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HABITAÇÃO SOCIAL E EFICIÊNCIA ENERGÉTICA: UM PROTÓTIPO PARA O CLIMA DE BELO HORIZONTE Eleonora Sad

HABITAÇÃO SOCIAL E EFICIÊNCIA ENERGÉTICA: UM PROTÓTIPO PARA O CLIMA DE BELO HORIZONTE

Eleonora Sad de Assis (1), Elizabeth Marques Duarte Pereira (2), Roberta Vieira Gonçalves de Souza (1), Antônia Sônia Alves Cardoso Diniz (3)

(1) Escola de Arquitetura da UFMG, rua Paraíba, 697, CEP 30130-140, Belo Horizonte, MG e-mails: elsad@arq.ufmg.br; roberta@arq.ufmg.br; (2) Grupo de Estudos em Energia Solar da PUC-MG, av. D. José Gaspar, 500, CEP 30535-901, B. Horizonte, MG e-mail: elizabeth.pereira@green.pucminas.br; (3) Companhia Energética de Minas Gerais, av. Barbacena, 1200, CEP 30190-131, Belo Horizonte, MG e-mail:

asacd@cemig.com.br

Abstract: One of the most important problems in developing countries is offering housing and basic services in special to the low income population. In general, the social housing in Brazil is not well adapted to the local climate which results in bad thermal and illumination conditions that allied to the precarious electric installations and to the indiscriminate use of the electric shower, are the cause of the increasing use of energy and the cost of living of these populations. In order to address these problems, a prototype of an efficient social habitation was developed for an average family of 4 people. This prototype demonstrated that the use of adequate materials to the climate and the correct use of ventilation provide ambient comfort; systems of solar energy conversion help to reduce the consumption and the social cost of energy. Copyright © 2007 CBEE/ABEE

Keywords: social housing, environmental comfort, energy efficiency.

Resumo: Um dos maiores problemas dos países em desenvolvimento é oferecer acesso à moradia e serviços básicos em especial à população de baixa renda. A habitação social no Brasil não está, em geral, bem adaptada ao clima local, provocando más condições de conforto térmico e de iluminação que, aliadas a instalações elétricas precárias e ao uso indiscriminado do chuveiro elétrico, acabam aumentando desnecessariamente o uso de energia e o custo de vida dessas populações. Para fazer face a esses problemas, foi desenvolvido um protótipo de habitação social eficiente para uma família média de 4 pessoas. Este demonstrou que o emprego de materiais adequados ao clima e o correto uso da ventilação proporcionam conforto ambiental; sistemas de conversão de energia solar ajudam a reduzir o consumo e o custo social da energia.

Palavras Chaves: habitação de interesse social, conforto ambiental, eficiência energética.

1

INTRODUÇÃO

A produção do ambiente construído tem demandado um grande aporte de energia e de materiais, provocando graves desequilíbrios ambientais e a deterioração da qualidade de vida das populações humanas, principal- mente nos países em desenvolvimento. Verifica-se atualmente que os recursos energéticos e as matérias primas naturais tornaram-se fatores limitantes para o progresso econômico-social, mas, mais do que isso, a exploração desses insumos e os impactos resultantes do seu consumo podem comprometer o desenvolvimento.

No caso brasileiro, a pobreza foi diretamente relaciona- da aos problemas ambientais (COMISSÃO, 1991), sendo que sua manifestação mais visível é a condição da habitação. A extensão do déficit habitacional nacional, que vem apresentando uma evolução crescente nas últimas décadas, atingindo principalmente os grandes centros urbanos, indica que a abordagem setorial comumente empregada precisa ser superada para possibilitar avanços efetivos com vistas à melhoria da qualidade do ambiente construído. No entanto, a abordagem de integração a partir da visão do processo produtivo como um todo raramente tem sido feita.

Em geral, os procedimentos convencionais da construção civil no país não consideram os impactos das atividades do setor sobre o meio ambiente, seja natural ou construído. Entretanto, é preciso adotar critérios para a tomada de decisões a partir de uma perspectiva integrada e sustentável durante todo o processo de produção das edificações. A adoção de tais critérios resulta no projeto de edificações de melhor qualidade, racionaliza o uso de recursos naturais (energia e materiais) e evita o desperdício de recursos humanos e materiais durante a construção. Esse tipo de resultado é particularmente importante no caso da habitação de interesse social, tendo em vista que as muitas avaliações já realizadas no país apontam falhas em todos esses quesitos, notadamente quanto ao conforto ambiental (veja, por exemplo, o amplo estudo sobre o assunto de ROMERO e ORNSTEIN, 2003).

As edificações no Brasil são responsáveis por cerca de 16% do consumo total da energia produzida no país e 44% do consumo total de energia elétrica, considerando-se os setores residencial, comercial e institucional (BRASIL, 2005). Grande parte dessa energia é consumida na geração de conforto aos usuários. A maioria das edificações desperdiça energia e aumenta seus custos operacionais por não considerar, desde o projeto arquitetônico, sua construção, até a utilização final, os critérios de desempenho e de produção construtiva derivados da dimensão bioclimática em arquitetura, bem como materiais, equipamentos e tecnologia construtiva vinculados à eficiência energética.

Do percentual apontado de consumo energético, 22%, ou seja, a metade, corresponde ao setor residencial. Nesse setor, apesar de haver uma grande variedade de tipologias de edificações e de padrões sócio- econômicos, uma pesquisa anterior à crise do setor energético brasileiro de 2001 mostrava, com relação ao consumo desagregado por usos finais, que os maiores gastos estavam ligados à refrigeração, ou seja, ao uso de equipamentos como geladeira e freezer (JANNUZZI e SCHIPPER, 1991) como mostra a figura 1.

Com a grande melhoria de desempenho observada nos equipamentos eletrodomésticos do país nos últimos anos, bem como com a utilização de lâmpadas mais eficientes depois da crise de 2001, observou-se uma tendência à mudança nesse quadro, como mostra a figura 2, passando os maiores gastos de energia a se concentrarem no aquecimento de água (PEREIRA,

2002).

Ora, o gasto energético para o aquecimento de água no setor residencial brasileiro está tradicionalmente ligado ao uso do chuveiro elétrico, um equipamento que impacta fortemente a curva de carga das concessio- nárias de energia no Brasil. Há, pois, um grande interesse na diversificação da matriz energética do setor residencial, como forma de diminuir o risco de desabastecimento de energia elétrica, bem como de dar melhor uso à energia produzida, direcionando-a aos setores produtivos da economia.

direcionando-a aos setores produtivos da economia. Fig. 1 – Consumo energético desagregado por usos finais

Fig. 1 – Consumo energético desagregado por usos finais no setor residencial brasileiro. Fonte: Adaptado de Jannuzzi e Schipper (1991).

brasileiro. Fonte: Adaptado de Jannuzzi e Schipper (1991). Fig. 2 – Consumo energético desagregado por usos

Fig. 2 – Consumo energético desagregado por usos finais no setor residencial, amostragem em Belo Horizonte. Fonte:

Adaptado de Pereira (2002).

De fato, segundo estimativas do Grupo de Estudos em Energia, para fazer face ao déficit habitacional brasileiro, estimado, em 1996, em 5,4 milhões de moradias (GONÇALVES, 1998), seria necessário um aumento da oferta de energia correspondente a pelo menos 48% da potência instalada em Itaipu, considerando os padrões atuais de consumo de energia no setor residencial com o uso intensivo do chuveiro elétrico.

Isso seria inviável através da geração hidrelétrica, cujo potencial de aproveitamento encontra-se praticamente esgotado no país – o que já justificava, desde aquela época, a necessidade de estudos para a diversificação da matriz energética do setor. Mas essa situação é muito mais grave, pois, segundo a Fundação João Pinheiro (MINAS GERAIS, 2001), o déficit habitacional brasi- leiro, na verdade, está evoluindo, passando para 6,65 milhões de unidades em 2000, sendo que as famílias com renda de até 3 salários mínimos são as mais violentamente atingidas, compondo 83,2% do déficit nacional.

No estado de Minas Gerais, o déficit habitacional básico foi estimado em 443.352 domicílios em 2000 (MINAS GERAIS, 2005), dos quais 79% estão nas áreas urbanas. A carência habitacional em Minas Gerais é, entretanto, a maior entre os estados mais desenvol- vidos das regiões Sudeste e Sul (exceto o Espírito Santo). A distribuição percentual do déficit habitacional urbano no estado concentra-se na macro-região central, que engloba a Região Metropolitana de Belo Horizonte

(RMBH), onde se espera encontrar uma grande parcela dos problemas habitacionais do estado, devido às características inerentes aos grandes conglomerados urbanos 1 .

Esse quadro mostra a necessidade de desenvolvimento de estudos para a inovação tecnológica no setor, principalmente aqueles voltados para viabilizar soluções para as famílias com renda de até 3 salários mínimos. Nesse caso, um dos principais problemas não é apenas o de oferta de moradia a um custo compatível com a renda dessas famílias, mas o de viabilizar o acesso delas à infra-estrutura de abastecimento de energia e água, fixando estas famílias e diminuindo a proliferação de assentamentos precários, como favelas.

2 HABITAÇÃO SOCIAL E CONFOR- TO AMBIENTAL

As avaliações das habitações sociais realizadas em várias partes do país, tanto das autoconstruídas quanto daquelas construídas através de programas habitacio- nais, mostram invariavelmente os mesmos problemas de habitabilidade. As más condições de conforto térmico e luminoso ocorrem com mais freqüência, aumentando desnecessariamente o gasto de energia.

Nunes Filho (1997) mostrou que 29% da energia gasta nas habitações populares em Salvador é para ilumina- ção artificial - as lâmpadas ficam ligadas até 10 horas por dia, enquanto que o uso de ventiladores ocorre em média por 6 horas. Em estudo posterior na mesma cidade, Mascarenhas e Nunes (2005) mostraram que cerca de 67% dessas moradias apresentavam deficiência na iluminação natural. As instalações elétricas precárias ocorriam em 70% dos domicílios. Com a troca da fiação elétrica e o uso de lâmpadas eficientes foi possível uma redução de até 25% no consumo de energia elétrica.

Vittorino e Aktsu (1999) analisaram uma amostra de habitações térreas de 50 conjuntos habitacionais construídos entre 1992-1995 no estado de São Paulo pela Cia. Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), através de simulações computacionais, medições e entrevistas com os usuá- rios. As unidades foram construídas com blocos de concreto ou tijolo furado, com cobertura em telha cerâmica sem forro ou em telha de fibrocimento com forro em madeira, portas e janelas metálicas. Os autores constataram que os sistemas construtivos adotados não apresentam desempenho térmico satisfatório em nenhuma região climática do estado, sendo que cerca de 90% dos ganhos totais de calor num dia típico de verão ocorreram pela cobertura e pelas áreas envidraçadas. Durante o inverno, boa parte da perda de calor ocorreu pela cobertura sem forro. Cerca de 60% dos moradores considerou a habitação quente durante o verão, mesmo admitindo que os cômodos eram bem ventilados (86,8%). Quanto à iluminação, as cozinhas e banheiros foram os ambientes mais mal iluminados, geralmente devido à cobertura da área de serviço.

Ferreira (2000) estudou 4 casos de habitações uni- familiares e unidades de apartamentos construídas pela Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais nos 4 domínios climáticos principais do estado. Essas habitações têm áreas variando entre 27,3 a 59,5 m 2 e foram construídas com blocos de concreto e telha cerâmica sem forro ou telha de fibrocimento sobre laje de concreto armado. Os ambientes de permanência prolongada foram simulados em várias orientações de implantação, durante o verão e o inverno, através de um programa computacional (ARQUITROP, programa de análise térmica de ambientes pelo método de admi- tância térmica desenvolvido por RORIZ e BASSO, s/d). Constatou-se em todos os casos que as habitações não atingiam condições de conforto térmico em nenhum período do ano, sendo identificadas como principais causas: a implantação inadequada quanto à orientação solar, componentes construtivas inadequadas ao clima – principalmente no caso das coberturas, que foram os elementos de pior desempenho no estudo – e barreiras à ventilação cruzada no interior das habitações.

Krüger e Dumke (2001) analisaram 18 casos de habitações sociais com áreas entre 31,0 e 51,5 m 2 e com sistemas construtivos variados construídos em Curitiba, concluindo que os sistemas com paredes de tijolos cerâmicos furados e coberturas de telhas de fibro- cimento com forros de madeira ou painéis de concreto apresentaram o pior desempenho para aquele clima, principalmente no inverno. Os autores demonstraram que as características termofísicas da envoltória foram os fatores determinantes do desempenho térmico das moradias durante o verão, enquanto que no inverno outros fatores devem influir no desempenho.

Observa-se, portanto, nos vários estudos, que o baixo desempenho ambiental das moradias de interesse social no país ocorre principalmente em função da pouca capacidade de ventilação da moradia e do emprego de materiais que são bons condutores de calor. O emprego de materiais adequados ao clima e o correto uso da ventilação proporcionam conforto ambiental; sistemas de conversão de energia solar ajudam a reduzir o consumo de energia, como demonstra o protótipo aqui apresentado.

3 O PROTÓTIPO DESENVOLVIDO

Uma solução para a falta de qualidade ambiental da moradia de interesse social é o desenvolvimento de projetos e sistemas construtivos adequados ao clima local, utilizando os recursos naturais de insolação, iluminação e ventilação. Os aspectos bioclimáticos a serem observados são:

correta orientação solar e aos ventos dominantes do local;

ventilação cruzada dentro da habitação;

iluminação natural dos ambientes, principalmente

daqueles mais

utilizados durante o dia, como a

cozinha;

materiais de construção adequados ao clima local (melhor desempenho térmico);

uso de fontes renováveis de energia, como a solar.

Fig. 3 - Modelo do protótipo proposto para a região de Belo Horizonte, MG. Este

Fig. 3 - Modelo do protótipo proposto para a região de Belo Horizonte, MG.

Este protótipo de habitação social foi desenvolvido para

a família média que compõe o déficit mineiro na faixa

de até 3 salários mínimos (4 pessoas), tendo uma área

total de 53,2 m 2 . É composto de sala, 2 quartos, banheiro e cozinha, com área externa de serviço. Pode também sofrer ampliações futuras, a partir da parede externa da sala, o que confere flexibilidade ao projeto.

O sistema construtivo empregado foi o de blocos de

concreto, utilizando o tipo M-15 para as paredes externas e o M-10 para as internas. O sistema define a unidade modular do projeto, evitando o desperdício de material na obra. Além de ser um material facilmente acessível em qualquer parte do estado, permite o levantamento de paredes com maior velocidade. O setor

de blocos de concreto foi, também, um dos que aderiu,

por iniciativa própria, ao Programa Brasileiro da

Qualidade e Produtividade (PBQP).

3.1 Orientação solar e aos ventos

e Produtividade (PBQP). 3.1 Orientação solar e aos ventos Fig. 4 - Modelo de implantação ideal

Fig. 4 - Modelo de implantação ideal do protótipo proposto, com as maiores fachadas orientadas a norte e sul

Estratégias passivas de uso da energia foram aplicadas

à habitação, a começar por sua implantação, que define

a orientação ao sol e aos ventos. Os sistemas de energia

solar integrados à moradia geralmente usam a cobertura

para suas instalações. Assim, esta deve estar voltada para o norte geográfico, para permitir a máxima exposição dos coletores solares ao sol durante o ano.

Entretanto, um telhado voltado para o norte também fica exposto a uma grande incidência de radiação solar, o que pode provocar aquecimento interno indesejável. Assim, no protótipo, a cobertura foi dividida em duas águas, sendo a que recebe os coletores voltada para norte e a maior área voltada para sul, para receber menos insolação.

3.2 Ventilação interna cruzada

receber menos insolação. 3.2 Ventilação interna cruzada Fig. 5 - Modelo de ventilação cruzada do protótipo,

Fig. 5 - Modelo de ventilação cruzada do protótipo, com saída de ar quente na parte superior possibilitada pela diferença de altura entre as águas da cobertura

A

ventilação é responsável pelas condições higiênicas

do

ar no interior e pela retirada do calor da moradia.

Em habitações unifamiliares é relativamente simples

promover a ventilação por ação de ventos ou cruzada, sendo para isso importante a localização das aberturas, suas dimensões e o tipo de esquadrias. Neste protótipo,

as aberturas foram dimensionadas para promover 8

renovações de volume de ar por hora, estando localiza- das em fachadas opostas. Para o dimensionamento da área de aberturas, foi utilizado o modelo empírico de Irminger e Nokkentued (FROTA e SCHIFFER, 2003).

O ar quente sai pelas aberturas superiores. As esqua-

drias utilizadas são basculantes verticais controláveis e funcionam captando os ventos externos, cuja direção predominante em Belo Horizonte é leste, redirecionando-os para dentro da moradia.

3.3 Iluminação natural integrada à artificial

A iluminação natural direta das tarefas domésticas

contribui para melhorar o conforto, podendo-se alcançar uma economia adicional de energia de até 20%. Esta é a proposta para a cozinha deste protótipo. Como se pode ver na figura 6, as aberturas na fachada norte integram duas características principais de desempenho ambiental:

a abertura inferior ilumina diretamente a bancada de trabalho, sendo protegida contra a insolação direta pelo brise-soleil; tem esquadrias pivotantes verticais para o redirecionamento do vento para dentro do ambiente;

a abertura superior está acima do brise-soleil, é em parte protegida da radiação solar direta pelo beiral do telhado, sendo que a parte superior do armário

colocado entre as aberturas funciona como uma light-shelf interna, redirecionando por reflexão os raios luminosos para o teto e a parede oposta. Assim, os contrastes dentro do ambiente dimi- nuem, evitando que o usuário sinta necessidade de acender a luz artificial para equilibrar a luminosi- dade ambiente. Além disso, essa abertura, com esquadria pivotante horizontal, possibilita a saída de ar quente do ambiente, já que se encontra numa fachada em pressão negativa, podendo permanecer aberta mesmo durante períodos chuvosos.

podendo permanecer aberta mesmo durante períodos chuvosos. Fig. 6 - Modelo de iluminação direta sobre os

Fig. 6 - Modelo de iluminação direta sobre os planos da tarefa visual do protótipo, aplicação sobre a bancada da cozinha.

3.4 Desempenho térmico dos materiais de construção

3.4 Desempenho térmico dos materiais de construção Fig. 7 – Diagrama Bioclimático de Givoni plotado sobre

Fig. 7 – Diagrama Bioclimático de Givoni plotado sobre carta psicrométrica para Belo Horizonte. Curvas de variação de temperatura e umidade relativa externas e internas (verão e inverno) para dois ambientes idênticos de um projeto convencional e do protótipo desenvolvido.

Este protótipo foi desenvolvido para o clima de Belo Horizonte, MG. Nesse clima, de acordo com a análise integrada do Diagrama Bioclimático de Givoni (DBG) e das Tabelas de Mahoney (ASSIS, 2001), recomenda- se a proteção das aberturas contra a insolação direta, boa ventilação, paredes com alguma inércia térmica (aquecimento no inverno) e coberturas bem isoladas (uso de telhado e forro).

O gráfico da figura 7 mostra o resultado de simulação

computacional de um ambiente do protótipo (sala) comparado ao mesmo ambiente de um projeto conven-

cional (em alvenaria de tijolo furado e telhado sem forro), usando o ARQUITROP©. As variações externas

e internas de temperatura do ar e umidade relativa

foram plotados no DBG, onde se pode observar que as condições térmicas internas no protótipo permanecem dentro da zona de conforto por boa parte do ano, ao contrário do projeto convencional.

3.5 Sistemas e instalações eficientes

convencional. 3.5 Sistemas e instalações eficientes Fig. 8 - Modelo de instalação do sistema solar térmico,

Fig. 8 - Modelo de instalação do sistema solar térmico, com o conjunto de reservatórios de água sobre a unidade sanitária e os coletores solares sobre o brise-soleil na fachada norte.

Em 2005, o Brasil totalizou cerca de 3 milhões de me- tros quadrados de área instalada de coletores solares, atingindo apenas 1,6% da população, o que é um valor inexpressivo para um país com a dimensão territorial e os níveis de irradiação solar que aqui ocorrem. A ener- gia gerada pelos coletores instalados no país é de cerca de 2.585 GWh/ano, deslocando a demanda de energia

no horário do pico em 544 MW [2].

Segundo Fantinelli (2006), o número de residências de interesse social com aquecimento solar no país é de apenas 8.254. Nos projetos monitorados (CELESC/ UFSC e ELETROBRÁS/PUC-MG), atingiu-se uma economia nas contas mensais de energia elétrica de até 50% e um nível de satisfação dos moradores de 93%. Isso mostra o impacto positivo para o setor elétrico de políticas de incentivo ao uso do aquecedor solar em substituição ao chuveiro elétrico.

No protótipo construído foi testado também um sistema de conversão solar fotovoltaica interligada à rede da concessionária. Este caso é típico dos sistemas instala- dos no meio urbano: quando o gerador fotovoltaico fornece mais energia do que a necessária para a uni- dade consumidora, o excesso é injetado na rede elétrica, assim, a moradia acumula um crédito energético; quando o sistema gera menos energia do que a demandada, o déficit é suprido pela rede elétrica. Estes sistemas são, portanto, usinas descentralizadas que não ocupam área externa, visto que são integradas ao

entorno construído, reduzindo perdas no sistema elétrico e aumentando a oferta de energia.

3.6 Estimativa comparada de consumo energético

Segundo dados do IBGE (BRASIL, 2004), a família urbana mineira com faixa de renda entre 2 e 3 salários mínimos possui geladeira (93,4%), televisão (97,7%) e rádio (90,9%), sendo que poucas possuem máquina de lavar roupa (14,4%). Considerando esses dados, foram montadas planilhas para estimar o consumo energético médio mensal dessa família, nas seguintes situações: (a) a habitação convencional, (b) a habitação convencional acrescida dos consumos devidos ao desconforto ambiental indicados na literatura citada e (c) o protótipo proposto. A tabela 1 mostra a planilha montada para o caso (a), considerado o caso de referência.

Tabela 1: Consumo energético estimado na habitação convencional para famílias com renda entre 2 a 3 salários

convencional para famílias com renda entre 2 a 3 salários No caso (b), considerando a necessidade

No caso (b), considerando a necessidade do uso de ventilador e de iluminação artificial identificado no levantamento de Nunes Filho (1997), o consumo médio total estimado passaria a ser de 208,36 kWh/mês, representando um aumento desnecessário de 13,7% e onerando a família. Já no caso do protótipo desenvolvi- do, foi considerada a mudança para lâmpadas fluores- centes compactas e o uso de aquecimento solar com eficiência energética de 50%, como mostra a tabela 2.

Tabela 2: Consumo energético estimado para o protótipo desenvolvido para o clima de Belo Horizonte

o protótipo desenvolvido para o clima de Belo Horizonte De acordo com os resultados obtidos, o

De acordo com os resultados obtidos, o consumo médio total estimado do protótipo cairia em 40% comparado ao caso (a) e em 47% comparado ao caso (b), com a correspondente queda na conta de energia dessas famílias sem nenhuma perda das condições de conforto.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O protótipo desenvolvido demonstrou que é possível atender às restrições do sistema financeiro da habitação para a faixa de renda considerada e ao mesmo tempo oferecer uma moradia de melhor qualidade ambiental à população.

Nessa experiência, o sistema solar térmico foi bem integrado à moradia, racionalizando as instalações hidráulicas e propiciando o efeito termo-sifão. Como o projeto originalmente não previa a instalação de um sistema fotovoltaico, a sua integração à concepção da moradia ainda deve ser aprimorada, pois ocorreram problemas de adaptação dimensional da cobertura à modulação das células, bem como de sombreamento parcial da instalação pela torre das caixas d´água, o que diminuiu sua capacidade de geração de energia elétrica.

diminuiu sua capacidade de geração de energia elétrica. Fig. 9 – O protótipo construído no pátio
diminuiu sua capacidade de geração de energia elétrica. Fig. 9 – O protótipo construído no pátio

Fig. 9 – O protótipo construído no pátio da Expominas duran- te o XVII SENDI, promovido pela CEMIG, agosto de 2006.

Embora ainda não seja economicamente viável, o estudo da implantação e operação de sistemas fotovoltaicos é importante não apenas para atender às comunidades remotas, mas principalmente dentro de uma perspectiva mais global de consideração da matriz energética urbana, onde os edifícios do setor residen- cial, que compõem cerca de 70% do tecido urbano, poderiam ser usados para gerar energia para outros setores da cidade.

5

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Notas:

[1] Segundo os dados da Fundação João Pinheiro (MINAS GERAIS, 2005), sozinha a RMBH é responsável por 23,5% do déficit habitacional estadual. Percentualmente, todavia, em relação ao estoque de domicílios existentes, é nas regiões menos desenvol- vidas do estado que o déficit é mais significativo.

[2] Resultado estimado a partir dos seguintes índices- base: eficiência energética dos coletores solares igual a 50%; incidência de radiação solar média no país igual a 17 MJ/m 2 /dia; potência dos chuveiros elétricos igual 4,4 kW; aquecimento elétrico complementar ao solar igual a 1,5 kW e fator de simultaneidade de uso do chuveiro elétrico no horário de pico igual a 25%.

Agradecimentos:

As autoras gostariam de agradecer o apoio financeiro da CEMIG e ABRADEE para a construção do protótipo durante o XVII SENDI, bem como ao discente de Arquitetura e Urbanismo/UFMG Bruno Oporto pelo desenvolvimento do modelo computacio- nal do protótipo nas figuras 3 a 6. Este protótipo foi originalmente desenvolvido pelas então alunas do curso de Arquitetura e Urbanismo/UFMG Fernanda C. Ferreira, Maria Júlia de Araújo, Rachel P. B. Pereira e Sandra Assis, tendo sido classificado entre os 12 melhores projetos estudantis latino-americanos na I Bienal de Arquitetura Bioclimática “José Miguel Aroztegui” promovida pela Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (ANTAC). Agradecemos à arq. Renata P. Papa pelo detalhamento e execução do protótipo; ao prof. Flávio Hara (EEUFMG) pelo projeto elétrico, ao eng. mecânico Alexandre Salomão de Andrade (GREEN Solar, PUC- MG), pelo projeto do sistema de aquecimento solar térmico e ao eng. Paulo Márcio Rodrigues Morais (CEMIG) pelo projeto e instalação do sistema fotovoltaico.