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II Seminário Brasileiro Livro e História Editorial Deus e o diabo na terra do sol.

II Seminário Brasileiro Livro e História Editorial

Deus e o diabo na terra do sol. Circulação e uso dos livros de Leitura de Felisberto de

Carvalho e de Abilio Cesar Borges (Barão de Macahubas) no Sertão de Pernambuco.

Rozélia Bezerra 1 .

Resumo

Na transição do século XIX para o XX, as escolas do Sertão de Pernambuco eram consideradas de primeira instância, por se localizarem muito longe do Recife. Eram vistas de importância menor, tendo, inclusive, programas diferenciados. Pela dificuldade de acesso a esses locais, questiono: Os livros didáticos circularam na Terra do Sol? Quais os autores dessas obras? Para responder a essas perguntas, usei, como método de pesquisa, o Paradigma indiciário, proposto por Ginzburg (1999). Assim, ao invés de analisar a legislação do ensino, a busca dos vestígios da circulação e uso dos livros didáticos teve como fonte de pesquisa a literatura autobiográfica (BITTENCOURT, 2008). Foram analisados livros de memórias de intelectuais (BARTHES, 1987) que estudaram ou que exerceram o magistério nas escolas públicas situadas no Sertão de Pernambuco, no final do século XIX e nas primeiras décadas do XX. Através de seus relatos foi possível identificar, entre outros autores, a circulação e uso dos Livros de Leitura de Felisberto de Carvalho e de Abilio Cesar Borges, o Barão de Macahubas. Esses autores foram representados, ora como um deus, ora como um diabo. Através das fontes literárias foi possível, também, analisar a atuação dos professores, as práticas escolares e as práticas de leituras nessas escolas.

Palavras-chave: Livros didáticos; autores; leitura; práticas escolares.

1 O lugar de estudo: Paranã-puke, Fernambouc, Pernambuco.

O nome Pernambuco é originário do Tupi Paranã-puka, cujo significado é buraco

no mar. Esta era a denominação usada pelos índios caetés, tabaiares e potiguares para

nomear a foz do Rio Santa Cruz que separa a Ilha de Itamaracá do continente, ao Norte do

1 Docente do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Pesquisadora do Projeto da FAPESP, Educação e Memória: organização de acervos de livro didático, coordenado pela Profa. Dra. Circe Bittencourt. Doutoranda da área de História da Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, desenvolvendo projeto de pesquisa sobre os livros didáticos usados em Pernambuco para o ensino da Higiene (1875-1929).

Recife. A partir do termo tupi, vieram outras nomeações como Pernambuquo e Fernambouc, dando nome ao porto do Recife e sendo registrado nas cartas geográficas portuguesas. Achado em fevereiro de 1500, pelos navegadores espanhóis chefiados por Vicente Pinzón, o lugar foi batizado de Santa Maria de la Consolación e, depois, os portugueses chamaram de cabo de Santo Agostinho. A impressão que os espanhóis tiveram foi que a terra era muito plana, baixa e com imensa vegetação rente à costa. Posteriormente tomada dos índios, serviu para o cultivo da cana usada na produção do açúcar (PERNAMBUCO, 1998, p. 17).

1.1 O Sertão pernambucano. Para o viajante inglês Henry Koster (2002) 2 sertão era uma palavra empregada de maneira indefinida e significava não só o interior do país, mas também a grande parte da região costeira cuja população é muito pequena.

Desde a época da colonização e seguindo uma delimitação forçada pela cultura da cana de açúcar, alguns homens, junto com os bois, foram expulsos pelos senhores de engenhos da região da mata verde ou caaete, e se deslocaram para as regiões mais longínquas da colônia, também chamada de sertão, chegando até a caatinga, a chamada mata clara, onde se instalaram, juntamente com os currais para criação de gado, determinado a ampliação das fronteiras da província, além de permitir a fundação de povoados (ANDRADE, 1964). Em 1822, Pernambuco já contava com o número de sete freguesias originárias da atividade pecuária, com uma população de 25.917 habitantes. Nas áreas férteis do Agreste e Sertão os homens construíram suas casas, ergueram os currais, mas também criaram o gado à solta, o que contribuía para a ausência de uma população humana mais adensada. Assim, em 1852, o Agreste estava pontilhado por inúmeras povoações de diferentes tamanhos (ANDRADE, 1991). O fenômeno que se deu foi a “formação de um habitat (negrito do autor) extremamente disperso, onde uns poucos habitantes se concentravam nas modestas sedes de fazendas” (ANDRADE, 1991, p.57).

2 Esse inglês percorreu o Nordeste brasileiro no período de 1809 a 1815. Escreveu as impressões de suas viagens e as publicou no ano de 1816 em Londres, que, logo alcançou sucesso tendo várias reedições. No Brasil, inicialmente, sua obra foi publicada em capítulos na Revista do Instituto Arqueológico Pernambucano, números 50 ao 150, no período transcorrido entre 1898 a 1933. A edição em livro feita pela Cia. Editora Nacional, sob a orientação de Luís da Câmara Cascudo, saiu no ano de 1942. A obra que consultei é a 11ª edição, com tradução e prefácio de Luís da Câmara Cascudo, publicada em Recife no ano de 2002, pela Fundação Joaquim Nabuco e Editora Massangana.

1.2 Uma escola ali, outra acolá.

A concentração populacional no litoral favoreceu para que, gradativamente, os investimentos fossem realizados nessa área geográfica. Um exemplo disto era a distribuição das escolas públicas de primeiras letras que, desde as primeiras décadas do século XIX, se concentraram na região litorânea conhecida como Mata, ocorrendo um discreto espraiamento para o centro, sendo muito esporádicas ou geograficamente espaçadas na região sertaneja (SILVA, 2007). Some-se a isto a tremenda dificuldade de locomoção para essa região cujo acesso era feito em lombos de animais, transcorrendo, um período de 20 a 30 dias para que um professor chegasse ao local para onde houvera sido nomeado (SILVA, op. cit), visto que os trens só chegaram à região muito tardiamente e, mesmo assim, não beneficiavam todas as comunidades. Essa distribuição da malha ferroviária favoreceu, no final do século XIX a classificação das entrâncias escolares. A distribuição e classificação, em entrância, surgiu em 1871 proposta pelo presidente da província de Pernambuco, Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque. Também, foi durante sua atuação que se deu a proposta de diferenciação dos programas, segundo a localização das escolas (ALBUQUERQUE, 1871). No ano de 1896, o então governador Barbosa Lima estabeleceu a classificação das instituições escolares, sendo consideradas como as de primeira entrância aquelas que se localizassem nos municípios do sertão, a Terra do Sol (SELLARO, 2000). Algumas delas eram fechadas pelo poder local pois não havia o número necessário de alunos que justificasse a manutenção da escola. Mediante isto, levantei a primeira questão desse estudo: os livros didáticos circularam na Terra do Sol?

2 A busca pelo paradigma indiciário: os intelectuais pernambucanos e suas memórias

de leitura escolar. Para Roger Chartier (2001, p. 95-96), “reconstruir as leituras ordinárias não é algo

Para isso, dependemos de uma ocasião fora do comum: uma confissão extorquida

(

Foi partindo desses pressupostos que adotei o método de pesquisa proposto por Carlo Ginzburg e por ele nomeado de paradigma indiciário, o qual se baseia na pesquisa de

“indícios imperceptíveis para a maioria”, mas que permite a obtenção de numerosas

fácil

)

uma trajetória de vida (

)”.

informações úteis (GINZBURG, 1999, p.145). Este método foi usado por volta do século XIX e, talvez possa ajudar o pesquisador “a sair dos incômodos da contraposição entre ‘racionalismo’ e ‘irracionalismo” (GINZBURG, op.cit. p.143). Chamado, pelos historiadores da arte de “método morelliano”, ele não busca pelo visível, antes, examina os pormenores, busca o registro de minúcias e consegue as informações desejadas. Trazendo o método para a história dos livros e das leituras escolares, é possível identificar a circulação e uso das obras literárias, não através da legislação educacional, mas usando outras fontes que são negligenciadas, como a literatura memorialista. Segundo de Certau (2005, p. 269) “os leitores são viajantes: eles circulam sobre as terras de outrem, caçam, furtivamente, como nômades através de campos que não escreveram, arrebatam os bens do Egito para com eles se regalar”. No Brasil, o uso da literatura memorialista como fonte para a história da educação foi defendido por diferentes autores como Lopes (1998) em virtude de poder “revelar aquilo que as fontes oficiais não cuidaram de guardar” e por Bittencourt (2008), principalmente quando se deseja estudar sobre a cultura escolar. Para efeito desta pesquisa adotei como fonte de informação os livros de memória da autoria de diferentes intelectuais, que estudaram ou foram docentes nas escolas primárias localizadas no Sertão de Pernambuco. A concepção de intelectual adotada é a de Roland Barthes (1987, p. 265) para quem “intelectual é a aquele que imprime e publica sua fala. Não há praticamente incompatibilidade entre a linguagem do professor e a do intelectual (que coexistem muitas vezes num mesmo indivíduo)”.

3 Deus e o diabo na terra do sol: as memórias das leituras escolares. O que é livro didático? Quais os autores dos livros de Leitura circularam nas escolas primárias do sertão de Pernambuco? O conceito de livro escolar é recente. Segundo Choppin (2008), na França, essa categoria de obra só passou a ser conhecida a partir da Revolução, sendo que, situação idêntica pode ser encontrada nos outros países do ocidente, onde os livros têm uma variada nomenclatura. O Guia Livres (2005) definiu os livros didáticos ou livros escolares como aquelas obras cuja intenção original está explicitamente voltada para o uso pedagógico com a intenção sendo manifestada pelo autor ou editor, se apresentando em diferentes gêneros, o

que inclui desde apostilas até livros voltados para a formação de professores. Esse mesmo Guia (p.27) faz distinção entre Livros de Desenvolvimento de Leitura e Livros de Leitura. Segundo Bittencourt (2008, p. 43) o Livro de Leitura constitui “um tipo específico de literatura para a infância”, e foi pensado para a escola elementar, um grau “destinado a setores mais amplos da sociedade, com programas restritos ao ensino da escrita, letras e cálculos rudimentares”. As séries graduadas de livros de leitura só se tornaram conhecidas para as crianças brasileiras a partir da metade do século XIX, sendo concomitante à ascendência da importância da escola elementar, havendo, então, estímulos para que alguns educadores brasileiros escrevessem livros para “uso dos alunos e dos professores” (PFROMM NETO ET AL. , 1974, p. 169). Entre os autores brasileiros de livros didáticos que circularam nas escolas primárias do sertão de Pernambuco está o baiano Abílio César Borges, que escreveu uma série graduada composta por quatro Livros de Leitura, cujo conteúdo foi organizado de modo a começar pelo alfabeto e, gradativamente, foi aprofundando os temas. As três primeiras edições do Primeiro Livro de Leitura e Segundo Livro de Leitura foram feitas em Paris, pela Livraria de V va J.P. Aillaud, Guillard e C a , localizada em Paris. Posteriormente, seus livros passaram a ser editados pela Francisco Alves (VALDEZ, 2006). Os três Livros de Leitura da autoria de Abilio Cesar Borges foram aprovados em 1875 pela Secretaria da Instrução Publica de Pernambuco para circularem nas escolas primárias do sexo masculino e do sexo feminino. O Relatório do Diretor Geral de Ensino, publicado nesse mesmo ano, deixou claro a proposta de transação comercial havida entre Cesar Borges e a província, mostrando, inclusive os preços dos exemplares dos livros de leitura, segundo a série e as quantidades adquiridas, e a forma de pagamento que o autor estava propondo (CAVALCANTI, 1875). Em 1879, o Diretor encaminhou ofício ao presidente da província solicitando a compra de exemplares dos livros de leitura da autoria de Abilio. Para João Barbalho Uchoa Cavalcanti (IP, 1879, p.52), “compral-os, portanto seria faser um excelente negocio sob todos os pontos de vista”. Isto porque, além de serem de “reconhecido mérito” as obras eram “offerecidas por preço muito modico e o proponente não marca prazo para pagamento”.

A negociação comercial havida entre Abilio Cesar Borges e a provincia de

Pernambuco, de certa forma, questiona o mito criado em torno de sua prodigalidade na distribuição, gratuita, das obras didáticas de sua autoria ou que traduziu, para as mais variadas vilas das provincias do Império, conforme relataram Isaias Alves (1924) e outros autores (VALDEZ, 2006; HAIDAR, 2008). Também, é possível que ratifique a crítica feita por Raul Pompéia, em O Ateneu, que acreditava na hipótese dessa benesse ser mais umas das estratégias para autopromoção de Cesar Borges. Tendo circulado pelas escolas do sertão pernambucano no fim do século XIX, questiono: Quais são as memórias dessas leituras? Quem foi leitor desses livros? Quais as aproximações e distanciamentos de suas representações?

3.1 O encontro do menino Graciliano com um Barão de sisudez cabeluda.

O romance autobiográfico Infância 3 mobiliza os retalhos da memória marcada a ferro e

mostra a relação de violência que se dá entre o mundo e a escola (FALLEIROS, 1999). O autor, Graciliano Ramos, nasceu no estado de Alagoas, em 1892. Quando tinha dois anos de idade, a família se mudou para Buíque, vila do sertão de Pernambuco. Foi durante sua

viagem que entrou em contato com a escola, as primeira letras e um professor, “um velho

de barbas longas” (RAMOS, s.d, p.8) cuja lembrança marcou seus anos de escolarização.

Em Buíque, aos seis anos de idade, foi iniciado nos primeiros exercícios de leitura, tendo o pai como preceptor, além das lembranças “das cinco letras já conhecidas de nome,

as que a moça, anos antes, na escola rural, balbuciava junto ao mestre barbudo” (p.96). Saindo da Carta de ABC entrou em contato com “as letras finas” (p.109), os Livros de Leitura da autoria de Abilio Cesar Borges.

A impressão contundente sobre o Abilio foi emitida, por Ramos, no capítulo

intitulado O Barão de Macaúbas (p.117-121). A sensação de que aconteceriam coisas terríveis se estabeleceu quando ele fez um exame mais sério do retrato do Barão

“um tipo de barbas espessas, como as dos mestre rural visto anos atrás. Carrancudo, cabeludo. E perverso. Que levava a personagem barbuda a ingerir-se em negócios de pássaros, de insetos e de crianças? O que ele intentava era elevar as crianças, os insetos e os pássaros ao nível dos professores” (RAMOS, s.d, p.118).

3 RAMOS, Graciliano. Infância, Rio de Janeiro: Record; Altaya, s.d.

Sua esperança de se livrar dessa persona non grata vinha através da crença na utilidade do catecismo “pergar-me-ia a Deus, pedir-lhe-ia que me livrasse do Barão de Macaúbas” (p.119). A leitura atenciosa desse capítulo, porém, ofereceu os mais variados indícios da materialidade do livro. A começar quando Ramos fez a descrição do Segundo Livro “volume feio, com um retrato barbudo e antipático. Ericei-me, pressenti que não sairia boa coisa dali” (p.115). O uso da figura do autor na capa dos livros constituía uma das estratégias de editoras para a adoção pelos agentes da educação. Entretanto, para Ramos (p.118) “a figura do barão manchava o frontispício do livro – e a gente percebia que era dele o pedantismo atribuído à mosca e ao passarinho”. Continuam os indícios dessa materialidade através da insinuação de que o texto foi organizado em fábulas, visando

transmitir lições de moral aos leitores, o que desagradou Ramos (p.118): “Infelizmente, um doutor, utilizando bichinhos, impunha-nos a linguagem dos doutores”. A descrição do Segundo Livro de Leitura (p.117), revelou que ele tinha muitas páginas (“Um grosso volume”), não era colorido (“escuro”) e revelou detalhes da capa (“cartonagem severa’)

além da qualidade ruim do papel (“Nas folhas delgadas

lesma ou catarro seco”), além das letras serem inadequadas, o que contrariava os preceitos

papel brilhante como rasto de

higienistas (“incontáveis, as letras fervilhavam, miúdas’), porém usava ilustrações pareciam ser em número excessivo (“as ilustrações avultavam”). Na análise deste mesmo capítulo foi possível identificar as matérias ensinadas na escola: Leitura (“Li-as soletrando e gaguejando, nauseado” p.118), Moral (“O passarinho, no galho, respondia com preceito e moral”, ibidem), Aritmética, através da sabatina da tabuada (“Sete vezes nove?” p.120), Religião (“Quantos são os inimigos da alma?”, ibidem) e Gramática (“O outro mistério, o que se referia a pontos, vírgulas, parênteses e

aspas

A descrição da materialidade continuou quando Ramos recebeu o exemplar do

Terceiro Livro de Leitura “um livro corpulento

Papel ordinário, letra safada. E, logo, no

intróito, o sinal do malefício: as barbas consideráveis, a sisudez cabeluda” (p.120). Existe a indicação de que o método de ensino utilizado era a memorização: “enfim, minha obrigação era papaguear” (p.120).

”,

idem, ibidem).

Tantos eram os “sortilégios da tipografia” e “as frases tão artificiais” que, em dado momento, Ramos chegou a imaginar a existência de “um diabo carnívoro” (p.120). Arrematando seu sofrimento, existiu a leitura de Camões, no manuscrito, “em medonhos caracteres borrados” (p.120). E não ficou difícil associar o Barão de Macaúbas aos personagens do épico: Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque e ao gigante Adamastor, este, “barão também, decerto”. Fica uma questão: seria um exemplar de Os Lusíadas organizado por Abilio Cesar Borges para ser utilizado pelos escolares? Mas, esta será uma nova história.

3.2 Ulysses Lins de Albuquerque: um sertanejo leitor de Abilio Cesar Borges.

Em 1896, o então governador de Pernambuco, Barbosa Lima manteve a classificação das escolas por entrância, e aquelas localizadas no sertão continuavam como sendo de primeira entrância. Entre os povoados que se localizavam nessa região estava Alagoa de Baixo, local de residência do menino sertanejo Ulysses Lins de Albuquerque e que nesse mesmo período passou a freqüentar a escola pública local. Em seu livro de memórias 4 (p.29) esse intelectual pernambucano 5 descreveu vários aspectos da cultura material escolar, mas foi econômico nas palavras quando se referiu aos livros didáticos usados na escola e se limitou a citá-los, não conferindo nenhum valor a essa leitura. Em um movimento contrário ao de Graciliano, Ulysses não sofreu sob a égide da figura do Barão

de Macaúbas e, apenas, fez breve referência ao Terceiro Livro, da autoria de Abilio Cesar

Borges “[

César Borges

encabulado, continuei a ler o meu <<Terceiro Livro de Leitura>> de Abílio E tudo ficou nisso. Dei graças a Deus”.

Um fator que deve ser destacado nisto foi a pouca valorização dada ao livro escolar, como uma leitura banal, sem importância, feita, apenas, para ensinar a ler. Este fenômeno constitui um dos fatores que favorecem para o desaparecimento dos manuais didáticos (CHOPPIN, 2002).

]

4 ALBUQUERQUE, Ulysses Lins de. Um sertanejo e o sertão. Memórias. Rio de Janeiro: José Olympio,

1957.

5 Ulysses Lins de Albuquerque pertenceu ao clã dos fundadores da colônia de Pernambuco. Formado em Direito na Faculdade de Recife, desempenhou atividades de fiscal da Secretaria de Fazenda, em Pernambuco. Posteriormente foi transferido para São Paulo. Foi eleito Deputado Estadual pelo Rio de Janeiro. Membro do IHGB – PE e do Instituo Arqueológico Nacional. Escritor, autor de inúmeros livros, foi membro da Academia Pernambucana de Letras.

A organização do ensino primário, em três graus, muito embora nem todos os alunos

chegassem ao fim do curso. Segundo Bello (1978) a elevada evasão escolar era conseqüência do trabalho infantil. A realização dos exames finais, que consistia um evento à parte. Em 1901, os habitantes da pequena Alagoa de Baixo prestigiaram, enormemente, este momento visto que os alunos do professor Jorge Meneses seriam submetidos a uma banca avaliadora, fato que só ocorrera em 1887. È possível ver a baixa taxa de habilitação escolar, pois, apenas quatro alunos foram submetidos aos Exames do 1º Grau, conforme o relato de Ulysses, ele próprio um dos examinandos, além de “José Cordeiro de Almeida, Belisário Siqueira, e José Dinis, ali estávamos, de branco, cada um com seu discurso no bôlso, - discursos escritos pelo Dr. Grameiro, juiz municipal e presidente da banca examinadora. Fomos aprovados com distinção” (p.101), revelando, assim, que havia modos diferentes de reconhecer a formação dos alunos: a distinção.

Havia a figura do Delegado Literário, que dirigiu os exames do 2º grau, realizados em 1902. A descrição dessa atividade revelou as matérias de ensino ensinadas na escola local:

Leitura, cuja habilidade foi testada, uma vez que os três examinandos foram convidados para a “ler um trecho da Seleta Clássica (negrito do original) de Regueira Costa”. Foi sorteado o poema Vozes d’África (negrito do original), o que mostra um vestígio do conteúdo do livro didático e qual a literatura que circulava no meio escolar. Também é possível deduzir que houve o ensino de Gramática, visto os alunos terem analisado, gramaticalmente, o texto.

A narrativa do autor mostrou a ausência de política de formação de professores, a

ausência de escolas, a itinerância dos professores, viajando de fazenda em fazenda, o que

contribuía para a constante de troca. O método de ensino, que era o de memorização; uso dos castigos corporais, através do emprego da palmatória. Mostrou a leitura que os professores realizavam e que contribuíam, inclusive para a prática de exercício ilegal da medicina ou para as práticas de charlatanice. Fato que deve ser investigado com mais profundidade foi uma informação dada sobre a implantação de uma tipografia local, “a primeira tipografia, no sertão” (p.191). Uma história puxa outra!

3.3 A professora Adriana e o professor Felisberto de Carvalho. A quem se destinam os livros didáticos? A produção do livro escolar implica em pensar um leitor, um usuário, que pode ser o professor, pode ser o aluno ou ambos. O que

dá estatuto a essa “dupla de leitores” é o fato de ela ser estrutural, ou seja, não sobrevive na ausência de um deles. Assim, a produção do livro didático é pensada considerando esses dois leitores (MUNAKATA, 2000, p. 579). Iniciando sua carreira de magistério em 1915, em uma escola da vila de Maraial, localizada na da zona da mata do estado, a professora pernambucana Adriana Lima de Oliveira sonhava para ensinar em uma escola da rede estadual de ensino. “Poderia ser em qualquer lugar, desde que fosse do estado”. Em 1922, foi nomeada pelo governador do estado, o Dr. Manoel Borba, para uma escola localizada em Cabrobó 6 .

A vida dessa professora foi contada por sua filha Aglae Lima de Oliveira. 7

Saiu do Recife, no trem, indo até Garanhuns, só chegando a seu lugar de destino após

quase 30 dias de jornada realizada em caminhão, lombo de burro, por áreas muito tórridas, ou embarcada em uma canoa, que seguiu pelo Rio São Francisco: “em pleno sertão, sêco e deserto, o majestoso rio surgia como um presente do céu naquela região árida, surgia plácido, arenoso, com cachoeiras e ilhotas” (OLIVEIRA, 1967, p.43). Ao aportar em Cabrobó, foi conduzida, juntamente com seu filho, para uma casa que serviria de residência e de escola. Estava completamente vazia.

A cultura material escolar foi ricamente descrita, conforme passo a relatar:

O problema da mobília escolar foi imediatamente solucionado com o início da

matrícula. Não existia na escola uma carteira escolar. O hábito da terra era bastante curioso; por ocasião das matrículas, cada família, de acôrdo com suas condições, mandava os filhos com seus serviçais e as cadeiras, bancos ou tamboretes para as crianças sentarem. O Delegado de ensino enviou uma mesa. Matricularam-se cincoenta e seis alunos de ambos os sexos e de tôdas as séries. As diretrizes do ensino seguiam o estilo da escola municipal, em Maraial. Os hábitos, porém, eram completamente diferentes.

] [

6 A nomeação para escola do estado era consentida a quem tivesse cursado a Escola Normal, mas a nomeação para uma escola localizada no sertão, de certa forma, era uma punição, uma vez que para lá iriam os professores em início de carreira, representando uma forma de acesso às escolas da capital, ou que não tivessem apadrinhamento político.

7 OLIVEIRA, Aglae Lima de. Adriana (vida de uma professôra). Recife: Editora do recife S.A, 1967.

A maioria dos alunos pediam a benção à professora e usava no cós das calças uma faca (Pajéuzeira) que guardava com os livros, sem nenhuma cerimônia (OLIVEIRA, op.cit. 45).

Considerando o fato da adoção do “mesmo estilo” entre as escolas da zona da mata e do sertão, é interessante ler o que a professora Adriana escreveu sobre a escola municipal de Maraial

] [

O horário obedecia de 9 às 14 horas da tarde. Aos sábados, a sabatina ecoava no salão de aula, sabatina de taboada, gramática e apontamentos de conhecimentos

gerais. As janelas ficavam superlotadas de expectadores.

Os castigos usados não somente na escola sob sua direção, como nas demais

existentes no Estado, constavam de ajoelhar-se o aluno sobre caroços de milho, ficar na janela de braços abertos à curiosidade pública, levar uma ou mais dúzias de

bolos, prendê-los num quarto escuro e deixá-lo sem almoço na sala de aula, após a saída dos colegas. Eram adotados de preferência os seguintes livros: Leitura de Felisberto de Carvalho, Aritmética, de Antônio Trajano, Gramática de Júlio Pires Ferreira,

Geografia, F.T.D

] [

A disciplina naquele tempo era rigorosíssima e ante-pedagógica.

(OLIVEIRA, idem, p.31).

Felisberto de Carvalho foi professor da Escola Normal de Niterói, e autor da série Livros de Leitura que circulou na escola primária de Pernambuco, desde o primeiro qüinqüênio do século XX indo até os meados desse século (BELLO, 1978). Segundo esse autor os três primeiros Livros de Leitura da autoria de Felisberto de Carvalho circularam de modo mais intenso nas escolas primárias de Pernambuco em virtude de representarem os graus de aprendizagem bem como pela freqüência ser maior 8 nos três primeiros anos de escolaridade “pois daí em diante, sobretudo no interior, se reduzia de muito a freqüência escolar com acentuada evasão dos alunos”. Substituíram, completamente os livros de autoria de Abilio Cesar Borges. Segundo Freyre (1956) os livros de Felisberto eram verdadeiramente nacionais e contribuíram para a formação da identidade nacional. Se os livros de leitura da autoria de Abilio Cesar Borges foram os primeiros do gênero a circularem no Brasil, os da autoria de

8 Em 1875, o Presidente da Província, Henrique Pereira de Lucena, atribuiu a culpa desse fato aos pais das crianças em idade escolar. Segundo ele, a evasão escolar era grande porque os pais retiravam as crianças da escola tão logo elas aprendessem a ler e soubessem os primeiros rudimentos de aritmética. Mesmo com a obrigatoriedade de freqüência à escola, os pais preferiam mandar os meninos para a lida no campo.

Felisberto “são um marco no uso de ilustrações coloridas em livros para crianças” (ARROYO, 1968, p. 223).

A circulação e uso dos livros de leitura de Felisberto de Carvalho, pelo sertão, foi

cantada em verso, conforme fica evidenciado no poema Aos poetas Clássicos, da autoria de Patativa do Assaré 9

] [

No verdô de minha idade,

Só tive a felicidade In dois livro do iscritô, O famoso professô Filisberto de Carvaio

O Segundo Livro de Leitura ficou gravado na memória de muitos leitores de diferentes regiões brasileiras (ARROYO, 1968). A descrição feita por José Lins do Rego (2002) de uma das lições do Segundo Livro, lida em sua escola no interior da Paraíba também causou a mesma impressão em outros estudantes pernambucanos (BELLO, op.cit) As memórias dessa professora também denunciaram o descaso com que foram tratadas as professoras, levantando, já, uma questão de gênero. Mostraram o problema da intolerância em relação à diversidade cultural, quando foi o padre solicitou ao governador a demissão da mestra, em virtude de sua crença no espiritismo. Este fenômeno revelou que a categorização das escolas, por entrância, ainda vigorava no século XX e que o fato de ser transferida para uma escola de terceira entrância, isso é, em local próximo ao Recife, realmente, significava promoção: “O Governador, no uso de suas atribuições, transferiu-a e promoveu-a para o povoado de Bem-te-vi, classificado na terceira entrância”(OLIVEIRA, 1967, p.73). 4 Considerações finais. Ao adotar a literatura como fonte para a história da educação da cultura escolar, escapo das armadilhas tentadoras armadas pela legislação educacional que, muitas das vezes fecham a cortina do esquecimento sobre informações de valor que desvelem as práticas que foram estabelecidas para os agentes da educação.

9 ASSARÉ, Patativa do. Aos Poetas Clássicos. Disponível no site <http://www.secrel.com.br/jpoesia/anton03.html> Data de acesso 13 de agosto de 2005.

A

recepção

das

leituras

escolares

foram

variadas,

indo

desde

desconcertos

e

sofrimentos, até a indiferença, como se elas não constituíssem algo importante.

5 Referências bibliográficas.

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