Você está na página 1de 6

Comportamento

SOLTESUAS
EMOÇOES
Pesquisasrevelamo benefícioda
expressãodossentimentosna vida
pessoale profissional
e osdanos
paraquemguardatudoparasi
Carlna Rabelo

á um preconceito enraizado contra a livre expressão das

H emoções na cultura ocidental. Quem demonstra angústia,


raiva, alegria excessiva ou medo, tanto no trabalho como na
vida pessoal, é considerado passional, irracional, frágil e
despreparado para enfrentar a realidade da vida. É aquele que não
aprendeu a domar os seus sentimentos e a desenvolver aquilo que nos
diferencia dos animais: a racionalidade. Hoje, fala-se muito em inte-
ligência emocional, mas nem todos entendem o seu real significado.
Não se trata de adestrar o comportamento e suprimir os impulsos
para atingir objetivos, mas identificar (e aceitar) a manifestação das
emoções mais primárias, inclusive as desconfortáveis.
Pesquisas recentes comprovam a importância do reconhecimento
e da expressão das emoções - até as negativas. Levantamento da
Harvard Medical School, dos Estados Unidos, concluiu que quem
reprime frustrações tem três vezes mais chances de se tornar vulne-
rável no trabalho. "As pessoas consideram
a raiva como uma emoção terrivelmente
VANTAGENS perigosa e encorajam a prática do pensa-
Pessoas mento positivo", explica o autor da pesqui-
sa, George Vaillant, que entrevistou 824
Quemostram profissionais e acaba de divulgar o estudo.
aquiloQue "Mas a raiva pode ajudar as pessoas a se
sentem tornarem mais assertivas e com uma faci-
sãomais lidade maior para se posicionarem", diz
Vaillant, os profissionais que falam o que
saudáveis, pensam conquistam o respeito dos seus
criativas, pares e têm mais chances de receber uma
equilibradas promoção.
Um estudo realizado nos Estados Unidos
e têmmaior
pela Columbia Business School, pela Califor-
capacidade nia University e pela Duke University defen-
deliderança de que as emoções podem ser mais confiáveis
FOTOS: FREDERIC JEANlAG. ISTWAGRADECIMENTO: PANQtO CAPEU.ETT1 65
Comportamen
do que a razão em A apologia à racionalidade ignora o poder
momentos de decisão. dos sentimentos. São eles que levam o indivíduo
Publicada no mês pas- à ação, permitem sonhar, possibilitam o afeto, a
sado, a pesquisa O generosidade e conduzem o mundo às grandes
papel das emoções nas mudanças ideológicas. "Toda emoção deve ser
escolhas sustenta que vivida até o fim, sem supressão ou substituição",
os sentimentos são um defende o psiquiatra José Maria Martins, Ph.D.
conjunto de progra- em psicologia clínica e autor do livro A lógica
mas que nos ajudam a dasemoções.Até à saúde elas fazem bem. Estu.
resolver problemas re- do do ano passado do departam/:lnto de psiquiatria
correntes, como por da WisconsinUnlverslty,nosEstadosUnidos,
quem vamos nos apai- comprovou que os tlmidos são mais suscetlvels ao
xonar ou se devemos stress.A dificuldade em colocar para fora os
escapar de um preda- sentimentos os torna mais ansiosos, mesmo em
dor. "As opções emo- situações simples e seguras.
cionais têm mais con- Há uma certa unanimidade sobre os beneficios
sistência do que as da expressão de emoções positivas, como felici-
fundamentadas nos dade, amor, álegria, prazer, entusiasmo. Mas,
processos cognitivos", quando se fala em raiva, ódio, angústia, mágoa,
afirma o coordenador do estudo, On Amir, da ressentimento, há um consenso implícito de que
BLOQUEIOS elas devem ser escondidas, evitadas. As pesquisas
California University. "Se uma pessoa compra
uma casa com base em atributos racionais, Adriana estão derrubando esta crença e os psicólogos
como valor de revenda, provavelmente não Sabbag afirmam que as emoções negativas têm o seu
ficará satisfeita em morar nela. O coração é valor (leia quadro à dir.). "Quando a pessoa não
recuperou reconhece um sentimento ruim em si mesma,
mais confiável do que a razão pura na garantia
da felicidade a longo prazo", diz.
a afetividade por medo da crítica ou por perfeccionismo, ela
Em outubro do ano passado, um trabalho depoisde explode lá na frente em ações negativas", afirma
da Columbia University comprovou que enfrentar a psicóloga Madalena Cabral Rehder.
O local de trabalho
quem negocia com emoção ganha mais
dinheiro. Os pesquisadores Andrew Stephan
conflitos
costuma ser visto com0a;.i#'
e Michel Tuan Pham dividiram duas equi- pessoais, o ambiente menos pro- . "'....
pes em laboratório. Uma deveria negociar
com a razão, e a outra, com os sentimentos.
Queesfriaram pício para manifestar ,.".1t l'
sentimentos."A estraté- ,r'~ ~

"O segundo grupo demonstrou mais prazer suarelação . gia das organizações de
em executar a atividade, vendeu de forma coma família fixar metas e obje-
mais simples, a preços mais baixos, mas em tivos para os Ílm-
maior quantidade. Os racionais venderam cionários criou uma
menos e mais caro", afirma Pham. disciplina de com-
e sem deixar de dizer o
que pensa, Valéria foi
promovida ao atendi-
mento, gerenciando
grandes clientes como
LG, Colgate-Palmolive
e Goodyear. A estratégia
foi adquirir a confiança
da equipe, criando um
vínculo afetivo com as
pessoas no trabalho e
amizade com alguns
anunciantes.
"Toda profissão lida
com relações entre pes-
soas. A melhor forma
de nos comunicarmos
com elas é identifican-
do o que as emociona
portamento que condena a expressão das IRREVERÊNCIAe mostrando o que nos emociona", diz a pu-
emoções individuais", avalia Antônio Valverde, blicitária - ela já chegou a dançar e cantar
professor de filosofia da PUC-SP. "Por isso,
Semmedo para vender uma campanha a um grande
há tanta monotonia, pouca solidariedade e dedizero anunciante. Para Valéria, cargos de chefia
escassa criatividade nas empresas." quepensa exigem profissionais decididos, que saibam
Mesmo com a lógica da racionalidade, não defender as suas ideias e deixem a emoção
faltam exemplos de quem alcançou o sucesso
e commuito fluir. "Tem de se impor e dizer o que pensa.
profissional vivenciando as emoções. A publi- bomhumor, Os muito racionais perdem grandes oportu-
citária Valéria Ordonhez, 42 anos, tomou-se Valéria nidades. É a emoção que nos ajuda a enxergar
diretora de atendimento da agência de propa- os caminhos alternativos aos problemas",
ganda Young & Rubicam sem abrir mão da sua
Ordonhez acredita. Não é como age boa parte das pro-
personalidade. "A sinceridade é o melhor ca- construiu fissionais. Uma pesquisa realizada com 1.503
minho para se estabelecer relações pessoais e umasólida latino-americanas entre 18 e 35 anos, enco-
profissionais duradouras", aposta. Aos 22 anos, mendada pela Rexona e recém-divulgada,
foi contratada como assistente no setor de carreira
em revela que 65% procuram deixar de lado as
pesquisa da agência. Com carisma, competência publicidade emoções no trabalho. As brasileiras são as mais
racionais: 83% agem desta forma.
Nas grandes empresas, a emoção é um
A IMPORTÂNCIA DOS ativo valorizado hoje em dia, um dos pontos
SENTIMENTOS NEGATIVOS FOTOS: MURlU-O CONSTANTINOIAG. ~

Eles também têm seu lado positivo


RAIVA MEDO DESPREZO VERGONHA CULPA
Fortalece o indivíduo É uma forma cautelo- Reafirma a superiori- A pessoa se protege o indivíduo reconhece
pela mobilização da sa de o indivíduo lidar dade hierárquica de contra a violação um erro, induzindo ao
energia e cria um im- com o perigo. Pode uma pessoa em rela- da sua intimidade e desejo de reparação.
pulso para a acão com evitar um ataque ao ção a outra. Assinala a sinaliza aos demais A postura de sub-
o objetivo de s'uperar deixar claro para o própria posição social uma necessidade missão o protege de
um obstáculo outro que não atacará e a dos outros de privacidade ataques externos

a 8 a a
Fonte:A lógicadasemaçóes(EditoraVOles)
I

-
-----
I
--
II
~
Comportamento
altos dos questionários de avaliação. "Não há humano", diz ele. Foi quando decidiu in-
mais o interesse pelo funcionário robótico, gressar na área de consultoria em recursos
em quem ninguém confia por não saber o humanos. A nova profissão trouxe para
que ele pensa", afirma o consultor de recur- fora as emoções contidas. "Aprendi a dar
sos humanos Luiz Wever. "Apessoa temde valor ao 'obrigado', 'bom-dia', 'como você
assumiraquiloqueé e assuasideias,e aqueles está'. Mostrar às pessoas que me importo
quealmejamcargosdegestão,precisamaprender com elas, dar o mínimo de atenção", diz ele.
a darvaloràspessoas aoseuredor." "Isto não é comum entre os médicos, que
Pesquisa da Universidade de Economia de vivem isolados."
Washington, nos Estados Unidos, confirma a Se os sentimentos são importantes até no
tendência e mostra que os emocionalmente trabalho, no ambiente familiar são cruciais.
ambivalentes são mais inovadores. Após entre- "Pais que não falam sobre as suas emoções
vista com 140 estudantes, o estudo indicou que em casa contribuem para que seus filhos te-
quem tem emoções positivas e negativas ao nham bloqueios emocionais durante toda a
mesmo tempo é mais criativo do que quem se vida", afirma Ângela Elizete Herrera, terapeu-
sente apenas feliz ou triste ou não sente nada. REVIRAVOLTAta de família e pesquisadora do Núcleo de
"Isso ocorre porque as pessoas ambivalentes Parater um Pesquisa e Estudo da Família, da PUC-SP. A
desenvolvem habilidades criativas para lidar administradora Janaina Bauer Lemos, 35 anos,
com o ambiente", diz Christina Fong, autora
contatomais é um exemplo. Como mãe, reproduziu com
do estudo. A sensibilidade para reconhecer próximocom os filhos o modelo de frieza da infância. "Não
associações pouco usuais, dificilmente detecta- as pessoas,
o consigo abraçar e beijar os meus fIlhos ou
das pelos muito felizes ou tristes, é o que favo-
rece a criatividade no trabalho.
neurocirurgiãofalar de sentimentos com eles. Não posso dar
aquilo que nunca tive", revela.
A supressão das emoções pode ser uma
Bernardo Janaina não é a única. Há três anos, a
tarefa árdua para quem lida com profissões Entschev advogada Adriana Sabbag, 39 anos, enfren-
que exigem racionalidade extrema. O médi- trocou tou as angústias do bloqueio afetivo quan-
co Bernardo Entschev, 39 anos, especializou- do nasceu o seu primeiro fIlho. Teve de-
a medicina pressão pós-parto e até hoje passa por
se em neurocirurgia craniofacial, área de
técnica muito apurada e total pragmatismo. pelaárea dificuldades para restaurar a emotividade
"A sensibilidade não é treinada no curso de derecursos com a família. "Não consigo estar inteira
medicina. Na execução das cirurgias, o pro- humanos com eles. Tenho pouco tempo para o meu
filho e muito trabalho", diz ela, que atribui
fissional deve deixar as suas emoções de
lado para não interferir no procedimento", parte do problema às dificuldades vividas
conta. Aos 30 anos, resolveu mudar de pro- durante a gestação, quando o marido foi
fissão. "Queria exercer uma atividade que transferido para outra cidade. Sem apoio
me permitisse maior da família, teve de se dirigir sozinha para
contato com as pes- a maternidade no dia do parto. E não con-
soas, estar mais próxi- segue perder os 15 quilos adquiridos com
mo ao comportamento a gravidez. "Admito que às vezes me falta
paciência e descarrego as minhas angústias ve a palavra raiva, há uma diminuição da AMORDEPAI
no meu filho e no meu marido", diz. resposta da sensação na amídala", diz Matthew
Nopassado, os homenseramcriados para não Liberman, autor da pesquisa. "O que torna a Quando
demonstrarsentimentos, nem mesmocomos fi. emoção algo negativo é justamente a supressão setrata
lhos. Hoje,pais afetivos são valorizadosnanossa da sua primeira manifestação", afirma o psi- dosfilhos,
sociedade. Na família Tavolaro é o pai que quiatra José Maria Martins. "O acúmulo de Humberto
chora, beija, abraça e se emociona com a pro- feridas deriva em emoções secundárias, que
le. "A gente vive grudado, conheço todos os desencadeiam ações negativas." Segundo ele,
Tavolaronão
amigos deles. Saímos juntos para tomar cerve- a raiva não expressada transforma-se em res- economiza
ja e conversar", conta o empresário Humberto sentimento ou, se acompanhada de culpa, afeto.Beija,
Tavolaro, 51 anos. Divorciado há 16 anos, pode levar a uma depressão. O medo negado
nunca abriu mão da convivência com eles. torna-se ansiedade crônica, a tristeza vira abraça,chora,
"Quando eram crianças, me visitavam todas as apatia e a afeição não manifestada deteriora-se declara
quartas-feiras e nos fins de semana. Dormíamos em sentimentalismo. seuamor
Por isso,negar as emo-
todos juntos numa cama de casal. Eu no meio,
ções é negar a essên-
e acompanha
um filho do lado esquerdo, o outro do direito
e a menina no meu peito. Era o máximo", cia do que nós so- cadapasso
conta Humberto, presença certa em campeo- mos:humanos. . daprole
natos de futebol e apresentações de balé. Du-
rante sessões de terapia familiar, Humberto
teve um exercício desafiador no papel de filho.
Escrever uma carta ao seu pai e expressar todas
as emoções guardadas ao longo dos anos. "Achei
que seria superfácil, mas, na hora, vi quanto é
difícil falar para as pessoas que amamos quan-
do supomos que elas já sabem disso."
Escrever tem suas vantagens. Estudo da
California University, de 2007, revela que
colocar sentimentos em palavras produz efei-
to terapêutico no cérebro, pois parte da emo-
ção já é liberada no papel. "Quando se escre-

~&\[F1&@(JJ~~~~~nSrt§~AS
[g~0U@~@~~1
Preparam nosso organismo para criar um impul-
so à ação diante de situações vitais relevantes
para a sobrevivência individual e da espécie

Energizam e ampliam outras funções psicológi-


cas, como o pensamento, a vontade, a imagina-
ção, o sonho e até mesmo outras emoções

Mantêm a saúde física. Asua expressão


plena permite ao organismo regular-se
automaticamente

Provocam mudanças psicológicas e impulsionam


o desenvolvimento da personalidade individual
e da espécie

Permitem a comunicação interpessoal, a manu-


tenção das relações íntimas e a interação social,
pitares da vida em comunidade
FOTOS: MlAU..O CONSTANTINO. 69
Fonte: A lógicd das emoções(Editara Vazes) FREDERtC .IEAN - AG. ~