Mestrado em Letras – UNIRITTER Disciplina: Aquisição da Linguagem Docente: Profª. Dra.

Beatriz Fontana - Discente: Ligia Coppetti

Identidade e diferença Perspectiva dos estudos culturais Kathryn Woodward
A questão da identidade e da diferença está em desenvolvimento no cenário pós-moderno, em uma política de identidade. Antigas referências, como família, leis, religião, educação, estão em crise. Faltam referências “concretas”, seguras, para que o indivíduo se ancore na sua formação de identidade. Neste contexto novos grupos sociais buscam se afirmar e questionando, ao mesmo tempo, os antigos padrões identitários. Por exemplo: homossexuais na sua luta por legitimação de seus espaços e direitos. Seja no direito ao casamento, a adoção de crianças, ao recebimento de heranças, eles e elas buscam, além do respeito à opção do modo de viver a sua sexualidade, a sua inserção na sociedade como cidadãos e cidadãs que são. A identidade é relacional. Depende de algo fora dela. Depende de uma identidade que ela não é para que ela própria exista. Por isso se diz que ela é marcada pela diferença. Por exemplo: eu sou mulher, gaúcha, casada, etc. Para que se entenda o que isto significa, tem-se em mente o que é ser homem, paulista, solteiro, etc. como referência para que se perceba (rapidamente) a diferença e, em conseqüência a identidade citada. As pessoas não entenderiam o que é ser mulher, sem a referência do diferente-homem, por exemplo. As identidades adquirem sentido por meio da linguagem e dos símbolos pelos quais são representadas. Estas representações, segundo Start Hall (1977), é que classificam o mundo e nossas relações com o exterior. A identidade é, então, marcada por meio de símbolos. Ou seja, há uma associação entre a identidade de uma pessoa e os objetos que ela usa (significantes que ela escolhe), aqueles que fazem parte de seu mundo. Por exemplo: a roupa e os acessórios para o corpo que utiliza, os livros que lê, o carro que possui, as músicas que ouve, a profissão que pratica, se fuma ou não, e muitos

Cada um destes significantes marca a diferença e está associado a uma determinada identidade.histórico. Hélene Cixous complementa que esta distribuição desigual é a base as divisões sociais. Os homens ainda tendem a construir uma posição para as mulheres tomando-se como ponto de referência. vitaminas. Se “sou isto. independente da identidade de gênero. era valorizado socialmente. marginalizando ou celebrando a diferença. Assim sendo. que é também social. Nos pares de oposição. religião católica. que é constituído como estranho. superior ou inferior. Mas esse desequilíbrio de poder. Cada contexto sócio-cultural atribui um significado aos significantes. Hoje. mas agora fragmentada e reconstruída. que é mais valorizada na nossa cultura ocidental. sujeito as influencias sócio. Nitidamente há uma hegemonia masculina.. Ela é formada em relação a outras identidades.outros aspectos que seleciona para seu cotidiano. sempre um dos elementos é mais valorizado ou mais forte. A identidade nacional. é necessário para que se constitua a identidade. a diferença é sustentada pela exclusão. etc. tanto para homens como para mulheres. classe média alta. . Segundo a autora: “as mulheres são o significante de uma identidade masculina partilhada. não sou aquilo”. Saussure considera que as oposições binárias são essenciais para a produção de significados. cirurgias. ao invés de um ponto de fechamento e determinação prévia. segundo Derrida. de raça branca. facilmente percebida. sob a forma de oposição binária. fluidez. principalmente entre homem e mulher. natureza/cultura. com curso superior. ela constrói culturalmente as identidades. no entanto. Mas Derrida salientou que a relação entre significado e significante não é algo fixo. através de exercícios. conferindo-lhes um sistema de valor. balé ou com telenovela e música popular? O argumento é de que a valorização está relacionada com gênero. como no caso dos movimentos sociais que buscam resgatar identidades sexuais. e vice-versa. a cultura de culto ao corpo. um fator de contingência.culturais. mas este fato é questionado pelos Estudos Culturais. opostas”. alimentação balanceada. Por exemplo: alta cultura é relacionada com ópera. A marcação de diferença envolve a aceitação de um conceito identitário e uma negação de outro. energéticos. com prevenção e busca de saúde física. Excluindo. Fumar há 20 ou 30 anos atrás. Nos dualismos “um” é a norma e o “outro” é o desviante. corpo/mente. é marcada pelo gênero.. Há um deslizamento. desvaloriza e rejeita o uso de cigarro para todos. formando identidades nacionais distintas.

Há hoje uma preocupação crescente com as identidades nacionais e com as identidades pessoais (étnicas. mutável. No segundo grupo estão as diferenças. Há uma oposição (baseada na identidade de gênero) que tende a classificar o mundo entre masculino e feminino. Através . ou seja. imutável. Simone de Beauvoir e Luce Irigaray dizem que é através dos dualismos que as mulheres são constituídas como o “outro”. Para entender este processo é necessário que pensemos nas representações que constroem os significados dentro de uma determinada cultura e no deslocamento destes para a produção de identidade. as características comuns de todos os povos e as mudanças no conceito de identidade ao longo do tempo. etc. as estruturas sociais é que especificam a diferenças. determinada. Homens e mulheres são vistos como diferentes e não opostos. raciais. encontramos uma justificativa histórica (onde o passado partilhado constrói uma identidade nacional) e outra biológica (onde o corpo constrói uma identidade sexual e de gênero). de gênero. reatualizada. Para tanto é preciso discutir duas posições: a dos essencialistas e a dos não essencialistas. os questionamentos e as desacomodações conseqüentes. enquanto os homens à ciência e a razão. As causa desta seriam.) e uma discussão que sugere que as mudanças ocorridas neste campo acabam por produzir uma crise de identidades. Creio que não há alternativas que possam basear a identidade na certeza essencialista. a “fragilidade” e a “quebra” das referencias tradicionais. pois identidade não é fixa. No primeiro grupo é defendida a idéia de que há características que são comuns a todos os indivíduos de um determinado povo. e que elas não são apenas o que os “homens não são”. e os sujeitos são posicionados de acordo com eles. Trazendo o essencialismo para discutir a identidade.cultural. É o que se denomina “circuito da cultura”: significados produzindo posições de sujeitos e os resultados efetivados nestes mesmos sujeitos. constantemente refeita. em nós. para Cixous a estrutura do pensamento se origina em uma rede histórico . então. Para que haja uma representação. Ela é algo fluido. Embora para este as oposições estejam ligadas a lógica de todo o pensamento e linguagem.As mulheres estão culturalmente associadas à natureza e ao coração. a cultura. sexuais. segundo Hélene Cixous. são necessários sistemas simbólicos onde os significados são produzidos. baseada em Saussure. Pela visão antropológica. Neste momento em que vivemos existe mesmo uma crise de identidade? Por que as pessoas investem em posições de identidade? Estas são algumas questões que a autora coloca em seu livro.

o sujeito constitui a noção que tem de si mesmo. então. conscientes e inconscientes.deste processo é possibilitado dar sentido à nossa experiência e aquilo que somos. Para que as escolhas sejam feitas a subjetividade é necessária. “Se eu a uso então eu tenho valor. passam a fazer parte do cotidiano extra . Mostrando um modelo de “família perfeita”. O marketing. a publicidade utiliza-se deste recurso. São imagens que o expectador se identifica porque as aspira para si. processo inconsciente onde os desejos relativos a pessoas ou imagens tornam possíveis nos vermos na imagem ou no personagem que é apresentado na tela. Com o objetivo de vender uma idéia. escolha de carros. Através de pensamentos e emoções. quando este produto é estimulado para o consumo. que foi “posta na vitrine” como um produto a ser consumido (adquirido e utilizado). A importância da representação e o papel-chave da cultura está na identificação. ele finda por criar uma identidade. Constituímos-nos enquanto sujeitos formando nossa identidade em um caminho que vai do social ao individual. um juízo de valoração de uma determinada identidade posta. recebem um significado de valor e.novela. um produto. .” É a máxima colocada socialmente. na linguagem proferida que. por exemplo. a partir de uma identificação. algumas representações e alguns significados são preferidos em relação a outros? Este processo envolve relações de poder. Por que então. através de expressões características. passando a viver uma identidade “exposta”. Esta subjetividade está inserida em um contexto social. entre as várias possíveis. na decoração das casas. cabelo. É uma representação de valor que os sujeitos reproduzem. quando há inclusão e exclusão de algum significado. através da repetição de imagens e de sons. Tomamos por exemplo o caso das telenovelas e a influência que elas exercem nas preferências estéticas dos espectadores: na vestimenta pessoal. como elemento que possibilitaria o alcance do objetivo anunciado. assume um discurso e se posiciona de acordo com ele. inclusive no instante em que as escolhas ocorrem. Só assim os anúncios publicitários são eficazes. passam a ser reproduzidas no social. por isso. pelo individuo na sociedade. Estes significantes: roupa. onde a linguagem (os discursos) e a cultura dão significado a cada experiência vivida. penteados. no caso do comercial da Margarina Doriana. móveis e. carro. fazendo suas escolhas. A cultura e as relações sociais as quais o individuo participa é que dão sentido e tornam possível esta opção. São os diversos discursos de que fazemos parte que constituem as identidades. Cada sujeito. a própria linguagem. a partir de uma representação oferecida na forma de um ideal.

ocasionando mudanças nos padrões de produção. São identidades mutáveis. complementares. Ela passa assim a se constituir como um conjunto de identidades possíveis. mescladas. É o caso de jovens que freqüentam o Mc Donad’s. porém. ao mesmo tempo. Necessário também. atraindo por isso. múltiplas. Globalização esta que engloba fatores econômicos e culturais. por vezes despersonalizadas (sem identidade). que se comunicam pelo Skype. um renascimento das identidades nacionais e locais. sagrado/profano. etc. utilizam I Pod. porém. como do nordeste. Identidades plurais e desigualdades.social do país como um todo. como uma característica da vida contemporânea. A constituição . Em conseqüência da mudança de economia global há uma migração de trabalhadores. recorrer a analise freudiana feita por Lacan na busca de compreender o investimento do sujeito em uma identidade. “que transforma indivíduos em sujeitos” (1971). como resultado de um fenômeno econômico. da cultura local e. ocupar um espaço de sujeito não é apenas uma questão de escolha. moradores de estados mais pobres.. então. Há uma convergência de culturas e de estilos de vida nas sociedades em geral. de consumo. que levam a constituição de novas identidades. segundo ele. sozinhos não explicam os graus de investimento pessoal que os indivíduos têm nas identidades que assumem. No Brasil. entendendo que o sujeito é uma categoria construída pela ideologia. Migração esta que causa impactos no país de origem e no seu destino. feminino/masculino. A crise de identidade. pode haver uma resistência que leve a um fortalecimento. por exemplo: a cidade de São Paulo é apresentada como “rica” em possibilidades de trabalho. Identidades que não tem pátria. constituída de diferenças? Então esta é sua marca.. centro dos sistemas de significação da cultura. Estes. Neste processo.Marx afirmava que as relações de produção e de ação coletiva é que formam as identidades sociais. é relacionada com a modernidade tardia. fora/dentro. ou faz parte dela ser híbrida. porém. Para ele. Centrava-se. que usam tênis Nike. Althusser. E uma produção de resultados contraditórios: uma homogeneidade cultural movida pelo mercado global que pode levar a um distanciamento da identidade da comunidade. a expulsão é mais forte nos países pobres do que a atração das sociedades tecnologicamente mais avançadas e ricas. se estabelecem. uma conseqüência do processo de globalização. que navegam por comunidades de relacionamento como o Facebook. avança em seus estudos. referida anteriormente. apenas na materialidade como fator construtor de identidade. Pode se originar em um sistema original e simbólico que dá sentido e ordem a vida social e as oposições fundamentais: nós/eles.

fluidez e constante incerteza. As identidades em conflito estão localizadas no interior das mudanças sociais.. lendas e mitos. etc.através das diferenças.. antigas tradições. Em busca de significados de valor que a cultura e as relações sociais lhe mostraram. a valorização do local. fazem surgir os movimentos religiosos. Partindo de uma identificação. étnicos. mudanças para as quais elas contribuem. buscando construir culturalmente as identidades. políticas e econômicas. O clima hoje é de mudança. que buscam retornar a um passado perdido. E lutas baseadas na competição e no conflito. Há o colapso das velhas certezas e produção de novos posicionamentos. literatura. através da soma de culturas que passam a interagir. segundo a autora. As identidades de origem. De um ideal. expressando um desejo de restauração de uma unidade imaginária. culturais: de música. E com a diversidade do multiculturalismo. é que surgem as novas identidades. que ocorrem em contextos distintos. poesia. de uma busca por satisfação de necessidades destes indivíduos. com o objetivo de melhor lidar com as identidades fragmentadas do presente. .

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