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MARCHIORI, P. Z.. Acessar ou possuir, eis a questão. In: 9o.

Seminário Nacional de Bibliotecas


Universitárias, 1996, Curitiba. Anais. Curitiba: PUCPr, 1996. p. 5.1. (disquete ¾)

ACESSAR OU POSSUIR

EIS A QUESTÃO...*

Patricia Zeni Marchiori**

RESUMO

Aborda as discussões relacionadas com as mudanças conceituais da instituição biblioteca,


orientadas pela utilização da tecnologia dos computadores e das telecomunicações.
Apresenta a opinião de autores estrangeiros quanto as modificações nos processos de
desenvolvimento de coleções e o incremento e redimensionamento das estratégias de
acesso. Destaca a importância da tomada de decisões e os impactos do binômio
acervo/acesso em bibliotecas universitárias e seus usuários.

Palavras-chave:

Acervo versus Acesso; Desenvolvimento de coleções; Consórcios de Bibliotecas.

* Trabalho apresentado no IX Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias. 30 de outubro à


01 de novembro de 1996. Curitiba, Paraná
** Professora Assistente II do Departamento de Biblioteconomia da Unversidade Federal do
Paraná. Mestre em Ciência da Informação (CNPq/IBICT/UFRJ/ECO). Doutoranda em Ciência
da Informação e Documentação (ECA/USP)
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A Biblioteca é Mais que uma Coleção de Livros

A biblioteca é o prédio ou uma estrutura? É um fenômeno social e intelectual

associado com um lugar? É uma coleção de material e informação? É um catálogo de

pontos de acesso?... É com estas questões que Laverna SAUNDERS (1995, p. 41) inicia

seu artigo, refletindo sobre a concepção da biblioteca no que diz respeito ao

desenvolvimento de coleções e, mais especificamente, à atividade de aquisição.

O senso comum, a literatura leiga e especializada têm por vezes, reunido todos ou

alguns aspectos citados acima, cuja discussão é fortemente influenciada pelas experiências

individuais, aliadas às condições históricas, estruturais, culturais, sociais, econômicas e

políticas em que as bibliotecas surgem e se desenvolvem. Um acervo contido entre quatro

(ou mais) paredes é, geralmente a idéia mais difundida e aceita de biblioteca, assim como a

imagem do bibliotecário está relacionada mais com a instituição em que desenvolve seu

trabalho do que com as próprias atividades de localização, organização e disseminação de

informação.

A partir do século vinte alguns fatores contribuiram para modificar, com maior ou

menor intensidade e, mais ou menos sutilmente, não só a estrutura das bibliotecas, como o

trabalho e a formação dos bibliotecários. Dentre estes, pode-se citar:

1. o surgimento dos meios de comunicação de massa, como o rádio e a televisão;

2. a frenética atividade de pesquisa e de produção de informação;

3. o barateamento da produção bibliográfica;

4. a enxurrada de novos suportes informativos;

5. o rápido desenvolvimento das telecomunicações e da informática;

6. a crescente crise econômica mundial.


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A repercussão destes e outros fatores, aliadas às novas concepções e usos da

informação, têm gerado uma síndrome de utilidade e de papéis por parte das bibliotecas e

dos bibliotecários, instando-os a redimensionar os conceitos e atividades relacionadas à

recepção e armazenagem dos produtos do conhecimento humano, reorientando, instituição

e profissional, para uma atitude ativa no processo de disseminação de informações. Este

repensar implica não só na etmologia da palavra biblioteca enquanto "coleção de livros",

mas nas atitudes profissionais relacionadas com o tutoramento de acervos e às

possibilidades crescentes de acesso à informações.

Os avanços da tecnologia interessam não somente para bibliotecas e redes de

bibliotecas, mas também para a indústria da informação e os produtos que esta oferece para

bibliotecários e usuários. Pode-se dizer que os pioneiros nesta indústria foram os sistemas

de recuperação de informação desenvolvidos pelo setor privado, como por exemplo o

sistema DIALOG, que provê acesso à centenas de milhões de registros, estruturada sob

uma rede internacional de telecomunicações, nos serviços de correio eletrônico e nos

serviços de busca de documentos online.

A velocidade com que a Indústria da Informação se desenvolve tem levado as

bibliotecas a se preocuparem com novas questões e preocupações no nível teórico e

prático. No nível prático, a existência da Internet por exemplo, que permite o acesso remoto

à inúmeras fontes de informação, tem levado alguns estudiosos a alertarem para o risco do

desparecimento de algumas funções hoje privativas das bibliotecas. No nível teórico, as

bibliotecas enfrentam o dilema de "possuir" uma coleção local de materiais ou incrementar o

acesso à materiais na base do "pague-e-leve".

Estas reflexões podem à primeira vista, indicar que não haverá mais a necessidade de

bibliotecas. Contudo, é provável que estas continuem a ter coleções (mesmo que em

suportes eletrônicos), porém com orientações não-convencionais quanto às estratégias e

políticas de seleção e aquisição de coleções, assim como na "filosofia" das concepções e

diretrizes do controle bibliográfico e da disponibilidade de publicações/documentos.


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Longe de ser uma questão consensual, as discussões relacionadas com a

manutenção de acervos, aliadas ou desconectadas da provisão de acesso à informações e

documentos, têm afetado o paradigma da tradicional estrutura e missão das bibliotecas. O

novo paradigma preconiza, em especial para as bibliotecas universitárias e de pesquisa, que

a importância de uma biblioteca não se resume ao seu acervo interno, mas à sua

capacidade de prover acesso para além das possibilidades dos documentos bibliográficos e

de sua coleção limitada. Neste movimento para o acesso, a cooperação entre as bibliotecas

torna-se prioritária, assim como um aumento na confiança quanto às possibilidades das

tecnologias de informação eletrônica. Esta mudança de paradigma já está afetando

diretamente a criação da informação ela mesma, seu empacotamento e distribuição, as

questões de direito autoral, com reflexos imediatos na maneira com que os bibliotecários

constroem e gerenciam coleções (RUTSTEIN, et alii, 1993, p. 33-35).

Desenvolvimento de coleções : um reposicionamento conceitual

As coleções de bibliotecas têm sido construídas com base em influências e coações

institucionais. Poucas são desenvolvidas deliberadamente para servir às necessidades dos

indivíduos que não estão diretamente comprometidos com a organização que comporta a

biblioteca. Assim, a natureza da coleção é influenciada por uma série de fatores, tais como

as demandas dos usuários, as decisões administrativas, as ações governamentais, a

disponibilidade de recursos de informação e mais claramente, as questões econômicas

(FLEET, WALLACE, 1993, p. 307). Assim como existem bibliotecas que, por suas funções,

objetivos, perfil de usuários, leque de atividades e serviços investem na preservação dos

documentos e da memória de um determinado país (as bibliotecas nacionais por exemplo),

outras, como as bibliotecas especializadas, orientam-se para a busca de informação,

independentemente dela existir em seu acervo interno. As bibliotecas escolares, públicas e

universitárias estão em uma situação mais delicada, uma vez que se orientam tanto para a
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preservação, no sentido da construção e manutenção de um acervo que previna e antecipe

as necessidades de informação de seus usuários, como estão comprometidas com o acesso

de itens demandados que têm grande chance de não se encontrarem no acervo interno.

As coleções sempre foram a base de qualquer biblioteca. Joel RUTSTEIN afirma que

as coleções definem a essência de uma biblioteca, cujos os prédios são construídos para

guardar e manter materiais localmente. Estudos feitos em países desenvolvidos, indicam

que aproximadamente dois terços do orçamento operativo da biblioteca é direcionado para a

aquisição, processamento e preservação destes recursos. Assim, as coleções também são

um símbolo de status para uma biblioteca (1993, p. 34). Jasper SHAD adverte que a noção

de que grandes coleções automaticamente resultam em boas bibliotecas é um dogma tenaz

que tem persistido por mais de dois milênios (1992, p.4). Irene HOADLEY adiciona que a

sociedade sempre trabalhou muito o conceito de que o maior é melhor, e que este

posicionamento refletiu-se no fato das bibliotecas terem sempre sido avaliadas por seus

tamanhos. Porém, a autora pergunta: o fato de uma biblioteca ter três vezes o tamanho da

outra, a torna três vezes melhor? Para ela, o tamanho tem sua relevância, mas mais

importante é a qualidade dos documentos que sustentam ou compõem o volume numérico

do acervo (1993, p. 191). Estes autores concordam que muito da discussão sobre o acervo

e acesso à informações passa pela discussão do desenvolvimento de coleções.

Atualmente, a gerência de coleções necessita levar em conta que as coleções

inevitavelmente se sobrepõem, uma vez que as necessidades das instituições não são

únicas, que os recursos de informação não são infinitos e que a crise financeira vem

dificultando ainda mais as ilusões de auto-suficiência que as bibliotecas pretendem ter.

Jasper SHAD explica que a onda inflacionária que abalou as aquisições nas bibliotecas

universitárias, principalmente dos periódicos estrangeiros na área científica, técnica e

médica, fez mais do que somente "achatar" orçamentos de materiais, reduzir a compra de

livros e forçar as bibliotecas acadêmicas a cancelar assinaturas de jornais, fez,

principalmente, com que os bibliotecários pensassem em como lidar com esta situação.
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Algumas estratégias foram desenvolvidas e podem ser divididas em duas categorias

distintas: a primeira, de luta a curto prazo representada pelo cancelamento de assinaturas

(particularmente daqueles títulos com aumentos abusivos), redução da compra de

monografias, redimensionamento dos orçamentos, obtenção de mais dinheiro para o

orçamento de compra de materiais e, negociando-se melhores preços com os editores e

publicadores. Uma segunda e diferente perspectiva apareceu, quando os bibliotecários

olharam para além do problema à mão, enfatizando a mudança do papel da biblioteca, de

depositária de recursos para servidora de acesso, levando-se em conta que as maiores

bibliotecas de pesquisa deverão manter suas grandes coleções retrospectivas. Para as

bibliotecas universitárias em particular, os projetos vagarosos e debilitantes de

cancelamento de periódicos são desencorajantes, não sendo surpreendente que a maioria

dos bibliotecários de bibliotecas universitárias continue a acreditar que suas coleções devem

expandir-se apesar dos aumentos nos custos (1992, p.4-5).

O fato é que a educação superior está enfrentando um período crítico de austeridade

monetária em todo o mundo, sendo ainda mais ressaltado nos países em desenvolvimento,

como o caso o Brasil. Os orçamentos para as bibliotecas universitárias não voltarão a ser

generosos (se é que um dia assim o foram) e o cenário que se descortina indica que as

bibliotecas irão poder comprar cada vez menos. Estas mudanças têm um grande impacto

nos processos de seleção e aquisição, e uma grande atenção será dada para a aquisição

que venha ao encontro da necessidade imediata do usuário (e não da necessidade

antecipada), havendo uma expansão no papel do usuário no processo de seleção.

Para SHAD, o ponto fundamental da redefinição no desenvolvimento de

coleções é o abandono da noção persistente de que a seleção é uma função primária.

EDELMAN (citado por SHAD) reconceitualizou o desenvolvimento de coleções, declarando-

a uma função de planejamento, em que a seleção ocupava um papel secundário,

dependente da tomada de decisões para implementar tal plano. Nesta orientação, os


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responsáveis pelo desenvolvimento de coleções precisariam focalizar sete áreas, de modo a

responder às demandas de um novo ambiente:

• planejamento: definir, descrever e priorizar as necessidades de informação


institucionais, tendo como objetivo maior manter o equilíbrio da coleção. Os
responsáveis devem especificar mais precisamente o que poderá ser adicionado à
biblioteca, baseados na importância dos vários assuntos, nas atividades de ensino e
pesquisa e demais fatores utilizados para tomada de decisões relativas à seleção;

• alocação de recursos: o fato de se ter menos dinheiro pode intensificar a competição


entre os departamento da universidade, aumentando a preocupação dos professores,
alunos e pesquisadores quanto aos critérios e a justiça do processo de decisão sobre
seleção, compra e descarte de materiais;

• ligações com os professores: como as aquisições tendem a declinar, especialmente o


número de assinaturas de periódicos, os professores poderão insistir em participar na
seleção. Qualquer que seja o papel dos professores, o pessoal encarregado do
desenvolvimento de coleções deverá dispender tempo extra para explicações, mesmo
que isto signifique ouvir expressões de preocupação, raiva e frustração. Esta é uma
oportunidade de alertar e sensibilizar os professores e pesquisadores à realidade e as
condições disponíveis;

.• Desenvolvimento de coleções cooperativas: há muitos argumentos à favor de que


grupos de bibliotecas articulem seus recursos com base na ênfase da instituição
mantenedora ou outros fatores. A promessa de desenvolver coleções conjuntas se torna
cada vez mais atrativa quanto mais difícil é, para uma biblioteca sozinha, sustentar
coleções exaustivas. O planejamento deste tipo de cooperação deve prever uma
inevitável tendência a se suspenderem as assinaturas dos mesmos títulos pelas
bibliotecas que emprestam uma das outras. Uma vez que o empréstimo inter-
bibliotecário permanece como uma importante fonte para o acesso a estes títulos, as
bibliotecas cooperantes se beneficiarão do fato de planejarem a retenção de pelo menos
uma assinatura;

• Avaliação: passou-se o tempo em que as bibliotecas poderiam continuar assinando os


periódicos especializados sem estabelecer seu uso. A enorme complexidade e a
natureza intensamente política deste problema, pode facilmente consumir todas as
energias dos responsáveis pelo desenvolvimento da coleção. Os periódicos devem ser
avaliados e adquiridos conforme sua relevância comprovada;

• Alternativas de aquisição: na avaliação de pedidos de compra, atenção especial deve


ser dada ao melhor caminho para a obtenção do item, questionando o uso efetivo que
este item poderá receber, os formatos nos quais está disponível e de quais fontes pode
ser obtido. Também é necessário decidir se ele pode ser obtido mais rapidamente e à
menor custo por meio do empréstimo inter-bibliotecário, ou por alguma outra opção que
não a da compra;
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• Eficiência na seleção: os selecionadores devem planejar o desenvolvimento de


coleções de modo a reduzir o tempo dispendido na seleção título-à-título. Uma
possibilidade é recrutar pessoas do próprio campus para efetuar a seleção. Alguns
"bibliotecários" paraprofissionais podem possuir a especialidade desejada e ter um
interesse em coleções. Porém, os selecionadores leigos precisam compreender os
objetivos mais amplos do desenvolvimento de coleções, devendo ser cuidadosamente
escolhidos e treinados.

Estratégias de Acesso : Ampliando a Função Informativa das Bibliotecas

Universitárias

Stuart JAMES eslarece que as bibliotecas têm, tradicionalmente, baseado seus

serviços em uma filosofia de posse de acervos, comprando, emprestando ou tornando

disponível por meio do serviço de referência, os livros, periódicos e outros documentos (em

diferentes suportes) demandados pelos usuários ou que, potencialmente, podem ser

solicitados. O aumento do empréstimo inter-bibliotecário, a proliferação de serviços

eletrônicos e redes de informação têm modificado o conceito e as estratégias de acesso, em

parte reforçadas pelo uso de serviços online em redes internas e externas. No cenário que

se descortina, os usuários podem buscar a informação que necessitam com base em um

leque de fontes eletrônicas, que podem ou não levar a um documento impresso, que mesmo

não disponível localmente, tem grandes chances de ser obtido em algum ponto do planeta.

Isto implica em uma combinação de acesso remoto, redes e armazenagem ótica, em que a

busca e a disponibilização da informação se processa em uma estação de trabalho

individual, fazendo com que o tradicional modelo de biblioteca, voltado para a armazenagem

e provisão de documentos, se torne obsoleto. Para muitos, esta é uma projeção tentadora e

lógica, que pode resolver muitos dos problemas atuais causados pela rigidez na estrutura

atual das bibliotecas, na medida em que oferece acesso à uma base de inteligência e

conhecimento totalmente integrada, possível de ser manipulada pelos usuários

individualmente, e conforme suas demandas pessoais. Caso se considere que o futuro

das bibliotecas repousa largamente nas estratégias de acesso, a questão é: quando este

futuro chegará, dadas as limitações dos sistemas atuais? O fato de mais e mais tecnologias
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estarem sendo disponíbilizadas e muitas bibliotecas já operarem com base na estratégia de

acesso em graus variáveis; depende de fatores como disponibilidade de recursos, filosofia

ou atitude do pessoal da biblioteca e da demanda (ou mesmo a simples aceitação) por parte

dos usuários. Nesta perspectiva, o empréstimo inter-bibliotecário poderá ser suplementado

pela disponibilização de documentos eletrônicos, que inevitavelmente serão afetados e

dependentes das telecomunicações. O que se pode projetar à curto e médio prazo para

muitas bibliotecas (e à longo prazo para algumas) é que ambas as estratégias de acervo e

acesso irão operar conjuntamente, cuja ênfase poderá variar em função do tempo

disponível, dos assuntos, do dinheiro envolvido e das atitudes pessoais de ambos:

bibliotecários e usuários. Atenção especial deverá ser dada às diferentes reações que a

tecnologia da informação provocará nos usuários, pois é de se esperar uma certa

resistência aos serviços eletrônicos, ou mesmo um alto grau de expectativa. Estas tensões

não devem ser subestimadas, sob pena de se tornarem fatores complicadores. O tempo é

outro fator crucial tanto para os bibliotecários como para os usuários, podendo implicar em

restrições no desenvolvimento de pesquisa e trabalho, assim como na busca de

financiamentos e outros recursos destes últimos. Para as bibliotecas, o investimento

financeiro em hardware, software e assinaturas são consideráveis, assim como o

dimensionamento do espaço físico, cujos custos devem ser considerados para a

manutenção e expansão das coleções tradicionais e/ou das coleções eletrônicas. Tais

fatores devem ser levados em conta ao se planejar o "movimento" da posse de acervo para

as estratégias de acesso. Estes focos de tensão se aplicarão à todas as bibliotecas, em

diferentes períodos de tempo, em diferentes circunstâncias locais e com diferentes

intensidades, sendo cruciais e requerendo monitoramento e avaliação constantes (1990, p.

23-26).

Os constantes aumentos nos preços dos periódicos, principalmente nos campos

da ciência e da engenharia, têm colocado em perigo a habilidade das bibliotecas

universitárias e de pesquisa em garantir a continuidade das coleções de periódicos junto aos


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pesquisadores, assim como a manutenção das publicações secundárias, tais como os

índices e abstracts. A manutenção das assinaturas apresenta-se como um dilema para as

bibliotecas universitárias, uma vez que cada biblioteca necessita manter a coleção de títulos

primários (aqueles que mais frequentemente requeridos e que formam o núcleo da coleção

de periódicos da universidade). Porém, que alternativa oferecer para aqueles títulos menos

citados, mas que ainda assim são necessários para a pesquisa? Para alguns bibliotecários

a solução é confiar no empréstimo inter-bibliotecário e em algum sistema de disponibilização

de documentos, combinando-os com acordos de cooperação entre bibliotecas. Esta

cooperação pode liberar as bibliotecas da obrigatoriedade de manter todos os títulos de

periódicos que seus pesquisadores precisam. Contudo, a questão é: as bibliotecas irão

priorizar o sistema de disponibilização de documentos, de modo a oferecer um serviço

efetivo o suficiente para sustentar as demandas de pesquisa? e, os pesquisadores irão

apoiar as bibliotecas nesta transição, ou irão simplesmente ir à outro lugar para satisfazer

suas necessidades de informação? A disponibilização de documentos (document delivery)

tem sido considerada como uma opção válida para atender às demandas dos usuários,

juntamente com os convencionais empréstimos inter-bibliotecários (do próprio material ou de

fotocópias), os serviços comerciais de disponibilização de documentos, a transmissão por

telefacsímile, e a transferência de arquivos para computadores pessoais (downloading) de

artigos de periódicos em formato eletrônico. Muitos dos mecanismos tecnológicos já

existem na maioria das bibliotecas, auxiliando no provimento do acesso dos materiais de

pesquisa dispersos fisicamente, como por exemplo, as máquinas de telefacsímile e

terminais que permitem o acesso à redes de informação eletrônicas e acervos disponíveis

em algumas as bibliotecas. Porém algumas barreiras ainda permanecem, como por

exemplo, a morosidade do empréstimo inter-bibliotecário, cujas versões mais rápidas são

relativamente caras, assim como são os serviços comerciais de busca/entrega de

documentos. Além disto, o método mais rápido de se obter um artigo é frequentemente o

mais trabalhoso, o que muitas vezes não é regra nas seções de empréstimo inter-
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bibliotecário na maioria das bibliotecas. O downloading de artigos ainda não é uma

alternativa frequente, porque poucos dos periódicos mais utilizados em pesquisa já estão

disponíveis neste formato ( ROBERTS, 1992, p. 30).

O maior problema, no entanto, é a resistência do usuário, principalmente o

pesquisador, em aceitar a estratégia de busca de documentos como um substituto da posse

local, mesmo para os periódicos de menos demanda. Enquanto o empréstimo inter-

bibliotecário e os sistemas de disponibilização de documentos têm sido amplamente

discutidos na literatura, poucos estudos têm sido feitos junto aos usuários, a fim de

identificar, por exemplo, qual o impacto do atraso no provimento do documento sobre o

trabalho do pesquisador.

O aprimoramento da infraestrutura tecnológica e organizacional, pode vir garantir uma

rápida e confiável disponibilidade de documentos. Porém, ainda são muitos os

questionamentos quanto ao fato do acesso poder ser tão eficiente a ponto de substituir a

posse local. Uma destas discussões diz respeito à inexistência de padrões mínimos para

medir o desempenho das estratégias de acesso, que possam incluir tanto o empréstimo

inter-bibliotecário como os serviços comerciais de busca/entrega de documentos.

TRUESDELL aponta três critérios para avaliar o desempenho na atividade de acesso: custo,

tempo de resposta e pertinência. Neste caso, os mecanismos de acesso devem provar que

são custo/efetivos, rápidos e confiáveis, de maneira a captar a confiança dos usuários,

bibliotecários e administradores. Contudo, o custo real do acesso ainda tem sido uma

questão problemática. Estudos realizados em países desenvolvidos, indicam que os custos

do empréstimo inter-bibliotecário podem variar de um à quinze dólares. Para a biblioteca, a

questão crucial na tomada de decisões diz respeito à: quando comprar, catalogar e guardar,

quando utilizar fornecedores pagos ou quando utilizar o empréstimo inter-bibliotecário para

obter materiais. Estudos com base nestes fatores, podem eliminar muito da "advinhação"

comum aos bibliotecários que trabalham com os custos relacionados à acesso.

(TRUESDELL, 1994, p. 201-202).


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Para RUTSTEIN, será importante que as bibliotecas determinem, em termos das

opções de aquisição ou acesso (em particular dos itens mais caros) qual a medida mais

custo-efetiva. Em casos mais específicos, não se pode ainda comprovar que a posse é

menos onerosa que o acesso, mas por outro lado, a rapidez no acesso é ainda um fator a

ser considerado em toda a equação, uma vez que acesso atrasado é, em resumo, acesso

negado. Algumas bibliotecas que já realizaram estudos de custo/benefício, optaram pelo

cancelamento de assinaturas de títulos mais caros, demandando-os quando necessário, à

fornecedores comerciais de bases de dados. De acordo com o título de periódico e seu uso,

o custo anual de uma assinatura pode exceder em muito o custo da busca de determinado

artigo/documento feita "sob encomenda" (1993, p. 51). O compartilhamento de recursos

pode oferecer meios para que as bibliotecas lidem com alguns dos problemas causados

pelo dilema do acesso versus posse, e o aumento dos custos relacionados com ambas as

estratégias.

Com o desenvolvimento do compartilhamento de recursos, as bibliotecas poderão

estar mais aptas a incrementar suas coleções-núcleo (os famosos vinte por cento que

satisfazem os oitenta por cento das demandas), provendo acesso rapido à informação que

não se encontra no acervo interno, além de estabelecer acordos de cooperação para o

desenvolvimento de coleções "comuns" para os materiais periférios. Novamente, o

elemento-chave a embasar o compartilhamento de recursos é o empréstimo inter-

bibliotecário, uma vez que qualquer esforço no desenvolvimento cooperativo de coleções

deve estar intimamente ligado à um eficiente sistema de disponibilização de documentos. O

empréstimo inter-bibliotecário pode variar do empréstimo tradicional, praticado por um

número significativo de bibliotecas à acordos recíprocos mais formais. O planejamento de

tais consórcios, devem levar em conta que muitas vezes os esforços regionais podem ser

menos onerosos e mais imediatamente benéficos que projetos que envolvem todo o país

(RUTSTEIN, et alii, 1993, p. 53-54). Para o autor, as políticas de coleção deveriam focalizar

a clientela primária, materiais dos assuntos-núcleo da instituição e protocolos de


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desenvolvimento de consórcios, ao invés de se buscar as tais "coleções compreensivas".

Os consórcios de informação são cada vez mais essenciais, em função da redução do poder

de compra que atingiu todas as bibliotecas em todo o mundo e que tem acarretado a perda

da riqueza e profundidade nas coleções.

Mesmo que a política de desenvolvimento de coleções privilegie o acesso, os

bibliotecários devem reafirmar as orientações básicas da biblioteca universitária: dar suporte

para programas institucionais, atender a pesquisa corrente, estruturar a coleção para o

futuro e trabalhar com os projetos de aquisição dos "materiais nucleares" da coleção. Esta

transição implica igualmente em uma série de questões, sendo a mais problemática aquela

que exige a tomada de decisão sobre a alocação de mais fundos para a compra/acesso à

materiais ou o repasse de uma parcela deste custo para o usuário. Optando-se pela

segunda alternativa, outras perguntas se colocam: quanto se deve realocar? Como estimar

esta atividade? (Por meio do empréstimo inter-bibliotecário e das demandas por serviços de

bases de dados, por exemplo)? A análise final destas reflexões, provavelmente indicará um

equilíbrio entre o acervo local e a informação a ser acessada "extra-muros". (RUTSTEIN,

1993, p.39-41).

O fato de que muitos usuários consideram a comutação bibliográfica e/ou o

empréstimo bibliográfico como serviços "frágeis", quanto à velocidade de entrega de um

documentos que a biblioteca não possui localmente, indica um histórico de baixa

expectativas e baixas prioridades de ambos os lados (usuários e bibliotecários). Dois outros

fatores se aliam a estes e criam uma situação crítica para as bibliotecas acadêmicas e de

pesquisa: os custos crescentes das assinaturas de periódicos e a disponibilidade de outras

fontes de informação além das bibliotecas. Na medida em que os pesquisadores percebem

que as bibliotecas não podem ou não irão obter os documentos solicitados, eles certamente

irão lançar mão de outros procedimentos, assim, mais uma vez a credibilidade da biblioteca

enquanto intermediária de informação enfraquecerá. Nestas circunstâncias, o procedimento

mais importante para as bibliotecas é, mais uma vez, identificar o tipo, a natureza e as
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características dos serviços de informação desejados pelos pesquisadores (ROBERTS,

1992, p.33).

A autora sugere outros tópicos para o aprimoramento das estratégias de

disponibilidade de documentos para serem discutidas e analisadas em sua real efetividade:

• o serviço de disponibilização de documentos deve ser priorizado tanto quanto a


aquisição de periódicos e livros. Caso a disponibilização de documentos seja realmente
considerada como uma maneira de substituir a posse local, o orçamento para compra de
materiais pode ser considerado uma fonte de fundos para esta atividade. O dinheiro
poupado no cancelamento de um periódico de pouco uso,pode ser reorientado para
auxiliar no fornecimento de pedidos de artigos de periódicos que deixaram de ser
assinados pela biblioteca;

• A disponibilização de documentos deve ser orientada para ser uma operação rápida e
eficiente. Isto significa reduzir os prazos de entrega dos documentos, estabelecer taxas
de cobrança mais altas para pedidos entregues por meios mais rápidos (telefacsímile,
formato eletrônico, entrega expressa, por exemplo), assim como incrementar o serviço
de empréstimo inter-bibliotecário nos períodos de férias acadêmicas, uma vez que
muitos pesquisadores aproveitam estes meses para suas buscas bibliográficas;

• monitorar e comprometer-se com o contínuo melhoramento da qualidade dos serviços


de disponibilização de documentos, realizando pesquisas entre os usuários, a fim de
determinar sua satisfação, dúvidas, críticas e sugestões;

• comprometer o departamento de empréstimo inter-bibliotecário com a precisão e


qualidade do serviço;

• examinar profundamente as rotinas visando sua simplificação. O usuário não deverá


sentir que seu pedido dependerá de uma localização tão remota e tão trabalhosa que
acabe por pensar que o esforço não vale a pena. As respostas: "isto leva muito tempo"
ou "é mais fácil conseguir de outra maneira" é a razão mais frequente para a não
utilização do empréstimo inter-bibliotecário;

• coletar dados relativos ao tempo de resposta entre o pedido do documento/informação e


sua entrega efetiva, utilizando-os para avaliar o sucesso e o cumprimento dos objetivos
da seção de empréstimo inter-bibliotecário. Não basta apenas dizer ao usuário o tempo
previsto entre a remessa e a chegada do material, mas sim quanto o usuário terá que
esperar realmente para receber seu pedido;

• desenvolver mecanismos inovativos para responder aos muitos desafios do empréstimo


inter-bibliotecário. Por exemplo, se o usuário objeta sobre a qualidade do telefacsímile,
deve-se obter uma fotocópia; se o usuário necessita de gráficos e tabelas deve-se
utilizar outra opção que não o acesso eletrônico;

• estabelecer acordos de coleções cooperativas e buscar sua efetivação nos níveis


administrativos mais elevados da universidade, com base na racionalização dos
recursos para aquisição;
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• Compartilhar as listas de aquisição com as bibliotecas mais próximas. Esta cooperação


irá aumentar a compreensão do usuário da importância do empréstimo inter-
bibliotecário, ajudando-os a compreender que a biblioteca não se limita aos materiais
encontrados no campus da universidade;

• Esclarecer aos pesquisadores sobre as vantagens dos sistemas de disponibilização de


documentos como um substituto razoável (e talvez necessário) para o acesso aos títulos
de periódicos de pesquisa menos usados. O fato de muitos pesquisadores não sentirem
ainda o impacto total do cancelamento de periódicos, não deve durar muito tempo. O
mais importante é que eles compreendam que o empréstimo inter-bibliotecário e os
serviços de disponibilização de documentos podem, em alguns caso, ser a única
solução.(ROBERTS, 1992, p. 33).

Mais perguntas que respostas?

O enfoque crescente e difundido de que as bibliotecas devem mudar de uma

orientação de posse/acervo para um serviço de acesso, é uma reorientação no paradigma

operacional das bibliotecas, principalmente no que diz respeito à maneira como os

bibliotecários trabalham e como desenvolvem suas atividades. O fato da revolução da

informação apoiar-se na adaptação dos processos de recuperação de informação voltados

para demandas específicas, implica em uma perspectiva totalmente centrada no usuário.

Não se pode prever se isto vai acontecer em sua totalidade, mas o fato é que o conceito da

biblioteca como "depósito" perdendo cada vez mais sua validade. A biblioteca orientada

para o suprimento de informações, não está voltada para a coleta de materiais para o uso

potencial (just in case...), mas para uma de atendimento sob demanda (just in time...).

Desta maneira, a biblioteca passa a adquirir apenas o que o usuário precisa de imediato,

liberando fundos das compras para o acesso. Neste tipo de ambiente, é então essencial

que a biblioteca conheça seus usuários intimamente: quem eles são, quais as suas

necessidades de informação, como estas necessidades mudam e como eles usam

informação (RUTSTEIN, et alii, 1993, p. 47).

Os bibliotecários precisam estar preocupados com o processo de transferência de

informação, ao invés de apenas com o processo de aquisição. Caso as bibliotecas desejem

assumir o papel de information brokers ou de provedores de acesso à informação, seus


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administradores devem olhar para além dos seus catálogos e coleções. A tendência é que

as expectativas dos usuários aumentem, exigindo dos bibliotecários a habilidade de explorar

coleções de bibliotecas e recursos eletrônicos de informação, onde quer que estejam

localizados. O fator irônico desta situação é que, enquanto as bibliotecas cortam seus

orçamentos, o que implica na compra de poucos materiais, as expectativas dos usuários

estão se expandindo, não somente por mais documentos, mas por uma ampliação no

acesso à informações. Outro fator nesta equação é o fato de que, ao mesmo tempo que isto

acontece para o ambiente das biblioteca, outros mecanismos e instrumentos de acesso,

baseados nas mais variadas tecnologias, estão competindo por estes mesmos escassos

recursos e pela atenção dos usuários/clientes. A compra de equipamentos ou custos de

leasing, a manutenção, a atualização de equipamentos, os serviços, as taxas de redes e de

armazenagem em computador e o treinamento do pessoal da biblioteca, rapidamente

devoram o orçamento da biblioteca. O desafio para os bibliotecários responsáveis pelo

desenvolvimento de coleções, é atingir um equilíbrio entre acesso e compra, enquanto

buscam servir às necessidades de seus usuários locais. Neste cenário, a postura mais

adequada é focalizar a questão do acervo e acesso não como condições opostas (mesmo

que possam sobrepôr-se em alguns casos) mas como estratégias em um continuum para as

atividades de provimento de informação.

ABSTRACT

The changes concerning academic libraries, due to the technological advances and access
orientation paradigm are focused. Foreign author's opinions were reunited to explain the
unfinished discussions about collection development and access strategies, in wich the
importance of decision making is valorated, as well as the impacts of access/ownership
binomial on academic libraries and their costumers.

Keywords:

Ownership versus access; Collection Development; Library Consortia

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