VARAL DO BRASIL - VARAL DA SAUDADE!

®

Literário, sem frescuras!
ISSN 16641664-5243

SAUDADES... PARECE QUE FOI ONTEM!
Ano 4 - Maio/Junho Maio/Junho de 2013— 2013—Edição no. 23
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VARAL DO BRASIL - VARAL DA SAUDADE!

VARAL DO BRASIL LITERÁRIO, SEM FRESCURAS
Genebra, primavera de 2013 No. 23
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EXPEDIENTE
Revista Literária VARAL DO BRASIL Especial Varal da Saudade NO. 23- Genebra - CH - ISSN 16641664-5243 Copyright Vários Autores O VARAL DO BRASIL é promovido, organizado e realizado por Jacqueline Aisenman Site do VARAL: www.varaldobrasil.com Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com

FIQUE ATENTO!

NOSSAS PRÓXIMAS EDIÇÕES:

Até 25 de maio estarão abertas as inscrições para a revista de julho/ agosto com TEMA LIVRE e também SEGREDOS & PECADOS. Até 25 de junho estarão abertas as inscrições para a revista de setembro com os temas HOMEM, A NOSSA ESTRELA e tema livre. Inscreva-se através do e-mail varaldobrasil@gmail.com Os textos devem ser enviados em anexo ao e-mail juntamente com o formulário de inscrição.

Textos: Vários Autores COLUNAS: A VIDA IMITA A ARTE Cintia Medeiros ARTES NA VISÃO DE Jacob B. Goldemberg CULTíssimo Ana Rosenrot FALANDO DE CULTURA Marluce Portugaels HISTÓRIA DO BRASIL SOB A ÓTICA FEMININA Hebe C. Boa-Viagem A. Costa LITERATURA COM Isabel C. S. Vargas LUPA CULTURAL Rogério Araújo (ROFA) PALAVRA CRÔNICA Anaximandro Amorim VITRINE CULTURAL Marina Cervini Ilustrações: Vários Autores Foto capa: ©-Masson---Fotolia.com Muitas imagens encontramos na internet sem ter o nome do autor citado. Se for uma foto ou um desenho seu, envie um e-mail aqui para a gente e teremos o maior prazer em divulgar o seu talento. Revisão parcial de cada autor Revisão geral VARAL DO BRASIL Composição e diagramação: Jacqueline Aisenman A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A revista está gratuitamente para download em seus site e blog.

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Em plena primavera se desenha o mês de maio na Europa. Dias maiores, sol mais frequente, a temperatura que nos convida a sair de casa. Após um longo inverno, nada melhor do que isto! Estamos a um passo apenas de nossa segunda participação no 27o Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra. Chegamos a este importante e marcante evento com a presença de quase trinta autores em nosso stand para autografar seus livros. Um grande feito, com certeza! Serão mais de cem títulos expostos para dar a todos a escolha necessária: muitos estilos diferentes para conquistar o coração e os olhos do leitor! É a nova literatura brasileira e portuguesa marcando forte a presença neste que é um dos mais prestigiados e badalados Salões do Livro de toda a Europa. Com lançamento internacional, os visitantes poderão apreciar o inédito Varal Antológico 3 que será lançado no dia 3 de maio em nosso stand D26 na presença de vários coautores vindos de várias regiões do Brasil e até mesmo da Suécia! Nossa terceira coletânea continuará seu caminho sendo lançada nacionalmente no Brasil em agosto num evento muito aguardado. Este lançamento do livro Varal Antológico 3 no Brasil acontecerá em Florianópolis, nas dependências da Assembleia Legislativa do Estado no dia 2 de agosto e contará também com a presença de vários coautores e de muitos escritores que participam ativamente do Varal do Brasil. Neste número trazemos o tema saudade, tema este que nos faz viajar entre o passado e o presente, reavivando memórias e fazendo com que revivamos situações que nos marcaram de muitas formas. Pessoas que fizeram parte de nossa vida vivem ainda conosco através da saudade que nos deixaram.

Em prosa e verso, os autores fizeram poesia com o tema desta edição: cheios de emoção, conseguiram traduzir sentimentos que em muitos momentos não conseguimos expressar. Saudade aqui se tornou chama viva e acendeu corações. Apesar do número crescente de participações e por motivo de tempo (ou melhor dizendo, falta dele) voltaremos a fazer as edições de forma bimestral. Infelizmente (ou felizmente!) com todas as atividades do Varal do Brasil acontecendo tanto na Suíça como no Brasil, está difícil conciliar a realização de uma revista mensal. Assim, nosso próximo número que falará de Segredos & Pecados, também trará o tema livre. E virá em julho, em pleno verão europeu! O número seguinte, que terá o Homem como Estrela, também trará o tema livre e sairá em setembro. Voltaremos assim, quando possível, a realizar edições especiais. Tantas foram as solicitações para que tivéssemos um pouco mais de prazo em nosso Concurso que resolvemos dar mais um mês para que os inúmeros escritores que nos contataram possam terminar seus textos inéditos. Assim, as inscrições irão até 30 de maio e o resultado será anunciado no dia 2 de agosto, no dia do lançamento de nossa coletânea. Agradecemos sempre a presença dos escritores em nossas páginas. Gente amiga que tem participado da revista e do blog. E agradecemos mais uma vez a sua presença leitor! É para você que escrevemos!

Jacqueline Aisenman Editora-Chefe Varal do Brasil

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ADINA WORCMAN ALDO MORAES ALEXANDRA MAGALHÃES ZEINER ANA MARIA GAZZANEO ANA ROSENROT ANAXIMADRO AMORIM ANNA BACK ANNA RIBEIRO ANTONIO FIDELIS ANTONIO MIGUEL CESTARI AUDELINA MACIEIRA BETO ACIOLI CARMEN DI MORAES CIDA MOREIRA CINTIA MEDEIROS CLÉO REIS DOMINGOS NUVOLRAI EDIANE SOUZA ELISE SCHIFFER ERICA GONÇALVES ESTHER ROGESSI EVANISE GONÇALVES BOSSLE FÁBIO SIQUEIRA DO AMARAL FELIPE CATTAPAN FLÁVIA ASSAIFE GAIÔ GERALDO SANT’ANNA GRAÇA CAMPOS GUACIRA MACIEL HEBE C. BOA-VIAGEM A. COSTA

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HELENA SCANFERLA HENRIETTE EFFENBERGER ISABEL C. S. VARGAS IVANE LAURETE PEROTTI JACOB B. GOLDEMBERG JACQUELINE AISENMAN JAN BITENCOURT JEANNE C. BARBOSA PAGANUCCI JÔ MENDONÇA ALCOFORADO JOAREZ DE OLIVEIRA PRETO JOSÉ HILTON ROSA JOSÉ SOLHA JUCA CAVALCANTE JÚLIA REGO LEDA MONTANARI (CÉU) LENIVAL NUNES ANDRADE LEOMÁRIA M. SOBRINHO LEONILDA SPINA LÓLA PRATA LYRSS CABRAL BUOSO MARCOS MAIRTON MARIA APARECIDA FELICORI (VÓ FIA) MARIA CESTARI MARIA CRISTINA CACOSSII MARIA (NILZA) CAMPOS LEPRE MARIA SOCORRO SOUSA MARIANE E. DE FIGUEIREDO MARILU F. QUEIRÓZ MARINA CERVINI LENTIN MARINA VALENTE
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MARIO REZENDE MARLUCE A. F. PORTUGAELS MARLY RONDAN MIGUEL GARCIA ALVES MIRIAN MENEZES DE OLIVEIRA MYRTHES N. SPINA DE MORAES NORÁLIA DE MELLO CASTRO NORBERTO DE MORAES ALVES ODENIR FERRO ONÃ SILVA RENATA IACOVINO RITA DE OLIVEIRA MEDEIROS ROGÉRIO ARAÚJO (ROFA) ROBERTO FERRARI ROBINSON SILVA ALVES ROSELIS BATISTAR SAMANTHA FERNANDES

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SHEILA FERREIRA KUNO SID SUMMERS SILVANA BRUGNI SILVIO PARISE SONIA CINTRA THEREZINHA RAMOS DE ÁVILA VALDECK ALMEIDA DE JESUS VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI VALQUÍRIA IMPERIANO VARENKA DE FÁTIMA VIVIANE SCHILLER BALAU VLADIMIR INOKOV WADAD NAIEF KATTAR WALNÉLIA CORRÊA PEDERNEIRAS WELINGTON MARIANO DA SILVA YARA DARIN

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UM SITE QUE FALA DE SAUDADES!

Um espaço dedicado a todos os lagunenses e lagunistas e a nossa cidade-mãe, Laguna, Santa Catarina. Lá você vai encontrar um arquivo da cidade de Laguna, Santa Catarina, que remonta a diversas décadas, assim como fotos e fatos de pessoas em épocas distintas. Pessoas que contribuíram para construir o que hoje é a presente Laguna. O site o resultado da colaboração carinhosa, culta e empenhada de gente que não se contenta em enviar uma ou outra foto! São pessoas incríveis que pesquisam, mantém arquivos, são uma espécie de consciência coletiva de nossa cidade. Hoje o site encontrou o seu verdadeiro objetivo de vida... Tornou-se o nosso álbum de família. Reflete a vontade de todos aqueles que contribuíram e contribuem com fotos, comentários, histórias, com o intuito de resguardar nossa memória.

Visite o LAGUNISTA! www.lagunista.com
Participe do site enviando fotos, textos, jornais! Comente as fotos, envie suas lembranças! Podemos ir além da saudade de toda uma época se, juntos, rememorarmos nossa cidade! Contatos com Paulo Aisenman: lagunistas@gmail.com

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A VIDA IMITA A ARTE
Cintia Medeiros

“Ê, saudade... que bate no meu coração; sei que é tarde... mas não desligue não. Ê, saudade... que bate no meu coração; preciso dizer que te amo pra você lembrar” Oi pessoas do Varal!! Muito sol pra secar essa roupa logo e muita paz a todos!! Como o tema desse mês é saudade, eu decidi escrever também sobre isso...e nada melhor do que essa música do grupo Jammil e uma Noites, pra começar mais essa coluna com muita energia. Mas o que é saudade?! O dicionário online conceitua a palavra saudade como sendo uma “Recordação suave e melancólica de pessoa ausente, local ou coisa distante, que se deseja voltar a ver ou possuir”. Alguém uma vez me disse que a saudade é o amor derramado em lágrimas. Quem afirmou pela primeira vez? Não sei, mas com certeza era alguém simples, que perdeu alguém que amava muito, ou que viveu momentos tão felizes durante a vida que não se cansava de lembrar ou contar pros outros...isso é saudade! Bem...antes de iniciar, imagino que agora alguns de vocês devam estar se perguntando o que esse tema tem haver com arte. Hmmm, na verdade acho que tem tudo haver! Me expliquem: é possível não sentir saudade daquilo que nos faz bem?! Das histórias vividas ao longo da vida, das risadas com a família, dos micos com os amigos, dos erros e acertos...?! Enfim, a essas memórias que nos acompanham durante a vida, eu chamo de história. E o que é história?! Num de seus vários significados, o mesmo dicionário afirma que história é a “narração de acontecimentos e atividades humanas ocorridas no passado” ou ainda a “narração de aventura particular, narrativa”. Seguindo à mesma linha de raciocínio, arte, no meu entendimento, é toda manifestação artística e cultural de um povo, ou seja, aquilo que se quer demonstrar. Então, escrever pode ser visto como: “redigir, compor: escrever uma obra” que nada mais é que fazer arte!!

Hoje eu escolhi recordar momentos meus, imortalizar histórias...isso é arte gente! E agora, vocês vão conhecer algumas particularidades da minha família e dos meus amigos...mas vou logo advertindo, aqui só têm loucos e a família, bem...esta é quase a família Buscapé!! Espero que gostem dos momentos que eu selecionei e riam, chorem...enfim, compartilhem desses momentos comigo! Vamos lá?! Começar contando um pouquinho sobre o meu pai, sinto uma falta dele que vocês nem calculam. Lembro que quando o perdi, eu fiquei estática, absolutamente sem reação. Não sabia como lidar com aquela situação, pra mim a perda era algo novo...e ainda que tivesse minhas turras com ele, eu o amava muito...só que amor entre pais e filhos é diferente, é algo profundo; vai além de rir ou chorar, brigar ou concordar...não há uma definição exata sobre o que é ser pai, do que é ser mãe, muito menos do que é ser filho...é a relação mais forte que qualquer outra existente, e o sentimento de amor é muito mais profundo...um filho é parte de um pai, é parte de uma mãe, é parte de um amor vivido; e a relação, esta você aprende no dia-a-dia, na convivência, nos ensinamentos, nos exemplos. Tenho muitas lembranças dele, muitos motivos que me reportam saudades...mas saudades boas. Lembro que às vezes ficava zangada com suas atitudes, de tal maneira que dizia nunca querer repetir tal feito ou ainda tentar fazer diferente, levar meu jeito; no outro dia, pasmem, minhas atitudes eram cópias...e eu acho que isso assusta um pouco. A gente sempre quer ser mais moderno que os pais, mas na verdade, ser espelho é bom...principalmente quando a base é boa. Certa vez, logo que mudei para o Nordeste, o meu irmão foi acometido de um surto de dengue. Meu pai, muito entendido da medicina e ciências afins, disse: “Vai tomar água de coco, num instante fica bom”, e lá vamos nós atrás de um coqueiro... (segue)
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ele e eu. Chegamos então a um sítio, de uma senhorinha que ele acabara de conhecer...então lá vai ele subindo o coqueiro, e eu no auge dos meus 11 anos embaixo...parecia que queria mesmo arrumar sarna pra se coçar, como se diz por ai. Enfim, só escuto quando ele diz: “Lá vai o coco...”, e como num passe de mágica, minha mão estava roxa...e assim ficou por quase uma semana; sinceramente até hoje eu não entendo aquele reflexo de querer segurar o coco. Não sei por que fiz isso, acho que foi muito rápido e cabeça de criança é igual cartola de mágico, ninguém sabe o que se esperar. Ai além do meu irmão com dengue, minha mãe tinha agora outra preocupação: uma mão roxa e absolutamente inchada, tal qual a mão do “Coisa”, personagem do Quarteto Fantástico...e que para minha sorte, não quebrou; mas o pior de tudo era explicar pros meus amigos como se deu tal feito...ninguém entendia por que eu quis segurar um coco, aliás nem eu; e muitas piadinhas foram ouvidas por um bom tempo até que eles esquecessem. Sobre os meus pais, enquanto marido e mulher, eu diria que eles tinham uma maneira muito particular de conversar entre si. Como o dia era muito curto pra eles, eles discutiam 24h:01m, era algo impressionante; parecia que sempre tinham algo a discutir, que sempre queriam implicar um com o outro, e que nunca concordavam em nada. Mas à medida que fui crescendo, fui percebendo que era a maneira que tinham em se comunicar, em dizer o que sentiam um ao outro. E por muito tempo, ficava zangada com aquilo...não sabia que partido apoiar...se o de direita ou o de esquerda...algumas situações chegavam a ser cômicas, por que até o pó do café podia virar um tema de discussão gigantesco...!! Imagine então se o Corinthians perdesse, a casa caía...”ah, mas eu não torço mais pra esse time...só tem marreco”...e defesa vinha, acusação ia...e assim terminava o dia, pra no outro virem novos motivos de réplica por um ou por outro! Hoje, quando olho pra minha mãe, percebo o quanto ela sente falta daquelas ranhas entre eles. Logo que iniciei a faculdade, ele veio a falecer; e numa das aulas, sobre cura do concreto, eu lembro que o professor falava sobre o processo e eu comecei a chorar. Lembro que saí da sala, e atrás de mim uma fila completa de gente amiga, querendo me consolar. Fico impressionada toda vez que me lembro disso. Naturalmente a aula terminou. O professor ficou lá guardando seus pertences, e eu lá fora comecei a rir; afinal de contas não é todo dia que se acaba uma aula dessa maneira...me senti tal qual aqueles meninos que choram aos pés da mãe pedindo pra comprar doce. Ao lado destas pessoas, posso afirmar com convicção, tive e tenho ótimos momentos sempre...dos mais bobos aos mais sérios. Lembro que uma vez saímos pra comemorar o aniversário de um amigo, detalhe...ele não estava, mas saímos mesmo assim. Nas fotos deixamos o lugar dele reservado, e nas montagens ele se fez presente das formas mais engraçadas que vocês possam imaginar; uma amiga o desenhou ao estilo homem-palito, e colou nas fotos...ótimooo, tenho essas recordações até hoje guardadas nos meus arquivos pessoais. E se me pedissem que juntasse numa única folha de papel os momentos que vivi ao lado de cada um, diria que seria absolutamente improvável. Só pra concluir, vou deixar vocês com alguns dos micos da minha galeria “micos nossos de cada dia”, nunca vi pessoa mais atrapalhada. Sempre trabalhei no setor privado, prestando serviço pro setor público, ou seja...com prefeituras...e ai, histórias não faltam! Numa delas, senão a pior, fui desejar felicidades a uma prefeita que achei que estava grávida...boa foi a resposta: “Não minha filha, são os anticoncepcionais”...podre! Mas, pra minha sorte ela estava grávida mesmo, só que não sabia ainda...então precisando de olhos de parteira, me perguntem! Outra vez, meu antigo chefe me chama pra fazer um ofício pra um comandante da polícia militar...o nome dele?! Lima Irmão. O que eu escrevi? Lima Limão...está foi podre, mas hilária...ele passou um bom tempo rindo sozinho na sala dele. Mas acho que uma das piores tenha sido uma capacitação do governo que fui fazer na Caixa Econômica, lembro que encontrei uma amiga lá, e nós inventamos de ir lanchar. Quando a gente volta, o que vê? Prédio fechado, tentativa de atentado com bomba. Só um detalhe: nossas coisas ficaram presas no auditório, era pra ser algo rápido, então deixamos tudo lá. Enfim, não foi nada...rendeu boas risadas depois. Essas coisas sabe, essas pessoas, essas histórias...gosto de lembrar e morro de rir. Isso tudo me dá saudade. * Gostou? Quer saber mais da colunista? Quer dar sua opinião? Escreva para o Varal!
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LEMBRANÇAS
Por Evanise Gonçalves Bossle

Se bem me lembro, tinha uns cartões antigos, guardados. Perco-me a procurá-los. Às vezes acordo e recordo, que talvez nem lembre mais o que procuro. Em meio a desordem da memória, encontro papéis esquecidos, retratos mofados e outros guardados ainda, intactos que o tempo apagou, e não encontro palpáveis pedaços de saudades, a não ser na lembrança. Recorro a gavetas emperradas pelos anos. Desorganizo a ordem do esquecimento. Removo poeira e sentimento. Reviro, remoldo, desisto; não acho e confirmo o que já esqueci. Talvez, lembrar seja fácil, mas não acho. É difícil recorrer a lembrança, menina de longas tranças, meias brancas, que envelheceu. Só existe na foto amarelada, abatida, amargurada, pedaço, caco da consciência que passou.

Este poema faz parte do livro de Poemas “Ìcones do Tempo”

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RIO DE JANEIRO
Por Walnélia Corrêa Pederneiras

Quando te revi entendi porque existe a palavra Saudade que é bonita tem eco e sonoridade...

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Saudade
Por Flávia Assaife Dizem que da e passa Mas em mim é uma verdadeira devassa Vira-me do avesso Deixa um amargor no meu peito Meu coração descompassado Emudece toda a emoção Lágrimas do meu pranto Tentam esconder-se da multidão Lembranças insistentes Persistem em minha mente Busco, em vão, retirá-las do presente Mas permanecem enraizadas em meu consciente Saudade é o que se sente Quando alguém importante está ausente Um aperto, uma dor, um torpor Envolve-nos por inteiro É como despencar num desfiladeiro Não há como acalmar este anseio Senão com o aconchego do coração alheio Que entre abraços e destemperos Nos aquece com o calor de um doce beijo.

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Saudade
Por Geraldo Sant’Anna

Enquanto o corpo e amente Parecem calmos ou Comprometidos com o trabalho Ela emerge

Ela surge de repente Pairando Um abutre real Que observa Distante Esperando, esperando A fragilidade a faz descer e mesmo que desengonçada chegue tem meta determinada corroer até o cerne

De alguma região obscura do subconsciente Ou será do coração

Saudade Saudade de que ? Ou será apenas carência... A falta da pessoa Que, segundos alguns, Se oculta em nós mesmos Tenho saudades de mim ?

ela vem como quem nada quer como a garota que brinca displicentemente com os cabelos do adolescente enquanto discute futebol

ela vem em horas incertas aproveitando-se da incerteza que comanda cada momento da vida

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RECEITAS ANTIGAS DA MAIZENA
Do blog conversanacozinha.blogspot.com

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AMANTE AMIGO
Por Antonio Fidelis

Estou com saudades de vocês Dos seus beijos, Dos seus abraços, Do jeitinho que me olhas, Da sua respiração na minha nuca Do seu toque. Do calor do seu corpo E do cheiro da sua pele. Do seu corpo inteiro sobre o meu, De você... Uma pessoa especial Que deu brilho à minha vida E um amigo nas horas vagas. Mas é a pessoa que sacia o meu desejo E compreende minha alma.

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Saudade
Por Varenka de Fátima Araújo No silêncio soturno sozinha A solidão machuca meu coração Ouço suas batidas intensas Deixa que bata como batuque Suas batidas aceleram No mesmo ritmo da percussão Batidas continuas sentidas O sino em sons forte, quatro vezes Ah! suas batidas num compasso O sino bate em outro compasso Sons que se misturam, encanto! Como partitura na canção despertar Minha alma renasce fortalecida Rompe as fronteiras do meu corpo Em passos ritmados pelas batidas Sinto um alento no coração, alegria! Saudade, esse gosto amargo Não mora na minha mente Mandei bater em outra porta Mandei para quem vive no passado.

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PALAVRA CRÔNICA
Por Anaximandro Amorim

A DIFÍCIL ARTE DA HUMILDADE

Esses dias, uma colega de trabalho me chamou a atenção para aquelas coisas que, de tão banais, a gente nem se dá conta. Quem viajou de avião sabe muito bem que "em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Coloque a sua primeiro e depois ajude quem está do seu lado." Faz sentido. Afinal, como é que a gente pode ajudar os outros se a gente não se ajudar antes? Este mundo de hoje é muito estranho. Vivo escrevendo sobre isso e, se um dia essas linhas sobreviverem ao tempo, tenho certeza que quem for ler, no futuro, vai achar a mesma coisa do nosso presente. Somos capazes de dar conselhos, mas não queremos ser aconselhados; falamos do desapego, mas somos todos apegados; Queremos ter mais tempo, mas vivemos ocupados; queremos uma vida mais simples, mas acumulamos cada vez mais. E vivemos escravos de demandas artificiais, coisas que muitas vezes nos impõem e que, no fim das contas, a gente se pergunta: por que eu comprei isso? Ou vai dizer que você nunca doou uma camisa ou um sapato que você jamais usou? Muitas vezes eu fico pensando em como é difícil essa tal de humildade. Pessoas como Cristo, Francisco de Assis, Buda, Gandhi foram exemplos de desapego total de bens materiais, de uma vida mais espiritualizada - e não tiveram uma vida fácil. Fico imaginando se algum deles teria espaço nos dias de hoje, se

nascessem nesta era. Não, isto aqui não é proselitismo. Cada vez mais eu observo que trocamos o sagrado (seja ele como for) pelo mercado - e nos perdemos em um mar de infelicidade, pois, com a obsolescência dos bens materiais, nós também nos achamos obsoletos - e envelhecemos antes da hora, produzindo uma horda de pessoas ou angustiadas ou ansiosas, incapazes de viver o tempo presente. Digo isso porque, tempos atrás, tentei imaginar como seria, de fato, um mundo de desapegados. Certamente não teríamos arranha-céus, nem automóveis potentes, talvez não teríamos dinheiro ou talvez o mínimo. Uma utopia comunista? Não creio... tampouco um fanatismo religioso. Provavelmente uma sociedade em que as pessoas praticassem a tolerância, a aceitação. Algo simples, puro, longo de amarras, de doutrinas. Talvez fosse isso o que as religiões quisessem, em sua origem, mas que o homem, que possui, em si, o gérmen da ganância, jamais conseguiu entender. Porque, infelizmente, fomos programados para o acúmulo, a competição. E essa é uma cilada da qual não conseguimos sair. Vejo, porém, um movimento em contrário, de gente que procura fugir do caos urbano em busca de uma vida pacata no interior. Seria a busca do Éden, aquela dimensão divina, perdida lá longe, no Paraíso? Ou, simplesmente, uma forma de fazer com que o relógio ande mais devagar? Cada vez mais percebo gente cansada da correria, buscando, às vezes, ganhar menos, mas ter mais tempo para a família, para os filhos. (Segue)
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E uma hora tudo deverá ser repensado, pois está tudo errado: criamos o tempo para ser nosso escravo - e não para sermos por ele escravizado. É do ser humano achar que a grama do vizinho é mais verde; que a festa ao lado é mais animada; que o prato do outro é mais saboroso. E é um exercício de humildade gostar-se do seu próprio jardim, da sua própria festa, do seu próprio prato. Já disse várias vezes que a raça humana se encontra no limiar de suas forças. Ou temos a humildade de repensar a nossa vida aqui neste planeta ou chegaremos, com ele, à exaustão. O simples cair de uma máscara em caso de despressurização pode nos ensinar muita coisa. Pode nos mostrar que, para repensar a vida, precisamos de ar; para ajudarmos os outros, precisamos nos ajudar; mas, também, que, independente de quem somos, estamos no mesmo barco. Ou, no caso, no mesmo avião, rumo a esse infinito tão fabuloso que é a vida.

ADOTAR É MOSTRAR AMOR! NÃO TENHA PRECONCEITO, ADOTE UM ANIMAL DE RUA, SEM RAÇA, MAS CHEIO DE AMOR. ANIMAIS ADULTOS TÊM MAIS DIFICULDADE DE ENCONTRAR UM LAR, ABRA O SEU CORAÇÃO E A SUA VIDA PARA UM VIRA-LATAS (E NÃO SE ESQUEÇA, FEIO É O SEU PRECONCEITO!)

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SAUDADES DAQUELES QUE NÃO CONHECI
Por Adina Worcman

usar este texto na abertura do livro. Ela, que também é escritora e presidente da Literarte, com 1000 escritores e artistas inscritos, disse ter amado o texto e que eu escrevia muito bem. Nesta hora, de frente ao computador, o Hélio, meu marido chega e me encontra com os olhos marejados. Apontei a ele o e-mail e não precisei dizer mais nada. Isto fortaleceu em mim o que estava latente e eu nunca havia prestado muita atenção. Nasci em Rosenheim – Alemanha pós guerra, meus pais (que descansem em paz), eram poloneses, papai passou por 6 campos de concentração e minha avó materna, que já era viúva, com 3 filhos, entre eles minha mãe, ficaram escondidos na Sibéria (Rússia). Anos depois minha avó e dois filhos (mamãe já havia conhecido papai), estariam no navio ÊXODUS¨ a caminho de Israel. Finda a guerra, papai descobriu que de toda a família e dos 12 irmãos, só ele e mais dois sobreviveram, um estava em Israel e outro nos EUA. Papai e mamãe se conheceram e em pouco tempo estavam casando, ela com um vestido e sapatos emprestados que lhe apertavam os dedos e com a idade de 16 anos.

Quem sou, como sou, o que será, o que virá, o que poderia ter sido?????????? São muitas as dúvidas, mas para que pensar nelas? As coisas acontecem, a vida passa, as pessoas se vão e a lembrança fica. Há tempo me passa pela mente a ideia de escrever sobre minha vida. Mas aí ,em seguida penso: O que vou ganhar com isto? No que a vida vai mudar? Será que vale a pena se expor? Afinal, já me sinto realizada, estudei, casei, formei uma bela família que me geraram bons frutos e acima de tudo já tenho uma carreira encaminhada e reconhecida. Mas algo lá no fundo me atormenta, pois por onde passo, pareço deixar alguma marca nas pessoas. É comum eu estar em algum círculo social e as pessoas demonstrarem uma curiosidade sobre mim, pois o que fez e faz parte da minha vida, soa a eles como algo que eles não vivenciaram, não conheceram e me encorajam a escrever.

Era comum nesta época de aflição, insegurança e abandono, as pessoas procurarem constiSerá que sou tão diferente? Não pensava desta tuir logo uma família e assim nasci eu em forma, tudo para mim fazia parte do momento e 12/02/1948. sempre aceitei tudo como algo normal. Aos Sinto saudade da família que não conheci, dos poucos, fui sentindo que realmente eu tinha muito a dizer. E, coincidentemente e involuntari- entes queridos que tiveram a vida abreviada. amente fui abrindo novas portas e janelas e eis que de repente além de artista plástica que já escrevia sobre as minhas obras, começo a ser considerada escritora, participando de antologias literárias. Em 2012, descubro a Literarte, comecei a enviar textos sobre vários assuntos e estes foram muito bem aceitos. Outro dia sozinha num voo para NY, procurando preencher as horas de viagem, comecei a elaborar um texto para a antologia ¨RAÍZES¨, que iria ser lançado em 2013 em Angola, Bélgica e Brasil. As palavras iam fluindo na minha mente e eu não conseguia pensar em outra coisa. De volta ao Brasil, mandei este texto á presidente da Literarte Izabelle Valadares, sem expectativa alguma, somente por curiosidade e eis que Izabelle me retorna perguntado se pode
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Este ano o stand do VARAL DO BRASIL acolherá uma exposição de pinturas do artista RICHARD CALIL BULOS. Richard, também conhecido como Chachá, nasceu no Rio de Janeiro e radicou-se após em Laguna, SC, onde viveu até seu falecimento em 2007. Filho de um libanês e de uma suíça nascida em Genebra, o artista já teve suas obras expostas por três vezes nesta cidade (duas vezes na OMC e uma vez na OMPI). Artista plástico, caricaturista, jornalista, Richard dedicou sua vida a retratar e defender os cidadãos mais simples da região de Laguna, cidade que amou e pela qual zelou com palavras, tintas e pincéis. Suas obras estão espalhadas pelos cinco continentes.
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ENFERMAGEM
Por Onã Silva A profissão de Enfermagem tem reconhecimento histórico e social porque a essência da profissão é a arte e a ciência do cuidado ao ser humano, de modo integral. No contexto atual, a profissão de enfermagem não está restrita a ações no ambiente hospitalar, mas desenvolve também atividades multidisciplinares, criativas, lúdicas visando a promoção, proteção, prevenção, reabilitação e recuperação da saúde. Dia 12 de maio comemora-se mundialmente o Dia do Enfermeiro, em homenagem a Florence Nightingale, a fundadora da enfermagem moderna, que nasceu em 12 de maio de 1820. No Brasil, o Dia do Enfermeiro foi instituído pelo Decreto nº 2956 de 10/11/38 pelo Presidente Getúlio Vargas, sendo comemorado em 12 de maio em referência ao nascimento de Florence Nightingale. Também, no Brasil, no dia 20 de maio, comemora-se o Dia Nacional dos Técnicos e Auxiliares de Enfermagem, em memória do falecimento de Anna Nery, que ocorreu em 20 de maio de 1880. A Semana Brasileira de Enfermagem é um evento anual instituído pelo Decreto nº 48.202 de 1960 e assinado pelo Presidente Juscelino Kubitschek. A Semana de Enfermagem ocorre em todo Brasil, no período de 12 a 20 de maio, oportunidade de celebração, apresentações científicas e culturais diversas, bem como de atos e manifestações em favor do desenvolvimento político da profissão.

ANA NERI - A Matriarca da Enfermagem no Brasil
(13/12/1814 + 20/05/1880) A primeira escola oficial de enfermagem de alto padrão no Brasil, fundada por Carlos Chagas em 1923, recebeu em 1926 o nome de "Ana Néri", em homenagem à primeira enfermeira brasileira, que serviu como voluntária na guerra do Paraguai. Ana Justina Ferreira Néri nasceu na vila de Cachoeira de Paraguaçu-BA, em 13 de Dezembro de 1814. Viúva do capitão-de-fragata Isidoro Antônio Néri, viu seus filhos, o cadete Pedro Antônio Néri e os médicos Isidora Antônio Néri Filho e Justiniano de Castro Rebelo; seus irmãos Manuel Jerônimo Ferreira e Joaquim Maurício Ferreira, ambos oficiais do exército, serem convocados para a Guerra do Paraguai. Ana Néri escreveu então ao presidente da província uma carta em que oferecia seus serviços como enfermeira enquanto durasse o conflito. Partiu da Bahia, de onde nunca saíra, em 1865, para auxiliar o corpo de saúde do Exército, que era pequeno e contava com pouco material. Começou seu trabalho no hospital de Corrientes, onde havia, nessa época, cerca de seis mil soldados internados e algumas poucas freiras vicentinas. Mais tarde, assistiu os feridos em Salto, Humaitá, Curupaiti e Assunção. Mulher de posses, com seus recursos montou na capital conquistada, na própria casa onde morava, uma enfermaria limpa e modelar. Ali trabalhou, abnegadamente, até o fim da guerra, na qual perdeu seu filho Justiniano e um sobrinho, que se alistara como voluntário da pátria. De volta ao Brasil, em 1870, Ana Néri recebeu várias homenagens: foi condecorada com as medalhas de prata humanitária e da campanha e recebeu do imperador uma pensão vitalícia, com a qual educou quatro órfãos que recolhera no Paraguai. Seu retrato de corpo inteiro, obra de Vítor Meireles, figura em lugar de honra no paço municipal de Salvador. Ana Néri morreu no Rio de Janeiro-RJ, no dia 20 de Maio de 1880. Fonte: h(p://www.nossosaopaulo.com.br/
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HISTÓRIAS DA ENFERMAGEM NO UNIVERSO DE CORDEL
Um livro de Onã Silva

Informações específicas sobre o livro Título: Histórias da enfermagem no universo de cordel Autora: Onã Silva Editora: Thesaurus Editora de Brasília ISBN 978-85-409-0142-1 Formato 14 x 21 cm 136 páginas - 1ª edição – 2012 A enfermagem é uma profissão que tem realizado avanços históricos como a ruptura do modelo hospitalocêntrico, transformando o cuidado pela integralidade e ações multidisciplinares, criativas e lúdicas. Alguns autores da área de enfermagem – incluindo a enfermeira e escritora Onã Silva – ao longo da trajetória profissional pesquisam, estudam e divulgam ações e trabalhos voltados para o estímulo e o desenvolvimento do potencial criativo do profissional de enfermagem. No final de 2012, Onã Silva realizou o lançamento da obra inédita intitulada Histórias da enfermagem no universo de cordel. O referido livro originou-se de projeto de pesquisa sobre o conhecimento estético. A autora mergulhou no universo encantador do cordel para narrar histórias da enfermagem; divulgar a produção do conhecimento estético cordelizado, destacando nas histórias o patrimônio histórico, literário, cultural e político da enfermagem Contato e informações com a autora Email: onatil@gmail.com www.onasilva.com.br http://rebra.org/escritora/escritora_ptbr.php?id=1658 http://www.bdb.org.br/frmConsultaEscritoresBsb.aspx http://lattes.cnpq.br/5534290842969345 http://www.facebook.com/ona.silva https://www.facebook.com/groups/301381963288411
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AMOR e PROSA
Por Graça Campos Saudades de teu abraço, de teu afago, e mais ainda, das horas de amor maduro, que sabe, ouve e entende apenas... Saudades de teus olhos nos meus, a espelhar o que nos vem da alma... Saudades de nossa música predileta, ecoando silêncio profundo... Da grandes viagens em veleiros calmos, buscando no vento, brinquedos tentadores... Das breves palavras, eternas histórias acendendo rastros, marcas de nossa lida, tão aliada ao que se aprende todos os dias! Do ser espontâneo, tu e eu na junção de nós! Mas, sem amarras, sem esperar que o mundo entenda, ou aprecie, ou julgue... Nosso viver é único! Saudades de ontem, logo ali, nos anos de primeiro tudo! Saudades das prosas curtas pela impaciência de nossos desejos. De nossas falas baixinhas adentrando madrugada, aprendendo o cultivo do amor! Ainda agorinha, era hoje e já é ontem, e o tempo, parceiro e tanto, vai ajeitando os dias, e o presente é você, sou eu, somos nós nessa ânsia da vida. Como é gratificante esse viver e conviver mudando com a natureza assim bobamente, mas de verdade muita, de semente à flor, ao fruto, à sombra ao sol da estrada... Tudo é viagem no tempo... Falo da saudade boa que não causa dor, apenas um momento (eu - palavras, nós engajados) compartilhando flashes que fazem diferença e alimentam a alma da gente! Saudades! Independente do tempo em que ficamos longe ou perto... Se na esquina, ou qualquer lugar!

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Saudades da infância: Meus lápis-de-cores
Por Silvana Brugni Lembranças vindas de tempos felizes onde eu pequenina brincava com lápis-de-cores, papéis, e gizes, desenhos de criança ainda que logo adolescente se tornara. Encantada com a magia das palavras principiaram a surgir pequenos versos, de sentimentos pueris que eu rimava e nos adultos algum agrado causava. Para eles, coisa de criança e adolescente apenas! pois ao mundo concreto eu ainda não me lançara. E chegado o momento que esperavam, que de certa forma, eu também esperava: O de ser mulher e amadurecer, Num baú... meus desenhos e versos eu guardara lançando-me a uma nova fase da vida, investida no papel de esposa, mãe, funcionária.. Ficaram para trás as lembranças doces e sentidas dos lápis-de-cores, desenhos e rimas que eu formava. Anos se passaram e com eles o vazio de algo incomodava: Era o dom Divino a mim concebido, que eu por conta da vida para trás deixara e jazia desprezado e adormecido, esquecido... n’aquele velho baú que abandonara. E aquele pedacinho tão importante de mim teria sumido se um despertar da alma não me tivesse tomado e lutando contra os incrédulos, quão pedras no caminho, em descrédito da vontade que meu coração acalentara olhos adiante, segui em frente sem desistir, até que vencidos os primeiros percalços retomei meu caminho colorido, e ao meu dom, feliz... eu retornara!

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SAUDADES... PARECE QUE FOI ONTEM
Por Rita de Oliveira Medeiros Desliguei o computador, comprado a duras penas, com o meu salário de telefonista, lá pelas tantas horas da noite, como já o fizera em tantas outras daquela mesma semana de provas e trabalhos bimestrais.

não é o meu forte! Só sei que todas as vezes que a ele me dirigi, fui socorrida! E que atendendo ao que teu avô Roldão me disse uma vez, coloquei minha vida nas mãos dele e, até hoje, não me arrependi! As respostas sempre vieram de um jeito ou de outro! -Agora, no Deus cristão, aquele velhinho cruel, furioso,de barbas brancas morando numa nuvem, não! Neste eu não acredito não, e até acho que foi criação dos homens mesmo!

Dentre outras palavras, beijos e aconchegos, A casa que as constantes enchentes nos obri- ele sorriu e o azul dos olhos ficou mais brilhangaram a começar a construir estava apenas no te e iluminado sinal, para o meu coração de seu primeiro pavimento. No mesmo quarto on- mãe, que ele estava satisfeito com a resposta! de dormiam os filhos, ficava o computador que -Boa noite mãe! acabara de desligar. -Boa noite filho, dorme com os anjos! Fui até a cozinha satisfazer o vício do café: pela última vez um golinho! Voltei para verificação -Tá! final das cobertas e dos pés para fora do beli- Mais uma ajeitada nas cobertas, uma última che! olhada na galega que dormia na outra cama e Quando virei as costas, esfreguei os olhos se- me fui rastejando escada abaixo, pensando no cos, apaguei a luz e suspirei fundo, pensando que diria agora, o neurologista consultado aos cinco meses de idade: na cama quentinha que me aguardava, eis que.... - É mãe! O teu filho somente tem a favor dele os olhos muito brilhantes. O resto me preocu- Ô mãe? pa. Vamos fazer uma contagem de cromossoDe costas mesmo eu resmunguei um – hã? E mas! na esperança que fosse suficiente para contenMecanicamente, me dirigi ao laboratório, ainda tá-lo eu soltei a pergunta básica: não acreditando no absurdo daquela situação. - Já rezou filho? Dorme com Deus! A enfermeira perguntou qual o motivo do pediDei uma ajeitada nas cobertas, um beijo demo- do, era exigência da “Patronal”. rado, um afago nos cabelos loiros e uma última - Não sei! Respondi confusa e angustiada. Algo mirada nos doces olhos azuis (milagres da ge- com pregas nos olhos, orelha muito abaixo da nética!), torcendo para que isto o satisfizesse! linha dos olhos, pele flácida e a cabeça que ele Mas, não teve jeito, com eles nada tinha jeito quando queriam conversar! -Sabes o que eu pensei? -Não filho, o quê? ainda não tinha firmado. -Ah! Eu sei! Características de Down, né? Incrível foi como consegui continuar segurando -o em segurança, quando o chão sumiu dos meus pés!

-Será que foi Deus quem criou o homem ou foi Agora, 6 anos depois, o menino “com caracteo homem quem criou Deus! rísticas de Down” tinha acabado de me fazer -(Valei-me minha Nossa Senhora.... !) pensei: dançar um samba do crioulo doido para res-Depois da meia noite, varada de sono e can- ponder sua pergunta de uma forma satisfatória! saço, o que vou dizer para este guri meudeus- Quando consegui chegar ao quarto, o marido sdocéu!!! resmungou nas cobertas e a noite seguiu seu Inspirei fundo, invoquei todos os anjos e arcan- curso! jos, principalmente o mentor que toda catequista deve ter ao seu lado, por direito divino... (Segue) - Isto eu não sei te responder filho... Filosofia
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Naquela semana, contei à psicóloga, que eu pagava para que ouvisse meus desatinos, este estranho diálogo, apenas para exemplificar como estava assoberbada minha vida de mãemulhercozinheiralavadeiraestudantetelefonista,etc, etc, e ela me disse: -O quê? Estás doida? Dizer uma coisa destas para uma criança de apenas 7 (sete) anos? -Depois ainda achas estranho ter um filho filósofo!!!! Olhei para ela muito espantada! Pensei em qual outra resposta poderia ter dado? Corria o ano de 2001. Os colegas de trabalho às vezes expressavam admiração, às vezes, desdém disfarçado, por uma pessoa de 40 anos que resolve estudar novamente e, ainda por cima, DIREITO! Três idosos para cuidar, duas crianças, uma casa sempre em construção, marido, cachorros, enfim, tudo o que uma boa família tem, não era fácil de administrar... Passei, passamos por muitos apertos! O filho filósofo ainda me colocou em outras “saias justas” e continua mais pensador ainda. Agora, é tocador de violão e engatinha nas composições. Com frequência quer que eu cante com ele mas ainda me requisita para uns papos cabeça! A galega, que dormia no beliche de baixo, agora nem liga para o quarto que é só dela e quase nem dorme mais em casa! Está quase terminando o curso de Artes Cênicas, mas já caiu de amores pela dança cigana há um ano mais ou menos e temos que nos sujeitar ao seu gosto musical restrito ao tema, quando ela vai limpar a casa! Tudo passou tão devagar e tão velozmente que agora, aqui escrevendo, sozinha em casa eu me lembro daquele “aperto” que ele me colocou e fico pensando: -Como foi que passou tão rápido? Que saudade! Parece que foi ontem!

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ERA UMA VEZ UMA CASA
Por Roselis Batistar Não há mais casa Nenhuma asa para alçar a janela esmaltada, Nenhum toldo para o frescor Somente ecos para pressionar o peito! Dói e corrói na boca do estomago O desânimo da solidão! A dor tritura algum líquido Ou apragata uma bolsa de saudade! Não há mais casa Nem há mais lar na concha arredondada da mesa, Na sala vazia de meu pai, No vácuo do studio de meu irmão, No silêncio agudo e estridente do piano que nas lembranças dos meus dedos jorraram lágrimas das unhas. Há sim, memórias sádicas em sua majestade de outrora Em que sincronias falavam de risos entre os frisos do papel de noticias de meu pai. Há sim, recordações de um solo de guitarra que vindas do quintal intimidavam Mozart a perguntar-se o que é um beatle; Há um resto de cheiro de alfazema aproximando-se aleatoriamente pelas gemas dos dedos nos lençóis. Era bom o findar de um dia cheio Assistindo Ivanhoé numa justiça de ilusão, Ou vertendo a gota triste na sina de Albertico Limonta! Hoje há uma paz de estagnação Onde o passado cobra o chão que os teus pés utilizaram. Não há lar sem chama azul Nesse entardecer em legato largo Só estás tu, mãe desvelada Que acabrunhada corta o verso, Que desanimada se pergunta: - Existimos ou foi devaneio? E na consciência de meu pejo, Sei que é pretérito plano e claro Como o roçar de qualquer beijo!

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RECEITAS ANTIGAS DA MAIZENA
Do blog conversanacozinha.blogspot.com

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LITERATURA COM
Isabel C. S. Vargas
NAÇÃO CRIOULA E A TEORIA DE BAKHTIN Nação Crioula de autoria de José Eduardo Agualusa, autor nascido em Angola com amplo conhecimento daquela realidade e profundo interesse pela realidade brasileira, mostra o romance que ocorreu no século XIX entre Fradique Mendes, um aventureiro português e Ana Olímpia Vaz de Caminha, uma figura capaz de enriquecer qualquer narrativa pela vida cheia de situações diferentes e antagônicas, pois embora nascida escrava foi uma das mulheres mais ricas e poderosas daquela região africana de cultura portuguesa, ou seja, Angola. gada em Angola, sua, às vezes, turbulenta permanência, o encontro casual com Ana Olímpia, por quem de imediato nutre um sentimento especial e todo o suspense – poderia dizer drama – que envolve sua amada até poder libertá-la para com ela viver. Fradique não tem um trabalho, vive da mesada que sua madrinha lhe envia, mesmo assim tem uma vida de regalias em Angola. As cartas narram os episódios ocorridos em Angola de 1868 a 1876. Posteriormente, viaja para Pernambuco naquele que talvez fosse o último navio negreiro da época, o NAÇÃO CRIOULA, para fugir de seus perseguidores e de Ana Olímpia, pois suas vidas corriam perigo. A partir daí suas missivas são de Olinda para onde se transferem, a princípio, para casa de amigos e, mais tarde, para uma propriedade que adquire na Bahia onde passa a viver de forma abastada reproduzindo a vida de muitos senhores com quem tivera contato em suas andanças, com escravos e bens. Lá tem uma filha, mas não permanece no Brasil. Posteriormente, vai para a França, onde morre. Ana Olímpia e a filha Sophia fazem o caminho de volta para África. É importante ressaltar que Fradique Mendes é um personagem de Eça de Queirós que Agualuza tomou por empréstimo para personagem central de seu romance incluindo na sua narrativa o próprio Eça de Queirós. Misturam-se personagens e pessoas reais. A história se desenrola entre 1868 a 1900 e é contada através das cartas trocadas por Fradique Mendes e sua madrinha, Madame Jouarre, entre ele e Ana Olímpia e com Eça de Queirós. Nas cartas relata seu trânsito entre personagens ricos, pobres, do clero, malfeitores, passando por situações inusitadas desde sua chewww.varaldobrsil.com 36

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O romance termina com uma carta de Ana Olímpia a Eça de Queirós onde ela relata a sua história . A DIALÓGICA DE BAKHTIN E O DISCURSO ROMANESCO

numa poética consistente. Para ele o caráter épico do romance situa-se no uso da voz, que Bakhtin estudou nos procedimentos de transmissão do discurso de outrem, do discurso bivocalizado e do romance polifônico (MACHADO, p.288). Vamos citar três particularidades fundamentais que distinguem o romance de todos os gêneros restantes, segundo Bakhtin: 1. A tridimensão estilística ligada à consciência plurilíngüe que se realiza nele; 2. Transformação radical das coordenadas temporais das representações literárias do romance; 3. Nova área de estruturação da imagem literária no romance, justamente a área de contato máximo com o presente (contemporaneidade) no seu aspecto inacabado (BAKHTIN, 1988, p.404).

As imagens romanescas fundamentais são representações dialogizadas interiormente - das linguagens de outros, dos estilos, das concepções de mundo. (BAKHTIN, 1988, p.367) “Todo romance, em maior ou menor escala, é um sistema dialógico de imagens” (BAKHTIN, p..371). No seu processo de surgimento e desenvolvimento inicial a palavra romanesca refletiu a antiga luta de tribos, povos, culturas e línguas, ela era uma ressonância completa dessa luta (BAKHTIN, p 371). Bakhtin contrapõe-se aos seus contemporâneos que colocavam os personagens como aqueles de uma fotografia, isto é, numa cena muda. É a linguagem o campo potencial de representação das tensões sociais, inclusive as provocadas pelo desajuste entre produção social e apropriação privada (MACHADO, p.284). Bakhtin começou seus estudos sobre Dostoievski com seu romance polifônico que foi o núcleo dos estudos de Bakhtin. Para Bakhtin o “romance é um texto característico de um estágio na história da consciência não porque indica a descoberta do EU, mas porque manifesta a descoberta do outro pelo próprio EU” (M.HOLQUIST, 1990:75, apud MACHADO, p.286). O romance é multiforme e inacabado e mostra em si vários discursos, gêneros e linguagens. Bakhtin não acreditava que princípios canônicos rígidos pudessem dar conta de todos os aspectos multiformes do romance e resultar

Os aspectos acima citados estão ligados entre si e refletem a mudança da sociedade patriarcal e fechada em direção às novas condições de relações internacionais e de ligações interlingüísticas, que podemos dizer ocorreu não só na Europa no século passado, mas continua ocorrendo permanentemente, com o desvelamento, se assim se pode chamar de outras culturas, pelo processo midiático global cada vez mais intenso. Terminou o período da “coexistência surda e fechada das línguas nacionais”. (BAKHTIN, 1988, p.404) O romance se formou e se desenvolveu nas condições de uma ativação aguçada do plurilingüismo exterior e interior. Esse é o seu elemento natural. É por isto que o romance encabeçou o processo de desenvolvimento e renovação da literatura no plano lingüístico e estilístico (BAKHTIN, 1988, p.405). O romance, anteriormente identificado com gêneros inferiores não mais é assim considerado. permitindo sua permanência e adequação ao tempo e espaço. Esta contemporaneidade, entretanto não exclui a narrativa do passado. O romance mantém estreita relação com os gêneros extraliterários-a vida corrente e a ideologia. (BAKHTIN, p.422) (Segue)
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O romance, em sua evolução, passou a retratar tanto um sermão, quanto um tratado filosófico, quanto questões políticas ou, ainda, questões íntimas, interiores, através de cartas, diários e bilhetes. Entra em relação com o acontecimento que está se desenvolvendo agora, no qual o leitor também está ligado de maneira substancial. Para concluir, vamos às conclusões de Bakhtin sobre o romance: 1. O romance tem caráter inacabado; 2. Se formou no processo de destruição da distância épica, no abaixamento do objeto da representação artística ao nível de uma realidade atual, inacabada e fluída; 3. Com ele se originou o futuro de toda literatura; 4. É acanônico. É um gênero que eternamente se procura, se analisa e que reconsidera todas as suas formas adquiridas. CONCLUSÕES O romance Nação Crioula de José Eduardo Agualusa mostra em seu desenrolar vários discursos, gêneros e linguagens. Nele estão presentes as vozes dos intelectuais (inclusive pela intertextualidade óbvia com o “empréstimo” do personagem), do homem comum, do escravocrata, do negro escravo, da mulher – escrava ou liberta. Mostra o discurso familiar, a voz do oficial, do militar, diferente do discurso do submisso. Apresenta as três peculiaridades anteriormente citadas, nas quais salientamos o aspecto inacabado, a tridimensão estilística ligada à consciência plurilíngue que se realiza nele, além da transformação radical das coordenadas temporais. Constata-se a mudança da sociedade fechada para uma sociedade internacional, na qual os personagens têm livre trânsito e, consequentemente, mantendo relações interlingüísticas. O romance em questão apresenta em si aquelas particularidades referentes à vida corrente e a ideologia. Utilizou o autor de recursos que os romancistas começaram a utilizar já em épocas mais evoluídas do romance, que são as cartas.

O próprio nome nos indica a amplitude do seu conteúdo, pois nação não está afeita a limites territoriais, mas sim a sentimento coletivo; crioula nos remete à mestiçagem. Mestiço é um outro sujeito que se constitui a partir de dois sujeitos distintos, guardando em si elementos de cada um , mas que se constitui em uma terceira voz distinta daquelas que o formou. A partir do título já temos subentendida a polifonia de Bakhtin. Encontramos a voz de uma África negra, uma África que se diz portuguesa, de uma Nação portuguesa colonizadora da África , que se tem superior e de um Brasil mestiço que por vezes parece ignorar sua parcela negra. Temos no corpo do romance, histórias, questionamentos, críticas à história, críticas sociais, dramas pessoais que espelham a dialógica de Bakhtin e a polifonia núcleo de seus estudos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AGUALUZA, José Eduardo, Nação Crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001. BAKHTIN, Mickhail. Questões de Literatura e de Estética. 3.ed. SP: UNESP / HUCITEC, 1998. MACHADO, Irene A. O Romance e a voz. A prosaica dialógica de Bakhtin, Imago / FAPESP.

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Saudades de você
Por Valdeck Almeida de Jesus Minha geração De infeliz dita A cada ano Perde um artista. John Lennon se foi Clara Nunes também E o querido Drummond Quando é que eles vêm? Luiz Gonzaga calou-se Lauro Corona partiu Iara Amaral mar levou Mas cada um deixou Uma lição imortal Vale a pena, afinal.

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BEBER ESCONDIDO Por Marcos Mairton Não sei se é porque quem bebe escondido bebe mais rápido, ou se é porque bebe muito e não percebe, mas há anos tenho a impressão de que as pessoas que tentam ocultar suas atividades etílicas acabam por se embriagar mais cedo que os outros. Comecei a observar esse fenômeno quando ainda era criança e ajudava minha mãe em nosso pequeno comércio em um subúrbio de Fortaleza. Naquele tempo não havia repressão ao trabalho infantil, então, desde os oito anos de idade, eu estudava de manhã e, à tarde, ficava atendendo os fregueses em nossa mercearia, ou bodega, ou quitanda, ou como se queira chamar um desses pequenos negócios que têm de tudo um pouco e atendem as pessoas das comunidades do subúrbio. Ali vendíamos cereais, enlatados, leite em pó, pão, biscoitos e até linhas para costura, botões e zíperes. Também vendíamos bebidas alcoólicas, geralmente em litros fechados, embora não deixássemos de servir algumas doses de conhaque ou cachaça para alguns vizinhos que preferiam beber ali mesmo, junto ao balcão. Em minha inocência de criança, não entendia o que levava aqueles homens a beberem aquilo e depois fazerem caretas e cuspirem no chão. Alguns pediam um pedacinho de limão ou laranja. – Para tirar o gosto – diziam. Conversando com eles, fiquei sabendo que alguns bebiam por gostar do sabor amargo da bebida, outros pela sensação de dormência que ela causava. Isto, entretanto, não me convencia, pois, qualquer que fosse sua justificativa, as caretas continuavam as mesmas. Mas, interessante mesmo era um casal de amigos de meus pais, que de vez em quando aparecia. Chamavam-se Wilson e Flora, e não iam à nossa mercearia para fazer compras, mas apenas para conversar. Geralmente, Tio Wilson ficava conversando com meu pai, na calçada, enquanto Tia Flora entrava em nossa casa, que ficava em frente à mercearia, e ia

conversar com minha mãe. Eu ficava cuidando do comércio. O que era mais curioso no casal era que um bebia escondido do outro. Bastava Tia Flora se afastar e Tio Wilson se aproximava sorrateiramente do balcão e pedia uma dose: – Meu filho, bote uma dosezinha aqui para o seu tio, mas com cuidado para não chamar a atenção. Só ponha o copo no balcão quando já estiver com a dose pronta. Obediente, eu fazia como me era pedido. Punha o copo sobre um banco de madeira que havia atrás do balcão e enchia com cachaça até a metade. Depois, guardava a garrafa de cachaça no local de onde havia tirado e só então entregava a ele. Às vezes, enquanto eu preparava a dose, Tio Wilson ficava com os olhos fixos na porta da minha casa, do outro lado da rua. Quando ele olhava novamente para mim, eu já estava segurando o copo e o servia. Desde as primeiras vezes que isso aconteceu, logo percebi que sua intenção era evitar que Tia Flora visse que ele estava bebendo. Tomava a cachaça bem rápido, de um só gole, e se afastava do balcão olhando para os lados, verificando se tinha sido visto em seu ato clandestino. Então voltava a conversar com meu pai, que já sabia de tudo e ria daquilo. A operação se repetia muitas vezes em uma noite de visita: Tio Wilson se assegurava de que Tia Flora não estava por perto, ia até o balcão e pedia mais uma. Bebia rapidamente e se afastava. Quando Tia Flora aparecia, ele inventava uma desculpa e se afastava com meu pai, para que ela não percebesse o odor da bebida que ficava em seu hálito. O que ele não sabia era que, exatamente nesses momentos em que ele se afastava para disfaçar o próprio cheiro de bebida, Tia Flora ia até o balcão e bebia ainda mais rapidamente que ele. Mais sutil que o marido, ela fazia o pedido e ficava de costas para o balcão. Enquanto isso, seguindo suas orientações, eu segurava o copo escondido por trás do balcão e dava o sinal: – Pronto, Tia.
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Então ela se virava rapidamente e sorvia tudo de uma vez, devolvia-me o copo e se afastava. E assim prosseguia o casal por todo o tempo da visita que fazia aos meus pais. O marido bebia, depois era vez da esposa, em seguida, o marido novamente, e assim por diante, até que os dois estavam completamente bêbados. O mais engraçado era que, estando os dois nessa condição, um acabava por não perceber a embriaguez do outro, nem tampouco o cheiro de cachaça de seu hálito. Acho que cada um sentia o odor, mas pensava que era de si mesmo. Depois, já tarde da noite, iam embora cambaleantes. Eu e meus pais ficávamos vendo eles se afastarem e nos divertindo com aquela cena digna de um filme de comédia. O certo é que, de todos os fregueses a quem eu vendia bebidas alcoólicas, esses dois eram, sem dúvida alguma, os que ficavam bêbados mais rapidamente. Por causa deles, ainda hoje acontece de eu estar em alguma comemoração e me perceber observando o comportamento das pessoas, observando se há alguém com atitude parecida. Há poucas semanas, por exemplo, fui ao casamento de um amigo e, pouco depois de chegarmos ao buffet, vi uma mãe se surpreender com o filho pagando todos os micos da embriaguez. – Meu Deus, não sei o que houve com esse menino! Ela realmente não sabia o que tinha acontecido. Mas eu já havia percebido minutos antes: o rapaz estava bebendo escondido.

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RECEITAS ANTIGAS DA MAIZENA
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O terceiro volume de nossas coletâneas VARAL ANTOLÓGICO chegará em breve! Será lançado dia 03 de maio no 27ème Salon International du Livre et de la Presse de Genève (Suíça) e em agosto em Florianópolis, SC. Stand D426 PALEXPO—GENEBRA Conheça todos os participantes do livro nas páginas de nosso site! www.varaldobrasil.com

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SAUDADES
Por Samantha Fernandes "Saudade", palavra tão singela e tão rica em significados... Mais que mera palavra, a Saudade é sentimento. Às vezes chego a pensar na sorte que eu tenho em ser uma brasileira, pois a saudade por todos é sentida, mas por poucos, explicada. No inglês mesmo, não existe a "Saudade", existe uma palavra chamada "miss" ou "missing", isto é, a saudade é reduzida à mera "falta". Não que a saudade não gere a falta, mas gera algo mais, gera um sentimento daquilo que já tivemos, mas que não temos, ou daquilo que nunca temos, mas que sabemos que podemos ter. A saudade do desconhecido, ou do conhecido. Eu sou um ser humano que sente muita saudade. Ás vezes, penso que meu peito vai explodir: em casa, na rua, de dia ou de noite. Saudade do que eu já tive, mas que não tenho mais, porque o tempo passou ou a vida levou: saudade dos tempos de criança, das brincadeiras, das fantasias, das traquinagens... Saudade dos que partiram que foram embora pra bem longe ou dos que ainda moram perto, mas, que já não são mais os mesmos... Saudade dos meus romances imaginários ou reais. Saudade dos meus sonhos, das minhas esperanças, dos meus grandes ideais... Saudade das mágicas do meu pai, das brincadeiras e carícias da minha mãe, da ingenuidade do meu irmão... Saudade quando eu me lembro do que eu era ou daquilo que eu posso ser, mas que por algum motivo, não sou... Saudade é um sentimento bom: nos ensina a dar valor aos instantes com aqueles que vemos diariamente e não aproveitamos, nos ensina que a vida passa muito rápido por causa do tempo, eu acho. A saudade é boa, pois inspira a fazer algo, ou a reconhecer algo: creio que a saudade nos ensina a crescer e criar. Mas a saudade é muita, a saudade é grande...

Por Sheila Ferreira Kuno Senti saudades de sentimentos passados Senti saudades de momentos que vivi Senti saudades do que sofri Também senti saudades do que não vivi, do que não senti Senti saudades de você e de mim

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SAUDADES
Pelos Trovadores de Bragança Paulista SP

Ana Maria Gazzaneo A saudade pinta a tela do que já foi e é passado. É como abrir a janela e rever tudo encantado...

Cida Moreira Nos espelhos me procuro e me encontro estranha assim. Às vezes, eu mesma juro: tenho saudade de mim!

Antonio Miguel Cestari Sobre os trilhos da memória, uma saudade persiste, lembra em minha trajetória tempos do velho twist.

Fábio Siqueira do Amaral Gostaria de esquecer... Ser-lhe igual... Nada sentir... Mas... Qual! Bem sei que vou ter a saudade a me oprimir! .
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Helena Scanferla Este suspiro dobrado arrancado do meu peito mostra todo o desagrado de meu grande amor desfeito.

Leonilda Spina Sempre em versos de saudade há uma confissão de amor. Ninguém sabe se é verdade ou fantasia do autor. Lóla Prata

Henriette Effenberger Sou diplomada em saudade, Nos meus momentos de insônia, minha saudade acalanto e ela, sem cerimônia, repousa sobre meu pranto. Lyrss Cabral Buoso Joarez de Oliveira Preto Ah! Saudade, não me deixe! No inverno, amor, é frio, é quando dormem as plantas e gela as águas do rio. Saudades de ti, são tantas... Maria Cestari José Solha Que saudade das cantigas, Queria matar saudade, mas como sou inocente! Ela não tem piedade, pois ela é que mata a gente... Maria Cristina Cacossi Leda Montanari: (Céu) Ai, que saudade de mim quando tinha a ilusão da vida, sonho sem fim, enchendo meu coração! Ter uma boa saudade ... Eis um sinal de alegria! Percebi ... não tem idade, ela não traz nostalgia! das carícias, do abraço, das estórias tão antigas que ouvia em teu regaço. Sem você o que é que eu faço? Sou como um rio sem peixe sem estar no seu regaço. pois a vida me ensinou que toda grande amizade por quem já se foi..., ficou!

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Marina Valente Velho relógio da sala, chegou quando era criança; toda vez que ele badala, vem à mente uma lembrança.

Vladimir Inokov Pilotando um avião ele, entre nuvens, sorria. Naquele céu, um trovão... meu pai, tão feliz, morria... Wadad Naief Kattar

Miguel Garcia Alves Quem dera, Deus, eu pudesse - Estarei ficando louca?, (lamentava a prima Aldy). - Sinto saudade, não pouca, de um tempo que não vivi... Myrthes Neusali Spina de Moraes Quando a saudade dorida sufocar-lhe o coração, prossiga com fé na vida, busque a Deus em oração. Norberto de Moraes Alves Velhinho que sassarica a vasculhar a cidade, mente muito, diz que “fica...” fica mesmo é na saudade. Therezinha Ramos de Ávila No jardim de minha vida plantei muitas amizades. São algumas, mui queridas; outras, porém, só saudades. deter a morte bandida e só elevar uma prece pela dádiva da vida.

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SINTO SAUDADES
Por Robinson Silva Alves

NAS NOITES TRIGUEIRAS UM CÉU DE ESTRELAS NA LUZ DA FOGUEIRA.

SINTO SAUDADES, DO MEU TEMPO DE ROÇA, EM QUE DORMIA NA CHOÇA OUVINDO O GALO CANTAR

SAUDADE É CHUVA QUE EMPOSSA SAUDADES DA INFÂNCIA SAUDADES DA ROÇA.

SINTO SAUDADES, DOS MEUS BANHOS DE RIO, UM MENINO VADIO, QUE VIVIA A SONHAR

LIVRO AMO DE TI – CANCIONEIRO INFANTO JUVENIL PARA A LINGUA PORTUGUESA - PORTUGAL

COM A MOÇA BONITA NO VESTIDO DE CHITA E UM LAÇO DE FITA

SINTO SAUDADES DO MEU PEQUENO BOCADO MEU LINDO ROÇADO MEU PEDAÇO DE CHÃO

DA MAIS DURA VIDA A SEMENTE DA VIDA, A SAGRADA PLANTAÇÃO

SINTO SAUDADES, DAS CANTIGAS DE RODA, DOS DEDOS DE PROSA, DO VIOLÃO AO LUAR

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Ah, se eu voltasse a ser criança...
Rogério Araújo (Rofa)*

Que saudade de minha infância e das brincadeiras que criava e me divertia! Um dia desses, pensei comigo: “Como as brincadeiras e a educação das crianças de hoje são bem diferentes!”. Se numa época era preciso “criar” algo para se divertir com os colegas e ler livros e mais livros para encontrar algo sobre um tema do trabalho da escola, agora a situação é outra: os games eletrônicos ocupam todo o tempo (até mais do que deveria) do lazer dos pequenos e a internet permite a facilidade de achar quase tudo que se deseja com um simples teclar e “navegar”. “Ah, se eu voltasse a ser criança...”, pensei comigo. Mas do que brincaria? Como seriam os meus estudos, melhor ou pior? Talvez no aspecto da facilidade do acesso às informações seria muito melhor, mas nas brincadeiras a criatividade seria infinitamente pior, já que não é preciso nem “pensar”. Tudo está pronto e determinado. O sábio rei Salomão disse em Provérbios 22.6: “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não desviará dele”. Isso quer dizer que a criação dos pais e a instrução dada pelos professores podem representar o trilhar de um caminho bom ou ruim até a vida adulta, depende de como é feita. Tudo fica guardado na mente e coração ao longo de nossa vida, em especial nas fases onde o crescimento é maior, da infância à adolescência. É preciso ter cuidado no trato com as questões e acima de tudo, pesquisar, acompanhar e conversar muito com filhos, netos e alunos a respeito do que é melhor para eles. Afinal de contas, as coisas são boas e ruins ao mesmo tempo, em todas as épocas da história. O que mais importa é como está sendo absorvido. Por essas e outras que não é má ideia a imaginação de estar revivendo sua fase infantil. “Ah, se eu voltasse a ser criança...”

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SAUDADE... Marilu F Queiroz Sabe, ontem senti na noite suave vestígios de tristeza incontida... transformados em brisa fria, que soprava a natureza terrena. Ontem ouvi vozes em meu sonho.. Senti que a lua solitária também se mostrava melancólica e vazia da alegria almejada. Ontem fiz versos ao amanhã que surgirá risonho e feliz... Cantei toadas de fuga, tingi-me da cor dos olhos da noite. Ontem senti-me feliz, emudeci diante da magnitude das estrelas... Tentei em vão balbuciar palavras, que a vida me fez calar.

Imagem de uvamoderna

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ANÁLISE LITERÁRIA DO POEMA SAUDADES DE FLORBELA ESPANCA
Por Jeanne Cristina Barbosa Paganucci

SAUDADES

Saudades! Sim... talvez... e porque não? ... Se o nosso sonho foi tão alto e forte Que bem pensara vê-lo até à morte Deslumbrar-me de luz o coração! Esquecer! Para quê? ... Ah! Como é vão! Que tudo isso, Amor, nos não importe. Se ele deixou beleza que conforte Deve-nos ser sagrado como o pão! Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar, Mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar Mais a saudade andasse presa a mim!

Imagem: Facebook/Artes-Poesias

(ESPANCA, Florbela. Sonetos. Biblioteca Ulisseia de autores portugueses. 1990.)

A saudade é algo intrigante e por mais que tentemos decifrá-la, foge de nossa percepção o que a saudade realmente representa apesar de a literatura e os estudos teóricos tentarem dar conta desse vocábulo. É sentimento, é conhecimento, afinal, do que se trata? Por que existem tantas explicações para definir a saudade e apesar de tudo, ainda nos resta o descontentamento em qualquer acepção do termo. A saudade pode nos fazer sentir os sentidos da tristeza e do nojo mas não é nenhum deles. É um fenômeno da sensibilidade que parte do coração mas é autônomo e, por hipótese, superior aos seus efeitos. (Afonso Botelho,1990: 29) Essa reflexão acerca da saudade é perfeita para explicar o que se passa com a mente a partir do sentimento da saudade, que é algo involuntário, autônomo, inerente à vontade. Neste aspecto, por melhores explicações que possamos dar a respeito da saudade, vale destacar a poesia de Florbela Espanca, que por si só traduz a sentimentalidade, a maneira involuntária do sentir e das ações a partir do sentimento saudade.

O soneto Saudades de Florbela expressa já em seu título o que será tratado em todo o contexto do soneto. Dessa forma, surge a ideia de que a saudade é algo de difícil definição, visto que abarca não só a sentimentalidade, mas também a imprecisão no que tange à sua definição. Trata-se de um soneto clássico composto por 4 estrofes, 2 quartetos e 2 tercetos cujo conteúdo compõe quatorze versos. As rimas e a pontuação seguem as normas clássicas.
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A respeito da semântica do soneto, observa-se que o vocábulo Saudades abarca a vivência de um grande amor e as situações as quais o eu lírico vivencia e transmite, transmitindo a intensidade que a saudade traz para a sua vida. Já no primeiro verso da primeira estrofe, o eu lírico questiona o porquê de sentir saudade e responde ao mesmo tempo, por que não? [Saudades! Sim... talvez... e porque não? ...] Essa indagação pressupõe os devaneios do eu lírico, a instabilidade e o temperamento com o qual procura tratar de algo que considera por um lado muito simples e por outro, um desafio. O segundo verso da primeira estrofe apresenta a possibilidade do sonho e do amor, de sua importância. [Se o nosso sonho foi tão alto e forte] A partir disso, o eu lírico afirma a ansiedade de tornar a ver o ser que tanto ama, presentes nas 3ª e 4ª versos da primeira estrofe. [Que bem pensara vê-lo até à morte] [Deslumbrar-me de luz o coração!] Na segunda estrofe, interroga a respeito do esquecimento e afirma o quanto é inútil. Neste aspecto, observa que nada importa diante da beleza do amor, que, a seu ver, assemelha-se ao pão que nada mais é que um alimento. [Esquecer! Para quê? ... Ah! Como é vão!] [Que tudo isso, Amor, nos não importe.] [Se ele deixou beleza que conforte] [Deve-nos ser sagrado como o pão!] O primeiro terceto afirma o esquecimento, que sem este, a saudade não poderia existir, justamente para recordar e poder vivenciar o outro em si. O eu lírico transforma-se em prisioneiro da saudade. [Quantas vezes, Amor, já te esqueci,] [Para mais doidamente me lembrar,] [Mais doidamente me lembrar de ti!] O último terceto traduz a expressividade contida em todo o soneto, que é a saudade em sua forma mais peculiar, aquela em que não se sabe o porque de querer recordar, do desejo de alimentar algo de que não se tem certeza de onde vem e para onde seguirá. Assim, o eu

lírico finaliza com a saudade, interior do sentimento e recôndito de si mesmo. [E quem dera que fosse sempre assim:] [Quanto menos quisesse recordar] [Mais a saudade andasse presa a mim!] O soneto Saudades de Florbela Espanca transmite não a dor de quem se desespera, nem o sofrimento de estar só, mas a saudade do que foi vivenciado e que origina a certeza de que é sempre bom sentir saudades. A saudade, a partir de Florbela, passa a ser relevante no sentido de que o que nos causa a saudade é o que nos dá importância à vida.

Referências:

ESPANCA, Florbela. Sonetos. Biblioteca Ulisseia de autores portugueses. 1990. BOTELHO, Afonso. Da saudade ao Saudosismo. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. Biblioteca Breve, 1990.

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Saudade
Por Norália de Mello Castro Saudade! Palavra de amor e lembrança. Sentimento sofrido: Aquele sentir, ali, intacto do que parece que foi ontem, a reviver algo que gostaria de ser retido. Não. Não quero sentir saudade do que não pode ser revivido. Não quero saudade de quando me chamavam “filhinha”... Não quero saudade quando, chegando mansamente, ele me disse: Te amo! Não quero saudade quando saudei colegas com meu diploma. Não quero saudade quando em consultórios e morros fui profissional. Não quero saudade quando olhei para a criança e disse: Que linda!... Minha filha! Não quero saudade de amigos que passaram... Não quero saudade. Decididamente não quero sentir saudade do ontem que se foi! Quero apenas lembranças. Sem dores, sem velas, sem velório a sombrear. Só lembranças que se fizerem presentes, projetando o futuro onde a esperança vai sendo concretizada. Quero simplesmente viver o meu hoje.

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Saudade
Por Leomária Mendes Sobrinho

A vida passa tão depressa. E a perda corre em nosso sangue. O tempo em nosso olhar confessa: - Saudade não se zangue!

Pedaços de recordações Contaminam a nossa história. Tentamos extrair as frações, Sobram-nos resto de história.

Estamos perdidos às nossas razões. Ligados em uma só realidade. Presos em todas as ilusões.

Não nos prendamos à maldade Se nos perdermos, que não sejam às emoções. Liguemo-nos unidos à humanidade.

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ACRÓSTICO À SAUDADE Por Marly Rondan Pinto

S audades que me maltrata, A mor que quero esquecer, U ivos de uma alma inquieta. D eus, leva esta dor ingrata! A mar-te sem ser amada, D ói muito, tem que saber! E mbora eu te ame ainda, S audades...vou te esquecer!

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RECEITAS ANTIGAS DA MAIZENA
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Lição
Silvio Parise A maior lição que aprendi em minha existência foi há de que os dias não se repetem. Portanto, convém-lhes aprender isso breve, para que assim possam usufruir o cotidiano como bem quiserem, porque nessa vida tudo passa... E só a saudade é que fica para, lentamente ajudar diariamente à nos consumir ou, por ventura chorar das lembranças boas ou más que, francamente, nada mais foram, do que uma grande lição nessa vida.

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OFERENDA Por Sonia Cintra Deixo a teus pés mãe querida estas violetas para que perfumem teu caminho

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Despedida em Forma de Aquarela
Por Felipe Cattapan

Incolor... incerto delinear o início do contorno de uma despedida... Já no primeiro encontro?... Ou somente no último? Baça, imprecisa a idade do próprio vocábulo “despedida”... Uns quinhentos anos?... (ou redescobrirá um outro etimologista um novo texto antigo, doando mais alguns séculos de vida a este termo tão proferido, tão esquecido?). Difuso, difícil recomeçar uma recordação vivida... revivenciar a ação de recordar... recortar, reacordar, reviver a relembrança: relembrando-se do lembrando-se de se lembrar... lembrandose da branda lembrança de se lembrar mais... ... mas se de nada me lembro, de nada mais... mas de nada me lembro, de nada mais... mas de nada lembro, de nada mais mais de nada lembro, mas mais de nada lembro mas nada lembro nada lembro Lembro. (lembro membro memoro meu modo modo meu ao meu modo)

Algumas cores... Um bonde... Alguns rostos... Uma sensação inconsciente de estar dizendo “adeus” sem pronunciar esta palavra... (Segue)
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Verde claro, laranja, cinza-azulado... Passa um bonde amarelo... Na rua algumas faces conhecidas mas inesperadas... E a vontade de ordenar impressões vagas, múltiplas, fugidias... O bonde que vem – e vai, coisas de cidade pequena. Vejo várias faces conhecidas, encontro alguns poucos rostos amigos. O encontro marcado em um café, perto do parque. Depois um trem que vai e não volta. O céu parcialmente nublado, azulando-se após o meio-dia sem que ninguém percebesse – como se quisesse me enviar um recado pessoal, um cartão postal que colorisse de um novo começo a minha partida definitiva. O bonde para, eu entro, ele parte, eu levanto, ele para, eu saio, ele parte com pressa: vai, passa, ganha velocidade – alaranjando-se... Um laranja em movimento contendo rostos se dissolvendo na velocidade escapando de mim... No acaso da rua encontro faces por acaso - e paro: elas também; quero retê-las: elas talvez não... A pergunta que vai mas sempre retorna: existirão “acasos”? Ou haverá algum sistema ordenador que conseguirá reter e posteriormente fixar tantos impressionismos fragmentários – como um pintor na sua tela? A transitoriedade das cores metamorfoseadas pelo movimento... E o impulso vital de se fotografar esta aquarela antes que despareça... essencial porque provisória. A maior de todas as aquarelas é o céu... A pressa nos cega. De olhos fechados revejo... Côr, de cór.
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(Segue)
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Ao acordar, a primeira coisa que ansiamos por rever é o céu. Ainda estava nublado. Acordar também significa despertar para os nossos dilemas latentes: a pressa em cumprir dentro do prazo determinadas obrigações, o desejo de prolongar ao máximo os últimos instantes antes de ir-me embora. Paradoxalmente saio de casa já caminhando no futuro próximo: a biblioteca. Não os livros, mas o ar silencioso que jaz entre as pessoas e os livros. Os livros serão esquecidos, o resto ficará: este ar não tem cor própria mas é eterno, reencontro-o todos os dias... agora, por exemplo. Passa o bonde, outro logo virá, não há pressa, os livros serão devolvidos, voltarão para casa, dormirão ainda hoje nos respectivos andares das suas estantes. A surpreendente leveza da mala agiliza a minha subida. Tenho pouco a levar. Os móveis permanecerão imóveis na casa que nunca foi minha – o proprietário receberá as chaves pelo correio. Um outro inquilino virá, meus móveis serão adotados – ou não. Aliás, há alguns minutos já nem são mais meus. Não dissemos adeus. À minha frente o prédio da biblioteca, crescendo até preencher toda a minha área de visão que é uma tela. Para contemplá-lo é exigida uma solenidade: ergo a cabeça e aprecio pela primeira vez a fantasia rítmica dos ornamentos que adornam a sua fachada. Pretendem dispersar o nosso olhar, ocultando a maior das cicatrizes que é não apresentar cicatrizes... Após alguns segundos a verdade, desmascarada pelo tempo: trata-se de uma reconstrução. Paro. Eis o que tal construção vinha querendo me dizer há tantos anos... Con-

siderarei-a uma bela edificação. Elogiarei a sua arquitetura. Surpreendido pela primeira das faces conhecidas! Primeiro uma voz... depois a voz e as curvas do seu corpo e os bicos dos seios que eu continuava a ver de memória e arfam rosados como o rosto que me contava qualquer coisa que eu não ouvia (nem queria ouvir), mas gostava (gosto e sempre gostarei) daquele sorriso enigmático que costuma cromatizar as suas falas. A voz cessa, o corpo vai, a face ainda se vira para me presentear com os resíduos do sorriso já anterior. Ela agora nada mais é do que um vulto diminuindo à minha frente, até escapar da minha área de visão que por um momento ficará em branco. Nunca esteve tão presente como neste instante. Partir me ensinou a amá-la; chamarei-a de recordação. Entro na biblioteca permanecendo lá fora. Ruborizado pelo último encontro, procuro o banheiro. Só. Um pequeno silêncio dentro de um silêncio grande. Retorno ao silêncio grande. A única diferença para uma igreja reside na generosidade da luz do sol, cujos feixes aquecem o ar, acariciam alguns livros e as mãos que porventura os toquem; tudo é estático, menos o pó que baila em espirais infinitas, circulando pelo amarelo claro destes raios calorosos de luz. São os átomos de que se compõe o silêncio das bibliotecas. Já os revi, já posso ir: se sedimentarão na minha memória criptografados sob a alcunha de paz. Saio sem livros, livre. (Segue)

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Surpreendo uma outra face numa rua reconhecida; mera formalidade. Trocamos algumas poucas palavras – supérfluas. Fingimos, mal, uma certa comoção; e, prevenidos, apertamos as mãos antes que o passado se insinue. Não olhamos para trás, evitamos o invisível. Adiante: carros, bicicletas, pedestres deslocando-se em movimentos caóticos; mais à frente: o bonde obediente – vaaai e veeem; e eu: indo sem voltar – a pé. Nem amarelo, nem laranja: verde. Verdes, em todas as suas matizes: o parque anterior ao café. Os verdes pulsando dentro da imobilidade, as pessoas se movendo aleatoriamente para não chegar a lugar nenhum; e o verdejar emoldurando todos os seres humanos, abraçando magnanimamente toda esta gente em uma exuberante reconciliação erótica onde todos somos ou seremos belos! (Chego a esquecer que é um abraço de despedida). Alguém não se move. Contempla – mas não vê. Sorve... sem me ver. Saboreia o seu café... quase sem beber... prolongando por uma pequena eternidade um prazer estudantil... ostentando a irredutibilidade da sua inércia à pressa contagiante que corre ao seu redor. Entro despercebido neste oásis que é uma ilha... ele me saúda sem que o ritmo se altere... mantemos uma conversação lacônica... jazemos. Os silêncios nos ensinam que há muito mais a se dizer. Dizemos mais... escutamos muito... os silêncios se calam... o café se esgota... eu me levanto... ele permanece sentado... apertamos as mãos... a pressa nos conduz aos nossos respectivos futuros. Esquecemos de nos abraçar. Saio desta ilha, agora deserta, contagia-

do pela atemporalidade do seu ritmo hipnótico... Se eu permanecesse, também seria ainda um estudante... Revejo o último reencontro sob uma ótica palindrômica: dialoguei com uma outra possibilidade de mim mesmo, vi quem eu hoje seria se outrora houvesse estagnado. Paralisado entre este café e o próximo, paro. Para perto um bonde. Neste perto distante distingo alguns vultos coleguiais... Acenamos freneticamente uns para os outros, compartilhando de um mesmo gesto, cuja coreografia nos aproxima e o significado nos afasta... Mas o bonde é mais veloz: leva esse perto distante a um longe inalcançável; jamais saberão que desta vez se tratava de uma despedida. Detenho-me embaixo do nome do café, apagado: ainda é cedo para letreiros luminosos. Entro sem reconhecer nem ser reconhecido, cheguei cedo demais, esperarei pelos outros na fiel companhia de um café expresso. A caminho do banheiro cruzo com as curvas de um corpo cuja face não me reconhece nem deseja ser reconhecida – somente o corpo. Nossas carnes se tocam por uma fração de segundo, ela exala e esconde um sorriso, eu o absorvo e tento prolongá-lo... Suas pupilas contraem um brilho opaco de neon, seu sorriso se artificializa e não mais me pertence, ela está acompanhada, eu estou só – mais prudente ir urinar e em seguida lavar bem as mãos. De novo sentado, o olfato zanzando entre o cheiro de café e o perfume barato de sabão líquido atrelado às minhas mãos inanimadas. (Segue)

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Os olhos viajando do breu do café na xícara à aconchegante penumbra do café que me contém. E´uma escuridão que não nasce da ausência de luz, mas de um desejo à espera de cores. Mergulho neste buraco negro; sou transportado a um fluxo caleidoscópico de passados fragmentados, um mosaico multicolorido composto pelo piscar de imagens multifacetadas pululando de sensualidades descontínuas que nos reconquistam ao aflorarem por geração espontânea nos momentos de ócio: torsos, cabeças, rostos, pescoços, nucas, orelhas, queixos, bocas, narizes, cabelos, olhos, olhos azuis, olhos que me olham, um olhar verde provoca a minha boca, lábios, lábios rubros, um beijo roxo com línguas lépidas e invisíveis, amarelos visíveis em sombras inquietas, cabelos dourados sugam faíscas volúveis da tênue luminosidade local, camuflam orelhas cujas formas cíclicas querem ser exploradas pelo meu nariz ao exibirem orgulhosas aos mais curiosos dois pequeninos brincos negros secretos, duas pupilas dançando nervosas nos oceanos marrons dentro de esferas brancas, um olhar castanho claro se esquiva e dispersa a minha atenção das mãos pálidas que se incandescem se tocadas com a devida destreza ou se contraem tímidas acocoradas em cima de pernas que se esfregam, se cruzam e talvez se abram, pernas que ao caminhar salientam o perfil voluptuoso do busto e do lombo, silhuetas complementáveis pelo deleite da imaginação, vultos de vulvas incontroláveis que aparecem e desaparecem, fêmeas que vêm e vão, dois vultos se aproximam, mas a realidade sempre decepciona, são tãosomente dois homens, dois guarda-costas?,

não: meus amigos chegaram, eis-me de novo sozinho entre homens... (onde estará a garçonete?). Pedimos sorvete, saboreamos a garçonete. Ela logo nos abandona, sorvemos solidão. E falamos muito para tentar ocultá-la. Palavras. Sem cores. Inumeráveis... inúmeras desnecessárias. Filtradas pela memória, erodidas pelo tempo, só as essenciais sobrevivem: um negativo em preto e branco que vai se revelando na escuridão branca deste papel; reflexo obstinado de erupções verbais, expelindo expressões excessivamente usadas, repetidas e usurpadas – como “despedida” ou “adeus”... Palavras lavram a lava ao nada. Difícil modelar este magma amorfo a que chamamos de conversa. Não me lembro bem de como ou quem a iniciou - talvez tenha sido eu mesmo, mas a autoria das palavras é menos significante do que o seu efeito... só sei que, de repente, materializado por alguma evocação involuntária ali estava o meu avô Envelhecido, embaçado, esquecido. Calado. Imerso na minha própria despedida, havia obscurecido a sua... pois ei-la de novo, aqui e agora, fluorescendo bem na nossa frente! Como uma escultura de silêncio a ocupar a única cadeira vazia. Só. Contemplada com a devida distância, se delineava como um processo orgânico e até mesmo coerente, cuja longa duração – por conferir uma aparente constância a este lento desprendimento, a esta imperceptível saída da tela da vida – nos cegava e sedava... (Segue)
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... os móveis antigos abandonados no escritório, os rostos desaparecidos de tantos amigos e parentes, o automóvel imóvel, o talão de cheques em branco, a escuridão obsoleta do apartamento que agora era o seu universo, as refeições sem cores, a cor artificial do sorriso da enfermeira – quando analisados fora do tempo e do espaço, admitiam a inofensiva denominação de etapas lógicas a serem cumpridas, maturadas e arquivadas. Meus olhos enxergaram a ausência. E refletiram em voz baixa a sua onipresença. Ali re-estava o meu avô. Ou o que restava dele. Infinitizando-se... Olhei para baixo. Observei como a bola de sorvete ia gota a gota se dissolvendo, imperceptivelmente, até desaparecer para sempre bem na minha frente. Ao final, só o que restava era uma cor sem forma no fundo de uma taça anônima. Não me lembro mais do seu sabor. Nem do que ocorreu em seguida...

A brancura do esquecimento... Uma última imagem sobrevive. Entre o bonde que chega à estação e o trem que já vai partir. Diversas faces mutiladas pelo tempo: velhos, mendigos, aleijados - que ao me olharem com os seus silêncios, me relembram que toda despedida esboça a infância da morte. Depois um trem que vai e não volta. Resta o branco... Brancura... (de uma tela ou de um papel)... A brancura deste papel... sendo rabiscada por este emaranhado de traços pretos... ... e uma porção de pequenos pontos...

*** Uma repetição supérflua de cores e movimentos... Alguns rostos que desaparecem... ... pequenos, redondos... Bondes que vêm e vão... ... (pequeninos como as bolinhas de guVerdes claros e escuros, laranjas, um cinza que já é quase azul... ... meu filho brincando de bola... deslumE movimentos caóticos misturando todas as cores... brando-se com o movimento!... movimento que dá e é vida... (Segue)
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... ... 3 pontos...

de de uma criança)...

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Quem para é a morte. Define, ordena, arquiva. Denomina. A palavra escrita está morta porque está fixa. A poesia a movimenta... desperta-a: brincando de malabarista feito o meu filho com o seu balão de ar!... E eu brincando com o leitor: evocando de repente este meu filhinho (até então sossegado e quietinho no seu anonimato)... (Sempre sem nomes. Nomes são circunscrições, rótulos – modismos; e toda moda é passageira...). A infância também... Quando era criança, escolhi a poesia porque gostava de brincar sozinho... mas escrever é um ato coletivo: meu filho me ajuda a terminar esta aquarela... E ao brincar de malabarista de formas e cores, finalmente me esqueço desta mortalidade latente que por fim nos aguarda... ... e a vaga impressão de que as reticências Opto pela ausência de nomes... (sem terminar nem exterminar)... Difícil decidir onde (quando) termina (morre) um texto... Meu filho me ajuda. Imerso no seu sorriso quase eterno, solta com um desprendimento sincero o seu balãozinho rumo ao céu azul infinito... ... a forma esférica vai diminuindo de tamanho... ... devagar o suficiente para nos acostumarmos com a sua ausência...
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... depressa o suficiente para merecer o nome de uma despedida: - Adeus! ... uma bola solitária vai se dissolvendo imperceptivelmente... ... até desaparecer, para sempre, bem na nossa frente... ... não me lembro mais da sua cor... ... mas ao final... ... só o que restava era um ponto pequeno... ... no anonimato branco de uma enorme tela azul... ... pouco a pouco se rarefazendo...

são a representação gráfica da saudade...

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RECEITAS ANTIGAS DA MAIZENA
Do blog receitas-roselirosa.blogspot.com

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LINHA MÁGICA EXISTENCIAL E EXPONENCIAL
Por Odenir Ferro

A saudade e a solidão - quando se entrelaçam, parecendo ser almas gêmeas andando de mãos dadas, - rumam-se de encontro aos encantamentos que se refazem e nos endiabram -, dentro dos recôncavos mais complexos dos redemoinhos do Tempo. Elas, então, sintonizadas assim, fazem um reboliço dentro dos nossos sentimentos. Fazendo com que evoquemos as nostalgias mais explícitas que nos põem em choque e em contrachoques: dentro destes distanciamentos mais sublimes, mais secretos, por nos parecerem ser tão incógnitos. E que ficaram ou que ficam marcantes, entravados nas dobras desse Tempo que vem, - passando por nós, sobrevoando por sobre nós -, e depois nos arrebata para uma nova dimensão. Deixando em nossas desatinadas memórias, as lembranças daqueles nossos mais infinitivos - de tão importantes momentos, - pelos quais passamos, atravessando e vivendo as belezas plenas de augúrios enaltecidos pelos encantamentos do nosso bem viver. E as lembranças, também arrebatam as nossas emoções! Arremessando-nos a este sentimento marcante que é a saudade. Podemos dizer que a saudade, a solidão, juntando-se com as lembranças, transformam os nossos sentimentos num alinhamento nostálgico - que faz com que revivamos - ao menos dentro das nossas memórias, aqueles instantâneos momentos que o Criador presenteara-nos de sobremaneira quase fortuita - ao sintonizarmos a nossa plenitude com um momento glamoroso e sublime - que fizera com que todas as nervuras do nosso corpo se entrelaçasse com os mistérios da nossa alma - e desta maneira, de forma ímpar e única, viéssemos a vivenciar, experienciando, uma consagração com toda a realidade do momento em que vivendo plenamente, - estivéramos presentes num determinado local, juntamente com as pessoas, ou a pessoa mais importante da nossa vida. Estes acontecimentos tão marcantes e vívidos, nítidos e intensos de imagens e sons sobrecarregados - que ao fecharmos os nossos olhos e nos voltarmos para dentro do mais

profundo íntimo do nosso interior -, acontece quando podemos notá-los cena a cena, quadro a quadro, dentro da vivacidade que interage dentro da nossa mente. Fazendo com que possamos reviver as belezas nitidamente claras daqueles determinados momentos - que os trazemos guardados dentro das memórias emocionais do nosso coração. Memórias muitas vezes tão plenas - que ficam registradas na nossa mente, - de uma forma tão amplificada - que faz com que sintamos um tremenda saudade - pelo simples e secreto motivo de que não poderemos jamais, tornar a revivermos aquele momento intenso de emoções: a não ser em flashbacks. Dentro do mais profundo íntimo da alma resguardada em plenitude, nas nossas evolutivas e emocionais sensações. A saudade e a solidão se entrelaçam e se solidarizam entre elas mesmas - dentro do nosso íntimo emocional entristecido - quando tencionamos reaver ou revivermos os nossos mais marcantes momentos; dentro da linha contínua da nosso história pessoal ou dentro da trajetória da nossa vida. Avançando-se através do ininterrupto e inquebrantável, majestoso e enigmático: Tempo! Tempo, - este mensageiro inquestionável - que faz com que vamos tracejando os nossos sonhos na trajetória dos nossos mais intuitivos e emotivos sentimentos. Onde este mesmo Tempo, faz com que as paredes das nossas memórias, guardem os segredos dos percursos deste tempo já decorrido - dentro das mais sensíveis nuanças já vividas nas páginas que foram escritas. E que trouxeram-nos até o presente momento. Onde através delas, compusemos a história do nosso passado pregresso. E se a saudade nos marca por dentro, a solidão completa este ciclo. Principalmente, quando já estamos distantes ou ausentes, daqueles que compuseram - juntamente conosco -, aqueles momentos mágicos, intensos, ou até mesmo, muito dramáticos: dentro do conteúdo da nossa existência. Saudade é o reviver desta tênue linha invisível de sensações, que nos marcam por inteiros. Fazendo, muitas vezes, que até possamos sentir os diversos cheiros ou os perfumados aromas de determinados momentos vividos num passado remoto, ou reminiscente, ou muito próximo de nós. (Segue)
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Às vezes, vivemos com tanta intensidade um momento, que então, este momento acaba se incorporando dentro dos nossos sentimentos de maneira sobressalente e sintomática. Nós contribuímos - e muito - nas composições da nossa história pessoal. História que vai delimitando o espaço das nossas vivências. E tudo isto, após vivido, transforma-se em boas ou más recordações. E dentro das boas recordações, nos vamos experienciando as sensações (às vezes muito angustiantes ou o inverso: muito esfuziantes!) que nós denominamos de saudade. Saudade é este desalinho que nos traz um reajuste - ou vice e versa -, dentro da continuidade da nossa linha mágica existencial e exponencial: e que nós denominamos de tempo. Tempo que está embutido dentro de um outro Tempo, que se nos mostra - através das lentes objetivas da vida, - de maneiras mais abrangentes englobando um sentido mais Universal. Assim como todas as vidas pulsantes que atuam dentro do Planeta Terra - a nossa vida pessoal, sendo parte íntegra de todas elas -, também faz com que nós possamos inteirarmo-nos e interagirmos com todas as diversidades, as magnitudes e até mesmo com as biodiversidades do Planeta. E dentro desta atuação em que vamos vivendo - vamos elaborando os nossos momentos da maneira mais espontânea possível - procurando crer, amar, sentir, para depois experienciarmos dentro do nosso mais profundo íntimo, a linha espacial - da qual, ao fazermos jus, - vamos viajando pelo tempo afora: e quando paramos para refletirmos sobre os incógnitos da nossa própria ou das demais existências - Universais ou Planetárias - deparamo-nos envolvidos com os nossos saudosismos mais marcantes, através das abstrações com que os nossos mais emotivos e saudosos sentimentos - em relação à continuidade pregressa - ficaram configurados dentro da linha do Tempo: registrados nas imemoriáveis veredas do nosso passado, trazendonos até este nosso presente momento.

Nunca diga adeus
Por Audelina Macieira As pessoas que lhes sorriem E lhes estendem as mãos Elas lhe dão afeto Nunca diga a elas adeus Diga, vou aqui e volto já Deixe a esperança brotar do reencontro Brotar é viver Com esperança Nunca diga adeus As pessoas que te dizem eu te amo! O tempo já faz isso O tempo todo Um dia já não haverá Saudade E até logo! O adeus É certo E o final será eterno.

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ADOTE UM AMIGO, NÃO COMPRE ANIMAIS!
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Saudade
Por Roberto Ferrari A solidão que povoa o meu ser só é confortada pela tua lembrança e pelos momentos de felicidade que tive ao seu lado. Amor eterno sempre vou te amar por mais longe que você esteja de mim pois nossas vidas foram cheias de felicidade e de amor sincero. Existem barreiras intransponíveis só vencidas pela força do amor que é a maior das dádivas de Deus, pois quem vive e morre nele sempre estará presente na vida do outro. A pureza dos nossos sentimentos me leva para onde quer que você esteja e quando sinto tua alma junto da minha percebo que continuamos juntos mesmo que só em espírito. Te amo profundamente anjo da minha vida, te quero para toda o eternidade e um dia espero te encontrar outra vez, cheia de alegria, linda como você sempre foi e sei que vou te encontrar pois quando avistar uma luz intensa brilhando, saberei que é tua alma irradiando todo amor que você sente por mim. Meu coração está chorando lágrimas de sangue pela dor da nossa separação, é uma tortura impiedosa dormir e não te sentir ao meu lado, viver sabendo que não posso te ter junto a mim em todos os momentos da minha vida, continuo te amando e te desejando como se fosse a primeira vez, quero vencer a dor mas ela é mais forte do que eu. A vida se tornou um caminho longo e difícil que terei que percorrer sozinho, pois mesmo com alguém ao meu lado a solidão da minha alma continuará porque só você preencheu o meu coração com todo seu amor. Algumas vezes acho que será impossível continuar sem tua presença e só tenho forças, pois te sinto ao meu lado todas as horas, apesar da dor e das cicatrizes que marcaram meu coração. Eu te amo, meu lindo anjo, para todo sempre.

Imagem by Hussienal Shteri
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RECEITAS ANTIGAS DA MAIZENA
Do blog conversanacozinha.blogspot.com

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Coincidência
Por Valquíria Gesqui Malagoli – Saudades de mim? Verdade? Que coincidência!; Quem diria? Há tanto não me abraço No estardalhaço Que é o dia a dia. ... trombo comigo Às vezes... Não nego, mas, Sequer me reconheço – Isso é que é estranho. O estrago é tamanho Que virei do avesso! – Saudades de mim? Acredito; Notei-me a ausência Que agora é bastante. Sabe o mais curioso Nesse círculo vicioso?: Nunca o lamentara antes.

Imagem by the-glass-ballerina

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@RTES N@ VISÃO DE
J@COB B. GOLDEMBERG

Nelson Mandela’s Capture Site Memorial
É uma Instalação? É. Porque se desenvolve em grande área e os 50 elementos lineares verticais criam relações inusitadas. Entre si e com o espectador. Mutáveis. Orgânicas. Determina espaços, se transforma à medida que transcorre o tempo e a luz perpassa os vãos. Portanto também é Arquitetura. Escultura, será? Sem dúvida: volume definido no espaço, significado que se revela segundo o ponto de vista, valorizando cheios e vazios; é a luz. Fotografia, também? Sim. As várias lâminas paralelas, com suas manchas aparentemente aleatórias, determinam as sombras que delineiam a efígie. É só mexer-se. Portanto interativa. Na relação com o observador para tornar-se plena, para ser revelada. Monumental e virtual. Paradoxo? Não.

A grandeza estrutural, as relações com o entorno, a terra, o ar e a montanha — a vastidão — enfatizam a intensidade material da qual a presença humana, em sua verdade física e psicológica, faz surgir — em mágica beleza — o virtual que se homenageia.

LOCAL: Kwazow Natal Midlands, Johannesburg, África do Sul REGISTRO: 50 anos da captura e prisão (27 anos) de Nelson Mandela; neste local o início do chamado “long walk to freedom” CONCEPÇÃO: 50 placas de aço, lineares e verticais com 6,5 a 9,5 m de altura. CRIAÇÃO: Escultor MARCO CIANFANELLI Arquiteto Jeremy Rose (entorno)

(Segue)
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Quer conversar com o autor? Escreva aqui: jbgoldemberg@gmail.com
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Asas da Saudade

Por Beto Acioli

Sopra no azul a saudade Que espalha e assola Pelo mundo afora Poeiras de dores E amores que arde em meu peito E fundo me invade

Como a ventania Que arrasta e que varre Que rompe os caminhos Que rapta a paz Destrói a alegria Nostalgia traz Junto à tempestade

Voar com a saudade Cai-se na ansiedade É tragar o sal É saudar a tristeza Sofrendo a crueza Da infelicidade

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Noite
Por Anna Ribeiro

Espero a noite Ilusões... Sonho que em estadia moro no teu coração Neste tempo, que é só meu Sou poema, poesia, quiçá prosa em nostalgia Noite solitária! Apenas a lua é companheira. Em sonhos, minha alma de poeta dorme em minguante do Amor! Restando a Saudade de você.

Imagem by scared princess

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Saudade de Nós Dois
Por Ana Rosenrot

Deitei-me o mais silenciosamente possível para não te acordar; a cama rangeu suavemente e o ruído normalmente baixo soou alto, escandaloso, quebrando a quietude que reinava no quarto. Fazia um frio cortante e eu puxei as cobertas sobre mim o máximo que pude, mas consegui cobrir somente as pernas, pois você havia se enrolado nos cobertores de forma possessiva, como num casulo, vivendo em seu mundo, único, impenetrável, onde não há lugar para mim. Mais que o frio, a insegurança, a incerteza e o medo do amanhã me impediam de pegar no sono e eu te olhava, adivinhando os contornos do seu rosto na escuridão. São tantos anos de convivência que a única incógnita em sua fisionomia é o olhar distante, misterioso, descontente. Prefiro ouvir seu ressonar a encarar seus olhos; sentir o calor que somente a intimidade da cama pode proporcionar, do que sua frieza cortante. Adoraria tocá-lo, mas tenho que manterme quieta, pois se você sentir minha presença certamente se afastará, condenando-me a uma noite gélida, aonde a única fonte de calor virá das lágrimas que derramarei. Que saudade eu tenho do tempo em que não éramos um casal somente na certidão e nas aparências; nosso amor era livre, selvagem, natural; motivo de inveja entre nossos amigos. Parece que foi ontem, desafiávamos o mundo com a nossa paixão, éramos impetuosos, imbatíveis, inseparáveis; até que tudo mudou sem eu perceber quando, ou como... Mas mudou... Os silêncios ficaram cada vez maiores e a distância foi se transformando num abismo sem fundo... Escuro e frio como a noite. E a noite é como o tempo, passa, modifica, acaba; da mesma forma que acabou o nosso amor, ficando somente a saudade – dama ciumenta, sádica, assassina – corroendo minha alma aos poucos... Mas o sol vai nascer, resolverei nosso drama de uma vez por todas; nem me importo com as consequências e quem sabe num último golpe a saudade vença e o amor renasça das cinzas, quem sabe... A saudade às vezes faz milagres.

Imagem by NineWhileNine

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Eco (a) Saudade (Saudade II)
Por Renata Iacovino Se a noite Entoa A loa E imanta E encanta... Saudade É açoite! À mente Seu nome – Prenome – Traz calma Mas à alma Saudade... ...Latente! E brada: Vá, diste! Desiste! O amor?... Clamor! Saudade É ousada! Também É esteio É o veio Que banha... Champanha... Saudade? É sem...

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NUMA ESPLENDOROSA TARDE DE JULHO (QUANDO MULHERES AINDA NÃO JOGAVAM FUTEBOL)
Por Jacob B. Goldemberg

Estávamos em 1950. Cinco anos já haviam transcorrido desde o término da Segunda Grande Guerra Mundial. Os países envolvidos, mais o resto do mundo, ainda se recuperavam do grande conflito. No Brasil, terminara o primeiro período democrático após quinze anos da ditadura de Getulio Vargas, e se iniciava um novo governo após a consagradora eleição... de Getúlio Vargas, para Presidente da República. O que só confirmava que estávamos no Brasil, se ainda havia margem a dúvidas... Naquele ano, a primeira Copa do Mundo de Futebol pós-guerra aconteceu aqui, no Rio de Janeiro. O Maracanã (Estádio Mario Filho), especialmente construído, fora inaugurado em 16 de junho, uma semana antes da abertura da competição, ainda inacabado: o maior estádio do mundo. Além do Rio, as cidades de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Recife sediaram os jogos, e o scratch brasileiro, como se dizia na época, fez uma campanha memorável: Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico chegaram à partida final, em 16 de julho — com mais de 200 mil espectadores —, contra a equipe do Uruguai. Os políticos discursavam sobre “a pátria de chuteiras...”: — O país está em vossas mãos...! Mãos? O popular Jornal dos Sports vendia já antes do jogo, fora do estádio, uma edição inédita, com a manchete “Campeão do Mundo” e a descrição do embate final, da retumbante vitória brasileira. Por tudo isso e, também, porque haviam se esquecido de comunicar ao adversário tais certezas indiscutíveis, o Uruguai venceu a partida por 2x1, causando o silêncio mais ensurdecedor da história do futebol, que ainda hoje ressoa nos ouvidos de quem lá esteve: 200 mil torcedores atônitos, mudos, mais onze doidos se abraçando e pulando no gramado.

Um sonho tornado pesadelo, fim da festa, todos para casa, agora só daqui a quatro anos... Meu pai e eu tínhamos cadeiras cativas, que nos garantiam sombra, conforto e segurança por cinco anos. Como o país inteiro, acompanhávamos todos os jogos pelo rádio e no Maracanã, ao vivo e a cores. Não existia televisão comercial e nem computador, e “Seu” David decidiu: — Mamãe e Sallyzinha têm de ver um jogo, pelo menos. Sabe-se lá quando teremos outro acontecimento destes por aqui! E decidido estava: nós, os homens, iríamos ao tal jogo na arquibancada, e as mulheres, nas nossas cadeiras; nos encontraríamos na saída. Uma hora antes do início da peleja — Brasil x Espanha —, o “gigante do Maracanã” já estava lotado, mas continuava a entrar gente. Como sempre. Ao adentrar o gramado, como dizem os locutores esportivos, a equipe nacional despertou tal clamor, tal alarido, que as duas se entreolharam, assustadas: — Que isso?! — Que coisa, hein, mãe! Tocados os hinos nacionais, tem início a partida. A disputa se desenrola num espetáculo de virilidade, lealdade e vibração, dentro e fora do campo, que elas nunca haviam imaginado, muito menos visto. Os gols se sucedem. Ohs! Ahs! — Passa a bola logo! — Chuta logo a bola, meu Deus! — Ô perna de pau! — Juiz ladrão! Tudo novidade. Sallyzinha se levanta, sozinha, meio fora de hora, para ver melhor a torcida se manifestando... e leva uma meia-laranja chupada na cabeça: — Ui! — Senta aí! Faz parte. Agora ela se sente participante. Findo o primeiro tempo, intervalo: mãe e filha se entreolham, satisfeitas, não imaginavam tal magnitude, tanta vibração, tanto povo! Um Geneal, um Mate Leão, e “Oh, já vai começar de novo!” Começa o segundo tempo, o Brasil cada vez melhor. Elas até já arriscam uns uhs e ohs, começam a vislumbrar algum sentido naquela loucura... — A senhora me desculpe, mas o Brasil, agora, está jogando do outro lado. A senhora está torcendo para a Espanha! (Segue)
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Sallyzinha, que tampouco sabia, agora ria da mãe. Ruborizada — naqueles tempos, as mulheres ficavam ruborizadas quando “davam uma rata”; hoje, os bisnetos diriam: “Caraca, a bisa pagou um mico!” — Dona Maria balbuciou um desculpe acanhado, eu não sabia, e foi dizendo pra filha: — Francamente, o David devia ter me avisado — e voltou a vibrar com o jogo, agora ainda mais, porque do lado certo. Para completar o encantamento, ainda tiveram a oportunidade de ouvir o estádio inteiro — elas, inclusive — cantando a marchinha carnavalesca “Touradas de Madrid”, como despedida da equipe espanhola do campeonato. Inesquecível! O jogo termina e há um pouco de confusão, algum empurra-empurra — Papai já deve estar esperando a gente! —, e o encontro. Todos felizes, satisfeitos, todas as jogadas relembradas, interpretadas, imaginadas, reinventadas e resolvidas à mesa do jantar. — Hoje todo mundo cedo pra cama. Estamos todos muito cansados. — Mais mãeee... — Nem mãe nem meio mãe! No máximo às oito, de banho tomado e dente escovado que amanhã tem aula. — Tá bemmm... Pena que o resultado final do campeonato matou, no nascedouro, o entusiasmo das novas desportistas. Não quiseram mais saber de futebol. Bobagem. Perda de tempo. Temos mais o que fazer... Mas o vírus ficara lá, latente. Dona Maria só voltaria ao futebol vinte anos depois, pela televisão a cores, com a seleção brasileira tricampeã no México. Aquela tarde esplendorosa de julho, que “Seu” David lhe proporcionara era sempre lembrada, principalmente quando se encantava com o Tostãozinho — como ela o chamava — em seus deslocamentos e jogadas pra lá de inteligentes. Ela vibrava... Saudades do futebol-arte. Saudades de Dona Maria.

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Sinto saudades...
Por Ediane Souza Sinto saudades de um tempo lá atrás... Sinto saudades de quando éramos dez: cinco meninas e cinco meninos. Sinto saudades de nossa rua, nossas calçadas, nossas conversas até altas horas, nosso jogo de dominó, nossas festinhas e farras inocentes. Sinto saudades de quando éramos dez, e eu tinha que cantar a música predileta de cada um. Sinto saudade das serestas e dos micos que pagava, quando me chamavam pra cantar. Sinto saudades de quando éramos dez, dos nossos risos fáceis, da falta de preocupação, da coragem de viver as emoções, da transparência para com os sentimentos. Falávamos de tudo, brincávamos com tudo, mas sentimento era coisa séria, não era de se brincar. Aconteceu de eu e uma das meninas nos apaixonarmos pelo mesmo menino. Ainda assim, permanecemos leais uma à outra... Somos até hoje. Nenhuma de nós conseguiu namorá-lo e seguimos todos como caros amigos. Apaixonar... era verbo fácil naquela época. Mas quando não dava certo, fácil também era desapaixonar. Não sofríamos tanto, não sentíamos tantas dores de amor. No tempo em que éramos dez, “gostar” era sinônimo de respeito, carinho, lealdade, partilha, companheirismo, sinceridade, cortesia, delicadeza... E não se permitiam dúvidas: “gostar” nunca foi talvez, quem sabe, pode ser, será... E tudo era vivido e sentido sem medo, sem meias verdades, sem fingimento, sem manipulação. Tínhamos poucos recursos e pais rígidos. Então, vivíamos cada segundo de liberdade, cada momento em grupo, cada oportunidade de celebrar a vida com intensa alegria, prazer e solidariedade – se um pai não permitia, ninguém saía. E nos conformávamos com a nossa calçada. O que valia, mesmo, era o afeto que permanecia, a amizade que crescia, o sorriso que insistia... Quando éramos dez, jamais perdíamos a alegria. Sinto saudades daquele tempo, dos amigos que raramente vejo. Sinto saudades, sobretudo, de viver com lealdade, com sentimentos transparentes, de viver com respeito e cuidado pelo outro. Hoje, as pessoas raramente cuidam umas das outras, raramente se importam com o que o outro sente... Sinto saudades de quando éramos dez, da história que construímos, dos laços que criamos, de tudo que partilhamos. Com o passar dos anos, os dez foram se multiplicando, e, aos poucos, formando suas famílias, seus grupos para uma vida inteira. Sobrei cá eu e mais um, hoje apartado de nós. E para nós, que não formamos nossa continuidade, nos restou apenas a saudade. Sinto saudades... Saudade de um tempo sem mágoas, sem maldade... Saudade de um tempo feliz... de verdade. Saudade dos meus amores leais, saudade de quando éramos dez...

[Dedicado aos primeiros amores da minha vida, com quem vivi um amor leal e verdadeiramente correspondido: Rita, Sueli, Sirleyde, Neidinha, Adilson, Flávio, Fábio, Dindinho e Daniel]

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SAUDADE!
Por Viviane Schiller Balau

Não suporto estar longe de você! E não poder mudar isso. A saudade me sufoca! Tenho medo de não aguentar e sair A procurá-lo pelas estradas da vida Sem conseguir encontrar... Cada minuto que passa; sem você É para mim tormento sem fim! Por isso, acalento esta dor. Bem no fundo do meu coração!

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VITRINE CULTUR@L
M[rin[ C_rvini L_ntini
sos, agindo de forma veloz, porém, deixando passar despercebido os pequenos detalhes que fazem parte da vida. Nos consumimos com afazeres e sem termos a consciência que a vida é medida por tempo e não simplesmente pelo prazer de ser vivida. O mercado de trabalho, a forma de ganhar dinheiro e a falta de tempo, fazem a vida simplesmente passar sem nos darmos conta do que realmente importa: a própria vida, que se esvai minuto a minuto. Pare, respire, conte até dez e perceba para onde estão indo os seus minutos lembrando que eles não voltam mais. E lembre-se: viva e deixe viver.

Quanto vale o seu amanhã?
Filme o Preço do Amanhã … “Em um futuro próximo, o envelhecimento passou a ser controlado para evitar a superpopulação, tornando o tempo a principal moeda de troca para sobreviver e também obter luxos. Assim, os ricos vivem mais que os pobres, que precisam negociar sua existência, normalmente limitada aos 25 anos de vida. Quando Will Salas (Justin Timberlake) recebe uma misteriosa doação, passa a ser perseguido pelos guardiões do tempo por um crime que não cometeu, mas ele sequestra Sylvia (Amanda Seyfried), filha de um magnata, e do novo relacionamento entre vítima e algoz surge uma poderosa arma com o sistema e organização que comanda o futuro das pessoas. Direção de Andrew Niccol ” Partindo da reflexão proposta pelo filme levanto o questionamento “Como estamos vivendo as nossas vidas?” Indo além da manifestação artística proposta pela obra, podemos traçar um paralelo com o quotidiano onde muitas vezes corremos contra o tempo para arcarmos com compromis-

A colunista é Atriz, Professora de Teatro, Escritora, Ilustradora e Gerenciadora de Mídia e Publicidade
marinacervini@yahoo.com.br http://marinacervini.blogspot.com.br/ http://marinadesigneremidias.blogspot.com.br/
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SAUDADE DAS NOITES DE VERÃO
Por Mario Rezende

As estrelas e os grilos em conluio, elas, lindas, lá em cima, brilhando e eles, felizes, aqui em baixo, cantando, faziam toda aquela harmoniosa poesia nas nossas noites aconchegantes de verão. Nada restou daquele envolvente encanto, depois que ela se foi sem deixar vestígios. As nossas pegadas na praia levadas pelas insistentes marolas que continuam a acariciar a areia, as estrelinhas que ainda brilham lá no céu e os insetinhos cantando, em coro, aqui no chão. Todos Insensíveis, apesar das lembranças que provocam, alimentando a saudade que insiste em ficar machucando o meu coração.

Imagem: h(p://8tracks.com/j
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CULTíssimo
Por @n[ Ros_nrot

Cinema e saudade andam juntos, alguns filmes marcaram (e até mudaram) nossas vidas profundamente, recordações da infância, encontros românticos, descobertas; o cinema sempre foi a janela para outros mundos, vidas, realidades (melhores ou piores que as nossas); todo mundo tem uma história cheia de saudosismo envolvendo o cinema para contar e este filme que apresentarei, mais do que qualquer outro conseguiu retratar esse sentimento, essa mistura de vida e arte; falo do filme italiano Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso), filmado em 1988 escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore é uma ode ao cinema, a amizade e a vida; considerado piegas por muitos críticos e desprezado em seu lançamento pelos italianos, esse Cult conquistou o mundo com sua linguagem simples e seus personagens realistas ganhando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1990 e vários outros prêmios importantes no Festival de Cannes, Globo de Ouro, Prêmio César, etc.

O filme se passa numa pequena cidade da Sicília nos anos que antecederam a chegada da televisão e conta a vida do garoto Salvatore di Vitto (Totó), desde sua infância difícil, quando saía escondido da igreja onde era coroinha para ir ao Cinema Paradiso (único da cidade) e lá descobre, graças a seu esforço para fazer amizade com o projecionista Alfredo, interpretado por Philippe Noiret, a paixão, que ele carregaria pelo resto da vida: o cinema. Sendo a única distração da cidade, todas as pessoas iam ao Cinema Paradiso nos finais de semana, não sem antes terem os filmes censurados pelo padre local, que mandava cortar todas as cenas onde apareciam beijos (guardadas secretamente por Alfredo). A história acompanha a trajetória de Totó até a idade adulta, quando ele, um cineasta de sucesso, volta à sua cidade natal ao receber a notícia da morte de Alfredo e descobre que o Cinema Paradiso pode ser demolido para a construção de um estacionamento; exatamente como aconteceu no Brasil com nossas lindas salas de cinema, hoje lojas, bingos, templos, locais de má reputação e outras coisas, infelizmente (que saudade!)... A partir daí lembranças e saudade, muita saudade, nos guiará até um final inesquecível. O personagem Salvatore di Vitto (Totó) foi vivido por três atores: Salvatore Cascio na infância, Marco Leonardi na adolescência e Jacques Perrin na idade adulta. Neste filme a trilha sonora (linda) também emociona; composta pelo grande, incrível, majestoso Ennio Morricone, um dos maiores (para mim o maior) compositores do cinema; sua contribuição à Sétima Arte passa dos 500 filmes, entre eles: Os Intocáveis, Por Um Punhado de Dólares, A Missão, Três Homens em Conflito, Bastardos Inglórios, entre muitos...
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Cada um de nós, amantes da vida e do cinema, temos lá no fundo um pouco de Totó e eu tenho certeza, que vai ser bem difícil assistir a esse filme sem se emocionar e muito, portanto, para quem não viu e também para quem já viu, preparem os lenços de papel (vários) e aproveitem um filme tão bom, tão único, tão perfeito, que Giuseppe Tornatore até tentou, mas nunca conseguiu fazer igual. Voltarei com mais na próxima. CULTíssimo como o Varal do Brasil. Para contato e/ou sugestões é só mandar uma mensagem: anarosenrot@yahoo.com.br

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FALANDO DE CULTURA
Marluce Alves Ferreira Portugaels

Conforme foi acertado, Falando de Cultura focalizará manifestações artístico-culturais pelo mundo afora, mas principalmente, no Brasil. Sendo este um país de grandes proporções geográficas e de grandes diversidades, é natural que as tendências variem de região para região e mesmo de cidade para cidade. Assim, em cada lugar, mesmo o mais remoto, o visitante se surpreende com obras e eventos produzidos pela criatividade local. Os tipos de influências a que um povo foi exposto ao longo de sua história vão determinar seu comportamento nas artes como na vida, uma vez que arte e vida são faces da mesma moeda. Nessa simbiose artístico-existencial, vamos encontrar vestígios herdados dos indígenas que foram os primeiros habitantes desta Terra da Santa Cruz, assim como traços passados pelos colonizadores portugueses que aqui se estabeleceram e trouxeram os escravos africanos dos quais também recebemos considerável herança. Finalmente, o quadro migratório do século XIX, trazendo para cá a mão de obra de europeus de várias procedências, como a italiana, a alemã, a espanhola, e, mais tarde, de povos orientais como os japoneses, veio enriquecer essa complexidade cultural que hoje conhecemos.

Dizem que a alma de um povo é a sua cultura. Nesse amálgama de traços vindos de diversos lugares, distinguimos a língua que identifica seu portador e o remete ao seu lugar de origem, como denotam as diferenças dialetais. No dizer do grande poeta português, Fernando Pessoa, “minha Pátria é minha língua”. Em outras palavras, nós incorporamos a língua ou as línguas que falamos e com elas exprimimos nossos sentimentos, nossas alegrias, nossas angústias. Ao lado da língua, outras características importantes como a religião, a culinária, o folclore, a literatura, a música, o teatro, o cinema, a escultura, a arquitetura, o esporte, as formas de lazer vão fazer do povo o que ele é. Ou seja, tudo o que não for herdado geneticamente, mas que é aprendido pelo homem faz parte do acervo cultural daquele povo. Mesmo sem intenção formal, quando se fala de Brasil é difícil não tocar em assunto de florestas, de rios, de fauna, de flora, de populações indígenas. É como se um ímã nos puxasse nessas direções. Assim é que, ilustrando a edição de hoje, um livro muito bonitinho nos chamou a atenção e nos impeliu a compartilhálo com todos. (Segue)

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Destinado a crianças pequenas, mas às grandes também, “O Mundo de Tainá – Uma Aventura em Tupituguês”, de autoria de Cláudia Levay, e linda ilustração de Isabel de Paiva, foi editado pela Companhia das Letrinhas, agora em 2013. O livro acabou de ser feito. Narra as aventuras de uma indiazinha da Floresta Amazônica, Tainá, junto com seus amigos Gobi, também indiozinho, e Tata-Miry, uma meninazinha branca e loura que se perdeu na floresta e que não sabia falar a língua de Tainá e Gobi. Então, para se comunicarem, os três fizeram como todas as crianças do mundo, inventaram uma brincadeira que consistia em procurar no português algumas palavras de origem tupi, criando, assim, um pequeno dicionário tupi-português, o tupituguês, entremeado de algumas lendas da floresta.

Aliás, o livro é uma espécie de consequência da trilogia cinematográfica, “Tainá 1, uma aventura na Amazônia”; “Tainá 2, a aventura continua”; “Tainá 3, a origem”, agora nos cinemas. Tanto o livro, “O mundo de Tainá”, quanto o filme, “Tainá 3, a origem” são bonitos e contam de maneira romântica, idílica as aventuras dessa indiazinha. Dá até saudade de nossa infância. Ë claro que essa visão romântica da vida na floresta diverge da visão realista de alguns antropólogos que não concordam com a teoria do “bom selvagem” de Rousseau. Mas, essa é matéria para outro artigo. FIM
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E TUDO PARECE QUE FOI ONTEM
Por Yara Darin

E tudo parece que foi ontem nossas cartas nossas juras nosso segredo o mundo criado no infinito do teu olhar . Amor não se explica sempre complica sua partida sem motivo me assusta estou aflita quero tentar te encontrar romper as cercas além das estrelas meus anseios aplacar nesta insuportável saudade!

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SAUDOSA VIAGEM A UM MOMENTO PASSADO Por Erica Gonçalves

Viajando pelas rodovias de concreto e ferros tão frias, geladas, sem alma. Por que matas e continuas correndo pelo mundo inteiro como se nada fosse, por quê? Vi de passagem, belezas profundas na natureza, que me recordaram, uns poucos momentos felizes da minha infância, quase sempre sofrida. Ah, momentos felizes! Quantas saudades daqueles tempos. Como era bom correr livre nos campos verdes, rolar na grama, deitar a beira do rio ouvindo os murmúrios suaves das águas. Como era lindo ver o céu azul e os pássaros voando livres, sem pressa e sem destino, sem se quer pensar no amanhã. Como era bom ficar ali despreocupada, esquecer a lida, só viver. Como era bom correr nos campos floridos na primavera, olhar a vida em cada pétala das flores. Descansar a sombra de uma laranjeira completamente pontilhada por frutas amarelas, colher delas tão frescas e suculentas como a vida naquele momento. Como era bom o cheiro gostoso da grama, da relva molhada, do verde das matas. Ó lembranças tão doces, que vieram encontrar-me como um afago, um sorriso discreto sem me perceber, nem sei bem por que! Como era bom colher as últimas frutas da colheita, já tão pequenas e não tão fresca, muito rara, mas de grande sabor, como se fosse á essência de todo um pomar. Caçar a última goiaba dos pés disputá-las com os pássaros. Ó lindo momento? Onde estás que ousaste fazer-me lembrar de ti? Como era bom amar a vida quando criança e ainda livre. Oh tempos que não voltam mais!!!.

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Para o café...
Por Guacira Maciel Só de brincadeirinha vou fingir que te verei amanhã; vou fingir que nada mudou e que ainda estás ao alcance dos meus abraços... depois, vou planejar o meu dia tentando não pensar. Vou viver cada minuto dessas 24 horas tentando fingir que nada mudou e esperando a hora de te ver, como todos os dias, após o término das nossas lutas diárias, há tantos anos... quantos? nem lembro mais...parece que são milhares deles; algumas encarnações... mas houve um imprevisto, creio, e à hora de sempre tu não estavas lá. Mas ainda acho que vou dormir dentro dos teus braços, foi só um pequeno atraso... e chegarás de mansinho com cuidado para não me acordar, deitarás ao meu lado e passarás a perna esquerda sobre mim como fazes todas as noites; a tua perna pesa sobre o meu ventre e sinto vir à tona um calor que me sufoca e quase me consome, e se alastra fazendo crescer a labareda imortal que há entre nós. Mal penso em ti me sinto quase incapaz de controlar esse sentimento profano e inexplicavelmente sagrado. Sinto uma vontade quase irreprimível de te tocar, mas ressonas tão entregue e tranquilo que não consigo te acordar, e penso...penso que não tenho o direito de profanar a tua placidez quase inocente, e me deixas presa sob tua perna esquerda como se tivesses medo que eu pudesse fugir... durmo aconchegada ao teu lado esquerdo como se teus braços fossem asas a me abrigar; parecemos ter apenas um único tronco tão unidos adormecemos...então, abro os olhos de manhã, preocupada com o horário do trabalho e não te vejo, prendendo-me com tua perna esquerda... Não chegaste? onde foste? deixei-te um bilhete; tu o leste? o sono me abateu antes que tivesses chegado...que pena, nem percebi o teu abraço e o peso da tua perna... PS. Então, nos veremos amanhã para o café?
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A SAUDADE DÓI

Por Carmen Di Moraes A saudade é um vazio; Onde a ausência é a presença... Muitas vezes impossível. Mas a lembrança está presente, E ela vem nos consolar. É que às vezes não adianta ... Ela só nos faz chorar. Não dá para evitar, A saudade é traiçoeira; Ela vem sem avisar. A saudade é infinita, Quando alguém Parte pra sempre... E nunca mais vai voltar... Ai meu Deus... como isso dói... Dói na alma... dói no corpo... Dói dentro do coração... Dói no âmago do ser... Dói até quase morrer... E só nos faz padecer... Oh! Saudade... Só tu me acalentas... Mesmo... me fazendo sofrer...

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O tempo é medonho
Por Domingos Nuvolari

O tempo esquece que nos olhamos e nos completamos, Esquece que nos teus olhos eu me vi pensando em você, Esquece que somos assim completos.

O tempo passa mas seus olhos ficaram perdidos no meu tempo, Passa mas o meu tempo perdeu-se no teu olhar, Passa mas perdido estou no teu pensamento.

O tempo me disse que nos teus encantos me adornei, Que do teu olhar me enfeiticei, Que em ti, me encontrei.

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Purpurinas com Saudades
Por Mariane Eggert de Figueiredo

se uma brecha na continuidade linear. Entrei por ela. O bolo esteve uma delícia! De chocolate. Como todos os anos. Puro chocolate suíço, na mais genuína tradição e aguçando os mais exigentes paladares. O café também esteve impecável. Com seu sabor amargo fez saltitar as papilas gustativas que reviviam naquele ritual do café com bolo a nostalgia de momentos compartilhados. Assim, juntos, completavam-se. A doçura exuberante do bolo e o amargo do café. O bolo era todo leveza e atração. Já o café tem em si um mistério impenetrável. Aquele amargor que deixa na língua e depois na vida mas que, ao se juntar ao bolo vira magia. Pausa. Paula gritara tanto! Gritara tanto! Tanto, naquele salto, que ficara afônica. O ar, afoito, penetrara pela mesma boca que, naquela tarde, a goles sôfregos, sorvera o café e, gulosa, comera do bolo. De chocolate. Como pode o ar atrofiar a voz? Ar que entra. Ar que sai. Ar que flui pelas páginas do tempo e que aqui me deixa a mim também sem voz?! Que saudades! Que saudades! - Parece que foi ontem - penso Paula foi capaz de saltar de paraquedas! Mas eu fiz uma tese de doutorado! replica instantaneamente uma voz saída detrás de anos de lembranças e souvenirs. Pois é assim que funciona. Uma lembrança vai puxando outra. Uma palavra outra palavra. Uma ideia outra ideia, uma visão, um livro, uma sensação, uma vida. E lá já se ia quase uma vida inteira. A nossa, escrita, prevista, desejada,
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Psicologia aplicada à administração de empresas, Bergamini, Editora Atlas. O livro estava lá. No alto da estante, em meio a muitos outros, meio perdido, confuso até. Literatura, Filosofia, Linguística e Línguas. Pelo conteúdo e pela idade, destoava. Não pertencia aquele universo. Lá, porém, estava, como se um deles fosse. Entre as cartas do “Lettres Persanes” de Montesquieu. Filosofando a vida em poemas de Robert Frost ou E. E. Cummings. Discretamente espiando amores de Pablo Neruda em Poemas de Amor. Aspirando o perfume e viajando pelas Flores do Mal de Charles Baudelaire. Ou filosofando com Sêneca, Heráclito ou Platão. Lá estava como se um deles fosse. Por cima, os dicionários. Por baixo, gramáticas, obras de Semiótica, Linguística Geral e Aplicada, Paremiologia, artigos os mais diversos, todos da área de língua e literatura. Que fazia lá aquela obra de Psicologia do comportamento empresarial? A mão estendeu-se inconsciente. Num gesto maquinal, apanhou-o. Parecia descobrir um tesouro. Era preciso investigar. Na capa estava escrito. Ou melhor, rabiscado. Em letras redondinhas. Como se aquela mensagem tivesse sido escrita por uma criança: “Para tudo há um retorno...” O retorno fazia-se naquele instante. Trinta anos no tempo cronos. Um segundo no tempo kayros. Livros são tesouros que encerram viagens no tempo e no espaço. Ali abria-

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nas páginas amareladas do livro de Psicologia dos estudos secundários. É quase sagrado o gesto que estou para perpetrar. Meus dedos parecem refletir. Assim como o livro. Em qual idioma sentiremos saudades depois que a vida nos tiver levado pelo mundo afora?

quer de novembro, de trinta anos atrás: “Nunca é tarde para voltar Para apagar um traço Para mudar uma letra Para sentir um abraço Nunca é tarde para nada

Na contracapa, com ar solene e tom ancestral, Honoré de Balzac sentencia: “Se a luz é o primeiro amor da vida, não será o amor a luz da vida?” - Alea jacta est! - disse o professor de Latim em uma de suas primeiras aulas. - E fiat lux! - replicou baixinho Jennifer, para em seguida acrescentar – os melhores fósforos em cima da terra! Como gargalhamos! Quanto gargalhamos. Sempre. Até nos engasgarmos. Que delícia nosso hambúrguer com milho, temperado de bagunça e recheado de confidências e quero mais. Era isso, afinal. Aí estava o segredo. Sonhar. Compartilhar. Dividir entre nós as angústias e as paixões de uma adolescência numa cidade pequena e em famílias austeras. Vou mordendo o sanduíche e lembrando: “Aproveitar ao máximo a nossa idade”... “Que cada vez que morderes um x-salada, lembres das nossas bagunças”... “lembres do gosto da vitória”. Namorados. Paqueras. Desilusões... Brincadeiras. Tudo vai desfilando como em um filme com final feliz. Parece que foi ontem! Vou pensando, enquanto meus olhos fazem ressurgir mais emoções, frases, previsões, desejos das meninas que éramos. Num rodapé de página, Jennifer havia escrito uma poesia. Num dia qualwww.varaldobrsil.com 113

Nem para apagar a tristeza Nem para voltar para casa...” Pulo para a última página. E lá, foi Marta quem escreveu, no último dia de aulas: “Que sua vida seja um palco de luz iluminado onde, um dia, realize todos os seus sonhos e desejos. Pois somos purpurinas: brilhamos, brilhamos, brilhamos... até sumir!” Parece que foi ontem que, juntas, rabiscáramos aquelas linhas pelas páginas do livro de psicologia. Éramos quatro meninas moças. Tornamo-nos quatro mulheres maduras. Todas casamos. Eu divorciei. Paula tem duas filhas maravilhosas. Adoram esportes radicais. Jennifer vive na Escandinávia e também tem duas meninas. Marta tem uma filha só. Jamais saiu de nossa cidade. Nossa amizades sobreviveu aos anos, crescendo, vivendo, virando mulher e envelhecendo conosco. Parece que foi ontem... Foi ontem, sim. Mas lá se vão trinta longos anos... Quantas saudades!

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HISTÓRIA DO BRASIL SOB A ÓTICA FEMININA Hebe C. Boa-Viagem A. Costa

Historia do Brasil sob a ótica feminina
A Historia do Brasil ensinada nas escolas quase não cita a presença da mulher dando especial realce aos feitos masculinos. Daí a necessidade de contá-la de um jeito peculiar, sob outro prisma e esclarecendo o porque dessa prática. Uma pesquisa minuciosa revela que todas as atividades por elas exercidas não eram registradas. Por quê? O conceito que se tinha delas não era nada lisonjeiro: ser incapaz, de inteligência limitada, cujos deveres eram de obedecer, gerar, parir, criar os filhos e servir ao marido que não fora escolhido por ela., Para tanto, não precisavam e nem necessitavam estudar. Assim sendo, nem todas – índias, negras ou brancas – se sujeitavam a essa situação e buscavam romper barreiras embora com essa ousadia viessem a sofrer séria discriminação, Não contavam a seu favor nem com a lei e nem com a igreja. Diante desse clima foi possível amealhar quase uma centena de mulheres que se dispuseram a estabelecer metas incríveis aparentemente impossíveis. Hoje muitas mulheres trilham com eficiência e desenvoltura os caminhos por elas desbravados com muita luta e persistência ao longo de quinhentos anos de nossa historia. Não foram dádivas e sim conquistas!

Brasil Colônia As precursoras das precursoras – século XVI Diversas nem eram daqui, mas vieram para ficar o tempo que fosse preciso. Trabalharam muito, tiveram de enfrentar situações difíceis, totalmente desconhecidas. Tudo era diferente do que deixaram lá em Portugal: o clima, as pessoas, a língua, a alimentação... Não fora uma decisão tomada por elas e sim pela Corte, pelo marido... O jeito era acostumar-se e tentar viver. Não podiam sequer contar com o marido para essa empreitada. O homem geralmente se embrenhava nas matas para aprisionar índios, explorar as redondezas ou então partia para missões mais distantes e por isso mais demoradas. Cabia à mulher cuidar e proteger sua propriedade, os filhos, as pessoas que a ajudavam nas suas diversas atividades e a prover a despensa. Ficaram entendidas em agricultura, na produção de bens de consumo, e lidar com os escravos... E como foram criativas! Outras, já nascidas aqui, mas tal como as que vieram de além mar, atuaram de modo significativo e com criatividade em diversas situações. No entanto, é muito difícil achar dados sobre elas, pois ninguém se preocupava em registrar suas atividades. O importante é que, apesar das dificuldades enfrentadas, não se pode escrever a História do Brasil sem procurar conhecer a atuação delas nessa época. Por isso, vale a pena citá-las. Seria interessante que este lembrete viesse a despertar em alguém o desejo de iluminar essa parte um tanto obscura de nossa História. Oxalá isso aconteça! Eram mulheres índias, capitoas, exescravas, vitimas da inquisição, religiosas e escritoras. Vejamos algumas delas

Imagem: www.masterfile.com

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Madalena Caramuru - A primeira mulher letrada do Brasil

“perigo” que pudesse representar. Assim, Madalena entrou para a História como uma figura especial em muitas situações: A primeira mulher letrada do Brasil e, também a usar a escrita para denunciar práticas desumanas contra os indígenas a pedir a intervenção dos padres para minorar a situação; precursora na defesa dos direitos humanos nas terras recém descobertas inspiradora do primeiro projeto que propunha educar as mulheres brasileiras. Por incrível que pareça, outra mulher, de além-mar, o vetou... Depois de quase quinhentos anos, os Correios, em 2001, emitiram um selo em homenagem a Madalena - (R$ 0,55). Para saber mais: Costa, Hebe C. Boa-Viagem A. – Elas,, as pioneiras do Brasil – A memorável saga dessas mulheres _ Ed. Scortecci – SP -2005 Continua na próxima edição

Brasil, 1561. Saber ler e escrever era privilégio de uns poucos homens e, entre as mulheres, uma raridade. É com surpresa que o Padre Manuel da Nóbrega recebe carta de uma mulher pedindo que as crianças escravas, que se vêem separadas dos pais cativos, sem conhecerem Deus, sem falarem a nossa língua e reduzidas a esqueletos, fossem tratadas com dignidade. Ora, as mulheres nessa época eram mantidas em absoluta ignorância! Quem foi essa exceção? Madalena Caramuru, uma das filhas do náufrago português, Diogo Álvares Correia (Caramuru), casado com a índia tupinambá Paraguaçu. Esta, mais tarde, recebeu o nome cristão de Catarina do Brasil. Viviam no povoado de Salvador, Bahia. A infância de Madalena deve ter sido feliz, certamente mais de acordo com os costumes indígenas, sem a preocupação própria dos europeus de torná-la diferente do outro sexo. Tal como a mãe tornou-se cristã. Em 1534, Madalena se casou com Afonso Rodrigues, português de Óbidos, responsável por sua entrada no mundo das letras. Aproveitando os princípios religiosos e a escrita dos brancos procurou manifestar-se na defesa de seu povo. Não conseguiu ficar indiferente à escravização imposta aos indígenas. Daí o seu apelo ao padre Manuel da Nóbrega. A mensagem sensibilizou o padre que logo pensou na vantagem de também se educar a mulher. Entusiasmado, tentou criar oportunidades de alfabetização para as brasileiras e enviou, nesse sentido, um pedido de autorização à rainha Catarina de Bragança. Mas a metrópole portuguesa recusou a iniciativa, qualificando de “ousado” o projeto, pelo

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Saudade
Por José Hilton Rosa

Saudade do canto Saudade da prosa Do velho, sua maneira de ver Da preguiça no entardecer

Saudade da serenidade das pessoas Saudade da simplicidade Saudade de ver sem maldade Saudade de chorar por amor

Saudade de andar na noite Sentar na porta da casa onde moro Saudade de cantar para mim mesmo Saudade de sorrir e gargalhar

Saudade da fome após o cansaço do dia Do vento fresco no rosto suado Saudade da canção desconhecida Cantada pelas mães lavando a roupa do trabalho da família unida
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Saudade
Para meu marido Francisco Por Isabel C. S. Vargas Saudade do olhar Que encantou o meu Revelando imenso mar De desejos e incertezas Sobre o futuro na época incerto. Saudade dos sonhos Que com amor tornamos realidade Para viver em harmonia Comunhão total. Saudade do tempo Dos filhos pequenos Da longa estrada a percorrer. Sem medo dos imprevistos. Saudade de tua mão na minha A me apontar caminhos Que juntos percorremos. Saudade de tua companhia Do nosso amor... Saudade de ti Que trilhas novos caminhos Em outra dimensão.

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MAR DE SAUDADES
Jacqueline Aisenman

O mar inteiro encobre a saudade, águas de distância, movendo-se entre o que foi e o que será.

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Que saudade... Parece que foi ontem
Por Maria (Nilza) de Campos Lepre

Tenho que dizer, que os grãos de café eram torrados em casa, e muitas vezes eu mesmo ajudei nesta tarefa. Logo após serem torrados, os grãos eram passados por uma maquina tocada a mão onde eram moídos. O odor daquela cozinha que ficou perdida no passado, o clima de tranquilidade, paz, harmonia, e do amor que pairava no ar naqueles dias felizes, chegam até mim como uma cascata. Jorrando sem parar, inunda meu ser de uma paz divina. As recordações não param de verter, e a saudade crava suas garras em meu coração, e sem que perceba, as lagrimas me vêem aos olhos. Hoje em dia, meu lanche da manhã é bem diferente. Saio da cama apressada, pego o pacote de pó de café, comprado já moído e empacotado, coloco em uma máquina, e ai corro ao banheiro para fazer minha higiene pessoal. Quando retorno ele já esta pronto. Abro a geladeira, pego uma caixa de leite que já foi comprado ha dias. Coloco o em uma xícara, acrescento o café, e aí o esquento em um forno de micro ondas. A minha frente, a mesa se encontra preparada, com duas toalhinhas americanas. No centro, um pão de forma, e uma caixa de queijo cremoso. Raramente tenho tempo de saborear uma fruta ou mesmo um pedaço de bolo. São raras as vezes que me disponho a preparar algum. Como fico muito pouco em casa, as frutas acabam se estragando, por isso não as compro com frequência. Este é o meu café da manhã atual. Só agora começo a questionar a vida de minha mãe. Não deve ter sido nada fácil, cuidar de uma grande família, fazendo tudo com suas próprias mãos, e sempre conseguindo manter-nos unidos e felizes. Isso tudo, sem contar com a ajuda de nenhum recurso que hoje em dia temos, para aliviar nosso trabalho. (Segue)
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Hoje acordei nostálgica. Ao preparar o café da manhã, comecei a recordar meus tempos de menina. Retorno a época em que vivíamos na fazenda, este talvez tenha sido o melhor período de minha vida. Meus dias eram repletos de brincadeiras, não tinha qualquer preocupação com o futuro. Acreditava que o mundo seria sempre colorido e feliz. Nada de ruim poderia jamais me atingir, sentia-me protegida ao lado de meus pais e irmãos. Volta a minha memória, os antigos cafés de minha infância. Só então percebo o ridículo da situação. Não há termos de comparação com o que preparo hoje em dia. Nosso lanche era feito por mamãe com muito desvelo. A mesa estava sempre coberta por uma toalha branca com barrados geralmente em xadrez, vermelho ou azul. Esperando pela família, na mesa, havia sempre queijo fresco, feito por ela, bolo de fubá, bolo de coco, ou de mandioca, era o que eu mais gostava. Em vidros de boca larga sempre havia vários tipos de bolachas, também feitas em casa. A manteiga era batida na hora pela serviçal, pão acabado de ser assado, e uma grande jarra com leite recentemente ordenhado. Quando todos estavam acomodados em seus lugares, só aí ela trazia um grande bule com café acabado de ser coado. O odor que era desprendido dele inundava toda cozinha, era um aroma inebriante, e até agora continua presente em minha memória olfativa, e neste instante inunda meu ser de saudades.

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O tempo não retrocede, mas tudo que vivemos intensamente fica gravado em nosso ser para sempre. Quando menos esperamos o passado retorna e geralmente nos deixa nostálgicos. Esta minha volta ao passado me deixou com a sensação de que tudo se passou ha muito pouco tempo. Deixou a impressão de que parece que foi ontem que tudo aconteceu. Ah! A saudade machuca, mas quem consegue viver sem ela?

SUA FALTA
Por Lenival de Andrade Meu amor Preste bem atenção No que vou lhe dizer Dizer que ainda sinto sua falta Sua ausência me mata Me tira a paz E dilacera meu coração É uma saudade cortante Nada me satisfaz Sua presença era tudo pra mim Sinto uma saudade sem fim Perdê-la Para mim foi igual Ao doce que se tira de uma criança Não me conformo com o acontecido E vou ficando entristecido Por que fez isto comigo? Parece até que foi castigo E sinto que não merecia

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Dói não
Por Jan Bitencourt

pra que minha voz não denunciasse a tremedeira. Lá no topo ele me olhava bem de perto e perguntava se tava tudo bem, rindo e pedindo pra eu segurar firme. E eu aproveitava pra segurar mesmo. Um dia até cravei as unhas na cintura dele sem querer. – Dói não, ele disse sorrindo. Não sei o quanto durava a descida, mas tenho cada segundo desses colados em mim, mesmo 20 anos depois. O vento batia na cara e, junto com a adrenalina, trazia o cheiro de perfume de homem, carregado de hormônios adolescentes, desses poderosíssimos. Às vezes descíamos 2 ou 3 vezes seguidas a ladeira e voltávamos felizes e suados, com o coração à toda. Num dia dos namorados ele tocou a campainha do meu apartamento com uma flor nas mãos, dessas compradas, não arrancadas. Me deu uma idiotice tão grande que agradeci e taquei a porta na cara dele. Ele só podia estar de brincadeira com a minha cara. E foi assim, desatenta, que aprendi que a vida escorre da gente e despenca ladeira abaixo.

A maior ladeira do bairro era a da Rua Trabulsi. Maior ainda quando você tem 12 anos e está agarrada na garupa do Ricardinho, numa mobilete Caloi velha.

Nem se falava em capacete nos anos 80. A gente dançava punk rock com tênis de skatista feito menino, bebia keep cooler e assava batatas na ruinha que tinha em frente ao prédio. Nem por isso viramos um bando de bêbados e maloqueiros. Hoje quase todo mundo tem um emprego normal, vidinha besta e financeiramente estável, sonho de todo pai. Menos o Ricardinho. Enquanto todos os meninos da nossa idade eram mais baixos e extremamente magros, ele era mais gordinho e mais charmoso por conta de uns olhos verdes enormes e uma melancolia já quase adulta. Usava aparelho nos dentes, estudava no mesmo colégio de padres que eu e diziam que seu pai era dono do maior motel de São Paulo. Não era bom aluno, mas era descolado. O avesso de mim, filha de bancário e dona de casa, que usava óculos e vivia de blusão amarrado na cintura. Tinha muita menina bonita na nossa turma. Mas de vez em quando era eu que ele chamava pra descer a Trabulsi. Caxias que sou, me borrava de medo mas não perdia uma oportunidade. A gente ia conversando no caminho, a 10 por hora e eu tentava me controlar

No final de semana seguinte, Ricardinho sofreu um acidente de carro fatal voltando da balada com uns amigos do irmão mais velho, provavelmente bêbados. Não aguentei ir ao enterro, tirei a minha primeira nota vermelha no boletim e tive que vender a mobilete. Ainda hoje me pergunto onde dói essa saudade daquilo que a gente não deixou acontecer.

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SAUDADE INVASORA

Por Jô Mendonça Alcoforado A saudade invade o meu peito Toma conta do meu corpo Da minha cabeça Estoura minhas lembranças E vai-se embora, segue adiante. Não avisa quando vai voltar Nostalgia pura! Saudade má, imagética, nua, crua. Sem piedade, clama. Tira-me do eixo Sacode-se nos meus pensamentos Acordando-me para o reencontro Com os meus sentimentos Sensações boas e ruins Misturam-se Aprofundam-se Recebo a visita passageira da saudade como uma navalha cortante Levando para a morada das lembranças E continuo sentindo, saudade da saudade.

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SAUDADE – PARECE QUE FOI ONTEM
Por EstherRogessi

Amor... Estava a lembrar da noite em que a chuva, incessante, descia sobre a cidade transformando-a em sombria, e silenciosa... Dentro do carro eu ansiava por ver-te. Que saudade! Um final de semana – parecia uma eternidade – sem a tua presença, sem o teu olhar. Pensei: Felizmente, hoje é segunda-feira... Vou vê-lo! Quanta ansiedade! A chuva batia no para – brisa, dificultando-me a visão do que estava a minha frente... O cair dos pingos sobre o carro eram tais quais, as batidas do meu coração... Com grande esforço, curvei minha cabeça, para a direita – onde ficava a minha sala de aula – em uma tentativa de ver-te. Surgiste a minha frente, ou, melhor, frente ao meu carro. No teu rosto, de pele alva, e tão amado, contemplei um sorriso largo, de satisfação em ver que eu te procurava... Carregavas uma pilha de livros, até o pescoço... E, tentavas segurá-los com o queixo... Mesmo assim, em meio a toda dificuldade, equilibraste-os, e acenaste para mim - arriscando-te a vê-los ir ao chão... Abriste um sorriso largo, daqueles que ilumina, que permanece... Jamais pude esquecer! Pequenos gestos de amor, que nos acompanha por toda a vida... Há mulheres que se comprazem em joias e presentes caros. Para mim... Mui caríssimas são as lembranças dos gestos e ações espontâneas e verdadeiras. Essas, o ladrão não rouba, nem a ferrugem corrói... Doce acalanto... Que através do tempo alegra-me a alma.

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Choro a Saudade
Por Gaiô Genuíno, singular, Cada detalhe secular. Almas em busca de origem No eterno, no céu, no lá Num sei onde mora e aflora A poesia, Onde nasce o simples agora Vestido de antigos ares, Mares, de onde será? Esta imagem que emociona, De onde virá? Traz poética mensagem, Traz saudade de amar, Traz jardins, quintais, memórias, Tanta história que provoca. Ah! Se eu pudesse navegar! Teus palácios, tuas roças, Teus jardins medievais, Teus gravetos e palhoças, tuas rezas, Teus sorrisos, teus contextos, De pássaros, sonhos, minuetos, Cada asa que flutua, Cada gesto milenar. Falo de bênçãos, gratitudes, De tudo que aqui carrego Em gestualidade afetiva, Sou ninho, sou emotiva, Carrego comigo a vida. Choro e anseio a poesia Que sonora se derrama, Em chuva saudosa, magia.

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QUE VOLTEM OS AROMAS!
Por Juca Cavalcante

Eu não preciso de máquina do tempo pra voltar ao passado. Possuo um método bem particular e natural: os cheiros. Me bate uma saudade enorme quando alguns aromas me vêm à mente , e eu sei que, infelizmente, eles ficaram por lá, naquela infância distante, nunca mais vão voltar. Como na ocasião em que eu deixei de ir à padaria da esquina e tive permissão da minha mãe pra ir até o centro da cidadezinha buscar o pão. O cheiro da fumaça dos canos de descarga dos ônibus era uma espécie de carta de alforria, eu estava mais livre, podia ir além da fronteira do bairro, estava mais próximo de uma liberdade, supostamente maior, mas uma liberdade não tão doce assim. O cheiro do pão fresco, recém- saído do forno coroava essa pequena expedição. E o cheiro das maçãs? Isso! O verdadeiro cheiro das maçãs. Não esse cheiro de nada que se encontra hoje em dia nas maçãs empilhadas de qualquer jeito nos mercados atuais, pelo menos naqueles que costumo frequentar. Naquele tempo, quando ia com minha mãe ao mercado, só em botar os pés dentro do estabelecimento, o odor já chegava até onde eu estava. E ao entrar no setor de frutas o prazer era total. Aquelas frutas brilhosas, aromáticas, inebriantes, bem arrumadas em suas bancas, forradas naquele papel de seda fino e roxo, que absorvia totalmente o cheiro forte e cítrico daqueles símbolos do paraíso. Mais tarde, eu, como um Adão desvairado, depois de me fartar do fruto proibido, colocava sobre meu rosto os tais papéis, como se quisesse aprisionar para sempre o aroma em minha alma, como se ali estivesse a própria Eva. Não posso esquecer do cheiro dos gibis. O cheiro inconfundível do novo. Antes que eu penetrasse naquele reino lúdico, o cheiro me vinha, no mesmo instante em que o jornaleiro o pegava, na prateleira da banca, e o jogava para mim. Mais do que me esbaldar com as histórias contidas em seu interior, era aquele odor, que vinha do mesmo, que completava essa aventura tão minha, tão infantil, e agora, tão distante. Saudade. Eu quero tudo isso de volta. A fumaça dos canos, as maçãs, os gibis. Mas, aqueles, não os de agora. Eu preciso! Urgente! Agora! A liberdade mora lá. Ah! Saudade! Por que às vezes tem de ser tão dolorida?

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SAUDADE DA HISTÓRIA DESFEITA
Por Ivane Laurete Perotti

A calçada é fria Quero gritar. Sozinha, Sozinha, Eu vi... Eu vi...

Eu vi Sozinha aqui O sol levantou A lágrima rolou Queria gritar Não levantei Queria pedir Não via ninguém Senti o frio do medo E o medo do medo Queria pedir Não tinha lugar Ei vi O sol levantou Da calçada vazia Da lápide fria Eu vi Sozinha aqui Acreditei ser verdade O medo era escuro A fome era fria A calçada vazia Sozinha... Eu vi O mundo avançar Sozinha... Eu vi Outra criança chegar.

você passar! Eu vi você passar!

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Saudade Parece que foi ontem
Por Maria Socorro Sousa

Depois de uma ausência Escuridão vem Arquiva-me no vazio Nunca em teus sonhos Loucos Distorcidos Etiquetado pelo descarte reinado Saudade Parece que foi ontem Que eu beijei a noite Que acordei de um sono Onde prevalece a razão Afeto fenomenal do amor Preenche o vazio que mergulho Em todos os níveis Saudade Parece que foi ontem E hoje vivo tudo que sinto Amortecido pelos teus lábios Embebido com vinho Consumido o coração por ti Amor incorrigível Eu sinto saudade

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SAUDADE!!!
Por Maria Aparecida Felicori (Vó Fia) Sete letras formam uma palavra As vezes é palavra doce e outras não Saudade de um amor é fogo que lavra Se a saudade for de dor pode chorar irmão.

Apenas sete letrinhas que magoam um coração Saudade do namorado de infância Que a roda da vida levou sem compaixão Deixando aquele vazio aquela mágoa aquela ânsia. Saudade sem remédio de alguém Que sem retorno na morte embarcou Nessa dor que não se quer para ninguém Mas é como uma folha que o vento levou. A saudade faz parte da roda da vida E dela ninguém foge ninguém escapa Sentimos saudade de parentes amigos e da lida Choramos sofremos, mas sabemos que saudade não mata.

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PRESENTE CONTO PASSADO
Por Mirian Menezes de Oliveira O espetáculo mais intrigante, a que presenciei em minha vida (exagero!) ocorreu naquela maravilhosa noite de verão, quando paradoxalmente, estrelas e raios tomaram conta do céu. Ventava muito e aquilo me excitava... não pelo vento em si, mas pelo prenúncio de tempestade. Tempestades sempre me atraíram, intensamente. Além disso, o céu dividido era desculpa para a reflexão: de um lado, estrelas brilhavam...de outro, raios imensos cortavam a negritude. Não pude conter minha excitação: apaguei todas as luzes, finquei cotovelos na janela e olhei para o espaço tenebroso. Entrei, de corpo e alma, naquela tempestade não muito distante. Arrepiei-me com os desenhos formados no céu, sentindo-me pequenina, diante de tanta fúria.Tão pequenina, senti-me!... que fui capaz de recuar no tempo: naquele tempo, em que pai e avó estavam vivos, com todas as suas estrelas e raios. A avó me pegou no colo, com o carinho de quem estava prestes a morrer e precisava acertar contas com Deus. Mostrou todo seu amor naquele momento de perigo, apagando seu rosto sisudo, com abraços e beijos de conforto. Papai-relâmpago espalhou-se no céu e caiu em meu quarto, abraçando-me com a força, que nem sempre teve. Chorei...de tristeza e de amor, com duas pessoas em minha casa, confortando-me de algo que jamais me amedrontou. Raios cortavam o céu e assustavam os seres vivos, enquanto eu, amante das tempestades, morria de medo de perder aquelas imagens: fluidas e consistentes, contraditoriamente, belas. Chorei de medo... medo de perder as estrelas-tempestade! ¨Sente aqui em meu colo, neta! Você precisa de mim, nessa noite! ¨ Chorei nostalgicamente...Precisava!

Sim...sempre precisei! Mas não pela tempestade, que nunca me amedrontou. ¨Venha cá, filha! Estou com saudade de você! Venha cá! As horas difíceis aproximam a gente!¨ Queria meu pai em uma noite estrelada, abraçando-me com suavidade e sorriso no coração. Teve início a grande chuva ... aquela que lava a alma e eleva o nível de adrenalina. A Escola veio com um raio, trazendo consigo um oceano de contradições. Não sei quem veio primeiro, mas... aquela professora que tanto me agradava, por ser uma menina dócil (Eu não era tão dócil assim!...) aparecia em flashs de luz. Em determinados momentos, elogiava-me...em outros, pedia-me para guardar comigo tantas perguntas! Até certo ponto de minha vida, ousei até não poder mais! Perguntei muito e cheguei a escrever composições, fora dos padrões das cartilhas. A professora gostava de mim, mas unhava minha amiguinha! Jamais...(Essa palavra é muito forte!) esquecerei o dia em que minha amiga chorou, por se considerar burra. ¨Que é isso?! Tudo passou! Já faz tanto tempo! ¨ O vento levou as imagens paradoxais da professora, que eu estimava...Oh, noite esquisita! Naquele momento conflitante, em que o terror se instalou no céu, vi a escola em que estudei: bonita, pomposa, enorme...escola tradicionalíssima. Pela janela de meu quarto, vi o grande laboratório, com suas pipetas e tubos de ensaio, convidando-me para o mundo das ciências. Um dia, tive até vontade de ser cientista! Imaginem só! Eu, cientista! Bom... além do grande laboratório, enxerguei, através das gotas de chuva, naquele momento, mais serenas, o laboratório de redação, com uma grande mesa oval e quadros de Leonardo da Vinci. Que lembranças! Enquanto a chuva caía, visualizava a grande Escola, com seus pátios, jardins e cantinas... além da biblioteca. Ah, que biblioteca! Perdi-me naqueles livros! (Segue)

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Sempre fui a leitora mais assídua. Apaixonei-me, de tal forma, pelos livros que passei a encara-los como meus melhores amigos, tais como as últimas gotas de chuva, que começaram a cessar e dissiparam a imagem do prédio. Fim de chuva...Céu dividido! A noite permaneceu linda e contraditória! Antes de acender as luzes, quis ter uma última visão. Vi uma menina sensível e agitada, que, por algum motivo, se calou, mantendo acesos seus sonhos e ideais. De dentro da menina sonhadora, vislumbrei a adolescente inconformada, que se deleitava com os saberes transmitidos, mas não compreendia o desprezo e as injustiças. Vi, em última instância, o prédio perfeito e estruturado e os ótimos professores que tive; vi, no canto do pátio, um grupo esquisito e isolado. No meio de tanta perfeição, não havia lugar para meus colegas ranhentos e rotos, nem para meu amigo homossexual. O prédio partiu-se ao meio! Acendi as luzes! Eu, adulta e feliz, reconheci e contemplei as luzes, porque, um dia, vivi a escuridão.

RECEITAS ANTIGAS DA MAIZENA
Do blog receitas-roselirosa.blogspot.com

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ECOVOLUNTÁRIA

Alexandra Magalhães Zeiner

Terra - Planeta Água
Cerca de 4,6 bilhões de anos atrás o planeta Terra foi criado em conjunto com o nosso sistema solar. O nascimento dos oceanos, no planeta água, aconteceu durante o estágio da era do gelo cerca de 3, 5 bilhões de anos atrás. 71% do nosso planeta é coberta por água. A Terra é o único planeta em nosso sistema solar com água na superfície. Toda a história do planeta Terra está ligada aos oceanos e os primeiros sinais de vida surgiram da superfície de sedimentos do fundo do mar. A saúde dos nossos oceanos é fundamental para todas as formas de vida na Terra. São os Oceanos da Terra a principal fonte de água que atinge os continentes como chuva ou neve. A capacidade de calor elevado das águas faz com que nossos oceanos sejam um importante regulador do clima de todo planeta. É importante refletir sobre o fato de que 78% do corpo humano é composto de água. Os seres humanos são seres d’água. Nossa primeira adaptação, antes da chegada na Terra, por cerca de nove meses é no ventre da mãe. Nossas primeiras experiências e contato com o mundo está intimamente ligado a esse mundo interno d’água. Temos, dentro de nós, lagos, rios e oceanos de energia, quando estamos em equilíbrio com a natureza. No entanto, a saúde dos nossos mares e as fontes de água sofre ameaças de extinção em muitos lugares do planeta. Alguns seres humanos acreditam erroneamente que eles têm domínio sobre a natureza e podem explorar os recursos da natureza para sustentar um estilo de vida baseado somente no consumo. Como consequência água potável se tornou um recurso raro em várias regiões no mundo. Somos mesmo capazes de viver em harmonia com a natureza? E sobre o futuro de nossas águas? Ainda há esperança. Se podemos nos conectar com o elemento água que flui dentro de nós, que flui dentro do nosso planeta, isso já aumentará a consciência coletiva de que estamos para sempre unidos com a natureza. É chegada a hora de usar o nosso poder de transformar e apoiar o direito de todos os seres vivos a viverem em harmonia na Terra, Planeta Água.

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Sigo te amando
Por Elise Schiffer

Minhas lágrimas choraram e rolaram em seus olhos. Meus desejos pulsaram e ecoaram em seu corpo. Teus beijos molharam meus lábios enquanto tocavam outras bocas. Minhas mãos acariciavam seu corpo molhado com o suor de outros. Assim seguiu os dias, os anos e as décadas. Sonhei com a mulher que nunca vi em seus olhos. Amei seu corpo sem nunca tê-lo tocado. Curvado pelo tempo, hoje eu choro suas lágrimas. Toco no seu corpo frio com os desejos não realizados. Beijo sua boca vazia dos meus lábios. Sigo te amando...

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saudade
Por Cléo Reis Navego hoje pelo lago calmo do paraíso do amor contido Num doce flutuar de saudade e sonho Remo apenas no meu íntimo, numa solidão permanente, ensolarada de lilás e azul Tudo está à margem Só você , feito brisa, sopra no meu barco que sonhando desliza...

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Uma estrela no céu
Júlia Rego Quando vi aquela estrelinha brilhando no céu, tive certeza de que era você. Naquela noite, o céu estava especialmente estrelado, mas aquela luzinha, que piscava de forma intermitente para mim, era ainda mais especial e inconfundível. Você foi embora de uma forma estupidamente rápida e incompreensível. Não tivemos tempo para nos despedir, para trocarmos as confidências que alimentaram nossa convivência por tantos anos. Você não me contou dos seus medos diante da morte iminente, e com certeza você sabia que ela viria, talvez para não me fazer sofrer mais do que eu já sofria. Eu também não ousei admitir que você pudesse ir por medo de que fosse verdade, e nunca quis tocar nesse assunto que é quase um tabu para muita gente. Você estava indo para não mais voltar e eu não queria te perder, ainda que, agora, eu reconheça a necessidade de ter lhe dito algumas últimas palavras de amor que, com certeza, iriam fazer bem a sua alma. Mas, numa noite fria do mês de maio, mesmo contra a minha vontade, você se foi para sempre. Lembro que durante toda sua vida, e você viveu intensamente, os finais de semana eram dias de farra e foi, justamente, num desses que você se fechou em silêncio e foi festejar no céu. Sempre e em qualquer lugar, a morte foi, e é, motivo de reflexões e sentimentos diversos por parte do ser humano. Considerada como libertadora do espírito para uns, prêmio ou castigo para outros, ou cessação total da vida para tantos outros, a morte, seja como ela se apresente, causa uma cruel sensação, antes de tudo, de total impotência diante da falência de um corpo que vai, independente do que ainda se tinha para fazer. Alcançar a plenitude da aceitação é para os

fortes, para aqueles que se armaram de uma couraça invisível que os protege do bem e do mal, como uma mãe que se coloca diante do filho em perigo. Costumo concluir que quanto maior a convivência, maior a dor da ausência, independente dos laços de sangue que unem as pessoas. Nesse caso, sangue e afetividade caminharam juntos durante toda uma vida. Eu e minha irmã tínhamos uma convivência especial. Não nos víamos com frequência, mas nos falávamos quase todos os dias. Trocávamos confidências, fofocávamos, expúnhamos nossas angústias como mães, diante das preocupações com nossos filhos, aconselhando uma a outra numa rara cumplicidade fraterna. Nossas conversas duravam horas, e, sem nenhum exagero, a todo o momento tinha que revezar as mãos que ficavam dormentes de tanto segurar o telefone. Todos em casa se admiravam, entravam e saíam, dormiam e acordavam, e eu lá estava no telefone conversando com ela. Aliás, eu mais ouvia do que falava, já que sua maior característica era falar e, por sorte dela, a minha, ouvir. Identificamo-nos desde crianças, mesmo sendo ela alguns anos mais velha que eu. Sempre fora minha defensora em qualquer polêmica em que eu me envolvesse, ou em que me envolvessem sem eu saber. Chorava de saudades minhas quando, pequenina ainda, fui morar com uma tia. Cuidava de todos os irmãos mais novos e, em especial, de mim, em quem fazia, depois de me vestir que nem uma princesinha, inúmeros cachinhos nos meus cabelos rebeldes para me colocar sentadinha no parapeito da janela, enquanto eu esperava a sopa que ela mesma me faria tomar. Apesar da sua pouca idade, assumia as tarefas da casa como uma adulta. Sempre a ouvi dizer que fazias as vezes de mãe, enquanto a própria se enfeitava para ir ao cinema com nosso pai. E assim seguiu a vida inteira, trabalhando nos afazeres domésticos, boa dona de casa que era. (Segue)
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Nutria um amor incondicional e protetor pelas filhas, esquecendo-se de prepará-las para viver sem ela, numa admirável e ingênua superproteção que, às vezes, incomodava alguns. Mas afinal, qual mãe prepara os filhos para viver sem a presença materna... O nosso desejo é viver para sempre ao lado deles, cuidando, preocupando-se e pedindo a Deus que nada de ruim lhes aconteça até que possam caminhar com as próprias pernas, num estranho paradoxo que oscila entre o querer estar perto e o preferir morrer a ter que vê-los partir antes de nós. Mas o engraçado é que mãe nenhuma acha que os filhos podem caminhar com as próprias pernas. Com ela não foi diferente. Estou aprendendo a viver sem te ver, sem te ouvir, sem te abraçar, embora sinta sua presença em tudo que vejo, em tudo que ouço e em todos os que abraço. A saudade chicoteia as carnes e a alma o tempo inteiro, revirando as entranhas da “inaceitação “ da realidade. Olhei para o céu e a estrelinha continuava brilhando intensamente, mas agora eu tinha certeza de que, além do brilho, havia um sorriso me acenando com um amor infinito.

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LUPA CULTURAL
Por Rogério Araújo (Rofa)
Leitura virtual ou real?
Dizem que o mundo corre tanto que ninguém consegue acompanhar o seu ritmo. É uma grande verdade. Tudo voa mesmo. E o que dizer sobre a cultura nesta história toda? Será que “era virtual” tem colaborado ou prejudicado sua divulgação entre as pessoas, não importando classes sociais e povos pelo mundo afora? Podemos observar a popularização dos tablets, iphones, ipodes, etc. E com eles vêm os atualíssimos e-books, os “livros virtuais” que podem chegar aos milhares num único aparelho desses. Alguns mais conservadores irão dizer que jamais substituirão o livro novinho em folha e passar páginas por páginas para fazer sua leitura. Até mesmo para pegar no sono como fazem muitas pessoas. E será mesmo que um vai substituir o outro neste formato? Para o mercado editorial, o livro impresso pode estar com os dias contados. Tudo será “virtual” e não mais real, apalpando, cheirando, saboreando. Na verdade, passar as páginas pelo toque na tela também têm seus encantos. Existem milhares de sites que colocam disponível e-books gratuitos de obras de domínio público de autores renomados. E há sites de livrarias que disponibilizam os dois tipos, virtuais e físicos. Mas ainda acho que o preço do virtual é muito alto em relação ao impresso. É interessante ler um livro virtualmente. Talvez seja questão de acostumar com a ideia. Acompanhar a tecnologia é legal, mesmo que se equilibre entre os dois formatos. Eu, como escritor, até leio e-book, mas, para lançar um “livro virtual” ainda não decidi, mesmo que sinta até tentado em fazer isso. Imaginar manter num mesmo tablet, por exemplo, milhares de livros numa biblioteca virtual, ao invés de uma prateleira abarrotada de livros que enchem de poeira e acumulam até traças... Quando se deseja ler uma obra, basta “pegar” e ler. E ainda é possível marcar a página para não se perder, o que na edição impressa é comum. Talvez não seja possível marcar parte do texto. E, ainda assim, é interessante tentar a sua leitura neste método. Uma das preocupações dos autores é a cópia pirata de livros, ainda que virtualmente. Já imaginou ver sua obra navegando por aí pela mares da internet como se fosse livre? Seria o caos! Porém, por outro lado, o que mais importa não é a forma como a pessoa se dedicará à leitura, se virtual ou fisicamente, mas que realmente o faça. Só de imaginar que hoje e dia a criança praticamente já nasce sabendo tudo da tecnologia, muito mais que os pais e avós, não seria nada demais se estes gostarem de ler por esse método moderno, lendo livros na telinha de tablet. A cultura de cada um e a coletiva só tem a ganhar se o gosto pela leitura for despertado seja de que maneira for. Que todos leiam à vontade! E que venham livros e mais livros, físicos ou virtuais! Um forte abraço do Rofa!

* Escritor, jornalista, autor do livro “Mídia, bênção ou maldição?” (Quár*ca Premium), dentre par*cipações em diversas antologias no Brasil e exterior; vencedor de prêmios literários e culturais; membro de diverss academias literárias no Brasil e exterior. O que achou da coluna “Lupa Cultural” e deste texto? Contato direto: rofa.escritor@gmail.com
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As Escadas Flutuam no Tempo
Por Sid Summers
O caminho é composto Por cinco linhas de pedras alinhadas Que não chegam a dois metros e meio Ou talvez o ultrapasse um pouco. Sua extensão deve ser De uns 80 metros. Não é muito É curto Estreito E seria só um caminho Mais um caminho Uma ruela sem sentido Se eu não tivesse aqui dentro Essas recordações Esses anos compartilhados. Detalhes são revividos Na vívida memória A cada infinitésimo Fragmento de segundo Torturado pela eternidade De um recorte De verdade e de carinho No silencio das escadas Caminho outrora sorridente.

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Lembranças perdidas
Por Valquiria Imperiano

Queria querer Querer eu queria Esqueci de querer Esqueci que queria Queria lembrar Lembrei que esquecia Esquecia o presente Lembrei o passado Esqueci um tempo Esqueci onde ia Lembrei que amei mas esqueci o dia
Pinturas de Valquiria Imperiano

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SAUDADE & MEMÓRIA

Por Aldo Moraes

Há um olhar sobre mim Uma ponte Uma saudade Sombra apenas...

Foi se... E não deveria Não podia Não queria.

Que olhar, este? Que sinais nele se extingue? Que raça, Que genética irá nos traduzir? Olho para a chuva, que agora mesmo se desfez e enxergo suas digitais...

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SAUDADES
Por Gilma Limongi Batista

navam, Grandeza, alegria, sensibilidade, magia, arte, sim, presentes em cada toque do teu pincel ou registro da tua câmara medrosa, em teus gestos, palavras ou atitudes para com todos.

De noitinha, sábado de carnaval, ele, que nem carnavalesco era, desapareceu. Hoje, nem sei que dia é, a ausência dele parece insuportável. Brutal dor a enfrentar, impotente terror quase bíblico de nada para fazer ou providenciar, confronto com o moderno “mal du fin de sècle”. Afundada no inconsciente, no passado, não tenho alma nem calma, qualquer pouco de paz para raciocinar. Como sempre fizera, tentando racionalizar o incompreensível, agora só conseguia repetir: nada mais adianta. Só consigo chorar. Para onde teria partido minha capacidade de aceitar o inevitável, como término de uma era, etapa cumprida? Tem lua nascendo, crepúsculo friozinho em céu enrolado em nuvens roliças, tão arrumadinhas dão a impressão de terem sido pregadas com alfinetes, palmeiras, garças, lago, barquinhos... Seria um cenário do Gutinho? Tão fora de propósito toda essa perfeição. Se a pintasses ou fotografasses com tuas mãos trêmulas, então ficaria mais linda ainda, como tudo que provinha de ti. De mim, só esta descrição chapada, moldada em desespero. Rudemente verbal. Em vez de chorar de tanta saudade, resolvi falar contigo, meu irmão de sangue e de infinitas carências, nariz grande e cabelo oleoso por herança. Amigo, companheiro de infância, tentei te dar minha força, doar a energia de meu corpo, mente e fé. Mas isso não existe, querido - constatei, perdida. Restou a luta insana, guerra com derrota pré-determinada, da qual saí sem glória. Eu, que nunca fui boa perdedora, te perdi inexoravelmente. Atônita, tive que te ver ir embora - justo no carnaval. Voltei a te encontrar, agora, na presença da beleza. Compreendi que ela vai continuar a existir, a me fazer lembrar de ti, enquanto eu viver. Contigo, morte ou doença, não combi-

A arte era a única coisa em que acreditavas. Nela conseguias ver a ligação com a divindade. Ao expressa-la, fazias parte de uma casta de percepção superior que, em certos momentos tornam homens em quase deuses - os criadores, artistas. Embora sem entender, presenciei em muitas ocasiões, transformares em obras de arte a banal realidade do cotidiano, como aquele vaso esquecido no canto da mesa... Quando o medo e a solidão aumentarem, vou lembrar dos momentos compridos de longas conversas em nossas “casa velha” e “nova”, Manaus, nosso lugar. Também no “Castelinho”, sobradinho apertado, numa esquina da rua Lisboa, sempre a lotação esgotada de risos e felicidade (pessoas hospedandose ali , vindas de longe, em busca de fatias daquela nossa liberdade), na horrenda, gelada e tão amada São Paulo. Tomávamos sopas e chás para aquecer aqueles dias tão tipicamente paulistanos, esmaecidos, esquecidos das cores com as quais nós os coloríamos. (Segue)
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Havia até aquela amiga, comentando nossa sorte em sermos muitos irmãos (éramos oito. Agora somos só seis), tão unidos, causávamos inveja, tantos ombros para nos apoiar. Embora magro, fraquinho, sempre soube que o teu era o melhor e o mais forte. Ainda assim, sinto um leve consolo em supor que aquela frase tantas vezes repetida por nós ao teu redor - “calma, querido, estamos todos aqui”, te manteve vivo, mais que qualquer tratamento, como teu maior remédio, enquanto e até onde pudeste suportar. Algum dia vou parar de chorar, eu te prometo. Só imaginar que na casa dos meus sonhos aquela que irias desenhar e me presentear - bem na beira do nosso rio, essa lua do cerrado vai chegar, atravessar a água, mudar o negrume num rastro para o infinito todo dourado. Ou prateado, ou azulado? Que cor ficaria melhor para pintar esta beleza, Gutinho? Dói demais saber que, de agora em diante, serei obrigada a escolher sozinha a cor da beleza que tantas vezes decidiste por mim. Tu vais abrir a porta e vamos, todos juntos novamente, passear por esse caminho, falar sobre tantos sonhos não realizados, tanta coisa, tanta coisa ainda havia para dizer, contar, discutir. De mãos dadas, como gostavas, vestindo fantasias infantis - eu de bahiana e tu de pierrô, brincaremos nos bailes do Rio Negro Clube e do Teatro Municipal; poderemos até acabar de assistir a última parte (pela milésima vez) de “Assim Caminha a Humanidade”, nem deu tempo da última vez... Jamais imaginei que a beleza pudesse doer. Não quero chorar. Vou publicar minha dor em rabiscos desesperados. Iludir-me que se muitos os lessem, ela poderia estilharçar-se, espalhando -se. Assim eu dividiria tanto e com tantos, viraria papel picado, confetes, serpentinas, restos de festa que jogam no lixo ou no rio. Talvez fosse embora junto, se afogasse, sumisse. Então, para conviver, restar-me-ia apenas a lua, a tua lembrança nessa beleza. In memoriam.

*Texto originalmente publicado em “A Crítica”, Manaus, 15 de dezembro de 1993.

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SOU SAUDADE
Por Anna Back Quero falar de saudade, Pendurá-la no papel! Para isso vou me lançar, Mergulhar no fundo da alma Para trazer à tona, entre outras, Tanta dor, tanta amargura... Mas também saudade boa, Pessoas, fatos e feitos, Que marcam a vida da gente E que ficam assim, sutilmente, Morando dentro do peito! Alguma saudade está presa, Para de lá jamais sair. Recordá-la, libertá-la, é algo atroz. Trazemos em nós, bem lá no fundo, Algo tão nosso, marcante e tão profundo, Que expô-lo não é conveniente... Pois sempre dentro da gente, Há saudades e saudades! Saudade triste, sentida, Do que fomos, quem e o que tivemos, Ao caminhar de nossas vidas... Pai, mãe, irmãos e amigos, Cuja partida, lacunas abriram... Feridas expostas, incuráveis, Sentimentos nossos, imensuráveis, Os ganhamos, amamos e um dia, partiram. Saudade boa, para ser dividida, Nas conversas, nos reencontros. Com quem conosco viveu algo belo!

Sorriso aberto, recordação, acolhida... Para o que nos fez bem à vida. Fatos da infância, de pura magia, Momentos na escola, dúvida, euforia... Pessoas que estiveram em nossa vida, Com as quais estabelecemos relação, criamos elos. Amigos, sempre presentes... Em todos os estágios, períodos, etapas. Somando experiências, conhecimentos, Trabalho, momentos de descontração. Moldando-nos em saudade, também! Anjos que por nós foram escolhidos Ou com os quais em certo dia, esbarramos, Em encontros bons de alegria, festas e datas, Recordá-los é, prazerosamente, reviver, amém! Assim, sou saudade também! Matéria e espírito, condensados. Sentimentos soltos ou enclausurados, Sou saudade boa ou má, na alma encravada. Qual pedra preciosa em diadema lapidada, Sou pessoa, sou ser mortal, Em cujo âmago há saudades e saudades!...

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Saudade
Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva) Saudade dentro do peito É qual fogo de monturo Por fora tudo perfeito, Por dentro fazendo furo. Há dor que mata a pessoa Sem dó e sem piedade, Porém não há dor que doa Como a dor de uma saudade. Saudade é um aperreio Pra quem na vida gozou, É um grande saco cheio Daquilo que já passou. Saudade é canto magoado No coração de quem sente É como a voz do passado Ecoando no presente. A saudade é jardineira Que planta em peito qualquer Quando ela planta cegueira No coração da mulher, Fica tal qual a frieira Quanto mais coça mais quer.

Patativa do Assaré era o nome artístico (pseudônimo) de Antônio Gonçalves da Silva. Nasceu em 5 de março de 1909, na cidade de Assaré (estado do Ceará). Foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Vida e obras Dedicou sua vida a produção de cultura popular (voltada para o povo marginalizado e oprimido do sertão nordestino). Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como compositor, improvisador e poeta. Produziu também literatura de cordel, porém nunca se considerou um cordelista. Sua vida na infância foi marcada por momentos difíceis. Nasceu numa família de agricultores pobres e perdeu a visão de um olho. O pai morreu quando tinha oito anos de idade. A partir deste momento começou a trabalhar na roça para ajudar no sustento da família. Foi estudar numa escola local com doze anos de idade, porém ficou poucos meses nos bancos escolares. Nesta época, começou a escrever seus próprios versos e pequenos textos. Ganhou da mãe uma pequena viola aos dezesseis anos de idade. Muito feliz, passou a escrever e cantar repentes e se apresentar em pequenas festas da cidade. Ganhou o apelido de Patativa, uma alusão ao pássaro de lindo canto, quando tinha vinte anos de idade. Nesta época, começou a viajar por algumas cidades nordestinas para se apresentou como violeiro. Cantou também diversas vezes na rádio Araripe. No ano de 1956, escreveu seu primeiro livro de poesias “Inspiração Nordestina”. Com muita criatividade, retratou aspectos culturais importantes do homem simples do Nordeste. Após este livro, escreveu outros que também fizeram muito sucesso. Ganhou vários prêmios e títulos por suas obras. Patativa do Assaré faleceu no dia 8 de julho de 2002 em sua cidade natal.

Fonte biografia: h(p://www.suapesquisa.com/
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