6 editorial

Aruanda, jubileu de ouro de uma obra-prima

A

ruanda, de Linduarte Noronha, entrou para a história. Não só da Paraíba, onde se tornou referência decisiva às gerações posteriores que fizeram cinema aqui. Em todo Brasil também. Ninguém menos que Glauber Rocha, mentor e líder do Cinema Novo, deu ao filme paraibano o crédito devido. A fotografia estourada que revelava ao restante do Brasil uma realidade dura, serviu de régua e compasso aos que se aventuraram a fazer cinema em tempos de uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. No ano em que o filme completa o seu aniversário de 50 anos, apresentamos aos leitores do Correio das Artes, uma longa e inédita entrevista com Linduarte, concedida aos pesquisadores Vinicius Navarro e Fernando Trevas Falcone, em 1989.

No ano em que o filme completa o seu aniversário de 50 anos, apresentamos uma longa e inédita entrevista com o diretor Linduarte Noronha
A nova geração da literatura paraibana também comparece. O jovem poeta Daniel Sampaio exercita o ofício da tradução em “A Bela Toilet”, versão sua de um poema do norte-americano Ezra Pound. O também jovem Tiago Germano marca sua presença nesta edição. Analisa as ligações entre o seriado de televisão “Dexter” e o romance de Dostoiévski, Crime e Castigo. Curiosamente, o tema do

regionalismo foi motivo de uma dupla reflexão. Uma, mais abrangente sobre o assunto, feita pelo colunista Hildeberto Barbosa Filho e outra mais verticalizada, da professora Moema Selma D’Andrea, que se detém no exame dos contos do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito. Uma boa surpresa nos é revelada por Ronaldo Cagiano. Ele discorre sobre o romance Deus de Caim, do não muito conhecido Ricardo Guilherme Dicke. Quem também traz outro surpreendente autor é Luís Felipe Cristóvão. No dossiê sobre a literatura contemporânea portuguesa, tomamos conhecimento de um grande poeta, Jorge Melícias. Duas estreias completam a edição de setembro. Do escritor baiano Edson Cruz, nosso novo colunista, que escreverá sobre as relações entre internet e literatura. A segunda novidade diz respeito à poesia. A cada edição, pediremos aos próprios poetas que escolham seus textos preferidos. Quem dá início à série é Sérgio de Castro Pinto.

6 índice

,
CONTO

24 @

MÚSICA
A ginga malandra de

30 D

CINEMA

33 2

CORDEL

40

Um dos mais importantes ficcionistas atuais, o escritor Pedro Salgueiro publica um conto inédito, “O Jogo de Damas”

O novo filme da diretor Jane Campion, Brilho de Uma

Um inusitado encontro entre os poetas populares Zé Limeira e Patativa do Assaré em um folheto é analisado pelo pesquisador Gilberto de Lucena

Moreira da Silva, o Kid Morengueira, é o tema da coluna do poeta e professor Amador Ribeiro Neto

Paixão, é o objeto de
análise do crítico de cinema João Batista de Brito

Suplemento mensal do jornal A UNIÃO, não pode ser vendido separadamente
A União Superintendência de Imprensa e Editora BR-101 - Km 3 - CEP 58.082-010 - Distrito Industrial João Pessoa - PB PABX: (0xx83) 3218-6500 - FAX: 3218-6510 Redação: 3218-6511/3218-6512
Secretária Est. de Comunicação Institucional LENA GUIMARÃES Superintendente NELSON COELHO DA SILVA Diretor Administrativo CRISTIANO MACHADO Diretor Técnico WELLINGTON AGUIAR Diretor de Operações MILTON NÓBREGA Editor Geral SÍLVO OSIAS Editor do Correio das Artes ASTIER BASÍLIO Supervisor Gráfico PAULO SÉRGIO DE AZEVEDO Editoração ULISSES DEMÉTRIO Ilustração TÔNIO Arte e montagem da Capa ULISSES DEMÉTRIO Revisão ANTÔNIO MORAES

ISSN 1984-7335 e d it o r . c o r r e io d a s a r t e s @ g m a il . c om http://www.auniao.pb.gov.br

6 eu

indico
Santa Joana dos Matadouros
Um crítico do teatro disse certa vez que Brecht “ofusca tudo ao seu redor”. Nada mais correto para ilustrar meu primeiro contato com sua Santa Joana. Para mim, o teatro jamais foi o mesmo depois de deparar-me com a ingênua Joana nas fábricas de carne enlatada e em meio ao (atualíssimo) jogo especulativo do mercado financeiro.

A Banda (The Band's Visit)
Vi esse filme quando estava estudando cinema em Nova York, e esse filme foi passado na academia para mostrar uma outra forma de contar uma história. O filme foi indicado para melhor filme de língua estrangeira, mas como ele é falado 75% em inglês foi desclassificado. O filme tem uma boa fotografia e uma excelente história. Uma das cenas memoráveis do filme é quando um integrante da banda ajuda como cupido a um garoto da cidade. Vale a dica!

Paulo Bio de Toledo crítico de teatro da revista Bacante

Rizemberg Felipe fotógrafo

6 do

leitor
André Ricardo Aguiar - poeta/ PB

Excelente a edição, principalmente a tradução de Marianne Moore. Parabéns pelo Correio, transbordante de matérias suculentas, um verdadeiro banquete intelectual.
Ivo Barroso - poeta e tradutor/ RJ

Recebi a revista, ficou uma beleza! Vou ler com mais atenção e te falo.
Ruy Castro - escritor/ RJ

6 lançamentos

Diário do Hospício e o Cemitério dos Vivos
Este volume reúne duas obras de Lima Barreto, Diário do Hospício e o romance inacabado O cemitério dos vivos. O primeiro é um documento da internação do escritor, entre o natal de 1919 e fevereiro de 1920, no Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro. O segundo enfrenta, em chave ficcional, a experiência da loucura, narrada no primeiro. Publicados postumamente, funcionam como vasos comunicantes. Esta nova edição conta com um prefácio do crítico Alfredo Bosi. (Cosac Naify, R$ 55 352 pág)

Sublime Obsessão
Na pequena Brightwood, o milionário playboy Bob Merrick sofre um acidente com seu barco de corrida. O grupo de salvamento o ressuscita com um equipamento que, por isso, não pode ser usado para salvar a vida de um herói local, o Dr. Wayne Phillips. Dias depois, já no hospital, Merrick conhece a viúva de Phillips, Helen, por quem se apaixona perdidamente. É o início de um romance que mudará a vida dos dois para sempre.Baseado no livro homônimo de Lloyd Douglas, Sublime Obsessão (1954, Douglas Sirk) levou Rock Hudson ao estrelato. (Versátil Home Vídeo, R$ 54, 40)

Buddy Guy & Junior Wells Play the Blues
Buddy Guy e Junior Wells protagonizaram uma das mais talentosas duplas do blues. Este álbum foi conturbado. Eric Clapton, Ahmet Ertegun, e Tom Dowd só conseguiram gravar oito faixas em uma série de sessões em 1970 em Miami, dois anos depois, a banda J. Geils foi trazida para gravar as duas músicas adicionais que completam o LP para o lançamento super atrasado em 1972. O disco duplo mostra Buddy Guy deslumbrante com o revival de "T-Bone Shuffle" e Junior Wells brilhante em "Sonny Boy's My Baby She Left Me" (Warner, R$ 39,20)

4 | João Pessoa, setembro de 2010

A UNIÃO

Reflexões
de um crítico-realizador

E
6

m entrevista concedida em junho de 1989, Linduarte Noronha fala do seu ofício de crítico de cinema, exercido diariamente nas páginas de A União entre 1956 e 1967, e da repercussão de Aruanda na Paraíba e no Brasil. Ele lembra como o golpe militar de 1964 afetou o jornalismo e a produção cultural no Estado e faz a defesa do documentário. A entrevista, inédita, foi concedida a Fernando Trevas Falcone e Vinícius Navarro

O ambiente cultural da Paraíba no início dos anos 60 parecia instigante: havia a Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba (ACCP), o cineclubismo. Gostaria que você descrevesse João Pessoa em 1960, quando você foi rodar Aruanda na Serra do Talhado. O instigante que você fala era mais um ambiente talvez voltado 90% às letras provincianas. Aqui em João Pessoa, como qualquer província deste porte, cinema era tabu. Fazer cinema era loucura. A não ser aquelas loucuras de Walfredo Rodriguez nos c
João Pessoa, setembro de 2010 | 5

A UNIÃO

entrevista

Mas o documentário Mangue que eu pensava era uma análise sobre a Região Ribeirinha. c A UNIÃO mos. inclusive com suas conotações socioeconômicas. que eles desconheciam. do Ipojuca Pontes? Bem. o reitor da Universidade Federal da Paraíba. Quando eu fui ao Rio pegar o equipamento do INCE para realizar Aruanda. por que jamais quem escrevia sobre cinema aqui admitia ou sonhava que um dia pudesse entrar para a realização cinematográfica. Tinha um altíssimo nível cultural. O indivíduo saía numa canoa vendendo à prestação para quem morava nos rios. Tudo se resolvia em torno do jornalismo e da literatura. O mundo intelectual ficou ressentido com a perspectiva que o cinema dava. com a criação do Serviço de Cinema Universitário. não tinha nada que ver com aquilo e tinha. EM SANTA LUZIA. em termos de realização. principalmente poesia. O Correio das Artes que foi fundado em 1949. Graciliano Ramos” Caxias (centro de João Pessoa). diga6 | João Pessoa. INTERIOR PARAIBANO De que maneira o Ciclo de Cinema Paraibano influenciou a crítica local? Houve um impacto tremendo. que não sei se ainda existe. encampou nosso trabalho. Eu nem havia começado o filme. no tempo em que estávamos realizando Aruanda em Santa Luzia.c ano 20 e 30. dentro do argumento nosso. Isso tudo roteirizado por mim. do Rio Sanhauá. foi ousado. José Lins do Rego. a minha geração foi profundamente influenciada pelo Gilberto Freyre. houve até notícias desairosas. O problema cinematográfico na época surgiu. a minha geração foi profundamente influenciada pelo Gilberto Freyre. Totalmente. Graciliano Ramos. ele tomou uma dimensão dentro do jornalismo. Aí. Como característica cinematográfica foi a crítica.. Eu não posso negar. CENA DE ARUANDA. Ele foi cassado? Eu não sei como não foi fuzilado. Quais eram as perspectivas da produção cinematográfica em 1960. Era um núcleo. Qual a relação do Mangue com Os Homens do Carangueijo... Havia blagues nos jornais. A partir daí. E vocês sabem que a realização de um filme não é como escrever um poema. setembro de 2010 “Eu não posso negar. O cineasta Alberto Cavalcanti. Este Serviço foi o núcleo do atual Departamento de Comunicação da UFPB. para implantar o Serviço de Cinema Universitário. um complexo primitivo dentro da região. primeiro foi Aruanda e em 1962 a gente fez Cajueiro Nordestino. FILMADO NA SERRA DO TALHADO. Aquilo era quase um elemento ilustrativo. um jornal disse que eu havia retornado cineasta. Era uma predominância dos anos 50 que chegava ainda. Ele alugou uma sala na Rua Duque de . não. tinha também. que é o chamado mascate. O cinema tinha problemas seriíssimos. da crítica cinematográfica. o Mangue. A União tinha rodapé sobre crítica literária. Mas. Mário Moacyr Porto. Eu já tinha feito Aruanda e Cajueiro e o próximo projeto seria Mangue.. como vocês sabem. a ponto de sair para a Serra do Talhado e realizar Aruanda ? Bem. do Rio Paraíba. quando você. da crônica cinematográfica. Parece-me que a imprensa superestimava o cinema paraibano. José Lins do Rego. Há uma coisa incrível nesses rios. Predominava a crítica literária.

. Não em torno de aplauso.. Foi a insistência dele em fazer o Serviço de Cinema. O Mangue seria uma produção da Universidade? Sim. Nordeste. Você era o responsável pelo Serviço? Era. Como nasceu essa ideia de fazer o Serviço de Cinema Universitário? Foi o próprio reitor.. botaram todo mundo para fora. dentro deste núcleo que a Universidade encampou. ainda estava no roteiro. Não se podia escrever o que se queria. uma Konvac. modifica a sua visão de crítico em relação ao cinema brasileiro? Foi a reação da crítica carioca em relação à Aruanda . O que aconteceu com esse projeto? Em 1964 prenderam todo mundo. O pessoal da Líder disse que a câmera era excelente. o Palácio da Cultura. Dentro das redações dos jornais. Quando estourou o troço disseram que eu era amigo do Kruschev. meteram o cassete e jogaram fora todo o equipamento que a Universidade tinha comprado. Não existe nenhuma referência à situação política do Brasil depois de 64 na crítica de cinema. Eu dizia que a Universidade no meio não dava certo. A gente ia filmar Nordeste. que vivia na União Soviética. A Universidade comprou um equipamento profissional. Qualquer filme de tendência política era rigorosamente proibido. Mas ele foi insistente. foi uma coisa que eu até hoje não consigo descrever. pensando em Hollywood. LINDUARTE NORONHA PENSOU EM LEVAR AO CINEMA A OBRA NORDESTE. Foi comprada no Rio. Por que isso? Ah! Era rigorosamente censurado. em ganhar milhões de dólares. Sobrados e Mocambos. Fui designado pelo reitor Mário Moacyr Porto. com todos os defeitos dos últimos anos da vida de Gilberto . DE GILBERTO FREYRE (FOTO) Quando terminou o filme.. reacionário . a censura controlava tudo. Essa câmera soviética foi comprada pela Universidade através de licitação.. O grande interesse nosso era filmar Nordeste. A primeira exibição do filme no Rio não foi comercial. setembro de 2010 | 7 .botaram ele numa fogueira.isso não me interessa. Como a passagem para a realização em 1960. Fiquei chocado no bom sentido. O velho Gil- berto. O que me interessa em Gilberto Freyre é a primeira parte da obra dele: Casa Grande e Senzala .. E acabou prejudicado por isso. Foi cassado em 1964? A câmera russa que você comprou no Rio de Janeiro. A turma que estava chateada porque queria fazer cinema de todo jeito. Foi uma exibição no auditório do antigo MEC. que nunca foi usado. Foi uma frustração terrível a extinção da coisa. chamando de cabotino. Isso deu o maior bolo.Tenho a imc João Pessoa. Com Aruanda e Cajueiro. mas em torno de uma coisa que eles estavam vendo pela primeira vez em Oscar. A UNIÃO Foi uma cassação branca. aproveitou-se da época... De maneira nenhuma.c Cavalcanti. nessas besteiras. por uma firma chamada Artecomércio. já era para filmar Mangue ? Perfeitamente. O Gagarin filmou a Terra com uma câmera igual. Qual foi o destino do Serviço de Cinema Universitário? Foi extinto e jogaram todo o equipamento no porão. Por causa desse equipamento soviético. Os filmes do Leste Europeu nem se fala. Você chegou a rodar Mangue ? Não.

pelo menos deixando de lado os que quisessem fazer a ficção. isso dito por Paulo Emílio é um negócio muito sério. mas que se procurasse um cinema autêntico. Para mim Aruanda. DISSE: “VERDADEIRO CINEMA ESTÁ NO NORDESTE” Quem me chamou a atenção para isso foi Antonio Houaiss: Aruanda.pressão que o Aruanda. Romeiros da Guia serviram como uma espécie de guia ao pessoal do Sul Zé Lins. rapaz. serviram como uma espécie de guia para o pessoal do Sul. Ele disse que Aruanda e Barravento . mas não conhecem. em função de uma antropologia. setembro de 2010 . Não em torno de aplauso. Tá tudo lá". como as obras do século 16. realizada em São Paulo. não é isso que eu quero chegar de maneira nenhuma. E daí que partindo da sua pergunta. o encontro de Linduarte com Glauber não foi fortuito. lá no Rio. Mandacaru Vermelho já é Nordeste. DE VIDAS SECAS (FOTO). mas em torno de uma coisa que eles estavam vendo pela primeira vez. Você vê Villa-Lobos com “Oh Mana Deixa Eu Ir” tocada por Barbosa ou Artur Moreira Lima. Fogo Morto. Em 1960 Aruanda provocou impacto na "Primeira Convenção da Crítica Cinematográfica". Eu achava que o caminho era esse. A gente fala de Mário de Andrade. No Rio de Janeiro. esse cara faz uns negócios que ninguém mais pode dizer nada. Villa-Lobos.. Cheguei lá. pelo menos sulista. O documentário deveria ter seguido essa trilha. lá no Rio: "Mas é danado. a alta crítica estava lá. Quem me chamou a atenção para isso. muita coisa nordestina. Aqueles pífanos tocando. Esse documentário nordestino . que não conhecia absolutamente nada. e o impacto foi grande. E eu achava que só o documentário poderia seguir essa trilha.. Você vê que a turma do Rio correu aqui para fazer o quê? NELSON PEREIRA. que houve em 1960. Taí Menino de Engenho. A música de Villa-Lobos é quase toda baseada em nosso romanceiro popular. Nelson. de uma sociologia. Foi uma verdadeira explosão. Taí o livro de Paulo Emílio Salles Gomes. Romeiros da Guia. um Estado sem tradição cinematográfica e ter tido essa repercussão? Isso é difícil de explicar. Mas acontece que ela está noutra conotação cultural. eu não sabia. Como você explica Aruanda ter surgido na Paraíba. Ele abria uma nova perspectiva em torno da realidade nossa. de um país do qual participam. quando ele começa a falar da Primeira Convenção da Crítica. Parece que na época havia a discussão sobre o que deveria ser o cinema brasileiro e Aruanda veio responder a essa indagação.. foi uma coisa que eu até hoje não consigo descrever. não é (Thomas) Farkas? Ninguém pode sair daquilo". Cajueiro. não. Hoje é que eu estou notando isso. Não quero me comparar a esses escritores. os filmes de Paulo Gil. Vladimir (Carvalho) tá fazendo o quê? Vladimir é o documentário na perspectiva nordestina.e eu quero incluir Vladimir e os outros . noutra estrutura intelectual. É a imagem. Uma vez ele me disse que o verdadeiro cinema está lá no Nordeste. que é um grande estudioso da nossa língua. Cajuc eiro. abriu uma perspectiva. fiquei apavorado. Quando terminou o filme. Ele dizia. com Vidas Secas.está dentro de uma perspectiva como a literatura nordestina: Graciliano. Ele acha que Aruanda esquematizou uma realidade. talvez Aruanda seja um manifesto cinematográfico e cultural brasileiro. Zé Lins. foi Antonio Houaiss. Foi aí que eu parti para aquilo que a obra de Gilberto dizia. anos depois. sem fazer autoelogio a um trabalho nosso. Ele era im- pressionado com a feira de Santa Luzia. mas a imagem é outra. Mas é dentro dessa explo c A UNIÃO 8 | João Pessoa.. Ora. os filmes de João Ramiro e Vladimir serviram para a mentalidade. O cinema. Ele dizia: "Tá tudo lá.

Um Anselmo Duarte. Nouvelle Vague. se existe alguma influência do Sudeste. posicionamento crítico: Rio Grande do Sul. Os grandes temas do cinema brasileiro têm uma perspectiva nordestina. paulista. cinematográficos e literários. Humberto Mauro me disse que o filme não era um épico. porque houve uma sintonia de três Estados em relação ao A UNIÃO O Elísio Valverde e outras pessoas. O paulista Trigueirinho Neto foi para a Bahia fazer Bahia de Todos os Santos. quando você fala de Os Fuzis .. que já era sagrado. ou de qualquer diretor francês que era monstro sagrado. Ainda no final dos anos 50. comparando cinema e literatura. que fazia chanchada. se é que se pode falar de pólos: Porto Alegre. Eu vejo três pólos . E GANHOU A PALMA DE OURO PAGADOR DE PROMESSAS c são.. Belo Horizonte e João Pessoa em torno do posicionamento crítico. principalmente França.NORDESTE ATRAIU “A TURMA” DE FORA. a briga entre o produtor Jarbas Barbosa e Ruy Guerra.. “Eu vejo três pólos muito conectados. E a Bergman. faz O Pagador de Promessas. mas sim um filme hípico. Havia uma grande preocupação com o cinema europeu. Rio Grande do Sul era (Humberto) Didonet. A turma correu para cá. se é que se pode falar de pólos: Porto Alegre. Você vê isso em quase todos os trabalhos teatrais. Nos anos 60 você volta a isso. Um filme de Renoir que chegasse aqui. Cinema Novo. QUE FAZIA CHANCHADA. Taí Ariano Suassuna. O filme é Nordeste. com o advento dos documentários.. Minas Gerais e Paraíba. A gente aqui com Filmagem (revista editada pelo Cineclube de João Pessoa em 1956) . Acontece que ainda nos anos 60. a influência dessa crítica era mais o cinema europeu. Paulo Thiago veio fazer Batalha dos Guararapes . Estive revendo um número da RCC e eles davam muita atenção a Europa. você afirma que no Brasil não se c João Pessoa. Belo Horizonte surgiu com a Revista de Cultura Cinematográfica (RCC). Nouvelle Vague. Qual foi o resultado? Palma de Ouro. mas eu acho que não. só tinha cavalo (risos). setembro de 2010 | 9 Parece uma arrogância dizer isso. COMO ANSELMO DUARTE. era um programa de altas discussões. Antes teve a Revista de Cinema. Belo Horizonte e João Pessoa em torno do posicionamento crítico” muito conectados. Queria que você dimensionasse a originalidade da crítica paraibana. você usa o termo autor. dessa visão da realida- de nacional.

você foi o único a permanecer na Paraíba. Eu acho que o nível cultural brasileiro precisa de um tempo para se revitalizar. mas em tudo. Muitas pessoas. Dos cineastas paraibanos. Ele foi assassinado culturalmente. E o pessoal "correu para fora". Embora isto aqui esteja se transformando num saco. Eles me cansam. Havia essa influência cultural europeia. São Paulo. o problema nacional não se faz em seis meses. A morte de certas pessoas de cinema. havia. Os preparativos dos anos 60. Não gosto do gigantismo. A cultura brasileira foi destruída. não só no cinema. Eu não queria fazer isso.. Mas essa melancolia desse artigo que você fala. Já estaria amadurecido o negócio.respeita o autor do filme. O Brasil foi um país estrangulado. que isso é o pior. Queria continuar a fazer aqui documentário nordestino. dá margem a esse tipo de comentário. no Sul do país. O que se refletiu em tudo. de coisa sufocante. Se eu fosse para o Rio ou São Paulo ia tentar fazer filmes urbanos. Eles não aceitam. e que morreram precocemente. DEFENDIDA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Um problema meramente pessoal. Rio. O atavismo colonial no Brasil é impressionante. Isso faz parte do nosso atavismo. Em 1968 você defende a permanência no Nordeste dos homens que possam contribuir para o engradecimento da cultura nordestina. Queria continuar a fazer aqui documentário nordestino. desprezavam Aruanda . por ser um filme sobre negros. era uma previsão do que real10 | João Pessoa. mataram. RADICADO NOS ESTADOS UNIDOS. eu estou de pleno acordo. setembro de 2010 mente ocorreu. não. Os caras proibiram. principalmente na economia e política. Vladimir e Manfredo Caldas assinaram. de 1968. Não gosto dos grandes centros urbanos. realizando filmes. I *FERNANDO TREVAS FALCONE É AUTOR DA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO A CRÍTICA PARAIBANA E O CINEMA BRASILEIRO ANOS 50-60. sob todos os aspectos. como diz o matuto. O neo-realismo foi aplaudido no mundo e rejeitado na Itália. Então esse conceito de autor vem dessa vertente europeia? Não tenha dúvida disso. Sinceramente havia uma grande influência da cultura francesa. O BRASIL FOI UM PAÍS ESTRANGULADO E GLAUBER ROCHA UM ASSASSINADO CULTURALMENTE “Se eu fosse para o Rio ou São Paulo ia tentar fazer filmes urbanos.. o que não foi possível” Talvez porque eu não seja ligado aos grandes centros. A morte do Glauber (Rocha). prenderam. Você disse que Aruanda havia sido aceito em todo o Brasil. VINÍCIUS NAVARRO É PESQUISADOR PARAIBANO. Talvez tenha sido isso. O problema cultural de um país. botaram para fora. A indusc trialização estaria contra o autor? Um filme de Bergman é dele.. menos na Paraíba. Eu não queria fazer isso. Você vê o manifesto que saiu no Jornal do Brasil em dezembro do ano passado (1988). o que não foi possível com essa proibição que houve. Criaram a grande indústria do medo. já quero voltar. Vladimir Carvalho e João Ramiro Mello se vão e você fica. Quando fico dois ou três dias no Rio ou São Paulo. A UNIÃO . A Nouvelle Vague. Isso vai ser difícil de refazer. eles encontraram embaraços seriíssimos aqui. pelo que você escreveu..

numa antecipação de questionamentos caros aos estudos da representação da realidade no cinema. para um seleto grupo de intelectuais. elas . O filme começa nos contando uma história. no processo de libertação dos escravos. Os habitantes do Talhado estão em pleno século 20.sim. setembro de 2010 | 11 . a estrutura narrativa do filme. e que tem uma dívida social enorme a saldar . o projeto de Aruanda nasceu moderno não apenas por sua estrutura narrativa. são escravos libertos. É de se imaginar. projetadas em ambientes sofisticados do Rio de Janeiro e São Paulo. matéria prima abundante na região. Os personagens fazem o trajeto em função de uma demanda do filme. Mas pouco muda na vida dos personagens. que teimam em negar a complexidade cultural e étnica do Brasil. Agora. transformados em cidadãos entregues à própria sorte colocar em cena negros e negras lutando pela sobrevivência constituiu-se quase que em uma provocação para setores da nossa elite. o que mais nos chama atenção.Aruanda. Mais que eventuais denúncias de atraso e pobreza. O espectador atento notará que a caminhada da família de Zé Bento pelos campos áridos do Sertão paraibano é um exercício de ficção. um filme moderno Fernando Trevas Falcone* D esde a sua estreia em setembro de 1960. simbolizadas pela inauguração de Brasília e implantação da indústria automobilística. o filme de Linduarte Noronha firmou-se já como uma obra de referência do cinema brasileiro. com Brasília recém inaugurada e o país embalado pelo ritmo da bossa nova. presentes aliás na narração feita pelo próprio Linduarte. no cinema Rex. o impacto daquelas imagens. Em uma sociedade marcada por profundos preconceitos. mas a vida pouco difere da ficcionalização apresentada no início de Aruanda. que para muitos se passa em 1960. os homens e mulheres de Talhado viviam mais próximos do século 19 que do século 20. agora quem está em cenas são as mulheres trabalham na fabricação de utensílios de barro. mas pela escolha do seu tema. Uma imperceptível passagem de tempo nos leva ao ano de 1960. entre as numerosas virtudes da obra prima de Linduarte. Logo depois. é o rompimento dos conceitos de ficção e documentário. ao ser exibido no Rio de Janeiro para uma plateia de críticos e estudiosos de cinema e em São Paulo durante a Primeira Convenção da Crítica Cinematográfica. O QUE MAIS CHAMA ATENÇÃO NO CURTA É O ROMPIMENTO DOS CONCEITOS DE FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO Agora o espetáculo cinematográfico se dá em função do cotidiano da comunidade. No início da década de 1960. Afinal. I *PROFESSOR UNIVERSITÁRIO E PESQUISADOR DO CINEMA PARAIBANO A UNIÃO João Pessoa. entre outros fatores. Passados cinquenta anos. estão no século 19. e não da demanda do filme. vive da fabricação de objetos de barro.cuja origem está. demonstra o estado de coisas daquela população: em pleno 1960. Aruanda mostra uma comunidade de negros que nas serras e vales de Santa Luzia. Cinquentário. Aruanda percorreu um longo e vitorioso trajeto. em que passado e presente se misturam ante o espectador sem uma linha divisória. em um país que vivia uma euforia desenvolvimentista. ainda em plena euforia dos anos JK. além do que foi ressaltado por críticos da estatura de Paulo Emílio Salles Gomes e Jean Claude Bernardet.

MANFREDO CALDAS (E) AO LADO DE NELSON PEREIRA DOS SANTOS (C) E LINDUARTE NORONHA DURANTE AS FILMAGENS DE CINEASTA DA TERRA A permanência de Aruanda Manfredo Caldas* 12 | João Pessoa. Mas o que mais me impressionou em Aruanda . João Córdula era o coordenador. filme fundador do moderno documentário brasileiro. filmes estrangeiros e em sua maioria norte-americanos. setembro de 2010 6depoimento O ano era 1962. Até então estávamos acostumados a ver só o que era oferecido pelo circuito exibidor local. foi a força de suas imagens numa fotografia com a lente nua e sem filtros deformadores como diria o Nelson Pereira dos Santos. Aí assisti Aruanda pela primeira vez e naquele exato momento tive a nítida impressão de que existia um tipo de cinema possível de ser feito. Cine Clube Linduarte Noronha. distantes de nosso cotidiano. Serviço do Cinema Educativo da Secretaria de Educação e Cultura do Estado. obtendo o máximo de dramaticidade da luz do Sertão c A UNIÃO .

a debandada foi geral. desde as suas fotorreportagens de origem do filme Aruanda ao pensamento ecológico calcado no humanismo e nas questões do ambiente do cinema. talvez o primeiro documentário sobre uma feira tipicamente nordestina no bairro carioca de São Cristovão.candangos imigrantes. Em verdade. com roteiro em parceiria com João de Lima e fotografia de João Carlos Beltrão. iniciei uma trajetória de realizações de documentários tendo a migração interna como tema central. Neste filme é apresentado d e m a n e i r a c ontundente o problema fundiário no Nordeste do país . realizo o médiametragem Cinema Paraibano Vinte Anos.c e lembrando a tonalidade autocontraste das xilogravuras nordestinas. Este filme aborda o u n i v e r s o p e s s o a l e criador de um precursor do movimento cinemanovista no país. A revolução de Aruanda no documentário paraibano e brasileiro estava estabelecida. Em 1974. tendo as imagens de Aruanda como tema central e recorrente em sua narrativa. Foi a partir de Aruanda que a temática da relação do homem e a terra passou a estar presente em meus estudos e preocupações ainda como cineclubista e já partindo para algumas experimentações no campo da realização. Romance do Vaqueiro Voador . consciente ou inconsciente de resistência cultural. revelei uma família de paraibanos que vive em Caxias. terminei precocemente migrando para o Rio de Janeiro. Em 1988 conclui do d o c u m e n t á r i o d e l onga metragem Uma Questão de Terra . fala sobre a mitologia em torno dos operários . a atualização e permanência de Aruanda no panorama da cinematografia brasileira. concentrei meu foco nos momentos mais e x p r e s s i v o s d o c iclo do documentário paraibano na tentativa de rediscutir a importância deste ciclo e situá-lo na história do cinema brasileiro. zona norte do Rio. Mais recetemente. Foi aí que. E numa ruptura drástica. confirmando em definitivo. concretizei uma homenagem explícita ao Mestre Linduarte Noronha realizando para a série Retratos Brasileiros do Canal Brasil. DIRETOR DE NEGROS DE CEDRO (1998) João Pessoa. que t r a b a l h a r a m n a e p o p ei a d a construção da nova capital do país. Por motivos óbvios de falta de condições objetivas. reforçando os meus laços com Aruanda .onde não faltam as cores mais fortes de exasperante violência tingindo de tragédia a história da região.mais especificamente no Estado da Paraíba . Em Boi de Reis (1977). Com o advento do AI-5 em 1968. realizei Feira . No Brasil de 1983. setembro de 2010 | 13 . Cineasta da Terra. e que mantém o folguedo numa tentativa. I *CINEASTA PARAIBANO RADICADO EM BRASÍLIA. minha A UNIÃO A partir de Aruanda que a temática da relação do homem e a terra passou a estar presente em meus estudos ainda como cineclubista e já partindo para experimentações intenção primeira era refletir sobre curso do documentário brasileiro a partir de Aruanda. nordestinos em sua maioria paraibanos. O meu mais recente filme. período pós anistia. atento à transposição de traços culturais nordestinos para os grandes centros do país.

. rebate o rótulo: "Desde que Gilberto Freyre estabeleceu os cânones do Movimento Regionalista. esquecendo que já se passaram 70 anos. junto com um magro livrinho de contos: davam-me. [. o instante do ato que define o drama humano”. afeitas ao convívio da morte como ciclo de retorno e "destino". Ao mesmo tempo. Chamar um autor de regionalista é uma maneira de diminuir o valor de seu trabalho. “Inácia Leandro”.. cuja força poética transfigura o corte seco da observação realista com que ele alterna e com que se talha.enfrentando a ira da família materna. o que estava escrito. um retorno sobre o que eu escrevera. (Guimarães Rosa) Moema Selma D´Andrea* O ensaio 6 s contos de R o n a l d o C o r r e i a d e B r i t o . voltados. Agora "Lua Cambará" é que retorna em sua forma inicial de novela. incluindo também a protagonista do conto “Faca”. embora logo fiquemos sabendo que se trata da designação de um de seus contos e da importância da palavra no entrecho da narrativa. A tendência de se enquadrar o lócus (regionalista ou urbano) onde a ficção é narrada. sem dúvida.Faca amolada: o universo poético-trágico nos contos de Ronaldo Correia de Brito Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. precariamente. incluindo aí os títulos de alguns deles: “Lua Cambará”. que. que tentam enquadrar a nossa produção nessa cartilha. envolvendo o mítico sertão-mundo. revelando. guardando um parentesco com a tragédia antiga. possibilita o lado poético e surreal de alguns entrechos. a apreciação de uma leitura que se expande para o drama universal dos predicados humanos. como uma personagem da dramaturgia grega. Um de seus contos mais famosos é Lua Cambará.] O sertão está em toda a parte. por outro lado. setembro de 2010 A UNIÃO . Passaram-se vinte anos.meia página de uma prosa sibilina. traz também a linguagem adusta. numa espécie de "círculo sem saída" em que a ruptura. em super8 e mereceu de Davi Arrigucci esse breve ensaio: "que não teve resposta. o estranhamento da escassa informação do conteúdo a que o título remete. foi filmado. reduzi-lo a c 14 | João Pessoa. em nós leitores. impede a morte do pai . A técnica com que os contos são narrados. “Cícera Candóia”. sob as imagens filmadas. influindo na expectativa mítica de seus destinos. O drama contido nas narrativas. aliás bem escrito. Uma grande parte dos contos do escritor cearense elege a figura feminina como tema ou como protagonista. quando se dá. em entrevista publicada no Cronópios: Literatura & Arte no Plural.assassino de sua mãe . como se fosse ontem.] Aqui o fantástico se expande pelo sopro do imaginário. e só então me chegou uma carta . o tempo adquire status de protagonista ao lado das personagens. restringe. “Aldenora Novais”. e surgiu o Romance de 30. ou ainda pela desforra silenciosa que ilude o "destino" traçado. Francisca. intitulados pura e secamente de Faca .. e que todo escritor escreve na perspectiva de seu tempo. esse realismo é temperado pelas soluções fantasmagóricas que incrementam o imaginário popular. onde se formou o ficcionista. como os contos que a acompanham neste volume. também eles. Essa cartilha nos prestou um grande desserviço. sobretudo para o drama familiar sertanejo na mesma região cearense de Inhamuns. [. Nos contos. na novela e nos contos.. Desta forma é concebido o clímax das personagens-título dos contos que subvertem a ordem pré-estabelecida no mando dos homens. produzem. reelaborada decerto muitas vezes ao longo desses anos. é sempre trágica. Regionalismo virou palavrão. Assim é que o próprio Ronaldo. trazendo a lembrança dos narradores anônimos. concisa e realista que permeia o chão histórico das paragens nordestinas.

Pare com esse agouro . Tecendo um destino por cumprir. O tempo. E se ninguém mexeu ainda deve estar por lá. apesar da paisagem desértica. O silêncio as sustinha. ele existe. Não tinha como não pensar nesse silêncio. calada. . Daí uma memória visual manifesta durante a escrita. E a vida de depois. É a "cidade arruinada pela ruptura com o sertão". apesar do torpor. cúmplice dos conflitos. admirando-se do riso.gritou Ciça. tinham aprendido a não se perguntarem nada. dirigiu e protagonizou um curta-metragem que foi o vencedor do 7º Festival de Cinema. Peguei o veneno. já que se aproxima o último dia de saída do caminhão.E tu.a velha disse e sorriu. 121) A relembrança abre-se como "um destino por cumprir". E Cícera ficou sozinha com a mãe. p. o mote do desenlace: "Sentia que a filha estava muito nervosa. depois da desgraça. Quando o pai e os sete irmãos homens moravam ali. com o marido vivo e em plena atividade de plantio. Um dos contos do livro Faca. O drama que estrutura a narrativa se alicerça em dois suportes: o silêncio entre as duas personagens e o tempo de espera. cujo único sustento era o leite das poucas cabras que "Ciça" cuidava e uns restos de "farinha mofada"." (Faca. seguiu-se a debandada dos outros irmãos. 114-115 .Eu sempre desejei ser enterrada debaixo do pé-de-paubranco. enquadrá-lo em chavões. naquela tarde. o tempo fugindo. lembrança. " Um breve resumo determina o contexto do conto: a cidade de Parambu. . A mulher. "Entre mãe “O sertão de que trato não existe. mais do que de costume.] O s e r t ã o d e q u e trato não existe. . em 2003. um fato do passado que lhe vem nítido à memória e carregado de desígnio. se não fora o providencial leite que beberam. a mãe desanda a falar: "E cada palavra saía carregada de intenção. O que é o sertão. longamente. A velha. essa é a técnica com a qual Ronaldo maneja suas narrativas. O conto se desenrola nos últimos três dias das fugas urgentes e da espera de Cícera Candóia pelo temido desenlace. A posição do narrador funciona mais como um camera-eye. À fuga do parricida. que a velha. setembro de 2010 | 15 A UNIÃO . de maneira descuidada. suspirando entre um bocado e outro. tão longe que o rosto do pai aparecia em contornos imprecisos. A intuição lhe dizia já que a filha pouco falava.] . como elemento estruturante da narrativa. sofrida.Não. é Sebastião Qinzim. ouvia a conversa da mãe. foi levar-lhes "o feijão com toucinho. Uma família marcada pela tragédia: o filho mais velho mata o pai pela partilha de umas cabras. A mãe. mas não se manifesta. quase envenenados. solidão. embora senil. Em outro depoimento o autor admite a influência do cinema no seu ritmo criativo: "É possível que eu tenha visto mais cinema do que lido. (Faca. produziu. em não poder partir. enfiei dentro de uma cumbuca e meti naquele caixão que fica perto do fogão.. Este sintoma vem se acentuado cada vez mais. Rompendo o longo silêncio que as unia. Prefiro dar ao fraseado dos textos um ritmo cinematográfico.. havia nela um rancor mais forte. junto com o farelo de milho para a alimentação das duas. p. é pura memória inventada. você sabe? Eu juro que não sei. levantou a cabeça e olhou a filha. p. poderia ter como subtítulo "Tempo de Ira". Entre eles há um diálogo em que Qinzim tenta convencê-la a migrar também. [. na forma da recordação. aliás o único.Sabe o que aconteceu? Eu guardava um veneno de matar formiga. A memória é agora um espelho da figuração alegórica. Este parece ser o destino do drama que entrelaça as personagens. as quase últimas habitantes do lugar. a condenação já existia no fato de ser mulher. p. Durante o tempo em que viveram juntas. Vídeo e Dcine (cinema digital) de Curitiba. em parceria com Gisella de Mello. Tempo de ira e de silêncio. e a lembrança da velha mãe obedece a esse imperativo.. O desprezo das pessoas do lugar. quando Ciça estendeu para a mãe o prato de xerém de milho que seria o seu jantar.Eu não viajo com mãe porque mãe não agüenta a viagem.] . 122-123) Ciça. além da recorrência da morte. como há anos não fazia e de uma forma que esquecera. Cícera resiste: não deixa a mãe sozinha.Verdade que todo mundo vai embora? . que nunca mais se olharam. percebeu. Num lampejo de consciência entrega para a filha. ela ainda menina. Depois.. No entanto. enquanto mãe tiver vida". Como resultado do almoço. Escrevo sobre um sertão invadido pelas cidades.] A cantilena da velha arrancou-a do devaneio. (Faca. Um tempo longe. atrás da casa. nos contos recentes. [. andado pelos caibros. para ela e a mãe suportarem. 121). . tu estás querendo ir embora? Ciça soltouse da mãe.c estereótipos. são neuroticamente urbanos. que flagra o desenrolar dos fatos. Aliás. é o empecilho à sobrevivência da personagem: "Para Ciça. .. t o d o s p a s s a r a m m a l . no mundo globalizado. a dela solitária e com um crime por compreender.No tempo da ira fazia poeira. Habitavam miseravelmente num casebre e num pedaço de terra. abriga mãe e filha. entrevada de reumatismo. e a casa guardava ruídos de alegria. assumia a custódia da mãe e sua eterna companhia. mexeu no embrulho de papel e uma parte do veneno derramou-se na panela de feijão. decadente. se fazia urgente.Eu tive mais cuidado. Foi com este título que Marcélia Cartaxo.. De um tempo de paisagem verde em que ainda era possível rir. E a grande sentença do silêncio entre as duas. Cícera Candóia. condenação. Continuando a narrar. Sem que escolhesse. narrada para consumação do desfecho. p. socado nuns caibros do telhado. dos bem fortes. e a leva de moradores que migram em caminhões em busca de sobrevivência... A noite foi se alongando. porque eu nunca mais quis saber de matar formiga. deixava o tempo escorrer a balançar numa rede: "Ciça lembrava-se de tudo. E também não deixo mãe sozinha aqui. E sobre cidades arruinadas pela ruptura com o sertão.] E. encarregada da comida. E eu nada mais faço do que procurá-lo”. 114).. "Depois só silêncio. Anos atrás. O papagaio de casa. Sabia que as pessoas da vila iam embora. A mãe mastigou a comida devagar. justo em cima do fogão. em busca da madrugada. Meus personagens. empregou uns homens para "brocarem um roçado".. cuja dor tirou-lhe o tino de viver. [.. A velha mãe. 117) Crime. parece ter um envolvimento amoroso com a personagem feminina. E sobre cidades arruinadas pela ruptura com o sertão” e filha agravava-se um silêncio que sempre fora intenso" (Faca.grifos meus) Outro personagem a interagir com Cícera. silêncio. tratá-lo com preconceito e deboche. ela puxa pelo fio do mistério: ". tudo muito gostoso.Me diga de uma vez.É. que. nas entrelinhas. Antes de entrar para a cozinha respondeu: . então. tem na pouca memória a chave do conflito. Conta. Escrevo sobre um sertão invadido pelas cidades. não vais embora também? . [. p. como os irmãos homens fizeram.. (Faca.".. inabitável economicamente." (Faca. E no c João Pessoa. [.

que passa à lenda pelas mãos dos trágicos gregos. Ciça aceita o destino e cumpre o desejo materno. O cunhado de Domísio Justino ouviu o relato e não teve mais dúvidas: o santo da comunidade era o assassino de sua irmã. o corpo de um homem. liberta agora para a vida: "Precisava satisfazer os desejos da mãe. escondido num quarto escuro. anulando. ele também um predestinado viajante pernoitando em Monte Alverne. incorpóreo. a protagonista Francisca toma a defesa do pai. o primeiro por insídia e o segundo por vindita. desde a tragédia. Possuía a aura dos santos e encantou-se como o rei Sebastião. p. 122123 . A lembrança de um pequeno pacote.c claro do dia que já estava chegando. comandando um exército de valentes. setembro de 2010 A UNIÃO . -Eu estava esperando. Pareceu o dia em que encontraram o corpo do santo. uma paz de terra molhada. cozido no silêncio e na solidão. Seu tronco guardava os desenhos dos ferros de ferrar gado dos que ali passavam. para sempre. Construíram para o santo uma vida cheia de juventude. 14) A sina de Pedro Miranda estava colada a de seu cunhado. parceiros permanentes no vai-vem do Rio Jaguaribe." (Livro dos homens. Durante anos que correram pela frente. Mas isto é outra fabulação em Galileia. preso aos destroços das margens. PELA UNICAMP. A trágica sentença que a mãe se dá é a dádiva de uma nova maternidade e é a catarse do silêncio e solidão daquelas vidas. Chamou a mãe e lhe entregou. em estilo cinematográfico com o narrador c o n s c i e n t e m e n t e distanciado dos fatos. quando todos pensavam que o ano seria de estio. a mãe resgata o mito da esposa de Jasão. "Choveu a noite inteira e o Jaguaribe botou enchente. Vestia jaqueta de veludo. 10-11-12) Essa vida tecida de mitos retoma o passado na pessoa de Pedro Miranda. Voltou trazendo um copo de leite. p. "O tempo da ira". O ato criminoso torna-o um desertor para se livrar da justiça dos cunhados Pedro e Luiz Miranda. Ele entrou em suas vidas. Um anel com arabescos de ramos e flores entrelaçadas. é o tempo de espera para que a faca assuma seu destino fantasmático. Como uma Medeia às avessas. Mostrariam no dia seguinte à luz do sol" (Livro dos homens. p. p. nas raízes uma fresca umidade. romance que lhe concedeu o prêmio São Paulo de Literatura em 2009. Assassinos ambos. 14) Domísio Justino reaparece ainda como fantasmagórico personagem de uma longa. p. que nunca tivera em vida. Morreu nas margens do Jaguaribe. ignorando os sinais de rejeição silenciosa do grupo de fiéis. a velha disse. Havia uma árvore de caule branco. Gravado toscamente numa cruz. " debaixo de uma oiticica". pela composição interpolada de fragmentações permeada pelo tempo de espera e pelo círculo vicioso do "destino". O tempo deslocado de um século. sua ascendência. mestiça e conturbada ascendência sertaneja de Inhamuns. Foi descoberto de manhã. a voz narrativa. as pessoas procuraram a faca. ganhou o nome do santo do dia em que apareceu. (Faca.grifos meus) Aquela aceitação tácita sela o destino das duas. I *MESTRE E DOUTORA EM TEORIA DA LITERATURA. Desvendou para os o u v i n t e s a h i s t ó r i a passada. 7) A descrição objetiva dos a c o n t e c i m e n t o s . no conto “Faca”. p. todas positivas e à espera de algum acontecimento mágico que validasse a crença na sobrenaturalidade do estranho. peregrinos viajantes. É AUTORA DO LIVRO A TRADIÇÃO RE(DES)COBERTA: GILBERTO FREYRE E A LITERATURA REGIONALISTA 16 | João Pessoa. como matricida.". Na medida certa para arrastar outro corpo. onde se demorou. E o maravilhoso aconteceu com uma moradora mordida por uma cascavel e milagrosamente curada ao tomar a água da cacimba ao pé da oiticica. destino que perpassa o conto durante o longo período: "Um vaqueiro que vinha do curral viu uma ave prateada. p. Pedro Miranda. reluzindo e voando no espaço. A comunidade de pastores e vaqueiros enterrou o morto onde ele "aportou". personagens que parecem esquivar-se do destino imposto ou ainda prolongar o tempo de espera. A mãe sempre desejara o seu aconchego. atos generosos e feitos heroicos. quando é achada por um bando de ciganos que pernoita na fazenda abandonada. que nunca tivera em vida. muitas léguas acima. [. assassino da mulher com quem se casara.. camisa fina com abotoadores de prata. até o tempo de espera de cem anos. o anel com desenhos de ramagens. atrás da casa. no Livro dos homens uma técnica intertextual que percorre como um leitmotiv a narrativa de Ronaldo de Brito. Por isso. botinas de couro curtido. Sebastião dos Ferros. inicia o conto e suas conseqüências. O símbolo fatídico é arremessado por Francisca e torna-se um ícone intangível. É ela a verdadeira heroína do conto. (Faca.. sobrepondo seu sacrifício ao presumido sacrifício que a filha faria por ela. que narra a fábula da família Rego Castro. pela composição interpolada de fragmentações arrumando o álibi da infidelidade conjugal da companheira." (Livro dos homens. personas ambiguamente divididas entre o sertão e o apelo urbano na figuração de Adonias. Toma-lhes a faca de prata com cabo de ouro. Os contos de Ronaldo Correia de Brito nos surpreendem também pelo insólito que rege o destino das personagens. onde a morte se escondia. Seu passado ressurge já em outra trama do conto "O que veio de longe". Os contos de Ronaldo Correia de Brito nos surpreendem também pelo insólito que rege o destino das personagens. "São Sebastião dos Ferros mandou um sinal para nós. (Livro dos homens. ficou morando ali. p. apelidada de "Pau dos Ferros. enfim. "Desceu a primeira enchente do Rio Jaguaribe..Estavam bem guardados. Assim. 26) Domísio Justino ceifa a vida da mulher por amor de outra. também justiçado por ele. Águas barrentas e profundas.] Foi até a cozinha. E o sobrenome da árvore que abrigou suas carnes. Repousa. No meio das águas barrentas. despertava os mais esquecidos desejos. 124) São duas mulheres que o destino coloca em desencontro. que guardava. Tudo o que faltava nas suas existências comuns. enriquecia o dedo anular direito" (Livro dos homens. "Pediu para ver os objetos. -Toma. "no aconchego" de "uma paz molhada."." (Faca.. Pouso obrigatório de todos os viajantes. . 7-8-9) A imaginação da comunidade de Monte Alverne sugeria várias identidades para o morto. ainda suja do sangue da mãe. na casa do irmão Anacleto. O texto silencia sobre a fuga do homiziado. livrando-o da morte e dos justiceiros tios maternos.

o romance Deus de Caim . com reflexos na própria linguagem (musical. setembro de 2010 | 17 A UNIÃO . que atestam não só a monumentalidade do texto e a imporância da bibliografia do escritor. A ficção ainda vinha de um experiência estética bastante canônica. Referendado por Jorge Amado.A ressurreição de um grande escritor RICARDO GUILHERME DICKE. Guimarães Rosa e Antonio Olinto. A prosa caminhava para descolar-se dos modelos machadianos ou do realismo-naturalismo. integrantes do júri. nas artes. por iniciativa de seu editor. teatral e literária). quando primeiro surgiu um tufão c João Pessoa. É UM ESCRITOR DE DIMENSÃO ONÍRICA E SUPERIOR. Nicodemos Sena. na Casa das Rosas. do matogrossense Ricardo Guilherme Dicke. ainda muito fortes os ecos do modernismo na poesia. em direção a uma suposta modernidade em todos os sentidos. críticos e estudantes. como repudiam a imperdoável negligência e o injusto esquecimento a que foram relegados. AUTOR DO ROMANCE DEUS DE CAIM. Vivíamos uma época de rápido escalonamento de valores. em São Paulo. na moral e nos costumes. relançou recentemente. com apresentações críticas de Nelly Noaves Coelho e Raquel Naveira. o romance vem sendo objeto de redescoberta pelos ensaístas. obra que foi um dos vencedores do prestigiado Prêmio Walmap (1967). que o consideraram uma revelação e um marco na literatura brasileira. CRIADOR DE UNIVERSOS Ronaldo Cagiano* A editora paulista LetraSelvagem. Deus de Caim surgiu num momento de transição: na política.

Os mesmos conflitos. governo e mundo mereceu em Dicke uma releitura surreal. segundo Guimarães Rosa. Como afirmou Marçal Aquino. ou se interpenetram. que é o desejo de ambicionar o poder maior. os gênios criam universos. ROMANCE FOI REFERENDADO POR JORGE AMADO E GUIMARÃES ROSA também como pintor. esbulho da terra estão aí. que reverberam sua visão impressionista desse mundo interiorano. como os velhos coronéis do passado. seja o poder arbitrário dos que detêm o controle político e financeiro de um país. é perigoso viver. acima de tudo. Dicke cutuca as feridas da humanidade. setembro de 2010 RELANÇADO. a qualquer preço. e demiúrgico. impulsionado por Grande sertão: veredas.estão aí . vai impactar e comover o leitor. desde que Adão e Eva. o poder de decidir. A partir do enfrentamento entre irmãos é que se instaura uma profunda discussão sobre o homem.ambição. e o poder intrínseco. experimentaram do f r u t o proibido. mostrar que o real supera a si mesmo. as mesmas controvérsias e polêmicas . porque o mundo não mudou. aquela que. obrigar e impor sanções. incesto. professor. densa. O elo entre o passado genético da humanidade e a modernidade tumultuada em que vivemos homens. Deus de Caim . desde a fundação do mundo. picuinhas e disputas da família Amarante constituem o epicentro do romance. De Adão e Eva.como o fizeram com Macondo. homenageia e valoriza. dramas. senão expõe a violência que atravessa os séculos. dissensões. AUTOR DE DICIONÁRIO DE PEQUENAS SOLIDÕES (CONTOS) A UNIÃO . de um mestre (que pode ser Deus ou o Diabo) e que. E seu processo criativo contempla o caos. pois nada atenua. característica de um país até então confinado a uma cultura e a uma economia agrária e estigmatizada por totens. se possível. Ou. pano de fundo de um permanente desassossego. ao discorrer sobre música e poesia. Uma década depois. tradutor e pintor. sem defesa (como os ditadores). culminando no amor entre Lázaro e Minira. Dicke é autor dessa dimensão onírica e superior.c na narrativa contemporânea. bons autores contam boas histórias. uma vez que ele foi filósofo. I (*) POETA E FICCIONISTA MINEIRO. sobre o poder. passando por Abel e Caim. Rulfo e Faulkner. revelação e reflexo da própria desordem mental e intelectual do homem. vencê-la. até hoje. Muitos acontecimentos se intercalam. do desenvolvimento material e econômico das pessoas e das nações. morte. por meio de sedução e tentativa de estupro. com seus ritmos e rupturas verbais. num momento em que o tema da reforma agrária e da quebra de paradigmas morais eram um tabu). tabus e mitos que sustentam a vida e a memória do homem comum e do homem que controla política. apesar da tecnologia. García-Márquez. ao espelharem as experiências de um mundo arcaico e burguês . que deixou à literatura mundial um grande legado. vencer o tempo. roubo. ideológica e religiosamente a vida das pessoas. repercutindo na vida de pobres almas do centro oeste brasileiro. com sua habilidosa capacidade de recuperar a mitologia popular ou o inconsciente coletivo . ainda. assim como Isidoro. mentira. as mesmas questões. sem estereótipos e sem meias palavras. mas prioritariamente se explicita numa linguagem vigorosa. interditado pelo seu irmão Jônatas. atraindo o que na lógica cristã seria chamado de maldição. a verdade. resistente às mudanças. Com Deus de Caim. sobre interesses escusos e difusos. que estão abertas até hoje. e levantaram guarda para viver o próprio caminho. na verdade. Seja o poder do que quer roubar o amor de outro. e esse caos se reflete não só as histórias repletas de cizânia e perigo. usurpação. e é 18 | João Pessoa. Komala e Yoknapatawpha. Os dramas. o entrave humano é a luta pelo poder e contra a morte. mas como recurso para entender-se a loucura individual e coletiva e. desde a fundação do mundo. atrasado.Dicke deu ressonância a um conflito ancestral. como no caso dos embates filosóficos travados entre os personagens Grego e Cirillo Serra sobre o mundo. Essa faceta do romance também exterioriza o diálogo que Dicke estabelece com outros gêneros e reflete a sua preocupação existencial e sua relação muito íntima com a Filosofia. despistar a morte e. nesse romance. sobre a traição. cidade criada pelo autor. as artes e o pensamento culto. como o desejo de apropriação do outro (que na verdade soa como uma metáfora da apropriação injusta da terra. do avanço das comunicações e das ciências. deságua numa única e instintiva necessidade: a de perpetrar-se. Deus de Caim emerge como um outro furacão estético. sobre o amor. A tensão que vai perpassar todo o livro. Em Pasmoso. a religião e a cultura. que em boa hora se resgata. que são necessárias as tintas da ficção pelo viés do absurdo para poder entender esse intricado e violento sistema que é a vida. na verdade está fazendo uma incursão na atualidade. que não deixa o leitor sair indiferente ou ileso. ao fazer uma releitura do mito bíblico. como alegoria ou como recurso da intertextualidade. E para isso. não como fantasia pura e simples criação de uma historieta de sertão.

Porque eu também discordei . lá fora. sempre encarei as telonas como um suporte aumentativo também para as boas ideias. Quentin Tarantino.. por que não. ASTRO DO SERIADO DEXTER.). Você.. e neste dia. de Luiz Fernando Carvalho. porém. incorporando do cinema sua linguagem. provocou (pasmem) um amigo que dedicou boa parte de sua carreira acadêmica a estudos comparativos entre a literatura e a sétima arte. têm surgido nos créditos de peças televisivas e proporcionado um c João Pessoa. INTERPRETA ASSASSINO FRIO QUE TRANSFORMA O ATO DE MATAR EM ALGO ÚTIL PARA A SOCIEDADE Dexter. HALL.MICHAEL C. e. aqui. lembra-se daquela velha frase de Groucho Marx (" a televisão é muito educativa: cada vez que alguém liga o aparelho. que abriu seu suplemento numa manhã de domingo. saio da sala e vou ler um livro"). como em nenhum outro. venho reconhecendo que a teledramaturgia atual tem tido seus momentos de brilho em meio à poeira deixada por muitas produções cinematográficas. roteiristas. Raskólnikov O Crime é o Castigo Tiago Germano* “O 6 s grandes roteiros do cinema estão sendo escritos hoje na televisão". setembro de 2010 | 19 A UNIÃO televisão . de nomes como Steven Spielberg. certamente irá discordar. Tom Hanks. Diablo Cody. apesar de atento às exceções que fazem do nosso horário nobre algo digno do adjetivo.eu que. Aos poucos. Diretores. produtores e atores que viram sua carreira projetada através de rolos de película (caso. técnica e. sua força de trabalho.

e não da original. Se há algum mérito literário em Dexter (entusiasta ou não. mas curiosa) de que é casado com uma sobrinha de Ernest Hemingway. cuja figura de mentor lhe acompanha mesmo após a sua morte. é um dos trunfos de um enredo conduzido pelo anti-herói homônimo. num dos episódios da primeira temporada. Dexter é um jovem perito da polícia. especialista em hematologia forense. Esta. À cata dos tais "grandes roteiros" da televisão. "Posso matar um homem. como criador. ser pego. não resiste a uma leitura motivada por outro critério que não o da gênese de sua adaptação. que tenta emular com um desempenho canhestro. três deles no Brasil. Tornando à premissa que deu origem a este texto. Jeff Lindsay. diz ele. a mão antípoda da que castiga. pela editora Planeta. infelizmente. Um dos raros casos em que a televisão é bastante educativa por nos obrigar a fechar um livro para assisti-la. O flerte da série com a literatura. A série está atualmente em sua quinta temporada. Sua principal preocupação é driblar seu senso de inadequação e sua profunda inaptidão em fingir ser humano. e não apenas eu". em hipótese alguma. Diferente do assassino de Petersburgo. E não duvidem: talvez grandes livros também estejam sendo escritos por lá. e nunca. de cujas páginas herda seus principais arcos narrativos e grande parte da psicologia embutida em seus personagens. através de uma mídia responsável pela formação de pelo menos 40% dos espectadores do cinema que hoje conhecemos: o DVD. Harry. ela está livre para cometer um crime sem que a outra pese sobre si. que como o seu antecedente russo "chegou ao crime como se não houvesse caminhado com as próprias pernas". os grandes roteiros do cinema talvez estejam mesmo sendo escritos hoje na televisão. só se aproxima da grande literatura por uma criatura que ganhou vida fora dos seus domínios. desmembrar seu corpo e chegar em casa a tempo para ver o Letterman. este advém da obra televisiva. mas não sei dizer quando minha namorada está se sentindo insegura". muitas vezes. e desde 2006 vem tornando a sequência de livros do autor Jeff Lindsay (que emprestou à história do seu serialkiller aos estúdios televisivos) uma franquia rentável e contínua: já foram publicados cinco volumes sobre o personagem. I *JORNALISTA E EDITOR DA REVISTA CENÁRIO CULTURAL A UNIÃO . Dexter segue a risca o Código Harry. Observador atento às minúcias do comportamento alheio. A única época do ano em que todos usam máscaras. encarnação moderna de um Raskólnikov. ensinou a Dexter tudo o que ele sabe: inclusive como tornar sua natureza (a de um assassino frio e contumaz) algo útil e conveniente para a sociedade. E é neste ponto 20 | João Pessoa. não tardou a seguir a carreira do pai adotivo.c salto qualitativo em produções seriadas que nos chegam. Ou: "Adoro o Dia das Bruxas. E talvez pela informação (inútil. com seu humor de açougueiro. este querido e devotado cidadão de Miami não sofre tormentos de consciência. este tira de retidão insuspeita. o personagem rende ao roteiro boutades como esta: "Quer ter um vislumbre da natureza humana? Atrapalhe uma fila". Tal qual Raskólnikov. telessérie produzida pelo canal norte-americano Showtime e transmitida nacionalmente pela FX Brasil. setembro de 2010 ESCRITOR JEFF LINDSAY: EMPRESTOU A ESTÓRIA DO SEU SERIAL-KILLER AOS ESTÚDIOS DE TV Tornando à premissa que deu origem a este texto. que escolta sua conduta na filosofia de homens "extraordinários" como Napoleão (padrinho ideológico também de outro anti-herói famoso da literatura: Julien Sorel). os grandes roteiros do cinema talvez estejam mesmo sendo escritos hoje na televisão que nos afastamos um pouco de Dostoiévski: na medida em que Dexter é "a mão esquerda de Deus". a tábua sagrada onde seu provedor deixou inscrito seu legado doutrinário: apenas matar a também assassinos. eu já considero a simples remissão a Dostoiévski um mérito). cheguei a Dexter . estocados em boxes de DVD´s nas prateleiras das lojas. Adotado na infância por um tira. apenas matar quando comprovada a culpa.

setembro de 2010 | 21 .C. Slender. in the midmost of her youth. Delicada. white of face. 140 a. E ela se casara com um pau d'agua. (Atribuído a Mei Shêng. vacila. passando a porta. azul é a grama à margem do rio E os salgueiros alagaram ao longo do jardim. nas flamas de sua juventude. Who now goes drunkenly out And leaves her too much alone. (Tradução de Daniel Sampaio de Azevedo) (Attributed to Mei Shêng. E ela foi cortesã em outras datas. passing the door. she puts forth a slender hand. E por lá. The beautiful toilet “RECLINING-FEMALE-NUDE”. hesitates. 140 b.C. the mistress. a dama. And within.TRADUÇÃO/POESIA 1 poema de Ezra Pound A BELA TOILET Azul.) Blue. Que ora embriagado vai à troça E a deixa ademais sozinha. Branca. ela expõe os delicados dedos. White.) And she was a courtezan in the old days. DE EGON SCHIELE A UNIÃO João Pessoa. And she has married a sot. branca face. blue is the grass about the river And the willows have overfilled the close garden.

lampião atrás dos óculos sentia-se acrescido. camões ao habitar-se no olho murcho via o mundo claro dentro do escuro e o olho aberto era inútil ao habitar-se no olho murcho. o cristal dos verões. mas o olho aberto era casto e via no matar um gesto beato. camões ao habitar-se no olho aberto via-se todo ao inverso (pelo lado de fora) mas rápido se devolvia e fechava o olho aberto pra ser total a miopia. setembro de 2010 . mais interno no olho aberto. kipling recitam a plenos pulmões gargarejam vidros moídos. somado e era mais lampião naqueles óculos de aro.POESIA 5 POEMAS ESCOLHIDOS POR SÉRGIO DE CASTRO DE PINTO as cigarras são guitarras trágicas. lampião ao habitar-se nos dois olhos a eles dividia: o olho aberto matava e o outro se arrependia. A UNIÃO camões/lampião camões ao habitar-se no olho cego sentia-se íntimo. lampião ao habitar-se no olho cego 22 | João Pessoa. camões ao habitar-se no olho cego polia as palavras e usava-as absorto como se apalpasse e possuísse o próprio corpo. plugam-se/se/se/se nas árvores em dós sustenidos. lampião ao habitar-se no olho murcho via o olho aberto estrábico e rústico e compreendia o olho aberto mais murcho que o olho cego. chorava os mortos do seu interno.

camões molhava a pena como se no tinteiro molhasse o olho cego e tateando. o cuba-libre nos prendia. o papagaio era calado.POESIA os óculos lhe eram binóculos íntimos sobre a miopia e quando os óculos tirava lampião se decrescia: o olho cego somava e o aberto diminuía. mas os meus atos falhos encenam-se assim: eles já no palco e eu ainda no camarim. à pupila). (no tinteiro das palavras em forma líquida juntam-se uma a uma à retina. setembro de 2010 | 23 A UNIÃO . Camões escrevia com o olho cego por senti-lo mais seu do que o olho aberto e por poder o olho cego infiltrar-se. avenida dos tabajaras os tabajaras depuseram as suas setas no arco das esquinas privaram-nas de velocidade no arco das esquinas puseram-nas em repouso no arco das esquinas no arco das esquinas as setas fluem o tráfego mas congestionam e desorientam o antigo menino da avenida dos tabajaras menino antigo de um tribo cuja aldeia ainda não era tão global Geração 60 A Carlos Aranha e Walter Galvão a carta branca do montilla não era de alforria. ir mais dentro e externar o seu inverso. e em barris de carvalho o tempo envilecia. João Pessoa. saía do seu interno. atos falhos sequer os ensaio. cuidadoso.

24 | João Pessoa.. rezei meu terço. pensei em quebrar a dama empoeirada e não tive coragem. E apenas um mundo girava em seu eixo naquela tarde morta em que os únicos ruídos eram o trovejar das moscas no saco de açúcar e o arrastar das pedras no vidro. sem sossego. sem coragem de ir vê-lo: a rua deserta. acendi as velas. enquanto ele permanecia ao pé do balcão. O silêncio doía. o começo incisivo. o tac-tac das pedras no tabuleiro de vidro nos invadia os ouvidos e nos atraía pra lá. setembro de 2010 A UNIÃO ... no resto da tarde.. Perseguia-me. imitava-se com a dama riscada na areia e nos enraivecíamos por as pedras de cacos de telha não chiarem no tabuleiro do chão. que parassem com aquele jogo a noite toda. . fechei o armário num supetão.. irritado com alguma demora do adversário . os filhos e netos os sucediam e tornavam a envelhecer. onde já divisava. Acendi mais uma vela.o tilintar dos dedos da mão esquerda continuava a fazer sulcos na madeira: os parceiros teimavam em desaparecer. até o limite da exaustão: " . Agora o bisavô do meu vizinho vinha insistir que o deixassem descansar. Comentários.. I *ESCRITOR CEARENSE. mas homem.. mas homem. eu comecei a chorar e rezei três terços e acendi duas velas em cada canto da sala.. Disfarçando. O ESPANTALHO (1996).. até os grilos pararam. ENTRE OUTROS.. ô caboclo perigoso!" ou insistia por horas na mesma palavra. fazia tempo.mas homem. movi a minha pedra. conto ..cantava às vezes uma musiquinha insistente. o bater de pedras invadindo o mercado e assustando quem passava desligado pelas calçadas àquela hora da noite. fingíamos nem ligar.inédito O jogo de damas PEDRO SALGUEIRO * H 6 á cento e trinta anos jogava aquela partida. rumando para o final nervoso de horas depois.decidi abrir o armário antigo.. quando ganhava folgado: ". a vagareza do meio. BRINCAR COM ARMAS (2000).. pelo lado de dentro: somente ele sentado ... é um mistério que estamos levando para o túmulo.. e nunca as vimos por dentro. no mercado. os cães ladrando insistentes. cantarolando a mesma palavra a madrugada inteira.. Na madrugada em que vieram me avisar que ele jogava à luz de candeeiro na mesma mercearia virada para o nascente. sentados a um canto. na lembrança. há décadas fechado. os parceiros se revezavam até sumirem de vez. contudo. PUBLICOU O PESO DO MORTO (1995). a jogada já não era a mesma da noite passada. abandonara para sempre o baú velho em que fora esquecida. as latas de bombons enferrujadas. caboclo.eu pequenininho e fugia da oficina de meu pai e maquinalmente corria à mercearia do avô." Madrugávamos com o reco-teco das pedras no tabuleiro da cabeça. . só os dele.abri de chofre a tampa e. de longe.caboclo. não dormi a madrugada inteira.. ela estava gravada..e o vizinho contava de novo que o viram jogar. entre casas de aranha e poeira. Jogaria o tabuleiro no cacimbão ou o quebraria a marteladas. ......

o que pode gerar sérios equívocos no ato de apreciação das obras literárias. já revelava lucidez diante do problema. fisiografia. tanto aquelas em que a ação se desenvolve ensaio na zona rural quanto aquelas em que a ação ocorre na zona urbana. Afonso Arinos). redundando. influindo substancialmente no quadro. do exotismo e do folclórico. Nessa clave. Nesta acepção. ao afirmar. É destacada a região o bastante. Machado de Assis. o regionalismo se volta para o típico e o peculiar a uma região (ethos. Nesta ou naquela perspectiva. toda obra seria regional. Na verdade. da literatura do Norte (Franklin Távora). do gauchismo (Simões Lopes Neto) e do regionalismo nordestino de 30. Ta n t o a h i s t ó r i a quanto a crítica literárias se aproveitam de ambas as s i g n i f i c a ç õ e s p a r a a b o r d a r. No sentido geral. descritiva. Face à questão da nacionalidade. conferindo-lhe uma nota especial. não raro. Literariamente se confunde com a ficção do pitoresco. político e ideológico. símbolos. No sentido restrito. em textos de pouca valia estética. mesmo quando indefinível e obscuro. cujas condições se refletem no seu conteúdo.). tão cara à poética romântica. tipos. pois o espaço/ ambiente. da cor local. setembro de 2010 | 25 A UNIÃO . o critério a ser privilegiado nesses casos é o critério estético. por exemplo. embora possam fornecer relevantes subsídios documentais. linguagem etc. é elemento intrínseco à estrutura narrativa. a exemplo do sertanismo ( José de Alencar. interpretativa e apreciativamente as obras literárias que se amoldam a tal categoria. tende para uma concepção programática de fundo cultural. o regionalismo pode ser entendido num sentido geral e num s e n t i d o r e s t r i t o . New c João Pessoa. no século XIX.O Regionalismo e o Escritor Contemporâneo Hildeberto Barbosa Filho* G 6 rosso modo. o regionalismo diz respeito às obras que têm por fundo uma região. em Instinto de Nacionalidade: notícia da atual literatura brasileira (Novo Mundo. do caboclismo (Valdomiro Silveira). parece prevalecer o critério geográfico e ecológico. Não se confunde com uma simples moldura.

conforme exige George Stewart. aqueles ingredientes que a tornam uma obra de arte. Rio de Janeiro. referido por Afrânio Coutinho na Introdução à Literatura no Brasil (10 ed. O que se deve exigir do escritor. Não discuto a validade do conceito do ponto de vista científico (histórico. antes de tudo. é certo sentimento íntimo que o torne homem do seu tempo e do seu país. sobretudo uma literatura nascente. 202). Aplicado às obras literárias. mas da validade estética. o conceito me parece redutor. setembro de 2010 Regionalismo diz respeito às obras que têm por fundo uma região. mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. conferindolhe uma nota especial moderno e contemporâneo. sim. (Quanto a este último. ou seja. econômico e geográfico). seu processo c A UNIÃO .“OS RETIRANTES”. Dentro das implicações semânticas. p. ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço". 26 | João Pessoa. mesmo àquelas que têm como região a zona rural e dela tiram sua substância real (fundo natural e humano). realista. cujas condições se refletem no seu conteúdo. ainda podemos falar do regionalismo em suas fases históricas: romântico. 1873): "Não há dúvida que uma literatura. PORTINARI c York. deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região. Civilização Brasileira. Redutor porque se recusa a contemplar o ponto seminal das obras literárias. talvez fosse melhor dizer atual).

é falso. será sempre enquanto código segundo. retomando uma ideia de Borges. existencial e humano. É um estereótipo. de um engenho da zona canavieira da Paraíba na segunda metade do A UNIÃO A pecha de romance regionalista se tornou comum. Vou citar o caso do romance Menino de Engenho.) a filosofia pretende provar. safado? Ou porque perdeu. justificar teorias. meio atormentado de visões ruins".o que está alheio a si.. (. apenas quer encher o mundo de imagens". por seu uso de palavras. no fundo. da literatura. É um estereótipo. Por que teria sido com ela tão injusto o destino. com as cores que tiro da imaginação.. ainda tomando conta de mim. quando nesse espectro existem muitas obras que não poderiam se enquadrar tão limitadamente nesse paradigma. veracidade. "ao erigir o homem como eixo de suas narrativas". é falso. os costumes. Assim. que vem mediar tudo . 3. numa passagem de Sentimento e Forma. Portugal. a loucura. histórico ou filosófico.c de elaboração artística. Um romancista. secundando-a. iluminada leitura que passa ao largo dessa controvérsia menor: o regionalismo. Por sua vez. "O Verbo Inviável". num trecho de Sob o Signo do silêncio (São Paulo. O que importa é o elemento humano. naquilo que é universal. ainda no primeiro capítulo. Criação & Crítica. comentar. afirma Lourival Holanda. o medo. A pecha de romance regionalista se tornou comum. Col. prejudicando. pretende criar uma experiência virtual. por parte da crítica literária. se a literatura toma outro código. enquanto se vai formando. estruturalmente. o texto vai formando um espaço possível (outro. mas um romance de formação (‘bildunsgroman’. e vejo-a assim.) se deixar induzir ao engano de supor que o autor pretende. p. E no último capítulo. e O Estrangeiro . inquirir. para me valer de um termo barthesiano. o que lhes confere estatuto universal característico da autêntica obra de arte. camufla aspectos significativos. a semiosi. cabe muito bem as palavras de Suzanne Langer. Alcançando apenas elementos singulares e particulares. menino de engenho". completamente formada e inteiramente expressiva de algo mais fundamental do que qualquer problema ´moderno`: o sentimento humano. teve perdas? A história das perdas não seria a história de todos nós? Relendo Menino de Engenho numa outra perspectiva que n ã o a d e s i m p l e s r o m a nce regionalista. E o que dizer das últimas palavras: "Menino perdido. importam motivos temáticos como a morte. 2000. a ausência do carinho materno que conformam e formam a personalidade do personagem (sua singularidade). a natureza da vida humana em si". sabido. p. porém. como busca". em suma: falar às pessoas. a experiência de leitura. espantado. exatamente aquilo que pretendemos com o nosso informar. Perdido porque ficou para trás? Perdido porque se tornou perplexo. Exemplo: o chamado regionalismo nordestino para definir a ficção dos anos 30/45/56. São sintomáticas as primeiras palavras do narrador ("Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu"). confessar. independente do contexto (espacial e histórico) e das situações vividas e representadas. banal. injusto com uma criatura em que tudo era puro? Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético. 335). de Zé Lins.. transfigurados pelo gênio do autor. Vol. A história de Carlinhos não é a crônica de costumes de uma sociedade patriarcal. dando-me banhos e me vestindo. assim.) A morte de minha mãe me encheu a vida inteira de uma melancolia desesperada.. É preciso observar que o autor transcende o caráter regionalista. nas palavras de Eduardo Coutinho ( História da Literatura Brasileira. setembro de 2010 | 27 . não toca no principal. ao afirmar que consiste num grande equívoco "(. Alfa. não é ela que importa. e como todo estereótipo. Ora. a forma. Mais adiante. assinala (p. em que a experiência da morte e das perdas se faz essencial. de Graciliano Ramos. continua o narrador: "Horas inteiras eu fico a pintar o retrato dessa mãe angélica. usado em Aula(1977). contudo. os tipos e o imaginário social do mundo do engenho (a particularidade). A minha memória ainda guarda detalhes bem vivos que o tempo não conseguiu destruir. 36): "(. e como todo estereótipo. a solidão. Direção de Sílvio de Castro.EDUSP. Seria aliená-la. 86/87): "Não há por que querer. como dizem os alemães). a literatura é mais modesta. se ouvirmos a exigência do étimo latino: alienus .a verdade da geometria ou da h i s t ó r i a s e r e s s e n t e dessa mediação -. banal. como a qualquer romance bem realizado como romance. e camufla aspectos significativos século XIX. enfim. de Albert Camus. portanto).. isso é dito em função de uma rigorosa e arguta análise comparativa entre Vidas Secas . isto é. Trabalhando com a linguagem. por parte da crítica e da história literárias. juntamente com mathesis e mimesis. deforma a visão de quem assim o vê. ensimesmado? Perdido porque se fez ruim. Mais que a paisagem. É claro que a região é fundamental na constituição do enredo e do personagem Carlinhos (menino de 4 a 8 anos). c João Pessoa. arredio.. penso que a ele.

completa o narrador". triplamente excluído. 224/225) Silviano Santiago. Nem senhor. DE ALENCAR c Em "Ameaça do Lobisomem". 28 | João Pessoa. como que sinaliza para a precariedade do conceito de regionalismo. Pouco a pouco. esse lugar móvel é ocupado pelo seleiro José Amaro. ao propor uma nova tipologia para o romance de 30.das terras pelo senhor de engenho. Em Fogo Morto.) Sucede. E mais à frente. O romance historia as várias fases da sua transformação em lobisomem e as respectivas consequências". Suicida-se com a faca de cortar sola. Veja-se também que depois dessa edição.ou seja. resta-lhe a autoexclusão. virar senhor. o credo religioso e a organização familiar". I *PROFESSOR DO CURSO DE COMUNICAÇÃO DA UFPB. a l i b e r dade conquistada e a solidão tomada pelo lirismo bucólico. em sua História Concisa da Literatura Brasileira. E O SERTANEJO. E conclui: "Triplamente ameaçador. Ao que acrescenta o ensaísta: "Em noites de lua. de tensão crítica. setembro de 2010 Alfredo Bosi como que sinaliza para a precariedade do conceito de regionalismo. p. de tensão interiorizada e de tensão transfigurada. 10 anos após a sua morte. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior". salientando: "(. POETA. reflete acerca da condição do personagem José Amaro. porém. lobisomem". Seria apenas um pedaço de vida o que eu queria contar.. nesses termos: romance de tensão simples. . A busca de algo além das necessidades diárias . Diria que o próprio Zé Lins tem consciência disso.c EXEMPLOS DE OBRAS REGIONALISTAS: MENINO DE ENGENHO DE JOSÉ LINS. ridicularizado. a autossatisfação na comunhão com a natureza a d o r m e c i d a .. temido. inserto em O Cosmopolitismo dos Pobres (Belo Horizonte. diz o povo. (. UFMG. que será expulso das terras do coronel Lula.) Na sociedade dramatizada por Lins do Rego é ele o personagem passível de viver o movimento de transformação: virar negro. estribado em argumentos de Lucien Goldmann. o seleiro vai sendo marginalizado. ele retirou a nomenclatura de "ciclo da cana de açúcar". ao propor uma nova tipologia para o romance de 30 completa Silviano: "O lobisomem será triplamente excluído em Fogo Morto . da comunidade pelo temor religioso do povo e da família pela raiva da mulher. criticando as nomenclaturas "romance social-regional" e "romance psicológico". se transforma em lobisomem. assinala: "A história desses livros é bem simples comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos.torna José Amaro estranho ao mundo familiar das terras de engenho descritas por Lins do Rego. Gyorgy Lukács e René Girard. andarilho. VIDAS SECAS. nem negro. DE GRACILIANO.. quando em nota à primeira edição de Usina (1936). escorraçado. o seleiro sai livremente a caminhar pelo campo e. criticando as nomenclaturas "romance social-regional" e "romance psicológico". Alfredo Bosi. texto de homenagem a Borges. ENSAÍSTA E MEMBRO DA APL A UNIÃO .. Ele questiona a propriedade rural.

COM A UNIÃO João Pessoa. feita de letras. os textos não têm mais início. a própria palavra é uma interface com o plano das ideias. Tudo muito bonito e conceitualmente instigante. a uma palavrinha que está na moda no meio virtual e que se configura como característica essencial dessa nova era. Tudo ainda é muito incipiente. o conhecido WWW. a literária. para dialogar com o escritor Marcelino Freire e o professor Amador Ribeiro Neto sobre Literatura e as Novas Mídias. páginas de títulos. mas suas exigências se fizeram incontornáveis de alguns anos para cá. rudimentar ainda (calcada ainda mais em sua função fática do que poética). dialoguei sobre o mesmo tema na Bienal Internacional do Livro de São Paulo com a professora Heloisa Buarque de Hollanda e os escritores Nelson de Oliveira. Bem. A noção de interface . De um modo geral. LANÇOU O LIVRO DE POESIA SORTILÉGIO E ORGANIZOU O LIVRO O QUE É POESIA? MANTÉM O BLOG HTTP:// SAMBAQUIS. e podemos observar no ciberespaço. Ele lembra que o próprio advento da impressão gerou uma interface padronizada e original com seus cabeçalhos. então. morfologia e conotações ganhou em importância. ao contrário.não deve ser limitada às técnicas de comunicação contemporâneas.com/2009/04/o-cultoao-amador-e-aos-amantes. das informações e dos sentimentos e. não totalmente arbitrária. recepção e estudos literários. Esse tema me persegue há alguns anos e resolvi imergir com coragem e olhos livres em suas águas. não podemos deixar de pensar seriamente no significado da web para o presente e para o futuro da literatura e da cultura. Jovens educados e criados em um ambiente predominantemente visual. como nos mostrou as experiências do psicólogo Wolfgang Köhler registradas em seu livro Psicologia da Forma. Os que chegaram à fase do consumo de informações na última década. sintagmas. Mas. em seu livro Hipertext 2. no Agosto das Letras.blogspot. Vamos atentar para as experiências feitas no site DreamingMethods [www. setembro de 2010 | 29 . começaram a se voltar para a linguagem escrita estimulados pelo correio eletrônico. sítios. os textos criados com essa intenção ainda são muito chatos.html ]. são irreversíveis e possibilitam acesso por diversas entradas das quais nenhuma poderia ser autoritariamente declarada única. mas sujeita ao aprimoramento natural determinado pela própria necessidade de se exprimir. como queria Roland Barthes em suas análises da escritura. Sigamos em linha. Aquestãosobreaexpansãodasnovastecnologias e sua influência na cultura deram as caras no século passado. Frente a essa enorme multiplicidade de possibilidades.Apartemaispopulardesse processo é a World Wide Web.BLOGSPOT. O que dizer. passa a ser efetivamente uma galáxia de significantes. que faz de cada leitornavegante um editor em potencial redirecionando os paradigmas que balizavam as antigas formas de produção e recepção de discursos. Em última instância. enquanto signo. estão utilizandose da expressão literária. Blocos de informações conectados por meio de elos ou links. inesperadamente. Segundo George Landow. digo eu. a escrita impressa e a linguagem habitual do livro.namesmarede. É sempre muito rico discutir com os próprios criadores como a inserção de um novo suporte textual e de um novo meio de difusão alterariam práticas e conceitos já sedimentados no campo da produção/criação. Não podemos ser só eufóricos ou. blogues e demais páginas com o intuito de divulgar.Lima. Micheliny Verunschk e Andrea Del Fuego. nessa baliza. I * FOI EDITOR DO SITE CAPITU E FUNDADOR/EX-EDITOR DO SITE CRONÓPIOS. por bem ou por mal.como bem nos lembra o filósofo Pierre Lévy. É através dela que nos conectamos com os sites. O texto.html ]. facetas e eventos. capazes de permitirem aos navegadores que se movam livremente aí dentro e que nos colocam diante de uma nova máquina de ler.tecnologias-yescrituras. ou da cibercultura: o hipertexto.cria"cinemas mentais" em fluxo não linear de várias dimensões? Com o advento da linguagem digital. como declarou em nosso diálogo a professora Heloisa Buarque de Hollanda (arrancando risos de todos). Intragáveis.dreamingmethods. Chegamos. MSNs e outros diálogos entre suas comunidades sociais. da literatura que. pioneiro nos estudos que denominou de cibercultura. não uma estrutura de significados. As reflexões continuam. reacionários como Andrew Keen [veja http://sambaquis. mas não vamos jogar o bebê juntamente com a água do banho. saturados de imagens e ícones da cultura contemporânea. quando não desinformados sobre as implicações do tema. então.com/ ] e observar como anda a discussão (mais adiantada do que por aqui) pelo mundo em Literatura tecnologia da escrita [www. de criar ou apenas de nos relacionarmos. Não é mais possível ter uma opinião simples e unívoca.Literatura e cultura em tempos digitais Edson Cruz* E stive em João Pessoa. que a rigor é apenas a interface gráfica da Internet. o que observo é que todos ainda estão muito céticos. ou simplesmente descartar o tema. Também no mês de agosto. no dizer do escritorcearenseCarlosEmílioC. numeração regular e referências cruzadas. O computador e o campo de significações da Internet são todos colocados no mesmo saco.0. melhor dizendo. sintaxe.ca/sesion1. para discordar de Saussure.

Período: 1929 a 1945. Entre outros. Ari Barroso. Orestes Barbosa.A malandragem da ginga falada de Kid Morengueira E 6 Amador Ribeiro Neto* m 1902 a MPB pega um gás danado de bom. Neste mesmo ano nascem Clementina de Jesus. setembro de 2010 música . Deu origem a uma das mais férteis fases de nossa música popular. sob esta perspectiva. Macunaímicas. Alberto Ribeiro e Armando Marçal. Com o advento do rádio e do cinema falado a música popular encontra novos meios de difusão. Coisas marotas. Tanto no tema como na forma de contar. Foi certamente pra elogiar esta malandragem que Noel escreveu: "tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia / é brasileiro / já passou de português". Nasce muita gente de peso. A MPB desta "Época de Ouro" cria um padrão de qualidade. Sorte nossa. Geraldo Pereira. Felizmente. estão compondo. arranja de um modo muito especial. Parece que Deus estava mesmo querendo ouvir música popular de alta qualidade. Espertezas. o malandrésimo Kid Morengueira. c A UNIÃO 30 | João Pessoa. Carlos Cachaça. O malandro colou ao jeito brasileiro de ser um modo brasileiro de falar. O público amplia. Este pessoal veio se juntar a outros nomes. O padrão de qualidade continua em alta. Carmen Miranda. musica. Lamartine Babo. E o cantor começa a falar. Nossa música se profissionaliza comercial e esteticamente. Picarescas. interpreta. E não somente na cultura popular. Gente como Moreira da Silva. O mercado cresce. Que permanece como paradigma da boa música. Marília Batista. É aí que desponta aquele samba que de repente dá uma paradinha. Alcebíades Barcelos. Surgem novos padrões de fazer canção. Almirante. Sapequices. Gente que compõe. Wilson Batista. A "Época de Ouro". escreve. A malandragem tem sido a dominante em nossa cultura. Mário Reis. Afinal. Falar o quê? Quase sempre malandragens. Lotou o berçário com músicos-bebês. Leu. Vadico. Carlos Galhardo. João de Barro. tocando cantando neste período gente como Noel Rosa. Assis Valente. Antônio Cândido sacou bem isto.

é sem dúvida alguma seu maior intérprete. Jogo do bicho. conhecido como samba de breque. Moreira da Silva radicalizou a parada melódica. Em 1940. Se Moreira não é s e u i n ve n t o r.c o romance Memórias de um sargento de milícias. Ele não foi o criador do samba com ginga marota. Temas deste intérprete. Imagina saldar a conta do armazém. é sem dúvida alguma seu maior intérprete. Recorte modelar de nossa cultura. A música conta a história de um sujeito que acerta na loteria. Futebol. E divulgador. Segundo José Ramos Tinhorão. Preencheu o espaço musical da pausa com falas coloquiais. O jeito agradou. Virou estilo. AUTOR DO LIVRO BARROCIDADE João Pessoa. que obrigava o intérprete sambista a criar uma pausa. Era o início do processo. Preencheu o espaço musical da pausa com falas coloquiais. Mais tarde em 1931 a dupla Ismael Silva e Nílton Bastos tornou obrigatório um breque após a segunda parte dos sambas que compunham. Se ele não foi o inventor do samba de breque. A alegria dura pouco: a mulher o desperta para ir pro trabalho. já em 1929 Sinhô compôs "Cansei". Perseguição policial. Conto do vigário. Morro. Elegeu-a como performance artística. Moreira da Silva vivenciou a malandragem. com paradas súbitas para comentários. de Wilson Batista e G e r a l d o P e r e i r a . Belo ensaio. Fome. Com a manha do malandro talentoso.I *POETA. A partir daí faz planos habituais e mirabolantes. Kid Morengueira não somente aproximou a fala da palavra cantada: assegurou espaço pra fala dentro da canção. Gafieira. geralmente bem humorados. com "Acertei no milhar". A partir de então o ritmo A UNIÃO Moreira da Silva radicalizou a parada melódica. E divulgador sincopado. Fantasia comprar-se o título de barão. setembro de 2010 | 31 . passa a ser conhecido como de samba de breque. High-society. Estava dado o passo definitivo do que viria a ser o samba de breque. PROFESSOR DO CURSO DE LETRAS DA UFPB. Kid Morengueira leva o samba de breque ao sucesso. Fez isto em 1936 com "Jogo proibido" de Tancredo Silva.

Percebendo que havia algo errado. No final. minhas noites tornaram-se silenciosas e eu pude finalmente cuidar da minha vida. Eles ainda se lembram do tempo em que eu trabalhava fora. exatamente como minha mãe. DE BOTERO Adélia Ivana Arruda Leite* E 6ficção stá escrito no evangelho: mal é o que sai da boca do homem e não o que entra. Os vizinhos todos comentam meu estado. foi-se o emprego. Salvei minha filha. mas foi pela boca que o capeta entrou no meu corpo e passou a viver agarrado às minhas tripas. Foi-se o marido. era casada com Alcides e tinha uma filha linda e loira como todo mundo. Eu adorava receber seus amigos. sentei-me à mesa que ainda estava posta e comi o resto de todos os pratos. A lembrança que tenho deles é de um casal feliz. destes que andam pelas ruas de mãos dadas trocando segredos e agrados o tempo todo. Insistia para que eu fosse morar com ele. Ele logo se tornou íntimo. Em poucos meses dobrei de peso e não saía mais de casa. Alcides era um rapaz bonito e alegre. mas mamãe jamais permitiu. ESTE CONTO FOI PUBLICADO EM SEU LIVRO FALO DE MULHER (2002) 32 | João Pessoa. Alcides sugeriu que eu procurasse um médico. setembro de 2010 A UNIÃO . No café da manhã devorei dez pãezinhos com leite condensado.“LA MAYA DESNUDA”. talvez um psiquiatra. Uma noite. Mandei fazer umas camisolas imensas de algodão e passo o dia com elas. Casou-se novamente e teve outros filhos. Vivíamos indo a bailes e andávamos de mãos dadas trocando segredos e agrados o tempo todo. Mamãe morreu antes dos cinquenta anos. Vendi a casa onde morávamos. Casou-se com mulher magrinha e bonita. Nossa única filha era loira e bela como o pai. nunca mais vi ninguém do escritório. Alcides trouxe Nereu para jantar conosco. Um dia ela também começou a comer e não parou mais. *ESCRITORA. Só me levanto para ir ao banheiro. Do emprego fui demitida por telefone. foi embora de casa. finjo que não é comigo. Certo dia. Hoje mais pareço uma baleia comendo dia e noite sem parar em frente à televisão. Depois de sua morte. AUTORA DE VÁRIOS LIVROS. mas engana-se quem pensa que minha história é igual à história da minha mãe. O difícil era dar banho naquela mulher imensa que já não levantava da cama. Pedi que ele não me tirasse o único prazer que me restava na vida. De um dia para o outro. destes que dormem no sofá da sala e acordam cedo pra acender a churrasqueira. tinha dores insuportáveis que a faziam urrar a noite inteira. Fiz questão que ela fosse morar com o pai. Papai trancava a comida nos armários. mas ela os arrombava berrando a quem quisesse ouvir: não me tire o único prazer que me resta na vida. Nossa casa vivia cheia de gente. Meu pai. depois que ele se foi. Por enquanto ainda consigo. Eu colocava travesseiros aqui e ali para que as dores diminuíssem. onde conheci Alcides. comprei outra menor e arranjei um ótimo emprego. não suportando vê-la naquele estado. Alcides fez as malas e foi embora. foram-se os amigos. com quem me casei. mamãe desatou a comer.

rapidinho. de propósito. incompleto. disciplina imperturbável. a jovem Fanny. Fanny não é afeita à poesia.paixão. pompas e frivolidades. entregue à literatura. o casal não se entende e até se antipatiza: dedicada à moda. completando o verso com a palavra ´romance´. para o espectador não interessado em literatura. no filme de Campion. sem o último termo. o roteiro não tem a "tempestade e fúria" esperadas e. Um poeta romântico vivendo um grande caso de amor. e. a presença da poesia de Keats no cinema é mais ampla. Desencanto (1945). Bem. mas. atenção. isso deve ser algo avassalador.como mantém o título brasileiro do filme . Pois quem acaba de dedicar ao poeta de "Hyperion" um filme inteiro é a cineasta neozelandesa-australiana Jane Campion. no Brasil: Brilho de uma paixão). Keats é avesso à moda e ao que ela implica de etiquetas. c João Pessoa. mas. FILME CONCEBIDO PARA AMANTES DE POESIA Rútila estrela João Batista de Brito* “E normes e diáfanos símbolos de uma grande estória de amor" (´huge cloudy symbols of a high romance´). narra a estória de uma forma que. e se apaixona pela filha da senhoria. e justamente o que não falta na vida dessa esposa infeliz. O verso é do poeta romântico inglês John Keats (1795-1821). pode soar monótona. de quem quase não ouvíamos falar desde o seu perturbador e badalado O piano (1995). tragicamente apaixonada fora do casamento. claro. setembro de 2010 | 33 A UNIÃO . nem tanto: quase rotineiro. Quem lhe decifra o enigma é a esposa. o filme conta uma fase da vida do grande poeta romântico. reconstituição de época detalhada e muita citação literária. com ritmo linear. vira . mas está num local prosaico e vulgar: a revista de palavras cruzadas desse fleumático e bem-comportado senhor. Aos poucos as divergências vão dando lugar a uma amizade que.ABBIE CORNISH E BEN WHISHAW INTERPRETAM KEATS E FANNY EM BRILHO DE UMA PAIXÃO. A cena está no hoje clássico melodrama de David Lean. "Bright Star" (`Rútila Estrela`. o incidente não é nada gratuito: romance é o que falta na vida desse maridão acomodado. quando era pensionista na mansão dos Brawne. De início. Com o título de um dos sonetos de Keats.

antes de Keats. Diríamos que. os dois juntos.mais uma "estória de amor" cujos "enormes e diáfanos símbolos" se perderam em algum lugar indeterminado. poemas completos. é do dado da importância dessa poesia que o espectador precisa. mas. desde então. formada pelo trio Byron. E nada mais. esta toda ao som de um dos mais celebrados poemas de Keats. para poder. quando Wordsworth publicou o seu "Lyrical Ballads". aliás. mas também à industrialização nascente . Em cena do filme em que Fanny. seu nome consta como um dos poetas mais importantes.daí a sua ênfase em duas coisas diferentes: a emoção e a Natureza. mas uma dentro da outra.. isolado. fazer só isso. a fonte romântica não parou mais de jorrar. Depois da sua morte.. por mera curiosidade ."para saber se Keats era idiota ou não. mas não conclui: após o segundo quarteto. assim como Fanny costura os seus tecidos (lembram que o primeiro presente ao amante é um bordado para travesseiro?). toma aulas particulares com Keats. ele é só . Shelley e Keats. pelo menos até que as coisas voltassem a se acalmar com a chegada da pachorrenta Era Vitoriana. Cito alguns exemplos. sem isso. não apenas dentro do romantismo inglês. na livraria da esquina. a sua obra é descoberta pelos contemporâneos e.. e a questão é: quem foi John Keats? O filme de Campion nos mostra um Keats doméstico. mas. Uma trágica estória de amor como as muitas que o cinema já contou. o roteiro costura as cenas com e a partir de palavras poéticas. se revezam na recitação de um dos poemas mais imaginativos do poeta. Isto tudo para não esquecer que. preocupado com o espectador eventualmente não-familiarizado com literatura. falecendo. Depois disso. denomina o filme de Campion. 34 | João Pessoa. todos. Keats nem sonhava em ver o seu trabalho literário reconhecido. de um grande movimento artístico que eclodiu. em todos os tempos e em todos os lugares. com uma curiosidade: não uma seguindo a outra no tempo. Dias depois da morte do irmão mais novo. tentando esquecer que conheço a poesia de John Keats e. O filme foi de fato concebido para os amantes de sua poesia e. para apreciar Brilho de uma paixão. o faz sempre com um sentido inventivo e tocante propriedade. superadas as iniciais divergências. montanhas e pântanos. em 1821. arrastarse pelos mesmos campos que antes palmilhara ao lado do amado. no entanto. Na Inglaterra houve duas gerações de poetas românticos. Wordsworth e Coleridge formaram a primeira geração. já formulado pelo pai do movimento. ao longo do filme inteiro então. Pois bem. Mas. pára e o espectador que conhece o poema sabe por quê: no dístico final está o anúncio de sua própria morte.segundo a irmã menor de Fanny . agora verbalizando exatamente o poema que fora especialmente escrito para ela. sem se importar muito com verossimilhança ou fidelidade biográfica. Ao falecer. e. a primeira manifestação romântica do mundo literário aconteceu em 1798. para esse espectador uma questão antecede o problema das citações. ora. mas. comprado. que. a narração intromete poesia em tudo.o já referido Romantismo. é. ("Quando temo." É o preceito da espontaneidade. ou se for o caso. Enfim. este se apressa em afirmar que "a poesia surge como folhas às árvores. AUTOR DE DIVERSOS LIVROS ENTRE OS QUAIS. se assim não for. como ela.para voltar à abertura desta matéria . melhor morrer. o que dificulta mais ainda a situação do espectador não-familiarizado com o assunto. Nascidos em torno dos anos 1770. por ela jogado na cara dele para dar a entender que lera o seu "Endymion". não viu. o famoso. se não for isso. vemos uma Fanny desesperada. o "Bright star" que. não chego a lugar nenhum. Keats o faz com o soneto que começa "When I have fears. no filme. ele não funciona muito bem. William Wordsworth. Ou se sonhava. aos vinte e seis anos de idade.. a qual viu nascer e morrer a segunda. Era uma reação ao racionalismo da Idade das Luzes. como visto. a profunda reflexão filosófica e a extensiva imaginação clássica. melhor não surgir. sintomaticamente. e. Sem isso. definira a poesia como "a spontaneous overflow of powerful feeling" / "explosão espontânea de poderosa emoção". o poeta gostaria de ser a ´rútila estrela´ que. Sim. a sua obra era o eco. celebra o gosto comum pela poesia..". Numa cena de amor em que o casal. da mesma tuberculose que matara o irmão mais novo. o mesmo do filme de Lean). bem antes dos seus antecessores poéticos. instado a recitar poesia na sala de visitas dos Brawne." E vejam que a recitação poética se estende até a exposição dos créditos finais. Mesmo enquadrada no modelo romântico. soberana e eterna. cá comigo faço o seguinte exercício mental: rememoro o filme. ao longo do filme inteiro. talvez um índice do destino do poeta. Historicamente falando. I *CRÍTICO DE CINEMA. o famoso verso "a thing of beauty is a joy forever" (´uma coisa bela é um prazer eterno´). nas últimas décadas do século XVIII e primeiras do século XIX . ao mesmo tempo passivo e ativo. com seu final infeliz. iluminar para sempre os seios da mulher amada.. identificado pelo título. ainda no começo do filme. setembro de 2010 Para quem conhece a poesia de Keats o filme é uma dádiva. a sua poesia se destaca pela condensação original de três elementos distintos: o forte sensualismo.c Para quem conhece a poesia de John Keats. O roteiro costura as cenas com e a partir de palavras poéticas. na verdade. ilumina mares. No texto. poetas de vida breve. a primeira indicação de que Keats e Fanny se envolverão é. o mesmérico e encantador "Ode to a nightingale" ("Ode a um rouxinol") Nenhum desses trechos poéticos. tentando entender poesia. Keats e Fanny. IMAGENS AMADAS A UNIÃO . belo e misterioso "La belle dame sans merci" (´a bela dama sem piedade´). privado. o filme é uma dádiva. Depois da notícia recebida do falecimento do poeta em Roma. na Inglaterra.

‘ondas’. espreitada pelo fantasma da morte e fadada. transforma as suas comoventes confissões amorosas em urgentes apelos ao seu interlocutor. o poeta parece anelar pela morte do tempo e. AUTOR DO LIVRO NOVOS POEMAS DE AMOR A coloração semântica delineada no corpo da linguagem poemática faz contracenar. mestre A pós a conclusão exitosa do Primeiro Simpósio Internacional de Literaturas Africanas. para bem além do puramente afetivo. amor epifania. a espera sem pressa pelo amanhã e o ardente cultivo do agora. mas sim a testemunha silenciosa de um amor que se pretende atemporal. nascido do consórcio solidário da Universidade Estadual da Paraíba. em cujo estuário. amor utopia ameaçada pela tempestade que se abate sobre a c A UNIÃO 35 | João Pessoa. o enlace amoroso ganhasse estatuto cósmico. daí a emergência de uma subjetividade que. a crença e a angústia. Nesse patamar. conferiu brilho ao referido conclave. ponto de partida e de chegada das suas aventuras utópicas mais delirantemente acalentadas. amor desvelamento das camadas abismais do ser. poema inaugural do livro. amor destino e porto da felicidade possível. Amor alumbramento.eis-me devotado à leitura de Novos Poemas de Amor. Em "Oferenda". que. livro de autoria do escritor. Novos Poemas de Amor põe-nos em face de um lirismo encantatório e portador de tonalidade acentuadamente solene. ao lado do poeta João Maimona e da ficcionista Marta Santos. pela instauração definitiva da eternidade. ora mais espraiados. os dois últimos dísticos traduzem bem esse dialético modo de encarar o conúbio amoroso: "Toma esta angústia que cresce à medida da minha fantasia/ e faz dela uma promessa de fidelidade invencível e secreta/ Toma esta saudade que me aflige e faz crer na vida/ e aceita-a como a humilde declaração do meu amor". é o que se pode depreender dos subterrâneos simbólicos do texto e da fantasia poética engendrada por uma linguagem simples e ao mesmo envolvente. jornalista e parlamentar angolano. setembro de 2010 . por exemplo. da Rede Paraíba de Comunicação e PEN CLUBE do BRASIL . ESCRITOR ANGOLANO JOÃO MELO. angolanos também. a atmosfera neorromântica faz da natureza evocada pelos sememas ‘mar’. à irredutível e ontológica solidão do ser. cerne intransferível de um eu-lírico matizado por inescondível paixão. em última instância. a experiência amorosa se configura não somente em temário obsessivamente perseguido e abordado por dicções distintas. transida entre a serenidade e o desespero. a vida e a aflição que cercam a ambígua. ora mais contidos. admiravelmente. ato contínuo. No poema "Convite". em cujos versos. ‘sol’. misteriosa e essencial tessitura do fruto amoroso. não o adorno bucólico de um cenário meramente protocolar. mas também em matéria existencial que dá suporte à condição humana: contingente. à sua amada. João Melo.Novos poemas JOSÉ MÁRIO DA SILVA Para Eduardo Portella.Seccional da Paraíba . ‘pássaros’. se impusesse como um mundo particular absolutamente livre e incontaminado das impurezas da história. ‘areia’.

para a construção do itinerário sem reservas que se percorre no corpo da amada. setembro de 2010 | 36 . recusando-se a ser o instrumento de canto. O acendrado confessionalismo. I * ENSAÍSTA E PROFESSOR DA UFCG. Complexo e resistente às definições que se pretendem exatizantes. no motivo das mãos. O território urbano com as suas pluridimensionais formas de vida. conforme apontado. com Novos Poemas de Amor. esquiva. na tessitura lírica de João Melo. Impetuosas e ágeis. A torrencialidade hierática de certas imagens impregnadas de alta voltagem surreal. tons. que não somente aponta para o inevitável envelhecimento dos amantes. ganha outros contornos que se vão delineando em cada peça do seu bem urdido e correlacionado jogo textual. como a querer evocar o balé dos corpos em fúria. provido quase de ostensivas conotações místicas. ocupa relevante espaço na lírica de João Melo. Voltadas para o mapeamento do corpo da mulher. para os ricos efeitos plásticos potencializados por uma linguagem que. eis as referências que emblematizam o poema Arco-Íris. no qual. mais que discorrer sobre a realidade do erotismo. semema a ratificar. uma vez mais. lucidamente. Atentese. A leitura de Novos Poemas de Amor é um feliz encontro do homem com a arte das palavras. temas. Se o amor transcendente. O rigoroso trabalho com a palavra. como também para a incontornável mudança que se opera em seu interior. princípio de vida e impulso vertical de um dos aspectos mais significativos do seu ser/fazer poético. Parece haver. sagrado e profano se interseccionam no exato instante em que o sexo feminino. inefável. Outro recorte que se infiltra nos Novos Poemas de Amor ancora no porto da metalinguagem. a percepção transcendentalizada com a qual o notável poeta angolano encara a realidade amorosa. o poema parece assumir-se como possibilidade remota de salvar o poeta das suas angústias existenciais. não são apenas as águas do rio que incessantemente se modificam. apolínea e artesanalmente. o que almeja mesmo é mostrá-lo num texto sobriamente elaboraA UNIÃO LIVRO MOSTRA ESCRITOR NO PLENO DOMÍNIO DOS RECURSOS EXPRESSIVOS do. Veja-se o "Soneto imperfeito". desesperado. Aqui. amor finitude. tingidos por certas modulações surrealistas. "na hora deserta". referida. e são sempre precárias. tendo já os seus textos sido traduzidos para o alemão. acercando-se da ancestral temática do amor. como se estivesse sendo reinventado "o próprio nascimento do mundo". A mulher e a detalhada cartografia da sua corporeidade. por exemplo. de pronto. densa medi- tação existencial se desentranha do prosaico e aparentemente desvalioso chão do cotidiano. uma poderosa e criadora comunhão do homem com o universo circundante. Heraclitianamente. o amor. diante daquela concreção de toda grande linguagem poética. mergulho do poeta no universo da criação literária. no dorso dos seus heterométricos versos. vincada por uma nítida dicção bandeiriana. Parece ser essa a razão primacial da tristeza que se abate sobre o eu-lírico no belo e coloquial "primeiro poema da ausência". Mas o próprio ato criador é fonte também de insuperáveis inquietações. Salta aos olhos. mandarim e húngaro. A curva de Deus: sobre ela a mão/ A cabaça de hidromel/ Novos tambores / Viagem poética sobre o corpo da amada/. a terrível percepção da lacerante passagem do tempo. atingindo os densos patamares da literariedade. é um poema que fascina pelo ritmo trepidante e crispado que o norteia. Eis-nos no coração indesviável de poemas que exibem no motivo das mãos a base impulsionadora dos códigos e vetores que estruturam e conferem certeiro direcionamento à temática brilhantemente abordada. Aqui. "Novos tambores". ratifica a superlativa condição de um escritor no pleno domínio dos recursos expressivos. A procura pelo indecifrável enigma da alteridade. aqui. dentre outros que fazem parte do território lírico dos Novos Poemas de Amor. italiano. as mãos devassam "a curva exuberante e/ luminosa / por Deus desenhada/ no âmago do mundo". se abre para o acolhimento exasperado da voluptuosa experiência da paixão. pois. sôfrego e alucinado. com a poesia e com o amor. a palavra foge. docemente/ violenta. fúria de amor. deslizando iconograficamente sobre a face branca do papel. coreografia de corpos no angustiado e fascinante roteiro da entrega sexual./ essa beleza que ostentas/ tranquilamente sobre o tempo e/ a incrédula memória dos homens". cheiros e cores conferem nítida fisionomia a uma poética vigorosa que.c cidade. de vez que. mas sim o coração dos apaixonados. o poeta busca a (im)possível comunhão com o ser amado. com o qual. "Desse encontro/ de todos os espíritos vitais/ se tece. ancoram-se. Todo esse ir e vir de motivos. O mundo desbordante da memória. entrega e acendrado erotismo. as mãos se constituem na senha para o toque. o faz com todos os ingredientes que enformam o panorama da boa literatura: trabalho com a linguagem e transfiguração das mais significativas experiências humanas. nesses poemas. transformado na privilegiada cartografia do desejo. Estamos. João Melo. por Haroldo de Campos. AUTOR DE MÍNIMAS LEITURAS MÚLTIPLOS INTERLÚDIOS João Pessoa. não menos presente se faz a vivência concreta e corpórea de um amor eivado de sensualismo e assumida eroticidade.

No livro seguinte. de 1997. de 2003 e em Raro mar. Drummond é mais popular do que Bandeira. livro de 1975. CRACK (2009). tem de poético na apresentação de Noemi Jaffe neste Melhores Poemas Arnaldo Antunes. Tomo de empréstimo um pouco da passionalidade da Heloisa. de 1982. quando o assunto é poesia visual. em Fio terra. TAMBÉM É AUTOR DE CEGO ADERALDO (2010). de 2 ou + corpos no mesmo espaço . Se afasta do leitor novamente em Duplo cego. O poema vai desaparecendo na página. POETA E RESENHISTA LITERÁRIO. Dual e Marca Registrada . AUTOR DOS LIVROS BINGO! (2003). desenvolve o poema psicológico. . 3x4 (1985) ganhou o Jabuti. Desde então. onde o poeta parece não abrir espaço para uma discussão generalizada do mundo.O ar de Armando Freitas e o ar de Arnaldo Antunes CLÁUDIO PORTELLA* educativo prefácio de Heloisa Buarque de Hollanda para Melhores Poemas Armando Freitas Filho é passional. Em. comento. definitivamente. sua poesia obedece somente a um projeto indiscutivelmente pessoal. ou tudo. como ela. começa a experimentar. Provavelmente o melhor de AFF. Mas discordo que Drummond seja um poeta "encrencado" (palavra com a qual AFF. assim como Armando Freitas Filho. de 2000 (livro preferido HBH. Notar também que sua poesia tem diálogo incessante com a letra de música. em Numeral/Nominal. parece um poema único. a selecionadora). os livros selecionados pela prefaciadora: em Palavra. Concordo que Armando é realmente um poeta para poucos. Armando abriu mão de tudo pelo metapoema. Vide poemas "Sensorial" e "Cidade Gráfica". Arnaldo Antunes é o mestre da semiótica na poesia brasileira. são eminentemente Concretos. O que Armando tem de "encrenca" (palavra usada pelo próprio AFF para definir sua poética) a de Arnaldo tem de "ordeira". e. Mas. há no livro uma seleção de inéditos. Busca uma proximidade do leitor em De cor (1988) e Cabeça de homem (1991). Dispensável até. a poesia Concreta dos irmãos Campos. aqui factualmente. Arnaldo Antunes busca atualizar. À mão livre (1979). o livro de estreia. Senti falta. o poeta deixa a desejar. O poema "agouro". de uma última página onde o poema desaparece por inteiro. que Drummond é um O resenha 6 poeta difícil. Em Números Anônimos (1994) volta a dialogar com Longa vida e 3x4. não cabe no novo século. é muito bom. A "palavra" parece traí-lo. Longa vida. O ar de Arnaldo Antunes O que tem de passional na apresentação de Heloisa Buarque de Hollanda para Melhores Poemas Armando Freitas Filho. A apresentação é quase que meramente poética. A poesia de AA é a antítese da poesia de Armando Freitas Filho. Os livros seguintes. o livro mais recente. dialoga com Longa vida. de 2006. *ESCRITOR. sempre foi. gosta de se definir). sua influência maior. porém. Os melhores poemas do livro são os que brincam com as palavras despertando os fonemas sintáticos. Demarcada influência também de Décio Pignatari e Cassiano Ricardo. Nada a dizer. Sem dúvida é o grande mestre da metapoesia brasileira. sem muito sucesso. De corpo presente. Por sua vez. a pergunta é: Para quais leitores o poeta fez os poemas desse livro? Armando Freitas Filho mostra um refinamento formal que o distancia do leitor. Linguagem poética que. Heloisa também fala da grande paixão que Armando nutre por Drummond.

ALÉM DE SER TRADUTOR DE ISIDORE DUCASS E JOHN PERSE seus pares. intensifica-se o seu jogo de interesses materiais na relação com Fortunato. volta a falar do episódio enquanto "dedicação". volta a dar vazão ao seu sadismo. zombando de Gouveia. rindo muito ao se lembrar dele. cidade onde o poeta ainda hoje reside. Jorge Melícias enquadrar-se-ia ainda nas tendências mais abrangentes da poesia portuguesa. o mais arrojado projecto entre poetas lusocontemporâneos. Ou seja. E o riso registra o narrador . E o jovem médico resiste. se algum dia fundar uma casa de saúde. Apesar de. o narrador no episódio envolvendo Gouveia). se possa aproximar Melícias dos epígonos de Herberto Helder. Portanto. muito provavelmente. conclui que a casa de saúde pode vir a ser "um bom negócio para ambos". A partir da edição de a luz nos pulmões. Foi com este volume que Jorge Melícias ganhou reconhecimento dos POETA PORTUGUÊS É PESQUISADOR DA LÍNGUA. E aqui se desfaz o que se fez: a expressão feliz (e ambígua) de Maria Luísa ao saber.. Em iniciação ao remorso. CENA 7: De início. da boa atitude do marido. casa editorial responsável pela edição dos principais poetas portugueses na entrada do Séc. Assim. Garcia. Estes três livros estão hoje excluídos daquilo que o poeta considera a sua poesia reunida. considera-se iniciação ao remorso . Daí é que a idéia de fundação da casa de saúde irá se "meter" na cabeça de Fortunato (um "capitalista" .XXI. de Coimbra. na mesma editora conimbricense. Garcia. Jorge Melícias nasceu em 1970. registra o rápido monólogo de Garcia antes de decidir. torna-se claro o caminho que Melícias pretende c RODAPÉ MACHADO DE ASSIS E O SADISMO (5) Fortunato."Não era o riso da dobrez [do fingimento]. por serem fruto de um tempo anterior ao do amadurecimento da sua escrita. especialmente com a reedição do mesmo nas Edições Quasi. em 1995. setembro de 2010 A UNIÃO . enquanto um préstimo de Fortunato. na editora A Mar Arte. recusa inicialmente. no caso. finalmente. mas não consegue demover Fortunato da idéia de tê-lo como sócio. como já informara.Luso-contemporâneos: Jorge Melícias LUÍS FELIPE CRISTÓVÃO* A poesia de Jorge Melícias é. em 1998. o seu primeiro livro. e após dias. dotando o seu discurso poético de um lirismo enquadrado numa temática pessoal e íntima. com o título Ahagahe . a verdade é que a sua poesia está muito longe do que é preconizado pelo grande nome vivo da poesia portuguesa. numa visão geral. ainda preocupado (e mais ardiloso) em agradar Maria Luísa. com primeira edição em 1998. ainda na CENA 6 do conto "A causa secreta". em recuperar a expressão feliz da mulher. Porém. que. em 2000. no monólogo. um investidor -.tão bom enfermeiro. sendo que o seu primeiro livro foi publicado em 1994. pela narrativa de Garcia. irei convidá-lo". e O Tempo do Foaron. de passagem. fala das "raras qualidades de enfermeiro" de Fortunato: ". o riso dele era jovial e franco". concluiu ele [Garcia].o que supõe. O jovem médico já não se atrai apenas por um caso de 38 | João Pessoa. A dobrez é evasiva e oblíqua. ser sócio de Fortunato na casa de saúde. um riso autêntico expressão da alma.. Na mesma editora saíram A Um Deus de Olhos de Graça.

uma experiência de leitura radical e complexa. que está a beleza deste texto. tendo em conta o efeito pretendido pelo poema. 1998) Um nervo arrebatado à exactidão. Segue-se a publicação de o dom circunscrito. É perante a dificuldade que ele impõe ao leitor. Há o propósito e o axioma implícito: a queda não é interceptável. por um lado. Aqui. Se Maria Luísa "padece" com o fato de o marido ter contato com "enfermidades humanas" é porque. termos não correntes na linguagem nativa. reprova a idéia: "Criatura nervosa e frágil. impondo ao leitor a decisão sobre traduzir (ou não) o poema tal como nos é apresentado. I ALGUNS POEMAS Há sempre um homem só como uma torre de sal. Para além disso. pela convivência. da "dor moral". em 2004. ela "curva e cabeça" sem esboçar qualquer reação. JÁ PUBLICOU LIVROS DE CONTOS E O ROMANCE RITA NO POMAR A UNIÃO João Pessoa. entre outros. e depois a longa blasfémia . António Gamoneda. presume-se. que Jorge Melícias tenha uma intensa actividade de tradutor de poetas como SaintJohn Perse. A poesia de Jorge Melícias está dotada de uma outra característica. ao saber da fundação da casa de saúde. Claro: tal aplicação às tarefas também é suspeita . Fortunato é abnegado. Melícias é um pesquisador da língua e utiliza. se mostrar que "padece". drogas e contas".e agora também "nervosa". 2006) Trabalho a crueldade pelo lado da exuberância. está reunida no volume disrupção. Mas a maior parte da noite vigiam em silêncio para terem a certeza de que morrem. a poesia de Jorge Melícias ganha nessa opção de leitura sem tradução. mas não ousou opor-se-lhe. que será aquela que lhe é mais distintiva. a ser tocado pra frente. receosa. tornando-se "o próprio administrador e chefe de enfermeiros". esse teste à resistência da poesia. acumulando com isso o facto de ser a que mais polémica tem causado entre os leitores portugueses. Isidore Ducasse. onde a presença de cada palavra é pesada. Como instigando a carne à vernação das goivas. ainda. portanto. que inclui ainda o livro agma. Toda a poesia de Jorge Melícias. publicado pela Cosmorama em 2008. Sobre ele edifico o método. padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas. E há ainda Maria Luísa. Nesta última editora. *ESCRITOR E PROFESSOR DE LITERATURA DA UFPB. E se. setembro de 2010 | 39 .é porque percebe que. Poemas cada vez mais curtos. Por vezes guincham e as pedras que seguram nas mãos abrem-se como têmporas. 2008) Rinaldo de Fernandes* "decomposição de caráter". 2004) Vi as crias à solta pela insídia. raiva. (agma. compras e caldos. na sua poesia. ordenava tudo. que. poderá alimentar ainda mais o sadismo dele. ler um poema de Jorge Melícias é uma aventura linguística extrema. desgosto . Mais do que um epígono de Herberto Hélder. Sabe de seu profundo sadismo. Como se no confronto com a poesia em língua estrangeira. pelo próprio "padecimento" de Maria Luísa ao pensar na proximidade do marido com os enfermos. Miriam Reyes.pelo que até aqui foi mostrado pelo narrador acerca da natureza sádica de Fortunato. em 2006. pela editora Objecto Cardíaco. Assim. e incubus. anulada diante do marido . (iniciação ao remorso. Jorge Melícias assume também a direcção editorial. Melícias tem apostado no poema curto e a sua poesia tem causado polêmica entre os leitores portugueses por utilizar termos não correntes na língua nativa Na minha opinião. se aplicando ao trabalho. como opção de enfrentar o mundo. Leonardo María Panero. Em redor da mesa as mulheres que amam vão lentamente apodrecendo. se vale da dor física alheia e. em 2003. o reforço da imagem de mulher resignada.c seguir. Chega-se ao crime pelo exercício da evidência (incubus. a presença cada vez mais habitual de uma temática da violência. Na fronte ostentavam a longa blasfémia. Não deixa de ser irónico. que. diante de Fortunato. de 2008. Fundada a casa de saúde. E ainda: "examinava tudo. que é um objecto ímpar da poesia portuguesa. Melícias encontrasse uma delicada forma de lidar com o seu próprio acidente. e curvou a cabeça". (a longa blasfémia. fica entre aflita e aborrecida. de estudo da alma: há um "negócio" a ser gerido. por outro. ambos nas Edições Quasi. ela já desconfia ou mesmo já sabe quem ele é. recortados de um invisível texto maior. pela proximidade.

p.83). uma forma fixa de cantiga ou poema. da autoria do cordelista cearense F. O folheto de cordel .que aqui abordamos. não raro. Esta modalidade de poesia popular remonta à tradição poética medieval e compreende uma "competição" em forma de diálogo quase sempre em tom de provocação entre dois ou mais poetas cujo objetivo.Confronto inusitado entre dois arautos da poesia de cordel Gilberto de Sousa Lucena* U m dos gêneros poéticos mais tradicionais praticados pelos poetas de cordel nordestinos continua sendo o conhecido por "desafio" ou "peleja". corresponde a uma insólita "tensão" ou "desafio" entre dois dos mais expressivos e conhecidos poetas de cordel nordestinos que nos dão bem a noção do que tal modalidade poética representa. Ao iniciar seus versos. p. Comparativamente falando. entre as composições dos trovadores medievais galego-portugueses há a chamada tensó (tensão). a voz que narra nos esclarece ser nossa literatura e poesia "obra-prima de gigantes" fruto. é expor ao ridículo os opositores confrontados. 1998. à moda grandiosa dos clássicos épicos grecolatinos. Isto para se referir à "peleja" inusitada .de "arautos c João Pessoa.inédito . 1979. setembro de 2010 | 40 A UNIÃO . Marques.42 apud CORREIA & VAN WOENSEL. relativas a uma determinada questão" (BEC. que segundo o medievalista francês Pierre Bec correspondia a uma "discussão entre dois ou mais trovadores que defendiam respectivamente opiniões opostas. da "herança fértil dos deuses".(por se dar no céu) . semelhante ao "desafio".

O confronto toma rumos graves a partir da "resposta" de Limeira a Patativa do c A UNIÃO . em tom de superioridade. a resposta de Patativa é imediata e em forma de galhofa. de um altivo Patativa: "Com seu verso não me entalo/ pois sou pássaro canoro". Segundo o narrador. sendo capaz de até não se calar caso perca sua língua. Marques. De modo subliminar. Temos claramente. segundo Limeira.e Patativa do Assaré (1909-2002). orgulhosamente. a "vasta sapiência do caboclo sertanejo" se faz presente em versos desafiadores que exigem de cada um dos bardos experiência.c populares/ mercadores de emoção". No que ouve. setembro de 2010 Folheto de F. a partir daí. Pelo tom crescente de 41 | João Pessoa. Ao em seguida se identificar.(uma ave rara de canto apreciável e que. o poeta insinua haver outro lugar que se opõe ao céu (já que para nele se chegar "a peneira é maior"). onde se lê que "Um astuto Patativa" desafiou Zé Limeira com o verso: "Cante lá. que eu/ canto cá!". corresponde a uma insólita "tensão" ou "desafio" entre dois dos mais expressivos e conhecidos poetas de cordel nordestinos: Patativa do Assaré e Zé Limeira confronto ou de desafio entre os dois personagens./ fosse encontrar um pior. um dia. "canta com decoro") Patativa compara Zé Limeira. à sua gente. A "peleja" propriamente dita entre os dois famosos "menestréis" começa na décima estrofe. a noção de que céu e inferno traduzem ou sugerem também o sentido da "peleja". segundo o poeta. uma situação que também corresponde ao contraste do teor do discurso poético entre os dois contendores. Patativa do Assaré tem que ouvir do seu desafiador: "Eu canto sem me / assombrar/ de gente que já/ morreu" e que ainda apela para que seu parceiro "Esqueça o rei na/ barriga" porque. Desse modo. Nesse "encontro inusitado". com o uirapuru . Por se encontrarem no céu. refuta o poeta Zé Limeira com estes versos: "Já convivi com ateu/ que de lembrar me dá dó/ só não pensei que. conhecimento e a "mais sublime visão" das coisas. levando em consideração a cor da sua pele./ Inda mais aqui no céu/ onde a peneira é maior". com a "graúna" ao afirmar que o "trino" do seu adversário é de "agouro". elementos indispensáveis "Para mostrar. dom poético./ A vida como ela/ é". protagonizada pelas extraordinárias personagens de Zé Limeira (1886-1954) .o conhecido "poeta do absurdo" . no céu "não tem/ fariseu". Zé Limeira se apressa em apregoar que nessa "prosa" ele se garante pelo que fala.

Paris: UGE ./ Mas. o bom senso passa a prevalecer a partir do momento em que Patativa do Assaré acorda para o fato de que está envolvido num "negócio sem fim" e reconhece que não quer "viver assim" pois a "eternidade é luxo/ somente pro Criador". O desafio poético entre os dois "trovadores" continua com agressões mútuas entre aquele que nunca foge da rima mas é acusado de fazer "grande/ mistura". setembro de 2010 | 42 . se constituindo fonte inesgotável de uma poesia que nos põe a par de inúmeros aspectos da cultura popular. A partir daí o leitor é encaminhado para um desfecho amigável entre os dois poetas./ Que teima. se defendendo ao afirmar não ser "nenhum/ paspalho" para "ouvir tanta/ tolice". João Pessoa: Editora Universitária/Centro de Ciências Humanas. 1979.c Assaré através dos versos: "Pra mim você é calouro. Pedro/ padece.possivelmente pela sórdida tradição que o envolve acabou sendo mal visto e banido do universo cultural popular. Acreditamos ser este Encontro Inusitado de Zé Limeira com Patativa do Assaré significativa contribuição do poeta cearense F./ Seu lugar é na caldeira/ que Satã já tá mexendo". Maurice J./ Mergulhado nesta prosa. Por sua vez. alfinetando-o com a A UNIÃO De forma indubitável. e . Apesar da exaltação de ânimos prevalecer na maioria das estrofes desta insólita "peleja". principalmente) como figura maculada. que é geralmente associado aos valores cristãos ou à humildade e simplicidade do mundo rural.aquele tradicional personagem já presente no antigo teatro grego . levando "o poeta do absurdo" a agora versejar em tom de ameaça ao seu desafiador: "Cê vai entrar pelo/ cano/ ou não me/ chamo Limeira. dissoluta./ não gosto de/ tremedeira. é "Judas" que para ele (Patativa) "Não é páreo"./ À mercê do sol nascente. a tradição da literatura de cordel permanece viva e a atrair admiradores. Pior ainda. Numa espécie de maliciosa estratégia. *MESTRE EM LITERATURA BRASILEIRA E DOUTORANDO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS DA UFPB./ não sabe o que tá dizendo./ Não fala coisa com coisa./ no resgate da cultura/ dessa gente tão honrosa./ Que logrou a/ baraúna/ nessa mudança de plano. O eu que fala no poema retira do embate poético entre os dois famosos "menestréis" nordestinos grande "lição" e conclui seu cordel com uma criativa estrofe destacando seu nome./ Se a viola não/ resolve. Pierre. temos a seguinte conclusão partida do próprio poeta narrador: "Fico por demais contente. a figura do demônio representa o mal extremo. é ditosa". Marques para que a poesia do cordel continue se perpetuando. João Pessoa. Satanás é um "anjo decaído" que tentou Nosso Senhor Jesus Cristo no deserto./ decido na/ bagaceira". uma forma de suspense. se voltando para o leitor a sugerir que "Essa aliança motiva/ uma parelha de prosa. (Edições CCHLA). Além disso. Patativa continua o desafio mantendo-se aparentemente tranqüilo. em plena glória. no fundo. é a "entidade" que atenta contra a vida e as fontes que a alimentam. sempre com o intuito de provocar ainda mais seu opositor./ num terrível/ desengano". Poesia Medieval Ontem e Hoje: Estudos e Traduções. a tradição da literatura de cordel permanece viva e a atrair admiradores. exposta ao ridículo e semeadora de todas as desgraças. É bem provável que por sua indignidade e a carga negativa que o envolve Satã pôde provocar em um dos contendores a feitura destes versos: "O Diabo tá é/ querendo/ reparar o vil/ engano. Assim. Anthologie des Troubadours. chegando a elogiar o trovador Zé Limeira considerando ser sua "presença altiva" na cantoria./ Resplendendo a luz formosa/ Que transcende e faz viver. De acordo com o Novo Testamento. I Bibliografia : *BEC.10/18. libertina. Nada pode ser comparado à ação maligna do Diabo na mente do homem popular./ Quando entro/ numa briga. CORREIA./ Esses vates da história/ São ministros do saber". É Patativa quem propõe que a viola os una. vive sofrendo. astuta. De forma indubitável. F. chora e sofre. De modo progressivo./ por isso.// Ungidos. Quase sempre Satanás aparece na literatura (de cordel. formado pelas primeiras letras que iniciam cada um dos versos (o que resulta em acróstico). certificando-se de que Zé Limeira não passa de "um/ aprendiz" com "voz fina" de "atriz". Letras e Artes/ Universidade Federal da Paraíba./ Agora. No âmbito da cultura popular. reconhecendo que "Uma trégua é prudente" e "o pinho" lhe "cativa". o poeta narrador do cordel como uma espécie de Corifeu . se constituindo fonte inesgotável de uma poesia que nos põe a par de inúmeros aspectos da cultura popular insultosa assertiva de que a "prosa" dele "é bem/ rasteira". 1998. o agravamento da discussão vai estabelecendo para o leitor (que seguramente pretenderá muito conhecer o desfecho da contenda). Francisco José G o m e s ( C h i c o Vi a n a ) & VAN WOENSEL.torna-se comentarista do entrecho da sua própria composição. que acabam nos propiciando conhecimento e lições de vida.