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Darfur: «Não podemos aguentar mais»

Assalam aleikum. Foi uma saudação apressada e só de duas palavras. Um «bom dia» de
alguém com o coração apertado pela angústia. Por isso, passou à frente do ritual do
costume: a lengalenga de perguntas e respostas acumuladas e repetidas (sobre a vida, a
saúde, a família) como fazem as pessoas desta terra, quando se cumprimentam. Mas, na
verdade, trazia mais do que lengalenga. Veio do frio da noite e das estradas
improvisadas no deserto-savana do Darfur. Convido-o a sentar-se, mas ele não dá conta
da cadeira. Fica de pé, o turbante a envolver-lhe a cabeça e o rosto, permitindo apenas
que se lhe vejam os olhos que me falam de aflição mas também de muita esperança de
viver. Destapou o rosto e, da sua boca, ouvi palavras de amargura.
«Não podemos aguentar mais. Já há muito que a nossa gente quer fugir desta terra
maldita. As razias tornaram-se coisa normal e frequente. Em cada hora que passa há
vidas que já não são. Muitas aldeias já deixaram de existir. Não poucas vezes somos
obrigados a conviver com o cheiro fétido dos corpos que nem sempre podemos sepultar.
Agora já não há longe nem perto: os janjauid moram ao nosso lado. Violam as nossas
mulheres e filhas. Roubam o nosso gado. A nossa vida ou a nossa morte depende
somente do bel-prazer desses malditos sanguinários.»
Que fazer? Dizer palavras de consolação? De simpatia? A melhor escolha foi o silêncio.
E, daí a instantes, concluiu: «O meu nome é Macur.» Homem já bem entrado nos
cinquenta. Sultão, com longa experiência de autoridade na tribo dinca. Com a posição
que ocupa na sua comunidade, ele sabe que não pode chorar nem deve mostrar medo.
Seria a sua derrota. Mas o Macur está em apuros. Não quer manifestar os seus
verdadeiros sentimentos. Respira fundo para tomar coragem. Aquele que o acompanha –
o catequista Isac – apercebe-se e não o quer deixar ficar mal. Com delicadeza e respeito
pelo sultão, pega na palavra e continua o trágico discurso que, para mim, infelizmente,
não é novo nem desconhecido.

Voltar à terra
Muitos dos cidadãos daquela zona de Greida, onde o Isac é o catequista responsável, já
foram socorridos e levados para o enorme campo de refugiados dessa área. «Se temos
de fugir, que seja em direcção à nossa terra, porque nós não somos de aqui e não temos
nada que ver com os árabes», diz o Macur, agora já mais calmo e sereno.
Estes dois homens representam uma lista sem fim de seres humanos que já vêm de uma
longa caminhada. A 2.ª guerra civil no país matou 2 milhões dos seus irmãos. E aos que
conseguiram sobreviver, mudou-lhes a identidade. Passaram a ser deslocados ou
refugiados. Mais de cinco milhões. Errantes, sem eira nem beira. Alguns deles
encontram-se aqui, nesta vasta região do Darfur, numa vida que não é vida. Têm sido
vítimas de atrozes discriminações religiosas por parte da população e autoridades
muçulmanas. Finalmente, depois de 23 anos, chegou a tão suspirada paz. Voltar para o
Sul é, pois, o anseio de quem de lá tinha fugido. Muito especialmente é o anseio dos que
se encontram no meio deste massacre infernal do Darfur. Chamar-lhe guerra é pouco. O
que, desde há 4 anos, está a acontecer nesta zona do Oeste do Sudão é um verdadeiro
genocídio. Registo a expressão do Macur, que me convida a olhá-lo de alto abaixo e diz,
com tristeza: «Pensávamos poder regressar com calma e tão-somente depois de ter
enchido estes ossos, mas agora está difícil salvar mesmo os ossos!»
Senhores do Darfur
Greida…! Quisera conhecer as tuas gentes e estar contigo por altura do Natal. Estava
tudo combinado com o catequista Isac. Iríamos à cidade e às aldeias de perto e de longe.
Safari difícil, eu sei. Nas vésperas do Natal tornou-se ainda mais perigoso. Aqui, em
Nyala, tem-se falado muito de ti: mortes horrorosas, violações e pilhagens.
Continuámos a ter esperança que se acalmassem as coisas entre os boroboro (exército
dos rebeldes) e os janjauid (milícias do Governo). A rádio nacional continua a afirmar a
paz e a estabilidade no Darfur. São as mentiras escandalosas do costume! Mas as
testemunhas da verdade, embora abafadas pelas muitas autoridades secretas, também
encontram a forma de transmitir os tristes e violentos episódios de onde puderam,
felizmente, escapar. E que dizer dos Migs que passam mesmo por cima das nossas
cabeças num «roncar» ensurdecedor, e a gente perguntando, apavorada: Quem estará
hoje no ponto de mira? E há ainda outro facto que não dou por descontado: a
impossibilidade de acesso ao e-mail nestes dias confirma (pela experiência mais que
provada) a gravidade da situação.
«Com essa pele branca não penses em arriscar; tomam-te por americano, o pior inimigo
actual para o Governo sudanês», dizem-me os colegas da missão. Também a Berta (de
nacionalidade portuguesa, responsável da Cruz Vermelha Internacional que trabalha na
assistência dos refugiados no Darfur), bem conhecedora da situação, nos tinha
dissuadido fortemente dessa viagem. Sugeriu-se então que fosse o P.e Jervas, sudanês.
Por fim, nem o Feliz nem o Jervas. Nem estrangeiro nem sudanês. Nem pele branca
nem pele negra. Fomos obrigados a desistir da visita-safari a Greida. Com imensa pena,
porque os cristãos ali já não celebram a Eucaristia desde há mais de um ano. E,
enquanto nós não podemos visitar Greida, os «Herodes de turno» andam às claras e à
vista de quem quer ver. Nem sequer escondem as suas estratégias. De arma em punho,
orgulhosos, altivos e solenes como os camelos em que vão montados. São os senhores
do Darfur.

Frutos da solidariedade
O dia estava a chegar ao fim. Seis gigantescos camiões estão reservados para as quase
mil pessoas. Partirão amanhã de madrugada. O Macur bem tinha insistido para que
evacuássemos, de uma vez, todo o seu clã (cerca de 5000 pessoas). Mas, na realidade,
só podemos fixar-nos nos casos mais graves e extremos: os pobres de entre os mais
pobres. Aqueles que não conseguiriam sobreviver antes da intervenção dos serviços da
IOM (Organização Internacional da Migração).
Depois de amanhã, antes do cair da noite, darão entrada na cidade de Daen. É o que
ficou escrito na declaração que nos deu, em duplicado, o chefe da Companhia de
Transportes, depois de receber os 14 milhões de libras sudanesas (aproximadamente 49
mil euros). O sultão agradece. E pela segunda vez lhe digo a quem é dirigido o seu gesto
de bem-haja. Esse dinheiro, de facto, veio das pessoas amigas de Portugal e de outras
partes do mundo. É a solidariedade de gente que soube fazer opções felizes na vida!
De aqui até Daen – dois dias de viagem – é só o princípio. Depois, ficarão sob a
responsabilidade da IOM, que levará a cabo o grande safari. Será uma caravana de
várias dezenas de viaturas. Rumo ao Sul. Os condutores estão habituados ao perigo das
viagens pelo deserto e pela floresta. Mas não dispensarão a arma, que levam sempre
consigo.

Começar de novo
Os ossos ainda não se encheram, como teria desejado Macur. Mas não há tempo a
perder. Põem-se a caminho, antes que seja demasiado tarde. Quando é que lá
chegarão?... O relógio e o calendário não lhes poderão servir de ajuda. Também não
fazem conta de reconhecer a sua casa ou haveres que um dia lá deixaram. Porque já não
existem. Tudo começará de novo. Na estaca zero. Acreditam, porém, que é possível
reconstruir a vida. Lá, onde há paz. Em Juba, Wau, Bahr el Gazal, Rumbek, Torit... A
querida «pátria» do Sul do Sudão.
Entretanto, o chão que piso neste momento continua a ser o palco da morte; e os campos
de refugiados que se improvisaram passam bem de uma centena. Se Cartum quisesse…
Se o mundo quisesse… a palavra «genocídio» não existiria neste ponto do globo. Mas
também sei que há muita gente a rezar e a trabalhar para trazer de volta a felicidade que
Deus sonhou para estes seus filhos e filhas. Não queremos o inferno no Darfur. A Paz
há-de vencer! In chá Allah!.

A santa do Darfur
Não me lembro do título. A julgar pelas suas poucas páginas, era apenas um livrito.
O P.e Policarpo – que estava a distribuir os livros de leitura espiritual aos seminaristas
combonianos de Famalicão – assentiu: «Sim, leva esse, que é pequeno.» Falou assim
porque conhecia bem a minha pouca apetência pela leitura.
Li-o de um fôlego. Afinal, não foi um livrinho qualquer. Hoje, quase meio século
depois, a minha mente não deixa de evocar certas imagens que, na verdade, nunca
morreram com o passar do tempo. No emaranhado de nomes estranhos à língua
portuguesa, com lugares e paisagens que eu alcançava só com a imaginação, havia uma
menina chamada Bakhita, que fora raptada e feita escrava quando tinha sete ou oito
anos: forçada a caminhar durante dias e semanas a fio, fora exposta no mercado dos
esclavagistas para compra e venda, mudando de dono, como se faz com os animais; à
primeira oportunidade, deu-se à fuga, junto com uma escrava da mesma casa; não
distinguiam o norte do sul, mas não pararam; venceram o medo, a fome e a sede, o
cansaço e os animais selvagens, mas não escaparam à rede traiçoeira de um homem que
lhes apareceu no caminho, prometendo-lhes que as levaria a casa de seus pais – as
inocentes confiaram, mas a casa de seus pais resultou ser o mercado de escravos, onde
foram vendidas.
Uma das piores torturas para Bakhita foi a cruel e sádica tatuagem. Uma verdadeira
operação a sangue-frio cujas cicatrizes ficaram visíveis no seu corpo, para toda a vida.
Foram 114 incisões de desenhos feitos a corte de punhal no peito, na barriga e no braço
direito. Ela mesma falou, em testemunho directo, com algumas pessoas amigas.
«Eu pensei que iria morrer de tanta dor, especialmente quando me esfregaram com sal
as feridas em carne viva. Literalmente banhada no meu sangue, colocaram-me numa
esteira de palha, onde fiquei várias horas, totalmente inconsciente. Quando despertei, vi
junto de mim as minhas duas companheiras de destino que tinham também acabado de
ser tatuadas. Por mais de um mês fomos condenadas a estar deitadas, sem nos
movermos, sem nem sequer um pano para limpar o pus que ia saindo das feridas. Posso
realmente dizer que foi por milagre de Deus que eu não morri, porque Ele tinha-me
destinado para coisas melhores.»
Mas o dia da liberdade havia de chegar. Poucos anos depois, numa alegria indizível pela
sua grande festa-celebração dos sacramentos da iniciação cristã (baptismo, confirmação
e eucaristia), fez, em liberdade total, a opção verdadeira da sua vida. E escolheu, de
novo, ser escrava. Mas o seu novo dono e Senhor não andava de chicote na mão, como
os seus antigos donos esclavagistas. O seu novo Senhor chama-se Jesus Cristo, Aquele
que morreu e ressuscitou para lhe oferecer a verdadeira liberdade e salvação. É Ele que
lhe dá a força, a coragem e a alegria para O seguir e fazer a Sua vontade, entrando da
Congregação das Irmãs Canossianas. Foi a primeira sudanesa a ser canonizada. A ela
juntou-se Daniel Comboni, o gigante missionário da África Central, a quem a Igreja
deste país chama, com gratidão, o seu pai na fé.
Longe estava eu de pensar que um dia viria a conhecer tão de pertinho a realidade da
Bakhita na sua própria terra, aqui mesmo nos arredores da pequena cidade de Nyala. A
sua aldeia natal dista 20 quilómetros da missão católica. Tem o nome de Algoznei
(duna) e é habitada por cidadãos da tribo daju. São todos de religião muçulmana, mas
não é raro ouvir deles expressões de contentamento e orgulho pela «santa cristã
darfuriana».
Ao contar a sua história, a pequena darfuriana fala de dois homens que desde os
primeiros momentos a ameaçaram: «O teu nome, de aqui em diante, é Bakhita!» Esta
estratégia, por parte dos comerciantes de escravos, era uso comum e tinha, sem dúvida,
uma lógica. A intenção era de levar a vítima a esquecer as suas raízes e o ambiente da
própria família. Era mais um trunfo na mão dos raptores: quem dá o nome a alguém,
torna-se seu dono. Mas tal não aconteceu com a menina de Algoznei. Muito embora
tenha esquecido (pelo choque do medo e angústia?) o seu nome verdadeiro de origem.
Apesar de tudo, o nome Bakhita (em árabe significa afortunada) fica-lhe muito bem. Ela
não se cansa de afirmar que Deus – a sua maior fortuna – nunca a abandonou. É o que a
santa do Darfur quer partilhar connosco fazendo-nos também «afortunados».

FELIZ DA COSTA MARTINS, Missionário Comboniano no Darfur