Correio Das Artes - Setembro 2010

6 editorial

Aruanda, jubileu de ouro de uma obra-prima

A

ruanda, de Linduarte Noronha, entrou para a história. Não só da Paraíba, onde se tornou referência decisiva às gerações posteriores que fizeram cinema aqui. Em todo Brasil também. Ninguém menos que Glauber Rocha, mentor e líder do Cinema Novo, deu ao filme paraibano o crédito devido. A fotografia estourada que revelava ao restante do Brasil uma realidade dura, serviu de régua e compasso aos que se aventuraram a fazer cinema em tempos de uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. No ano em que o filme completa o seu aniversário de 50 anos, apresentamos aos leitores do Correio das Artes, uma longa e inédita entrevista com Linduarte, concedida aos pesquisadores Vinicius Navarro e Fernando Trevas Falcone, em 1989.

No ano em que o filme completa o seu aniversário de 50 anos, apresentamos uma longa e inédita entrevista com o diretor Linduarte Noronha
A nova geração da literatura paraibana também comparece. O jovem poeta Daniel Sampaio exercita o ofício da tradução em “A Bela Toilet”, versão sua de um poema do norte-americano Ezra Pound. O também jovem Tiago Germano marca sua presença nesta edição. Analisa as ligações entre o seriado de televisão “Dexter” e o romance de Dostoiévski, Crime e Castigo. Curiosamente, o tema do

regionalismo foi motivo de uma dupla reflexão. Uma, mais abrangente sobre o assunto, feita pelo colunista Hildeberto Barbosa Filho e outra mais verticalizada, da professora Moema Selma D’Andrea, que se detém no exame dos contos do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito. Uma boa surpresa nos é revelada por Ronaldo Cagiano. Ele discorre sobre o romance Deus de Caim, do não muito conhecido Ricardo Guilherme Dicke. Quem também traz outro surpreendente autor é Luís Felipe Cristóvão. No dossiê sobre a literatura contemporânea portuguesa, tomamos conhecimento de um grande poeta, Jorge Melícias. Duas estreias completam a edição de setembro. Do escritor baiano Edson Cruz, nosso novo colunista, que escreverá sobre as relações entre internet e literatura. A segunda novidade diz respeito à poesia. A cada edição, pediremos aos próprios poetas que escolham seus textos preferidos. Quem dá início à série é Sérgio de Castro Pinto.

6 índice

,
CONTO

24 @

MÚSICA
A ginga malandra de

30 D

CINEMA

33 2

CORDEL

40

Um dos mais importantes ficcionistas atuais, o escritor Pedro Salgueiro publica um conto inédito, “O Jogo de Damas”

O novo filme da diretor Jane Campion, Brilho de Uma

Um inusitado encontro entre os poetas populares Zé Limeira e Patativa do Assaré em um folheto é analisado pelo pesquisador Gilberto de Lucena

Moreira da Silva, o Kid Morengueira, é o tema da coluna do poeta e professor Amador Ribeiro Neto

Paixão, é o objeto de
análise do crítico de cinema João Batista de Brito

Suplemento mensal do jornal A UNIÃO, não pode ser vendido separadamente
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ISSN 1984-7335 e d it o r . c o r r e io d a s a r t e s @ g m a il . c om http://www.auniao.pb.gov.br

6 eu

indico
Santa Joana dos Matadouros
Um crítico do teatro disse certa vez que Brecht “ofusca tudo ao seu redor”. Nada mais correto para ilustrar meu primeiro contato com sua Santa Joana. Para mim, o teatro jamais foi o mesmo depois de deparar-me com a ingênua Joana nas fábricas de carne enlatada e em meio ao (atualíssimo) jogo especulativo do mercado financeiro.

A Banda (The Band's Visit)
Vi esse filme quando estava estudando cinema em Nova York, e esse filme foi passado na academia para mostrar uma outra forma de contar uma história. O filme foi indicado para melhor filme de língua estrangeira, mas como ele é falado 75% em inglês foi desclassificado. O filme tem uma boa fotografia e uma excelente história. Uma das cenas memoráveis do filme é quando um integrante da banda ajuda como cupido a um garoto da cidade. Vale a dica!

Paulo Bio de Toledo crítico de teatro da revista Bacante

Rizemberg Felipe fotógrafo

6 do

leitor
André Ricardo Aguiar - poeta/ PB

Excelente a edição, principalmente a tradução de Marianne Moore. Parabéns pelo Correio, transbordante de matérias suculentas, um verdadeiro banquete intelectual.
Ivo Barroso - poeta e tradutor/ RJ

Recebi a revista, ficou uma beleza! Vou ler com mais atenção e te falo.
Ruy Castro - escritor/ RJ

6 lançamentos

Diário do Hospício e o Cemitério dos Vivos
Este volume reúne duas obras de Lima Barreto, Diário do Hospício e o romance inacabado O cemitério dos vivos. O primeiro é um documento da internação do escritor, entre o natal de 1919 e fevereiro de 1920, no Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro. O segundo enfrenta, em chave ficcional, a experiência da loucura, narrada no primeiro. Publicados postumamente, funcionam como vasos comunicantes. Esta nova edição conta com um prefácio do crítico Alfredo Bosi. (Cosac Naify, R$ 55 352 pág)

Sublime Obsessão
Na pequena Brightwood, o milionário playboy Bob Merrick sofre um acidente com seu barco de corrida. O grupo de salvamento o ressuscita com um equipamento que, por isso, não pode ser usado para salvar a vida de um herói local, o Dr. Wayne Phillips. Dias depois, já no hospital, Merrick conhece a viúva de Phillips, Helen, por quem se apaixona perdidamente. É o início de um romance que mudará a vida dos dois para sempre.Baseado no livro homônimo de Lloyd Douglas, Sublime Obsessão (1954, Douglas Sirk) levou Rock Hudson ao estrelato. (Versátil Home Vídeo, R$ 54, 40)

Buddy Guy & Junior Wells Play the Blues
Buddy Guy e Junior Wells protagonizaram uma das mais talentosas duplas do blues. Este álbum foi conturbado. Eric Clapton, Ahmet Ertegun, e Tom Dowd só conseguiram gravar oito faixas em uma série de sessões em 1970 em Miami, dois anos depois, a banda J. Geils foi trazida para gravar as duas músicas adicionais que completam o LP para o lançamento super atrasado em 1972. O disco duplo mostra Buddy Guy deslumbrante com o revival de "T-Bone Shuffle" e Junior Wells brilhante em "Sonny Boy's My Baby She Left Me" (Warner, R$ 39,20)

4 | João Pessoa, setembro de 2010

A UNIÃO

Reflexões
de um crítico-realizador

E
6

m entrevista concedida em junho de 1989, Linduarte Noronha fala do seu ofício de crítico de cinema, exercido diariamente nas páginas de A União entre 1956 e 1967, e da repercussão de Aruanda na Paraíba e no Brasil. Ele lembra como o golpe militar de 1964 afetou o jornalismo e a produção cultural no Estado e faz a defesa do documentário. A entrevista, inédita, foi concedida a Fernando Trevas Falcone e Vinícius Navarro

O ambiente cultural da Paraíba no início dos anos 60 parecia instigante: havia a Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba (ACCP), o cineclubismo. Gostaria que você descrevesse João Pessoa em 1960, quando você foi rodar Aruanda na Serra do Talhado. O instigante que você fala era mais um ambiente talvez voltado 90% às letras provincianas. Aqui em João Pessoa, como qualquer província deste porte, cinema era tabu. Fazer cinema era loucura. A não ser aquelas loucuras de Walfredo Rodriguez nos c
João Pessoa, setembro de 2010 | 5

A UNIÃO

entrevista

do Ipojuca Pontes? Bem. EM SANTA LUZIA. Havia blagues nos jornais. Tudo se resolvia em torno do jornalismo e da literatura. O cineasta Alberto Cavalcanti. a minha geração foi profundamente influenciada pelo Gilberto Freyre. setembro de 2010 “Eu não posso negar. do Rio Sanhauá. Parece-me que a imprensa superestimava o cinema paraibano. Aí. o Mangue.. houve até notícias desairosas. foi ousado. José Lins do Rego. não tinha nada que ver com aquilo e tinha. dentro do argumento nosso. O mundo intelectual ficou ressentido com a perspectiva que o cinema dava. Mas.. Ele alugou uma sala na Rua Duque de . Como característica cinematográfica foi a crítica. Quando eu fui ao Rio pegar o equipamento do INCE para realizar Aruanda. tinha também. para implantar o Serviço de Cinema Universitário. Mas o documentário Mangue que eu pensava era uma análise sobre a Região Ribeirinha. FILMADO NA SERRA DO TALHADO. O cinema tinha problemas seriíssimos. Totalmente. primeiro foi Aruanda e em 1962 a gente fez Cajueiro Nordestino. com a criação do Serviço de Cinema Universitário. Eu nem havia começado o filme. Mário Moacyr Porto. José Lins do Rego. Ele foi cassado? Eu não sei como não foi fuzilado. ele tomou uma dimensão dentro do jornalismo. Graciliano Ramos” Caxias (centro de João Pessoa). principalmente poesia. diga6 | João Pessoa.. da crítica cinematográfica.. do Rio Paraíba. não. Tinha um altíssimo nível cultural. Eu já tinha feito Aruanda e Cajueiro e o próximo projeto seria Mangue. a ponto de sair para a Serra do Talhado e realizar Aruanda ? Bem. Era um núcleo. que não sei se ainda existe. A partir daí. no tempo em que estávamos realizando Aruanda em Santa Luzia. Eu não posso negar. que é o chamado mascate. encampou nosso trabalho. o reitor da Universidade Federal da Paraíba. Há uma coisa incrível nesses rios. A União tinha rodapé sobre crítica literária. Predominava a crítica literária. CENA DE ARUANDA. inclusive com suas conotações socioeconômicas. quando você. um complexo primitivo dentro da região. da crônica cinematográfica. c A UNIÃO mos. que eles desconheciam. como vocês sabem. em termos de realização. O Correio das Artes que foi fundado em 1949. O problema cinematográfico na época surgiu. por que jamais quem escrevia sobre cinema aqui admitia ou sonhava que um dia pudesse entrar para a realização cinematográfica. Aquilo era quase um elemento ilustrativo. Isso tudo roteirizado por mim. E vocês sabem que a realização de um filme não é como escrever um poema. um jornal disse que eu havia retornado cineasta. INTERIOR PARAIBANO De que maneira o Ciclo de Cinema Paraibano influenciou a crítica local? Houve um impacto tremendo. O indivíduo saía numa canoa vendendo à prestação para quem morava nos rios. a minha geração foi profundamente influenciada pelo Gilberto Freyre. Quais eram as perspectivas da produção cinematográfica em 1960. Graciliano Ramos. Este Serviço foi o núcleo do atual Departamento de Comunicação da UFPB. Qual a relação do Mangue com Os Homens do Carangueijo. Era uma predominância dos anos 50 que chegava ainda.c ano 20 e 30.

modifica a sua visão de crítico em relação ao cinema brasileiro? Foi a reação da crítica carioca em relação à Aruanda .. Foi comprada no Rio. Dentro das redações dos jornais. Eu dizia que a Universidade no meio não dava certo. E acabou prejudicado por isso. Qual foi o destino do Serviço de Cinema Universitário? Foi extinto e jogaram todo o equipamento no porão. mas em torno de uma coisa que eles estavam vendo pela primeira vez em Oscar. Sobrados e Mocambos.. dentro deste núcleo que a Universidade encampou. pensando em Hollywood. Qualquer filme de tendência política era rigorosamente proibido. Você chegou a rodar Mangue ? Não. Por causa desse equipamento soviético. o Palácio da Cultura. Não existe nenhuma referência à situação política do Brasil depois de 64 na crítica de cinema. LINDUARTE NORONHA PENSOU EM LEVAR AO CINEMA A OBRA NORDESTE. O Gagarin filmou a Terra com uma câmera igual. Como nasceu essa ideia de fazer o Serviço de Cinema Universitário? Foi o próprio reitor. por uma firma chamada Artecomércio. Fui designado pelo reitor Mário Moacyr Porto. Com Aruanda e Cajueiro. O pessoal da Líder disse que a câmera era excelente. O que me interessa em Gilberto Freyre é a primeira parte da obra dele: Casa Grande e Senzala . O velho Gil- berto. O que aconteceu com esse projeto? Em 1964 prenderam todo mundo. Mas ele foi insistente. nessas besteiras.. A gente ia filmar Nordeste. Não se podia escrever o que se queria.. De maneira nenhuma. chamando de cabotino.isso não me interessa. DE GILBERTO FREYRE (FOTO) Quando terminou o filme. que vivia na União Soviética. A primeira exibição do filme no Rio não foi comercial.. Fiquei chocado no bom sentido.. Foi cassado em 1964? A câmera russa que você comprou no Rio de Janeiro. Foi uma exibição no auditório do antigo MEC. Foi uma frustração terrível a extinção da coisa. Como a passagem para a realização em 1960. Por que isso? Ah! Era rigorosamente censurado. em ganhar milhões de dólares. aproveitou-se da época. a censura controlava tudo. setembro de 2010 | 7 . Foi a insistência dele em fazer o Serviço de Cinema.c Cavalcanti. já era para filmar Mangue ? Perfeitamente.botaram ele numa fogueira. Os filmes do Leste Europeu nem se fala. Nordeste.. O Mangue seria uma produção da Universidade? Sim. que nunca foi usado. Você era o responsável pelo Serviço? Era.. meteram o cassete e jogaram fora todo o equipamento que a Universidade tinha comprado. Isso deu o maior bolo. A Universidade comprou um equipamento profissional. uma Konvac. reacionário . A UNIÃO Foi uma cassação branca. foi uma coisa que eu até hoje não consigo descrever. O grande interesse nosso era filmar Nordeste. A turma que estava chateada porque queria fazer cinema de todo jeito.Tenho a imc João Pessoa. Essa câmera soviética foi comprada pela Universidade através de licitação. Não em torno de aplauso. botaram todo mundo para fora. Quando estourou o troço disseram que eu era amigo do Kruschev. com todos os defeitos dos últimos anos da vida de Gilberto . ainda estava no roteiro.

Esse documentário nordestino . que é um grande estudioso da nossa língua. O cinema. mas não conhecem. a alta crítica estava lá. mas em torno de uma coisa que eles estavam vendo pela primeira vez. A música de Villa-Lobos é quase toda baseada em nosso romanceiro popular. Ele acha que Aruanda esquematizou uma realidade. com Vidas Secas. Ele era im- pressionado com a feira de Santa Luzia. que houve em 1960. Não em torno de aplauso. Quem me chamou a atenção para isso.. Ora. lá no Rio: "Mas é danado. serviram como uma espécie de guia para o pessoal do Sul. os filmes de Paulo Gil. Ele disse que Aruanda e Barravento .pressão que o Aruanda. Como você explica Aruanda ter surgido na Paraíba. foi Antonio Houaiss. Taí Menino de Engenho. Hoje é que eu estou notando isso. É a imagem. E eu achava que só o documentário poderia seguir essa trilha. Romeiros da Guia serviram como uma espécie de guia ao pessoal do Sul Zé Lins. pelo menos deixando de lado os que quisessem fazer a ficção. isso dito por Paulo Emílio é um negócio muito sério. Mas é dentro dessa explo c A UNIÃO 8 | João Pessoa. os filmes de João Ramiro e Vladimir serviram para a mentalidade. pelo menos sulista.. sem fazer autoelogio a um trabalho nosso. realizada em São Paulo. Ele abria uma nova perspectiva em torno da realidade nossa. DISSE: “VERDADEIRO CINEMA ESTÁ NO NORDESTE” Quem me chamou a atenção para isso foi Antonio Houaiss: Aruanda. esse cara faz uns negócios que ninguém mais pode dizer nada. Eu achava que o caminho era esse.. Villa-Lobos. abriu uma perspectiva. muita coisa nordestina. Taí o livro de Paulo Emílio Salles Gomes. Quando terminou o filme. em função de uma antropologia. Zé Lins. o encontro de Linduarte com Glauber não foi fortuito. foi uma coisa que eu até hoje não consigo descrever. que não conhecia absolutamente nada. Você vê Villa-Lobos com “Oh Mana Deixa Eu Ir” tocada por Barbosa ou Artur Moreira Lima.e eu quero incluir Vladimir e os outros . não. Vladimir (Carvalho) tá fazendo o quê? Vladimir é o documentário na perspectiva nordestina. Nelson. Cajueiro. lá no Rio. de uma sociologia. Mandacaru Vermelho já é Nordeste. Não quero me comparar a esses escritores. um Estado sem tradição cinematográfica e ter tido essa repercussão? Isso é difícil de explicar. Tá tudo lá". anos depois. não é isso que eu quero chegar de maneira nenhuma. eu não sabia. Fogo Morto. Você vê que a turma do Rio correu aqui para fazer o quê? NELSON PEREIRA. quando ele começa a falar da Primeira Convenção da Crítica. como as obras do século 16.. Foi uma verdadeira explosão. mas a imagem é outra. Foi aí que eu parti para aquilo que a obra de Gilberto dizia. Em 1960 Aruanda provocou impacto na "Primeira Convenção da Crítica Cinematográfica". Romeiros da Guia. Cajuc eiro. de um país do qual participam. Ele dizia: "Tá tudo lá. Parece que na época havia a discussão sobre o que deveria ser o cinema brasileiro e Aruanda veio responder a essa indagação. O documentário deveria ter seguido essa trilha. Para mim Aruanda. rapaz. Aqueles pífanos tocando. talvez Aruanda seja um manifesto cinematográfico e cultural brasileiro. mas que se procurasse um cinema autêntico. Cheguei lá. E daí que partindo da sua pergunta. No Rio de Janeiro. e o impacto foi grande. fiquei apavorado. não é (Thomas) Farkas? Ninguém pode sair daquilo". A gente fala de Mário de Andrade. Ele dizia. Uma vez ele me disse que o verdadeiro cinema está lá no Nordeste. DE VIDAS SECAS (FOTO).está dentro de uma perspectiva como a literatura nordestina: Graciliano. noutra estrutura intelectual. setembro de 2010 . Mas acontece que ela está noutra conotação cultural.

. porque houve uma sintonia de três Estados em relação ao A UNIÃO O Elísio Valverde e outras pessoas. Acontece que ainda nos anos 60. Humberto Mauro me disse que o filme não era um épico. a briga entre o produtor Jarbas Barbosa e Ruy Guerra.. cinematográficos e literários. QUE FAZIA CHANCHADA. dessa visão da realida- de nacional. que já era sagrado. era um programa de altas discussões. Taí Ariano Suassuna. quando você fala de Os Fuzis . se é que se pode falar de pólos: Porto Alegre. Antes teve a Revista de Cinema. mas eu acho que não. que fazia chanchada. E a Bergman. comparando cinema e literatura. a influência dessa crítica era mais o cinema europeu. Havia uma grande preocupação com o cinema europeu. O paulista Trigueirinho Neto foi para a Bahia fazer Bahia de Todos os Santos. Belo Horizonte surgiu com a Revista de Cultura Cinematográfica (RCC). setembro de 2010 | 9 Parece uma arrogância dizer isso. Queria que você dimensionasse a originalidade da crítica paraibana. com o advento dos documentários. Belo Horizonte e João Pessoa em torno do posicionamento crítico. Cinema Novo. posicionamento crítico: Rio Grande do Sul. Ainda no final dos anos 50.. mas sim um filme hípico. Paulo Thiago veio fazer Batalha dos Guararapes . se é que se pode falar de pólos: Porto Alegre. Nos anos 60 você volta a isso. A turma correu para cá. você afirma que no Brasil não se c João Pessoa. faz O Pagador de Promessas. ou de qualquer diretor francês que era monstro sagrado. se existe alguma influência do Sudeste.. principalmente França. você usa o termo autor. Um Anselmo Duarte. Os grandes temas do cinema brasileiro têm uma perspectiva nordestina. A gente aqui com Filmagem (revista editada pelo Cineclube de João Pessoa em 1956) . Estive revendo um número da RCC e eles davam muita atenção a Europa. Nouvelle Vague. Qual foi o resultado? Palma de Ouro. O filme é Nordeste. COMO ANSELMO DUARTE.NORDESTE ATRAIU “A TURMA” DE FORA. Você vê isso em quase todos os trabalhos teatrais. Um filme de Renoir que chegasse aqui. paulista. Eu vejo três pólos . “Eu vejo três pólos muito conectados. E GANHOU A PALMA DE OURO PAGADOR DE PROMESSAS c são. Nouvelle Vague. Rio Grande do Sul era (Humberto) Didonet. Minas Gerais e Paraíba. só tinha cavalo (risos). Belo Horizonte e João Pessoa em torno do posicionamento crítico” muito conectados.

o que não foi possível com essa proibição que houve. que isso é o pior. Sinceramente havia uma grande influência da cultura francesa. de coisa sufocante. São Paulo. DEFENDIDA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO.. Rio. Isso vai ser difícil de refazer. principalmente na economia e política. como diz o matuto. Não gosto dos grandes centros urbanos. Isso faz parte do nosso atavismo. prenderam. O atavismo colonial no Brasil é impressionante. VINÍCIUS NAVARRO É PESQUISADOR PARAIBANO. Você vê o manifesto que saiu no Jornal do Brasil em dezembro do ano passado (1988). menos na Paraíba. Um problema meramente pessoal. realizando filmes. Já estaria amadurecido o negócio. havia. Queria continuar a fazer aqui documentário nordestino. O problema cultural de um país. não só no cinema. Dos cineastas paraibanos. Criaram a grande indústria do medo. Eu acho que o nível cultural brasileiro precisa de um tempo para se revitalizar. pelo que você escreveu. Vladimir Carvalho e João Ramiro Mello se vão e você fica. Eles não aceitam. A indusc trialização estaria contra o autor? Um filme de Bergman é dele. Os caras proibiram. A morte do Glauber (Rocha). dá margem a esse tipo de comentário. eles encontraram embaraços seriíssimos aqui. O BRASIL FOI UM PAÍS ESTRANGULADO E GLAUBER ROCHA UM ASSASSINADO CULTURALMENTE “Se eu fosse para o Rio ou São Paulo ia tentar fazer filmes urbanos.. Você disse que Aruanda havia sido aceito em todo o Brasil. e que morreram precocemente. Quando fico dois ou três dias no Rio ou São Paulo. era uma previsão do que real10 | João Pessoa. botaram para fora. o que não foi possível” Talvez porque eu não seja ligado aos grandes centros. Eles me cansam. sob todos os aspectos. não. você foi o único a permanecer na Paraíba.respeita o autor do filme. eu estou de pleno acordo. Não gosto do gigantismo. O que se refletiu em tudo. já quero voltar. Se eu fosse para o Rio ou São Paulo ia tentar fazer filmes urbanos. Os preparativos dos anos 60. Ele foi assassinado culturalmente. O neo-realismo foi aplaudido no mundo e rejeitado na Itália. Eu não queria fazer isso. A morte de certas pessoas de cinema. mas em tudo. desprezavam Aruanda . E o pessoal "correu para fora". Vladimir e Manfredo Caldas assinaram. A UNIÃO . Então esse conceito de autor vem dessa vertente europeia? Não tenha dúvida disso. Em 1968 você defende a permanência no Nordeste dos homens que possam contribuir para o engradecimento da cultura nordestina.. Queria continuar a fazer aqui documentário nordestino. por ser um filme sobre negros. Muitas pessoas. I *FERNANDO TREVAS FALCONE É AUTOR DA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO A CRÍTICA PARAIBANA E O CINEMA BRASILEIRO ANOS 50-60. Havia essa influência cultural europeia. setembro de 2010 mente ocorreu. no Sul do país. A cultura brasileira foi destruída. RADICADO NOS ESTADOS UNIDOS. o problema nacional não se faz em seis meses. Eu não queria fazer isso. A Nouvelle Vague. Mas essa melancolia desse artigo que você fala.. mataram. de 1968. Talvez tenha sido isso. Embora isto aqui esteja se transformando num saco. O Brasil foi um país estrangulado.

mas a vida pouco difere da ficcionalização apresentada no início de Aruanda. são escravos libertos. Uma imperceptível passagem de tempo nos leva ao ano de 1960. no processo de libertação dos escravos. elas . no cinema Rex.sim. Mais que eventuais denúncias de atraso e pobreza. ainda em plena euforia dos anos JK. mas pela escolha do seu tema. demonstra o estado de coisas daquela população: em pleno 1960. No início da década de 1960. Afinal. O espectador atento notará que a caminhada da família de Zé Bento pelos campos áridos do Sertão paraibano é um exercício de ficção. é o rompimento dos conceitos de ficção e documentário. além do que foi ressaltado por críticos da estatura de Paulo Emílio Salles Gomes e Jean Claude Bernardet.cuja origem está. Cinquentário. vive da fabricação de objetos de barro. O QUE MAIS CHAMA ATENÇÃO NO CURTA É O ROMPIMENTO DOS CONCEITOS DE FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO Agora o espetáculo cinematográfico se dá em função do cotidiano da comunidade. Agora. o que mais nos chama atenção. projetadas em ambientes sofisticados do Rio de Janeiro e São Paulo. I *PROFESSOR UNIVERSITÁRIO E PESQUISADOR DO CINEMA PARAIBANO A UNIÃO João Pessoa. ao ser exibido no Rio de Janeiro para uma plateia de críticos e estudiosos de cinema e em São Paulo durante a Primeira Convenção da Crítica Cinematográfica. presentes aliás na narração feita pelo próprio Linduarte.Aruanda. Logo depois. matéria prima abundante na região. em que passado e presente se misturam ante o espectador sem uma linha divisória. a estrutura narrativa do filme. transformados em cidadãos entregues à própria sorte colocar em cena negros e negras lutando pela sobrevivência constituiu-se quase que em uma provocação para setores da nossa elite. e não da demanda do filme. agora quem está em cenas são as mulheres trabalham na fabricação de utensílios de barro. Aruanda mostra uma comunidade de negros que nas serras e vales de Santa Luzia. um filme moderno Fernando Trevas Falcone* D esde a sua estreia em setembro de 1960. entre outros fatores. com Brasília recém inaugurada e o país embalado pelo ritmo da bossa nova. Em uma sociedade marcada por profundos preconceitos. simbolizadas pela inauguração de Brasília e implantação da indústria automobilística. Os habitantes do Talhado estão em pleno século 20. em um país que vivia uma euforia desenvolvimentista. o filme de Linduarte Noronha firmou-se já como uma obra de referência do cinema brasileiro. setembro de 2010 | 11 . os homens e mulheres de Talhado viviam mais próximos do século 19 que do século 20. que para muitos se passa em 1960. entre as numerosas virtudes da obra prima de Linduarte. É de se imaginar. Passados cinquenta anos. numa antecipação de questionamentos caros aos estudos da representação da realidade no cinema. O filme começa nos contando uma história. para um seleto grupo de intelectuais. o impacto daquelas imagens. Mas pouco muda na vida dos personagens. Aruanda percorreu um longo e vitorioso trajeto. e que tem uma dívida social enorme a saldar . que teimam em negar a complexidade cultural e étnica do Brasil. Os personagens fazem o trajeto em função de uma demanda do filme. estão no século 19. o projeto de Aruanda nasceu moderno não apenas por sua estrutura narrativa.

distantes de nosso cotidiano. João Córdula era o coordenador. filmes estrangeiros e em sua maioria norte-americanos.MANFREDO CALDAS (E) AO LADO DE NELSON PEREIRA DOS SANTOS (C) E LINDUARTE NORONHA DURANTE AS FILMAGENS DE CINEASTA DA TERRA A permanência de Aruanda Manfredo Caldas* 12 | João Pessoa. Cine Clube Linduarte Noronha. obtendo o máximo de dramaticidade da luz do Sertão c A UNIÃO . Serviço do Cinema Educativo da Secretaria de Educação e Cultura do Estado. Até então estávamos acostumados a ver só o que era oferecido pelo circuito exibidor local. Aí assisti Aruanda pela primeira vez e naquele exato momento tive a nítida impressão de que existia um tipo de cinema possível de ser feito. filme fundador do moderno documentário brasileiro. Mas o que mais me impressionou em Aruanda . setembro de 2010 6depoimento O ano era 1962. foi a força de suas imagens numa fotografia com a lente nua e sem filtros deformadores como diria o Nelson Pereira dos Santos.

iniciei uma trajetória de realizações de documentários tendo a migração interna como tema central. Com o advento do AI-5 em 1968. setembro de 2010 | 13 . Em 1988 conclui do d o c u m e n t á r i o d e l onga metragem Uma Questão de Terra . consciente ou inconsciente de resistência cultural. terminei precocemente migrando para o Rio de Janeiro. Foi a partir de Aruanda que a temática da relação do homem e a terra passou a estar presente em meus estudos e preocupações ainda como cineclubista e já partindo para algumas experimentações no campo da realização. E numa ruptura drástica. A revolução de Aruanda no documentário paraibano e brasileiro estava estabelecida. No Brasil de 1983. Mais recetemente. fala sobre a mitologia em torno dos operários .c e lembrando a tonalidade autocontraste das xilogravuras nordestinas. O meu mais recente filme. nordestinos em sua maioria paraibanos. concentrei meu foco nos momentos mais e x p r e s s i v o s d o c iclo do documentário paraibano na tentativa de rediscutir a importância deste ciclo e situá-lo na história do cinema brasileiro. DIRETOR DE NEGROS DE CEDRO (1998) João Pessoa. I *CINEASTA PARAIBANO RADICADO EM BRASÍLIA. Em Boi de Reis (1977). a atualização e permanência de Aruanda no panorama da cinematografia brasileira. Em verdade. período pós anistia. Foi aí que. atento à transposição de traços culturais nordestinos para os grandes centros do país.mais especificamente no Estado da Paraíba . Este filme aborda o u n i v e r s o p e s s o a l e criador de um precursor do movimento cinemanovista no país. desde as suas fotorreportagens de origem do filme Aruanda ao pensamento ecológico calcado no humanismo e nas questões do ambiente do cinema. zona norte do Rio. a debandada foi geral.onde não faltam as cores mais fortes de exasperante violência tingindo de tragédia a história da região. Em 1974. realizei Feira . talvez o primeiro documentário sobre uma feira tipicamente nordestina no bairro carioca de São Cristovão.candangos imigrantes. reforçando os meus laços com Aruanda . Por motivos óbvios de falta de condições objetivas. minha A UNIÃO A partir de Aruanda que a temática da relação do homem e a terra passou a estar presente em meus estudos ainda como cineclubista e já partindo para experimentações intenção primeira era refletir sobre curso do documentário brasileiro a partir de Aruanda. revelei uma família de paraibanos que vive em Caxias. Neste filme é apresentado d e m a n e i r a c ontundente o problema fundiário no Nordeste do país . confirmando em definitivo. realizo o médiametragem Cinema Paraibano Vinte Anos. Cineasta da Terra. que t r a b a l h a r a m n a e p o p ei a d a construção da nova capital do país. concretizei uma homenagem explícita ao Mestre Linduarte Noronha realizando para a série Retratos Brasileiros do Canal Brasil. Romance do Vaqueiro Voador . tendo as imagens de Aruanda como tema central e recorrente em sua narrativa. com roteiro em parceiria com João de Lima e fotografia de João Carlos Beltrão. e que mantém o folguedo numa tentativa.

é sempre trágica.. e surgiu o Romance de 30. quando se dá. [. O drama contido nas narrativas. Essa cartilha nos prestou um grande desserviço. junto com um magro livrinho de contos: davam-me. que. embora logo fiquemos sabendo que se trata da designação de um de seus contos e da importância da palavra no entrecho da narrativa. e que todo escritor escreve na perspectiva de seu tempo. Desta forma é concebido o clímax das personagens-título dos contos que subvertem a ordem pré-estabelecida no mando dos homens. e só então me chegou uma carta . voltados. o tempo adquire status de protagonista ao lado das personagens. um retorno sobre o que eu escrevera. envolvendo o mítico sertão-mundo.. Uma grande parte dos contos do escritor cearense elege a figura feminina como tema ou como protagonista. o instante do ato que define o drama humano”. sem dúvida.enfrentando a ira da família materna. sob as imagens filmadas. como se fosse ontem.assassino de sua mãe . Chamar um autor de regionalista é uma maneira de diminuir o valor de seu trabalho.Faca amolada: o universo poético-trágico nos contos de Ronaldo Correia de Brito Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. traz também a linguagem adusta. “Cícera Candóia”. numa espécie de "círculo sem saída" em que a ruptura. como uma personagem da dramaturgia grega. Nos contos. reelaborada decerto muitas vezes ao longo desses anos. intitulados pura e secamente de Faca . na novela e nos contos.. guardando um parentesco com a tragédia antiga. trazendo a lembrança dos narradores anônimos. produzem. Assim é que o próprio Ronaldo. Regionalismo virou palavrão. que tentam enquadrar a nossa produção nessa cartilha. Francisca. incluindo também a protagonista do conto “Faca”. revelando. também eles. a apreciação de uma leitura que se expande para o drama universal dos predicados humanos. em nós leitores. possibilita o lado poético e surreal de alguns entrechos. em super8 e mereceu de Davi Arrigucci esse breve ensaio: "que não teve resposta.. (Guimarães Rosa) Moema Selma D´Andrea* O ensaio 6 s contos de R o n a l d o C o r r e i a d e B r i t o . esquecendo que já se passaram 70 anos.meia página de uma prosa sibilina. A técnica com que os contos são narrados. Passaram-se vinte anos. Agora "Lua Cambará" é que retorna em sua forma inicial de novela. sobretudo para o drama familiar sertanejo na mesma região cearense de Inhamuns. foi filmado. incluindo aí os títulos de alguns deles: “Lua Cambará”. em entrevista publicada no Cronópios: Literatura & Arte no Plural. esse realismo é temperado pelas soluções fantasmagóricas que incrementam o imaginário popular. reduzi-lo a c 14 | João Pessoa. setembro de 2010 A UNIÃO . por outro lado. o estranhamento da escassa informação do conteúdo a que o título remete. impede a morte do pai . concisa e realista que permeia o chão histórico das paragens nordestinas. aliás bem escrito. influindo na expectativa mítica de seus destinos. cuja força poética transfigura o corte seco da observação realista com que ele alterna e com que se talha.] O sertão está em toda a parte.] Aqui o fantástico se expande pelo sopro do imaginário. restringe. “Aldenora Novais”. o que estava escrito. Ao mesmo tempo. precariamente. A tendência de se enquadrar o lócus (regionalista ou urbano) onde a ficção é narrada. rebate o rótulo: "Desde que Gilberto Freyre estabeleceu os cânones do Movimento Regionalista. [. afeitas ao convívio da morte como ciclo de retorno e "destino". onde se formou o ficcionista. ou ainda pela desforra silenciosa que ilude o "destino" traçado. como os contos que a acompanham neste volume. Um de seus contos mais famosos é Lua Cambará. “Inácia Leandro”.

(Faca." (Faca. E a vida de depois. foi levar-lhes "o feijão com toucinho.. são neuroticamente urbanos. Durante o tempo em que viveram juntas. dirigiu e protagonizou um curta-metragem que foi o vencedor do 7º Festival de Cinema. O desprezo das pessoas do lugar. levantou a cabeça e olhou a filha. E se ninguém mexeu ainda deve estar por lá. é Sebastião Qinzim. silêncio. aliás o único. De um tempo de paisagem verde em que ainda era possível rir. sofrida. O silêncio as sustinha. Tempo de ira e de silêncio. empregou uns homens para "brocarem um roçado". Continuando a narrar. a mãe desanda a falar: "E cada palavra saía carregada de intenção. O que é o sertão. havia nela um rancor mais forte. Sem que escolhesse.. Aliás. ela puxa pelo fio do mistério: ". tu estás querendo ir embora? Ciça soltouse da mãe. enfiei dentro de uma cumbuca e meti naquele caixão que fica perto do fogão. enquadrá-lo em chavões. além da recorrência da morte.Verdade que todo mundo vai embora? . percebeu. andado pelos caibros.É. seguiu-se a debandada dos outros irmãos." (Faca. se não fora o providencial leite que beberam. o tempo fugindo.] E. que a velha.No tempo da ira fazia poeira...Sabe o que aconteceu? Eu guardava um veneno de matar formiga. atrás da casa. Cícera Candóia. [. Rompendo o longo silêncio que as unia.c estereótipos.grifos meus) Outro personagem a interagir com Cícera.] . " Um breve resumo determina o contexto do conto: a cidade de Parambu. tratá-lo com preconceito e deboche. poderia ter como subtítulo "Tempo de Ira". . Escrevo sobre um sertão invadido pelas cidades. Um tempo longe. [. que. 114).Não. assumia a custódia da mãe e sua eterna companhia. em 2003. (Faca. É a "cidade arruinada pela ruptura com o sertão". [.gritou Ciça. p.Pare com esse agouro . 122-123) Ciça. é pura memória inventada.. cúmplice dos conflitos. O drama que estrutura a narrativa se alicerça em dois suportes: o silêncio entre as duas personagens e o tempo de espera. o mote do desenlace: "Sentia que a filha estava muito nervosa. enquanto mãe tiver vida". cuja dor tirou-lhe o tino de viver.. que nunca mais se olharam. tinham aprendido a não se perguntarem nada. A mulher. . mas não se manifesta. solidão. A posição do narrador funciona mais como um camera-eye. (Faca. um fato do passado que lhe vem nítido à memória e carregado de desígnio. não vais embora também? . 121). O tempo. E a grande sentença do silêncio entre as duas. Um dos contos do livro Faca. no mundo globalizado. ela ainda menina. Depois. A mãe mastigou a comida devagar.Eu não viajo com mãe porque mãe não agüenta a viagem. p. junto com o farelo de milho para a alimentação das duas. Cícera resiste: não deixa a mãe sozinha. para ela e a mãe suportarem. justo em cima do fogão. a dela solitária e com um crime por compreender. Prefiro dar ao fraseado dos textos um ritmo cinematográfico. E também não deixo mãe sozinha aqui. setembro de 2010 | 15 A UNIÃO . t o d o s p a s s a r a m m a l . em parceria com Gisella de Mello. admirando-se do riso. a condenação já existia no fato de ser mulher. que flagra o desenrolar dos fatos. porque eu nunca mais quis saber de matar formiga. apesar do torpor. decadente. parece ter um envolvimento amoroso com a personagem feminina. ouvia a conversa da mãe.Eu sempre desejei ser enterrada debaixo do pé-de-paubranco. naquela tarde. E sobre cidades arruinadas pela ruptura com o sertão” e filha agravava-se um silêncio que sempre fora intenso" (Faca. tudo muito gostoso. ele existe. deixava o tempo escorrer a balançar numa rede: "Ciça lembrava-se de tudo. as quase últimas habitantes do lugar. Entre eles há um diálogo em que Qinzim tenta convencê-la a migrar também. quase envenenados. condenação. entrevada de reumatismo. Quando o pai e os sete irmãos homens moravam ali. como os irmãos homens fizeram. Sabia que as pessoas da vila iam embora. encarregada da comida. narrada para consumação do desfecho. nos contos recentes.a velha disse e sorriu. [. Conta. E sobre cidades arruinadas pela ruptura com o sertão. se fazia urgente. . No entanto. socado nuns caibros do telhado. mais do que de costume. 114-115 . e a casa guardava ruídos de alegria. Meus personagens.] . inabitável economicamente. depois da desgraça. lembrança. Escrevo sobre um sertão invadido pelas cidades. em não poder partir. Peguei o veneno.Eu tive mais cuidado. é o empecilho à sobrevivência da personagem: "Para Ciça. Este parece ser o destino do drama que entrelaça as personagens. então. "Depois só silêncio. À fuga do parricida. Daí uma memória visual manifesta durante a escrita. você sabe? Eu juro que não sei. E eu nada mais faço do que procurá-lo”. [. O conto se desenrola nos últimos três dias das fugas urgentes e da espera de Cícera Candóia pelo temido desenlace. produziu.. Uma família marcada pela tragédia: o filho mais velho mata o pai pela partilha de umas cabras. dos bem fortes. p. abriga mãe e filha. E no c João Pessoa. 117) Crime. tem na pouca memória a chave do conflito. O papagaio de casa. A intuição lhe dizia já que a filha pouco falava. A memória é agora um espelho da figuração alegórica. Habitavam miseravelmente num casebre e num pedaço de terra. p. Antes de entrar para a cozinha respondeu: .] O s e r t ã o d e q u e trato não existe. cujo único sustento era o leite das poucas cabras que "Ciça" cuidava e uns restos de "farinha mofada". 121) A relembrança abre-se como "um destino por cumprir". tão longe que o rosto do pai aparecia em contornos imprecisos.] A cantilena da velha arrancou-a do devaneio. embora senil. nas entrelinhas. como há anos não fazia e de uma forma que esquecera. essa é a técnica com a qual Ronaldo maneja suas narrativas. com o marido vivo e em plena atividade de plantio. como elemento estruturante da narrativa.... calada. p.. Num lampejo de consciência entrega para a filha. A velha. já que se aproxima o último dia de saída do caminhão. A velha mãe. suspirando entre um bocado e outro.E tu.. E Cícera ficou sozinha com a mãe.Me diga de uma vez. p. . Tecendo um destino por cumprir.. "Entre mãe “O sertão de que trato não existe. Não tinha como não pensar nesse silêncio. Anos atrás. Em outro depoimento o autor admite a influência do cinema no seu ritmo criativo: "É possível que eu tenha visto mais cinema do que lido. apesar da paisagem desértica. quando Ciça estendeu para a mãe o prato de xerém de milho que seria o seu jantar. e a lembrança da velha mãe obedece a esse imperativo. na forma da recordação. de maneira descuidada. em busca da madrugada. A noite foi se alongando. e a leva de moradores que migram em caminhões em busca de sobrevivência. longamente. Vídeo e Dcine (cinema digital) de Curitiba. A mãe.". Este sintoma vem se acentuado cada vez mais. Foi com este título que Marcélia Cartaxo. Como resultado do almoço. mexeu no embrulho de papel e uma parte do veneno derramou-se na panela de feijão. .

Pouso obrigatório de todos os viajantes.] Foi até a cozinha. " debaixo de uma oiticica".Estavam bem guardados. enriquecia o dedo anular direito" (Livro dos homens. 26) Domísio Justino ceifa a vida da mulher por amor de outra. Toma-lhes a faca de prata com cabo de ouro. Por isso. ignorando os sinais de rejeição silenciosa do grupo de fiéis. em estilo cinematográfico com o narrador c o n s c i e n t e m e n t e distanciado dos fatos. até o tempo de espera de cem anos. Construíram para o santo uma vida cheia de juventude. Seu tronco guardava os desenhos dos ferros de ferrar gado dos que ali passavam. Pareceu o dia em que encontraram o corpo do santo. atrás da casa. p. como matricida. romance que lhe concedeu o prêmio São Paulo de Literatura em 2009. 14) A sina de Pedro Miranda estava colada a de seu cunhado. Assim. o primeiro por insídia e o segundo por vindita. é o tempo de espera para que a faca assuma seu destino fantasmático. -Toma. onde se demorou. personas ambiguamente divididas entre o sertão e o apelo urbano na figuração de Adonias. p. desde a tragédia. A trágica sentença que a mãe se dá é a dádiva de uma nova maternidade e é a catarse do silêncio e solidão daquelas vidas.". anulando. É AUTORA DO LIVRO A TRADIÇÃO RE(DES)COBERTA: GILBERTO FREYRE E A LITERATURA REGIONALISTA 16 | João Pessoa. botinas de couro curtido. personagens que parecem esquivar-se do destino imposto ou ainda prolongar o tempo de espera. Havia uma árvore de caule branco. "Choveu a noite inteira e o Jaguaribe botou enchente. atos generosos e feitos heroicos. Voltou trazendo um copo de leite. O tempo deslocado de um século. também justiçado por ele." (Livro dos homens.c claro do dia que já estava chegando. que guardava. "Desceu a primeira enchente do Rio Jaguaribe. 122123 . p. sobrepondo seu sacrifício ao presumido sacrifício que a filha faria por ela. E o sobrenome da árvore que abrigou suas carnes. 7) A descrição objetiva dos a c o n t e c i m e n t o s . liberta agora para a vida: "Precisava satisfazer os desejos da mãe. Como uma Medeia às avessas.. 7-8-9) A imaginação da comunidade de Monte Alverne sugeria várias identidades para o morto.. Ciça aceita o destino e cumpre o desejo materno. preso aos destroços das margens. Sebastião dos Ferros. Vestia jaqueta de veludo. O texto silencia sobre a fuga do homiziado. no Livro dos homens uma técnica intertextual que percorre como um leitmotiv a narrativa de Ronaldo de Brito. ficou morando ali. ele também um predestinado viajante pernoitando em Monte Alverne. Seu passado ressurge já em outra trama do conto "O que veio de longe". escondido num quarto escuro. No meio das águas barrentas. p. O cunhado de Domísio Justino ouviu o relato e não teve mais dúvidas: o santo da comunidade era o assassino de sua irmã. -Eu estava esperando. cozido no silêncio e na solidão. Águas barrentas e profundas. E o maravilhoso aconteceu com uma moradora mordida por uma cascavel e milagrosamente curada ao tomar a água da cacimba ao pé da oiticica. 14) Domísio Justino reaparece ainda como fantasmagórico personagem de uma longa. no conto “Faca”. que passa à lenda pelas mãos dos trágicos gregos. "no aconchego" de "uma paz molhada. destino que perpassa o conto durante o longo período: "Um vaqueiro que vinha do curral viu uma ave prateada. Os contos de Ronaldo Correia de Brito nos surpreendem também pelo insólito que rege o destino das personagens. I *MESTRE E DOUTORA EM TEORIA DA LITERATURA. ainda suja do sangue da mãe. quando é achada por um bando de ciganos que pernoita na fazenda abandonada. que nunca tivera em vida. p. as pessoas procuraram a faca. o corpo de um homem. que narra a fábula da família Rego Castro. incorpóreo. "Pediu para ver os objetos. enfim. Foi descoberto de manhã. (Faca. Um anel com arabescos de ramos e flores entrelaçadas. p. muitas léguas acima. A mãe sempre desejara o seu aconchego. nas raízes uma fresca umidade. p. O ato criminoso torna-o um desertor para se livrar da justiça dos cunhados Pedro e Luiz Miranda. comandando um exército de valentes. O símbolo fatídico é arremessado por Francisca e torna-se um ícone intangível." (Livro dos homens. Mostrariam no dia seguinte à luz do sol" (Livro dos homens.grifos meus) Aquela aceitação tácita sela o destino das duas. Ele entrou em suas vidas. Mas isto é outra fabulação em Galileia. uma paz de terra molhada. Chamou a mãe e lhe entregou. inicia o conto e suas conseqüências. quando todos pensavam que o ano seria de estio. PELA UNICAMP. todas positivas e à espera de algum acontecimento mágico que validasse a crença na sobrenaturalidade do estranho. que nunca tivera em vida. A comunidade de pastores e vaqueiros enterrou o morto onde ele "aportou".". camisa fina com abotoadores de prata. sua ascendência. parceiros permanentes no vai-vem do Rio Jaguaribe. pela composição interpolada de fragmentações arrumando o álibi da infidelidade conjugal da companheira. apelidada de "Pau dos Ferros. onde a morte se escondia. a mãe resgata o mito da esposa de Jasão. Repousa. [. Tudo o que faltava nas suas existências comuns. Assassinos ambos. pela composição interpolada de fragmentações permeada pelo tempo de espera e pelo círculo vicioso do "destino". Pedro Miranda. a velha disse. a protagonista Francisca toma a defesa do pai. . livrando-o da morte e dos justiceiros tios maternos.. Na medida certa para arrastar outro corpo. a voz narrativa. o anel com desenhos de ramagens. É ela a verdadeira heroína do conto. peregrinos viajantes. (Livro dos homens. p. setembro de 2010 A UNIÃO . A lembrança de um pequeno pacote. mestiça e conturbada ascendência sertaneja de Inhamuns. Gravado toscamente numa cruz. Durante anos que correram pela frente. Desvendou para os o u v i n t e s a h i s t ó r i a passada. assassino da mulher com quem se casara. reluzindo e voando no espaço. "São Sebastião dos Ferros mandou um sinal para nós." (Faca. despertava os mais esquecidos desejos. 124) São duas mulheres que o destino coloca em desencontro. Morreu nas margens do Jaguaribe. (Faca. na casa do irmão Anacleto. Os contos de Ronaldo Correia de Brito nos surpreendem também pelo insólito que rege o destino das personagens.. para sempre. Possuía a aura dos santos e encantou-se como o rei Sebastião. "O tempo da ira". 10-11-12) Essa vida tecida de mitos retoma o passado na pessoa de Pedro Miranda. ganhou o nome do santo do dia em que apareceu.

A ressurreição de um grande escritor RICARDO GUILHERME DICKE. CRIADOR DE UNIVERSOS Ronaldo Cagiano* A editora paulista LetraSelvagem. A prosa caminhava para descolar-se dos modelos machadianos ou do realismo-naturalismo. Vivíamos uma época de rápido escalonamento de valores. do matogrossense Ricardo Guilherme Dicke. críticos e estudantes. integrantes do júri. obra que foi um dos vencedores do prestigiado Prêmio Walmap (1967). por iniciativa de seu editor. Referendado por Jorge Amado. Nicodemos Sena. na moral e nos costumes. A ficção ainda vinha de um experiência estética bastante canônica. com reflexos na própria linguagem (musical. na Casa das Rosas. teatral e literária). com apresentações críticas de Nelly Noaves Coelho e Raquel Naveira. quando primeiro surgiu um tufão c João Pessoa. em direção a uma suposta modernidade em todos os sentidos. relançou recentemente. em São Paulo. Deus de Caim surgiu num momento de transição: na política. nas artes. setembro de 2010 | 17 A UNIÃO . AUTOR DO ROMANCE DEUS DE CAIM. como repudiam a imperdoável negligência e o injusto esquecimento a que foram relegados. ainda muito fortes os ecos do modernismo na poesia. que o consideraram uma revelação e um marco na literatura brasileira. o romance Deus de Caim . Guimarães Rosa e Antonio Olinto. o romance vem sendo objeto de redescoberta pelos ensaístas. É UM ESCRITOR DE DIMENSÃO ONÍRICA E SUPERIOR. que atestam não só a monumentalidade do texto e a imporância da bibliografia do escritor.

pano de fundo de um permanente desassossego. senão expõe a violência que atravessa os séculos. Dicke é autor dessa dimensão onírica e superior. impulsionado por Grande sertão: veredas.Dicke deu ressonância a um conflito ancestral. passando por Abel e Caim. Deus de Caim emerge como um outro furacão estético. pois nada atenua. de um mestre (que pode ser Deus ou o Diabo) e que. Seja o poder do que quer roubar o amor de outro. seja o poder arbitrário dos que detêm o controle político e financeiro de um país. que estão abertas até hoje. segundo Guimarães Rosa. assim como Isidoro. ideológica e religiosamente a vida das pessoas. tabus e mitos que sustentam a vida e a memória do homem comum e do homem que controla política. professor. sobre interesses escusos e difusos. culminando no amor entre Lázaro e Minira. que deixou à literatura mundial um grande legado. Dicke cutuca as feridas da humanidade. dissensões. incesto. morte. homenageia e valoriza. e demiúrgico. desde a fundação do mundo. as mesmas controvérsias e polêmicas . Ou. sem defesa (como os ditadores). a qualquer preço. bons autores contam boas histórias. com seus ritmos e rupturas verbais. Como afirmou Marçal Aquino. vencer o tempo. ROMANCE FOI REFERENDADO POR JORGE AMADO E GUIMARÃES ROSA também como pintor. por meio de sedução e tentativa de estupro. nesse romance. sobre a traição. esbulho da terra estão aí. e é 18 | João Pessoa. apesar da tecnologia. que não deixa o leitor sair indiferente ou ileso. ou se interpenetram. e levantaram guarda para viver o próprio caminho.c na narrativa contemporânea. que reverberam sua visão impressionista desse mundo interiorano. vencê-la. experimentaram do f r u t o proibido. vai impactar e comover o leitor. do desenvolvimento material e econômico das pessoas e das nações. se possível.estão aí . do avanço das comunicações e das ciências. atraindo o que na lógica cristã seria chamado de maldição. repercutindo na vida de pobres almas do centro oeste brasileiro. até hoje. Essa faceta do romance também exterioriza o diálogo que Dicke estabelece com outros gêneros e reflete a sua preocupação existencial e sua relação muito íntima com a Filosofia. não como fantasia pura e simples criação de uma historieta de sertão. como os velhos coronéis do passado. picuinhas e disputas da família Amarante constituem o epicentro do romance. o poder de decidir. ao espelharem as experiências de um mundo arcaico e burguês . acima de tudo. sem estereótipos e sem meias palavras. num momento em que o tema da reforma agrária e da quebra de paradigmas morais eram um tabu). na verdade. O elo entre o passado genético da humanidade e a modernidade tumultuada em que vivemos homens. é perigoso viver. Deus de Caim . dramas. A tensão que vai perpassar todo o livro. densa. usurpação. o entrave humano é a luta pelo poder e contra a morte. os gênios criam universos. ao fazer uma releitura do mito bíblico. Com Deus de Caim. Muitos acontecimentos se intercalam. mentira. as mesmas questões. I (*) POETA E FICCIONISTA MINEIRO. García-Márquez. Os dramas. com sua habilidosa capacidade de recuperar a mitologia popular ou o inconsciente coletivo . A partir do enfrentamento entre irmãos é que se instaura uma profunda discussão sobre o homem. como o desejo de apropriação do outro (que na verdade soa como uma metáfora da apropriação injusta da terra. ainda. governo e mundo mereceu em Dicke uma releitura surreal. a verdade. Uma década depois. as artes e o pensamento culto. que em boa hora se resgata. obrigar e impor sanções. mostrar que o real supera a si mesmo. porque o mundo não mudou. interditado pelo seu irmão Jônatas. sobre o amor. tradutor e pintor. na verdade está fazendo uma incursão na atualidade. resistente às mudanças.ambição. Rulfo e Faulkner. e esse caos se reflete não só as histórias repletas de cizânia e perigo. roubo. E seu processo criativo contempla o caos.como o fizeram com Macondo. Em Pasmoso. revelação e reflexo da própria desordem mental e intelectual do homem. despistar a morte e. cidade criada pelo autor. uma vez que ele foi filósofo. característica de um país até então confinado a uma cultura e a uma economia agrária e estigmatizada por totens. AUTOR DE DICIONÁRIO DE PEQUENAS SOLIDÕES (CONTOS) A UNIÃO . Os mesmos conflitos. como alegoria ou como recurso da intertextualidade. De Adão e Eva. e o poder intrínseco. mas prioritariamente se explicita numa linguagem vigorosa. deságua numa única e instintiva necessidade: a de perpetrar-se. aquela que. mas como recurso para entender-se a loucura individual e coletiva e. como no caso dos embates filosóficos travados entre os personagens Grego e Cirillo Serra sobre o mundo. que é o desejo de ambicionar o poder maior. ao discorrer sobre música e poesia. que são necessárias as tintas da ficção pelo viés do absurdo para poder entender esse intricado e violento sistema que é a vida. desde que Adão e Eva. Komala e Yoknapatawpha. atrasado. a religião e a cultura. sobre o poder. setembro de 2010 RELANÇADO. E para isso. desde a fundação do mundo.

setembro de 2010 | 19 A UNIÃO televisão . que abriu seu suplemento numa manhã de domingo. produtores e atores que viram sua carreira projetada através de rolos de película (caso. roteiristas. de nomes como Steven Spielberg. saio da sala e vou ler um livro"). HALL.).. como em nenhum outro. venho reconhecendo que a teledramaturgia atual tem tido seus momentos de brilho em meio à poeira deixada por muitas produções cinematográficas. por que não. Quentin Tarantino. e neste dia. têm surgido nos créditos de peças televisivas e proporcionado um c João Pessoa. Diablo Cody.. provocou (pasmem) um amigo que dedicou boa parte de sua carreira acadêmica a estudos comparativos entre a literatura e a sétima arte. sua força de trabalho. certamente irá discordar. porém. INTERPRETA ASSASSINO FRIO QUE TRANSFORMA O ATO DE MATAR EM ALGO ÚTIL PARA A SOCIEDADE Dexter. Porque eu também discordei . lembra-se daquela velha frase de Groucho Marx (" a televisão é muito educativa: cada vez que alguém liga o aparelho. Diretores. ASTRO DO SERIADO DEXTER.eu que. Tom Hanks. incorporando do cinema sua linguagem. apesar de atento às exceções que fazem do nosso horário nobre algo digno do adjetivo. Você. técnica e.MICHAEL C. Raskólnikov O Crime é o Castigo Tiago Germano* “O 6 s grandes roteiros do cinema estão sendo escritos hoje na televisão". aqui. e. lá fora. de Luiz Fernando Carvalho. Aos poucos. sempre encarei as telonas como um suporte aumentativo também para as boas ideias.

Tal qual Raskólnikov. "Posso matar um homem. À cata dos tais "grandes roteiros" da televisão. como criador. através de uma mídia responsável pela formação de pelo menos 40% dos espectadores do cinema que hoje conhecemos: o DVD. apenas matar quando comprovada a culpa. este querido e devotado cidadão de Miami não sofre tormentos de consciência. encarnação moderna de um Raskólnikov. E talvez pela informação (inútil. mas curiosa) de que é casado com uma sobrinha de Ernest Hemingway. que tenta emular com um desempenho canhestro. eu já considero a simples remissão a Dostoiévski um mérito). ela está livre para cometer um crime sem que a outra pese sobre si. não resiste a uma leitura motivada por outro critério que não o da gênese de sua adaptação. de cujas páginas herda seus principais arcos narrativos e grande parte da psicologia embutida em seus personagens. setembro de 2010 ESCRITOR JEFF LINDSAY: EMPRESTOU A ESTÓRIA DO SEU SERIAL-KILLER AOS ESTÚDIOS DE TV Tornando à premissa que deu origem a este texto. Adotado na infância por um tira.c salto qualitativo em produções seriadas que nos chegam. O flerte da série com a literatura. A série está atualmente em sua quinta temporada. cuja figura de mentor lhe acompanha mesmo após a sua morte. Tornando à premissa que deu origem a este texto. cheguei a Dexter . Esta. Sua principal preocupação é driblar seu senso de inadequação e sua profunda inaptidão em fingir ser humano. telessérie produzida pelo canal norte-americano Showtime e transmitida nacionalmente pela FX Brasil. em hipótese alguma. desmembrar seu corpo e chegar em casa a tempo para ver o Letterman. Observador atento às minúcias do comportamento alheio. a tábua sagrada onde seu provedor deixou inscrito seu legado doutrinário: apenas matar a também assassinos. a mão antípoda da que castiga. E não duvidem: talvez grandes livros também estejam sendo escritos por lá. Se há algum mérito literário em Dexter (entusiasta ou não. o personagem rende ao roteiro boutades como esta: "Quer ter um vislumbre da natureza humana? Atrapalhe uma fila". estocados em boxes de DVD´s nas prateleiras das lojas. Jeff Lindsay. A única época do ano em que todos usam máscaras. que como o seu antecedente russo "chegou ao crime como se não houvesse caminhado com as próprias pernas". Diferente do assassino de Petersburgo. este advém da obra televisiva. Dexter segue a risca o Código Harry. especialista em hematologia forense. este tira de retidão insuspeita. e não da original. Ou: "Adoro o Dia das Bruxas. ensinou a Dexter tudo o que ele sabe: inclusive como tornar sua natureza (a de um assassino frio e contumaz) algo útil e conveniente para a sociedade. num dos episódios da primeira temporada. três deles no Brasil. que escolta sua conduta na filosofia de homens "extraordinários" como Napoleão (padrinho ideológico também de outro anti-herói famoso da literatura: Julien Sorel). é um dos trunfos de um enredo conduzido pelo anti-herói homônimo. e nunca. os grandes roteiros do cinema talvez estejam mesmo sendo escritos hoje na televisão. E é neste ponto 20 | João Pessoa. infelizmente. pela editora Planeta. mas não sei dizer quando minha namorada está se sentindo insegura". os grandes roteiros do cinema talvez estejam mesmo sendo escritos hoje na televisão que nos afastamos um pouco de Dostoiévski: na medida em que Dexter é "a mão esquerda de Deus". I *JORNALISTA E EDITOR DA REVISTA CENÁRIO CULTURAL A UNIÃO . com seu humor de açougueiro. e desde 2006 vem tornando a sequência de livros do autor Jeff Lindsay (que emprestou à história do seu serialkiller aos estúdios televisivos) uma franquia rentável e contínua: já foram publicados cinco volumes sobre o personagem. diz ele. Dexter é um jovem perito da polícia. Harry. Um dos raros casos em que a televisão é bastante educativa por nos obrigar a fechar um livro para assisti-la. ser pego. não tardou a seguir a carreira do pai adotivo. só se aproxima da grande literatura por uma criatura que ganhou vida fora dos seus domínios. e não apenas eu". muitas vezes.

Slender. (Tradução de Daniel Sampaio de Azevedo) (Attributed to Mei Shêng. passing the door. passando a porta. the mistress. a dama.) And she was a courtezan in the old days. 140 a. nas flamas de sua juventude. And she has married a sot. she puts forth a slender hand. Delicada. Que ora embriagado vai à troça E a deixa ademais sozinha. setembro de 2010 | 21 .) Blue.C. The beautiful toilet “RECLINING-FEMALE-NUDE”. And within. (Atribuído a Mei Shêng. 140 b. vacila. E por lá. Branca. branca face. White. E ela se casara com um pau d'agua. in the midmost of her youth. DE EGON SCHIELE A UNIÃO João Pessoa. white of face. azul é a grama à margem do rio E os salgueiros alagaram ao longo do jardim.C. blue is the grass about the river And the willows have overfilled the close garden. hesitates.TRADUÇÃO/POESIA 1 poema de Ezra Pound A BELA TOILET Azul. E ela foi cortesã em outras datas. Who now goes drunkenly out And leaves her too much alone. ela expõe os delicados dedos.

camões ao habitar-se no olho cego polia as palavras e usava-as absorto como se apalpasse e possuísse o próprio corpo. mas o olho aberto era casto e via no matar um gesto beato. A UNIÃO camões/lampião camões ao habitar-se no olho cego sentia-se íntimo. chorava os mortos do seu interno. lampião ao habitar-se no olho cego 22 | João Pessoa.POESIA 5 POEMAS ESCOLHIDOS POR SÉRGIO DE CASTRO DE PINTO as cigarras são guitarras trágicas. o cristal dos verões. lampião ao habitar-se no olho murcho via o olho aberto estrábico e rústico e compreendia o olho aberto mais murcho que o olho cego. lampião atrás dos óculos sentia-se acrescido. kipling recitam a plenos pulmões gargarejam vidros moídos. camões ao habitar-se no olho aberto via-se todo ao inverso (pelo lado de fora) mas rápido se devolvia e fechava o olho aberto pra ser total a miopia. camões ao habitar-se no olho murcho via o mundo claro dentro do escuro e o olho aberto era inútil ao habitar-se no olho murcho. mais interno no olho aberto. plugam-se/se/se/se nas árvores em dós sustenidos. lampião ao habitar-se nos dois olhos a eles dividia: o olho aberto matava e o outro se arrependia. somado e era mais lampião naqueles óculos de aro. setembro de 2010 .

camões molhava a pena como se no tinteiro molhasse o olho cego e tateando. e em barris de carvalho o tempo envilecia. cuidadoso.POESIA os óculos lhe eram binóculos íntimos sobre a miopia e quando os óculos tirava lampião se decrescia: o olho cego somava e o aberto diminuía. João Pessoa. avenida dos tabajaras os tabajaras depuseram as suas setas no arco das esquinas privaram-nas de velocidade no arco das esquinas puseram-nas em repouso no arco das esquinas no arco das esquinas as setas fluem o tráfego mas congestionam e desorientam o antigo menino da avenida dos tabajaras menino antigo de um tribo cuja aldeia ainda não era tão global Geração 60 A Carlos Aranha e Walter Galvão a carta branca do montilla não era de alforria. o cuba-libre nos prendia. o papagaio era calado. saía do seu interno. atos falhos sequer os ensaio. Camões escrevia com o olho cego por senti-lo mais seu do que o olho aberto e por poder o olho cego infiltrar-se. à pupila). ir mais dentro e externar o seu inverso. (no tinteiro das palavras em forma líquida juntam-se uma a uma à retina. setembro de 2010 | 23 A UNIÃO . mas os meus atos falhos encenam-se assim: eles já no palco e eu ainda no camarim.

de longe. .. movi a minha pedra. Na madrugada em que vieram me avisar que ele jogava à luz de candeeiro na mesma mercearia virada para o nascente. setembro de 2010 A UNIÃO . irritado com alguma demora do adversário .. não dormi a madrugada inteira. Perseguia-me.inédito O jogo de damas PEDRO SALGUEIRO * H 6 á cento e trinta anos jogava aquela partida. acendi as velas.o tilintar dos dedos da mão esquerda continuava a fazer sulcos na madeira: os parceiros teimavam em desaparecer.decidi abrir o armário antigo. sem sossego. sem coragem de ir vê-lo: a rua deserta. abandonara para sempre o baú velho em que fora esquecida. os filhos e netos os sucediam e tornavam a envelhecer.. entre casas de aranha e poeira.. Jogaria o tabuleiro no cacimbão ou o quebraria a marteladas..abri de chofre a tampa e. sentados a um canto.. mas homem. que parassem com aquele jogo a noite toda. no resto da tarde. rezei meu terço.. a jogada já não era a mesma da noite passada. no mercado. Comentários.. . até o limite da exaustão: " . só os dele. as latas de bombons enferrujadas. os cães ladrando insistentes. ô caboclo perigoso!" ou insistia por horas na mesma palavra.caboclo. cantarolando a mesma palavra a madrugada inteira. conto . Agora o bisavô do meu vizinho vinha insistir que o deixassem descansar. eu comecei a chorar e rezei três terços e acendi duas velas em cada canto da sala.e o vizinho contava de novo que o viram jogar. até os grilos pararam.. contudo. pensei em quebrar a dama empoeirada e não tive coragem.. os parceiros se revezavam até sumirem de vez.. BRINCAR COM ARMAS (2000). o começo incisivo. o bater de pedras invadindo o mercado e assustando quem passava desligado pelas calçadas àquela hora da noite. fingíamos nem ligar. 24 | João Pessoa. a vagareza do meio.. o tac-tac das pedras no tabuleiro de vidro nos invadia os ouvidos e nos atraía pra lá.. O silêncio doía. I *ESCRITOR CEARENSE. pelo lado de dentro: somente ele sentado . ENTRE OUTROS.. enquanto ele permanecia ao pé do balcão.cantava às vezes uma musiquinha insistente.. há décadas fechado. e nunca as vimos por dentro. mas homem... Disfarçando.. rumando para o final nervoso de horas depois.. PUBLICOU O PESO DO MORTO (1995). . caboclo.. O ESPANTALHO (1996). na lembrança." Madrugávamos com o reco-teco das pedras no tabuleiro da cabeça.mas homem. é um mistério que estamos levando para o túmulo... fechei o armário num supetão. imitava-se com a dama riscada na areia e nos enraivecíamos por as pedras de cacos de telha não chiarem no tabuleiro do chão. E apenas um mundo girava em seu eixo naquela tarde morta em que os únicos ruídos eram o trovejar das moscas no saco de açúcar e o arrastar das pedras no vidro. fazia tempo. quando ganhava folgado: ". Acendi mais uma vela. ela estava gravada. onde já divisava.eu pequenininho e fugia da oficina de meu pai e maquinalmente corria à mercearia do avô...

cujas condições se refletem no seu conteúdo. o regionalismo se volta para o típico e o peculiar a uma região (ethos. símbolos. Literariamente se confunde com a ficção do pitoresco. embora possam fornecer relevantes subsídios documentais. o regionalismo pode ser entendido num sentido geral e num s e n t i d o r e s t r i t o . fisiografia. linguagem etc. do gauchismo (Simões Lopes Neto) e do regionalismo nordestino de 30.). em textos de pouca valia estética. tão cara à poética romântica. em Instinto de Nacionalidade: notícia da atual literatura brasileira (Novo Mundo. tende para uma concepção programática de fundo cultural. No sentido restrito. mesmo quando indefinível e obscuro. Face à questão da nacionalidade. o que pode gerar sérios equívocos no ato de apreciação das obras literárias. é elemento intrínseco à estrutura narrativa. a exemplo do sertanismo ( José de Alencar. redundando. setembro de 2010 | 25 A UNIÃO . político e ideológico. no século XIX. New c João Pessoa. toda obra seria regional. parece prevalecer o critério geográfico e ecológico. por exemplo. influindo substancialmente no quadro. Nessa clave. Afonso Arinos). tipos. No sentido geral. do exotismo e do folclórico. descritiva. da literatura do Norte (Franklin Távora). Nesta ou naquela perspectiva. Não se confunde com uma simples moldura. É destacada a região o bastante. conferindo-lhe uma nota especial. interpretativa e apreciativamente as obras literárias que se amoldam a tal categoria. Nesta acepção. não raro. o regionalismo diz respeito às obras que têm por fundo uma região. da cor local. Na verdade. do caboclismo (Valdomiro Silveira). o critério a ser privilegiado nesses casos é o critério estético. ao afirmar. pois o espaço/ ambiente. Machado de Assis.O Regionalismo e o Escritor Contemporâneo Hildeberto Barbosa Filho* G 6 rosso modo. tanto aquelas em que a ação se desenvolve ensaio na zona rural quanto aquelas em que a ação ocorre na zona urbana. Ta n t o a h i s t ó r i a quanto a crítica literárias se aproveitam de ambas as s i g n i f i c a ç õ e s p a r a a b o r d a r. já revelava lucidez diante do problema.

ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço". Rio de Janeiro. seu processo c A UNIÃO . Não discuto a validade do conceito do ponto de vista científico (histórico. 26 | João Pessoa. Dentro das implicações semânticas. aqueles ingredientes que a tornam uma obra de arte. O que se deve exigir do escritor. o conceito me parece redutor. econômico e geográfico). p. ou seja. é certo sentimento íntimo que o torne homem do seu tempo e do seu país.“OS RETIRANTES”. Civilização Brasileira. cujas condições se refletem no seu conteúdo. referido por Afrânio Coutinho na Introdução à Literatura no Brasil (10 ed. antes de tudo. Aplicado às obras literárias. 202). mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. ainda podemos falar do regionalismo em suas fases históricas: romântico. mas da validade estética. deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região. mesmo àquelas que têm como região a zona rural e dela tiram sua substância real (fundo natural e humano). conforme exige George Stewart. conferindolhe uma nota especial moderno e contemporâneo. realista. setembro de 2010 Regionalismo diz respeito às obras que têm por fundo uma região. sobretudo uma literatura nascente. Redutor porque se recusa a contemplar o ponto seminal das obras literárias. 1873): "Não há dúvida que uma literatura. talvez fosse melhor dizer atual). (Quanto a este último. PORTINARI c York. sim.

completamente formada e inteiramente expressiva de algo mais fundamental do que qualquer problema ´moderno`: o sentimento humano. O que importa é o elemento humano. afirma Lourival Holanda. importam motivos temáticos como a morte. Trabalhando com a linguagem. É preciso observar que o autor transcende o caráter regionalista.a verdade da geometria ou da h i s t ó r i a s e r e s s e n t e dessa mediação -. e camufla aspectos significativos século XIX. portanto). menino de engenho". p. no fundo.) a filosofia pretende provar. São sintomáticas as primeiras palavras do narrador ("Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu"). que vem mediar tudo . se ouvirmos a exigência do étimo latino: alienus . É um estereótipo. "O Verbo Inviável". teve perdas? A história das perdas não seria a história de todos nós? Relendo Menino de Engenho numa outra perspectiva que n ã o a d e s i m p l e s r o m a nce regionalista. como a qualquer romance bem realizado como romance. E o que dizer das últimas palavras: "Menino perdido. para me valer de um termo barthesiano. é falso. pretende criar uma experiência virtual. deforma a visão de quem assim o vê. e como todo estereótipo. banal. com as cores que tiro da imaginação. isso é dito em função de uma rigorosa e arguta análise comparativa entre Vidas Secas . 86/87): "Não há por que querer. da literatura.EDUSP. num trecho de Sob o Signo do silêncio (São Paulo. Alcançando apenas elementos singulares e particulares.. meio atormentado de visões ruins". A pecha de romance regionalista se tornou comum. os tipos e o imaginário social do mundo do engenho (a particularidade). ensimesmado? Perdido porque se fez ruim. por parte da crítica literária. a semiosi. retomando uma ideia de Borges. confessar. (. usado em Aula(1977). iluminada leitura que passa ao largo dessa controvérsia menor: o regionalismo. contudo. de um engenho da zona canavieira da Paraíba na segunda metade do A UNIÃO A pecha de romance regionalista se tornou comum. assim. E no último capítulo. a forma. penso que a ele. Por que teria sido com ela tão injusto o destino. a natureza da vida humana em si". 2000. enquanto se vai formando. e vejo-a assim.o que está alheio a si. espantado. Por sua vez. a solidão. camufla aspectos significativos. apenas quer encher o mundo de imagens". por parte da crítica e da história literárias. A história de Carlinhos não é a crônica de costumes de uma sociedade patriarcal. de Graciliano Ramos.. ainda tomando conta de mim. como dizem os alemães). existencial e humano.c de elaboração artística. mas um romance de formação (‘bildunsgroman’. em que a experiência da morte e das perdas se faz essencial. Portugal. a ausência do carinho materno que conformam e formam a personalidade do personagem (sua singularidade). Seria aliená-la. porém. numa passagem de Sentimento e Forma. cabe muito bem as palavras de Suzanne Langer.. de Albert Camus.. Vou citar o caso do romance Menino de Engenho. o medo. será sempre enquanto código segundo. comentar. Alfa. juntamente com mathesis e mimesis.. é falso. e como todo estereótipo. assinala (p. histórico ou filosófico. naquilo que é universal. independente do contexto (espacial e histórico) e das situações vividas e representadas. prejudicando. banal. em suma: falar às pessoas. Exemplo: o chamado regionalismo nordestino para definir a ficção dos anos 30/45/56. É um estereótipo. secundando-a. e O Estrangeiro . Um romancista. Perdido porque ficou para trás? Perdido porque se tornou perplexo. continua o narrador: "Horas inteiras eu fico a pintar o retrato dessa mãe angélica. por seu uso de palavras. É claro que a região é fundamental na constituição do enredo e do personagem Carlinhos (menino de 4 a 8 anos). 36): "(. como busca". estruturalmente. não toca no principal. sabido. Col. ao afirmar que consiste num grande equívoco "(. a loucura. o texto vai formando um espaço possível (outro. arredio. a literatura é mais modesta. Mais adiante. c João Pessoa.. Assim. justificar teorias. injusto com uma criatura em que tudo era puro? Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético. ainda no primeiro capítulo. setembro de 2010 | 27 . enfim. A minha memória ainda guarda detalhes bem vivos que o tempo não conseguiu destruir.) se deixar induzir ao engano de supor que o autor pretende. Mais que a paisagem. o que lhes confere estatuto universal característico da autêntica obra de arte. inquirir. transfigurados pelo gênio do autor. 3. não é ela que importa. veracidade. Criação & Crítica. a experiência de leitura. Ora. exatamente aquilo que pretendemos com o nosso informar.) A morte de minha mãe me encheu a vida inteira de uma melancolia desesperada. os costumes. safado? Ou porque perdeu. p. de Zé Lins. Vol. "ao erigir o homem como eixo de suas narrativas". nas palavras de Eduardo Coutinho ( História da Literatura Brasileira. isto é. dando-me banhos e me vestindo. Direção de Sílvio de Castro. 335). se a literatura toma outro código. quando nesse espectro existem muitas obras que não poderiam se enquadrar tão limitadamente nesse paradigma.

E O SERTANEJO. virar senhor. Suicida-se com a faca de cortar sola. E conclui: "Triplamente ameaçador. . resta-lhe a autoexclusão. esse lugar móvel é ocupado pelo seleiro José Amaro.) Na sociedade dramatizada por Lins do Rego é ele o personagem passível de viver o movimento de transformação: virar negro. reflete acerca da condição do personagem José Amaro. Nem senhor. ao propor uma nova tipologia para o romance de 30. andarilho. temido. o seleiro vai sendo marginalizado. como que sinaliza para a precariedade do conceito de regionalismo. da comunidade pelo temor religioso do povo e da família pela raiva da mulher. Ao que acrescenta o ensaísta: "Em noites de lua. Veja-se também que depois dessa edição. p. VIDAS SECAS. Ele questiona a propriedade rural. diz o povo. escorraçado.ou seja.torna José Amaro estranho ao mundo familiar das terras de engenho descritas por Lins do Rego. ele retirou a nomenclatura de "ciclo da cana de açúcar". (. criticando as nomenclaturas "romance social-regional" e "romance psicológico". setembro de 2010 Alfredo Bosi como que sinaliza para a precariedade do conceito de regionalismo. em sua História Concisa da Literatura Brasileira. triplamente excluído. o seleiro sai livremente a caminhar pelo campo e. de tensão crítica. a l i b e r dade conquistada e a solidão tomada pelo lirismo bucólico. I *PROFESSOR DO CURSO DE COMUNICAÇÃO DA UFPB. lobisomem". estribado em argumentos de Lucien Goldmann. nesses termos: romance de tensão simples. a autossatisfação na comunhão com a natureza a d o r m e c i d a . Gyorgy Lukács e René Girard. Seria apenas um pedaço de vida o que eu queria contar. que será expulso das terras do coronel Lula. quando em nota à primeira edição de Usina (1936). o credo religioso e a organização familiar". Alfredo Bosi. Em Fogo Morto.. salientando: "(. Pouco a pouco.. inserto em O Cosmopolitismo dos Pobres (Belo Horizonte. completa o narrador". assinala: "A história desses livros é bem simples comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos.das terras pelo senhor de engenho. 28 | João Pessoa. 224/225) Silviano Santiago. nem negro. UFMG. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior". DE ALENCAR c Em "Ameaça do Lobisomem". A busca de algo além das necessidades diárias . se transforma em lobisomem. E mais à frente.. de tensão interiorizada e de tensão transfigurada. criticando as nomenclaturas "romance social-regional" e "romance psicológico". ao propor uma nova tipologia para o romance de 30 completa Silviano: "O lobisomem será triplamente excluído em Fogo Morto .c EXEMPLOS DE OBRAS REGIONALISTAS: MENINO DE ENGENHO DE JOSÉ LINS. ENSAÍSTA E MEMBRO DA APL A UNIÃO . O romance historia as várias fases da sua transformação em lobisomem e as respectivas consequências". texto de homenagem a Borges.) Sucede. porém. 10 anos após a sua morte. Diria que o próprio Zé Lins tem consciência disso. POETA. ridicularizado.. DE GRACILIANO.

Lima.html ]. numeração regular e referências cruzadas. páginas de títulos. por bem ou por mal. não uma estrutura de significados. sítios. mas sujeita ao aprimoramento natural determinado pela própria necessidade de se exprimir.COM A UNIÃO João Pessoa. Mas. para discordar de Saussure. mas não vamos jogar o bebê juntamente com a água do banho. começaram a se voltar para a linguagem escrita estimulados pelo correio eletrônico. dialoguei sobre o mesmo tema na Bienal Internacional do Livro de São Paulo com a professora Heloisa Buarque de Hollanda e os escritores Nelson de Oliveira. a própria palavra é uma interface com o plano das ideias. são irreversíveis e possibilitam acesso por diversas entradas das quais nenhuma poderia ser autoritariamente declarada única. Tudo muito bonito e conceitualmente instigante. Os que chegaram à fase do consumo de informações na última década. A noção de interface . sintaxe. não podemos deixar de pensar seriamente no significado da web para o presente e para o futuro da literatura e da cultura. os textos não têm mais início. De um modo geral. Não é mais possível ter uma opinião simples e unívoca. enquanto signo.namesmarede. Tudo ainda é muito incipiente. digo eu. a escrita impressa e a linguagem habitual do livro. morfologia e conotações ganhou em importância.não deve ser limitada às técnicas de comunicação contemporâneas. no Agosto das Letras. MSNs e outros diálogos entre suas comunidades sociais. LANÇOU O LIVRO DE POESIA SORTILÉGIO E ORGANIZOU O LIVRO O QUE É POESIA? MANTÉM O BLOG HTTP:// SAMBAQUIS. facetas e eventos. As reflexões continuam.dreamingmethods. Bem. Chegamos. passa a ser efetivamente uma galáxia de significantes. capazes de permitirem aos navegadores que se movam livremente aí dentro e que nos colocam diante de uma nova máquina de ler. Em última instância. Não podemos ser só eufóricos ou. Sigamos em linha. O texto.Literatura e cultura em tempos digitais Edson Cruz* E stive em João Pessoa. e podemos observar no ciberespaço. Aquestãosobreaexpansãodasnovastecnologias e sua influência na cultura deram as caras no século passado. o conhecido WWW. o que observo é que todos ainda estão muito céticos. sintagmas. então. a literária. então. I * FOI EDITOR DO SITE CAPITU E FUNDADOR/EX-EDITOR DO SITE CRONÓPIOS. melhor dizendo. O computador e o campo de significações da Internet são todos colocados no mesmo saco. É através dela que nos conectamos com os sites. Micheliny Verunschk e Andrea Del Fuego. Vamos atentar para as experiências feitas no site DreamingMethods [www. como queria Roland Barthes em suas análises da escritura. Ele lembra que o próprio advento da impressão gerou uma interface padronizada e original com seus cabeçalhos. O que dizer. ao contrário. setembro de 2010 | 29 . não totalmente arbitrária. como declarou em nosso diálogo a professora Heloisa Buarque de Hollanda (arrancando risos de todos).blogspot. recepção e estudos literários. É sempre muito rico discutir com os próprios criadores como a inserção de um novo suporte textual e de um novo meio de difusão alterariam práticas e conceitos já sedimentados no campo da produção/criação. inesperadamente. Também no mês de agosto. quando não desinformados sobre as implicações do tema.cria"cinemas mentais" em fluxo não linear de várias dimensões? Com o advento da linguagem digital. blogues e demais páginas com o intuito de divulgar. estão utilizandose da expressão literária.com/2009/04/o-cultoao-amador-e-aos-amantes. que faz de cada leitornavegante um editor em potencial redirecionando os paradigmas que balizavam as antigas formas de produção e recepção de discursos. em seu livro Hipertext 2. das informações e dos sentimentos e.0.com/ ] e observar como anda a discussão (mais adiantada do que por aqui) pelo mundo em Literatura tecnologia da escrita [www. Esse tema me persegue há alguns anos e resolvi imergir com coragem e olhos livres em suas águas. ou simplesmente descartar o tema. pioneiro nos estudos que denominou de cibercultura. da literatura que.ca/sesion1. os textos criados com essa intenção ainda são muito chatos. rudimentar ainda (calcada ainda mais em sua função fática do que poética). Frente a essa enorme multiplicidade de possibilidades. saturados de imagens e ícones da cultura contemporânea.tecnologias-yescrituras. reacionários como Andrew Keen [veja http://sambaquis. mas suas exigências se fizeram incontornáveis de alguns anos para cá. que a rigor é apenas a interface gráfica da Internet.Apartemaispopulardesse processo é a World Wide Web. para dialogar com o escritor Marcelino Freire e o professor Amador Ribeiro Neto sobre Literatura e as Novas Mídias.html ].como bem nos lembra o filósofo Pierre Lévy. Intragáveis. de criar ou apenas de nos relacionarmos. Segundo George Landow. Jovens educados e criados em um ambiente predominantemente visual. feita de letras. Blocos de informações conectados por meio de elos ou links. como nos mostrou as experiências do psicólogo Wolfgang Köhler registradas em seu livro Psicologia da Forma.BLOGSPOT. ou da cibercultura: o hipertexto. no dizer do escritorcearenseCarlosEmílioC. nessa baliza. a uma palavrinha que está na moda no meio virtual e que se configura como característica essencial dessa nova era.

Wilson Batista. Carlos Cachaça. Marília Batista. Assis Valente. Leu. Com o advento do rádio e do cinema falado a música popular encontra novos meios de difusão. tocando cantando neste período gente como Noel Rosa. Falar o quê? Quase sempre malandragens. Felizmente. E o cantor começa a falar. Que permanece como paradigma da boa música. A MPB desta "Época de Ouro" cria um padrão de qualidade. Almirante. O público amplia. A malandragem tem sido a dominante em nossa cultura. escreve. Afinal. O malandro colou ao jeito brasileiro de ser um modo brasileiro de falar. Carlos Galhardo. Tanto no tema como na forma de contar. Lamartine Babo. Este pessoal veio se juntar a outros nomes. Deu origem a uma das mais férteis fases de nossa música popular. interpreta. Espertezas. Parece que Deus estava mesmo querendo ouvir música popular de alta qualidade. Nasce muita gente de peso. Coisas marotas. Alcebíades Barcelos. Geraldo Pereira. Foi certamente pra elogiar esta malandragem que Noel escreveu: "tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia / é brasileiro / já passou de português". Entre outros. c A UNIÃO 30 | João Pessoa. Período: 1929 a 1945. João de Barro. Alberto Ribeiro e Armando Marçal. O padrão de qualidade continua em alta. Ari Barroso. Antônio Cândido sacou bem isto. Surgem novos padrões de fazer canção. Gente que compõe. Neste mesmo ano nascem Clementina de Jesus. musica. A "Época de Ouro". Mário Reis. O mercado cresce. Lotou o berçário com músicos-bebês. setembro de 2010 música . Nossa música se profissionaliza comercial e esteticamente. Orestes Barbosa. Sapequices. Vadico. arranja de um modo muito especial. sob esta perspectiva. Macunaímicas. Gente como Moreira da Silva. Sorte nossa. Carmen Miranda.A malandragem da ginga falada de Kid Morengueira E 6 Amador Ribeiro Neto* m 1902 a MPB pega um gás danado de bom. E não somente na cultura popular. Picarescas. o malandrésimo Kid Morengueira. estão compondo. É aí que desponta aquele samba que de repente dá uma paradinha.

A música conta a história de um sujeito que acerta na loteria. de Wilson Batista e G e r a l d o P e r e i r a . já em 1929 Sinhô compôs "Cansei". Jogo do bicho. Belo ensaio. Mais tarde em 1931 a dupla Ismael Silva e Nílton Bastos tornou obrigatório um breque após a segunda parte dos sambas que compunham. Kid Morengueira leva o samba de breque ao sucesso. E divulgador sincopado. Conto do vigário. passa a ser conhecido como de samba de breque. é sem dúvida alguma seu maior intérprete. Fez isto em 1936 com "Jogo proibido" de Tancredo Silva. Kid Morengueira não somente aproximou a fala da palavra cantada: assegurou espaço pra fala dentro da canção. com paradas súbitas para comentários. Temas deste intérprete. Moreira da Silva vivenciou a malandragem. Moreira da Silva radicalizou a parada melódica. O jeito agradou. conhecido como samba de breque. Fome.c o romance Memórias de um sargento de milícias. High-society. A partir daí faz planos habituais e mirabolantes. Elegeu-a como performance artística.I *POETA. Fantasia comprar-se o título de barão. Segundo José Ramos Tinhorão. é sem dúvida alguma seu maior intérprete. Em 1940. Virou estilo. que obrigava o intérprete sambista a criar uma pausa. A alegria dura pouco: a mulher o desperta para ir pro trabalho. Com a manha do malandro talentoso. geralmente bem humorados. Gafieira. Preencheu o espaço musical da pausa com falas coloquiais. com "Acertei no milhar". Se ele não foi o inventor do samba de breque. Se Moreira não é s e u i n ve n t o r. A partir de então o ritmo A UNIÃO Moreira da Silva radicalizou a parada melódica. AUTOR DO LIVRO BARROCIDADE João Pessoa. Imagina saldar a conta do armazém. Estava dado o passo definitivo do que viria a ser o samba de breque. PROFESSOR DO CURSO DE LETRAS DA UFPB. Perseguição policial. Futebol. Ele não foi o criador do samba com ginga marota. E divulgador. Era o início do processo. Recorte modelar de nossa cultura. setembro de 2010 | 31 . Preencheu o espaço musical da pausa com falas coloquiais. Morro.

foi embora de casa. Eu adorava receber seus amigos. No café da manhã devorei dez pãezinhos com leite condensado. Fiz questão que ela fosse morar com o pai. *ESCRITORA. mas mamãe jamais permitiu. mas foi pela boca que o capeta entrou no meu corpo e passou a viver agarrado às minhas tripas. não suportando vê-la naquele estado. sentei-me à mesa que ainda estava posta e comi o resto de todos os pratos. com quem me casei. Depois de sua morte. Hoje mais pareço uma baleia comendo dia e noite sem parar em frente à televisão. Pedi que ele não me tirasse o único prazer que me restava na vida. AUTORA DE VÁRIOS LIVROS. destes que andam pelas ruas de mãos dadas trocando segredos e agrados o tempo todo. Eles ainda se lembram do tempo em que eu trabalhava fora. ESTE CONTO FOI PUBLICADO EM SEU LIVRO FALO DE MULHER (2002) 32 | João Pessoa. Uma noite. setembro de 2010 A UNIÃO . Vendi a casa onde morávamos. mamãe desatou a comer. Papai trancava a comida nos armários. Percebendo que havia algo errado. Salvei minha filha. talvez um psiquiatra. Vivíamos indo a bailes e andávamos de mãos dadas trocando segredos e agrados o tempo todo. Alcides sugeriu que eu procurasse um médico. Mandei fazer umas camisolas imensas de algodão e passo o dia com elas. destes que dormem no sofá da sala e acordam cedo pra acender a churrasqueira. nunca mais vi ninguém do escritório. Alcides fez as malas e foi embora. Por enquanto ainda consigo. DE BOTERO Adélia Ivana Arruda Leite* E 6ficção stá escrito no evangelho: mal é o que sai da boca do homem e não o que entra. finjo que não é comigo. mas engana-se quem pensa que minha história é igual à história da minha mãe. Meu pai. Alcides trouxe Nereu para jantar conosco. minhas noites tornaram-se silenciosas e eu pude finalmente cuidar da minha vida. Mamãe morreu antes dos cinquenta anos. mas ela os arrombava berrando a quem quisesse ouvir: não me tire o único prazer que me resta na vida. Eu colocava travesseiros aqui e ali para que as dores diminuíssem. Os vizinhos todos comentam meu estado. era casada com Alcides e tinha uma filha linda e loira como todo mundo. Casou-se com mulher magrinha e bonita. A lembrança que tenho deles é de um casal feliz. Alcides era um rapaz bonito e alegre. tinha dores insuportáveis que a faziam urrar a noite inteira. foram-se os amigos. comprei outra menor e arranjei um ótimo emprego. Só me levanto para ir ao banheiro. Do emprego fui demitida por telefone. Em poucos meses dobrei de peso e não saía mais de casa. depois que ele se foi. onde conheci Alcides. O difícil era dar banho naquela mulher imensa que já não levantava da cama. Casou-se novamente e teve outros filhos. De um dia para o outro. exatamente como minha mãe. No final. Um dia ela também começou a comer e não parou mais. Ele logo se tornou íntimo. Certo dia. Foi-se o marido. foi-se o emprego. Insistia para que eu fosse morar com ele. Nossa casa vivia cheia de gente. Nossa única filha era loira e bela como o pai.“LA MAYA DESNUDA”.

paixão. no filme de Campion. Bem.ABBIE CORNISH E BEN WHISHAW INTERPRETAM KEATS E FANNY EM BRILHO DE UMA PAIXÃO. Um poeta romântico vivendo um grande caso de amor. mas está num local prosaico e vulgar: a revista de palavras cruzadas desse fleumático e bem-comportado senhor. mas. Desencanto (1945). incompleto. disciplina imperturbável. entregue à literatura. tragicamente apaixonada fora do casamento. "Bright Star" (`Rútila Estrela`. mas. no Brasil: Brilho de uma paixão). pompas e frivolidades. a jovem Fanny. o casal não se entende e até se antipatiza: dedicada à moda. o roteiro não tem a "tempestade e fúria" esperadas e. Pois quem acaba de dedicar ao poeta de "Hyperion" um filme inteiro é a cineasta neozelandesa-australiana Jane Campion. isso deve ser algo avassalador. completando o verso com a palavra ´romance´. quando era pensionista na mansão dos Brawne. o incidente não é nada gratuito: romance é o que falta na vida desse maridão acomodado. sem o último termo. O verso é do poeta romântico inglês John Keats (1795-1821). Com o título de um dos sonetos de Keats. pode soar monótona. e. para o espectador não interessado em literatura. a presença da poesia de Keats no cinema é mais ampla. e se apaixona pela filha da senhoria. Aos poucos as divergências vão dando lugar a uma amizade que. c João Pessoa. e justamente o que não falta na vida dessa esposa infeliz. reconstituição de época detalhada e muita citação literária. FILME CONCEBIDO PARA AMANTES DE POESIA Rútila estrela João Batista de Brito* “E normes e diáfanos símbolos de uma grande estória de amor" (´huge cloudy symbols of a high romance´). De início. de quem quase não ouvíamos falar desde o seu perturbador e badalado O piano (1995). Fanny não é afeita à poesia. atenção. nem tanto: quase rotineiro.como mantém o título brasileiro do filme . vira . o filme conta uma fase da vida do grande poeta romântico. Quem lhe decifra o enigma é a esposa. com ritmo linear. Keats é avesso à moda e ao que ela implica de etiquetas. A cena está no hoje clássico melodrama de David Lean. de propósito. claro. setembro de 2010 | 33 A UNIÃO . narra a estória de uma forma que. rapidinho.

o mesmo do filme de Lean). a narração intromete poesia em tudo. Numa cena de amor em que o casal.. arrastarse pelos mesmos campos que antes palmilhara ao lado do amado. poetas de vida breve. o mesmérico e encantador "Ode to a nightingale" ("Ode a um rouxinol") Nenhum desses trechos poéticos. No texto. no filme."para saber se Keats era idiota ou não. ilumina mares. como ela. cá comigo faço o seguinte exercício mental: rememoro o filme. em todos os tempos e em todos os lugares. Mas. como visto. aliás. Mesmo enquadrada no modelo romântico. Shelley e Keats. sem se importar muito com verossimilhança ou fidelidade biográfica. Wordsworth e Coleridge formaram a primeira geração. definira a poesia como "a spontaneous overflow of powerful feeling" / "explosão espontânea de poderosa emoção". superadas as iniciais divergências. se não for isso. Pois bem. tentando entender poesia. ele não funciona muito bem. antes de Keats. não apenas dentro do romantismo inglês. assim como Fanny costura os seus tecidos (lembram que o primeiro presente ao amante é um bordado para travesseiro?). aos vinte e seis anos de idade. Ou se sonhava. ao mesmo tempo passivo e ativo.segundo a irmã menor de Fanny . para esse espectador uma questão antecede o problema das citações. Sem isso. esta toda ao som de um dos mais celebrados poemas de Keats. pára e o espectador que conhece o poema sabe por quê: no dístico final está o anúncio de sua própria morte. na Inglaterra.. Historicamente falando. Isto tudo para não esquecer que. a sua obra era o eco. Depois da notícia recebida do falecimento do poeta em Roma. com uma curiosidade: não uma seguindo a outra no tempo. formada pelo trio Byron. Depois da sua morte. é do dado da importância dessa poesia que o espectador precisa. mas. privado.c Para quem conhece a poesia de John Keats. Diríamos que. seu nome consta como um dos poetas mais importantes. no entanto. mas. já formulado pelo pai do movimento.mais uma "estória de amor" cujos "enormes e diáfanos símbolos" se perderam em algum lugar indeterminado. Era uma reação ao racionalismo da Idade das Luzes. O filme foi de fato concebido para os amantes de sua poesia e. ora. com seu final infeliz. na verdade. ("Quando temo. Dias depois da morte do irmão mais novo. para apreciar Brilho de uma paixão.daí a sua ênfase em duas coisas diferentes: a emoção e a Natureza. vemos uma Fanny desesperada. poemas completos. sintomaticamente. Nascidos em torno dos anos 1770.. a primeira indicação de que Keats e Fanny se envolverão é.. este se apressa em afirmar que "a poesia surge como folhas às árvores. O roteiro costura as cenas com e a partir de palavras poéticas. a sua poesia se destaca pela condensação original de três elementos distintos: o forte sensualismo. o faz sempre com um sentido inventivo e tocante propriedade. agora verbalizando exatamente o poema que fora especialmente escrito para ela. bem antes dos seus antecessores poéticos. não chego a lugar nenhum." E vejam que a recitação poética se estende até a exposição dos créditos finais. a profunda reflexão filosófica e a extensiva imaginação clássica. Keats o faz com o soneto que começa "When I have fears. se revezam na recitação de um dos poemas mais imaginativos do poeta. é. falecendo. o "Bright star" que. o filme é uma dádiva. isolado. toma aulas particulares com Keats. fazer só isso. Na Inglaterra houve duas gerações de poetas românticos. desde então. mas também à industrialização nascente . mas uma dentro da outra. a qual viu nascer e morrer a segunda. da mesma tuberculose que matara o irmão mais novo. pelo menos até que as coisas voltassem a se acalmar com a chegada da pachorrenta Era Vitoriana. IMAGENS AMADAS A UNIÃO .. Uma trágica estória de amor como as muitas que o cinema já contou. a fonte romântica não parou mais de jorrar. se assim não for.o já referido Romantismo. o poeta gostaria de ser a ´rútila estrela´ que. na livraria da esquina. soberana e eterna. ainda no começo do filme. e. quando Wordsworth publicou o seu "Lyrical Ballads". a primeira manifestação romântica do mundo literário aconteceu em 1798. os dois juntos. celebra o gosto comum pela poesia. I *CRÍTICO DE CINEMA. todos. melhor não surgir. E nada mais. o famoso. Cito alguns exemplos. não viu. denomina o filme de Campion. Depois disso. comprado. Sim. montanhas e pântanos. 34 | João Pessoa." É o preceito da espontaneidade. ao longo do filme inteiro então. William Wordsworth. Ao falecer. Keats nem sonhava em ver o seu trabalho literário reconhecido. AUTOR DE DIVERSOS LIVROS ENTRE OS QUAIS. o roteiro costura as cenas com e a partir de palavras poéticas. a sua obra é descoberta pelos contemporâneos e. sem isso. setembro de 2010 Para quem conhece a poesia de Keats o filme é uma dádiva.para voltar à abertura desta matéria . Keats e Fanny. tentando esquecer que conheço a poesia de John Keats e. de um grande movimento artístico que eclodiu. para poder. ele é só . por mera curiosidade . identificado pelo título. por ela jogado na cara dele para dar a entender que lera o seu "Endymion". e a questão é: quem foi John Keats? O filme de Campion nos mostra um Keats doméstico. em 1821. talvez um índice do destino do poeta. mas não conclui: após o segundo quarteto. ao longo do filme inteiro. belo e misterioso "La belle dame sans merci" (´a bela dama sem piedade´). mas. preocupado com o espectador eventualmente não-familiarizado com literatura. e. melhor morrer. o que dificulta mais ainda a situação do espectador não-familiarizado com o assunto. instado a recitar poesia na sala de visitas dos Brawne. que.". Em cena do filme em que Fanny. nas últimas décadas do século XVIII e primeiras do século XIX . iluminar para sempre os seios da mulher amada. Enfim. o famoso verso "a thing of beauty is a joy forever" (´uma coisa bela é um prazer eterno´). ou se for o caso..

ora mais contidos. ponto de partida e de chegada das suas aventuras utópicas mais delirantemente acalentadas. é o que se pode depreender dos subterrâneos simbólicos do texto e da fantasia poética engendrada por uma linguagem simples e ao mesmo envolvente. mestre A pós a conclusão exitosa do Primeiro Simpósio Internacional de Literaturas Africanas. para bem além do puramente afetivo. em cujo estuário. nascido do consórcio solidário da Universidade Estadual da Paraíba. Nesse patamar. à irredutível e ontológica solidão do ser. não o adorno bucólico de um cenário meramente protocolar. a experiência amorosa se configura não somente em temário obsessivamente perseguido e abordado por dicções distintas. à sua amada. setembro de 2010 . em cujos versos. Amor alumbramento. ‘sol’. ato contínuo. mas também em matéria existencial que dá suporte à condição humana: contingente. se impusesse como um mundo particular absolutamente livre e incontaminado das impurezas da história. misteriosa e essencial tessitura do fruto amoroso. No poema "Convite". a espera sem pressa pelo amanhã e o ardente cultivo do agora.Seccional da Paraíba . em última instância. amor destino e porto da felicidade possível. ao lado do poeta João Maimona e da ficcionista Marta Santos. transforma as suas comoventes confissões amorosas em urgentes apelos ao seu interlocutor. espreitada pelo fantasma da morte e fadada. amor desvelamento das camadas abismais do ser. Novos Poemas de Amor põe-nos em face de um lirismo encantatório e portador de tonalidade acentuadamente solene. o poeta parece anelar pela morte do tempo e. pela instauração definitiva da eternidade. a atmosfera neorromântica faz da natureza evocada pelos sememas ‘mar’. mas sim a testemunha silenciosa de um amor que se pretende atemporal. daí a emergência de uma subjetividade que. transida entre a serenidade e o desespero. ‘pássaros’. o enlace amoroso ganhasse estatuto cósmico. jornalista e parlamentar angolano. Em "Oferenda". ‘ondas’. amor epifania. da Rede Paraíba de Comunicação e PEN CLUBE do BRASIL . a crença e a angústia. cerne intransferível de um eu-lírico matizado por inescondível paixão. AUTOR DO LIVRO NOVOS POEMAS DE AMOR A coloração semântica delineada no corpo da linguagem poemática faz contracenar. amor utopia ameaçada pela tempestade que se abate sobre a c A UNIÃO 35 | João Pessoa. ‘areia’. angolanos também. livro de autoria do escritor. admiravelmente. conferiu brilho ao referido conclave. ora mais espraiados.eis-me devotado à leitura de Novos Poemas de Amor. os dois últimos dísticos traduzem bem esse dialético modo de encarar o conúbio amoroso: "Toma esta angústia que cresce à medida da minha fantasia/ e faz dela uma promessa de fidelidade invencível e secreta/ Toma esta saudade que me aflige e faz crer na vida/ e aceita-a como a humilde declaração do meu amor". por exemplo. ESCRITOR ANGOLANO JOÃO MELO. a vida e a aflição que cercam a ambígua.Novos poemas JOSÉ MÁRIO DA SILVA Para Eduardo Portella. que. poema inaugural do livro. João Melo.

como se estivesse sendo reinventado "o próprio nascimento do mundo". sôfrego e alucinado. de vez que. Salta aos olhos. inefável. docemente/ violenta. AUTOR DE MÍNIMAS LEITURAS MÚLTIPLOS INTERLÚDIOS João Pessoa. fúria de amor. ocupa relevante espaço na lírica de João Melo. vincada por uma nítida dicção bandeiriana. tons. com o qual. Se o amor transcendente. e são sempre precárias./ essa beleza que ostentas/ tranquilamente sobre o tempo e/ a incrédula memória dos homens". mergulho do poeta no universo da criação literária. diante daquela concreção de toda grande linguagem poética. por exemplo. entrega e acendrado erotismo. tingidos por certas modulações surrealistas.c cidade. desesperado. Mas o próprio ato criador é fonte também de insuperáveis inquietações. uma poderosa e criadora comunhão do homem com o universo circundante. a palavra foge. a percepção transcendentalizada com a qual o notável poeta angolano encara a realidade amorosa. Parece ser essa a razão primacial da tristeza que se abate sobre o eu-lírico no belo e coloquial "primeiro poema da ausência". para os ricos efeitos plásticos potencializados por uma linguagem que. no dorso dos seus heterométricos versos. O mundo desbordante da memória. O rigoroso trabalho com a palavra. apolínea e artesanalmente. nesses poemas. ganha outros contornos que se vão delineando em cada peça do seu bem urdido e correlacionado jogo textual. ratifica a superlativa condição de um escritor no pleno domínio dos recursos expressivos. eis as referências que emblematizam o poema Arco-Íris. uma vez mais. como também para a incontornável mudança que se opera em seu interior. por Haroldo de Campos. não são apenas as águas do rio que incessantemente se modificam. referida. deslizando iconograficamente sobre a face branca do papel. é um poema que fascina pelo ritmo trepidante e crispado que o norteia. "Desse encontro/ de todos os espíritos vitais/ se tece. o amor. a terrível percepção da lacerante passagem do tempo. princípio de vida e impulso vertical de um dos aspectos mais significativos do seu ser/fazer poético. Todo esse ir e vir de motivos. Impetuosas e ágeis. semema a ratificar. cheiros e cores conferem nítida fisionomia a uma poética vigorosa que. que não somente aponta para o inevitável envelhecimento dos amantes. para a construção do itinerário sem reservas que se percorre no corpo da amada. como a querer evocar o balé dos corpos em fúria. as mãos devassam "a curva exuberante e/ luminosa / por Deus desenhada/ no âmago do mundo". atingindo os densos patamares da literariedade. o poeta busca a (im)possível comunhão com o ser amado. dentre outros que fazem parte do território lírico dos Novos Poemas de Amor. provido quase de ostensivas conotações místicas. italiano. no motivo das mãos. esquiva. Estamos. amor finitude. Outro recorte que se infiltra nos Novos Poemas de Amor ancora no porto da metalinguagem. recusando-se a ser o instrumento de canto. A procura pelo indecifrável enigma da alteridade. as mãos se constituem na senha para o toque. Parece haver. lucidamente. com a poesia e com o amor. o poema parece assumir-se como possibilidade remota de salvar o poeta das suas angústias existenciais. Aqui. não menos presente se faz a vivência concreta e corpórea de um amor eivado de sensualismo e assumida eroticidade. conforme apontado. A torrencialidade hierática de certas imagens impregnadas de alta voltagem surreal. acercando-se da ancestral temática do amor. se abre para o acolhimento exasperado da voluptuosa experiência da paixão. Voltadas para o mapeamento do corpo da mulher. pois. Heraclitianamente. "Novos tambores". setembro de 2010 | 36 . Complexo e resistente às definições que se pretendem exatizantes. o que almeja mesmo é mostrá-lo num texto sobriamente elaboraA UNIÃO LIVRO MOSTRA ESCRITOR NO PLENO DOMÍNIO DOS RECURSOS EXPRESSIVOS do. aqui. João Melo. de pronto. I * ENSAÍSTA E PROFESSOR DA UFCG. A mulher e a detalhada cartografia da sua corporeidade. A curva de Deus: sobre ela a mão/ A cabaça de hidromel/ Novos tambores / Viagem poética sobre o corpo da amada/. transformado na privilegiada cartografia do desejo. O território urbano com as suas pluridimensionais formas de vida. Atentese. sagrado e profano se interseccionam no exato instante em que o sexo feminino. coreografia de corpos no angustiado e fascinante roteiro da entrega sexual. com Novos Poemas de Amor. o faz com todos os ingredientes que enformam o panorama da boa literatura: trabalho com a linguagem e transfiguração das mais significativas experiências humanas. mandarim e húngaro. ancoram-se. O acendrado confessionalismo. Veja-se o "Soneto imperfeito". Eis-nos no coração indesviável de poemas que exibem no motivo das mãos a base impulsionadora dos códigos e vetores que estruturam e conferem certeiro direcionamento à temática brilhantemente abordada. no qual. "na hora deserta". mas sim o coração dos apaixonados. Aqui. mais que discorrer sobre a realidade do erotismo. densa medi- tação existencial se desentranha do prosaico e aparentemente desvalioso chão do cotidiano. temas. A leitura de Novos Poemas de Amor é um feliz encontro do homem com a arte das palavras. tendo já os seus textos sido traduzidos para o alemão. na tessitura lírica de João Melo.

de 1982. Os melhores poemas do livro são os que brincam com as palavras despertando os fonemas sintáticos. Drummond é mais popular do que Bandeira. parece um poema único. em Fio terra. A "palavra" parece traí-lo. tem de poético na apresentação de Noemi Jaffe neste Melhores Poemas Arnaldo Antunes. POETA E RESENHISTA LITERÁRIO. TAMBÉM É AUTOR DE CEGO ADERALDO (2010). Armando abriu mão de tudo pelo metapoema. gosta de se definir). Provavelmente o melhor de AFF. Em. Arnaldo Antunes busca atualizar. o livro mais recente. A apresentação é quase que meramente poética. Por sua vez. O poema "agouro". Dual e Marca Registrada . O poema vai desaparecendo na página. Nada a dizer. Vide poemas "Sensorial" e "Cidade Gráfica". de 2003 e em Raro mar. a poesia Concreta dos irmãos Campos. 3x4 (1985) ganhou o Jabuti. Longa vida. desenvolve o poema psicológico. dialoga com Longa vida. O ar de Arnaldo Antunes O que tem de passional na apresentação de Heloisa Buarque de Hollanda para Melhores Poemas Armando Freitas Filho. Dispensável até. de 2 ou + corpos no mesmo espaço . a pergunta é: Para quais leitores o poeta fez os poemas desse livro? Armando Freitas Filho mostra um refinamento formal que o distancia do leitor. sem muito sucesso.O ar de Armando Freitas e o ar de Arnaldo Antunes CLÁUDIO PORTELLA* educativo prefácio de Heloisa Buarque de Hollanda para Melhores Poemas Armando Freitas Filho é passional. Sem dúvida é o grande mestre da metapoesia brasileira. Concordo que Armando é realmente um poeta para poucos. Mas discordo que Drummond seja um poeta "encrencado" (palavra com a qual AFF. assim como Armando Freitas Filho. a selecionadora). Senti falta. começa a experimentar. O que Armando tem de "encrenca" (palavra usada pelo próprio AFF para definir sua poética) a de Arnaldo tem de "ordeira". de uma última página onde o poema desaparece por inteiro. como ela. há no livro uma seleção de inéditos. Arnaldo Antunes é o mestre da semiótica na poesia brasileira. não cabe no novo século. Os livros seguintes. sempre foi. de 2006. . quando o assunto é poesia visual. o poeta deixa a desejar. aqui factualmente. AUTOR DOS LIVROS BINGO! (2003). definitivamente. em Numeral/Nominal. sua influência maior. No livro seguinte. Se afasta do leitor novamente em Duplo cego. ou tudo. De corpo presente. Desde então. sua poesia obedece somente a um projeto indiscutivelmente pessoal. A poesia de AA é a antítese da poesia de Armando Freitas Filho. comento. À mão livre (1979). o livro de estreia. porém. livro de 1975. Linguagem poética que. de 1997. são eminentemente Concretos. CRACK (2009). é muito bom. Notar também que sua poesia tem diálogo incessante com a letra de música. que Drummond é um O resenha 6 poeta difícil. Heloisa também fala da grande paixão que Armando nutre por Drummond. onde o poeta parece não abrir espaço para uma discussão generalizada do mundo. de 2000 (livro preferido HBH. Tomo de empréstimo um pouco da passionalidade da Heloisa. e. Busca uma proximidade do leitor em De cor (1988) e Cabeça de homem (1991). Demarcada influência também de Décio Pignatari e Cassiano Ricardo. *ESCRITOR. os livros selecionados pela prefaciadora: em Palavra. Em Números Anônimos (1994) volta a dialogar com Longa vida e 3x4. Mas.

registra o rápido monólogo de Garcia antes de decidir. O jovem médico já não se atrai apenas por um caso de 38 | João Pessoa. E o jovem médico resiste. a verdade é que a sua poesia está muito longe do que é preconizado pelo grande nome vivo da poesia portuguesa. e O Tempo do Foaron. ser sócio de Fortunato na casa de saúde. ainda na CENA 6 do conto "A causa secreta". concluiu ele [Garcia]. A dobrez é evasiva e oblíqua. considera-se iniciação ao remorso . mas não consegue demover Fortunato da idéia de tê-lo como sócio. pela narrativa de Garcia. A partir da edição de a luz nos pulmões. E o riso registra o narrador . especialmente com a reedição do mesmo nas Edições Quasi. Porém. se algum dia fundar uma casa de saúde. setembro de 2010 A UNIÃO . cidade onde o poeta ainda hoje reside. Ou seja. com o título Ahagahe . em 1998. Jorge Melícias enquadrar-se-ia ainda nas tendências mais abrangentes da poesia portuguesa. fala das "raras qualidades de enfermeiro" de Fortunato: ". e após dias. torna-se claro o caminho que Melícias pretende c RODAPÉ MACHADO DE ASSIS E O SADISMO (5) Fortunato. casa editorial responsável pela edição dos principais poetas portugueses na entrada do Séc. na mesma editora conimbricense.XXI. recusa inicialmente. o riso dele era jovial e franco". Portanto. finalmente. ALÉM DE SER TRADUTOR DE ISIDORE DUCASS E JOHN PERSE seus pares. Apesar de. Assim.tão bom enfermeiro. com primeira edição em 1998. em 1995. o narrador no episódio envolvendo Gouveia). CENA 7: De início.. em recuperar a expressão feliz da mulher. Daí é que a idéia de fundação da casa de saúde irá se "meter" na cabeça de Fortunato (um "capitalista" . Em iniciação ao remorso. se possa aproximar Melícias dos epígonos de Herberto Helder. rindo muito ao se lembrar dele. de Coimbra. Estes três livros estão hoje excluídos daquilo que o poeta considera a sua poesia reunida. Jorge Melícias nasceu em 1970. no caso. em 2000. da boa atitude do marido.Luso-contemporâneos: Jorge Melícias LUÍS FELIPE CRISTÓVÃO* A poesia de Jorge Melícias é. volta a falar do episódio enquanto "dedicação". que. sendo que o seu primeiro livro foi publicado em 1994. o seu primeiro livro. no monólogo. Na mesma editora saíram A Um Deus de Olhos de Graça. irei convidá-lo". dotando o seu discurso poético de um lirismo enquadrado numa temática pessoal e íntima. o mais arrojado projecto entre poetas lusocontemporâneos. na editora A Mar Arte. enquanto um préstimo de Fortunato. zombando de Gouveia. numa visão geral. de passagem. ainda preocupado (e mais ardiloso) em agradar Maria Luísa. intensifica-se o seu jogo de interesses materiais na relação com Fortunato. um investidor -.. um riso autêntico expressão da alma. conclui que a casa de saúde pode vir a ser "um bom negócio para ambos". Garcia. Foi com este volume que Jorge Melícias ganhou reconhecimento dos POETA PORTUGUÊS É PESQUISADOR DA LÍNGUA. volta a dar vazão ao seu sadismo. muito provavelmente. E aqui se desfaz o que se fez: a expressão feliz (e ambígua) de Maria Luísa ao saber.o que supõe. por serem fruto de um tempo anterior ao do amadurecimento da sua escrita. como já informara."Não era o riso da dobrez [do fingimento]. Garcia.

como opção de enfrentar o mundo. termos não correntes na linguagem nativa. E há ainda Maria Luísa. raiva. esse teste à resistência da poesia. ainda. Na fronte ostentavam a longa blasfémia. que está a beleza deste texto. desgosto . 2006) Trabalho a crueldade pelo lado da exuberância. presume-se.é porque percebe que. de 2008. se aplicando ao trabalho. tornando-se "o próprio administrador e chefe de enfermeiros". anulada diante do marido . que inclui ainda o livro agma. Jorge Melícias assume também a direcção editorial. portanto. compras e caldos. fica entre aflita e aborrecida. a poesia de Jorge Melícias ganha nessa opção de leitura sem tradução. Por vezes guincham e as pedras que seguram nas mãos abrem-se como têmporas. entre outros. ler um poema de Jorge Melícias é uma aventura linguística extrema. pelo próprio "padecimento" de Maria Luísa ao pensar na proximidade do marido com os enfermos. pela editora Objecto Cardíaco. Como se no confronto com a poesia em língua estrangeira. o reforço da imagem de mulher resignada. JÁ PUBLICOU LIVROS DE CONTOS E O ROMANCE RITA NO POMAR A UNIÃO João Pessoa. Claro: tal aplicação às tarefas também é suspeita . mas não ousou opor-se-lhe. António Gamoneda. Como instigando a carne à vernação das goivas. por um lado. Melícias encontrasse uma delicada forma de lidar com o seu próprio acidente. onde a presença de cada palavra é pesada. publicado pela Cosmorama em 2008. da "dor moral". 2008) Rinaldo de Fernandes* "decomposição de caráter". Fundada a casa de saúde. em 2006. a ser tocado pra frente. *ESCRITOR E PROFESSOR DE LITERATURA DA UFPB. 1998) Um nervo arrebatado à exactidão. que Jorge Melícias tenha uma intensa actividade de tradutor de poetas como SaintJohn Perse. que será aquela que lhe é mais distintiva. Leonardo María Panero. Sabe de seu profundo sadismo. se vale da dor física alheia e. Mais do que um epígono de Herberto Hélder. que. recortados de um invisível texto maior. na sua poesia. A poesia de Jorge Melícias está dotada de uma outra característica. Chega-se ao crime pelo exercício da evidência (incubus. diante de Fortunato. Se Maria Luísa "padece" com o fato de o marido ter contato com "enfermidades humanas" é porque. Há o propósito e o axioma implícito: a queda não é interceptável. ela já desconfia ou mesmo já sabe quem ele é. E se. está reunida no volume disrupção. pela convivência. ao saber da fundação da casa de saúde. Fortunato é abnegado. tendo em conta o efeito pretendido pelo poema.c seguir. Segue-se a publicação de o dom circunscrito.pelo que até aqui foi mostrado pelo narrador acerca da natureza sádica de Fortunato. ambos nas Edições Quasi. 2004) Vi as crias à solta pela insídia. Toda a poesia de Jorge Melícias. se mostrar que "padece". impondo ao leitor a decisão sobre traduzir (ou não) o poema tal como nos é apresentado. pela proximidade.e agora também "nervosa". Nesta última editora. Aqui. setembro de 2010 | 39 . drogas e contas". Não deixa de ser irónico. receosa. ela "curva e cabeça" sem esboçar qualquer reação. reprova a idéia: "Criatura nervosa e frágil. I ALGUNS POEMAS Há sempre um homem só como uma torre de sal. Melícias tem apostado no poema curto e a sua poesia tem causado polêmica entre os leitores portugueses por utilizar termos não correntes na língua nativa Na minha opinião. que. É perante a dificuldade que ele impõe ao leitor. poderá alimentar ainda mais o sadismo dele. por outro. acumulando com isso o facto de ser a que mais polémica tem causado entre os leitores portugueses. Miriam Reyes. de estudo da alma: há um "negócio" a ser gerido. (a longa blasfémia. Para além disso. Assim. ordenava tudo. a presença cada vez mais habitual de uma temática da violência. e incubus. Isidore Ducasse. Em redor da mesa as mulheres que amam vão lentamente apodrecendo. Poemas cada vez mais curtos. Mas a maior parte da noite vigiam em silêncio para terem a certeza de que morrem. em 2003. E ainda: "examinava tudo. e curvou a cabeça". uma experiência de leitura radical e complexa. padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas. Melícias é um pesquisador da língua e utiliza. (iniciação ao remorso. em 2004. Sobre ele edifico o método. que é um objecto ímpar da poesia portuguesa. (agma. e depois a longa blasfémia .

p.de "arautos c João Pessoa. da "herança fértil dos deuses". é expor ao ridículo os opositores confrontados. Esta modalidade de poesia popular remonta à tradição poética medieval e compreende uma "competição" em forma de diálogo quase sempre em tom de provocação entre dois ou mais poetas cujo objetivo. 1998. O folheto de cordel . 1979. entre as composições dos trovadores medievais galego-portugueses há a chamada tensó (tensão). à moda grandiosa dos clássicos épicos grecolatinos.inédito .que aqui abordamos. p. uma forma fixa de cantiga ou poema.83). corresponde a uma insólita "tensão" ou "desafio" entre dois dos mais expressivos e conhecidos poetas de cordel nordestinos que nos dão bem a noção do que tal modalidade poética representa.(por se dar no céu) . semelhante ao "desafio". Marques. não raro. a voz que narra nos esclarece ser nossa literatura e poesia "obra-prima de gigantes" fruto.Confronto inusitado entre dois arautos da poesia de cordel Gilberto de Sousa Lucena* U m dos gêneros poéticos mais tradicionais praticados pelos poetas de cordel nordestinos continua sendo o conhecido por "desafio" ou "peleja". Isto para se referir à "peleja" inusitada . Ao iniciar seus versos. relativas a uma determinada questão" (BEC. da autoria do cordelista cearense F.42 apud CORREIA & VAN WOENSEL. Comparativamente falando. que segundo o medievalista francês Pierre Bec correspondia a uma "discussão entre dois ou mais trovadores que defendiam respectivamente opiniões opostas. setembro de 2010 | 40 A UNIÃO .

segundo o poeta. a partir daí. um dia. dom poético. Patativa do Assaré tem que ouvir do seu desafiador: "Eu canto sem me / assombrar/ de gente que já/ morreu" e que ainda apela para que seu parceiro "Esqueça o rei na/ barriga" porque.c populares/ mercadores de emoção".o conhecido "poeta do absurdo" . conhecimento e a "mais sublime visão" das coisas. O confronto toma rumos graves a partir da "resposta" de Limeira a Patativa do c A UNIÃO . com o uirapuru . o poeta insinua haver outro lugar que se opõe ao céu (já que para nele se chegar "a peneira é maior")./ Inda mais aqui no céu/ onde a peneira é maior". de um altivo Patativa: "Com seu verso não me entalo/ pois sou pássaro canoro". Por se encontrarem no céu. refuta o poeta Zé Limeira com estes versos: "Já convivi com ateu/ que de lembrar me dá dó/ só não pensei que. corresponde a uma insólita "tensão" ou "desafio" entre dois dos mais expressivos e conhecidos poetas de cordel nordestinos: Patativa do Assaré e Zé Limeira confronto ou de desafio entre os dois personagens. protagonizada pelas extraordinárias personagens de Zé Limeira (1886-1954) . Nesse "encontro inusitado". A "peleja" propriamente dita entre os dois famosos "menestréis" começa na décima estrofe./ fosse encontrar um pior.(uma ave rara de canto apreciável e que. a "vasta sapiência do caboclo sertanejo" se faz presente em versos desafiadores que exigem de cada um dos bardos experiência. que eu/ canto cá!". uma situação que também corresponde ao contraste do teor do discurso poético entre os dois contendores. Segundo o narrador. à sua gente. a resposta de Patativa é imediata e em forma de galhofa. setembro de 2010 Folheto de F. Pelo tom crescente de 41 | João Pessoa. Ao em seguida se identificar. No que ouve. no céu "não tem/ fariseu". "canta com decoro") Patativa compara Zé Limeira. com a "graúna" ao afirmar que o "trino" do seu adversário é de "agouro".e Patativa do Assaré (1909-2002). segundo Limeira. orgulhosamente. sendo capaz de até não se calar caso perca sua língua. onde se lê que "Um astuto Patativa" desafiou Zé Limeira com o verso: "Cante lá. Zé Limeira se apressa em apregoar que nessa "prosa" ele se garante pelo que fala. Desse modo. Temos claramente. em tom de superioridade. a noção de que céu e inferno traduzem ou sugerem também o sentido da "peleja"./ A vida como ela/ é". Marques. levando em consideração a cor da sua pele. De modo subliminar. elementos indispensáveis "Para mostrar.

possivelmente pela sórdida tradição que o envolve acabou sendo mal visto e banido do universo cultural popular. que é geralmente associado aos valores cristãos ou à humildade e simplicidade do mundo rural. que acabam nos propiciando conhecimento e lições de vida. 1979. Marques para que a poesia do cordel continue se perpetuando. Poesia Medieval Ontem e Hoje: Estudos e Traduções./ Não fala coisa com coisa. temos a seguinte conclusão partida do próprio poeta narrador: "Fico por demais contente. De modo progressivo. João Pessoa.aquele tradicional personagem já presente no antigo teatro grego . Paris: UGE . Satanás é um "anjo decaído" que tentou Nosso Senhor Jesus Cristo no deserto. De forma indubitável./ Mas./ Esses vates da história/ São ministros do saber". O eu que fala no poema retira do embate poético entre os dois famosos "menestréis" nordestinos grande "lição" e conclui seu cordel com uma criativa estrofe destacando seu nome. o poeta narrador do cordel como uma espécie de Corifeu ./ Agora. (Edições CCHLA)./ por isso./ Quando entro/ numa briga. chora e sofre./ Seu lugar é na caldeira/ que Satã já tá mexendo". Quase sempre Satanás aparece na literatura (de cordel. o bom senso passa a prevalecer a partir do momento em que Patativa do Assaré acorda para o fato de que está envolvido num "negócio sem fim" e reconhece que não quer "viver assim" pois a "eternidade é luxo/ somente pro Criador". no fundo. levando "o poeta do absurdo" a agora versejar em tom de ameaça ao seu desafiador: "Cê vai entrar pelo/ cano/ ou não me/ chamo Limeira. sempre com o intuito de provocar ainda mais seu opositor. Maurice J. Por sua vez.// Ungidos. Assim. dissoluta. Letras e Artes/ Universidade Federal da Paraíba.torna-se comentarista do entrecho da sua própria composição. Além disso. reconhecendo que "Uma trégua é prudente" e "o pinho" lhe "cativa". e . Anthologie des Troubadours. O desafio poético entre os dois "trovadores" continua com agressões mútuas entre aquele que nunca foge da rima mas é acusado de fazer "grande/ mistura". É Patativa quem propõe que a viola os una. se constituindo fonte inesgotável de uma poesia que nos põe a par de inúmeros aspectos da cultura popular./ Se a viola não/ resolve. 1998. o agravamento da discussão vai estabelecendo para o leitor (que seguramente pretenderá muito conhecer o desfecho da contenda). Acreditamos ser este Encontro Inusitado de Zé Limeira com Patativa do Assaré significativa contribuição do poeta cearense F. É bem provável que por sua indignidade e a carga negativa que o envolve Satã pôde provocar em um dos contendores a feitura destes versos: "O Diabo tá é/ querendo/ reparar o vil/ engano. se defendendo ao afirmar não ser "nenhum/ paspalho" para "ouvir tanta/ tolice". uma forma de suspense. é a "entidade" que atenta contra a vida e as fontes que a alimentam. Patativa continua o desafio mantendo-se aparentemente tranqüilo. a tradição da literatura de cordel permanece viva e a atrair admiradores. se constituindo fonte inesgotável de uma poesia que nos põe a par de inúmeros aspectos da cultura popular insultosa assertiva de que a "prosa" dele "é bem/ rasteira"./ decido na/ bagaceira". libertina. principalmente) como figura maculada./ num terrível/ desengano". A partir daí o leitor é encaminhado para um desfecho amigável entre os dois poetas. é ditosa"./ À mercê do sol nascente. astuta. vive sofrendo./ Que logrou a/ baraúna/ nessa mudança de plano. No âmbito da cultura popular./ Mergulhado nesta prosa./ não sabe o que tá dizendo.c Assaré através dos versos: "Pra mim você é calouro./ Resplendendo a luz formosa/ Que transcende e faz viver. formado pelas primeiras letras que iniciam cada um dos versos (o que resulta em acróstico). Pierre. é "Judas" que para ele (Patativa) "Não é páreo". a figura do demônio representa o mal extremo./ não gosto de/ tremedeira. setembro de 2010 | 42 . alfinetando-o com a A UNIÃO De forma indubitável. F. *MESTRE EM LITERATURA BRASILEIRA E DOUTORANDO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS DA UFPB. em plena glória. exposta ao ridículo e semeadora de todas as desgraças. certificando-se de que Zé Limeira não passa de "um/ aprendiz" com "voz fina" de "atriz". Numa espécie de maliciosa estratégia.10/18. João Pessoa: Editora Universitária/Centro de Ciências Humanas./ Que teima. I Bibliografia : *BEC. se voltando para o leitor a sugerir que "Essa aliança motiva/ uma parelha de prosa./ no resgate da cultura/ dessa gente tão honrosa. Francisco José G o m e s ( C h i c o Vi a n a ) & VAN WOENSEL. a tradição da literatura de cordel permanece viva e a atrair admiradores. CORREIA. De acordo com o Novo Testamento. chegando a elogiar o trovador Zé Limeira considerando ser sua "presença altiva" na cantoria. Nada pode ser comparado à ação maligna do Diabo na mente do homem popular. Pedro/ padece. Pior ainda. Apesar da exaltação de ânimos prevalecer na maioria das estrofes desta insólita "peleja".

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