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l O GLOBO

l Prosa l

Sábado 13 .4 .2013

     
 

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PONTO DE VISTA |

 
 

MEMÓRIA

 

A Dama de Ferro, o ditador e o poeta

 

Exumação de Pablo Neruda no dia da morte de Margareth Thatcher evoca fantasma de Pinochet

JON LEE ANDERSON

 

É curioso, em termos históricos, que Mar- gareth Thatcher tenha morrido no mes- mo dia em que peritos forenses, no Chile,

exumaram os restos do grande poeta chileno Pablo Neruda. Autor de “Vinte poemas de amor

 

REUTERS/IAN JONES/26-3-1999

Amigos. Pinochet, em prisão domiciliar em Londres, em 1999, recebe Thatcher: famílias se encontravam anualmente

Amigos. Pinochet, em prisão domiciliar em Londres, em 1999, recebe Thatcher: famílias se encontravam anualmente

contas secretas de vários países, sem sinais de terem sido ganhos legalmente. No fim, a única defesa de Pinochet era a humilhante alegação de demência — de que não conseguia lembrar de seus crimes. O ataque cardíaco final veio antes que pudesse ser condenado. Durante o que pode ser chamado de retorno do Chile à democracia, depois de 1990 — quando Pinochet foi forçado a renunciar à pre- sidência que havia mantido mesmo depois de perder um referendo sobre sua continuidade no poder — pouco foi feito para exorcizar os demônios chilenos, muito menos julgá-los. Pi- nochet continuou no comando das Forças Ar- madas e, quando deixou esse posto, tornou-se senador vitalício, com imunidade jurídica. Até ele ser preso na Inglaterra, os presidentes do Chile “democrático” continuaram a hesitar so- bre o fato de o grande responsável pelos flage- los do país continuar a ditar os termos do deba- te nacional sobre o passado recente. Dezesseis meses depois de voltar para casa, Pinochet foi destituído da imunidade parlamentar e indici- ado criminalmente por alguns de seus crimes da época do golpe, passando a maior parte do resto da vida em prisão domiciliar. Mas só Mi- chelle Bachelet, presidente do Chile de 2006 a 2010 — e filha de um general que se opôs ao golpe e foi torturado na prisão até morrer de infarto — acabou com a tradição de deferência.

 

e

uma canção desesperada” e premiado com o

Nobel em 1971, Neruda morreu aos 69 anos, supostamente de câncer de próstata, apenas 12 dias depois do violento golpe militar liderado pelo comandante-em-chefe do Exército, Au- gusto Pinochet, contra o presidente socialista eleito, Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. Aviões de guerra bombardearam o palá- cio presidencial, e Allende resistiu com bravu- ra, mas cometeu suicídio, com um rifle que lhe havia sido dado por Fidel Castro, enquanto os homens de Pinochet invadiam o palácio. Neru- da era amigo e apoiador de Allende; estava do- ente, mas planejava ir para o México, onde ha- via sido convidado a se exilar. Enquanto estava no leito de morte na clínica, sua casa foi arrom- bada e revirada por soldados. No funeral de Neruda, uma multidão de luto marchou pelas ruas de Santiago — uma cidade soturna e deserta, ocupada apenas por veículos

militares. Em seu túmulo, em uma das únicas demonstrações conhecidas de rebeldia pública con tr a o golpe, os presen tes ca nt ar am “A Int er- nacional” e saudaram Neruda e Allende. En- quanto isso, os homens do regime vasculhavam

cidade, queimando livros de autores que não

a

EM UM TRIBUTO,

jogado na rua,

nação anual a Londres. Nessas visitas, eles e a

como lixo —

família Thatcher se encontravam para refei- ções e doses de uísque. Em 1998, quando eu estava escrevendo um perfil de Pinochet para a “New Yorker”, a filha de Pinochet, Lucia, des- creveu a senhora Thatcher com reverência, mas confidenciou que o marido da primeira- ministra, Dennis, causava algum embaraço, e geralmente ficava bêbado nos encontros. Na última vez que encontrei Pinochet em Lon- dres, em outubro de 1998, ele me disse que ia telefonar para “La Señora” Thatcher, na espe- rança de encontrá-la para um chá. Semanas depois, Pinochet, ainda em Londres, viu-se preso por ordem do juiz espanhol Baltasar Gar- zón. No prolongado período de quase-deten- ção de Pinochet, em uma confortável casa no subúrbio londrino de Virginia Water, Thatcher prestou-lhe solidariedade fazendo uma visita. Lá, em frente às câmeras de TV, expressou o que via como uma dívida da Inglaterra para com o regime de Pinochet: “Sei o quanto deve- mos a você”, por “sua ajuda durante a campa- nha nas Falklands”. Ela também disse: “Foi vo- cê quem trouxe a democracia para o Chile”. Isso, claro, era uma distorção de proporções tão gigantescas que não pode ser considerada apenas excesso de zelo de uma amiga leal. Pinochet finalmente morreu em 2006, em prisão domiciliar e enfrentando mais de 300 processos criminais por violação de direitos humanos, evasão fiscal e fraude. Na época, era acusado de ter mais de US$ 28 milhões em

aprovavam e caçando aqueles que pudesse en- contrar para torturá-los ou matá-los. alguns anos, o antigo motorista de Neruda expressou a suspeita de que o chefe havia sido envenenado. Disse ter ouvido do poeta que mé- dicos haviam lhe aplicado uma injeção e, logo depois, o estado de Neruda piorou drastica- mente. Há outros indícios que reforçam a teo- ria, mas nada conclusivo. A perícia pode, en- fim, resolver essa insistente dúvida histórica.

THATCHER LIBEROU VENDA DE ARMAS PARA PINOCHET

BARACK OBAMA DISSE QUE THATCHER FOI “UMA GRANDE DEFENSORA DA LIBERDADE”. NA VERDADE, NÃO.

como muitas pessoas. Os as- sassinatos con- tinuaram mes- mo depois de Pinochet e seu Exército con- trolarem o po-

der; era apenas conduzido com mais discrição, em instalações militares, delegacias de polícia e no campo. Crí- ticos e opositores do novo regime eram mortos em outros países também. Em 1976, a agência

EXUMAÇÃO REFORÇA MENSAGEM CONTRA AUTORITARISMO Em um país onde, por décadas, a História este- ve enterrada, faz sentido que os chilenos de- senterrem Neruda para descobrir a verdade sobre o que aconteceu a ele. Em certo sentido, Neruda é o correspondente chileno de Lorca, o poeta espanhol assassinado nas primeiras se- manas do golpe fascista de Franco na Espanha, em 1936, e cujo sangue deixou uma mancha na consciência do país desde então. O Chile agora tem a chance de fazer a coisa certa por seu poeta. A modesta e charmosa ca- sa de praia de Neruda, em Isla Negra, a alguns quilômetros de Santiago, tem janelas que dão para uma praia pedregosa e foi decorada pelo poeta com sua lírica coleção de sereias de bar- cos velhos. Ele e sua viúva, Matilde Urrutia, fo- ram enterrados ali, e foi para lá que os peritos se dirigiram em busca da verdade. No fim das contas, mesmo que Neruda tenha morrido de câncer, sua exumação é uma oportunidade de reforçar uma mensagem para os tiranos de to- da parte: as palavras de um poeta sempre vão durar mais do que as suas e do que os elogios cegos de seus amigos poderosos. l

Jon Lee Anderson é repórter da revista “New Yorker”, onde este artigo foi originalmente publi- cado, e autor de “Che Guevara , uma biografia” (Objetiva), entre outros livros

E

Maggie Thatcher com isso? Em um tributo na

de inteligência chilena planejou e executou em Washington a explosão de uma bomba no carro do ex-embaixador de Allende nos EUA, Orlan- do Letelier, em um atentado que matou ainda o assessor americano dele, Ronni Moffitt. A In- glaterra desaprovava a onda de assassinatos de Pinochet e puniu o regime dele recusando-se a fornecer-lhe armas — isto é, até Margareth Thatcher se tornar primeira-ministra. Em 1980, ano seguinte à posse de Thatcher, ela suspendeu o embargo contra Pinochet; ele logo estava comprando armas do Reino Unido. Em 1982, durante a Guerra das Malvinas, que opôs Inglaterra e Argentina, Pinochet ajudou o governo de Thatcher com informações sobre o país vizinho. A partir daí, o relacionamento se tornou definitivamente amistoso, tanto que Pi- nochet e família passaram a fazer uma peregri-

segunda-feira, dia 8, o presidente Barack Oba- ma disse que ela foi “uma das grandes defenso- ras da liberdade e dos direitos individuais”. Na verdade, não. Thatcher foi uma obstinada com- batente da Guerra Fria e, no que diz respeito ao Chile, nunca deu uma demonstração adequada de compaixão pelas pessoas que Pinochet ma- tou em nome do “anticomunismo”. Preferia fa- lar do alardeado "milagre econômico chileno". E como ele matou. Os soldados de Pinochet trancaram milhares de pessoas no Estádio Na- cional de Santiago, onde suspeitos eram tortu- rados ou fuzilados em vestiários, corredores e arquibancadas. Só no estádio morreram cente- nas. Um deles foi o reverenciado cantor chileno Victor Jara, que foi espancado, teve mãos e cos- telas quebrados, foi metralhado e teve o corpo

 

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tradução simultânea
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simultânea

“Não há pior política do que a política do pior”

 
  tradução simultânea “Não há pior po lítica do que a po lítica do pior”  

ANTÓNIO SAMPAIO DA VOA

 

Reitor da Universidade de Lisboa

O grito da universidade portuguesa contra a crise

* O reitor da Universidade de Lisboa criticou de forma contundente a decisão do ministro das Finanças

mento vigorará até uma ordem em contrário. A medida é uma tentativa de resposta à seve- ra crise econômica e social que o país vem en- frentando. Uma resposta desastrosa, segundo António Sampaio da Nóvoa, que tachou a de- cisão de “um gesto insensato e inaceitável”. Em carta divulgada na última terça-feira, intitulada “Não é fechando o país que se re- solvem os problemas do país”, Sampaio ata- cou o congelamento das despesas, alertan- do que este causará “enormes prejuízos no

plano institucional, científico e financeiro”. “O governo utiliza o pior da autoridade para interromper o Estado de direito e para instau- rar um Estado de exceção. Levado à letra, o despacho do ministro das Finanças bloqueia a mais simples das despesas, seja ela qual for. Apenas três exemplos, entre milhares de ou- tros. Ficamos impedidos de comprar produtos correntes para os nossos laboratórios, de ad- quirir bens alimentares para as nossas cantinas ou de comprar papel para os diplomas dos

nossos alunos. É assim que se resolvem os pro- blemas de Portugal?”, escreveu o reitor. Teme-se ainda que a decisão do ministro das Finanças, que entrou em vigor imediatamente , implique no bloqueio de compromissos inter- nacionais envolvendo projetos de investigação acadêmica fundamentais. “Não há pior política do que a política do pi- or”, arrematou Sampaio, acusando Gaspar de levar a cabo uma “medida cega e contrária aos interesses do país” l

de Portugal tor Gaspar de conge- lar e sujeitar à prévia autorização pratica- mente qualquer nova despesa por parte das instituições públicas do país. Assinado na úl- tima segunda-feira, dia 8, o decreto deixa de fora apenas gastos considerados essenciais, como salários, água e luz, além de custos ju- diciais e contratos em execução. O congela-

EDITORA: Mànya Millen mmi@oglobo.com.br REPÓRTERES: Guilherme Freitas guilherme.freitas@oglobo.com.br, Leonardo Cazes leonardo.cazes@oglobo.com.br e Suzana Velasco suzana.velasco@oglobo.com.br DIAGRAMAÇÃO: Cristina Flegner Telefones: 2534-5616 e 2534-5650 E-mail: prosaeverso@oglobo.com.br