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“LEI SECA”: sua inconstitucionalidade e a questão do “bafômetro”.

Nos últimos dias, vários questionamentos surgiram a respeito da Lei nº 11.705/2008, que traz como principal inovação a alcoolemia zero para condutores de veículos automotores, além de impor penalidades mais severas para o condutor que dirigir sob a influência do álcool, dentre outras disposições. Agora temos duas situações: a) a infração administrativa de “embriaguez ao volante” (art.165), e b) o crime de embriaguez ao volante” (art. 306). Na primeira, o motorista que dirige sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência, independente da quantidade, terá cometido uma infração gravíssima e será apenado com multa e suspensão do direito de dirigir por 12 (doze) meses, além das medidas administrativas de retenção do veículo até a apresentação de condutor habilitado. Já na segunda, temos que se a concentração for igual ou superior a seis decigramas de álcool por litro de sangue haverá crime e conseqüente aplicação de pena. Importa neste momento ressaltar que essa lei infraconstitucional desrespeita vários princípios e regras constitucionais, o que é inadmissível em um Estado de Direito. Vários juristas com apurado conhecimento técnico e prático têm reagido a essa lei com consistentes críticas, já que as várias ofensas são evidentes (Princípios da presunção de inocência, ampla defesa, proporcionalidade, ofensividade, não auto-incriminação, além dos direitos fundamentais a integridade física, psíquica e moral) consagrados pela Constituição Federal, isso sem falar no Pacto de San José da Costa Rica. Em razão da limitação de espaço que nos é gentilmente concedido, vamos nos deter, por hora, à questão dos exames e da prisão para esclarecer a população e evitar que ela se torne vítima de situações imorais e abusivas muito rotineiras na chamada “indústria da multa” (muitas reportagens mostram que os agentes administrativos sofrem pressões e têm “metas de autuações” para incremento do ganho do Estado e dos agentes). Bafômetro: o motorista pode se recusar a se submeter ao teste de “bafômetro” ou qualquer outro exame e isso não é crime nem acarreta prisão ou condução coercitiva a delegacia ou local de exame; a negativa levará à questionável “embriaguez presumida” com a aplicação das medidas administrativas de multa, retenção da carteira de habilitação e do veículo, até que alguém possa pegar o veículo no local a seu chamado (um amigo ou até o carona que esteja sóbrio). Observe-se que a negativa não é um direito, é uma opção, e ressalte-se que o motorista jamais poderá ser forçado ou coagido a isso, mas é claro que se ele não ingeriu álcool será conveniente realizar o exame. Já na hipótese da ingestão de álcool, ele pode se negar a fazer o exame e ser responsabilizado administrativamente, já que se o exame constatar a concentração acima de 6 decigramas sua responsabilização penal será certa. A prisão em flagrante somente poderá ocorrer para o crime de embriaguez ao volante, constatada pelo exame voluntário ou por notórios e visíveis sinais de embriaguez. Na última situação haverá a dificuldade de substituir uma prova técnica por simples prova testemunhal (chamada a “prostituta das provas”), já que a precisão matemática é indispensável para a caracterização do crime e apenas o depoimento de um “colega de trabalho” está longe de ser prova contundente e imparcial. Na dúvida quanto ao estado de embriaguez, o motorista não pode ser preso e, se o for, a prisão será ilegal, responsabilizando administrativa, cível e criminalmente os autores do abuso de autoridade. Longe de ignorar o sofrimento das vítimas e os danos sociais causados pelos condutores alcoolizados, não podemos deixar de esclarecer que a “lei seca” é inconstitucional por vários motivos e vai acarretar situações injustas nessa onda de histeria punitiva (ex.: alguém que, por recomendações médicas, esteja acostumado a ingerir uma taça de vinho por dia, os padres que realizam missas em várias paróquias ou até alguém de “ressaca” com resquícios de embriaguez póstuma, eles estarão “sob influência” do álcool? Claro que não, mas serão gravemente punidos). Isso sem falar na aplicação seletiva desse rigoroso dispositivo (será que os jantares dos políticos que votaram esta lei serão regados a muito suco e refrigerante?). Os problemas devem ser resolvidos com bom senso, educação, conscientização e proporcionalidade. Acreditar que apenas o aumento de penas irá resolver a questão é deixar-se seduzir pelo “canto da sereia”. Se a fiscalização na vigência da lei anterior fosse efetiva, os resultados desejados já seriam obtidos. Não canso de repetir: a melhor política criminal é a política social.

PEDRO LUCIANO EVANGELISTA FERREIRA

Advogado, Mestre em Criminologia e Direito Penal pela UCAM/RJ e Professor na Escola da Magistratura do Paraná e Curso Preparatório Prof. Luiz Carlos.