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Pedra Filosofal

Eles no sabem que o sonho uma constante da vida to concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. eles no sabem que o sonho vinho, espuma, fermento, bichinho lacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa atravs de tudo num perptuo movimento. Eles no sabem que o sonho tela, cor, pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pinculo de catedral, contraponto, sinfonia, mscara grega, magia, que retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que cabo da Boa Esperana, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dana, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pra-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, ciso do tomo, radar, ultra-som, televiso, desembarque em fogueto na superfcie lunar. Eles no sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avana como bola colorida entre as mos de uma criana. Antnio Gedeo

NUVENS CORRENDO NUM RIO


Nuvens correndo num rio Quem sabe onde vo parar? Fantasma do meu navio No corras, vai devagar! Vais por caminhos de bruma Que so caminhos de olvido. No queiras, meu navio, Ser um navio perdido. Sonhos iados ao vento Querem estrelas varejar! Velas do meu pensamento Aonde me quereis levar? No corras, meu navio Navega mais devagar, Que nuvens correndo em rio, Quem sabe onde vo parar? Que este destino em que venho uma troa to triste; Um navio que no tenho Num rio que no existe. Natlia Correia

Teus Olhos Entristecem

Teus olhos entristecem Nem ouves o que digo. Dormem, sonham, esquecem... No me ouves, e prossigo. Digo o que j, de triste, Te disse tanta vez... Creio que nunca o ouviste De to tua que s. Olhas-me de repente De um distante impreciso Com um olhar ausente. Comeas um sorriso. Continuo a falar. Continuas ouvindo O que ests a pensar, J quase no sorrindo. At que neste ocioso Sumir da tarde ftil, Se esfolha silencioso O teu sorriso intil. Fernando Pessoa, "Cancioneiro"