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A “FÁBRICA DE MULTAS”

É notório que em todo o país a violência no trânsito já atingiu um patamar

insuportável, ano após ano, um grande contingente de vidas é desperdiçado e inequivocamente todos são afetados, sejam motoristas ou pedestres. Em razão disso, os Poderes Públicos, ouvindo o clamor de toda a sociedade, unem-se colimando esforços para reverter ou ao menos amenizar este drástico panorama.

A promulgação da Lei n.º 9.503 de 23 de setembro de 1997, que instituiu o

Código de Transito, pode ser apontada como um visível fruto desta ação conjunta, estampando logo em seu primeiro artigo (§ 2º) que o trânsito em condições seguras é um direito de todos e também dever dos órgãos e entidades que compõem o Sistema Nacional de Trânsito, competindo a estes adotarem as medidas destinadas a assegurar referido direito. Contudo, passado o frenesi inicial causado pela implantação de algumas medidas inovadoras contidas na citada lei, novamente a questão da segurança e do respeito às normas de trânsito foi banalizada, motivando agora uma agressão ainda maior. Atualmente verifica-se que o Estado, em detrimento de uma de suas principais funções que é assegurar os direitos do cidadão, esqueceu (consciente ou inconscientemente???) qual a verdadeira finalidade da fiscalização e ao que tudo indica, sua atenção está focalizada na arrecadação de recursos para os cofres públicos, tendo em vista que vem agindo de modo deturpado e abusivo. Sabemos que compete ao Estado - na salvaguarda dos direitos do cidadão - instituir normas de conduta e também exigir a sua observância, em razão disso cumprirá e fará cumprir a legislação de trânsito, as normas e as diretrizes estabelecidas, promovendo a devida fiscalização. Podemos observar na atitude fiscalizadora duas características básicas: uma preventiva, quando desestimula e inibe a prática das condutas que sejam contrárias aquelas legalmente prescritas; e outra punitiva, quando atribui penalidades e medidas administrativas em resposta à inobservância de preceitos contidos na lei. Porém, motivado pelos altos valores pecuniários que passaram a ser atribuídos às penalidades de trânsito com o advento do novo “Código de Trânsito”, um número crescente de multas tem sido imputadas arbitrária e indiscriminadamente em meio a

abusos e desrespeitos, e o que é pior, não raras vezes são lavradas por pessoal inabilitado para tanto, constituindo gravíssima agressão contra o cidadão. Prevalecidos estão os “algozes do trânsito”, principalmente porque os inúmeros recursos levados às “JARI” muitas vezes convalidam as mais explícitas arbitrariedades cometidas pelos agentes fiscalizadores, inobstante as várias denúncias de que, mediante paga, é possível transitar irregularmente por todo o território nacional, como advertiram os motoristas de caminhão meses atrás, em sua paralisação. Assim, o cidadão que buscava a proteção face a verdadeira guerra travada nas ruas, agora é atacado também na esfera patrimonial e lesado em inúmeros direitos pelo próprio Estado, mais preocupado em satisfazer sua insaciável necessidade de recursos. Mas qual o destino destes recursos? Não deveriam ser aplicados exclusivamente para sanar o caos nas estradas? Frise-se que a violência ora atacada é muito mais perniciosa do que muitos imaginam porque - flagelando os mais basilares princípios administrativos - provém daquele que é o responsável direto pela segurança e que deveria utilizar-se sabiamente do poder que lhe foi atribuído.

Ademais, a lei retro mencionada também prescreve que “os órgãos e as entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito respondem, no âmbito de suas respectivas competências, objetivamente, por danos causados nos cidadãos em virtude de ação, omissão ou erro na execução e manutenção de programas, projetos e serviços que garantam o exercício do direito do trânsito seguro.” (art. 1º, § 3º). Mas até agora referida advertência não passa de letra morta. Mais uma vez ressaltamos que as campanhas de conscientização tem demonstrado ser eficazes, mas como toda medida profilática, devem ser realizadas intensivamente para que apresentem bons resultados. Mostrar ao cidadão a necessidade e a utilidade das prescrições legais, salientado que a sua observância acarretará claros e imediatos benefícios a seu favor, também deve ser encarada pelas autoridades como uma medida plenamente válida no combate da violência no trânsito, porque antes de mais nada, é um modo de se evitar futuros acidentes sem com isso lesar o cidadão. Não ignoramos que a fiscalização e a imposição e penalidades - consubstanciadas nas multas - também sejam necessárias, entretanto devem sempre ser exercidas de maneira consciente e ponderada.

Pouco produtivos serão os esforços empreendidos pelo Estado para diminuir as conseqüências da violência no trânsito - seja urbano ou rodoviário - enquanto o eixo principal de sua atuação estiver centrado na captação de recursos, mas aí nos deparamos com a seguinte indagação: será que realmente existe o interesse de que ocorra a diminuição das infrações? Compactuarmos passivamente com este desatino é impossível, mas infelizmente, diante das atuais circunstâncias, somos obrigados a concordar com aqueles que sobre a questão em exame utilizam o malfadado termo “Fábrica de Multas”, porque melhor exprime a realidade.

PEDRO LUCIANO EVANGELISTA FERREIRA Advogado, Mestre em Criminologia e Direito Penal pela UCAM/RJ e Professor na Escola da

Magistratura do Paraná e Curso Preparatório Prof. Luiz Carlos.