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O IPTU e o bem de família.

Por motivos sociais e humanitários, o legislador achou por bem excluir o único imóvel residencial familiar da esfera de responsabilidade patrimonial do devedor e com a Lei n.º 8.009, de 29 de março de 1.990 consagrou a impenhorabilidade do imóvel pertencente ao casal ou entidade familiar que, a partir de então, deixou de responder por dívidas civis, trabalhistas, comerciais, fiscais, previdenciárias ou de outra natureza, contraídas pelos cônjuges, pais ou filhos, sejam proprietários ou apenas residentes. Todavia importa destacar a presença de situações elencadas no art. 3º da predita lei que tornam inoponíveis os benefícios legais. Restringiremos o presente estudo ao comento da hipótese prevista no inciso IV - que trata da cobrança de impostos, predial ou territorial devida em função do imóvel familiar - analisando os seus fundamentos sob o ponto de vista jurídico-tributário.

O ordenamento pátrio em vigor almeja a realização dos ideais republicanos, para tanto, além de estadear o Princípio da Generalidade da Tributação impõe a estrita e sincrônica observância ao Princípio da Igualdade (CF, art. 5º) que na esfera tributária se consubstancia com a proibição das vantagens fundadas em privilégios e da discriminação de encargos exigidos do cidadão sem a “correlação lógica entre a peculiaridade diferencial acolhida e a desigualdade de tratamento em função dela conferida”, nas palavras de CELSO ANTONIO BANDEIRA DE MELLO 1 , pois a “res publica” é de todos e para todos. Nas dobras do Princípio da Igualdade surge um princípio de basilar importância em matéria tributária, o Princípio da Capacidade Contributiva (CF, art. 145, § 1º) que imprime sua força sobre os legisladores ordinários das pessoas políticas para que os impostos tenham por parâmetro a capacidade econômica das pessoas. Aí é que está o busílis!!! Comungando do entendimento esposado por ROQUE ANTONIO CARRAZZA 2 , observamos que a capacidade contributiva a ser considerada no momento embriogênico da lei instituidora de impostos é objetiva e não subjetiva 3 . Destarte a cobrança do IPTU sobre o imóvel familiar é justificada pelo fato da lei ater-se as manifestações objetivas de riqueza (v.g. possuir um imóvel) e não as condições econômicas reais de cada contribuinte considerado em sua individualidade (v.g. estar desempregado).

1 O Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade, 1ª ed., São Paulo: Ed. RT, 1978, p. 21.

2 Curso de Direito Constitucional Tributário, 8ª ed. rev. ampl., São Paulo: Malheiros, 1996, p.62.

3 No sentido contrário: COELHO, Sacha Calmon Navarro. Cometários à Constituição de 1988: Sistema Tributário, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 1990, p. 90.

O critério material da hipótese de incidência deve eleger fatos que revelem a

capacidade contributiva do contribuinte, são os chamados “fatos-signos presuntivos de riqueza” na singular terminologia de ALFREDO AUGUSTO BECKER 4 e, tratando-se de impostos sobre a propriedade imóvel - como é o caso do IPTU e do ITR - o próprio bem já é suficiente para demonstrar esta capacidade.

A guisa de exemplo, observe-se que adquirindo um imóvel em uma herança o

contribuinte, não obstante o fato não possuir economia própria, já terá capacidade econômica que

não apenas revelada em moeda corrente está momentaneamente imobilizada em um bem de raiz. Apesar dos Municípios serem regidos por Lei Orgânica insta salientar que estes em primeira ordem devem obediência aos princípios básicos adotados pela Constituição Federal (CF, art. 29), em conseguinte, estão igualmente jungidos aos reclamos do Princípio Republicano e seus desdobramentos. Se por um lado o legislador buscou resguardar a entidade familiar e seu lar resta claro que, tratando-se do IPTU, a propriedade de per si já revela a capacidade contributiva motivadora do lançamento haja vista que este imposto municipal utiliza como base de cálculo o próprio imóvel urbano, desfalecendo in casu a impenhorabilidade que resguarda o bem de família.

Pedro Luciano Evangelista Ferreira OAB/PR 27.215

4 Teoria Geral do Direito Tributário, 1ª ed., São Paulo: Saraiva, 1963, p. 458 e ss.