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Sudão: A geração que não conhece a paz

Uma geração inteira de sudaneses está a crescer num clima de extrema insegurança e medo.
Dos 4 milhões de pessoas afectadas pelo conflito a decorrer no Darfur, 1.8 são menores de
18 anos. Dos 2.3 milhões de pessoas deslocadas, aproximadamente 1 milhão são crianças.
Desde Abril de 2006 este conflito deu origem a mais 120.000 crianças deslocadas. Em
Fevereiro de 2008, as forças Sudanesas e as milícias apoiadas pelo Governo atacaram várias
aldeias em Darfur Ocidental. Centenas de crianças foram separadas dos seus pais ao
tentarem fugir; duas semanas depois dos ataques a Unicef anunciava que cerca de 800
crianças continuavam desaparecidas.
As crianças que agora completam 5 anos, nunca conheceram a paz – cinco anos marcados
pelo falhanço da comunidade internacional em responder adequadamente à magnitude desta
crise.

Juventude desesperada: uma geração ressentida

Segundo o Relatório anual de 2007 da Amnistia Internacional, em Julho de 2006 foram


mortas mais de 72 pessoas, entre as quais 11 alunos do ensino básico, durante os ataques
perpetrados pela facção Minawi – aliada do governo - do Exército de Libertação do Sudão
contra populações do norte de Darfur aparentemente sob o controlo do Exército de Libertação
do Sudão. Apesar da Missão da União Africana no Sudão (AMIS) se encontrar no terreno, foi
acusada de não responder aos pedidos de ajuda. Em Novembro do mesmo ano, foram mortos
50 civis, incluindo 21 crianças com menos de 10 anos, quando as milícias Janjawid
atacaram oito aldeias e um campo de deslocados em Jebel Moon (Darfur Ocidental). Também
nesta altura se acusaram as tropas da AMIS de chegarem apenas no dia seguinte ao ataque.
Em resposta, o governador de Darfur Ocidental prometeu realizar uma investigação, mas no
final do ano ainda não tinham sido apresentadas publicamente as conclusões.

A situação dos jovens envolvidos no conflito agrava-se de dia para dia, correndo-se o risco de
toda uma geração ficar permanentemente marcada pelo clima de medo e insegurança da
região.

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“Quantos são os que estão mortos e quem cuidará das suas
famílias? Olhem os campos: não há segurança e não existem escolas
primárias. Esta geração será a geração da ira.”

Mohammed, activista político de Darfur

Actualmente, graças a uma mobilização massiva da UNICEF e de várias ONG, existem em


todos os campos escolas primárias que proporcionam ensino a 28 % das crianças em idade
escolar, das quais 46 % são raparigas. Ainda que os valores totais sejam bastante baixos, são
no entanto, maiores que os registados antes de começar a crise na região.
Contudo, antes do surgimento do conflito os jovens tinham acesso ao trabalho no sector agro-
pecuário e noutras áreas, situação que já não se verifica.

Alguns dos rapazes que vivem perto das cidades ou em zonas relativamente seguras ainda
conseguem encontrar trabalho como carregadores, cuidando de gado ou trabalhando no
mercado, mas na sua maioria os jovens permanecem inactivos.

“ Os rapazes de 18 anos estão perdidos, não têm


trabalho, especialmente os que terminaram os seus
estudos, vivem de ajudas”

Ali, deslocado residente no campo de Abu Shouk

As raparigas deslocadas que vivem nas cidades ou perto delas podem encontrar trabalho,
ainda que mal remunerado, como lavadeiras ou fazendo limpeza, mas encontram-se muito
expostas aos abusos.

“As raparigas que vão trabalhar na cidade têm de trabalhar de uma forma muito dura porque a
remuneração é muito pequena. Lavam roupa todo o dia. A uma rapariga não lhe deram comida durante
todo o dia, apenas algumas bolachas, e ela estava completamente esgotada. Trabalham muito para ser
independentes da sua família, mas muitas vezes o dinheiro que ganham gastam-no em cosméticos…
às vezes são abusadas sexualmente e ficam grávidas. Depois é possível que se submetam a um aborto
e coloquem em perigo a sua vida, tudo isto feito no maior segredo”

Abdel Rahman, activista de uma ONG de Al Yeneima

Em Darfur, os ataques que levam as pessoas a abandonar as suas terras resultam não só em
mortes, mas também em violações sexuais. As mulheres, entre as quais crianças, foram
violadas numa escala sem precedentes durante a campanha de desalojamentos forçados

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depois de 2003. As milícias Janjawid utilizam a violação como arma de guerra para humilhar
e castigar os seus oponentes. Muitas vezes fazem estas violações em público e levam
algumas das mulheres para os campos das milícias obrigando-as a viver durante meses como
escravas sexuais.
À medida que os desalojados fogem para o campo procurando refúgio nos campos de
deslocados ou nas aldeias, as milícias Janjawid continuam a atacar e a violar as mulheres
que se aventuram a sair em busca de lenha ou água, ou para irem ao mercado.

“Um domingo, depois do ataque a Djawara, algumas raparigas da nossa


aldeia foram recolher lenha e encontraram no caminho alguns Janjawid.
Uma delas conseguiu escapar e veio avisar-nos. Quando nós, os pais e
outros habitantes da aldeia, chegámos ao local os janjawid dispararam
contra nós. Tinham violado quatro raparigas. Aqui as raparigas têm a
obrigação de se casar, mas ninguém vai querer casar com estas crianças
depois do ocorrido. As quatro raparigas têm 13,10,12 e 9 anos”

Habitante de Djawara

Em certas ocasiões, como no campo de Kalma, os jovens formam grupos de vigilância. Vivem
numa situação em que parece não existir esperança e independentemente do que façam,
podem ser acusados de pertencer a grupos armados. Furiosos e frustrados, alguns aliam-se a
grupos armados, apesar deste facto ser negado na maior parte das vezes pelos chefes de
campo.

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“ Os adolescentes não podem abandonar os
campos. Se o fazem o governo irá investigar
a situação, e poderá espancá-los ou detê-los,
acusando-os de apoiar os Tora Bora e
chamando-os de fora-da-lei. Quando entram
em desespero, os jovens unem-se aos
movimentos, ainda que contra a vontade
paterna.”

“Ibrahim”, membro do comité administrativo do


campo de Kalma

Quanto aos adultos, estes referem o seu desespero perante a desunião que paira sobre uma
sociedade em que “os jovens não nos escutam porque não temos trabalho.”

“Agora acontecem muitas coisas que não aconteciam antes. Em


Kabkabiya os deslocados internos mendigam nos mercados, nas
organizações e nos departamentos do governo. Antes nada disto
ocorria. Chegam ao ponto de irem aos restaurantes e comerem os
restos de comida que são deitados ao lixo. Agora está-se a
generalizar o hábito de fumar bhangu (marijuana) e respirar vapores
de petróleo. Durante a noite ocorrem tiroteios indiscriminados e
ninguém está seguro. Alguns dos jovens optam por incorporar-se nos
movimentos, devido a este tipo de pressões”

“Adam”, trabalhador de Kabkabiya

É muito difícil calcular a dimensão que atinge o recrutamento de menores para os grupos
armados, os janjawid e os grupos paramilitares. Quando contactados, os chefes de duas
facções distintas do Exército de Libertação do Sudão na zona de Jebel Marra reconheceram
que no passado era costume recrutar menores “mas depois a Cruz Vermelha organizou um
workshop onde nos explicou que não deveríamos continuar a recrutar crianças e então
deixámos de o fazer e mandámo-los de volta”.

Informação Adicional

“Peço a todas as pessoas que pensem nos refugiados que se encontram alojados nos campos ou no
exílio… vivem uma vida sem futuro, marcada pelo sofrimento e pela fome e constroem uma juventude
sem esperança… peço a todos que pensem nos milhares de pessoas mortas… Vamos esperar para
oferecer-lhes respostas? Acreditam que estas pessoas podem esperar muito mais tempo? Acreditam
que podem continuar a viver em tais condições?”

Professor Alpha Oumar Konaré, presidente do Conselho da Paz e Segurança da União Africana, Outubro de 2007

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Acredita-se que mais de 90.000 pessoas perderam a vida como consequência directa do
conflito que decorre em Darfur desde 2003. Calcula-se que cerca de 200.000 foram mortas
devido a causas relacionadas com o conflito, e mais de 2.3 milhões terão sido deslocadas a
nível interno. Em 2003, enfrentando uma rebelião, o governo sudanês aproveitou as tensões
existentes para fornecer armas a milícias locais e usar a acção destas como apoio às forças
governamentais, terrestres e aéreas, com o objectivo de deslocar, por meio de força, centenas
de milhares de pessoas.

A maioria das pessoas, obrigadas a abandonar as suas casas e comunidades, encontram-se


alojadas em mais de 65 campos para deslocados internos, situados em distintas partes de
Darfur, enquanto outras procuraram refúgio noutras cidades do país, em casas de
particulares ou de alguém disposto a oferecer-lhes um espaço em sua casa. Para além
destas, centenas de pessoas optaram por deslocar-se para os montes, onde sobrevivem
precariamente à base de cereais e frutos silvestres, ou com a ajuda dos residentes da zona
que se salvaram dos ataques. Outros milhares fugiram para cidades de outras regiões do
Sudão, principalmente para o Estado vizinho, Kordofán. Algumas chegaram mesmo à parte
Este de Darfur, e outras escaparam para Cartum. Cerca de 240.000 pessoas provenientes de
Darfur vivem em 12 campos de refugiados a Este do Chade.

Vastas zonas de Darfur ficaram desabitadas e quase vazias, permanecendo na zona apenas
alguns grupos de nómadas ou algum povo isolado, mas todos em situação de frágil equilíbrio.
Em algumas zonas, o único rasto que permanece das populações que aí habitaram são as
plantas que ainda crescem, ou as casas queimadas e abandonadas, após a fuga da
população.

Muitas famílias foram deslocadas à força em várias ocasiões, e os campos para refugiados
continuam a acolher as vítimas do conflito. Segundo dados da ONU, em Outubro de 2007
foram deslocadas mais 30.000 pessoas como consequência de uma série de ataques
lançados contra Muhageria, no sul de Darfur, e contra Bir Dagig e Umm Dukhum, em Darfur
Ocidental. Com estes novos números, o total de pessoas a sofrerem deslocações entre Janeiro
e finais de Novembro de 2007 ascende a aproximadamente 280.000.

Desde 2004, através de uma operação de ajuda humanitária massiva, têm-se vindo a
proporcionar água, alimentos, educação primária e serviços de saúde a mais de 4 milhões de
pessoas deslocadas e a outras que, não sendo deslocadas se viram submergidas na pobreza,

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como resultado do conflito e dos ataques. Mas o problema persiste pois, como referiu um
deslocado no campo de Mershing “as ONG dão-nos água e comida, mas não podem dar-nos
segurança”

A falta de segurança em Darfur

O governo do Sudão continua a levar a cabo ataques aéreos e terrestres, manifestando


absoluta indiferença pela necessidade de protecção da população civil. Em 2006 o governo
sudanês e um dos grupos armados que combatiam em Darfur, o Exército de Libertação de
Sudão-Minni Minawi (SLA/MM) assinaram o Acordo de Paz de Darfur, mas desde então só
um pequeno número de facções armadas assinaram este acordo. Ainda que não tenham sido
aplicadas a maioria das medidas previstas pelo acordo, algumas zonas de Darfur e postos do
governo foram entregues ao SLA/MM ou a outras facções que aceitaram o Acordo de Paz.

No entanto, em vez de desarmar os Janjawid, conforme os compromissos assumidos em


numerosos acordos inclusive no Acordo de Paz, o governo Sudanês facilitou-lhes mais e
melhores armas e incorporou-os em organizações paramilitares: as Forças Populares de
Defesa, a Polícia Popular, a Polícia Nómada e a Guarda de Fronteiras.

O conflito entre grupos étnicos (incluindo o conflito


entre grupos árabes) não cessou. Algumas das
milícias Janjawid usam o uniforme das forças
paramilitares governamentais, deslocam-se em
veículos do governo e estão armados com granadas.

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Mais de 400 pessoas morreram em conflitos armados ocorridos entre Janeiro e Agosto de
2007, quando homens da zona de Rizeigat, na sua grande maioria vestidos com o uniforme
da Guarda de Fronteiras, atacaram povoações habitadas por membros da etnia tarjem. A
maioria dos mortos eram residentes que lutaram para se defender, mas registaram-se
também mortes de idosos e pessoas demasiados débeis para fugir.

Os dois grupos armados que se opuseram ao governo em 2003, e assistiram às conversações


de paz em 2006, fragmentaram-se no final deste ano. Segundo diversas fontes, o número de
grupos armados da oposição alcançaria os 50. Alguns grupos são maiores e dispõem de mais
armas do que outros. Alguns grupos não têm qualquer tipo de representação política, salvo
nas conferências da paz que estão a ser realizadas na Líbia, e não parecem ter qualquer
política para além de saquear veículos e extorquir a população com vista à obtenção de
dinheiro. Actualmente aos grupos armados, não árabes, têm-se unido a grupos armados
árabes, alguns dos quais contando com um programa político e mantendo vínculos com o
Exercito de Libertação do Sudão (SLA), e outros, formados por ex-janjawid que consideram
que foram enganados pelo governo. Distintas facções dos grupos armados árabes aliaram-se
ao governo, cooperaram com os grupos armados da oposição ou permaneceram
independentes, usando o seu armamento para levar a cabo saques à população.

As deslocações nas estradas


e caminhos de Darfur são
perigosos. Os grupos armados
sequestram veículos e matam
trabalhadores de ajuda
humanitária, sendo
responsáveis, só em Outubro
de 2007, pela morte de 7
trabalhadores, e no período
compreendido entre Janeiro e
Novembro pelo sequestro de
128 veículos pertencentes à ONU e outras ONG. Um defensor dos direitos humanos que se
deslocou de Nyala a Al Fasher em Outubro de 2007, relatou que, durante a sua viagem de
200 km, se viu obrigado a atravessar 14 postos de controlo: pertencentes ao governo, aos
Janjawid, ou a vários grupos armados derivados da ex-SLA, e ao Movimento Justiça e
Igualdade, que em alguns casos eram apoiantes do governo, e noutros seus opositores.

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Em 2007, se é que existiu alguma mudança, foi para pior. Uma força da União Africana, a
Missão da União Africana no Sudão (AMIS), encontra-se em Darfur desde 2004, com o
objectivo de proteger a população civil. No entanto, a AMIS, com o seu pessoal
sobrecarregado e sem meios de transporte adequados e suficientes, tem-se mostrado incapaz
de defender não só a população local, mas inclusive os seus membros, sendo que em
Setembro do último ano 17 soldados chegaram mesmo a morrer em Haskanita, às mãos de
grupos armados da oposição.

Darfur têm sido também gravemente afectado pelo problema da proliferação de armas
ligeiras, um problema cuja responsabilidade se reparte entre o governo, que inundou a região
de armas, a maioria das quais fornecidas às milícias janjawid, e os inumeráveis grupos
armados da oposição, que importam armas com destino a Darfur e aos campos de refugiados
internos. A presença destas armas e de uma geração de jovens frustrada e revoltada que vive
nos campos sem fazer nada, só poderia ter resultados negativos, e tem dado lugar a um
aumento do recrutamento nos grupos armados da oposição.

Quem mais tem sofrido durante a crise de Darfur são as pessoas obrigadas a abandonar as
suas casas, quer sejam deslocados internos ou refugiados, situação que tem sido, na maior

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parte das vezes, ignorada, enquanto o governo e os grupos armados se envolvem em disputas
verbais. Não poderá existir uma paz duradoura a menos que se garanta o respeito e a
protecção dos direitos humanos a todas as pessoas deslocadas. Entre estes direitos figuram:
o direito a regressar aos seus lares voluntariamente, em condições de segurança e dignidade,
ou optar pela integração local; o direito à vida e à integridade pessoal; o direito a uma
compensação efectiva, que deve incluir indemnização, restituição e outras reparações; o
direito à liberdade de expressão; o direito a que se ponha fim à impunidade de que
desfrutam os perpetradores; e por último mas não menos importantes os direitos económicos,
sociais e culturais da população da região, como por exemplo o direito a uma alimentação
adequada, água, saneamento básico, habitação e educação.

Amnistia Internacional Portugal


Abril 2008

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