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FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO , j 1

O PROBLEMA DOS
GOVERNADORES GERAIS
DA ILHA DA MADEIRA
POR

DAMIAO PERES
PROFESSORDA UNIVERSIDAI>E DO PÒRTO

Separata da Rev. de Esf. Ilistdricos. Ano Z.", n.0 1


P ~ R T O
1925
Emp. Ind. Orif. do Pôrio, ~ . d a
R. Martires da Liberdade, 178
FAZE INDO a histbria das transfor~naçõespor
qiie passou a adininistração pública das illias
d a Madeira e Pôrto Santo, Álvaro Rodrigues de
Azevedo afirma ter ficado toda a superinten-
dência destas illias a cargo de tiina iinica au-
toridade, de nomeação régia, desde que Filipe I
deu O govêrno total delas ao desenlbargador
Jogo Leitão. Esta autoridade foi, durante o go-
vêriio dos Filipes, o goveriitrdo~~ geral, e, de-
pois da RestauraçAo, o cccpitão gezzeral('), tendo
desempenhado o cargo de govenzndor gerítl,
sucessivaineiite, o d e s e ~ i i b a r ~ d oJoão
r Leitão,
D. Agostinho IIerrera, Tristiio Vaz d a Veigri,
António Pereira de Barredo, Diogo de Azam-
buja e Melo, Cristóvão FalcBo de Soiisa, João
Fogaça de Eça, D. Manuel Pereira Coiitinho,
Jorge da Ciimara, Pedi-o da Silva, D. Francisco

(1) Saiidades (Ia Teirtr, piigs. 313 e 833.


IIenriques, Fernão de Saldanlia, D. Fraiicisco
de Sousa, D. João de Menezes e Luis de Miranda
IIenriques Pinto (I).
Apesar d a autoridade especial do autor de
tais afirmações, aceites até hoje sem discussão,
h a nelas muito que rectificar: a lista dos no~iiea-
dos, a designaçno dada ao cargo qiie desenipe-
nliarain e a cxtensão das suas atribiiições.
Relativamente h lista dos nonieados, eiiten-
detnos-e adiante procurareinos de~nonstra-10-
qiie ela està errada pela incliisão dos noines de
João Leitão e de D. Agostinho Iierrera, conde de
Lançarote.
Quanto à desigiiaçáo dada a estas aiitorida-
des, é pura fantasia cliamar-llies gouerzzndoi-es
gerais, tratando-se do período filipino, e capi-
tires ge~lernis,tratando-se dos tempos posterio-
res à Restauração: o titulo de gouerzzudor qei.nl
-
nunca existiu e tal distinqão não tein f~indainento.
Ve jatno-10.
A carta de iioineação de Tristão Vaz da
Veiga, de 19 de O~itubro de 1585, diz: «...o
eriivyo ora a dita ilha por geral1 e superimten-
dente das coiisas da guerra.. .» (=).O alvará de
ordenado, de 22 de Oiitubro de 1585, chama-
lhe tambéin «geeral e sobreentelidente das coii-
sas d a guerra» (9.

(i) Soiidndes-<Ia Teri-o, piig. 824.


(2) Arq. da Caiii. d o Ftiiichal, Registo Gei.nl, toiiio
3.0, fol. 166 v. e Tonibo uelho, FOI. 149.
(3) Arq. da Cam. do Funchal; Toiiibo velho, fol. 151.
D. Antonio Pereira 6, pela carta de, 30 de
Dezeiiibro de 1590 (I), iioineado «geral1 - c su-
pereiiiteindeinte ílas C O L I S ~ S d a guerra»,
- seiido
tainb&iiidesignado pelos inesiiios titiilos na carta
rkgia à Climara do Piiiichal, de 30 de Dezeiiibro
de 1590 (=)e na provisão de ordenado v).
Diogo de ~lzanibujade Me10 é iioiiieado «ge-
ral e superinteiideiite das cousas de gerra», por
carta de 23 de Maio de 159%C4), seudo design:ido
pelos inestnos tit~ilosno alvarA de ordenado de
30 de Juiilio de 159& (). A si próprio chaiiia-se
agovernador e capitão geerall etii toda esta ilha
da madeira e superintendente das causas da
guerra» na carta de noiiieação de Manuel Damil
para o cargo de escrivão e secrethrio d a guerra,
de 16 de Fevereiro de 1596 ("); «governador e
capitnin geral1 da ilha da madeira e superinten-
dente das coiisas da guerra» lia carta de iioiuea-
ção de Fraiicisco vieira de Abreu para o cargo
de capitão de utnn coinpaiil~iade arcabuzeiros,

(I) Arq. da Catii. do Futiclial: liegistogernl, tGiiio 3.0,


fol. 183.
(L) Arq. da Caili.-do l.'unchal: Registo gertrl, tSiiio
3.0, rol. 1113 v.
(3) Arq. da Caiii. do Puticlial: 'Iùiiibo orll~o, fol. 152.
Variante iicste doc~tiiiento:«gerral e subreetiteiideiite
dns cousns da guerra*.
(9 Arq. da Catii. do Fiirichal: To~ilhovelho, fol. 172.
(5) Arq. da Catii. rlo l'unchal: Registo geral, tSnio3.0,
fol. 176.
(6) Arq. daCarri. do Piinclial; Krgisto geral, tSiiio 2.0,
fol. 204.
de 29 de Seteinbro de 1598 (I), e «capitão geral
desta illia da iiiadeira e superentendente das
cousas da guerra,> eni outro docutiieiito da
tiiestna natureza, de 5 de Junlio de 1596 (").
CristOvão Falcão de Sousa é designado pelos
títulos de «geral1 e siiperemteindetiite das coiisas
de guerra* na carta de noineaç50 de 20 de Abril
de i600 (9 e pelos de «capitão e governador» na
da nomençáõ do seu sucessor, 5050 Pogaça de
Eçn, de 14 de Agosto de 1603 c4).
.To50 Pogaça de Eça é designado pelos titu-
10s de «geral e slipereinteindetnte das cousas da
guerra» no referido diploma de nomeação. Uina
carta régia, de 21 de Fevereiro de 1009, louvaii-
do-o pelo auxilio prestado à armada do vice-rei
Rui Lourenço de Távora, comandada pelo alini-
raiite Estévão Teixeira, chaina-llie «joão fog~iassa
.
dessa.. capitão geerall E g.*Or da ilha da ina-
deira» (9.
I). Manuel Pereira é designado pelos títulos
de «geral1 e superemteindeiiite das eoiisas d a
guerra» na carta de nomeação de 22 de Novein-

(i) Ary. da Caiii. do Futiclial : Registo gc~.<ri,


t6iiio
3.0, fol 15.
(2) Ary. da Caiii. do Fuiiclial; Registo gertrl, tSiiio
3.0, fol. 222.
(3) Arq. da Cairi. do Funchal; Xegisto geral, ti3iiio
3.0, fol. 6.
(4) .Irq. da Caiii. do Fuiichal ; Re<listogeral, t611io
3.0, fol. 22.
0) Arq. da CRIII.do Y ~ ~ i i c h ai<ol~~b<)
l: cellio, fol. 260.
bro de IGO? (I) e n a de 20 de Novetiibro de IG01
eni que o rei ordena a João Fogaça de Eça que
llie faça entrega do cargo ( a ) ; pelo de «governa-
dor» em um alvarh de 31 de Março de 1609 ( 3 )
sobre provimento interino de cargos de justiça;
pelos de «capit&o-mór e governador» etii outro
alvarti de 18 de Jiinlio de I611 sôbre o iriesiiio
assunto c);pelos de «governador e . capitão
gerall*, n a provisão de 13 de Maio de 1613,
sôbre arrecadação de dinheiros de defuntos,
ausentes e cativos ( 5 ) , e nas provis6es sôbre
aplicação a reparos nas ribeiras de certas ver-
bas destinadas a obras de fortificação, de 21 de
Janeiro de 1612 (v).
e 12 de Jullio cle 1613 (9;

( I ) Arq. d a Caiii. do I~uiiclial; Ziegisto geral, tGino3.0,


fol. G9 v. Dom Manuel I'ereira foi nomeado ein 1G01, coiiio
s e v8 d a carta de noiiieaçáo, iiias si>eiii 1G09 veio toiiiar
conta d o cargo, tendo prestado honienageiii etii Lisboa.
perante o Marquês de Castelo Rodrigo. vice-rei de Por-
tugal, eiii 14 d e Maio de 1609 (V. cit. t6ino 3.0, fol.
G9 v.).
(2) Arq. d a Cnm. d o Funclial: Tombo velho, fol. 234.
(3) Arq. d a Cam. do Funchnl; Toiiibo uellzo, fol. 242,
e Registo gei'al, tbmo 3.O, fol. 10.
(4) Arq. d a Cairi. do Funchal : Registo geral,
fol. 83 v.
( 5 ) Arq. d a Catii. do Fuiichal : Registo geral, toiiio
3.0, fol. 96.
( 6 ) Arq. d a Catn. do Fulichal: Registo g e r a l , tociio
3.", fol. 89 v.
(7) Arq. d a Cniii. do l.'uiiclial; 12egisto geral, toiiio
3.0, fol. 96 v.
pelo de «geral» iio alvarh cEe 13 de Maio de 1613.
sobre as iiiesinas obras (1).
Jorge da Cbinara é designado pelos titulos
de «geral e superetidente das cousas da guerra»
na carta de noineação de 18 de Janeiro de 1614 (e);
pelos de «governador e capitão-nii>r» iio alvarll
de 6 de Setembro de 1614 que o autoriza a pro-
ver, interiiiaiilente, certos ofícios de justiça C),
e pelos de «governador e capitão geral» na pro-
visão de 3 de Janeiro de 1615 que llie comete o
eucargo de visitar os navios estrangeiros que
fundearem no porto do Funchal (').
Pedro da Silva é designado pelos titulos de
«governador e capitão geral e supriiittildente
das cousas da gera» na carta de noineaç&o de
30 de Maio de 1618 (9.
D. Francisco Ileiiriques é nomeado «gover-
nador e capitão geral e superentendente das cou-
sas da guerra» pela carta de 20 de Julho de 1622.
Feri150 de Saldanlia 6 nonieado «Governa-
dor e Capp." Geral e supereiiteiidente d:is coii-

(I) Arq. claCatii. d o Futichnl; Registo geral, tGiiio3.0,


fol. 93.
(2) Arq. d a Caiii. d o Funchnl : Registo ~jeicrl,toiiio
3.O, Sol. 102 v.
(3) Arq. da Cntii. do Fuiiclial ; IZegisio geitrl, toiiio
3.O, fol. 102.
(4) Arq. da Cntii. do Funchnl: Registo :]ei,nl, totiio
3.0, fol. 115 v.
( 6 ) Arq. da Catii, do Funclial: l<egisto qcl'nl, totlio
3.0. fol. 202.
sas da guerra» por carta de 10 de Janeiro de
1625 (I) e designado pelos tit~ilosde «Governa-
dor e Capp." Geral», no alvar6 de G de Feve-
reiro de 1625, sobre provimento iiiterino de car-
gos de justiça (=).
D. Francisco de Sousa é nomeado «gover-
nador e cappitão geral e superintendente das
cousas d a guerra» pela carta de 18 de Janeiro
de 1627 (9 e designado pelos títulos de «gover-
nador e capitão geral» no alvará de 28 de Abril
de 1627, sobre provimento interino de cargos de
justiça (4).
B. João de Menezes é designado pelos títu-
los de «geral e superintendente das cousas d a
guerra» no alvará de ordenado de 13 de Abril
de 1633 e).
Luis de Miranda Ilenriques é designado -

pelos titulos de «governador e capitain-mar,> e


«capitão e governador» na carta de nomeação
de 18 de Novembro de 1635 ( 9e pelos de « g ~ i o -

(I) Arq. da Carn. do Funchal: Regisio gei'nl, t o m o


5.0, fol. 31.
(2) Arq. d a Caili. d o Funclial : Registo gercrl, tomo
5.0, fol. 31 v.
(3) A r q . da Cain. d o Fuiichnl: Registo geral, tomo
5 . O , fol. 48 v.

( 4 ) Arq. d a Caiii. d o Fiiiichal : Registo geral, totiio


5.0, fol. 49 v.

(6) T6rre do Toniho, Cl~crncelarind e IiiIib~e 111,


liv. 26, fol. 138.
(6) Arq. d a Caiii. do Funchal, Registo geral, toiiio
6.O. fol. 14.
vernador e capitain gueral» no alvarh de 19 de
Março de 1636, sobre provimento interino de
cargos de justiça (I).
Vê-se. pois, claramente, que a s designações
usadas foram, sucessivainente, geral e szzpez.ii~-
telldeztte das cozlsas d a guerra e govez-nador e
ctrpitdo geral, designações estas que, unias ve-
zes, se encontrain associadas e, outras vezes,
isoladas ou até incoinpletas. O que iiiinca apa-
rece é, justamente, a designaçáo governador
geral.
Quanto à pretendida distiiição entre gouer-
~zadoresgerais (até 1650) e cnpitúes geiiernis
(depois de 16't0), também 6 fácil provar que ela
é siinplestnente tima iiiexactidão.
Vejamos o que se passou coin o s três pri-
meiros governadores, nomeados depois da Res-
tauração: Nuno Pereira Freire, Manuel de Soiisa
Mascarenlias e hlanuel Lobo da Silva.
As cartas de nomeação, re~pectivamente,de
9 de Agosto de 16'tl (e), 21 de Fevereiro de 1645 (9
e 12 de Outubro de 16'41 ('), dizein que êles forain
enviados 2 ilha da Madeira na qualidade de

(I) Arq. rla Catii. d o Funchal, Registo geral, tonio


G.0, fol. 14 v.
( e ) Arq. da Cain. d o Funclial, 12egisto geral, totiio
6.O. fol. 54 v.
(3) Arq. d a Caiii. d o Fiinchal, Registo geral, toiiio
F.O, fol. 69.
( 4 ) Arq. da Catii. do Funclial, Registo geral, toiiio
G.O, fol. 92 v.
«governador, capitarn geral e superintendente
de ambas a s capitanias d a guerra dela» (I).
Só bastantes ano? depois aparece a designa-
ção governador e capitiio general, transforma-
ção de governador e capitiio geral, mas esta
transformação riem sequer inova coisa alguma,
pois que j& em 1633 os terinos geral e general
eram empregados indiferentemerite.
Do Alvará de ordenado de D. João de Mene-
zes, estão registadas duas vias. Numa empre-
ga-se o termo geral:
«Eu el-Rei faço saber aos que este alvara
virem que eu hei por bem e me praz que
Dom João de Meneses fidalgo de minha caza

( i ) Éi curioso iiotar quc o Dr. Álvaro Rodrigues de


Azcvedo transcreve a pag. 621 d a s Saudades d a Tema
uma inscrição de 1654, relativa ao quarto governador
nomeado depois de 1640, Bartolonieu de Vasconcelos,
pertencente, portanto, A serie a que chama dos capiiires
generais, eiii que aquele suposto capitiro general L? desi-
gnado pelos titulos de goueiriador e capitúo geral. Essa
inscrição, relativa 31 fortaleza de Nossa Senhora d a
Conceiçiio, t5 a seguinte:

ESTA FORTALEZA FEZ O GOVERNADOR E

CONCELOS DA CVNHA DA PR.a PEDRA Do


SIM10 ANO 1654 NESTE TEMPO ERA PORVE
DOR DA FASENDA FRAN.co DE ANDRA
DE ASISTIA AS DESPESAS DA F O R T I F I
I CASA^> E A I v D o v Mio E S T A O B R A .
que ora envio a ilha da madeira por geral e
szzperinte~~dente das cousas dír guerra della
tenha e aja de seu ordenado cada ano seis cen-
tos mil rs. per esta i n a ~ i . ' ~ss. quatro centos
mil rs. a custa de ininha faz.8 nas Rendas do
a l t n ~ x e. ~alfandega
~ da cidade do funchal d a
dita ilha e os duzentos mil rs. a custa das Ren-
das d a capitania de machico.. . em a treze
de abril de seis centos e trinta e trez» (I).
Na outra emprega-se o termo general:
«Eu E1 Rey fasso saber aos que este Alvara
viretn que eu hey por bem e me praz que dom
João de Meneses fidalgo de minha caza que hora
emvio a Ilha da por General e supre-
tendente das C o ~ i z a sdn guerra della tenha e
Aya de ordenado em cada hum Anno, em quanto
seruir o dito Cargo seis centos mil rs. pagos por
esta mnn.'" ss. quatro centos mil rs. 31 Custa de
minha faz.8 no A l m ~ x . *e~Alfandegua d a Ciciade
do Funchal d a dita Ilha e os duzentos mil rs.
h a custa d a s Rendas da Capitania de Machico.. .
em .Lisboa a treze de Abril de seis centos trinta
e trez» (%).
Passando ao estudo do problema das atri-
bulções dos govertiaclores e capitães gerais,
veremos quão longe êles estavam de ter a
superintendência geral em todos os ramos d a

(1) T6i.m do Toiiibo: Cliniicelarin d e Filipe III,


iiv. 26, fol. 138.
(2) Torre do Toiiibo: Clinncelniin d e Felipe III,
livro 32, fl. 63.
adtiiinistração pública que lhes teiii sido atri-
buida.
Na adininistração financeira nenliuina iiige-
rência tinliatn; a direcção superior de tais ser-
viços competia ao provedor d a fazenda.
N a parte judicial, a única função do gover-
nador e capitão geral coiisistia, corno se vê dos
documentos atrhs citados, e só a partir de 1609,
no provimento ititerino dos cargos de justiqa
que vagassem por morte ou impedimento dos
proprietArios, provimento êste tão cercado de
restrições, quanto aos prazos, que o exercicio
desta atribiilção cliegou a provocar uin litígio
grave entre o governador D. Manuel Pereira e
a CAinara, tendo sido preso um vereador e
degredado outro, por ordem do governador,
ordem que, porétn, logo foi anulada por carta
régia ( I ) .
Até mestiio e111 outros doininios, coino o
das obras públicas, a acção do govertiador
andava associada, iium pé de igualdade, 5 de
outras entidades. Urna das cartas régias deter-
minando que certas verbas destinadas a obras
de fortificação f6ssern aplicadas a reparos nas
ribeiras associava ao governador geral, na di-
recção das obras a efectuar, o Bispo, a Ctirnara
e o Provedor d a Fazenda, estabelecendo que
elas se fariam «na forrna em que o aseiiitarem

(1) Carta de 21 de Noveiiibro de 1G11. Arq. da CRiii.


do Futichril, To~iibooelho, fhl. 255, e Registo geral,
tomo 3.0, fhl. 88.
o bpo e o geral Cainara e provedor de iniiiha
fazenda da dita Ilha» ( I ) .
A função principal -e, de coin&ço, por
ventura excltisiva-do governador e capitão
geral foi de natiireza inililar: a designaçáo cio
cargo, sizperi~~teztclel~te
&rs cousns drr gnerrtr,
o indica e a s cartas de iioineação, atrás citadas,
o comprovam.
A carta de iioinea~ãode Tristáo Vaz da
Veiga (1585), reprodiizida neste passo nas de
Anthnio Pereira (1590), Diogo de Azambuja de
Ale10 (1594), Cristovam Falcão de Sousa (IGOO),
hfaiiiiel Pereira (IGOZ), e Jorge da Câmara
(1Gi4), fiinclamenta a noiiieação exclusivainetite
ein serviços de natureza militar:
«Vendo eu quoatlto cuinpre a meti serviso
e a defeinsão d a ilha da inadeyra, auer por
Iiora nella pesoa que etntetnda nas cousas de
guerra e a s ponha em hordeiri quoall coinvein
que nela haya pera este efeyto de sua defeiii-
.
são. ,»
A carta de noineaçilo de João Fogaça de
Eça (1604) apresenta uina variante que tein
significado igual: o iioineado 6 enviado à ilha
d a Madeira para a «boa goarda e defemsão .
della~.
Desde 1618 a s cartas de noiiieação, reflec-
tindo a s modificaçoes por que tinlia passado a
acção do governador e capitrio geral, apresen-

( 1 ) Arq. d a Câiiiara dq Fuiichnl: Registo qei.nl,


tqtiiq 3.O, S61. 93.
tain novos f~inclan~entos, ein que, contudo, a
função militar figura coiiio priiiiacial. Assiin, a
carta de nomeação de Pedro d a Silva (1G18)
diz que êle foi nomeado para «defensão e go-
.
verno da jllia d a Madeira.. pera acudir a tudo
o que toca á gera- e paz coin o cuidado e yru-
deiicia que se requere», encontrando-se iguais
expressões nas cartas de nomeação dos seus
sucessore?, cotii excepção do Yltiiiio, Luis de
Miranda, I-Ienriques Pinto, que 6 nomeado, iiiii-
cainente, «por folgiiar de lhe fazer mercê».
Resta-nos agora exp6r os niotivos por qiic
afirinBmos ter sido Tristão Vaz da Veiga o pri-
meiro governador e capitão geral, não o tendo
sido nem João Leitão nem o Conde de Lanqa-
rote, D. Agostinho Herrera.
O Conde de Lançarote foi uni dos comaii-
dantes do presídio espanliol d a Madeira. l? o
que se deduz de um artigo da carta régia de 5
de Seteiilbro de 1583, na qual lhe é concedida
autorização para retirar-se para a sua casa de
Lanyarote. Nesse artigo, o monarca, cíepois de
conceder a autorização pedida, agradece ao coii-
de os serviços recebicios e os que, de f~ituro,po-
der& ainda receber (I).
Os t&riiios itsados na carta régia indicam
stificieiiteinente a natureza da inissão deseinpe-
iiliada lia Madeira por D. Agostinho IIerrera:

( I ) « La llizeiiza que iiie stiplicaie pera volvervoz


...
a vosa casa de latizarote he tetiicio por biene de darvola
y nssi podereiu tisar dela e jrvoz a vosa casa. ..». Arq.
da Criiii. do Vunchal; 12egisto :1crnl, totiio 3.0, fbl. iG3.
«...la voliiiitade cõ que iiie aveis scrvydo ilesa
yslla y Ia coiii que dizeis oz bollvereis a ela por
vosa persoiia y coiii Ia coiipatiliia que vos inã-
dastes quoãdo coinvguese os ngardeço iiiiiclio...+
Estas expressões, coiijugadas coiii o trata-
iiieiito dado ri D. Agostiiiho Ilerrera eni outros
dociiiiieiitos oficiais, são, seguiido lios parece,
suficienieiiiente elucidativas. A carta régia aludc
q u e ele conznizdni.cc, os docutiieii-
11 co~iz~vn~iliin
tos que vainos citar iiuiica lhe dão o trata-
ineiito que ein todas a s circunstâncias recebera111
Tristão Vaz da Veiga e os seus sucessores.
Assiiii, no ter1110 de registo do supra-citado
ariigo lios livros da Câmara, declara-se que o
origitial «o tornou a llevar o si.. Co~zdede lnn-
çcrrote», e, nuni auto que se lavrou d a leitura
oficial do inesiiio artigo, D. Agostiiiho Her-
rera é setilpre, sisteinàticainente, designado pelo
inesino titulo de «conde de Lançarotep (I).
João Leitão tainbéiii iião pertence h série dos
governadores e capitães gerais. O diploiiia de
nonieaçiío, se assiiii não fosse, devia estar regis-
tado na Chancelaria ou 110slivros da Câtiiara do
Funchal. Tal ti50 sucede, porétii, e êste facto é
tanto inais sigiiificativo quanto é certo que são
coiihecidos todos os diploirias pelos quais João
Leitão foi noiiieado para diversos cargos (=).
(1) Arq. da CAni. do Funehal: Itegisto g e r a l , toiiio
3.0, f6l. 163 e 1133 v.
( a ) V. o nosso estudo «O dcsciiibargador Joiio Lei-
táo, pritiieiro govertiador gernl da Aladeira», publicado
Ili.~tóiicos,vol. I ( 1 0 2 4 ) , p. I a 7.
na l<eriista de lL~t.qtir~los
O deseinbargador João Leitão só transitb-
riamente, e seni notiieação especial para o cargo
de governador e capitão geral ou, como entáo
se devia chamar, gera2 e snperinteizdente das
cousas drr giiei.ra, deseinpenhou funções niilita-
res; Sundariientalmente, foi i i t i i funcionário civil,
um corregedor que acumiilou os cargos de pro-
vedor da fazenda, e juiz dos órfãos, residiios,
capelas, hospitais e albergarias, prjtica que sc
repetiu depois coin os setis sucessores-Doinin-
gues Vaz (1585), AiitOnio de Me10 (1590), Eer-
nardo Feriiandes Tinoco (1595), Andri, Lobo
(1592) e Baltazar Frois (1599) (I,).
Quando, porém, %stes argumentos fbssein
iiisuficientes, outros inais nos forneceriam v &
rios docun~entos.
Uinn carta régía dirigida h C%inarado Fun-
chal eiii 14 de Abril de 1582, revela-nos que João
Leitão foi portador de instruções de natureza
militar.
«Juizes vereadores e procurador da Cidade
do fali Etr ElItey vos envio mtosaudar vy a s cartas
q me escrevestes de 22 de SevLo 21, e 22, de março, e
folguei de entenderdes o intento e bons respei-
tos por q mandei n essa ilha o LLluJoão Leitão
e confio de v6s q entudo o ajudareis.. ., e no q
toca aos cosairos vos encoiiiendo tenhaes grande
vegia esiguaes entudo a orde de Ja Leitão e p

(1) Depois o8 cnigou atk ciit50 esercidos por uni


mesmo funcion5rio passatil novnirientc n 85-10 por và-
rios, cotiio antcriornicntc 9 notrieay%ode Joáo Leitáo.
elle inandei recado aos capitães sobre q me
cscreveis/escrita ein Lxa a xiiij de abril de 1582.
licy» ( I ) .
Que João Leitão foi i1111 mero portndor
daquelas ordens provam-no, não s6 o teor do
docutnento transcrito, mas também dois autos
posteriores, um de 25 de Abril de 1582 e outro
de 5 de Maio de 1582. No primeiro declara-se
ter sido lavrado «na jllia d a madeira na cidade
do funclial nas casas da camra da dita cidade
estando liy presente n a dita cainara 110 siior
lleçetnseado João leytão do desenbarguo de11 Rey
nosso Snnor que hora estaa nesta dita ilha eiii
-

causas de serviço do djto snnor cie sua fazenda


e justiça» ( 2 ) . No segundo declara-se ter sido
escrito nas «casas da fortaleza desta cidade
donde pousa ho snr. desenibargador ho L.do
jo leytão» (3).
Isto pelo que se refere aos tetiipos anterio-
res à vinda do conde de Lançarote.
Que posteriormente h retirada do conde,
tninbéin se não fez nomeação iicnhuma especial
em favor de João Leitáo, prova-o, indirecta-
mente, a carta ao conde de Lançarote, atrhs
citada, oiidc se diz «quedando a j J~iaiiidaranda
y a su cargo s u l a ~ n . *la~ gente de gerra de s u

(i) i ~ l r q d. a Câtii. do:Punchal: Toiilbo velho, f6I. 143.


(2) Arq. da Câni. d o Funchal; Regirrio g e r a l ; to1110
3.0, fo1. 1GO.
(3) Arq. d o C:"iiii.d o Fiiticlial, Xegisto g e r a l , toiiio
2.0, fbl. 191 v.
cõpanhia. P que 10 de Ia terra tocara a ini cor-
regedor de la dita yslla», o auto de leitura da
tnesma carta, também atrás citado, onde Jofio
Leitão é simplesmente designado pelo titulo
de deseinbargador, e, ainda, a carta de no-
ineação de Domingos Vaz, de 3 1 de Maio de
1585 (I), onde se lê: «ey por bem e tne praz
de 110 emvyar ora a ilha d a inadeyra e ilha
do Porto Santo para nella eintemdcr e pro-
ver nas cousas de just." e de tnytiha fazenda
-
q pertence aos carreguos de corregedor e pro-
vedor dos Residos e capellas e provedor de my-
nha fazenda asy e d a inaneyra ç1 em tudo ser-
vyra o leceinceado João Leytáo do meu desein-
barguo e desembarguador da casa da supli-
cacão ij hora mando vir e ysto por teinpo de
tres anos otr pello tempo que eu ouver por betn
emyuãto não mandar o contradro.. .».
A data desta carta 6 bastante anterior d a
noineação de Tristão Vaz da Veign para o cargo
do governador e Capitão geral. Portanto, se
João Leitrío recebia ordein para regress:lr, evi-
deaemente não deseinpenliava cargo alguin
a16111 dos que a carta transcrita indica. De con-
tr&rio o rei provideiiciari:i tainbein relativa-
mente a êssc outro cargo.

(I) Arq. da Chrn. do li~iiichal:Regisfo gei.nl, toiiio


2.0, f6l. 214, e toiiio 3.0, f61. 1Gl v.

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