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As minhas Memórias de Cabeceiras!

As minhas Memórias de Cabeceiras! José Luciano Gonçalves Basto * (Bombarral) Os pontos de encontro na

José Luciano

Gonçalves Basto*

(Bombarral)

Os pontos de encontro na Praça da República

Gostava imenso de recuar setenta e um anos e conservar os nove que então possuía, ouvindo o sino do Mosteiro de São

Miguel de Refojos, em Cabeceiras de Basto, que se dizia ter sido adquirido em Mafra, já por uma soma assinalável para a época. Quem o badalava naquela altura, anunciando a morte de alguém ou alertando para o horário das Missas, era o velho «Revolta», que um dia me convidou a acompanhá-lo, subindo ambos a custo, os inúmeros degraus de pedra, que davam acesso ao cimo do campanário e a pedir-me que tivesse cuidado com as cordas depositadas no chão, ligadas ao badalo do respectivo sino, as quais, enroladas numa perna,

podiam projectar, o mais distraído, a setenta e tal metros de altura, se por acaso, o sino estivesse a tocar. Ele mesmo prendia as cordas a pregos resistentes na parede e só as puxava com o desvio do corpo, sempre com muito cuidado.

E por falar em sino, certo dia perguntaram ao meu

saudoso pai, qual era o instrumento de cordas, que sabia tocar, cuja resposta imediata foi sino! Como o meu espírito ainda está em franco movimento, com solidez de raciocínio, recordo-me de tantas pessoas que conheci na Praça da República, que é impossível enumerar, mas de certeza que foram milhares, durante o período de permanência na minha terra natal até 1961 e para quem nasceu no ano de 1929, a percentagem de pessoas é bastante elevada,

cuja maior parte, já não pertence ao número dos vivos.

E foi na Praça da República, principalmente no café

do meio, onde convivi de perto, aos fins de semana, com muitos Cabeceirenses, a jogar o Quino, numa sala perto da cozinha, ouvindo-se a água do rio, que por debaixo deslizava suavemente e das pessoas que

aderiam ao popular jogo, me recordo de algumas, tais como, Zé Pote, os irmãos Fidalgos (António, Manuel

e Paulino), Armindo Leitão, Augusto Carteiro,

Augusto Teixeira, Chico Polícia, Fernando Guerreiro

da Silva e tantos outros, cuja lista nunca mais acabava.

É de notar, que o autor desta crónica, tinha muita

ao número um (pilas), nove (arco de caneca), vinte e dois (dois pratinhos), trinta e três (anos de Cristo), oitenta e oito (as mamas delas), noventa (o mais velhinho), etc. E o que é certo, é que se passavam, sem dar por isso, muitas horas, cujas despesas eram diminutas, baseando-se nuns copos tintos ou brancos, bem como rodadas de cerveja. Noutra sala, junto ao balcão de atendimento, juntava- se diferente grupo, quase sempre constituído por Amílcar Augusto Viana, Doutor Agostinho Montinho, Américo Bastos, Bernardino Gustavo Pereira Leite Bastos, Mamede de Carvalho Mendes, Padre Manuel

de Araújo e muitas mais figuras. Curiosamente, na sala

que dava acesso à rua, ali permaneciam dois inseparáveis amigos, Doutor Juca Montinho e Severino Leitão, os quais, geralmente, se mantinham calados. Na esplanada, era o local predilecto da figura da imprensa, António Ferreira de Sousa (funcionário judicial), cunhado dos referidos irmãos Fidalgos, bem como, o Senhor Morais (Chefe da Conservação de Estradas), Doutor Ferreira Leite (Médico), Doutor Falcão (Advogado), Francisco Mendes, tio de Mamede Mendes e outro rol de amigos.

Relativamente ao café do fundo pertencente à Pensão Cabeceirense, outro conjunto de pessoas ali se reunia, nomeadamente, o extraordinário homem do cinema, Ilídio dos Santos, António Manuel Pereira Ramos, Benedito Gonçalves Serra, muitos funcionários do Tribunal e de outras repartições públicas. Quanto à Pensão Cabeceirense, propriamente dita, um grupo de amigos, quinzenalmente, ali se encontravam para almoçar, constituído pelo Acipreste Francisco Xavier de Almeida Barreto, Tenente Bernardo, Albininho da Castanheira, Engenheiro de Aradela, Domingos Medeiros, o Médico Doutor Camilo, o Zéquinha Melo

e

ainda um idoso muito simpático, que não me recorda

o

nome, que então se encontrava hospedado na

Pensão Venâncio, julgo que de apelido Barroso. Quem se deslocava ao dito café do fundo, propriedade do casal formado por Arnaldo de Moura Coutinho e Glória de Magalhães Vaz Coutinho, era o meu saudoso pai, o Candidinho do Barrosão, para beber a sua

tacinha de vinho verde e que na sua opinião, ajudava

sorte no preenchimento dos cartões, cobrindo os

a «mudar a água às azeitonas». Também se deslocavam

respectivos números com feijões e que saíam do saco,

à Praça da República, duas figuras que muito admirei,

por alguém seleccionado. Era dado um nome a cada

as

quais residiam em Bucos, Custódio Henriques Brás

pedra que o pregoeiro tirava, dando alguns exemplos,

e

o Professor José Paula Casalta. Bons tempos!

*Colaborador

Albino Antunes*
Albino Antunes*

O QUE OS OLHOS MORTAIS NÃO ENXERGAM (CAPÍTULO XLVIII)

um pedaço de chão que trabalharam e que dele são deslocados para um lar, fica sempre uma metade do outro lado a gritar pela outra metade. O busílis gira em volta de um individualismo que mais tarde terá de ser pago com a desilusão. Digo isto, porque nos tempos que correm, os lugares ou pelo menos as sedes das freguesias, têm possibilidades de ter um mini lar para aqueles que já não arrastarem o seu físico não sejam retirados das suas raízes

e possam contemplar o seu pedaço de chão até se libertarem

do físico. No entanto, é bom que se vão desapegando dos bens que adquiriram, pois na matéria nada é eterno. Todos queremos viver muitos anos e isso é bom enquanto o

nosso físico nos consegue acompanhar. Quero dizer, que só interessa vivermos muitos anos, enquanto o nosso físico e o espírito trabalharem em simbiose. É penoso quando o espírito lhe apetece ir até além e o físico fica aquém.

E a morte! Todos temos medo da morte. Medo daquela que

nos liberta da dor e de um corpo cadavérico que nos faz prisioneiros e tristes. Tememos a morte porque desconhecemos a liberdade e a leveza que ela nos proporciona. A morte é liberdade o nascimento na matéria é prisão, trabalho e desilusão, no entanto não devemos provocar a morte, devemos primar pela vida corpórea até ao fim, porque viemos à matéria com um fim, portanto não devemos interromper esse percurso. Deus deu-nos a vida por um determinado período, porquanto não devemos interrompe-la, mas também não há interesse em a prolongar quando o físico já não corresponde às exigências da matéria. Refiro-me aqui aos corpos que estão ligados às máquinas sem vigor nem perspectivas de reactivar.

Neste capítulo vou fazer uma pequena abordagem sobre a chamada terceira idade, bem como os desaires que a mesma desencadeia.

Embora eu particularmente, só considere terceira idade ou fim de ciclo, para aquelas pessoas que deixam de exercer qualquer actividade por velhice excessiva, ou doença enquadrada na velhice e que já não tenham um físico em condições de criar vigor. Entre estes existem ainda os que vivem em terras de alguém e os que vivem em terras de ninguém. Considero os que vivem em terras de alguém aqueles que vivem nas aldeias e pequenas vilas rurais, onde têm um pedaço de chão e a ele estão ligados com amor. Temos depois os que vivem em terras de ninguém. Para estes, que são os que vivem nas cidades, o arranque para um lar torna-se menos doloroso, porque cidades são cidades onde o contraste pouco difere. Mas para aqueles que têm

onde o contraste pouco difere. Mas para aqueles que têm Paulo Pinto* Barragens e miragens Valerá
Paulo Pinto*
Paulo Pinto*

Barragens e miragens

Valerá a pena, na mira de produzir mais um punhado de megawatts, submergir terras de cultivo, destruir vegetação ribeirinha, ameaçar todo o ecossistema do rio através da eutrofização, apagar testemunhos da nossa herança cultural, violentar a paisagem com bulldozers, camiões e cabos de alta tensão, e demais consequências?

O Sr. Leng Hong, delegado do Partido Comunista Chinês ao

congresso de Espinho, deve ter-se sentido em casa: a unanimidade,

a encenação, a aclamação do grande líder. O nosso primeiro-

ministro é um homem cada vez mais previsível: sabe-se que fala sempre por volta das 20 horas, que desvaloriza todas as crises e

que se irrita solenemente com as críticas, todas as críticas. Também

se sabe que se prepara para ganhar as eleições para, na semana

seguinte, anunciar dezenas de medidas económicas e sociais

duríssimas que negará furiosamente até ao dia do sufrágio. Não está em causa a necessidade de medidas impopulares, mas sim

como de costume – a poeira que nos lançam para os olhos.

O

Governo tem um projecto para a nossa região: construir

barragens. Fridão, Daivões, Padroselos, Gouvães, eis os topónimos

que irão pôr as terras de Basto no mapa do aproveitamento hidroeléctrico nacional. Assim está previsto e, tudo o indica, assim será. Quem percebe disto são os engenheiros e, como se sabe, um deles chefia o Governo. As barragens têm sido, de há muito, das obras públicas de maior envergadura e mais acarinhadas pelos governantes. Algumas barragens foram anunciadas como verdadeiras receitas milagrosas para regiões e países: a de Assuão, no Egipto, e a das Três Gargantas, na China, são talvez os exemplos mundiais mais destacados, mas o nosso Alqueva também poderia figurar na lista.

O regime salazarista construiu muitas, grandes e pequenas, na

metrópole e no Ultramar.

Parecem-me existir dois argumentos de peso a favor das barragens

no Tâmega e nos seus afluentes: a produção de energia eléctrica

utilizando um recurso renovável e «limpo», e o potencial turístico. Já a criação de emprego local será seguramente diminuta, e o movimento acrescido só se fará sentir durante as obras. As barragens, como motor do desenvolvimento local, são uma miragem, uma ilusão em que os autarcas por vezes embarcam e da qual querem convencer os cidadãos. Contudo, sendo o vale tão estreito e encaixado, as albufeiras não terão dimensão para atrair grandemente os turistas (e a qualidade da água, pelo menos no rio Tâmega, dificilmente permitirá o uso por banhistas). Quanto à

energia, por respeitável que seja o argumento, o contributo de todas estas barragens reunidas para a produção eléctrica nacional não

irá além de 1% (previsões do próprio Governo) e será rapidamente

absorvido pelo crescimento do consumo. De facto, o potencial hidroeléctrico do País está já em grande parte aproveitado. Valerá a pena, na mira de produzir mais um punhado de megawatts, submergir terras de cultivo, destruir vegetação ribeirinha, ameaçar todo o ecossistema do rio através da eutrofização, apagar testemunhos da nossa herança cultural, violentar a paisagem com bulldozers, camiões e cabos de alta tensão, e demais consequências? Esta política barragista, tão do agrado de engenheiros da EDP e empreiteiros, está a condenar os últimos verdadeiros rios de Portugal (o Sabor, o Paiva, o Tua, o Côa, o Tâmega…) a uma morte lenta. É isto que queremos? Claro que as necessidades energéticas são reais, e que é vital desenvolver as fontes renováveis e não poluentes. A evolução da tecnologia permite hoje uma variedade de apostas, do solar à biomassa, do eólico à energia das ondas, a maioria delas com reduzido impacto ambiental. O modelo de produção também conta:

em vez de grandes investimentos que agridem a Natureza, pagos por todos nós mas que ficarão propriedade das grandes empresas

e dos senhores da finança, interessaria muito mais apoiar a micro-

produção local e doméstica, que reduza a pressão sobre as redes eléctricas e reduza o desperdício energético. Será isto impossível? Ou falarão os grandes interesses mais alto? A meu ver, o nosso interesse, dos Portugueses e dos que aqui neste torrão vivem, tem pouco a ver com estas barragens.

*Colaborador

A titulo informativo e para que os caros leitores deixem de temer a morte, digo- vos que já estive fora do corpo por motivo de uma explosão. Vi o meu corpo caído no chão, inerte no meio da fumaça. Eu ao lado a vê-lo. O fumo não me impediu a visão, vi sempre o corpo até à altura em que o fumo desapareceu e eu fui atraído novamente ao corpo e me levantei. Neste pequeno tempo de separação, apercebi-me que o corpo não era nada, não pensava, não tinha acção. O espírito via, pensava e sentia emoções. O corpo só voltou a ter vida quando eu (espírito) entrei nele não por querer, mas porque fui atraído para ele depois da fumaça ter desaparecido. O corpo não sentia dores, eu (espírito) também não, as dores só apareceram quando corpo e espírito ficaram unidos. Face ao exposto, a morte não é problema, o grande problema é a doença,

principalmente quando já não nos deixa alternativas e se prolonga. Todos queremos viver mais tempo, o prémio é o sofrimento. Para evitarmos um fim de ciclo muito doloroso, devemos de nos mexer enquanto houver forças, o resto deixamos com o Alto. No próximo capítulo vou falar sobre a actual aflição da humanidade, tanto no

campo material como no campo espiritual.

*Colaborador