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UMA LUZ SOBRE O PASSADO

Na ilha de Marajó, cacos da cerâmica de antigas civilizações iluminam os estudos sobre a desconhecida pré-história do Brasil.

TEXTO E FOTOS POR Maurício de Paiva e Mônica Trindade Canejo

Rio Jurupari, vila de Santa Júlia:

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um aterro em que, há 1,6 mil anos, vivia o povo marajoara.

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O cenário lembra as savanas africanas . O calor é tórrido, e a falta de

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cenário lembra as savanas africanas. O calor é

tórrido, e a falta de chuvas do verão amazônico secou áreas sempre inundadas e esvaziou lagos e igarapés, berços da diversidade de Marajó, a maior ilha fluviomarinha do mundo. A aridez, contudo, facilita o trabalho da arqueóloga

Denise Pahl Schaan, que desta vez inspeciona um sítio na região da vila de Santa Cruz. O trabalho segue sem surpresas até que um dos rapazes

da equipe localiza uma lâmina de machado com suas aletas ainda intactas.

O rosto de Denise, empapado de suor sob o chapéu de abas largas, exulta. Pesquisadora do museu paraense Emilio Goeldi e da Universidade

Federal do Pará, Denise há mais de dez anos investiga a cultura marajoara, resquícios de uma nação que habitou a ilha entre os anos 450 e 1350,

e de outros povos ancestrais da região (veja na página 96). Acostumada com

as dificuldades da prospecção, é mulher que não se entusiasma fácil. Mas

agora tem motivos: o material do qual é feito o machadinho, uma pedra de basalto, não existe em Marajó. Isso ajuda a comprovar a tese, sugerida já na década de 1950 pelo americano Donald Lathrap, do intercâmbio cultural e

comercial entre os povos da Amazônia pré-colombiana – caso dos influentes tapajônicos, que viviam mais distantes, no interior. “Como não existem na ilha vestígios desse tipo de rocha, parece improvável que os marajoaras a tenham trazido de fora para fabricar o machadinho. O objeto

é um sinal claro de que havia trocas entre os povos”, avalia. Quando os navegadores espanhóis penetraram no Amazonas, em meados do século 16, eles já observaram tribos populosas ao longo do vasto rio. Os portugueses vieram depois, e uma descrição mais acurada sobre povos da ilha de Marajó só veio no século 17, em relatos do padre Antônio Vieira. Segundo os estudiosos, sua sociedade complexa – com divisão de trabalho, hierarquia e noção de Estado – poderia ser comparada à dos incas.

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à dos incas. 92 national geographic • setembro 2006 Os fragmentos de cerâmica espalham-se pelo chão

Os fragmentos de cerâmica espalham-se pelo chão de áreas inundáveis ou de mata (página oposta), mas a maioria dos moradores pouco sabe sobre a importância histórica da ilha. A arqueóloga Denise Schaan (à esquerda na foto acima) sempre visita as casas em áreas próximas aos sítios para explicar sua pesquisa e entender as reflexões dos moradores a respeito das relíquias antigas que eventualmente encontram.

Um dos principais sinais de sua passagem são os chamados “tesos”, espécie de colinas artificiais que chegavam a ter até 12 metros de altura

e podiam ostentar grandes casas coletivas, cada qual com capacidade para

abrigar 20 ou 30 famílias. Os tesos tinham também a função de proteger os moradores contra a água, pois o interior da ilha fica alagado boa parte do ano. Assim como os atuais ribeirinhos, os marajoaras represavam igarapés para criar lagos. Com redes e armadilhas de fibras ou madeira, pescavam e secavam os peixes ao Sol, garantindo comida ao longo de todo o ano. Em suas canoas, viajavam para se relacionar com outros povos e fazer trocas – por exemplo, de vasilhas, tecidos e cestaria por mandioca processada e objetos líticos. E nos rios e lagos buscavam a argila para produzir uma das mais sofisticadas cerâmicas arqueológicas conhecidas em todo o mundo. A cerâmica marajoara, a exemplo de qualquer outra autêntica forma de arte, perpetuou-se. Ao redor das vilas, na beira da água e em tesos ocultos

na mata, fragmentos ou artefatos inteiros estão à espera de ser localizados. Na vila Tessalônica, município de Afuá, encontrar um tesouro arqueológico

é questão de tempo: o povoado está assentado sobre um antigo espaço

de rituais. Pela manhã, quando as águas do rio baixam, as crianças retiram das margens cacos de peças há séculos soterradas. “Quarenta anos atrás,

quando me mudei para cá, havia ainda mais vasilhas inteiras. Muita coisa

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A estação seca facilita o trabalho dos arqueólogos nos sítios marajoaras (mapa). O teso dos

A estação seca facilita o trabalho dos arqueólogos nos sítios marajoaras (mapa). O teso dos Bichos (página oposta) foi escavado várias vezes pela americana Anna Roosevelt, uma pioneira nos estudos sobre os povos da Amazônia. Muitas das peças vão parar no singelo Museu de Marajó, criado em 1983 pelo falecido padre Giovanni Gallo em Cachoeira do Arari. O professor Lino Ramos (acima) cuida do acervo local.

se perdeu”, diz Joaquim Ferreira, 67 anos, o mais antigo morador do lugar. “Os desenhos das peças também dizem muito sobre seus autores”, pensa

a arqueóloga Denise. Depois de estudar 34 tesos, ela considera que o simples

fato de os marajoaras terem desenvolvido uma cerâmica tão rica já é indício suficiente de organização social. “Para chegar a tal nível de elaboração, eles precisavam ter artesãos especializados. E isso significa que havia divisão de trabalho – ou seja, hierarquia – dentro da comunidade”, conta. A morte, explica ela, exigia rituais elaborados. Os marajoaras praticavam

o chamado enterramento secundário, no qual os ossos eram pintados e

armazenados em urnas que eram sepultadas próximo da superfície para que, de tempos em tempos, pudessem ser exumadas para rituais. “Pode-se imaginar, no alto dos tesos, dezenas de pessoas reunidas nessas grandiosas cerimônias”, diz Denise. No cardápio, servido em largos pratos, peixes,

farinha de mandioca, castanha, abacaxi, açaí. Os sacerdotes, sob o efeito de drogas alucinógenas, invocavam o espírito dos ancestrais e faziam oferendas

a seus deuses. Algumas urnas traziam desenhos de mulheres grávidas,

simbolizando morte e renascimento. Os participantes usavam pinturas corporais, com grafismos intrincados, e as mulheres vestiam-se com suas melhores tangas de cerâmica – um peculiar tapa-sexo com desenhos que, assim como as urnas, representavam laços familiares e posições sociais.

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Os pesquisadores sabem

que uma releitura mais

cristalina dessa pré-história da

vida brasileira só terá futuro se

os achados forem preservados

e estudados. Aí nasce o drama:

como a legislação brasileira

prevê que toda peça

arqueológica é propriedade da

União, as mais conservadas

seguem para o mercado negro

de antiguidades. Centenas de

objetos já foram achados

dentro da fazenda de Heronides Acatauassu Nunes, conhecida como dona Dita, 96 anos, no município de Soure. Em museus do país e do exterior, sempre há algum artefato marcado com seu nome. Mas, depois que ela se mudou para Belém, vários saques foram feitos em sua propriedade – registra-se até a história de um ex-funcionário que vendeu peças para um contrabandista que as teria levado para a Europa de barco, ironicamente acomodadas em um caixão funerário. “Mesmo que sejam recuperadas, o prejuízo está consumado”, diz dona Dita. De fato, as relíquias precisavam ser estudadas antes de ser retiradas, pois dados como localização e profundidade em que estavam são preciosos quando se trata de observar padrões para se chegar a conclusões. A dúvida que ainda tira o sono dos cientistas é: por quê, depois de um período tão rico, a cultura marajoara se extinguiu? A hipótese mais aceita diz que um conjunto de fatores determinou a decadência, como

a chegada de povos guerreiros e uma seca ou uma cheia prolongada.

MAPA LUIZ FERNANDO MARTINI

marajoaras

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ARTISTAS PRIMITIVOS

Espalhadas por uma região de influência da ilha de Marajó, na foz do rio Amazonas, relíquias

de cerâmica ilustram a presença de cinco distintas civilizações: ananatuba (um povo que viveu entre

980

a.C. e 200 a.C.), mangueira (por volta de

100

d.C.), formiga (de 10 d.C. a 400 d.C.),

marajoara (de 400 a 1350) e aruã (até 1820). Os marajoaras, que predominaram dentre todas essas culturas, construíam suas cidades sobre aterros monumentais – os tesos (acima) –, e se organizavam em sociedades complexas, rudimentos do que chamamos de Estado. As cerâmicas ou as pinturas em seus corpos (à direita) revelam grafismos cujos significados se assemelham a um tipo de escrita. “A iconografia funcionava como código, compreendido por todos na comunidade”, diz Denise Schaan. Até os anos 1980, acreditava-se que a arte marajoara tinha influência dos povos andinos, supostamente mais desenvolvidos. Mas a arqueóloga Anna Roosevelt mudou tudo: a bisneta do presidente Theodore Roosevelt datou peças que mostram que a cerâmica paraense é anterior, em séculos, a outras de estilos semelhantes produzidas mais a oeste na América do Sul. Isso significa que se pode considerar Marajó antes um local de invenção do que de importação de influências, e a cultura marajoara como uma das mais importantes – talvez a mais – entre as amazônicas.

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national geographic setembro 2006

9 96 6 national geographic • setembro 2006 ILUSTRAÇÕES DE ALEXANDRE JUBRAN A solicitude da vida

ILUSTRAÇÕES DE ALEXANDRE JUBRAN

• setembro 2006 ILUSTRAÇÕES DE ALEXANDRE JUBRAN A solicitude da vida em comunidade entre os ribeirinhos

A solicitude da vida em comunidade entre os ribeirinhos de hoje talvez

seja um traço comum entre o passado e o presente de Marajó. O caboclo típico da ilha vive com o filho e a família à beira do rio. Lidam na roça,

pescam em suas canoas, mantêm macacos e aves coloridas no quintal.

E, sempre que a maré baixa, encontram fragmentos de cerâmica – e de seus ancestrais – a meros 10 metros de sua palafita.

Como eram muito místicos, os marajoaras podiam entender tais alterações climáticas como intervenção divina, e isso teria acabado com a coesão social. “O mais provável é que os chefes e pajés tenham perdido a confiança da população. Com isso, seu poder político enfraqueceu”, acredita Denise. Esse misticismo impregna a cultura dos habitantes de Marajó e arredores. Em muitas áreas da vizinha ilha Mexiana, onde o rio Amazonas encontra o oceano Atlântico, a luz elétrica ainda não chegou. A noite é escura como breu. Nós seguimos numa caminhada pela mata em busca de um possível sítio arqueológico, onde, nos disseram, urnas funerárias estão enterradas, algumas até expostas. Então, nosso guia relembra de como, numa noite igual a esta, ele e seu primo foram atacados por “espíritos da mata”. Ele diz apenas ter ouvido assobios que pareciam querer afugentá-lo do local, mas seu companheiro chegou a ser espancado por “criaturas invisíveis”. Ao fim do relato, impera um incômodo silêncio. Nossa imaginação voa longe. Quando afinal chegamos a um local onde restos de cerâmica indicam a presença de um antigo cemitério indígena, percebemos que, neste canto da Amazônia, a pré-história do Brasil não apenas alimenta as crenças dos moradores – ela é também surpreendentemente palpável. j

Amazônia antiga Encontre links com outros estudos sobre os povos pré-colombianos da floresta em www.ngbrasil.com.br/0609

Encontre links com outros estudos sobre os povos pré-colombianos da floresta em www.ngbrasil.com.br/0609 marajoaras 97

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