6 editorial

Aruanda, jubileu de ouro de uma obra-prima

A

ruanda, de Linduarte Noronha, entrou para a história. Não só da Paraíba, onde se tornou referência decisiva às gerações posteriores que fizeram cinema aqui. Em todo Brasil também. Ninguém menos que Glauber Rocha, mentor e líder do Cinema Novo, deu ao filme paraibano o crédito devido. A fotografia estourada que revelava ao restante do Brasil uma realidade dura, serviu de régua e compasso aos que se aventuraram a fazer cinema em tempos de uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. No ano em que o filme completa o seu aniversário de 50 anos, apresentamos aos leitores do Correio das Artes, uma longa e inédita entrevista com Linduarte, concedida aos pesquisadores Vinicius Navarro e Fernando Trevas Falcone, em 1989.

No ano em que o filme completa o seu aniversário de 50 anos, apresentamos uma longa e inédita entrevista com o diretor Linduarte Noronha
A nova geração da literatura paraibana também comparece. O jovem poeta Daniel Sampaio exercita o ofício da tradução em “A Bela Toilet”, versão sua de um poema do norte-americano Ezra Pound. O também jovem Tiago Germano marca sua presença nesta edição. Analisa as ligações entre o seriado de televisão “Dexter” e o romance de Dostoiévski, Crime e Castigo. Curiosamente, o tema do

regionalismo foi motivo de uma dupla reflexão. Uma, mais abrangente sobre o assunto, feita pelo colunista Hildeberto Barbosa Filho e outra mais verticalizada, da professora Moema Selma D’Andrea, que se detém no exame dos contos do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito. Uma boa surpresa nos é revelada por Ronaldo Cagiano. Ele discorre sobre o romance Deus de Caim, do não muito conhecido Ricardo Guilherme Dicke. Quem também traz outro surpreendente autor é Luís Felipe Cristóvão. No dossiê sobre a literatura contemporânea portuguesa, tomamos conhecimento de um grande poeta, Jorge Melícias. Duas estreias completam a edição de setembro. Do escritor baiano Edson Cruz, nosso novo colunista, que escreverá sobre as relações entre internet e literatura. A segunda novidade diz respeito à poesia. A cada edição, pediremos aos próprios poetas que escolham seus textos preferidos. Quem dá início à série é Sérgio de Castro Pinto.

6 índice

,
CONTO

24 @

MÚSICA
A ginga malandra de

30 D

CINEMA

33 2

CORDEL

40

Um dos mais importantes ficcionistas atuais, o escritor Pedro Salgueiro publica um conto inédito, “O Jogo de Damas”

O novo filme da diretor Jane Campion, Brilho de Uma

Um inusitado encontro entre os poetas populares Zé Limeira e Patativa do Assaré em um folheto é analisado pelo pesquisador Gilberto de Lucena

Moreira da Silva, o Kid Morengueira, é o tema da coluna do poeta e professor Amador Ribeiro Neto

Paixão, é o objeto de
análise do crítico de cinema João Batista de Brito

Suplemento mensal do jornal A UNIÃO, não pode ser vendido separadamente
A União Superintendência de Imprensa e Editora BR-101 - Km 3 - CEP 58.082-010 - Distrito Industrial João Pessoa - PB PABX: (0xx83) 3218-6500 - FAX: 3218-6510 Redação: 3218-6511/3218-6512
Secretária Est. de Comunicação Institucional LENA GUIMARÃES Superintendente NELSON COELHO DA SILVA Diretor Administrativo CRISTIANO MACHADO Diretor Técnico WELLINGTON AGUIAR Diretor de Operações MILTON NÓBREGA Editor Geral SÍLVO OSIAS Editor do Correio das Artes ASTIER BASÍLIO Supervisor Gráfico PAULO SÉRGIO DE AZEVEDO Editoração ULISSES DEMÉTRIO Ilustração TÔNIO Arte e montagem da Capa ULISSES DEMÉTRIO Revisão ANTÔNIO MORAES

ISSN 1984-7335 e d it o r . c o r r e io d a s a r t e s @ g m a il . c om http://www.auniao.pb.gov.br

6 eu

indico
Santa Joana dos Matadouros
Um crítico do teatro disse certa vez que Brecht “ofusca tudo ao seu redor”. Nada mais correto para ilustrar meu primeiro contato com sua Santa Joana. Para mim, o teatro jamais foi o mesmo depois de deparar-me com a ingênua Joana nas fábricas de carne enlatada e em meio ao (atualíssimo) jogo especulativo do mercado financeiro.

A Banda (The Band's Visit)
Vi esse filme quando estava estudando cinema em Nova York, e esse filme foi passado na academia para mostrar uma outra forma de contar uma história. O filme foi indicado para melhor filme de língua estrangeira, mas como ele é falado 75% em inglês foi desclassificado. O filme tem uma boa fotografia e uma excelente história. Uma das cenas memoráveis do filme é quando um integrante da banda ajuda como cupido a um garoto da cidade. Vale a dica!

Paulo Bio de Toledo crítico de teatro da revista Bacante

Rizemberg Felipe fotógrafo

6 do

leitor
André Ricardo Aguiar - poeta/ PB

Excelente a edição, principalmente a tradução de Marianne Moore. Parabéns pelo Correio, transbordante de matérias suculentas, um verdadeiro banquete intelectual.
Ivo Barroso - poeta e tradutor/ RJ

Recebi a revista, ficou uma beleza! Vou ler com mais atenção e te falo.
Ruy Castro - escritor/ RJ

6 lançamentos

Diário do Hospício e o Cemitério dos Vivos
Este volume reúne duas obras de Lima Barreto, Diário do Hospício e o romance inacabado O cemitério dos vivos. O primeiro é um documento da internação do escritor, entre o natal de 1919 e fevereiro de 1920, no Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro. O segundo enfrenta, em chave ficcional, a experiência da loucura, narrada no primeiro. Publicados postumamente, funcionam como vasos comunicantes. Esta nova edição conta com um prefácio do crítico Alfredo Bosi. (Cosac Naify, R$ 55 352 pág)

Sublime Obsessão
Na pequena Brightwood, o milionário playboy Bob Merrick sofre um acidente com seu barco de corrida. O grupo de salvamento o ressuscita com um equipamento que, por isso, não pode ser usado para salvar a vida de um herói local, o Dr. Wayne Phillips. Dias depois, já no hospital, Merrick conhece a viúva de Phillips, Helen, por quem se apaixona perdidamente. É o início de um romance que mudará a vida dos dois para sempre.Baseado no livro homônimo de Lloyd Douglas, Sublime Obsessão (1954, Douglas Sirk) levou Rock Hudson ao estrelato. (Versátil Home Vídeo, R$ 54, 40)

Buddy Guy & Junior Wells Play the Blues
Buddy Guy e Junior Wells protagonizaram uma das mais talentosas duplas do blues. Este álbum foi conturbado. Eric Clapton, Ahmet Ertegun, e Tom Dowd só conseguiram gravar oito faixas em uma série de sessões em 1970 em Miami, dois anos depois, a banda J. Geils foi trazida para gravar as duas músicas adicionais que completam o LP para o lançamento super atrasado em 1972. O disco duplo mostra Buddy Guy deslumbrante com o revival de "T-Bone Shuffle" e Junior Wells brilhante em "Sonny Boy's My Baby She Left Me" (Warner, R$ 39,20)

4 | João Pessoa, setembro de 2010

A UNIÃO

Reflexões
de um crítico-realizador

E
6

m entrevista concedida em junho de 1989, Linduarte Noronha fala do seu ofício de crítico de cinema, exercido diariamente nas páginas de A União entre 1956 e 1967, e da repercussão de Aruanda na Paraíba e no Brasil. Ele lembra como o golpe militar de 1964 afetou o jornalismo e a produção cultural no Estado e faz a defesa do documentário. A entrevista, inédita, foi concedida a Fernando Trevas Falcone e Vinícius Navarro

O ambiente cultural da Paraíba no início dos anos 60 parecia instigante: havia a Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba (ACCP), o cineclubismo. Gostaria que você descrevesse João Pessoa em 1960, quando você foi rodar Aruanda na Serra do Talhado. O instigante que você fala era mais um ambiente talvez voltado 90% às letras provincianas. Aqui em João Pessoa, como qualquer província deste porte, cinema era tabu. Fazer cinema era loucura. A não ser aquelas loucuras de Walfredo Rodriguez nos c
João Pessoa, setembro de 2010 | 5

A UNIÃO

entrevista

Havia blagues nos jornais. o Mangue. Eu não posso negar. do Rio Sanhauá. Há uma coisa incrível nesses rios. como vocês sabem. Eu nem havia começado o filme. Como característica cinematográfica foi a crítica. que eles desconheciam. O cineasta Alberto Cavalcanti. Mas o documentário Mangue que eu pensava era uma análise sobre a Região Ribeirinha. Isso tudo roteirizado por mim.c ano 20 e 30.. Era um núcleo. um jornal disse que eu havia retornado cineasta. principalmente poesia. a minha geração foi profundamente influenciada pelo Gilberto Freyre. Quais eram as perspectivas da produção cinematográfica em 1960. O problema cinematográfico na época surgiu. o reitor da Universidade Federal da Paraíba.. diga6 | João Pessoa. A partir daí. no tempo em que estávamos realizando Aruanda em Santa Luzia. que é o chamado mascate. Era uma predominância dos anos 50 que chegava ainda. Predominava a crítica literária. inclusive com suas conotações socioeconômicas. Mário Moacyr Porto. EM SANTA LUZIA. José Lins do Rego. Ele alugou uma sala na Rua Duque de . dentro do argumento nosso. O mundo intelectual ficou ressentido com a perspectiva que o cinema dava. um complexo primitivo dentro da região. primeiro foi Aruanda e em 1962 a gente fez Cajueiro Nordestino. Quando eu fui ao Rio pegar o equipamento do INCE para realizar Aruanda. houve até notícias desairosas. do Rio Paraíba. O indivíduo saía numa canoa vendendo à prestação para quem morava nos rios. Parece-me que a imprensa superestimava o cinema paraibano. a ponto de sair para a Serra do Talhado e realizar Aruanda ? Bem. para implantar o Serviço de Cinema Universitário. encampou nosso trabalho. não tinha nada que ver com aquilo e tinha. tinha também. não. O cinema tinha problemas seriíssimos. Aí. Qual a relação do Mangue com Os Homens do Carangueijo. Graciliano Ramos” Caxias (centro de João Pessoa). da crítica cinematográfica.. por que jamais quem escrevia sobre cinema aqui admitia ou sonhava que um dia pudesse entrar para a realização cinematográfica. quando você. setembro de 2010 “Eu não posso negar. em termos de realização. Aquilo era quase um elemento ilustrativo. José Lins do Rego. Tinha um altíssimo nível cultural. da crônica cinematográfica. A União tinha rodapé sobre crítica literária. com a criação do Serviço de Cinema Universitário. O Correio das Artes que foi fundado em 1949. Eu já tinha feito Aruanda e Cajueiro e o próximo projeto seria Mangue. CENA DE ARUANDA. Este Serviço foi o núcleo do atual Departamento de Comunicação da UFPB. c A UNIÃO mos.. Tudo se resolvia em torno do jornalismo e da literatura. a minha geração foi profundamente influenciada pelo Gilberto Freyre. foi ousado. FILMADO NA SERRA DO TALHADO. Ele foi cassado? Eu não sei como não foi fuzilado. do Ipojuca Pontes? Bem. Mas. Graciliano Ramos. ele tomou uma dimensão dentro do jornalismo. E vocês sabem que a realização de um filme não é como escrever um poema. que não sei se ainda existe. INTERIOR PARAIBANO De que maneira o Ciclo de Cinema Paraibano influenciou a crítica local? Houve um impacto tremendo. Totalmente.

que nunca foi usado. em ganhar milhões de dólares. DE GILBERTO FREYRE (FOTO) Quando terminou o filme. O que aconteceu com esse projeto? Em 1964 prenderam todo mundo. O velho Gil- berto. Isso deu o maior bolo. chamando de cabotino. Não se podia escrever o que se queria. por uma firma chamada Artecomércio.. Eu dizia que a Universidade no meio não dava certo. A gente ia filmar Nordeste. Quando estourou o troço disseram que eu era amigo do Kruschev.isso não me interessa. setembro de 2010 | 7 . De maneira nenhuma. Não em torno de aplauso. Qualquer filme de tendência política era rigorosamente proibido.Tenho a imc João Pessoa. O Gagarin filmou a Terra com uma câmera igual. Você era o responsável pelo Serviço? Era.botaram ele numa fogueira. a censura controlava tudo.c Cavalcanti. pensando em Hollywood. reacionário . O pessoal da Líder disse que a câmera era excelente. Como nasceu essa ideia de fazer o Serviço de Cinema Universitário? Foi o próprio reitor. o Palácio da Cultura. uma Konvac. meteram o cassete e jogaram fora todo o equipamento que a Universidade tinha comprado. já era para filmar Mangue ? Perfeitamente. A Universidade comprou um equipamento profissional. que vivia na União Soviética. Fui designado pelo reitor Mário Moacyr Porto. O que me interessa em Gilberto Freyre é a primeira parte da obra dele: Casa Grande e Senzala . Não existe nenhuma referência à situação política do Brasil depois de 64 na crítica de cinema.. Os filmes do Leste Europeu nem se fala.. Nordeste. Você chegou a rodar Mangue ? Não. Como a passagem para a realização em 1960. Foi comprada no Rio. botaram todo mundo para fora. Dentro das redações dos jornais. com todos os defeitos dos últimos anos da vida de Gilberto . Foi a insistência dele em fazer o Serviço de Cinema. Com Aruanda e Cajueiro. Foi uma frustração terrível a extinção da coisa. modifica a sua visão de crítico em relação ao cinema brasileiro? Foi a reação da crítica carioca em relação à Aruanda . Foi cassado em 1964? A câmera russa que você comprou no Rio de Janeiro. Mas ele foi insistente. LINDUARTE NORONHA PENSOU EM LEVAR AO CINEMA A OBRA NORDESTE. mas em torno de uma coisa que eles estavam vendo pela primeira vez em Oscar. dentro deste núcleo que a Universidade encampou.. E acabou prejudicado por isso. Por causa desse equipamento soviético. Qual foi o destino do Serviço de Cinema Universitário? Foi extinto e jogaram todo o equipamento no porão. ainda estava no roteiro.. A turma que estava chateada porque queria fazer cinema de todo jeito. O grande interesse nosso era filmar Nordeste.. Por que isso? Ah! Era rigorosamente censurado. A UNIÃO Foi uma cassação branca. O Mangue seria uma produção da Universidade? Sim. Sobrados e Mocambos. A primeira exibição do filme no Rio não foi comercial. Essa câmera soviética foi comprada pela Universidade através de licitação. Foi uma exibição no auditório do antigo MEC. aproveitou-se da época... nessas besteiras. Fiquei chocado no bom sentido. foi uma coisa que eu até hoje não consigo descrever.

Como você explica Aruanda ter surgido na Paraíba. Cheguei lá. setembro de 2010 . noutra estrutura intelectual. É a imagem.. Você vê Villa-Lobos com “Oh Mana Deixa Eu Ir” tocada por Barbosa ou Artur Moreira Lima. mas em torno de uma coisa que eles estavam vendo pela primeira vez. mas a imagem é outra. A música de Villa-Lobos é quase toda baseada em nosso romanceiro popular. mas que se procurasse um cinema autêntico. um Estado sem tradição cinematográfica e ter tido essa repercussão? Isso é difícil de explicar. Ele acha que Aruanda esquematizou uma realidade. Ele dizia: "Tá tudo lá. não é isso que eu quero chegar de maneira nenhuma. Romeiros da Guia serviram como uma espécie de guia ao pessoal do Sul Zé Lins. E eu achava que só o documentário poderia seguir essa trilha. Esse documentário nordestino . realizada em São Paulo. como as obras do século 16. Mas é dentro dessa explo c A UNIÃO 8 | João Pessoa. e o impacto foi grande. foi Antonio Houaiss. abriu uma perspectiva. Fogo Morto. eu não sabia. Ele abria uma nova perspectiva em torno da realidade nossa. pelo menos sulista. rapaz. Em 1960 Aruanda provocou impacto na "Primeira Convenção da Crítica Cinematográfica". Uma vez ele me disse que o verdadeiro cinema está lá no Nordeste. Eu achava que o caminho era esse. Ele era im- pressionado com a feira de Santa Luzia. sem fazer autoelogio a um trabalho nosso. a alta crítica estava lá. Vladimir (Carvalho) tá fazendo o quê? Vladimir é o documentário na perspectiva nordestina. lá no Rio. isso dito por Paulo Emílio é um negócio muito sério. foi uma coisa que eu até hoje não consigo descrever. o encontro de Linduarte com Glauber não foi fortuito. Tá tudo lá". em função de uma antropologia. Quando terminou o filme.pressão que o Aruanda. Romeiros da Guia. Ele disse que Aruanda e Barravento . Taí o livro de Paulo Emílio Salles Gomes. Foi uma verdadeira explosão. Foi aí que eu parti para aquilo que a obra de Gilberto dizia. lá no Rio: "Mas é danado. Para mim Aruanda. Cajuc eiro. os filmes de Paulo Gil. muita coisa nordestina. que houve em 1960. que não conhecia absolutamente nada. os filmes de João Ramiro e Vladimir serviram para a mentalidade. Nelson. Ele dizia.. Mandacaru Vermelho já é Nordeste. Zé Lins.e eu quero incluir Vladimir e os outros . O documentário deveria ter seguido essa trilha. que é um grande estudioso da nossa língua. quando ele começa a falar da Primeira Convenção da Crítica. DISSE: “VERDADEIRO CINEMA ESTÁ NO NORDESTE” Quem me chamou a atenção para isso foi Antonio Houaiss: Aruanda.. talvez Aruanda seja um manifesto cinematográfico e cultural brasileiro. não. de um país do qual participam. fiquei apavorado. Villa-Lobos.. serviram como uma espécie de guia para o pessoal do Sul. Mas acontece que ela está noutra conotação cultural. pelo menos deixando de lado os que quisessem fazer a ficção. A gente fala de Mário de Andrade. anos depois. Não em torno de aplauso. Não quero me comparar a esses escritores. mas não conhecem. Aqueles pífanos tocando. com Vidas Secas. Cajueiro. Você vê que a turma do Rio correu aqui para fazer o quê? NELSON PEREIRA. O cinema. No Rio de Janeiro. não é (Thomas) Farkas? Ninguém pode sair daquilo". DE VIDAS SECAS (FOTO). Ora. E daí que partindo da sua pergunta.está dentro de uma perspectiva como a literatura nordestina: Graciliano. esse cara faz uns negócios que ninguém mais pode dizer nada. Parece que na época havia a discussão sobre o que deveria ser o cinema brasileiro e Aruanda veio responder a essa indagação. Hoje é que eu estou notando isso. de uma sociologia. Taí Menino de Engenho. Quem me chamou a atenção para isso.

setembro de 2010 | 9 Parece uma arrogância dizer isso. Belo Horizonte e João Pessoa em torno do posicionamento crítico” muito conectados. se é que se pode falar de pólos: Porto Alegre. era um programa de altas discussões. Qual foi o resultado? Palma de Ouro. mas sim um filme hípico. mas eu acho que não. Você vê isso em quase todos os trabalhos teatrais. “Eu vejo três pólos muito conectados. Antes teve a Revista de Cinema. a briga entre o produtor Jarbas Barbosa e Ruy Guerra. se é que se pode falar de pólos: Porto Alegre. comparando cinema e literatura. Minas Gerais e Paraíba. Nouvelle Vague. E GANHOU A PALMA DE OURO PAGADOR DE PROMESSAS c são. porque houve uma sintonia de três Estados em relação ao A UNIÃO O Elísio Valverde e outras pessoas. com o advento dos documentários... A turma correu para cá. Eu vejo três pólos . posicionamento crítico: Rio Grande do Sul. você afirma que no Brasil não se c João Pessoa. O paulista Trigueirinho Neto foi para a Bahia fazer Bahia de Todos os Santos. que fazia chanchada. Estive revendo um número da RCC e eles davam muita atenção a Europa. Rio Grande do Sul era (Humberto) Didonet. ou de qualquer diretor francês que era monstro sagrado. A gente aqui com Filmagem (revista editada pelo Cineclube de João Pessoa em 1956) .NORDESTE ATRAIU “A TURMA” DE FORA. Os grandes temas do cinema brasileiro têm uma perspectiva nordestina. Belo Horizonte surgiu com a Revista de Cultura Cinematográfica (RCC). Nos anos 60 você volta a isso. QUE FAZIA CHANCHADA. que já era sagrado. Um Anselmo Duarte. a influência dessa crítica era mais o cinema europeu. Havia uma grande preocupação com o cinema europeu. você usa o termo autor. só tinha cavalo (risos). Humberto Mauro me disse que o filme não era um épico. se existe alguma influência do Sudeste. Belo Horizonte e João Pessoa em torno do posicionamento crítico. quando você fala de Os Fuzis . O filme é Nordeste. Taí Ariano Suassuna. principalmente França. Nouvelle Vague. Paulo Thiago veio fazer Batalha dos Guararapes . Acontece que ainda nos anos 60. dessa visão da realida- de nacional. paulista. COMO ANSELMO DUARTE.. Um filme de Renoir que chegasse aqui. cinematográficos e literários. Cinema Novo. Queria que você dimensionasse a originalidade da crítica paraibana. E a Bergman.. faz O Pagador de Promessas. Ainda no final dos anos 50.

Eles me cansam. por ser um filme sobre negros.. A morte do Glauber (Rocha).respeita o autor do filme. de 1968. sob todos os aspectos. você foi o único a permanecer na Paraíba. Queria continuar a fazer aqui documentário nordestino. que isso é o pior. Havia essa influência cultural europeia. Então esse conceito de autor vem dessa vertente europeia? Não tenha dúvida disso. Sinceramente havia uma grande influência da cultura francesa. Os preparativos dos anos 60. o que não foi possível” Talvez porque eu não seja ligado aos grandes centros. O BRASIL FOI UM PAÍS ESTRANGULADO E GLAUBER ROCHA UM ASSASSINADO CULTURALMENTE “Se eu fosse para o Rio ou São Paulo ia tentar fazer filmes urbanos. Queria continuar a fazer aqui documentário nordestino. O problema cultural de um país. A morte de certas pessoas de cinema.. I *FERNANDO TREVAS FALCONE É AUTOR DA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO A CRÍTICA PARAIBANA E O CINEMA BRASILEIRO ANOS 50-60. Ele foi assassinado culturalmente. setembro de 2010 mente ocorreu. Isso faz parte do nosso atavismo. Embora isto aqui esteja se transformando num saco. Já estaria amadurecido o negócio. O atavismo colonial no Brasil é impressionante. Talvez tenha sido isso. Eles não aceitam. Dos cineastas paraibanos. mataram. realizando filmes. desprezavam Aruanda . no Sul do país. Muitas pessoas. Você vê o manifesto que saiu no Jornal do Brasil em dezembro do ano passado (1988). não só no cinema. Os caras proibiram. botaram para fora. eles encontraram embaraços seriíssimos aqui. como diz o matuto. O Brasil foi um país estrangulado. menos na Paraíba. pelo que você escreveu. havia. mas em tudo. A cultura brasileira foi destruída. dá margem a esse tipo de comentário. Vladimir e Manfredo Caldas assinaram. Eu não queria fazer isso. Em 1968 você defende a permanência no Nordeste dos homens que possam contribuir para o engradecimento da cultura nordestina. São Paulo. já quero voltar. Um problema meramente pessoal. E o pessoal "correu para fora".. A UNIÃO . Isso vai ser difícil de refazer. eu estou de pleno acordo. Eu não queria fazer isso. Se eu fosse para o Rio ou São Paulo ia tentar fazer filmes urbanos.. principalmente na economia e política. de coisa sufocante. Eu acho que o nível cultural brasileiro precisa de um tempo para se revitalizar. prenderam. Não gosto do gigantismo. o que não foi possível com essa proibição que houve. O que se refletiu em tudo. A Nouvelle Vague. Criaram a grande indústria do medo. não. A indusc trialização estaria contra o autor? Um filme de Bergman é dele. Rio. VINÍCIUS NAVARRO É PESQUISADOR PARAIBANO. e que morreram precocemente. era uma previsão do que real10 | João Pessoa. Quando fico dois ou três dias no Rio ou São Paulo. Mas essa melancolia desse artigo que você fala. Você disse que Aruanda havia sido aceito em todo o Brasil. Vladimir Carvalho e João Ramiro Mello se vão e você fica. RADICADO NOS ESTADOS UNIDOS. Não gosto dos grandes centros urbanos. DEFENDIDA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. O neo-realismo foi aplaudido no mundo e rejeitado na Itália. o problema nacional não se faz em seis meses.

o impacto daquelas imagens. demonstra o estado de coisas daquela população: em pleno 1960. agora quem está em cenas são as mulheres trabalham na fabricação de utensílios de barro. que teimam em negar a complexidade cultural e étnica do Brasil. Mas pouco muda na vida dos personagens. O QUE MAIS CHAMA ATENÇÃO NO CURTA É O ROMPIMENTO DOS CONCEITOS DE FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO Agora o espetáculo cinematográfico se dá em função do cotidiano da comunidade. Logo depois. É de se imaginar. Os habitantes do Talhado estão em pleno século 20. o que mais nos chama atenção. ainda em plena euforia dos anos JK.sim. é o rompimento dos conceitos de ficção e documentário. no cinema Rex. O filme começa nos contando uma história. mas a vida pouco difere da ficcionalização apresentada no início de Aruanda. e que tem uma dívida social enorme a saldar . e não da demanda do filme. entre as numerosas virtudes da obra prima de Linduarte. elas . Uma imperceptível passagem de tempo nos leva ao ano de 1960. o filme de Linduarte Noronha firmou-se já como uma obra de referência do cinema brasileiro. Cinquentário. Afinal. Os personagens fazem o trajeto em função de uma demanda do filme.Aruanda. setembro de 2010 | 11 . ao ser exibido no Rio de Janeiro para uma plateia de críticos e estudiosos de cinema e em São Paulo durante a Primeira Convenção da Crítica Cinematográfica. simbolizadas pela inauguração de Brasília e implantação da indústria automobilística. com Brasília recém inaugurada e o país embalado pelo ritmo da bossa nova. estão no século 19. Aruanda percorreu um longo e vitorioso trajeto. em que passado e presente se misturam ante o espectador sem uma linha divisória. são escravos libertos. O espectador atento notará que a caminhada da família de Zé Bento pelos campos áridos do Sertão paraibano é um exercício de ficção. projetadas em ambientes sofisticados do Rio de Janeiro e São Paulo. numa antecipação de questionamentos caros aos estudos da representação da realidade no cinema.cuja origem está. para um seleto grupo de intelectuais. Mais que eventuais denúncias de atraso e pobreza. Passados cinquenta anos. a estrutura narrativa do filme. no processo de libertação dos escravos. além do que foi ressaltado por críticos da estatura de Paulo Emílio Salles Gomes e Jean Claude Bernardet. mas pela escolha do seu tema. matéria prima abundante na região. que para muitos se passa em 1960. entre outros fatores. os homens e mulheres de Talhado viviam mais próximos do século 19 que do século 20. Agora. transformados em cidadãos entregues à própria sorte colocar em cena negros e negras lutando pela sobrevivência constituiu-se quase que em uma provocação para setores da nossa elite. Aruanda mostra uma comunidade de negros que nas serras e vales de Santa Luzia. No início da década de 1960. vive da fabricação de objetos de barro. o projeto de Aruanda nasceu moderno não apenas por sua estrutura narrativa. presentes aliás na narração feita pelo próprio Linduarte. em um país que vivia uma euforia desenvolvimentista. Em uma sociedade marcada por profundos preconceitos. um filme moderno Fernando Trevas Falcone* D esde a sua estreia em setembro de 1960. I *PROFESSOR UNIVERSITÁRIO E PESQUISADOR DO CINEMA PARAIBANO A UNIÃO João Pessoa.

setembro de 2010 6depoimento O ano era 1962.MANFREDO CALDAS (E) AO LADO DE NELSON PEREIRA DOS SANTOS (C) E LINDUARTE NORONHA DURANTE AS FILMAGENS DE CINEASTA DA TERRA A permanência de Aruanda Manfredo Caldas* 12 | João Pessoa. distantes de nosso cotidiano. Mas o que mais me impressionou em Aruanda . filmes estrangeiros e em sua maioria norte-americanos. João Córdula era o coordenador. filme fundador do moderno documentário brasileiro. Serviço do Cinema Educativo da Secretaria de Educação e Cultura do Estado. foi a força de suas imagens numa fotografia com a lente nua e sem filtros deformadores como diria o Nelson Pereira dos Santos. Cine Clube Linduarte Noronha. obtendo o máximo de dramaticidade da luz do Sertão c A UNIÃO . Aí assisti Aruanda pela primeira vez e naquele exato momento tive a nítida impressão de que existia um tipo de cinema possível de ser feito. Até então estávamos acostumados a ver só o que era oferecido pelo circuito exibidor local.

tendo as imagens de Aruanda como tema central e recorrente em sua narrativa. fala sobre a mitologia em torno dos operários . Foi a partir de Aruanda que a temática da relação do homem e a terra passou a estar presente em meus estudos e preocupações ainda como cineclubista e já partindo para algumas experimentações no campo da realização. Com o advento do AI-5 em 1968. concentrei meu foco nos momentos mais e x p r e s s i v o s d o c iclo do documentário paraibano na tentativa de rediscutir a importância deste ciclo e situá-lo na história do cinema brasileiro. reforçando os meus laços com Aruanda . minha A UNIÃO A partir de Aruanda que a temática da relação do homem e a terra passou a estar presente em meus estudos ainda como cineclubista e já partindo para experimentações intenção primeira era refletir sobre curso do documentário brasileiro a partir de Aruanda. iniciei uma trajetória de realizações de documentários tendo a migração interna como tema central.onde não faltam as cores mais fortes de exasperante violência tingindo de tragédia a história da região. que t r a b a l h a r a m n a e p o p ei a d a construção da nova capital do país.candangos imigrantes. DIRETOR DE NEGROS DE CEDRO (1998) João Pessoa. Por motivos óbvios de falta de condições objetivas. Este filme aborda o u n i v e r s o p e s s o a l e criador de um precursor do movimento cinemanovista no país. Neste filme é apresentado d e m a n e i r a c ontundente o problema fundiário no Nordeste do país .mais especificamente no Estado da Paraíba . concretizei uma homenagem explícita ao Mestre Linduarte Noronha realizando para a série Retratos Brasileiros do Canal Brasil.c e lembrando a tonalidade autocontraste das xilogravuras nordestinas. zona norte do Rio. Em 1974. atento à transposição de traços culturais nordestinos para os grandes centros do país. realizei Feira . Foi aí que. Em 1988 conclui do d o c u m e n t á r i o d e l onga metragem Uma Questão de Terra . realizo o médiametragem Cinema Paraibano Vinte Anos. talvez o primeiro documentário sobre uma feira tipicamente nordestina no bairro carioca de São Cristovão. a atualização e permanência de Aruanda no panorama da cinematografia brasileira. A revolução de Aruanda no documentário paraibano e brasileiro estava estabelecida. E numa ruptura drástica. I *CINEASTA PARAIBANO RADICADO EM BRASÍLIA. Em verdade. a debandada foi geral. desde as suas fotorreportagens de origem do filme Aruanda ao pensamento ecológico calcado no humanismo e nas questões do ambiente do cinema. revelei uma família de paraibanos que vive em Caxias. Mais recetemente. com roteiro em parceiria com João de Lima e fotografia de João Carlos Beltrão. e que mantém o folguedo numa tentativa. nordestinos em sua maioria paraibanos. O meu mais recente filme. período pós anistia. Romance do Vaqueiro Voador . No Brasil de 1983. Cineasta da Terra. setembro de 2010 | 13 . consciente ou inconsciente de resistência cultural. Em Boi de Reis (1977). confirmando em definitivo. terminei precocemente migrando para o Rio de Janeiro.

rebate o rótulo: "Desde que Gilberto Freyre estabeleceu os cânones do Movimento Regionalista. Um de seus contos mais famosos é Lua Cambará. Essa cartilha nos prestou um grande desserviço. Regionalismo virou palavrão. que. ou ainda pela desforra silenciosa que ilude o "destino" traçado. o instante do ato que define o drama humano”. Uma grande parte dos contos do escritor cearense elege a figura feminina como tema ou como protagonista... também eles.] Aqui o fantástico se expande pelo sopro do imaginário. Chamar um autor de regionalista é uma maneira de diminuir o valor de seu trabalho. produzem. envolvendo o mítico sertão-mundo. aliás bem escrito. sem dúvida. o tempo adquire status de protagonista ao lado das personagens. por outro lado. na novela e nos contos. como uma personagem da dramaturgia grega. junto com um magro livrinho de contos: davam-me. incluindo também a protagonista do conto “Faca”.] O sertão está em toda a parte. voltados. revelando. influindo na expectativa mítica de seus destinos. o que estava escrito.Faca amolada: o universo poético-trágico nos contos de Ronaldo Correia de Brito Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. incluindo aí os títulos de alguns deles: “Lua Cambará”.. “Aldenora Novais”. embora logo fiquemos sabendo que se trata da designação de um de seus contos e da importância da palavra no entrecho da narrativa. A técnica com que os contos são narrados. é sempre trágica. Assim é que o próprio Ronaldo. [.enfrentando a ira da família materna. numa espécie de "círculo sem saída" em que a ruptura. quando se dá. um retorno sobre o que eu escrevera. cuja força poética transfigura o corte seco da observação realista com que ele alterna e com que se talha. reduzi-lo a c 14 | João Pessoa. guardando um parentesco com a tragédia antiga. e que todo escritor escreve na perspectiva de seu tempo. Francisca. o estranhamento da escassa informação do conteúdo a que o título remete. em nós leitores.. (Guimarães Rosa) Moema Selma D´Andrea* O ensaio 6 s contos de R o n a l d o C o r r e i a d e B r i t o . sob as imagens filmadas. em entrevista publicada no Cronópios: Literatura & Arte no Plural. Passaram-se vinte anos. restringe. e surgiu o Romance de 30. intitulados pura e secamente de Faca . como os contos que a acompanham neste volume. afeitas ao convívio da morte como ciclo de retorno e "destino". [. trazendo a lembrança dos narradores anônimos. O drama contido nas narrativas. sobretudo para o drama familiar sertanejo na mesma região cearense de Inhamuns. a apreciação de uma leitura que se expande para o drama universal dos predicados humanos. Nos contos. esse realismo é temperado pelas soluções fantasmagóricas que incrementam o imaginário popular. “Cícera Candóia”. Agora "Lua Cambará" é que retorna em sua forma inicial de novela. possibilita o lado poético e surreal de alguns entrechos. e só então me chegou uma carta . impede a morte do pai . precariamente. que tentam enquadrar a nossa produção nessa cartilha. “Inácia Leandro”. Desta forma é concebido o clímax das personagens-título dos contos que subvertem a ordem pré-estabelecida no mando dos homens. em super8 e mereceu de Davi Arrigucci esse breve ensaio: "que não teve resposta. onde se formou o ficcionista. foi filmado. esquecendo que já se passaram 70 anos. Ao mesmo tempo. concisa e realista que permeia o chão histórico das paragens nordestinas. A tendência de se enquadrar o lócus (regionalista ou urbano) onde a ficção é narrada. setembro de 2010 A UNIÃO .meia página de uma prosa sibilina.assassino de sua mãe . como se fosse ontem. traz também a linguagem adusta. reelaborada decerto muitas vezes ao longo desses anos.

que flagra o desenrolar dos fatos. [. Como resultado do almoço. (Faca. em não poder partir. Sabia que as pessoas da vila iam embora. O conto se desenrola nos últimos três dias das fugas urgentes e da espera de Cícera Candóia pelo temido desenlace. o tempo fugindo.. p.. empregou uns homens para "brocarem um roçado". e a casa guardava ruídos de alegria. levantou a cabeça e olhou a filha. inabitável economicamente.] E.Sabe o que aconteceu? Eu guardava um veneno de matar formiga. (Faca. como há anos não fazia e de uma forma que esquecera. A mãe.gritou Ciça. com o marido vivo e em plena atividade de plantio. as quase últimas habitantes do lugar. havia nela um rancor mais forte. é Sebastião Qinzim. Em outro depoimento o autor admite a influência do cinema no seu ritmo criativo: "É possível que eu tenha visto mais cinema do que lido. Conta. que a velha. entrevada de reumatismo. Não tinha como não pensar nesse silêncio. E também não deixo mãe sozinha aqui. (Faca. dos bem fortes. Cícera Candóia. ela ainda menina. narrada para consumação do desfecho. não vais embora também? .grifos meus) Outro personagem a interagir com Cícera. além da recorrência da morte. já que se aproxima o último dia de saída do caminhão. tinham aprendido a não se perguntarem nada. a condenação já existia no fato de ser mulher. Escrevo sobre um sertão invadido pelas cidades. Escrevo sobre um sertão invadido pelas cidades. No entanto. Tempo de ira e de silêncio.". é pura memória inventada. em 2003. poderia ter como subtítulo "Tempo de Ira". A velha mãe.Eu tive mais cuidado. . Uma família marcada pela tragédia: o filho mais velho mata o pai pela partilha de umas cabras.] . O que é o sertão. solidão. tem na pouca memória a chave do conflito. [. abriga mãe e filha. Tecendo um destino por cumprir. " Um breve resumo determina o contexto do conto: a cidade de Parambu. Meus personagens. 117) Crime. A noite foi se alongando.. nos contos recentes. para ela e a mãe suportarem. p. a dela solitária e com um crime por compreender. E se ninguém mexeu ainda deve estar por lá. [. tu estás querendo ir embora? Ciça soltouse da mãe. Este sintoma vem se acentuado cada vez mais. setembro de 2010 | 15 A UNIÃO . E a grande sentença do silêncio entre as duas. longamente. A mãe mastigou a comida devagar. que nunca mais se olharam.Me diga de uma vez. 122-123) Ciça. cuja dor tirou-lhe o tino de viver. justo em cima do fogão. A velha. O papagaio de casa. atrás da casa.Pare com esse agouro . cujo único sustento era o leite das poucas cabras que "Ciça" cuidava e uns restos de "farinha mofada".a velha disse e sorriu. Habitavam miseravelmente num casebre e num pedaço de terra. como elemento estruturante da narrativa. Depois. A mulher. lembrança. Quando o pai e os sete irmãos homens moravam ali. na forma da recordação.. produziu. Vídeo e Dcine (cinema digital) de Curitiba. então. ouvia a conversa da mãe. Um tempo longe. Anos atrás. parece ter um envolvimento amoroso com a personagem feminina. mexeu no embrulho de papel e uma parte do veneno derramou-se na panela de feijão. À fuga do parricida. A posição do narrador funciona mais como um camera-eye. 114). "Entre mãe “O sertão de que trato não existe. seguiu-se a debandada dos outros irmãos. foi levar-lhes "o feijão com toucinho. cúmplice dos conflitos. em parceria com Gisella de Mello.] O s e r t ã o d e q u e trato não existe. . porque eu nunca mais quis saber de matar formiga. Peguei o veneno. você sabe? Eu juro que não sei. dirigiu e protagonizou um curta-metragem que foi o vencedor do 7º Festival de Cinema. enquadrá-lo em chavões. admirando-se do riso.. mais do que de costume. . Cícera resiste: não deixa a mãe sozinha.] A cantilena da velha arrancou-a do devaneio. E sobre cidades arruinadas pela ruptura com o sertão.É. silêncio. e a leva de moradores que migram em caminhões em busca de sobrevivência.. aliás o único. Sem que escolhesse.E tu.. p. [. [.Verdade que todo mundo vai embora? . tão longe que o rosto do pai aparecia em contornos imprecisos. a mãe desanda a falar: "E cada palavra saía carregada de intenção. naquela tarde. Num lampejo de consciência entrega para a filha..Não. .] . sofrida. "Depois só silêncio. Prefiro dar ao fraseado dos textos um ritmo cinematográfico. Este parece ser o destino do drama que entrelaça as personagens. condenação. no mundo globalizado. 121) A relembrança abre-se como "um destino por cumprir". 121). Continuando a narrar.. E Cícera ficou sozinha com a mãe. É a "cidade arruinada pela ruptura com o sertão". decadente. O drama que estrutura a narrativa se alicerça em dois suportes: o silêncio entre as duas personagens e o tempo de espera. percebeu. essa é a técnica com a qual Ronaldo maneja suas narrativas. de maneira descuidada.Eu sempre desejei ser enterrada debaixo do pé-de-paubranco. p. deixava o tempo escorrer a balançar numa rede: "Ciça lembrava-se de tudo. depois da desgraça.. Durante o tempo em que viveram juntas. encarregada da comida. E eu nada mais faço do que procurá-lo”.Eu não viajo com mãe porque mãe não agüenta a viagem. Aliás. ela puxa pelo fio do mistério: ". apesar do torpor. E no c João Pessoa. socado nuns caibros do telhado. tratá-lo com preconceito e deboche.c estereótipos. que. um fato do passado que lhe vem nítido à memória e carregado de desígnio. assumia a custódia da mãe e sua eterna companhia. A intuição lhe dizia já que a filha pouco falava. se fazia urgente. apesar da paisagem desértica. p. como os irmãos homens fizeram. O tempo. em busca da madrugada. t o d o s p a s s a r a m m a l .No tempo da ira fazia poeira. quase envenenados. nas entrelinhas. o mote do desenlace: "Sentia que a filha estava muito nervosa. ele existe. Daí uma memória visual manifesta durante a escrita. p. 114-115 . mas não se manifesta. enfiei dentro de uma cumbuca e meti naquele caixão que fica perto do fogão. junto com o farelo de milho para a alimentação das duas." (Faca. tudo muito gostoso. Rompendo o longo silêncio que as unia. é o empecilho à sobrevivência da personagem: "Para Ciça. andado pelos caibros. e a lembrança da velha mãe obedece a esse imperativo." (Faca. se não fora o providencial leite que beberam. Um dos contos do livro Faca. E a vida de depois. E sobre cidades arruinadas pela ruptura com o sertão” e filha agravava-se um silêncio que sempre fora intenso" (Faca. quando Ciça estendeu para a mãe o prato de xerém de milho que seria o seu jantar. são neuroticamente urbanos. Entre eles há um diálogo em que Qinzim tenta convencê-la a migrar também.. suspirando entre um bocado e outro.. Antes de entrar para a cozinha respondeu: . . calada.. Foi com este título que Marcélia Cartaxo. O silêncio as sustinha. De um tempo de paisagem verde em que ainda era possível rir. A memória é agora um espelho da figuração alegórica. O desprezo das pessoas do lugar. embora senil. enquanto mãe tiver vida".

. a mãe resgata o mito da esposa de Jasão. Gravado toscamente numa cruz. O texto silencia sobre a fuga do homiziado." (Livro dos homens. Ciça aceita o destino e cumpre o desejo materno. -Toma. Tudo o que faltava nas suas existências comuns. o anel com desenhos de ramagens. romance que lhe concedeu o prêmio São Paulo de Literatura em 2009. [. apelidada de "Pau dos Ferros. Como uma Medeia às avessas. Seu tronco guardava os desenhos dos ferros de ferrar gado dos que ali passavam. p. que passa à lenda pelas mãos dos trágicos gregos. assassino da mulher com quem se casara. A lembrança de um pequeno pacote. "Desceu a primeira enchente do Rio Jaguaribe. ganhou o nome do santo do dia em que apareceu. despertava os mais esquecidos desejos. a velha disse. " debaixo de uma oiticica". onde se demorou. que nunca tivera em vida.c claro do dia que já estava chegando. "Pediu para ver os objetos. enriquecia o dedo anular direito" (Livro dos homens.] Foi até a cozinha. (Livro dos homens. também justiçado por ele. escondido num quarto escuro. que guardava. no conto “Faca”. -Eu estava esperando. peregrinos viajantes. liberta agora para a vida: "Precisava satisfazer os desejos da mãe. É ela a verdadeira heroína do conto. 14) A sina de Pedro Miranda estava colada a de seu cunhado. Possuía a aura dos santos e encantou-se como o rei Sebastião. na casa do irmão Anacleto. 122123 . todas positivas e à espera de algum acontecimento mágico que validasse a crença na sobrenaturalidade do estranho. quando todos pensavam que o ano seria de estio. ignorando os sinais de rejeição silenciosa do grupo de fiéis. Chamou a mãe e lhe entregou. pela composição interpolada de fragmentações permeada pelo tempo de espera e pelo círculo vicioso do "destino". Os contos de Ronaldo Correia de Brito nos surpreendem também pelo insólito que rege o destino das personagens." (Livro dos homens. até o tempo de espera de cem anos. p.Estavam bem guardados. Pouso obrigatório de todos os viajantes. inicia o conto e suas conseqüências. "no aconchego" de "uma paz molhada. cozido no silêncio e na solidão. (Faca. Morreu nas margens do Jaguaribe. Repousa. Na medida certa para arrastar outro corpo. E o sobrenome da árvore que abrigou suas carnes. Toma-lhes a faca de prata com cabo de ouro. 7-8-9) A imaginação da comunidade de Monte Alverne sugeria várias identidades para o morto. p. nas raízes uma fresca umidade. Foi descoberto de manhã. o corpo de um homem. reluzindo e voando no espaço. Pedro Miranda. no Livro dos homens uma técnica intertextual que percorre como um leitmotiv a narrativa de Ronaldo de Brito. "O tempo da ira"." (Faca. . para sempre. o primeiro por insídia e o segundo por vindita. camisa fina com abotoadores de prata. Águas barrentas e profundas. Mas isto é outra fabulação em Galileia. enfim. 14) Domísio Justino reaparece ainda como fantasmagórico personagem de uma longa. destino que perpassa o conto durante o longo período: "Um vaqueiro que vinha do curral viu uma ave prateada. Voltou trazendo um copo de leite. anulando. quando é achada por um bando de ciganos que pernoita na fazenda abandonada.. parceiros permanentes no vai-vem do Rio Jaguaribe. A comunidade de pastores e vaqueiros enterrou o morto onde ele "aportou". livrando-o da morte e dos justiceiros tios maternos. 7) A descrição objetiva dos a c o n t e c i m e n t o s . Mostrariam no dia seguinte à luz do sol" (Livro dos homens. como matricida. O cunhado de Domísio Justino ouviu o relato e não teve mais dúvidas: o santo da comunidade era o assassino de sua irmã.. Assim. 10-11-12) Essa vida tecida de mitos retoma o passado na pessoa de Pedro Miranda. Um anel com arabescos de ramos e flores entrelaçadas. Durante anos que correram pela frente. em estilo cinematográfico com o narrador c o n s c i e n t e m e n t e distanciado dos fatos. é o tempo de espera para que a faca assuma seu destino fantasmático. PELA UNICAMP. sobrepondo seu sacrifício ao presumido sacrifício que a filha faria por ela.grifos meus) Aquela aceitação tácita sela o destino das duas. Ele entrou em suas vidas. onde a morte se escondia. I *MESTRE E DOUTORA EM TEORIA DA LITERATURA. p. "Choveu a noite inteira e o Jaguaribe botou enchente. Assassinos ambos. ficou morando ali. a voz narrativa. p. as pessoas procuraram a faca. a protagonista Francisca toma a defesa do pai. comandando um exército de valentes. Por isso. que nunca tivera em vida. incorpóreo.. 124) São duas mulheres que o destino coloca em desencontro. personagens que parecem esquivar-se do destino imposto ou ainda prolongar o tempo de espera. E o maravilhoso aconteceu com uma moradora mordida por uma cascavel e milagrosamente curada ao tomar a água da cacimba ao pé da oiticica. preso aos destroços das margens.". pela composição interpolada de fragmentações arrumando o álibi da infidelidade conjugal da companheira. botinas de couro curtido. atrás da casa. p. que narra a fábula da família Rego Castro. ele também um predestinado viajante pernoitando em Monte Alverne. sua ascendência. Desvendou para os o u v i n t e s a h i s t ó r i a passada. O símbolo fatídico é arremessado por Francisca e torna-se um ícone intangível. (Faca. Havia uma árvore de caule branco. "São Sebastião dos Ferros mandou um sinal para nós. Os contos de Ronaldo Correia de Brito nos surpreendem também pelo insólito que rege o destino das personagens. A trágica sentença que a mãe se dá é a dádiva de uma nova maternidade e é a catarse do silêncio e solidão daquelas vidas. O tempo deslocado de um século. 26) Domísio Justino ceifa a vida da mulher por amor de outra. Sebastião dos Ferros. setembro de 2010 A UNIÃO . O ato criminoso torna-o um desertor para se livrar da justiça dos cunhados Pedro e Luiz Miranda. atos generosos e feitos heroicos. muitas léguas acima. personas ambiguamente divididas entre o sertão e o apelo urbano na figuração de Adonias. Construíram para o santo uma vida cheia de juventude. uma paz de terra molhada. Vestia jaqueta de veludo. No meio das águas barrentas.". Pareceu o dia em que encontraram o corpo do santo. p. desde a tragédia. mestiça e conturbada ascendência sertaneja de Inhamuns. Seu passado ressurge já em outra trama do conto "O que veio de longe". p. É AUTORA DO LIVRO A TRADIÇÃO RE(DES)COBERTA: GILBERTO FREYRE E A LITERATURA REGIONALISTA 16 | João Pessoa. A mãe sempre desejara o seu aconchego. ainda suja do sangue da mãe.

que atestam não só a monumentalidade do texto e a imporância da bibliografia do escritor. que o consideraram uma revelação e um marco na literatura brasileira. A ficção ainda vinha de um experiência estética bastante canônica. na moral e nos costumes. do matogrossense Ricardo Guilherme Dicke. Nicodemos Sena. Vivíamos uma época de rápido escalonamento de valores. ainda muito fortes os ecos do modernismo na poesia. setembro de 2010 | 17 A UNIÃO . com reflexos na própria linguagem (musical. AUTOR DO ROMANCE DEUS DE CAIM. Referendado por Jorge Amado. nas artes. CRIADOR DE UNIVERSOS Ronaldo Cagiano* A editora paulista LetraSelvagem. como repudiam a imperdoável negligência e o injusto esquecimento a que foram relegados. em São Paulo. integrantes do júri. É UM ESCRITOR DE DIMENSÃO ONÍRICA E SUPERIOR. teatral e literária). o romance Deus de Caim . em direção a uma suposta modernidade em todos os sentidos. obra que foi um dos vencedores do prestigiado Prêmio Walmap (1967). na Casa das Rosas. quando primeiro surgiu um tufão c João Pessoa.A ressurreição de um grande escritor RICARDO GUILHERME DICKE. por iniciativa de seu editor. A prosa caminhava para descolar-se dos modelos machadianos ou do realismo-naturalismo. críticos e estudantes. com apresentações críticas de Nelly Noaves Coelho e Raquel Naveira. o romance vem sendo objeto de redescoberta pelos ensaístas. relançou recentemente. Guimarães Rosa e Antonio Olinto. Deus de Caim surgiu num momento de transição: na política.

incesto. com sua habilidosa capacidade de recuperar a mitologia popular ou o inconsciente coletivo . Dicke cutuca as feridas da humanidade. como o desejo de apropriação do outro (que na verdade soa como uma metáfora da apropriação injusta da terra. deságua numa única e instintiva necessidade: a de perpetrar-se. vai impactar e comover o leitor. Dicke é autor dessa dimensão onírica e superior. e o poder intrínseco. ROMANCE FOI REFERENDADO POR JORGE AMADO E GUIMARÃES ROSA também como pintor. cidade criada pelo autor. aquela que. tabus e mitos que sustentam a vida e a memória do homem comum e do homem que controla política. morte. obrigar e impor sanções. ou se interpenetram. desde a fundação do mundo. até hoje. e esse caos se reflete não só as histórias repletas de cizânia e perigo. E seu processo criativo contempla o caos. dramas. I (*) POETA E FICCIONISTA MINEIRO. Rulfo e Faulkner. ideológica e religiosamente a vida das pessoas. de um mestre (que pode ser Deus ou o Diabo) e que. picuinhas e disputas da família Amarante constituem o epicentro do romance. e é 18 | João Pessoa. que em boa hora se resgata. vencê-la. e levantaram guarda para viver o próprio caminho. repercutindo na vida de pobres almas do centro oeste brasileiro. vencer o tempo. ainda.ambição. interditado pelo seu irmão Jônatas. O elo entre o passado genético da humanidade e a modernidade tumultuada em que vivemos homens. é perigoso viver. uma vez que ele foi filósofo. sobre interesses escusos e difusos. os gênios criam universos. mas prioritariamente se explicita numa linguagem vigorosa. homenageia e valoriza. porque o mundo não mudou. Komala e Yoknapatawpha. impulsionado por Grande sertão: veredas. desde a fundação do mundo. que reverberam sua visão impressionista desse mundo interiorano. atraindo o que na lógica cristã seria chamado de maldição. governo e mundo mereceu em Dicke uma releitura surreal. acima de tudo.Dicke deu ressonância a um conflito ancestral. do desenvolvimento material e econômico das pessoas e das nações. ao discorrer sobre música e poesia. como alegoria ou como recurso da intertextualidade. Deus de Caim emerge como um outro furacão estético. Em Pasmoso. que não deixa o leitor sair indiferente ou ileso. característica de um país até então confinado a uma cultura e a uma economia agrária e estigmatizada por totens. densa. o poder de decidir. bons autores contam boas histórias. setembro de 2010 RELANÇADO.como o fizeram com Macondo. senão expõe a violência que atravessa os séculos. Com Deus de Caim. usurpação. A tensão que vai perpassar todo o livro. culminando no amor entre Lázaro e Minira. dissensões. do avanço das comunicações e das ciências. De Adão e Eva. nesse romance. tradutor e pintor. sobre a traição. ao espelharem as experiências de um mundo arcaico e burguês . pois nada atenua.c na narrativa contemporânea. roubo. com seus ritmos e rupturas verbais. mostrar que o real supera a si mesmo. Ou. sobre o amor. AUTOR DE DICIONÁRIO DE PEQUENAS SOLIDÕES (CONTOS) A UNIÃO . Os dramas. apesar da tecnologia. A partir do enfrentamento entre irmãos é que se instaura uma profunda discussão sobre o homem. Muitos acontecimentos se intercalam. que deixou à literatura mundial um grande legado. num momento em que o tema da reforma agrária e da quebra de paradigmas morais eram um tabu). mas como recurso para entender-se a loucura individual e coletiva e. Seja o poder do que quer roubar o amor de outro. revelação e reflexo da própria desordem mental e intelectual do homem. o entrave humano é a luta pelo poder e contra a morte. Como afirmou Marçal Aquino. experimentaram do f r u t o proibido. pano de fundo de um permanente desassossego. Deus de Caim . sobre o poder. desde que Adão e Eva. não como fantasia pura e simples criação de uma historieta de sertão. como os velhos coronéis do passado. ao fazer uma releitura do mito bíblico. que estão abertas até hoje. Uma década depois. assim como Isidoro. a qualquer preço. na verdade. as mesmas questões. que são necessárias as tintas da ficção pelo viés do absurdo para poder entender esse intricado e violento sistema que é a vida. Os mesmos conflitos. E para isso. sem estereótipos e sem meias palavras. e demiúrgico. passando por Abel e Caim. esbulho da terra estão aí. professor.estão aí . se possível. na verdade está fazendo uma incursão na atualidade. como no caso dos embates filosóficos travados entre os personagens Grego e Cirillo Serra sobre o mundo. García-Márquez. resistente às mudanças. a religião e a cultura. por meio de sedução e tentativa de estupro. as artes e o pensamento culto. Essa faceta do romance também exterioriza o diálogo que Dicke estabelece com outros gêneros e reflete a sua preocupação existencial e sua relação muito íntima com a Filosofia. seja o poder arbitrário dos que detêm o controle político e financeiro de um país. segundo Guimarães Rosa. a verdade. que é o desejo de ambicionar o poder maior. mentira. atrasado. despistar a morte e. sem defesa (como os ditadores). as mesmas controvérsias e polêmicas .

venho reconhecendo que a teledramaturgia atual tem tido seus momentos de brilho em meio à poeira deixada por muitas produções cinematográficas. apesar de atento às exceções que fazem do nosso horário nobre algo digno do adjetivo. como em nenhum outro. sempre encarei as telonas como um suporte aumentativo também para as boas ideias. Tom Hanks. têm surgido nos créditos de peças televisivas e proporcionado um c João Pessoa. Raskólnikov O Crime é o Castigo Tiago Germano* “O 6 s grandes roteiros do cinema estão sendo escritos hoje na televisão". lembra-se daquela velha frase de Groucho Marx (" a televisão é muito educativa: cada vez que alguém liga o aparelho. de Luiz Fernando Carvalho. por que não.MICHAEL C. porém. HALL.. Quentin Tarantino. incorporando do cinema sua linguagem.. e neste dia.). aqui.eu que. Diablo Cody. setembro de 2010 | 19 A UNIÃO televisão . que abriu seu suplemento numa manhã de domingo. roteiristas. sua força de trabalho. provocou (pasmem) um amigo que dedicou boa parte de sua carreira acadêmica a estudos comparativos entre a literatura e a sétima arte. Diretores. Você. Porque eu também discordei . ASTRO DO SERIADO DEXTER. saio da sala e vou ler um livro"). certamente irá discordar. INTERPRETA ASSASSINO FRIO QUE TRANSFORMA O ATO DE MATAR EM ALGO ÚTIL PARA A SOCIEDADE Dexter. Aos poucos. técnica e. lá fora. produtores e atores que viram sua carreira projetada através de rolos de película (caso. de nomes como Steven Spielberg. e.

muitas vezes. pela editora Planeta. E não duvidem: talvez grandes livros também estejam sendo escritos por lá. mas curiosa) de que é casado com uma sobrinha de Ernest Hemingway. ela está livre para cometer um crime sem que a outra pese sobre si. Diferente do assassino de Petersburgo. este tira de retidão insuspeita. Tornando à premissa que deu origem a este texto. "Posso matar um homem. Harry. apenas matar quando comprovada a culpa. Dexter segue a risca o Código Harry. cuja figura de mentor lhe acompanha mesmo após a sua morte. é um dos trunfos de um enredo conduzido pelo anti-herói homônimo. Esta. este advém da obra televisiva. não tardou a seguir a carreira do pai adotivo. que como o seu antecedente russo "chegou ao crime como se não houvesse caminhado com as próprias pernas". Dexter é um jovem perito da polícia. que tenta emular com um desempenho canhestro. Observador atento às minúcias do comportamento alheio. A série está atualmente em sua quinta temporada. três deles no Brasil. a tábua sagrada onde seu provedor deixou inscrito seu legado doutrinário: apenas matar a também assassinos. só se aproxima da grande literatura por uma criatura que ganhou vida fora dos seus domínios. E é neste ponto 20 | João Pessoa. Tal qual Raskólnikov. Jeff Lindsay. O flerte da série com a literatura. os grandes roteiros do cinema talvez estejam mesmo sendo escritos hoje na televisão. diz ele.c salto qualitativo em produções seriadas que nos chegam. o personagem rende ao roteiro boutades como esta: "Quer ter um vislumbre da natureza humana? Atrapalhe uma fila". em hipótese alguma. encarnação moderna de um Raskólnikov. cheguei a Dexter . I *JORNALISTA E EDITOR DA REVISTA CENÁRIO CULTURAL A UNIÃO . E talvez pela informação (inútil. Se há algum mérito literário em Dexter (entusiasta ou não. Um dos raros casos em que a televisão é bastante educativa por nos obrigar a fechar um livro para assisti-la. num dos episódios da primeira temporada. e nunca. como criador. Ou: "Adoro o Dia das Bruxas. À cata dos tais "grandes roteiros" da televisão. infelizmente. mas não sei dizer quando minha namorada está se sentindo insegura". que escolta sua conduta na filosofia de homens "extraordinários" como Napoleão (padrinho ideológico também de outro anti-herói famoso da literatura: Julien Sorel). Sua principal preocupação é driblar seu senso de inadequação e sua profunda inaptidão em fingir ser humano. não resiste a uma leitura motivada por outro critério que não o da gênese de sua adaptação. este querido e devotado cidadão de Miami não sofre tormentos de consciência. eu já considero a simples remissão a Dostoiévski um mérito). e não da original. com seu humor de açougueiro. ensinou a Dexter tudo o que ele sabe: inclusive como tornar sua natureza (a de um assassino frio e contumaz) algo útil e conveniente para a sociedade. os grandes roteiros do cinema talvez estejam mesmo sendo escritos hoje na televisão que nos afastamos um pouco de Dostoiévski: na medida em que Dexter é "a mão esquerda de Deus". setembro de 2010 ESCRITOR JEFF LINDSAY: EMPRESTOU A ESTÓRIA DO SEU SERIAL-KILLER AOS ESTÚDIOS DE TV Tornando à premissa que deu origem a este texto. telessérie produzida pelo canal norte-americano Showtime e transmitida nacionalmente pela FX Brasil. de cujas páginas herda seus principais arcos narrativos e grande parte da psicologia embutida em seus personagens. ser pego. desmembrar seu corpo e chegar em casa a tempo para ver o Letterman. a mão antípoda da que castiga. e não apenas eu". através de uma mídia responsável pela formação de pelo menos 40% dos espectadores do cinema que hoje conhecemos: o DVD. especialista em hematologia forense. estocados em boxes de DVD´s nas prateleiras das lojas. e desde 2006 vem tornando a sequência de livros do autor Jeff Lindsay (que emprestou à história do seu serialkiller aos estúdios televisivos) uma franquia rentável e contínua: já foram publicados cinco volumes sobre o personagem. Adotado na infância por um tira. A única época do ano em que todos usam máscaras.

Slender. E ela se casara com um pau d'agua. she puts forth a slender hand. azul é a grama à margem do rio E os salgueiros alagaram ao longo do jardim. passing the door.) And she was a courtezan in the old days. And within. setembro de 2010 | 21 . the mistress. vacila.TRADUÇÃO/POESIA 1 poema de Ezra Pound A BELA TOILET Azul. Que ora embriagado vai à troça E a deixa ademais sozinha. ela expõe os delicados dedos. Delicada. (Atribuído a Mei Shêng. Branca. E por lá. a dama.) Blue. White.C. 140 b. in the midmost of her youth. 140 a. And she has married a sot. The beautiful toilet “RECLINING-FEMALE-NUDE”. passando a porta. nas flamas de sua juventude. E ela foi cortesã em outras datas. DE EGON SCHIELE A UNIÃO João Pessoa. hesitates. (Tradução de Daniel Sampaio de Azevedo) (Attributed to Mei Shêng. Who now goes drunkenly out And leaves her too much alone. white of face. branca face. blue is the grass about the river And the willows have overfilled the close garden.C.

A UNIÃO camões/lampião camões ao habitar-se no olho cego sentia-se íntimo. kipling recitam a plenos pulmões gargarejam vidros moídos. camões ao habitar-se no olho murcho via o mundo claro dentro do escuro e o olho aberto era inútil ao habitar-se no olho murcho. camões ao habitar-se no olho aberto via-se todo ao inverso (pelo lado de fora) mas rápido se devolvia e fechava o olho aberto pra ser total a miopia. lampião ao habitar-se no olho murcho via o olho aberto estrábico e rústico e compreendia o olho aberto mais murcho que o olho cego. setembro de 2010 .POESIA 5 POEMAS ESCOLHIDOS POR SÉRGIO DE CASTRO DE PINTO as cigarras são guitarras trágicas. plugam-se/se/se/se nas árvores em dós sustenidos. mais interno no olho aberto. somado e era mais lampião naqueles óculos de aro. o cristal dos verões. chorava os mortos do seu interno. mas o olho aberto era casto e via no matar um gesto beato. lampião atrás dos óculos sentia-se acrescido. lampião ao habitar-se nos dois olhos a eles dividia: o olho aberto matava e o outro se arrependia. lampião ao habitar-se no olho cego 22 | João Pessoa. camões ao habitar-se no olho cego polia as palavras e usava-as absorto como se apalpasse e possuísse o próprio corpo.

o cuba-libre nos prendia. João Pessoa. e em barris de carvalho o tempo envilecia. cuidadoso. atos falhos sequer os ensaio. o papagaio era calado. saía do seu interno. Camões escrevia com o olho cego por senti-lo mais seu do que o olho aberto e por poder o olho cego infiltrar-se. (no tinteiro das palavras em forma líquida juntam-se uma a uma à retina. camões molhava a pena como se no tinteiro molhasse o olho cego e tateando. avenida dos tabajaras os tabajaras depuseram as suas setas no arco das esquinas privaram-nas de velocidade no arco das esquinas puseram-nas em repouso no arco das esquinas no arco das esquinas as setas fluem o tráfego mas congestionam e desorientam o antigo menino da avenida dos tabajaras menino antigo de um tribo cuja aldeia ainda não era tão global Geração 60 A Carlos Aranha e Walter Galvão a carta branca do montilla não era de alforria. mas os meus atos falhos encenam-se assim: eles já no palco e eu ainda no camarim.POESIA os óculos lhe eram binóculos íntimos sobre a miopia e quando os óculos tirava lampião se decrescia: o olho cego somava e o aberto diminuía. ir mais dentro e externar o seu inverso. à pupila). setembro de 2010 | 23 A UNIÃO .

. a vagareza do meio. as latas de bombons enferrujadas.cantava às vezes uma musiquinha insistente.. que parassem com aquele jogo a noite toda.. ô caboclo perigoso!" ou insistia por horas na mesma palavra. Perseguia-me. setembro de 2010 A UNIÃO . os parceiros se revezavam até sumirem de vez.. ENTRE OUTROS. o começo incisivo.inédito O jogo de damas PEDRO SALGUEIRO * H 6 á cento e trinta anos jogava aquela partida. O silêncio doía.. imitava-se com a dama riscada na areia e nos enraivecíamos por as pedras de cacos de telha não chiarem no tabuleiro do chão. Acendi mais uma vela. contudo. é um mistério que estamos levando para o túmulo.e o vizinho contava de novo que o viram jogar. E apenas um mundo girava em seu eixo naquela tarde morta em que os únicos ruídos eram o trovejar das moscas no saco de açúcar e o arrastar das pedras no vidro.. I *ESCRITOR CEARENSE. cantarolando a mesma palavra a madrugada inteira.. rumando para o final nervoso de horas depois.. os cães ladrando insistentes.. sem coragem de ir vê-lo: a rua deserta.. Jogaria o tabuleiro no cacimbão ou o quebraria a marteladas. acendi as velas... o bater de pedras invadindo o mercado e assustando quem passava desligado pelas calçadas àquela hora da noite. conto . irritado com alguma demora do adversário . . Comentários. PUBLICOU O PESO DO MORTO (1995). o tac-tac das pedras no tabuleiro de vidro nos invadia os ouvidos e nos atraía pra lá. os filhos e netos os sucediam e tornavam a envelhecer. mas homem.eu pequenininho e fugia da oficina de meu pai e maquinalmente corria à mercearia do avô... 24 | João Pessoa. só os dele. onde já divisava. O ESPANTALHO (1996). até os grilos pararam. não dormi a madrugada inteira. .. a jogada já não era a mesma da noite passada. rezei meu terço.. abandonara para sempre o baú velho em que fora esquecida. mas homem.. movi a minha pedra. caboclo. até o limite da exaustão: " ." Madrugávamos com o reco-teco das pedras no tabuleiro da cabeça. enquanto ele permanecia ao pé do balcão. sentados a um canto.abri de chofre a tampa e. BRINCAR COM ARMAS (2000). fazia tempo.caboclo. quando ganhava folgado: ".o tilintar dos dedos da mão esquerda continuava a fazer sulcos na madeira: os parceiros teimavam em desaparecer. e nunca as vimos por dentro. eu comecei a chorar e rezei três terços e acendi duas velas em cada canto da sala. Disfarçando.. Na madrugada em que vieram me avisar que ele jogava à luz de candeeiro na mesma mercearia virada para o nascente. no mercado.mas homem. sem sossego. no resto da tarde. ela estava gravada. Agora o bisavô do meu vizinho vinha insistir que o deixassem descansar.. na lembrança... entre casas de aranha e poeira. pelo lado de dentro: somente ele sentado ..decidi abrir o armário antigo. pensei em quebrar a dama empoeirada e não tive coragem. fingíamos nem ligar... há décadas fechado. fechei o armário num supetão. . de longe.

mesmo quando indefinível e obscuro. não raro. símbolos. interpretativa e apreciativamente as obras literárias que se amoldam a tal categoria. Literariamente se confunde com a ficção do pitoresco. a exemplo do sertanismo ( José de Alencar. embora possam fornecer relevantes subsídios documentais. É destacada a região o bastante. em Instinto de Nacionalidade: notícia da atual literatura brasileira (Novo Mundo. cujas condições se refletem no seu conteúdo. No sentido geral. o critério a ser privilegiado nesses casos é o critério estético. no século XIX. linguagem etc. do exotismo e do folclórico. pois o espaço/ ambiente. tende para uma concepção programática de fundo cultural. Nessa clave. parece prevalecer o critério geográfico e ecológico. redundando. político e ideológico.). tão cara à poética romântica. do gauchismo (Simões Lopes Neto) e do regionalismo nordestino de 30. o regionalismo se volta para o típico e o peculiar a uma região (ethos. New c João Pessoa. o regionalismo pode ser entendido num sentido geral e num s e n t i d o r e s t r i t o . No sentido restrito. Afonso Arinos). já revelava lucidez diante do problema. por exemplo. setembro de 2010 | 25 A UNIÃO . Nesta acepção. fisiografia. Na verdade. em textos de pouca valia estética. o que pode gerar sérios equívocos no ato de apreciação das obras literárias.O Regionalismo e o Escritor Contemporâneo Hildeberto Barbosa Filho* G 6 rosso modo. Face à questão da nacionalidade. toda obra seria regional. ao afirmar. o regionalismo diz respeito às obras que têm por fundo uma região. é elemento intrínseco à estrutura narrativa. descritiva. conferindo-lhe uma nota especial. Machado de Assis. influindo substancialmente no quadro. Ta n t o a h i s t ó r i a quanto a crítica literárias se aproveitam de ambas as s i g n i f i c a ç õ e s p a r a a b o r d a r. da literatura do Norte (Franklin Távora). tipos. do caboclismo (Valdomiro Silveira). da cor local. Nesta ou naquela perspectiva. Não se confunde com uma simples moldura. tanto aquelas em que a ação se desenvolve ensaio na zona rural quanto aquelas em que a ação ocorre na zona urbana.

mas da validade estética. conferindolhe uma nota especial moderno e contemporâneo. PORTINARI c York. ainda podemos falar do regionalismo em suas fases históricas: romântico. seu processo c A UNIÃO . ou seja. antes de tudo. 26 | João Pessoa.“OS RETIRANTES”. Não discuto a validade do conceito do ponto de vista científico (histórico. Aplicado às obras literárias. (Quanto a este último. O que se deve exigir do escritor. mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. aqueles ingredientes que a tornam uma obra de arte. econômico e geográfico). 1873): "Não há dúvida que uma literatura. cujas condições se refletem no seu conteúdo. 202). realista. Rio de Janeiro. setembro de 2010 Regionalismo diz respeito às obras que têm por fundo uma região. sobretudo uma literatura nascente. p. sim. Civilização Brasileira. o conceito me parece redutor. conforme exige George Stewart. Dentro das implicações semânticas. ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço". é certo sentimento íntimo que o torne homem do seu tempo e do seu país. Redutor porque se recusa a contemplar o ponto seminal das obras literárias. referido por Afrânio Coutinho na Introdução à Literatura no Brasil (10 ed. deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região. mesmo àquelas que têm como região a zona rural e dela tiram sua substância real (fundo natural e humano). talvez fosse melhor dizer atual).

numa passagem de Sentimento e Forma. Direção de Sílvio de Castro. não é ela que importa. espantado.o que está alheio a si. "ao erigir o homem como eixo de suas narrativas". e como todo estereótipo. a forma. Criação & Crítica. Mais que a paisagem. 335). da literatura. o medo. o texto vai formando um espaço possível (outro. a semiosi. É um estereótipo. secundando-a. justificar teorias. e como todo estereótipo. ainda no primeiro capítulo. exatamente aquilo que pretendemos com o nosso informar. a natureza da vida humana em si". num trecho de Sob o Signo do silêncio (São Paulo. injusto com uma criatura em que tudo era puro? Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético. independente do contexto (espacial e histórico) e das situações vividas e representadas. Perdido porque ficou para trás? Perdido porque se tornou perplexo. arredio.) se deixar induzir ao engano de supor que o autor pretende. 36): "(. cabe muito bem as palavras de Suzanne Langer. É um estereótipo. existencial e humano. retomando uma ideia de Borges. 2000. como busca". e O Estrangeiro . dando-me banhos e me vestindo. O que importa é o elemento humano. E o que dizer das últimas palavras: "Menino perdido. a ausência do carinho materno que conformam e formam a personalidade do personagem (sua singularidade). apenas quer encher o mundo de imagens". banal. a literatura é mais modesta. para me valer de um termo barthesiano. 86/87): "Não há por que querer. ensimesmado? Perdido porque se fez ruim. Por sua vez. 3.. p. mas um romance de formação (‘bildunsgroman’. e vejo-a assim. penso que a ele. portanto). isso é dito em função de uma rigorosa e arguta análise comparativa entre Vidas Secas . o que lhes confere estatuto universal característico da autêntica obra de arte. safado? Ou porque perdeu. p. a solidão. sabido. de Zé Lins. Ora. importam motivos temáticos como a morte. no fundo. por parte da crítica literária.. nas palavras de Eduardo Coutinho ( História da Literatura Brasileira.) A morte de minha mãe me encheu a vida inteira de uma melancolia desesperada. os tipos e o imaginário social do mundo do engenho (a particularidade)... transfigurados pelo gênio do autor. é falso. quando nesse espectro existem muitas obras que não poderiam se enquadrar tão limitadamente nesse paradigma. histórico ou filosófico. não toca no principal. Por que teria sido com ela tão injusto o destino. banal. a experiência de leitura. por seu uso de palavras. Assim. (. ainda tomando conta de mim. Alfa. prejudicando. em suma: falar às pessoas. Mais adiante. assinala (p. como a qualquer romance bem realizado como romance. comentar. iluminada leitura que passa ao largo dessa controvérsia menor: o regionalismo. naquilo que é universal. os costumes. A pecha de romance regionalista se tornou comum. que vem mediar tudo . de Graciliano Ramos. como dizem os alemães). com as cores que tiro da imaginação.a verdade da geometria ou da h i s t ó r i a s e r e s s e n t e dessa mediação -. é falso. Exemplo: o chamado regionalismo nordestino para definir a ficção dos anos 30/45/56. deforma a visão de quem assim o vê. por parte da crítica e da história literárias. juntamente com mathesis e mimesis. enfim. afirma Lourival Holanda. Vol. A história de Carlinhos não é a crônica de costumes de uma sociedade patriarcal. continua o narrador: "Horas inteiras eu fico a pintar o retrato dessa mãe angélica. isto é. completamente formada e inteiramente expressiva de algo mais fundamental do que qualquer problema ´moderno`: o sentimento humano.EDUSP. pretende criar uma experiência virtual. contudo. São sintomáticas as primeiras palavras do narrador ("Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu"). Trabalhando com a linguagem. c João Pessoa. E no último capítulo. a loucura. meio atormentado de visões ruins". camufla aspectos significativos. em que a experiência da morte e das perdas se faz essencial. se a literatura toma outro código. Alcançando apenas elementos singulares e particulares. usado em Aula(1977). É claro que a região é fundamental na constituição do enredo e do personagem Carlinhos (menino de 4 a 8 anos). e camufla aspectos significativos século XIX. inquirir.c de elaboração artística. será sempre enquanto código segundo. Col. veracidade.. setembro de 2010 | 27 . estruturalmente. Portugal. enquanto se vai formando. assim.. porém. de um engenho da zona canavieira da Paraíba na segunda metade do A UNIÃO A pecha de romance regionalista se tornou comum.) a filosofia pretende provar. confessar. A minha memória ainda guarda detalhes bem vivos que o tempo não conseguiu destruir. se ouvirmos a exigência do étimo latino: alienus . teve perdas? A história das perdas não seria a história de todos nós? Relendo Menino de Engenho numa outra perspectiva que n ã o a d e s i m p l e s r o m a nce regionalista. "O Verbo Inviável". Seria aliená-la. menino de engenho". É preciso observar que o autor transcende o caráter regionalista. de Albert Camus. ao afirmar que consiste num grande equívoco "(. Vou citar o caso do romance Menino de Engenho. Um romancista.

o seleiro sai livremente a caminhar pelo campo e.. estribado em argumentos de Lucien Goldmann. POETA.torna José Amaro estranho ao mundo familiar das terras de engenho descritas por Lins do Rego. virar senhor. criticando as nomenclaturas "romance social-regional" e "romance psicológico". nesses termos: romance de tensão simples. escorraçado. diz o povo. E conclui: "Triplamente ameaçador. de tensão interiorizada e de tensão transfigurada. Nem senhor. Em Fogo Morto. E mais à frente. nem negro. A busca de algo além das necessidades diárias . Gyorgy Lukács e René Girard. Seria apenas um pedaço de vida o que eu queria contar.) Na sociedade dramatizada por Lins do Rego é ele o personagem passível de viver o movimento de transformação: virar negro. quando em nota à primeira edição de Usina (1936). setembro de 2010 Alfredo Bosi como que sinaliza para a precariedade do conceito de regionalismo. Alfredo Bosi.ou seja. (. a l i b e r dade conquistada e a solidão tomada pelo lirismo bucólico. a autossatisfação na comunhão com a natureza a d o r m e c i d a . se transforma em lobisomem. o seleiro vai sendo marginalizado. ENSAÍSTA E MEMBRO DA APL A UNIÃO . ao propor uma nova tipologia para o romance de 30 completa Silviano: "O lobisomem será triplamente excluído em Fogo Morto .. p. em sua História Concisa da Literatura Brasileira. Diria que o próprio Zé Lins tem consciência disso. andarilho. UFMG. I *PROFESSOR DO CURSO DE COMUNICAÇÃO DA UFPB. salientando: "(. Pouco a pouco. lobisomem". completa o narrador". VIDAS SECAS.) Sucede. triplamente excluído. .. temido. Ele questiona a propriedade rural. assinala: "A história desses livros é bem simples comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos. DE ALENCAR c Em "Ameaça do Lobisomem". 224/225) Silviano Santiago. texto de homenagem a Borges. E O SERTANEJO. esse lugar móvel é ocupado pelo seleiro José Amaro. ao propor uma nova tipologia para o romance de 30. porém. reflete acerca da condição do personagem José Amaro. DE GRACILIANO. resta-lhe a autoexclusão. como que sinaliza para a precariedade do conceito de regionalismo. 10 anos após a sua morte. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior".. O romance historia as várias fases da sua transformação em lobisomem e as respectivas consequências". que será expulso das terras do coronel Lula. o credo religioso e a organização familiar". 28 | João Pessoa.c EXEMPLOS DE OBRAS REGIONALISTAS: MENINO DE ENGENHO DE JOSÉ LINS. criticando as nomenclaturas "romance social-regional" e "romance psicológico". Suicida-se com a faca de cortar sola. de tensão crítica. ele retirou a nomenclatura de "ciclo da cana de açúcar". da comunidade pelo temor religioso do povo e da família pela raiva da mulher. Ao que acrescenta o ensaísta: "Em noites de lua.das terras pelo senhor de engenho. Veja-se também que depois dessa edição. inserto em O Cosmopolitismo dos Pobres (Belo Horizonte. ridicularizado.

o conhecido WWW. Frente a essa enorme multiplicidade de possibilidades. Segundo George Landow.0. sintagmas. no Agosto das Letras. em seu livro Hipertext 2. O que dizer. não podemos deixar de pensar seriamente no significado da web para o presente e para o futuro da literatura e da cultura. rudimentar ainda (calcada ainda mais em sua função fática do que poética). no dizer do escritorcearenseCarlosEmílioC. É através dela que nos conectamos com os sites. mas sujeita ao aprimoramento natural determinado pela própria necessidade de se exprimir. então. LANÇOU O LIVRO DE POESIA SORTILÉGIO E ORGANIZOU O LIVRO O QUE É POESIA? MANTÉM O BLOG HTTP:// SAMBAQUIS. recepção e estudos literários. a uma palavrinha que está na moda no meio virtual e que se configura como característica essencial dessa nova era. Não podemos ser só eufóricos ou. blogues e demais páginas com o intuito de divulgar. quando não desinformados sobre as implicações do tema. os textos não têm mais início.Lima. da literatura que. Tudo ainda é muito incipiente. I * FOI EDITOR DO SITE CAPITU E FUNDADOR/EX-EDITOR DO SITE CRONÓPIOS. É sempre muito rico discutir com os próprios criadores como a inserção de um novo suporte textual e de um novo meio de difusão alterariam práticas e conceitos já sedimentados no campo da produção/criação. capazes de permitirem aos navegadores que se movam livremente aí dentro e que nos colocam diante de uma nova máquina de ler. mas suas exigências se fizeram incontornáveis de alguns anos para cá. para discordar de Saussure. Chegamos. Tudo muito bonito e conceitualmente instigante. Intragáveis. Bem. Ele lembra que o próprio advento da impressão gerou uma interface padronizada e original com seus cabeçalhos. começaram a se voltar para a linguagem escrita estimulados pelo correio eletrônico. Sigamos em linha. sintaxe.html ]. dialoguei sobre o mesmo tema na Bienal Internacional do Livro de São Paulo com a professora Heloisa Buarque de Hollanda e os escritores Nelson de Oliveira. estão utilizandose da expressão literária. reacionários como Andrew Keen [veja http://sambaquis.COM A UNIÃO João Pessoa. melhor dizendo. não uma estrutura de significados. Aquestãosobreaexpansãodasnovastecnologias e sua influência na cultura deram as caras no século passado. Em última instância. a própria palavra é uma interface com o plano das ideias. Jovens educados e criados em um ambiente predominantemente visual. Mas. ou da cibercultura: o hipertexto.Apartemaispopulardesse processo é a World Wide Web. passa a ser efetivamente uma galáxia de significantes. como nos mostrou as experiências do psicólogo Wolfgang Köhler registradas em seu livro Psicologia da Forma. e podemos observar no ciberespaço. pioneiro nos estudos que denominou de cibercultura.namesmarede. são irreversíveis e possibilitam acesso por diversas entradas das quais nenhuma poderia ser autoritariamente declarada única.como bem nos lembra o filósofo Pierre Lévy. os textos criados com essa intenção ainda são muito chatos. então. As reflexões continuam. De um modo geral. Também no mês de agosto. a literária.tecnologias-yescrituras. como declarou em nosso diálogo a professora Heloisa Buarque de Hollanda (arrancando risos de todos). Não é mais possível ter uma opinião simples e unívoca. setembro de 2010 | 29 . para dialogar com o escritor Marcelino Freire e o professor Amador Ribeiro Neto sobre Literatura e as Novas Mídias. como queria Roland Barthes em suas análises da escritura. facetas e eventos. morfologia e conotações ganhou em importância. a escrita impressa e a linguagem habitual do livro. O computador e o campo de significações da Internet são todos colocados no mesmo saco.não deve ser limitada às técnicas de comunicação contemporâneas. das informações e dos sentimentos e. saturados de imagens e ícones da cultura contemporânea. inesperadamente.blogspot. que faz de cada leitornavegante um editor em potencial redirecionando os paradigmas que balizavam as antigas formas de produção e recepção de discursos.cria"cinemas mentais" em fluxo não linear de várias dimensões? Com o advento da linguagem digital.Literatura e cultura em tempos digitais Edson Cruz* E stive em João Pessoa.BLOGSPOT. que a rigor é apenas a interface gráfica da Internet. MSNs e outros diálogos entre suas comunidades sociais. numeração regular e referências cruzadas.com/2009/04/o-cultoao-amador-e-aos-amantes.ca/sesion1.html ]. de criar ou apenas de nos relacionarmos. Esse tema me persegue há alguns anos e resolvi imergir com coragem e olhos livres em suas águas. A noção de interface . digo eu. Os que chegaram à fase do consumo de informações na última década. mas não vamos jogar o bebê juntamente com a água do banho. feita de letras. Blocos de informações conectados por meio de elos ou links. nessa baliza. o que observo é que todos ainda estão muito céticos. O texto. por bem ou por mal. ao contrário. não totalmente arbitrária.com/ ] e observar como anda a discussão (mais adiantada do que por aqui) pelo mundo em Literatura tecnologia da escrita [www. sítios. páginas de títulos. enquanto signo. Micheliny Verunschk e Andrea Del Fuego. Vamos atentar para as experiências feitas no site DreamingMethods [www.dreamingmethods. ou simplesmente descartar o tema.

Ari Barroso. Neste mesmo ano nascem Clementina de Jesus. setembro de 2010 música . Surgem novos padrões de fazer canção. Geraldo Pereira. Orestes Barbosa. Lotou o berçário com músicos-bebês. Gente que compõe. Nossa música se profissionaliza comercial e esteticamente. Felizmente. Carlos Galhardo. Parece que Deus estava mesmo querendo ouvir música popular de alta qualidade. Período: 1929 a 1945. Afinal. Alberto Ribeiro e Armando Marçal. O público amplia. Leu. A "Época de Ouro". O padrão de qualidade continua em alta. Picarescas. Marília Batista. Sapequices. Foi certamente pra elogiar esta malandragem que Noel escreveu: "tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia / é brasileiro / já passou de português". arranja de um modo muito especial. Lamartine Babo. Wilson Batista. O malandro colou ao jeito brasileiro de ser um modo brasileiro de falar. escreve. Almirante. Mário Reis. c A UNIÃO 30 | João Pessoa. Gente como Moreira da Silva. Que permanece como paradigma da boa música. Espertezas. Carmen Miranda. o malandrésimo Kid Morengueira. Alcebíades Barcelos. Nasce muita gente de peso. E não somente na cultura popular. tocando cantando neste período gente como Noel Rosa. O mercado cresce. estão compondo. Sorte nossa. É aí que desponta aquele samba que de repente dá uma paradinha. Carlos Cachaça. Tanto no tema como na forma de contar. sob esta perspectiva. A MPB desta "Época de Ouro" cria um padrão de qualidade. Macunaímicas. Coisas marotas. A malandragem tem sido a dominante em nossa cultura. Vadico. Entre outros. Deu origem a uma das mais férteis fases de nossa música popular. João de Barro. interpreta. musica. Este pessoal veio se juntar a outros nomes. E o cantor começa a falar. Com o advento do rádio e do cinema falado a música popular encontra novos meios de difusão. Assis Valente. Antônio Cândido sacou bem isto.A malandragem da ginga falada de Kid Morengueira E 6 Amador Ribeiro Neto* m 1902 a MPB pega um gás danado de bom. Falar o quê? Quase sempre malandragens.

Fome. Moreira da Silva vivenciou a malandragem. A partir daí faz planos habituais e mirabolantes. Virou estilo. que obrigava o intérprete sambista a criar uma pausa. é sem dúvida alguma seu maior intérprete. já em 1929 Sinhô compôs "Cansei". Recorte modelar de nossa cultura. Segundo José Ramos Tinhorão. Morro. Kid Morengueira leva o samba de breque ao sucesso. com "Acertei no milhar". Com a manha do malandro talentoso. Conto do vigário. Fantasia comprar-se o título de barão. passa a ser conhecido como de samba de breque.I *POETA. Preencheu o espaço musical da pausa com falas coloquiais. geralmente bem humorados. High-society.c o romance Memórias de um sargento de milícias. Mais tarde em 1931 a dupla Ismael Silva e Nílton Bastos tornou obrigatório um breque após a segunda parte dos sambas que compunham. Kid Morengueira não somente aproximou a fala da palavra cantada: assegurou espaço pra fala dentro da canção. E divulgador. Era o início do processo. PROFESSOR DO CURSO DE LETRAS DA UFPB. com paradas súbitas para comentários. Temas deste intérprete. Elegeu-a como performance artística. AUTOR DO LIVRO BARROCIDADE João Pessoa. Jogo do bicho. Se Moreira não é s e u i n ve n t o r. Fez isto em 1936 com "Jogo proibido" de Tancredo Silva. Em 1940. Ele não foi o criador do samba com ginga marota. setembro de 2010 | 31 . A alegria dura pouco: a mulher o desperta para ir pro trabalho. é sem dúvida alguma seu maior intérprete. Preencheu o espaço musical da pausa com falas coloquiais. Gafieira. Imagina saldar a conta do armazém. conhecido como samba de breque. Futebol. Se ele não foi o inventor do samba de breque. O jeito agradou. Perseguição policial. Estava dado o passo definitivo do que viria a ser o samba de breque. E divulgador sincopado. Moreira da Silva radicalizou a parada melódica. A partir de então o ritmo A UNIÃO Moreira da Silva radicalizou a parada melódica. A música conta a história de um sujeito que acerta na loteria. de Wilson Batista e G e r a l d o P e r e i r a . Belo ensaio.

mas foi pela boca que o capeta entrou no meu corpo e passou a viver agarrado às minhas tripas. ESTE CONTO FOI PUBLICADO EM SEU LIVRO FALO DE MULHER (2002) 32 | João Pessoa. era casada com Alcides e tinha uma filha linda e loira como todo mundo. sentei-me à mesa que ainda estava posta e comi o resto de todos os pratos. Casou-se novamente e teve outros filhos. setembro de 2010 A UNIÃO . mamãe desatou a comer. Casou-se com mulher magrinha e bonita. destes que andam pelas ruas de mãos dadas trocando segredos e agrados o tempo todo. não suportando vê-la naquele estado. Nossa única filha era loira e bela como o pai. Vendi a casa onde morávamos. Nossa casa vivia cheia de gente. Alcides trouxe Nereu para jantar conosco. foi embora de casa. Ele logo se tornou íntimo. Pedi que ele não me tirasse o único prazer que me restava na vida. Mandei fazer umas camisolas imensas de algodão e passo o dia com elas. Depois de sua morte. AUTORA DE VÁRIOS LIVROS. foi-se o emprego. onde conheci Alcides. Foi-se o marido. No café da manhã devorei dez pãezinhos com leite condensado. Alcides fez as malas e foi embora. mas mamãe jamais permitiu. foram-se os amigos. exatamente como minha mãe. Do emprego fui demitida por telefone. Uma noite. Papai trancava a comida nos armários. Meu pai. Um dia ela também começou a comer e não parou mais. finjo que não é comigo. Só me levanto para ir ao banheiro. Vivíamos indo a bailes e andávamos de mãos dadas trocando segredos e agrados o tempo todo. Salvei minha filha. No final. Certo dia. De um dia para o outro. minhas noites tornaram-se silenciosas e eu pude finalmente cuidar da minha vida. Eu colocava travesseiros aqui e ali para que as dores diminuíssem. Mamãe morreu antes dos cinquenta anos. com quem me casei. mas ela os arrombava berrando a quem quisesse ouvir: não me tire o único prazer que me resta na vida. tinha dores insuportáveis que a faziam urrar a noite inteira. comprei outra menor e arranjei um ótimo emprego. nunca mais vi ninguém do escritório. talvez um psiquiatra. depois que ele se foi. Alcides sugeriu que eu procurasse um médico. Eu adorava receber seus amigos. A lembrança que tenho deles é de um casal feliz. mas engana-se quem pensa que minha história é igual à história da minha mãe. destes que dormem no sofá da sala e acordam cedo pra acender a churrasqueira. Eles ainda se lembram do tempo em que eu trabalhava fora. Em poucos meses dobrei de peso e não saía mais de casa. Fiz questão que ela fosse morar com o pai. Hoje mais pareço uma baleia comendo dia e noite sem parar em frente à televisão. Insistia para que eu fosse morar com ele. Percebendo que havia algo errado. Alcides era um rapaz bonito e alegre.“LA MAYA DESNUDA”. DE BOTERO Adélia Ivana Arruda Leite* E 6ficção stá escrito no evangelho: mal é o que sai da boca do homem e não o que entra. Os vizinhos todos comentam meu estado. Por enquanto ainda consigo. *ESCRITORA. O difícil era dar banho naquela mulher imensa que já não levantava da cama.

rapidinho. e se apaixona pela filha da senhoria. o roteiro não tem a "tempestade e fúria" esperadas e. de propósito. o casal não se entende e até se antipatiza: dedicada à moda. Keats é avesso à moda e ao que ela implica de etiquetas. o filme conta uma fase da vida do grande poeta romântico. tragicamente apaixonada fora do casamento. reconstituição de época detalhada e muita citação literária. com ritmo linear. a presença da poesia de Keats no cinema é mais ampla. narra a estória de uma forma que. sem o último termo. Bem. Um poeta romântico vivendo um grande caso de amor. vira . pode soar monótona. Com o título de um dos sonetos de Keats. disciplina imperturbável. completando o verso com a palavra ´romance´. claro. nem tanto: quase rotineiro.paixão. entregue à literatura. Desencanto (1945). c João Pessoa. isso deve ser algo avassalador. setembro de 2010 | 33 A UNIÃO . mas está num local prosaico e vulgar: a revista de palavras cruzadas desse fleumático e bem-comportado senhor.ABBIE CORNISH E BEN WHISHAW INTERPRETAM KEATS E FANNY EM BRILHO DE UMA PAIXÃO. Pois quem acaba de dedicar ao poeta de "Hyperion" um filme inteiro é a cineasta neozelandesa-australiana Jane Campion. atenção. A cena está no hoje clássico melodrama de David Lean. de quem quase não ouvíamos falar desde o seu perturbador e badalado O piano (1995). incompleto. Aos poucos as divergências vão dando lugar a uma amizade que. "Bright Star" (`Rútila Estrela`. e justamente o que não falta na vida dessa esposa infeliz. O verso é do poeta romântico inglês John Keats (1795-1821). Quem lhe decifra o enigma é a esposa. quando era pensionista na mansão dos Brawne. mas. Fanny não é afeita à poesia. FILME CONCEBIDO PARA AMANTES DE POESIA Rútila estrela João Batista de Brito* “E normes e diáfanos símbolos de uma grande estória de amor" (´huge cloudy symbols of a high romance´). pompas e frivolidades. e. mas. o incidente não é nada gratuito: romance é o que falta na vida desse maridão acomodado.como mantém o título brasileiro do filme . De início. para o espectador não interessado em literatura. no filme de Campion. no Brasil: Brilho de uma paixão). a jovem Fanny.

Nascidos em torno dos anos 1770. o filme é uma dádiva. a sua poesia se destaca pela condensação original de três elementos distintos: o forte sensualismo. se assim não for. Wordsworth e Coleridge formaram a primeira geração. Diríamos que. fazer só isso. se revezam na recitação de um dos poemas mais imaginativos do poeta. esta toda ao som de um dos mais celebrados poemas de Keats. Depois da notícia recebida do falecimento do poeta em Roma. e a questão é: quem foi John Keats? O filme de Campion nos mostra um Keats doméstico. para esse espectador uma questão antecede o problema das citações. assim como Fanny costura os seus tecidos (lembram que o primeiro presente ao amante é um bordado para travesseiro?). instado a recitar poesia na sala de visitas dos Brawne.o já referido Romantismo. identificado pelo título. a narração intromete poesia em tudo. ilumina mares. ("Quando temo. Enfim. agora verbalizando exatamente o poema que fora especialmente escrito para ela. mas uma dentro da outra. Na Inglaterra houve duas gerações de poetas românticos. I *CRÍTICO DE CINEMA. o roteiro costura as cenas com e a partir de palavras poéticas. Sim. nas últimas décadas do século XVIII e primeiras do século XIX . iluminar para sempre os seios da mulher amada."para saber se Keats era idiota ou não. melhor morrer. tentando entender poesia. William Wordsworth. seu nome consta como um dos poetas mais importantes. Isto tudo para não esquecer que. sintomaticamente. a profunda reflexão filosófica e a extensiva imaginação clássica. o famoso verso "a thing of beauty is a joy forever" (´uma coisa bela é um prazer eterno´). em todos os tempos e em todos os lugares. poemas completos. privado. mas." E vejam que a recitação poética se estende até a exposição dos créditos finais. belo e misterioso "La belle dame sans merci" (´a bela dama sem piedade´).para voltar à abertura desta matéria . No texto. celebra o gosto comum pela poesia. não viu. o famoso. mas. Depois disso. talvez um índice do destino do poeta. melhor não surgir. Depois da sua morte. ao longo do filme inteiro. Keats o faz com o soneto que começa "When I have fears. se não for isso. a sua obra é descoberta pelos contemporâneos e. Uma trágica estória de amor como as muitas que o cinema já contou. como visto. Sem isso. a qual viu nascer e morrer a segunda. aliás.. ainda no começo do filme. IMAGENS AMADAS A UNIÃO . Keats nem sonhava em ver o seu trabalho literário reconhecido. da mesma tuberculose que matara o irmão mais novo. definira a poesia como "a spontaneous overflow of powerful feeling" / "explosão espontânea de poderosa emoção". o que dificulta mais ainda a situação do espectador não-familiarizado com o assunto. para poder. não chego a lugar nenhum. como ela. para apreciar Brilho de uma paixão.segundo a irmã menor de Fanny . formada pelo trio Byron. ao longo do filme inteiro então. com seu final infeliz. a primeira indicação de que Keats e Fanny se envolverão é.. poetas de vida breve. mas não conclui: após o segundo quarteto. soberana e eterna. e. pára e o espectador que conhece o poema sabe por quê: no dístico final está o anúncio de sua própria morte. Pois bem.. Cito alguns exemplos. ao mesmo tempo passivo e ativo. de um grande movimento artístico que eclodiu. isolado. desde então. Mas. a fonte romântica não parou mais de jorrar. este se apressa em afirmar que "a poesia surge como folhas às árvores. é. o mesmo do filme de Lean). no filme. e. superadas as iniciais divergências. Numa cena de amor em que o casal. ora.c Para quem conhece a poesia de John Keats.daí a sua ênfase em duas coisas diferentes: a emoção e a Natureza. denomina o filme de Campion. é do dado da importância dessa poesia que o espectador precisa. por mera curiosidade . montanhas e pântanos. Shelley e Keats. os dois juntos. Historicamente falando. ele é só . AUTOR DE DIVERSOS LIVROS ENTRE OS QUAIS.. por ela jogado na cara dele para dar a entender que lera o seu "Endymion". o mesmérico e encantador "Ode to a nightingale" ("Ode a um rouxinol") Nenhum desses trechos poéticos. mas também à industrialização nascente . na verdade.". O roteiro costura as cenas com e a partir de palavras poéticas. no entanto. antes de Keats. que. a sua obra era o eco. o poeta gostaria de ser a ´rútila estrela´ que. na Inglaterra. todos. setembro de 2010 Para quem conhece a poesia de Keats o filme é uma dádiva.. Em cena do filme em que Fanny. sem isso. Era uma reação ao racionalismo da Idade das Luzes. ou se for o caso. falecendo. mas. arrastarse pelos mesmos campos que antes palmilhara ao lado do amado. Ou se sonhava. quando Wordsworth publicou o seu "Lyrical Ballads". preocupado com o espectador eventualmente não-familiarizado com literatura. Keats e Fanny. 34 | João Pessoa. Mesmo enquadrada no modelo romântico. já formulado pelo pai do movimento. bem antes dos seus antecessores poéticos. o faz sempre com um sentido inventivo e tocante propriedade. Ao falecer. o "Bright star" que." É o preceito da espontaneidade. comprado. em 1821. com uma curiosidade: não uma seguindo a outra no tempo. sem se importar muito com verossimilhança ou fidelidade biográfica. a primeira manifestação romântica do mundo literário aconteceu em 1798. não apenas dentro do romantismo inglês. aos vinte e seis anos de idade. toma aulas particulares com Keats. ele não funciona muito bem. cá comigo faço o seguinte exercício mental: rememoro o filme. vemos uma Fanny desesperada. O filme foi de fato concebido para os amantes de sua poesia e.mais uma "estória de amor" cujos "enormes e diáfanos símbolos" se perderam em algum lugar indeterminado. tentando esquecer que conheço a poesia de John Keats e.. Dias depois da morte do irmão mais novo. E nada mais. na livraria da esquina. pelo menos até que as coisas voltassem a se acalmar com a chegada da pachorrenta Era Vitoriana.

poema inaugural do livro.eis-me devotado à leitura de Novos Poemas de Amor. ESCRITOR ANGOLANO JOÃO MELO.Novos poemas JOSÉ MÁRIO DA SILVA Para Eduardo Portella. espreitada pelo fantasma da morte e fadada. conferiu brilho ao referido conclave. No poema "Convite". amor destino e porto da felicidade possível. Novos Poemas de Amor põe-nos em face de um lirismo encantatório e portador de tonalidade acentuadamente solene. mas também em matéria existencial que dá suporte à condição humana: contingente. transforma as suas comoventes confissões amorosas em urgentes apelos ao seu interlocutor. angolanos também. daí a emergência de uma subjetividade que. se impusesse como um mundo particular absolutamente livre e incontaminado das impurezas da história. em cujos versos. em última instância. da Rede Paraíba de Comunicação e PEN CLUBE do BRASIL . nascido do consórcio solidário da Universidade Estadual da Paraíba. à sua amada. AUTOR DO LIVRO NOVOS POEMAS DE AMOR A coloração semântica delineada no corpo da linguagem poemática faz contracenar. amor utopia ameaçada pela tempestade que se abate sobre a c A UNIÃO 35 | João Pessoa. a espera sem pressa pelo amanhã e o ardente cultivo do agora. ora mais contidos. para bem além do puramente afetivo. admiravelmente. ‘ondas’. a vida e a aflição que cercam a ambígua. misteriosa e essencial tessitura do fruto amoroso. ora mais espraiados. por exemplo. jornalista e parlamentar angolano. a atmosfera neorromântica faz da natureza evocada pelos sememas ‘mar’. mestre A pós a conclusão exitosa do Primeiro Simpósio Internacional de Literaturas Africanas. pela instauração definitiva da eternidade. a experiência amorosa se configura não somente em temário obsessivamente perseguido e abordado por dicções distintas. Nesse patamar. à irredutível e ontológica solidão do ser. é o que se pode depreender dos subterrâneos simbólicos do texto e da fantasia poética engendrada por uma linguagem simples e ao mesmo envolvente. ponto de partida e de chegada das suas aventuras utópicas mais delirantemente acalentadas. que. ‘pássaros’. mas sim a testemunha silenciosa de um amor que se pretende atemporal. Em "Oferenda". o poeta parece anelar pela morte do tempo e. o enlace amoroso ganhasse estatuto cósmico. setembro de 2010 . amor desvelamento das camadas abismais do ser.Seccional da Paraíba . não o adorno bucólico de um cenário meramente protocolar. livro de autoria do escritor. amor epifania. transida entre a serenidade e o desespero. Amor alumbramento. cerne intransferível de um eu-lírico matizado por inescondível paixão. a crença e a angústia. ato contínuo. ao lado do poeta João Maimona e da ficcionista Marta Santos. ‘sol’. em cujo estuário. os dois últimos dísticos traduzem bem esse dialético modo de encarar o conúbio amoroso: "Toma esta angústia que cresce à medida da minha fantasia/ e faz dela uma promessa de fidelidade invencível e secreta/ Toma esta saudade que me aflige e faz crer na vida/ e aceita-a como a humilde declaração do meu amor". ‘areia’. João Melo.

uma vez mais. como se estivesse sendo reinventado "o próprio nascimento do mundo". por exemplo. nesses poemas. Atentese. por Haroldo de Campos. O acendrado confessionalismo. com o qual. fúria de amor. o faz com todos os ingredientes que enformam o panorama da boa literatura: trabalho com a linguagem e transfiguração das mais significativas experiências humanas. de vez que. coreografia de corpos no angustiado e fascinante roteiro da entrega sexual. transformado na privilegiada cartografia do desejo. Complexo e resistente às definições que se pretendem exatizantes. docemente/ violenta. como a querer evocar o balé dos corpos em fúria. de pronto. pois. Veja-se o "Soneto imperfeito". as mãos devassam "a curva exuberante e/ luminosa / por Deus desenhada/ no âmago do mundo". entrega e acendrado erotismo. Mas o próprio ato criador é fonte também de insuperáveis inquietações. que não somente aponta para o inevitável envelhecimento dos amantes.c cidade. ocupa relevante espaço na lírica de João Melo. italiano. sagrado e profano se interseccionam no exato instante em que o sexo feminino. I * ENSAÍSTA E PROFESSOR DA UFCG. Se o amor transcendente. princípio de vida e impulso vertical de um dos aspectos mais significativos do seu ser/fazer poético. eis as referências que emblematizam o poema Arco-Íris. O mundo desbordante da memória. cheiros e cores conferem nítida fisionomia a uma poética vigorosa que. e são sempre precárias. com Novos Poemas de Amor. no dorso dos seus heterométricos versos. Eis-nos no coração indesviável de poemas que exibem no motivo das mãos a base impulsionadora dos códigos e vetores que estruturam e conferem certeiro direcionamento à temática brilhantemente abordada. dentre outros que fazem parte do território lírico dos Novos Poemas de Amor. deslizando iconograficamente sobre a face branca do papel. o poema parece assumir-se como possibilidade remota de salvar o poeta das suas angústias existenciais. setembro de 2010 | 36 . lucidamente. apolínea e artesanalmente. sôfrego e alucinado. o poeta busca a (im)possível comunhão com o ser amado. Parece ser essa a razão primacial da tristeza que se abate sobre o eu-lírico no belo e coloquial "primeiro poema da ausência". a palavra foge. diante daquela concreção de toda grande linguagem poética. como também para a incontornável mudança que se opera em seu interior. as mãos se constituem na senha para o toque. Aqui. referida. recusando-se a ser o instrumento de canto. na tessitura lírica de João Melo. tendo já os seus textos sido traduzidos para o alemão. acercando-se da ancestral temática do amor. a percepção transcendentalizada com a qual o notável poeta angolano encara a realidade amorosa. mergulho do poeta no universo da criação literária. Aqui. "Desse encontro/ de todos os espíritos vitais/ se tece. A curva de Deus: sobre ela a mão/ A cabaça de hidromel/ Novos tambores / Viagem poética sobre o corpo da amada/. mas sim o coração dos apaixonados. vincada por uma nítida dicção bandeiriana. a terrível percepção da lacerante passagem do tempo. com a poesia e com o amor. Salta aos olhos. mais que discorrer sobre a realidade do erotismo. Parece haver. João Melo. A leitura de Novos Poemas de Amor é um feliz encontro do homem com a arte das palavras. Heraclitianamente. atingindo os densos patamares da literariedade. o que almeja mesmo é mostrá-lo num texto sobriamente elaboraA UNIÃO LIVRO MOSTRA ESCRITOR NO PLENO DOMÍNIO DOS RECURSOS EXPRESSIVOS do. O território urbano com as suas pluridimensionais formas de vida. tingidos por certas modulações surrealistas. Todo esse ir e vir de motivos. temas. ganha outros contornos que se vão delineando em cada peça do seu bem urdido e correlacionado jogo textual. semema a ratificar. A procura pelo indecifrável enigma da alteridade. aqui. ancoram-se. Impetuosas e ágeis. O rigoroso trabalho com a palavra. no qual. provido quase de ostensivas conotações místicas. não são apenas as águas do rio que incessantemente se modificam. "na hora deserta". para os ricos efeitos plásticos potencializados por uma linguagem que. no motivo das mãos. se abre para o acolhimento exasperado da voluptuosa experiência da paixão. A mulher e a detalhada cartografia da sua corporeidade. densa medi- tação existencial se desentranha do prosaico e aparentemente desvalioso chão do cotidiano. "Novos tambores". não menos presente se faz a vivência concreta e corpórea de um amor eivado de sensualismo e assumida eroticidade. amor finitude. inefável. Voltadas para o mapeamento do corpo da mulher. mandarim e húngaro. conforme apontado. uma poderosa e criadora comunhão do homem com o universo circundante. o amor. Outro recorte que se infiltra nos Novos Poemas de Amor ancora no porto da metalinguagem. para a construção do itinerário sem reservas que se percorre no corpo da amada./ essa beleza que ostentas/ tranquilamente sobre o tempo e/ a incrédula memória dos homens". AUTOR DE MÍNIMAS LEITURAS MÚLTIPLOS INTERLÚDIOS João Pessoa. A torrencialidade hierática de certas imagens impregnadas de alta voltagem surreal. é um poema que fascina pelo ritmo trepidante e crispado que o norteia. tons. desesperado. Estamos. esquiva. ratifica a superlativa condição de um escritor no pleno domínio dos recursos expressivos.

os livros selecionados pela prefaciadora: em Palavra. em Numeral/Nominal. CRACK (2009). Notar também que sua poesia tem diálogo incessante com a letra de música. Provavelmente o melhor de AFF. sem muito sucesso. O poema "agouro". que Drummond é um O resenha 6 poeta difícil. . Dispensável até. gosta de se definir). Vide poemas "Sensorial" e "Cidade Gráfica". O poema vai desaparecendo na página. definitivamente. Senti falta. A poesia de AA é a antítese da poesia de Armando Freitas Filho. A apresentação é quase que meramente poética. TAMBÉM É AUTOR DE CEGO ADERALDO (2010). quando o assunto é poesia visual. o livro mais recente. 3x4 (1985) ganhou o Jabuti. desenvolve o poema psicológico. de 2003 e em Raro mar. Em. Arnaldo Antunes é o mestre da semiótica na poesia brasileira. a poesia Concreta dos irmãos Campos. de 1997. Heloisa também fala da grande paixão que Armando nutre por Drummond. de 2 ou + corpos no mesmo espaço . sua influência maior. porém. assim como Armando Freitas Filho. POETA E RESENHISTA LITERÁRIO. parece um poema único. Arnaldo Antunes busca atualizar. Desde então. sua poesia obedece somente a um projeto indiscutivelmente pessoal. a selecionadora). A "palavra" parece traí-lo. dialoga com Longa vida. Concordo que Armando é realmente um poeta para poucos. o poeta deixa a desejar. Os livros seguintes. livro de 1975. Por sua vez.O ar de Armando Freitas e o ar de Arnaldo Antunes CLÁUDIO PORTELLA* educativo prefácio de Heloisa Buarque de Hollanda para Melhores Poemas Armando Freitas Filho é passional. de 1982. Tomo de empréstimo um pouco da passionalidade da Heloisa. são eminentemente Concretos. de 2000 (livro preferido HBH. é muito bom. não cabe no novo século. de 2006. Sem dúvida é o grande mestre da metapoesia brasileira. Os melhores poemas do livro são os que brincam com as palavras despertando os fonemas sintáticos. a pergunta é: Para quais leitores o poeta fez os poemas desse livro? Armando Freitas Filho mostra um refinamento formal que o distancia do leitor. Em Números Anônimos (1994) volta a dialogar com Longa vida e 3x4. Mas. Busca uma proximidade do leitor em De cor (1988) e Cabeça de homem (1991). À mão livre (1979). AUTOR DOS LIVROS BINGO! (2003). De corpo presente. Nada a dizer. Dual e Marca Registrada . onde o poeta parece não abrir espaço para uma discussão generalizada do mundo. sempre foi. No livro seguinte. o livro de estreia. Mas discordo que Drummond seja um poeta "encrencado" (palavra com a qual AFF. Demarcada influência também de Décio Pignatari e Cassiano Ricardo. aqui factualmente. *ESCRITOR. como ela. O ar de Arnaldo Antunes O que tem de passional na apresentação de Heloisa Buarque de Hollanda para Melhores Poemas Armando Freitas Filho. em Fio terra. ou tudo. Drummond é mais popular do que Bandeira. Armando abriu mão de tudo pelo metapoema. Longa vida. tem de poético na apresentação de Noemi Jaffe neste Melhores Poemas Arnaldo Antunes. comento. há no livro uma seleção de inéditos. e. de uma última página onde o poema desaparece por inteiro. Se afasta do leitor novamente em Duplo cego. Linguagem poética que. começa a experimentar. O que Armando tem de "encrenca" (palavra usada pelo próprio AFF para definir sua poética) a de Arnaldo tem de "ordeira".

Na mesma editora saíram A Um Deus de Olhos de Graça."Não era o riso da dobrez [do fingimento]. Foi com este volume que Jorge Melícias ganhou reconhecimento dos POETA PORTUGUÊS É PESQUISADOR DA LÍNGUA. Jorge Melícias nasceu em 1970. fala das "raras qualidades de enfermeiro" de Fortunato: ". setembro de 2010 A UNIÃO . a verdade é que a sua poesia está muito longe do que é preconizado pelo grande nome vivo da poesia portuguesa. e após dias. mas não consegue demover Fortunato da idéia de tê-lo como sócio. no monólogo.tão bom enfermeiro. um riso autêntico expressão da alma. E aqui se desfaz o que se fez: a expressão feliz (e ambígua) de Maria Luísa ao saber. muito provavelmente. Porém. considera-se iniciação ao remorso . recusa inicialmente. torna-se claro o caminho que Melícias pretende c RODAPÉ MACHADO DE ASSIS E O SADISMO (5) Fortunato. Em iniciação ao remorso. em 1998. E o riso registra o narrador . conclui que a casa de saúde pode vir a ser "um bom negócio para ambos". irei convidá-lo". ainda preocupado (e mais ardiloso) em agradar Maria Luísa.. volta a dar vazão ao seu sadismo. na editora A Mar Arte. ser sócio de Fortunato na casa de saúde. A partir da edição de a luz nos pulmões. Jorge Melícias enquadrar-se-ia ainda nas tendências mais abrangentes da poesia portuguesa. Portanto. zombando de Gouveia. na mesma editora conimbricense.o que supõe. com primeira edição em 1998.. com o título Ahagahe . em 1995. ainda na CENA 6 do conto "A causa secreta". o mais arrojado projecto entre poetas lusocontemporâneos. um investidor -. finalmente. volta a falar do episódio enquanto "dedicação". em 2000. enquanto um préstimo de Fortunato. o seu primeiro livro. Assim. se algum dia fundar uma casa de saúde. E o jovem médico resiste. concluiu ele [Garcia]. se possa aproximar Melícias dos epígonos de Herberto Helder. o riso dele era jovial e franco". intensifica-se o seu jogo de interesses materiais na relação com Fortunato. da boa atitude do marido. cidade onde o poeta ainda hoje reside. por serem fruto de um tempo anterior ao do amadurecimento da sua escrita. o narrador no episódio envolvendo Gouveia). que. ALÉM DE SER TRADUTOR DE ISIDORE DUCASS E JOHN PERSE seus pares. Estes três livros estão hoje excluídos daquilo que o poeta considera a sua poesia reunida. A dobrez é evasiva e oblíqua. numa visão geral. no caso. registra o rápido monólogo de Garcia antes de decidir. Apesar de. Garcia. CENA 7: De início. e O Tempo do Foaron.XXI. sendo que o seu primeiro livro foi publicado em 1994.Luso-contemporâneos: Jorge Melícias LUÍS FELIPE CRISTÓVÃO* A poesia de Jorge Melícias é. como já informara. casa editorial responsável pela edição dos principais poetas portugueses na entrada do Séc. especialmente com a reedição do mesmo nas Edições Quasi. Garcia. dotando o seu discurso poético de um lirismo enquadrado numa temática pessoal e íntima. em recuperar a expressão feliz da mulher. O jovem médico já não se atrai apenas por um caso de 38 | João Pessoa. de Coimbra. de passagem. Daí é que a idéia de fundação da casa de saúde irá se "meter" na cabeça de Fortunato (um "capitalista" . pela narrativa de Garcia. Ou seja. rindo muito ao se lembrar dele.

em 2004. 2006) Trabalho a crueldade pelo lado da exuberância. em 2006. ordenava tudo. anulada diante do marido . *ESCRITOR E PROFESSOR DE LITERATURA DA UFPB. e curvou a cabeça". portanto. fica entre aflita e aborrecida. tendo em conta o efeito pretendido pelo poema. a ser tocado pra frente. a presença cada vez mais habitual de uma temática da violência. ao saber da fundação da casa de saúde. que Jorge Melícias tenha uma intensa actividade de tradutor de poetas como SaintJohn Perse. termos não correntes na linguagem nativa. como opção de enfrentar o mundo. Sobre ele edifico o método. que. 1998) Um nervo arrebatado à exactidão.pelo que até aqui foi mostrado pelo narrador acerca da natureza sádica de Fortunato. Melícias é um pesquisador da língua e utiliza. Há o propósito e o axioma implícito: a queda não é interceptável. Fundada a casa de saúde. Como se no confronto com a poesia em língua estrangeira. pela convivência. (a longa blasfémia. Chega-se ao crime pelo exercício da evidência (incubus. compras e caldos. em 2003. Em redor da mesa as mulheres que amam vão lentamente apodrecendo. que. ela "curva e cabeça" sem esboçar qualquer reação.c seguir. da "dor moral". (iniciação ao remorso. Não deixa de ser irónico. uma experiência de leitura radical e complexa. e incubus. Miriam Reyes. desgosto . 2004) Vi as crias à solta pela insídia. Aqui.e agora também "nervosa". pelo próprio "padecimento" de Maria Luísa ao pensar na proximidade do marido com os enfermos. diante de Fortunato. ainda. setembro de 2010 | 39 . padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas. está reunida no volume disrupção. pela editora Objecto Cardíaco. Segue-se a publicação de o dom circunscrito. que será aquela que lhe é mais distintiva. É perante a dificuldade que ele impõe ao leitor.é porque percebe que. tornando-se "o próprio administrador e chefe de enfermeiros". Melícias encontrasse uma delicada forma de lidar com o seu próprio acidente. de estudo da alma: há um "negócio" a ser gerido. acumulando com isso o facto de ser a que mais polémica tem causado entre os leitores portugueses. ler um poema de Jorge Melícias é uma aventura linguística extrema. poderá alimentar ainda mais o sadismo dele. Toda a poesia de Jorge Melícias. que está a beleza deste texto. António Gamoneda. Melícias tem apostado no poema curto e a sua poesia tem causado polêmica entre os leitores portugueses por utilizar termos não correntes na língua nativa Na minha opinião. mas não ousou opor-se-lhe. Para além disso. na sua poesia. ambos nas Edições Quasi. por um lado. 2008) Rinaldo de Fernandes* "decomposição de caráter". impondo ao leitor a decisão sobre traduzir (ou não) o poema tal como nos é apresentado. Isidore Ducasse. Se Maria Luísa "padece" com o fato de o marido ter contato com "enfermidades humanas" é porque. Como instigando a carne à vernação das goivas. Fortunato é abnegado. drogas e contas". Nesta última editora. se aplicando ao trabalho. Leonardo María Panero. onde a presença de cada palavra é pesada. Claro: tal aplicação às tarefas também é suspeita . que inclui ainda o livro agma. E ainda: "examinava tudo. (agma. que é um objecto ímpar da poesia portuguesa. Poemas cada vez mais curtos. Jorge Melícias assume também a direcção editorial. esse teste à resistência da poesia. JÁ PUBLICOU LIVROS DE CONTOS E O ROMANCE RITA NO POMAR A UNIÃO João Pessoa. de 2008. reprova a idéia: "Criatura nervosa e frágil. recortados de um invisível texto maior. se vale da dor física alheia e. A poesia de Jorge Melícias está dotada de uma outra característica. Assim. Sabe de seu profundo sadismo. Mas a maior parte da noite vigiam em silêncio para terem a certeza de que morrem. E há ainda Maria Luísa. Na fronte ostentavam a longa blasfémia. presume-se. I ALGUNS POEMAS Há sempre um homem só como uma torre de sal. se mostrar que "padece". ela já desconfia ou mesmo já sabe quem ele é. entre outros. raiva. e depois a longa blasfémia . Por vezes guincham e as pedras que seguram nas mãos abrem-se como têmporas. receosa. pela proximidade. Mais do que um epígono de Herberto Hélder. o reforço da imagem de mulher resignada. publicado pela Cosmorama em 2008. por outro. a poesia de Jorge Melícias ganha nessa opção de leitura sem tradução. E se.

que segundo o medievalista francês Pierre Bec correspondia a uma "discussão entre dois ou mais trovadores que defendiam respectivamente opiniões opostas. uma forma fixa de cantiga ou poema.inédito . a voz que narra nos esclarece ser nossa literatura e poesia "obra-prima de gigantes" fruto. não raro.42 apud CORREIA & VAN WOENSEL. Ao iniciar seus versos. é expor ao ridículo os opositores confrontados.(por se dar no céu) . relativas a uma determinada questão" (BEC.que aqui abordamos.83).de "arautos c João Pessoa. Marques. Comparativamente falando. da "herança fértil dos deuses". 1979.Confronto inusitado entre dois arautos da poesia de cordel Gilberto de Sousa Lucena* U m dos gêneros poéticos mais tradicionais praticados pelos poetas de cordel nordestinos continua sendo o conhecido por "desafio" ou "peleja". Esta modalidade de poesia popular remonta à tradição poética medieval e compreende uma "competição" em forma de diálogo quase sempre em tom de provocação entre dois ou mais poetas cujo objetivo. corresponde a uma insólita "tensão" ou "desafio" entre dois dos mais expressivos e conhecidos poetas de cordel nordestinos que nos dão bem a noção do que tal modalidade poética representa. O folheto de cordel . setembro de 2010 | 40 A UNIÃO . Isto para se referir à "peleja" inusitada . entre as composições dos trovadores medievais galego-portugueses há a chamada tensó (tensão). semelhante ao "desafio". p. p. da autoria do cordelista cearense F. 1998. à moda grandiosa dos clássicos épicos grecolatinos.

a partir daí. Desse modo. "canta com decoro") Patativa compara Zé Limeira. o poeta insinua haver outro lugar que se opõe ao céu (já que para nele se chegar "a peneira é maior"). Zé Limeira se apressa em apregoar que nessa "prosa" ele se garante pelo que fala. a noção de que céu e inferno traduzem ou sugerem também o sentido da "peleja". refuta o poeta Zé Limeira com estes versos: "Já convivi com ateu/ que de lembrar me dá dó/ só não pensei que. sendo capaz de até não se calar caso perca sua língua. No que ouve. segundo o poeta. um dia.e Patativa do Assaré (1909-2002). de um altivo Patativa: "Com seu verso não me entalo/ pois sou pássaro canoro". conhecimento e a "mais sublime visão" das coisas. Nesse "encontro inusitado". setembro de 2010 Folheto de F. Temos claramente./ A vida como ela/ é". De modo subliminar. levando em consideração a cor da sua pele. a "vasta sapiência do caboclo sertanejo" se faz presente em versos desafiadores que exigem de cada um dos bardos experiência./ Inda mais aqui no céu/ onde a peneira é maior". dom poético. em tom de superioridade. Pelo tom crescente de 41 | João Pessoa. orgulhosamente. Ao em seguida se identificar. Segundo o narrador. elementos indispensáveis "Para mostrar.c populares/ mercadores de emoção". A "peleja" propriamente dita entre os dois famosos "menestréis" começa na décima estrofe. no céu "não tem/ fariseu". que eu/ canto cá!".(uma ave rara de canto apreciável e que. Por se encontrarem no céu. onde se lê que "Um astuto Patativa" desafiou Zé Limeira com o verso: "Cante lá. corresponde a uma insólita "tensão" ou "desafio" entre dois dos mais expressivos e conhecidos poetas de cordel nordestinos: Patativa do Assaré e Zé Limeira confronto ou de desafio entre os dois personagens.o conhecido "poeta do absurdo" . uma situação que também corresponde ao contraste do teor do discurso poético entre os dois contendores. com o uirapuru . com a "graúna" ao afirmar que o "trino" do seu adversário é de "agouro". a resposta de Patativa é imediata e em forma de galhofa./ fosse encontrar um pior. segundo Limeira. O confronto toma rumos graves a partir da "resposta" de Limeira a Patativa do c A UNIÃO . Marques. à sua gente. protagonizada pelas extraordinárias personagens de Zé Limeira (1886-1954) . Patativa do Assaré tem que ouvir do seu desafiador: "Eu canto sem me / assombrar/ de gente que já/ morreu" e que ainda apela para que seu parceiro "Esqueça o rei na/ barriga" porque.

Pierre./ À mercê do sol nascente. De acordo com o Novo Testamento. setembro de 2010 | 42 . Apesar da exaltação de ânimos prevalecer na maioria das estrofes desta insólita "peleja". vive sofrendo.// Ungidos. Por sua vez. Paris: UGE ./ por isso. 1979. exposta ao ridículo e semeadora de todas as desgraças. Letras e Artes/ Universidade Federal da Paraíba./ Se a viola não/ resolve. Acreditamos ser este Encontro Inusitado de Zé Limeira com Patativa do Assaré significativa contribuição do poeta cearense F./ no resgate da cultura/ dessa gente tão honrosa. a figura do demônio representa o mal extremo. se constituindo fonte inesgotável de uma poesia que nos põe a par de inúmeros aspectos da cultura popular insultosa assertiva de que a "prosa" dele "é bem/ rasteira"./ Mergulhado nesta prosa. Francisco José G o m e s ( C h i c o Vi a n a ) & VAN WOENSEL. que é geralmente associado aos valores cristãos ou à humildade e simplicidade do mundo rural. Patativa continua o desafio mantendo-se aparentemente tranqüilo. João Pessoa. o agravamento da discussão vai estabelecendo para o leitor (que seguramente pretenderá muito conhecer o desfecho da contenda)./ Seu lugar é na caldeira/ que Satã já tá mexendo". Além disso. é "Judas" que para ele (Patativa) "Não é páreo". I Bibliografia : *BEC. É Patativa quem propõe que a viola os una. A partir daí o leitor é encaminhado para um desfecho amigável entre os dois poetas. Nada pode ser comparado à ação maligna do Diabo na mente do homem popular.10/18. é ditosa".c Assaré através dos versos: "Pra mim você é calouro. Pedro/ padece. no fundo./ não sabe o que tá dizendo. levando "o poeta do absurdo" a agora versejar em tom de ameaça ao seu desafiador: "Cê vai entrar pelo/ cano/ ou não me/ chamo Limeira. Pior ainda./ Quando entro/ numa briga. formado pelas primeiras letras que iniciam cada um dos versos (o que resulta em acróstico)./ Esses vates da história/ São ministros do saber". É bem provável que por sua indignidade e a carga negativa que o envolve Satã pôde provocar em um dos contendores a feitura destes versos: "O Diabo tá é/ querendo/ reparar o vil/ engano.possivelmente pela sórdida tradição que o envolve acabou sendo mal visto e banido do universo cultural popular. Satanás é um "anjo decaído" que tentou Nosso Senhor Jesus Cristo no deserto. chora e sofre. 1998. F. principalmente) como figura maculada. Anthologie des Troubadours. certificando-se de que Zé Limeira não passa de "um/ aprendiz" com "voz fina" de "atriz". uma forma de suspense./ Não fala coisa com coisa. Quase sempre Satanás aparece na literatura (de cordel. em plena glória. *MESTRE EM LITERATURA BRASILEIRA E DOUTORANDO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS DA UFPB. o bom senso passa a prevalecer a partir do momento em que Patativa do Assaré acorda para o fato de que está envolvido num "negócio sem fim" e reconhece que não quer "viver assim" pois a "eternidade é luxo/ somente pro Criador". Marques para que a poesia do cordel continue se perpetuando.torna-se comentarista do entrecho da sua própria composição. No âmbito da cultura popular.aquele tradicional personagem já presente no antigo teatro grego . O desafio poético entre os dois "trovadores" continua com agressões mútuas entre aquele que nunca foge da rima mas é acusado de fazer "grande/ mistura". sempre com o intuito de provocar ainda mais seu opositor. CORREIA. é a "entidade" que atenta contra a vida e as fontes que a alimentam./ Resplendendo a luz formosa/ Que transcende e faz viver./ Que logrou a/ baraúna/ nessa mudança de plano. Maurice J. alfinetando-o com a A UNIÃO De forma indubitável. De modo progressivo./ decido na/ bagaceira". reconhecendo que "Uma trégua é prudente" e "o pinho" lhe "cativa". O eu que fala no poema retira do embate poético entre os dois famosos "menestréis" nordestinos grande "lição" e conclui seu cordel com uma criativa estrofe destacando seu nome. a tradição da literatura de cordel permanece viva e a atrair admiradores. João Pessoa: Editora Universitária/Centro de Ciências Humanas. se defendendo ao afirmar não ser "nenhum/ paspalho" para "ouvir tanta/ tolice". Poesia Medieval Ontem e Hoje: Estudos e Traduções. a tradição da literatura de cordel permanece viva e a atrair admiradores. (Edições CCHLA). o poeta narrador do cordel como uma espécie de Corifeu . e ./ Que teima. Numa espécie de maliciosa estratégia. astuta. temos a seguinte conclusão partida do próprio poeta narrador: "Fico por demais contente. libertina. chegando a elogiar o trovador Zé Limeira considerando ser sua "presença altiva" na cantoria./ num terrível/ desengano"./ Agora. dissoluta. De forma indubitável. que acabam nos propiciando conhecimento e lições de vida. se voltando para o leitor a sugerir que "Essa aliança motiva/ uma parelha de prosa./ não gosto de/ tremedeira. se constituindo fonte inesgotável de uma poesia que nos põe a par de inúmeros aspectos da cultura popular. Assim./ Mas.

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