O

universo. Refletia da tarde na água.

D

iante do postal de Kleber, no delírio de ter uma cidade sob o sol nas mãos e estar sob o sol de outra cidade, evocou o dia em que conheceu Nastácia, levado pela relação entre a reminiscência e os dois sóis, relacionando Nastácia com sua vinda de um para o outro. Na margem do Tejo, o suposto vendedor de haxixe (na verdade caldo concentrado de galinha

prensado com louro) aborda os estrangeiros, simpático enxame qual babel preguiçosa à beira do rio. Eflúvios de tágide emanam do outro envelope – uma carta de Claudia, jovem que conhecera em Veneza e se instigaram e ficaram naquele jogo de olhares sutis e palavras dúbias a sugerir a íntima celebração de um querer reticente, quando o que é implícito beira a revelação. Enquanto isso dura, resiste uma inquieta amizade. E tornaram-se amigos. Agora ela lhe escrevia de Muggio, falava de trabalhos e estudos em Milão, de sua vida solitária cheia de atividades, de todo o seu tempo tomado, mas dera assim mesmo um pulo até Moscou após breve giro pelas capitais da comunidade européia em pleno início da livre circulação de pessoas e

mercadorias. Falava. Ele podia ouvir a sua voz. Soava com naturalidade apenas compreensível de quem diz ter ido ver o crepúsculo na varanda de casa. Ai, o tom confuso do mundo de camponeses e reis, dos pedestais da aristocracia feminina e ternos vagabundos sob o sol...

Claudia não era personagem central em sua história, mas passava algumas questões centrais, como a da fidelidade, dilacerante dilema do homem ainda jovem que se acha velho demais para encontrar o amor perfeito um dia idealizado. Na noite a chuva e na chuva as lembranças – escreve ela – e nas lembranças da chuva traços que ainda desenham o seu rosto. A vida é isso? Emoções tragadas pela pressão do cotidiano, pelas regras sociais e por nossas próprias interrogações sobre o que é a vida? Ela está bem, na casa da mãe. Ali se sente livre. Queria ter escrito antes mas não encontrava palavras. Afinal decidiu pois que são palavras além de signos inertes ao quais se atribui valor? E ela sabia, meu amigo, que você faz isso muito bem. Ele lia e se perguntava se estaria certa, ele morria e tentava acreditar num resgate, que a escrita pudesse ensinar o prisma da posteridade, era importante que acreditasse, mesmo fosse a sua uma posteridade de ninguém. Também perguntava por que afinal ele tinha vindo e quanto tempo ficaria. Ele não sabia. Talvez a Europa tenha arrastado sua alma como as palavras se escrevem a si mesmas. Não decidirá o dia de sua volta, se é que haverá dia de voltar. Um oceano se interpõe e queimou a ponte atravessada. O Brasil se tornou memória da bruma. PS. Queria tanto ouvir de novo a sua voz. Quanto a ele, não sabe mais o que querer, hesita mesmo quanto a crer na validade de seus escritos, a sua voz. Chegara a Portugal com objetivos seculares, um emprego em jornal e um vínculo afetivo estável. Se no meio do caminho descobrira a grandeza da literatura e a miséria, isso se devia à vaidade da qual fugiu.

As pessoas ao redor adaptavam aquele rosto à própria capacidade de

compreensão. Tornam-no multíplice e ninguém numa terra de todos. Sempre é visto pelas ruas da cidade mas pessoa alguma pára e pergunta o que há de errado. Se precisa de alguma coisa, se podem ajudar. Teria sido um motivo para parar de chorar por dentro. Porque ele carrega esse pranto constante mas as pessoas apenas passam e ele irá evadir-se antes que alguém se aproxime. Não se incomodem comigo, pensará. Não está em qualquer de suas aparências. Está sozinho. Bem, não exatamente sozinho. Há a luz. As cintilações na superfície do rio. Um fim inelutável. Agora tem a caderneta na mão esquerda. Dentro a correspondência. Servirá de apoio. Quanto tempo mais pode resistir? Não é fácil, não é nada fácil, principalmente por essa consciência de si mesmo. De repente achou por bem fazer alguma coisa. Quem sabe se. Mas nada. Quando a moça passou e perguntou se tinha fogo, fazendo-o parar, encheu-se de uma confiança estranha, finalmente me notaram, e então teve ânimo novo para procurar um banheiro público, aliviar-se e dar um jeito na aparência, renovar a máscara. Sai depois e caminha um pouco mais. Irá sentar-se e escrever. Por que não? Ainda resta sim esperança.

Ele se lembra. Um vagão. Um vagão cheio. A caneta na mão direita. Continue escrevendo, meu querido. Tem de haver uma razão por que estejamos aqui; e escrever é antes isso – um fazer que não se origina no desejo de partilhar uma visão e sim em que, ao contrário, nada sabemos, e queremos saber. Precisamos. Caminha um pouco mais, atravessa a rua. Lisboa passa por ele como a paisagem da janela de um eléctrico. O que é isso? Senta-se, como planejara.

Ergue os olhos, torna a abaixá-los, abre a caderneta, escreve. A letra sai tremida. Para onde irão essas linhas de luz? Falam às suas costas. Ê pá esperemos que não – Portanto pode ser que – Solidão. Em nada ajuda a fortuna espalhada naquele quarto. A revelação não tem hora nem lugar, acontece de quando em quando. Agora aqui em fúria da qual logo nada restará. Não sempre. Às vezes. Porque sempre o ser humano não suportaria. Seus pés imersos no rio. Talvez a sensação seja um presságio. Ao longo de toda a vida procurara. Se apega agora à fé sempre rejeitada. Lançada a sorte, o que escrevermos teremos escrito; e, ninguém sabe bem como, o inefável se tornará dizível no regresso ao país natal.

Então se viu na carta. Não é metáfora. Viu sua imagem na carta. O papel fino o refletia ali sentado, recortado contra o trânsito que flui na direção do Porto. Acinzentado brilho imperial cobre o casario nas ladeiras ao redor. Cheiro de vinho no ar ao de grelha e rio se mistura. Nastácia na memória de sua língua. Tamborilam as águas da fonte nos ladrilhos rangentes à passagem dos bondes. O prédio na esquina do paço ergue-se triste em cicatrizes e olhos, duplicado abaixo ao longo da poça no meio-fio. A gola azul de zuarte está levantada até as orelhas e as sobrancelhas se encontram na glabela. No cenho a leitura se converte em saudade e dor. Ergue os olhos. Dragas empurram as ondulações contra a superfície sáxea que margina a avenida até a torre de Belém. As moças passando não sabem o que são aquelas coisas e para que servem. Ele esperava a subsistência do jornalista e do escritor o nome; todavia, se deve escrever, será apenas para a manutenção da sanidade e transcender a

fome e o relento. Hoje será transmitida a décima sinfonia de Beethoven. Ligou-se às palavras mas um avião interferiu no som do rádio. Depois a glória substituiu o locutor e restou a idéia da vida legitimada após a morte, da ausência como única circunstância eterna. Seremos meros acasos no universo ou será o universo mero acaso em nós, pano de fundo para as existências. A cidade inteira está na imensa largura do rio. O sol são miríades de diamantes à superfície. Aumenta o tráfego na ponte conforme desce a noite, são engrossadas as linhas douradas que na outra banda se dissiparão. Mas, na perda do fulgor, as pessoas estarão em casa. A perfeição possível é póstuma, pensou; e o que realmente importa, perpétuo. Foi a última notícia, a descoberta do dez onde só há nove, atributos do milênio que se aproxima, baseado em computadores. Na cintilação que a seus pés derrama, falante e trêmulo, o alegre grupo de língua francesa sentado à frente, arrebatou-o a necessidade e a inutilidade da arte, que trabalha revertendo vicissitudes, na voz feminina que abria o programa seguinte, uma guitarra de blues ao fundo. O imaginário. Perdeu-me nas possibilidades quase sempre inócuas de uma vocação e naquele labirinto comunicou-se o velho sentimento temido e absurdo de missão. É preciso dizer tudo a todos de todas as formas para chegar talvez a um sentido para a vida e conquistar ânimo de permanecer respirando. Como se acha solitário! Não vos comove isso, a vós que passais pelo caminho?

De longe e do alto, do castelo de São Jorge por exemplo, a visão parecia maquete a que uma criança tivesse deitado talcos. O vento sopra em direção

ao sul. Umas quatro e meia da manhã. O inferno em directo da rua Garret. Oh meu Deus! Pessoas, não venham para a Baixa. Os prédios cospem labaredas. Agora vou pá li a ver se de facto. Estar vivo, estar realmente vivo, é ter consciência da morte.

Lisboa. Repartida pelos portugueses com europeus glaciais do Cáspio e do Reno à vontade em leves roupas coloridas ao chamado do sol ibérico e com negros provenientes das ex-colônias africanas sentados atrás da igreja de São Domingos logo ali depois da Praça da Figueira ou defronte à estação Restauradores do metrô. A primavera traz o humor de seus dias tanto do inverno que passara quanto do verão por chegar. Estamos num desses últimos. Give me light? sorriu a descontraída jovem cujo vermelho da pele acusava a palidez congênita. Os mochileiros se movimentam como numa festa íntima. Ele estaria apto a lhes oferecer alguma luz com a mesma serenidade com que acendia seus baseados? Ou seria o recreio, e não mais; o jardim, e só isso? – menestrel na festa, sem qualquer dimensão de arauto do mundo uno, da pluralidade de raças, sugerido na rua Augusta, por uns preconizado para a política da comunidade européia e por outros para toda a humanidade. Mas apenas escreve livros de bolso. É o que faz para complementar a renda. Ou fazia, no Brasil. Livros que duram uma viagem intermunicipal de duas horas. Banais histórias de amor e aventura com enredo previamente permitido pelo mercado, naturalmente com final feliz.

Isso aqui é vida real. Não tem mais como denunciar o mal pela imprensa. O mal está em si mesmo tanto quanto no planeta da luta de classes (esboçava na mente o artigo sobre o Maio de 68) e da concorrência entre membros da mesma classe inferior, afluindo a todo transe ao lugar onde a generosa dignidade dos ricos assiste, cúmplice, o espetáculo. Inútil! Inútil resistir! Assim é e será sempre! A indolência dos turistas em seu ócio contrasta com a pressa dos lisboetas que se dirigem a seus empregos, fardados de sobrevivência, ali na Praça do Comércio. Calçou os sapatos e desceu do muro de onde sentado via os cacilheiros. Apanha a mochila preta e joga as alças no ombro. Está cedendo na costura, dá pra ver lá dentro uma camiseta azul e um desodorante em bastão. O ruído dos tecidos ao roçarem é como o chiado de um disco velho, como o chiado de um disco velho, como o chiado de um disco velho, como o chiado... Roupas que crepitam. Caminho no sentido da estação de Santa Apolônia: à meia-noite pegará o trem para a Espanha. Tudo o que ele queria ao atravessar o Atlântico era um lar, a banalidade dos felizes, não estar integrado em uma civilização superior, mesmo que essa civilização agora abrigue Blandine. Blandine não faz parte de seus motivos conscientes. Não lhe interessa senão o pouco que a economia destroçada de seu país já não permite. E, em vez, a liberdade de longas estradas dando em lugar nenhum, em lugares comuns - 1992, unificação européia, abertura de fronteiras, grande crescimento tanto da discriminação aos imigrantes quanto dos movimentos contra o racismo. Estou cansado, pensa. A magia da palavra

perfeita é ensaiada em seu caderno administrada pelo caos na perspectiva talvez de um salário de navalha pago antes da falência – ensangüentados crepúsculos solitários se derramando em sua mente perturbada. Atravessa a transversal sob as primeiras estrelas mas o rádio disse que vai chover. Seu caminho era feito de incisões seguidas que costuravam as semanas imediatamente anteriores às imediatamente seguintes. Porque nunca teve memória ampla o bastante para lembrar fatos de há muito acontecidos nem esperança tão larga que compreendesse um futuro por demais distante. Tentava agrupar os dias em que Nastácia participou do torneio em Barcelona com as possibilidades após receber o pagamento do artigo e quem sabe a encomenda de um outro, não descartando ser efetivado na revista. É melhor – dizia a si mesmo pela rua da Alfândega ouvindo o rio – é melhor parar por aqui mesmo e pensar só na chegada a Madrid. Um estado puro de luz e a ausência de esperança dissipam a ansiedade. Ele não está entre as melhores cabeças de sua geração nem sua sobrenatural verve articula discursos admiráveis; mas na mente escreve, celebra coisas e lugares, escreve vorazmente e da escrita se embriaga. Depressão e euforia. Não há equilíbrio. Escreve, caminho. A estação está longe, senhor? Ali, depois daquele prédio. Anoitecia e esfriava. Sequer freqüentou uma universidade ou a plenitude de sua alma e não faz sentido o legado de seus escritos dispersos. Aceitou contudo a encomenda do texto sobre a passagem dos vinte anos do Maio em Paris e vai entregá-lo pessoalmente na revista espanhola. Depois poderá passear em Madrid, conhecer

a movida e talvez sentir a respiração de uma espanhola em seu rosto, no fôlego dessa sensualidade sem mais escape, mais estética que orgânica, digamos assim. Uma mulher de fala cantada cuja voz apenas causaria o desejo. Cabelos negros e longos, pele clara, branca por assim dizer, coxas grossas e brancas exceto pelas veiazinhas entre o azul e o vermelho como a luz do sol numa cortina azul e a própria pele semelhante a uma malha cor de carne muito fina. Nada a ver com essa moça que passa em sentido contrário, ibérica também. Ele tem desejo de Espanha, das pessoas e coisas da Espanha, porque não está na Espanha. Mas está indo, e as coxas são brancas, e a chama é densa. E é pelo sonho arrebatado, armado, vestido. Entra na estação. Vozerio. Burburinho que ambienta seu silêncio interior em lama de frio e fome que se abrigou no sangue aquecido e preparado, grosso. Está indo. Depois apaziguará em Madrid seus temores ancestrais e a opressão dos dias. Deus, pensou, por que esses alívios paliativos? Não voltará ao mundo, não voltará. E, se não voltará, por que olha o céu temeroso e se importo com a opinião das pessoas? De nada valeu a vivência a não ser para descrevê-la? Está cansado de lidar com palavras sem a respectiva vida. Não tem qualquer razão, não tem, para deixar de ser o que pensa e viver como escreve. Com a disponibilidade máxima para os riscos. Não voltará – o que é tempo? O sopro de vida lhe será tirado como esse trem da plataforma um. Exceto suas ações, nada restará depois de sua morte. (Com lábios trêmulos chegou a dizer Estou com frio. O homem a seu lado não entendeu ou não se interessou ou não estava com frio) Então por que não bendizer o respirar efêmero, inclusive as conseqüências de ter se desfeito de tudo para entrar naquele avião com passagem só de ida? Por que não escrever “luz”

no cascalho da fronteira e ver as pedrinhas cintilando entre os trilhos mesmo depois que a anunciada chuva apagasse a transcendental grafia? Ele tinha uma amada ausente viva na foto em sua carteira e nalgum recôndito do coração. Ela longe ele era livre, mas não sabia até que ponto; não sabia se era bom. Na cabina solitária do vagão chegam cheiros de todas as casas que passam na escuridão. Camas rangendo, armários abertos rangendo (onde o casal pegou a roupa de dormir), relógios refletindo o feixe de luar, sons externos de bichos noturnos, Sim meu amor, outra camada do tiquetaquear do trem na noite, nível paralelo de consciência. A mulher se ajoelha, o homem por trás segura os seus seios, ofegam, o leite no copo à cabeceira ondula. Era assim em Minas? Os pingos enchem o vidro da janela do trem e escorrem pelas pernas trêmulas. Na estação de Atocha, Madrid pela manhã, todos os rostos traziam o rosto dela, como um ciclo de dulcinéias, ele quixote. ¿Por favor, dónde un hotel? A vida é irônica, pensou. Não era um libertino, nunca fora infiel, e Nastácia, casada, o levara a readaptar conceitos. Esperava na perfeição de uma única musa, até a tocou quando tocou Blandine, mas foi enfim tragado pela promiscuidade ou talvez, sei lá, algo menos sério – não era porém a beleza dos cisnes. O tempo está mesmo ficando carregado. Entrou no pequeno hotel. Não é tão perto como ela disse. Ficou com o quarto. Madrid como a vê: romântica, terapêutica, amarela. Um novo e radiante amanhecer. Lá fora troveja. Solidão. Solidão. Uma assombrosa periculosidade rasteja em torno, de um ponto exterior ao quarto, no corredor possivelmente. Rodinhas no piso. O carrinho geme. O piso é acarpetado? Ele não se lembra, diz a voz, do gerente talvez, dando ordens à camareira. Passos arrastados. De que

falam? As vozes impregnam a memória da janela. Meu Outro será, para sempre um mero espectro? – pensa. O recém-nascido morrerá antes de não mais temer seus temores? Continuarei morrendo através do tempo? Ele não sabe, diz a camareira, não para o gerente pois a resposta menciona o gerente, sujeito ridículo. Estava terminando o texto (as folhas do caderno se dobram no canto superior, precisa comprar um novo), estava terminando e sabia, mal acabasse, nada restaria dele, do eu mais justo e agradável que o possui ao escrever. Não sei se esse hóspede está aí, diz a voz. Parece que há um recado. É um impasse. Abrir mão dos vislumbres, conformá-los aos mecanismos da normalidade e se conformar com o conforto transitório, ou nadar contra a corrente, permanecer exposto a privações e provações dificilmente suportáveis. O corpo na cama deitou ao quarto a dor da ferida que constantemente se abre. Seu ser não era seu. Só um efeito cuja causa não era ele, ou não plenamente ele. Os olhos estão nublados, doem um pouco. Mas tem esperança. A perfeição passa por uma floresta densa de volúpias do tempo e do poder. Pela decadência. Mastiga esse tipo de abstração desde sempre. Você precisa fazer uma faculdade. Bem que sua mãe avisou. Estudo é status; dinheiro é falo. A noite ronda a janela. Deflui em celebrações embriagadas. Todos afinal têm razão e talvez ele. E possivelmente essa ereção inútil. Os caminhões municipais escovam o asfalto. Lavam o dia. Gotas se multiplicam no espelho escuro. Recém-nascido de um Maio há vinte anos, logo morreria outra vez – até quando? Você em minha mão solitária. Relâmpagos jorram do cérebro. Ecoam. Mosaico de recordações. Lembranças palpitam. Quer a alma arrancá-las da memória e trazê-las à mesma mão tornadas rosa, cujo aroma desnorteie a serpente e inverta o ruído do trovão. A janela enquadra o céu e uma estrela aparece, imponente ou

simplesmente só, em minha solidão como um sinal. Que o vento leve o que vê e veja o vento quando não possa mais. Na neblina a cidade derrete. As ruas cansadas, cheirando a desprezo, estão mortas. Sentado na beira da cama. A vivência não haveria de seguir com as nuvens mas ficará com a estrela. Não voltaria e o efeito haveria de se libertar – não passaria sem legar algo aos que estavam na festa e aos iriam chegar, quando olhassem por uma janela.

Resolvi procurar Bernardo. Não estava. Filomena me pede que espere. Esperei. Durante três semanas estive no negócio. Não era minha intenção, preciso sobreviver. E ainda no jantar ela percebeu o quanto eu estava abatido, embora naturalmente nem imaginasse que fosse o efeito das preces. Não fique assim. Vai dar tudo certo, ela me diz. Agora você não tem alternativa mas logo as coisas vão melhorar. Fique tranqüilo. E olha para mim com uma ternura fraterna que eu não conhecia. Quis então dizer a ela que eles tinham sorte de terem um ao outro, mas apenas disse Obrigado e assegurei que de algum modo os compensaria. Imagine, ela exclamou. Falava sério, insisti. Só não sabia quando. E realmente estava grato pela subsistência e sobretudo pelo quartinho. A cama ao lado da janela. Noites de lua espraiam todo tipo de saudade pelo assoalho revestido de sinteco do Porto.

O passar das horas. O relógio registrava o final de abril. Também o jornal que lia na cama, apoiado num cotovelo. Noticia o crescimento da tensão no avião árabe seqüestrado. Olhos no céu. Na copa das árvores o verde muito

escuro retém pelas nuances do letreiro a luz do sol já imerso no abismo. Pouco resta. E fragmentado, caótico. Como um profeta, ele perdera. Coisas materiais e sociais – agregadas, por assim dizer – que prezava. Aos poucos, retiravam-se também os sentimentos de apego e de valorização das aparências. O conformismo aos conceitos seculares. Não de todo. As coisas mudaram e não seria possível viver com os velhos pontos de vista. Ele deveria saber. Estar ao menos inclinado a entender. Um processo irreversível, fatídico. Escapa a qualquer controle. Por quê? Ele perguntava, queria saber. Perguntava: não era um profeta. As manhãs vinham e depois as noites. Grande es la sensación de soledad en

ciudad grande. O coração se enche de amargura. As vozes no corredor se
distanciam, crescem os sons do vizinho de quarto. Não entende como pode fazer tanto barulho num lugar tão sem nada. Talvez por isso mesmo. O ruído oco e duro do vazio.

Diante do reflexo. Em torno da lâmpada, mariposinhas. O sol atrai a terra e se move no infinito. Arrasta consigo o planeta, não permite que suma no vácuo. Nastácia abordada. A carona. Salvo. De solstício a equinócio, a humanidade vive uma estação. É assim? Um brilho diferente no reflexo de algum modo ligado à respiração. Primavera. Seja o que Deus quiser. Um cara que lutou com limitações financeiras e de saúde em nome da viagem. Conseguiu. A voz do pai martela na cabeça. Lutar pelo que se quer. Usufruir da conquista. Depois do inverno, o calor não ludibria a noção de outro inverno no ano seguinte. Os dias passam e assim as noites. Quando seria eu resgatado? Seria resgatado? Tilintar de copo, uma torneira. A faca corta uma fruta, biscoitos na lata colocados. Não dá pra me levar a sério, diz a si mesmo. As mãos na parte de

trás do pescoço. Ainda que escrevesse um romance, sim, ainda que conseguisse, deveria supor um valor de vida? Cartas caídas no chão. Jornais velhos que se misturam. Fotos. Papéis dispersos voam da mesa e alguém exulta. Um livro! Não sou a mão que escreve, pensa, sou a espécie. Sonhos sensuais; amor, que seja. Espelho. A mão na lata. Os utensílios de sua normalidade planetária haviam sido tirados um a um. Amor, pátria, trabalho. E agora? Honrar o homem nele que conseguiu a viagem? Mas a que preço... O que pretendia – ser feliz? Não era antes feliz? O que é ser feliz? Alguém chega a ser realmente feliz? Detestava quando seus pais faziam perguntas apenas para introduzirem teorias sobre tudo. Teria talvez pensado que era feliz nos mimos à criança, nas atenções voltadas para a puberdade do filhinho, nos paparicos à inteligência, nos agrados ao adolescente sem espinhas, nas lisonjas que profetizavam o sucesso literário. Mas o que é sucesso literário? Aliás, o que é sucesso? Aliás – a mão não que escreve mas que segura o copo dágua. Bebe. Saciado, não se lembro mais quem é. Não se lembro mais. Não se lembro. Não se. Não. O quê? As luzes se desprendem das folhas e se esvaem na noite. Se escrevo bem qual, imagina qual a serventia; se nem tanto, qual o prejuízo? Não ama faz tempo a glória dos homens, não mesmo. Não mesmo? E se sim, se não ama, qual a utilidade dessa convicção? Na noite onde se esvaem as luzes lhe resta colocar o coração ainda bem irrigado por exercícios e alimentação balanceada, a serviço do que deve perdurar. Os vislumbres pesados. As asas da sombra. A casa esperada. Junto ao tesouro sem traças que me resta.

Odor de cinzeiro. A matéria do Maio, com ela se despediria do jornalismo. Diante dele a tensão crescente no avião mas acaba de ouvir que os

seqüestradores de há muito conseguiram escapar. Não há mais seqüestro. Ao som do noticiário um jornalista cujo sonho é ser escritor e o que não mais interessa: especulações sobre os extremistas, o estado psicológico dos reféns. Já houve a fuga no tempo do mundo (percebe as panturrilhas doloridas.) Escaparam, pensa. Inclusive da imprensa, elite cujo propósito é ver o circo pegar fogo para enfiar o microfone na boca chorosa do palhaço. Mas ele continuava preso àquela engrenagem. Era a sua profissão havia dez anos, embora não tivesse diploma. Embora quisesse ser livre e os órgãos servis, era o que sabia fazer. Em Portugal, a exigência do diploma não equivalia ainda a um progresso estabelecido. Lençol limpo, convidativo, o corpo filtrado pela viagem se distende entre a entrega da matéria e o torpor de tantos nadas. Sua vida se tornara inoportuna. Precisa não ter interesse material ligado à escrita, ser livre e acreditar no que faz tanto quanto sabe fazer, e viver de acordo, com cuidados de retidão e caligrafia, incluindo rasuras e correções. Um cartaz entra pela janela que vê Madrid. Ahora es tu oportunidad. Se a variação cromática define na rede a imagem reticulada embora as retículas não sejam perceptíveis a olho nu – pensou, perdido no quadro na parede (um casal em uma praia)–, na alma a personalidade se imprime pela índole, depois pela educação e arbítrio. Tudo passa então a ser atribuído a um ente imaginário criado pelos outros, o qual assume a pessoa como se nela se consistisse. (Uma mulher no quarto do lado oposto. Assim, assim.) A análise psicológica quando muito discerne sutilezas, causas remotas sem maior significado além da retórica. (Seus olhos estão mesmo com algum problema) A possibilidade de uma vida. Viscosa e morna. Não mais. Precisa se descobrir, viver. Sair de si pelo prisma alheio. Desdenhar dos motivos, tomar o destino. Testa a

esferográfica na mão. Apreensões impedem a entrada da luz e a treva não deixa que eu capte a essência não histórica do tema. Realmente percebe o quanto está cansado da viagem; se cair na cama desmaiará. Resiste, porém, por causa da noite madrilena, embora devesse sim tentar dormir um pouco. Dormir direito, há quanto tempo não? Desde que renunciou a se apaziguar artificialmente. Não conseguia, pensando em Blandine. Às vezes até que. Mas só em certa medida, numa coisa só física, para efeito de alivio. Então, se é assim, abdicou do direito. Ansioso. Pensamentos que culminam nesse sobre a História. Tem um livro com esse nome, disse uma vez o senhor Jean. De uma tal Morante, Morande, alguma coisa assim. É sobre como os fatos históricos nada mais são do que um amontoado de dramas anônimos que a História jamais contará. Se maio foi referência em Paris, 1968 tivera outras, mais nos suspiros do que nas explosões.

Uma camareira rende a outra, passa pelos quartos abertos recolhendo a roupa suja. Imagina como o marido teria se sentido quando ela finalmente tomou coragem e disse Vou sair de casa, não preciso de você para sobreviver. Recorda a cara da filha ouvindo-a dizer que tomara a decisão. Mas mãe... Quase podia tocar o orgulho da moça, escondida atrás da enorme barriga. Passa com o carrinho pelo balcão vazio da portaria atrás do qual havia os quadros da Inspeção Sanitária, a advertência contra crimes sexuais, o espelho e o quadro das chaves. Passa e sente todo o alívio. A que saiu se encontra com o namorado. Vamos antes comer alguma coisa. Seguem pela Gran Via certos de que suas esperanças não podem ser interrompidas nem por pessoas contrárias a estarem juntos nem por aqueles que

dizem querer apenas o bem deles. Filho, você é um empresário respeitado; ela mesma acabará se sentindo mal diante de seus amigos; cada um tem de viver no próprio mundo. Depois que comeram as iscas de fígado que ele preparou, foram para cama e no dia seguinte acordaram quase meio-dia. O porteiro está voltando, cantarola a música que encerrou o show do dia anterior. Bem que seus amigos disseram que ele iria adorar. De fato era uma banda fantástica, uau, fantástica. Sentiu-se envolvido por uma energia louca e agora era como se todas as coisas boas que deveriam acontecer ao longo do dia – as gorjetas, a pausa do almoço, o flerte com as hóspedes – tudo estivesse ligado aos acordes que insistiam dentro dele. Todos perceberam o quanto estava bem e seu humor mais leve.

As escadas descem em voltas. Deve levar bem uns cinco minutos ou mais do momento em que se sai dos quartos até o corredor que dará na rua agora visível. A luz faz com que se apertem os olhos. Transeuntes se aproximam de quem sai. Junta-se a eles. Passa pela mulher numa calça muito apertada, os quadris requebram em negro. Desvio de dois casais parados em frente a um prédio. O ônibus ronca e retoma seu trajeto. A rua é estreita mas deve levar à vida que ele procura oculta em cada palavra que lhe ocorre por conta do artigo – ideal, revolução, liberdade. Se houve o Maio francês, o vento sopra desde sempre, meu amigo, as respostas. Ele está saindo sem destino pelas ruas de Madrid.

Valerie queria fazer amor com aquele homem, o professor – ela o queria,

sem qualquer outra implicação. Saboreava a intensidade desse desejo sem culpa quando suas amigas acenderam. Quando fez efeito, inflamando-lhe a vontade, passou pela sua cabeça a reação de Hans se soubesse, e certamente, do jeito que eram as coisas, haveria de saber. Em nenhum momento sentiu menor o seu sentimento por ele, por Hans, desde que viu o outro no campus e quis estar com ele ao menos uma noite. Se não há sentimento ligado a isso, pensou, tampouco tenho qualquer ligação com os ideais do movimento estudantil – e estou entre os membros mais engajados. Quando ele chegou e disse Oi pessoal, ela já tinha tudo planejado e pouco depois estavam no alojamento, procurando-se. Do outro lado da parede vinha a música dos Beatles que falava de revolução. Os outros deviam estar ainda tagarelando sobre sistema educacional, política, Vietnã, mas no fundo tudo o que diziam era que Valerie tinha o direito de fumar unzinho e depois fazer sexo com aquele homem.

Madrid.

Pelos

labirínticos

subterrâneos

do

trem

metropolitano,

contemplando a fauna de que fazia parte, ele chegou ao outro lado da cidade no princípio da noite. Arrefecido o horário, restou a oferta de corpos, o burburinho nos bares, adolescentes discutindo qualidade e preço. Elegantes espanholas se exibem. Namorados e o romantismo anacrônico. Simpáticos executivos ensinam após o expediente. Si llevas dinero te vas de copas. Pede uma informação ao rapaz que passa em sentido contrário. Não entende sua resposta. Que a escrevesse, por favor. O que estou fazendo aqui? se pergunta. Quanto resistirá esta casca? Grupos marginais nas esquinas como ventos se agrupam antes de se distribuírem. Apertos de mão em código. Socos de camaradagem e beijinhos

descompromissados. Alíneas de parágrafos jamais acabados. Ao se dispersar o grupo, alguém deixa um pedaço gratuito como prova da mais sincera amizade. Sento no degrau de uma loja de uma loja fechada. Um policial olha fixamente para a caderneta que eu tirara do bolso da jaqueta. Presença incômoda. Levanto e tomo de novo a direção do metrô. Pouco depois, estava na avenida Daroca, ventava forte na Ciudad Lineal. De Vicalvaro até a estação Las musas entro no mundo que nasce quando morre o diurno e sua retidão.

Apanhou a linha 7 até Pueblo Nuevo e a 5 até Ventas no sentido de Callao. Cinemas, sopas, madrugadas imprevisíveis segundo o suplemento. Entrou após ver o cartaz. “Julia e Julia”. A inverosimilhança de Sting falando um castelhano tão perfeito com Kathleen Turner fez da sessão um tipo estranho de terapia e saiu sereno, bem disposto. Não lhe ocorreu qualquer associação entre a bizarra película e Blandine, o que colaborou decerto para a tranqüilidade. E no entanto havia Trieste, fronteira de barcos e aves, castelos e museus, professores famosos e virgens mais que prudentes. Well, you know or don't. Cidade que não conhecia mas tão ligada estava a seu passado e destino. Se estabelecesse analogias (o que pode ter ocorrido no inconsciente) entre Blandine e Kathleen, ele próprio e Sting; se relacionasse aqueles cenários com os arredores da via Della Sorgente, ruas onde Blandine vivia e caminhava ao sol, aquele mar do filme com o mar que todos os dias a extasiava crepitando ao constante vento, a ansiedade de um reencontro não o deixaria se concentrar em Julia, nas fantasias em estado bruto que produzia. Kathleen seria Blandine. E o amor dela por Sting, pensou Andrei, seria o amor de Blandine por mim. Mas não lhe ocorreu qualquer ligação. Não evocou Trieste, não lembrou de Blandine e saiu ileso,

graças a esses complexos mecanismos mentais que nos protegem de nós mesmos. Meses depois – agora há poucos minutos de quando escreve isto –, quando voltasse a ver o filme em Lisboa numa sessão reservada a jornalistas e cineastas para mostra dos processos inovadores da tecnologia da alta definição, por um detalhe, o espaço entre as casas, de que Nastácia não gostava por achálos grandes demais – agente de isolamento dos habitantes – ele pressentira Trieste e confirmaria mais tarde a intuição. Nessa sessão futura, em que os cuidados técnicos subtraíam ao filme aquele halo de magia, substituindo-o por tipo um realismo de vídeo-tape – algo como trocar a pintura de um mestre pela foto da paisagem que o inspirou–, nessa outra sessão, em Lisboa, quando Sting falava com sua própria voz o inglês original do filme, Andrei experimentou imensa angústia pelo desfecho em que se encontrava e porque, se conhecemos uma ficção e aceitamos as horas que dentro dela passamos como um tempo vicário onde a ilusão assume o papel da realidade com o nosso aval, quando voltamos a nos deparar com essa obra, após ter visto os atores recebendo prêmios ou em entrevistas ególatras, ou simplesmente em outros papéis, ao revivermos a narrativa depois da lisonja, da crítica e dos apuramentos técnicos, a obra perde a dimensão de vida que lhe concedera nosso espírito na primeira leitura, detemos-nos nos detalhes, tudo se torna evidente como fruto de uma humanidade vã, verossímil demais para ser verdadeiro. Você nunca viu o mar e se delicia ao imaginá-lo mas talvez não goze de seus prazeres quando em meio às ondas. A masturbação de um adolescente pode ser mais gratificante que as relações que manterá depois de adulto. Escuta um trem. Uma buzina. Outra. Vozes. Passam pelas calçadas. Só

quem morbidamente susceptível sofreu a miséria como eu, pensou Andrei, saberá a pressão a que se é submetido, as humilhações dolorosas e alegrias potencializadas por contraste. Sou patético porque no fundo sou normal. Mas sofro. De um jeito ou de outro, sofro. Só quem vive realidade semelhante poderá avaliar o quanto sofro. Não era assim após o filme em Madrid. Estava sereno, bem disposto. Cheio de esperança. Com postura e respiração de peito, encaminhou-se para uma ronda que o deixasse na região das tavernas, pronto para entrar na mais barata. Ao passar por uma banca de jornais, bateu o olhos num postal sem foto, apenas a plastificação negra do cartão. Noche. Madrid. Sorriu. Comprou. Girou e deve ter dado uns cinco passos. Um rapaz lhe pede um cigarro. Depois de acendê-lo, propõe um chocolate. Dialeto dos fumadores de THC. Maconha, cabonha, ganza, erva, pito, hashis, kaia, liamba, diamba, porro, joint, charro, chá, chamón. Pinturas diferentes de uma mesma porta para o mesmo lugar. Independe o efeito do nome. "Chocolate" agora: o carimbo na fronteira. Se ele devia ou não ultrapassá-la, esse era um outro, velho complexo problema no qual não podia se dar ao luxo de se deter – o mundo passa, e seus mistérios. Necessita agora não de droga mas interlocutor e a erva se prontifica sem as cobranças do amigo e, principalmente, da amiga humana. Assim que recebeu o dinheiro, o rapaz foi até um vulto na transversal do outro lado da rua, sem dizer palavra. Voltou e foram andando enquanto ele preparava o cigarro. O rapaz, Michel, inglês (embora tivesse nascido na Suíça), pronunciava o espanhol tão corretamente quanto Sting no filme – porém ele é real, pensa Andrei, como minha alma dilacerada. Canta o lhú de lluvia (começava

a chuviscar) e o lhê de calle (convidara-o para ir tomar sopa num clube noturno e agora explicava o caminho), diferente dos sul-americanos que dão aos eles som de jota. No percurso, pelo cheiro, juntaram-se a eles um italiano e um português. Andrei ouvira falar, em Paris, Roma e Lisboa, acerca de Amsterdã, auge de uma Europa paralela, una, subterrânea. Bicicletas em Den Haag Utrecht contra o vento. Uma moça com a mochila aos pés ao lado de uma feliz placa azul, ela pede uma carona. Outra. Bate fotos dos amigos. Uma rua transversal. Ele vai ao longo das casinhas ajardinadas e tetos graciosos à semelhança de casas de bonecas. Não realizará tais sonhos.

Por que não? pergunta Oleana. Poderíamos, sei lá, marcar um encontro em Amsterdã no Natal. Palavras. Ela não festejava Natal, mas tinha costume de fazer uma viagem desse tipo no final do ano. Diz que eu preciso mudar aquele sentimento de que a vida são promessas não cumpridas, desejos não realizados, pequenas traições, indisponibilidades. A vida é boa, meu amigo. Convite feito da boca para fora, como se falar fosse um tipo de imunidade. Amanhã nem lembrará ter dito. Tive a impressão, enquanto a escutava, enquanto entrava naquela dimensão em que era estrangeiro – do dizer por dizer, justo no momento em que o prazer é tanto que substitui a razão–, de ouvir um desejo de silêncio espalhando entre velhos sonhos e novas excitações os cordões firmes do cumprimento do que se diz, a mais sagrada das coisas.

Um veículo pesado subitamente faz com que a avenida estremeça. Um

sino. Meia-noite. Tudo que um segundo comporta. Na verdade, as cidades da Europa – pensou enquanto Michel arrematava o cigarro, girando-o na boca –, cada uma oferecia seu clímax próprio num continente de coisas velhas, acusado mas de xenofobia, fascinante com a um olhos

comprometedor

passado

colonialista,

sempre

estrangeiros, como o salão de uma duquesa do século dezenove cheio de gente sequiosa do convívio que impõe nobreza qual lápide numa sepultura, tentação a que não resistiram nem os grandes da arte, como se não houvesse o juízo das gerações. Ele tentava resistir. Convidado por Maria das Dores, uma linda secretária do Palácio Foz, para um coquetel naquele exato momento oferecido a jornalistas estrangeiros em Lisboa, preferia partilhar – preferia? – a companhia de outros perdidos dispersos na península.

Bernardo, o entroncado moreno do Porto, está falando alguma coisa sobre mulheres. Diz que sexo e sentimento são para elas a mesma coisa ou duas coisas tão ligadas que terminam por ser uma só. Quando sentem prazer, sentem amor. O homem não associa assim, por muito que ame. Admitimos que a imagem da amada possa por momentos se apagar e o coração transmitir outras imagens mesmo pronto para pulsar o ressurgimento de sua amada. Donde o espírito possessivo toma conta delas – o italiano que vivia em Barcelona, Mario, faz uma pausa e vai concluir. Mas Bernardo, como que desabafando um caso recente, conclui ele próprio: – Como uma possessão mesmo. O ciúme é demônio particular das mulheres.

– A mulher é que é o demônio – diz Mario. – É um engano pensar assim – Michel sorriu, irônico. – Uma mulher não

passa despercebida. Bernardo carrega a melancolia dum forte sotaque. Continua sua queixa: – Para a mulher, uma amante eventual é definitivamente traição, prova inequívoca de desamor, quando apenas prova uma tendência polígama primordial – e concluiu: – Aventuras nada significam. Mario acrescenta: – Nada para nós. Para elas sempre significam alguma coisa. Soava engraçado quatro jovens estrangeiros na movida madrilena levados pelos primeiros toques do cânhamo a semelhantes divagações. Bernardo se perde na imagem motivadora de suas palavras. Mario, depois de receber o charro de Michel e fazer a gravata de saliva para retardar a queima, concorda que os homens, mesmo privilegiando o lugar da amada, não resistem a outros lugares. Michel sorri. Diz: E eis que uma mulher sai ao seu encontro. Passam três moças em sentido contrário, provocantes. Ele virou-se e as seguiu no decurso de uns passos. Mujeres, vosotras las chicas, no valéis nada, no sois nada, no tenéis

sentimientos, ni corazón, ni entrañas - no queréis ninguna salir conmigo? Uma
alma paralela extraiu das nuvens uma idéia de Deus que Andrei associou a adoráveis chicas espanholas. Mario comentou: o que torna tudo tão difícil é que a mulher escolhe sempre um homem que despertará a atenção de outras – o rico, o charmoso, o bonito, o inteligente, o protetor, o sedutor – mas só leva em conta que, se é fiel, garantiu o direito de exigir fidelidade. Escolhe e se entrega logo, antes que surja

a questão de sua própria beleza, independência, charme e meiguice que desperta no homem o desejo de proteger. Daí deduz que sua entrega fiel dá o direito de fazer cobranças. Não preserva seus encantos e exige fidelidade cega, independente desses encantos. O pastor prega em vigília evangélica na igreja que logo adiante cresceu. Por que a duração de nossa vida é setenta anos e, se alguns mais robustos talvez cheguem a oitenta, o melhor deles é canseira e enfado; são levados como corrente de águas, como um sono; são como a erva que cresce de madrugada, de madrugada cresce e floresce, e à tarde corta-se e se seca. Gritos santos ouvidos de fora. Fidelidade – pensou Andrei – só deixa de existir, efeito, quando uma causa já se desenvolveu nos tempos. E do efeito são criadas águas. E afunda-se no efeito. Agora, sem convicção para ser fiel, justamente agora, era mais amado e mais lhe era exigida fidelidade, cuja noção a névoa confundira. A noção da fidelidade natural que jurou um dia não diante de um homem assim mas dentro do coração. O que pode, pensou Mario chutando uma pedrinha, o que pode dizer de fidelidade o homem num mundo, como diria meu pai, em que a graças das mulheres, como o velho teria dito, tece a passamanaria de todos os assentos?

Bene. E o que dizer de um mundo que assim não fosse?
Um mundo sem a mercê da mulher, pensou Andrei, seria sem vida. Num hospital as enfermeiras não passam pelos corredores para ensejar aos enfermos desejo de viver por causa da graciosidade delas, mas porque ali trabalham e são competentes; porém, esse requisito evidente seria, sem a sutileza do outro atributo, tão inócuo quanto um soneto clássico na forma sem o coração das palavras. Ele até poderia escrever um agora, palavras chegam aos montes de

frescas instâncias junto a significativas imagens, no óleo mais puro de existir. Mas eles caminhavam e se elas volatilizavam. Palavras. Contudo, bem ou mal, delas Andrei subsiste. Escreve. Sou lido, pensa, segundo cartas que recebia nas redações. Era até apreciado por algumas pessoas. Assim, parece coerente o oficio; e depender de palavras seu tempo de subsistência, uma troca justa. Mas não há justiça na vida e nada é tão injusto quanto o que ocupa nosso tempo sem fazer sentido no final. Como os dias de seu relacionamento fiel com Blandine. Mario agora fala sobre as possibilidades próximas à Puerta del Sol. Bernardo comenta que um italiano em Madrid não pode deixar de conhecer o Pinoccio, onde jantara por duas mil pesetas. Resquícios no silêncio de Andrei. Fidelidade. O que sei? se pergunta. Mal e mal da dimensão entre o primeiro pranto e o último suspiro – prantos e suspiros – e sequer se antes haverá vida verdadeira. A fidelidade de Deus antes do réquiem dos querubins irradiando uma luz apenas provável. Chegamos, disse Michel. Entraram.

O ambiente está cheio de um azul sonoro relampejante. Dir-se-ia que é uma boate. Como se uma autoridade maior o chamasse, quieto num canto, Andrei voltou para sua caderneta. Há vinte anos, quando eu tinha vinte anos,

queríamos mudar o mundo... Lembrar 1968 produz a frase inicial de um texto
com referências próprias e todo o trânsito delas deveria se resolver em cada visão pessoal, Albinoni reciclado em versos, algo assim. O esboço do hotel aos

poucos se transforma em algo concreto perante ele. Será lido e esquecido ou nem lido mas e daí? Há vinte anos, quando eu tinha vinte anos, quem estava com vinte anos aprendera a sonhar e queria tudo. O futuro era agora. No final das contas porém 1968 é só um numero. O que traz não evoca qualquer reinvenção do mundo. Seus amigos da época estão mortos ou aderiram à mediocridade geral. Não que tenham mudado, ao contrário: agora é que são eles mesmos. Hoje, vinte anos depois de quando ele tinha vinte anos, o que poderia ter sido não foi, o sonho acabou. (Que batidas são essas?) As pisadas que faziam, há vinte anos, os palácios estremecerem, hoje caminham macias pelos seus corredores. A memória acompanhando batidas e um piscar azul diluindo-se no ruído do motor do freezer Andrei evoca uma estrada e um polegar há um pouco menos de vinte anos. Um carro pára. Esse ainda não foi contaminado pelo medo. Rosário? Duas horas na boléia de poeira e sacolejos, cara to muito doido, esta é mesmo da boa, dizem que vai ter muita menina por lá. O rádio da caminhonete toca uma canção portenha. À mesa do clube noturno em Madrid, caderno e caneta. Nas palmas das pessoas que acompanham a música ambiente, ele escuta aplausos. Minas pacas! muita mulher, cara, e todas facinhas! Obrigado, bom resto de viagem. De nada, mas se cuidem: estamos nos anos setenta; estamos nos anos setenta na província de Buenos Aires. Se cuidem! Um prêmio para jornalistas, uma platéia azul. Em 1989 Andrei era um apenas menino mulherengo. O motorista sem medo; a comunidade, Rachel. Palmas no clube. Aplausos. Obrigado, obrigado. No pub – clube, boate ou sabe Deus – há cerca de meia hora, os quatro bebiam refrigerantes potencializados pelo haxixe. Uma geração paira no

nevoeiro. A possibilidade De mudar a sociedade não resta sequer como possibilidade. Não se derruba o poder vigente sem derrubar antes o poder vigente dentro de nós. Vaidade das vaidades. Como viajar nesse trem sem pensar em descer quando pare nas estações em que se vendem doces artificiais nas cantinas? Bernardo súbito concentra as atenções. Minha carteira! Alguém
roubou minha carteira! Ato único, lembrei de Michel. Onde estava? Mario conferiu discretamente o conteúdo de seus bolsos. Uma sirene então disparou. Pensei na polícia e no haxixe comigo até discernir na sirene um medo íntimo. Jamais saberei com certeza. O inquietante barulho insiste, contínuo, não pára, aumenta. O porteiro pede para que a gente saia, em idioma de súplica entendido pelos gestos. Nas escadas, a ponto de sair, claustrófobos daquele lugar, esbarraram em uma tranca de bronze. Que loucura é essa afinal? Com o medo que em atos bruscos se confunde com coragem, Bernardo tornou a subir os degraus, de dois em dois, Tenho de sair daqui, e lá embaixo ouvimos sua voz, desesperadamente enérgica, levando o dedo de alguém ao botão que atuou no circuito. Vamos!

O frio lá fora se misturou ao relaxamento do haxixe. Eram adventícios, todo homem é forasteiro, uma sombra em vão se afana. Andrei preferia estar descansando em frente a uma televisão, ver um vídeo, ler um livro, ouvir música, discutir filosofia em alguma culta cama continental depois de amar e dormir – dormir sem se preocupar com a refeição seguinte –, atrás de um jornal em preto e branco. A madrugada madrilena distribuía luzes e sombras pela amplidão de suas iluminadas avenidas e nevoentas ruelas sempre dando em alguma praça, entrada de metrô ou outra avenida iluminada. Lâmpadas de postes transpassam

a bruma e entranham no asfalto encompridadas sombras. Ele preferia sim a normalidade, a prosperidade, o conforto; e quanto mais os preferia, os abominava mais.

Michel, antes da confusão e de seu sumiço, fará confissões. Falará de algo com que sua mente um dia se ocupou mas ficou no tempo. Agora é um empresário. Agora tem de sustentar uma mulher caprichosa. Sente-se bem ao falar com um estranho que não mais verá. O brasileiro terá esse papel na maldita sensação de culpa. E todavia não fizera nada demais, ora essa. Tinha uma linda casa em Londres. Era sócio de uma próspera loja na Hawthorn Avenue. Optara por viver na Espanha pois se relacionava com a resistência basca em nome da memória de um avô, um basco francês. Andrei guardou aquilo. Que significado teria o Maio francês para os bascos? Durante a conversa, nada tinha contra Michel e nem mais tarde saberá se deveria ter (em relação à carteira de Bernardo). Mas ele lhe pareceu dessas pessoas perfeitas demais, nunca possuidoras de autenticidade proporcional ao que aparentam. Corretas demais para serem virtuosas. Quando portanto fala de sua simpatia engajada, Andrei duvida. Vacila a simpatia pela casa Euskadi, a casa do pai, nire aitaren etxea. Mas mal conheceu seu pai, e qual o poder da simples etnia? Há verdades e mentiras em todas as casas, em todas as causas, pensava ao sairem do clube, ao pegar o ultimo pedaço do hashis para que fumassem ali mesmo em Lavapes, apesar da tentação de guardá-lo para mais tarde escrever na solidão de seu quarto.

Procuram um lugar sem vento. Descem na entrada do metrô. Mario desfaz a barra aquecida sobre a moeda na palma da mão. Dois policiais surgem do descuido deles. Olham e se aproximam. Podem mostrar seus documentos? Um deles se detém na credencial do brasileiro barbudo. Estão invadindo a comunidade via Lisboa. Será que as autoridades portuguesas não podem fazer nada? Jornalista, hen? Por acaso trabalha melhor drogado? A voz se eleva, e o policial o encara, encostado em sua insígnia. Na aura a que se propunha, Andrei trabalhava melhor quando não era ele, despersonalizado. Quando sua consciência fazia parte de um todo que a ele mesmo via como parte e quando ele, autor, se afastava dessa função e permitia que os fatos (no caso do jornalismo) ou os personagens (no caso dos livros de bolso) simplesmente existissem. Não deveriam ser o texto acabado mas passar pelo crivo abstêmio, íntegro em suas limitações – ele mesmo, o próprio Andrei. Nisso o haxixe e a maconha faziam seu papel. Mas ele preferiria não fosse assim. Queria ser as próprias transgressões, sem a ajuda de deuses caídos ocultos na erva. Que cérebro nele o faria, ou que coração? Os guardas ainda os avaliam com perguntas de praxe. Devolvem os documentos. Voltam para seu turno. Bernardo abriu o papel e Mario colocou a mistura – um trabalho de equipe que supunha usufruto comum, mas não o iriam partilhar. Aspiravam o máximo que não era muito por ser fortíssimo o tabaco negro espanhol. Quando restou a acidez de tragar o cartão, Mario atirou-o ao chão. Bernardo disse que tinha de ir. Deixou seu endereço no Porto, em Gaia, É só pegar o autocarro 57, e

se despediu.

Andrei apareceu num domingo após o culto, no momento em que ela saía. Bernardo nunca teve antes essa confiança de deixar um amigo assim à vontade com Filomena. Com Blandine era um fim de caminho e pouco importava para a portuguesa o que era ou não permitido. Blandine nem percebera, diz Filomena, que seu jeito de ficar em pé, com as mãos na cintura e as pernas afastadas, é justinho como eu fico, estás a ver? Sabia porque até ensaiava na frente do espelho. Com o rapaz, com Andrei, ela não se comportou assim, antes fez um papel de mãe ou irmã a que jamais se prestara.

Ficaram Mario e Andrei. O vento frio o sentiam outro. E a si mesmos, outros também – eles sob outro prisma. O que pode enlevar, sim seu guarda, é incapaz de modificar. O tal espelho que amplia é ainda só um espelho. O sábio será sempre sábio e o tolo cada vez mais. Dependeria Andrei de um reflexo que o levasse, ampliado? Fala a respeito com Mario quando passa uma jovenzinha roliça e castanha, pequenina, dix-neuf ans, olhos verdes. No lábios sem batom a macular a pele se crispava levemente sobre o rosa escuro. Os cabelos caíam limpos pelo rosto. Um blusão surrado se abria o suficiente para a visão de um dos seios, bico revelado pela transparência da camiseta castanha como o blusão e ela mesma. A cintura, era como Deus ali houvesse se demorado o tempo exato de um critério estético perfeito. Sua

expressão era inteligente; as frases curtas, divertidas; supergata charmosa. Andrei não podia pretender que Mario ainda se interessasse por espelhos. Chama-se Isabelle. O abraço da noite causava bem estar digno de menção. Todas as mágoas se haviam dissipado. Geométricas figuras com luz própria eram a cidade. Do amarelo que cobria os globos das lâmpadas desprende-se a névoa úmida que os envolve. Produz em Isabelle prenúncios de amor. Os prédios tremem na íris, resumidos nas áreas arredondadas. Profecias de desejo e santificação do desejo.

Je suis amoureux. Era uma menina feliz naquela noite. Um bando de rapazes
passou cantarolando, bêbados. Aqui e ali carros respingavam brilhos no fim visível da avenida. Um táxi pára e os dois casais que entram batem a porta. Parte, cantando também. Andrei deu a posta-restante para contato em Lisboa e Mario seu endereço em Valcarca, perto do Centro Médico de Barcelona. Trocaram também as direções de onde estavam em Madrid e ficariam durante o fim de semana. Quanto a Mario e Isabelle, pensam em uma pousada para o resto de madrugada. Quando entrar no quarto de Mario, terá um estremecimento. Não saberá se de susto ou prazer. Quanto a Mario, nunca passou pela cabeça dele, nunca mesmo, colocar uma mulher em seu apartamento, brincar de casinha. E era uma mulher ou apenas uma menina de dezenove anos? alguém para partilhar mais que uma ou duas noites em Madrid? Talvez o fato de ser francesa. Non so. As fronteiras estão abertas na Europa dos doze, fronteiras quaisquer. Ele não ligava pra política. Ela ficará observando, sentirá desejo, carinho. Então segura o rosto dele com mãos de tão suaves quase frágeis como rosas mais brancas que seu

passado contra todas as aparências virginal. Passos no corredor no fundo do qual brilha o néon. Pisca uma luz no fim do túnel. A porta. Aberta. Beau. Parece aconchegante, ela diz. Era como se a treva da pura noite invadisse o ambiente de lâmpadas, envolvendo-os, envolvendo-os – aonde chegaria a paz daquela obscuridade? A cidade falava ao redor, num ruído de carro, em vozes de vizinhos, no ar condicionado, na música distante; mas não nos passos, os passos ressoavam de uma nova dimanação, até quando os poderiam levar? A voz de Isabelle. Comove seu doce acento de gerúndio saboroso. Junto ao sorriso disse um smiling esmerilhado cantando o g omitido nos Estados Unidos e um tocante talking ao comentar o filme de Kaufman. Ouvindo-a, você poderia ver Juliete Binoche como Teresa na "Insustentável Leveza" que evocavam e se deleitar com a maneira como dizia seu Tomás melodioso, assim, abrindo o a e derramando o Sena dentro dele.

Paris, dezembro de 2008. Nunca ninguém fez isso para ela, fazer o jantar, servir. E ali estavam. Descanse, vou pegar também alguma coisa pra a gente beber. Foi assim. Diante dos olhos de Beatrice, ele se transfigurou, deixou de ser aquele maior abandonado, aquele homem que provocava o instinto maternal sem porém deixar de mostrar o quanto era patético. Noite fria. Ele trouxe a garrafa, pôs sobre a mesa, encheu os copos. Vai chover logo. A proximidade dos sessenta anos é época de recomeço. O que sentia, ao permear assim os pensamentos dela nos momentos que precederam o leito, o que realmente sentia era uma paz próxima do cansaço e não por isso menos merecedora desse nome de paz, e quem sabe agora ele se permita, até pelo mesmo cansaço. Não havia anfitriã nem hóspede, um necessitado e uma mulher

independente. Não havia palavras. Ele seria naturalmente capaz, podia tocar o negócio, e ela não poderia mesmo fazê-lo sozinha por mais muito tempo. Com que então. Isabelle saiu de casa para buscá-lo, em ultima análise. Beatrice não precisou de remédio para dormir naquela noite.

Os sons de criança abandonada de Isabelle e o adeus de Mario são guardados. Um olhar ao redor. A caderneta. Um bar que se abre. Começam a servir. Buenos dias. O texto aberto em uma mesa de canto. Café con leche y dos

tortas. Terá sido tudo em vão para os que tinham vinte anos há vinte anos? Porque não mudamos, porque lutamos Por mudança e não mudamos, A utopia envelheceu sob o peso de nossa idade. O circulador de ar no teto hipnotiza.
Quando um membro da chamada classe operária inveja as posses do bemnascido sem imitar suas virtudes, qual deles faz parte do Sistema? No decurso da infância, uma babá adorada, uma cozinheira no papel de segunda avó. Andrei poderia ter chegado a algum lugar sem tanta dor inútil e idolatrias várias. A única revolução é aquela que não devora o revolucionário e, antes de mudar o mundo, muda os mudadores. Talvez tenha por segundos adormecido e pairado junto a sombras fantasmais da velhice onde seria respeitado – não famoso, reconhecido – e querido pelas pessoas ao redor, fazendo o bem. Um sonho com Rachel. No sonho, ela também é uma senhora venerável. Fala-se de arte e engajamento. Há concordância. A arte comprometida destrói a arte e a transformação social. Além disso – nesse ponto, não há mais memória do sonho. As conversas no bar entrecruzadas lhe atravessam o cérebro em

fragmentos latejantes. Os bolos não satisfazem a fome animal. Na mesa em frente, um velho de barbas brancas se perde no passado diante de um copo de vinho pela metade, de há muito intocado. Lembra alguém mas Andrei não discerne quem. Olhando fixamente para ele parece também perceber a semelhança ali no futuro provável que espera homens cujas noites terminam em Callao tomando um café de temores ocultos em sílfides aparecidas do nada e que cedo ou tarde para o nada voltarão. Nele não há estruturas exteriores passíveis de salvação por levantes e acordos coletivos. Que foi feito daquela

coisa epidérmica, onírica? das profecias nas paredes? Onde está a sociedade revolucionada que se pensou? Em Paris jamais foi vista; em Nanterre, não estava lá. Droga de caneta.
O artigo em forma de poema, está a ponto de ser rasgado, como o primeiro, em prosa, escrito no quarto do hotel. Perfeccionismo: um mundo, no final das contas – o das soluções literárias para problemas reais. Entra uma jovem, uma sílfide de olhos grandes e zombeteiros em nada semelhante a uma mulata da roça de Minas e, todavia, não é Blandine? Meu Deus! O que ela faz aqui? Jag vill gärna. Falava com o balconista quando se percebe observada. Sustenta um olhar entre a arrogância e a sedução mas logo sumiu deixando outra em seu lugar e o halo bucólico que a aureolava transformou-se numa sina citadina sem escapes. Caminho de asfalto e calçada e prédios tristes duplicados ao longo do meio-fio, de drogados e de putas, da pesquisa estética e do querer reticente. Ele pensava que a vida é simples quando os homens são homens e Paris 1968 era brincadeira de crianças mimadas. A língua queima com o gosto do café enquanto o Armagedon se espalha pela terra. De novo essa visão! Fogo... Onde

é isso? Da única batalha necessária não se ouvem explosões nem suspiros. Dentro de nós, pensa, o silêncio – tácito acordo da sensualidade com a emoção amparado pelo desejo de conforto e pavor do sofrimento. É preciso minar toda a aparência de verdade para chegar à verdade; confundir a concupiscência e refazer a canção, como Billie Holiday fazia – a mesma canção ampliada ao mínimo essencial. Ela está de costas junto do balcão, sílfide de cabelos luminosos escorrendo pela camisa azul-claro e jeans geminando perfeições. No bar, ele ergue a cabeça, displicente. Talvez ela esteja olhando. O texto diante dele. Com isso deveria manter a esperança. Ele, que não tinha vinte anos há vinte anos. Hoje,

uma nova década nos recebe virando o rosto para quem insiste em sonhar.
Porque os que buscavam o novo ficaram velhos. Porque é velho o novo que chegou. O fundo de café com leite exala devoções fumacentas. Você aí no canto do balcão, que gestos são esses cuja fonte não está em você mesma? Hesita um segundo e, quando de novo a procura, ela não estava mais lá. Sua ausência o deixa com a caneta na mão, reforçando a palavra “Nanterre”. Ele escuta os pássaros matinais em ramos à janela como um outro nível de audição a se destacar no burburinho externo das idéias escritas e agora do sentimento da súbita ausência há tão pouco presença ainda mais súbita. Oleana, chica! A vírgula rasurada. “Nanterre não estava lá”. Péssimo. Como estou escrevendo mal! – pensa. Até isso perdi. Um artigo banal, indigno de um futuro promissor. Mas talvez aí exista um fato. Mais que jornalístico, mais que literário. Que disciplina, que vocação, apesar de mim. Trata do Maio mas é da minha morte que trata na verdade. De minha morte miserável. Àquela altura que diferença faria se a fome,

o frio, ou ele mesmo a provocasse?

Mario e Isabelle brincam, ela está vendada, différent, ele de olhos bem abertos abre as mãos em toques largos. Dilettate. Bernardo pegara o trem para Portugal. Flores na encosta à janela. Diante dele o lucro imenso. Volta duas vezes ao vagão-restaurante. Caralho, é pouco ainda, os números à frente da cerveja. Ê pá mais um salgado! Michel sabe Deus onde anda é o que faz. Quanto ao outro rapaz, caminhava, a estrada no crânio. Caminhava e o tempo passava por ele. Amanhecia. Blandine e o lago reaparecem no espelho bar. Pelo mesmo caminho, Kleber e Donda Maria. Não eram muito chegados a cartas, mesmo assim enviaram um postal e o bilhetinho carinhoso. Oi Andrei, como tem passado? Por onde anda que só agora mandou notícias? Ele conquistara o amor de todos e ela esperava em Deus. Mas da filha não falava. A porta da casa estaria sempre aberta mas Blandine não estava mais lá. Donda Maria era desquitada de um francês, Blandine e Kleber os frutos mulatos do relacionamento, grandes garfo e coração, integrados nos mistérios da roça. Devolvi ao bolso o envelope que escapara com o bloco. Sempre doente, a mulher nunca era vista prostrada. Acordava às quatro da manhã, tratava dos animais, tirava leite, moia café, cuidava enfim da parte doméstica da fazenda do senhor Jean, que morava em Ribeirão Preto e deixava a lavoura em Minas administrada pelo filho. Ele morava à época também em Ribeirão, escrevia para um jornal local. Quando Blandine surge com o pai, ele vê televisão na sala. O senhor Jean está para se casar de novo, com a dona da pensão. Planos na cozinha. Taquicardia

qual revoada de pulsações próximas à janela em que debruçada ela, Blandine, espera pelos sonhos que sem dúvida se materializarão. A lua no céu. Estou menstruada. Sou ciclos. Posso ser livre? Quando ela se move é de um jeito lento e ansioso. O perfume suave tudo envolveu. Que nome bonito – diz ele. É que o pai era louco por Lizt, ela responde. Se Kleber tivesse nascido primeiro teria se chamado Franz. Sorriram com a franqueza fácil da perspectiva do amor. Jantarão fora, o convidam. Ele andava bebendo demais. As coisas não andam bem, muito estresse no trabalho. Está tenso, infeliz. É a cidade grande, justifica. A tensão do fechamento diário. Um tempo na roça? Você não gostaria de vir conosco? No dia seguinte o senhor Jean ia levar Blandine para Piumhi. Pode trabalhar nos cafezais. Será uma ótima terapia. Sente aqui do meu lado no sofá, fale de seus anseios. Calava porque nunca soube puxar conversa com estranhos. E todavia. Sim, familiar. Como um sonho que se repete. Ela costumava levar a comida quando Andrei e Kleber trabalhavam no milho antes da panha. Então ele, o irmão, pegou o trator. Talvez não goste do cara bonito e rico da cidade ( jovem também, dir-se-ia), o tal Breno. E demorou o suficiente. O café esfria na caneca. Deitados na relva, ao lado da casa desabitada, conversavam sob o sol frio e baixo do começo de junho. Ele pergunta sobre seu namorado. Ela diz que lhe dá segurança material. Ele pergunta se ela sente que o traiu. É que no interior... O interior está mudando. Gostei de você à primeira vista, Andrei. Talvez estivesse amando de verdade. Não reprimiria o desejo, a não ser que ele não a quisesse. Ele a queria. Não desejá-la seria não estar ali, o lago ao lado, os patos, a brisa encrespando as águas em sonhadora sonata. Não desejá-la seria não existir,

o corpo dele não formigar na grama, a vegetação não receber a tarde de névoa. Contornos. Vida transitória. Não haveria o cheiro da terra e a calma do céu. Não deseja-la seria ela não estar ali, a inocência em seus olhos sagazes infiltrada nos traços que a traduzem. Refletindo o lago e a relva, as ressonâncias, os aromas, a aragem e ele mesmo. Estão juntos há uma semana. Kleber está feliz. Donda Maria também. Feitos um para o outro. Felizes para sempre na casa que o Sr. Jean prometera como presente de casamento. Andrei não sabe. Se soubesse, talvez não pensasse em partir. Mas Blandine não contou, não a princípio. Se contasse, ficaria para sempre uma dúvida. Afinal não ficou. Uma e outra coisa. E a nova vida, o casamento, ia ficando para mais tarde. Planos são construídos de uma substância indefinida de prazer, contêm a imaginação não maculada pela realidade. Mesmo quando se encontra um tipo de paraíso, as vezes é como se faltasse algo. Não bastam um ao outro? A consumação se esquiva. Blandine pensa. É que você se sente dividido porque gosta da roça mas não a ponto de esquecer as facilidades e prazeres urbanos. Ou talvez seja ela quem queira viver longe dali, daquele ambiente enfadonhamente familiar. Mas quando chegavam a considerar a vida em comum, eram de fato felizes. 1983. Bonito de ver. Mais tarde, a mesma impressão dos amigos no Rio, no verão de 86. Terá de ser pago o preço da juventude (nem tanto quanto a ele). Dias de desejo e ciúme. O cheiro da terra ainda fará parte, por muito tempo terá a ver. O café. Se alguém pergunta: Por que a separação? Por que alguém não impediu o rompimento? Não há uma explicação. Equinócios e solstícios. As mais belas frases musicais enchem o ar e silenciam. O navio da esquadra resistiria

como nau solitária no imenso mar onde tanto se sofre? Ninguém explica. Agora, tudo parece perfeito. A luz do amanhecer, reflexos de ouro. Deita-se a seu lado. Nuances sutis de um prazer santificado pela estética. Pensar além do rosto, do corpo, da voz, isso aterroriza. A diferença de idade faz dele um homem maduro ou quase um velho, um cara cheio de si ou um menino inseguro. De novo essa voz! entra nos ouvidos com a importância das coisas subjetivas e todavia vem de uma estação monótona onde quem se corta só em outra estação sangrará. A posição do sol em relação à terra. Não pense além então. Faz isso e se perde. Adora uma santa, enlouquece uma mulher, mas os defeitos dela o aborrecem, não pode ser santa, nem mesmo mulher, é só uma menina mimada, o que houve não foi fruto de uma escolha mas um passo para a perda da liberdade. Se não me liberto pelo amor passo a saber, a partir do amor, o mal de depender do amor para se libertar. Deliciava-se com presença dele, e mais ainda com a ausência, sua presença imaginada, na verdade um novo tipo, idealizado, de presença. O homem não mais é uma espécie hostil. Gosta de explorar os ombros dele, de beijar-lhe as costas, os quadris, as coxas. Chegava a entender a si mesma, quando ao lado dele. Vozes não muito longe se revezam. Apanhadores, decerto. O sino da igreja dá seis horas, arrasta a memória em cada badalada. Foi um apanhador de café calado, deslocado no canto da carreta. O que era chamado de “jornalista" com cirúrgico sarcasmo. Ela chega a temer tanto prazer. Seria lícito? Não por ser solteira. Seria lícito tanto prazer, em qualquer circunstancia? As vozes. Arrefecem. O espírito da torre da igreja rasga o ar até se dissipar na manhã.

A essência de todas as coisas se reflete em nós. Mas veio o fim da safra. Quis partir sem um porquê aparente. O interior está mudando mas não o bastante. As luzes da casa ainda estão acesas, há pequenas cintilações nos telhados. Questão de pouco tempo. A queda do muro de Berlim, fim de um era. A perestroika varrerá o leste europeu e promoverá fartura para os povos soviéticos independentes sem derramamento de sangue. Mandela liberto, de volta à harmonia familiar, mais que do apartheid é o fim do racismo no mundo. Pinochet permite um plebiscito sobre sua permanência no poder, aceitará o não. A transição política brasileira se consumará graças à pureza dos partidos de esquerda e à simples e sublime Constituição de 88. O primeiro presidente eleito após décadas. Enfim a justiça social no País. Um jornalista precisa participar de tão singular momento, é missão. Os tambores rufam e as pessoas têm de segui-los. Manhã úmida. Mochila fechada. Ele está partindo. No dia que ia, segundos antes de ir (pegará o ônibus que leva dos cafezais ao centro de Piumhi), ela aparece à porta do alojamento. Tarde demais caiu em si. Como quem não quer, como que agindo sob o pano de fundo da segurança que o namorado de BH proporcionava, ela santificara nosso desejo, revelando uma face definitiva do amor, a certeza de que a vida passa. O calhambeque da empresa mineira de transportes buzina ao longe, buzina para trazer a morte revestida de resto de vida, de saudade, de vocação literária. Traz um epílogo descendo pontual a sinuosa encosta ladeada de ravinas buzinando buzinando. Por que não sofreu uma avaria? Por que não houve uma greve de motoristas? Por que o governo não proibiu todo êxodo rural?

Dedinhos de bebê na sandalinha de pelicato. A luz vinda da TV. Azul movediço. Em seguida os olhinhos fechados. Amanhã é domingo. Cascais. A

ultima estação. A torre de Belém silenciosa é submersa na passagem dos vagões. A treva posterior. Amanhã é que dia? Andrei, meu Deus, o que você está fazendo aqui? Ele não consegue responder, não acredita, ela está ali. Onde?

O olhar molhado de Blandine o acusa cheio de dor e altivez. Contra a luz seu queixo adquire um duro contorno de seios. A manhã treme em seus lábios. Em suas olheiras, a noite. Não poderia ter vindo antes, pensa ele, me deter? Amor eterno pode ser apenas isso, alguém que supere o amor-próprio e se antecipe ao erro contra o qual será o futuro implacável. Mas não, não quis. Preferiu me punir assim segurando o vestidinho de popelina contra o peito. Interdita corpo e coração. Enquanto vivesse eu guardaria aquela lembrança. Enquanto eu vivesse ela estaria ali. Desea usted alguna cosa más? Encaro abobalhado a garçonete que veio não para servir mas para que eu desocupasse a mesa. Conto mentalmente as pesetas em meu bolso. Representam mais uma xícara de café. Antes que eu vá para o vale lá embaixo. Blandine anota o pedido com cara de poucos amigos. Escorre enfim a ressentida lágrima que retém em minha porta como o mar numa pequena onda busca a manhã para salgá-la. Saiu agora da entrada do alojamento e se foi, em silêncio de miragem. E eu parti.

Ela disse me ainda me ama. Ela disse que me ama! Dormira lá em casa, na Tijuca, no Rio de Janeiro. Três anos depois de Piumhi. Foi na época da demissão em massa de jornalistas sem diploma universitário. Descobri que ela,

Blandine, há dois anos trabalhava na escola de idiomas no Rio, onde funciona o jornal. Orvalho na noite. A mulher que se tornara parece reconhecer detalhes de meu corpo mas a mim mesmo acho que não conhece mais. Na verdade nem eu, assim mais velho, me recordo direito da menina do interior de Minas, onde um homem nasceu com a terra quando começou a garoar. Desperto primeiro e a contemplo. Ela partirá amanhã para a Europa, convidada pelos pais gratos de um aluno. Por que deixaria de ir? Os ruídos da manhã envolvem a cidade, motores, buzinas, vozes que sobre outras vozes se sobrelevam. Não há naquele quarto qualquer vestígio da necessidade da arte, posteridade, missão, vocação; nem fome ou frio; nada de anemia. Temos os dois bons empregos e a perspectiva de férias no exterior. E esse bônus. A mulher amada, perdida, reencontrada. Agora partirá. A vida novamente sem ela. Mal-estar no peito. Disse-me que eu a idealizei demais. Que é uma moça comum, que não valia a pena sofrer por causa dela. Partirá. Agora é sua vez. Estou a ponto de me dissolver nos ruídos que envolvem a tarde, carregados da lei do diploma. Estou a ponto de adormecer de novo e ela não estará mais aqui quando eu acordar. Os campos do sul de Minas, aquele dia de nevoeiro na região alta da Mantiqueira... fomos felizes... Ela compreende que não eu queira despedida. Diz que sabe como é. Uma lágrima à janela. A pomba na praça, desengonçada e medíocre. Ao redor dela o macho louco. Adorada.

Carregadores entram no bar. Às costas engradados de bebida revelam a rigidez dos músculos. Gritan, dan voces. O homem deve levar seu jugo em

silêncio, talvez assim haja esperança. Foi numa praça em pleno inverno, ao sol agradável do inverno. No banco da praça do bairro Peixoto, lá onde dizem que será a estação final do metrô, do outro lado do Rio de Janeiro. Ali. Ao longo dele pensa uma chama. Deixá-la arder ou melhor esperar ou melhor nunca? Ou riscar o fósforo? Foi o que o levou à Europa de Blandine: talvez raptá-la.
“Moinhos de Vento” no último volume. Quixote, Espanha... Europa. Andrei

sobrevivia, perspectivas sombrias, dormindo aqui e ali, comendo dia sim dia não, ao relento. Qué de la noche? Seu manuscrito sem forças no primeiro capítulo segundo parágrafo sobre a mesa na pensão do Bairro Alto. Deus dá o dom e não permite usá-lo exceto como um gigolô? Marrocos. Traz a mochila gasta de África. Nada a perder. Era jovem para minha idade. Nasceu cedo demais. Às vezes se tornava ainda mais difícil pois selecionava clientes. Freqüentava a casa dos pais de alguns deles e chegou a convencer o Sean a se desintoxicar. Ficou conhecido nos arredores do Campo Pequeno até os lados do zoológico e no outro sentido até a galeria do cinema de arte. Transfigura-se agora na neblina que tudo envolve imagens que não retém nem esquece. A guinada afetiva e financeira motiva a fazer planos para as laudas em seu quarto. Planos que não duram. Julgamento e condenação sumária por roubo de clientela. Esfaqueado na boca do metro no Campo Grande estava morrendo no hospital São José onde estacionou o misericordioso taxista. Não querem saber de nacionalidade ou quaisquer outros detalhes. Bondosos e eficientes. Uma sorte extra: os chaváus levaram o chamón que incriminaria. Em tudo se esconde a catarse que é um passo para a felicidade e outro maior para o destino. Mais tarde recomeçaria o negócio com a mercadoria de Bernardo. Gosto de teu jeito de

trabalhar, brasileiro, dá requinte à coisa. Sua mulher, Filomena, chama-o de

príncipe. Mas é preciso antes ser um sapo para sobreviver nesse pântano e ele andava vulnerável demais para tal grandeza.

É difícil resistir durante vinte anos. É difícil resistir. Procurou com olhos o reservado. Precisava terminar depressa o texto com que se manteria comendo, bebendo e indo a um banheiro decente. Gostariam na redação? Os leitores gostariam? Gostassem ou não, havia a reserva de espaço. Será publicado. Ou não? Sempre existe o recurso do calhau. Não importa. Que o jornalista erre, se macule, se exponha; mas o literato se guarde à espera do momento. Sempre

haverá maios enquanto houver mundo e enquanto houver mundo haverá ideais. Uns nascidos da esperança, outros da pura ociosidade. Quando sai do banheiro,
ele a vê. Banho tomado, vestida bem simples. Nada da jovem mulher esfuziante de há pouco. Junta-se no balcão aos que tomam o café dos atrasados para os expedientes corretos após as noites em que toda escuridão é permitida.

Jag förstår inte. De ontem para hoje, pensa ela, alguma coisa aconteceu. Bien – mientras espero. Ela adora homens com aparência atormentada. São tão
impressionáveis. Houve a noite. Gritos na noite. Transformou um tempo de mulher. Acentuou o cheiro de primavera entre as coxas de abril quase maio. Dedos, lengua y todo

ahora! A semente lançada se origina em movimentos tectônicos. Madrid. O que
houve na noite remonta a mais européias das montanhas. Língua queimada de café numa distração além da conta. Não faz sentido. Uma briguinha não pode alterar um cotidiano perfeito por tanto tempo desejado. Ela vivia em Madrid, de pesquisas, com um belo estrangeiro, à larga. Não tenho que me envolver, lembra.

Pero. Bien. Mientras. Nem seria capaz. E que cara de otário!

Tão logo ela se apoiou, reluziu. Campos e prados, elevação bucólica, habitantes de montanhas e pântanos, bandos de pombos escurecendo céus incendiados. Sob a árvore o potro relincha. Luzes firmes redondas na pedra. Divisa encrespada. Sem que nada pedisse, o atendente a serviu. Ela ali de novo, o futuro era agora e quem sabe até quando. De perfil. Bien. Olhos distraídos, de solstício. Solamente una diversión. Lagos. Entretenimiento, no más. Planetas azuis. Chegará o tempo em que se concretizará o insensato sonho e a cama será tudo. Corpos nus são sinceros. Tudo o que se encontra passa pela perda. Um dia ela irá telefonar. De toalha, falará do futuro com língua precisa. De tarde dormirá. Não há surpresa quando na portaria do hotel comunicar que, bien, fui convidada. Ah. Tudo bem. Esse filme é reprise. Mas diga. A realidade se anima no cenário fugaz do agora.

Ela percebe a saia presa sem pressa, lentamente. Faceirice e postura. Entre a percepção de que estava exposta e a supressão da tortura esteve Andrei em vertigem de nylon, renda e poros em meio ao rumor do bar onde mais e mais se intrometia a cidade lá fora – motores e vozes, uma gaita e a onda de despertares simultâneos, martelos e serras, enquanto na coxa se alojou o sol por um segundo.

Devolveu-lhe o seu rosto. Nuvem escura sobre o lado esquerdo da testa. Chovia ao longo até os ombros onde o secador se demorou um pouco mais. A umidade persiste na cabeleira restante, persevera à luz do bar em pontinhos prateados. Olhar de beleza estranha e cor indefinida: fosse uma frase não soaria

como um convite mas assim ele entendeu pela via do desejo. Cruzou-se com o dele e teria sido tudo se ele não discernisse um novo prazer na música que tocava a partir das pernas, quadris, nádegas e do colo desnudado pela camiseta justa. Arfam os seios e conquistam primazia. Narinas respondem à respiração que pede repouso, evocam conhecida tempestade cujos preâmbulos são como donativos para uma causa justa. Sair do abrigo. Molhar-se descendo a montanha. Estiveram juntos por uma fração de segundo e o cheiro de leite morno ainda era como outros cheiros. Ela de pé junto à janela, a silhueta desenhada pela luz etérea de um dia inexistente. Perdoname! – ele exclamou ao chutar a perna da mesa derramando o café de duas xícaras. Não entende a ira que ouve e não vê. O que vê: Olha pra mim... Virou-se e se olhou no espelho atrás da estante de bebidas. Luzes por todos os lados e duas estranhas. A menina dos olhos dela acena e sorri, convida. Sim, convida. A menina dos olhos de Andrei aceita. Lycka till. Mas isso é nada porque as montanhas estão próximas do mar e o verde das árvores é sombrio à noite nesse breve estágio que é tudo. Queria me molhar na tempestade, na tempestade e no lago, habitar o hálito da boca entreaberta, e apresso o final do texto. Em junho, há vinte anos, a imaginação acaba. Canceladas as promessas, Cohn-Bendit se inscreve na História que não mudou.

Então aconteceu. Hora do almoço. O desejo de um homem que começava a falhar e não podia, não agora. Ele é o brasileiro destruidor de pontes. Agora. Se as águas são cristalinas e há o contorno escuro da pedra submersa, pode mergulhar e não pensará mais no caminho. Olhou em volta. No balcão, no lugar que ela ocupava,

eis o gordo sorridente de voz rouca. Às vezes a mulher precisa tomar a iniciativa. Sua amiga surge exuberante. Eu tomei, responde, mas só para ser protegida. Procura com olhos ansiosos. Nada. Levantar-se-á pois e rodeará a cidade. Do bolso, as moedas. Um erro de cálculo. O proprietário faz uma piada racista relacionando pesetas e cruzados. Andrei joga mais duas moedas no balcão e sai. Pelas ruas e pelas praças, as marquises e postes não fazem sombra. Dois homens engravatados. É uma decisão tão óbvia – apesar disso o mais alto não a percebe. O mais baixo conclui: Os empreendedores precisam de criatividade e coragem. Ele busca pelas ruas molhadas. Nada. Procura então um banco de praça para recostar a cabeça. Cães sem rastro se deitavam em qualquer lugar. Era ainda muito de manhã. Tons de névoa envolviam a cidade de espectros impenitentes. O percurso que falta é memória. A paz anônima. A intimidade retira a onisciência e reduz a sintaxe. Se a poesia é missão ou vida, o que apenas tem utilidade será nada mais que utilitário. Não questionará nem duvidará da estranha dádiva. Estar que se desfaz no ser emudecido. A paz que falta é solitária. Deu a volta no sentido da pensão embora a soubesse tão abrigo quanto qualquer daqueles bancos gotejados. Ainda distante da paz porém longe também da acalentada navalha talvez estivesse chegando no dia temido e desejado em que subindo o rio haveria de ficar face a face com o outro de si e daria de cara com um óbvio surpreendente. Não sabe se desfalecerá então diante do desespero ou renascerá no libertário descanso da última angústia.

O coração dispara. Ela senta a seu lado no metrô. Um pouco antes os olhares se haviam cruzado por sobre a aglomeração na estação Tirso de Molina. Êxtase de reencontro. Fogo que aquece apenas se constantemente animado. Vai ficar nisso. Ele olhei ainda. Nada mais que isso. O teórico serve de freio. Mas as coisas progrediam e contente ele perdia o controle. O rapaz de barba porque não tinha tempo de fazer todos os dias tentava não perder na multidão a filha da manhã caída do céu. Quem a conhece se maravilha. Logo ele. Onde agora a presença do Deus encarnado num pôr-do-sol e na alegria da chuva, nos reflexos do lago? Deus num tratado em forma humana santificando o desejo e revelando a definitiva face de suas olheiras. Segurando o vestidinho contra o peito. O artigo aberto em meu colo sobre um jornal que estava no assento. Na primeira página a morte do usuário numa execução no dia anterior. Senhores passageiros. Com telefones móveis os alheando do vagão e levando a um amor ou aventura ou à casa de que fazemo-nos extensão. Ainda são minoria mas tudo leva a crer que logo todos terão um. Onde a barulhenta revolução falhou, triunfa sutil o verme tecnológico. Onde os coquetéis molotov ontem, hoje a bárbara violência e a bárbara manipulação da violência. Extra, Extra! As conversas se entrecruzam levando o homicídio para lá e para cá. A esse respeito e sobre todas as coisas, teremos uma firme opinião formada. Debateremos. Debateremos? Pela ordem. Liberdade demais perde a liberdade e onde não há liberdade tudo se torna liberdade. O trem rangeu com um soco que inclinou os passageiros. O braço dela pressionou o de Andrei com deliciosos resultados. A taquicardia se prolonga e desamparado ele percebe que ela lê o texto sem cerimônia com os olhos que lavavam seu cansaço. Com rasgo de extroversão só possível a um

tímido, ele pergunta. Ela gostava de ler? Ajeita-se ainda calada para levantar –

¡Qué idiota! – e então responde.
Poesia é experiência limítrofe entre linguagem e conhecimento. A prática individual das gerações e a vivência coletiva indivíduos. Ahn? O calor de sua voz parou o trem. A voz do vagão canta o nome da estação. As portas se abrem. Também vai descer aqui? Ele apenas a seguiu. Que caminho? Janelas ainda iluminadas, a luz tem um quê de terra e de lar. Ao lado dele, um pouco mais à frente. As paredes pichadas, o casario cinzento. A cidade nervosa desapareceu. Ela precisa entregar um trabalho (uma pesquisa) na biblioteca. Andrei pensa ter visto realmente uma biblioteca na madrugada. Ruas secundárias ludibriam a onipresença do metrô madrileno. Madrid exala uma agitação indescritível enquanto caminhavam porém ele não acredita que ela o sinta. Tudo aquilo aparentemente era um hábito cristalizado, fazia parte de uma vida irrevogável que ela adotara ou a adotara. Seja como for é momento especial uma bela mulher de belo corpo passar em meio à multidão. Os homens virando o pescoço em torno dela. Se ele não está enganado um ou outro se aproveitara do vagão nem assim tão cheio para assediá-la embora seus olhos não denotassem qualquer desagrado. Fazia parte da vida que subitamente ele tomou pelo braço. Isso sim pareceu surpreendê-la. Só por alguns segundos. Poderiam almoçar juntos, que tal? Haviam descido na Gran Via. Quanta gente. Puerta de Alcalá. Agora Menéndez Pelayo, acho, pensa Andrei. Chegaram. Calle 12 del octubre. A casa dela? Não respondeu. Disse apenas que precisava mudar de roupa. E você, descansar um pouco. Ele sugeriu que ela também. Está feito. Uma fumaça calma envolve a atmosfera arredondada. Descansarei de tarde, ela diz. Enquanto falava, girou a chave. Uma sala agradável, outra presença dela

fora dela. Cheiro de apartamento, o cheiro dela. Aqui é lugar de renascimento. Nada de recuos. Foi arrebatado através de uma pintura antiga – aquele interior revelado a seu presente absoluto. Ao lado da poltrona, contando histórias obscuras, uma pilha de jornais velhos – Portugal e Espanha integrados na CEE deverão – A menina está desaparecida desde – Passos sedutores em torno dele. Prazer. O meu é Oleana. Ela nascera em Linkoping. Apenas nascera. Foi criada em Madrid. Soltos os cabelos como boas novas se espalham. Seu pai é representante de uma grande empresa espanhola em Londres, passou lá a maioria de suas férias escolares. A outra parte na Suécia. Oleana continua contando. Seus pais um dia foram de vez, ela ficou. Tem decerto alguma coisa de inglesa. Olha sem ver a janela e boa parte daquele bairro e um pouco de céu. Ele podia sentir o cheiro de seu xampu. A pele tratada. Especiarias no hálito. O ar se renova e Madrid é outra. O mundo recriado. Mas se Oleana tornara partícipe das revelações da manhã de Andrei, não do sentimento, e longe estava de qualquer empatia. Saudosos os dois de antigos amores mas desejosos um do outro, cada qual do seu jeito, ela visivelmente se exibia e isso para ele era um elogio e agora pensava como sua vida poderia ter sido melhor aproveitada, de modo mais normal, em meio a mulheres urbanas e independentes, freqüentando a casa delas na condição de amante. Esqueceu da convicção de que “normal” é algo que não existe, exceto talvez no sentido de “comum”, o que definitivamente fugia de qualquer faceta de suas convicções; mascando um chiclete encostada displicente no umbral, Oleana encarou-o como se esperasse ser surpreendida mas ele sorriu o mesmo sorriso tímido que já a aborrecia e ela, como que

vencida, inclinou-se no espaldar da poltrona de cabeça para baixo, erguendo-se logo para que a bola crescesse e estourasse na celebração de sua desistência de esperar que ele tivesse uma atitude de homem, além de olhar-lhe quase obcecado as mãos e os pés (unhas vermelhas, sandálias e pulseira azuis). Tudo se une a fim de formar um novo reino. A Suécia sempre me fascinou, diz ele, a idéia do bem-estar social. Um suspiro. Lá – disse ela, condescendente com a necessidade dele de falar alguma coisa –, lá é um lugar onde come-se bem, mora-se bem, há segurança social, não há miséria. Mas quando a miséria aparece – numa tragédia familiar, num viciado terminal – não se sabe lidar com a tragédia. Mesmo as pequenas misérias cotidianas ou a vaga e imensa dor universal. É a terra de Bergman, onde se joga xadrez com a morte e sabe-se quem vencerá. O tédio antes da morte. Ela deixou amigas lá mas não partilha o motivo delas que usam a Espanha apenas para aventura de férias. Fiquei pelo desejo de contraste, garantiu. Sintome realmente espanhola; penso como uma espanhola. Ficou. Culto à aventura sim mas também à paixão. Circunscreveu o sexo à sua experiência sexual. Curvas confidenciais inquietas. Exércitos perfilados. Ah meu Deus. Cabelos de navalha em largas mechas libertas respondem aos movimentos. Pelo calor humano, por isso estava ali. Pela solidariedade, enfatizou. Pelos valores que o conforto sufoca, na península escandinava ou no Reino Unido. Sua voz cintila. Não há homem ao longo do rio Tamisa que sequer pareça com Andrei. O sol da meia noite jamais iluminará alguém como ele.

Em certo momento de nossa vinda de Luanda, quando da estada em Paris e Roma, Não tem jeito, eu digo, não podemos mais viver assim. E como os

olhos de Nastácia estão distantes, concluo que não dá mesmo, mas não sei que atitude tomar. Tem esses escritos inéditos todos mas nenhum dinheiro no bolso e portanto estou preso. Uma brasileira com quem flertei uns dias na ausência de Nastácia uma vez foi ao quarto e, olhando originais bagunçados pelo chão, apontando-os disse que ali havia uma fortuna, Continue escrevendo meu querido, um dia alguém te descobre. E eu não sabia se zombava e descobrir no caso significava que alguém iria puxar o lençol de meu corpo no velório. Ora, Andrei Morgado, que ninguém espera encontrar nas estantes de bibliotecas ou livrarias, ele acaba de chegar como um rei incógnito na pensão do Bairro Alto, salve, salve! – onde datilografará mais algumas páginas para a posteridade, o que naturalmente em nada muda nada, por devotada que sua obra seja e influente sua mecenas. Eis a vida miserável de um milionário dos manuscritos e páginas datilografadas, confeccionadas ali, no ponto além de mim que os olhos distantes de Nastácia vêem enquanto insisto que não dá etc. Ok, concorda ela dizendo porém que me ama e eu pergunto Ainda assim conseguiremos? e Sim, ela diz, conseguiremos. Bom então está certo. E continuamos assim pelos hotéis caros, por seus amantes a cada cidade, ela gasta tanto em cada uma delas, penso que com o que gasta eu podia comer uma semana se estivesse sozinho. Aí um dia ela diz que está indo embora por um tempo e sorri para mim e por mais que mostre ânimo e coragem e alegria noto que está cansada dessa vida. Uma vez em que eu desabafara medos e desejos ela sussurrou Ah se a gente não estivesse num vagão cheio!, o que me deixou excitado. Mas mulher é assim. Diz hoje e amanhã desdiz. Não sou assim, escreve o que digo e escreve que há uma fortuna aqui em

papéis bagunçados. – Há uma fortuna aqui em papéis bagunçados – Pode até ser mas em geral não é assim, dizem por dizer, dizem e esquecem, não valeu, sabe-se lá. Imagine que o rapaz (vamos ter a delicadeza de chamá-lo assim) já entrou na faixa dos "enta", não dá mais pra simplesmente deixar o tempo passando, por isso eu perguntava a todo mundo se conhecia um editor, um agente literário, um dono de gráfica, a amante do dono, peloamordedeus, porque as casas, as ruas, tudo está passando depressa demais demais demais – o casal à frente também vai saltar – demais. O amor é lindo, diz Nastácia, quando se pode dizer “Eu te amo” em qualquer lugar, bem alto. Demais. Ela me perguntou ainda, ao se despedir, abrindo a bolsinha, se eu tinha algum dinheiro. Eu? Foi quando um cretino galante, Gostosa!, disse ele, mas acabei rindo já que não dava mais pra ter qualquer reação, pois ela, já com a bolsa aberta, me contava o caso, acontecido naquela estação. E eu disse que sim, que tinha dinheiro, e tinha mesmo, a continha, moedas sobre notas, para a tal semana de refeições. Amanhã, dizem, é outro dia. Vou acreditar.

Refletido em seus olhos ele a vê. Oleana. O novo rosto da mulher amada. Decidiu ficar. Está sozinha. Seus pais foram para a Inglaterra e mantém residência na Suécia. Chega na praia. A seu redor homens enlouquecidos. Um biquíni sumário a partir das marcas na sua roupa. Ele esboçou um sorriso que ela devolveu como se lesse os pensamentos dele. Não é bom que a gente se prenda

a lugares, ele diz. Ou a pessoas, ela completa. Mas não era justamente a filosofia de suas amigas com que você discorda? Se o que te preocupa é o futuro de nosso relacionamento – responde – não acredita no poeta brasileiro? O amor é infinito enquanto dura. Desconversei. Quem ali falara em amor? Ela diz: Olhe o apartamento, se parece comigo? Não, não se parecia, na verdade era o oposto dela. Ela diz: Pois bem, se quando o montei tivesse comprado coisas de que realmente gostasse, decorado de meu jeito, me apegaria, sofreria ao perde-lo. E o que nesta vida estamos seguros de não perder? Entendo. Ela diz que por isso deixou o apartamento do jeito que o encontrou. Oleana. Em que momento mesmo disse esse seu lindo nome?

Uma estante divide as salas. A de estar se divisa por entre um e outro livro pendente. A janela dá apenas para outras janelas. Uma pia embutida no armário da cozinha – no armário que é toda a cozinha. Quando junto à torneira onde se serviu, ele observou o sofá branco gasto em algumas costuras roto desfiando. Cabelos de Oleana. Que confiança! e gratuita! bebe água no copo em uso. Altiva e bela. Passos. Se aproxima e se afasta. Ela percebe que ele está miseravelmente excitado Pobrezito e ri nem tão discretamente. Que mala soy, eso es cobardia. Bela e estranha. Dá até um pouco de medo. Estará ele pronto? A sombra de sua mão se define contra o mármore ao pousar o copo. Ela o pega de novo e bebe até o final. Ao lado do sofá duas poltronas. No centro sobre a mesinha de mogno o telefone e um bloquinho de anotações. Ele pisa a nave viking contra o

sol. Luz quente no tapete. Uau! – ela exclama. Olhara o relógio. Desculpe. Distraíra-se na conversa e nem o convidara para sentar. Fique à vontade. Não demoraria. Abre a porta defronte da estante. Entra. O sofá está envolto num cheiro queixoso de eternidade. Letárgico, ele não se permite – ator que esquece a fala: o que dizer quando ela voltasse? qual o gesto adequado? Como se tudo não passasse mesmo de uma encenação.

Madrid, 1988; segunda quinzena de abril. Um apartamento próximo da estação do metrô. Um artigo para uma revista alternativa espanhola que sai em português em Lisboa e no Porto (pensam no mercado brasileiro também). Uma sueca de nome Oleana, criada na Espanha, no quarto de seu apartamento madrileno. Como que vinda de um sonho de haxixe, uma aparição, ela veio a Andrei no corpo sedutor em jeans, impregnando as palavras dum hálito aviventado de promessas. Aproximou-se. Os movimentos de ambos são igualmente cautelosos mas por diferentes razões que, de resto, determinam um limite para a cautela e são quase atrevidos na verdade. Ela está atrasada e ele imagina a casa dela como a sua casa por algum tempo a partir daquela manhã, ele, que não tinha onde ficar e estava praticamente sem dinheiro. Ela e o namorado brigaram, ela não pára de pensar nele. Mas esse rapaz está apaixonado, pensa, tocando-lhe o ombro, e ele é real. Estava mesmo na hora de testar seu espírito prático que ultimamente parecia esmaecido pelo amor. No sofá, Andrei fecha os olhos mas não é ela quem chega e sim um homem, um senhor de aparência honrada. Você se aventurou, ele diz num eco cerebral. Então por que não tem a mesma determinação e refaz a vida em Lisboa ou consegue o dinheiro da volta? Mas é isso mesmo, responde Andrei na lembrança. Ouvira dizer que ele era acessível e influente e que ajudava imigrantes

quanto a trabalho. Na memória pulsante a voz ainda ecoa: “É verdade. Mas só em ocasiões especiais, em casos especiais; que não é o seu”. Em meio aos cheiros e sons de Oleana, “Agora se me dá licença”, diz o homem, “tenho uma reunião”. Hoje Andrei diria “Dane-se! Vá para sua reunião, vá para o inferno” mas naquele momento a fome e o cansaço disseram outra coisa: “E quanto ao meio editorial? A publicação de um livro em baixa tiragem não seria viável?” Seria decerto um começo. Mas para ser um intermediário entre Andrei e os editores, antes de gostar dele como escritor, precisaria gostar como pessoa. – E não gosto. Passaria a gostar em circunstâncias especiais? Olhos arregalados. O olhar fala mais que palavras. Andrei abre seus olhos. Sacode a cabeça e expulsa o sono e o homem. Havia uma mulher do outro lado da parede. Ela o queria. Ou se não, era possível. Apesar de tudo, de andar pelas ruas e dormir nas praças e vez em quando pernoitar em espeluncas, tinha seu charme. Até já o acharam bonito. Então. Estalidos de pano. Um estado fluido segundo o efeito da imaginação rígida. Rígida aparição. Ele a abraço por entre os ruídos.

Quando Blandine voltava de Lisboa em outubro de 1988, Brasil e Europa estavam emaranhados em sua memória e a memória na sua respiração. Sente-se confortada pelo reflexo da tarde no Tejo. Os cafezais de Minas, as ruas de Ribeirão Preto, as praias do Rio de Janeiro, e todos os lugares gerados pelo amor – tudo seguirá a música adequada. Uma presença que a saudade renovou. As águas do Adriático, hábito jamais cristalizado. Levara o Atlântico e o estendera ali

no limite da Iugoslávia, à janela de casa. Volta e meia se conscientizava de que o mar nos sobreviverá. Era outono em Lisboa e portanto será sempre. Ainda quando chegar o inverno e depois, quando a expectativa do verão florescer na primavera. Porque agora – quando deixava Portugal – era outono, esse outono não se permitiria renovar numa outra estação. Traspassaria imune o tempo, com suas frutas e o aroma delas, e a criança que passa à janela no trem a ribombar ritmado pela avenida 24 de julho. E a anônima movimentação das pessoas que no cais ficariam para sempre.

Apertou os olhos. Por entre ruídos de roupa, sapatos, portas de armário, o pensamento errante voltou ao outro lado da parede. Terei, pensa, a mulher do outro lado e sentirei falta do que não tenho, do amor que passou e não voltará. Súbito ela sabe: a casa de uma mulher que mora sozinha não tem segredos para sua dona. Como o silvo do trem em que veio e o apito da fábrica, que tornará a ouvir ao conhecer Garlos, assim o sino da igreja que enche a hora acorda a cidade e ela vive, assim a realidade vivia, e ele – mesmo tão inverossímil como um sonho se torna enquanto se desperta – dela fazia parte. Caso quisesse ler alguma coisa para chamar o sono (ela levanta a voz acima dos demais sons, arrastando a primeira e a última sílaba da frase), decerto ele vira a quantidade de livros. Todos muito bons. Andrei relanceio os olhos à estante. Ela continua falando. Deixarei as chaves.

Perplexo, ele se levanta. Chega à porta aberta. Oleana de frente para o armário. Prendera na liga as meias de nylon que envolvem suas pernas até o meio das coxas. Luvas se movimentam entre os cabides. A luz do basculante do banheiro delineia a manhã e molha o trecho de pele nua. A presença dele não tem importância. Há aquela outra, na porta aberta do armário. Olha. Sabe o que se passa com ele, naturalmente. Deixará as chaves? Os sul-americanos não tem boa-fama na península (Sí,

son basura) Embaixo dela o assoalho reluz e multiplica-a. Virou-se. Ele desce pela
encosta lisa (Sulcos, rios). Pela prateadura a que era submetida. Súbito fulgor rosa-avermelhado, gérbera no inverno. Estende na cama a combinação de seda e coloca um par de sandálias altas junto à cadeira. Em segundos ele media as extensões trabalhadas anos a fio pelo ciclismo. A cama arrumada de ontem é decerto o motivo nos olhos sonolentos. Três almofadas descansam em cetim sobre a colcha de tecido mole e peludo, verde desbotado. O bordado denota divina paciência, responsável também por colinas e bosques. Ai. Obliqua a penteadeira. O banquinho forrado de veludo. Na cabeceira, um maço de cigarros, Le temps retrouvé e um exemplar da Times. Será capaz a humanidade de suportar o progresso e os homens sublimarem seu tempo de vida? No vértice das paredes, um vaso grande demais como utensílio e por demais feio como arte. As paredes: quadrados em quadrados, retângulos em retângulos, triângulos em quadrados, metempsicoses em metempsicoses, eternidades em eternidades, inscritos no papel creme e atravessando-o ao infinito. Ele a contempla agora em meio a tudo, Oleana, a existência de Oleana, diante da qual se reduziam à insignificância os móveis, os desenhos, a cortina, o

tapete, e o próprio Andrei (sudaca hijo de puta). Ela diz que não é daquela península. Não ligo a mínima para a fama das pessoas, enfatiza, ( verdes de

mierda) enquanto seus olhos se distraem com o espelho. Só por falar, para que
ao responder ela prolongasse a contemplação dele, perguntou se não era temerário, embora estivesse na sua cara, infelizmente, que ele completamente confiável. Quiçá, ela responde. Talvez seja. Talvez seja temerário. A vida é perigosa, diz. Mas não lidava com povos, lidava com pessoas. Não com a fama delas. Às vezes sul-americanos. (cabrones cerdos). Traduzi o ricto. Quase um sorriso, um quase sorriso de malícia. Se fosse perigoso deixar as chaves, seria perigoso ter trazido você. Todos os segundos em que ela desviava os olhos eu dirigia os meus. Quadris redondos em lúdica exposição. Torso suave. Membros libertos. Faz sentido, digo. Também ela dirige o olhar. (hijo de uma reputiísima madre) O inevitável depende agora de mim – o reencontro na hora do almoço. Tudo bem. Sim, para de tarde. Quem sabe para um outro dia. De novo. De frente para o armário. As mãos nervosas pareciam refletir acerca do homem em sua casa, conversavam com ela sobre o que é ser estrangeiro, o que é estar apaixonado, o que é desejar alguém em situação constrangedora, separando o bem e o mal de modo não muito claro, o que se refletia na face, de modo que ele estava certo, passando ao longo do cavanhaque os dedos que se encontraram no queixo, acreditando ter sido uma boa idéia ter comprado o aparelho ainda que não soubesse se e quando teria oportunidade de se barbear, não fazendo idéia das fantasias de Oleana com relação a se sentir agatanhada, estava certo de que ela era uma mulher cujo

porte nobre mais e mais rareava no mundo. Talvez ele mereça um chance, decidiu ela. Os homens costumavam surpreender na intimidade, para bem e para mal. E Andrei, acomodando-se melhor num momento menos tenso, apoiando a mão no umbral, percebeu que rapidamente estava se habituando ao quarto dela, o que serenou sua excitação. Um vestido de malha prateado. Atrás uma fenda atrevida. A gaveta range ao ser aberta. Agora, enquanto deixa transparecer num relance alguma ternura –

Oleana, deja en paz a lo chico – que ele ainda não percebera (porque não
procurara, imaginava), traz à tona a lingerie. – O no. Deixa-a cair sobre o vestido. Abre um pequeno sorriso. Tremeluzires de oceano num dia de sol. Um oceano subitamente escurecido por cremoso bloco de nuvens. Surgirá a noite transparente. Quando ela se curva para as sandálias, pedestal negro, ele cresce com a manhã espanhola. O sul do tamanho da manhã. Sol no sentido do dia pleno. Retine uma medalhinha num cordão de ouro. Prados longínquos e trotes distantes. Um detalhe em seu braço, uma sombra de volume, de força. Também juventude. O prazer de Andrei era mais intenso assim e ele só se converteu de todo a seu desejo quando as duas alças da lingerie se compuseram, ocultando-a. Não dera ainda o suficiente de si para o usufruto de sua nudez. Merecer excitava tanto quanto a perspectiva de ter. Algo meio doentio e patético, naturalmente. Intuiu enigmas na ausência iminente de Oleana. O oceano agora desce junto à luz de seu dia. Dissipação de um grito, um grito noturno. Ela senta e prende a meia na liga, coloca uma das sandálias para que ele entenda e brote. Levanta-se, mais alta, equilíbrio sutil de um colibri. Apanha a outra sandália, delineada pela lâmpada. Segura-a por trás apoiando o bico na beira da cama. Abriga os dedos graciosos forçando os músculos da panturrilha. O pé amolda-se

ao calçado. O vestido sobe e acompanha a coxa lenta, um rochedo. Um pouco acima e ao lado do ponto de tangência, um ossinho saliente na marca, alinhado com o culote. De repente, cédula de moeda nova que tem o mesmo valor apesar do diferente layout, outro prazer subiu pelos nervos de Andrei com a convicção de que a profecia será cumprida, como se sua reação tímida tivesse valorizado e renovado o gosto das oferendas. Ela apoiou o antebraço direito no alto horizontal da coxa cuja arquitetura animava arrepios e pêlos no jogo de luz e sombra. Escurecem as divindades do céu cristalino e refulgem a terra e os círculos. O indicador e o polegar forçam o elástico em pressão discreta como o tecido que o envolvia. A peça esticada se detém ligeira e se acomoda. O vestido a cobriu. Estava pronta. O mundo a teria assim. E, quando voltasse para o almoço, ele a teria conforme os enigmas fossem decifrados. Ele a teria. Entretanto permanecia uma advertência vaga como uma coisa viva na obscuridade do quarto. Num futuro bem próximo será necessário sair da pintura. A decoração da casa de Oleana será a decoração da casa de Oleana. Não haverá eternidades nas paredes. Ela será o que é e ele igualmente – retornará a manhã conhecida. O livro que agora tem nas mãos será o mesmo velho livro contando as mesmas velhas histórias. De resto, quando a viu novamente vestida – última aparição de uma Oleana a quem poderia ainda imaginar recatada – quis forças de memória para guardá-la assim como são guardados os autógrafos de artistas no ostracismo – assinaturas que independente deles serão sempre especiais para quem as conseguiu.

Numa noite fria de maio, o homem passou várias vezes diante da porta da casa sem coragem para entrar. Solidarizando-se com a mulher, os vizinhos estão lá dentro, substituem-na nos afazeres domésticos. Um médico havia sido chamado. Ela recuperava-se de complicações do parto. A menina, saudável, dormia a seu lado. O Sr. Jean por fim havia entrado. Sussurrou o nome da mulher. O medico deixou-os a sós. Donda, Donda... Com a voz de leite, ela disse o nome dele. Sabia que iria voltar. Você está com uma aparência ótima, querida. Ele falava a sério, depois de tudo por que passara, estava mesmo muito bem. Ah então ele já sabe o que eu passei. Donda Maria sorriu ao pensar na gente da vila. E ele, como estava? Agora bem, disse o Sr. Jean, apertando a mão dela. Posso ficar? A casa é sua, você mesmo a construiu. Não para si mesmo. Fique. Ela era tão bonita. Claro que não sou. E a menina também, tão linda... Nossa filha... Assim, depois de ficar longe durante toda a gravidez da esposa, o pai voltava para casa. Dele a filha herdara o gosto pela aventura e pela incerteza, pela ausência de hábito. O horror da rotina.

Se o homem com a idade conseguira controlar esses impulsos, Blandine porém não tivera tempo ainda. Quando partia para o Rio, sua mãe chorando pede que ela não vá. Por favor, filhinha. Perdão, minha mãe, tenho de ir. A vida sem um lar é muito difícil, filha. Num lar, mãe, a gente tem coisas demais. Coisas boas, disse a mãe. Talvez, respondeu Blandine. Mas ainda assim coisas demais. Agarram-se à gente. E a gente se apega e não quer perder nada. E quem tem coisas está sempre perdendo coisas. Perante Octavio chamando-a de puta e a expulsando, ela, agora mãe também, nada mais terá a perder.

Oleana raramente faz refeições em casa. Mas está ali a geladeira, deve ter alguma coisa caso sinta fome durante a ausência dela. Abriu uma portinhola na cozinha singular. A chave do gás. Sorriu. Tudo bem. Então estava indo. Não sabem na verdade o que ela quer dele. O que ele tem a oferecer? Então renasceu aquela estranha solidão e a bizarra timidez originadas não na pessoa mas na condição financeira. É querer agir e se reprimir porque – e depois? Ele deveria ter entendido que um nome começa a existir a partir de fatores muito além disso, até porque nada poderia fazer a respeito e, se pudesse, acabaria como todos que justamente dependem do ter para ocultar que não são nada. Escolhas de vida. Nem sempre as fazemos nós, mas às vezes o destino se impõe e não raro se mostra mais sábio que o livre arbítrio humano. É isso, disse baixinho quando o trinco da porta prenunciou sua abertura, e, para alguém tão insensível como ela mesma se julgava, Oleana teve uma sensação estranha de

comedimento e de misericórdia quando pisou o hall do elevador enquanto a porta se abria e os vizinhos do andar de cima se perguntavam quem era aquele rapaz, a sueca não tinha um namorado? será que haviam terminado? e ainda assim era uma moça honrada, não traria um homem para casa. Também para sua própria surpresa, Andrei mal percebeu o casal que o encarava nada amistosamente, concentrado em respirar fundo para se manter calmo e não dizer alguma palavra desastrosa de despedida, porque a bem dizer esquecera de tudo por conta do virtual reencontro com Oleana, exceto a aridez da calça grossa impedindo um bem-estar maior a partir das pernas havia pouco exaustas e agora energizadas pelo acaso. Oleana abriu a bolsa onde recolocou o chaveiro de onde retirara as cópias que entregou a Andrei e apertou novamente o botão do elevador. Lembrou-se numa fração de segundo que estava devendo uma visita ao casal, já que a iminência do desemprego acenava com a perspectiva da influência do marido caso ela ficasse mesmo sozinha e viesse a precisar (quando estiveram em sua casa assim que mudou, a visita transcorreu da melhor forma ainda que o homem tivesse se mostrado refratário a seus encantos e olhares, ou por isso mesmo). Sorriu uma vez para Andrei e fechou a porta atrás de si. Ele ouviu seus passos lá fora, o pulsar do coração daquele apartamento. Foi até a estante. O primeiro livro em que bateu os olhos foi uma velha bíblia azul

antiqua version Casiodoro de Reina traduzida na Espanha e publicada na Geórgia,
Estados Unidos, marcada num trecho dos salmos. Apertou os olhos e nascendo nítida dessas falsas lágrimas a industriosa cidade se derramou nas douradas letras da lombada, porque ali o olhar fixamente se perdeu e todas as coisas voltaram, passeando nos caracteres brilhantes, dando a impressão que tornavam a acontecer.

Ele vivia entre Rio de Janeiro e o Vale do Paraíba. Passava os finais de semana redigindo matérias para um hebdomadário fluminense e de segunda a sexta trabalhava num jornal de São José dos Campos. Nesses dias Blandine chega de Minas para passar um tempo no Rio, mais amorosa e querida do que nunca. Ele está realizado. Tem uma situação financeira estável e uma vida afetiva feliz. Ama Blandine, ainda a ama. Sou grato, pensava, por ter ela encontrado o homem em mim. Era mais ou menos o tipo de coisa que ela passara a pensar. “Sou mulher; me sinto mulher; devo isso a ele”. Ele é grato pelo indicador acariciando sua nuca. Inquieto segue. Ela ainda gostava de redesenhar os lábios dele. Andrei ama seu trabalho. Ser a voz impressa que informa a cidade e por que não fazer isso de modo poético apesar os manuais de redação? Correspondendo-se nas coisas que diz com certa beleza, com certa inutilidade, plástica delícia de almas que se reconhecem – ela ouve e não diz nada, diz depois: ele não deveria se preocupar com isso, se vão reconhecer sua literatura. O avanço tecnológico haveria de dispensar o mercado, editores, agentes, divulgação, publicidade – bem, quanto à publicidade, a continuar assim, o produto seremos nós. Ele não entende o que ela quer dizer. “Você escreveria apenas para ser admirado, e pior, depois de morto?” Ele não a ouve; o que uma menina da roça vai entender dessas coisas? Com essa Blandine do Rio, lembra, não saberei de súbito o que há conosco. Não sabe lidar com a falta da singeleza da moça dos cafezais. Perdeu-se o encanto. Ela decide aceitar o convite do italiano. A perfeição de Piumhi soa como réquiem. A vida depois disso seguirá automática como o jeito dessas moças que em lugar público fazem coques, rabos, tranças e sabe-se lá que mais dos cabelos soltos assim que se aquietam num banco de praça, na cadeira de uma biblioteca,

numa sala de espera – a vida seguirá, banal, o que sublima ele com a poesia e com Deus.

Abre o livro entre três e dois dedos. Precisa achar uma tesourinha ou um cortador de unhas. A vida é quase sempre perversa e só vivemos em plenitude de alegria e justiça – conforme garantiam aqueles jovens nas imediações de Atocha – quando a gente se converte. Mas na verdade não há salvação. Só muito dízimo e cérebro lavado no batismo, pastores milionários. Pequenas igrejas, grandes negócios. “A gente não pode generalizar” – Blandine dizia. Mas de há muito ele não dá importância ao que ela fala. O que há é mesmo muita ostentação de paz nas melhores casas do ramo; discos e livros e shows gospel que num mundo paralelo se movem na direção do céu por uma estrada arcaica. A encenação que se acredita. Até quando consultará com sua alma, tendo tristeza em seu coração cada dia? Esse salmo foi um marco naquela época. Andrei era membro de uma comunidade cristã em Niterói, cantava, batia palmas, o vestuário das irmãs não lhe permitia ter alívio. Anéis nos dedos líderes de bem feitas unhas esmaltadas tripudiam. Não se trata de religião, meu irmão. Ele sabia. Generosidade, é disso que deveria se tratar. Gentileza, bondade, tolerância. O perfume de Oleana. Não se apegar às pessoas. Viver por causa delas. Depois da experiência com os evangélicos, na verdade ele nasceu de novo. Saiu de um ventre constrangedoramente paradisíaco para a luz do mundo real. Uma outra consciência. Talvez pela abstinência dos alteradores dela. Acaricia a lombada de couro. Apesar de tudo há o sagrado. Ele acredita sim que há alguém próximo a suas paredes blasfemas, o interlocutor desejado. Escuta sua voz. Ele

sempre responde. Com argumentos mais ou menos aceitáveis, nunca totalmente claros; mas responde. Andrei tenta entender. Pode-se dizer que toda sua vida tenha sido a busca de um pouco dessa clareza. Da busca, a poesia; da inviabilidade de viver de poesia, o jornalismo. Nas redações, depois das tensões entre revisão e digitadores, entre digitadores e past-up, tudo estoura na olheria, a revisão da página montada, sua ultima função antes da viagem. É de manhã e ao sair para o trabalho diz a Blandine que poderiam jantar juntos. Ela responde com um sorriso. Marcam. No restaurante, ela conta sobre o convite do italiano. Ele não sabe o que sentir ou dizer. Ela diz que era uma oportunidade única. Que sempre quis conhecer a Europa. Voltará em um mês. Passa rápido. Ele não responde. Fecha a cara. Ela faz um carinho em seu rosto. Deixa de ser bobo. Os dedos dela estão frios e atenuam um súbito horror. Mãos frias, burocráticas. E o amor desde então passa a se resumir nesse episódio que ele repete e repete para si mesmo. Ela dizendo “Tenho uma coisa para te contar”. Ele não tem nada para dizer a respeito. Se abriga no silêncio. Nos finais de semana que se seguem, menos. Passa-os na casa de Donda Maria. Um mês passa rápido e de fato. E dois. Três. Aí chegam as cartas. Ela vai se casar com o italiano, é claro. Diz que pensou muito depois da atitude de Andrei ao não levá-la ao aeroporto, não querer se despedir, que isso significava alguma coisa, que não havia nada mais entre eles. “Não há mais esperança para nós”. É possível. Ele está sentado perto da janela. Kleber vê o futebol pela TV. Ele passa os olhos vezes sem conta pela carta mesmo depois de não mais ler, quando pensa em como naquele tempo de unificação da Europa dos doze, ao serem incluídos Espanha e Portugal, quem quer que num desses países esteja em toda a

Europa estará. Na facilidade de ir de Luanda para Lisboa e talvez do Brasil para Angola. Segunda à noite na redação ainda pensa nisso. Olha os ombros da menina na prancheta à frente mas é em Angola que pensa, em Luanda, em embondeiros à beira-mar, no rio Cuanza, no valor da moeda na Europa, em encontro de Países de Língua Portuguesa. A situação política piorou. Dá-se um jeito. A questão é mesmo a grana. Ele pode vender os móveis, fazer acordo no DP . Tem o apartamento. Acho que deve dar, pensa. Quem vai atender? O editor está ligando de casa, pergunta se a página três foi fechada. Andrei diz que sim. As vaidades ficaram nos textos. Enquanto ele luta com elas, o pessoal já foi esquecer as diferenças no bar da esquina. Ele poderia encontrá-los quando terminasse. Não vai. A colega das costas e ombros insiste, diz que ele estava precisando espairecer. Quem sabe vá. Não vai. Talvez não queira desperdiçar o tempo; talvez seja só timidez. Quando fala, a moça abre uns lábios muito vermelhos, faz gestos largos que os seios acompanham. Ele diz que nunca foi muito social. Não que não goste de convívio, pelo contrário. Enquanto escuta ela meneia a cabeça num sinal de entender mas não poderia pois ele não combina no espírito o raciocínio com a fala, antes pensa que o respeito com que o tratam na redação é proporcional ao desprezo que lhe nutrem fora dela. Ela não insiste mais. Sai balançando os quadris, ele a despe devagar, beija-a toda e a possui. A porta bate e ele retoma o trabalho. Já não será um exílio? A idéia da viagem está mais nítida cada vez. Nos espaços das fotos nas páginas sobre a prancheta, ele vê Luanda, a estranha Luanda. Dissipa-se de súbito e vão aparecendo os colegas. Dos bares saem para motéis – espaços na vitrine da noite logo manhã em casas comuns, pessoas

normais, estabelecidas, dessas que vão a shopping em véspera de Natal. Ele não é normal. Não gosta de bar, detesta shopping. Natal é triste farsa, comércio, glutonaria, trevas – Você é muito radical – Blandine oferecia contraponto o tempo todo mas com Oleana ele aprenderá polifonia (you know art of polyphonic music

is art of think twice ou algo assim think again is think better acho que é isso) –
parte sueco, parte inglês, parte espanhol, parte caos – Eia desçamos! Mas ele ainda não entendia assim, não até ali. Blandine ficou demais do contra. Defeitinho chato. Apaga as luzes ao sair da sala do “Past-up”. Contraluz supõe duas luzes quer dizer duas direções – pensará um dia em outra luz, em alguma coisa luminosa além da luz – um dia – mas agora apenas pensa que quisera ser luz mas não dum modo banal como a própria expressão “ser luz”, batida nas igrejas evangélicas, ou como a facilidade com que se diz “Eu te amo”. Segue a silhueta pelo corredor. Faltam uns minutinhos para a meia-noite. Quisera ser luz. Vazando no bolso a tinta da caneta – Quisera não se prostituir por duas refeições diárias que logo serão três ou quatro e, satisfeito o estômago, chegam protestos de mais abaixo – nos cafezais havia um caminho que subia e levava a um ponto onde o entardecer era a paisagem em chamas e a noite era fresca mesmo após dias muito quentes. Era como ter chegado. Na volta para a fazenda ao longo da trilha, as luzes da casa ao longe; nada da velha ansiedade do dia seguinte – Quisera – o desejo lícito logo é concupiscência, promiscuidade e, resolvidos os problemas do ventre, vem a carência emocional – e a moça, Íris ou Isis, enfim, suas costas cintilavam à luz fluorescente, ombros cheios, penugem ralinha na nuca, e quando se virou mostrou uma aparência fidedigna, poderia vir a ser uma amiga (nada que afastasse os planos de viagem) – porque logo o que está satisfeito busca a insatisfação, o afeto quer a poesia

para se expressar e a poesia o tratará com desdém – ambiciona agora o reconhecimento, a vaidade – Emoções tragadas, a porta aberta de uma casa importa menos do que vinte anos de papel; que uma estranha que dardeja, falsa, na imaginação. Uma mulher do outro lado da parede – reconhecimento é falo e poder: afasta o Deus bucólico. Uma laude sobe desde a roça mas a cidade sufoca o cântico e o torna menos que profano. Torna-o banal. Saudade. Estrelas atrás dos prédios vizinhos ao jornal, luzes distantes, mais próximas do bar. Dos colegas. Do cheiro de fritura e álcool digerido, real, absurdamente real – e logo a busca de reconhecimento é a da riqueza. Um jardim iluminado, Meia-noite e nove. Rico, descansará ou no ócio estará apático demais para distinguir qualquer coisa além dele mesmo e perceber o outro ser humano nesse mendigo que dorme ao relento na Ribeirão tão fria; na prostituta que se oferece – Gatinho, quer diversão? – imagina... gato velho, isso sim. E no guarda-noturno – boa-noite, boa-noite, como vai o senhor? Não vê senão a si mesmo em seu caminho sem arte, sem amor, sem Deus, sem a sabedoria ante a dor que aprende nos livros pendentes. Que entende as janelas apesar do cheiro de xampu. Sabedoria. Não se deixa ninar. Ah, a solidão e o sofrimento, pensa ao entrar na pensão. A mulher do senhor Jean distraída com que não ouve seu “Boa-noite”? A bebida que embriaga e faz vomitar é a mesma que em dose moderada alegra e abre portas. Virtude é um vício latente. Debruçara-se à janela de Oleana ao som do sino que ouviu ao chegar. Entretanto, a madrugada em que Andrei pensava em Angola ao sair da redação traria, como costuma acontecer, trouxe fatos imprevistos que terminaram com a porta fechada por Oleana, que, ele agora chegava a imaginar, era uma atitude (deixa-lo descansar na casa dela)

antes maternal do que ligada à introdução inconseqüente de um caso. Acreditou nisso quando a olhou sorrindo para uma criança numa moldura na prateleira debaixo, trêmula pelo movimento da estante com a saída da Bíblia de entre os livros perfilados com um som leve e hesitante que lhe pareceu as ondas ôcas de um rádio sem sintonia precisa. A cidade adormece. Meia-noite e quarenta. Ouve na rádio que a obrigatoriedade do diploma – a juíza em entrevista comenta – será uma lei que pegará. E quanto aos não-diplomados? Acredita ela que haverá demissão em massa. Faremos agora um pequeno intervalo. De São Paulo, Viviane Lopez. São 59 minutos em Ribeirão Preto. Irá para Angola. Na manhã seguinte, a mulher olha o passaporte e faz umas poucas perguntas. Ele teria aliás poucas respostas. Era destemido! Trabalhar na África em guerra! E de repente em Luanda estará morto de medo. Um pesadelo. Nastácia... Mudam pessoas e lugares mas a loucura humana tem a vocação da permanência. Mas sim estavam indo para a Europa, vindos da África. Levanto meus olhos para o teto, aperto-os contra a luz da lâmpada. Os drogaditos e os ex-drogaditos pregam em Atocha quando chega em Madrid. No fundo os invejava. Pelos motivos certos ou não, pareciam livres das coisas da vida. Ou pareciam livres porque estavam fora da vida? Andrei balança a perna debaixo da mesa enquanto a mulher do consulado faz anotações. Passa a língua nos lábios. Os seios ignoram o decote, balançam e fogem. Oleana fica. Mais e mais nítida. Único pensamento que se repete. Os demais sobem, descem, adiantam-se, regridem, passam, não voltam, não, não mais – não voltarão. Oleana permanece. Permanece a hora do almoço. Oleana – não fosse ela, seria outra. O carma do homem.

“1983.

Notas pessoais. Personal data and information. Esse diário

pertence a Blandine Maria. Endereço comercial: Fazenda Jean Huster. Residência: Rua Modesto Caldeira n.59. Piumhi - 89390-000. Minas Gerais. Brasil. 5 de maio” Tá um frio danado e detesto frio, mas nem noto direito porque fiquei muito feliz por meu pai ter vindo. Não me conformo que ele e mamãe estejam separados. E nem tenho uma amiga para desabafar. Mas estou feliz por outra coisa. Ah quando eu vi ele no milho com o Kleber... Meu coração quase saiu pela boca. Vi de longe, assim que saí com a marmita das ruas de café. Kleber foi muito legal e fofo por renunciar ao papel de irmão mais velho. Foi talvez o indício definitivo de que aquele é o homem de minha vida, o meu amor. As brasas de uma fogueira não utilizada ardem ao sol.

Fecha a Bíblia. Há uma hora Oleana saíra. Seu cheiro persevera puro na sala, mais forte até. Sem ela por perto ele pode trazê-la à distancia que quiser, levá-la aonde quiser; fazê-la rainha ou escrava. Abre-se o precipício que seu desejo absorve. Futuro e passado são dois presentes fora de alcance. Ele ambiciona o que não tem e o que não mais possuirá. Seu coração se divide e ele não sabe mais onde fixar o coração. Madrid se espreguiça no quarto. A hora do almoço. A sesta depois. A cidade dormiria. Um e outro carro – os últimos por um tempo. À janela ele espera vida que leve o abismo. Mulheres. Longe da transcendência que fazem acreditar, nada que possa supor o infinito. E ele espera o infinito para almoçarem enquanto Nastácia foi a Nápoles, e agora está sozinho naquela espelunca empoeirada e escura em Lisboa, desempregado. Porque sou doente, pensa; porque o ímpeto de correr mundo pode ser patológico. Estava

feliz, realizado, trabalhando no campo, ganhando bem, a seu lado a mulher que amava – e por que exatamente a perdi? por que perdi tudo? Blandine na Itália. Resta escrever. Chega da sessão reservada de “Julia y Julia” impregnado de tédio em alta definição. No caderno espera Oleana apenas para perdê-la também. Tudo por causa da doença. Sua liberdade não é estar livre mas não estar em lugar algum. Escrever pode ser patológico, manifestação da covardia. Ele quis, falhou e agora reclama e julgo. Quem sabe a posteridade o resgate ou em definitivo o condene, ignorando-o. Colocou os olhos nas letras douradas da capa de couro. Estou realmente cansado. A face dura de um Cristo de lábios ressecados na poeira (um quadro de Oleana) o encara na quase tarde. Um silvo parece vir da nuvem. São talvez onze horas da manhã e sente com mais clareza que nunca a diferença entre estar dentro de uma casa ou no meio de pessoas ao sol numa manhã assim. Há sem duvida o fator acolhimento, guarida, que é não pouco para quem anda pelas ruas e passando noites sem ter um teto sobre a cabeça; mas não dá para simplesmente ignorar a vida que existe na privação, alguma coisa semelhante ao frio, e justamente sentia esse prazer de, nos dias frios da adolescência no sul do Brasil, sair de manga de camisa: gostava de sentir frio, era como se sentir vivo. Assim o apartamento o abrigava mas também era mortalha. Se tivesse dinheiro, estaria esperando Oleana num café, num restaurante, bem, talvez não, estava insone e podia agora entrar no banho para depois dormir e descansar. Então há mesmo vantagens em ver as ruas e as casas assim da janela enrolado em uma toalha. Do parapeito, por uma fresta entre dois prédios, vê caixas empilhadas e pivetes pedindo pão. O homem, um tal Hermano Tíbio, via naqueles garotos sua

própria vida antes da adoção e suportava dois sentimentos opostos, o alívio por ter escapado de semelhante sina e a tristeza de que sua libertação não fazia qualquer diferença na injustiça do mundo. Alguém escutava Hendrix, que se tornara o melhor exemplo de como o prazer da arte está sempre em luta com a vaidade, que opõe a simplicidade do gosto à ostentação de apreciar o que goza da fama de ser o melhor. Lá embaixo um homem interrompeu seu caminho para apanhar o embrulho que uma morena deixara cair. Inclina-se com a reverência da adoração. Sou eu, pensa Andrei. Mães exibiam suas crianças saudáveis após se desviarem dos moleques. Sim, Clara Heureux, requebrando, dividindo a atenção entre a criança e o jovem que passava, agarrando-se ao pequeno Sólo Pelayo como quem, se afogando, agarra uma tábua no mar, correu para atravessar a rua na altura da sala Montesol que apareceu com todos os fantasmas de suas idas ao cinema com rapazes na adolescência. Em algum lugar um índio morre de doença branca; em algum lugar um palhaço chora por uma bailarina; em algum lugar alguém sozinho e insone não tem para onde ir e quando deita sobre a colcha verde o vento sussurra o nome de Blandine.

Não dá para saber que teve a iniciativa do beijo. Ele a solta. Me perdoe, Blandine, por favor. Os pés de milho e os de café ensombram apenas a si mesmos. Ela tenta evitar o olhar. Tudo bem, diz. Quando os lábios se reencontram sem perspectiva ou lembrança no auge da luz e do calor, era como se o dia houvesse se imobilizado sem sons no cheiro do mato recém carpido, e então unem-se os dois mundos, a camponesa e o jornalista, empertigados, nem tanto, mãos sob as blusas úmidas, dedos nos cabelos, olhos fechados, pontos de luz,

abertura, dedos se lhe crispam nas têmporas.

As paredes do quarto o afligem. Ecoam lamentos eternos. Batem os pensamentos. Rebatem. Corpo pesado. O espelho não mente, não mente a tontura. Quase desaba no sofá. Quis sair, andar pelas ruas, voltar a Lisboa, ir para longe dali, bem longe do agora. Não adiantaria. Não sairia de si mesmo, do espírito que se apossara da ausência de sua legitimidade como pessoa, como escritor, como o amor de alguém. A caderneta no bolso do blazer. Como não achasse a caneta, ao ver um lápis sobre a estante, foi naquela direção. A janela. Sobe a alma da cidade e do movimento resulta angústia e medo. Respirou fundo. Rumor estranho no pulmão. O lápis cadenciado ofega no papel. Concebe um mundo para esquecer o mundo ou lhe dar um sentido. Risca tudo furiosamente. Num momento há toda a motivação, a inspiração parece um fenômeno simples. Cada objeto, cada mínima recordação, tudo ao redor é motivo. Lápis deitado sobre a caderneta. Levanta-se. Liga a TV. Passa o momento. Seus esforços são caracteres de uma carta que o correio devolve porque o destinatário se mudou. Rola inquieto na cama. Ansioso e impaciente, apático. Liga o rádio (há um, cinza, na parte baixa da mesinha de cabeceira). Desligo. Não tenho culpa de ser como sou, pensa, assim nervoso. Atravessa a divisória entre quarto e sala com a tensão do estrangeiro tímido que pela primeira vez em Paris Arrivées Arrivals entra após passos hesitantes na rue Princesse estreita ecoando ers e enes e eurs e etres. O rádio que pensou ter desligado. Há vinte anos, quando tinha vinte anos, abriu o armário da despensa. Uma caixa de suco de laranja. Um gole longo

mudo das evocações parisienses (atentou ao clique do botão). Segura o lápis e o aperta em movimentos rápidos sobre o papel. Palavras desafiam as paredes. Tudo se reflete no copo. Perdera família, bens, amor, mas possuía ainda a paixão da entrega. Sentia cheiros que mais ninguém (não é suco natural), ouvia sons que mais ninguém (que importa, que sede!), eu, pensa, definitivamente mais ninguém. Espectros no apartamento. Para sempre fluxos oníricos e despedaçamentos. Sua cruz, ninguém a poderá carregar (corpo pesado, pesado). Quem se alegrará com sua alegria? O vestido preterido na cadeira. A Europa espreita. Na TV, nos espelhos do armário. Ele se multiplicava quando voltou inteiro por outro pouco de tempo ao quarto de Oleana. Ele – a vida que ninguém podia.

Setembro de 1988. Caro Andrei. Não sei como pedir desculpas. Deveríamos imaginar que você voltaria. Fico angustiada de pensar em você de lá para cá, sem saber onde nos achar. Infelizmente, aquela empregada da família com quem deixamos a casa para irmos a Roma, ela é meio esquisita. Deveria ter deixado você entrar, devia ter lhe dado a chance de se apresentar. Por favor acuse recebimento. Se houver ainda algum desejo teu de viver em Paris trabalhando conosco, nos dará imenso prazer. Deus o abençoe. Helena Peyroux.
Fome forte pelo fim total do efeito. O haxixe é parte de uma madrugada tão longínqua que dá pra duvidar. Reaproxima-se do armário onde julgava ter visto batatas. Aí estão. Sua sombra na parede vence limites. Acaso haverá uma máquina de escrever na casa? talvez um processador de texto? Os eventos históricos o ultrapassam, como essa sombra. A história e o progresso tecnológico me ignoram. Mas só por ele poderá ser escrito um livro sobre sua Europa e um Maio vinte anos depois segundo sua vivência. Para quê?

De fato, a vida que experimentou em Angola após estar com Nastácia não tinha qualquer atributo que se pudesse vincular a uma missão, e agora o ar quente de Luanda se adapta às frases que trocaram, Andrei e Nastácia. Ele entra no carro, o dedo mindinho protegido por uma tala. Saíra do lugar. Não dói mais. Vou tirar isso. Não. Ela o levaria num médico, disse-lhe quando a água para as batatas começou a ferver.

O sol reveste de dourado as lombadas na estante. Uma coleção de Shakespeare se destaca na ultima prateleira. O sol, o sol madrileno. Prédios ainda ocultam a névoa. A mulher fecha a janela em frente. É que Samara Saratoga tinha orgulho de sua discrição e preferiu abandonar seu espairecimento perante a paisagem a ali permanecer provocando talvez o constrangimento daquele homem (aliás não se lembrava de tê-lo visto antes, mas não era assim tão boa fisionomista e portanto não era necessariamente um novo vizinho); pelo que se recordava, ali vivia uma moça com jeito nórdico, muito bonita por sinal, como também esse rapaz é bastante másculo e atraente, mas não irá ficar e dar motivo a que ele pense que ela não tem mais o que fazer. No apartamento de Oleana a chama na saída do gás, de um vermelho sujo, evocava o calor da terra angolana. As batatas pulam no chiado borbulhante. Chiado, Baixa, Cidade Alta, rua Garret, rua da Rosa, pensão, o caderno. Enlevo de cebola e alho. Úmida contemplação. Sol que se insinua. Dois ovos. Antes precisa de um banho.

Quanto a semelhança entre lugares e sentimentos dentro dele, como se apenas repetisse a mesma velha história em diferentes situações, voltará a se ver na roça, na propriedade do senhor Jean. Basta agora que se enxugue com uma toalha deixada por Oleana no banheiro, que ele teria preferido não estivesse

assim lavada e passada, para que regresse aos primeiros dias em Piumhi, quando deixavam o banheiro livre para o hóspede que fechava as portas sem o menor ruído, o que levava Blandine a pensar em como não haveria de amar um homem assim delicado, ela, acostumada com as grosserias dos camponeses, fazendo piadas de mau-gosto quando ela passava, e decerto agora será pior assim que a barriga começar a aparecer. Ela diz que não era para ele saber. Não queria que decidisse ficar a não ser pelo amor. Você está grávida! É nosso filho, não poderia ter escondido isso de mim. Ela diz que ia contar. Ele diz que a ama. Ela pergunta sobre os planos dele para depois da safra. Não vai voltar para o jornal? Ele pergunta se iria com ele. Ela responde com outra pergunta. Você não ficaria? Começou a chover. Deveriam falar com o Sr. Jean agora? Talvez seja melhor esperar. A saúde frágil apesar da aparência. Trabalhava duro na panha. O aborto até previsível. O lago, os pássaros, os cheiros – ele correu para a panela, espetou o garfo em duas batatas, diminuiu o fogo, colocou um pouco mais de água.

Em Angola não o aceitaram como cooperante. Uma resposta padrão à disponibilidade expressa na carta que enviou, oferecendo-se para trabalhar Os endereços de conhecidos de conhecidos não o socorreram. Mas precisara partir, deixar os hábitos arraigados, o conforto, o conformismo, aquele eu antigo que não lhe interessava mais. Precisava de Blandine e para chegar até ela na Europa era o único meio. Não me arrependo, pensa. Estou apenas apavorado.

Uma vez, nos dias que chegara a Lisboa, uma mulher a seu lado no trem perguntou se ele não havia morado em Luanda. Tenho quase certeza de que te vi

um dia na avenida Beira-mar. Pelos detalhes realmente era ele. Caminha lentamente. Seguro. Tranquil – palavras de encorajamento sobre a pastelaria? Não. Apenas a baía e prédios contíguos que nada significavam. Louco... Mas realmente existia uma pastelaria por aqui. Chamava-se Imperial. Costumava vê-la. Em criança, meus avôs me levaram a um cruzeiro no "Eugenio C" e em Lisboa deixaram a excursão. Casa da bisa. Jardim Estrela. Uns dias com uns parentes na África. Na volta de Quiçama entramos na avenida de Luanda. A pastelaria. Sobre ela o letreiro de uma companhia de seguros, meio encoberto do ângulo em que nos encontrávamos. Palmeiras balançando ao terral, sopro divino. Na orla do mar recortada em semicírculo, acompanhando o desenho da avenida, ele se agita gemendo, curva-se, não se quebra, ainda não, apesar da solidão desgraçada.

Luanda. Das acácias e dos embondeiros. Ela atravessa a rua no sentido do automóvel branco – sábia e indiferente, ignora o rapaz que a olha fixo. Portuguesa criada na capital angolana conheceu o marido no golfo de Nápoles ao som de Caruso. Férias na Itália, onde vive agora no Cantazaro. Não era um lugar ideal para morar. Dias mais tarde um sorriso.

Prima di tutto, la famiglia. Antes de casar certificou-se de que encontraria o clima
do soldato innamorato no Teatro di San Carlo, não as vielas onde à janela as mulheres vivem estendendo roupas varanda a varanda sob as bênçãos de Santa Lucia. Tutto per voi. Arranjou-se além das expectativas. Uma casa em Nápoles, onde o marido trabalhava. Saiu da universidade para adornar com sua beleza, elegância e cultura as relações sociais de Franco Roseto, que a dispensava de outras relações. E cada vez mais escapava para um fenômeno anterior, de sua adolescência: Nastácia, a que estava disposta a se envolver sob o sol com ternos vagabundos.

Viera visitar os pais, portugueses vivendo em Angola apesar da Independência, graças à influencia de um tio, conceituado contrabandista de diamantes a quem nem as forças no poder nem os rebeldes incomodavam. Ainda moravam em Alvalade como antes de 25 de abril. Não fugiram; não se tornaram "retornados" embora retornassem a Portugal sempre que lhes aprazia. Na avenida, Andrei a viu pela primeira vez. Na tarde do dia em que vencia a legalidade de sua estada. Saía do banco. Inacreditável guarda de trânsito com capacete de caçador sobre uma armação circular pintada de vermelho (uma “pianha”, alguém lhe dirá mais tarde). Sinalizava para que ela passasse e, distraído ao contemplá-la por trás, uma buzina irritada o trás de volta. Ele e o motorista discutem em língua estranha apesar das palavras portuguesas. Hoje em dia é diferente. O quepe se pode dizer universal. O sol encontrou seu duplo no horizonte e a noite começa a cair. Ecos. Todos no mesmo lugar. O tempo só convém ao coração transpassado que chega ao todo pela parte. Portugal é um país triste, escreveu a mãe de Nastácia em um diário, por meio do qual soube quem ela era. Mas quando foi vê-lo disse que gostava muito, que adorava Lisboa, como Jacques (não me sinto à vontade, confessa, para chamá-lo de pai). Só que lá jamais sentiu como Andrei, nem poderia, o cheiro da terra vermelha.

Não diria que era bela. Possuía, digamos, uma beleza nascida um pouco da elegância, outro da serenidade. E um tanto da sensualidade velada, num código estético incompreensível. Ele precisa partir e não tem como. Teriam a mesma idade. Rica, era evidente. Tailleur caqui, cintura marcada, molhada de gabardina, bermuda bem recortada; bainha italiana, discreta. Dos pés

ocultos nos requintados sapatos que o calor dela retém, surgem tornozelos logo também ocultos antes do meio das coxas brancas. Misturar leite com suco, pensa ele, não vai me fazer bem. Que olhar persistente, pensa ela. Deixa-me nua. O que está a pretender? Todavia um olhar triste. Não é angolano. Nem parece português. Com licença. Ela não gosta de Luanda, às vezes nem da Itália. Afinal chegou o dia. As posses já não bastam. O que bastará? Che cosa desiderate, cara? Ela não sabe. Quisera. Não acreditava em amor, gostaria. O carro fervendo, o corpo fervendo, a vida gelada. Meias brancas. A paz que transmitiu: a possibilidade de ele se safar. Isso tem um nome. Lábios finos. Os olhos nunca olham diretamente para o que vê – lentos, ligeiramente estrábicos, dissimulados. Ilusões em seu semblante. A aliança exagerada alardeia a obrigação matrimonial. Nastácia parece respeitosa ao escutá-la. Entrou no carro e antes de dar a partida percebeu-o perscrutando-a, desolado. Talvez tivesse sido melhor ter continuado no jornal, lutado pela carteira provisional que tinha o mesmo efeito que o diploma. Talvez a tenha deixado se afastar demais antes de encará-la. Doravante será a estranha que passou, mulheres que poderiam ter sido na vida de um homem e não foram. Por timidez, por unilateralidade, por soberba, por inadequação, por martírio. Ela olha para ele com o tipo de olhar dirigido que se declara inocente ao captar tudo à volta. O sorriso não deixa de possuir os lábios mas não a libera ao acesso. Um brinco em forma de folha responde aos mais leves movimentos de cabeça. Grafite no muro enquanto ele caminha. MPLA. Aproxima-se. Uma nova garfada nas batatas. Para onde você vai? Ia para Alvalade. A faca corta rodelas de cebola. Poderia me dar uma carona? Devia estar querendo dizer "boléia", pois

não? A faca pica o pimentão. Ela ainda fala e já começa a colocar para trás três pastas que cobriam o assento. Ele entra no carro, bate a porta e faz seu prato. Ela gira a chave na ignição. Mãos delicadas e decididas. Na segunda tentativa, o motor responde no paladar de Andrei.

Sabiam que nunca mais. Que tudo o que tinham de verdadeiro estava – Perdido? Questão de ponto de vista. Talvez. Então se permitiram. Para ele, perdido em Luanda, perdido onde fosse. Dependente. Ou aceitava a profissão. Ficar rodeando autoridades corruptas em busca de uma declaração mentirosa em primeira mão. Comentar a declaração mentirosa como se fosse alguma coisa de suma importância. Fazer espetáculo da dor alheia. Aí descobriu. Não era o diploma. E mais. No mercado literário seria igual. Exceto se – Descobriu, não porque estivesse procurando. Agora é tarde. Irá, seja como for. E ela. Tarde demais. Não reencontraria a inocência perdida. Não poderia mais desconhecer que um casamento de conveniências acaba saindo muito mais caro do que os bens que pode proporcionar. É só fazer as contas, como se diz, na ponta do lápis. Então os dois. Não têm mais alternativas de arbítrio. Querem uma vida que não existe e sabem. Podem enfim ter aquele caso.

Luanda. Que cores! As vendas na rua, a mistura de cânticos e frutas. A mulher deixa-se tocar ao sul na estreita faixa alpina até as ondulações temperadas pelas correntes marítimas. Para ele, é uma visão atordoante de sonho, palestras de deuses acerca dos aromas do jardim. A aposta pascal é péssimo argumento mas, para quem se sente amado, acaba por funcionar. Vinde e vede. Que

repouso!

Pernoite em Mussulo. Uns vinte minutos de barco, talvez menos. Que tipo de rede é essa? Que casa! uma estância. Palmeiras flutuam na penumbra lunar. A areia já lembrou ouro; o mar, um espelho. Mas não se esqueça de que é um país destruído. Sei como é. O Brasil também, e sem uma guerra civil. | violência urbana de cada dia é mais que uma. Sim e aqui a realidade é essa, pobreza da maioria, corrupção. E tudo o mais, sabe Deus. Todavia, onde mais existe um céu assim? E tudo o mais. Sabe Deus. Ele disfarça deslumbramento e êxtase, gato que ameaçado finge sentir cheiros no chão. Cidades não são casas e ruas e tudo mais mas a consciência das pessoas. Um país, o que é?

Não é o consolo entre minhas coxas, os seios ainda alcantilados, a umidade escura, o augúrio da língua, as guarnições nos olhos? Não hei de ser menos que isso? Pedra, azulação – um mesmo tom de noite confunde céu e profundezas, a maré noturna e as algas resplendentes. Ela dispensa o carinho. Essa outra é tão digna para entristecê-lo assim? Se ele está mesmo feliz, ela não mereceria um sorriso? Está tudo bem. Tudo bem. É só a hereditariedade, a herança da noite no mar, na pedra, nas algas, sei lá. Nada de fato me diz nada além da noite nas ilhas, da chuva na noite, do piso do barco ecoando nas pequeninas ondas. Depois a

gente pensa no depois. Deixe o gato comer uma lagosta dessas, deixe-o disfarçar.

Em Lisboa. O aeroporto. Apenas o tempo de marcar um novo vôo. Um táxi. Campo Grande, por favor. Remaram no lago. Na mesa da esplanada tomaram uma xícara de café pela metade, uma bica. Ele diz que assim mal dava para sentir o gosto. No Brasil as chávenas vêm cheias. Ela diz que é só pedir bica

cheia, amor.
O metropolitano para o Campo Pequeno. Na praça, ela se aproxima de um grupo de jovens num banco de jardim sentados no espaldar. Pede “três pintores” – são trezentos escudos de haxixe, explica. Um sorriso, o suave ruído de sorriso. Você fuma? Raramente, ela responde. Mas agora está a lhe apetecer viajar com Andrei. Três quadrados de uma ganza escura e maleável. Sentam num outro banco mais próximo da praça de touros. Ela faz o cigarro e fumam ao som da conversa dos garotos. Em cada frase inserem um "pá", um "caralho" e um "foda-se". Adoro o submundo, diz Nastácia. Aproveitam os mesmos bilhetes de metrô (esse reaproveitamento era ilegal). Não é ótimo transgredir, my dear? Descemos na estação dos Restauradores e subimos as escadas para a avenida da Liberdade. Também aqui “Foda-se” e “Caralho”. Uma menina esmurra o peito do homenzinho careca. E aí ó pá? Fodeste e não vais pagar? Essa não tem chulo, explicou Nastácia.

Outro táxi na Primeiro de Dezembro em frente ao teatro. Bom dia. Algés por favor. Ela queria que ele conhecesse um barzinho onde ela costumava se

refugiar para ler. Comeram pastéis de nata com bicas duplas. Ela lamenta não haver mais tempo para voltar de eléctrico. De quê? Aquilo. Ah, o bonde. Estava louca para andar de bonde. Pegaram um terceiro táxi até o aeroporto e depois o vôo para Paris. Adoro Lisboa, disse ela na poltrona do avião.

A bacia parisiense. Um problema de teto e o atraso na descida. Entre Montfermeil e Meudon, manchas verdes intervalam aglomerados. Senart, olha. Ulalá, Fleuve la Seine. Paris! Impacto da pista. Por que Paris? Apesar de todas as vicissitudes por que passaram juntos, ele não chegou a conhecer Nastácia a ponto de poder advogar seus motivos ou dizer qual Nastácia a verdadeira, não o fossem todas. Se ele soubesse, pensa ela. Mas por que deveria saber? Tenho de carregar minha cruz sozinha. Só por ter aparecido ele já está me ajudando. De concreto sobre ela, ele saberá que entraram pela porta do quarto na pensão muitos meses depois de tê-la encontrado em Luanda e uns poucos meses depois daquele dia em que espera Oleana em Madrid. Entrará exalando o furor sexual que os clientes do pub desencadearam (como se fosse preciso) durante a noite de bebidas e dança de corpos colados. Para que eu o aplaque, pensará ele, ai de mim! No aeroporto, a complicação de se entrar na Europa unificada. A credencial de jornalista ainda serve, menos mal. Uma manobra burocrática por meio da qual houve a troca de uma pequena estada pela garantia de uma breve partida. Não sabia que você era advogada, diz ele. Ela havia se formado mas nunca exercera. Isso eles não precisam saber, pois não?

Deixamos as bagagens. Rungis. De mãos dadas, os lugares interessantes da cidade. Aqui. E aqui. Ah e ali. O que valia como pontos de referência. Vai que a gente se perca, diz ela. Ou que ela precise deixá-lo sozinho. Marca um local de encontro para essa eventualidade. Abre um mapa que não tem paciência de consultar. Monsieur? Rue des Francs-Borgeois s'il vous plaît. Na troiseme a

gauche, ela virou para um compromisso que ele não se deu ao trabalho de
questionar.

Há um momento em que as cidades se abrem ao estrangeiro mas não todos percebem ou não chegam todos a esse ponto – ruídos de carros, vozes anárquicas, os pássaros do caos – tudo se faz novo e o sentimento pode se apropriar da novidade. Só a coisas velhas se é estranho. Esperando a hora do reencontro marcado ele tentou relaxar e aproveitar a oportunidade. Paris! Os prédios dourados, como se ardessem. Como se ardessem – de onde me vem essa lembrança? Bistrot também é familiar. Risadas. O negro e o marroqui discutem com gritos e grandes gestos na rua estreita. O rapaz de bicicleta com um pão nu no sovaco, um clássico. Clochards pedindo dinheiro – pra mim, diz Andrei para si mesmo, essa é boa. Aquele outro dá um show ao longo da avenida. E ainda falam do Brasil. Nem lá nunca ele viu algo assim. Pobre homem. Esses babacas rindo desse jeito, filhinhos de papai, filhinhos de uma civilização superior e imbecilizada. Ele ouvira dizer que há brasileiros com problemas de visto por toda parte e na Espanha são sumariamente deportados. Mas ainda assim amanhã outros virão e outros europeus irão para o Brasil. Mas sim que lindas ruas iluminadas e essa maison e aquela, formidável, é mesmo a Cidade Luz. Hun. Gostosa. Dir-se-ia que é uma prostituta. Bonita e elegante, de luxo se é. Ele é apaixonado por esse tipo de lustre, como brincos caídos nas

orelhas de uma portuguesa em Luanda. O argelino quer passar haxixe, espera-o à noite no Quartier Latin. Que idioma é esse? Mundo o quê? Globalizado. Ah. Vai piorar.

As mulheres olham-no com um misto de atração e desdém. Ele havia seguido a sugestão de Nastácia e dera uma volta antes de esperá-la no café da praça Saint-Michel. Ruas de charme triste. Embaixo das pontes é muito romântico. Não os prédios baixos, que tornam toda a cidade semelhante e logo tediosa, mal conservados, reformados alguns, feios, fétidos até, dissera a mulher. Conhecida, parece. Conhecida sim: a escritora da coluna de teatro publicada por um jornal em que ele trabalhara. Claro que é ele, murmura para a amiga; o pobre coitado. O impacto da saída do metrô em Trocadero. Fontes – tranças descendo às costas da mulher amada, cúpulas alimentadas pelo mistério de um rosto que se sobressai na multidão; sonho virginal que alimenta o turista em sua primeira noite. Paris. Conciergerie pintada no céu por mão de amante que não ignorou o efeito da luz em parte alguma do dia, pensou o vagabundo. Journalier. Por ali perambula desde que enlouqueceu. A avenida da Ópera e o pavilhão místico. Notre Dame. Adjacências. Contra o verde tochas na noite – amarelas, alaranjadas, vermelhas e azuis. Aura dos Campos Elíseos. Emanam vozes de deuses tristes naqueles dias chuvosos – a turista adorava tudo, estava fascinada; como um anjo dormia. Saint Germain des Pres, Cafe de Flore; entre coquetes e aprendizes de coquete, puríssima nota de Isadora. Tertre. Um artista se nutre do recorte dos prédios e árvores no horizonte.

Chega um desconhecido. Quer fazer amizade. Nastácia passou por Vosges. Gritinhos na praça sobem além das sentenças na Bastilha. Um trem. Prolongement jusqu'à la défense. Outra praça. O sol baixo. Um pai calvo atravessa com sua garotinha. A trepadeira murmura. Um andar de homem ligeiramente manco. Uma rua mais exposta à luz que molha a metade superior das paredes externas. Musica: uma voz se destaca dos telhados. A luz do sol no Sena tinge de ouro o teto do barco de turistas. Uma esquina num V sem ponta. Pombos, bicicletas. Cercas de ferro ao longo de uma rua que dará nessa igreja. Toldos vermelhos. Uma livraria. Música num acordeom. Um cão, um cão branco. Folhas pelo chão, folhas em pedaços. Em Portugal se diz “partidas”. Paletós dobrados em braços, um rapaz correndo. Mais uma ponte. Cintilações da água do rio. Limo nos pilares. Garça. Pichações sem fim. O arco. Latas de cerveja e grafites bêbados. Famille o quê? Luz obliqua entre os túmulos. Nem nos shows dele haverá azáfama assim. This is the end. Um busto de Jim – Je te aime toujours. Entre Yves Montand e Joachin Murat. Pedra e vento.

Nessas ruas e praças, andando por aí, pensou pela primeira vez em lar. Em como seria a vida com Blandine, o casamento, as alianças de compromisso, os encontros num quarto como parte do encontro na vida, o amanhecer conversando, o longo dia após o amanhecer, tanto trabalho e prazer multiplicado pelo afeto impossível, e a casa – mais non la gourmandise n’est pas un – enfin

surtout passionnés – O que ele estava mesmo pensando?
Cansado. Você não? Não é possível se cansar em Paris.

É possível, pensou. Estou bem. Ela estava mais que bem. Estava a se apaixonar. Não seriam talvez mais românticas e apaixonantes as vielas em meio a gente alegre junto a uma baía? Nápoles? Por quê? Ele responde que gostava da Itália. Pois iremos a Roma! Franco não tem um escritório lá? É. Na verdade ela se esquecera. Mas tudo bem. Tenho também, disse, outros francos. Ele diz que já tinha percebido. Ela não era nada econômica. Mas se não o ama, por que se casou? Por não ser nada econômica, meu bem.

Pernoitaram num hotel em, salvo erro, Villa Eugenie. Ele entra pelo cheiro de corredor, misto característico de roupa passada, tapetes cediços e paredes impessoalmente pur Napoléon III. Ele necessita sentir por Nastácia – ali sentado, caído na poltrona vermelha, o vento mexendo a cortina branca – um amor que não sentia, quando à esquerda, chegando ao quarto, viram-se no espelho em frente. Devolvia-os e multiplicava ao infinito que se abria na noite à janela. Ele estava se tornando um hóspede profissional. Não foi por ali que esteve Hemmingway? que teve os lares que quis (inclusive em Paris) e ofereceu seu corpo no fim? Life is not hard to manage when you have nothing to

lose. O forte e o frágil têm afinal muitos pontos em comum.

Pensando assim, e ali Moyen Age, e aqui Andrei, ele escapa pela Gauche ao amanhecer. Saint André des Arts, vibrações de Kerouac. Como naquele capítulo de um livro dele, eis uma igreja, miraculosamente surgida. E assim, num apartamento em Madrid, lembrando de Paris, Andrei está em Saint Germain des Près ao alcance dos ares eternos do Sena, sob Deus que é tudo e se derrama desde a vastidão da ilha Saint Louis e além. Nada perguntou a Nastácia sobre seu encontro. Ela se satisfaz com a explicação para o sumiço dele pela manhã. Dois dias depois esperávamos o vôo para Roma. Não decerto para atender meu desejo de Itália. Nada questionei. Na sala escura, no mergulho do papel, a foto se define.

Exuberante luz de uma terça-feira. Sol suave. Nas vitrines da rua Condotti refletidos. Meu Deus, as coisas aqui são mais caras que nos Estados Unidos! Em Roma há duas horas. Deixam a bagagem no hotel e saem. Agora ali estavam na travessa, sentados na muretinha. Até o café na rua Fratinna não foi um longo percurso. Ele diz que pensou que Paris fosse a cidade dos sonhos dela. Paris é para meu lado fresco, responde ela; Roma é calorosa, para meu lado emocional. Os italianos, completa, são todos gente boa. E riu. Exceto o Franco, conclui ele. Como não tivesse ouvido, ela diz: Ah, como adoro Roma, amor! Chi la conosce la

ama moltissimo! Ele diz: A bem da verdade, me sinto melhor aqui. Ela diz: Os
italianos são como vocês, calorosos. Ele diz: Não generalize; não sou caloroso; se depender disso, não sou brasileiro; e o Franco é italiano... acaso é de Trieste? Trieste? Ele lembra que ela não gosta de lá. Acha uma cidade fria.

Ah. Ela diz: Bem, Franco não é italiano de verdade, é um acidente geográfico; e Trieste é uma cidade que apenas fica na Itália: uma bela cidade mas sem identidade própria como toda cidade fronteiriça – não é assim no Brasil? Dito assim, não me recordo. Ao contrário do espírito italiano, arremata ela, em Trieste as pessoas são distantes como as próprias casas umas das outras.

Caminhos de vinhedos, sanduíches ao longo do Tibre. Nastácia renova a imagem de menina mimada pelo calçadão da piazza San Lorenzo. Um hospital. Jubila noutro rompante. Magnífico per una donna. O quê? A liberdade. Repetiu. Liberdade. A liberdade é bela, magnífica. O elixir do fascínio romano nasce no hálito de suas inumeráveis fontes. Ele escreveria um poema a respeito. Escreverás muito mais que um poema e sobre muito mais que fontes romanas.

Nastácia encontra uma senhora simpática, velha amiga que morava em Foggia. Che passato un anno! Abraçaram-se efusivas. Um café em Trastevere. Aqui estão no coração de Roma. Esquina da rua Emilio Morosini. O dia útil termina mas não os misteriosos encontros. Deixa-os um instante para fotocopiar uns documentos numa copisteria próxima. A senhora Bonfante fala o tempo todo. Péssimo inglês de ambos. Exercício delirante em

meio a cães e gatos, e motos. Garante que andrei é inteligente e aprendera rápido o italiano caso fique em Roma, easily, believe me. Quando Nastácia volta, a mulher lhe dirige a eloqüência, gesticulando alegremente. Depois se afasta conversando com um homem. Ele parece dizer que por décadas morando ali nunca viu uma época em que a região estivesse tão descaracterizada. Ela disse que você tem uma conversa agradabilíssima, diz Nastácia. Mas Andrei quase não falou. Que melhor interlocutor aquele que sabe ouvir? Estavam em uma esplanada num canto da praça Navona. Nastácia é logo reconhecida pelo pessoal da mesa ao lado. Foi até eles. Olhando-os, Andrei sorriu com o lábio superior, assim meio amarelo, com débeis covinhas, distraidamente. Gargalhadas.

Il problema é impedire il mercato unico del 92 divenire terra di conquista per prodotto assemblati in Europa. Ele apanhou um papel com entrevistas que fizera
antes de viajar com dois casais um pouco mais velhos, no aeroporto e no avião. Jovens, haviam participado do Maio. Começou a rabiscar um fio condutor para o artigo. Num café em Lisboa Andrei conhecera um editor que fizera a encomenda do texto sobre a revolta estudantil. Disse-lhe. Eu não sou a pessoa adequada mas ele me convenceu. Explicou que a matéria principal seria escrita pelo próprio editor, que participara ativamente do Maio. Mas eu não, não teria credibilidade. Terá, é claro que terá, ela respondeu. O que preciso é de um complemento que mostre um outro ponto de vista; e o de um alienado seria ótimo. Que argumento... Ela diz: Mostre que as coisas não saíram como se profetizava, dê a visão de alguém de fora. Que Andrei indicasse, sobretudo, onde o Maio não podia ir além de qualquer revolução ou tentativa de revolução. Onde os vícios do que se contesta estão vivos em seu próprio seio. E isso, completou ela, pela nossa

conversa, sei que você pode fazer. Bem, ainda faltavam alguns meses. Com Nastácia, ele acreditava que iria conhecer um editor e se livrar do jornalismo. Até lá, por que não? Era um dinheirinho muito simpático. Esperei que ela falasse alguma coisa para me situar e, quando o rapaz disse querer uma coisa leve mas caprichada, ela disse Que diabos você tá pensando? você tá muito enganado, e ele espantado disse Mas são tantos dólares, não está bom? – Quanto em liras? – Em liras? Não pode ser em escudos? Quanto? Deixa eu ver... (disse uma quantia) Então ela abriu um sorriso radiante que guardava para momentos especiais e parecia o sol nascendo entre seus dentes. Olha só, disse ela, não se deixe impressionar, são apenas muitos zeros, na verdade esse tanto de liras é muito pouco para um trabalho assim. Nastácia... – disse Andrei baixinho. Mas ela o ignorou e continuou fazendo contas. Claro que é muito pouco, fumaram a metade, estás a ver? Juan Lodero repete: Ah sei, questão de muitos zeros. Nastácia, intervim, deixe que a gente se acerta. Ok ok, forget.

A revista era uma dessas publicações que aparecem de vez em quando, que nascem com os dias contados, só para satisfazer ainda que fatuamente a vaidade de seus donos, sabe-se lá. De qualquer maneira era uma chance, concluiu Andrei, de estar entre os jornalistas europeus, conforme aliás seu plano original. Até aquele momento em Navona, hesitara. Quando Nastácia nos deixou e foi matraquear com os amigos, lembrou-se da conversa com o espanhol no café de Lisboa e decidiu. Preparou-se para escrever o esboço. Na pior das hipóteses seriam umas tantas porções de haxixe como aquela.

Perguntou a Nastácia se ela não queria fumar o resto. Era-lhe um ótimo afrodisíaco, concordou. Enquanto ela dormia naquela noite, ele escrevia numa saleta ao lado. Descobre como as idéias fluem melhor viajando. Em Madrid com os rapazes, com Mario apenas na verdade, Andrei descobrirá como é melhor estar careta para escrever o texto final. E, mais tarde, como era melhor simplesmente ser abstêmio de qualquer coisa. Mal Nastácia despertou, voltou à querela dos bondes. No Brasil existem electricos? A Paris il n y a pas de tramway. Pensei ter visto um. Aquilo não é electrico, bobo. Não? Edificante assim o relacionamento. Ela diz: Vamos alugar um carro! Me apetece dirigir pela via Veneto! E se comportou assim todo o tempo em Roma.

Arrumando a mesa para o almoço com Oleana. Woody Allen e Diane Keaton se movimentam em “Io e Anne” na TV do quarto romano. Nastácia precisa encontrar o marido mas voltará para passarem juntos um tempo e procurarem um apartamentinho em Lisboa para Andrei fixar residência. Bem, talvez um quarto de pensão. Ele sugeriu esperá-la em Veneza. Tudo bem. Ela estava mesmo querendo ver um espetáculo no Fenice. De Veneza a Trieste será um pulo.

No dia seguinte ao balé, eles se despediam. Ela insiste para que ele fique num hotel. Ficarei melhor entre os mochileiros responde. Ela compreendia mas o Franco tem relações com políticos contrários a esse tipo de turismo. O Franco... –

ele suspirou. Não fique assim, disse ela. Tudo ia terminar bem. Por agora, que se divertissem. Para isso ela se casara com um homossexual rico. Então mudassem de assunto. Ela realmente conhecia a região de Friuli-Venezia? Palmanova, Udine... Trieste?

Uma e vinte. Oleana deve chegar a qualquer momento.

Veneza cabia bem em postais, que não têm cheiro, segundo o mau humor de Andrei pela presença de Nastácia e sua dependência dela. Ela perguntava rindo o que ele queria. A Europa não é o paraíso. Ah, ele sabe... A romântica Ponte dos Suspiros, o beijo encantado... Ela diz: Pois. Tape o nariz e me beije. Ele admitia: estava chateado sim e não com a Europa. Com ele mesmo. Porque desfizera-se de tudo para chegar à África sonhando sabe com sabe o quê? Em ser cooperante em Angola, fazer dinheiro, viver uma vida de paz. Na Europa, enfatizou ela. Como cooperante, se sobrevivesse à guerra, com sorte levaria anos. Comigo já está aqui e afinal, meu adorado, o paraíso está dentro de nós. Ele lhe deu. Mas pelo menos, pediu, deixe-me ficar com os mochileiros. Ela suplica: Fique no hotel. Sentados com os pés na água. A frialdade da pedra. A língua em sua orelha. Enfim concordou ao pegar o livro na cabeceira. Foram dias bons, pensou Andrei Morgado ao esticar meio erguidas as pernas sobre o travesseiro e apertar pontos de acupuntura nos pulsos. Apesar de tudo, foram dias bons. De resto, não havia mais o que fazer além de alisar a capa plastificada, como se acaricia uma mulher, levantando lentamente o vermelho do volume até diante de seus olhos, a sombra das própria mãos

escurecendo metade da superfície e cobrindo metade das letras que compunham os setes volumes de Proust. Começou a folhear, inquieto. "Apres le

dejeuner quand nous sommes allés à Venise"...
Nastácia acaba de partir para Nápoles. Ele caminhava. Veneza. Subiu escadas e desceu. O homem com acordeom. De novo. O homem com o acordeom acena com a cabeça. Andrei dobra uma ruela e senta à beira dágua. Um leão de pedra. No colo, o gatinho ronrona. Na ultima vez que voltou a São Marcos, a pintora havia terminado o quadro que começava quando Nastácia e ele estiveram ali pela primeira vez. Um bêbado dorme ignorado. São Boldo. Casas velhas, crianças pobres. Veneza. Fria praia vazia. San Zacaria, um vaporeto. Ilhas. Em algum ponto além, Trieste e Blandine. Tempo para refletir a respeito. Uma carona para Pádua. O rapaz se comoveu com a história de Andrei –

molto interessante! Pelo menos com a parte que ele julgou conveniente contar.
Um lugar de igrejas era tudo que de fato ele precisava, precisava mesmo de paz, de rezar. Em quanto tempo estaremos lá? O rapaz responde que talvez em uma hora, se tanto. Mas foi bem menos porque ao sairem da rodovia para usar um sanitário Andrei acabou achando o hotelzinho de Marghera tão aconchegante que quis ficar. Nino Boschetto parece não ter gostado. Tomara que pegue uma enchente, amaldiçoa ao ir embora. Andrei ficou. Ainda poderia ir para Pádua, poderia até se surpreender e pegar o caminho para Trieste de uma vez. Na verdade o que o impedia exceto o absurdo da situação? O que deve fazer ao encontrar Blandine? Dizer: Olá meu amor, vamos? Para onde? Como? Amor eterno é também uma estrutura material. Desaba de novo sobre ele o limite em que se encontra. Assim terminará mesmo entre os mochileiros – pior, entre os desabrigados. Há

perspectiva de que não seja assim?

A mochileira permanece arrumando suas tralhas. Absoluto desdém: não o homem à frente dela não está ali. Um determinado nó resiste. Posso ajudá-la? Não, obrigado. Falava inglês. Ele tomou coragem. Disse que havia sido mochileiro quando ela ainda estava no jardim de infância e era perito em nós. Eu só queria aju– Não quero sua ajuda, merda! Desatou a rir e assim ficou um tempo enorme. Só faltava essa, nostalgia hippie! O que ele continuava fazendo a seu lado? Ela já tinha dito: não quer porra de ajuda nenhuma! Cercas vivas. Além, por detrás dos telhados, no azul se espalha a fumaça negra de um cargueiro. Ele pergunta a idade dela. Era um crente querendo converter a pecadora? Só podia ser. Mas ela é autêntica e não se trocaria por mil evangélicos hipócritas! Ele tenho dificuldade para entender o que ela diz e teria mesmo se falasse português, tal o modo pastoso e arrastado com que falava. Não sou de nenhuma igreja não, diz, só queria uma amiga. Antes que terminasse a frase ela grita. Quer saber? Não estava em nenhum jardim de crianças quando você se aperfeiçoava em nós! Quantos anos? A idade de pessoas como ela se mede em séculos. Alivia o suor num largo movimento da mão direita. Inclina o rosto, chora. Ele diz: Ei, tudo vai ficar bem... Acaricia os cabelos dela. De sua pálpebra escapa um movimento involuntário.

Ela diz que Olha aqui, odiava-o. Odeia todos os homens. Ele podia esquecer, não ia deitar com ela, não de graça, de graça ela só vai com mulheres!

O amor do homem não permite. Violenta, desfigura, corrompe. Provoca o ciúme no máximo. Milão testemunha a decadência. Olhava o cliente e não conseguia mais ver o dinheiro e o que fazer com o dinheiro, como no começo. Mas é Claudia, a infeliz, a que não tem mais caminho de volta. Os braços manchados, corroídos de dor, são sua vida. Então chegaram ao quarto, ela e a companheira de sonhos, de vida, de agulha. As mãos fracas se procuram. É Claudia, cujas feridas no ar se multiplicam, espanto de ilusões. E a outra, e a cama no meio do quarto, e os homens no meio das duas. Não me chamem de lésbica. Me chamem de puta, poetiza e puta. Ela, Claudia, e sua amiga querida. Quem quer que fosse a outra, sua amiga mais querida. Será que sempre há coisas assim? Mas não havia. O que foi tão espontâneo, tão natural, não tendente? O que tão belo, como essa lisura de coxa, esse ombro delicado, esse rosto perfeito apesar das ruas, esse olhar emocional, sem lugar para cálculos de provedor, de protetor, enfim, do homem – a matemática do nada, o poder do vazio. No centro da cama, no meio, mas nelas não, preferia, um roçar de pele materna, a filha da frustração que em prece é guardada nos filhos que virão, não por isso, mas porque não cabem mais nessas lindas e trágicas filhas não de Safo, inteiras do masculino vácuo que não quer, que só quer. Envolverá um homem assim um corpo como o meu?, pensa ela, satisfará assim um desejo de antemão condenado a alternativas? Ou premiado? Filha, doce filha, rosa, minha mãe, irmãs. Não há mundo lá fora. De graça sim só com mulheres!

Só com mulheres! Tornou a rir enquanto permanecia chorando. Só com mulheres! Em silêncio, deformado ele descia em suas lágrimas. Ela diz: E você não tem cara de quem possa pagar nem cinco minutos com a deusa Claudia! Gargalhou. E você também parece ter séculos, cara! Cenas assim não deviam ser incomuns pois a maioria das pessoas passa e os ignora. Porque seus olhos se abriam para coisas mais relevantes, não se deram conta de que todo o canal estava oscilando e talvez aquela súbita assombração pudesse ser um pesadelo. O que está havendo, gata? Inconfundível o acento lusitano para quem tivesse ouvido uma angolana falando inglês. Dez anos antes, dois homens estão agitados embora imóveis, dando impressão que é apenas mais uma discussão de negócios no centro de Milão. Um deles diz: Você não está cumprindo nosso trato, Antonio. Trato, responde o outro, que trato? Antonio Cordeiro sabia: viciar Claudia e jogá-la na vida. Apenas para isso estava naquele lugar naquele dia, naquela hora. Antonio diz: Ó Massimo, foda-se, estou a gostar da chavala, o trato está cancelado. Massino responde: Você não é capaz de gostar de ninguém – Foda-se, pá! meu jeito de gostar não é da sua conta! – Se gostasse mesmo, não teria levado a coisa tão adiante – Você está é com ciúmes porque ela gosta de mim – Só está contigo por causa da droga – Foda-se, caralho – Tudo bem, alteremos os planos: eu não apareço mais para convence-la a se internar na clínica, você faz o papel do mocinho, mas interne-a, acabe com o sofrimento dela – Quem disse que ela está sofrendo? – Está – Não, pá, ela faz o que gosta e adora dinheiro e, se vai com muitos, apenas comigo ela vibra – Tanto que precisa de mulheres... – Deixo-a livre, ela adora ser livre – E as drogas?, estão acabando com ela, você não vê? –

Não fui eu que fiz a vida humana ser curta, mas a dela será curta e ntensamente vivida – Você está louco. – O pá, te basa, foda-se, você é que iria lhe dar o que ela precisa, um fodido de um escravo do trabalho? O dinheiro possibilita liberdades, e Antonio conclui que não é um executivo de gravata mas seus negócios vão muito bem, graças a Deus, e papel não é o que falta para Claudia. Que Massino admitisse que perdeu e continuassem amigos. Intervalos de terra, manchas de terra e de água e, permeando-os, uma luz única perto do mar. Espírito alterado, Antonio não foi órfão, não passou por uma infância difícil; ao contrário, nascido em bom berço, teve tudo o que quis. Demorou mas enfim seus pais admitiram. Ele não tem mais jeito, querida. Bobagem, dizia a mãe, é só uma fase. Quando sentiu alívio ao deixar Antonio a casa, deu o braço a torcer. O pai se refugiou no quarto. Meu filho, lamentava, meu único filho. Ali estava ele, quase às margens do golfo.

What is happening here? As pessoas param, mantém uma distância
prudente. Che cosa è? Era a vida de um brasileiro, tornada subitamente importante. Os presentes nunca teriam dúvidas a respeito mas, ao contarem o caso para os amigos, omitiriam esse ou aquele detalhe e, o mais importante, não saberiam dizer como ele chegara ali. Mas é um homem corajoso, diziam, coisa que na realidade jamais foi. Antes que atacasse, Antonio de relance viu a morte da mãe, ela morta, um segundo de nada e de nada resultou. A luz do sol é a mesma para os três, os reflexos do estilete se repetem no canivete. Agora. Wow! Andrei, nunca brigara. “Não tenho chance”, pensou, “mas que importa?” Mas há entre as pessoas quem acredite. Crazy world! Antonio só muda o tom por medo e o medo estava no

braço de Andrei. Ameaçador, Antonio avança. Andrei diz que Claudia não está em condições de conversar agora. Doce menina, pensa. Um brasileiro? Abriu o canivete. Foda-se! caralho! Andrei tira o estilete do bolso da jaqueta. Achava que ia assustá-lo, diz Antonio, com esse chino ridículo? Era um instrumento de trabalho, nada que devesse assustar. Só queria conversar com Claudia antes –Foda-se! Conversar com minha mulher? Nunca mais quartos exilados sem futuro – Caralho! Nunca mais falta de diploma, livros sem publicação – Enfia esse chino no cú! Tomba o caos. Inclinam-se as dores para bem – António – intervém ela, doce, doce menina – Escute... Ele fizera um movimento, a lâmina de past-up que ele chamava de chino a um braço de seu pescoço; o sol em seu canivete – O pá, te basa! “Sai fora”, imagina Andrei; “acho que é isso”. O corpo dela exala um cheiro forte; o seu próprio também. Bem, se quisesse dar uma, Antonio fala, aí a conversa seria outra. Toda vida é descartável? Iras reprimidas explodem em um queixo – Fodase! Ecos de um grito escuro e azedo. Isso já não deve ser tão comum. As pessoas ao redor param por causa da cena. Do chão, António amaldiçoa. Um gajo morto, era o que Andrei era. Avança furioso, Claudia entre os dois. Os policiais abrem caminho. Luzes circulam, sirene. Claudia é empurrada. – Foda-se! A lâmina rasga o ar. Continuar, portanto sobreviver. Ela sangra, pobrezinha. Agora pense: há um fato realmente novo. Polizia!

Pagarão caro, não sabem com quem estão mexendo. Os policiais não entendem, ou fazem que não. Os turistas voltam ao passeio; os nativos a seus afazeres. Acabou.

Um bosque. Uma lancha passando. Além, uma cúpula. “Quand on ne

s'aime plus”. Arredores de um lugar chamado Giudesca, Giudecca, algo assim, se
ele bem entendia os circunstantes. Uma rua de nome Pietro Buratti, se viu direito a placa (se era de fato uma placa). Não estão mais no centro, não está mais tão perto de São Marcos, embora aqui transitem muitos pombos em meio a um e outro gato. Quem quebrará o silêncio? Ela o abraça-o sem dizer palavra. Medo. A razão de não o ter enfrentado antes. Mas provavelmente também estivesse acomodada. Com Antonio tinha toda heroína de que precisava. Só agora, pouco antes, se decidira. Custasse o que custasse, voltaria a Muggio, sua comuna. Então Andrei teve uma súbita alegria. Muggio é perto de Trieste, não é? Na verdade não era do seu feitio ficar assim tão gratuitamente alegre até porque Blandine havia arrefecido dentro dele, por causa da própria Claudia. Mas era assim, um azul intenso sobre os telhados, e o rosto de Claudia como o rosto de uma grande amiga a quem logo faria a definitiva confidencia, estou perto, dirá, de reencontrar o amor de minha vida. Os lábios dela se apertam e encosta a cabeça em seu peito, então ele deu por si, o quanto se tornara patético, esdrúxulo, e nem sabe onde ou por que isso começou e se alastrou em seu ser, um menino tão promissor, um adolescente estudioso, quanta inutilidade sob esse céu de intenso azul, e sequer Muggio, Muggia é que perto de Trieste, como quem vai para Portogruaro, tenho uma amiga lá, inclusive, a Andréa. Seus olhos o desnudam e dá um risinho, você está pensando em Muggia, é lindo lá

também, tem uma linda catedralzinha, mas minha cidade é Muggio, como quem vai para Brescia, passando por Verona, ah sim, a cidade do amor trágico, muito significativo, ele pensou, olhando a macas de seu rosto se tornarem de um rosa sóbrio e sadio, e piscando ela disse que é comum as pessoas fazerem essa confusão. Agora está mais claro do que nunca que o que imaginava ter de trágico era antes constrangedor. Sim, voltará a Muggio, como estava dizendo. Irá retomar a vida de onde foi interrompida, havia dez anos, quando conhecera o gigolô. Queria haxixe. Experimentou heroína gratuita. Então ele lhe propôs a riqueza, a beleza dela com a sua proteção. Viciada e transtornada, aceita. Por falar nisso, Claudia precisa um pouco de pó. Ou enlouquecerá. Um hotel. Trieste esquecida. Precisam ir na chefatura amanhã, segundo dissera o comissário. Flash: um BNW azul e branco. 64390. Dali descera o carabineiro que imobilizou Antonio. Apenas rotina, esclarece Claudia ao voltar do banheiro da suíte, a fala de novo pastosa e de novo com tiques. Que linda era há vinte anos! Uma menina gordinha, adorável, tão querida, dizia a tia para a irmã. Um dos guardas dissera, ao ver os documentos:

Un’anziana signora... riconoscimento di Cittadinanza Meritória. Si, disse o outro, gode immensa popolarità... Doces influências de mamãe.
A primavera sorri em meio aos espantos.

Mundos de tristeza. O dele, o dela, o de todas as pessoas de bem. É hora

de deixa-los. Nada significam. O sentido da vida não é esse. O sentido da vida não está no amor ou na arte mas na alegria e nas dores das pessoas simples. Ele percebe enfim a bondade no olhar de uma mulher. Chega a ser desumana a maneira como podem se perder em meio a gemidos provocados por pobreza ou vício. Ele olha sua sombra por sobre as colchas quando se inclinava. Onde deixara seus cigarros? Você não viu? Divisões de mochila freneticamente vasculhadas. Poderiam ir tomar um café, contariam um ao outro suas histórias. Os olhos dela são tão claros... Então ela mostraria os poemas que escrevera em sua agenda nova. Tome um dos meus. O quê?
– Você não queria um cigarro? – Ah. Por favor.

Acende. I live in another world – Claudia em dueto com Dylan. Deixa-o ao fundo: - where life and death are memorized. A gente vive num outro mundo, um mundo de almas puras onde eu queria estar com a purificação da minha. Mas talvez seja tarde demais. Frêmitos se insinuam no torpor à janela. Na habitação vizinha, sobre a casa, uma caixa dágua recortada contra um céu prateado como um carro de polícia. Uma caminhonete está parada diante do hotel, nada mais que um sobrado coberto de hera. A noite outonal, fresca lá fora, fere com insuportável beleza. É que às vezes fico sentimental demais, diz ela. Caso seguissem dali, no sentido apontado, iriam parar na França. Mas esse dedo apenas quer mostrar onde há um lugar que vende leite e pão. Por enquanto vão dormir.

Dormiram.

O prédio da polícia. Quando voltaram a Veneza. Convencida a fazer uma promessa. Claudia, você pode. A imagem de um animalzinho acompanha as palavras. O que perderia se tentasse? O esquilo avalia os riscos, supera os obstáculos e alcança a noz. Tenho medo, ela diz. As primeiras quarenta e oito horas. Passeando em Veneza, sem romance, apesar de reticências aqui e ali. Amigos. Sobretudo isso. Mas logo ela, prenhe de sobressalto, quer desistir. Na manhã do terceiro dia, pede para ser amordaçada; seus gritos poriam tudo a perder. Na mochila, um velho vestido largo. Um espírito de desintoxicação se arrasta ao banheiro. As mãos na borda da privada, polegares para dentro. Será que posso fazer alguma coisa? Lui è un uomo

confuso, ma così dolce. Um homem inseguro também, mas disponível. Podia
fazer alguma coisa? Cheiro de inferno pelas frestas. Poderia recuperar a minha infância? Não sei quanto tempo. Aparece enfim morta, sinalizando para que tire a mordaça. Vômito pelos braços. Deus misericordioso! Uma quina de livro aparece na mochila. Ela tenta voltar para a cama, curvada sobre sua sentença. Alguém a seu lado. Seu corpo é um país invadido. A dor estava ali em letras garrafais. Abraçou com força os joelhos. Olhos súplices. As solas dos pés. Dedos nervosos se contraem. Olhos súplices e pontos de pressão. Se aquieta. Suor abundante: orvalho de uma futura vitória? Não será capaz. Ele tampouco. Mas e a codeína em na mochila dele, por causa daquela gripe pouco antes da viagem? Uma cápsula para cada um. Ele se multiplica em do-in, nos pés, nos

pulsos, na nuca de Claudia. Dá banho nela. É na água o indício maior de uma calma próxima. Do Rio de Janeiro, ele responde. Uma parte do Rio de Janeiro se derramou pelo mundo, quase um pentecostes. Ela sorriu. Toma o pulso dela, acaricia em torno. Então ele retira além da correia do relógio as fitinhas e as miçangas. Ela era quase da altura dele mas agora está maior. A paz molhada que a acariciava se mostra fugaz. A respiração se altera de novo e de novo. Desse jeito. Até o sexto dia. Lentamente, o sono nas feições dela. A noite avança e ela dorme. Ele se recosta a seu lado e despenca em seu perfil. Sabia que a chance era pequena, mas Claudia era valente, apesar do cansaço de estar viva. Comovente seu jeito de dormir. A maciez alta do travesseiro esconde parte do rosto dela, a moça de Muggio. Acima dos cabelos espalhados a guarda da cabeceira se entrelaça em palha. Houve aquele momento de cuja espécie são feitas as decisões mais nobres tomadas ao longo da vida. Ele a olhava e disse baixinho que ela se livraria, determinado talvez com isso a salvar a si próprio. Aproxima o olhar e se excita. Era como se tivesse pegado o futuro; como se o tivesse dominado. A exaltação cresce e o desejo chega. Difícil separá-lo do amor. Acordou sobressaltado. Ela acabara de acordar também. Queria dar uma volta. Em Veneza há um lugarzinho ao lado do canal, em frente do relógio da igreja, quase junto às escadas. Uma comidinha. Também vidros, jóias. Lembranças da infância dela. Contemplações de chocolate. Desintoxicação é gravidez. São cinco horas, amanhece. Há de repente um motivo para se levantar. A

morte não a atrai agora nem a vida a assusta. Ele abre um sorriso e toca a testa dela com cuidados de louça. Você está com uma aparência muito boa, ótima na verdade. Se ele estava dizendo, ela acreditava. Ele. Então também o tocou, não como se toca um amigo, talvez como a um irmão mais velho (se o incesto não fosse pecado), sim, como uma irmã mais nova, muito grata e definitivamente desejosa. Ele escreve. Ela torna a se deitar. Faz-se silêncio, como os silêncios que antecedem, depois dos largos, os alegros de Vivaldi. Sentiu que renascia. Amando quem ali estava e tudo ao redor. Ela diz que se sente estranha, o quarto lhe parece estranho, um lugar como esses que a gente sabe que conhece embora nunca tenha estado lá. Está feliz – é possível? Está viva. Sentada na cama. Nossa! pergunta se o relógio estava certo. Digo que sim. Quase um novo dia. Ela sabia e queria partilhar com esse que indaga de seu estado. Estou ótima. Estava se sentindo realmente muito bem. Disse o que ele espera ouvir. Abraçam-se. Não saberiam dizer o que sentem, por isso se calam. Sem a droga, tudo se tornará mais fácil. Ela tentará se manter limpa cada dia, como os anônimos. Era mesmo o único jeito, concorda ele e pensa como se tornaram próximos, em como ela estava próxima, cheirando a sabonete, com sua coxa encostada na eletricidade do braço dele, a renda brotando como um sol no horizonte do cós da bermuda. Um pássaro noturno. Foi assim desde sempre. Nunca cresceu o bastante, nunca acordou completamente. Um sulco. Ela pergunta. Ele era homossexual? Ele sorri. Por quê? Bem, tinha visto ela nua, dera-lhe banho, dormiram juntos. E agora aquele abraço. O abraço.

Alfazema. Quando eu era menina, no sul da França. Uma perfeita aristocrata... Ele ainda era um vagabundo? Não tem certeza. Está meio acostumado a acordar com codeína. Azulíssimo mar de lavanda. Não é bem azul. É... Poderíamos fazer uma viagem, pensou ele, depois de comprometidos. Disse a ela que estava enganada, é claro que ele sentira o abraço, mas é que a gente acabou de chegar do Inferno e não há mais trens hoje para o Paraíso. Ela diz: Acho que senti o trem. Antes o quê? Sempre alguma coisa. O trem estava na estação mas não havia horários para aquele dia. Imagino que você esteja exausta, ele diz. Ele estava sendo muito bondoso, disse ela, pensando: Mas será que não dou mesmo sorte? ou é oito ou oitenta? Demais. É sobra. Ele diz: Seria melhor o tal Antonio? Furiosa. Indignada. Realmente, não havia mais trens. Cansado da solidão, recusa-se a se livrar. O que a isso o levava? A fuga do que se deseja. O medo da realização. Claudia podia ter se tornado protagonista. Tão mais simples. Nada mais de loucuras, de mulheres casadas. Ai. O pássaro de novo. De novo a sua voz. Um clamor desesperado. As coisas só precisam seguir naturalmente o seu curso. Depois de passar a manhã ao sol e o tom róseo se sobrepor à palidez doentia, Claudia se arrumou, excitada. Iria finalmente reencontrar a mãe. Passara ele para segundo plano e lamenta agora a oportunidade perdida. Sina dos tímidos, dos acanhados, fracos. O que, enfim? Coisas da droga, seqüelas? Ele fora ela, o rapaz, o homem do Rio de Janeiro. Passara pelo que a menina de

Muggio passou. Ele fora ela, ontem. Hoje, ainda tentou se insinuar. Ela lembra a ele que não há mais trens. Ele pergunta se ainda está zangada e Claudia diz que não. Tanto que gostaria que fosse comigo, convidou. Para ser apresentado a mãe, pensou ele, como um bom amigo, e a seus amigos como um novo? Entre eles decerto um namoradinho de adolescência e um novíssimo flerte em cujos braços se jogará amanhã. Podia ouvir os risos, as lágrimas, a noitada de comemoração, ele acabrunhado num canto, sozinho. Não, Claudia. Ele agradece. Ao menos, me deseje sorte. Ela ia para casa. Ele diz: Boa sorte; e se cuida para não passar para o outro lado e se tornar uma burguesinha fútil. Em que lado estava ele?

Recebe a primeira carta ainda em Veneza. O remetente dizia Muggio-Mi. Lembra de tudo o que ela havia contado, da infância cheia de viagens, da região da Lombardia, de tudo o que preferira não saber pelo muito que gostaria de ser. Ai. Claudia, refizera ela a vida. Começara a trabalhar e estudar arte. Noutra carta, já para a posta-restante de Lisboa, está nadando, viajando novamente, tocando num clube de jazz, batendo fotos para uma revista e escrevendo uma peça. Tocando a vida. Pretendia até fazer esportes de inverno. Respirou fundo e enfiou nos cabelos os dedos que haviam dobrado a carta e a devolveram ao envelope, os mesmos dedos que dias antes estavam introduzidos nos cabelos de Claudia. Quase podia sentir o cheiro dela, um cheiro

de mortalidade, um doce aroma de tempo. A libertação encerrava sim a angústia, estreitava a estrada, dificultava os prazeres e os potencializava. Intuiu no momento exato em que sob a estrela, que era a ultima, o bem-estar se desgarrou da satisfação da necessidade e do desejo; quando a estrela, a ultima, a que restou da noite, cintilou. E cintilaria apesar da dor e ainda que os olhos se fechassem. Então, só lhe resta dormir. Adormece, segurando a folha.

A campainha atravessa a tarde entre as paredes. O ruído dos cabos do elevador haviam atuado como sempre no sentido de acalmar uma Oleana convicta de ter seu lugar no mundo, e quase se sentia orgulhosa de poder oferecer guarida ao necessitado. Não usou a chave, se tinha uma outra. Que cheiro bom – exclamou. Ele a olhava parado na porta. Após no decurso da manhã ver e ouvir a própria jornada desde o outro lado do oceano, quase inverossímil, em de mulheres de sonho havia uma assustadoramente real diante dele. A timidez, que o vidro da janela refletia, o detinha. Cântico dos primórdios. Eco de oceanos. A respiração, ondas. Talvez ouvisse agora coisas assim enquanto dava espaço para que ela passasse. Toda aquela gente de suas lembranças havia regressado a seus lugares e ele estava de novo sozinho. A imagem que ocorreu a Oleana foi de uma gaivota que evitava a espuma para ter o vislumbre do peixe. Ela pergunta se ele quer tomar alguma coisa. Hun?

Se ele queria vinho tinto ou verde. Ele pergunta se ela quer mesmo almoçar agora. Na verdade, ela não estava com fome, mas a comida estava com tão bom aspecto, iria esfriar. Além do mais, o cheiro já começara a abrir seu apetite. Talvez ele esfriasse também.
– Calma. Temos a tarde toda e –

Tarde toda que nada. Comida se requenta. Ele adorava comida requentada.
– Eu não – disse ela num tom de repreensão, com aquele tipo de raiva

contida que se alarga pelos gestos e cria tiques no olhar – Onde está o menino comportado que deixei aqui de manha? O assassino ocupa um lugar de honra na casa do morto. Onde estava na verdade? (ele se pergunta) – Viajou. Voltou ao Brasil, esteve na África, voou até Paris, passou por Roma, e agora há pouco estava num maravilhoso idílio em Veneza, interrompido por uma ridícula falta de trens. Ela estava preocupada. – Você se drogou na minha ausência? Respondeu altivo. Que olhasse para ele. Nos olhos dele. Ela estava olhando e garantia que isso em nada ajudava. Queria que sentassem e conversassem.
– Mentira!

Era mentira sim... Jogou a bolsa na poltrona e deu três passos. Há uma

luta de toques febris em planos distintos, nos corpos unidos e desmascarados pelo mesmo beijo. Luta mortal reluzindo na faca na mão dele (fiapos de cebola no corte). Ele dá uma olhada na direção da pia e se orienta para deixá-la ali. Oleana enlaçou seu pescoço e cobriu-lhe os lábios com os dela (oh glädje,

mycket fint). Foi um beijo longo e cheio de alternativas. Ofegante, ele fez as suas
roupas acompanharem para cima o braço que a envolvia. Ela sufocava no peito sentimentos que imaginava a pudessem conter. O quanto de desejo, paixão, e o quanto de espécie? Arbítrio algum. O outro braço dobrou os joelhos dela, e pegou-a no colo, criança rendida. Os dois encontraram juntos o caminho do sofá sem interromper o beijo, ouvindo sandálias ecoarem no assoalho (Oh fuck

jag) e ignorando que, tardasse o que tardasse, tudo estaria terminado quando o
fogo deixasse de crepitar. Depois das janelas cuspindo labaredas, há apenas cadáveres de pedra. Ela se deixa cair. Ele se ajoelha, escravo, adorador da espécie. A mão entra no decote. Descem os lábios, orvalho num monte. Quando desanoitece o outro, um padeiro na falda amassava pão. Ainda que os impulsos se desconhecessem, davam a quem porventura olhasse daquela janela em que a vizinha o vira a impressão de uma coreografia bem ensaiada e poderia ver os cabelos se misturando numa única massa amarelo-escuro. O desejo de Andrei entrecortado se confessa, a respiração o reconhece pecador diante da perversa inspiração anatômica de Deus. Cúmplice do criador, ela liberta o pulsar como uma hóstia. Ele nada podia senão contemplá-la em suspenso. O tapete era marcado pelas pisadas como um caminho de terra batida amolecida pela chuva desenhado com precisão topográfica por entre os móveis lustrosos. Ele tudo podia naquela contemplação. A nuvem sombreou a sala e a tornou menos translúcida no entusiasmo de

se sair do que não era, parecendo ser, e penetrar no que tudo compreendia, nada parecendo. Acúleos róseos roçam joelhos. Ele se lembrará disso como de um espetáculo no qual os atores existem apenas em função da peça que representam, não têm vida pessoal, e a peça não contém valor dramático, apenas estético. Dentro da excitação ele não percebia desejo, o que pareceu um paradoxo, recipiente de delícias sem prazer, uma canção que poderia ser cantada que poderia cantar sozinho com os mesmos efeitos daquele dueto. E seu outro ser, alheio ao corpo ator, deduzia, das mãos e lábios incansáveis, que a realidade não estava ali, mas o obscuro preâmbulo de um depois mais cedo ou mais tarde. O vestido reluzia amarrotando-se nas costas dela, subindo e a desvendando, égua de reprodução. Guizos ao balanço da correntinha com o crucifixo. Galopa em campos distantes que o trem atravessará. Inclinado, se apóia descendo a trilha onde o umbigo dela era referencia. Enfim! Premiado! Dedos brincam com o elástico. Um beija-flor paira sobre o jardim. Um cheiro forte e doce, não familiar. Um toque, um toque que se demora, uma profundeza esperada. A sala imerge em uma nuvem oleosa. Cílios de sol lá fora dissipam o cinzento da manha. ¡Eso! ¡Ahora! Uma torre. Uma cúpula. O movimento conforme o reclame dos lábios. O braço que antes apoiava sua cabeça (uma pomba se solta das mãos de uma criança) leva a mão ao longo do sulco pelo arrepio da pele. Detém-se também aí no elástico e alivia o aperto até restar a marca estriada na cintura; desce mais, até a umidade tenra. ¡Sí! ¡Sí! A pressão chega ao fundo de um grito surdo. O outro dedo passeia na abertura como um homem preocupado anda pela sala. Soy tu perra ahora. Não quer um namorado. I have my love. Que ele, que Andrei não estragasse tudo com

carinho. Prova um gosto de si mesmo naquele ponto em vivido contato com a Mulher dentro dela desfeita em gemidos e cada descoberta lateja mais. Puto,

dejame te comer. Latejava, mais e mais, a ponto de –
O arroz! Um cheiro de queimado se sobrepõe aos demais. Um ruído de água transbordando sobre o fogão, no ferro enferrujado. Com o sacrifício do operário ao som do despertador, segurou o rosto dela e saiu. Levantou e tentou andar, tropeçando na calça. Conseguiu chegar junto ao fogão e desligou a chama. Ele podia jurar que tinha desligado. Ela podia jurar que ele só a andara atiçando. Contemplou-a descalço e retirou o resto antes de voltar. Quieto de acatamento chegou outra vez. Limitar ao homem a dissociação entre amor e sexo? Ondas puras de desejo emanam dela. Em todo caso, só um problema semântico, pensou. A humanidade faz amor quando faz uma coisa cuja única semelhança com a relação física do amor é ser igual a ela. Recostados no sofá, abraçados, se beijaram. Por instantes, nada aconteceu alem do beijo. Num jardim iluminado e regado deixam-se cair. De vez em quando desaparece qualquer imagem de homem diante dela, permanecendo apenas borrões móveis. Oleana lembra uma folha, pensa Andrei, uma folha ao vento, deixando-se, gemendo, apertando insetos na queda, mas não morrem, antes forçam e a movem, e se libertam, quem conhece alguém senão nas trocas dos corpos? Em nenhum momento ela achou que ele fosse capaz de tanto, não passou pela sua cabeça que sua voz a traísse assim, então há no céu à janela algumas possibilidades até ali

impensadas. Ela abre os braços dele contra o tapete e procura se deixar. Tarda os movimentos necessários. Não mais segura os pulsos, mas os braços continuam abertos. Ele depois desenhará os contornos dela, levando a seda e o crepe. Ela deixará que suas pernas façam o que pedem. Cintilações ao longo da noite transparente derramada no tapete, mãos, mundos a que o sol ibérico não tem acesso. Sussurra o nome dele, agora grita. Andrei. Assim, tão limpo, tão liso, quase uma criança, uma criança macia e valente, trem na campina, deve ter sentido que ia, pois saiu e veio por trás, encheu as mãos com seios, e ela o recolocou, e ele arrematou. Agora o recolhe sem o lapso do outro jeito. Às suplicas dela, apressou-se num quê de selvagem. Animais na floresta. Alegro majestoso. Um rio, brutal onde nascia e sereno ao correr no leito em Oleana preparado.

A seu lado na cama, ela dorme. Ah os objetos do desejo! tão distantes do que antes fazem supor! Andrei entendeu no perfil ensombrado a seu lado na cama um sentimento anterior aos cafezais, o possuir compreendendo angústias mais complexas e dolorosas do que o desejar sem efetiva esperança. Mas o que ele quer? Que a noite não chegue após o crepúsculo? Uma vertigem conhecida se segue no sonho de Oleana, mar laminado invadindo conhecimento e linguagem. A mulher se levanta e Oleana está falando ao dormir. Ele também sonhou, num cochilo, com a chegada de seu habitante, o Outro, não eu, pensou, o Eu, em mim. Talvez Deus, talvez o amor, provavelmente ambos. A noite insone, o haxixe, Oleana, o almoço: adormeceu profundamente. Fios escapam do sono para o quarto, a cor do dia esmaece. Quando uma

estranha e súbita convicção antiga quer voltar para negar a realidade da noite, sente a cabeça recostada a seu peito e torna a adormecer. As persianas batiam, as cortinas arfavam. Um miado atravessa a música sobre o casario, pombos repentinos tocam e abandonam o parapeito. Um cheiro forte. Ele se dilui-me por uma substância horrenda, impregnada de trevas, num mundo geométrico de profundidade publicitária. Agora em meio a uma nostalgia que não se define há passos de luz nas sendas vagas de chilreios. Lentamente, o amarelo cintilante cede primeiro a um alaranjado pálido e depois ao azul escuro em que quinas e portas negras se destacam. De súbito um outro caminho, de árvores ladeado. Mas sua vitalidade se funde mesmo ao nada sob uma copa cremosa, não mais tão grande como antes parecia, um arbusto na verdade. Acorda sobressaltado, tentando discernir quem era. Ou o quê. No buço de Oleana, a noite sobre os lábios entreabertos. Nem num nem noutro mundo o coração dele podia se acalmar. Não havia mais sonho ou despertar que o valesse. Oleana sonha com aviões e tempestades. Está nua, exposta aos trovões, e seu namorado bate na porta. Foge, e adiante surge uma figura inócua, uma sombra. Depois conversa com um estranho num elevador, acerca do tempo. As feições dela tem alguma coisa dura, militar. Pegara em armas quando pouco mais que um garoto mas não era ainda um homem e as tinha abandonado sem usar. Costumava lanchar com seus colegas de redação de frente para a baia, encostados num tronco, à sombra do verão carioca, diante do prédio do jornal. Liberdade de imprensa: no dia em que chegasse, alguém dizia, não deveria ser pretexto para a obscenidade, para o desrespeito, para a notoriedade vã e o ganho a qualquer custo. É isso que eu temo, diz alguém. Liberdade demais sufoca a liberdade. A arvore farfalha, folhas

caem. No dia em que a revolução vinga não subsiste em seu seio os pecados que inspiraram o levante? Há uma loja na esquina, abriu na semana passada, que importa vinhos de mais de dez países. Ele não sabia. Sabe que uma nova organização social não existe, mas renascimento de homens. Lanchavam e agradeciam por ter o que comer. Dois deles eram antigos andarilhos. Perto de árvores enormes, quando se está em cidade do interior faminto do lado de fora dos muros, o chão fica coberto dos frutos de repente e o mochileiro mata enfim a sua fome. O cheiro, entendeu, era de manga. Conheceu Rachel no trem de Buenos Aires para Santa Fé. Havia uma certa dureza em seu rosto, que logo se mostraria falsa, pois era uma ternura de menina. As sobrancelhas como que escovadas, pálpebras lisas e cílios curvados alongando o seu olhar. Agora Oleana está no metrô, olha para frente, mas ninguém sabe para onde olha, por causa dos óculos escuros, e pode assim perceber o olhar de soslaio do rapaz a seu lado enquanto a voz cantava o nome da estação e, diluída na voz dos alto-falantes, Joan Baez enche a inverossímil comunidade hippie em Rosário, em fins do percurso de Perón, como uma voz que canta nomes de estação. Rachel e ele tiveram um primeiro contato na Ciudad de los Ninos, em La Plata. Ela estava com uma sobrinha e ele escrevia um poema quando uns gorilas o agarraram. Vieram com uma conversa estranha, exigindo que dissesse o que os versos significavam. Andrei perguntou se gostavam de poesia, quase o estrangularam. Não tinha mesmo a menor queda para guerrilheiro, apesar da barba. Riram muito quando ela explicou sobre a política argentina. Fizeram amor pela primeira vez no dia 1o. de maio de 1974, os conflitos pelo radio como

fundo. Folhas caindo das arvores, namoravam entre pássaros, borboletas e abelhas. Nunca mais eu o vi, pensou Rachel ao pegar a foto na gaveta, focalizando o sorriso. Dizia coisas engraçadas e era tão meigo, sentia mais falta do feijão do que dos pais e, como ela, nada tinha de revolucionário exceto por um comportamento, embora compassivo, dado a indignações pelas quais nunca havia razões oficialmente nobres. Ela o levou ao quarto sabendo que ele era virgem, pois contara para ela. Mais tarde, um amigo deles embaixo dos galhos esperava os frutos. Olha só este, que lindo, Rachel. Oh si mui hermoso. E valia para as mangas e também para o corpo dela, de short, no galho acima. Alguém poderá dizer que acabaram de sair da cama, portanto como pode? Ele não sabe, naturalmente não tem a ver com sensualidade, era uma atração, e ainda é, muito ligada à visão, não necessariamente à carne, bem, ele não tem uma teoria a respeito, apenas é assim. Ah como ele conseguia manter aquele cheiro gostoso de homem saindo do banho? Um homem cheirando mal é quase tão repugnante como um homem sem cheiro – ela dizia coisas assim, totalmente inesperadas, pela alameda que florida serpenteava ate o portão. As flores, regavam de manhã, durante as passadas, e à tardinha, caindo a casa nas sombras argentinas. Como se diz, bons tempos. Cheiro de manga nas viagens pela Santa Fe real em corpos oníricos. Quatorze anos... Onde ele estará? Quanto a ela, Rachel, estava ali, longe dele, nem sabia porque estava pensando nele, afinal. Mudara de cidade, de país (não de idioma), tinha sua

própria casa, neste mesmo mundo não-revolucionável, uma casa própria, com menos flores e caminhos, um outro cheiro, e nenhum amor exceto o sexo, e companhia alguma com quem partilhar no dia-a-dia tardes como aquela tarde de abril, quase maio, pensou Rachel ouvir o baque no chão, e outro. 1988. Há de ser ainda um bom ano. O que é o tempo? em que ponto dele Rachel ficou? Cheiro de manga quando, deitados na rede da varanda, partilhavam os mundos que jamais se cruzariam de novo. Que amizade! Logo iam descobrir não ser o bastante, nem o anseio de justiça, nem as lágrimas comuns, nem a misericórdia ou o desejo. Não, não era o bastante. Estava tão sozinha... Assim nasceu e morrerá, assim vivemos. O que é passado e em que sentido passou? Não volta? Quem pode garantir? por que não se há de renovar noutras pessoas, noutras consciências? por que – Quando atravessava o rio no sentido de Pasos de los Libres, sentiu a falta que Rachel fez um dia. Em que sentido não é a mesma falta que sente de Blandine? Ali o coração dele a preparou, ou ao menos talvez tenha preparado; ali também se preparou para meditar no apartamento de uma mulher onde sobre todos os moveis há toalhinhas de crochê, o que em nada combina com Oleana, que agora desperta e diz Olá. Ola. Que horas? Diz.

Ainda? Vai dormir um pouquinho mais, está bem? Claro, dorme. Um beijo na testa. Oleana quase começa a gostar desse tipo de manifestação. Aconchegou-se e logo a respiração introduzia novos sonhos. Já vestido, ele dá uma olhada em seu corpo antes de sair. No final do corredor, a ânfora no suporte. Não há uma semelhança com aqueles vasos de Veneza?

Claudia partira e Nastácia havia regressado conforme haviam combinado Estava rosada. O lenço com que prendia os cabelos realçava a beleza de seu rosto. Não torna a mencionar divórcio. Ainda bem. A beleza que exibia era a do pecado sem futuro, essencialmente a condição deles. Entre Trieste e Muggio, Andrei procurava ganhar tempo. Agora estava bem perto. Friuli-Venezia Giulia, Altopiano Carsico, Café Degli Specchi, Revoltelle, Della Sorgente, Adriático: nomes a que Blandine concedera aura mítica. Durante meses a fio, desde que ela partira, ele perambulava pela riviera triestina e ali ficava ao sol. Súbito ela surge. Sozinha. Olham-se uns segundos e correm um para o outro. Todavia... Agora ele se sentia meio que liberto do encanto pela realidade que retirava da imaginação a magia. Reapareceram ninharias que produziam grandes discussões, palavras ferinas ditas com o fim de serem esquecidas, ou jamais esquecidas, mas eram realmente esquecidas até a discussão seguinte. E eis os ciúmes, a perfeita harmonia fazendo fronteira com incompreensíveis

indelicadezas, representando, além do amor, certos amores que, por demasiada intensidade, gastam-se em não muito tempo, quando poderiam, mais contidos e

menos apaixonados, durar toda a vida. Mesmo se isso fosse, quer dizer, essa instabilidade, esses altos e baixos do relacionamento, se não tivesse jeito, o relacionamento estava ligado a uma condição matrimonial que o excluía. E o sonho, por demais perto agora com a proximidade entre Veneza e Trieste, esmaecia.

A água ferve na chaleira e o vapor se junta aos gritinhos do bebê. Bruna, meu amor!... Cadê mamãe? Cadê o neném mais lindo do mundo? Ah, ela está tão linda, não está? O pai faz que sim e abre a porta. Olha para os dois lados antes de sair ao sol e entrar no carro.

Entrando em sua vida como entrara, Claudia o envolvera com uma outra realidade suficientemente nova para permitir o sonho e aos poucos ele estava livre para esquecer Blandine, pensava, junto de um vaso à janela. Quanto a Nastácia, não havia por que se culpar, ela o usou tanto quanto ele a usou. Era um adultério. Como a própria Blandine seria. Estou dando voltas. Foi fácil convencer Nastácia. Por que não paravam em Milão? Ela não dissera que queria ver o tal desfile no Palácio do Senado e fazer compras por lá? Se levasse em contas seus negócios em Roma e Paris, não deveria definitivamente se sentir culpado.

Milão fervilha. No parque, um viciado se aplica. Nas ruas dos prédios luxuosos, boring

people who think only for the money como dissera Claudia na carta. Duomo e
adjacências. Quase toda as grandes cidades aqui tem essas ruas só de pedestres. É bonito e muito decente. Ninfas grifadas no ar de haxixe e ravióli. Natural que a esposa de um milionário italiano tivesse muita coisa para ver por ali. Ele deixa Nastácia numa galeria e vai procurar Claudia. Alameda de bosque no burgo pós-moderno. Essa catedral é como estalactites ao contrário. Acho que é uma Ferrari. Avistou-a de longe, antes de chegar ao endereço que ela lhe dera. Abraçada a um yuppie, se existem ainda, seu noivo segundo as alianças nos dedos. Há menos de um mês nos haviam se despedido! Ele está chocado. Faustos felizes feitos um para o outro. Aquela não era Claudia. Apenas se pareciam muito. Claudia olha e aquele rapaz se parece mesmo com Andrei. O senhor Ittico, da loja de instrumentos musicais, acena para ela. Fará um excelente negócio caso convença que o noivo dela compre o violino. O rapaz aperta sua mão e passam direto, sem entrar. Cosa stupida! Treni... Não fugirá mais, decide, soltando o lençol que lentamente se derrama pela cama, nem mais desejará. A felicidade, se existe ou não, se liga à expectativa, e é aquilo, a gota secará, é impossível impedir, a menos que seja lançada no mar. Ela me viu, pensa Andrei. O noivo entra numa loja de equipamentos de informática. Ela se aproxima, mantendo o olhar e, quando está ao lado dele, a voz sai de sua boca de antes, sua voz conhecida. Era ela. Olá. Sim, estou ótima. Claro. Como assim, Andrei?

Sim, me sinto bem, não estou bonita? Não estou elegante? Vim comprar um tapete para nossa casa. Olhe. Ali. Não são lindos? Tudo aqui é muito chique. Os tapetes, as escadas rolantes, as fontes, os computadores. Gosto tanto de cada dia ali, olhe, trabalho naquela loja. É a perspectiva de um vestido novo, sapatos novos, uma jóia, filmes, restaurantes. Uma fita de vídeo, discos, como chegaria a gostar de Dylan sem um aparelho de som? E cursos, viagens, liras no banco. Sou tão jovem e perdi tanta vida! Agora quero usufruir tudo. A vida tinha de ser mais que isso, mais que coisas que se conseguem assim. Assim como? Meu Deus. Massimo apenas me arranjou um emprego. O contrato de trabalho é esse anel? Você não muda mesmo, não é, Andrei?, quase sempre tão gentil, como consegue ser assim grosseiro, apenas porque vive em outro mundo e não aceita o mundo das outras pessoas? Você sonhava com outro mundo. Talvez, mas não se vive de sonho, sonha-se no mundo real. Pelo menos você ainda sonha. Sonho. E durmo, e trabalho, e estudo. Não me olhe assim. Ah meu anjo, o que você quer da vida? Quero a utopia, até a vi um dia, nas suas lagrimas em Veneza, em mim, no límpido reflexo delas. Pobrezinho... Quantas mulheres no mundo não desejariam não mais

morrer só por saber que alguém como você existe! Mas a mulher que se aproxime de você e o conheça ao longo de uma semana, não mais estará apaixonada. Onde você encontrará uma com quem não seja assim? Decerto não onde você encontrou Massimo. Por que ele te incomoda tanto? Por que ele é rico? Ele é. Ou por que não gosta de sofrer como você? Você não sofre mais, Claudia? Não quero mais sofrer, não quero mais tentar ser pura num mundo impuro que não precisa de minha respiração. Eu preciso do ar dele. Cheguei a pensar que o alento de alguém poderia bastar para você. Você não existe... Que ar se respiramos adormecidos num sonho senão o mesmo que se respira acordado? Sou um sonho? Um sonho bom, quem dera você existisse. Um dia você inexistiu, onírica também. O que te faz pensar assim? Nosso inferno. Uma viagem? Voltamos. O que você queria? Que ficássemos na estação da utopia eternamente, esperando um maldito trem que está fora de linha? Foi um erro meu. Deveríamos ter reativado a linha.

Reconheço o trem, mas duvido muito de seu destino; aqui meu destino é seguro. Você o ama? Massimo? Claro, por que não amaria? Pela razão que leio em seu rosto. Você lê meu rosto? Ali tem um espelho, olhe o seu. Seu rosto... Universo nos traços que se juntam na tarde. Seus dias, seus meses e anos, as cidades em que viveu. A tarde é seu único abrigo, da tarde saem as reflexões que se tornam o mundo; e do espelho que é o mundo, apenas seu mundo se reflete. Um espelho que amplia ou reduz, conforme o caso, mas é sempre e apenas um espelho. Ela lhe dá um beijo de leve. Um beijinho. Um selinho que quase Massimo apanha. Agora, estão conversando. Fiquei feliz de ver você, diz ela. Ele não entende, definitivamente não entende; mas o incompreensível se torna familiar. O noivo se aproxima no terno reluzente, desviando das pessoas. Então é assim que é um sujeito normal, um cara bem de vida. Seja como for, o casamento não irá durar. Ou nem se realizou. Ela disse isso numa passagem de carta cheia de entrelinhas familiares, enviada para Lisboa.

Claudia e Massimo se reencontraram após ela ter voltado para Muggio. O pedido de casamento a tomara de surpresa e, ainda grata pela oferta de trabalho, não teve como dizer não. Mas depois, refletindo, na casa de minha mãe não dependo de Massimo, concluiu, e muito menos de Antonio.

Quem sabe desenhar e conhece meu rosto fará facilmente meu retrato juntando a pupila apequenada pelo sol lisboeta, imaginando uma noite de chuva sobre o casario de uma cidade do interior da Itália, batido de uma luz enegrecida, escrevendo, à mesa do quarto, os cabelos ígneos como da ultima vez em Milão; desenharia um homem na faixa dos quarenta anos a quem não davam mais de trinta, olhar distante, um ricto tenso e o cenho franzido à força da imagem da jovem perante o papel de carta.
“Quero

ouvir de novo a sua voz”.

Abraçada a Massimo, Claudia acena – sinais sem mais função. Nastácia estava chegando ao café onde ficaram de se encontrar. É o amor possível, pensou ele à saída do teatro. Crê agora que sim, que poderá amar essa mulher, e será esse seu final feliz. De resto, era tépido o tapete que ele e Claudia pisavam na entrada do centro comercial. Os espelhos espelhavam, os computadores computavam, a alma dele sangrava – tudo estava em seu lugar.

Durante a estada em Milão, coroou com uma otite a sua dor. Não somatização, modo de falar ou desconforto moral. Dor. Ecoa a partir de cavernas em terra onde a paz quase floresceu. As fisgadas falam de sua tristeza e, ao tardar o efeito do antibiótico, julgou haver perdido uma gratidão onde depositar sua esperança, na rua em que o luar italiano absorveu toda a treva noturna em sua pureza arredondada.

Um parque, um prédio espelhado, pontes, arcos, cúpulas. Catarse! Assim, ao sentir o ouvido, emprestou ao alívio atributos da felicidade. Esperará da própria dor, pois nada ali conforta. Nada diferencia a cidade de qualquer outra onde pessoas entediadas correm atrás de dinheiro, exceto o que já conhecia dos programas esportivos ou talvez se pudesse visitar certas igrejas, tirar fotos de esculturas para mostrar a seus filhos, o que faria um turista, e ele não é. Enfim, logo Milão terá sido passado; e quem sabe uma glória oculta esteja triste e tenha feito nas pontadas seu abrigo pouco nítido e prudentemente provisório.

Oleana acorda e se pergunta Hur är vädret? Que cara doido, pensa. Pega o telefone, tira do gancho, hesita e desliga. Não. Mas queria tanto que seu homem voltasse, surgisse da ausência do brasileiro, ocupasse o lugar de novo vago na cama. Enquanto Oleana dorme, a eterna questão de Andrei carrega-o por Madrid: ser demasiado gentil, agradável, ser justo, querido, aprovado, reconhecido. Tudo isso está numa ameaça de pontada no ouvido e num brilho de cores básicas, comum às grandes cidades européias, que se espalha pela Gran Via. Madrid. Edifícios assombrados. Os passantes olham para ele com suspeita. Sento-se desaparecer. Ele. Quem? Perambulando perto da Caja de Pensiones. O parque agora não está longe, um parque é sempre um alívio. Um telefone público. Havia nas cabines telefônicas de Lisboa um orifício pelo qual se introduzia um arame, estabelecendo-se um sinal ilimitado. Assim ele soube da morte de

Donda Maria. Perguntou a Kleber por que não lhe dissera quando mandou o postal. Ela morrera dormindo. Estava melhor que nós. Não adiantaria de nada te dizer. A vida é assim mesmo. Andrei teria preferido que ele não usasse tal clichê. A gente começa a morrer quando nasce. Quando começou a escrever o livro, se é que será um livro (talvez seja essa a ultima desculpa daquele a quem não restam outras opções de atividade e renda), viviam na periferia de Lisboa, em Linda-a-Velha. Ao lhe contar, em lágrimas, sobre a morte da mãe de Blandine, a reação dela o repugnou. Depois de um silêncio emburrado, ela disse que ele ficava ridículo a chorar por uma velha que de qualquer maneira não veria mais. Nastácia, acho que devíamos dar um tempo. Devíamos? Claro, que momento melhor? você refez sua vida... E ela jamais deixara de manter a dela, com tudo que estava incluso. A que ele me referia? Ela sabe. Tudo bem, sabe. Não falei antes porque queria te poupar. Não deveria. Era loucura mas Andrei percebeu que para Nastácia se tornara insuportável a idéia de viver sem ele. Do que exatamente queria me poupar, de vê-la na cama com outro? Transtornada. Como você é ingrato! – disse. Mesquinho! Como é cruel! Ela

nada sentia por Jacques. Quem? O gajo que precisava ver em Paris, metera-se nuns negócios com ele. É dele que estamos falando. Nada sentia por ele e se metera naqueles negócios por ele, sim, por você, Andrei! Ela só se realizava comigo com Andrei mas ele parecia só se realizar com o que escrevia. Tive ciúmes dessa tal Donda, disse. Abraçou-o. Quem dera chorasses por mim! Só se realizava com ele, nada sentia com os outros. Além do mais, era passado. O pub é bem presente. Suplica que a liberte dos outros. Querido, só contigo me realizo...

Ele caminho pela avenida Daroca. Pensa no que outros brasileiros em Lisboa disseram acerca das ligações interurbanas sem fichas. Preciso falar com minha mãe. Deixara o Brasil sem se despedir. Carrega a urgência do sentimento de reconciliação. Acabara de fazer amor com Oleana. Coisa estranha pensar nisso agora. Ela tinha sido ótima. O que e ele queria afinal? Ele queria Ploft esbarrou num cego que Zapt deu-lhe uma bengalada e Vaya maricon hijo de

puta! Fez com que esquecesse a mãe.

Nastácia o espera na galeria em Milão, para irem ao teatro. Tomam um café e vão. Ao chegarem em Lisboa, passariam nos seus tios, em Povoa de Santa Iria. Depois visitariam seus avós, que moram perto de Sintra, pois ali disse aos pais e a Franco que estaria. Era confuso. Um casamento aberto tão cheio de

cautelas e mentiras, mais até do que um casamento normal. Ela teme perder a fonte de renda, explica. Com a vida que leva, será mesmo perda total. Quem sabe existam mesmo reuniões de negócios pela Europa. Ternura. Noite estrelada. Mancando.

Quase oito da noite que ainda não aparecera no céu outonal. Portugal ao entardecer, vindos da Itália. Uma rua antes do desvio o céu devolve grato a esperança da região e cercanias. Póvoa de Santa Iria. Apresentado ao tio como amigo do padrinho, um tipo que negociava diamantes na África. Tratado com polidez excessiva, constrangedora. Armando Conde, ex-secretário do consulado italiano em Lisboa, partidário do casamento da sobrinha, retornara de Nápoles num carro oficial provocando da vizinhança peninsular um burburinho de previsões otimistas acerca das possibilidades infinitas do colega de bar em sua antes inimaginada ascensão social. Nastácia diz que estará treinando equitação nos dias seguintes; realmente passam em Cascais, onde apanha sua égua. Andrei precisava acreditar que a amava. Aquele era o rosto, a mulher de sua vida. Redimi-lo-ia do passado. Ou eis a miséria absoluta no inverno que com o fim de ano se aproxima. As luzes do interior português tem limitada abrangência no sentido de uma ampla compreensão do que se passava. Precisam depois encontrar um amigo dela, o Miguel. Nastácia ainda fala enquanto sobe para tratar com a proprietária da pensão. Assisto, embaixo, na TV, um julgamento. Toni Ramos é o réu; Fernanda Torres surge numa cadeira de rosas - acho que será tipo uma testemunha inesperada. O juiz parece o Viloni,

me esqueci o primeiro nome. O acento brasileiro comove na tasca sob os quartos.

Bebendo uma coca. Rua Garret, o quarto. Entre varandas e varais, as primeiras noites da composição do livro. Porque os de bolso não contam, os faroestes, a espionagem, os romances cor-de-rosa; por que o desdém dos mocinhos bem mocinhos que só existem por causa dos bandidos bem bandidos, do escape, dos finais felizes? Com António, eu puxara a arma com rapidez inacreditável. Nastácia era a dona do bordel, de coração bondoso. Claudia uma de suas meninas. Rachel, a bandoleira doce e feroz. Oleana, uma mulher fatal que quase desvia o mocinho. Mario o melhor amigo, que provavelmente no final da estória dará a vida. Outra, por favor. Na ladeira, punks e darks grasnando, vindos dos cafés da praça do consulado brasileiro. Burburinho no saloon. Muita gente na praça em que os agentes deveriam se encontrar para fazer a troca do disquete pelo dinheiro. Rua do Carmo. Busto de Pessoa. Um café. Arde em sua língua. Ali se encontraria o casal após tantas intrigas e celebrariam o final feliz com uma tirada bem-humorada antecipando a noite de amor. Livrarias mais abaixo. Entrando em mármore e degraus acarpetados, diante da vitrine, refletido, um autor. Será reconhecido no final, mas para tanto terá de superar os terríveis anos da injustiça do mundo e, com dignidade, vencer os obstáculos do destino. Obrigado, estou só olhando. Clássicos, lançamentos, e, diante da montra, o menino de rua, não, o cão, um cão de desenho animado, diante do assador giratório de frangos.

Casais enamorados a buscar o fado. A noite sempre efervesce para os lados da editora até o mirante onde reina o gigantesco pôster do filme em cartaz no cinema em frente à boca dos Restauradores, o bar da sopa 24 horas e cerveja com tremoços. No alto da ladeira, os que chegam com a noite ali descem trôpegos e risonhos, quando não há briga por causa de mulher. Não raro o ofendido sacará o cinto da calça para surrar o inimigo, com o risco de terminar de fazê-lo de cuecas. Ternos impecáveis louvam aos gritos o goooolo de Mozer. Benfica! Da janela é também possível escutar imprecações diversas, brigas de amantes, de gigolôs com clientes, de meninas com gigolôs, de meninas com meninas, vizinhas de porta, empregadas de pubs (tratadas assim mesmo, com eufemismo) a trazer clientes para a hora extra, a gritaria nas tascas, o fado ficou escondido em algum recanto, Ó pá te basa! O que caralho? – Crianças na noite pelas ruas estreitas, a música alta e hirta, bandos da outra banda, Estás a ver?, Estou credo a rebentar! - A vida pulsa na imaginação do escritor que não acredita mais em finais felizes.

Quando com sua mecenas se prepara para a viagem, uma idéia insiste – um romance, um romance de verdade, em meio a tanta mentira, por que não? Ao chegar de Barcelona, não perca tempo, meu amor. Que ele se dedicasse apenas ao livro. Não se importe com mais nada, conclui. O caminho estava traçado sem marcas de pisadas anteriores. As palavras jogadas a esmo significam tanto quanto latidos na noite. Não havia mesmo mais nada com que me importar. O quarto estava pago. Vamos? A Catalunha à espera. Mas, nada é perfeito, será nossa despedida por um tempo.

A cidade não conhece limites. De Lisboa surgem todas as cidades do mundo. O corpo não conhece limites. Dele nascem todos os homens. Como na criação original há é claro muitíssimas imperfeições. Cidades e homens: crescem, desaparecem, não sem que antes a vida se renove nas ruas e nas avenidas, sobre o casario e no interior das casas. Uivam os ventos, passam as pessoas, se aquecem, se amam e se odeiam perante ele.

Antes de partirem, Nastácia pegou a picape de Juan XXIII, o cavalo de Miguel, que já estava num haras na Catalunha. Insistiu em rodarmos por Lisboa para tirar umas fotos, o que interrompeu por instantes os caminhos de muitos lisboetas. Só veriam as fotografias muito tempo depois, quando já estávamos vivendo em Linda-a-Velha; mas já no caminho para Barcelona me levaram a uma insônia de divagações. Senhor, podemos contar consigo para tirar uns instantâneos? Condescendência sem fim com os caprichos da benfeitora. Levou quase o dia inteiro.

Quando ela fez quinze anos, houve uma reunião dos amigos. Bruna apenas provou o bolo. Andava com medo de engordar. Mas não seria justo dizer que era por vaidade. Por melancolia talvez. Nem se tente entender a razão de certos sentimentos das adolescentes. Medo de chamar demais atenção, por ser muito gorda, tanto quanto se tornar bonita demais, pela mesma razão, mas aí teria jeito, uns óculos esquisitos aproveitando o pequeno grau de miopia e um penteado fora de moda. Não. Aí é que chamaria mesmo a atenção.

Não sei mais o que fazer de mim, pensa ela. Ou seria por ter medo de perder a plena liberdade de ir e vir, de sumir, para bem longe daqueles cafezais, daquela cidadezinha perversamente provinciana. Sonhava com ruas decentes, com avenidas em que seria anônima. No fundo, não sabia por que. Engordar, e daí? Tudo no fim colaborava para essa paz de não ter no que pensar e assim acabar pensando em qualquer coisa.

As fotos estavam com os demais papéis que caíram e se espalharam. Ele na rua da Prata, com um pesado sobretudo de Nastácia, exagerado para o frio que efetivamente fazia. Ao longe, o relógio tocado em reflexos pelo dia e dentro do arco pétreo uma mancha esverdeada. Dom Jose em seu cavalo. Também sozinho, ele pelos lados da Porta do Sol, numa sacada. Embaixo, prédios envelhecido que fixavam às fotos, inseguros e transitórios, sua vocação eterna. Além, esmaltados no cenário outonal, o Tejo, cacilheiros, um navio. Ele. Tomando água num bebedouro constante a céu aberto perto do zoológico onde as vozes dos animais se cruzavam no ar silvestre domesticado, ele inclinado. As crianças ao redor indiferentes, rodando no brinquedo do parquinho, riam, davam gritinhos na própria foto. Em frente do jardim, na boca do metrô, sentado numa mureta, lia o semanário – trazia a ministra da saúde, bela e poderosa, na capa em que a tarja diagonal no canto superior esquerdo anunciava matéria sobre a feitura do filme em que pela primeira vez dividam a cena atores e desenhos ou, para ser mais preciso, pela primeira com certos requintes de realidade, como a sombra - como essa que deixo a meu lado na mureta. Os macacos chamam a atenção das crianças desde as jaulas. Andrei, já

sem o sobretudo, com sua jaqueta preta cheia de bolsos e um tecido pregueado usado como porta-caneta, sobre a camisa de veludo azul-lavanda, a olhar o painel de emissoras de TV européias na galeria contígua à estação dos correios. Na escada, sob o rei João Primeiro pela graça de Deus, a montaria com crina de passarinhos. Andrei beijando na palma da mão o canário da casa dos avós de Nastácia – eles pareciam lhe ter se afeiçoado - manso como um rapaz que condescende com caprichos da amante por medo da miséria. Os braços por sobre os ombros frios de Fernando Pessoa. Na areia cascalhenta à beira do Tejo, vulto de um barco no fundo espectral. Desejando os produtos dos livreiros do Chiado. É um registro histórico, mas ainda não sabe disso. No hospital do Câncer sob o sol que oculto retirava o brilho às arvores e prédios em volta, ou deveria dizer a luminosidade, talvez o lustro, o fulgor que a luz do dia empresta em fotos às coisas, mesmo aos cantos mal-cheirosos. Mais para cá, meu lindo. Com os papéis e fotos caiu também uma esferográfica preta, quicando e sumindo debaixo da cama. Ouviu falar que fotos em papel se tornarão obsoletas; mas são tão expressivas, tranqüilas, o mundo, a vida, amor em pedaços. Diante do viveiro espelhado dos peixes róseos no Centro Cultural, começa a fazer um friozinho.

O rapaz que condescende dirige o carrinho do jardineiro da Fundação. Cada passagem entre as fotos fatiga-o mais que os percursos. Os registros mostram alguém de quem ele nada sabe. Nenhum daqueles homens, por

exemplo, parecia amar uma camponesa que partira para longe. Menos ainda que por causa da camponesa algum deles abandonará o próprio país. Por outro lado, estavam todos vivos e sabiam de coisas interessantes que o rapaz que olhava as fotos desconhecia. Um bonde. O cartaz publicitário no corpo do bonde. Crianças de rua ao redor da estátua no Paço. Andrei, iluminado pelo flash, quase noite na Baixa taquicárdica, e de novo olhos vermelhos, ajoelhado (rezei) na igreja de Madalena. Molhando os pés à beira do rio, sentado no degrau de musgo, firme no musgo. No museu de Lumiar não desejou mais a memória do mundo mas a sobrevivência digna que hoje lhe foge, tanto tempo depois daquela tarde. Numa lápide. Na universidade. Docas de Alcântara. Palácio das Necessidades. Parque Eduardo VII. Pracinha do Duque no Cais do Sodré. Partidas e chegadas. Onde estão as bagagens? Sono, sono pesado, sono vespertino de quem não terá onde dormir à noite. Aeroporto. Rotunda, Paço da Rainha. Não raras vezes sequer sabia onde estava, fugia qualquer coisa que se aproximasse de consciência. Peito dolorido, cabeça pesada, dói mais no burburinho do shopping Alvalade. Aqui, ah sim, com toda certeza, é o templo do novo mundo, é tudo de fato o que se tem do mundo, o rapaz que não se reconhecerá nas fotos diz Vou ao banheiro um

instante, e o alívio é maior porque na volta – o mármore é frio, os ladrilhos azuis
despertam um tipo brumal de vida – a sessão está enfim terminada. Desce a noite com quês de Juízo do qual ela e o rapaz se abrigam num estranho filme estrelado por uma envelhecida Kristy McNichol, não mais protagonista (o tempo...), que é no caso Sherilyn Feen. Nunca dormira antes no cinema. Exausto. E a viagem nem começara.

Lisboa, 25 de agosto de 1988 Terminei o livro. Na verdade será apenas a primeira versão. O final que a imaginação não me trazia, a realidade trouxe. Desci as escadas com os olhos vermelhos por ter chorado tudo. Bati à porta da dona da pensão para avisá-la e usar o telefone.

Poderia dizer que só conheceu Madrid mais tarde, quando foi de trem. Agora passando, cochilando, ignorava a cidade de cima do metal sobre a taxa moderada de compressão, motor continuamente ruidoso em sua contínua consciência. Não conseguira pegar no sono na noite anterior, o cansaço das fotos não se fez acompanhar de sonolência, além do que Nastácia, inteira na vigília, também contribuíra, alegre e jovem, e otimista. Nada a cansava. Ele escutava, longínqua, a discussão sobre que caminho tomar até Barcelona. Quando meio que acordou, Madrid dizia adeus e só havia tempo para isso. Miguel acelera. Aragão. Saragoza. Evitar o mediterrâneo. Por quê? Miguel tinha suas razoes e foi não pelo caminho que Nastácia teria preferido.

De volta ao cochilo. Imagino Girl na picape, majestosa em seus oito anos, juvenil maturidade, joelhos baixos mas eretos, peito forte, vigor e voluntariedade nas obedientes espáduas. A vontade de sua dona. No entanto, uma égua perfeitamente livre. A tarde caminha quieta e calma no sentido de San Domingo de la Calzada, lapida um crepúsculo latente entre as crescidas uvas em época de vindima na

região do rio Oja. Estamos, nesse período com toques semelhantes que se encontram entre o final de um ano e o começo do outro, a caminho de Logroño, onde vivia a namorada de Miguel, razão da sua insistência no percurso por dentro, não pela costa. Algumas horas após Madrid, que a bexiga de Andrei calculou, nas quais dormiu afinal todo o tempo, às 18 horas, pelo relógio de Nastácia, enfim chegaram.

Se Quixote aqui ressuscitasse, teria muito o que fazer. É o planejamento energético para o século vindouro. Mas Quixote ainda está ocupado. A jovem estava sentada, ah!, no sofá de colchões de encostos e almofadas na varanda. Percebe o motor como quem ouve a voz de um amigo. Então Rachel se levanta e dá gritinhos, sacudindo os braços em acenos por sobre a cabeça. Miguel desce. Ela, Rachel, se joga sobre ele; enlaça-o pelo pescoço. Gritinhos acastelhanados de alegria. Vestida com uma blusa larga e cavada, rodada e rosada a saia de linho, e rosadas as suas faces argentinas. Surge a comunidade de Rosário, a capina e a leira de temperos, a vassoura e o pano de pó apesar da alergia. O êxtase com que tudo era feito: a alegria de vislumbrar no trabalho uma introdução de Rachel. Semelhante associação mais tarde se relacionará com a panha do café. E mais que a manutenção de uma casa e seu quintal, o café, com sua produção de muitas sacas de 60kg por hectare e aumento anual dos hectares de lavoura mais três adubações, era serviço árduo e, à medida em que mais árduo era, determinava quão gratificante o amor de Blandine, quão mais intenso que o de Rachel. Estava mais bonita. A gente fica mais bonita com a idade, Andrei, eu acho. Tempo e espírito no semblante manifestos. Vinte anos há vinte anos. E daqui a outros vinte, quem sabe.

Prelúdios de reconhecimento, prazer maior que um esperado reencontro. Permanecem abraçados após o beijo, Rachel e Miguel. Chegam juntos à janela da picape. Cumprimentos tímidos, um convite para entrar. Ela iria preparar os quartos. Nastácia disse não, obrigado, iremos para um hotel. Ah nada disso. Rachel não iria permitir nada de hotel. Etc.

Estranhas luzes no céu, brisas oceânicas no ar, caminharam para dentro, abraçados, trocando beijos na direção da rústica casa confortável, os cabelos negros de ambos se entrelaçando e, entrelaçados, videiras e jaborandis. Quando entraram, Nastácia aconchega a meu seu lado o corpo quente da quietude ali quase catalã, quase basca, quebrando em si a questão que ainda a chateava, da rota direta que preferia. Aliteração: desejo se repete em momentos próximos. A rima entre as pernas. Sensualidade sutil sua assonância. E todavia era santa, separada das outras por um projeto de libertação mútua, por meio do sofrimento. Inútil. Dolorido poema que se dilui após a leitura.

Rachel volta para buscar e acomodar os amigos do amante. Que tomassem banho e fossem comer. Nada parecia real. Nada demais realmente. Pós-guerra e pós-revoluções, a transformação cultural transitando para instituições permanentes sob uma falsa capa de novidade, a suposta diferença entre a expectativa das gerações. Um reflexo social que encontra certo olhar da juventude deles, pouco mais que adolescência, mútua em ideais e desencanto.

Rachel e Andrei. Distante Rosário, do outro lado do Atlântico, talvez em outra vida. A quarta-feira se ergue na névoa, um último suspiro do dia. Esfriava após o calor ao longo das horas de sol. O quarto em uma cave agradável. Janela de caixilhos azuis, como suporte para o vidro batido. Cama de mogno. Um tipo de aposento que se mostra purificador. Dava para um corredor branco, hun, quantas vezes não imaginado?, aromatizado de vindima. Chega-se após cinco degraus. Grades da janela em madeira torneada. Exala infância. Pés-de-pato no rodapé, junto à máscara de mergulho. Ar salino, apesar do mar não tão próximo. No exíguo aposento conseguira Rachel acomodar fitas folk e muito livros, A cidade dos prodígios à cabeceira – no caso, um pequeno espaço de madeira crua que fazia parte da cama, um única peça. O serrilhado largo das folhas recortava ali sua sombra, que toca quando passo curvado, por causa do teto baixo. Simpático, não é? Muito, responde ele. Uma luminária típica, igual à que havia comprado para Blandine uma vez, importada, por setenta cruzados, no Centro de Luz de Belo Horizonte, com cabeça articulável e interruptor de correntinha, vermelho. Uma única luz no quarto imerso no chão riojano. Aranjuez, único disco cuja capa estava visível. De um vaso vermelho vivíssimo quase salta o cacto que lateralmente se propaga cintilante ao feixe de luz que pela janela entra. Amor, vou tomar um bom banho.

Depois da janta (pimentões recheados a molho ferrugem, regados a vinho da região), você então não acredita, diz Miguel, que nesses movimentos, do feminismo ao ecológico, exista autenticidade? Um pão caseiro de tenro se

desmancha na boca. O orientador de minha monografia quis que eu incluísse o código genético entre os fatores das mudanças ideológicas desta década, imagine, diz Nastácia. Obrigado, Rachel, a comida estava realmente ótima. De novo os cinco degraus. O corredor está agora cinza-escuro. Não há lua. Concedi a Nastácia a entrada na cave antes de mim, simpático cubículo de desejos cumulado, num gesto de mão espalmada, com um sorriso. Ela se troca atrás do biombo. É bom estar entre amigos, é bom aprender depois de velho vida social, mas ainda assim estava entediado, sim, não triste ou desesperado, mas imerso num tédio mortal. Camisola transparente. Miguel disse para que ninguém saísse do quarto antes das oito e por isso é teremos de arranjar também o que fazer até lá, disse Nastácia. Cantarola em italiano. C'era una volta. Senta-se na cama e sorri, separando saturnal as sílabas do conhecido convite. Anda cá...

Ela dormiu. Ele ainda viaja, em pessoal tradução dos assuntos do jantar. Não há mais como a política ignorar o avanço tecnológico em qualquer aspecto da vida. Não há limite para a investigação científica. O sexo e a revolução quase são a mesma coisa, como o engajamento e a maconha. Porque deveria a Comunidade Européia se crer imune à destruição a seu redor? Na há mais lugar a salvo na guerra generalizada travada agora também dentro das casas, sobretudo aí. Todavia no sonho, uma casa – talvez em Madrid mesmo; férias em Irun e San Sebastián; viagens editoriais para Frankfurt; seu próprio negocio, paralelo à casa publicadora de Barcelona. Beatrice um dia dirá L optimisme dês

Français, Europe à heure de a livre circulation des marchandises et des hommes, 12 pays, 350 million d habitants. Uma viagem, livre circulação pelo sonho, um

sonho bom na noite de Logroño, que infelizmente na época em que de fato conhecerá Madrid, e Oleana, estará se desfazendo em doloroso despertar. Levitando sobre o Rioja, sua Europa, a branca dos Pirineus, franco-catalã, ou sabe lá como se diz, se é que se diz. Doce prisma alucinógeno sob efeito de si mesmo sem droga exceto a esperança. Viajava por prelúdios de Liszt e não dormiu senão próximo da manhã, relacionando o ambiente das fotos em Lisboa com um continente onde se estabeleceria e criaria uma vida. Isso que ouviu foi uma trovoada? Nastácia era seu presente que sorrindo dormia. Descoberta, matizada de luar, bicos violeta-escuro. Tocados. Um arrepio, uma inspiração, o movimento do rosto para o lado. Acaso compreende? Assim nascem famílias, cidades, reinos. Um toque e um pouco mais ao longo do dorso prateado. O mar num rochedo; a noite no mar. O rochedo na noite. Um enredo. Não sabia se adequado, verossímil. Precisa, apenas precisa. Ela acaso? Arrepio nos culotes alisados: uma onda súbita na pele pálida. Os dedos fogem dele. E rochedo. O relâmpago. De novo. Ufa. Então aquele dia deve ter sido um momento impróprio. Um duplo sem explicação ou julgamento. Ela pensa. O que sinto? Amo-o? Integrei em mim de tal sorte amor e sexo? As mãos dele são agora uma carta de amor; mãos de jornalista. De novo. Um móvel arrastado. O que foi a noite não saberá ele pelas demais noites da vida. Por quê? É a espécie, as coxas que se afastam, a malha suave e demorada enrolando-se, escuridão, abrigo preciso do dedo. O rochedo no mar da noite, no drama, na espécie. Estala o madeiramento da casa em Rosário. Oito segundos, ele contou. Mas não pare. O sol por La Rioja se derrama.

Em algumas horas, estariam em Barcelona e seriam hospedados por Andréa, a bela esposa de Miguel. Nos despedimos de Rachel após o café, que ela serve vaporosa, cheirando a amor e a vinho. Todos de alguma forma se preocupavam com o retorno de suas rotinas e diziam isso, mas não eu, pensou Andrei. Pelo contrário. Estava habituado à falta de uma e temia antes que essa ausência acabasse justo agora que lhe traziam tantas coisas interessantes. O que o preocupava era ele mesmo, como poderia trazer vida ao que aprendia da vida, de literatura, de geografia, de história e até de Deus. Amanhecera e só não estava mais feliz porque consciente demais, assim refletiu, e aquele constrangedor sentimento de inferioridade em relação aos outros que se acrescia de paranóica soberba. Por causa da parada para almoçarem, chegaram às quatro da tarde. Fazia frio. Sabe, esse bulevar era um rio e efetivamente vai dar no mar. Desliza a avenida. Miguel hesita na passatge de Marimon mas Andrei confia no futuro ao longo da Diagonal. Quando chegasse a primavera seu livro estaria pronto.

Andréa parecia bem mais nova do que ele imaginara Talvez fosse até mais nova que Rachel e de beleza mais sofisticada. O apartamento de Miguel, na

Carrer de Cartagena, nas proximidades do hospital, em termos de Barcelona era
até modesto. Entrem por favor, disse Andréa, fiquem à vontade. Guardada as proporções, era tão simples quanto a filial de Logroño. Às vezes Miguel pensa que não está certo. Respeita Andréa. Não saberia dizer como Rachel aconteceu em sua vida. Também não parece preocupado com a resposta. Mas suas têmporas são altas e passam a impressão de que está sempre absorto por algum dilema. Olhem a vista, disse ele, como se mostrasse um pedaço de sua alma

simples ao abrir as cortinas. Seus movimentos são firmes. É lindo, que lugar extraordinário! Nastácia parece sinceramente extasiada. Está pensando como sempre em dar uma volta.

Depois do banho, Nastácia leva Andrei para outra sessão de fotos; ainda não se enfadou do brinquedo encontrado na casa dos avós. E foram ao entardecer, depois do banho introduzido pelo cheiro forte de café que impregna o apartamento e chega talvez aos navios. A lua surge do cós do dia, pessoas chapinham pelo cais. Vozerio, postes, luzes dirigidas de uma lanterna. Ele sabe que não há futuro. Já admitiu isso em seu intimo. Pensa a respeito quando Andréa, olhando fixamente a consistência do recheio, pensa o que acharão, preferindo ignorar naturalmente que ninguém ali estava inclinado a ter qualquer opinião sobre uma torta. Quando abraçados Andrei e Nastácia passaram pela porta, ela juntava dois ovos ao trigo, mais uma colher de manteiga, uma xícara de açúcar e um copo de leite. Beijou o marido, limpando as mãos no pano de prato. Deu dois beijinhos em Nastácia e ofereceu a Andrei pela mão macia o calor de seu corpo. Ouvia mentiras sobre a viagem, quando pediu licença para voltar à cozinha. Não sabe direito porque suporta essa vida. Tinha outros planos. Suspeita que é por causa da dependência financeira mas isso não explica tudo. Níveas mãos passeiam pela forma untada com óleo de girassol. Nastácia sente um desejo estranho de pedir detalhes da receita. Sobre a massa na forma, cinco bananas em fatias. Dado momento, caiu de sua mão a faca. Abaixam-se juntos Andréa e Andrei para apanhá-la. Ela pôs para assar, sugerindo que no meiotempo de 25 minutos se banhassem. O café tinha no final um gostinho de família e a torta sabia a zelo e lar. Só não ficou melhor porque o idiota do

marido (não pode ocultar o quê de a sério em seu suposto chiste) apagou o fogo antes do tempo. Ah, por favor, Andréa, há cheiro de gás por toda a casa!

Tanta devoción... por qué él no es así en todos los asuntos?

Andrei Morgado (foi Andréa que pediu para que lembrasse a ela o sobrenome) adorou que o bolo estivesse solado, assim pôde comer mais, já que os outros, apesar de tentarem ser gentis, ficaram mesmo de onda. Ainda mastigava um pedaço quando saiu com Nastácia. Sob as bênçãos de Monjuich, chovia fininho, guarda-chuvas e capas e casamento de espanhol. Um cão puxa a jovem. Graziela Felicidad caminhava apressada para o hospital totalmente abstraída como um cachorrinho que rouba comida da mesa dos donos, separada dos demais passantes por uma grossa parede que impedia qualquer outro som além de seus passos. Estádio, galeria, museu, zôo: pela avinguda D

´icaria prodígios da cidade iluminada por sonhos literários e irrefreáveis desejos
sensuais potenciados pelo sol retirado das roupas das pessoas, das cores das edificações e até dos desenhos no calçamento áspero que pulsava suavemente sob as sombras nas Ramblas à travessia dupla dos vultos crepusculares.

Um postal e uma carta. Dois sóis e luz alguma. Primavera. Irei à noite para Madrid. A noite anterior foi difícil, não quero mais pensar a respeito. Minha permanência na Europa depende do artigo, de entregá-lo no prazo, de ser aceito. Pouco sei acerca de qualquer coisa, incluindo a publicação e o pouco que sei também não ajuda muito. Então me refugio na beleza das mulheres. Espanholas agora. Quero dizer madrilenas. Irão me ignorar desde Atocha até a manhã do dia seguinte. A estrangeira não e de certo modo as representa, as

mulheres e a Espanha. Me percebe. Me entende? Seria querer demais. Mas se põe bonita e disposta para tomar café no bar onde estou após me despedir de meus novos amigos (não sei posso chama-los assim, mas não vem ao caso). Alguma coisa em sua noite, na noite de Oleana, parece não ter dado certo, parece ter sido uma noite difícil, como a minha própria noite anterior em Lisboa. Sei que você vai se dar bem, dirá antes de dormir, nunca li nada tão bem escrito. Pode ser, como diria o pai de Mario. Mas vou me dar bem sim, penso ao deixar a casa dela e entrar em Madrid. Esse tipo de pensamento positivo que nunca deu certo comigo. Estou na rua agora, procurando um telefone. Levo uma bengalada, era o que me faltava. Tenho brancos. Em que mês estamos? Sequer posso perguntar. O que resta? Caminhar, caminhar.

Massa de bolo nos dentes. Nastácia no tailleur crepe em abotoamento duplo, decotado em V para afinar a silhueta (reclamava estar engordando, eram os doces) e saia com detalhes em seda no debrum e listras que deveriam disfarçar o avantajado dos quadris. Sapatilhas de camurça. Caminhos molhados, clarões. Um dois três oito. Reflexos de vidro e água. Andrei caminha, cheio de pose, como se possível fora sair de si mesmo. Ao contrário. Esse ser exterior vai se afastando do que deveria ser ele, pequeno mais inteiro, que deveria ser a sua expressão – uma escrita não rebuscada e difícil apenas na medida da diferença na qual acredita. Impossível porém não pensar na normalidade feliz, autenticamente feliz, depois de Miguel e Andréa e de seus próprios sonhos antigos de normalidade junto a Rachel. Mas se tem uma missão, seja lá o que isso signifique, relevo então seus erros, principalmente em relação a Nastácia. O blazer enrugado sobre a camisa de viscose nova lhe dá segurança assim como a

calça de veludo molhado. Em seus olhos vaidades primordiais não pela perspectiva de escrever um romance mas por estar na cidade das maiores agências literárias. Barcelona. Sagrada Família. Atarazanas. Ansiosa, a mulher rói uma unha, subitamente pára, não sabe bem se é amor, se paixão, ou até sentimento maternal, ele é tão carente, que tipo de culpa era a sua, que era isso o que sentia? Sentia saudades dos primeiros tempos do casamento, quase podia dizer que sentia saudades de Nápoles, aquela outra, de um tempo atrás. Teria talvez sido diferente se houvesse recusado aquela carona? Talvez, mas não tinha certeza, era tipo da coisa que, se tem de acontecer de determinada maneira, acontece. Atravessando a cidade na diagonal, em uma ou duas casas discerne rostos sonhadores à janela. Ah, pensou a jovem sonhadora, quanto desejaria estar longe dali, porque ali passara a infância e ali a adolescência.

A felicidade, a vaga felicidade que para ele se torna a avenida, é a de saber que pode caminhar para os quatro cantos da cidade em seu blazer e não seria reconhecido. Nunca antes viu Nastácia roer as unhas. Engraçado. A mulher que ele imaginava às vezes parece morta, se é que viveu um dia. Estranho. A Nastácia virgem, adolescente, nesses momentos lhe aparecia, e chegava a doer seu coração ao pensar que, ainda que fosse verdade, ainda que essa que o amava mantivesse a alma da outra, não faria qualquer diferença, em sentido faria diferença alguma. Não é nada engraçado se sentir assim, adúltera, e por que se sentia? Não fora ele o primeiro. Mas fora o primeiro a mexer com os sentimentos dela, seria isso? O adultério se consuma mesmo no coração? Feliz e infeliz. Feliz e infeliz pela impossibilidade de ser surpreendido por um rosto

conhecido, por uma testemunha do passado, seu insípido e louco passado pelas ruas do Rio de Janeiro, pelas redações, pelos crepúsculos de Ribeirão Preto, pelas lavouras do sul de Minas. Plaça de Ciutadella. Ela pensa. Quando ele me olha assim, acho que deseja estar só.

Ele planeja – ela até dá a impressão de pressentir – um passeio sozinho no dia seguinte, por vagos sonhos de libertadores inesperados. Jerez. Quando voltar, pensa, irei tocá-la com mãos amantes não presentes, inúteis de um desejo encomendado. Vê na jovem à janela a si mesmo, imagina que espere alguém sincero, cheio de boas intenções, que a faça rir, idealista, trabalhador. Um homem assim não existe, pensa a moça ao deixar a janela; no movimento cai uma migalha do sanduíche. Então, na busca do night-club onde deveriam esperar Miguel e Andréa, havia perdido toda a vontade de escrever o livro que Nastácia se dispusera a patrocinar. Se convenceu ao longo da caminhada de que a salvação não chegaria inesperadamente. Necessitava esperar em alguma coisa que a pudesse trazer. Carrer dels Escudellers. Porque não existe um livro bem ou mal escrito, mas cujo conteúdo foi bem ou mal expresso, fiel ou não a uma idéia anterior. Do outro lado, surge a entrada do zoológico. Uma pena não dar uma volta em Barceloneta, lamentou Nastácia e decidiu que antes deviam comer algo. Deve ser o haxixe da viagem. Silêncio agora. O casal, a noite nascendo, os bares. Um cão ladra, insistente. Paz nos vidros de cada entrada, frágil como a rosa oferecida a uma criança doente. O casal descendo pela rua Granada, satisfeitos por causa do alimento. Dilemas substituídos por omelete.

No dia seguinte ele acordou antes de todos e saiu. Obras das olimpíadas. Respira fundo sentado na cerâmica. Mirador e casa rosa. Barcelona lá embaixo. Aproveite o dia. O rapaz com a mochila faz com que se lembre. Tinha pensado em ir até a estação. O burburinho soa como jazz. Ele pensara, bem, é a cidade de Balcells, de Karina, nem precisava tanto mas sabe-se lá, havia alguns contos na mochila, e é a capital dos escritores sul-americanos. O vidro nas estruturas metálicas devolve o movimento das locomotivas, vagões e pessoas nas plataformas; e contém mais, reflexos essenciais e invisíveis, assim como a torre da igreja guarda não apenas o sino mas a aura inteira das badaladas, e as cintilações nas águas refletem a tarde e também todo o universo pessoal mais amplo que o mundo em que se desenrola a História.

Nove horas. A partida para Austerlitz. A possibilidade de estar num daqueles vagões. Um contato casual por uma bagagem que cai. Gentileza de cavalheiro. Um convite. Parece uma ilustração de enciclopédia antiga, santas antes da canonização quando ainda eram filhas de camponeses, pastoras. Todavia o pai é um homem de negócios moderno, influente editor que me abrirá as portas de seu mundo. Nem era fantasia pura. Andrei tivera um editor assim quando dos livros de bolso e Blandine era mais ou menos assim – tênue, tênue separação, varandas, reis e camponeses. Nove horas. A partida, a possibilidade de estar num daqueles vagões, quase genro de seu editor. Não acredita portanto que tenha qualquer talento. Não tem qualquer ilusão, se deve desistir de escrever. ¿Por qué él mira asi? Sandra Espaldera Frightene pega a foto do rapaz na valise, aperta-a contra o peito. Pensa na noite anterior. O que acontecera? Dera sua vida por aquele relacionamento! Entregara-se sem posse, ciúme algum.

¿Y no lo nota esta pobrecita al lado de él? Homens... Mas no fundo se culpa, não
fora capaz de segurar o seu amor, só chamava a atenção de caras comprometidos.

Avinguda del Marquès de l'Argentera. A felicidade enfim nas pequenas
coisas. A doce catalã que lhe seria dada em matrimônio, seus dias de trabalho no moderníssimo 386 na casa deles em Bilbao, a perspectiva de filhos bondosos e companheiros, orgulhosos dos pais. Com destino a Paris, o pendular silencioso das 9 e 25, famoso por seu vagão-restaurante. Naquele horário estariam jantando na casa de Miguel e Andréa e súbito desesperou de fantasiar, do que foi salvo pela morena que desceu do Genebra-Barcelona, de corpinho e saiote, uma franja quase cobria seus olhos amendoados na segunda plataforma, com ares humanos e gélidos, blocos de gelo no mar, na noite, vida se arrojando nos campos onde a treva floresce ao longo de trilhos e estradas. A tristeza das pequenas coisas. Saindo da estação chamada, salvo erro, França, reconheceu como seu único lugar o não-aqui, em meio à dança na praça; pediu a Deus por seus desejos e ao pintor nos Capuchinos uma passa após a qual seguiu por Estúdios. Subiu. Havia se registrado, na passagem pela catedral, numa hospedaria na rua da marina, à espera do milagre. Mas nem trouxe os originais consigo para o caso. Miguel dera a chave de casa, ele a colocou num chaveiro comprado ao lado da hospedaria e vinha girando-o no indicador pelas Ramblas. Aconteceu então. Foge do controle, voa e cai numa cadeira. Foi apanhar rindo, por efeito do haxixe. Um trem ao acaso nos subterrâneos. A depressão após a euforia dá para se tocar. Vaivém do porto. Todos são ele e, pensa, sou as roliças vendedoras de

peixe cuja Barceloneta ancestral se volatiliza no trecho de carona. O velho reclama da prosperidade, da unificação européia, da unificação espanhola, um absurdo, não quer mais ouvir falar em mercado. No final das contas, prevalecerá a singeleza da questão do indivíduo e não o complexo contexto econômico. Entende? Eu não entendia. Talvez antes exista o progresso tecnológico e tudo se resuma em que para muito crescimento da economia e progresso da ciência não corresponda corretamente um benefício social. Ele me olhou e não sei em que momento deixou de ser um catalão e eu um estrangeiro a quem pregava. Condoei-vos dele, todos os que estais em redor dele e todos os sabeis o seu nome, dizei: Como se quebrou a vara forte, o cajado formoso!

Mais uma vez. Mergulha nas ruas de Barcelona após ter concordado em que Nastácia e ele teriam um adeus (provisório, ela espera) num concurso de equitação na Catalunha. Tiraram fotos uma tarde inteira. Encontraram Miguel e pegaram a estrada. Pernoitaram em Logroño. Rachel, flor das mais doces recordações. Barcelona. Andréa fazendo bolo, Andrei e Nastácia saindo para novas fotos, ele saindo sozinho e agora voltando de carona. À tarde, nos cavalos. O que o fascina afinal nessa gente afetada e o leva até a ter gosto em tal convivência? Que droga de sucesso é esse que depende tanto do muito falar quanto do dinheiro? Se vestiu direitinho para a ocasião, até passava por um deles. O lugar era fora da cidade. O resto do dia foi passado entre a borracha negra com areia dos picadeiros e os boxes. Frágil relação. Relação sem futuro. Breve ilusão que assume um lugar de realidade no tempo. Subitamente, como se afinal percebesse o óbvio, o coração dela dói por

ambos. Ali o seu amor, talvez, com a certeza tardia e todo tipo de vicissitude peculiar a casos assim. Sim, estava apaixonada. E de que adiantava? Ele não era alguém para se amar ao longo de uma vida. E se o futuro dele era sombrio, o dela naturalmente o seguia. Encontraram-se tarde demais. Tarde demais?, pensou ele ao fazer a cama de Girl, cama que no dia seguinte também levantaria. Deu-lhe a mistura de cenoura e cevada. Escovada, dá show no treinamento sob a rédea firme de sua dona, espora atrás da cilha, trote diagonal. Aproxima-se do obstáculo, estende e alonga a coluna para frente ao intuir a intensidade do esforço. Cabelos lançados para trás, Nastácia sofreou o animal e desceu, levando-o para o boxe. Anoitece no bridão e no freio. Ele o acarinha, acarinha Girl, que puxa sua camisa. Nastácia rindo lhe dá o digestivo, mas é um riso nervoso, ela não sabe o que fazer, não sabe mais o que fazer. Estava chegando a hora e não havia mais o que fazer. Deveria apenas acompanhá-lo à estação e cada um ir para seu lado. Dizer que foi um erro. Ou ao contrário cair em seus braços? Nem uma coisa nem outra. Sobreviveriam. Sempre se sobrevive, a tudo, e tudo se fará necessário para uma melhora adiante, necessário como a chama no bastão de incenso, tanto quanto o próprio incenso. Estamos falando de crises pessoais, o que são diante do que passa o mundo nesse fim de século, pensa Andrei, do que passou o planeta ao longo do século – duas guerras mundiais, catástrofes naturais, fome? Ao lado desse sofrimento coletivo, o que é uma dor de amor? Existe uma dor de amor (donde existirá portanto o amor)? Necessários foram um para o outro; ela o ajudou materialmente; por meio dele, ela pode enfim, seja, amar de verdade, sofrer por amor e sentir saudade, tanto do amor quanto da segurança na falta de amor que para trás deixara, não, não a poderia deixar, pensa, acabou, graças

a Deus tudo acabou, uma aventura, como tinha que ser. Tudo assim transformado num final de semana da alta burguesia adquire contudo a face do adeus que segunda-feira dariam um ao outro, quando ela voltasse a Nápoles e ele a Lisboa.

No torneio de hipismo, ele não pode se expor demais, pela provável presença de amigos de Franco, o que acrescenta esse outro clima à face do adeus. Eu não sei, Nastácia, se poderia ter sido diferente, numa outra época, realmente não sei. Ela encarna alguma coisa do Maio, um intercâmbio entre corpo e teoria política. É, você tinha isso, chegará a lembrar após se separarem. O poder do corpo era a imaginação no poder. Mais algumas semanas e passaria o Natal sozinho talvez e, se já conhecesse Oleana, pensaria em encontrá-la – como um dia ela irá sugerir – em Amsterdã. Natais solitários como sempre, antes e depois de Blandine. Não dá para crer que sobreviverá ao inverno europeu praticamente no relento. Então o jovem que se julgava velho demais retornou no tempo e aproximou-se da velha praça de Piumhi onde espreitava um olhar antigo e marmóreo flagelado pelas quadras desencantadas onde as pedras da Baixa extrapolaram os monumentos e os sons dos pássaros pousados nos cavalos de pedra abandonaram os cânticos da época sem contudo tornarem-se anacrônicos ou insípidos. Não seria tempo de uma nova canção de natal?

O rapaz que a atraiu, a beleza dele perdurou o tempo exato que seus olhos levaram para se acostumar e agora Blandine se refugia no quarto de Bruna

como costuma fazer quando entra em pânico ao olhar aquele redor estranho e hostil dos telhados e casario, a Iugoslávia além do mar, daquele estranho mar. Em Trieste não se sentia alguém, sequer em algum lugar, estrangeira num outro mundo, numa condição para a qual não estava preparada, que tipo de natal passaria ali, depois de ter sido mãe?

Abril. Ou já será maio de 1988? Que dia é hoje? A noite desceu sobre Madrid e ele é fim, louco sob a chuva, precisando desesperadamente encontrar alguém que lhe seja referência, testemunho do que é, do que fez, do tempo que gastou fazendo, que elucide fatos sobre os quais hesita. Mas quem poderia ser, se chegara a Lisboa após as provas de equitação há muitos (quantos?) dias, sozinho, e sozinho ficava horas a fio na pensão onde alugara o quarto a tentar em vão sair do primeiro capitulo do romance, circulando nos intervalos com a caneta vermelha os anúncios do Diário de Noticias e indo sozinho a redações e editoras receber padronizados nãos e sozinho viera a Madrid no dia em que recebeu o postal e sozinho... – Não... o breve período no Campo Pequeno... – não não... – com Nastácia, alguém num café, um espanhol – sim, uma revista espanhola, um poema... a noite madrilena. Havia um postal. Deve estar junto com o de Kleber. Onde os pusera? Os bolsos. Não neste. Nem aqui. Noche. Madrid. Ele passa pelas jovens, os olhos perdidos. Deusas? O tecido das roupas, os perfumes que usam, a casa diante da qual subitamente parado sonha. Contempla-as ainda quando as perde de vista em

coisas diversas – carros, muros, postes, janelas. Uma pergunta algo à outra. Viu os olhos dele, tão arregalados? Decerto está drogado. Resta a etérea imagem dum vestido florido, o aroma da alfazema se confundindo com a casa azul. Diante da qual. E sobre a lâmpada do poste, rodeada de mariposas, o céu era azul escuro, quase negro, como os olhos de... Deus!... O postal da noite ajuda mas não é suficiente. Precisava de alguém, referente a si mesmo, dentro da noite madrilena. Precisava de
– Andrei?

Depois da exclamação de Mario, Isabelle apenas sussurra. Que cara... Passos na rua fria e áspera pungentes acompanham o pulsar do coração desgastado que ele escuta sofisticadamente sofredor em pés álgidos mal sustentando as pernas trêmulas. Na rua General Margallo, encontra-os em meio à neblina. Um pouco antes, quis saber as horas. Talvez pela chuva, o mostrador se apagara. Súbito sono fez com que seu rosto cambaleasse num movimento restaurador de imagens oníricas recentes embora não fosse um sonho, nem alucinação, não era. Até porque os sonhos e as alucinações tem uma fonte que é naturalmente real e ninguém pode acreditar na pureza absoluta desse tipo de imagens. Ninguém sabe sobre isso. A questão não era essa mas, afinal de contas, há quanto tempo, onde, com quem, quem, o quê? Quis voltar para casa, como se tivesse uma. Perder vislumbres e recuperar a sanidade. Por outro lado, havia um distanciamento, uma dissolução da saudade e da dor sem seqüela aparente, como abstinência de droga cuja síndrome está ultrapassando os dias críticos – de resto sem qualquer aparência – e nem a fome ou a consciência do relento seriam suficientes, pensou, para determinar uma contemplação perfeitamente isenta e silenciosa do próprio sofrimento com a questão: ele

permitiria ou não que aquelas luzes da cidade se harmonizassem com uma impossível lembrança da lâmpada refletida branca no braço de Blandine apoiado no sofá da sala em Piumhi e a resposta estava no eco do chamamento de seu nome através daquela voz conhecida – há dois dias! há dois dias! Voltara! Mario, Isabelle, o postal... Os anjos ainda velam.

Então perguntaram se ele já havia apresentado a matéria. A matéria? Maio de 68, não é? Ah. Não entregara. Deixou para amanhã. Um carro passou chiando no asfalto molhado. Será que haverá alguém lá num sábado? Ar molhado na avenida, tênis emborrachados na calçada, sapatos martelam ao fundo das vozes enrouquecidas. Ele diz que o endereço do espanhol podia ser também a sua casa, como quando tive minha própria revista. E que tal, diz Isabelle, irmos agora? Na aberta das nuvens, raios de Oleana, como o texto de um escritor irregular alterna trechos geniais e medíocres. Agora ela era sua beleza e genialidade. Nasceu no café da manhã no bar, acalmou-o, deixou-o ser e ficou lá adormecida, pensou, sonhando talvez comigo, gostaria de pensar. Sim, deveriam ir. Mas ele não terminara. Não digitou. E o tamanho? Conforme pediram, assegurou. Iriam com ele? Sorriram. Claro que sim. Assim seu trabalho foi salvo e entregue, e receberia o pagamento.

Defronte do prédio do editor, olhavam para Andrei. Gostavam dele de verdade, pensou o casal quase simultaneamente. Mais que isso, Mario acreditava em seu sucesso, gostava da sua escrita. Ele porém precisava achar a correspondência na forma de viver. Lentamente, a lâmpada se acende sobre eles, e Isabelle percebe o tremor em suas mãos, nas mãos do amigo. Problemas de abstinência sim mas algo além, ligado mais ao caráter que aos nervos, talvez à timidez, e sem duvida à má alimentação. Que magreza... Sem dúvida é também o começo da decadência física. O céu pesado contrasta com a lâmpada. Lá dentro, enquanto Andrei e o editor acertam, o casal troca baixinho essas impressões. Havia algo trágico em sua figura – ao observar isso, Mario tocou os lábios de Isabelle com a ponta de dois dedos. Se o amor existe, ali estava – ou o que, não fosse isso, seria o amor? Telefona para Oleana. Importa antes a dor que a manutenção de uma mentira. Precisava vê-la, que ela o amasse, e amá-la de verdade – sua mulher forte, independente, sua deusa de lingerie preta na manhã. Precisava. Amor. Embora não soubesse o que fosse. Percebe que não, agora que Nastácia está em sua casa e Blandine na dela, páginas viradas. Precisava. E que isso apague o receio do desencanto. Oleana está acordando. Onde estará esse débil mental cuja decisão agora diz respeito apenas a si mesmo? Importa portanto dar outra chance ao amor, continuar brincando até que o brinquedo se quebre, ou sabe Deus. Precisa. Ver Oleana. O amor dará esperança, ou sua ausência a necessária determinação. Calafrios de amnésia percorrem resquícios do dia de haxixe, amizade, reminiscência, sexo e cozido, e ruas insanas. E a chegada de Oleana. Árvores

floridas na entrada da estação, silêncio reverente, o céu atrás dela, as casas cor amareladas e a voz de Mario ainda ecoando, Andrei sou eu, Andrei pensa, cheio da humildade plena da consciência cultivada de perspectivas como se nada mais tivesse poder de arrancar dele a virtude da novidade daquela consonância. As grossas coxas, saindo majestosas do short verde de cós alto reluzindo à rotação, músculos que sobem e descem, um elevador lúbrico pelas costas das pernas cheias de desejos insepultos. O peso escuro, as gotas no cabelo. Um olhar submerso de Mario pouco sutil ao longo de espaços degustáveis. Horas antes, quando passou a própria Isabelle, quando a viram, de madrugada, houve um olhar semelhante de Mario que agora estava deslocado, Mon Dieu, ele pede mentalmente que ele não estrague tudo, Ne fait pas comme sa, pensa ela, que ele não estragasse tudo s'il vous plaît por tão pouco, mon amour... Andrei Morgado estranha a principio o comportamento do amigo mas não foi uma sensação má, antes de alivio, semelhante a uma canção conhecida na voz de outro cantor, antecedendo as apresentações na mesa de uma festa, Ola, Ola, Que tal? Mario, sorriu. Sedutor? Isabel quer devorar o fígado de Oleana. Ele explica a situação. Pergunta se ela não quer vir junto. Como assim? Para onde? Portugal. Bater apressado de um coração. A noite na lâmpada do poste. Por quanto tempo? Uma semana mais ou menos. Era o tipo de coisa que ela gostava de fazer. Seria ótimo. Estavam de

carro? Não estavam. Oleana esperava desde o inicio que Andrei fizesse um convite desses, afinal morava em Lisboa, mas não quis saber a razão de Mario tê-lo feito, possivelmente por causa dos ridículos acessos de timidez do brasileiro. Mas tudo valia a pena por um bom sexo. Realmente, pensou, valeria a pena prolongar a aventura em Portugal, antes de – Mas no fundo tem receio de deixar Madrid agora e o que foi uma briga de momento, normal entre amantes, se prolongue e venha a dar em separação, isso ela não queria, até porque havia a perspectiva das férias combinadas em Aquitaine, na casa da família de seu namorado.

A saída do trem não tardaria. O suficiente para aproveitarmos um pouco da noite. Na noite há diferença no ar, um clima partilhado de segredo. Aproveitar a noite – a idéia surgira há pouco. A bagagem estava ainda por fazer. Todos estão alertas ao novo mundo que espreita. Andrei certamente. A bagagem não é problema, dá tempo. A bagagem dele, a velha mochila, que bom que ainda tem esse pertence, uma testemunha, que bom ter coisas. Ser e ter, falsa dicotomia! Possuir coisas. Sua Oleana. Será mesmo? Ele acredita. Ela corresponde ao beijo. Depois diz que gostaria muito de ir a um lugarzinho maravilhoso cujo ponto parece que está vendido. Passos na região da Praça de Espanha. Os carros passam e dois casais aparecem nos vidros. Noite plastificada nas poças. Friozinho. Nas vitrines, a roupa de enfermeira e o vestido de noiva, algemas ou a capa dura de um livro, ou ainda caixas da medicação que Claudia tomou em Veneza no auge da crise. Os reflexos são de rostos amorosos, ereções

dissimuladas, coxas luzentes, casas bucólicas, campos eternos, de velas que tanto podem estar em candelabros ou em lápides, sandálias prontas para fugir ou voltarem para casa. As vitrines... Andrei?... Andrei?... A sanidade de um homem que esteve a ponto de perdê-la. Afirma-se, ratifica-se, se diz presente. Por quanto tempo? Escapara, retornara. As luzes de Madrid dizem dele, significando a força de espantos no limite. O trânsito ruge. As luzes de Madrid. O céu é um sentimento. Um novo e derradeiro começo. A lógica do sonho preenche seus passos na noite pela avenida Conde Duque difusa duma substância estranha, de milagres. Ali está. O lugarzinho maravilhoso. Um garçom com cara de índio indicou gentilmente uma mesa e tornou a tocar sua flauta. Precisa servir esses estrangeiros, sem aparentar que isso o incomoda. É como interpretar a canção de um outro. Criar um personagem na releitura. Isso não é ser falso, ele não se considerava. Era antes grato a tantos estrangeiros na noite que possibilitavam a subsitência de seus dias. O som impregna a ordem do infinito entre o tempo e o espaço segundo um entendimento que estivera se aperfeiçoando em Isabelle desde o início do ano letivo, sobretudo após as aulas de Gaston Dujardin uma exceção entre professores apenas preocupados com a recompensa salarial. Do tédio com a perspectiva da escola, ele surgiu; e agora aí está em sua teoria sobre a criação artística e seus significados. Esse tipo de coisa nunca preocupou muito Mario, sempre interessado em usufruir de tudo o mais rápido e retirar eventuais teorias de todo prazer e ficou claro que se comportava corretamente quando, vislumbrando acessibilidade em Oleana, ofertou a música da flauta a si mesmo, para que aureolasse aquele momento mágico (pois não percebeu a ira de Isabelle) que ela já imaginasse como uma nova aventura, permitindo-se portanto

adiar ainda mais o reencontro de seu amor, que nem por isso seria diminuído, evocando talvez contos suecos em que a heroína tem dois ou mais casos antes de entender a supremacia de seu sentimento pelo marido (o caso o namorado), indo assim ao encontro do que se refletia no olhar de Andrei onde não seria impossível discernir o perigo da simples realidade se deslocando em meio a devaneios, desejos, sonhos, vaidade e lascívia, uma realidade, pensou ele, absoluta e, com o correr do tempo, insuportável, talvez mesmo depois que tivessem consumidos as cervejas sobre a mesa. Restava o fato de ter sido a última vez que Andrei bebeu bebida alcoólica. Isso ele não precisava entender. Era assim. Um futuro abstêmio, se nisso há virtude. Todavia o futuro carregaria também o elo que ele foi entre Miguel e Oleana, e Isabelle teria naturalmente preferido que o acaso não determinasse o reencontro com aquele desagradável acessório em que Oleana se consistia, a intrusa. Por que ele não afirmara o amor dele por Blandine na noite anterior? Entretanto, ainda assim Isabelle não conseguiu se aborrecer com ele. Voltou a sorrir. Disse que agora que ele recebera o pagamento, as coisas ficariam bem. Cedo ou tarde, pensou, essa vagabunda o deixará em paz. Foi a ultima vez que Andrei bebeu bebida alcoólica. Isabelle entre as mesas, parece tensa, musa subitamente encurralada. Não o são todas em algum momento se o cara é um sedutor? Uma luz que vem da rua, olha só, a lua revestida de música. O sorriso de Isabelle, terno mais que irônico – a mulher do amigo. Paredes de madeira, janelas sem vidro; no olhar, não nas coisas, a diferença. O corpo, o céu, a música: compreensão para quem esteve à beira da loucura é um luxo. Quando pegou o relógio percebe que voltara a funcionar. Oleana fala. Você esqueceu papéis em minha casa. Mario sorri malicioso,

naturalmente pensa em cocaína, no final das contas é bem tolo para o grande amigo que Andrei pensava ter achado. Eram dois cadernos e papéis soltos, não é bem que deixou, ele iria voltar. Nesse momento quer falar sobre a perturbação mental mas não sente essa liberdade, pensa que não me sente tão à vontade assim. Lá fora o cenário são transformações de luz em torno de possibilidades. Queria que continuassem os quatro juntos. Volte então, volte um dia.

Hombres ridiculos, pensa Oleana, o olhar de Mario em seu colo, really ridiculous um colo pálido desnudo ainda mais desnudado por olhos muito
vermelhos. A mão segura o copo sem anéis nos dedos culminando em unhas retas e rentes: Isabelle bebe um grande gole e estremece, seus braços tremem, se arrepia. São poemas, sabe, Isabelle, diz Oleana, e anotações para uma outra matéria, acrescenta Andrei, inclusive as notas que estavam no colo dele quando se conheceram no metro e agora já se transformaram no artigo pronto. Ele tem talento, responde Isabelle; você não acha? Mais ou menos, zomba Mario, sugerindo erros gramaticais assim como na pronúncia. O pêndulo no espelho. O filme da vida. Olhares. Pés cutucados com força debaixo da mesa e o sutil sorriso de Oleana. Fortalecido. Riram. Imperceptivelmente, não o bastante, Isabelle baixa a cabeça, também ocultando um ricto, satisfeita. Estava amando, voyez, um cara conhecido ainda ontem, qui?, e nem era assim tão bonito, quase diria nem possuía atributos para chamar a atenção de um a mulher, mais je ne suis

pas vraiment une femme.
Há ainda meninas de dezenove anos no mundo.

No que percebeu a resistência de Isabelle à sua presença, Oleana passou

a sorrir um pouco menos à vontade, o que a fez um pouco menos nociva perante os olhos da outra, mas não o bastante para tornar o ambiente agradável, no que Andrei tentou interferir perguntando o que ela fazia quando ele ligou. Ele a tirara da cama, respondeu ela. Sim, e subitamente e, com alguma dificuldade residual, o dia não ensombrara o pássaro na hora do encantamento. Tirou-me da cama, concluiu, mas nada que não pudesse ser consertado. O trem para Lisboa tem cabinas muito confortáveis... Amainados pela sétima cerveja, a raça humana se resume aos quatro, e cantavam um canto alegre e tranqüilo. Por quanto tempo? Cantemos, envolvidos pelos druidas saídos da mágica de uma flauta. Há estrelas no céu. É dos ultimo dias bonitos de uma época de certo modo tranqüila, salvo é claro o reencontro, que de algum modo estava também ali, como esperança ou talvez medo, porque afinal Blandine ainda era a razão de ser da sobrevivência de Andrei, adormecida no sonho da vida, que não passa mesmo de uma longa e estranha canção.

Cochilando no trem, regressou a seu principio, ao primeiro poema europeu, o inicio do livro. Começa dali, a caminhar errante pelas ruas da Luanda dos embondeiros e palmeiras ao vento. Retornará em prosa a seus poemas, se tiver alento para tanto, e será um tipo de terapia nos meses seguintes, mais do que o aspecto redentor da literatura, se isso existe. Estrutura de romance. Segue com a poesia sobre os negros falando português com sotaque e o seguinte, escrito no avião para Paris, sobre o submundo do Campo Pequeno. Depois as ruas, praças e metrô parisiense, metáfora dos anos sessenta, culminando com os versos sobre Jim Morrison sepulto. Naturalmente, vinte anos há vinte anos e por

aí. Amanhece. Na descida em Santa Apolônia, de onde há uma semana tomara o trem para Madrid, está com uma mochila nova, e por que parece também um lugar diferente? Mais amplo, é uma estação bonita. De algum modo você começou uma nova vida quando entrou naquele trem. Olha para Mario: tem de certificar-se de que ele fala a sério. Na noite de sábado, em Madrid ainda, pernoitaram altos de flauta e cerveja, no apartamento de Oleana, amigos, Isabelle e Mario no sofá aberto. Acordam famintos e tomam um belo café da manhã na própria estação, onde as passagens foram compradas. Ficam à espera do horário nas imediações das praças do Sol e Maior. Chegam em Portugal quando o domingo declina. Defronte do Museu Militar, decidiram comer alguma coisa e àquela nova fome veio se juntar um desejo de silêncio. Como assim? Que coisa mais estranha e idiota, pensa Oleana; são realmente estúpidos e chatos. Apanharam as mochilas no chão e seguiram pelas ruas da Baixa. No paladar, bicas e bolas de creme. Por um momento há a aproximação úmida pela rua Santarém, incluídos no espaço-tempo português pela aura das roupas pétreas de São José. A primavera se aproxima do verão e o frio esmaece numa brisa que quase podia ser interrompida com a palma das mãos. Somos nós, pensa Andrei. Isabelle é causa de algo próximo da angústia, alguma coisa bela e dolorosa, ao afivelar as sandálias em frente ao correio na Praça do Município. Ele não sabe o que é isso; se não está ligada a sexo, que tipo de sensualidade é? Eram dedos rechonchudos com unhas arredondadas mas também cortadas

rente. Os pezinhos, ligeiramente inchados, despem-na de seus segredos. E ainda que ele não o desejasse, que não o esperasse, ao desviar o olhar para a fachada da posta-restante, perde-me em recordações, lutando contra com a intensidade estética de seu coração. O maléolo lateral, com jeito de cúpula, seguia na linha que levava às pequenas rugas da sola rósea na sandália em toda a extensão ao longo da qual iria nascer como uma frutinha o dedo mínimo.

Dieu de pitiés... Esse jeito com que ele olha, a um tempo lascivo e ingênuo,
todos os detalhes da gente... Vê-se que não faz por mal mas ainda assim... Ela olha a própria perna dobrada, formigando quase, e mexe os dedos, todos juntos primeiro, depois um a um, lentamente. De algum modo, pressente. O quê? Olha nos olhos dele, sem cobrança ou desafio, mas os olhos já deixaram o seu pé, então naqueles olhos Isabelle vê a mãe. Oleana não sente nada por ele non,

certainement non e lembra como sua mãe foi abandonada pelo marido Elle ne l'aime pas lui. Desvia o olhar para a sueca e vê o padrasto, aquele canalha.
Poderia matá-lo se voltasse, decerto o mataria se o tornasse a encontrar. Mas sua mãe o amou tanto (como podia?). Então não sabia mais se o mataria, não sabia mais de nada. Foi um tipo de choque, não algo mau, quando seus olhares se cruzaram num átimo, como se houvessem surpreendido os pensamentos um do outro, mas não havia razão para se envergonharem, mesmo que o olhar de Andrei estivesse havia pouco passeando por um pedaço frágil de céu cor da pele entre o cós da saia e o início da blusa azul-clara – como se ali houvesse uma alma – e o dela saindo da boca lânguida de sua mãe apaixonada (lábios carnudos, serão os dele femininos ou masculinos os da mãe?), e um ao outro velaram, e quase ela foi encontrá-lo nessa outra dimensão sem segredos. Gostaria de tê-lo como

confidente, falar de amores súbitos, de ciúmes até então desconhecidos, sobretudo de receios, receios de perda – porque encontrara – Um confidente confiável porque os olhares indiscretos podem ser antes murmúrio da intimidade franca possível entre amigos de sexos diferentes. Quando por fim o corpo de Isabelle se integrou à paisagem em meio ao odor de rio em nuances cintiladas, ruídos monótonos de marolas e batidas de barco na beira do cais, a luz ofuscou a imagem de Andrei, com o que o momento passa, passa o sonho, e acordam no momento em que o cacilheiro range e a gaivota grita e seu corpo grita, e ali estão os três, Mario, Andrei e Oleana, à sombra da estátua, agora com uns dez graus menos de inclinação, proporcionalmente acompanhada pelas sombras de cada um. Passando pela posta-restante, ele ouviu na gaivota a respiração de Claudia, nos signos de sua carta junto a seu coração, em algumas passagens de espontaneidade ofegante, noutras pausadas de cálculo, rascunhada; intuiu a lentidão com que desenhara certos trechos e os cobria e recobria com a esferográfica, num negrito artesanal, e a velocidade de um pensamento por demais caótico para ser adequadamente expresso, ao menos expresso por meio de uma única tentativa nítida, sob um longo suspiro, atropelamento, vontade de dizer pela censura de si mesma recusada ¿De quien esta carta es? Ele tirou o envelope do alcance de Oleana quando ela tentou apanhá-lo, encostando a blusa macia e mais macia ao ser pressionada, e ela sentiu, com certa admiração, que o homem a quem desprezava possuía muita força nas mãos e, mais admirada ainda, que não procurasse se aproveitar do momento, antes afastando-a decididamente, e não insistiu mais, dizendo que tudo bem, tudo bem, é um direito seu, todo mundo tem seus segredos. Antes de devolver a

carta ao bolso, ele mirou um parágrafo que tão somente pela disposição no restante do texto o fez recordar que era uma passagem descaracterizada, como se ali a letra corrompesse a escrita. Após testar a esferográfica no canto baixo da folha onde a marca inicialmente borrada permanecerá soltando partículas invisíveis de um azul corrompido, Claudia havia erguido a igreja de Muggia nas primeiras palavras da carta que seguiu levantando agora um bosque agora um hotel agora o metal luzente de um carro de polícia. Ela julga que não está inspirada, Io sono così

stanco. Nem sabia se devia estar escrevendo para ele, mas no futuro fará
diferença, acredita, será um registro. De resto, era-lhe tão grata!... Ma che noia. Era uma troca cruel, o efeito pelo tédio, e mais cruel precisar do efeito para não ficar entediada. Bene, bene. Escreve. “Na noite a chuva, e na chuva as lembranças. E, nas lembranças da chuva, traços que se juntam e desenham teu rosto”. O que é a vida? Não sabe se deve falar mais de Antonio. Sabe que não deve dizer nada que lhe dê esperança. Sobretudo não sabe acerca de Massimo. Estava livre, agora que o noivado fora rompido? Fora rompido? Os raios de sol reescrevem sentenças eletrificadas sobre a cabeça de Andrei, e as frases correm todas na direção do epílogo. Os cacilheiros, os correios, o Tejo, talvez as tágides – interlocutores últimos após a abstinência, quando passasse por ali mais tarde com Nastácia, sublime e sonoroso. Então não sabia que era um impasse. Não há como ser um escritor de qualidade com experiência de vida porque ou se está vivendo e tendo experiências ou se está na frente de um papel construindo frases. Em um sentido importante são coisas excludentes. Por definição um bom escritor é alguém sem maior experiência de vida e alguém experiente jamais será um bom escritor, pelo menos num nível

importante da prática, do viver portanto, e também da teoria, dum outro tipo de viver, talvez não menos importante, mas obstáculo definitivo no tempo. São dois momentos. Quando a experiência acontece e quando a recordação a vivencia. São dois momentos? Baseados, a viagem, um registro rascunhado, mais tarde a melhor expressão. ¿Quién sabe, hombre? Acendem outro. Give me light? Lépida Oleana com seu lépido isqueiro. Fiat lux! Vira-se para Isabelle e pergunta se está tudo bem. Ofegando castanha pela Garret, como todas as coisas iam bem quando o sorriso de Isabelle se abria... Mario está feliz, não se agüentava de tanta felicidade, o que significava num tipo de eufemismo pactuado que não via a hora de chegar num hotel, ele era muito criativo nessa espécie de coisa, muito hábil com as mulheres, um perfeito egocêntrico como Andrei mesmo não queria se reconhecer. Sentaramse sob a estátua em frente ao consulado brasileiro. Parece bem cansado para tão propalada energia. Descansemos. Lera em algum lugar sobre certas pílulas, mas não cria que estivessem disponíveis. Perguntou se ainda faltava muito. Nada: tá pertinho. As ruas da Baixa antigas e simpáticas com suas paredes escuras, manchadas, sujas, descascando. Fumaça de cigarro se misturando à das refeições de restaurantes vizinhos, sala-de-jantar para Andrei durante tanto tempo. Uma pensão de fato quase imperial, um hotel na avenida que fora, ela própria, praticamente um hotel para ele. Meu Deus, já estamos em maio, pensou. Há vinte anos mesmo... Som brasileiro nalguns pubs, fado em tascas que cheiram a cerveja e cigarro artesanal onde estaria inconformado por ser tão tímido, logo ali o Bairro Alto, tímido e nervoso por não conseguir se manter quieto, falo demais – pensa

– e sobretudo me deixo demais levar pelas asas da minha dor. Belos dias, apesar de tudo, nos quais conseguia sobrelevar a si mesmo enquanto as pessoas passavam e agora Oleana, depois de dar fogo para um segundo grupo, ao terceiro se negou. Chiado. Olha a pombinha rodando nas pedras do café. Que sensação é essa?

No hotel. Após um banho, saíram. Estão procurando um alemão que conheceram no trem. É para pegar a chave de seu trailer num camping. Quando o frescor dos corpos logo fica comprometido pela nova caminhada, voltam pela escadaria esbarrando em copas muito verdes e baixas num farfalhar suave, imperceptível exceto para certos sentidos de haxixe. Na estação do Rossio, cujo horário mais nobre o brasileiro integrou duas ou três vezes por semana na época de Filomena, ali, entre réstias de luminosidade que atravessavam os telhados além dos trilhos e batiam douradas na parede úmida dos sanitários, juntando-se aos passageiros com destino a Aveiros e Óbidos, dobram à esquerda e continuam descendo, imersos em si mesmos, passando uma impressão de blasé (mas estão apenas cansados), ansiosos pela tal chave. O que importa agora é descansar um pouco. A necessidade cria importâncias, mas chega um momento em que necessidade é simplesmente necessidade. Andrei Morgado está particularmente ansioso pelo mar sempre lhe bastou como felicidade. Ao atravessarem a Liberdade à altura do obelisco, pairou uma aura como se fosse revelação. Isabelle está tão, não sabe dizer exatamente, como que angustiada, como se algo a tivesse feito sentir todo o peso do mundo, está mesmo muito cansada. Haverá um consolo no final, uma redentora introspecção que dê sentido a essas impressões?

Andrei e Isabelle desconfiavam que em circunstâncias diferentes teriam vivido intensamente aqueles momentos que agora pareciam exaustivos e quase enfadonhos, agachados e de braços cruzados na plataforma pulsante pelo trem que lhes embaralhou as palavras. Ele não sabe, Isabelle, o que essa angustia pode significar, diria mais adiante; talvez tenha a ver com esse outro Fernando Pessoa – uma escultura ou sabe-se lá o que de ferro retorcido, peça de arte pósmoderna (signifique isso o que significar), a propósito de seu centenário. Efemérides, a isso no final somos todos reduzidos. Oleana pensa o quanto esses dois são complicados, feitos um para o outro, talvez tenha feito mal em rejeitar a paquera do outro. Deixa de ser cínico, disse Mario, puxando a barba do brasileiro, você adoraria ser lembrado assim daqui a cem anos. Io penso come

questo. O próprio fato de escrever acusa os escritores.
Dormiram num hotel em frente ao coliseu, cartazes de Leonard Cohen à janela do saguão e fotos de Rebeca de Mornay nas revistas espalhadas na mesa. Oleana foi desesperadamente amada no 312, sem janela. Ainda escutavam os gemidos delicados de Isabelle através da parede quando adormeceram. Ne me

quitte pas. Mario sorriu docemente fazendo com a cabeça um sinal de que não,
jamais a deixaria.

Agora Andrei tinha quase certeza de que não amava Blandine de modo especial, antes mudavam tanto concepção quanto objeto a cada paixonite das que uma após outra vivenciava. Oleana possuía a vantagem não desprezível de estar agora a seu lado, o que fazia fácil a que ofuscasse qualquer emoção ligada puramente a saudade. Chamava a atenção inclusive que não sentisse qualquer

necessidade de se declarar. Alguma vez se declarara a Oleana, claramente? Não e isso sem dúvida estava entre as causas principais de que ela não o desprezasse inteiramente. Com esses sentimentos estiveram toda a semana no camping, no trailer do alemão. Ele nadou, nadou muito, como se gozasse o velho mar pela ultima vez, partilhando-o com um e outro adepto do windsurfe. Oleana na mercearia escolhe cuidadosamente a marca da massa para o almoço. Comprou uma vez lá em Madrid e gostou muito. Cidade pequena, tudo tão junto nas prateleiras! Aquele molho de tomate, esqueceu o nome. Esquecia também frequentemente o nome de Andrei. Era um faminto. O outro, um sofisticado chefe de cozinha. Seja como for, é o que interessa, o momento presente, hedonismo ou lá o que seja. Agora ele saiu do mar, a luz inunda um mundo esquecido sem protagonistas. Fidelidade seria a renovação da mente contra o século, a vitória do livre arbítrio? Passam dois gajos – Que vento, ó Simão! – e ele se vê a si mesmo nos olhos de Isabelle; depois também o olhar de Mario o espelhou. Pelo menos não estava só. Olhou de cá longe: na calçada, Oleana com as sacolas. Mais um dia. Outra refeição garantida. Quando se afasta a certa distancia, lavado e preservado, vê pontos ao longe, seus amigos e as casas banhadas pela tarde oblíqua incidindo no resultado final do silêncio na duna, cenário da futilidade dos planos e inutilidade das mágoas no tempo presente que a todos absorve e no amor de agora que todos os amores resume, não exatamente no silêncio mas no sopro do vento que não se sabe donde vem e nesse desejo molhado enquanto Oleana passa no alto e sequer olha, luzidia de coxas a tremer firmes em direção do açougue. Não tenho um amor presente, pensa ele, não tenho ausências. A carteira não está comigo.

Ao sair da água pingando, Isabelle embrulha-o na toalha. Atordoado. Uma voz alienígena, naturalmente a dele mesmo. Um discreto sinal afirmativo com a cabeça e uma passa no SG Gigante que Mario coloca em seus lábios, preparado. A praia de São Martinho do Porto sobe para a falésia à esquerda. Acorda-se com o vento grandes expectativas nos amanheceres. Na rua General Carmona ao chegar à Marginal, o azul do céu se escurece na linha do horizonte e se adensa quase ao negrume no mar alto além do formato de um U largo, um estreito, Andrei acredita embora não fosse lá muito bom em geografia, nem sabia se isso era matéria de geografia. O marinheiro observa absorto o salto de um peixe. Entrava na baia junto às rochas, estava de volta enfim, de volta para sua amada. Todas as noites Tâmara da Silva Rego reza pela volta de Joaquim Cunha. A consciência da vida adulta, pensou ele, apenas um jovem de vinte e um anos, essa consciência afasta a perspectiva exata das coisas que tínhamos quando pequenos, deixa em seu lugar como compensação um encanto às vezes assemelhado ao sonho, parte de uma existência menos nossa e por isso com virtudes do que nos parece irreal, espíritos, ou nós sob outra ótica. Esverdeia-se depois o mar nas ondas e logo o branco sobre o verde prevalece. Com efeito, como um efeito, um efeito da luz.

Acreditava Andrei que foi numa quinta feira. Sim. Em uma quinta-feira. Usou a viagem como um pretexto, assim, sem pretensão de enganar, questão talvez de gentileza. Mas queria ficar sozinho, Oleana o cansava e com Mario e Isabelle se sentia demais. Nunca foi seu meu forte dizer coisas desnecessárias, a tal propalada franqueza. Combinou encontrá-los em Lisboa. O tom dos campos oscila no Alentejo entre o verde e azul, filme passando na janela do carrinho

alugado. Um castelo. Campos salpicados de aldeias brancas em seu sentido inquieto por um desejo de Oleana insatisfeito. Compra-lhe um presente em Obidos, uma ânfora típica. Subiu a picada na direção branca num monte e tomou vinho com um velho na porta de sua casa de lilases. Fumaram. Mas logo ficou claro que não era seu destino criar porcos, cultivar oliveiras. Maravilhado com os montes e o mato ocre e brilhante, extasiado com a canção dos pastores a se derramar dos cumes ao infinito, aquele porém não era seu fado. Quem o acordou, nesses locais extraordinários, não possuía a fragmentária sabedoria dos planos de ontem. O deles era apenas um olhar desatento diante do ocaso. “Aqui estamos” não disseram, nem viram os efeitos da luz no detalhe encantado de cada presença. Oleana tampouco sentiu qualquer falta dele ou que o lugar dele na cama estava vazio. Está inquieta de lembranças não dele, não, não dele em absoluto. Em algum momento chega a ouvir uma voz. Não a dele. Não saberá precisar a razão da inquietude. O que é isso? Passos no corredor da pousada; o vento ecoa; é filtrado. São Martinho do Porto – conhecida por esse vento. Este. Que discute com o mar. Prolixo, não frio. A pequena Oleana em 1968 prepara suas coisinhas em Linkoping. Ou na sua noitada adolescente na grande Londres. Mario e Isabelle agora no andar de cima. Onde vocês foram? Pelas ruas do povoado todos acham que é um lindo casalzinho. Romance na noite: a noite em Madrid recuperada. Barcelona juntos passa a ser uma idéia. Oleana adormece. Nunca sonha.

Pegou uma carona naquela mesma noite para o Algarve. Era mesmo muito otimista de achar que ia muito longe num carro alugado. Vai ser bom para mim uma companhia, disse o rapaz, é um caminho cansativo. São quase cinco horas,

tantos quilômetros de distância entre Obidos e Vila Real Santo Antonio. Estou a me sentir o próprio Quixote. Como se chamam aqui? Os moinhos giram, um espetáculo, marionetes na mão de um artista experiente. Nunca nada foi fácil para mim. Uma cara de “dãr”, de Não estou a entender – Acho que esse gajo – Como assim, destino? Andrei muda de assunto, naturalmente. O importante é estar vivo, o importante é ter saúde, o importante é saber de cor todos os clichês, o importante é impedir a extinção do tigre siberiano. Com que então você é um militante ecologista! Ah ele não diria assim... Falemos portanto das águas limpas do Algarve, verdes muito verdes, transparentes, conhece São Martinho do Porto? As falésias lá também – Falemos pois de outras coisas – das marinas lotadas, ele decerto há de ter um barquinho, Ora pois, – das aglomerações das calçadas em Lagos, desse tipo de reflexo laranja que só há em ruas sem carros na Europa – um carrossel na rua? – e, claro, camelôs, mas camelôs de Primeiro Mundo. Mas diga-me: dependerá a memória de uma filmadora? de um carro a locomoção? o mar, do turismo? a luz, de fusíveis? Dependeremos um do outro, Blandine, quando estivermos juntos afinal? Essa coisa das estátuas vivas está mesmo pegando no mundo todo portanto não mais falemos de nada exceto se falarmos de tudo, repare o vento na esplanada, como incomoda os clientes e faz as toalhas tremularem, por isso não quero mais respostas selecionadas. Marionetes – O que será que ele quis dizer? Essas casas brancas introduzem o norte da África. De novo a estrada, bandeiras, uma prancha de surfe, Andrei imagina que seja um restaurante de beira de estrada, é, mas temos pressa, pois não? – É, temos presa, então sigamos, embora eu só saiba de um sono especifico cada vez mais próximo, do haver tanta gente em lugares que não existem, em frente sou a estrada, o sono

que não concilio, a noite que chega. Era ninguém a seu redor em Cacela. Evidencia-se pelo tipo de calçamento e sinalização que estam chegando em algum outro lugar – eu nunca chegarei – Sagres – que luz é aquela no horizonte, é mais que o sol, Lindo não é? – É apavorante Deus meu, apavorante – Vamos nos sentar aqui um pouco, Ah só me falta essa, eu mereço! – Venha – Venta, venta – Portugal, país das falésias – Olha ali – o ser feliz e o sofrimento de que foge, estão também presentes na entrada de Silves, colinas meio romanas meio gregas, talvez sim já africanas – qualquer coisa menos portuguesas – Escuta essa música – Toda a vida é descartável – Mas quem sabe se houver um registro, por que não um livro, um registro, sim, um romance... Convocados homens e gaivotas, toda a idéia desesperada de futuro se agitará num tempo que não será crível por causa do contraste entre as conversas e as ondas que quebram em Burgal. Talvez não seja tão esquisito o conceito de Oleana. Poema é alguma coisa limítrofe. Diz-se nomes e os sons se encarregam do resto. Talvez mais tarde uma pesquisa. Mas há estou certo, pensa Andrei. Uma vida do tamanho da noite nas alamedas do sul, as vozes no cassino em Monte Gordo se percebem junto a um estar face ao mundo que se confunde com prodigiosa poesia. Ele o soube ao escapar pelos interstícios do mundo em Faro assim como soube existir um amanhecer que, à proporção que ele deixava de ser, flui no elo de prata e surge no copo de ouro. O cântaro se enche junto à fonte de Olhão. Na volta para Lisboa não pode evitar no trem a comparação entre Vila Real de Santo Antonio e Piumhi – é mesmo um caso de obsessão. As pilastras, pessoas e postes à janela têm pressa. A composição chacoalha. Está atônito porque qual o seu destino ainda ignora mas, separado

ainda da realidade por densa camada de névoa da praia, a noite aos poucos se desvenda. Olá! Finalmente!... Meus amigos, minha amante, o livro mais firme como projeto cada vez. Planos para o futuro. Copenhague, Amsterdã, Paris de carona num caminhão da TIR. Falavam a respeito quando foi acompanhá-los à estação, no dia da volta deles para a Espanha. Um rosto no burburinho depois que partem. Desculpe. Com licença. Nastácia se aproxima. Viu a ternura do abraço de Isabelle, Mario e Oleana já dentro do vagão. O ritmo da composição cresce, preenche toda a nave da estação. Era mesmo melhor que tudo terminasse ali. Ao relento talvez, passando fome e frio mas livre. E quem ela é que acha que pode aparecer de surpresa e fazer uma cena de ciúme na estação? Perder tudo mas não a liberdade. Que liberdade? Enfim. Pronto para explodir à primeira palavra dos questionamentos de Nastácia, a voz dela se faz ouvir. Querido! Um abraço cheio de lágrimas. Nunca deixara de pensar nele. Em como o conheceu, como o imaginava ao se aproximar para pedir a carona. No cara valente que um dia foi tomar satisfações com o condutor do metrô de Lisboa porque fechou as portas antes que ela tivesse entrado de todo; mas não era esse seu comportamento habitual – e se fosse não seria um inconveniente? Pensava. Na forma como a esperava quando faziam amor. Ou mesmo quando – Estou a me sentir tensa hoje, ela dizia. Não prefere então, Nastácia, deixar para amanhã?

Mas jamais iria ela deixar de querer se aquilo era o remédio de que precisava. No final pensara nele como um salvador, um deus quase, mas para salvador lhe faltava condição financeira. Ou não seria por isso mesmo que o idolatrava e esperava nele como um salvador? – Um deus quase – tanta perfeição! Mas sabia que esse Andrei vivia apenas em sua mente. O que não podia lhe atribuir era a forma exata da salvação que poderia ter ele para sua vida lasciva e enfadonha uma vez que essa informação a mente com que o recordava não possuía. Se Nastácia beijava e abraçava longa e ardentemente a perplexidade dele e seus protestos de amor não se haviam desgastado na ausência, se o que dizia estava expresso em seus olhos, o amor então de fato existia, sobrevivera à distancia; não era capricho mas amor mesmo, desesperado, entristecido por decisões erradas de passado que refletem alguns dos próprios erros de Andrei na vida dum mundo contra toda vida esperada. Ela optou por voltar a Lisboa, por partir – que tipo de desculpa teria dado agora, não a Franco, a si mesma? Crescera sem essa noção de dar satisfações e a miséria de Luanda a fortalecera, nem Deus dá satisfações de coisas tão mais sérias como a guerra, a miséria, permitiu a crueldade colonizadora. Uma menina tão frágil, seus pais nunca entenderam de onde vinha tanto vigor e revolta. Onde agora aquela menina? Constrangido ele soube que não podia mais ficar com ela, pois realmente o amava. Seu bilhete ficou à cabeceira. “Nastácia, não me queira mal, procure me entender; seja feliz, tentarei ser também. Adeus”. A menina frágil permanece dormindo.

Ele Pensa em procurar Bernardo. Telefona para Oleana. Ela acabara de acordar. A voz que escuta é um rio entre mundos. Há em seu sonho muitas pessoas em grupos, apenas ela está sozinha. Fazia há pouco parte de um casal, agora está sozinha. Sente-se doente, tão raro. Não ligava pra essa coisa de estar mal ou bem. Vivia. Mas então por que sonhar assim? Oleana? Sonhar quase como um replay do que naquela noite se passara. Está escutando? A ligação está ruim. Maldita voz. Mas terá sua serventia esse patético. Estoy tan cansada... Parece desanimada, ele diz. Ela responde que tem de entregar as chaves do apartamento. Não menciona detalhes nem são pedidos por ele. Se endireita, esfrega os olhos; pigarreia, decidida. A idéia de viverem com o dinheiro que tinham, aproveitando-o ao máximo e encararem depois as vicissitudes de sua alta, isso caberia bem num escritor despojado buscando vivências, mas partiu dela.

Marcaram na estação do Sodré dali a dois dias. Ele quer evitar Santa Apolônia onde parece haver sempre uma possibilidade de Nastácia. Deus! Ela ficara tão feliz quando o reencontrou ali! Não o culpa por abandoná-la assim. Se fosse solteira... Um caminhão passa em frente ao hotel e os pensamentos se dispersam no vácuo. Acabara de acordar ou é ainda um sonho esse bilhete? A continuação do sonho no qual surge em algum lugar que parece o Brasil, uma praia, e o vê sentado diante do mar, e se aproxima... Não lembrava mais a partir daí. Se fosse solteira, talvez ele até se sentisse bem, à vontade em sua companhia. Embora confuso, o principio da fidelidade está arraigado dentro

dele. Tem é claro de adaptá-lo. Pela religião, traía não Blandine mas a esposa de quem não havia oficialmente me separado embora não a visse havia mais de dez anos. E se Nastácia se fazia adúltera, a Oleana ele tornava adultera ao se fazer adúltero com ela. Vá entender. O pastor subiu ao púlpito. Todos na igreja farão o seu papel. Agora a menção a família. A mulher na primeira fila sente-se vitoriosa, seus dedos agora agarram o anular do companheiro que a abandonara e voltou. Ele que quer se abra um buraco no assoalho para sumir. Tudo muito bem pensado, não há brecha para que sabe lá se um Espírito venha mesmo operar. Agora a coleta. Meu pobre salário, pensa o homem. Eu não sabia que voltar implicaria em tanta coisa sem nada a ver com a volta. Talvez perca o emprego, melhor seria mesmo ter perdido a mulher. Tudo dentro do esperado, pensa Andrei. Um último cântico, uma última oração e todos voltarão para casa do jeito que eram ao virem, ou piores. Talvez exista exceção, ele não lembra de ter conhecido. Para ele, fidelidade e o próprio Deus eram coisas ligadas a Blandine. As caminhadas com ela ao longo do riacho evocavam proximidade de beatitude, eternidade. Não sei mais o que pensar, pensa. Complicado. Os próprios apóstolos o afirmam, que sim, que é muito complicado, sem que o Senhor deles o negue. Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido. Castrar-se a si mesmo para receber o reino dos céus. Criancinhas nem sabem o que é castrar-se.

Na varanda chegou a Blandine o céu extraordinário de Trieste, cheirando a tarde molhada, nos feios Melaraqua e Melara que todavia talvez a deixassem mais à vontade, menos infeliz, por serem mais condizentes com sua tristeza.

Quando chegou pensava por exemplo poder comunicar-se, saber italiano, achar-se simpática, mas que língua era aquela, que gente, que cidade e que marido? E como venta! Blandine mal o viu. Talvez tenha sido a primeira vez que questionou a sério as viagens dele. Lembrou. A primeira vez. A primeira vez que o viu. Na escola de idiomas no Rio de Janeiro. Alguém em quem não se pode confiar. Esse ar suspeito. Aí ele falou. Não se pode deixar certas pessoas falarem com a gente. Ninguém poderia ter sido tão simpático, tão sedutor. Ela parecia cansada. Ora essa. Naturalmente. Inclusive agora da curiosidade dos vizinhos, se é que são vizinhos a uma distância dessas. Naquele dia à noite, será inevitável sonhar com uma Itália litorânea, porque parecia cansada e um estranho percebera e a convidara. Um litoral luminoso, limítrofe. Não esse à frente dela. Trieste? Ouvira dizer. Aceita. Deslumbrada. Octavio sabe. Ela aceita sem estar totalmente segura. Estabilidade financeira. E quem sabe sejam só mesmo dias de descanso na casa dos pais dele. De um modo ou de outro. Qualquer coisa é melhor. Agora sabe que não é bem assim. É tarde. É uma prisioneira. Do luxo, mas ainda.

Toda aquela gente escorre dos trens direto para os barcos, preenche a marcha dos ponteiros da madrugada que se inicia no Sodré em imagens carregadas de insensatez perante o trincar de seus dentes com destino à outra

margem do Tejo. Oleana e Andrei tomaram o último horário após a ilustrativa conversa com o casal de turistas franceses sobre as possibilidades de privilégio na região da últimas estações da linha do Estoril. Recomendam o determinado hotel, cinco estrelas no monte. Ele pondero sobre a extravagância mas Oleana insiste. Não nos preocupemos com dinheiro enquanto há dinheiro. Recebera, diz, uma boa indenização; e há o ganho pelo artigo. E também algumas pedras de haxixe que Mario lhes deu. Não era realmente pouca coisa mas ele achou um desperdício – apartamento com vista para o mar, espelhos sobre o console na saleta aprofundando o espaço do corredor, banheiros de granito e, no quarto, a cama larga de mogno arrumada com colcha de couro chinês, e na varanda cadeiras e mesas de varanda em requintada madeira branca. Tudo muito chique, mas alguma coisa não parecia bem. Oleana faz no saguão amizades que se tornam rapidamente íntimas. Dinamarqueses, espanhóis, franceses, ingleses e alemães. Na mesma situação, ela estava em casa e ele a milhas e milhas de uma. Éramos, pensa ele, como duas manhãs iguais; nunca seríamos a mesma manhã. Oito da noite. O movimento nos elevadores sintoniza sua angústia em meio à educação refinada em enérgicas interlocuções na pompa que de Andrei completamente prescindia – femmes 2 du matin dans le hall longue soirée –

business men – die alte Welt muß stürzen – Europe des douze le plus grand espace financer du monde – 100 % european executives pleasure – days of the light you no truth – Caralho que cu – Eso me pone loca! – E un vezzo parlare mal – Einfachheit ist mitleiderregend – I been to college – But – All across the telegraph – all across the telegraph! Passou inócuo e incólume pelas risadas
lúbricas dans le couloir decidido a mandar um telex para seu antigo editor.

Quem sabe queria um correspondente para aqueles agitados dias europeus. Pode ser. Comunidade, OLP , Israel, FMI, petróleo, desemprego, sem-teto, imigrantes, avanço tecnológico, violência, tudo com reflexos econômicos e assim reflexos na vida brasileira. Oleana passa no corredor em sentido contrário. Oi ufa uau estava doida por um banho. Com ela um rapaz que embora encoberto julguei conhecer. Não será possível precisar o quanto de acaso. Você está com a cara abatida, diz ele para Oleana. Convida. Venha ao meu apartamento, descanse um pouco. Chamou o serviço de quarto que em seguida chegou. Very funny! Ela está com muita fome. Ele percebe. Segura os dedos dela. Pergunta. O que você tem feito? Nota a sutil elegância dos traços da moça enquanto comem. Olha só, sorriu ele ao mostrar um objeto redondo, de vidro, com algo dentro, comprado na feira das pulgas. Guardaste! Ela se emociona. Estavam de novo juntos... Não devemos nos precipitar, disseram os dois em línguas misturadas. O que importa é estarem juntos ahora. Preciso de um banho, ela diz. Claro, vamos, ele responde e pede. Me perdoe... Michel exclama – Chico! – e abraça Andrei. Agora jura que nada sabe acerca da carteira de Bernardo. Inclusive, diz, ele me deu um endereço. Passará lá e esclarecerá tudo. Andrei diz que por ele estava tudo bem. Nos vemos lá em cima, diz Oleana erguendo a voz para que pudesse ser ouvida na distância que já se encontrava. Tudo bem. Michel iria então passar – Andrei não pôde completar “no Porto”, pois um amigo desviou a atenção dele. Depois a gente se fala. Mais tarde no quarto, relembrando o incidente no corredor, Andrei ficou espantado com a naturalidade com que encarou a coincidência, com a ausência

de ciúme ao vê-los juntos – um relacionamento que jurariam ser antigo e se surgirá um vértice será o próprio Andrei. Na noite em que encontrou Michel em Madrid, ele abandonara Oleana em uma festa após brigarem. Olha – disse ele com um sorriso que não o outro não chegou a identificar como irônico ou carinhoso – você foi a primeira pessoa por quem ela se sentiu atraída em muito tempo. Andrei não sabia de deveria se sentir lisonjeado ou o que; apenas devolveu o sorriso porque – bem, não sabe dizer o porquê.

Está agora sentado na varanda escura exceto por um feixe de luz vindo do banheiro e a réstia de luar desde as nuvens aureoladas. Que palavras dirão os hospedes diante da lua, as mesmas do olhar que atrasado enxerga apenas a sombra? A imensidão trevosa do mar se estende nos milhões de pontos prateados. Ele não dá tanta importância a essa atitude entre o equilíbrio e a apatia, a verdade é que não está sabendo reagir. Chamar esse desconforto de maturidade? Supor virtude tudo o que for estranho à sua maneira nervosa de ser? Deve evocar amor da foto que retira de sua carteira e reluz como um gemido, tirada na praça central de Piumhi diante da farmácia? Blandine não merecia se tornar isso, a manipulação de um conflito visando afastar os batismos da vida, a proteção contra essa força desconcertante que move o mundo, de algum modo controlando o desejo e poupando-o do ciúme. Nada restara para as outras nem para essa outra, a Blandine agora próxima e casada, real. Finalmente percebe. Tem uma vida além dos cadernos e em especial daquele, aberto na pensão do Bairro Alto. Aí seus traumas favoritos estavam irremediavelmente comprometidos. Completada a ligação na sala de telex, lutando com o teclado “azert” das

maquinas européias, falou com o senhor Matias. Ah claro que gostaria que você trabalhasse de novo pra mim. Mas não precisava de correspondente, sabe como é, a empresa está em contenção de despesas e a agência internacional tiquetaqueia vinte e quatro horas, agora mesmo bem na sala ao lado, no momento exato em que conversavam. Lamentou e lhe desejou sorte. Ouvia seus próprios passos ressoando no corredor antes do ruído da chave na fechadura, imerso no cheiro de roupa passada dobrada no carrinho e na aura precisa da enxaqueca. Ao entrar, viu Oleana enrolada na toalha branca em que se destacava o emblema do hotel. Gotejava no tapete. Tudo bem? Tudo bem, respondeu. Eu vou com Michel ao cassino; você não se importa, não é querido? Perguntou por que deveria me importar, só por estarem juntos e ela sair com outro? Estamos juntos? – espantou-se. Ora, apenas dormimos na mesma cama. E é tão bom, não é? Vem à mente a comemoração de sua volta ao Brasil. Revê a lavoura de café e em seguida hectares luminosos de trigo em torno da casinha que o Sr. Jean prometera à filha como presente de casamento. Em meio ao vozerio, o riso de uma menina. Súbito, embora todos ali permaneçam, eu já não está. Aqui, os cabelos de Oleana escorrem. Ademais, diz ela, ninguém proibirá se acaso você quiser vir. Não, obrigado, ele responde. Vou ver um filme. Que ela fosse sossegada. Quando voltar, não estará nada mudado em nossa cama, não é? Como ela mesma disse, é tudo o que ele têm. O luar traça uma linha lilás de horizonte na varanda branca. Oleana está ajoelhada sobre a toalha. Alguém indefeso diante dela. You are dead, diz na TV a garçonete amiga da protagonista. Morto sim, exterminado. A musica toca, grandiosa.

O que você quer exatamente, pergunta Oleana a si mesma. O que quer? Há uma amargura escondida, um quê de ansiedade que sua aparência diária jamais demonstra. Os hóspedes vão e vem ecoando pelo corredor. É dor, tenho agora certeza. Passará? Jazidas a céu aberto se esgotam. O resto de luz natural se funde às paredes junto ao esgotamento e a falta de sentido da vida. Que tipo de personagem serei na historia de sua vida? Não tem convicções, não se sente segura com a segurança material que a proximidade de Michel garante. Pensa na mãe doente, tem um desejo vago de voltar para a Suécia. A pressão das mãos aumenta e a ponta da língua se distrai com uma película inesperada. Ele merece, pensa. É muito bom no que faz. Naturalmente isso não faz com que mereça morar com uma mulher. Parque de diversões é bom pelos brinquedos – ninguém mora ali.

Cascais à janela. Luzes pequeninas. Vinha do futuro a salvação, dessa mesma entranha onde se originou a semente? Era para ele levantar. Oleana chamava para a piscina. Anda, disse ela. Michel já havia ligado. Sacode Andrei. Semi-cerrando os olhos por causa do sol que varava as cortinas, ele consultou o relógio. Ah, vão vocês, eu queria ficar e escrever. Escrever? é isso que tenciona fazer de sua vida? e para que isso serve? E para que serve uma criança? – deveria ele ter respondido. Mas não foi ele quem criou a frase, sentiu-se plagiando alguém e parou. Antes mesmo de terminar de ouvir o que ele disse, ela já meneava a cabeça, penalizada. Os dias se passavam como aquele. Oleana de manhã ia à piscina, à tarde dormia e de noite voltava ao cassino. Permaneciam juntos mas naturalmente não ia durar. Michel era um rapaz enérgico, simples e determinado; não atraia

maiores simpatias nem gerava grandes repulsas. Bem sucedido. Que mulher admirável, pensa ao deixar Oleana na porta do quarto, a chuva chicoteando os vidros. Trovões. Decide ali mesmo e faz o convite. Saúde e felicidade, o falo próspero. Entendia que ela quisesse ficar um pouco mais com o brasileiro. Ele transmitia essa carência que marca as mulheres, algo relacionado com a escuridão. A súbita falta de energia no hotel logo é sanada pelo gerador. As coisas voltam ao normal. As coisas sempre voltam ao normal quando a energia é restabelecida. Dá-lhe um beijo no rosto. Ela não recusará o novo convite. Quando acabasse o dinheiro, Andrei profetizava, estaria sozinho pelas ruas de Lisboa, ao relento. Não foi surpresa quando, ao pagar a conta no saguão do hotel, a carteira quase vazia (e Oleana não precisava de carteira), ela sorriu amarelo e pigarreou. Michel convidou para passar um tempo na casa dele em Londres. É claro. Ela havia aceitado. Andrei sorriu. Ótimo. Iam no carro dele? Ela disse que sim. Então imagino, diz ele, que não será problema me deixarem em Andorra. Durante alguns instantes esteve concentrado em certa pressão no ouvido que, para seu pânico, imaginou ser uma recaída da otite que em Milão o acometera. Não sabe como repercutiu seu rompante. Ao tornar a cruzar com o seu olhar, Oleana dardejava. Ele inclina o rosto para encarar Michel. A dor que esperava dilui-se na expectativa; percebe no outro um meio sorriso de quase cumplicidade. Please, take a photo? Ao se dirigir ao outro hospede, com que então, pensou Michel, temos aqui um refinado senso de desforra. Deveria imaginar algo assim. Sua Oleana não se deixaria atrair, por mais fugaz fosse a aventura, por um cara qualquer. Pelo menos Andrei agora sabe isso – não é um cara qualquer.

Aí pensou. Mas ela não o ama. Embora estivesse longe de ter certeza e de sequer vagamente saber o que é amor. Se amasse haveria de ser um sentimento civilizado, devidamente colonizado pelo primeiro-mundo nórdico. Por momentos ela não parecia vê-los mais. Era como se, de raiva ou desespero, pensasse em longínquas paisagens de indefinidas cores num mundo que algum dia viu ou sonhou. Andorra? Michel concordou efusivamente e perguntou se Andrei estava pronto. Mas não temos pressa. Oleana agora aparenta serenidade. Iam passar na casa de um amigo em Toulouse. Você aproveita, diz Michel, e conhece meu avô. Andorra... Nome mágico pelo qual a vida passou a respirar. Ele podia escrever uma bonita matéria sobre os reflexos no rio Valira, as flores dos Pireneus, a arquitetura dos montes, os campos de trigo e rebanhos (as pedras portuguesas de Copacabana e agora o pequeno Cristo, a formação dessas ondas enormes, tudo subitamente lembra o Rio na saída do Estoril ), talvez partindo da época em que estava no ginásio, quando a modernidade somente existia para a republiqueta na torre da estação solitária de radio (essa rotunda é muito Portugal e a avenida dos Combatentes nada evoca senão esse tempo recente de tristezas), a torre do rádio nas pedras altas dominando sobre os casebres dos pastores ou rasgando o passado com a espada do prazer nos estudos – Súbito se misturam na avenida de Sintra o futebol (esse campo à esquerda é várzea autêntica) e a era do feudo de Urgel, defendido por valorosos montanheses. E, um assunto puxa outro, Barcelona, o idioma catalão, a França, os vizinhos bascos. Não seria possível ligar os dois assuntos, 1968 e separatismo? Tinha tudo para ser uma bela matéria. Poderia vendê-la no Palácio Foz. Ao atravessar a ponte, todos os sonhos se faziam de novo possíveis.

Estão em Badajoz. Uma represa passa ao largo na amplidão romana da Extremadura. Luz após o aperto nos olhos sonolentos, o ar parado, sufocante, quente, quente, ufa, e nem é ainda verão, suavam quando sugeriu o caminho das uvas. Tenho uma amiga que pode nos hospedar, o que acham? Poderiam ainda passar na casa de Mario em Barcelona. Michel acha tudo ótimo. Oleana, ele espera que esteja doente de raiva. E sorria, impressionado consigo mesmo. Me enganou, pensou ela. Não é tão idiota quanto pensei. No sofá rústico, Rachel se diz apaixonada. Jamais esquecera. O sol imprime nos beirais os tons do dia agonizante. Deitados nas almofadas onde se espalharam pelo passado, espectros vestidos do tempo que um dia contemplaram e os uniu, levados por belas sombras benévolas como costumam ser a quem mantém sempre viva e serena a memória, deliciosas e gráceis aparições, lépidas e murmurantes a ponto de encontrar o principal motivo da vida na posição dos últimos gemidos passado o receio de novo desencanto, sob o sol dum futuro impossível cuja frágil perspectiva insistem em animar, amantes aéreos e suaves, deixam à tona do mundo corpos definitivos e úmidos. Na sobreposição, o azul se juntou ao rosa. Carregava, portenha, ao dobrar o ele e pedir que se aproxime. Oleana na cave com Michel. No céu estrelado troveja.

O armário aberto estava cheio da noite. Sim, pois já amanhecia. Rachel lhe deu uma camiseta para dormir. Do cinza denso à pálida prata dos contornos, o sofá no canto traz odores de passado. Déjeme. Rubor nas cortinas. Os raios coloridos vistos naquilo que tocam: as coisas em si são incolores. A uva não é vinho e o vinho não é sangue. Alegria e embriaguez. Sim está de novo bêbado

dum vinho anterior à videira. Enlouquecendo. Assim, foi mesmo num rompante. Vamos agora, deixemos tudo para trás, venha comigo... Ela aceitou, com aquele sorriso que ele conhecia tão bem, e apanhou as chaves na cabeceira. Logo estavam com os cabelos esvoaçando ao vento que vinha de Vitória, talvez de mais além. Você nunca perdeu essa fixação pelos bascos e pelos Pireneus ao longo desses anos, não é? Na verdade, ele não teria uma resposta adequada para isso, manteve essa fixação mas a imagem do avô de Michel concedeu um novo alento e decerto o subconsciente trabalhando na matéria sobre Andorra. Bem, dará no mesmo em termos de bascos. Vamos aqui por cima pelo norte, ladeando rios e contornando montanhas sob toda essa chuva até as tempestades no golfo. Não me diga que nunca sonhou com algo assim. Ela havia sonhado. A tentação quando chegou era grande para lutar pela causa separatista ou outra qualquer como compensação pela perda da luta na América Latina. Ao que parece os revolucionários são viciados em querer a liberdade para todos e na maior parte das vezes negligenciam a própria, a própria liberdade, a própria independência, tornam-se escravos de si mesmos. Que seja então apenas por nós mesmos: subamos em direção ao norte, cantando cânticos bascos ou o que for, cantando, em meio às chuvas de verão, por nós mesmos, porque se é difícil dizer que as revoluções têm algum resultado prático uma vez consumadas por homens que só pioram, é impossível importar uma revolução ou mesmo um sincero desejo de revolução. Em Rosário éramos adolescentes, tínhamos portanto atenuante, hoje vamos apenas fugir à maneira dos adultos, e recomeçar; não é tarde. Na verdade, disse ela sorrindo, meu sonho era mesmo alguma coisa assim. Vamos. Não existe nada tão belo quanto a fúria do mar nos despenhadeiros ou

tão terrível quanto ondas que sobem e arrancam pedaços de muretas e cospem nos carros que passam lá em cima querendo talvez lambê-los para as profundezas. Rachel apenas murmura algo que ele não entende, impassível, e seguiram deslizando e chiando no asfalto. Agora, ele está há cerca de um ano na Europa, um pouco menos, deixe ver, saí do Rio de Janeiro na primavera de 1987, então era outono por aqui, setembro, é, quase isso, estamos caminhando para agosto de 1988 e, após cruzar o portão da casa de Rachel, podia sentir esse tempo como um chicote na alma, despertando-a, renovando-a sem dúvida ao longo do caminho que leva a Deba. Na beira da estrada uma mulher rega o jardim com cuidados de proprietária ou apenas devoção amorosa, quem sabe o que evocará. Por favor, pegue o mapa. Está ali. Vejamos. O sorriso de Rachel reluzia mais que os reflexos do sol no Euba. Ele olhou dentro de seus olhos e estremeceu de prazer ao lhe entregar, roçando sua pele quente com as costas da mão esquerda enquanto a direita quase em simultâneo fechava o portaluvas, porque o revolver trêmulo no metal o estremecia também. O que fizeram de suas vidas? haverá tempo para resgatá-las como o primeiro sol basta para que de novo a vida se renove na frialdade da pedra? Não sei, diz ele, e realmente não sabia, mas tudo se torna possível na sensação de liberdade (agora são quase 150 por hora). E que silêncio de corpos é este que se espalha pelo interior do carro? Ele ainda sorria. Mas a imagem que tinha de si mesmo era de um pavor vívido à espera dele à saída do carro. Cinco da tarde. Hora de Escurece rápido. Havia ainda há pouco vida e esperança; Andrei fechando os olhos perdeu a consciência de tanta alegria e simplicidade. Estava à beira de uma síncope sem fazer idéia de sua origem mas perfeitamente consciente de que a dor e febre que seriam trazidas traçariam a divisão das

águas de seu rio, a mudança inelutável da estação em suas árvores. Queria dizer a Rachel que não se preocupasse com ele, que não temesse qualquer coisa, que era apenas cansaço, a excitação da radical seqüência de vicissitudes. Ao reabrir os olhos o céu misturou-se com sua alma envolta em náusea que já havia levado a mão do porta-luvas ao estômago. Lutando, tentou sentir a passagem do ar – no ponto da respiração em que havia o desconforto (entre as narinas e logo abaixo da garganta) – e, por conseguinte, entender que não era nada, que estava bem, se não estivesse não suportaria tão naturalmente a furiosa e celeríssima inclinação daquela curva (bateu com o ombro no vidro onde num átimo viu os olhos do homem que quase chorava de alegria praticamente saindo de órbitas mortas). Estará esse silêncio com sutil eloqüência falando de resgate, de renovo e futuro? A proximidade dos abismos traz um futuro que ele teme, que não consegue deixar de temer. Sentiu claramente isso quando Rachel o levou antes de pegar a rodovia ao clube de natação de Logroño, onde indicou para a afilhada onde a deveria esperar. Que o apavora apesar de se sentir tão bem com Rachel – quem era ela, se perguntou, quem era, por detrás desses dentes perfeitos (os dele estavam absurdamente sensíveis), desses esvoaçantes cabelos lisos? Pode merecer o que pensa sentir? – porque efetivamente amava, bem e para mal, esses novos rostos e corpos da Mulher única. Hondarribia é um lugar inacreditável, entre mar e montanha, entre nações, uma nação na própria cidade, entre vida e morte. Não seja assim dramático, Andrei, vai dar tudo certo. Ele escutava e não podia saber se era a voz dela ou alguma outra, interior. É apenas um lugar. Vamos achar um restaurante e comer, diz ela e estaciona. Desce do carro. Fome plena também de caminho, de

carinho, de mar, de mistérios do abismo, de olhares que se perdem na direção dos montes ainda não visíveis.

Finalmente estão falando: sobre esses anos, sobre como ela conheceu Miguel, sobre como Blandine o deixou. Mas por Deus, por que não a procurou? Esteve tão próximo! Deveria aí inserir as palavras óbvias de desconhecimento do paradeiro dela, o que implicaria em forçar uma lembrança que não lhe ocorria acerca de como chegaram a se separar. Portanto não respondeu e desviou os olhos como se a contemplasse num ponto separado dela, mais jovem, numa árvore, alcançando uma manga. Súbito percebeu que, bem, se estavam ali – Estavam ali, realmente? Em alguma medida eram fantasmas de uma época e tinham apenas o direito de se aperceberem de coisas, de aprenderem, mas não vivenciariam a sabedoria nascente, antes a teriam de entregar àquelas pessoas que se tornaram – ao conversarem sobre os dois no passado falavam da impossibilidade de um futuro originado naqueles dias antigos. Será que você ainda a ama, Andrei? Será que um dia a amou? Rachel sabe como é, como a gente se engana. Terá ela própria sentido alguma coisa por Miguel um dia? Alguma coisa que se sustentasse sem as terras, sem a casa em Rioja, sem o carro, enfim, que não apenas se sobrelevasse ao cansaço em forma etérea de simples visão. Porque houve uma constatação súbita de que para se chegar a um sentimento atual o caminho se faz da ausência de sentimentos anteriores, como se a consciência dependesse de uma alienação preparatória e a própria vida estivesse contida em tudo que por alguma razão não se viveu, como o entardecer aterrorizante nas profundas águas bascas se contrapusesse a

qualquer pretensão dos bordões do Maio. Aqui há sabedoria ou, pensou ele,

quem sabe um simples impasse. O ar está frio, embora a noite que se aproxime seja de verão. Extasiado diante da beleza do perfil da Rachel, movimentando o rosto em tiques de indícios de apuro da audição, Andrei, como a aspirar ainda uma resposta da qual se desesperara, pensou que, se um dia tivesse experimentado essa simplicidade do desejo e o conseqüente apaziguamento, não seria necessário agora estar vestido por tal natureza abstrusa, de características aprisionadas num retrato que não guarda mais semelhança com a pessoa que deveria ter sido caso tivesse seguido os princípios nos quais acredita e não feito deles uma inócua profissão de fé. As vozes ao redor dos dois perderão todo sentido, sejam palavras espanholas, francesas ou bascas, e ainda que pudessem ser catalãs, e ainda que fossem portuguesas ou ditas naquele castelhano peculiar de certas regiões argentinas, como a terra natal de Rachel; permaneceriam incompreensíveis, impenetráveis, e igualmente não penetrariam as paredes que se haviam erguido em torno deles, sozinhos no mundo e tendo à frente na mais que o horizonte – pálpebras. Há um mundo. Uma mureta de onde sentados poderão ver os detalhes frios do penhasco a culminar nos respingos ruidosos, corais de estrondos, e as águas, as águas atlânticas que são águas do golfo (não as do mediterrâneo? Ah sim, também), as águas do Ebro, e no mar profundas e terríveis em sua fúria compreendedora, quase misericordiosa. Que luzes são essas? Que ruído molhado logo ali? Cantarolando, o que era tão raro, ele ajeitou os ombros da blusa em frente ao retrovisor, caramba, estou precisando de roupas novas, olha só a gola, velha de ondulações – uma blusa, uma camiseta na verdade, de malha azul como a que estava quando desceu com Nastácia no aeroporto de Paris.

Com o canto do olho percebeu o perfil altivo de Rachel – parecia uma princesa – recortado pela paisagem de uma fronteira que jamais poderia imaginar – Honyarbi, Hondarribia: ganhou sua vida de um outro modo, afinal. Trieste era apenas uma fantasia, um sonho louco. Não se fala mais nisso. Não terá mesmo coragem de encarar Blandine. Sim, dormi sim, sim, ele disse; menos de uma hora, mas sim dormira. Tomado de dor e decisão, no flash de um piscar, logo cor alguma, logo eu, pensou, mas nunca mais nós. O rosto dele ao amanhecer: devolvido pelos primeiros raios no espelho, contornos substituem os moveis escuros. Na mesa de cabeceira uma foto de Rachel numa ponte em Irun, cidade que pelo seu caráter fronteiriço ela amava, e a rosa que lhe dera. Talvez no dia em que a conhecera, falavam sobre o que poderia significar o envolvimento na luta pela democracia. Era uma conversa que não o atraía. Ficou contrariado, como se estivesse irritado com ela por alguma razão que, ao contrário de amanheceres em quartos nos quais se dorme pela primeira vez, permaneceria obscura. A alma se apequena diante do embaraço entre o anseio de liberdade e a falta de clareza do que seja liberdade. O abajur está insone perante a dor de um homem que desperta de um sonho pouco nítido como seu rosto no espelho. É ela quem cantarola. Os raios devolvidos envolvem a lâmpada inútil. Reluz de amanhecer a torre da catedral de Santa Maria de Logrono. Fora da cidade, peregrinos retomam viagem, carregando suas mochilas pelos caminhos santos. Na casa, Rachel está se banhando. O turbo do compacto alemão, o veiculo, seu ruído e trepidação, alimenta a tristeza por ter decidido não ficar, tanto talvez quanto a tristeza da própria Rachel, que contudo em nenhum momento pediu para que ele ficasse. Não entendo você, Andrei. Gostaria. Você é um cara muito complicado, difícil mesmo.

Ele nunca pretendeu ser propositalmente difícil, mas não pode tampouco, imagina, se tornar comum para ser compreendido. Sabe que o difícil em geral se torna chato e queria ser reconhecido; mas é apenas o que é. Lembra daquele domingo na praça, dos mercados? –perguntou ele a se desviar do que importava. Claro que ela lembra, mas do que adianta? Ele vai partir. Todos partem. Eu mesma, disse. Meus tios pediram para que eu não saísse de casa. Não vá para a Espanha, diziam. Oh chica... Esse homem não é uma boa pessoa, você não vê? Eu até via, disse Rachel, mas tinha que vir. Eles ficariam lá, sozinhos, e eu ficarei sozinha entre vinhedos. A vida é isso? Ele lhe prestei a homenagem sincera de uma lágrima ao acenar do carro. Como em Rosário, parecia tão simples ficarem um com o outro. Mas o ideal da simplicidade só funciona na teoria. Se resolvesse ficar, ia por a perder o melhor de Rachel, e ela também o perderia. A lembrança dela paira na vida de Andrei com jeito de anjo da guarda, que quer o nosso bem mas não é Deus.

Incenso de um holocausto dias depois do incêndio. Após me dispor a cumprir. Perguntei, soube, imaginei. Como pano de fundo, a visão panorâmica da região alta da Mantiqueira – que nunca deixei de ser moça típica de Minas, nem depois de tudo, ou principalmente. Agora digo isso. Antes deveria. Ou não. Agora se consuma assim. É tudo. Mas a história não acaba. Desço da montanha antes contemplada. Sou afinal passos e erros, o sucesso do projeto não é tão importante quanto seu processo. Tensão do existir. Escrevo também agora. Metáforas, ritmos e imagens, testemunhos, fragmentos, fluxos de consciência da menina no sentido do menino que não existe mais.

Em Barcelona, ele poderia ter ido à agente literária mas, embora já houvesse escrito e perguntado sobre a possibilidade de intermediarem um autor de língua portuguesa, tendo recebido resposta afirmativa (desde que analisados e aprovados os originais), não teve novamente o desprendimento suficiente para ir. Tímido, deixou de mostrar a cara e dizer que pretendia fazer daqueles poemas um fio que contasse uma história em vários momentos e diferentes vozes, inclusive a de um narrador principal no momento em que escrevia sobre coisas passadas mas na direção de eventos futuros. Covardia típica de quem não está seguro de ter talento, porque no final das contas o talento e a coragem se misturam; e alguma coragem muitas vezes compensa a falta de mais talento. Pretendia ainda, ensaiei dizer, usar fragmentos de seu diário, cartas, recortes de jornal, e citações de outras pessoas que inspirariam personagens. No paseo de Gracia dava para ver. O sol batia em certa fachada ocre, no sombreamento das pessoas defronte à loja, perto das cinco da tarde. Nas paredes marmóreas vivificadas, confunde o movimento de ida e vinda dos passantes a imortalidade urbana. O ar está pesado. Aproxima-se uma jovem em viscose de poás graúdos. O indicador delicado, num meneio de cabeça, retira um cisco. Pisca para certificar-se. Uma rede honesta de umidade se instala na superfície pêssego do batom. Logroño longe, Andrei volta aos poucos a ser ele mesmo. Certamente mais que uma menina na moda, uma moça com estilo. Encarou-o e em seguida bocejou. Há em Barcelona como em Trieste um espaço entre os seres e as coisas geométrico nas mãos dadas das moças de família, nas compras, uma retilínea

beleza funcional, quente, quase devota na aveningua que à escuridão do mundo se recusa – vermelho, amarelo, prédios, pessoas. Todos seguem adiante, a vida ávida se derrama catalã nos sítios todos e ali você pode se sentir uma miragem. Deve de ser. Alguma coisa ligada, sei lá, disse Blandine a si mesma depois que o marido saiu (seus olhos se fixaram no telhado do vizinho da frente), alguma coisa ligada as próprias pessoas, como os traços exteriores de uma folha representam uma folha mas não são a folha. Ela não sabia, imaginava e por não saber doía, doía frio como a plaza agora ao entardecer.

Oleana saiu do carro. Kvinna e flicka Na pancada seca há loirice adolescente em Linkoping em que se mescla a sensualidade cosmopolita de Estocolmo. Michel conta do mau-humor dela à noite, e eu é que estou pagando, acrescenta rindo. Não pude evitar, Michel, diz Andrei; me desculpe. Michel ri. Estava tudo bem. Quando brigaram naquela festa, antes de Oleana conhecer Andrei, ele estava desistindo. Imaginara uma garotinha no fundo dela, de mochila às costas, tomando água em concha numa nascente suíça. Imaginara. Mas agora só mulher nórdica, vivida, de longas artimanhas. Até acho que a amo, sabe, mas não sabia mais, Andrei, o que fazer para dar um jeito nela. Talvez ela nunca mais chegue a ser o anjo que sabia ser se um dia não saciasse essa gana de rodear a terra. Tive sorte. Como assim? Ele estava querendo dizer que Andrei trouxe o bem para o relacionamento deles. Tentava explicar no justo momento em que um ônibus escolar ou de excursão talvez tornou inaudível a sua voz. Ele iria sofrer um pouco com o mau humor que Oleana se permitia por causa de Andrei, por causa de Rachel, enfim, todos tem um pouco de testosterona. O caso contigo foi bom para mim, chico, só tenho a

lhe agradecer. Andrei sorriu. Não por isso... Falou-se desse assunto e de outros até que Michel chegou ao ponto. Oleana pressiona. Deixe-o na estrada. Não, babe, não faríamos isso com um amigo. Ora, você mal se conhecem! eu mal o conheço! Não precisa deixá-lo à própria sorte. A idéia passa a ser: deixá-lo quando sob um teto. Com Mario. Com Mario e Isabelle. É claro que Oleana lhe falara dela. Claro. Michel parece franco, quase de se crer verdadeiro, mas meio que recua. Por que não ficou com aquela linda garota em Logroño, chico? Ou talvez não, talvez estivesse mesmo apenas curioso. Por que nunca faço o óbvio, pensa Andrei, mesmo quando é evidentemente bom para mim? Ou não seria? A responsabilidade. Linha mais curta entre dois pontos é o ziguezague.

Havia doçura e companheirismo em sua companhia, ela quase era uma metáfora de tão linda, Rachel. A história teria terminado. E todavia ali ficou com um cacho entre cachos. Súbito o protagonista se dá conta de sua estultícia ao longo da vida. Deveria ter sido a ultima cena – ele em meio a uvas ou mangas. Não sei, Michel. Deveria. Tudo bem, não se sinta pressionado. Terá tempo para decidir. Pensa. É. Imputabilidade penal. Um abraço. Pergunta-se então o que restará após a moça no sofá ao ar livre, uma estátua na luz plena do meio-dia, ou um cavalo galopando selvagem por prados bascos com hora de regresso para apanhar a afilhada que ficara com a amiga, a potrancazinha. Um abraço apertado. Ontem, Kleber, hoje Michel, amanhã quem? onde? Trieste, distante como outra vida, distante mais cada vez. Sol de outra cidade. Oleana falava animadamente com Isabelle quando entramos. Andrei

cumprimentou a jovem mulher de Mario com um sorriso que ela devolveu. Michel se apresentou. Muito prazer. O calor dele a percorre. Ela pergunta quem é, o que faz da vida, o que faz ali. Mario, recostado na pia da cozinha, espera a água para o café. Não gosta de visitas inesperadas. Isso de Oleana com Michel não o deixa à vontade. E ainda a carteira. O casamento o mudara. Assim, tão de pouco? Verdade, dirá Isabelle. Fiel. Cônscio dos deveres. Ah, então Andrei também poderia mudar. Na sala, Mario ignora Oleana; quando não dá, é rude. Reprova Michel, não por duvidar de sua inocência, mas por ter reatado o relacionamento em tais circunstancias. Cara, deixa disso, é a nossa época. Que é isso, Andrei, que época porra nenhuma, isso tem outro nome. Sacanagem. Não é não. Está tudo bem. A vida é assim sim e mais assim a vida hoje. Discussões e confissões sob as estrelas, à fumaceira de peixe na brasa e tilintar de garrafas do Rioja. Isabelle desconfortável com o sotaque nórdico, de fato não mais o suporta, estão mais ofendidos e traídos do que ele próprio, do que Andrei, que achava aquela atitude dela perfeitamente desculpável, naturalmente um instinto interessante de não ser culpável ele mesmo adiante. Ou era menos por conta de moral ou solidariedade ao amigo e mais uma defesa do lar. Isabelle Brunisée chama Andrei Morgado a um canto. Pede que ele entregue, se não for incômodo, umas coisinhas para sua mãe em Paris. Beijou-o como um irmão mais velho e imaturo. Se fosse domingo, disse, ele iria encontrar a senhora na église. Isabelle, vejam só, filha de crentes. Ele sorriu de volta seu sim. Trouxeram lá de fora Mario e Andrei frio e fumaça na roupa. Isabelle fechou a porta corrediça de vidro. Oleana agora é imigrante em Minnesota, depois na gélida Quebec. Antepassados ali chegam e se casam com mohanks

em pé-de-guerra. Vocês sabem índios americanos perderam terras para imigrantes suecos? Muitos foram enforcados. Ah, os imigrantes peninsulares, sobretudo os portugueses, é que são mesmo tolos, nada usufruem das cidades em que chegam mas conhecem a fundo o sistema bancário canadense, precisam ver que idiotas. Pela primeira vez a víamos bêbeda. Os problemas com Michel começaram por isso. Andrei nem percebe, por causa do espanto, como ela fez a travessia do oceano, voltou a Estocolmo, chegou a Madrid. Que ficasse entre eles: Oleana teve uma experiência homossexual num hotel próximo da estação, sabe Michel, aquele que uma vez pagamos oitenta dólares a diária, caramba, a mulher da portaria era uma indiana deslumbrante, uma pérola verde na testa, Michel que a desculpasse. Falava. Repetia. Por fim condescendentes, Isabelle e Mario sorriam para Andrei. Antes de dormir, disseram que ele poderia ficar o quanto precisasse. Isabelle agora diz que a encomenda podia esperar, não era nada de urgente. Andrei agradeceu mas disse não, mas muito obrigado, estava realmente comovido. Pensava, ao agradecer, como o pequeno apartamento suportaria a madrugada bêbeda e desmesurada. De fato, passaria várias vezes pelo corredor para o xixi, após as luzes apagadas, defronte de Michel e Oleana, sem olhar, ouvindo de lado, até decidir resistir deitado e ignorá-los até de manhã.

Caso tivesse decidido de fato ficar, num primeiro momento não seria tão embaraçoso como poderia projetar. Chegou a pensar nisso, mas decidiu mesmo partir; era sua escolha padrão que, entretanto, começava a trazer inquietações antes desconhecidas como o estado de espírito que decerto gerou aquele sonho. Sonhou. Ao longo de um corredor de trevas, fugia de gargalhantes

espectros. Desembocou à margem de um rio que cheira a primavera putrefata. Estava ali a rainha Cristina, primeiro com um rosto negro luzente de Greta Garbo, seco, do qual surgiram as feições de uma Liv Ullman pornográfica e trágica pelas ruas da Europa farfalhando, som que ecoou no interior de Minas a partir da saia rubra e farta armada por imersão em tabernas tristes em torno de quarteirões do século 18. E Liv, a rainha da Suécia, é súbito Liv, a imigrante no meio-oeste americano, mulher de Max Von Sidon em “New Land”. O marido implora que ela não morra. E eis Max é Andrei e Liv, Blandine – metamorfoses velozes, pensamentos sábios que levam a vislumbres – reflexão mais que informação – Vislumbres intensos que na vida medíocre, pensou Max, para nada servem e terminam esquecidos em meio aos apelos dos sentidos. A eternidade, lenta no sonho, materializa-se numa serpente – ele cavalga a serpente em Pere

Lachaise – é o fim, única amiga, grita e seu grito ecoa com nuances de coxas em
lutas livres femininas, o prazer de Claudia num ringue armado numa estação ferroviária, farsa na forma (pensa ele) e realidade na dor (pensa ela) – É informação demais para um único sonho, por favor parem, deixem-me, e o grito ecoa mais, pelo Mar do Norte, enquanto Trieste surge em forma humana. Um corpo conhecido circundado por tecido elástico e encimado por muitos rostos, Liv sou eu, pensa ele, o Outro. Acorda. Caleidoscópio de amanhecer nas cortinas. Como seria o sonho passado a seu livro? Por que deveria ser? Primazia das palavras sobre seres e coisas reverte ao som vazio dos vizinhos, azáfama do dia alto. Às onze em ponto partiram. Dava impressão de que, embrenhando-se na sonolência mórbida de mundos indistintos, pairavam sobre o carro gritos longínquos que podiam ter ou

não algo a ver com a visão do espiritusanto que aqui pode ser um hospital envolto no meio-dia de uma data que não se repetirá, memória ou História. Reassume os hábitos mas a ferida da alma ainda sangra. A subida de rocha há quanto tempo em épocas confusas e carentes da vida se verá do outro lado no verde pesado e nas águas quase francesas em Ariege – há quanto tempo, se pergunta, sem a devida resposta exceto o vento que traz o medo, que traz as sombras e intenso o sono a que se resiste em nome não se sabe mais de que, na calma que se faz estranha pairando sobre os conflitos.

Mês longo e difícil, maio passara. Daqui para frente é lucro o que vier. Vida sem qualquer mérito, sobrevida. Talvez escritor seja o que nada tem a dizer ou precisa aprender, dizendo, o que deverá dizer. Sim sobrevivia, o que não era pouco para quem quase um ano antes fora roubado em terra estranha e ficara sem casa, trabalho e documentos, sozinho (agora além do mais pesa a idade). Quase um ano. Vinte anos depois de nada. Em malfadada época, loucura e morte. Que olhos são esses que observam a paisagem à janela do carro de Michel devorando a estrada, cento e vinte e cinco cavalos e cinco válvulas, de zero a cem em dez segundos – quem, neste vasto mundo de Deus, precisa ir de zero a cem em dez segundos? Onde o belo rosto do jovem promissor? Quem será no futuro um filho tão bom? Não há o mundo de roubá-lo, pois Deus lhe concedeu uma ótima família. Por que então não carece daquela alegria simples da infância ou pelo menos a simplicidade da roça, por que assim se desvirtuou? Está calado. Olha do lado esquerdo da rua a menina que o vê ao virar o rosto por trás do portão de ferro. Em seguida ela abaixa a cabeça, olha o chão e ele a imita por um momento

vendo os próprios pés sobre o tapete do carro. Aperta os dedos no calçado. Michel está mudando a estação do rádio: coisas entre o céu e a terra. Oleana olha o rosto de Michel, como se desejasse recriminá-lo mais por ainda estarem com Andrei. Depois torna a olhar para frente mas absolutamente não está conformada. Mão de Andrei descansa no lado da janela. Entre a abertura de polegar e indicador, uma sombra. A palma. Menos que uma sombra. O pulso. E logo o braço, cheio – não demais, o bastante. O ombro é o de Oleana. Roliço. Branco. Não posso ir, pensa Andrei. Não pensa Não quero. Dia radiante. Tontura. Ele pensa como tudo muda tão rápido e no entanto permanece igual, ao lugar para esse rio vai para aí tornará a correr, donde ele será feliz novamente, assim pensa, porque é assim que as coisas funcionam, o caminho que desce na ida na volta subirá, é a ordem natural, não há pois o que temer. Ele escuta. É maravilhoso achar um pretexto para ter esperança, passam de novo a valer a perspectiva os prazeres antigos de que ele acreditava sua vida fora bem contemplada, mais que a média das pessoas. Pardais. O trânsito e a chuva pela carrer de les valls. Ainda é? Tontura, vida, braço, mão, dedos, parapeito (vale a designação quando a janela é de um carro?). Encostas tão floridas jamais imaginou. Maio, não, junho agora. A retirada dos soviéticos no Afeganistão representa o que nesse caos? O Brasil entra agora no inverno e no sul de Minas é tempo do milho antes da chegada dos apanhadores. Quando nasce o amor. Que céu é esse? Onde estão as agüinhas onde mochileiros podem se saciar? Maio passara. O alto da cabeça de Oleana, de cabelos escorreitos que tomam emprestada a luminosidade à frente como cor, está recortado contra montes e céu à frente. Passou a Espanha. Passam as nuvens. Michel mexe no porta-luvas enquanto fala ao parar o veículo. Eis tua

Andorra! Vales estreitos, gargantas, carrilhão, o tempo de vida se cerca de coisas concretas, Anyos e Caldea, as montanhas e o desejo das montanhas, a possível aquarela e as décadas futuras. Andorra, la vieja. A peseta e o franco trarão o amor ao fascínio da rocha e no idioma sem nação? Esse azul existe? O sol quebra nos cumes – sonho súbito despertado: um filme já visto e adorado. É possível um mendigo? um homem que o acorda com chutinhos? Talvez apenas bêbado no banco. Ou um traficante – é possível? Andrei se informa sobre o caminho e a trago de volta, a realidade. Agora leva um souvenir. Não paixão mas fogo circunvalado. Escolhas afetivas são mares. Um rosto que se transforma. Não, não estou dormindo. Hei chico! Minha Andorra, pensa. O que se pode dizer? No alto dos montes a mesma cruz que por todo caminho desde Angola, solene e inútil. Este é um caminho único, agora ele é como todos. A vida dos ricos além de fútil não incomoda mais. Está terminando um sonho, mas vocês podem ir às compras como disseram, depois a gente conversa. Não quer mais segurar vela, seria legal que alguma coisa acontecesse nesse sentido. A torre da igrejinha. Domina a paisagem interior. O azul intenso molha casinhas eventuais. Amarelo de flores improváveis. Verde e pedra, templos, um tempo do qual nunca se está convicto. Cânticos que retornam da infância e afastam a velhice desde os campos de fumo e trigo aos asininos. Por aí iremos e será a pergunta irrelevante. A mulher não saberá nada exceto por causa da calma pressionada contra o peito. Aeroportos! Ferrovias! O que faço de minha Andorra? Como faço para que uma terra seja minha? Escrevendo, apesar das posições incômodas como se escreve ao ar livre. Escreverá então. No meio das casas, a igreja, deserto alongado em nave, oásis e agonia.

Olhar que toca as pedras acinzentadas nas mínimas rachaduras, hera mais sutil. Escuta. Os que são bem de vida brincam nos carrinhos, filmam as nádegas das moças à frente, mostram os dentes brancos e o riso fácil demais, fácil demais. Pássaros do regresso. Passos. Declive. Manto de luz nas telhas. Quem sabe uma glória oculta. Neves perenes. Nuvens amoldadas contra as quais bate serenidade gelada. Futuro. Catarse. Campanário em prumo de luz em seu coração consumada. Todas as coisas em determinado momento param de acordo com a lógica, só depois se entende que isso não existe e a vida retoma seu movimento. Naquele instante, estavam paradas. Ele caminha resoluto no sentido do céu, como se pudesse se misturar impunemente às pessoas por ali. Ninguém estranhará. É apenas mais um turista, ao que parece da América do Sul. Estava naquele carro que parou ainda agora perto da igreja. Ou está simplesmente invisível, o que dá no mesmo. Sequer a aparência melhor ou pior fará agora diferença. Todos são lindos por aqui. Não percebem portanto que está parado olhando um nada que contém o que precisa. Um como eles mas nem tanto assim. Em algum momento algo denunciará a fraude. É uma camiseta que de há muito não se usa. Um tipo de calçado estranho, um formato de calça inusitado. Mas acabará sumindo em meio aos aspectos bizantinos e edificações românticas ao sol, cenário europeu de fervor turístico nas feiras das faldas: gravatas, brinquedos, jogos, a mais fina manufatura de primeiro mundo. Filmadoras, coqueteleiras, lanternas. Relógios. Então, Andrei, o que está achando? Juízo comprometido. Cigarros e bebidas. Os montes quietos, coadjuvantes. Na esplanada, a ciutat oferece duvidoso descanso à fadiga do consumo. Perfumados da mesma colônia, Michel e Oleana abrem os pacotes de cigarro quando ele se despede. Te cuida. Gostamos de você, sabe? O continente me trouxe, pensou ele, agora que cuide de mim. Se as palavras precisam dele, que

lhe sejam provedoras. A vivência é a estrutura de qualquer obra, acho que foi Faukner quem disse, ou o protagonista de “Antes do entardecer ”. Fronteiras. O tempo e diferentes espaços acabam sempre nos mudando no sentido do que nunca deixamos de ser. As idéias estavam se esgotando e era preciso que tivesse alguma, urgentemente. Estava em Andorra e não parecia de modo algum algo com que devesse se deslumbrar. Andorra, dizia Ortega Fuentes caminhando ao lado de sua esposa, evoca sentimentos místicos, ela não achava? Para Nubia Fuentes, o marido bem sabia, todos os lugares evocam sentimentos místicos. Veio aqui antes de casarmos, Nubia? Nessas horas ela se sentia feliz, embora dividida; sentia que tinha duas vidas, uma antes e outra depois de Ortega. Que bom, ele disse. Também ficava feliz se ela estava feliz. Andrei deveria estar feliz. Teve uma atuação digna no caso de Oleana. Tinha tudo para recomeçar. Mas não conseguia esquecer Rachel, menos ainda Oleana. Não conseguia entender por que agia como agia e as decisões que tomava. Escrevera o artigo movido a três ou quatro cafés, do dinheiro que Mario enfiou em meu bolso quando deixei sua casa. Tenho de entregar a encomenda de Isabelle. No palácio Foz me aconselharam o acompanhamento dos movimentos contra o racismo e o crescimento simultâneo de Le Penn. De novo. O que era isso de se despedir? disse Michel. Poderia escrever da casa da mãe de Isabelle. Deixaria Andrei lá. Ademais, disse, você não gostaria de conhecer meu avô? Campos sombrios apesar da idéia de geleiras em que convivem surfe e a umidade ávida de Euskaro. Tourist, remember this is neither France nor Spain. Ainda neve e fogo? Michel e Andrei conversaram muito nas noites que se

seguiram. Falou-se de picos nevados, de guildas e daquela praia dum Atlântico visível. Nesse sentido Rachel parecia muito diferente voando no carro à beira do abismo. Um enterro, carreiros e artesãos, a bola basca, frango, cerveja e pequeninas nuvens noturnas de insetos. Uma causa era tudo de que ela precisava naquela época. Andrei pulou uma cerca caída e Michel o seguiu. A verdade é que o mundo mudou; é um mundo sem heróis e é bom que seja assim – mas não sem ideais. Um mundo sem ideais, isso não é bom. Passaram dois dias junto a pescadores. Deveriam resgatar aquele espírito sem necessariamente fazer com que as motivações ressuscitassem. Olhe, disse Andrei, esses telhados íngremes, o caimento ligeiramente inclinado das casas.

Aurekus, jai lai. Agora há uma primazia do bem-estar; agora visões de liberdade
passam menos por Santo Ignácio e São Francisco Xavier e mais pelo conforto e pelo individualismo. Por outro lado, isso quer dizer que não pode-se prescindir da paisagem exterior. Está conseguindo, pensa Andrei, o panorama a partir dele sem necessidade de um interlocutor, de uma confidente. Talvez. Há sinais.

Donostia. Nada de manter essa timidez obscura. Se ainda hesitava, Julie lhe
concedeu a determinação. Julie pediu carona não muito longe da ponte. Há flores azuis e alaranjadas ao lado do caminho. O clima no carro se havia arredondado a partir do horizonte de Ariege. Insinua-se junto às curvas até Toulouse e permanece. Com um pouco de confiança é impossível que você não se dê bem, dizia uma fraternal Oleana. Não faz diferença o que diz pois a confiança nela ele perdera e se quebrara qualquer elo que a ela o ligasse. Naturalmente o dano era seu. Só esperava que algo se revelasse tornando-o uma pessoa mais plena e, portanto, um verdadeiro escritor.

Outra vez estavam na estrada depois de um lanche, subindo e descendo os Pireneus durante a tarde chuvosa. Bátegas ruidosas sobre o carro. Não podia acreditar que ali estava uma mochileira sob uma frágil marquise com seu dedo suplicante apontando na direção do Golfo de Biscaia. Julie era de Miramas, uma

ville mais ao sul, estudava na universidade de Toulouse onde fizera
anteriormente Belas Artes. Ia para Paris – antes a Beynac – mas com o sim de Michel resolveu passar também uns dias na praia e agora adquirira uma respeitável aura de testemunha no banco de trás a meu lado. Para ela, maio de 68 já existia em Toulouse antes de 68 mas ainda era muito jovem na época, uma criança na verdade, entre cinco e sete anos, quando seu pai chegava para trabalhar na industria da aviação. Usufruiu de um espírito libertário que germina antes de 68 e ainda hoje frutifica. Entendo, respondi, enquanto Pau passava à janela que à esquerda olhava a cordilheira. A pessoa como origem e fim de tudo, não o fato histórico. Quero crer que sim, disse ela; movimentos coletivos só preparam terreno para os que cultivaram essa terra dentro de si, preparando o que existiria de um modo ou de outro. Estradas. Os mesmos horizontes sempre à espera, sempre além. Dias profundos mais à frente da paisagem visível, Saint Jean de Luz, Donibanetik, Anglet, Bayonne. Noite. O brasileiro está quase dormindo. A mochileira olha excitada o movimento pela janela. Colocou as mãos nos bolsos do blusão acolchoado como a pressentir o frio e enquanto o carro diminuía a velocidade olhou numa varanda o casal cantando uma chanson basque que a transportou à infância em meio a sorrisos todavia não reproduzidos. Em Sara os recebeu o avô de Michel, típico em sua boina, na casa de madeira estalante, a fachada branca contrastando com o vermelho e o verde das vigas. Sua mulher nos serve torta de cereja. Mal falava ele o francês e ela nada. O movimento armado não é bem visto aqui nem há uma orientação

separatista clara. Poucos minutos após acordar, à janela da casa com Julie, Andrei comentará que nacionalismo assim parece uma outra coisa ligada antes à cultura e em ultima análise às pessoas. Não dá para esquecer o almoço do dia seguinte, todos cantando. Je ne

comprend donc rien au basque mais je trouve ce chant trés beau. Andrei não
compreende Michel em relação àquela gente Nik maite dudan Euskal Herria Haverá um momento em que o avô gentilmente se desdenhará dos ideais de Julie. A presença do próprio neto parece incomodá-lo e definitivamente não gosta de Oleana. Julie contava sobre a única vez que veio à costa basca, que praticamente se resumiu à praia de Les Cavaliers. Eram mais que convenientes amigos por força de uma circunstancia de viagem, mas isso diminuiu Andrei perante Julie. A menina de Miramas subiu a pequena elevação no jardim e se sentou na parte mais alta. Ele estava com vontade de chorar mas não saberia dizer o porquê e disse Julie com um acento razoável porém não pôde continuar, faltavam palavras até porque o inglês de ambos não era bom, o francês dele péssimo e ela sequer falava espanhol e português infelizmente nem pensar. Não que eu não quisesse, Andrei, se você soubesse o quanto eu tentei fazer esses cursos, mas sempre havia outras prioridades. Mas era uma questão maior que idiomas. Chegaram a pensar em fazer amor mas logo desistiram porque entenderam que teria sido uma forma equivocada de afirmar a intimidade, um desejo de saber mais do outro como se fosse uma vergonha terem segredos já haviam se tornado tão próximos. Estão recostados, quase deitados na grama, e ela canta. Agora dá para ver lá na varanda um casal que em cadeiras de balanço lhes sorri. Ser um cidadão, disse ela, é de certa forma existir, ter em vista o

futuro. Um vermelho noturno soprou e em seguida diante de seus rostos passou uma ave, asas céleres rasgando o ar e desenhando uma forma liberta. As instituições podem ter soluções adaptadas, francesas, espanholas, bascas, catalãs mas a liberdade de estudantes ou operários será sempre relativa. A sombra da nuvem adensa a treva instalada no jardim enquanto ela conclui que o ser cujo trajeto vai rasgando o tempo de seu existir independe do cenário a que está exposto. É em si mesmo a lenda, o mito pessoal; e o seu redor se consiste no papel de parede do quarto em que a criança escuta a mãe a lhe contar uma história. As sombras deles se misturam num balé pragmático na limpa parede lateral. São estrangeiros no mundo mais que separatistas. Em Toulouse, sabe, ali mesmo perto de onde vocês me pegaram, houve manifestações no Maio; o que você escreveu a respeito, a questão política? Eu disse que não, não tenho a menor tendência a ver o aspecto político das coisas, na verdade acredito que 1968 é muito mais um mito, o que aconteceu diz muito mais respeito à década como um todo. Se, por exemplo, dizem que a revolução sexual foi a única que perdurou daquela época, não se pode é claro limitar as coisas a um único ano. Ao falar isso estava pensando naturalmente em sua dor, na promiscuidade de seu desejo irresponsável, mas duvida que ela tenha percebido. Talvez agora, quando olha direto em seus olhos, veja um pouco dessa vergonha. O vento rodeia a casa. Leva a umidade atlântica para algum ponto do norte, para os lados de Periguex. Um olhar estrangeiro recebe as experiências como se fossem suas. Agradece a hospitalidade com uma expressão basca ensinada por Michel, sentindo-se milenar, e assim Julie a seus olhos era ainda a tal criança de quando chegara nessa Toulouse que é agora seu destino.

Em certo momento da passagem por Beynac se perderam nos arredores medievais com os pés silenciosos da vontade reprimida, não faremos isso, não faremos isso – todavia que mal poderia ter? Ouvimos ao mesmo tempo palavras que não foram ditas. Eram, não eram, ouviram dizer que há um sentido para todas as coisas. É que nessa época não seria impossível adivinhar o que se mostrará um dia puro desencanto. Em Marais, Paris à tardinha, subiram de mãos dadas as escadas da casa da mãe de Isabelle. Na janela aparecem tulipas vermelhas e amarelas. Julie tem algo em comum com flores. Não, a senhora não está e, se podiam esperar, esperaram no vestíbulo ventilado. Há quadros de uma época anterior, quando não se pensava em arte como mercado e mera decoração de esperas (Bem, pensou ele, isso dependerá de quem espera).

A empregada serviu raclette e café, agrado melhor impossível, pensa Julie, que adora esse tipo de comida, faz lembrar minha avó, não saberia dizer a razão, não é uma comida tradicional da região de Marseille, você não sabe como Miramas é linda, com seu aspecto às vezes também medieval (não concordo, aliás, que se diga “idade das trevas”), o vilarejo cresceu do alto, desde a Cidade Velha. Entendi, eu disse, sem compreender todavia por que aquela minha voz queria chorar. É hora daquela lágrima teimosa? Queijo no paladar. A senhora não costuma receber e pouco pára em casa. Agora foi visitar uma amiga e na volta passaria no mercado. Não lembra do telefonema da filha e não se preocupa com a hora de voltar. Prefere chegar depois da janta e evitar a mesa, onde não se sente à vontade. Está a um passo da separação do padrasto de Isabelle. Não havia muito tempo, passou a acreditar na filha, nas histórias que contava sobre ele. Talvez sempre soubesse que era verdade, mas amava tanto

aquele homem. Ah, filhinha... Nesse momento, Não posso esperar, disse Julie, sei que é importante para você mas tenho de ir ver umas coisas. Era importante sim, na medida em que prometera a Isabelle. A noite descera havia pouco e descíamos as escadas. Os papéis de Andrei caíram – esboços sobre Harlem Desir, sua origem, sua causa, seu provável futuro político; Loyers libres de acordo com matérias que consegui traduzir mal e mal; “Sous le cieul de Novgorod” e sua autora. E Sylvie Guillen, maravilhosa. Tudo abortado, respondi. Ah, como queria continuar com Julie! Até suspirou que Deus o ajudasse e agora as coisas se direcionassem de uma maneira saudável. Pouco antes de entrarem, olhou para ela e ainda discerniu um bônus para o relacionamento, o fato de a comunicação verbal entre eles estar a priori comprometida. Por quê abortado? Ora, porque tudo o que importa agora é que estou em pleno estado de paixão. Você é velho para mim, perdoe-me, ela sorriu. É, sou, e também – Ah, vai dar certo! – palavra estranha, certo: Quando exatamente significa algo? Afogueada, Julie diz que voltará no dia seguinte para a casa de seus pais. Mas não tenho dinheiro para pagar um hotel, que tal a gente andar pela cidade, ir a alguns lugares talvez, o trem sai cedinho, antes do amanhecer. Manter-se perto desses olhos sob qualquer pretexto, mesmo sabendo que é um desengano anunciado. Ficamos juntos, vou a Toulouse, Miramas, até lá a diferença de idade perderá a importância. Nem imagina outro cenário. Passeavam por uma Paris que por comparação com a vez anterior acreditou vazia, exceto pelos turistas. Havia chovido, estava quente, as nuvens passavam, é um sonho de Paris, diz Julie, sem parisienses. Em frente a Baudelaire na vitrine, ela fazia confissões discretas, de bom tom entre recém-conhecidos que mostram afinidades e se mantiveram naquele nível superior em que se

opina sobre a vida de uma forma vaga e teórica, como se opina acerca de livros e se esmiúça filmes e partilha-se o gosto musical – mas as revelações pessoais são contidas, casuais. Entretanto a vida real e prática estava ali, gritava nos silêncios. Ela toca violão, compõe e canta. As gravadoras estão todo o tempo recebendo fitas. Nada no mundo me faz desanimar, pois certamente morreria se não cantasse. Acho que há música até nos meus projetos de arquitetura, diz. Chegou mesmo a mostrar uma musica inteirinha, olha só cara, chama-se My

Song – assim mesmo, em inglês, é para atingir potencialmente mais pessoas, o
segundo idioma torna-se muitas vezes o primeiro. Ele disse que era mesmo uma tendência. Compunha, escrevia poemas. Falando, sentara-se à margem do rio, fazendo massagem no pé que descalçara. Abaixo da cintura, sou toda problemas, disse, aparentemente para justificar a meia elástica. Quer ouvir uma poesia? É no estilo de Rilke, sonho de artista, artista e arte integrados sem lugar para nada mais. Sonhando, vivia ela assim, à parte do mundo que diziam ser o real – sangue por pena vertido sobre a folha branca do cotidiano. O mundo só pode ser modificado pela arte, disse; política quando muito é um pano de fundo. Os discursos das pessoas são sempre muito repetitivos, dificilmente alguém diz uma coisa nova ou que tenha uma nova conotação. Por isso nos espanta tanto uma obra minimamente criativa, concluiu, pensando Não sei por que estou falando essas coisas com ele. Não faço realmente a menor idéia. Essa não sou eu. A entrada do que parece ser um supermercado. Le plus bas prix Ele está pensando que seria uma boa idéia comprar alguma coisa. Mas o preço mais baixo é alto. As falsas cores de tudo brilham em meio a pensamentos

inconseqüentes como o que insiste em dizer que vale a pena olhar e constatar vantagens. Quando ainda havia um rosto de Julie iluminado pelo dia ele observava as reentrâncias. Desmaiando com a aproximação da noite. O caminho dos faróis azulados deslizando em longuíssimas serpentes pelas ruas. Ele agora observa as tonalidades do crepúsculo na pele dela e diz para si mesmo que se os preços altos forem justos devem ser pagos. A cabeça de Julie gira e os olhos deles se cruzam num ponto perigosamente inquisitivo abandonando a familiaridade de ainda há pouco. Como se tivesse sido combinado, apertam o passo. Julie lembra como era uma estudante de arquitetura fascinada pela nuance rósea dos tijolinhos aparentes de Toulouse. Rosa que me lembra canções. Depois recitou a letra da música. Dividida, era plenamente ela quando deixava de ser. Ele sorriu por causa da afinidade. Sinceramente compenetrado nos versos, não notou o pavor nos olhos dela, um ponto de ruptura. Perplexo, teve de perceber em retrospecto, quando mais tarde seus pais contassem sobre o suicídio. Julie Wingran, assim alta e solene feito o nome, meias de compressão, sapatilhas, música e poesia desfeitas após a derradeira angústia. Agora faz todo o sentido a forma como falou de Hendrix e acreditava em Hendrix mais do que em Dylan. Não dá para crer numa arte que deixa de falar em seus temas, que passe a falar apenas dela mesma, e todavia é preciso que em algum momento o faça, sabe como é, uma reflexão, mas só isso, Andrei, não um palco para que eu atue. Julie. Vereda curta, inutilmente longa, como o curso concluído sem reflexo na vida profissional. E agora? A terra girava. Os membros iriam tremer e perder a antiga força. Continuar. Problemas de desejo e inspiração sublimadora não fariam mais sentido. Sobreviver, de dor em dor, oprimido, trabalho sem ganho.

Iria com o corpo para o mesmo pó. Agora sabe. Julie, eu – pensa; mais cedo ou mais tarde. Desfeitos, refeitos. Representação da vida, vida verdadeira. Rosto no espelho. Vocação supõe coisas reveladas antes da revelação de todas as coisas. A verdade, escorregadia, ilude toda evidencia.

Michel e Oleana estão em algum lugar na densa noite européia. Dois dias e duas noites Andrei errou por Paris. Sua enxaqueca voltou, embora estivesse menos nervoso do que o normal. Continuava sem saber o que faria quando chegasse a Trieste, que voltou a ser objetivo, como um regime a que sempre se está disposto e, embora nunca concretizado, sempre é recriada sua expectativa. Desviava-me. Degraus sem fim que nunca encontram uma porta. Vosges. Toda essa gente. Sono bendito que impede maioe consciência. Sim, voltará à casa da mãe de Isabelle, levará a encomenda. Homens de névoa, mulheres do bairro, cães, crianças. O que será de mim? Flores, canteiros e jardins exuberantes, bandeiras, o teatro. A bastilha não é por aqui? Sem noção, havia sentado num canto da Praça e a senhora apareceu coma menina. Terei de permanecer eu mesmo, ele pensa. Maman! E só comigo mesmo. (A menina está falando) Sozinho. Je ne parle pas Français. Ela está perguntando se você gosta de vídeo-game. Ah, não muito. E você, assim pequenina, já gosta? A senhora traduz. A menina ri e esvoaça, pipilando. Bruce Willis não tem uma filha assim nesse filme que estreou? Acompanha mãe e filha até a casa, ali perto. A menina chama, a senhora convida. O senhor insiste que fique para o jantar. Podia trabalhar com eles como sanduicheiro, sabe o que é? Não sabia. Trata-se do homem que estende uma fatia de pão em uma mesa comprida como se fosse um tapete; depois, os sanduíches vão sendo cortados com uma lamina redonda.

Eles tem uma padaria, uma confeitaria na verdade, ao lado da casa. Uma terapia, claro. No final de um mês, tinha dinheiro para ir ao sul, para Marseille. Compreendem como me sinto, embora eu próprio não tenha certeza. Calma, queridinha, não se preocupe, ele voltará. Pagam um salário excelente, recebe como um bom profissional sendo menos que aprendiz, jamais foi assim reconhecido como escritor ou jornalista. Conta essas coisas para os pais de Julie.

Miramas se aproxima e sentia no estômago o frio das chegadas de que não se sabe o que esperar. Miramas, duas horas de viagem nesse ultimo trecho. É uma sensação estranha de vazio. Acredita que são onze da manhã. Sabe que não faz o menor sentido, que está perdendo de todo o rumo e um mínimo sentido de orientação. Perto por perto de Trieste também estava quando em Veneza. Antes fugindo de Blandine que buscando encontrá-la. O homem passa e Andrei lhe pergunta pelos Wingran, ah claro, são gente muito boa, você é parente? Umas onze e quinze e os pensamentos se inquietam por sobre o mar calmo e a apatia paira porque uma suposta intenção escapa de qualquer estímulo. Pouco mais de meia-hora depois passava pela Chapelle Saint-Julien. Estava ficando velho para andar de mochila. Num momento de espantoso nada, quando olhava a foto da amiga, se perguntava como havia morrido e gostaria de ter lhe atribuído santidade, percebeu que as mãos tremiam. Muito prazer, meu nome é Andrei. Ainda carregava consigo o poema que ela lhe recitara e imaginou que isso agradaria aos pais mas depois recuou e teve certeza de que o achariam por demais inconveniente ao lhes mostrar. Apressou-se no sentido da informação

dada a respeito da casa deles. Meus sentimentos. Falam dela, de Julie. O quanto era valente e doce. Acabaram consolando-o, ele não devia se culpar. No final da tarde, choraram. A presença de Julie é um mundo que surge como um rosto que amanhece no espelho. Acompanha-os numa sexta-feira a Marseille para resolverem algumas coisas em relação à filha. O homem está submerso num jardim indecifrável. Está como morto. É alemão de Darmstadt. Fala-se de integração em seu país. O alemão é um idioma bem difícil. O senhor Hans se mostra indiferente ao futuro. Que me importa? Minha filhinha. Mas consegue se animar um pouco ao falar de Kant. Não ficou muito claro se os Peyroux estavam esperando Andrei de volta. E há alguém na Itália que precisa ver. Ele não irá nem para um lado nem para o outro mas continuará viajando. É como nossa filha, diz a senhora Valerie. O marido esqueceu da tristeza que o matava e abraçou a cabeça dela sentindo o cheiro dos cabelos que ela ainda usava soltos como quando o conheceu. Não chore, amor.

E agora para onde iria? Não achou adequado falar de Blandine e pensou em um breve giro pela Europa antes de voltar ao Brasil agora que também estava na varanda e não existiam vagabundos ao redor. Vê então mais uma vez. O quanto deixa de ser. Esse cara sem personalidade, ao sabor das aparências, preocupado ainda com o que pensarão. É assim com todos em toda parte mas ele não é todos e a parte que lhe cabe parecia até ontem apesar de tudo especial. Valerie, a mãe de Julie, sugere a Holanda, Julie ficou lá recentemente, passou as férias num barco, fez bons amigos. Parece a Andrei que viu um olhar reprovador no marido, talvez até imagine a razão. Ah, sim, eu tinha dinheiro

suficiente, eles foram realmente muito generosos. E se não desse, pensou, ora, esse tipo de loucura é a minha vida. Parte no dia 7, pensando ter ouvido qualquer coisa sobre North. Quando deixou Miramas, soube que não voltaria. Pela primeira vez sem pena ou vergonha, soube que não voltaria. Não para ficar em lugar algum. Não deveria se preocupar com a perda das raízes, algo que nunca teve. Nação é um fenômeno transferível. O Brasil estava em Trieste. Excitado novamente com a perspectiva, metido num terno bege de linho amassado, toma um avião para Amsterdã, tranqüilo, um rapaz de bem, pensa sua companheira de viagem. Lá estão os amigos de Julie, entre paredes inclinadas e bicicletas; paira nas ruas o cheiro de maconha. Pega um trem depois, vai para Bruxelas onde há todo um clima propício a Cohn-Bendit, haverá ele de ser no Parlamento europeu devidamente reconhecido e tratado com a honra do acaso. Choveu há pouco, agora abriu o sol, parece um tipo de tradição. Travou breve conhecimento com um diplomata, animado com a perspectiva de Lisboa estar cotada para ser a próxima capital da CEE. Foi na Bélgica, caminhando por ruas limpas ladeadas por canteiros, ao distinguir uma moça no sentido contrário, pássaro ao crepúsculo, uma abelha a depositar pólen de saudade, poeira fecundando em seu amor, que imaginou voltar para Paris e procurar sim a senhora Hélenè, trabalhar com os Peyroux mais um tempo e traria de universos prósperos a necessária prudência material para enfim a ultima baldeação antes de Trieste. Em Paris, quem diria, estava em casa, no berço do Maio, a Cidade Luz, propícia a revoltas desde que inócuas, centro do sonho europeu e agora de um lugar de trabalho – seus olhos no aeroporto viram a tarde entre as pessoas

cheias de malas, de lá para cá, carregadores, táxis. No céu uma lua no dia se intromete. A azáfama não causa medo, tinha para onde ir, não dependia de ninguém. Na verdade não restava muito dinheiro, quase nada na verdade, mas tudo bem. Não estou preocupado. Marais envolta numa luz pálida, abandonada. Então a velha empregada explica. Eles não estão. Não sei quando voltam. A mulher não é rude, não é simpática, apenas informa. Agora você está de novo ao relento, amanhã poderá comer ou não. Mesmo assim agradece. De nada. A rua é um ser selvagem e os carros monstros terríveis. Luzes, instrumentos de tortura. Pessoas flamejam. Padece a folha ao vento, pousa num parapeito. Caminhou pela arcada, senta-se no mesmo banco da praça. O tom cinzento do numero 15 sabe o que ele sente, está estampado em seu rosto. Os vizinhos acham que eles não voltarão. Parece inclusive que venderam a padaria. Ah, obrigado. Segundo o cliente de um antiquário, foram para Milão. Há mendigos em seu suor frio. Segundo a profecia das vitimas que se tornaram fraternas, estabeleça-se a medida da recordação e da projeção. Que não seja preciso precipitar o pranto em público. Até Julie, era um andarilho; depois dela, se tornou um dos tantos sem-teto europeus que, sem trabalho, caíram na rua – até em Miramas havia. Anoitece e a noite de contornos do mundo outra vez é um mundo outra vez um túnel para lugar nenhum. Eis a hora. Olhava as pessoas com um misto de perplexidade e terror, sintomas de uma doença que se pensa curada, sinais que bem se conhecem. A recaída ou nem houve cura. Há odor de século passado até na indicação do metrô. Só não pode esfriar. Toca um telefone. Uma barriga luzente. A jovem se abaixa, à mostra o inicio do sulco no cós. Vitor Hugo viveu aqui. Teria escrito. Je suis en train de mourrir! De novo sozinho como os

que acordam de um pesadelo gritando e descobrem que o despertar não traz consolo salvo talvez a fome, essa referência. Limite até onde vai o desespero. Rue Saint Antoine. Tenho de comer alguma coisa. Aprende-se a cada dia. Nada diferente de aprender acontece na vida. Lembrou, comparando, a situação sozinho em Luanda. Lá havia a disposição peculiar dos que tudo podem porque nada os embaraça. Tentam qualquer coisa e o eventual fracasso estará longe de qualquer pessoa conhecida, de toda vergonha. Essa virgindade a Europa perdera. Paris era caminho de Nastácia, Michel, Oleana. Possibilidade de Mario, Isabelle, dos pais de Julie. Vergonha. O céu incendiado sorri com sarcasmo. A súbita rapidez de passos supunha que tinha eu um destino. Os lustres pendem em losangos. É um losango? As pessoas passam nos pátios mau-humoradas. Passe partout. Olha e vê a si mesmo no reflexo do vagão. Ainda bem que não está frio. De um lado para o outro, as pessoas vão e vem. Não há a calma que propicia alternativas. Nunca vira algo assim. Adeus segredos ornados; adeus solidão reluzente. Estremece. Tremem as seculares pedras acima do Maio: era a perspectiva do Pink Floyd – eles ainda comoviam, com seus lasers, a juventude mais esclarecida do mundo. Não saberia agora o rumo. River rolls, time pass. Ainda que fosse um rumo qualquer, não o mais adequado ou sabiamente ponderado, talvez seus passos o fizessem por ele, teriam de fazer. Preciso sair daqui. Os passos se apressam e como sempre, quando se está vulnerável, surge uma igreja. Há gente sincera na hipocrisia cristã instituída, pensa, e durante a celebração já estava arrependido de seus muitos pecados, pronto a se redimir deles em qualquer lugar onde lhe dessem guarida. O pastor se inflama, grita,

cospe, demonstra inequivocamente que os prevaricadores estão com os dias contados e os que tendem para a sensualidade arderão todos, eu disse todos, e soca o púlpito, ergue a bíblia equilibrada na mão direita, aberta no fogo consumidor – arderão – nunca soubera direito o que era o dom de línguas, pronto, descobre – queimarão – era alguma coisa antônima a babel, a ação inversa, jamais preguiçosa, entender o que se grita em idiomas que não se domina e saber que em seguida virá o sublime momento das decisões, isto é, quando os pecadores abrem o coração a Jesus se adiantam onde todos possam ver e testemunhar o milagre, e em desespero ele vasculha os bolsos, a cadernetinha, procura o endereço daquele argelino, tenho certeza de que anotei aqui, e lá vão os salvos a caminho, e sim reconhece que precisa comer, ter um lugar para dormir, hesita e por fim recua, endurece o coração, está perdido, não irá ter seu rosto iluminado pela bem-aventurança enquanto louvam, aleluia, e agradecem e comentam. Mas uma mulher. Chama. De aspecto sério. Transgressor da orientação bíblica sobre penteados, atavios e jóias, seus dedos longos encimados pelo carmesim se ramificam no couro dourado das letras na capa do livro. Pergunta. Brasil. Não falo francês. Não pelo dom de línguas, ela muda o idioma. Gosto de brasileiros. Saímos em seu carro. Indagou acerca de minha vida. Respondi com toda franqueza. Mas era assim tão difícil voltar? Pela embaixada em Lisboa, par

example. Era e também seria o retomar a vida no Brasil. Os jovens. Sempre se
aventurando. Eu não sou tão jovem assim. Talvez aliás fosse essa a pior parte do problema. Bem. Tampouco ela. Jovem é minha filha, par example. Mas me sinto tão jovem quanto. Porém ponderada. De fato. Ainda jovem, e muito bela. Lisonjeada, comenta que se deve ter cuidado com portas entreabertas. As

portas de retorno são sempre mais difíceis de se encontrar. Ele calou. Você deve estar com fome, claro. E, como respondesse que ela parecia ter experiência de situação como aquela, assegurou que eu não era o único imigrante naquelas condições na Europa. Como ela sabia? Sabia. Convidou-o para comer alguma coisa. Durante a conversa no restaurante, Você está com um problema sério, disse ela, mas não estava se referindo à coisa da matéria, mas queria dizer a síndrome de posteridade agravada por um misticismo confuso. Como assim? respondeu, A senhora é religiosa. Ela gostava de igreja e crê sim em outro mundo. Mas você, rapaz, vive em um. Duas pessoas tão diferentes como ela e Claudia concordariam assim num mesmo erro ou deve ser humilde e escutar? Estavam à mesa a cerca de uma hora e meia. Ela pediu licença, disse que tinha de dar um telefonema. Voltou, pediu que a desculpasse, precisava dar uma saída, pediu que a esperasse. Andrei teve receio de que não voltasse, um medo físico inutilmente recusado por sua alma.

Na ausência de Beatrice, há um torvelinho além da mente imediata semelhante a uma cavalgada que sai dum limite de terras. Há à mesa um corpo tenso embaçado entre gente jantando sob luzes e burburinho. As pessoas ao redor, comendo e bebendo, tinham para onde voltar. Ele retinha a idéia de lar, adorada e com a qual não saberia subsistir caso se tornasse real. Quando Beatrice reaparece, traz consigo seu alívio, na bolsa uma paz que,como o nome dela, ele ainda ignorava. Não pensava mais possível. Na época dos cafezais, subsistia nas muitas tensões, em grande parte, graças à codeína. Após o primeiro dia na panha, fraqueza, mal-estar, vômito e

diarréia. Imaginam que é falta de costume. Mas depois, na seqüência, o trabalho árduo se mostra benigno, calmante, e no decurso dos dias fica corado, engorda e se mantém limpo dos remédios. A crise de Kátia. Para ele próprio suportar, retoma o hábito. Agarra-se à economia das ultimas cápsulas. A síndrome espreita todo o tempo. Volta e meia sente-se sem forças de sequer se manter em pé, e torna-se bem penoso respirar. Agora. Solidão, fome, relento. Os sintomas da abstinência se manifestam: músculos repuxando, rigidez facial, tremores nas extremidades, movimento involuntário das pálpebras. Sempre se imagina que uma situação tranqüila resolverá tudo. Não é verdade, pensa. Tive muitas chances de largar. Em Paris mesmo, antes. E não adiantava sonhar com novos cafezais, trabalho braçal na roça. Tomara a ultima cápsula no dia anterior presumindo da nova estada em Marais, do trabalho na confeitaria, de uma nova caixa de cápsulas etc. Portanto. Ah o alivio quando Beatrice passou francos e dólares sob a mesa. Junto um envelope, um papel carbonado. O sud-express. A moeda francesa é para cobrir as despesas em Paris; a americana, o valor de uma passagem de avião de Portugal para o Brasil. Mas mal se conscientizei da viagem. Pensava na farmácia. Aos poucos despertou do alivio. O sud-express, o comboio Paris-Lisboa, sem crise de abstinência. Obrigado, senhora, obrigado...

Sabe que está pálido, aparência mórbida. Tudo bem, tranqüiliza- se. O remédio o manterá. Porque tanto quanto na fome, talvez mais, na síndrome de abstinência não existe mal ou bem, culpa ou inocência, só vício em estado bruto. Sem sublimação, sem arte, sem amor, sem dilemas existenciais ou destino. Por

mor dessa dor jamais anjos. Só o vazio, o vazio total. Suplicando. Suplicando outra dose. Cold-turkey, o cold-turkey. Ei, onde você está? Beatrice passa a mão direita diante do rosto dele. Pediu que pagasse a conta. Depois disse Vamos. Ao entrarem no prédio, ele reconheceu as tulipas vermelhas. Lá em cima afundou as mãos numa caixa e de dentro trouxe um envelope. A encomenda da filha. Pena que o amigo que a trouxe não tenha esperado. Ele esperou o quanto deu. Ela ouvirá a explicação. Saberá de Julie. Sua atenção conforta, seus olhos brilham; sua boca, num instante breve, se transforma na boca materna. Seus seios logo satisfarão a pequena Isabelle. E o quê? se não tivesse a senhora Hélenè naquele dia? O que se não Beatrice hoje? Mas o desejo pode causar confunde com o constrangimento. A senhora deve com razão me achar um oportunista. A maldição humana, respondeu ela, é julgar. Deixou suas coisas e saíram de novo para uma volta. O caminho produz um olhar agradecido. Atrás deles a rua se estreita. Se afastam do rio. Ele contei de Blandine. Está fazendo uma temperatura agradável. Poderia continuar amando assim intenso se não mais pudesse vê-la? As pessoas usam casaquinhos. Poderia, pergunto ainda, sublimar o amor e sem mais a angústia da posse ser fiel? Em Village Saint Paul ela se apaixonou perdidamente por um canalha, conta. E agora, depois da morte do pai de Isabelle, talvez tenha voltado a amá-lo. Acabei de abandonar esse maldito, agora quero apenas a paz das lembranças. De onde brotam tantos pombos? O embrião de afeto se confrontou com uma veleidade. Caso precisasse tomar um partido poderia conseguir transpor aquela inércia agressiva agora que mais uma vez havia liberdade para sonhar e a humanidade fora novamente redimida? Bem, quanto a essa resistência em relação a uma eventual

possibilidade de publicar, não querer dar entrevistas de divulgação, ela acha que tem mais a ver com um certo sentido de respeito pela obra; ele diz numa rara risada que ela está certa, que é uma coisa meio paternal, a senhora entende. Não posso permitir simplesmente que o mundo via mídia se aproprie assim do que tem sido a minha vida. Barulho das águas da fonte. Muito de madrugada, três e meia no relógio da sala, ao sair para o banheiro, tateando no corredor junto à espiral da escada, o luminoso repete-se lá fora. De volta ao quarto, ondas da evocação de Isabelle. O dia então, na claridade consumada, pousa na janela. Desce a escada após ter deixado o bilhete. Agora, as cápsulas. O atendente não atende de imediato. Há um médico no sobrado. Enfim a receita. Na rua que desemboca numa pracinha tranqüila, toldos verdes e uma bicicleta azul e pingos do sol que atravessava a copa da árvore onde ela estava encostada quieta à espera. Cremenceau. Sintomas em aura. À medida que o alívio coloria os carros vivamente saturados, as ruas eram tocadas por influências azuis realçando as placas de publicidade e vingava uma impressão de que a rosa em terceira dimensão a realçar o grafite lateral de um prédio exalava um perfume correspondente de bem-estar que revelava respostas na Avenida Churchill onde foi tomada uma cápsula a seco. Depois outra. Um refrigerante na brasserie. A não-chegada da crise de abstinência. Sentia-se outro, desacostumado que estava de si mesmo, como se seu eu lhe fosse uma natureza exterior. Está seguro com a cartela no bolso da jaqueta. A placa da rue à altura de sua cabeça mentia: ele não estava na rua, não chegou a síndrome, pensou. Eu sou eu sendo outro – o desejado efeito. Foi feliz por dois dias.

Envolto na fumaça, o trem deu o tranco. Sentado à janela, espalma a mão no vidro. Da plataforma, ela pergunta se ele escreverá. A senhora gostaria? Ela disse que não. Talvez escrevesse. Um sorriso em seu rosto triste, sol entre nuvens. A dificuldade do adeus. Alguém pode indagar por que a dor. Ele não sabe. Mas à medida em que Beatrice vai ficando pequena, menor cada vez ao ritmo do ferro, é sofrendo que ele soletra, tocando os dedos na frase, um último protesto de amizade e admiração. Ela disse algo que Andrei entendeu como “Adeus, querido, vá e encontre teu mundo”. Duas lágrimas azuis encheram os seus olhos. Era meia noite quando a locomotiva puxou os vagões, apitando. O sudexpress... Fantástico na imaginação, todavia era igual a qualquer locomotiva puxando vagões e apitando, em qualquer parte. Uma locomotiva tem sua rede de músculos, como um homem, na Europa, na América, em qualquer lugar. Podem ser diferentes os homens, e são, mas a estrutura é a mesma – como um trem. O cordel da máquina fazendo as vezes de corda vocal; o apito, a voz; os tiques férreos tiquetaqueando na fricção da partida – como pernas que se preparam para correr. A fumaça da respiração. Os passageiros nos vagões são como células renovadas. Paisagens de sonho. Sempre se precisa ambicionar uma estrela distante. Sud-express. Sempre se ignora uma outra, tangível, aos pés, na areia do mar onde pisamos – o mesmo mar, com a estrutura de um ser humano, a voz das ondas, a alma do abismo, e glóbulos de peixes em veias de correnteza: a bonança como a calma de um homem e a tempestade coma a fúria de uma mulher ciumenta – pensou – em todas as partes do mundo.

Beatrice e Andrei haviam deixado a casa dela às dezessete horas. Ele queria ainda ver um ultimo crepúsculo parisiense. Soava melhor: “No dia em que deixei Paris, o céu incendiado...”; do que: “Quando partia de Piumhi, os cafezais empoeirados...” Vaidade é inerência humana e senti-la o ligava ao resto da humanidade da qual se retirara. Ao ver com a luz daquele céu a umidade tornar ainda maiores os olhos dela, pensei que talvez tenham inspirado o sonho que teve no trem. Antes, a seu lado, um homem trazia aberto um livro. “Everything is

of equal importance from a truly creative stand-point”. Parece coisa beat. Não
estava de todo errado. Era a introdução de Henry Miller para “Os subterrâneos” de Kerouac. Sansão Loureiro olha para ele. Respira fundo. Gostaria de lhe dizer algumas palavras. Não se olha um livro no colo do passageiro ao lado com tamanho interesse caso não se tenha um interesse verdadeiro por Literatura. Teve que se desdobrar para entender o que o outro dizia e provavelmente não teria seguido adiante com a conversa caso não percebesse que era um brasileiro também, que depusera na passagem sobre o ponto de vista a sua confiança. Ah, é que sou professor de literatura, disse, e preciso sempre que possível ler no original. Depois adormecerão ambos. Andrei suspirou pela chegada a Lisboa e reinicio de seu livro, enfim só e sossegado. Que os nervos saltem mas eu seja. Cada vez mais o corpo dispensa piedade, por virtude do paliativo. Não saibam da minha doença. Quem é exaltado? O perverso? O dócil? Sou ambos, todos, a lasca de rúcula, o sal e o vinagre balsâmico. Também a saladeira. Misture bem. Sirva em seguida. Estava livre. Voltaria enfim para o Brasil como um vencedor. Depois de muita impressão trocada, da excitação de conversar com um brasileiro na França (e sobre Kerouac!) Andrei acabou então cochilando e veio o sonho. Visões da primeira vez que fumou um cânhamo indiano legítimo. Sob

estrelas que não vejo, acalentado pelo thuthuchz-thuthuchz do trem, lembra, sonho. O iludido, o sonhador, na casa da mãe, olhos fechados, um vaga-lume pairando sobre uma circunferência negra gigantesca. Piscava. Arte ajuda a viver quando não simplesmente vive em nós, lojas de artigos de inverno que vendem mais em pleno verão. Piscava. Do outro lado da bola, outro vaga-lume piscou. Arte: lenda de crianças desaparecidas atormentando os vivos séculos depois: o terror e o êxtase futuros décadas antes. Depois um terceiro. Agora Andrei é esse terceiro vaga-lume e eis um quarto – eis dezenas, milhares. Logo a circunferência inteira brilhava, plena fulgência. Fugaz aparição. Ficara todavia. Pelo espelho, pelo Outro, pela noite. Pela caligrafia nas páginas ainda em branco do caderno e o traçado que a simples memória recusou. Despertou. Levantou-se. Por que está chorando? No espaço entre os vagões, respira o ar molhado. É praticamente verão, mas não está quente. Sansão perguntara sobre sua volta. Ele ainda não sabia embora agora houvesse meios de voltar – uma ponte reconstruída. Sansão lhe contava da primavera agradável no Brasil, inclusive na fria Curitiba onde morava. No verão, planejava ir para o Rio, pegar uma praia e nadar um pouco. Na plataforma de desembarque de Lisboa, Andrei a viu de esguelha. Porque era outono e o inverno se aproximava. Nastácia. Há confusão em sua mente. Está ali parado, sem esconder o rosto. Se ela o buscava, iria encontrar. Se era o que ainda queria. Encontra, de fato. Acompanha os últimos metros da composição. Sansão, que mencionara uma volta ao Brasil juntos, imagina-a a namorada do outro brasileiro e que gostariam de ficar sós. Despede-se. Andrei desce e põe a mochila no chão. Nastácia sorrindo a seu encontro. Onde a fúria do mar? Ele a abandonara... Não estava sozinha. Per un futuro felice! – diz o homem a seu lado. Não

podia ser o marido. Olá. Sou Franco Bellini! Era. Como sabia que eu estava naquele trem? Sabiam? Não vamos duelar ou algo assim? Ele riu, no que foi imitado. Diz que ama Nastácia e que talvez ela o amasse. Ou tivesse amado. Mas tinham um sério problema, a convivência. Quanto a vocês dois, ela contou. Se amam e convivem bem um com o outro. Devem continuar assim, agora pelo menos, independentemente de se vai durar. Seu raciocínio, coerente e liberal demais, assuntou Andrei. Mas aconteceu que, subitamente liberto da dependência financeira de Nastácia, percebeu nela encantos que o dinheiro embotava. Como se fosse uma outra mulher. Alguém que se deixa de ver por um tempo e na ausência cortou o cabelo, mudou o penteado e passou no falar a ser discreto. Uma nova pessoa. Barco que se vê ao longe: visão falsa quanto ao tamanho e incompleta nos detalhes, a memória e imaginação suprem essas lacunas para entregar ao desejo um ser inteiro, não apesar da distância mas por causa dela. Percorrer com Nastácia os mesmos caminhos que percorreram quando ele estava na miséria era andar por caminhos não só novos mas redentores, lugares em que o menino costumava brincar mas temia a chegada da noite enquanto o homem se afadiga no dia e regozijará com as sombras pelo crepúsculo prenunciadas. Montes de mãos, rios que corriam em meus dedos, impulsos primários de todas as formas satisfeitos. Noite. O céu estrelado sob o vulto da árvore contorcida, ao ribombar regular dos trens estremecedores do chão cruzando a guarida do manobreiro. Andrei e Nastácia ocultos pela copa próxima à Torre – ou será o Monumento aos Descobridores?

Deita satisfeita na coberta retirada da mochila. Margens mágicas sujas de lendas. Castelos. Abaixou-me junto às águas. Transportou-se. Lugares inexistentes não precisam da passagem de regresso. Azul escuro atemporal. A lembrança de sempre na noite que restou. Um Tejo real, adormecido. Só irão dormir para valer já quase na manhã de domingo, no gramado ao redor da igreja lá em cima, após o sol secar o orvalho, lá pelas seis e meia. Semelhante sono tende a ser desfeito pelo calor dentro da lã na blusa necessária para a noite fria. Haverá além da morte talvez o que se poderia ter em vida, saúde e prosperidade, a força de uma natureza benigna, a amizade dos animais hoje selvagens, águas correndo da direita para a esquerda perante os grãos de miragem que se formam nos olhos quando desviamos o rosto para que não vejam que está vermelho de uma irremediável vergonha. Cansados, famintos, procuram agora uma pensão. Acabamos no velho hotel defronte do coliseu, luxo perigoso, sempre. Chegaram assim a semelhante situação: Andrei nada dissera sobre a volta ao Brasil, sobre o dinheiro que para isso lhe dera a mãe de Isabelle. Aliás, nunca falaram sobre nada quanto aos últimos meses, os meses de nossa ausência mútua. Nastácia está tranqüila em relação à parte financeira, por causa de Franco. Também por amigos anteriores ao marido, aos quais não vira após o casamento. Em sua maioria portugueses “retornados” de Angola. Passaram por maus pedaços na volta, após a independência da colônia, mas conseguiram se restabelecer em Portugal. Tenho certeza, diz ela, que nos receberão enquanto as coisas se acertam. Não quis tripudiar sobre sua decepção, mas à época eu disse: “Será?” Agora é tarde. Hoje ele era enfim um cara realista. Pelo menos isso as vicissitudes ensinaram. As manchas dos técnicos psicotécnicos em folhas duplas significavam que o papel foi manchado de tinta;

a nuvem é só uma nuvem, não uma pista de pouso – fizeram bem em reprovalo na prova do brevê. Mas é triste a vida sem sonhar. A pomba no parapeito do hotel geme qualquer coisa a respeito e estala as asas deixando-o sozinho novamente. Pois bem. Os tais amigos recusam guarida. Um após outro. Todos. Não. Exceto Hilda. Desce a noite e como a região do coliseu se encontra triste à noite! Mulher admirável a Hilda. Ela e o novo marido, Garlos. Hospedam a amiga e seu companheiro. As duas recordam passagens da adolescência enquanto ele e Andrei acertam o emprego do brasileiro em sua fábrica de moveis. Tudo caminha tão bem que Andrei se esquece do livro. A paz é péssima musa e encontrou enfim a banalidade dos felizes. Começa a trabalhar. Rapidamente se propala a reputação de funcionário exemplar simultânea à de protegido do patrão. Garlos estava a pensar, diz logo depois do jantar no primeiro sábado, em coloca-lo num dos escritórios. Serviço braçal não combina contigo. Mas Andrei adorava. Feitura de cadeiras, mesas de TV, vídeo e computador, escadas graduáveis. Montagem. Ah, e a preparação das embalagens – pode-se dizer que se tornei de fato um perito em nós. Dias calmos na casa do casal. Nos finais de semana iam a um barzinho onde serviam bebidas quentes à lareira. Sobretudo aos sábados, sábados como ontem, meu Deus. O pombo circula, está de volta. Ah, meu amiguinho. A única coisa que me incomoda, Garlos, é incomodar vocês. Incomodar nada. Claro que sim; por exemplo, tirar sua filha do conforto do quarto dela para nos instalar. Não era nada, disse ele; era um prazer, completou Hilda. Mas de fato mudaram

a rotina da casa, horários de banho, refeições, lugares à mesa, alem dos quartos. Perderam a privacidade. Não é verdade meu amigo. Estamos optimos! Mas um dia, tensão à mesa do jantar ficou incontrolável devido a um problema com a menina. Pare! Não fale assim! Somos teus pais! O quarto estava decerto entre os motivos da rebeldia, não fosse o único motivo. Eu até que gosto deles, pensou Sandrine. É raro encontrar um casal de meia-idade desprendido como eles. Na verdade seu problema era com os próprios pais. Precisa testa-los continuamente. Entender seus limites. Se arrependerá de ter sido a causadora da partida deles. Eu gostava mesmo deles, Felipe, disse ao irmão. A casa de praia que não estavam usando. Pedreiros e reforma. Podíamos ficar lá. Hilda e Garlos oferecem uma resistência não-convicta. Isabel olha-os agradecida (talvez com algum afeto, pensa Andrei) Amanhã estaremos à beira mar, alegra-se Nastácia. O sol busca no mar seu próprio reflexo; sombras pesam em torno do prédio. A pomba se aquietou em algum canto. Então silêncio. Solidão sem desejos. Deve haver algum modo de saber por que o silêncio nunca é sereno. Há pouco, acordaram e olhava a cidade lá embaixo, o rio, os cacilheiros pequeninos. Houvera um casamento e as pessoas saíam ao gramado a confraternizar. Da distancia em que estavam naquele dia, dormindo no gramado, Andrei e Nastácia aos olhos dos convidados faziam parte da vegetação que ladeava a rua até a igreja num primeiro olhar dos meninos, ele de terno, ela com um vestido de festa rosa. Olhe ali, diz o João. Não parecem

mendigos, diz Maria. Vamos lá, diz João. Melhor não, diz Maria. Você tem medo? Não tenho, responde o menino, mas melhor não. É esse tipo de gente, pensou ele que me faz pensar no quanto a vida é estranha e ter medo de crescer. Por que amanhã mão poderei ser eu? Perguntou-se a menina. E olharam o casal se

levantar, sacudir os vestígios de grama da roupa e irem embora, descendo a encosta, ele ao som de uma canção triste nos fones de ouvido. Era a mesma canção que escutavam no aparelho de som de Felipe, na casa de Garlos. Os transeuntes lá embaixo formam uma mancha esverdeada, escura, móvel, nas cercanias na Torre. Acordar num lugar assim traz invariavelmente um prisma distinto, tudo parecerá novo – é a vantagem de estar dormindo na rua e um dia em cada lugar. Desvia olhos doloridos na direção de Nastácia. Cheios de lágrimas a viram. Derramando-se entre os sonhos de amor e o medo. Quando ela acordar, decide, eu lhe direi que há dinheiro suficiente para passarmos no hotel aqueles dias até conseguir outro emprego, ou enfim a esperança é a ultima. Contempla de novo o rio, a cidade, as pessoas pequenas, a mancha móvel, tudo cheio de desespero também. Um arrepio nos nervos. Os olhos da pomba no escuro. Deixa a varandinha, entra no quarto e fecho a porta, recordando a mudança para a casa de praia. Outra vida. Fins-de-semana, uma festa. Felipe, filho de Hilda e meio-irmão de Isabel, 16 anos, descobrira facilmente ser o hóspede um apreciador do haxixe e, consumindo-o ele mesmo desbragadamente – sem que a mãe, imersa em planejamentos grandiosos, ou o ocupadíssimo padrasto percebessem – introduzia as madrugadas de sábado a buzinar sua moto com a namorada na garupa eventual. Olá, tios giros! Ô pá, cá estamos! Vinham sempre com irmãos de CBX200 a fim de celebrar o ritual do início da noite de sábado. Ah, o que a mãe dele haveria de dizer, sua comportada amiga de Luanda!... E Nastácia ria, riso de cristal ecoando na cerâmica espelhada. Balcão de granito. Arde o incenso. Andrei sente-se rejuvenescido ao entrarem no astral do sonho,

conversando sobre o Deus do mar e das estrelas, sob elas, ao lado da churrasqueira no quintal.

Numa segunda-feira, Hilda telefona. A primeira secretária do escritório de Garlos em Lisboa pedira demissão. Ela usou meias e ligas para convencê-lo a dar a vaga a Nastácia. Significava que Andrei ia perder o lugar na fábrica, pois só a parte administrativa funcionava na capital. Começam grandes discussões. É claro que eu posso continuar aqui e você ir para Lisboa, podemos passar juntos os finais-de-semana, alugaremos uma casa numa cidade intermediaria. Por quê separar-se? estás a querer se ver livre de mim! – Claro que não, Nastácia, seja razoável, estou bem em meu trabalho, não é só uma questão financeira e, no fundo, ele sabia que a polêmica transcendia em muito essas coisas. A brasa de um cigarro, quando rodada no escuro, parece um circulo de luz ou de fogo; mas devagar torna-se apenas uma brasa de cigarro girando no escuro. Também Hilda e Garlos vão veementes de encontro ao desejo de Andrei. Para Hilda será impossível Nastácia conseguir algo semelhante noutra firma e para mim há grandes chances de ter uma função igual em Lisboa. Sem contar, acrescentava Garlos, que Andrei ainda poderia trabalhar como jornalista. E escrever teu livro, amor. Mas um livro não é trabalho. Trabalho é remuneração imediata. O ultimo dia na casa de praia. Lentamente o sol surge na névoa. Cães latiam. Ventava muito como sempre. Da porta, ele vê Blandine saindo da água. Um pássaro paira sobre ela. Mais um croisant, querido? Mudamos para um subúrbio lisboeta. Primeiro dia. Disciplinar-se por meio de uma agenda. A idéia de se dedicar ao romance. Não deixa que a depressão se instale. Esqueceu a discussão que tiveram ao chegar mas só até Nastácia dizer como é bonito o

prédio. Tão difícil conseguir um emprego bom, uma renda regular, você joga tudo pro alto e quer que eu fique admirando a arquitetura lisboeta? Ah, Andrei, vê se pára de reclamar, estás a encher o meu saquinho! Logo ela, que sempre disse que não sabe fazer nada, nunca trabalhou, e nem quer saber de – Caralho! Que eu saísse dali! Saí, me deixa em paz, porra! Ele vai para a porta. Adeus então – Não, por favor, não vá... E faziam amor melhor. Recomeça a trabalhar no livro. Sem haxixe e mantendo a codeína a níveis de não-retirada. Passa os dias pela cidade, faz anotações em praças, em snacks, sentado na mureta do Tejo. Trabalhar, trabalhar mesmo, escrever à vera, só no silêncio da noite. Aproveita notas de viagem, entrevistas, depoimentos, poemas, artigos e, sobretudo, filmes. Um escritor que acha melhor um filme do que um livro. (Nesse período é tocado por “Bird”, a biografia de Charlie Parker. Não quero mais ver outro filme de Clint Eastwood, pensa; não quero ver Forrest Whitaker na festa do Oscar). E tem o caderno que mantém à cabeceira ou à mão, onde quer que tenha dormido. Ao acordar para fazer xixi há sempre um fragmento de sonho ou – de novo essa voz. Logo adormece de novo e pela manhã, ao Nastácia sair, descobre feliz o poder da retirada de trechos do texto principal, a eloqüência da rasura. As descrições viajam de fora da janela para dentro de alguém que antes não existia, pensa, não sei direito quem é. Sabe as coisas a seu modo. Me arranca das entranhas em inesperados crepúsculos de efeitos, arrebóis de figuras, tudo o que é linear se torna inverossímil. Que vida? Quem assim? O que se fala? O prazer da digressão. Foi a partir de uma noite acabaram as cápsulas de codeína. De há muito só protegiam da síndrome, de há muito não retirava delas a mínima fonte de

prazer. Para tanto servia também a substância no emagrecedor de Nastácia. Procurou. Costumava guardar numa gaveta com extratos bancários, receitas e anticoncepcionais. As mãos tremem. Derruba papéis que serviam de guia para o romance: mapas de metrô, notas ficais, recortes, páginas avulsas, cartas. Encontra a caixa, tira um comprimido da lâmina, engole com um pouco de suco e se prepara para arrumar os papéis. Para quê? Por que fora de ordem não me serviriam de guia? Garantiam o domínio do tempo independente da cronologia. De resto é como as coisas eram, caóticas, e qualidade literária não há mesmo, nunca houve, de uma ou de outra forma. Peguei um poema escrito na casa de Oleana. Quero voltar para Lisboa, quero ir para longe, para a luz de um mundo esquecido, novo porque antes já vivido (quando?), mas não mais por isso, não mais – mundo esquecido reencontrado como a rocha em alto mar no horizonte incendiado – mas não adiantará: lá ainda estarei ainda comigo, minha perpétua e indesejada companhia; lá estarei ainda longe de meu amor. A luz de uma vida não perdida mas oculta, como a depressão de alguém rouba a cor de seu quarto. O postal de Kleber, a janela, o sol de outra cidade. Assim purificado pela ausência ou seja pela imaginação. O que é isso? Ah, o recibo do hotel em Atocha. O recorte do jornal que fala do seqüestro. Carteira profissional. Dez anos entre o primeiro e o último carimbo de uma empresa jornalística. Em algum momento aparecerá o passaporte. Não é questão de lugar, sequer de tempo, mas de alguma coisa que existe em ambos e os transcende, habitando céus e terra e sobretudo o limbo intermediário. Estar verdadeiramente apenas ao não estar, ao lembrar, ao imaginar. Vida paralela. Este recibo da pensão no Bairro Alto traz mais daquele período do que de fato sentia então. Recria aquela vida e súbito eis que é vida enfim, justo perto

assim da morte. Algo sobre Angola deverá vir na correspondência que recebeu ainda no Brasil. Vamos ver. Aquela Time da casa de Oleana. O Proust de bolso! Uau... Vejamos. O começo do livro pode ser também em Paris, ao chegar de avião com Nastácia naquele cenário metálico prateado e azul aos eventuais sons de um estranho pássaro. É, pode ser. Mas são idéias confusas. São idéias muito confusas. O fato é que – O exercício de passar aqueles textos todos para um único o deixa a mercê do assalto de sentimentos por demais intensos quase violentos para minha vulnerabilidade. Dias obscuros tem luz peculiar: a que a vida posterior concede àquela que não se conhece enquanto está passando. O livro perde a perspectiva literária e o leitor; a posteridade e a necessidade de reconhecimento. Enquanto o trabalho desmaia de desejo, mais exigente se torna na execução e obriga a renúncias básicas como a da felicidade, da amizade ou do prazer. Vira o postal. É a letra infantil de Kleber sobre o papel amarelado, o universo reflete mesmo de todas as conversas deles, nas quais tenho constantemente pensado, desde que você, tolo, foi atrás de minha irmã. Fui. Vim. Estou. É noite. Meia-noite.

Oito horas da noite em Piumhi. A praça está quieta, sem movimento. O casal que passa se lembra. Mas claro. Era um cara bem legal. Ah, sim, ela também. Muito bonita. Nunca mais. Nunca mesmo. Sumiram. E o Kleber? Dizem que vai se casar. É uma noite de agosto, excepcionalmente fria mesmo para o sul de Minas. Tanto assim não deveria. Tempo estranho. Um miado no telhado do hotel em frente à praça.

Durou duas semanas. Sexta à noite Nastácia chega sem preâmbulos. Diz

que brigou com Garlos, quem está ele a pensar que é para falar daquela forma comigo na frente de todos? Pedira demissão. Mas não se preocupe, amor. A casa fazia sim parte do contrato mas telefonará para Franco no dia seguinte, pedirá algum dinheiro. Alugaremos então um apartamento. E tenho certeza o próprio Franco nos conseguirá trabalho junto às suas relações em Lisboa. O vento varria em redemoinhos. Naquele momento escutei um miado agudo vindo do telhado.

Ali. Saindo de sua casa em Crotone. É ela. Uma mulher maravilhosa. Com a roupa do corpo, um belo corpo. Então eles combinaram. O que ela venha a precisar é só pedir. O que precisar. Vá com Deus. Agora ela de novo, ligando para a Itália. A mesma roupa, um pouco suada, a blusa ligeiramente encardida na gola, amarelada debaixo dos braços e nos punhos. O mesmo corpo, um tanto cansado. Ele não está em casa, foi para Nápoles. Não. Ninguém sabe onde. Claro que há uma explicação. Enquanto isso poderiam recorrer aos avós dela em Póvoa. Não era caso de desespero. Os navios passam ao longo do Tejo, os cacilheiros o atravessam. Ali está de novo. Estão. Andrei e Nastácia. Duas pessoas sem nada em comum mas, pensa ele, não posso abandoná-la numa situação em que se meteu por minha causa. Sabe que não dará certo, jamais dará certo, é questão de tempo, ela mesmo o abandonará. Esperarei. Um casal em Cascais. Amigos dos últimos conhecidos da agenda de retornados de Nastácia. Precisam de caseiros. Melhor ficarem com o trabalho do que sermos constrangidos a hospedá-los. É, também acho, diz o marido. Está resolvido. Na quarta seguinte, ultimo dia de Nastácia no escritório de Garlos, já haviam mudado para a linha do Estoril, no fim da qual o casal tinha a chacrinha.

Durou uma semana. Quinta-feira pálida perturbada entre as arvores que farfalham. Nastácia chega pelo caminho que traz à habitação dos caseiros. André está cozinhando na lareira porque o gás acabou e só poderá buscar um novo botijão no dia seguinte. Ela estivera durante todo o dia e parte da noite na casa principal servindo os convidados. Desabou chorando sobre o sofá e disse que não agüentava mais, era superior às suas forças, não estava acostumada, não agüentava mais. O senhor Couto compreendeu, a senhora Couto lamentou. Partiram no dia seguinte à tarde. Durante o percurso de volta a Lisboa, ela escondia os olhos. Quando na penúltima estação as pessoas começaram a apanhar suas coisas para descer no Sodré, ela toma as mãos dele e o encara, por favor me perdoe, pede, ela só queria o melhor para mim, amava-me. Estremece. Amava-o. Ao descerem na estação do cais, estavam na rua, sozinhos, amaldiçoados. Então ela fala. É hora de começar a aprender a viver como se o Franco não existisse. Não iria atrás de advogados ou detetives até porque não tinha dinheiro para isso. - Eu tenho – diz ele. Não era muito. – Mas creio que para isso – Como, não quer o meu dinheiro? Eu aceitei o teu todo esse tempo! Irritada ela perguntou por que eu insistia.
– Não te incomodava tanto a dependência? – diz ela – Ser julgado um

chulo? Agora estava livre, não dependia mais. Anoitecia e ele tomou consciência da noite. O vento continuava a soprar.

Em algum lugar além a circunstancia não me afeta. Agora, quando atrás da igreja escrevo após a morte de Nastácia, sinto-me assim. É antes de qualquer coisa um estado puro de luz, de uma luz que não existe. Fragmentos de espelhos expostos a essa luz me refletem, não a imagem de mim mesmo mas de um todo espedaçado, também não o universo. Nega a relação eu-e-o-mundo sem tornar as duas coisas uma só. A palavra oculta, ainda palavra, chama a crase se for o caso. Me desviei do caminho, você entende? Eu poderia ter sido. O palco ainda está lá, a luz, mas não há ninguém que queira fazer o papel e muito menos espectadores para essa peça.

Seres humanos à margem, desaparecidos. Longe de um nirvana mas sem vontade, não a poderia distorcer. O acaso determina os acontecimentos. Raras felicidades sem euforia, constante amargura sem depressão. Apenas um rosto pairava, envolvia tudo. Anjo a que não se pode fixar por causa da glória nem é visto no decurso humano exceto pela dádiva inaudita. Como alguém num sonho, alguém não identificado, poderá ter a mesma intimidade conosco que a mulher à espera no pomar. Atrevo-me a dizer que o fogo das palavras me usa agora, pois a calma do amanhecer lisboeta é tão rubra e viva, não como eu descreveria um arrebol, mas se distantes e em mim os prédios realmente ardessem.

Podem ruir a qualquer instante, é possível sentir a queda iminente. Os

quarteirões crepitam. Se estivesse bem, ele poderia ouvir. Num instante, já havia amanhecido, o fogo envolve a elegante ladeira de Lisboa, devorando espaços os mais famosos da cidade. O vidro poderia ter sido partido por um pedregulho e do impacto seguiriam as rachaduras em todas as direções, mas não, que tamanho de pedra por meio de que mão poderosa faria estrago assim, com violência tamanha? Acalme-se Andrei. O homem está dizendo que vai ficar tudo bem, já está chegando ajuda. É como um olhar furioso, quebra-se em todos os sentidos ao se desprender do olho e irá ferir o desavisado que não se protegeu. A vizinha presta atenção na cena, o corpo levado pela ambulância cercada de curiosos. Presta muita atenção mas minimiza, eu o conheço bem, pensa, ele está sempre sob o efeito de alguma coisa. Senhora, por favor, e ao som de sua voz ela chegou mais perto para – Olha, há um principio interessante nessas linhas, há vinte anos um determinado acontecimento, percebe? e diz daqui a vinte anos uma outra coisa, e eu olho para ela, é Oleana, é o que diz, há vinte anos, daqui a vinte anos, mas não parece dar a mínima para a vida que se repete, se reinventa, se renova, e quando vê o sangue aperta os olhos, e ao abri-los ali está o vagão meio cheio do metrô, a fronteira em que a poesia subsiste e os aproveitadores que nas aglomerações acossam, a história que se confirma ou ao contrário contradiz tudo aquilo em que se acreditou, o medo de movimentos no escuro que eram apenas um gatinho afinal. A rua ainda está vazia a não ser pelo ajuntamento em torno da ambulância silenciosa exceto pelo sopro vigoroso do vento apavorante. Ele vê ao redor com o olhar dissimulado de cento e oitenta graus agora sem mais qualquer função – poderia ver mas não sente essa necessidade e nada registra

além do que está imediatamente à frente: o rosto da vizinha que é o rosto de Oleana no metrô, as palavras dela que são as palavras que sua mente em fuga determinar. Sua compreensão não precisa ser tão larga. Tudo está atrás de si e à sua frente tudo costurado àquele último momento. Como se ele já tivesse assistido aquele filme. Então você esteve lá, diz Oleana, quero dizer fez parte do Maio, participou de algum movimento da época em seu país? e ele disse: Não, não há ser no mundo mais alienado do que eu.

Sei de uma mulher que a alguns inflamou de acordo com as leis de uma natureza que não raro se desrespeita a si mesma. Sei dessa mulher que está hoje velha. A moça, a filha, entre palavras e dois gatos deixa de sonhar quando vozes no paraíso a lembram de que não há um paraíso. Ele não consegue deixar de pensar na moça que essa mulher um dia foi. Não pode deixar de lembrar do rapaz diurno e fofo que sem mais se viu cru na noite sem forças para lutar. É ele quem ainda vem busca-lo à noite e o leva pelas palavras aos mundos despertados pelo impulso, pela instabilidade; pelo desejo, pelo amor e pela diferença entre amor e desejo. Sou uma mulher, fui uma menina. Fui filha e sou mãe. As coisas se deflagraram em minha vida. Não sei se é a melhor palavra, “deflagraram”. Destino drástico e súbito o meu um rio volumoso que desce a pedra num filete acariciando os últimos anos. Tenho essa filha que sou eu. Ela frequentemente me espanta com olhos escandalosos em pálpebras de nuvens e querendo saber do pai grita ou sussurra. Cheira a jardins e a mato. Respingada de primaveras, às vezes transtornada e mentindo por mentir.

Bruna. Sou eu. É o pai. Deixou através de páginas e estações o eterno em plena colheita a fim de ser no tempo algo que de ruptura em ruptura justifique essa náusea.

Naqueles dias em que o dinheiro escasseava a ponto de terem Andrei e Nastácia de economizar no sereno indo dormir pela manhã no relvado da igreja no alto da rua da Torre de Belém, ele foi à posta-restante e ela ao Ministério das Finanças onde tinha esperança de encontrar uma última amiga de infância. Carta pra mim. Rasga o envelope com mãos trêmulas e o coração disparado. Nastácia se aproxima. Não trabalha mais aqui, pá. Ele guarda a carta. Não estava mais a agüentar, ela diz, precisava de um banho, tomar uma bica, comer uma comida decente. Quanto você tem, Andrei?
– Dois mil dólares. – Ô pá tudo bem. Vamos para um hotel. Amanhã é outro dia.

Sufocado por ânsia de santidade, massageava naquela noite os meridianos do sistema nervoso sob a pele úmida à altura dos ombros de Nastácia na banheira. Imergiu junto dela cujo viço de jardins internos dependia de iluminação, umidade e ventilação, das caricias. Os lábios de Andrei procuraram o lábio inferior de Nastácia e as pontas das línguas criaram a expectativa que não pode mais ser a do pecado, posto que a amava. Claro que não tem certeza. Gostaria. Deslizou no fundo sob ela e deixou-a ao longo de um imenso desejo de paz. Transformado por causa da carta recebida. Atordoamento e abismo. No dia seguinte, o chamado “outro dia”, no qual decidiram acreditar, Nastácia ligará para um anúncio classificado. Pede funcionárias de fino trato para

trabalharem num pub ou o que sejam aqueles inferninhos nas ruelas escuras nos fundos de uma luminosa avenida Liberdade. O céu estava aberto naquela noite. Estrelas sob o rio insondável quase mar. Não há quaisquer ilusões sobre a pecaminosidade humana. Andrei não sabe que lágrimas eram aquelas que derramava nem o que significava exatamente o alivio na expressão de Nastácia.

Uma semana. Duas. Três. Em um mês irá tirar mais que ele em quatro ou cinco na fábrica. Se vangloria. Não disse? Dá risada. Sei o momento de agir, ó pá. Quem poderia questionar isso? O casal bate uma foto na Praça do Comércio. No calor da noite enevoada as sombras de Lisboa. Ali no final da estação, onde se não insistirmos em comparar o clima com o calendário, acharemos, vejamos, o hotel modificado pela simples mudança do pagamento de diário para mensal, sim, mudou mesmo meu querido, estão a nos tratar melhor. Dentre outras coisas. A luz da manhã também mudara, os corredores, um espírito se move entre Andrei e seu sósia, entre o Outro que desvia o olhar quando o imagino meu redentor e ele que protege Nastácia dos assédios de praxe às quatro da manhã. Aos poucos se reintegra à realidade e não queira isso dizer acostumarse. Escreve para Barcelona dizendo à agente literária o que poderia dizer pessoalmente. OK, contatos por escrito apresentam essa vantagem, o registro do correio. Uma resposta – mesmo a padronizada – “Infelizmente nós” – adquire algum valor. E escrever significa resumir, suprimir, levar em conta o objetivo puro, quase um não-objetivo, sem maiores considerações. O livro perde com isso valor comercial, escrita impecável, argumento, pontuação, sintaxe e, acreditava ele, ganha corpo literário.

O calor se estabelecera em Lisboa, seco e pegajoso. Durante esses dias, escrevia na biblioteca municipal. Para chegar ao Campo Pequeno, evitava caminhos antigos, amigos e inimigos de haxixe, além do próprio. Diminuía mais e mais o remédio e usava as síndromes como um registro de correio para oficializar a desintoxicação. O organismo durante muito tempo acostumado ao remédio precisava ser ensinado do caminho inverso. A biblioteca possuía amplo jardim com mesas de tampos vítreos e cadeiras brancas de ferro onde havia sombra e a temperatura era agradável. O satélite em revolução ao redor da terra atinge seu apogeu. Sol relativo. O ponto mais afastado. Ai dos que ao mal chamam bem e, ao bem, mal. Que são sábios a seus próprios olhos. Ela estava bonita, Nastácia. Ele lhe diz. Gosto tanto de seu perfil, fique assim, vou pedir alguma coisa para o serviço de quarto. Porque passara aquela fase em que as culpas procuram responsáveis e as coisas boas sequer são notadas. Tinham entrado na parte da vida em que tudo adquire tamanho real. As escadas externas dos prédios à janela se comunicam com as roupas estendidas; não é uma visão propriamente agradável mas se tornou familiar e assim amiga. Escuta-se todo o tempo a camada sonora dos carros distantes e vozes incompreensíveis como um som uniforme e queixoso. Aqui bate uma porta, ali outra se fecha. Da janela da pensão o azul do céu está diluído pela substância poluente a atenuar o amarelo sujo das fachadas e a cor de terra dos telhados. Será sua visão de futuro durante boa parte do dia. São também um só ser as pessoas que descem as ruas da Cidade Alta no sentido do centro, da Baixa. Casais de mãos dadas pode-se apostar serem estrangeiros. Os tons das roupas das mulheres é sempre escuro e aquela ali agarra-se à bolsa preta como quem protege a dignidade. Na praça dois bondes

se cruzam em direções contrárias e dentro deles a tensão enrijece os rostos desencantados. O contraste entre o modo de ser de Nastácia e os portugueses é esse, sua alegria injustificada. Portugal é um país triste, mais adequado para ele do que o Brasil – um Brasil que nem o dinheiro da passagem em momento algum aproximou. A letargia espreita a paz. A consciência se mostra comprometida. Quem o iria aconselhar acerca desse momento? Períodos de amnésia. Nem mais os estranho ao recuperar a memória (Mas nem sempre a recuperava, pensa

Blandine; foi a primeira coisa que me chamou a atenção ao examinar os papéis. Isso a deixava imensamente triste, deprimida mesmo). O homem consegue
sempre um tempo de convivência com seu próprio fim? Estar, não ser – o caderno em que se escreve. Claro. E há aquilo que ajuda. O calor na pele nas tardes frescas à mesa vítrea do jardim. Ali compunha também matérias. Não mais para vendê-las a jornais mas a jornalistas recém-formados sem tempo para redigirem suas próprias. Não dependia mais do dinheiro de Nastácia mas pouco mexia nos dólares. Tinha também crises de ciúme e volta e meia discutiam. Suportavam-se. Sofriam o relacionamento doentio porque o destino os empurrava um para o outro na ausência de antigos amparos. Saímos do quarto um depois do outro e os mesmos olhares para os lados. Em seguida a porta se fecha e um eco surdo não se alonga mais que os passos até o elevador. Quem olhasse iria achar que escondem algo. Ele não perde um único movimento que ela faz, como se disso dependesse a própria vida. É que ficaram sós no mundo. Pensavam que a solidão era o elo inquebrantável que os unia.

Nove da noite. Ele chega ao hotel. Boa noite. Boa noite, senhor. Na penumbra da sala de TV esperou um documentário sobre vida animal. Como terminasse a novela brasileira no outro canal, todos deixaram a sala e mudou a posição do seletor. Ao sentar-se de novo, passou uma mulher azulada, mãe morena, solta no vestidinho branco de linho despojado cujo abotoamento e friso supunha gravidez embora fosse um vestido, não uma bata. Os botões da barriga estavam menos firmes que os demais, alguns fora de suas casas. A beleza peculiar da gestante ainda pode ser adivinhada mesmo com a gestação em seus braços, dormindo. Ah minha amiga e espírito noturno, sei agora não terei mais um nome ou esperança e tudo de mal já aconteceu e justamente agora preciso entender a glória de nada ser em meio ao drama eterno das armadilhas e à obscuridade dos sentimentos. Ah meu anjo, minha amiga, afaste a tentação da voz interior! Ali estava ela mas não chega a olhar para ele, é como se ele fizesse parte dos móveis. Andrei não tem o menor jeito com o semelhante, não é sociável nem tem tato, é tímido demais. Amigos não vingam. Amores frustrados. O que pensa hoje sobre isso? Impossível saber. Sente-se só e a mulher traz sonhos, presságios. Ali estava ela e era como fizesse parte de sua vida desde sempre. Falarei. De costas, ela passa para a outra extremidade do sofá. Indecoroso se deleitar na visão. Quer falar com ela, que lhe parece familiar como um sonho recente. Quer contar a ela, contar tudo, a vida toda – era tanto assim? Respiram fundo ao mesmo tempo. Ela senta, calada. Carne, luzes, pele, cores, cabelos escorrendo e cansaço em seu rosto espelhado. Lança na penumbra um olhar pelo espelho lateral. Os dedinhos na sandália de pelicato. A sinuosidade prática do abotoamento. Angustio-me por ti, diz a voz na televisão. O peito é oferecido

ao bebê. Eu te amo tanto, filhinha, muito, muito querida, muito, queridinha da mamãe, é sim minha pequenininha, a pequenininha da mamãe, meu amorzinho... Suspirei incrédulo. Blandine!

C

aminhões de água da Câmara de Lisboa lavam as ruas da Baixa. O asfalto está cheio de espelhos turvos que devolvem a lua do chão. Ele mantém no céu um olhar distante e fugidio. Caminha ereto, ombros para trás e abdômen recolhido. Fecho os olhos. O que você disse? Nada, estava pensando. Andavam um ao lado do outro mas

era como se estivessem sós. Um vão entre as pedras do calçamento. Como num movimento ensaiado, olham juntos para baixo. Kleber saíra com o trator. Ela chegava com a marmita. Oi, disse. Oi, ele respondeu. Quer que eu vá fazendo o fogo? Nem lembrou que detestava comida requentada. O rosto dela. Rubro-verde silêncio dos cafezais, rubro verde como uma casa basca. Embora esteja um tanto constrangida, a timidez não tem poder sobre a necessidade da revelação. Disfarça o rubor das faces enquanto Andrei bate nas pernas da calça para se livrar de uma mancha de formigas. Procura gravetos e nós de pinho. Precisavam jogar água de fumo pela lavoura, diz ela de esguelha. Aproveite a posição e olhe por debaixo das pernas. Para quê? Era para avaliar o potencial de produção. Ele não saberia. Assim! – disse ela. E ensinou. Pelas pontas das plantas multiplica-se o número de pés de onde estão saindo e divide-se por três. Ele não entende e não entenderia nem se fosse uma conta simples: do vestidinho erguido, pela abertura de algodão esticada pelos adutores, sobre as carnes firmes, grácil, a pele exibe pontos sibilantes de arrepio. Ele me ama ou apenas me deseja? Qual a diferença? Ele mesmo só muito tempo depois pensaria a

respeito. Naquele momento apenas cresce ao vento, folha à deriva, barco que ao som do mar mistura um ruído agudo, um uivo, se mexe no mesmo lugar como a mão que imita as ondas. Olha só, numa mancheia de olhar eu conto cinqüenta pontas vindas de dez pés. Ah entendo, você quer dizer cinqüenta vezes dez, quinhentos, que divididos... pelo que mesmo? Ela ri, ele sente a menta. Os seios são redondos como a tal conta – por acaso e também porque. Raios do sol de inverno ao meio dia de agosto. Atravessam a mangueira pulsando na abertura da copa que à brisa se forma e se fecha. Será que ele pensa no primeiro encontro em Ribeirão? A mulher não separa o sexo do amor mesmo em cidades do interior que se liberam. Talvez quisessem mas não é possível – não é possível, pensa Blandine quando de leve os lábios deles se tocam. Desde o primeiro momento em que olhou para ele, soube que era ele, descartou a independência tão prezada. Não queria a piedade futura dos filhos. Ela se apiedava dos pais. Não era o que queria, como Donda, um lar para ser rainha, e nem mais tarde a solidão da mãe que vive para os filhos quando não vive a própria vida dos filhos. Sou mulher. Descobrirei o que significa. Agora perto do milho, sob a mangueira, a missa que o sino anunciou. Ela propõe o casebre abandonado que dava para o lago. Ali amou com a convicção do artista que se exibe sabendo que é a hora do seu sucesso. O sangue não vertia, acariciava. Haveria outros momentos sob o céu da bem-aventurança. Não só entre ela e Andrei, também com um outro – Falo sério, Blandine, nunca senti isso por ninguém, nunca conheci mulher como você – Você conhecerá muitas mulheres, Pablo, conhecerá uma feita pra você; tem só dezesseis anos, menino. Dezesseis, quase dezessete. Onde estava o problema? O adolescente a

conquistou. Era amante experimentado, ela não podia entender como. Deixouse levar, quase durou. Mas Andrei fora o do pacto (todavia tampouco durou). Ah quando o viu no milho com Kleber! O amor de sua vida. Momentos únicos, talvez como o primeiro cavalgar pelos cafezais. Nunca mais desde então. Cinco anos depois torna a vê-lo. A música do tempo sobre o lago transfere-se para as praias do Rio de Janeiro. Não sabe se deverá assumir os dias que transcorrem ou apenas sonhar de longe. O aroma cítrico e o amadeirado questionam o que fizeram de suas vidas quando ela o reencontrou naquele lugar ainda escuro e vazio por causa do horário mas que iria virar um autêntico caos consumista quando o shopping abrisse as portas. O rosto querido exposto ao êxtase é o céu da roça distante de qualquer vínculo com a cidade. Gosto de amêndoa, a afinidade ou a ilusão da afinidade, um poder de si mesmo – nunca do outro, do relacionamento. O doce da mãe, de Donda, a calda na ponta dos dedos médio e indicador. Cinco anos se passaram. Nossa, não parece... Fino o fio não irá açucarar depois de frio? Desfalecimento. Espaços, espasmos, espírito espargido sobre a carne se apressando ao pedido de que fosse, oh sim, aplacado. Que silencio é esse que precede o percurso interminável da mão que acaricia? Bruna aceitará que aquele outro homem faça as vezes não de pai, que mal daria a idade, mas de um tio talvez, de um irmão mais velho, e naturalmente não teve como evitar algum pensamento um pouco menos casto, mas nunca além disso, porque Pablo era muito chegado, o bastante para romper a tentação; por outro lado, ela sentirá muita falta de um pai ou de um amigo que para a menina só mesmo um bom pai pode ser. Enfim por uma

razão ou por outra ela ia encontrar Pablo, desabafava com ele. Depois, na volta pra casa, às vezes contava para a mãe, às vezes não contava. Afinal Blandine já tinha demasiados problemas. Quem é essa Bruna? Enquanto olhavam juntos a calçada, onde dançavam as luzes das lâmpadas por contas das mariposas, Andrei pergunta seriamente, como se ficasse ofendido por Blandine ter seguido a vida sem ele, como se ela, para não ofende-lo, devesse ter parado no tempo. Isso é posse. Então ele atenuou a voz e abrandou o tom da pergunta. Tinha passado por coisas demais para se apoquentar com um nome desconhecido e todavia, saberá no segundo seguinte, Bruna é o nome da filha de Blandine, que poderia naturalmente ter sido sua. Como num movimento ensaiado, levantaram simultaneamente o olhar das pedras do calçamento. O ruído do motor do caminhão distante dá a idéia do minuto passado como uma canção que insiste na mente após dormirmos faz com que percamos essa mesma noção. As ruas molhadas são almas. Brasas de uma fogueira não utilizada ardem ao sol e a fumaça ao ar se misturava. A fila anda e a vida tem de continuar. Andrei media o caminho com os passos. Blandine o encarou rapidamente e em seguida abaixou de novo o rosto num piscar ondulado de pedras portuguesas enquanto uma ave noturna revoava sobre deles. Ele cobriu os ombros dela com um abraço antigo e brusco e ela sorriu sem mostrar os dentes e pousou a mão sobre a dele caída agora pelas suas costas. Pronto. Você sabe. Sabemos. E agora o quê? Não eram necessárias palavras e todavia, nessa linguagem silenciosa onde se indagam, que resultados advirão da força aí reconhecida? Reluz a noite da Praça do Comércio. Como gosto desse trecho da

cidade, ela diz, ele também – Adoro – sobretudo do contorno da ponte ao longe. Mas estão falando de luzes, distâncias e prazeres que existem em si mesmos. REVISÃO AQUI EM 25 DE ABRIL (Cravos) de 2013 Cabe ressaltar antes dos corpos e do desejo, o sonho. Faz-se pressentir. Afinidades convergem, miudezas partilhadas, o gesto adivinhado, o olhar desdenha da palavra e trocam-se almas como endereços em bilhetes cifrados que entretanto tudo revelam na grafologia. Falo de amor. De um movimento da vida que segue mas súbito quer parar, cuja realidade é o corpo vivo e apenas ele. De uma eternidade que diferente das montanhas não se pode contornar. Está sempre ali, permanente e atemorizadora, contra a qual nada pode a arrogância, o medo ou a esperança. A fome na saciedade. Se estava escrito que deveria ser de Blandine o sinal não foi o amor físico, sempre ao corpo limitado – o corpo limitado, sem o sonho – mas a calma do dia seguinte, na busca que abandona Deus para se concentrar na plenitude de uma beleza qualquer. Não só o desejo, carente de outro corpo, mas a ternura anterior, ainda que em meio ao fetiche. O corpo do destino se forja na tortura, um sentimento que se pode escolher (falo de amor), dúctil ao arbítrio, rosa que floresce do cultivo, ninho com cuidado preparado. Pediu licença e entrou no restaurante para ir ao sanitário. Ao apanhar o papel higiênico no bolso, tira a carteira, tem esse cuidado, perder documentos seria agora desastroso. Numa das separações plastificadas, a foto de Blandine e uma foto recente de Nastácia na casa de praia. Soberba num biquíni clássico. Nastácia. Separados na maior parte do tempo por causa do pub, ela crescera – não há a luz de nada saber acerca da cor? Por outro lado, Blandine deixara de

ser por estar súbito ali a meu lado? Calor abafado no cubículo. A madeira se dá, generosa. Não escuta um único agradecimento junto aos gemidos do fogo.

Sou a menina das montanhas; sou teus sonhos – a própria montanha. Mas – Ao lado do restaurante, a boate. A mulher que não dormira e sim morrera.
Subiram a viela cheia de latas. Célere uma ratazana passou à frente na direção do lixo amontoado pelo pessoal da prefeitura, que precedia os caminhões. Surgido do nada, o gato que havia pouquinho recebia nosso afago saltou e a abocanhou. Por que os animais tem de ser maus se são criaturas sem arbítrio do próprio Bem? Eu não podia acreditar... Tanto tempo passara e ela ainda desvia, para questões genéricas sem solução, a nossa conversa que pede o momento particular. Um ônibus passou raspando ao atravessarmos a avenida. Ela continuou. Está vendo? Para o sofrimento do homem há uma justificativa – Me dá licença um instantinho? Deve ter sido o chá do hotel. Agora estamos na esplanada à saída da boate. O garçom se aproximou, ouviu meu pedido, gritou para a cozinha e foi apanhar vinho verde no freezer. Na boca do metrô, não muito longe, dorme um mendigo. Blandine aponta. O quê? Para o sofrimento do homem sim, cabe uma explicação natural, como no caso da miséria – ela parece recitar – quando o quinhão que satisfaria as necessidades do semelhante é retido... Eu praticamente acabara de voltar do sanitário. Estava assim meio sem alternativa. Será que esqueceu que conheço o discurso? Agora falará das guerras.
– Como no caso das guerras...

No queixo dela os mesmos seios tristes de quando da minha partida de Piumhi. Não, na verdade não. O queixo estava mais cheio, um queixo sedentário,

financeiramente seguro. Mas os vértices dos lábios carnudos mantinham ângulos precisos de generosidade. Isso não perdera. Foi quando comecei a pensar em felicidade conjugal. Em como pode haver sensualidade, família, amor à arte e tudo mais, debaixo de um mesmo teto, na vida de uma casa. Aquela era uma esperança assassinada? Mas que esperança exatamente? Desejo generalizado de tal modo que todo produto, de margarina a tênis, e todo serviço, de banco a telefone, se vende na propaganda por meio da idéia de uma família feliz, de valores equilibrados de beleza, força, trabalho e lazer, de uma casa viva. O amor ou a arte na verdade não são indispensáveis nesse quadro, exceto pelo conforto, pelo bem-estar que nada intensifica. Não que o mal-estar o faça. Então, o quê? Como teríamos sido sem a separação? Me chamaria de “papai” diante dos filhos e usaria “amor” como quem diz “por favor”? Teria se mantido aquele desejo – se estabelecidos, sem tédio? se em dificuldades sem brigas? Eu não mais olharia para outras mulheres? Seria eu o bastante para ela? Dependeria nossa harmonia da conta no banco e meu poder de sedução do meio-termo sutil entre lar e motel no mesmo quarto? O segredo de tudo talvez seja se manter pensando. A maldição do homem, pensei, é se acostumar. A literatura seria ainda essencial se tivéssemos casado?

Nossas mãos dadas sobre a mesa. Tato, pressão, imperceptível movimento. Quanto é delegado à pressão das mãos! Blandine, até que ponto você vai levar isso? Tirei o envelope do bolso e comecei a desdobra-lo, solene. As guerras... Quis prestar atenção nas sílabas, para não trocá-las, mas a luminosidade embaça

tudo a partir do contato das mãos e dos olhares. O que podemos fazer em relação às guerras? O que devia nos importar era a nossa paz! Apaziguar o “Atântlico” no Mediterrâneo ou talvez... - Atlântico, Andrei. – Odiava quando ela me interrompia e muito mais se era para me corrigir. Ele continua tão lindo, com esse jeitinho de trocar letras e

gaguejar, um doce... – A guerra é sem dúvida muito mais importante que nossa
vida pessoal, meu amigo. E isso aqui o que é, perguntei apontando a carta. Você pensava em que guerra quando escreveu isso? (Li alto) “Você não é capaz de transmitir tranqüilidade a uma mulher, como o Octavio é”. (Mas não pára em casa). O que

você queria, questionou a si mesma, quando ele vem traz o sustento, as roupas, as viagens. “E no entanto como sofri e como sofro por sua causa, desgraçado!”
Uma lágrima! Uma lágrima nos olhos dela! Sofro sim, Andrei, uma dor tão grande que é quase física... Mas não posso mostrar qualquer emoção, chega. A dor. Uma rede de terminais nervosos. Outras impressões podem ter ou não relevância – a voz dela continua doce, tranqüila, pausada, sua língua sai ainda ligeiramente nas proparoxítonas – mas a dor tem sempre relevância, porque é o alarme, porque pode ser a salvação. Ela me olha com bondade. Aliás, você deve ter mais esse tipo de noção, por causa da enxaqueca. De ter aprendido. A viver com a dor. Viver com a dor. Ainda tem as crises com tanta freqüência? Pensei com surpresa o quanto as dores haviam melhorado, as crises espaçado. Isso na pior fase de minha vida, com pressão de trabalho, ausência de afeto, fome, relento. – Tenho estado melhor.

A enxaqueca é um sinal vago dum perigo remoto porque, imagino, é possível viver uma vida plena ou quase com enxaqueca, sem maiores danos físicos ou psicológicos. Não é? Respirando fundo sinto o mundo para o qual foi necessário nascer de um vento que juntasse vida e virtude, e ainda assim... É verdade. É possível. Sim. Viver com dor. Superar. Quando você realmente quiser, quando achar conveniente, quando estiver se sentindo à vontade para – Essa é a utilidade da dor, quando adverte e não incapacita mas motiva, fortalece. O perigo maior do qual alerta ainda é a gente se acostumar, se acostumar com a sua ausência. Blandine morde o lábio inferior, que se deforma ligeiramente entre a brancura extraordinária de seus dentes frontais, transparentes, úmidos, luzentes. Eu mudei, Andrei. Era a menina Blandine, que não conhecia a dor, agora sou apenas Blandine. A virgem entregue ao herói. A minha menina. Ergueu-se das pedras um horizonte que em meu peito amou como ninguém antes jamais. Não há por que uma excluir a outra. Você não assume a carta? O raio da estrela transpassa a ambivalência dos sentimentos que se negam, densa em ondulações de memória. Nem lembro da carta, diz, para assumir ou não. Justamente por isso estava lendo para ela.

Disseram juntos Eu Você. Na mesa não apaziguada se refletem mudanças advindas do abismo. Eu queria. Você quer. Estrelas. Nebulosas. Estrutura espiralada. Gases e pó envolvem o que se diz. Não sabiam o que querer.
“Você foi isso, Andrei, uma doença”, continuei lendo, “mas não incurável”

Jamais poderei deixar de amá-lo. “Olho para a minha filha e dou graças a Deus por ter abortado de você”. Se refletem também fulgurantes nardos e raros fajardos, a ladeira de Heráclito e os céus da águia e das plêiades. Poço e profundeza. “Pela paz que o Octavio me transmite, pela segurança, logo irei amar ele tanto quanto te amei”. Minha voz foi desmaiando ao perceber que não pretendia ler aquele trecho. Impossível, pensa ela, como poderei amar assim outro homem se nunca deixei de amar você ou deixarei? Diz então que era esse o seu consolo, sua vingança. Ninguém poderá me amar como ela amou um dia; e ela poderia amar um outro, que a merecesse, que a protegesse. - O Kleber devia ter dito que você estava em Lisboa. Se tivesse contado, ela deixaria de vir? Aliás, com o dinheiro que tem, foi o acaso que a levou a se hospedar num hotelzinho como aquele? A menina levada aos céus pela carruagem de fogo era menos que suas bonecas pretendiam. O que estava querendo dizer? Que ela viera na esperança de encontrá-lo? Sua pretensão não tem limites! É maior que a sua memória!
– Mas não maior que o meu amor.

Como se ela não ouvisse. Esqueceu que estivemos no Rio em hotéis muito piores? Pareceu-me um hotel simpático, entrei e fiquei. É como sempre faço. Se estivesse com o Octavio, seria diferente, é claro. É claro. Octavio não ficaria nesse tipo de hotel. É o jeito dele. Acha que deve oferecer à sua esposa todo conforto. Eu concedo a ele essa alegria, por que

não? Onde está ele agora? – Tem uns assuntos no Porto, responde ela. E, antes que você pergunte, não estou com ele porque tenho umas coisas a resolver aqui relativas a meu visto. E estou querendo me naturalizar. Não entendi a relação dessas coisas, nem tive tempo de perguntar. O garçom chegou. Quando saiu, nossos olhares. Nada mais. Ela disse Eu te amo, circundou a mesa e se jogou em seus braços. Poderia ter sido assim, por que não? E como não separa o sexo do amor, se agora o deseja, voltam para o hotel. Mais que uma possibilidade, quase uma lógica. Mas nada nunca mais será tão simples, nada tão de acordo com os sonhos, acabou essa fase, esse ciclo de vida. Agora será preciso entender, aceitar, não há mais essa com a qual sonha, menos ainda esse que costumava sonhar. O vinho aberto, as taças. Como na primeira vez indizível e todavia a partir dessa impressão poderia escrever um livro. Bem, não significa muito, poderia escrever um livro a partir de praticamente qualquer coisa. Mas viver, poderei? Enlevo e morbidez. Se misturam. Desespero de viver. Não escreveria livro algum, não sobre. Enfado da carne. Blandine. Talvez tenha entendido de seus olhos líquidos. Um riso discreto deixa em liberdade os rios sem magia que os detenha ou apresse. Narciso na natureza integrado. Não há pressa. Não há vida no mundo, não há vida fora desses olhos, dessas mãos. Suspiramos gemendo e gemendo choramos ao passarmos as trevas no silencio da seiva. Aquele momento! O passado à minha frente e o presente literalmente

atrás de mim... Era hora de Nastácia chegar do pub, pela rua em lento declive às minhas costas. Minha decadência. Um sonho de Blandine prova o vinho. Emoções emaranhadas se roubam umas às outras. Blandine, cujo aspecto físico não mudara, vestida do jeito como costumava se vestir quando estava comigo, o rosto sem pintura, sem ter adquirido sotaque ou modos requintados, mantendo o acento mineiro, tornava o estar ali com ela a vida real, e mecanismo mental tudo o que se passara após nos separarmos. Todos os meus impulsos são no sentido de abraçá-la, beijá-la, fazer confidências. Não compreendo. É possível que esse Octavio seja mesmo uma pessoa especial. Não é o que costuma acontecer. Mulheres bonitas em geral e mulatas jovens em especial são trazidas para a Europa com o fim de serem submetidas à escravidão sexual, para serem prostituídas. Tudo bem uma vez ou outra se sabe de um caso assim, de um cara rico que casa com uma, mas não é o natural, e no caso há a questão de como a chamou. Quem tenha intenções sinceras não usará o tipo de subterfúgio que usou no curso, “para que ela descansasse”, “parecia tão cansada”. Mas sou eu quem pensa isso e não sou dono da verdade, de repente foi isso mesmo, sabe-se lá. É possível. Mas esqueça ele só uns minutos, se permita só por esses momentos lembrar com alegria de nossos momentos juntos, é possível, ninguém está falando em traição, mas a gente se rever assim parece mesmo algo, de tão improvável, especial – Não é? O sofrimento do homem tem explicações de sobra. Ela retoma o discurso sem o menor constrangimento. O problema é quando a gente vê os animais sofrerem sem a menor consciência do que seja o mal. O escorpião atravessa o rio nas costas da rã. Sou um animal, disse eu, cheio de razão, só por dizer. Não

vá me dizer que o meu sofrimento de hoje tem a ver com o fato de eu ter partido de Piumhi, talvez por não ter ido levá-la ao aeroporto. Era exatamente o que eu achava, a causa principal dos efeitos que carrego. Adianto-me assim à sua resposta, temendo que tenha uma. Não falo de ação, mas de intenção. À fabula do escorpião acrescentemos o ditado, de boas intenções o inferno. Quis de todo meu ser fazê-la feliz. Sou tão inocente quanto um tigre ou um tubarão. O vinho subiu-lhe às faces. De algum modo sim mudara. Em sua beleza imprimira a maternidade. – Não me sinto mãe, sou antes a que abortou. Aos ruidos óbvios da noite se juntam as sombras murmurantes nos telhados. O branco da parede ao lado. As olheiras dela estavam mais fundas, seus braços mais carnudos, redondos, a forma como depilava agora as axilas era outra, a pele ali se tornara mais clara e não se poderia imaginar que ali um dia tenha havido pêlos. Lembrei do momento em que oferecia o seio a Bruna e quando a acalantava.

Quando você me olha assim com ternura, para esses braços que sentem a tua falta, sou só a menina na manta verde-água, a mãe no chambre aveludado sobre a maternidade recente.
Havia ainda em mim aquele fogo que de tanto padecer a fome e o relento eu pensara ter perdido para sempre. Preciso que isso não acabe e olho assim dentro dos olhos dela, esperando o que precisa suceder como substituição da morte. Há uma mulher de óculos à nossa frente e uma outra, uma jovem de blusa vermelha e bolsa negra, se aproxima e não diz nada, porque acredita que o que precisava ser dito era dito pelo olhar e por sua própria aparição ali. Do

lado oposto um rapaz segura os cabelos da namorada de um jeito tão terno que quando solta eles voltam aos ombros dela como se fosse em câmara lenta, e em câmara lenta ela se vira para ele e lhe promete aquela noite, enquanto os outros jovens à mesa sorriem para a foto que alguém irá bater, flash. Blandine agora segura o antebraço esquerdo, como costuma fazer quando está inquieta e não sabe o que fazer das mãos. Uma das moças ao lado tapa o rosto e diz que está com a maquiagem borrada, não quer sair assim na fotografia, seria um erro em mármore. Agosto, mas a noite ainda não é tão quente como seria de se esperar. Será possível sair vivo de um verão assim? Fizeram-nos pensar na máquina fotográfica sobre a cômoda do hotel. Peço para bater uma foto. Meio a contragosto Blandine aquiesceu. Sim, amor, um registro, um quarto em que ainda estejamos juntos, cercados pela luz que se derrama nas ruelas junto ao rio. Há óleo entre o cacilheiro que sai e o que chega, há paz nas cintilações onduladas pela draga. Io posso. A empregada se disporá para que o amigo brasileiro da patroa apareça no registro.

Passar-se-ão os anos. Em que pensa ela no instantâneo? A objetividade plana da mesa permite a sinuosidade do sonho e as lembranças. O arranjo das margaridas ao fundo. O robe reterá eternidade e infância. Marjorie, Marjorie Buell. Pensa decerto na menina, no futuro da menina, o poderá dizer à filha sobre vida amorosa? Nana neném, o amor no olhar de Blandine, aquilo era amor, não qualquer olhar que me tivesse algum dia dirigido. “Minha filhinha...” Não, nunca antes algo assim.

Bom que a criança tivesse um pai amoroso e esse amor tivesse respaldo financeiro. Mas.

Uma das meninas ao lado mexe os ombros ao acompanhar uma música que não ouço, as mãos fazendo formas no ar, como se fizesse um bordado invisível. É o que devemos fazer agora, nos deixarmos ao sabor da música, irmos juntos para o hotel com um pretexto qualquer, que seja o da foto, não posso te deixar assim, seria uma heresia contra coincidência tamanha. Ela diz que quer perguntar uma coisa. Você esteve em abril, maio, em Madrid? Podia jurar que era você, entrou num hotel em Atocha, deixei um recado na portaria. Estive mas não me deram recado. Mas por que deixara um recado, o que dizia? Você teria ido me ver? Ainda me ama? Era uma mulher casada.

Por cima de nós, o cartaz do cine Éden anunciava vibrante o terceiro Rambo tremulando e estalando como uma imensa bandeira. Lisboa à noite. A multidão de jovens vestida de negro subia a ladeira da Glória para o inevitável Bairro Alto. Subia a pé embora ainda fosse hora do bondinho. É que o electrico está avariado, comentam os que passam por nós.

Ainda eram jovens e todavia tinham um passado. Os corpos, vividos, sentiam os movimentos. Esquecem o que deveriam lembrar e se inquietam pelo

que deveria estar esquecido. Portanto por que não? Eram jovens – ou, dito de outro modo, sua juventude se emaranhara ao tempo de vida deles como folhas que terminam ao fim de um período em partículas da terra dos parques. Cromossomos múltiplos nas células. A roupa do rapaz sabia como devia se comportar a cada movimento e limpa retinha algo do cheiro de sua pele. Ah, esse cheiro, o que primeiro chegou a ela vindo de Andrei. Na entrada da boate seria cumprimentado pelo segurança. Tímido, devolverá o cumprimento. Ei podia ser então que aquele rapaz do bar em Madrid nunca tivesse visto Oleana. As pessoas julgam e particularmente ele era exímio nesse estúpido item de humanidade. Ela pode agora pensar que sou um cara noturno, assíduo de boates. E julgar também é um sintoma de insegurança, preocupação com o que os outros estão pensando.
O céu limpo sobre eles. O homem permaneceu sorrindo enquanto entravam. Pelo menos em Portugal as pessoas que lidam com o público são atenciosas, não odeiam o publico. Como se fizesse diferença no rumo de sua vida.

Lisboa. Noite de sexta-feira. Uma vez saíram, uma única vez, para um programa noturno em Minas. Foram de táxi para Passos. Depois do jantar dançaram, o rosto dele se modificando nas luzes. Sabia dançar. Ainda não sei o que estamos fazendo aqui, dissera ela a rir como quem diz: É tudo estranho mas estou gostando. O beijo sabia a chocolate branco. Derrete na língua. Aonde vamos depois? Durante o beijo seguinte, jovens morcegos lisboetas passam por eles numa outra sexta-

feira, num outro encontro dos dois; e o que ainda havia que devesse perdurar? Estão próximos à travessa da Boa Hora, o grupo passou por eles, quando vem a idéia. Por que não irmos? E dançarmos? Nada de adultério, só um passeio, escutar o fado. A bebida também fazia efeito em meu coração.

Ela concordou. Tudo bem. Mas eu não deveria esquecer que éramos apenas bons amigos. Minha vida hoje é o Octavio. Estranho, pensei, mães recentes costumam esquecer os pais de seus filhos pequenos, ou não fazer deles a vida. Em todo caso, Ficou claro que sua vida era o Octavio quando dançando nos beijamos. (Ela procura por chocolate branco). Minha Blandine jamais me beijaria – sequer dançaria comigo – em minha ausência. E o beijo na mulher a quem eu havia sido plenamente fiel, durante o melhor período de minha vida, fez renascer uma urgência de fidelidade, uma necessidade maior que o próprio amor, a essa altura algo medíocre, uma tola invenção romântica. Uma fidelidade que todavia já não podia oferecer à Blandine pois comigo traíamos mais do que a uma outra pessoa, traiamos essas pessoas especificas: nós mesmos fiéis. Os anos sessenta mexeram com a idéia de fidelidade. Mas o que tinha a ver comigo exceto pelo fato de ainda estar vivo num mundo em que o aspecto sexual é o único resíduo revolucionário daquela época? Meu artigo fora uma licença poética. Há vinte anos eu não tinha vinte anos. Fidelidade então era ter filhos, netos; e quando saíssem de casa envelhecer juntos. No fundo era ainda assim. A história muda os costumes de um modo externo, as pessoas são

essencialmente iguais. Isso é óbvio, pensei. Vivemos essencialmente igual a nossos antepassados. Aos treze, quatorze anos, não tenho por que me revoltar, desejar uma sociedade diferente; aos vinte, vinte um, apenas quando há uma exigência hormonal. Há vinte anos é a mesma coisa. Jornalismo? Hoje é o contrário de revolução, falsa coluna de liberdade. Blandine questiona, como todos: por que não fiz uma faculdade quando da obrigatoriedade do diploma? É que, meu anjo, as coisas mudarão, essa exigência é a moda da vez, amanhã também o diplomado estará rangendo e chorando porque lhe tiraram o emprego. Talvez até, não é improvável, pelo excesso de estudantes de jornalismo diplomados a cada ano. Ou por causa dos meios tecnológicos como os corretores de ortografia. Estaria assim perdendo um tempo que não tinha, ao fazer uma faculdade que também nada iria garantir. Lembra, Blandine, o que você dizia sobre isso, que eu não deveria ter esse tipo de preocupação, que deveria apenas escrever, independente do

reconhecimento? De como a tecnologia mudaria as coisas? A balconista espera que eu termine a frase e diz que a mesa está pronta. Há uma atmosfera de musgo na casa, com notas de couro. O ambiente do fado ao longo dos meses se incorporou à arquitetura e à decoração. Ela sabe agora que são iguais, que não houve culpados, e alegremente percebe que ele ainda assim se sente culpado, tanto quanto apaixonado e ainda mais. Lá no fundo sabe também que a paixão não é por ela, que só empresta sua pessoa para o ciclo de amadas, apenas uma – a essência sem rosto do amor, por isso com tantos. A agitação e a necessidade material multiplicam os objetivos nãoessenciais. Difícil discernir agora o que. Sem duvida um beijo. Definitivamente

corpos que se abraçam durante a dança. Nem sabiam se ainda se dançava assim. De resto, o corpo suado se acostuma ao ambiente refrigerado. Mas paulatinamente deixam de ser tão irresponsavelmente felizes. Há uma vida lá fora. Ajeito na cadeira a resfolegante névoa de falação e cigarro, a que a musica faz pano de fundo exceto por três casais na pista de dança. O garçom se aproxima. Blandine pede. Toucinhos de céu e sorvete. Romeu e Julieta. Moléculas de infância. Excitado. Um milk-shake de framboesa e dois Leônidas. Um cavalo se cumprirá na luz do pasto longínquo? Não, eu não tenho direito de interferir na vida dela, refleti em meio ao enrijecimento, na normalidade de seu cotidiano. Desejaria para quem amasse o sofrimento de uma vida como a minha, entre a demasiada loucura e a lucidez excessiva? Nas línguas se esvai o sabor de romance. Eles percebem o sentido do real, o desespero. A patologia de um beijo. As flores de centro. A escuridão da discoteca cortada pelas lanças luminosas, azuis, vermelhas. Um momento para ser lembrado, apenas isso. A infelicidade, a felicidade que se sonha (sempre inatingível), as encarnações do amor (nunca o amor), a raça do acaso. O toque das mãos de Blandine entrelaçadas no pescoço dele era a glória cujo acesso se perdera. Ela se tornara esposa de um executivo, mãe, dona-de-casa, pretendia abrir uma loja, se naturalizar. Uma vida na mais absoluta ordem, a opção dela. Lâmpadas piscam, uma luz ao longe, da roça dá para ver Piumhi. A recordação deles nos primeiros tempos, nos cafezais, não podia mais possuí-la, quando muito tocá-la. A memória da desordem que ela recusara. Mas e a falta que dele sentia? O quanto era importante para ela saber que

ele estava vivo, ainda lutando, tentando trabalhar, escrever, o que mais se pode fazer com um dom? Ele não nascera para estabelecer família, cuidar de orçamento, seria como morrer. Então se consolou da falta que sentia dele e da consciência de que o reencontro não podia ser um recomeço. Não poderiam fazer tal promessa um ao outro. Talvez por isso se permita dar-se um pouco. Um beijo, um beijo de consolação nos sons da noite ao longo do pulsar dos corações, no cheiro forte e acre do centro lisboeta, no frio que sensibiliza o ouvido, no gosto do vinho entre o prazer do primeiro gole e a náusea disfarçada pelo sorvete. A nuca de Blandine, fortuitamente exposta como antes seus joelhos numa curva do táxi. Frisa na retina a inocência. Era uma boa moça. Ele, um rapaz de boas intenções. O mundo nos estraga e corrompe, sempre o faz. Arranca o coração e o deixa exposto como as nucas.

Ela entrou no saguão e apanhou sua chave na portaria. Treme, dissimula, enrijece-se. Um tipo de experiência que não possuía. Se ao menos tivessem feito esse tipo de coisa mais vezes, noitadas, tomar sorvete, andar de mãos dadas. A Blandine dele, assim a queria e também não, que não estivesse ali, pois ela estava em perigo, arriscava a vida que conseguiu e ele sabe como é difícil, como pode ser humilhante até que o respeito dos outros se crie ao redor. Mas ah como resistir? Se as coisas não tivessem se resumido a tanto sexo, a tantos passeios diurnos para ela tão banais – os montes, os rios, os lagos, as árvores – se tivesse havido encontros num sentido romântico mais convencional, um namoro como deveria nos velhos tempos, tipo há vinte anos. Ela pensa agora que podiam ter sido mais maleáveis. Afinal, nunca foram mesmo ligados aos movimentos contraculturais e toda aquela lengalenga de rebeldia e liberação.
Pára, hipnotizada pelo quadro atrás do porteiro. Flores. Quantas vezes ele

me deu flores? Ele me deu flores alguma vez? Bombons? Se Andrei tivesse recolhido o namoro a essa guarida, se reconhecesse no relacionamento a necessidade desses mimos banais, como lingerie de presente no Dia dos Namorados! E todavia ele era tão gentil. Precisava ser assim tão diferente também, tão complicado? tão pouco ambicioso? Um pouco de clichê teria lhes feito bem, como apesar de todo comercio membros de uma família acabam por se reconciliar na noite de Natal. Esperei alguns minutos na friagem que despertava o ouvido, resfolegando de fraqueza, depois caminhei lentamente e entrei também. Blandine está no quarto 203; Nastácia no 404. Continuo subindo as escadas pesadamente até o quarto andar, descalço. Desci após alguns instantes e parei no segundo. A porta se abre. Ângela está em seu próprio quarto, contíguo; Blandine recostada em travesseiros superpostos. O bebê dorme a seu lado. Sentei na beira da cama. Queria agora saber de sua mãe, me conta como foi, sei como ela se sentiu com tua viagem, afinal passei a morar lá logo em seguida, mas depois nada sei, como estava nesses últimos tempos, chegou a conhecer o apartamento que você comprou para ela?, é eu sei, o Kleber me contou. Ela dizia que era minha segunda mãe, em muitos momentos foi a primeira. Nossa. Você leva mesmo jeito, olha só a carinha que ela faz, que neném mais linda que ela é, e súbito eu quis ver um detalhe comum, mas isso não estaria certo, então calei profundamente diante do seio em que tantas vezes eu – Minha mãe, disse ela, era única, e talvez estivesse simplesmente dizendo que todos nós o somos. Sim, somos únicos, mas sei mais do que ninguém, por temperamento e pela tendência ao vício, o peso de nosso legado. Eu não queria pensar nisso, mas era inevitável. Qual a idade de Bruna? Não deveria pairar nenhuma dúvida a

respeito. Eu já não sabia o que seria certo ou não nesse caso. Tinha um ursinho de pelúcia. Você não vai adivinhar o nome dele. Blandine sorri e não se saberá o quanto de engraçado havia no tal nome, e o quanto de amargura. Posso adivinhar. Claro. O ursinho lhe dá garantia de sonhos bons. É o que eu sou? Sim, um sonho bom. Por isso era tão fácil te amar nas noites. Nas responsabilidades cotidianas melhor não tê-lo por perto. Havia tantas responsabilidades assim no cotidiano dela? Ela sabe o que de fato estou perguntando, foi essa questão implícita que não respondeu. Responsabilidade demais. É preciso experiência e maturidade, equilíbrio. Era como se dissesse: Agora eu sei, agora eu sou. E foi subitamente revelado a ele o momento em que Blandine decidiu vir para a Europa, as angústias da insegurança financeira – porque as preferia a ser dependente do pai (mas não estava apenas trocando de pai?) e o horror de partilhar a cama com alguém que não se ama. A vida, é preciso ambição. Saber o que se quer, ter metas, e lutar para atingi-las. E ele entendeu o quanto havia de orgulho e sofrimento no que ela dizia, era como se a ouvisse dizer Estou viva, apesar de todos os sonhos que ficaram para trás com sua partida de Piumhi, Estou viva, materialmente até melhor do que estaria, e na parte afetiva tenho um homem que me ama. Subitamente lhe foi revelado como que o aposento em que ela vivia, cheio de dúvidas amargas solucionadas não com certezas mas com ação. A mão dela descansou na própria coxa, aqueles dedos gordinhos de asiática que não faziam nenhum sentido nas mãos dela. Questionamentos, o sentido da vida, dilemas, poesia, tudo isso é retórico demais, irreal demais para se conciliar com os dias, com o dia-a-dia real e seus mecanismos de trabalho, de subsistência, de manutenção da saúde, de convivência com a família. Ambição.

De ter uma boa casa, comer bem, usufruir de um lazer interessante, ser respeitado na sociedade e (claro) viajar. Os questionamentos e o sonho inócuo cabem bem na noite, como ele, como ela mesma agora há pouco. Não nos dias. E o dia sempre chega. Quem sabe num livro.

Quando soube, tanto quanto feliz Blandine ficou preocupada. Mas era tudo tão novo e acontecia tão rápido que pouco sobrou de tempo para cismar. A explosão hormonal lhe subiu ao rosto e o peso do útero descia à alma. Tanto xixi assim de pouquinho, vida escorrendo para tornar depois a existir na que se formava. A barriga lisa e frágil. Não adianta tentar entender tanta transformação que não permanecerá. Decerto é assim desde que o mundo é mundo. O enjôo, a tontura, a fome, a falta de fome. Coisa lunar, só pode. Que outra explicação haveria? Em que lua será o parto? A crescente, dizem, é ótima para começos. A nova não é má, mas nada de minguante pelo amor de Deus. O desconforto, a dor nos seios, era por isso que tanto chorava? Inchava. Dos intestinos aos sentimentos conflitantes. Com o humor oscilava a pressão arterial e também as expectativas, maravilhosas ou cruéis. O ardor da pele anunciou enfim o esperado aumento da barriga. Ou seria impressão, como mais tarde os movimentos do bebê se revelarão apenas um discurso estomacal? Contaria a Andrei, estava excitada, será ótimo. Se fosse menino, ia sugerir Diego. Se fosse menina, ia... Não. Se acontecesse de novo, agora enfim é outra vida, não diria Mas,

nem Depois. Talvez tenha sido melhor. Mas ia se prevenir para não acontecer de novo, deveria pelo menos. Ou não? Tenho dúvidas hoje, intuição feminina talvez, de que não vai aceitar numa boa e se aceitar não será um pai como tem de ser. E se já é mesmo outra vida, por que não radicalizar de uma vez? Tudo bem, ela sorriu o máximo que pôde. Eu aceito.

Bruna é um bebê muito meigo, bonita, inteligente. Mostra a foto dela quando recém nascera. Estamos pensando em mandá-la para Londres quando ela estiver na idade de escola. O ensino inglês. É. Octavio conheceu um casal de Finchley. Estiveram lá em casa esses dias. Eles se dispuseram conseguir uma vaga para ela quando estiver na idade. Ah, por favor, um internato?... Porque não? Você mesmo viveu num. Eram outros tempos. Olha, ela disse, e riu da preocupação, certamente também eram diferentes os tempos em que seu meu pai te abrigou lá em casa, na época um estranho, e continuou rindo, mas era um riso de ternura, de memória, bem, havia também um tantinho de tristeza. Euh ec darest. Pessoa preparada, culta, fina, elegante, astral para cima, humor sutil. Decerto Bruna até já demonstrou interesse por piano. Você está zombando, Andrei. Mas sei que no fundo se importa mesmo. Era absurdamente verdade. Eu não disse nada. Ela falou quase para si

mesma. Tão pequenininha, batendo as teclas. Mas, falando em educação européia, o que você faz na Europa? Escrevo um livro.

Há um descanso vítreo na chuva. Luz do abajur da cabeceira. Ao olhar minha filhinha recém-nascida, perfeita, me veio forte uma sensação estranha. A quem deveria agradecer uma dádiva assim? Não há a menor duvida. Deus existe e é amor. Deus, obrigado por esse batismo! Deitou de novo, aconchegando-se ao bebe. Então pegou a carta. Por que ele insiste? Encostou o papel ao peito, apertou-o. Devia imaginar que faria algo assim, morar na casa de minha mãe. E no meu quarto! E assim saber meu endereço aqui.

E quanto teria a falar! E quanto a saber! Mas era tarde. Não é, filhinha? – disse ao rolar a lagrima. Amor... Mas. Segurou a menina num gesto que se aproximava do desespero. E se houvesse uma anomalia? Deveria, por causa da dor, fechar os olhos ao principio perfeito? Isso só aumentaria a sua dor. Sem palavras, hospedes do Éden na chuva fina de Trieste. Ela e a árvore no meio do jardim. A natureza está sob os mesmos efeitos, prisioneira dessa mácula inverossímil e inegável. Um pássaro se choca com o vidro da janela.

Mas um dia. Esse sistema de leis que governa (ou desgoverna) o mundo. Será restaurado. A criação se livrará da vaidade a que foi sujeita. Será

liberta da corrupção para a glória onde não mais haverá dor. Blandine acarinha o gato que subira na cama, joga-o ao chão. Ah, a dificuldade desventurada de reter no coração as coisas que a razão rejeita!

Um relâmpago. Contudo, só esse paradoxo explica a sentença humana e as catástrofes naturais – a vida. (Tocou a têmpora de Bruna, um toque tão suave que nem chega a existir). Fora de nós e também dentro. Somos como deuses, gerando vida, (Andrei falara de um livro na carta?), arte, discernindo o bem e o mal. E como bestas, sujeitos aos desejos carnais, vindo do pó e indo na sua direção. Temos a eternidade no coração e somos esmagados pelo tempo. O intelecto resiste: como pode uma criança inocente estar sob o peso da culpa de um adão distante e talvez sequer real?

A brisa soprou, vinda da cozinha: a natureza está sob o mesmo peso, ela, a natureza, muito mais inocente que uma criança, pois jamais se tornará um adulto. (Fez de novo a paz – as retas de luz jorram da esquerda para a direita, de um vértice superior da janela para o oposto inferior) Fora de nós, e também dentro, tudo aponta para o silencio onde é possível vislumbrar o principio perfeito e suas perversões.

Bruna, que dormia para a parede, virou seu rosto para nós. Lágrimas nos olhos que me ignoravam. Mas não a voz. Vê aqui, Blandine apontou. Não é igual a têmpora de minha mãe? Não pude verificar a semelhança. Bateram à porta. O senhor poderia vir aqui um momento, se faz favor? Sim? Pisei fora da soleira e encostei a porta. O porteiro sussurrava, supondo cumplicidade. Sua mulher esteve procurando o senhor várias vezes durante a noite. Minha mulher? Ouvi Blandine acarinhando Bruna. Ela está bastante perturbada, continuou ele, o que eu faço? Não era preciso fazer nada. Obrigado. A fúria que me impulsiona escadas acima já arrefeceu. No corredor do andar de nosso quarto. Parei à porta, pensativo, como a praia vazia depois de uma onda. O som do sono de Nastácia. Chega pelas frestas.

Voltei às escadas. Desci devagar, decidido. A porta entreaberta. Entrei de novo no quarto de Blandine. Me aproximo dela. A água de uma descarga corre pelos canos da parede. Ouvi o canto de pássaros e, apesar da escuridão, entendi que a noite estava acabando. Ela sussurrou. Estava quase dormindo. Eu nada pretendia senão dormir também. Deitei-me a seu lado e ela recostou a cabeça em meu peito. Ah amigo por que as coisas têm de acabar? Afaguei sua nuca. Foi assim, uma distração do destino.

A jovem que foi mãe precisa reaprender a ser mulher? O contato era mínimo mas bastou para que os levassem. Eu me contenho, não porque sou mulher controlada, mas não haveria gemido ou grito proporcional. Como podem as coisas antigas se tornarem novas e no entanto estarem destinadas em poucos momentos a se dissiparem num passado mais

que remoto, improvável quando o movimento da lógica permear a memória, assim. Ah, Blandine, estou sonhando, não me diga que não pode ser. Ela não dirá. Estavam se levando a momentos outrora de inícios. Os dedos nos dedos, pontas nos pontos de um pulso, o passado não pode morrer, apenas dorme de acordo com nossas escolhas, e se desperta é como agora com os olhares se evitando.
Convoquei o joelho para o meio das suas coxas, e exceto pelo cheiro é como se ela nem percebesse, pelo menos até que sua mão direita passou a passear em minhas costas. Na parte de fora dessa perna, a minha mão. Preciso decidir alguma coisa? Precisamos estar convictos? Essa idéia impertinente do que é e não é certo, como se pudéssemos saber. Nada perdi. O vento destelhou as casas, não as destruiu. Posso. O rosto dela. Seu sorriso. Por quê? Não há espaço para isso, porquês. Há os olhos, as lábios, as narinas, e aqui, na fresta, o seio alcançado e mais, esse calor é como a lâmpada e a mão a mariposa, e a língua colhe esses gemidos como borboletas, elas se multiplicam, estão sobre todas as flores do jardim e cada uma.

Caso ela tenha se esquecido o caminho, é por aqui. Jamais me esqueceria, pensa ela, lembro em cada vez que estou só; e refaço esses nossos caminhos, e mesmo quando não estou (provavelmente Octavio tem outra, e isso será um alívio). O jeito como ela dobra a perna e contorce o calcanhar, os pés para baixo e para dentro. Dessas pequenas coisas se constrói uma eternidade. Esse homem

não poderá jamais tornar a ser um estranho, as coisas não funcionam assim. O elástico não aperta mais a cintura. Esse ai é um mantra, um louvor núbil partilhado com a respiração. Não sei se ele devia nos expor assim, a empregada pode entrar e até que ponto o ato é lícito na diante de uma criança, ainda que adormecida? A madrugada fria penetra no quarto no instante em que a calcinha é removida. Ele está preparando alguma coisa nova. Esse jeito eu não me recordo. A luz por debaixo da porta, reflexões severas no espelho da cômoda. Amor! Sabem do que se trata mas não saberão explicar. É o perfume das flores, o som do mar, as cores do crepúsculo, o vôo do pássaro, a semente na terra. O galope da poldra. Para cada veleidade será necessária uma noção? Não há mais hora, não há mais antes, não há sequer as palavras que são ditas. Vem agora, agora. O vento encrespa o imenso lago; a vaga nascida procurará a margem mas, a partir daí, o quê? Ele está indo de um lado para o outro no quarto. Repete o caminho no tapete, da porta à janela, seus passos ali, mais fundos cada vez. Olha para ela, para Blandine. Com que sonha? É licito esperar?

Cavalga. O frio de fim de agosto em Piumhi. Os cascos no galope. Vendinhas abrindo, o primeiro ônibus dos cafezais para a cidade, o primeiro trator com boléia da cidade para os cafezais. Um movimento diferente do cavalo torna o amanhecer diferente. Não é mais pelo hóspede que será transtornada a rotina, ou não apenas. Vem dela própria. Como a caligrafia de súbito transforma o teor da escrita. Não diga. Ela está falando. Não sabia que falava dormindo.

Andrei pára e tenta entender. Desiste. De quê? Volta à janela. O sol. O sol do sul de Minas, sua terra querida – está acordando, à medida que Minas se afasta ou Minas se afasta à medida em que acorda. Ou é a mesma coisa. O quê? Ahn? Ele ri. Você disse alguma coisa. É a mesma coisa? O sonho era dela... Risadas. Uma pausa. Ela olha, pisca, o colchão registra suavemente a perna que se moveu sob a coberta, o braço que se esticou fora dela. O que posso dizer? O que será de nós? É preciso seguir adiante, continuar. Você sabe. Ouvir o amanhecer. Você é exageradamente romântico, não dá pra ser assim. E todavia. O que há de romântico? Um beijo. A ereção que não chega mais a ser. Será ainda lícito esperar? A vida num segundo.

Dez horas da manhã, estávamos no aeroporto. Enquanto esperávamos o Octavio, o que fizemos por cerca de meia hora (eles iriam tomar o próximo vôo para Roma), avistei um conhecido. Ele viu dois. Abraçou Blandine e a beijou. Pegou Bruna de Ângela para seu colo. Octavio, esse é o... - Octavio? Uma gargalhada discretíssima e ele perguntou, num português carregado. Vocês se conhecem?

- Vocês se conhecem?, repetiu Blandine.

Desnorteado, olhou ao redor. Não estava pronto para tanta coisa. Alguém chega a estar pronto? Claro que sim, olhe as pessoas, estúpido! E ela como estará diante de tudo? O destino tinha toda a culpa, ou todo o mérito? Seja como for, é impossível não pensar. Poderia ter dado certo, se tivesse ficado, se a tivesse levado, se fosse esse outro. Sem dúvida, quanta dor evitada... Mas como se chega a esses momentos grandiosos da vida sem que tenhamos errado em alguma escolha? A consciência do declínio tem um quê de glória. E nossa noite, nosso reencontro, nossa manhã de amor, onde fica em tudo? Próximos e distantes, educados, civilizados como se deve ser em situações assim das novas famílias que tem outros filhos com novos pais e ex que são atuais e serão eternos porque geraram uma criança. Coisas possibilitadas pelo questionamento dos valores culturais então vigentes havia vinte anos. O que ainda salva o momento no aeroporto é o desconforto, pelo menos isso denotou algum sentimento, alguma coisa fora dessa hipocrisia que é a vida de hoje, onde todos são fantásticos e melhores amigos e amores perfeitos e pais sublimes e filhos inacreditáveis. Onde queria chegar? Já chegara. E tinha de voltar, de sair o quanto antes, não seria possível suportar mais.
Aviões, aviões, aviões. Passageiros que chegam e que partem. O que ela estava dizendo? Não teve cabimento, Andrei, tudo o que deixei de aprender enquanto reciclava meus conhecimentos de café. Eu não sabia. Agora olha só o que temos diante de nós, com toda nossa vivência e cultura. Um absoluto impasse. Pode ser, meu amigo, mas um impasse escolhido. Não quero que minha filha permita que lhe imponham sentimentos, remorsos. Que ela não

saiba para onde ir por não conhecer os caminhos. Táxis. O motorista abre a porta e pergunta se não tenho bagagem, vislumbra uma corrida que não haverá, enquanto eu olho para uma placa que não me diz rigorosamente nada.

O Bernardo estava? Talvez chegasse no dia seguinte, disse Filomena. Que pena. Sou o brasileiro que ele conheceu em Madrid. Claro!, ele falou muito acerca de ti. Falou muito bem. Ela pergunta se ele estava, Andrei, a querer entrar no negócio. Que remédio. Não deve ficar assim. O Bernardo também era cheio de escrúpulos no começo, e agora... Ele imaginava. O lucro é tanto que torna o risco e quaisquer constrangimentos irrelevantes. Vou arrumar a cama no sofá. Ele não quer incomodar. Não será incomodo algum. Sou a Filomena, muito prazer. Bernardo também fala muito de você e dá pra notar o quanto te ama. Ela sorriu. Que bom. Estavam juntos há quatro anos, Bernardo e Filomena, e se davam muito bem. Mas em dezembro ele arrumou uma cena no estrangeiro, na Itália, ela achava. Para lavar papel, ela imagina. Desde então ele passa muito tempo fora do Porto. Mas eu compreendo. Nosso relacionamento continua muito bom, talvez tenha até melhorado com a distância.

Então passei a pensar que para as mulheres sexo e sentimento são a mesma coisa ou duas tão ligadas que terminam por ser uma só. Que imagem se apagara e qual fora transmitida àquele coração pronto para pulsar o ressurgimento da amada? Nós nos conhecemos em Madrid, disse Octavio, quando fui tratar daqueles imóveis com o Paco, lembra? Claro que Blandine se lembrava e explicou, rindo, que era a única que o chamava de Octavio. Sentia-se bem sendo a única a chamar pelo primeiro nome o doutor Octavio Bernardo Coelho da Rocha. Mas acrescentou, Você não sabe da coincidência maior. Bernardo ouvia atento, com um sorriso paralisado nos lábios. Sabe quem é ele? Bernardo Octavio não fazia idéia. O rapaz que eu namorava no Brasil. Aquele. De quem falara no Rio. Quando ele a convidou para passar as férias na casa de seus pais em Trieste. Portanto, não era, por exemplo, um policial do Departamento de Narcóticos se passando por viciado. Alivio. Uma pausa. Além disso, o assunto estava naturalmente se afastando da noite madrilena, de Gaia, de Filomena.

Veja lá, gajo, se estás mesmo disposto. Todo dia chaváus ficam nas mãos dos bofes e ligeiramente torturados entregam os companheiros. Sem falar é claro da concorrência. Matam sem piscar. Principalmente esses africanos. Estão loucos de raiva com a CEE por causa da discriminação de que se julgam vitimas e não precisam mais que um mínimo pretexto para furar um branco.

– Obrigado.

Estarei bem, não se preocupe.

Daria tudo certo. Filomena havia me aprovado e Filomena tinha um sexto sentido para essas coisas.

Ela o amava.

Pois, chaváu. Ficou louca comigo porque descobri que assumi com outra que aliás é brasileira também. Assumi com outra um compromisso que esperava eu assumisse com ela. Agora fazia sentido o jeito dele em Madrid. Mas afinal quem ele amava?

Amar, amor. Você é muito romântico. Não pode ser assim. Mas ele achava que não saberia viver sem Filomena, sem a certeza de que ela o estaria esperando. Seria capaz de matá-la se o deixasse. – Quanto à minha esposa, não a mataria.

Talvez significasse que amava a Filomena.

O que se vê num aeroporto nos momentos que antecedem um vôo. Na névoa, a imagem que não retenho nem esqueço. Piumhi. O que poderia ter sido. Uma vida familiar. Caminhos na roça são feitos com enxadas diferentes mas de mesmo formato. Com golpes precisos. Sem fugir ou desejar. Os olhos de Bernardo procuram cumplicidade nos meus. Eu sei que você acha que convidei Blandine com segundas intenções, mas não é verdade. Simplesmente aconteceu. O que fazia num curso de português para estrangeiros no Brasil?

Era apenas um dos cursos da escola, antecipou-se Blandine. Tinha também aulas de italiano, que Octavio assistia. Bem, querida, está na nossa hora. Aproximou-se dela e a beijou ostensivamente. Adoro-te! Mas em seus olhos não havia amor. Ela aperta a minha mão e em outra mulher se transforma. Recebe Bruna do marido, que a abraça. Adeus! Adeus, eu disse, mas não me mexi, nem mesmo para aguardar a partida no lugar apropriado. O que estou sentindo afinal? Que amor? Ou como eles disseram não pode ser assim? O que está acontecendo aqui exatamente? Se a paz existe, consiste no flash que precede as trevas? Quanto a destino, um diamante: a vontade lapida, e o trabalho, e o desejo. Que noite! Que manhã! A luz à janela. Os primeiros carros. Blandine agora está partindo, de vez. O estalido da mudança de minuto clica no relógio do aeroporto. Talvez eu devesse estar em casa, lá no Rio, trabalhando, me alimentando bem, caminhando todas as manhãs, talvez estar dormindo sem sonhos, um sono reparador seguido de um despertar sensato. Mas não. Amor. Literatura. Ora vamos... No máximo parecido (fisicamente) com Kafka, e ainda esperando uma Dora, o que também não deveria. A diferença de idade nem é tão grande assim, nem Blandine tão apaixonada, nem eu genial. Deveria estar contribuindo com impostos, com meu sagrado direito ao voto, enfim, um homem respeitável, honesto, sem vícios, que não usa as pessoas, um exemplo, estar aqui – estar aqui vai além de qualquer avaliação lúcida da vida. É preciso agora juntar os pedaços, se você for capaz. Quando caminham para o avião, faço sinais. Deveria contra a nova situação refazer minhas expectativas e lembranças,

mas não tenho forcas. Blandine levara minha vida para o avião e pleno de nada aqui estou após a decolagem. Não era nem saudade de um tempo ou tristeza por outro que não virá, um lar. Rapaz, o que você fez de sua vida!... De onde vêm estas dimensões que surgem num segundo, essa possessão? Grito. Não deixe que Bruna vá para a Inglaterra! Está passando. Só o tremor nas mãos. Vou me concentrar no telefonema do diplomata. Só pode ser para falar de trabalho. Esquecerei no trabalho o desencanto.

Gritou em meio ao pesadelo. Suava em seu leito de prosperidade, chorava. Era por causa de gente como ele que gente comum se revoltava? Invejam a transitoriedade e não a gloria da flor. Bobagem, apenas um sonho, louca ilusão. Respirou fundo. Levantou-se e tomou decisões para o dia seguinte. Assim tinha que ser. Afinal. Era um renomado homem público, um literato reconhecido. E era rico. Lutara muito para chegar à posição que estava, purificara-se pela obediência às leis democráticas, porque a publicidade e o primado do povo são correlatos. Crescera nas campanhas eleitorais em virtude de sua opção pelos pobres, angariando também o apoio dos religiosos. Aproveitara suas chances num mundo em que as oportunidades são iguais para todos – de que deveria se envergonhar? Ninguém é perfeito. Se todo homem tem seu preço, o seu era o preço de um homem íntegro. Por que então estava gritando no meio da madrugada? Pediria uma audiência no dia seguinte. Sim, era rico. Tantos lhe deviam favores. O escudo da riqueza

era como a glória de Deus. Dinheiro. Foi o que precisou para livrar Antonio. Generoso, pouco queria em troca. Desejava antes dar. O corpo de Antonio. Que entrasse em lugares. Em lugares em que ele não deveria. Na bolsa, no trafico, nos bancos. O mesmo principio. Foder. E Antonio se tornou um homem livre, respeitável até. Mas o Antonio não está, meu sobrinho querido? Quando o vi na televisão, chorei, o senhor acredita?, chorei de saudade, fiquei arrepiado. E ele começou a gostar disso. Começou a pretender alcançar as coisas não só por meios legais, mas morais. Se alguém vasculhasse seu passado, não descobriria as manchas pelo amante, o seu benfeitor, apagadas. Exceto se. Poderia sonhar com a respeitabilidade efetiva, não a dos quinze minutos. Um cargo. Aí entrava a ameaça do amante. Se um dia ele se recusasse...

Sexta à noite. Ele explica o negócio, mas Antonio responde: Eu mudei, doutor. Quero uma mulher e, para isso, quero ser um homem de respeito. Quero conquistá-la. Sabe, Antonio, sinto algo estranho em ti. Tenho a dizer duas coisas. Primeiro, não és insubstituível. Não vou mais ameaçá-lo com seu passado, pois seria uma ameaça para mim mesmo, estamos juntos nesse barco. Mas se você morrer, quem chorará? E, se você morrer, hoje mesmo chamei a meu escritório um brasileiro. Tudo o que ele quer é um trabalho. Ou ainda menos, um livro publicado. Coisa simples. Estou pensando seriamente. Não faças com que me sinta desconfortável na tua presença, Antonio.

Não quero ouvir nada acerca de brasileiros. O que está acontecendo afinal? O homem entrou pouco depois que Antonio deixou o apartamento. O diplomata tomava banho. Cantarolava no chuveiro. Esquecera o pesadelo. Esquecera, já, de Antonio. Chegara a pensar que estava velho para iniciar um novo relacionamento, mas esse Andrei caiu do céu. Estava cheio de planos. Segurava o pênis e lavava a glande. Percebe enfim o vulto.

Caía a tarde. Atravesso a transversal, perplexo com a noticia, o assassinato do diplomata. O dinheiro de Beatrice permanece quase intocado, mas o que significa, se significa algo, o meu regresso? Não tenho mais profissão, à obrigatoriedade do diploma se juntou um inelutável desprezo pelo jornalismo. O que eu tenho? Pus tudo a perder. Perdi minha vida. Não quero voltar. Prefiro morrer. Pego a Gago Coutinho. As mulheres passam com suas roupas escuras e maquiagem pesada apesar do calor, os seios apontam o outro lado de mim. A cabine telefônica. Se me perguntarem, não saberei dizer. Chove lá. Idas e vindas. Um orelhão não poderia dar tal abrigo. Meus ombros se curvam mais e mais. Ah Nastácia! Não imaginava que as coisas poderiam ter essas todas essas conseqüências. Olhei a rua. O que sobreviverá a tanta escuridão? As mulheres continuam passando, os penteados duros, os olhos debruados. Blandine não era assim. Leve, em vestidinhos de poás esvoaçantes, sempre com pregas duplas arrematando os decotes.

A cabine. Posso ouvir a voz dela, de Blandine. Enquanto isso ela e Bernardo em solo italiano. Ignoro a entrada Areeiro do metro e entrei num barzinho da Almirante Reis. Faço sinais. Em que vida? O crepúsculo além do infinito. Mais essa agora! – um buraco no meu tênis... Eu havia ficado numa pensão por ali, cuja referencia para mim era a Igreja dos Anjos. No quarto, ouvindo o casal vizinho nesse temo sem afinidade, nessa vida sem vida, sem razão de ser, não há mais o que esperar ou talvez um regresso que seria recomeço ou quem sabe a viagem de volta revelando o que seja preciso se é que seja enfim preciso algo. Saí do estabelecimento pisando o assoalho gorduroso, afasto-me do vozerio que estalava eletricidade de tristeza. No ritmo da passada tensa, apanhara-me a aura do quarteirão da igreja sem que me desse conta, algo nos vítreos sonhos da fachada, no sêmen das lâmpadas, me devolveu o mendigo que costumava dormir nas escadas do templo. Da primeira vez que ali passei, pediu-me um cigarro. Vendo a cor mas não o raio luminoso que é a própria cor, trouxe o vagabundo do lado de fora do café em Madrid e na seqüência Oleana entrou exuberante. Aí está o vagão do metrô. Através da invisível retícula passa uma claridade baça, quase uma sombra. O desejo me faz renascer por instantes, segundo as técnicas de revelação e ocultação dos decotes. O lirismo amplo das planícies foge no cuanza de cigarros, do alto do café marroquino para a avenida ventosa em Luanda. Chove no dia em que deixamos a África, chove ao nos aproximarmos de Veneza, na carta de Claudia a chuva recolheu meus traços. Começava a chuviscar e o mendigo reaparece num tempo que não volta em se adianta e é tudo o que há. A ressoar no relento dorme o homem em seus andrajos aquecido pela sopa da Assistência Social ali em frente. As mesmas escadas de meses antes e o

mesmo mendigo alheio à noite que descera pontual com o conforto das trevas que o juízo perfeito ignora. Aproximei-me num impulso e coloquei o maço de cigarros no raio de sua existência aveludada pelo vinho com essa aura cansada que nem dá tanto trabalho para os anjos da guarda velarem sem que ele piscasse. O mesmo bebedouro público onde tumultuados os passos ecoam na noite, tomo um gole. Enxugo os lábios e a barba em movimentos resignados dum modo de vida não o mais fácil, não sou o mesmo. Tomo meu rumo. Imerso o prédio num efeito de aquarela, minha janela iluminada, a mesma da vez anterior – sim, ficara com o quarto e agora desço estalando nos degraus, desliza pelos corrimão a mão depositária do calor de Blandine, e ao terminar a espiral recebi do ruído dos carros e da aragem remota desconfortável profecia. Desci na entrada Anjos do metrô. O vento encanado dos subterrâneos empresta contração de rosto, olhos apertados e braços cruzados aos esparsos e discretos passageiros na plataforma. Apanhei o trem. Jogava entre as estações de lado e de outro na dança de truques e trilhos. Estados Unidos. Saí. Um espírito ascensional capta todos os níveis da alma a se juntarem ao percurso entre a boca da estação e a avenida, sempre atrás de uma pegada recente, trêmulo, etéreo. Quem é essa que do outro lado do córrego de água benta colhe miosótis enquanto espera para me levar à Virgem nela própria? Atravessamos no semáforo, cruzamos um pelo outro, e ela desaparece por profundeza a que não tenho acesso porque laços terrenos ainda me prendem, não me queira mal porque tenho minha vida para tocar e você, desculpe, não passa de um louco carente de afeto, clamando por atenção, sem mais esperança. A voz de Michel promete me levar à presença do Deus refletido no plástico da foto escura mas me deixa diante do cine Londres a contemplar os

cartazes que me aproximam de meu desejo, ai de mim. Que gente toda é essa, empurrando pedras com os peitos em carne viva, uivando de dor, outrora expoentes? A lua se encontra com um telhado e a noite se condensa ali quando a sombra que repete a nuvem passa sobre mim. Como entender pessoas que têm tudo de que precisam, isso pode ser vida? Atravessar essa rua. Atravessar a geografia sôfrega que o sonho impôs e ir para o filme. E de que me valerá? As fotos do cartaz adquirem vida e se juntam à multidão incorpórea comprando na bilheteria. Escritor condenado pelo vicio num relacionamento neurótico com bela editora. Mickey Rourke parece decadente e, nossa, é Faye Dunnaway mesmo? O segredo da sala de espera está contido no sabor de hortelã, no gole rascante da coca e no lamentos dos sacos de papel. Uma noite como essa, diz a mulher, é cenário de surpresas e há segredos também no tecido de sua saia saudável e na resposta da amiga que menciona prêmios do Imperador, estendendo-se ao chocolate que se dissolve em minha língua. No ar condicionado e no relento o frio não é o mesmo? Na segunda hora da penúltima sessão, a pesada porta se abriu e a funcionária a segurou. Pessoas entrando e saindo se esbarram. Apagaram-se a luzes de novo. A treva e o aviso: o vinculo com a sanidade reside na dor. É assim? Curar-me matará um possível o artista? A vida se equilibra sobre o abismo enquanto o lanterninha se aproxima e me leva até a poltrona. Gostaria de recostar assim numa cadeira do papai e me deixar impregnar do bem familiar, do descanso reparador, ah sim, talvez eu devesse! O sono fácil do assalariado... Mas não: a cabeça vacilante, o desconforto, o olhar

doído, a dor de cabeça, os músculos aterrorizados, o espasmo extrapiramidal, o ouvido eternamente sensível, a fraqueza mórbida que se impregna na sala escura. Faz tanto tempo que não sei mas existiu em mim um rapaz saudável e bom, educado, que pensava meus pensamentos. Era sábio e benigno. Desejava a beleza, não o espelho à parede colocado, menos ainda a espuma adesiva que o protege. Faz tanto tempo, não sei quanto. Muito, imagino. Quarenta e tantos e o dia ensombra o pássaro, primeiro o vôo e depois as asas expostas no pouso do terror. Não há mais encantamento embora outro filme vá começar.

A cidade. Reflete da noite na rua. Ouvindo os ruídos do casal vizinho, nos labirintos construídos pela imaginação da própria experiência sob o ranger da experiência alheia, eu escutava o jornal transmitido pelo rádio, e atenção, o locutor imposta solenemente o acento para dizer que o papa excomungou o bispo. Na beira da cama, imagino um escritor que de jornais não necessita. Desligo-me da voz e penso o quanto os dogmas contrários se tocam, que a virtude só existe no equilíbrio de vícios, nada que Pascal já não tivesse percebido. A água está morna, intragável, mas tomei assim mesmo. Os raios revelam o pó que meus movimentos levantam. Quando voltava do cinema há pouco, as vozes dos passantes erravam em minha alma e os corpos das mulheres se recolhem em mim para testemunho daquela noite. O asfalto molhado é como espelho de onde nasce um cintilante

sentimento de desfecho.

O casal. Combinaram fugir. Alugaram a única suíte da hospedaria. Era um menino, ele. Quinze anos. Na banheira juntos já nus. Ela tem corpo de mulher e o rosto também dá idéia de mais idade, talvez mais dos dezesseis que tem de fato. Está sentada na borda da banheira. Conversam. A essa altura já deram pela nossa falta. Ele a lava e imediatamente rijos despistam os anos que virão. Ela o envolve cuidadosamente, lava em movimentos circulares, serpente, não nos separaremos jamais, dois bichinhos enrodilhados, e o beijo é quase uma pergunta, em que dialeto? Os pais deles, os irmãos, jamais permitiriam. A medida que não ignora e mais e mais se conscientiza, enlouquecida, firme e cuidadosa. Aí está a retribuição. Ninfa lavada, deusa, mãe e irmã mais velha, mulher inflamada e úmida, impetuosa e santa, pensa Andrei ao discernir e juntar as palavras do outro lado da parede, palavras que servem de trilha, assim, a pé erguida, o pé crispado na borda, assim poderá ele consumar mesmo em pé como ficaram, o que se costuma acreditar difícil. Mas ele pode, é tão menino, corre ao vento e como fauno arremata. Não importa se nos acharem, teremos isso para sempre. Os lábios se juntam de novo. São arrebatados à janela, saem à rua, cavaleiros do ar, mariposas em torno da lâmpada do poste. O sino badalou na noite. Sagraria a noite enquanto vibrasse.

A cabine. Querido! Elo inquebrantável, Nastácia e eu nos encontraríamos ainda naquela madrugada. Quem sou? A que me agarro? Ao sexo ou à mulher no nível mais simples de consolo? Ainda guardo alguma coisa do jovem

audacioso e inteligente de um tempo ao qual minha própria memória se recusa? De repente a possibilidade do telefonema chegou como tábua no oceano. Os detalhes entre mim e ela, os detalhes mais sutis de nosso relacionamento e as coisas por demais óbvias, seu ciúme grosseiro e a generosa devoção, surgem sempre assim, do nada, como esse telefone. Meu desejo e minha ira em relação à menina rica arrancada da dissimulação para a rua explicita onde temeroso eu me locomovia. Sua frieza em momentos cruciais e a labareda de sua paixão. Nada mais podia me surpreender e as tantas coisas sensualmente previsíveis se haviam tornado tão fundamentais, não para aquele jovem mas ao menos para mim, o homem de quem ele se retirou.

Som forte de chuva. Mulher tu não sabes! Risadas altas. Nastácia está falando. Vou ter que caminhar até a pensão debaixo dágua. Poderia pedir boléia, argumentou a amiga. Não pegaria bem. Ai que esse brasileiro já é uma doença, mulher! Pode ser, mas que sintomas!

Nastácia é menos infeliz do que eu. Encontra ânimo apara viver mesmo nessas condições. Já deixara o pub, ligou avisando. Posso vê-la dançando sob a chuva, cantarolando, vindo para a pensão. Janela. Sereias. De que baile voltam? Ali. Nastácia. Agora ao menos não era mais um adultério. Blandine sim. Foi. Doideira. Assim, sobre a suave aspereza do cobertor, as mãos dela, ágeis e

ardorosas, enganam o ser cansado.

Em sua roupa batida, por algum milagre não cheirando mal – cheirando dele. Por algum milagre e pela bondade de funcionários do comércio que permitiam os banheiros e pela dona da pensão que deixou que usasse a máquina e o varal. Vou abrir uma exceção. Quando Nastácia souber, vai dar problema. Mas é uma senhora! Quase idosa... Aproveita a cabine. Estou ligando, Mario, para dizer que entreguei a encomenda de Isabelle.

Ah, e você imagina que ela não sabe?

Eles irão lá, a Paris, parece, mês que vem. Depois de desligar, levou com a recepcionista uns papos mais leves, mas por mais agradáveis que sejam, no final ela dirá um por demais respeitoso “senhor” e isso o deixará de novo arrasado. Quase lhe falou do livro, que coisa mais sem sentido teria sido. Ou não.

Meu Outro flutuava nas folhas por sobre os fios do bonde quando Nastácia entrou. Das folhas se concluía qualquer coisa. A ordem do universo ou o contrário, a importância ou não da revolução. O verde quase negro, cintilante em branco. Planos secundários. Nada é discernível, tudo faz parte. Noite estranha. Tomei seu corpo molhado. Como se calará se eu não a beijar? Cala-se.

Bebe de mim como se ainda houvesse o que. Senti tanta saudade, querido! Anda, vai. Agora. As mulheres vivem em chamas. Elas sabem o caminho.

Aqueles mesmos fios de cobre, grosseiros, quase encostados à janela. Tempo de olhar o teto também, o tempo. Ela está linda assim, toda produzida. Está feliz. Ah, amor, pensei que não fosse mais te ver, nunca mais! O que fiz de minha vida? A primavera parte. Não serei resgatado. O papa e o bispo excomungado, os governos e os revolucionários, a rua e a casa luxuosa, o escritor e o editor, há vinte anos e sabe Deus há quanto tempo, tudo no fundo é a mesma coisa, os opostos se reconhecem como dois conhecidos que perdidos na noite se reencontram.

Os dias passam. Agosto chega e nada muda. Estamos de novo juntos na pensão. Recomeçamos a vida em comum mas com divisão de bens. Trabalhava no livro e nos afazeres domésticos. Já não ligava quando me chamavam de chulo. Estás estranho, estou a me preocupar, está tudo bem, amor? Sim, claro. Exceto, pensava, essa sensação. O fascínio da luz mais enganosa chegando com as transformações atmosféricas.

Costumava dormir oito da noite, acordava à meia-noite. Acordava, me arrumava e ia buscar Nastácia. E quando voltamos e ela logo adormece, lá pelas quatro da manhã, me refugio na varanda. Escrevo. Escrevo vorazmente pelo direito de escrever a palavra Fim. Como se houvesse um sentido. Escrevo na pensão, após a varanda, traído pela

memória, pela sanidade e pelo instinto de sobrevivência. Escrevo. Na madrugada em que Nastácia dorme ou naquela em que a levo ao pub ao longo da Avenida Liberdade, nos bares do parque até fecharem, na volta da avenida no inicio da noite ou esperando à saída, indo e vindo pela via esvaziada que se sublima. De quando em vez ia ao cinema, claro, esperando não sei o que da sessão, talvez algo como a de Madrid, para Julia voltar a ser Julia e me esquecer de Trieste pelo reencontro.

Vê como o meu italiano está ótimo: Putana! Blandine acaso pensava que Bernardo Octavio não percebera?

Um dia, na saída de uma das salas do cine Quarteto, um significado. Sons de sino numa cidade católica enquanto a vida circunstante passa em silencio na travessa da Gloria, onde Nastácia um dia dissera Essa não tem chulo, entrei no sebo. Não deveria estar aberto mas estava. Entrei. Crime e Castigo num exemplar italiano. Pelas fortes implicações que trazia, comprei o livro e voltei pelo longo caminho até a pensão, quase feliz. Mártires. Praça Luis de Camões. Rua das Flores. Cada lugar retém um pouco de si mesmo. Hesita naturalmente em seus passos, difícil sobreviver à certeza de que não há mais muito que faça a vida indispensável. O suor faz com que tenha a sensação de um calor que de fato não. Uma ou outra rua parece pertencer a um sentimento de paz que não prevalece. Aqui e ali a manifestação do vento é mais perceptível, talvez escute alguma palavra no sopro em seu corpo, nas partes desnudas é quase um toque de seu tempo de vida. Caminhar

assim na madrugada, quando a cidade dorme, induz à noção enganosa de que existe silêncio no mundo, leva a pensar que é possível ser só e estar bem. Talvez fosse o momento; não podia esperar que algum relógio no centro da praça o indicasse, e todavia será assim visível, caso houver uma verificação séria por parte do que resta de sua liberdade. Não se escuta ao redor nada que não foi devidamente composto e todavia tudo o que vier a partir de agora estará ligado à maquina, a ela se prestará o tributo da existência. Travessa dos Fiéis de Deus. O século é uma rua fora do percurso.

Nessa noite, seu rosto no espelho da penteadeira, Nastácia se perguntou o que fazia num relacionamento que da fidelidade de antemão havia prescindido. Não se incluía no rol das mulheres que se conformam em estar com um homem dividido, que ama outra, que toleram a relação assim maculada. No inicio, quando soube de Blandine, pensou que fosse apenas uma forma de ele se defender da existência de Franco. Na verdade, quando soube, pouco se lhe dera. Ele, Andrei, era apenas uma aventura, como os outros. Surpreendeu-se quando ao charme da sedução se aliou uma pompa insólita no desejo. Bem sabia que ele não consagrava os momentos posteriores de que ela tanto carecia. Se a principio nem se dava ao trabalho de pensar no assunto, incentivada pelo espírito de fuga, mais tarde, ao se despojar dos outros amantes, abriu largos espaços em seu tempo para o até então desdenhado pensamento reflexivo, constatou que a coragem para um rompimento é sempre cara. Sofria por ter se dado esse direito para crescimento. Olhou mais e fundamente. De seus olhos castanhos, a lâmpada, mel, escorria pelo quarto. Talvez verdadeiramente o amasse e dele precisasse para ser feliz, e aí Blandine passou a ser ameaça àquela

felicidade. Então Nastácia dormiu pensando que, a partir do dia seguinte, seria a mais amável das mulheres. Controlaria seu gênio, seu ciúme, até seu desejo. Tentaria descobrir onde havia no sentimento dele a mágoa de Blandine e se superaria para agir do modo mais diverso.
Mas não se mostrará subserviente. Não se deixará envolver por suas emoções. Esse tipo de coisa – essas pequenas determinações – são sempre eficientes mas pouco perduram, pensou Andrei caminhando pela avenida. Queria paz com Nastácia, era o que ainda restava. E ela estava realmente disposta. Iria encarar seus defeitos, seria positiva, otimista, alegre. Conseguirá um outro emprego.

Devotar-se-á. Por amor dele e dela mesma, que teria assim ao lado o seu homem, inteiro. Parará de se comparar com outras mulheres: aquela é mais magra, aquela tem um bom salário num trabalho pouco desgastante, aquela é livre. Agora ele pensa que ela dorme. Ao amanhecer, com a camiseta rosa e o par de tênis novo, daria sozinha uma boa caminhada até a empresa daquela Cíntia, que na noite anterior fora no pub flagrar o marido. Assistente da presidência do instituto, cargo que ele até ali ocupara sem qualquer interesse além do salário e das secretárias do sogro. Claro que Nastácia era capaz! E claro que aceitava, obrigado, obrigado, feliz como uma criança feliz. Te espero então amanhã, disse Cíntia, em meio ao abraço mais sincero. Maldição não mais haveria que pudesse impedi-la de libertando-se transformar a sua numa vida satisfeita e útil, honesta. O mundo era belo e da beleza do mundo ela se impregnou. Dormiu na paz que por toda a vida em lugares errados procurara.

Quando Nastácia adormeceu naquele dia, não fui para a varanda fumar. Recostei, cabelos roçando minha barriga, e abri o livro ao acaso. Ah se no início conhecêssemos o fim! Mas se existe mesmo esse destino amaldiçoado, que seja pelo menos um mesmo destino.

Não sabia por que a procurara mas agora estava convicta de ter sido uma decisão acertada. A compreensão apazigua. Me perdoe. Olha. Tens a menina. É, tenho. Sorri pela primeira vez desde que chegou a Portugal ao olhar Bruna no quintal atrás dos pombos. Assim se passaram os dias. Aliás, como aceitara a situação? Me diz, Filomena. O que havia para dizer? Simplesmente se apaixonara. Mas um dia não há mais como conciliar a paixão com um mínimo de – Dignidade? Enfim, não sabia. Mas o amor está aqui (segurou o peito com um puxão anterior da blusa), em mim, intacto. (Queria que sim, pensou). Não nesse miserável com quem casaste, como pôde, como eu pude? Me sujeitar a tal papel. O mesmo amor, integro, que darei a um homem que o mereça. Nunca mais pensaria assim. Ah se o Bernardo estivesse aqui! Essa certeza marca o

começo de uma nova vida, em liberdade. Blandine sabia do que estavam falando aquelas palavras roufenhas e lusitanas.

Ao aproximar meu rosto do rosto dela, não sinto o familiar alento. Um calafrio. Um vácuo. Não posso acreditar. Nunca levava a sério quando Nastácia dizia sofrer do coração, ela era por demais hipocondríaca. É claro que seu coração sofre, por me amar. E ela sorria em silêncio, porta que ligeiramente se abre e volta a se fechar sem que ninguém entre por ela. Segue-se o ritual. Chamo por ela, sinto o seu pulso, busco o calor. Fim do ritual. Sua transitoriedade transforma-se em imortalidade. Descanse, então. Que o hades seja um lugar melhor.

Soube na recepção do hotel de Lisboa que ele deixara o estabelecimento no mesmo dia em que saíram juntos. Foi ao Palácio Foz, à Universidade, à Fundação, a todos os lugares mencionados desde que se encontraram na sala de TV até Octavio Bernardo aparecer no aeroporto. Nada. Haxixe: na policia, também, nada sabiam. Mas ficaram com o telefone dela, o do hotel, para o caso de alguma novidade. A ida ao consulado também não deu resultado qualquer. Ele não havia se inscrito ao chegar, oficialmente sequer estava lá. E ela? Estava com a situação regularizada? Blandine empurrou o funcionário, que fosse à merda, e saiu. Começou a se desesperar.

Chegara de Trieste, via Milão, pela manhã. Quando decidiu vir a Lisboa, não pretendia abandonar o marido. Havia justificado a necessidade da viagem: não era justo que Andrei não soubesse acerca de Bruna. Estava certa de que Octavio compreenderia. Estava errada. Agora não era mais só pela filha, estava ali por si mesma. Não podia mais viver longe do homem que tal sentimento desencadeara, o sofrimento de uma paixão é assim. Ou termina por encontrar uma solução acomodada ou transtorna a ponto de qualquer loucura. Que coisa mais dramática e ridícula, minha querida esposa! Ainda está

muito por dizer? Portanto, estou a me reportar a isso mas acho que você sempre foi assim, dramática e patética. Não podia tampouco viver longe do país em que aprendera a força da vida segundo o trabalho, da roça onde aprendera esse trabalho, não era vida aquela sucessão de pequenos incidentes de um conforto baixio. Octavio não imagina que ela terá essa coragem. Menospreza o acaso e o sinal de alerta só se acende quando Michel vai visitá-lo no escritório. Que importava agora? Andrei não falara com ela depois do aeroporto, Blandine não entende. Negócios ilícitos?

Ora, que ela não o aborrecesse mais. Aliás, fique mesmo bem quietinha e arrume logo tuas coisas. Mas saiba. Se o denunciasse nem terá tempo de se arrepender. Não era nada daquilo, disse ela. Se me ama, se ama a menina, nada vai mudar. Não me importam seus negócios? Imagino que não, se tiver a cidadania e todas as suas vantagens. Ele quase acreditava realmente que não. E se calhar nem a Filomena importa. Ó pá que rapariga compreensiva! Blandine não sabe do que ele está falando. O olhar de Bernardo Octavio alcança aquela dimensão em que amor ou ódio inexistem. Ali só o gelo do ego habita. Estou a ver. Era mesmo muito cínica! Súbito ela caiu em si. Viu-se sufocada por todo tipo de pensamento amargo. Junta as ultimas forças para concluir. Você está fora de si. Como ela própria estivera. O mais severo dos julgamentos. Estava fora de si, responde ele, quando não percebeu que ela apenas o usara para ter uma vida confortável na Europa. Sua puta. Sim, e é verdade o que esse idiota contou – quando ele ligara? Blandine está próxima da janela. Há faíscas no céu de Trieste, venta muito como sempre na superfície do mar, é possível que neve, mais hoje

mais amanhã, a terra sofre os efeitos da raça humana, nota-se pelos efeitos nas estações. Há faíscas por sobre o casario e chamas no horizonte. O momento em que se desiste de apagar o incêndio. Ele não telefonou. Não mesmo? E o próprio Octavio conta com detalhes sobre Filomena e seus negócios em Portugal e na Espanha, porque em certos momentos mesmo o pior mentiroso sente uma necessidade irresistível de se livrar do nojo da mentira. Aliás, negócios que salvaram a vida do brasileiro e agora ele cospe no prato e trai um amigo. E por causa de uma putinha negra! Se merecem! Mas e daí? Mal sabe que lhe fez um favor, Octavio estava mesmo a querer sair de Trieste, a situação na Iugoslávia ia piorar, na Itália mesmo, permanecer ali seria um atraso de vida. Ia para Londres e quando tivesse se instalado buscaria Filomena e o filho deles, até nisso ela era superior a Blandine, me deu um filho macho! Bruna não pode mesmo ser filha dele. Ah, vagabunda, precisava mesmo de toda aquela historia de “intuição paterna”? Estúpida! Agora some! Octavio Bernardo sai, dizendo que quando voltasse não queria mais vê-la por ali.

Em Lisboa, antes de procurar Andrei, ela vai para o quarto de hotel. Está exausta. A menina ressona. Deita-a e fecha as cortinas, depois deita ela própria. Fecha os olhos. Todas as coisas que apenas são, nem boas nem más por si sós, tudo o que apenas é, nem bem nem mal em si mesmo – estão, está – em suas mãos tremulas de humanidade. Muitos anos depois ainda lembrará com clareza

daqueles momentos. Os traços de Andrei desenhados pelo seu cansaço pairam no quarto, são os traços, não sei, é como se fossem um resumo da humanidade e assim de sua doença. O que sei é que ele é. Mecanismo de um fado básico. Angustiada imerge no silencio, louvor da solidão, beijo tornado saudade. Adormecendo. Branco luminoso de um cenário – rebanhos, montes, cheiro branco de brilho intenso. Três horas da madrugada. A noite se dispersa. Recordações. Está isolada do mundo por um véu suspenso pelos anjos da memória. E súbito, de novo, o vermelho em meio às folhas misturado ao perfume dos campos. Permaneceremos aqui após partimos, como folhas secas, escurecidas, que se partem no solo. Havia alcançado aquela atmosfera em que amor e ódio não existem mais, apenas a fraqueza humana. Vira-se de lado, de frente para a lua que se insinua pela fresta da janela e entra no seu propósito de procurá-lo aqui e ali e quem sabe. Enfim. O tempo convém aos corações transpassados pelas ultimas lanças de um reino destruído. Acontecera, apenas. Seu velho pai e aquela idéia tão típica, rapaz, você precisa de uns tempos na roça. O que o senhor Jean realmente pretendia? Esse canto parece sim, nana neném, o boi da cara preta mas estilizado, por assim dizer. Ele precisava de alguém como ela e ela estava ali. Simples assim. E agora. O peso da cabeça afunda o travesseiro. Houve então o silencio pleno que liga um dia ao outro.

Desci as escadas com os olhos ardendo por ter chorado tudo. Bati a porta da dona da pensão, bati, bati. Não atenderam. Sai sem destino pelas ruas de Lisboa. Ao atravessar a praça da igreja, ali estava ele, armado pela coincidência. Não o reconheci a principio, de terno e gravata, junto a dois outros sujeitos igualmente elegantes. Vendo os rapazes assim bem apessoados, veio-me a velha vontade de ser assim, normal, próspero, feliz, opressor. Pedi fogo. Mas claro. Eu era um gajo queimado. Dias de sorte ele estava a ter. Para Antonio foi fácil reconhecê-lo, pela barba e a jaqueta preta de sempre. Ao sinal, os dois outros o agarraram e levaram para o beco. Um dava pontapés; o outro, socos no ouvido. Afinal ele não iria ter a chance de saber se era eficaz a receita de Blandine, dissolver camomila em óleo de cozinha, coar e pingar umas duas gotas – É um antiinflamatório natural. Para os males do tratamento anterior com antibióticos, própolis e muito sol antes das nove e depois das três. E abusar de iogurte. Tudo bem. Agora tudo ficou claro, como uma pequena distancia faz com os quadros de uma exposição. Esse é um pensamento fugaz. Ficam muitas outras coisas. Você não tem ciúmes de mim? Nastácia me perguntou isso quando se tornou óbvio que eu sabia de seus casos. Acho que também uma vez em sonho. Me passou esse sonho pela cabeça quando percebi que estava morta. Por isso talvez agora considero. Salvou nosso relacionamento com ela o fato de ter tantos amantes e não estar Franco entre eles. Esse homem... se aproxima... Mas não.

Mesmo que. Não há esperança. Está partindo, como ela partiu. Ah, realmente eu não teria suportado se ela, Nastácia, minha mãe, dormisse com seu marido, o rival insuportável contra quem não se pode lutar. Fosse o casamento de Nastácia convencional, eu não teria suportado; por mais conveniência que houvesse, seria um relacionamento condenado. Agora se fortalecerá. Ela fora abandonada, como eu próprio. A dependência se desfizera. Éramos ela e eu enfim, com tudo de bom e mau que pudesse isso ter. Amor, me perdoe. O que, Nastácia? Demorara demais a perceber, disse ela, o quanto precisava de mim, de mim mais do que do dinheiro, e do dinheiro menos do que imaginava. Não faz mal, querida amiga. Não faz mais diferença agora.

Antonio está mandando que me soltem, é o que faz. Não sei em que sentido pode ser, como ele está dizendo, um “assunto pessoal”. Tira a gravata e o paletó, puxa o canivete e determina um outro para mim quando digo que estou sem o estilete. Não sei que expectativa deva ser satisfeita. Não quero machucar pessoas e já há uma lâmina gelada em meu coração. Arremeto ao braço armado. A morte nos gumes refletida. Bach. São Mateus. Questão de segundos.

Sentiu o golpe. Deve desabar. O calor é insuportável. Tem febre. E esse impacto.
Eu andava resfolegando só de subir os andares da pensão, de fazer amor com Nastácia. Este joelho em meu estômago. O que afinal está dizendo, aos

gritos? – os esses e cês juntos chiam como um fogo que crepita; quase diriam que ecoam desde longe. Este rasgo nas costelas. Naturalmente. É sangue. O que resta de minha energia se dissipa nas sombras. O sino vibrava e por um pouco de tempo ainda vibraria – badalar de novo, jamais. Eu me transformara em algo diverso de homem. Quem eu era? O quê? A expressão pura, o afeto de estranhos, a vida futura, a posteridade, o crescimento espiritual, o amor, o dever, a missão, os sonhos – o sangue que salpica o caderno diz mais do que qualquer palavra escrita. E todavia um livro.

Do galinheiro, Blandine escutou o pranto de Bruna. Correu, atravessou a horta, chegou ao lugar onde a menina estava. Mamãe, se Deus realmente ouvisse as orações, o gatinho não teria morrido. A menina rezara por ele a noite inteira. Deus deve ter coisas mais importantes com que se preocupar. A mãe sentiu o choque. Novamente o corpo. Viva de novo. Nem tentaria entender. Fechou os olhos. Debruçada sobre o animalzinho, diz à filha que traga leite pois o gatinho estava vivo. Bruna obedece, tremula de expectativa. Blandine usufrui o momento de tornar a presenciar os acontecimentos. Gritinhos de alegria. Mami! ele tá bebendo! Blandine agora deve voltar ao trabalho. A chuva parara. Ainda bem, diz a criança, a umidade é ruim pro gatinho doente.

O mendigo faz sinais. O guarda se limita a olhar. O homem atravessa; há

firmeza nos passos andrajosos. Fala com o policial. Ali, nos fundos do prédio. Sim. Lá estava, realmente. O corpo ensangüentado. Logo as sirenes. Aumentam. De todos os lados. Os carros da televisão chegam ao local da tragédia. Aqui, aqui! Que horas são? Amanhecia. O vento sopra em direção ao sul. Como assim, Não venham para a Baixa? E que caminho vou tomar? O rio. É como se daí, dessas águas e de suas cintilações, o universo se refletisse, como se o mundo surgisse feito um rosto no espelho enquanto amanhece. Uma mulher acena, parece que. Ah. Mas quem quer falar comigo? Oh meu Deus. Que horror... Alguém deveria prever. Hei, o que é isso, está louco? Outro carro passa também numa manobra arriscada. Depois, mais bombeiros. Ah se você soubesse, se ela soubesse – ele dizia– o quanto ele a amava e o quanto a vida passara a valer a pena desde quando a conheceu. Isabelle sabia, ela sentia o mesmo, nunca acreditei que isso pudesse acontecer, e a pura verdade é que estavam mesmo mais e mais apaixonados cada dia. Mas agora ela está triste por causa de sua mãe, uma mulher tão bacana, generosa, mas não tinha mesmo sorte no amor, sempre atrás de relacionamentos impossíveis. Mario pára e pensa em dizer alguma coisa mas não diz nada, é o tipo do assunto, melhor não fazer comentários. E como sempre acontecia depois desses silêncios, eles se beijaram e de tudo se esqueceram. Talvez, mesmo se estivessem atentos à TV, mesmo se escutassem o pronunciamento de Jacques Delors, não teriam pensado no amigo, relacionando-o às dramáticas circunstâncias vividas hoje pela população de Lisboa.

O fogo se reanima e se alastra ao fundo da rua Garret. A fumaça tóxica se

concentra agora na zona do Camões. O senhor tem todos os seus haveres ali, muitos milhares de contos incinerados. Uma mulher liga para sua casa, fala com sua esposa. Está lá? Quem? A neta deles não vivia ali com um brasileiro? Do outro lado, um homem segura o pulso de sua esposa. Mulher, não sabemos. Sim sabemos. Querida. Deixe-me. E se soltando torna a falar. Senhora, por favor – O homem se afasta da mulher ao telefone e deita-se de roupas, num instante estará quase dormindo, acordaram muito cedo, como já não costumavam acordar desde que se mudaram para Póvoa. Como havia dito, a neta morava por ali com um brasileiro. Portanto os avós não sabiam da morte de Nastácia, talvez o filho quisesse poupá-los e quem poderia imaginar? Em Luanda, seus pais ainda não foram informados. Fique tranqüila minha senhora, disse a mulher de Lisboa, e assegurou que retornaria a ligação. Chegarão depressa à altura própria de dizer que não houve vítimas, o fogo está circunscrito a uma região comercial. O cenário é dantesco, mas isso é tudo.

Um homem pára agora e se inclina no miradouro, um desejo perplexo. Lá embaixo o bombeiro vai entrar por uma janela, sente a água das mangueiras como uma garoa. Parece que o vento está mudando. Súbito a cinza que pairava é varrida em rodamoinhos. Decerto havia muito plástico por aqui. Precisa ser rápido e preciso, é tarde para pensar que não devia ter se metido numa profissão dessas. Olha para fora e vê seus camaradas, não pode esquecer o rosto de seu melhor amigo, destruído minutos antes pela explosão do computador. Minhas mãos estão tremendo.

O homem no miradouro vê que o bombeiro já entrou, imagina como conseguirá respirar naquele inferno e o que exatamente foi fazer lá dentro. Impossível não comparar aquilo com sua própria vida. Jamais deveria ter se aproximado daquela mulher, bem que o avisaram sobre essas mulheres de pub. Cíntia inclina um pouco o pescoço para ver pela janela do carro. Lembra de imediato de Nastácia, ela não morava aqui perto? Não consegue ter certeza. Agora não ficará descansada enquanto a amiga não chegar para acertarem as coisas do emprego. Alguém nas imediações começa a tossir, sem dúvida efeito da fumaça que demarca a área com clareza. Dá para ouvir a tosse de dentro da sala da pensão onde a mulher fala ao telefone. Aquele rapaz não veio para cá, aquele que teu marido hospedou uma época lá na casa de vocês em Piumhi? Pela expressão que faz a resposta deve ter sido positiva, seguida naturalmente de algum comentário sobre o rapaz ao que a mulher aqui replica Ah, as pessoas aí no Brasil se iludem, a situação em Portugal não é assim, sobretudo em relação a emprego, até dentistas já começam a sofrer a concorrência local. Há até mulheres que chegam aqui e na Espanha e acabam, sim eu sei que acontece em toda parte mas aqui está a– A fumaça entra com maior intensidade, o homem tosse mais alto e ao desligar o telefone a mulher vai à janela e fecha a fresta que ainda havia. O homem vê a mulher com o pescoço inclinado, avalia o quanto é bonita e acredita se lembrar dela no pub na noite anterior. Mas parece uma mulher tão fina, não é possível que trabalhe ali, um ambiente no mínimo tão masculino. Pensa em segui-la mas será loucura, então permanece ali parado enquanto o motorista vira no sentido da avenida. Quando passam, escuta a voz dela, é

contralto, combina com ela, mas parece que fala de uma outra dimensão, diz para o homem que está dirigindo que ele não se preocupar, tudo vai ficar bem, eu mesma tratarei de tudo. Lá fora o fogo crepita ao fundo da chegada teatralmente ruidosa de mais um carro dos bombeiros que passa pesado ao lado dele, no sentido do próprio fogo, ao sul do elevador de Santa Justa. Focos de fumaça súbito ressurgem de novo em labaredas. Um outro homem pergunta a si mesmo se haveria uma causa para tal efeito olhando o caminho dos canhões de água. Ele acordou com o prédio ruindo sobre si, quem sabe resolveu pegar alguma coisa na loja. Que loucura. Poderia ter perdido a vida, poderia ser hoje a principal notícia para esse homem agitado a segurar o cabo do microfone em que fala. Mas de sua mulher não escaparia, a ira de uma mulher ciumenta é mais voraz que o fogo devorador. Calma, calma. A mocinha conforta a senhora, passando a mão pelos cabelos dela. Minha filha o que será de mim? Sua loja estava a arder. Deixem-me passar, gritou o homem com a cabeça para fora do carro. Imagens que ficarão para sempre na memória. Pessoas. Se faz favor. Agüente firme, já vai chegar ajuda. Outra explosão. Poderá ser gás ou um aparelho de ar condicionado. Na pensão o telefone não pára. Não, ele ainda não voltou, deve chegar logo. De nada. Na verdade, a proprietária não sabe a que horas voltará, nem mesmo se tinha saído. Repete-se, enfadada. Não, não está. Era o editor do jornal brasileiro que, armado de oferta inescusável, precisava de alguém que cobrisse a catástrofe. Ele não está, sim, darei o recado. Resmungando, a mulher. Diante da TV. Na tela, o fogo.

O número não pára de dar ocupado. Maria das Dores teria uma oferta irrecusável, caso tivessem atendido. Afinal não é tão grave, há montes de jornalistas por aqui, brasileiros também, e conhecidos; cobrarão mais, é claro, mas é um momento único, vale a pena. Maquete. Talcos. O vigia. O policial. O bombeiro em chamas. O repórter. O homem que se esvai em sangue. A avó desesperada. A amiga. A fumaça aumentou muito e há pouco as chamas tornaram a lavrar no primeiro quarteirão à esquerda. Quais as informações ali da zona? Os prédios cospem labaredas, o rio ao fundo. No canto obscuro há gemidos. Um ardor imenso e ruidoso. Que cenário!

Enquanto ainda há chamas no cruzamento da rua do Carmo e da rua Garret, Michel toma o vagão da Northern Line em Finchley. Está mesmo disposto a entrar em contato com a amiga que passara pelo processo de desintoxicação dos Alcoólatras Anônimos, está disposto a qualquer coisa para que Oleana se cure. Ela trabalha no Hospital Memorial, é uma jovem bonita e ninguém pensaria em dizer que passara um dia por semelhante drama. Michel agora entra na avenida Kenver e pensa no que dirá a moça. Claudia assiste o desfile. Domenica pomeriggio a Muggio. A apresentadora pede um aplauso para a modelo, é uma beleza de vestido de noiva, meraviglioso diz a amiga, mas ela parece distante. Houve a batida na rua,

os homens discutiram. Os dois bem apessoados, na verdade uma batida pequena, nem valia a pena mas o mais jovem ofendeu o outro e nesse momento ela os viu. Fugiu dali, nem sabe como. Seja como for, não a veriam mais. Estava mesmo decidida, jamais teria sossego nos lugares de sua adolescência ou em Milão. Recomeçaria então a vida em Pádua, melhor em Roma. Quando terminou de arrumar a sua mala naquela noite, ouviu a noticia. Então pensou em Andrei pela ultima vez.

Como chegou a tanta amargura esse homem que dá a impressão de ter sido outrora feliz? Bruna se pergunta por que tanta dor, por que erra assim, sem amigos, por que não tem descanso exceto talvez essas horas que passa no cybercafé. Ao longo da noite, a mais antiga luz onde a sabedoria ergueu seus muros em meio às trevas está para ele proibida. Exceto talvez por Bruna. Pelo carinho que sente por ela, que tanto o ajudou no comecinho, quando nada sabia de internet. Tamanho bem que lhe deseja. Mas não argumenta desse sentimento para alguma expectativa que não há. Além das seis horas na loja, de onde tira seu sustento, ela trabalha como voluntária, o que em si não significa necessariamente muito, mas se dedica, diante dela seu bairro se abre, amplia seu lugar no mundo, sua roupa é simples, está limpa, faz algo por alguém, vive a vida. E o homem outrora feliz agora sangra, por assim dizer esfarrapado – não tem proteção social, foi fatal perder seu emprego numa época em que a juventude era o requisito profissional mais importante, o qual ele não tinha mais. Na verdade, não tinha tampouco outros requisitos: dera as costas ao mundo, modo que encontrou para manter um

mínimo de sua integridade original. Dera as costas a tudo. Trabalho, amor, família, e a segurança que daí advém. Ela não entende nada disso. Não entende nada disso. Precisa ganhar para comer e dormir e poder ser útil. Estuda. E um lugar de estudo não é lugar de ideologia mas de aprender um modo de ganhar o seu sustento. À filha de Nastácia basta conhecer alguém. Para isso está todo o tempo na internet.

Bruna notava que o homem não ia ali para isso. Para fazer amigos, mesmo virtuais, é preciso algo que igualmente perdeu, o sentido de socialização. Escrevia num blog, escrevia livros eletrônicos, comentava filmes e livros. Enquanto ela escrevia seu diário (num caderno, por trás do balcão, não em seu terminal), dava olhadas de relance e imaginava o que poderia ele escrever, os tipos de filme de que gostava, que livros costuma ler. Chega a comentar um dia com Filomena sobre ele. Quando se aprende a viver como ela, imagino, não se pensa muito na vida. Mas algo os une. Se o consumo é o fim de tudo hoje – pensaram ambos em momentos diferentes ao observar as reações de namorados, de cônjuges –, se o consumo e aparência são determinantes, então o quê? Senhor, sou homem cuja carne envelhece, mas Tu permaneces de geração em geração. Convertame. O sorriso dela meigo e forte o acusa. Porque ama não tem tempo para amargura ou ciúme, desvela-se como a brisa num dia de sol.

Ela nunca existiu na verdade. É um mito, Bruna. É esse mesmo seu nome, ontem ouviu alguém dizer. O todo pela parte. Cheia e forte, contornos forjados pelo trabalho doméstico, talvez até na roça. E, como se faz como a massa de pão, será posta na cama, coberta, para crescer. De noite ele a cobrirá de novo, caso ela se descubra. Fica observando como ela dorme, tão serena. A filha que não teve, a mulher que fugiu. Nem a presença súbita do noivo para buscá-la o desperta. Ela está ainda deitada, um ligeiro tremor nos olhos fechados, depois vai até ele, que está lendo na sala, e lhe dá um beijinho no rosto. Tem um copo de leite nas mãos, pergunta se ele quer também.

Quantos anos terá, uns cinqüenta? Mais? Sabe-se que tipo de homem é esse, dessa idade, que gosta de navegar na internet. Mas, pensa Bruna, se tanto escreve, será um escritor, um jornalista talvez? E tenho medo de quem escreve, mais quanto melhor: há no escrever bem certa magia que, mal usada, destrói a prática do que se escreve, o bem e a beleza que deveria ser expressada. Bruna o vê, a rua escurecida, o dia ofegante, os efeitos da insônia. Ninguém à volta deles. Não, não há esperança. Ele é a rua, o cansaço, o sono que não concilia; e ela, a loja, o trabalho, a luz.
– Oi,

como vai o senhor?

É como se os prédios realmente ardessem. O abismo está aqui, onde pode

ser visto mas jamais descrito. Vale a pena essa vida de eternidades perfeitas e inalcançáveis? As chamas ardem no vazio, cenário transitório do que apenas pode ser lembrado. Que esperança? Há algo de muito estranho a meu redor mas mal posso perceber. Vai ficar tudo bem, já está chegando ajuda.

Eram vinte para as cinco, quando o homem se deu conta, era numa montra, num buraco, não por janela, pela montra, tem essas montras corridas, o senhor sabe, e aquilo era tipo duma turbina que estava a puxar o fumo para fora, antes dessa hora não percebi nada, quem chamou os bombeiros foi o polícia lá de serviço, mais ou menos cinco para as cinco, mas os bombeiros só chegaram entre cinco e um quarto e cinco e vinte. Quando lá chegaram o fogo já estava em grandes proporções, os armazéns praticamente destruídos. O inferno em directo. Aqui, aqui! Olhem!

A infância para a mulher que a tudo assiste petrificada; o corpo para a jovem que apenas dá uma paradinha antes de ir pegar a condução para o trabalho; os bens para o analista econômico – o que, para o homem ensangüentado? Que propriedades possui a proximidade do fim? – fim: não esquecimento, mas possibilidades que perduram. Calma, vai ficar tudo bem, repete o mendigo. O corpo, a infância, os bens, e há de ser além disso alguma outra coisa que apreendo agora, pensa, seu sangue empapando o partícipe papel.
O que esse senhor está dizendo? Creio que o conheço; pelo menos já o vi por aqui.

Não consegue articular palavra, quer perguntar o que é essa claridade espantosa, esse aterrorizante brilho, esse sangue, mas Não fale, diz o mendigo, o policial se agacha e repete Não fale, a ambulância já vai chegar.

As chamas abrandam. Legam, do ardor inicial, faces fantasmagóricas aos edifícios. Cadáveres de pedra. As pessoas atingidas devem se dirigir às juntas de freguesia, entrar em contato com a Câmara Municipal ou com a Casa de Misericórdia de Lisboa. Podem eventualmente olhar para trás. O homem não faz idéia do que pode acontecer ainda. Nada de nada, não vi o administrador, não vi ninguém, do total eram quinhentos ou seiscentos empregados dos armazéns, ninguém sabe o que será deles, mas pelo menos ninguém morreu, quero dizer, aquele vigia parece que não resistiu às queimaduras, e parece que aquele bombeiro, mas enfim, é pouco pelo que poderia ter sido, como se a tragédia pessoal fosse um mal menor, como se males pudessem ser menores porque atingiram um número menor pessoas.

O rapaz saiu de casa e a chamou. Bruna, Bruna! Pergunta se ela não gostaria de ir ao cinema depois do trabalho. Tô cansada, mas ele é tão legal. Vamos deixar para um outro dia, Bernardinho. É que hoje ela queria olhar uns vídeos daquele incêndio que foram colocados na internet, a rigor foi naquela época que nos conhecemos. Foi sim, ele concordou. Fica para outro dia então. Claro, outro dia a gente vai, na semana que vem vou estar mais tranqüila. Então ela deu a sua palavra, deu portanto o melhor de si.

Quem pode saber o que irá resultar daí? A pergunta tem um tom de crítica. A voz se emaranha ao burburinho. A voz, musica para os ouvidos dele. Estão muito próximos agora. Olhos nos olhos, um na aura do outro. Muito zangada, ela havia sentado na praça para se acalmar. Foi no ano passado, quando veio pela primeira vez sozinha. A situação econômica no Brasil está estabilizada, não é mais tão comum ilegais brasileiros. Por isso Bernardinho achou que ela poderia ter voltado por causa dele. Seria tão absurdo? Não sei porque você ficou tão ofendida. Hoje somos nós que estamos a procurar nova vida em novas terras, como na Angola em reconstrução. Ela responde que detesta quando as pessoas falam de si assim, “nós”, quando estão falando de um povo, ela não é “nós”. Diz: E sequer sou brasileira. E não dava a mínima para o contexto social ou político. E ele não podia tê-la beijado daquele jeito. Até porque somos quase como irmãos. Ele nunca a tinha visto assim mas não se intimidou. Irmãos que nada, ora essa. Ele era louco por ela, desde sempre, era louco por Bruna. Fala sério, diz ela, foi muita falta de sensibilidade tocar nesse assunto justamente quando estávamos tendo uma tarde tão legal, depois de um filme tão especial. Esse tipo de atitude, pensa ela, é que não me deixa confiar em homem nenhum. Mas de súbito olhou para ele e percebeu uma certa dignidade em seu semblante, assim, meio por nada, como uma revelação. Admirada, sentiu o calafrio. Ai não. Era só o que me faltava.

A moça no banco da praça tentando se acalmar. Será possível? Fazer uma viagem dessas com semelhante intenção? O rapaz se aproxima. Não, ela já não está tão certa, pode ser que seja bom que se enamore dele. Se minha vida é tão vazia, o que exatamente teria a perder? Começa a compreender sua mãe. Ao redor falam sobre o incêndio, há vinte anos, dá para acreditar? O homem que disse isso bateu com o canudo de jornal nas mãos. Ali era o coração da conversa política, da noite deslumbrante em restaurantes da moda. Todos concordam que um pouco da historia de Lisboa se deixou consumir nas chamas. Ninguém faz idéia de um rapaz que morou ali perto e foi esfaqueado naquela mesma madrugada. Um outro disse O tempo é mesmo uma coisa louca, e passou pela cabeça dele a imagem de um cavalo branco, indo e indo, às vezes dando meia volta apenas para em seguida continuar a ir, e continuou e disse Não dá tampouco para acreditar que já se passaram quarenta anos desde 1968, e para onde aquele cavalo estava indo não havia nada além de memória, nada além de lembranças, e nada de certezas, e nada de desculpas. Bruna tinha as chaves da casa de Filomena em suas mãos, Quando ela percebeu o homem, chegou a pensar que a olhava, mas devia estar errada, é o que pensava quando Bernardinho tocou o seu braço. Não fique assim, por favor, ouça-me. E declara mais uma vez o seu amor. Por um momento ela não entende o que ele diz porque está muito distraída pensando na sorte dos desabrigados. Mas logo se dá conta. Se deixar que esses braços a envolvam, não terá mais como escapar. As chaves ecoam do chão.

Na mochila não há documentos. Só cadernos e blocos de notas: poemas, artigos, crônicas, diário e até o esboço de um romance, manuscrito – incenso em um holocausto. Chamada. Esses estranhos mecanismos com que se reverte a existência, pensou. Conhece Claudia e termina por se decidir, acredita que realmente foi ali, ao se tornarem amigas, por se convencer de que é necessário. Irá então ao Porto, não que fizesse algum sentido mas talvez possa entender, sabe lá, talvez aprender e se preparar. Mecanismos. Livros, filmes, peças, músicas. Vida revivificada. Blandine assina os documentos, fica com os pertences e sai do prédio.
– Você

é a Filomena!

Passou duas semanas no Porto. Tornam-se amigas, confidentes. Coisas assim acontecem. Talvez o relacionamento de antemão condenado dê certo justamente por essa expectativa. É verdade, disse Blandine, no tilintar do almoço. Louça, pano, pés no assoalho e trânsito lá fora no sentido de Lisboa. Foi Filomena quem indicou o amigo de seu pai, dono de uma gráfica.

Vinte anos depois, coisas ainda são acrescentadas. Bruna digita entre

um cliente e outro.

Então um dia Blandine acompanhou o trânsito. Adeus! Tchau, adeus! Fica com Deus!

L isboa, as velhas casas de Alfama. Quase sem desvio se chega à Costa do Sol. Blandine diz adeus em uma nota no caderno.

No táxi para o cais. Confusa. O que realmente sentia? O que entendia? O Tejo passa do lado esquerdo, se confunde com a bruma, retira contornos, perde-se na transitoriedade do motor e em sua pele o ar frio murmura – Quem é você? Até onde é possível retornar às origens além da imagem do senhor Jean levando chá quando ela estava acamada? até onde a esperança poderia ter ido além da casinha com um Andrei quase idoso mas ainda viril, doce mas de imprevisíveis rompantes. Desperta. O taxista. Não cintila mais, perde-se com o navio (ou a ponte ou que miragem) que ficou para trás no caminho, adiante estará o seu, esperando. Bruna, as mãozinhas de Bruna, desde quando mesmo seu coração deixou de se apertar em seu peito, a partir de que momento a

morte de Andrei ou o fato de não ter sido enterrado deixou de fragilizá-la ou seria melhor dizer fortalecê-la para a fraqueza, ou quem sabe fortalecê-la apenas – enfim, desde quando sobrevivia apenas, sem atributos? O livro a ajudaria, estava cansada. O leitor – a consciência de leitores, saber que existirão – a completaria. Como se fosse um reflexo à luz da tarde nas águas do Tejo, como se fosse a manhã no espelho fazendo surgir o seu rosto. Agora descansaria, descansaria em casa. Os passos saem com o bater da porta do carro. O velho navio, reconfortante visão. Um carimbo. Obrigado, senhorita. Escreve a ultima anotação européia. Uma força além dela continuará escrevendo por meio dela as palavras que se escrevem a si mesmas.

Não se trata de talento, nem de posteridade. Morreria se não escrevesse – ou, pelo menos, poderia morrer. Terá a ver com resistir esse existir anônimo que depende das coisas públicas? de privação e dor? Mal me lembro, se me lembro, do que vivi. Agora há o silêncio, ou poderia dizer a essência do vazio. Opõe-se a qualquer coisa ligada a bem-estar ou mal-estar. Um outro sofrimento que não sei como chamar é quase ausência de sofrimento, não espero que você me entenda. A fraqueza humana – olho em volta os outros desabrigados – pode ser pura força. Forca na fraqueza. Como disse o médico. É o senhor? Foi o senhor daquela vez, não é mesmo, ali no metrô? Sou eu. Mas agora foi um pouco pior, estás a ver? Eu iria lhe dever mais essa.

Parece mesmo que tenho algum tipo mórbido de prazer em sobreviver aos furos e isso vale em muitos sentidos. Shhh. Quietinho. Foi assim. Não tive mais ânimo para ir a lugar algum. Aqui e ali e quanto tempo? Eu podia ser meu pai.

Há no homem um tempo próprio, nem mais nem menos, nem breve nem longo – não arrisque dizer eterno –, um tempo simplesmente, sem significado, sem relação com o espaço, real e irreal, limítrofe, subversivo, intenso. Sob a marquise. Dá para ver a praça. Dá para vê-la.

A moça se levanta do banco de jardim e se afasta. Seu caminhar decidido marca a distância entre silêncio e silêncio. Não o esforço do desespero mas um comportamento cotidiano. Ali, do lugar mais distante, é possível ter noção do quão perto esteve. Ela sobe e desce a elevação da rua, recorta em seu vulto a paisagem em chamas, leva para si todo o corpo da ruína que sobre ele se abatera junto à impenetrabilidade da noite que pontualmente desce do céu.

Abriu a porta. Pablo! Lembra-se de mim? A porta entreaberta, um convite. Ele entra. – Você sumiu e a cidade nunca mais foi a mesma. Costumavam – lembra? – sair às noites e elas eram tão iguais, tão agradáveis. Mas sabiam que não ia durar. – Você não nasceu para a roça,

Blandine. Talvez tenha nascido para ele, para Pablo, não é?,

sugeriu,irônica.Riram. Talvez. Dezoito anos ele; vinte e dois, ela. Agora a diferença é a mesma, mas é outra, dois anos e tanto depois; não é? Você continua o mesmo. Saíram, lancharam, dançaram, dormiram no apartamento de um amigo. Era como se Andrei nunca. Aconteceu. Mas nunca abandonei a esperança de. Acho que minha vida amorosa acabou, querido amigo. O impacto nem foi o que ela disse mas a franqueza com que soou. Pablo não sabia se tivera uma, além de esperar que ela voltasse. Definitivamente, continuava o mesmo. Você me conta? como foram as coisas? - sabe como é, você nasceu aqui, sabe como as coisas funcionam, não queria essa história, mas a sua, de seus lábios, esses lábios. Esses lábios assim não podem falar...

Então as lembranças. No dia em que conheceu Pablo, Andrei partira

dos cafezais há dois meses. Mais uma semana até beijá-la. Dormiram juntos quando? Preâmbulo de nada. Você iria, mais cedo ou mais tarde. Ainda ouço histórias sobre teu pai e o quanto vocês se parecem. É, iria, ela partiria sim.
–E

fui.

E agora, amigos? Pablo! Foi com isso de amigos que tudo começou. Riram de novo. Amigos, claro. Há quanto tempo ela não ria? Conta pra mim. Contaria aos poucos. Tenho escrito, mas não sei. Escrito? Pablo não poderia ajuda-la quanto a isso. Detestava ler, escrever, estudar. Sou bom mesmo no trator, como teu irmão. É. Ela sabia do que ele gostava, no que ele era bom. Mais uma vez. Rir era o estado natural de Blandine na companhia de Pablo e isso a cativou definitivamente quando percebeu que funcionava também com Bruna. E essa noite, posso dormir aqui?

Quando voltava à noitinha para casa, os morcegos ao redor, nuvem negra ante a magnitude do poente, tudo não passou, pensava, da gestação dessas montanhas, desses seixos entardecidos, sob a corrente do riacho ao lado da casa. Europa.... Tudo aquilo nada além de um enfeitado e mórbido vazio preenchido afinal graças a Deus pela pureza de Bruna, pelo fogo de sua presença – sua meiguice cala o terror noturno.

Todas as coisas em seus lugares, destino ou como se queira chamar, vontade ou o quê. Trabalho talvez. Enfim. Tudo se apresenta e se perde e adiante se reapresentará de algum modo acrescido e todavia sempre igual. Estações. Folhas. Vida frágil. Decerto nem pensaria em questionar o tempo, ou melhor o intervalo, os rumos que a gente toma, as escolhas que faz. Estão aí e serão para sempre, a quem ama ou odeia se dará motivos e assim se formará o futuro desconhecido e raramente imaginado.

Quando despertava. O sol oblíquo parecia ter naqueles raios novos um caminho traçado desde a janela sobre o berço até além da porta. Se perdendo, dissipando, na ainda penumbra da cozinha, sob a mesa, quase no fogão, junto à lenha. O livro. Não houve sacrifício, não foi isso. O quê então? Às vezes o via – não sempre, às vezes – e pensava no seu corpo, no destino de seu corpo. A lâmpada acesa por causa do bebê perdeu a função original, tornou-se a lâmpada do hotel, quando poderiam ter ficado juntos, mas insisti e peguei o avião, e agora a vida renasce no movimento entre os lençóis, se tudo renascesse assim, ainda haveria você, me tocando assim, me beijando assim, sim a manhã é a parte mais bonita do dia, mas hoje não quero acordar, fica mais um pouquinho comigo. Pablo ficou até quase oito horas e saiu radiante. Ela disse que ama!

Não há nisso nada de especial, só um sonho, um despertar; pessoas e o mecanismo humano; lugares novos que nem sempre diferem dos conhecidos ou, ao contrário, habituais que se desconhecem. A mãe é enfática. Diz que não sofra. Que sofrer a essa altura apenas acrescentará uma dor inevitável à que se podia evitar. Mas era meu pai. Ela nem se lembra direito daquele homem, do desabrigado que costumava ficar perto da praça. Não se lembra tão bem assim mas pode parecer um pouco com aquele senhor que certa época freqüentou a lanhouse. E se parecerão com algum homem com certa diferença de idade que venha a conhecer amanhã. Cansada, Bruna liga a TV e pára de pensar no assunto.

Lisboa. A destruição que precede a reconstrução.

Estava só, como sempre estive, cambaleante pelas proximidades da postarestante, entre as pessoas na calçada. O pano de fundo do tráfego na Baixa ferida de tapumes e escombros. Estive morto e renasci. Palavras serão insuficientes, sábias que sejam, e não são; e não as sei. A fluência não mais me auxilia. Há aqui um problema não pequeno. Havia uma hora que caminhava, envolto pela estranha luz, não do sol ou

de lâmpadas. Renasci apenas para morrer outra vez? Então a moça mais desejável do mundo cruzou o meu caminho na musica da manhã urbana que não oferecia muito a um estrangeiro sem lugar aonde ir, sem dinheiro e, suprema falta de sorte, que viesse a tentar o suicídio com remédios. Agora procuro um lugar ideal para passar meus últimos momentos. A cidade se recusa a oferece-lo para mim. A aura lisboeta é uma aura boa, há generosidade nas pessoas, comerciantes ou marginais. O cheiro de sopa se mistura ao de haxixe. Pairam junto aos perfumados convites da noite. Essas mulheres são misericordiosas. Mas as ruas jamais deixam de ser hostis. Há algo de experiência, de ensinamento. As coisas corriqueiras estão permeadas de ridículo e superfluidade. É que a gente se acostuma. Enxergo o bem e mal apequenados com olhos de lágrimas contidas. Diante de mim o bem supremo. Quisera tê-lo reconhecido antes. Ela parou, se virou, me olhou com ternura. A energia que emanava de suas feições, num louco ceticismo, atribui aos comprimidos que tomara. Hoje sei que me esperava. Por isso tardou a abrir a porta do edifício. Por que eu a deveria chamar? Dizer que tinha uma aparência etérea? Que eu precisava de um lugar onde morrer em paz? Como eu não decidia entre conquista ou morte, ela falou comigo. Venha. Possuía um apartamento naquele prédio. Não acredito que disse tal coisa. Os contornos são difusos. O contato das mãos é cálido. O tempo continua passando, mais curto se torna o meu tempo. Morri

talvez e entrei em outra dimensão. Talvez seja o espírito designado para me receber. Se não, era questão de talvez uma hora, não mais. Ela sabia. Como?

Blandine ter voltado para o marido deixou de ser a lancinante dor de sempre, o vazio que o fogo de Nastácia não mais pode preencher. O que ela está dizendo agora? Fala com um outro de mim. E o que lhe responde? Um choro de recém-nascido. Disse-me então que vivesse. Impossível, o veneno já está em meu sangue. Não durma. Eu poderia ficar o quanto precisasse, poderíamos fazer o que eu quisesse. Desde que você não se deixe vencer pelo sono, Andrei. Como sabe meu sono, quero dizer, meu nome? Seria uma tortura, uma verdadeira tortura não dormir, eu estava morrendo de sono. A luz traz seu corpo entre os vapores do vestido e entre os sons da noite se destaca sua voz suave. Não meu querido: você está apenas morrendo. Não sei o que é isso em seus olhos, sentimento? Amor? É possível? com licença um momento, disse ela. Sorriu. Não se esqueça – Não esqueceria. Não, não dormirei. Pus-me a esquadrinhar o apartamento. Passáramos o vestíbulo ao entrar e agora eu estava sentado num sofá na sala, forrado dum tecido semelhante à hulha, verde, se assim posso dizer, bastante confortável e inadequado para alguém que, morrendo de sono, tem a determinação de não dormir; e, acrescento, não sonhar com rios e cursos de água – e se ao adormecer fixasse o

olhar nas listras do sofá, listras brancas de hulha, seriam quedas dágua e cachoeiras, e além um arco-íris. Paredes azuis. Flores na mesa de centro. Um coração taquicárdico. A janela é grande, dá para horizontes concretos, cinzas, com algum recorte de copas e eventuais pássaros do equilíbrio, de asas aquosas e penas iluminadas. Há abandono e recuperação de estados líquidos, discerníveis nas estrelas: parecem folhas a brilhar. As portas estão abertas, a do quarto e a do banheiro, de um e de outro nascendo as suaves luzes foliáceas. Adaptam-se à penumbra da sala. Um velho conta estórias para seus netos, que escutam enquanto esperam pela idade. O tapete felpudo, após cada passo meu, retornava a seu estado anterior, a seu descanso, e as aves levam a canção do tempo também presente nas raízes entrelaçadas no solo. O lugar era tão aconchegante que praticamente me esqueci que morria ou – pensamento que não me abandonara de todo – estava morto. Eu me movia com o lugar, alimentava-me dele, em perfeita simbiose. Aproximei-me do parapeito. Meu querido... Quem sou? De onde vinha aquele cheiro, e aquele grito, e aquele sino? Para onde vai esse silêncio? No horizonte, um espaço de camadas superpostas. Não tem a ver comigo. É uma visão, que não perdura nem deve na verdade perdurar. Porque toda vida provém de uma vida anterior. Então quem era aquele no reflexo do vidro, modificando-se a partir de meus movimentos e dos movimentos da janela? A imagem de um homem cujo perfil assinala estilo; na face, calor e engenho. Nada indica angústia. Ansiedade,

só a espera de alguém que fora se trocar e logo, logo voltaria. A presença daquela que eu acabara de conhecer, embora eu não a visse, se fez forte num fluxo contínuo que me atravessava e ganhava os ares, a cidade, o rio, o horizonte e além, e os trazia de volta. Quando a vi, era prisioneiro; a cela se abriu. Ao conhece-la morria, estava morto. E agora – A lua está cheia. O tempo passou e vi a manhã chegar da janela do apartamento de minha amiga, sem que ela tivesse voltado à sala. O sono se fazia insuportável. Porém de algum modo o alimento que o sono traz com o descanso, a substituição do que está gasto, a renovação da vida, todas essas coisas – parecia – mesmo sem o sono haviam se processado. Então entendi que, desde que absorvera o veneno, quando tomei os comprimidos na saída da clinica, em meio ao desconforto abdominal pela ferida (lembrei ao rever o grande relógio do saguão), já tinham se passado vinte e quatro horas. Desde então foi a peregrinação em busca de um banco de praça, de um gramado, para o escuro Sim. Num domingo, em plena manhã de um domingo, isso não foi possível. Deitei dezenas de vezes e fui outro tanto impedido de adormecer pela cena lisboeta. Sentei em diversas praças, para ser mexido e puxado pelas crianças. Antes de encontrá-la. Não durma. Dentro desse espaço-tempo ou o que, fui – acho - reconstruído, invertendo os processos segundo a luz. Gestação. O sono afinal.

Acordei encharcado de suor, na parte mais alta da encosta, ali onde fica a igreja, de onde se vê, silenciosa e distante, a torre. Estava eu portanto no local que observava da janela durante a noite. Vestia uma blusa de lã e um sobretudo. Como fora parar ali, me perguntei; mas a questão era outra: onde estava a janela de onde eu via este lugar? Seguindo a orientação débil de meus sentidos recém-despertos, localizei o sítio do prédio. Naturalmente, não havia prédio algum. Uma questão com que não estava acostumado a lidar. Vida onde soluções dramáticas. Aliás, não havia prédios por ali. Meus olhos ardem, doem na verdade. Não é a mesma coisa. O corpo está formigando. Não tenho qualquer saudade. Pode-se dizer. Feliz. Subitamente, a ausência percebida daquela a quem conhecera na noite anterior se tornou sua presença. Lisboa é um espectro de si mesma. Vi pela janela de uma montra, uma menina que cantava. Sissel Kirkjebo, diz a legenda. A musica em meus olhos. Estremeço. Talvez como os pastores frente aos anjos. Ela está aqui, sentada nesse calafrio ao longo de minha coluna. Acredita em mim, me escuta. O que mais posso querer? O sentido de direção não voltou, embora eu já esteja bem desperto. Não sei como dizer isso. Sem problema.

Não foi preciso muito tempo para que Beatrice sentisse a falta dele. Sabia que não iria partir. Quando Isabelle contava que ainda estava em Lisboa, ela mal ouvia, apenas pensava numa forma de ajudá-lo. Sentiu-se culpada, sabia que iria se sentir. Ele não voltou para o Brasil porque eu o abandonei com essa responsabilidade, minha filha. Porque o amor é assim, partilhamos a fraqueza da pessoa amada e nos fazemos fracos, admira-se as poucas virtudes com a intensidade com que se condescende com os muitos defeitos. Não pensava noutra coisa. Deve ser masoquismo, essas escolhas erradas. Em 2008, no dia de seu aniversário, tão logo desligou a ligação da filha, o telefone tocou. Quem? Naquele instante um casal sob a lâmpada da rua. Uma aura sobre eles. Você? Não é possível. Mas reconhecia a voz, se reconhecia junto dela. E quem fala um inglês tão peculiar? Uma vez teve quase certeza que o vira, mas sabe como é. A comoção era violenta demais, as lagrimas azuis rompiam como há vinte anos naquela plataforma. Ouvi dizer que você tinha morrido naquele dia trágico, mas na verdade ela jamais acreditou nisso. Quisera ter a alegria de revê-lo. Vosges. Ele não vê ninguém, é todo a espera. As pedrinhas no chão declamam a chegada dela, mais perto cada vez, mais perto cada vez. É permitido sentar na grama. Irá sentir o toque da mão em seu ombro e depois levantará para acompanhá-la. A noite desce no frio de dezembro, a praça agora vazia é linda assim iluminada. Não precisa dizer nada, disse Beatrice na rue de Turenne, quase em casa. Por que alguém diria alguma coisa depois de escrever um livro? Não percebem o quanto andaram, ou percebem, mas passam muito pelo prédio, estão quase na ponte. Ela só queria mostrar a beleza da vista do rio

ao anoitecer, e foi o cenário esperado. Ela lhe mostrou que existia uma mulher verdadeira além da Mulher ideal, uma com quem partilhar a vida e não para idolatrar, a leitora de Dom Quixote, não as faces e os corpos de Dulcinéa. Ele nada disse, não dizia nada na verdade há vinte anos.

O calor das lembranças vivifica os pés de café, na luz do dia pleno cintilando, rios verdes que sombreiam as ruas de café à frente. Do desvario europeu se originou essa realidade de que seus olhos podem ser editores, mas também cada flor invisível na mata possui um aroma, uma beleza e um significado. Na ultima curva da volta, é permitida a visão da luz enquadrada na janela ao longe. A terra exala cheiros de amada satisfeita. Outros pingos tamborilam no telhado a percussão de uma cantiga remota. Um sentimento fecundo se reflete nas poças e no riacho – as águas, as águas – as águas correndo límpidas entre a florescência. Levam, como se fosse uma folha, do bosque para a cidade, a sagração de uma luz noturna: um dia, a circunstancia eterna da ausência há de consentir numa sinfonia que não há. O vento leva o que se vê e verá o vento quando não mais for possível – quando as folhas secas, partidas, misturarem-se ao pó. E a vida gesticulará em ciclos como notas de suítes assistidas pelo tempo. E o tempo caminhará largo para a eternidade, vendo a vida como a vê um adágio.

Os apanhadores de café subiam na carreta engatada ao trator, prontos para mais um dia de espalharem-se pela terra, em meio à algazarra com que zombavam da faina diária. Ao avistarem a mulher e sua filha, calaram-se. Depois que passaram, até não mais que – pontos no pó da estrada
– emaranharam-se

num crescendo os mexericos.

Uma lenda se fizera em torno da mulher, por causa de seu isolamento desde que voltara com uma criança de sua misteriosa viagem e fora viver na chácara de seu pai – sozinha, exceto pela filhinha e os animais. Com sua loucura. Sua historia, os camponeses adaptavam à própria capacidade de compreensão, o que multifacetava a lenda. Mas em nenhuma versão se achava a verdadeira historia. E fossem os jovens ou os velhos, os nativos ou os aventureiros do café, os que pensavam de modo ou de outro e falavam de diferentes maneiras – todos intimamente concordavam em que havia naquela mulher solitária uma aura terrível e fulgente como uma pérola. O trator começa a se deslocar e nas conversas outros temas se entrecruzam, e a luz da manhã se derrama na bruma sobre os cafezais – a manhã se derrama, como todas as manhãs. E todas as águas – todos os oceanos do mundo e todos os riachos do

bosque –, todas as águas sobre a face da terra entendiam.

E o universo.

FIM

©2001,2010 Ricardo Rocha ricardrbrsp@gmail.com.br Copyright by Ricardo Rocha Texto protegido pela Lei de Propriedade Intelectual No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998 Versão para eBook Scribd.com

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