavam a mesma igreja que eu. Nunca soube que tivessem dito uma palavra

mais rude a alguém. Vários dos espectadores mais velhos assentiram. A esposa de Warner, Agnes, baixa, gorda e grisalha, interveio na conversa:

— Os conheci muito bem. Imogênia, a filha, foi minha melhor amiga. Eu seria sua dama-de-honra. Eram ricos e seria um dos maiores casamentos

— Podes te lembrar se alguma vez araram este terreno? — Perguntou McCabe. O prefeito Bronson se encarregou de responder:

— Então o esqueleto não estaria esperando que eu o desenterrasse.

McCabe se virou quando o carro do médico legista chegou. Atrás dele as

pessoas recomeçaram a discutir.

— Não me importo com o que os outros possam dizer. Talvez aqueles ricos

Hammond soubessem e por isso nunca araram este terreno. McCabe foi interceptado pelo presidente da companhia de processamento alimentício:

— Quanto tempo esperas retardar o início da construção?, chefe.

— Até que eu tenha certeza de que disponho de todas as pistas possíveis pra reconstituir o que aconteceu.

chefe. — Até que eu tenha certeza de que disponho de todas as pistas possíveis pra

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O executivo soltou uma risada.

— Depois de 20, 30, 40 ou mais anos? Por que simplesmente não tornas a enterrar o esqueleto e

— Não há prescrição pra homicídio. — Declarou McCabe abruptamente.

McCabe ficou esperando, impacientemente, enquanto Bigbee, o médico legista,

cantarolava baixinho, examinando o esqueleto. Estava pensando se aquele caso seria mesmo tão antigo e sem esperança de solução como parecia. Bigbee finalmente se ergueu e se virou pra o fitar.

— Há alguns fatores bem estranhos, chefe.

— O que descobriste? — Indagou McCabe. — Já posso mandar peneirar a terra ao redor? Bigbee assentiu.

— Mas duvido muito de que encontres algo. Não vi resquício de roupa, como

metais ou botões, que não entrariam em decomposição tão depressa quanto a carne. — Olhou a trincheira. — Eu diria que foi enterrado nu.

— Provavelmente como um recurso pra evitar a identificação. — Concordou

McCabe. — Mas não me digas que achas que era um índio, com essas dentaduras.

— Direi tudo o que penso, à minha maneira, se parares de me interromper. Pra

começar, a estrutura dos malares é caucasiana e não índia. Homem. Não há indício de calcificação articular, artrite pra ti. Portanto. Devia estar abaixo da meia-idade. E dependendo de testes no esqueleto, calculo que está enterrado aí ao menos há 30 anos. O tipo de dentadura também tende a confirmar esse fato. E dês uma olhada aqui. Foi até a vala e pegou o maxilar inferior.

— Vejas esta mandíbula. Foi quebrada uma vez e o osso não consertou direito.

Isso também reflete na gengiva, porque a dentadura inferior é ligeiramente torta.

Se puder localizar o dentista que fez as placas, a deformidade poderia ajudar a identificar a vítima. — Bigbee soltou uma risada. — E agora, chefe, trates de cravar os dentes no caso. McCabe embrulhou cuidadosamente as dentaduras. Jess Parkinson, parado perto, junto com outros espectadores, exibiu uma expressão de dúvida.

— Pode ter vindo do centro-oeste, como fiz. E já chegou com as dentaduras. Se

for o caso, como esperas encontrar o dentista que

Aquele era o trabalho da polícia, pensou McCabe, se afastando. Todas as pistas, por mais vagas que fossem, deviam ser investigadas, na esperança de que uma levasse à solução do mistério. Seguiu na caminhonete oficial ao centro da cidade e encontrou, na rua Principal, um dos dois dentistas de Vista Vale, o jovem e ruivo doutor Collier, saindo ao almoço. Disse McCabe, entregando as dentaduras:

— Doutor, eu gostaria que, assim que pudesses, me forneças uma descrição

técnica destas dentaduras, prum boletim a ser enviado a todas as associações odontológicas do país.

?

O jovem dentista examinou as peças, curioso.

Essas peças vulcanizadas deixaram de ser usadas mais ou menos na ocasião em que me formei e assumi o consultório de doutor Schmidt aqui. Te ajudarei, é claro. Mas por que não procuras também o velho doutor Schmidt, se não estiver pescando? Poderá dizer muito mais do que eu sobre este trabalho. McCabe assentiu.

Obrigado. Irei até sua casa e

O

gemido alto da sirene dos bombeiros, se elevando estridente, o interrompeu.

Relutantemente, McCabe foi obrigado a pôr o caso de lado. Um chefe de polícia de

elevando estridente, o interrompeu. Relutantemente, McCabe foi obrigado a pôr o caso de lado. Um chefe

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cidade pequena, carecendo de homens, tinha de ser e fazer todas as coisas. Teria de acompanhar os bombeiros voluntários pra impedir que os curiosos atrapalhassem. Chegou ao posto dos bombeiro no momento em que o chefe dos voluntários comunicava o local aos motoristas:

— Maple Grove, 5km a norte da estrada. A casa de doutor Schmidt.

McCabe ficou subitamente tenso. Talvez o caso não estivesse posto de lado. Geralmente seguia os camiões dos bombeiro mas dessa vez se antecipou, as luzes vermelhas piscando, a sirene estridente. Avançou rapidamente em direção à fumaça preta que subia a nordeste da cidade. Logo pôde ver a casa antiga, as chamas saindo em todas as janelas, do porão ao sótão. O estábulo adjacente, onde era guardado o carro do dentista aposentado, também se transformara num inferno de fogo. Duas horas depois, preto de fuligem e recendendo a fumaça, McCabe voltou ao consultório do jovem doutor Collier.

— Não mais despacharei aquele boletim. Estou convencido de que foi doutor

Schmidt quem fez aquelas dentaduras. Foi morto. Sua casa foi encharcada de gasolina e completamente destruída pelo fogo. Doutor Collier ficou atordoado.

— Então o assassino ainda está aqui na cidade! Alguém viu ?

— Ninguém viu algo. Mas o descobrirei, mais cedo ou mais tarde. — McCabe

limpou um pouco do suor fuliginoso do rosto — Quando assumiste o consultório, doutor, o que aconteceu com as fichas dos pacientes de Schmidt?

— Deixou tudo comigo. Estão guardadas aqui.

— Ótimo — McCabe baixou a voz. — Acho que o assassino não sabe disso.

Portanto, nada fales a respeito das fichas.

— Claro. — Doutor Collier franziu o rosto. — Mas há várias caixas, Mac,

talvez duas mil fichas dentárias, em ordem alfabética. Onde devo começar? McCabe deixou o ar escapar dos pulmões, lentamente.

— E ainda terás de cuidar dos pacientes. Mandarei um homem ajudar a procurar e também ficar de olho nas coisas, pro caso do assassino calcular

— Digas pra proteger o assassino, se eu o descobrir primeiro. — Comentou

doutor Collier, sombriamente. — Doutor Schmidt era um homem maravilhoso. Fez tudo o que era possível pra facilitar meu começo na profissão.

McCabe voltou ao local onde o esqueleto fora encontrado. Knapperman acabara de peneirar a terra. Descobrira apenas um pedaço de chumbo distorcido.

— Estava dentro do crânio. Parece que era de calibre 22. Não será de muita

ajuda.

— Vás te lavar e depois almoces. — Disse McCabe. — E vás em seguida ao

consultório do doutor Collier. O mais depressa possível. Experimentava um senso de urgência que não conseguia reprimir. De volta à sala da polícia, no prédio da prefeitura, se sentou a sua mesa, muito tenso. A busca às milhares de fichas dentárias poderia levar muito tempo. Poderia, no final, revelar a identidade da vítima. Até então os moradores da cidade tentariam recordar os velhos desaparecimentos inexplicados. Se alguém chegasse perto da verdade e o assassino desconhecido soubesse O punho de McCabe bateu violentamente na mesa. Precisava dalguma espécie de atalho. Revisou o pouco que sabia a respeito da vítima, o esqueleto. Homem. Idade entre 20 e 40 anos. Perdera todos os dentes. Quebrara um maxilar. Estava morto ao menos há 30 anos. McCabe olhou o calendário, subtraindo 30 do ano. Seria mais ou menos 1940. O

Estava morto ao menos há 30 anos. McCabe olhou o calendário, subtraindo 30 do ano. Seria

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que acontecia na ocasião? O começo da segunda guerra mundial na Europa. Eua ainda não entrara. As indústrias de guerra prosperavam. Naquela manhã, no entanto, ninguém informara sobre um desaparecimento misterioso em volta de

1940.

McCabe tornou a olhar o calendário e subtraiu 40 anos. Em volta de 1929, início

da década de 1930. McCabe ainda não nascera, mas podia lembrar os pais e avós falando sobre aqueles dias difíceis. A grande depressão. Não havia emprego. Fila de pão, a sopa de graça. Bancos fechando. Tempestades de areia arruinando fazendas e fazendeiros do centro-oeste. Se levantando subitamente, saiu até seu carro e seguiu a rua Principal. Entrou no escritório de Verne Warner. O idoso corretor imobiliário repôs o fone ao gancho.

— Estava fazendo uma ligação interurbana ao filho de doutor Schmidt. Estará

aqui amanhã. Foi um choque terrível pra ele. Terrível pra todos numa cidade tranqüila como a nossa.

O rosto de Verne parecia mais velho, pálido e preocupado, enquanto olhava na janela.

— Deixa um homem pensando qual de nós, veteranos, será o próximo, porque talvez saibamos algo. Tens progresso nas investigação?, Mac.

— Toda pista representa algum progresso, até prova em contrário.

McCabe se postou diante da mesa.

— Verne, como era a situação aqui em volta de 1930? Como foram os anos de depressão? Warner fez uma careta ao recordar.

— Os preços dos cereais e do gado baixaram a quase nada. Fazendas eram

vendidas pra pagamento de imposto, as lojas na cidade fechavam porque não conseguiam obter crédito nem receber o que vendiam fiado aos moradores sem dinheiro. Mas por que perguntas? Tem alguma relação com o que se descobriu

nesta manhã?

— É apenas um palpite. — McCabe hesitou um instante — Verne, nesta manhã

defendeste os Hammond. Não quero discutir contigo mas talvez ajude saber mais

alguma coisa a respeito deles. Eram ricos. Não é? Warner assentiu.

— Tinham uma grande fazenda de laticínio. Só gado holandês. 3 Eram os maiores produtores do vale.

— E não sentiram a pressão do tempo difícil em volta de 1930?

— Ninguém escapou, Mac. Mesmo assim, creio que se pode dizer que não

sofreram tanto quanto a maioria. E ajudaram muito as pessoas que estavam em situação pior. — Mesmo assim — insistiu McCabe —houve ressentimento porque

se saíram melhor que a maioria? — Warner lançou um olhar furioso.

— Estás querendo te agarrar a qualquer coisa, Mac. No fundo, queres insinuar que alguém os provocou, o mataram e enterraram, a fim de manter a posição respeitável na comunidade. — Warner levantou as mãos, as deixou cair um

3

— Warner levantou as mãos, as deixou cair um 3 A holstein , também referida como

A holstein, também referida como holstein-frísia e popularmente conhecida como gado holandês, é uma raça de gado bovino originária da Europa. Surgiu, primitivamente, entre a Frísia (norte de Países Baixos) e o Holstein (Alemanha), há cerca de vinte séculos. É uma das raças de maior aptidão leiteira conhecida, sendo comum no Brasil, em especial no centro-sul. Também conhecida em Portugal como turina, é de elevada estatura e facilmente identificada pelo padrão malhado. Nota do digitalizador. http://pt.wikipedia.org/wiki/Holstein-Fr%C3%ADsia e http://www.apcrf.pt/gca/?id=147

malhado. Nota do digitalizador. http://pt.wikipedia.org/wiki/Holstein-Fr%C3%ADsia e http://www.apcrf.pt/gca/?id=147 24

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instante depois. — Talvez não seja tão improvável assim. Quem pode saber? Mas parece muito difícil acreditar. McCabe acenou com a cabeça, sombriamente.

— E sempre poderiam alegar legítima defesa, a menos que evitassem

publicidade. — Suspirou. — De qualquer forma, Verne, obrigado pela ajuda.

— Ajudei nalguma coisa? — Indagou Warner, ironicamente.

McCabe saltou do carro e desceu a rua até o consultório de doutor Collier. Piscou a um garoto de olhos arregalados que estava na sala de espera agarrado a uma mulher.

— Não será tão difícil como estás pensando, filho.

Desejaria poder dizer o mesmo em relação a seu próprio problema. Olhou inquisitivamente a recepcionista, que acenou com a cabeça em direção ao corredor. Encontrou Knapperman folheando fichas empoeiradas, enquanto da sala mais adiante vinha o zumbido duma broca.

— Esse barulho me está deixando nervoso, com os dentes rangendo. —

Resmungou Knapperman, que bateu numa pilha de ficha. — E essas coisas me deixam com dor de cabeça só de pensar em todos os problemas com os dentes que

as pessoas podem ter. McCabe sorriu debilmente.

— Talvez passes a se lembrar de escovar os dentes depois de cada refeição. — Ele apontou subitamente. — Ei, nem ao menos examinaste essa ficha!

— Mac, o Doe me disse pra verificar a data da primeira visita do paciente. Se tem menos de 25 anos, posso esquecer.

— Desculpe.

— Foi nada. — Knapperman sorriu. — Vieste me ajudar?

— Estou procurando ajuda. — Tirou um lápis e um bloco de anotação do bolso.

— Podes me ajudar a fazer uma lista de todas as pessoas de meia-idade e mais velhas que reconhecemos no local nesta manhã. Tenho certeza de que o assassino estava lá. Tinha de estar perto pra saber que encontramos as dentaduras. Foi por isso que imediatamente entrou em ação contra doutor Schmidt. A lista ficou bastante comprida. McCabe levou o resto da tarde pra investigar os nomes. Cada homem que entrevistou não estava na cidade há 30 anos ou mais ou

então tinha um álibi pro momento em que doutor Schmidt fora morto. Com isso só restavam as mulheres na lista. Suspirando, McCabe resolveu ser mais meticuloso e recomeçou do princípio. Soube que muitas das mulheres estariam na sala da legião, preparando uma reunião social praquela noite. Todas se concentraram em torno dele, querendo lhe oferecer uma fatia de bolo, um sanduíche, uma xícara de café. Aceitou o café mas teve muita dificuldade em

as isolar individualmente prum interrogatório informal. Obteve respostas similares às que os homens deram. As mulheres não viviam ali há ao menos 30 anos ou mais, estavam no hospital tendo um filho ou fazendo uma operação, que queriam

descrever meticulosamente. No final só restava um nome a conferir. Era estranho não a encontrar ali, pois se tratava duma ávida participante de todos os acontecimentos sociais. Já saía quando ela entrou, esfuziante como sempre.

— Desculpai o atraso, garotas, — gritou Agnes Warner — mas tive de arrumar

o quarto de hóspede. O filho do pobre doutor Schmidt se hospedará conosco amanhã. Não é terrível o que aconteceu ao pai?

— Senhora Warner. — Interveio McCabe.

— Olá, Mac. Até pareces excitado. Mas não estamos todos, depois do que

— Senhora Warner. — Interveio McCabe. — Olá, Mac. Até pareces excitado. Mas não estamos todos,

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aconteceu hoje? Espero que descubras o patife que

— Posso falar um momento a sós?

— Se não te importas que eu vá cuidando de minhas tarefas da festa enquanto conversamos.

— Claro que não me importo.

McCabe ficou esperando, com uma exibição exterior de paciência, enquanto ela

se instalava numa mesa no canto. Outras mulheres encontraram motivo pra ficar perto. McCabe tratou de falar em voz baixa:

— Disseste, nesta manhã, senhora Warner, que conheceste os Hammond.

— Isso mesmo. Imogênia e eu crescemos juntas. Éramos amigas inseparáveis,

apesar das diferenças entre nossas famílias.

— Diferenças? — Indagou McCabe, a ajudando a arrumar os copos de papelão.

— Não é o que estás pensando, Mac. Tudo corria muito bem enquanto

estávamos prósperos. Mesmo assim havia algo diferente nos Hammond. E quando o tempo difícil chegou partilharam o que tinham conosco, sem nos fazer sentir que era caridade. McCabe assentiu, resignado. Era mais ou menos a mesma coisa que o marido dela dissera. Os ricos Hammond eram simpáticos e prestativos.

— Eu disse também que seria dama-de-honra no casamento de Imogênia

Hammond. Mas fiquei com a impressão de que o casamento não aconteceu.

O rosto de senhora Warner assumiu uma expressão sombria, enquanto despejava amendoim num copo de papelão.

— Isso mesmo. Imogênia nunca mais foi a mesma. Ficou retraída, não queria

ver as pessoas, nem a mim. Não porque ficaria embaraçada. Ninguém saberia,

porque o noivado ainda não fora anunciado. Mas eu soube, porque sempre fora amiga íntima de Imogênia até aquele momento. McCabe manteve a voz calma:

— Por que o casamento não foi realizado?

— Bom

— Contraiu os lábios. — O tempo era difícil e o pai soube que Jack

queria se casar com ela pelo dinheiro da família.

— Jack quem? — Insistiu McCabe, tenso.

— Jack Tilliman. Conhecera Imogênia desde pequeno. Não apareceu aqui procurando trabalho, como aconteceu com Verne.

— Senhor Hammond o interrogou sobre o motivo pra se casar com Imogênia? Houve briga? Senhora Warner sacudiu a cabeça.

— Não haveria cena, pois ninguém seria capaz de acreditar que Jack pudesse fazer isso.

— Não teria havido uma cena? Jack Tilliman não foi questionado?

— Não. — Senhora Warner suspirou, enquanto continuava despejando amendoim — Mas, no final de conta, acho que havia um fundo de verdade. Porque deixou Vista do Vale e mandou a Imogênia um telegrama de Siátol. Dizia que

lamentava muito mas que Imogênia nunca poderia ser feliz a seu lado, agora que conhecia a verdade. Imogênia se recusou a acreditar, mesmo assim. Ficou desolada, se afastou de todo mundo. Não saiu, nem pra ser a dama-de-honra em meu casamento. McCabe continuava controlando firmemente a paciência e o pensamento.

— Como o queixo de Jack foi fraturado? Como perdeu todos os dentes?

— Aconteceu quando tinha 19 anos. Um cavalo lhe desferiu um coice na cara e

infeccionou. Teve de usar dentes postiços. Sendo muito jovem, era sensível a

cavalo lhe desferiu um coice na cara e infeccionou. Teve de usar dentes postiços. Sendo muito

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respeito e preferia manter segredo. — Parou de falar de repente, os olhos e a boca se arregalando. — Santo-deus! Não podes estar pensando que aqueles ossos encontrados nesta manhã McCabe se apressou em a interromper:

— Senhora Warner, eu agradeceria se não comentasses enquanto não houver

certeza. Hesitou por um instante, antes de indagar:

— Por que te mantiveste calada nesta manhã, no local?

— Porque não me ocorreu. Afinal, houvera aquele, telegrama de Jack, como se

ele estivesse vivo. Achas mesmo

— Não tenho certeza sobre os ossos. — Disse McCabe, esperando que seu rosto

não denunciasse a mentira — A possibilidade acaba de me ocorrer agora. Não tinha pensado antes algo nesse sentido? As feições rechonchudas e simpáticas de senhora Warner ficaram coradas.

— Quem não está falando e especulando sobre os Hammond e tudo o que

aconteceu hoje? Acho que não deveríamos, pois não estamos a par dos fatos. Acho que não posso culpar Verne por ter me chamado de velha fofoqueira quando tentei puxar conversa a respeito, na hora em que foi almoçar, um pouco atrasado. Ele está

bastante transtornado com essa história. Envelheceu 10 anos. Gostava muito dos Hammond. Depois que chegou àqui, procurando trabalho, antes de ficarmos noivos, muitas vezes saíamos os quatro juntos: Jack e Imogênia, ele e eu

— E não quer falar a respeito. — Disse McCabe. — Obrigado pelo favor, senhora Warner.

— Mas não te prestei favor!

Ela riu, oferecendo um copo de papelão cheio de amendoim. O pensamento de McCabe estava bastante confuso quando saiu ao carro. Foi descendo lentamente na rua Principal. O escritório de Warner estava escuro mas havia uma luz acesa no consultório de doutor Collier, um pouco mais adiante.

McCabe entrou. O dentista e Knapperman, entre caixas de fichas dentárias, pareciam tão cansados quanto ele se sentia. — Experimentes Tilliman, Jack. — Disse McCabe. Doutor Collier leu rapidamente os nomes na frente das caixas. Encontrou o nome procurado e removeu as caixas de cima. Folheou rapidamente as fichas e retirou uma. A examinou rapidamente e depois exclamou:

— Bem na mosca! Knapperman descansou, acocorado.

— Obrigado por nos poupar todo o trabalho, Mac. Mas aonde iremos agora?

— Procurar Verne Warner.

— Posso te poupar a viagem. — Disse Verne Warner, do corredor escuro. McCabe se virou rapidamente.

— Não te preocupes, Mac. — Acrescentou Warner, a voz cansada. — Sei que

não posso dominar vós três. Se encostou na soleira da porta, respirando fundo.

— Observei do escritório durante toda a tarde e princípio da noite, sentindo e

sabendo que estavas te aproximando. Eu não deveria ter perdido a cabeça nesta

manhã. Seria melhor que deixasse Fred Schmidt em paz. Afinal só poderia falar

sobre os dentes de Jack. Ele

Hammond mortos.

ninguém poderia adivinhar algo, não com todos os

— Com exceção talvez duma pessoa. — Sugeriu McCabe.

Verne Warner murmurou e sacudiu a cabeça.

— Agnes poderia adivinhar que foi Jack quem encontraste nesta manhã. Mas

Verne Warner murmurou e sacudiu a cabeça. — Agnes poderia adivinhar que foi Jack quem encontraste

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nada mais descobriria. Somente Imogênia poderia adivinhar mas está morta. Deveria ter me lembrado de tudo isso. Não podia perder a cabeça. McCabe respondeu a sua própria pergunta com outra:

— O que Imogênia poderia ter adivinhado? Estavas esperando te casares com

ela?

Verne Warner fechou os olhos.

— Era tempo difícil. Eu estava sem dinheiro, não tinha emprego que durasse.

Seus pais tinham dinheiro. Pensei que sentisse algo por mim, mas acho que estava apenas me usando pra se certificar de Jack, a quem conhecia desde criança. Jack e eu acabamos tendo uma discussão por causa dela. Ficamos cada vez mais furiosos. Saíramos pra caçar coelho e

— Deste um tiro nele e depois removeste tudo o que pudesse permitir a

identificação. — Interveio McCabe. — Mas não sabias das dentaduras. O

enterraste num dos campos dos Hammond, sabendo que dificilmente seria arado.

— Há mais de 30 anos. — Murmurou o corretor. — Esqueci onde o pusera, até

que o desenterraram nesta manhã. Sabia que era ali, mas esperava Tornou a sacudir a cabeça.

— Há mais de 30 anos. Acho que Imogênia nunca falou a Agnes a respeito de

meu sentimento. Mas também não tinha do que desconfiar, depois que enviei o telegrama com o nome de Jack, de Siátol. E nada do que fiz adiantou. Ela parou de me ver, parou de ver Agnes. Nem foi a nosso casamento. Fiquei com medo, até Imogênia morrer, de que retomasse a amizade com Agnes.

E se elas somassem dois mais dois McCabe se sentia extremamente cansado.

— Acabei de conversar com tua esposa. Nada desconfia ainda.

— Eu torcia pra que não desconfiasse. — Verne Warner fitou McCabe nos

olhos. — Poderias deixar assim?, Mac.

— Verne, cometeste dois assassínios. — Disse McCabe, falando bem devagar.

— Talvez eu não pudesse fazer muita coisa em relação a Tilliman sem tua

confissão. Mas serás levado a julgamento por ter matado doutor Schmidt. Doutor Collier assentiu, sombriamente.

— Não, Mac. Não teu tipo de julgamento. — Murmurou Verner Warner. — Já me submeti a meu julgamento.

Respirando com dificuldade, levou a mão à barriga e começou a cair. McCabe o segurou, o ajudando a descer até o chão.

— Que veneno tomaste? Knapperman, chames doutor Coolidge.

— Não. — Balbuciou Verne Warner, a voz engrolada. — Tarde demais pra ele.

Mas Mac, tentes, por favor, por Agnes. Uma e meia hora depois terminou uma conferência no consultório apinhado de

doutor Collier. Além de McCabe, o dentista e Knapperman, lá estavam o prefeito,

o médico legista e doutor Coolidge.

— Nunca se conhece direito as pessoas. Não é? — Comentou prefeito Bronson, suspirando. — Um cidadão eminente, esteio da igreja e

— E Agnes. — Murmurou doutor Coolidge. — Feliz no casamento e nunca

desconfiando. Será um choque e tanto.

— A morte, sob qualquer forma, é sempre um choque. — Disse McCabe. —

Então estamos todos de acordo? Foi demais pra Verne Warner, ajudando a esclarecer o caso?

— Agnes sabe que há algum tempo insisto pra ele descansar. — Lembrou doutor Coolidge.

a esclarecer o caso? — Agnes sabe que há algum tempo insisto pra ele descansar. —

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McCabe olhou, inquisitivo, a Doe Bigbee, o médico legista.

— No que nos diz respeito, os dois crimes estão solucionados. Divulgar os fatos

só causará prejuízo a pessoas inocentes. Sendo assim

Declararei, publicamente, que o esqueleto encontrado nesta manhã não pode ser

reconhecido. E quanto a doutor Schmidt McCabe interveio:

— Provavelmente estava enchendo o lampião com gasolina pra sair numa

pescaria. A gasolina pegou fogo de repente e aspirou o vapor. Quando os bombeiros chegaram a casa inteira já estava em chama. Knapperman falou, hesitante:

— Conseguiremos manter todos os fatos em segredo, em benefício de senhora

Warner? Doutor Collier assentiu. McCabe presenteou Knapperman com um rápido sorriso.

— Quem não se mantiver calado poderá descobrir que o caso lhe proporcionou

alguns dentes quebrados. Rangendo os próprios dentes, mas não se sentindo muito cansado, McCabe saiu pra transmitir a Agnes Warner a notícia de que seu marido sofrera um ataque

cardíaco fatal.

certo.

hum

Está

saiu pra transmitir a Agnes Warner a notícia de que seu marido sofrera um ataque cardíaco

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AA eessssêênncciiaa ddaa jjuussttiiççaa

Hal Ellson

OO caixão era simples, rematado na oficina de Carlos Martínez, sem enfeite, a madeira nua, pinho macio. A implacável luz solar o fustigava enquanto os homens o carregavam na rua miserável, pisando a poeira, as pedras e a

luminosidade dispersa das cascas de tangerina murchando ao sol. Um dia de fogo mas naquela terra de sol permanente era comum. Não mais que

a morte, os pobres, nos barracos e cabanas de adobe, sofriam o flagelo com terrível freqüência. Os enterros eram comuns e todos do mesmo tipo. Um caixão de pinho simples pro falecido, quatro homens pra o carregar e um pequeno grupo de gente acompanhando. Uma vasta multidão acompanhou o caixão de Rosa Belmonte, a terceira garota na cidade a morrer violentada. Cachorros famintos, com as costelas expostas, crianças e mendigos, entre a multidão, emprestavam ao cortejo um ar carnavalesco que se diluía nos rostos sombrios dos adultos e no silêncio abafado sob o qual a raiva aguardava a erupção.

A polícia o pôde sentir, um fotógrafo de jornal o fixou com sua objetiva. O

detetive Fiala estava consciente do fenômeno mas despreocupado com a multidão

como tal. Seus olhos procuravam apenas um homem, o assassino, que podia estar espreitando ali, por sentimento de culpa ou disposição mórbida.

Nenhum rosto lhe atraiu a atenção, até que divisou a limusine, com a multidão se dividindo em torno. O chefe de polícia, José Santiago, estava sentado ao lado do motorista, o rosto estufado e moreno, óculos escuros escondendo os olhos azuis incongruentes, que pareciam pedras gêmeas e refletiam a natureza básica do homem. Sem o uniforme poderia ser o homem que estou procurando, pensou Fiala, se virando e seguindo com a multidão soturna, que se recusava a tomar conhecimento da violência extrema do sol.

O funeral transcorreu sem incidente e a polícia ficou aliviada, o chefe Santiago

satisfeito. Seu motorista o levou de volta ao prédio da municipalidade, onde ficava

a prefeitura.

O telefone tocou no instante em que entrou na sala, acompanhado por capitão

Torres. Atendeu, escutou um momento e depois dispensou capitão Torres, com um aceno de mão. Franzindo o rosto agora, falou com o interlocutor, Vítor Quevedo,

prefeito da cidade e aquele que o fizera. Os dois eram, de certa forma, amigos mas

a conversa foi rigorosamente profissional.

O assassínio de Rosa Belmonte, com o assassino solto, como acontecera nos

dois casos anteriores, acarretara severas críticas à polícia, que refletiram em

Quevedo, o expondo às maquinações dos inimigos políticos. Era essa a essência da queixa de Santiago, junto à exigência brusca de que fizesse algo depressa.

— Fazer o quê? — Perguntou Santiago.

— Encontres o assassino antes da meia-noite.

Atônito, Santiago hesitou, balbuciou algo incompreensível e finalmente conseguiu dizer:

— Mas, Vítor

Quevedo o interrompeu rudemente:

— Estou ficando embaraçado, politicamente e de todas as outras formas. Se queres continuar chefe de polícia descubras o assassino. Se não, estarás liquidado.

e de todas as outras formas. Se queres continuar chefe de polícia descubras o assassino. Se

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Suando profusamente, Santiago desligou e se arriou na cadeira. Lentamente, as mãos trêmulas, acendeu um cigarro e dispersou uma nuvem de fumaça. O pensamento eram um caos, o rosto moreno parecia inchado a pique de estourar. Mas, pouco a pouco, a agitação interior foi se reduzindo. Atrás dos óculos escuros os olhos frios se iluminaram, enquanto um rosto entrava em foco em sua mente. Esmagou o cigarro, se levantou, abriu a porta, chamou capitão Torres e lhe deu a ordem:

— Prendas Manuel Domingo pelo assassínio de Rosa Belmonte.

As atividades criminosas de Manuel Domingo eram há muito conhecidas da

polícia

mas assassínio? Capitão Torres franziu as sobrancelhas em surpresa.

— Tens certeza de que é o homem certo?

— Está duvidando de mim ou de minha fonte de informação? — Indagou Santiago, confirmando a autoridade e insinuando que o telefonema que acabara de receber fora a voz dum informante de confiança. Capitão Torres corou e recuou até a porta, donde disse:

— Prenderei Manuel Domingo pessoalmente.

Às 9h daquela noite um céu negro ameaçava a cidade e os jacarandás se agitavam a um vento irregular que soprava das montanhas, onde os relâmpagos amarelados riscavam os céus vazios. Atrás do prédio da municipalidade, quatro bares estavam virados à praça, vozes elevadas emergindo de cada um. A noite de sábado estava começando e os músicos se refestelavam nos bancos da praça, garotos descalços engraxavam sapato, vendiam rosa vermelha como sangue e branca como pomba, em bandeja de papelão, esquecendo Rosa Belmonte, como todo mundo. Foi nesse cenário que capitão Torres chegou com três de seus homens, depois duma busca intensa e infrutífera em todos os pontos habituais do criminoso Manuel Domingo. Capitão Torres estava convencido de que Domingo fugira da cidade quando seus olhos, por acaso, se viraram na direção dum banco em que dois garotos disputavam o privilégio de engraxar o sapato de detetive Fiala. Concedendo um sapato a cada engraxate, Fiala levantou os olhos pra confrontar capitão Torres e seus três homens. Os homens eram inócuos, enquanto capitão Torres era um garotinho arrogante.

Só que não era essa sua atitude agora. Ele precisava de ajuda e Fiala, a quem desprezava e que o desprezava, poderia fornecer a informação de que precisava tão desesperadamente. Torres anunciou:

— Estou procurando Manuel Domingo. Sabes, por acaso, o paradeiro?

Com um sorriso desdenhoso, Fiala acenou, com a cabeça, a um bar no outro lado da rua.

— Manuel Domingo está lá dentro. O prenderás?

— Pelo assassínio de Rosa Belmonte. — Respondeu capitão Torres, se virando

em seguida. Fiala continuou sentado onde estava. Meio minuto depois, Manuel Domingo passou a porta do bar, no outro lado da rua, acompanhado por capitão Torres e seus três homens. Todos os cinco atravessaram a praça e entraram no prédio da chefatura. Contrafeito, Fiala jogou longe o cigarro e olhou o grupo de homem que saíra do bar no outro lado da rua. A ira ressoava em suas vozes, a notícia se espalhou rapidamente na praça: Manuel Domingo fora preso pelo assassinato de Rosa Belmonte.

suas vozes, a notícia se espalhou rapidamente na praça: Manuel Domingo fora preso pelo assassinato de

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Sob o céu negro e furioso uma multidão começou a convergir à chefatura de polícia. Mas era tarde demais pra dar vazão ao sentimento, pois o breve interrogatório de Manuel Domingo já fora concluído. Protegido pela polícia, saiu à calçada e foi rapidamente introduzido num carro esperando. Chefe de polícia Santiago e o capitão Torres embarcaram num segundo carro. Com uma escolta de 10 motociclistas os dois carros partiram ruidosamente ao local do crime, no deserto, a vários quilômetros da cidade. Os veículos não demoraram a o alcançar, os faróis ofuscantes dos carros e motocicletas focalizados numa iúca 4 alta ao lado da estrada. Fora ali que Luís Espina, que colhia fibra de planta do deserto, encontrara o corpo de Rosa Belmonte. Quando Manuel Domingo saiu do carro o rosto assumiu expressão fantasmagórica, talvez por causa dos faróis, talvez por medo, estando no local do crime. O que quer que sentisse, nada disse. Parecia atordoado. Uma ordem brusca de capitão Torres fez os guardas se espalharem num semicírculo, empunhando as armas, a fim de prevenir tentativa de fuga. Isso feito, capitão Torres foi avançando na beira da estrada, junto a Santiago e Manuel Domingo. Se postou ali, obedecendo a uma ordem, enquanto o prisioneiro e Santiago continuavam até a iúca. Manuel Domingo se virou e falou em primeira vez desde que entrara no carro. Estava apavorado, o céu negro parecia cada vez mais ameaçador, não confiava em Santiago.

— Me tires desta enrascada!

— Cales a boca, seu idiota! Isto não passa de rotina. Foste acusado.

— Quem me acusou? Digas quem foi!

— Cales a boca e prestes atenção.

Manuel Domingo obedeceu. Seu peito arfava, o queixo estava erguido. De repente, saiu correndo, numa tentativa de escapar. Calmamente, Santiago disparou da altura do quadril. Domingo parecia estar correndo no ar. O peso do corpo o levou a diante, depois as pernas vergaram e se estatelou no chão do deserto. Momentos depois Santiago estava postado por cima dele, disparando outro tiro, enquanto os demais se aproximavam. A noite negra envolveu o cenário desolado, enquanto os veículos voltavam à cidade. Santiago olhou o relógio no painel e se recostou. Ainda era muito cedo, o problema já estava acertado. O prefeito não mais teria motivo pra ficar

embaraçado. Enquanto Santiago sorria a si mesmo, capitão Torres se virou e disse:

— Oficialmente, sabemos agora que Manuel Domingo era culpado de assassinar Rosa Belmonte. Mas

— Achas que não matou a garota?

— O senhor acha?

— Não.

— Então por que a tentativa de fuga?

4 Iúca, iúca (Yucca filamentosa): sf Gênero de plantas ornamentais da família das liliáceas, da América. Permanece sempre verde e não perde as folhas a cada ano. Existem muitas variedades de iúca. Arbusto perene do gênero iúca (Yucca), com cerca de 40 espécies, nativa da América Central e do sul de Eua. As folhas sempre verdes, em forma de espada, nascidas em verticílios terminais, são resistentes, macias e geralmente têm um espinho agudo no topo, como seus parentes da família agaviácea (Agavaceae), o sisal e a pita. As flores brancas, em forma de sino, que formam espigas densas que chegam a 2m de comprimento, têm associações simbióticas notáveis cum tipo de inseto (Tegeticula maculata). Não confundir com o jucá (Caesalpinia ferrea Mart), cesalpinácea. Árvore mediana, comum na Amazônia mas originária do nordeste do Brasil. Nota do digitalizador http://www.kinghost.com.br/, http://pt.wikipedia.org/wiki/I%C3%BAca e http://alcoasis.tripod.com/plantas2.htm

http://www.kinghost.com.br/ , http://pt.wikipedia.org/wiki/I%C3%BAca e http://alcoasis.tripod.com/plantas2.htm 32

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— Eu lhe disse que não poderíamos o proteger da multidão, que eu daria cobertura pra fugir, pois sabia que era inocente.

— Mas atiraste nele.

Santiago ajeitou um cigarro nos lábios.

— Não tive opção.

Acendeu o cigarro, enquanto o comboio prosseguia às luzes da cidade. No início da manhã o corpo do assassino Manuel Domingo, nu, a exceção do lençol que cobria a parte inferior, estava estendido numa mesa comprida, sob uma árvore, numa pequena praça, perto do centro da cidade, pra que todos vissem e se acautelassem. As moscas chegaram com o calor, a claridade trouxe as multidões. Durante o dia inteiro os habitantes da cidade desfilaram junto ao cadáver. O corpo foi retirado ao anoitecer, sem ter alguém pra o chorar.

O caso poderia ter acabado ali, enterrado com Manuel Domingo, se não fosse

detetive Fiala, que tinha certeza duma coisa: Domingo não matara a garota. Com o assassino ainda solto, Fiala intensificou a investigação, que logo provou ser frutífera. Foi ao prédio da municipalidade e pediu pra falar com prefeito Quevedo. Foi informado de que o prefeito saíra pra almoçar com vários homens de muita importância.

Obtendo o nome do restaurante, Fiala foi até lá, se sentou à mesa ao lado e se inclinou, dizendo, em voz baixa, pra que somente Quevedo ouvisse:

— Precisamos falar por um momento. Tenho um assunto que pode ser de grande importância pessoal pra ti.

A atitude era tão solene que Quevedo prontamente assentiu. Depois que ele e

seus companheiros terminaram de comer, o prefeito arrumou uma desculpa pra permanecer no restaurante e foi se sentar à mesa de Fiala.

— Mas qual é essa questão tão importante que me diz respeito pessoalmente? — Perguntou ele, na maior ansiedade.

— É importante demais pra ser discutida aqui.

— Neste caso, vamos a meu gabinete.

Fiala assentiu. Os dois se levantaram e saíram na porta. Poucos minutos depois estavam sentados frente a frente, nos dois lados da mesa de Quevedo, toda esculpida a mão. O prefeito ofereceu um cigarro. Fiala recusou e apresentou o caso, informando bruscamente que o chefe de polícia assassinara Rosa Belmonte.

— Uma acusação muito grave. — Disse Quevedo, empalidecendo. — Podes

provar? Fiala assentiu e relatou como fora procurar Luís Espina, o colhedor de fibra que

encontrara o corpo da garota morta. Com uma sucessão de perguntas hábeis,

conseguira fazer com que o velho acabasse revelando que testemunhara o crime.

— Se isso é verdade, por que Espina não se apresentou antes pra fornecer a informação?

— Não podia porque não reconheceu Santiago no momento do crime. Sabia

apenas que o assassino guiava um cadilaque azul e branco. Isso era significativo.

Continuei o interrogando e deu uma descrição nítida do motorista, embora não fornecesse a identidade. Só chegou a isso depois, quando o pressionei. Confessou que presenciou o espetáculo da noite passada. Viu Santiago matar Manuel Domingo. Foi nessa ocasião que o reconheceu como o assassino de Rosa Belmonte. Quevedo assentiu e disse:

— A palavra dum velho confuso. O depoimento não resistiria num julgamento.

Além do mais, Domingos admitiu a culpa no local do crime, ao tentar escapar.

não resistiria num julgamento. Além do mais, Domingos admitiu a culpa no local do crime, ao

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— Admitiu sua culpa? — Fiala sorriu e sacudiu a cabeça. — Esse era o único

fato que eu sabia com certeza desde o começo: Que não era culpado. Manuel Domingo não poderia ter matado Rosa Belmonte. Não estava na cidade naquele dia. Sei disso porque o segui até São Rafael, na tentativa de o prender numa de suas atividades ilegais, o tráfico de marijuana. Ficou num bar em São Rafael até a

noite mas seu contato não apareceu. Talvez soubesse que eu o seguira. Seja como for, a operação não se consumou. Voltou à cidade às 9h. Nessa altura Rosa Belmonte já estava morta. Quevedo já estava convencido da veracidade da acusação de Fiala, mas ainda havia algo que não estava muito claro.

— Por que Santiago escolheu Domingo pra vítima?

Fiala tornou a sorrir e esclareceu a questão.

— 1 — Disse, erguendo um dedo. — A reputação de Domingo era péssima, a

acusação correspondia a seu caráter. 2, Santiago e Domingo eram sócios. Domingo controlava a zona do meretrício, com a ajuda de Santiago. Discutiram por causa de dinheiro. Santiago disse que Domingo o estava roubando. E provavelmente estava mesmo. Assim, Santiago achou duplamente conveniente o eliminar. Quevedo assentiu mais uma vez. Estava tudo claro agora. Claro até demais.

Franziu o rosto, empalideceu. Se revelado, o ato terrível de Santiago ameaçaria sua própria posição. Apavorado, seus olhos se encontraram com os de Fiala. O detetive lera seus pensamentos e compreendia sua situação difícil.

— Claro que Santiago deve ser levado à justiça mas o prender o deixaria numa situação terrível.

Bastante abalado, Quevedo assentiu. Mas ainda estava alerta. A declaração de Fiala insinuava mais do que dizia.

— O que sugeres? — Indagou Quevedo.

Fiala passou a língua no lábio inferior.

— Fales com Santiago. Apresentes os fatos.

— E se os negar?

— Fiala

fez uma pausa, dando de ombros. — não poderás garantir sua segurança contra a

multidão. Tenho certeza de que entenderá.

— Se isso acontecer, digas que será preso. Depois do que aconteceu

— Entender o quê?

— O chames e verás.

Quevedo olhou o telefone e hesitou, dando a Fiala a oportunidade de se

levantar.

— Tomarei um café. Estarei de volta daqui a pouco.

Deixou Quevedo sozinho pra transmitir o terrível recado. Fiala voltou 10 minutos depois ao escritório do prefeito. Quevedo ainda estava transtornado. Nada

disse. Fiala se sentou e estendeu a mão ao maço de cigarro. O telefone tocou nesse momento. Quevedo atendeu, escutou um momento, repôs o fone ao gancho e anunciou:

— Santiago acaba de se matar com um tiro.

Tendo previsto isso, Fiala se limitou a dar de ombros e comentar:

— Era óbvio. Não tinha opção.

Nessa altura Quevedo via Fiala sob uma nova luz. O homem era excepcionalmente esperto e o salvara de seus inimigos.

— Sou agora teu devedor. — Disse ele.

— Foi nada. — Murmurou Fiala.

— Claro que sou. — Insistiu Quevedo. — Além do mais, não tenho um chefe de

— Foi nada. — Murmurou Fiala. — Claro que sou. — Insistiu Quevedo. — Além do

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polícia. Aceitarias o cargo?

Fiala sorriu e, pra consternação de Quevedo, sacudiu a cabeça.

— Mas por que não? — Disse o prefeito. — Não estou entendendo. Penses no que significa ser o chefe de polícia.

— Nesta cidade significa ter muito poder

— Poderia te corromper?

— Sou feito de carne e osso. Talvez pudesse, embora eu duvide muito.

— Então por que recusas?

— Porque o trabalho não me interessa. É apenas isso. Nada mais.

e o poder corrompe.

Fiala se levantou e acendeu um cigarro, encaminhando se à porta. Ainda aturdido, Quevedo o observou em silêncio um instante, antes de dizer:

— Mas deves querer algo. O que estou devendo?

A mão na maçaneta, Fiala se virou.

— Nada. Apenas sejas mais cuidadoso ao escolher o novo chefe de polícia.

A mão na maçaneta, Fiala se virou. — Nada. Apenas sejas mais cuidadoso ao escolher o

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UUmm ffaavvoorr

Stephen Wasylyk

— Escutes, senhor Stoneman. — Disse a voz. — Soube que alguém está

pagando um bom dinheiro pra cuidar dum cara chamado Scott, que trabalha no

aeroporto. Não me disseste que era teu amigo? Meus dedos começaram a rabiscar e desenhar um crânio e ossos cruzados, no

bloco de anotação. Era extremamente improvável que alguém quisesse matar Scott, mas a voz arquejante e pontuada de fungadela jamais errara.

— Digas quem, Fanhoso.

— Não sei. Te devo um favor e estou pagando. É só isso. Continues a partir deste ponto, cara.

O telefone ficou mudo. Me recostei na cadeira, os nervos do estômago contraídos. O veranico chegara à cidade, o sol convertia o nevoeiro perpétuo numa neblina dourada. Até o telefonema de Fanhoso, fora um dia sossegado e agradável. Agora, eu tinha de entrar em ação depressa, mas me sentia como um cego solto de repente numa sala que não conhecia. Um pombo pousou no peitoril da minha janela, esticou a cabeça em minha direção alguns segundos, concluiu que um advogado de aparência preocupada, na meia-idade, não era tipo que costumava distribuir milho e se afastou voando. O observei descrever uma curva graciosa pra descer. Há 22 anos, numa tarde ensolarada e nebulosa similar, eu mergulhara tão graciosa e estupidamente como aquele pombo. Jorge Scott abatera um ME-109 que estava em minha cauda, uma dívida que eu nunca tivera a oportunidade de pagar. Se Fanhoso Grogan me devia um favor o mantendo fora da prisão, eu certamente devia outro favor a Scott por algo muito mais importante. Apertei o botão de minha linha particular e disquei a Scott Flying, no aeroporto municipal. A voz de Scott estava divertida:

— A telefonista disse que és João Stoneman mas não posso acreditar. Conheci

outrora um João Stoneman, mas há mais de um ano que não falo consigo. Acho que foi abatido a tiro por um marido irado.

— A mulher com quem te casaste não quer o marido se relacionando com um

solteirão indecoroso. — O crânio e os ossos cruzados no bloco me fitavam. —

Como vão as coisas, Scott? Alguma novidade?

— Não. A mesma rotina de sempre: Um dia após outro. Se o tempo está bom

voamos. Se não está vamos até casa e fico me preocupando com o dinheiro que estou perdendo.

— Nada aconteceu de excepcional?

— O que chamas de excepcional?

A voz de Scott estava agora um tanto perplexa.

— Aconteceu na semana passada algo que nunca ocorrera antes?

— Aconteceu mesmo. Um idiota quis me comprar a companhia. Não há

possibilidade. Passei 20 anos desenvolvendo a firma e só agora, que a situação está boa, posso me sentar e desfrutar o lucro sem muito trabalho.

— Quem queria comprar?

— Não sei. A oferta foi apresentada por intermédio dum advogado chamado C. J. Mathews, um homenzinho gordo e careca, de olhos astuciosos.

foi apresentada por intermédio dum advogado chamado C. J. Mathews, um homenzinho gordo e careca, de

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— Conheço o homem. Mais algo fora do normal?

— Tive lucro na semana passada, embora o tempo estivesse ruim.

— Não saias daí. Voltarei a telefonar a ti.

— Ei, esperes um pouco! Não podes ligar a mim uma vez por ano, fazer uma porção de perguntas estúpidas e depois desligar!

— Claro que posso. Escutes só.

Desliguei e depois chamei minha secretária.

— Me ligues a um advogado chamado C. J. Mathews.

Me recostei pra pensar. Scott era um homem tranqüilo e popular. Um herói de guerra recompensado pela cidade, há muito tempo, com um arrendamento a longo prazo pra operar seu serviço de vôo no aeroporto municipal. Um cidadão

trabalhador e compenetrado. Um improvável candidato a ser assassinado.

O telefone tocou e me apresentei a Mathews como o advogado de Scott. Não

estava autorizado a revelar o nome do cliente interessado na Scott Flying e a oferta fora retirada. Anotei mentalmente um ponto pra Stoneman, sabendo que uma oferta legítima jamais seria retirada tão depressa.

O relógio na mesa passou das três e meia. Empurrei a cadeira a trás e me

encaminhei à sala ao lado. Mathews não podia me revelar quem era seu cliente, mas nada havia que me impedisse de descobrir por conta própria.

Bati de leve e abri a porta. O velho cavalheiro se virara à janela e ao sol quente, se refestelara confortavelmente na cadeira, cruzara as mãos sobre a barriga e acabara adormecendo. Bati em seu ombro. Um olho se abriu.

Não podes provar, além duma dúvida razoável, que eu estava dormindo.

Mas posso oferecer uma forte argumentação.

O

nome era Martin Chetkos, o homem que me pegara diretamente na faculdade

de direito e me ensinara tudo o que sabia sobre direito criminal, o que não era pouca coisa. Como recompensa por eu ter aprendido tão bem, me fizera seu sócio e

me deixava cuidar de todo o trabalho, enquanto repousava seus 70 anos na confortável cadeira de couro e fazia crítica.

— C. J. Mathews, de Mathews, Crane etc. O culpes por isso. É um grande homem?

— É, sim.

— O cliente teria de ser importante pra que procurasses pessoalmente um amigo meu, com uma oferta pra comprar sua firma. Não é? Os olhos de Martin Chetkos se estreitaram, brilhando de interesse.

— Seria razoável supor que se trata do cliente mais importante da firma, um homem chamado Bessinger. Tentou comprar a firma de teu amigo?

— É essa a pressuposição.

Falei do telefonema de Fanhoso Grogan e de minha conversa, via telefone, com

Scott. Se empertigou e coçou o nariz, um gesto automático quando está satisfeito ou excitado.

— Creio que tua pressuposição é válida. Pegues teu chapéu. Meu motorista nos levará. Me recuso a andar nessa atrocidade estrangeira desconfortável e espalhafatosa que chamas de automóvel.

— Aonde iremos?

— Falar com Scott. Creio que está numa encrenca mas provavelmente não

quererá te ouvir, já que é teu amigo. Mas me escutará e sempre me recuso a contar

a mesma história duas vezes. Durante a viagem de meia hora ficou sentado com um vestígio de sorriso no

a contar a mesma história duas vezes. Durante a viagem de meia hora ficou sentado com

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rosto, murmurando, em determinado momento, algo que parecia Tudo acontece a

quem espera. Chetkos foi quase rude no escritório de Scott. Se acomodou na cadeira dele, assumiu o comando da conversa, as mãos cruzadas sobre a bengala, os dedos tamborilando incessantemente. Fez um gesto a mim.

— Digas a senhor Scott por que estamos aqui.

Dei a informação e Scott riu. Chetkos ergueu um dedo encarquilhado.

— Não rias, senhor Scott. A fonte de senhor Stoneman é de confiança. Alguém tenciona te matar. Alguma vez já te encontraste com senhor Bessinger? Scott sacudiu a cabeça.

— Penses bem, senhor Scott. Bessinger é um homem baixo, de cabelo preto e

liso, olhos pretos e bem chegados, voz estridente. Parece ter tua idade, embora seja 20 anos mais velho. A roupa é sempre dum cinza-escuro. Scott estalou os dedos.

— O cara da semana passada! — Olhou a mim. — Te lembras de que falei que o

tempo estava péssimo? Estava tão fechado numa manhã que nada podia sair do solo. Mas ele queria voar a algum lugar, de qualquer maneira. Tentei explicar que não podia, mesmo que conseguisse encontrar a pista. Mas era como se eu estivesse

falando a uma parede. Ficou dizendo, o tempo todo, que eu indicasse o preço que queria.

— O que disseste a ele?, senhor Scott.

Chetkos dava a impressão de que já conhecia a resposta.

— O que mais eu podia dizer? Falei que ele estava doido. Chetkos deixou

escapar um longo suspiro.

— Eu sabia que devia ser algo assim. Te direi a respeito de Bessinger, senhor

Scott. A família Bessinger tem uma longa história de distúrbio mental. O pai foi

internado num sanatório e a mãe se matou quando ele ainda era pequeno. Ele cresceu com o apelido de Louco Bessinger. Um dia brigou e matou outro menino

que o chamara assim. Foi considerado homicídio involuntário e acidental. A esposa morreu há 20 anos, em circunstância que nunca foi muito bem explicada. O dia quente estava quase terminando, as nuvens bloqueando o sol. O ar na janela do escritório parecia subitamente frio.

— Houve muitas histórias a respeito dele, ao longo dos anos. — Continuou o

velho, calmamente. — Nunca foram confirmadas, é claro. Contarei uma, já que a situação é similar. Bessinger e eu outrora pertencemos ao mesmo clube. Numa noite, no calor duma discussão sobre política, um homem chamou Bessinger de maluco. Poucos dias depois recebeu uma oferta pra vender sua companhia. Era tão atraente que não podia recusar. Mas jamais recebeu toda a quantia acertada. O comprador era Bessinger. Se recusou a pagar, obrigando o homem a o levar ao

tribunal. Era justamente o que Bessinger queria. Podia se dar ao luxo de sustentar uma batalha judicial durante anos e foi o que fez. O homem finalmente ganhou o julgamento, cinco anos depois mas foi morto na noite seguinte, por um assaltante, quando atravessava um estacionamento.

— Estás querendo me dizer que esse homem sai matando as pessoas que o chamam de maluco? Scott estava obviamente cético.

— Estou dizendo apenas que acontecem coisas às pessoas que chamam

Bessinger de maluco.

— Como consegue escapar impune?

— Planejamento e dinheiro. — Respondeu Chetkos. — Senhor Stoneman te

de maluco. — Como consegue escapar impune? — Planejamento e dinheiro. — Respondeu Chetkos. — Senhor

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poderá dizer que há uma grande distância entre suspeita e prova.

— Ora, senhor Chetkos, se o que dizes é verdade, ele seria responsável por muitos assassínios. Acho isso muito difícil de acreditar.

— Não falei que era necessário que Bessinger matasse essas pessoas. Tenho

certeza de que na maioria das vezes se contentou em as arruinar. Mas mesmo que

as tivesse matado, isso não deveria te espantar. Costumas ler jornal. Sabes que houve caso em que alguém, sem motivo aparente, matou seis ou oito pessoas inocentes, às vezes até uma dúzia. Bessinger é tão diferente assim? Scott sacudiu a cabeça.

— Ainda não posso acreditar.

— Examines teu caso, senhor Scott. Acreditamos que Bessinger tenciona

mandar te matar. Contudo não formulou ameaça aberta, não efetuou ato pra te fazer desconfiar. Suponhamos que te acontecesse um acidente. Quem o poderia

ligar a um homem que te falou apenas uns poucos minutos, um homem cujo nome nem sequer sabias? Scott nada respondeu. Disse Chetkos, gentilmente:

— Estás vendo? Agora acreditas em mim.

— O que devo fazer? O procurar e pedir desculpa? Chamar a polícia?

— Nenhuma das duas coisas. Um pedido de desculpa seria ignorado. Além do

mais as engrenagens já foram acionadas. A polícia não pode ajudar, pois nenhum

crime foi cometido até agora.

— O homem deveria ser internado num manicômio. — Murmurou Scott.

— Há 40 anos, senhor Scott, que eu e uns poucos outros procuramos alguém pra proporcionar o motivo e assinar os documentos.

— E por isso devo me apresentar como um pato pra ser abatido numa galeria de tiro-ao-alvo? — Comentou Scott. Chetkos se virou a mim.

— Posso presumir que teu cérebro analítico já está em funcionamento?

— Até certo ponto. — Respondi. — 1º: Se Bessinger contratou alguém, as

chances são de que tenha determinado que deve parecer um acidente. Não quereria um homicídio ostensivo e a conseqüente investigação. 2º: Mesmo que fosse lógico fazer Scott cair durante um vôo, há três problemas nisso. Ele precisaria dum especialista, a administração federal de aeronáutica se envolveria e, quase certamente, a cidade ficaria muito interessada no caso, já que Scott opera dum

prédio municipal. Creio que podemos excluir tudo acontecendo aqui ou relacionada a vôo, pois seria perigoso demais pra Bessinger. 3º: A outra base fixa da qual Scott opera e onde pode ser sempre encontrado é sua casa. Não creio que assassino em potencial disponha de tempo ou vontade pra seguir Scott em toda parte, esperando a melhor oportunidade. Portanto, eu diria que procurará Scott em sua própria casa. Quarto, uma projeção lógica seria a de que tentará o mais depressa possível, já que não há sentido em esperar. Talvez mesmo nesta noite. Parei um instante pra respirar e depois rematei:

— Achas que foi uma análise penetrante?

— Superficial no máximo. — Disse Chetkos. — Pessoalmente, não creio que

será nesta noite. Tanta pressa não é característica de Bessinger. Ele se levantou, acrescentando:

— Não vejo motivo pra minha presença continuada. Sugiro que senhor Stoneman passe esta noite em tua companhia, senhor Scott. Tomará todas as precauções que se tornarem necessárias. Amanhã providenciaremos uma proteção mais profissional. Se virou a mim.

precauções que se tornarem necessárias. Amanhã providenciaremos uma proteção mais profissional. Se virou a mim. 39

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