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DEFENSORIA PÚBLICA, APOSENTADORIAS DE EX-GOVERNADORES E A VONTADE POLÍTICA.

Temos acompanhado nas últimas semanas o desdobramento de duas importantes questões que afetam toda a população paranaense, quer queira quer não: de um lado a dificuldade em se implantar a Defensoria Pública (DP) no Paraná e por outro a questionável concessão de generosas aposentadorias aos ex-governadores.

O Paraná é considerado um dos estados mais atrasados “em um dos mais importantes fatores de desenvolvimento, o exercício da cidadania” isso porque não possui uma Defensoria Pública regularmente estruturada como prevê a Constituição Federal desde 1988, dentre outros fatores.

Atualmente poucos funcionários/defensores são cedidos por outras secretarias e atuam de forma heróica apenas na capital do Estado. Muito já se falou e a sociedade faz pressão para a regulamentação da Defensoria Pública do Estado (Ex. Movimento “Defenda a Defensoria” e OAB), mas a questão sempre esbarra em um fator: falta de recursos.

Muita gente não se sente afetada porque tem uma visão limitada da importante atuação da DP. Perde toda a sociedade paranaense porque além de atuar na questão carcerária (reduzindo o número de presos, o que reverteria em economia para o Estado), a DP orienta e defende juridicamente a população em todas as áreas e instâncias, inclusive com ações coletivas. Atualmente as deliberações continuam - pois a transição de governo já passou - mas nada de concreto está definido, ou seja, a situação pode continuar como está por tempo indeterminado. Apenas Paraná e Santa Catarina não possuem DP.

Por outro lado, em plena contradição, temos o Paraná como um dos poucos estados que prevê o pagamento de pródigas aposentadorias aos seus ex-governadores. A situação não seria tão imoral se fossem adotadas as mesmas regras impostas ao “cidadão comum”: aposentadorias proporcionais a contribuição, fator previdenciário, etc. Para o chefe do Executivo estadual basta 04 anos (ou até alguns meses/dias) para receber a aposentadoria

integral que se equipara em valor ao que recebe um desembargador após todo um período regular de contribuição (R$24,8 mil). É explicita a violação aos mais básicos princípios morais, éticos e jurídicos. Mas é claro que nestes momentos não se fala em “falta de recursos”, como também ocorreu com os abusivos aumentos parlamentares aprovados por eles mesmos (61,8% contra a inflação de 20% no período). Há “vontade política”. (Quem não gostaria de

definir o próprio aumento salarial? Já o aumento do salário mínimo é outra conversa

assunto repercutiu em todo o Brasil e - pela indignação generalizada - agora o governo

estadual interrompeu este “benefício” que nunca deveria ter existido.

O

).

Essa situação traz à lembrança os odiosos privilégios da época medieval e a distinção entre nobres e plebeus. Não temos mais barões e condes, mas será que alguma coisa mudou? “Todos são iguais perante a lei”? Um aluno me questionou sobre isso com muita indignação, fazendo referência as revoltas populares que iniciaram no Egito e se espalham pelo Oriente.

Como defensor do Direito e da Justiça vejo que a apatia social estimula estes e outros vergonhosos episódios aqui no Brasil. Devemos agir sim, mas não acredito que a

violência seja a solução. Quanto a Defensoria Pública, espera-se que o atual governo veja esta situação não como problema, mas como uma oportunidadede fazer a diferença já no início do mandato, definindo-o como marco histórico da defesa da cidadania no Paraná (ainda que a implantação seja gradativa). Já no que tange as “aposentadorias imorais”, fica o registro de que graças à movimentação popular, as críticas de parte da mídia e a atuação da OAB a situação foi modificada.

E a vontade política? Nunca podemos generalizar, mas os acontecimentos comentados indicam que os “detentores do poder” não raras vezes fazem uso do poder público para satisfação de interesses particulares e que tudo é possível - de digno ou indigno - desde que exista “vontade política”. E quanto a nós? O que todos podem fazer? Devemos estar atentos, vigilantes e atuantes para demonstrar que a sociedade civil não é somente uma massa de manobra que se satisfaz com “pão e circo”. Agora, se a apatia é grande, a crise é geral

PEDRO LUCIANO EVANGELISTA FERREIRA

Advogado e professor de Criminologia e Direito Penal da Escola da Magistratura e Curso Prof. Luiz Carlos. Mestre em Criminologia e Direito Penal pela UCAM/RJ.