Série: PENSAMENTO E AÇÃO NO MAGISTÉRIO RENÉ CAPRILES MAKARENKO - O NASCIMENTO DA PEDAGOGIA SOCIALISTA HISTORIA DA EDUCAÇÃO FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO SOCIOLOGIA

DA EDUCAÇÃO EDITORA SCIPIONE RENÉ CAPRILES - Jornalista e cineasta, com trabalhos realizados na França e na América Latina; - Correspondente da agência de notícias Nóvosti, da União Soviética; do jornal boliviano El diário e da revista venezuelana Nueva sociedad; - Redator da Enciclopédia Mirador e dos Cadernos Rioarte do Instituto Municipal de Arte e Cultura do Rio de Janeiro; - Editor de publicação culturais sobre a União Soviética. RESPONSABILIDADE EDITORIAL Luiz Esteves Sallum SUPERVISÃO. PROJETO EDITORIAL E EDIÇÃO DE TEXTO Valdemar Vello COORDENAÇÃO EDITORIAL Lidia Maria Melo Chaib ASSESSORIA EDITORIAL Maria Estela Heider Cavalheiro

preparação: Célia M. Delmont de Andrade revisão de provas: Jonas Pereira dos Santos José Roberto Segantiní DIREÇÃO DE ARTE M. Beatriz de Campos Elias Alice Reika Haga PROGRAMAÇÃO VISUAL Capa: Luiz Trigo Tah Kim Chiang Miolo: Luiz Trigo ILUSTRAÇÃO DE CAPA Rogério Nunes Borges FOTOS Arquivo do Autor COMPOSIÇÃO E ARTE Diarte Composição e Arte Gráfica coordenação geral: Nelson S. Urata coordenação de arte-final. Silvio Vivian composição: Shigueru Hayashi PARÂMETRO: impressão e acabamento todos os direitos reservados editora scipione Ltda. Praça Carlos Gomes, 46 - CEP 01501 Caixa Postal 65.131 tel. 37-4151 1989 divulgação Rua Fagundes, 121 - CEP 01508 Caixa Postal 65.131

Tel. 37-4151 ISBN 85-262-1475-6 Para Aurore Bubú Ana Huara e Rudá, meus filhos. Anissim Polonski e Vladislav Dmitrienko, jornalistas ucranianos, meus camaradas. E também Lidia Chaib e Valdemar Vello, mãe e pai deste livro. Finalmente, para Lúcia Chayb, minha esposa, que sacrificou seu tempo para me ajudar carinhosamente. Agradeço especialmente a colaboração do meus amigos Antõnio Carlos Lobo Regina Bezerra, Cláudia Maciel Dilsa Terra, Moacyr Félix e Gerardo Mello Mourão, sem cuja ajuda e conselhos não poderia ter escrito este livro sobre Makarenko. Quero agradecer muito especialmente à agência de notícias Nóvosti, de Moscou, pela permanente colaboração pela cessão dos direitos de reprodução das fotos e Ilustrações contidas nesta obra.

SUMÁRIO PREFÁCIO .. 7 APRESENTAÇÃO .. 9 INTRODUÇÃO .. 11 1. A HERANÇA PEDAGÓGICA .. 17 2. A GRANDE VIRADA SOCIALISTA .. 27 3. MAKARENKO CRESCE COM A REVOLUÇÃO SOCIAL .. 37 4. O JOVEM PROFESSOR MAKARENKO .. 51 5. A EXPERIÊNCIA EM DOLINSKAIA .. 59 6. O EDUCADOR MAKARENKO EM FA CEDO FUTURO .. 67 • A continuação dos estudos .. 68 • Novos rumos durante a revolução .. 70 • Górki e a luta contra a delinqüência infantil .. 78 7. A COLÔNIA GÓRKI .. 81 • O difícil começo .. 82 • Górki é um dos nossos! .. 87 • A organização do coletivo .. 89 • Viagem a Moscou .. 94 - Os objetivos da educação .. 95 • O retorno à Colônia Górki .. 99 • A autogestão gorkiana .. 102 - Documentário fotográfico da Colônia Górki em Poltava .. 105 • A tomada de Kuriáj .. 109 - Documentário fotográfico da Colônia Górki em Kuriáj .. 113 • O depoimento de Galina Stakhievna .. 118 • Os conflitos com o Comissariado .. 127 • A visita de Máximo Górki à Colônia .. 132 8. A COMUNA DZERJINSKI .. 145 • A primeira escola em regime de autogestão .. 146 9. OS PRINCÍPIOS DA PEDAGOGIA MAKARENKIANA .. 153

10. O CAMINHO DA VIDA .. 165 BIBLIOGRAFIA .. 182

PREFÁCIO Não poderia ser mais oportuno o lançamento de Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista, de René Capriles, exatamente neste ano, em que se comemora o centenário de nascimento desse eminente e inovador Pedagogo ucraniano, Anton Semiónovitch Makarenko. O texto, que começa com um breve estudo comparativo das várias tendências, métodos e 'escolas' pedagógicas que precederam o trabalho do grande mestre, é o relato, solidamente apoiado em pesquisa, estudo e reflexão, com riqueza de fatos, detalhes e comentários, da vida e da obra do ilustre biografado, sobre o pano de fundo histórico que foi a época das turbulências 'que abalaram o mundo pouco antes e pouco depois da Revolução de Outubro, na Rússia. A vida de Makarenko foi uma espécie de epopéia. E sua obra de Educador assim mesmo, com maiúscula - foi uma epopéia de fato, ou melhor, um poema épico: o Poema pedagógico, como tão a propósito ele batizou sua obra-prima de escritor e reinventor da pedagogia, uma pedagogia dinâmica e construtiva, baseada nas inesgotáveis potencialidades do ser humano em geral e do jovem em particular. Tudo isso está contido, comentado e analisado em profundidade neste livro de René Capriles, de indiscutível utilidade e estímulo para nossos professores, pedago gos e educadores, especialmente aqueles ligados ao trabalho com crianças e adolescentes pobres, carentes, abandonados - que aqui, como sabemos, já consti-

tuem uma legião. Se educar é uma tarefa difícil, mais difícil é reeducar. E foi essa tarefa que Makarenko escolheu e assumiu, ao criar suas colônias - seus coletivos - com a meta de salvar e recuperar essas crianças, transformando-as em cidadãos no mais pleno sentido da palavra. Makarenko reabilitou esses ' menores'' (como aqui são chamadas as crianças pobres...), vítimas do período de guerra, da revolução e da fome, restituindo-lhes a dignidade. Os bezprizornies, infelizes pivetes e pixotes, lançados, órfãos, abandonados e desvalidos, na miséria, na vagabundagem, no vício, na prostituição, e mesmo na delin7 qüência, tornaram-se homens e mulheres de verdade. A essa tarefa hercúlea, Makarenko devotou-se com admiravel coragem, determinação e dedicação, sustentado pelo seu comovido, mas jamais piegas, amor pelas crianças desprivilegiadas de seu país. Foi um desafio aparente mente invencíveis que ele, no entanto, soube enfrentar com talento, audácia e criatividade, conseguindo realizar seu ideal de construção ao ser humano novo" dentro de um novo contexto histórico, através de uma luta penosa, na qual teve de se haver com poderoso: "dragões" : desde a labiríntica burocracia soviética e uma imensa falta de recursos materiais, até a resistência chegando às vezes à violência física, da parte dos próprios educandos - semi-selvagens e mesmo delinqüentes -, passando pelas críticas e oposições de pedagogo e pseudopedagogos oficiais, e Pelos obstáculos criados por autoridades impositivas e preconceituosas. Essa luta lhe trouxe muitas vitorias - como o reconhecimento precoce, o estímulo e o apoio permanente de seu grande inspirador e modelo, Máximo Górki - e

conduzindo-o para a felicidade do amanhã". de Makarenko. crítica literária. noções de honra e dignidade. Todos esses aspectos estão presentes neste livro. destinadas a servir de exemplo para seu país e o resto do mundo.e não resta dúvida de que eles existem no método educacional desse mestre extraordinário e original. exigindo o máximo ao pessoa e respeitando-a ao máximo eis algumas das idéias de Anton Semiónovitch Makarenko que René Gapriles apresenta ao leitor neste livro. trabalho e estudo. inclusive a discussão dos pontos polêmicos . tendo feito a tradução do Poema pedagógico. (TATIANA BELINKY) Nota: Tatiana Belinky é escritora. arte e lazer. 8 APRESENTAÇÃO . senso social e respeito pelo indivíduo. "Educar o ser humano é proporcionar-lhe perspectivas. responsabilidade pessoal e coletiva. por alguns) acusado de autoritarismo principalmente pelas conotações militaristas que alguns atribuem a sua pedagogia.realizações brilhantes. direito e dever. Embora apoiado numa organização de bases firmes e voluntariamente aceito pelo cotetivo de educandos e professores em cujos poderes criativos confiava com fé e otimismo inabaláveis. dentro da "disciplina para a construção ao caráter" . crítica de teatro e tradutora. que soube associar disciplina e camaradagem. Makarenko foi (e ainda é. com boa medida de autogestão.

onde continuei meus estudos até a universidade. antes de partir para a Argentina. em 1959. Nessa época. Passaram-se os anos e a figura de Makarenko sempre se mesclou à minha visão da América Latina. Visitei quase todos os países de nosso continente e constatei as enormes deficiências existentes em seu sistema educacional. fiz uma avaliação de meu relacionamento pessoal com textos fundamentais. a proposta defendida por Makarenko. estudava em La Paz.Quando fui convidado a escrever sobre Anton Makarenko. intuí que Darcy . Bandeiras nas torres e O livro dos pais. A respeito dele. Imaginava que um dia a realidade social latino-americana descobriria em toda a sua plenitude. um Samora Machel". a primeira iniciativa makarenkiana desenvolvida na América Latina. localizada numa vila miséria. a favela argentina. Em 1952. Paulo Freire me disse certa vez: "Ele é o pai de todos nós. Poucos anos depois. Essa avaliação começou com os referenciais políticos que determinam a história da América Latina. que criou as bases de uma escola autogerida no altiplano boliviano. com professores e discípulos aimarás. e descobri que minha vida toda tinha sido marcada pela influência pedagógica socialista que recebi desse grande educador. entrei em contato com a experiência de Utama. Ele é tão grande quanto um Fidel. Em seguida fui tara Mar del Plata. com quem muito aprendi sobre Makarenko. 1965. Quando isso aconteceu. num colégio de jesuítas. li pela primeira vez o Poema pedagógico e conheci duas professoras que aplicavam o método numa escolinha. eu tinha 7 anos de idade. Numa outra ocasião. e ouvia meus amigos mencionarem as escolas comunais indígenas que a revolução havia criado. como o Poema pedagógico. Víctor Paz Estenssoro liderou na Bolívia uma revolução social que mudou a visão da educação em nosso continente. já no início dos anos 30. um Amílcar Cabral.

Espero ter respeitado. Na Ucrânia. muito menos uma pedagogia autogerida. me envolvi de tal maneira com a obra. caminhava na direcão de Makarenko. em que as seqüências narrativas se agrupam em grandes blocos temáticos. que não admite uma educação popular. Ao começar a escrever sobre Makarenko. a paixão e o amor que Anton Semionovitch tinha pela educação do ser humano. para estudar mais de perto os passos do grande pedagogo. e a narração da experiência educativa tinha que refletir igualmente uma mudança geral da sociedade. na sua integridade. na União Soviética. muitas vezes não me expresso em termos estritamente pedagógicos. infelizmente. a Colônia Górki e a Comuna Dzerjinski. optei por uma linguagem cinematográfica. Acredito que essa iniciativa seja fruto da leitura da própria obra de Makarenko e de seu posicionamento em face do leitor. no Brasil. . Tal como a experiência boliviana de Utama. essa experiência foi destruída pela direita.Ribeiro. e sim por meio de parábolas narrativas. em Moscou e em outros lugares percebi a dimensão de seu trabalho e seu significado social. estavam diretamente ligadas às grandes transformações sociais e históricas. Nesse sentido. que ela passou a ser o centro de minha vida cotidiana e me levou até a União Soviética. Em função de minha vivência com o teatro e o cinema. da aplicação cabal das propostas pedagógicas de Makarenko. Tanto Paulo Freire quanto Darcy Ribeiro 9 são os educadores que mais perto estiveram. O passado voltou à minha memória e decidi optar por uma reconstrução biográfica que não fosse um simples relato de datas e acontecimentos. com seu programa ligado aos CIEPs cariocas.

ao mesmo tempo. como pedagogo soviético. Olhou em direção ao parque. Deixou de lado sua pequena e velha máquina de escrever Underwood. RENE CAPRILES 10 INTRODUÇÃO Página 12." Anton Semiónovitch Makarenko escreveu a frase e respirou aliviado: tinha resolvido. todas as suas dúvidas. já que nunca tinha feito outra . a essa hora da manhã. Figura: Anton Semiónovitch MAKARENKO (18881939) 12 "TALVEZ ESTE LIVRO SEJA UMA IMPERTINÊNCIA. do outro lado da rua. certezas e responsabilidades que. nessa linha magistral. e sentiu vontade de brincar com as crianças que se diverriam entre as bétulas. aprendizado revolucionário. para contemplar o ar límpido e as casas verde-esmeralda da primavera moscovita de 1937. O desejo não lhe era nada estranho.A maior homenagem que posso prestar ao autor do Poema e de Bandeiras é desejar que meus filhos sejam educados segundo os princípios de uma escola como a Colônia Górki ou a Comuna Dzerjinski. levantou-se da sua cadeira de trabalho e foi até a janela de sua casa. adquirira ao longo de duros anos de ensino e. localizada num primeiro andar da travessa Lavrushinski. Este livro representa um passo nessa direção.

Anton Semiónovitch refletiu durante um instante observando o jogo das crianças e anotou no caderno de rascunhos: Anton MAKARENKO -> "O coletivo é um organismo social vivo e. não há coletivo.. compreendendo que as estrofes finais tinham muito a ver com seu trabalho e com sua vida. Antes de continuar escrevendo a versão definitiva do ensaio pedagógico O livro dos pais. nos melhores momentos de sua comunhão com a natureza. . uma concentração de indivíduos". canções minhas. correlações e interdependência entre as partes.. Sim. como era seu hábito. Se tudo isso não existe. por isso mesmo. o universo infantil. possui órgãos. mas dizei-me por piedade.. como adulto.. canções minhas. Ele se emocionava facilmente e.. Ouviu os gritos de alegria dos meninos. passaram pela sua memória mais de três mil rostos de pivetes que ele transformara em homens e mulheres donos de seu próprio destino. respirou fundo e. atribuições. filhas minhas! Vos criei. que revelava a Makarenko uma faceta de Moscou por ele desconhecida: a de suas cores transparentes. como numa série de seqüências cinematográficas. escrito em 1893 por Taras Tchevtchenko.coisa senão viver. 13 Taras TCHEVTCHENKO "canções. era um dia particularmente luminoso. há urna simples multidão. vos tenho cuidado. intitulado canções. lembrou um clássico poema ucraniano. Flores minhas. responsabilidades.

Terei eu ombros suficientemente fortes para assumir o enorme peso de um assunto tão vasto? Terei eu o direito e serei necessariamente audaz para resolver ou. Lá na Ucrânia encontrareis um coração que vos compreenda. a história do mundo. que eu aqui permanecerei. os pais de hoje estão educando aqueles que farão a história do nosso pais e. aconchega em teu regaço. órfãos meus. Em cada pensamento. destrinchar os seus principais problemas? "Felizmente não me é exigida esta pertinência. cada sopro da nossa vida ressoa a glória do novo cidadão do mundo.onde poderia deitar-vos? Ide à Ucrânia. também encontrareis a glória. será possível não saber como deve- . cada movimento. Ucrânia. a verdade pura e.. palavras carinhosas.. Taras TCHEVTCHENKO (1814-1861) Makarenko voltou para sua mesa de trabalho e continuou escrevendo: "Ao educarem seus filhos.. Nos livros e nas obras da revolução reside já a pedagogia do homem novo. ide para lá. mas mais ainda. Será possível não a ouvir. talvez. tem as suas grandes obras. os meus filhos insensatos. . pelo menos. conseqüentemente." Figura página 14 . como se fossem tuas criaturas.Auto-retrato. à nossa Ucrânia. mãe bem-amada. A nossa revolução tem os seus grandes livros.

nós. faltava tempo: construía-se.mos educar os nossos filhos? "Mas a nossa vida tem os seus dias de prosa. entre nós. grudados ao microscópio. nos laboratórios. a instruiu. Evidentemente. Acontece por vezes aos pais procurarem no meio delas a verdade. "Mas repare-se: nos fabulosos espaços das oficinas de Kramatorsk. a colocou a serviço da Revolução? De onde surgiram todos esses milhões de hábeis operários. e nesta prosa formam-se complicados novelos de pequenos pormenores. e ainda agora continuamos a construir sem tempo para descer dos andaimes. 14 "A nossa juventude é um fenômeno mundial incomparável com qualquer outro. em que momento foi? Por que é que não percebemos isso? Nós não tínhamos adquirido o hábito de vilipendiar. o amor não parecia exalar o hálito do zéfiro. voltava-se a construir. nas minas de Stalino. nos pavilhões infindáveis da fábrica de tratores de Stalingrado. lutava-se. o terceiro dia da sua criação. os velhos. esquecendo-se de que têm à mão a grande filosofia da revolução. na verdade. e. de pilotos. as nossas escolas e nosso ensino superior? Não achávamos os nossos comissários da Instrução Pública unicamente dignos de recriminações? A família parecia estalar por todas as costuras. a educou. a propósito de tudo e de nada. e isto desde o primeiro. cuja grandeza e cujo significado talvez sejamos incapazes de aprender. . nos submarinos. de mecânicos agrícolas. O homem perde-se às vezes nas coisas pequenas da vida. de Gorlovka. de sábios? Teremos sido. que criamos esta juventude? Mas se assim é. e sim passar como uma simples corrente de ar. de Makeevka. nos tanques. de capitães. de engenheiros. o segundo. nos aviões. Quem a engendrou.

e era verdade. em todos os quadrantes.. Máximo Górki já tinha afirmado isto em 1928. é verdade. Muitas vezes Anton Semiónovitch ouviu elogios sobre a profundidade com a qual chegou a compreender a personalidade humana.." "Eles realizam a nossa obra''.por cima das solidões do Ártico. após três dias de convivência com educandos da Colônia Górki. chamada assim em sua homenagem. "Mas são os mestres da vida. Górki significa "amargo". inovadores e imensamente interessantes. nas cabines das gruas. com ritmos imprevistos. por toda parte. quando conheceu Makarenko pessoalmente. sem um olhar para trás. e a escolha do apelido deve-se às duras experiências vividas pelo escritor em sua infância. "São modestos. o senhor é simplesmente um homem extraordinário! Soube educar excelentes garotos. sem histeria e sem posse. eles realizam a nossa obra. Figura da página 15: GÓRKI (1869-1936) Máximo Górki é o pseudônimo de Alexei Máximovicth Pêshkov. Para eles não existe nada impossível!" (Máximo Górki) 16 . 15 Ele. há milhões e milhões de homens jovens. tranqüilos e seguros. às vezes de linguagem pouco requintada e com freqüência de um humor bastante rude . escreveu Makarenko. sem palavreados e sem lamentações. nas entradas e saídas. no momento de se despedir do pedagogo lhe disse: "Anton Semiónovitch.

revelando o grave problema do analfabetismo na Rússia. Nas atuais repúblicas de Tadjiquistão. eram instituições isoladas. Isso refletia no nível geral da instrução de maneira separatista. As escolas primárias russas. um dos países mais atrasados do mundo. A grande maioria das instituições de ensino eram de propriedade de alguns setores da grande burguesia. enquanto a porcentagem das mulheres alfabetizadas era muito mais baixa ainda: 13 em cada 100.A HERANÇA PEDAGÓGICA A ignorância. No início do século XX a Rússia era. nas áreas urbanas. Nota: 1897 . naquela época e até o início de nosso século. dirigidas com critérios feudais.realiza-se o censo nacional. Kirguízia e Uzbequistão a falta de instrução era quase total. que. especialmente no setor da educação.CAPÍTULO 1 . não relacionavam os seus respectivos programas entre si. e uma pequena parte era do . Cerca de 50 povos que hoje integram a União Soviética não tinham sequer a sua escrita codificada. o analfabetismo atingia 98% da população. a ausência de direitos e a miséria mais terrível foram a sorte das massas populares do império tzarista. em termos nacionais. os índices revelam que. o analfabetismo. no campo. Os documentos do censo nacional realizado em 1897 demonstram que entre os homens apenas 29% sabiam ler e escrever. até a Revolução de 1917. Por outro lado. limitando radicalmente a continuação dos estudos superiores. tanto em termos de clãs como de classes. A maioria da população era analfabeta. dos latifundiários. 4 em cada 5 crianças não tinham a mínima possibilidade de estudar.

elementos básicos de aritmética e. Sua proposta para uma reforma democrática no ensino visava não somente a criação de um grande sistema público de instrução. Nessas escolas. A grande maioria das crianças que tinham a sorte de freqüentar essas escolas. 18 Até seu fim. além de controlar maciçamente a instrução popular. canto religioso. com 95% do estudantado.Estado. Num pequeno número dessas instituições. tinha uma duração máxima de dois a três anos. o império russo dos tzares teve nas escolas paroquiais seu principal meio de ensino e doutrinação. história e geografia do país. foi Constantin Dimitrievitch Uchinski. em termos de uma grande discussão nacional. noções de leitura e escrita. lutaram durante muitas décadas pela criação de escolas públicas de ensino leigo. o ensino perfazia. seis anos. Grupos progressistas. baseada unicamente na leitura de textos eclesiásticos e em rudimentares conhecimentos aritméticos. geralmente sendo todas as matérias ministradas por um único professor. a mais difundida no país. recebiam uma instrução não-científica. A Igreja. nos meios operários e camponeses. sempre. geometria e algumas outras matérias não-significativas. na escola primária clássica. excepcionalmente. anteriores à Revolução de Outubro. 5% do total. e principalmente. Quanto ao programa. segundo as estatísticas oficiais. também era proprietária de um significativo número de estabelecimentos educacionais. o ensino se limitava a transmirir o dogma religioso. como também. existiam aulas complementares de gramática russa. procurava normalizar a formação de quadros . Nesses estabelecimentos. O primeiro pedagogo russo que levantou essa questão.

especialmente para seus alunos. contribuindo especialmente para a formação de muitos professores. contendo noções científicas e contos populares. a 100 quilômetros de Moscou. que começaaám a surgir na Europa. no livro Émile ou da educação. de acordo com a natureza. Uchinski desejava uma educação baseada na cultura popular e nas tradições regionais russas ou não. um ABC em quatro volumes. e que são os homens e a sociedade que a modificam e corrompem. ministrada na língua materna de cada povo. de 1762. em Tula. Tolstoi escreveu.Tolstoi em Iasnaia Poliana. A metodologia de ensino de Tolstoi se baseava na crença de que a criança é perfeita. preconizada por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). mas não obrigatória. apoiadas na teoria da "educação livre". na sua propriedade de Iasnaia Poliana. para os filhos de seus colonos. Ele próprio abriu uma escola em 1859. em 1903 20 As teorias de Uchinski tiveram no romancista Leon Tolstoi (1828-1910) o seu mais importante defensor. . Estudos relacionados com a obra pedagógica do autor de Guerra e paz mostraram que seus métodos educacionais funcionaram muito bem e tiveram grande repercussão nos meios intelectuais da capital. inspirados nas teorias das "escolas novas".pedagógicos capazes de continuar as suas teorias de uma antropologia pedagógica.Constantin UCHINSKI (1824-1870) 19 Figura . A escola era gratuita. Figura .

houve casos de crianças que freqüentaram a escola muitos anos e não conseguiram aprender a ler nem a escrever. Deve ser válida a mesma liberdade para todos os educandos de perceber a influência.0 movimento revolucionário já era uma realidade concreta. Naquele momento. depois de esmagar a revolução democrático-burguesa de 1905-1907. . visto que só eles podem julgar se o educador verdadeiramente conhece e ama tudo aquilo que ensina. O professor deve saber incentivar naturalmente o aluno e nunca obrigá-lo a demonstrar um interesse que não experimenta. levando a classe operária e o campesinato a erguerem-se." Como não existia nenhum plano de estudos. Lênin revela que o desenvolvimento da produção industrial é acompanhado de um inevitável incremento da exploração com a conseqüente agravação das condições de vida dos trabalhadores. e a luta pela instrução pública. as contradições sociais determinaram um incremento radical na consciência política do proletariado. uma parte importante e integrante dessa luta. Nos seus estudos sociais e políticos.Lênin. conside- . era acentuadamente difícil. amplamente analisado por Vladimir Ilitch Ulianov Lênin (1870-1924).. fundador do Estado soviético Apesar de o governo tzarista.Leon Tolstoi: "A excitação do interesse é a mola mais eficaz do tirocínio perfeito. Figura . Findo o século XIX. aliando-se 21 na luta contra a autocracia. A situação das mulheres. principalmente a das mães. a Rússia ingressou numa nova fase do desenvolvimento capitalista: o imperialismo.

Todos eles eram sucessores de Uchinski.F. quando as mulheres eram ativamente atrai22 das para a produção social. Nas vésperas da Revolução de Outubro. Vasili Porfírievitch Vakhterov (1853-1924) foi outro pedagogo preocupado com as condições sociais do ensino. na pré-escola e no primeiro grau. num encontro de professores realizado em Moscou. seus materiais didáticos e a sua metodologia do aprendizado da língua russa desempenharam um papel extraordinariamente importante no desenvolvimento do ensino da leitura às crianças. Essa educadora apresentou. Tikheeva (1866-1944) que a pedagogia russa começou sua etapa de aprofundamento da qualidade da instrução. "juntamente com suas antologias.rar desnecessária a instrução pública. Posteriormente. que darão. no período do incremento industrial. o pedagogo e psicólogo P. elaborou uma original teoria sobre a educação física na escola primária. convinha conjugar desde tenra idade a educação familiar com a educação social. A sua Cartilha russa era conhecida em todo o país e teve 117 edições até 1917. ao ensino russo. afirma a historiadora Anna Foteeva. "Os seus manuais"." Mas foi somente com E. Kapterev (1849-1922) realçava que. surgem três nomes muito especiais. biólogo de profissão. Piotr Frantsevitch Lesgaft (1837-1909). uma tese sobre a unidade e a continuidade da educação das crianças em casa.I. de preferência já no jardim-de-infância. São eles o engenheiro e profes- . os pedagogos progressistas tentavam encontrar um meio para pôr em prática as idéias da educação social nas crianças. um perfil de contemporaneidade em relação às pesquisas e aos métodos aplicados nessa época tanto na Europa como nos Estados Unidos.

que propunham uma reforma social por meio da educação. Alexandr Zelenko voltou para Moscou depois de longa viagem pela Europa e Estados Unidos. Stanislav T. Nota. Chatski (1878-1934). por caminhos independentes. trazendo. Dessa 23 época são as declarações de Chatski referentes aos princípios pedagógicos das instituições estadunidenses. subúrbio de Moscou. pela educadora italiana Maria Montessori (1870-1952) e aplicadas nos primeiros anos da educação soviética. Shleger (1863-1942) e o grande especialista em John Dewey (1859-1952) e teórico da educação na época soviética. Em 1904. notícias sobre as teorias de educação aplicadas por Dewey nos meios operários. intitulado Material para conversação com as crianças. Stanislav T. CHATSKI: "Lutando diariamente pela mudança dos métodos relacionados com o interesse infantil e o possível desen- . Poucos anos mais tarde. que em 1905 já tinha aberto uma pequena escola popular para filhos de operários em Shelkovo. essas idéias seriam desenvolvidas.sor Alexandr Zelenko. Shleger afirma que o jogo. a destacada pedagoga revolucionária Louise K. A época soviética se inicia com a Revolução de 1917. escreveu um manual dedicado aos professores da pré-escola (existiam 250 em toda a Rússia). pois é através dele que se desvenda o mundo interior de cada criança. no ensino pré-escolar. Nesse opúsculo. pela primeira vez. merece a máxima atenção e seriedade. O período anterior à revolução denomina-se época tzarista ou russa Louise Shleger.

Todos eles afirmam que ela foi uma das mulheres russas mais instruídas. como. que agrupava uma série de instituições infantis. a escola voltou a funcionar e. ficou oficializada com o nome de Primeira Estação Experimental de Educação Pública. deveria criar as condições materiais com tudo o que fosse necessário para seu desenvolvimento pleno. Ao examinar a questão da educação num regime socialista. o livro A mulher trabalhadora. a colocam num lugar de destaque no panorama intelectual da época. Krúpskaia escreveu muitos artigos sobre o problema da educação. em 1906. que exige levar escrupulosamente para a prática a teoria de que a educação deriva da participação do indivíduo na consciência social. Shleger e Chatski fundam o Primeiro Centro de Assistência Social de Moscou. Nadejda Konstantínovna Krúpskaia. Tanto que este defechamento do estabelecimento e ordenou a prisão de Zelenko e Chatski "por ensinarem o socialismo às crianças". sob a direção de Chatski. ainda em 1899. também. que desagradou o governo. sem dúvida nenhuma. em 1905. isto é. Os historiadores dessa área." Dois anos depois. de reunião e de associação. multilateral e harmonioso.volvimento da capacidade criativa da criança. após a Revolução. onde afirma que a nova sociedade não somente deveria se preocupar em garantir às crianças os meios indispensáveis para a existência. tomei conhecimento do cuidadoso estudo realizado por Dewey e fiquei profundamente impressionado pela sua filosofia pragmática. Dois anos depois. da liberdade de imprensa. Essa entidade converteu-se numa escola experimental. ela escreveu. tanto soviéticos como de outras nacionalidades. Zelenko. Após a conquista. Mas a principal figura da época pré-revolucionária foi. cultas e informadas da sua geração. Teve formação superior e lia .

e Krúpskaia.Nadejda KRUPSKAIA (1869-1939). na Alemanha. Edmond Demolins (1852-1907). principalmente durante seus anos de exílio. considerada a fundadora da pedagogia pré-escolar soviética. fundado em bases puramente lógicas ou racionais. num dos seus milhares de panfletos. determinava que a atividade intelectual estava sempre subordinada às finalidades da ação. e Hermann Lietz (1868-1919). na Inglaterra. na França. francês e inglês. Interessou-se especialmente pela obra de Dewev e procurou amplas informações sobre o movimento "escola nova" dirigido por Cccii Reddie (1858-1932). denuncia que as novas autoridades nada fizeram para modificar a situação escolar no país. para Krúpskaia o papel da educação se transforma num método científico de produção coletiva fundamentado no trabalho e na autodeterminação conjunta dos seus membros. cujo pensamento. 25 Em maio do mesmo ano.fluentemente alemão. Nadejda Konstantinovna publica o seu famoso Programa escolar municipal. no qual ela propõe ao governo a tarefa de organizar o maior número possível de instituições gratuitas para crianças em idade pré- . Conheceu pessoalmente William James (1842-1910). Com a incorporação do marxismo na sua visão de mundo. Estudou cuidadosamente as diversas tendências pedagógicas do estrangeiro. Esposa e companheira de luta de Lênin. Em fevereiro de 1917 o Governo Provisório assume o poder na Rússia. 24 Figura .

-escolar. A sua essência consistia na criação de uma cultura socialista e na democratização de toda a vida espiritual da sociedade. em Petrogrado (hoje. Todos os povos da jovem União das Repúblicas Socialistas Soviéticas obtiveram o direito de desenvolver sua própria cultura em suas próprias escolas. a Rússia passa a chamar-se União das Repúblicas Socialistas Soviéticas -URSS. Leningrado). Nadejda também liderou um movimento independente de pedagogos que visava a criação de creches e jardins-de-infância para filhos de operários. Conjuntamente com a transformação da economia e o desenvolvimento das relações sociais socialistas começou a renovação cultural. A revolução cultural refle- . Com a adoção do calendário gregoriano. A instrução e a democracia. Nesta época. publicadas pela Academia de Ciências Pedagógicas de Moscou. escrito em 1936. atualmente. Suas obras completas. Petrogrado. compreendem 11 volumes. essa data. A escola privada desapareceu.A GRANDE VIRADA SOCIALISTA A revolução socialista de outubro de 1917 provocou mudanças radicais na organização da instrução pública. 1917. Figura: tomada do Palácio de Inverno. tendo sido o principal. e o sistema escolar adquiriu um caráter democrático. 26 CAPÍTULO 2 . corresponde a 7 de novembro. cargo equivalente hoje a vice-ministro da Educação. 1917: em 26 de outubro. Em 1929 é nomeada vice-comissária para a Instrução Pública.

Os cursos realizados para a formação de pedagogos eram teoricamente confusos. segundo a definição de Romain Rolland (1866-1944). foram rejeitados pelo primeiro comissário do povo para a Instrução. hoje. na época. destacado crítico. através das transformações realizadas pela direção do ensino popular entre 1917 e 1929 denominada. segundo a definição dessa época fornecida pelo professor Alberto Pinkevitch. Ministério da Educação. reitor da Segunda Universidade de Moscou. "o mais culto e mais instruído de todos os ministros da Educação da Europa''. superior e profissional 29 . que preconizavam o conceito do "trabalho educativo" ou o da "formação do homem útil". já nos primeiros dias. da Bélgica. Nesse período inicial da revolução.Anatoli LUNATCHÁRSKI (1875-1933) Lunatchárski era. Lunatchárski foi o verdadeiro responsável por toda a transformação legislativa da escola russa e o criador dos sistemas de ensino primário. a necessidade ele reconstruir o sistema educativo obrigou as autoridades a adotar medidas maximalistas'. Figura .riu-se na esfera da instrução. os nomes de Ovide Decroly (1871-1932). Anatoli Vasilievitch Lunatchárski. 28 Os educadores começaram a pesquisar em várias direções e. cronista e prolífico orador. Comissariado do Povo para a Instrução. historiador da arte e da literatura universal. Homem de vastos conhecimentos enciclopédicos. e de Georg Kerschensteiner (1854-1932).

após conhecer os resultados da campanha. para que dela participe.da futura pedagogia socialista. Finalmente. Criado em fins de novembro de 1917. oficinas e fábricas. também. ano em que ele rompeu como Partido Comunista. Lênin dizia que "uma pessoa analfabeta fica de fora da vida política e. Lênin lhe confiou a missão de articular as negociações com a velha intelectualidade russa. a participação de Alexei G. seguidor das teorias de Pietr Kropotkin (1842-1921). não-comunistas. o defensor da "educação integral" e autor do famoso texto pedagógico anarquista Campos. Kalashnikov. como Chatski. o Comissariado do Povo para a Instrução Pública. teve como meta conseguir a alfabetização geral e a educação política da população. Por causa do amplo prestigio intelectual de Lunarchárski. No final de 1918 foi assinado o decreto "Sobre a mobilização dos que sabem ler e escrever . Foram chamados pedagogos importantes. nos primeiros anos. uma decisiva participação das massas na construção ativa do socialismo. que colaborou com o novo governo até 1925. é necessário primeiro ensiná-la a ler e escrever". dos métodos ocidentais de instrução e da realidade nacional permitiu resolver as principais questões de organização do coletivo na construção da nova sociedade. para que esta pudesse se integrar na nova realidade sem grandes traumatismos éticos.segundo o qual toda a população culta ficava compromissada com o trabalho da instrução geral. desde seus primeiros dias. Seu conhecimento das teorias marxistas. Mas a própria sombra do analfabetismo impediu. Sobre esse problema. Lunatchárski obteve. no frustrante . publicado em 1899.

igrejas. na qual têm que estar organizados todos os processos educativos. nas formas em que era conhecida. a jornada de trabalho foi reduzida em duas horas diárias. entre a teoria e a prática. clubes. Com a transformação da sociedade burguesa em sociedade socialista. o decreto "Sobre a liquidação do analfabetismo". com a completa conservação do salário.informe do Conselho de Comissários do Povo. da dialética do processo pedagógico. Por exemplo: para todos os que estudavam. Assim. casas particulares e locais adequados nas fábricas. Lênin assinou. por isso mesmo. e cada membro dessa coletividade deve sentir forçosamente sua dependência com relação a ela. levou muitos dos marxistas russos. em 1920. a escola passa a ser uma coletividade total e única. com ele. no dia 26 de dezembro de 1919. diretamente ligada à reestruturação cultural proposta pela revolução socialista. Essa visão inédita do universo social. empresas e repartiçoes soviéticas. para dar aulas. os . Era 30 permitido aproveitar as Casas do Povo. mas também criou todas as condições necessárias para que isto acontecesse. O Estado soviético não só obrigou as pessoas a estudar. a considerar inicialmente que a escola também era uma superestrutura que refletia a sociedade burguesa e estava. que obrigava toda a população com idade compreendida entre os 8 e os 50 anos. Ë nesse clima de euforia do ensino popular que o jovem pedagogo Anton Semiónovitch Makarenko começa. destinada a desaparecer. conforme o desejo de cada um. e entre eles o próprio Lênin. a se alfabetizar na língua materna ou na russa. já com 32 anos. a fixar os parâmetros que revelariam uma nova relação. que não sabia ler nem escrever.

a função escolar se tornaria uma função natural da comunidade de trabalho. Em plena catástrofe. o país atravessou uma segunda crise econômica. pela eclosão de uma guerra civil (1918-1920). existiria o "desaparecimento gradual do Estado depois 31 da expropriação dos bens da burguesia". que testemunhou o processo revolucionário. O jornalista estadunidense John Reed (1887-1920)." A campanha de alfabetização tomou conta também da guerra. escreveu. somente o exército teve prioridade absoluta nas despesas provocadas pela guerra e suas seqüelas devastadotas. foram editados 115 títulos das obras clássicas da literatura russa. agravada. na visão de Friedrich Engels (1820-1895). em 1918. o governo soviético determinou que o segundo maior orçamento estatal fosse aplicado na instrução popular.mais radicais levantaram a hipótese da "morte da escola" do mesmo modo que. e os soldados aprendiam a ler com as famosas cartilhas especialmente escritas por Krúpskaia para o front. Ainda assim. e um dia a escola e a fábrica acabariam por coincidir na sua própria existência. com uma tiragem de seis milhões de exemplares. obrigando os soviéticos a mobilizar todas as forças humanas e materiais para a defesa da nação. posteriormente. Deste ponto de vista. torcia-se em dores ao engendrar um novo mundo e devorava o material impresso com a mesma insaciabilidade com que a areia seca absorve a água. no auge da guerra civil. sobre este fenômeno editorial: "A Rússia. Logo após a criação do Estado socialista. o grande gigante. Para a edificação de um sistema de educação estatal .

no campo da educação. em colaboração com Vladimir Maiakovski. que influenciaria não somente a educação. no inicio da formulação da nova linha a seguir. era necessário. Ali nasceu toda uma importante corrente do pensamento revolucionário. crítica ideológica e bases LEF é a sigla de Levy Front Iskustv.MAIAKOVSKI (1893-1930) 32 educativas "para criar um mundo novo". muitos foram partidários de Friednich Fróebel (1782-1852). e que defende um ponto de vista romântico sobre a criança face ao universo real. Frente Artística de Esquerda. integrados numa nova forma expressiva de vanguarda. da instrução e do ensino. o teatro e o cinema. Grande influência teve o pensamento formalista do Circulo Lingüístico de Moscou. mas também a literatura. A arte da comuna (1918) e a famosa LEF(1923-1925). Também foram estudadas as teorias da primeira época de Maria Montessori. principalmente o Fróebel de A educação do homem. Boris Eikhenbaum (1886-1959) e o grande Vitor Bonisovitch Sldovski (1893-?). estabelecessem normas políticas. Os educadores sofreram grande influência desses teóricos. A esse movimento também estão relacionados Iuri Tiniánov (1894-1943). As revistas que Brik fundaria posteriormente. então. A nova pedagogia foi estruturada com muitas dificuldades e com freqüentes divergências de opinião na direção a seguir. especialmente o livro Auto- . Figura . elaborar uma nova teoria da educação. fundado pelo lingüista e crítico de arte Otto Brik (1888-1945). escrito em 1826. permitiriam que a lingüística e o marxismo.com bases socialistas. Mas.

-educação nas escolas elementares. ás crianças. Também foi aplicado no ensino soviético o "método integral". nos quais ele demonstrou a impossibilidade de aplicar. Lunatchárski e Pinkevitch. dado o caráter individualista de sua proposta didática. a qual não é uma simples soma das consciências individuais. O Ensaio sobre alguns aspectos do . Escola e sociedade. pelo psicólogo e educador Lev Semiónovitch Vygotsky (1896-1934). de 1899 e Democracia e educação. Ainda na década de 20. Seus livros. de 1916. proposto pela "escola progressiva". Mais adiante. que advoga que o fenômeno social "é caracterizado pelo fato de ser o produto da consciência social ou coletiva. criado em Massachusetts. nos anos 20. tais como as propostas pelo sociólogo e filósofo francês Ëmile Durkheim (18581917). o famoso Plano Dalton. sente e quer de um modo autônomo". Os pedagogos soviéticos acreditavam que ensinar segundo esses métodos era uma contradição em relação ao pensamento marxista e leninista. fornecendo assim. na escola soviética. Esta obra teve enorme repercussão na nascente pedagogia soviética. do estadunidense John Dewey. foram pesquisadas outras correntes pedagógicas. as teses do criador da epistemologia genética. como modelo. Estados Unidos. foram estudados tanto por Krúpskaia como por Chatski. teve grande repercussão na União Soviética. como se se tratasse de um sujeito que pensa. mas representa uma síntese nova. Também se efetuaram importantes e profundos estudos sobre a obra de Jean Piaget (1896-1980). não-soviéticas. mas ele acabou sendo rejeitado. pois esses métodos trabalham com estruturas temáticas e não com disciplinas globais. conhecimentos fragmentários e dispersos da realidade. de 1916. nos anos 20. realizados em Moscou.

Segundo Vygotsky: "A lógica objetiva. já que as justificações psicológicas do estudo sobre o desenvolvimento da inteligência. a razão da sua existência. constituem uma visão histórica antidialética dos problemas de educação e da formação cultural. despertou. Karl Marx (1818-1883) atribui ao educador e economista William Petti (1632-1687) a primeira formulação teórica desse método de instrução. Kerschensteiner tampouco foi bem-sucedido na União Soviética com suas teorias da "escola do trabalho". que é a fonte da evolução histórica e. na relação causal. que tanto interesse despertou em Edouard Claparède (1873-1940) e sua "escola funcional".33 desenvolvimento da noção de parte na criança. entre os fenômenos e os processos da realidade concreta". naquela época. que aspira a fornecer ao capitalismo . em 1921. Célestin Freinet (1896-1966). na época. descoberta mediante a investigação científica. foi recebido pelos educadores marxistas com severas críticas. a ponta mais avançada da "pedagogia de esquerda". necessária e estável. manifesta uma certa ordem. De acordo com Pinkevitch. certa curiosidade entre os soviéticos pelo conteúdo cooperativista e popular de seus textos e de suas experiências pedagógicas. na década de 30. por isso. posteriormente aplicado segundo as novas técnicas da "escola de Munique". na Europa Ocidental. na idade evolutiva. Isto significa que o desenvolvimento da psique da criança está organicamente ligado ao meio social. Exatamente o contrário do que afirmava Piaget. publicado por Piaget. estamos frente ao representante [Kerschensteiner] do regime burguês. que representava.

em 1863. que disciplinou a cátedra de Medicina. crítico literário e revolucionário democrata na época tzarista. aos quais tem se inculcado uma visão de submissão perante o regime capitalista atual e dotado de profundas crenças sobre a natureza mítica do Estado como árbitro dos interesses de classe". nacionalista e libertária. que apreciava muito sua obra. o considerava um precursor do marxismo na Rússia. em estudar a obra dos revolucionários democratas da segunda metade do século XIX. Feodor Dostoievski (1821-1881) escreveu Notas do subterrâneo.importante escritor. escritor. chamado popularmente "o furioso Vissarion". e desterrado para a Sibéria. Foram eles que insistiram. foi preso por ordem do tzar. atacando o racionalismo apregoado por Tchernishevski. A "escola do trabalho" teve nos professores Shulgin e Pistrak seus principais cultores na União Soviética. .integraram os planos de estudo do segundo período da reforma educativa. também. na Universidade de Moscou e a de Vissarion Grigorevitch 34 Belinski (1811-1848) .anatomista. em 1864. Considerado herdeiro de Belinski na liderança da intelligentsia radical russa. de 1921 a 1924. aqueles que criaram as bases de uma literatura socializante. cirurgião e pedagogo.legiões de operários devidamente educados e vocacionalmente instruídos. Foi assim que a obra de Nikolai Ivanovitch Pirogov (1810-1881) . Nikolai Gavrilovitch Tchernishevski (1828-1889). Lênin. pelo seu temperamento iracundo e pelos violentos artigos jornalísticos que divulgavam as idéias socialistas contra o sistema de servidão . critico literário e ensaísta. Também foram profusamente estudados os trabalhos do cientista.

que é a linguagem. em cujo desenvolvimento cabe à palavra o papel primordial. no Brasil. como uma experiência total. Considerei de suma importância apresentar um quadro mais ou menos geral dos acontecimentos e da evolução da pedagogia russa para a soviética. evidenciou a base fisiológica do pensamento. de codificar. para a educação da personalidade no coletivo e." É nesse panorama de grandes transformações históricas e sociais que surge a obra. somente. Corresponderia a Makarenko a responsabilidade histórica. ao demonstrar que o homem possui. a teoria materialista sobre a atividade nervosa superior. o conteúdo desse princípio. já nos anos 30. posteriormente. ao enunciar que: Anton MAKARENKO -> "A prática pedagógica é a organização do coletivo. através do coletivo.Especial importância na formulação teórica do ensino marxista tiveram as teses do fisiologista Ivan Petrovitch Pavlov (1849-1936). o pensamento e o método de Makarenko. a proposta de Makarenko: a construção de uma 35 sociedade socialista através de uma ciência dialética chamada pedagogia. Pavlov. um segundo. a fim de que se possa compreender melhor. além do primeiro sistema de sinalização. Esta concepção do homem e da estrutura psíquica e social forneceu a Lunatchárski valiosos elementos que. criador da reflexologia. seriam determinantes na condução dos educandos e na formulação da ação no coletivo. 36 . constituída como parte integrante de um coletivo de produção social.

na cidade ucraniana de Belopólie. o bielo-russo e o ucraniano. o primeiro Estado eslavo oriental socialmente organizado. sendo Kiev considerada "a mãe de todas as cidades russas UNIÃO DAS REPÚBLICAS SOCIALISTAS SOVIÉTICAS 1 RSFSR República Socialista Federativa Soviética da Rússia 2 RSS da Ucrânia (Kiev. província de Kharkov. em 1900.CAPÍTULO 3 . século IX. um importante centro comercial e um ativo entroncamento ferroviário com mais de 15 mil habitantes. fiéis à cronologia do antigo calendário juliano ou bizantino. capital da Ucrânia. Dolinskaia. era. posteriormente conhecida como Rus de Kiev. Alguns biógrafos de Makarenko mencionam sua data de nascimento como sendo 12 de março. Foi na Ucrânia. Poltava. utilizado pela Igreja Ortodoxa Russa e pelo império tzarista. O governo soviético adotou oficialmente o calendário gregoriano somente em fevereiro de 1918. Fundada no início do século XVII. no curso médio do rio Dnieper que se fundou a antiga Rus. Belopólie.MAKARENKO CRESCE COM A REVOLUÇÃO SOCIAL Anton Semiónovitch Makarenko nasceu no dia 13 de março de 1888. Krementchug. e a 650 ao sul de Moscou. Dali surgiram três povos: o russo. que em russo quer dizer campo branco. Belopólie. a 400 quilômetros a leste de Kiev. Kharkov) 3 RSS da Bielo-Rússia 4 RSS do Uzbequistão 5 RSS do Cazaquistio 6 RSS da Geórgia .

filho de um operário de Kharkov. Ele trabalhava em Kriúkov quando conheceu Tatiana Mikhailovna Dergatchova. Sua irmã mais velha chamava-se Alexandra.Casal de camponeses Figura 2 . Natália e Vitali. filha de um soldado que serviu durante 25 anos no exército tzarista. . Semion e sua família mudaram-se para Belopólie para trabalhar nas oficinas da rede ferroviária nacional. Seu pai. 39 Figura 1 . Semion Grigorievitch Makarenko.Paisagem ucraniana 40 Anton Semiónovitch foi o segundo filho de uma família de operãrios típicos da região. Após o casamento. e os irmãos mais novos. era pintor de paredes.A Igreja exercia forte influência sobre o povo da velha Rússia.7 RSS do Azerbadijão 8 RSS da Lituânia 9 RSS da Moldávia 10 RSS da Letônia 15 RSS da Kirguízia 12 RSS do Tadjiquistão 13 RSS da Armênia 14 RSS da Turcomênia 15 RSS da Estônia 38 Figura 1 .Aldeia ucraniana Figura 2 .

Makarenko.Anton Semiónovitch na escola primária 42 Não foi muito difícil para o menino Anton cumprir os desejos do pai. Anton foi uma criança de saúde delicada. Se você obtiver boas classificações . com uma insistência pouco comum. que...Figura . fisicamente miúda. sempre preferia ouvir as histórias e lendas tradicionais ucranianas. foi matriculado na escola primária. pela sua pró41 pria condição física. Juntamente com seus companheiros.. o que não foi um empecilho para seu normal desenvolvimento. Era um observador profundo da natureza e das coisas que o todeavam. característicos das crianças da sua idade. quero ver somente as melhores notas .Os pais de Makarenko. trabalhava na horta escolar.. possuía bom ouvido musical e cantava no coro in- .. disse-lhe: "As escolas urbanas não foram feitas para nós.. No dia que ingressou na escola primária. Makarenko lembra as palavras de seu pai. e já que você quer estudar. as causas de cicia fato ou de cada fenômeno. Aos 5 anos já sabia ler e. então obrigatoriamente terá que demonstrar ao professor o seu talento. melhor nem voltar para casa. com toda a simplicidade dos operários. com 7 anos. Em 1895. cujo curso tinha duração de dois anos. Sempre perguntava. As suas excelentes aptidões para o estudo fizeram dele o melhor aluno de sua turma. você me entendeu? Figura . evitando assim os jogos bruscos.

entre os operários. não tinha possibilidades de freqüentar esses espetáculos. construída pela empresa ferroviária. Ali se apresentavam os artistas mais importantes de Moscou e São Petersburgo. Em Ktementchug atuaram artistas mundialmente famosos.fantil. como o baixo Feodor Chaliapin (1873-1938). Makarenko começou a tocar violino e a freqüentar os concertos públicos da cidade. a bailarina Anna Pávlova (1885-1931) e muitos outros não menos importantes. Em 1900 foram abertas grandes oficinas fertoviárias na vila de Kriúkov. Kriúkov era um importante subúrbio da cidade de Krementchug. outro de operetas e vários cinemas. Uma comprida ponte. o controle das finanças era exercido pela mãe. ávido de conhecimento e cultura. em algumas ocasiões lograva poupar escassos rublos para poder assistir às apresentações do poleiro do teatro. Ainda que ser empregado nas oficinas do sistema ferroviário fosse. foram recrutados operários de diversas regiões da Ucrânia e. Era esta a via que permitia aos habitantes de Kriúkov ter acesso à cultura urbana. Anton. em janeiro de 1901. unia o subúrbio com a grande cidade. que na época tinha 10 mil habitantes. Na família Makarenko. que poupava para poder alimentar. como em todas as famílias de pouca renda. e em constantes mudanças. Seu professor descobriu nele talento para o desenho e para a música. que naquela época morava em barracos operários. Naquele tempo Krementchug possuía um grande teatro de drama. Krementchug ocupa um lugar de relevo na biografia . É óbvio que a família Makarenko. a família Makarenko se muda para sua nova moradia perto do rio Dnieper. considerado um verdadeiro privilégio. vestir e calçar seus quatro filhos. mais desenvolvida. Para preencher as vagas dessas oficinas. o salário de Semion Grigorievitch era muito baixo. onde nascera a mãe do pedagogo.

coberto de poeira. fazendo amizade com seus novos colegas. operários e artesãos. com grandes esforços pessoais. que Anton descreveria posteriormente. excepcionalmente. mais ou menos às seis horas." Diferente de Semion. Quinze minutos mais tarde. Ensinava-se Russo. bastante completo.de Makarenko. Chegava e depositava na cozinha a marmita embrulhada num pano vermelho onde sempre levava a sua ração de comida. Anton escreveu nas suas memórias este emocionante depoimento: "Diariamente. um grande senso de humor e mantinha no seu lar uma atmosfera de entusiasmo vital. Geografia. Nela viveu sua juventude e foi ali que iniciou a sua atividade pedagógica. nas suas obras autobiográficas. começou a melhorar sua condição de vida. durante dezenas de anos. filhos de pequenos funcionários públicos. Também foi 43 nessa cidade que seu pai. O programa docente era. Tatiana Mikhailovna era uma mulher alegre e otimista. assim que começava a soar a sirene de uma fábrica vizinha a nosso bairro. Makarenko estudou na Escola Urbana de Krementchug durante seis anos. chegando a um cargo de chefia no setor de pintura e manutenção nas oficinas ferroviárias. cansado e sério. com a expressão musical "tom maior". De simples pintor foi promovido a postos de maior responsabilidade. sempre severo e pouco comunicativo. ele caminhava ao longo dos muros cinzentos da nossa desgraçada rua. Semion Makarenko. . já que a esta cidade estão ligados quase dois decênios de sua vida. Tinha aptidão para narrar histórias. Ciências Naturais e Física. meu pai se levantava às cinco da manhã. Voltava para casa no entardecer. História. Sobre as lembranças desta época. Aritmética.

Makarenko não foi simplesmente um excelente aluno: ele foi um grande companheiro. Esta era uma das formas pelas quais o sistema educacional tzarista eliminava todas as perspectivas dos estudantes de ter instrução superior. naturalmente. Seus colegas apreciavam especialmente sua disposição permanente de ajudar os alunos mais fracos. que seu professor resolveu nomeá-lo seu assistente e. aulas de catecismo. Canto. também os alunos tinham cursos de Desenho. de manhã cedo. Sua paixão pela leitura e pelo conhecimento levava-o a dispensar os divertimentos em grupo. Apesar das limitações impostas pela sua difícil situação econômica e pelo próprio sistema de ensino. Ele chegava à escola bem antes do início das aulas e explicava as matérias aos mais 44 atrasados nos estudos. Este primeiro treinamento pedagógico já perfilava a sua fritura profissão. conhecia muito bem Filosofia. linear e artístico. como ouvinte. tais como os jogos e os esportes violentos. tão apreciados entre os jovens. Empregava a maior parte de seu . dos debates de alguns círculos intelectuais da cidade. Era um enciclopedista nato. por esta razão. uma vez formados. como Lógica e Filosofia. Makarenko gostava especialmente dos esportes individuais e praticava a ginástica rítmica com tanta elegância e sucesso. Anton passou a dirigir diariamente. além de faltar outras disciplinas mais universais. Apesar da pouca idade. Astronomia e Ciências Naturais. os exercícios físicos dos alunos da sua turma. os educandos não podiam se matricular nos graus superiores de ensino. por isso. Fisicamente frágil. Anton continuou estudando com grande entusiasmo nas bibliotecas públicas ou participando. Ginástica e.Fora destas aulas. As línguas estrangeiras estavam proibidas e.

Anos mais tarde. A canção do falcão e O anunciador da tempestade. um ensaio geral para o seu monumental Poema pedagógico. Além de ler livros de aventuras e de viagens.Tchekhov e Górki. Foi grande admirador de um dos maiores poetas russos: Alexandr Sergueievitch Púshkin (1799-1837). do romance e da poesia. necessários 30 anos para que ele pudesse ver o seu primeito título impresso: A marcha dos anos 30. quando estudava na escola de Krementchug. em 1936. em 1933. a quem veio a conhecer pessoalmente. a minha vida decorreu sob o signo de Górki". ele reconheceu essa influência definitiva: "Após ter lido. Ivan Vaghilevicht. foi um marco na sua formação. Anton começou a escrever ficção por volta de 1903. como Paviovitch Tchekhov (1860-1904) e Máximo Górki. Iakiw Gholovatski. Mas o grande papel no despertar da consciência cívica de Makarenko foi exercido pela obra de Górki.tempo estudando os clássicos russos e universais. que apareceria nas prateleiras. mas foram 45 Figura . também ucraniano. Tinha verdadeira paixão pela poesia de Ivan Frankó (1856-1918) e de Taras Tchevtchenko. . O despertar precoce da sua consciência social ficou evidente desde suas primeiras experiências literárias. Mas a descoberta da obra de Nikolái Vasilievitch GóGol (1809-1852). assimilou profundamente as obras de seus contemporâneos. principalmente as de Grigori Skovorodá (1722-1794). Conhecia perfeitamente as obras da lírica ucraniana. do teatro. na minha juventude. Markian Chachkevitch. o jovem Makarenko se inteirou da história da Europa através de Walter Scott. Victor Hugo e Henryk Sienkiewicz.

Em 1904. termina o ginasial com nota máxima em todas as matérias. o famoso "domingo sangrento" de São Petersburgo. Os acontecimentos políticos de janeiro de 1905. O jovem começa a sonhar em conhecer mais e mais para compreender melhor a essência humana. Ao contrário do que acontece geralmente com os escritores novatos. surpreendentes traços de humor crítico da realidade."Domingo sangrento ' de São Petersburgo. obrigando o tzar Nicolau II (1868-1918) a ceder perante os revolucionários. Perante o jovem Makarenko levantou-se a questão: ''Que fazer agora?". 1933 . Numa . relatando sua experiência pedagógica. Decidiu ser professor. 46 Figura . aos dezesseis anos. Anton Semiónovitch ingressou num curso que formava em apenas onze meses jovens profissionais do ensino para o magistério primário. as aulas pedagógicas e recebe o seu primeiro diploma como educador. os de Anton continham.Notas: 1932 . Em agosto do mesmo ano. basicamente. abalaram as estruturas do poder monárquico. A marcha dos anos 30.Makarenko edita seu primeiro livro. Makarenko termina. com grande animação. Muitos de seus colegas decidiram continuar os estudos nas escolas técnicas da rede ferroviária. que se iniciam na poesia com versos românticos e entusiásticas descrições da beleza natural. outros elegeram a carreira militar. que o fez conhecido em todo o mundo.Makarenko edita o Poema pedagógico. Na primavera boreal de 1905.

deixando um saldo de mais de 500 mortos. A primeira Duma (abril-julho de 1906) e a segunda Duma (fevereiro-junho de 1907) foram dissolvidas pelo próprio governo tzarista. dominando.Colheita de cereais na Ucrânia. Era responsável por 26% das exportações russas. em condições quase escravistas. O massacre de São Petersburgo repercutiu na Ucrânia. A Ucrânia ficou famosa na Europa pela sua farta produção de cereais e conquistou o título de "celeiro do mundo" por causa da generosidade das colheitas de trigo. com resultados ainda mais violentos. A resposta foi inequívoca: as tropas tzaristas metralharam os manifestantes.aparente transição democrática. Makarenko e seus companheiros receberam a notícia estarrecidos. fornecia 24% do produto nacional bruto e atingia até 70% da produção siderúrgica do país. . de 19 de agosto. Todos esses fatos eram conhecidos por Makarenko e foram essenciais na sua formação social e política. que teve quatro convocações. A classe operária constituía 22% da mão-de-obra da nação. a Ucrânia era uma das regiões mais desenvolvidas do império. tanto na agricultura como na indústria. Os latifundiários mantinham o controle absoluto das terras. no dia 18 de outubro de 1905. uma passeata com mais de 30 mil pessoas. uma espécie de parlamento. após o manifesto do tzar. Os operários de Kiev organizaram. a população rural. sem contar a grande população camponesa. todas elas reivindicando melhores condições de vida tanto para os trabalhadores da indústria como para os camponeses. Figura . instituiu-se a Duma do Estado. 47 Nessa época. superando largamente a produção conjunta de vários países europeus.

é o que determina a personalidade do indivíduo. que o processo do ensino na escola. desde seu lançamento. em 27 de outubro de 1905. Anton Semiónovitch e um grupo de professores progressistas ligados ao ensino. uma prática política. prematuramente. Já nesse período de sua vida começa a tomar consciência de que o fenômeno pedagógico é. de Émile Zola (1840-1902). foi uma das pioneiras na divulgação dos princípios do pensamento marxista. que tinha Lênin como redator-chefe. sobre os vícios da posse da terra pelos latifundiários. e a descoberta de Germinal(1885). fundado por Górki e Lênin. O apetite de conhecimento faz do jovem Anton Semiónovitch um devorador de livros. assinaram. Sua capacidade intuitiva faz com que ele compreenda. Anton MAKARENKO -> "Estou convicto de que a finalidade da nossa educa- . produzindo um ser coletivo a caminho da felicidade. especialmente as famosas "Notas sobre a pequena burguesia". também. de Olga Kobilianskaia (1863-1942). Essa publicação. o Nóvaia Jizni (Vida nova). inserido na produção social. são fatores determinantes na formação da sua visão crítica da realidade. a linha divisória entre o trabalho físico e o mental desaparece. A leitura do romance ucraniano A terra (1901). o pri48 meiro jornal legal bolchevique de circulação nacional. Foi no Vida nova que Makarenko conheceu os textos críticos de Górki. Dessa forma.Em Kriúkov. interessados em obter maiores informações sobre o desenvolvimento teórico e prático da cultura e do socialismo. que narra a luta revolucionária dos mineiros franceses.

"a amizade deve ser forte como madeira de lei . sua mãe. dialogando com os companheiros ou familiares. foram até o bosque próximo para recolher lenha de bétula e acender a fogueira no jardim de sua casa." Todos celebraram com grandes risos e aplausos a irônica descrição feita pelo jovem professor debutante. sempre foram bons motivos para celebrar. no jardim da nossa isbá. um homem-cidadão capacitado para participar com a máxima eficiência na edificação do Estado. posteriormente transformadas numa metodologia de ação pedagógica. Nós devemos educar. ovos." Com estas conclusões. diversos legumes e muito condimento. na hora da refeição. o vinho. beterraba. anteciparam os tons dourados do outono ucraniano". cebola. em ucraniano chama-se watra e representa o fim de um ciclo e o inicio de outro. prato que contém peixe. uma boa razão para estar feliz: esse dia marca a sua estréia como professor da língua russa.. nos canecos. na hora em que as brasas morrem. O seu talento dramático já era amplamente conhecido por 52 . embelezam..". As noites de núpcias. Tatiana. ora como gelo.O JOVEM PROFESSOR MAKARENKO Anton Semiónovitch começou a sua juventude trabalhando. na Escola Primária Ferroviária de Kriúkov. tudo isso resfriado num caldo de kvas. No dia 1º de setembro de 1905. ele e seus amigos. ri a fruta dentro dos cestos.ção reside não somente em educar um homem de espírito criador. perto do fogo. A cinza da fogueira estival. o nobre poeta da corte de Catarina II (1729-1796). até a filosófica hora da watra. pronunciando frases sempre poéticas: "no entardecer as labaredas. seu espírito brincalhão lhe inspirou declamar estes versos de Gavrila Tomanovitch Derzhavin (1743-1816). o saboroso fermento de malte com mel. CAPÍTULO 4 . também. o borsch e o kaimak já estão à mesa.. O tempo era fresco e Anton festejava pletórico. o ponche. por ocasião da conversão dos principados eslavos ao cristianismo. rabanetes. tinha preparado um forte guisado adequado para essa época do ano: o tradicional okrostchka. a partida ou a volta de um amigo. o fim do verão. ora como faiscas. Makarenko iniciou sua longa caminhada em direção ao Homem. os incensários queimam icônicos aromas. inventado pelo príncipe Vladímir de Kiev em 988. antes do jantar. quando os pratos chegaram à mesa. alegremente. que gostava de descrever a fartura das mesas imperiais: "A áurea sopeira de tcheksná. De acordo com a tradição. brilhando.. uma pessoa que seja obrigatoriamente feliz. Makarenko tinha 1905.

Durante o jantar. no segundo. A irreverência. sobre "as criaturas . até seus conhecidos.tê-lo posto em evidência em mais de uma oportunidade. os jovens recebiam uma formação mais técnica. Desde os primeiros dias. na vizinha cidade de Krementchug. tinham saído juntos para o trabalho. ambos. Contando Makarenko. todos eles filhos dos empregados da rede ferroviária imperial. Ralé. os alunos. escrita em 1902. Semion Grigorievitch. comentou com os presentes que a direção do estabelecimento ferroviário de instrução tinha gostado muito da sua capacidade como educador e. da energia com a qual ele transmitia os conhecimentos. de manhã cedo. especialmente. como sua turma era de garotos filhos de operários e. aproximadamente. às vezes. geralmente crianças de até 10 anos. adquiriam conhecimentos elementares de leitura e aritmética. O programa oficial da escola ferroviátia constava de cinco anos de estudos. Aos poucos foi estabelecendo contato com um grupo de jovens intelectuais com os quais se reunia diariamente. Nessas rodas quotidianas eram lidos textos do semanário clandestino Proletari. Este circulo. tinha ficado um pouco nervoso. entre amigos. pela primeira vez. cinco professores se dividiam no atendimento dos educandos. internacional. No estabelecimento estudavam ao todo cerca de 200 alunos. divididos em dois níveis. utilizava o domicilio de qualquer um deles para os encontros. que não tinha uma sede própria. Foi ali que Makarenko tomou conhecimento dos sangrentos acontecimentos de Kiev e. A escola funcionava num local contíguo à oficina de manutenção e pintura onde Semion trabalhava. prosseguindo com sua atividade política. em alguns casos. além de outras publicações culturais. orgulhoso dos elogios feitos a Anton. que formavam turmas de 40 escolares. Numa dessas ocasiões. Seu pai. ouviu falar do subtenente Bons Zhadanovski. como era natural. também. logo no início da aula. mas que. era tanto mais acentuada quanto a evocação do luxo imperial contrastando com a sua frugalidade operária. os estudantes podiam continuar num curso de especialização que formava operários qualificados para o sistema ferroviário. 53 No final de 1905. por sua vez. líder da revolta militar de novembro que contou com o apoio dos estudantes e trabalhadores da capital ucraniana. e neles dialogava não só sobre arte e cultura. Terminados os dois ciclos. lembrou silenciosamente a estranha sensação que experimentara quando nesse dia. Confessou que. No primeiro. Makarenko participou ativamente na organização de um congresso de jovens professores. especialmente em reuniões como essa. pai e filho. Anton Semiónovitch fez amizade com seus pupilos que. direito de ministrar o curso complementar de desenho técnico e artístico. Pela sua facilidade nas ilustrações efetuadas no quadro-negro. ele ganhou. no caso do poema de Derzhavin. rapidamente controlou a situação. um de três anos de duração e um outro de dois. A repressão tzarista condenou à morte alguns deles e muitos sofreram penas de desterro. gostavam do jeito simples e comunicativo do jovem professor de 17 anos de idade. Makarenko conheceu a peça de Górki. dirigido por Lênin com a colaboração de Lunatchárski. como sobre os polêmicos temas da atualidade nacional e. cada uma.

Geralmente. as quais foram barradas imediatamente pela direção da instituição. Assim aceitou o desafio de inovar no "estilo" do sistema escolar vigente. deixou muito claro. passando a reconsiderar tudo aquilo que tinha assimilado no contato com os educandos. nervoso e possuído por um agudo conflito interior. mas já nessa época decidiu deixar de transmitir informações. as circunstâncias globais que interferiam na vida do estudante. 54 que uma vez já foram homens". após distribuir uma série de folhas contendo as questões a serem respondidas. Ela contribuiu para as modificações que introduziria no seu relacionamento com os educandos. Makarenko. que lecionava segundo os métodos aprendidos no breve curso de 1905. Anton Semiónovitch ficou perturbado. da qual já tinha ouvido falar muito. que se manifestou. parco e pouco comunicativo. percebeu. o canto folclórico e as trovas políticas estavam obrigatoriamente presentes. avaliou e qualificou como o mais atrasado nos estudos um menino de 10 anos. Esta obra. Makarenko não somente denunciava publicamente as miseráveis condições de . Ainda não tinha uma formulação teórica na qual se basear. nesse momento. analisando. Lutou contra o obscurantismo imposto pela autocracia e pela Igreja.Figura . que a educação das pessoas não era um ato isolado da realidade. decidiu. no último trimestre de 1908. na hora da despedida. e se defrontou com a direção do estabelecimento de ensino onde trabalhava. isto é. Alexei narrou. Makarenko.A alegre música dos ucranianos não faltava nesses encontros. levando-o a vomitar sangue. pela sua dramaticidade. chamado Alexei. abandonando a "instrução". lecionando com uma visão mais humanista e real. No terceiro ano da sua vida como professor. numa crise nervosa e num violento acesso de tosse. apenas transmitindo informações com fins basicamente instrutivos. caso por caso. que não havia pesquisado anteriormente as razões pelas quais o menino tinha tanta dificuldade em aprender. como até então tinha feito. teve especial importância na vida profissional do jovem pedagogo. a completa falta de tratamento médico para combater a enfermidade e os enormes esforços que ele fazia para poder estudar. Este. as graves condições econômicas de sua família. aconteceu um incidente que abalaria profundamente seu sensível espírito e provocaria uma catarse na sua prática pedagógica. Preparou um teste cuja escala de valores variava de 1 a 37 (era este o número de inscritos na sua turma) e. também. Os atritos que ele mantinha com o diretor eram cada vez mais freqüentes e violentos. realizar uma experiência singular: avaliar a capacidade de assimilação de cada um dos seus alunos. ao ser informado de que era "o pior da turma". que o pequeno estava muito doente e que a tuberculose já tinha tomado conta do frágil organismo. Apresentou uma série de propostas para modificar estrutura pedagógica da Escola Primária Ferroviária de Kniúkov. Mas nem sempre era a política ou a polêmica que predominava nos encontros. na consciência de Makarenko. o que o levou a buscar uma saída mais relacionada com a vida. mediante um sistema de pontuação elaborado por ele. então. 55 O incidente com Alexei. Também a tradição musical e o temperamento alegre dos ucranianos estavam presentes neles. teve de pronto um ataque de depressão.

essa herança explicará. também. nas dependências da própria escola que dirigiria. Makarenko. distante pouco mais de 100 quilômetros ao sul de Kriúkov. mão-de-obra escravizada. Makarenko recebeu uma comunicação oficial da Direção Distrital de Instrução. mas também criticava os objetivos finais da entidade. que tinha morrido no dia 20 de novembro. o conflito entre Makarenko e o diretor geral da escola atingiu seu ponto critico. Anton Semiónovitch aceitou esse novo desafio. através do ensino. Convidado pelos colegas a presidir um ato cultural em homenagem a Leon Tolstoi. contra a administração do estabelecimento educacional ferroviário e surpreendeu a todos os participantes presentes ao ato. referindo-se ao próprio diretor geral. Anton tinha. não poupou adjetivos. apregoando a alfabetização geral. quando. as razões da sua fraqueza e qual será o caminho a seguir de agora em diante. lendo Tolstoi. localizada na estação de Dolinskaia. foi nomeado inspetor de instrução pública (mesmo cargo que exerceu o pai de Lênin). Em dezembro de 1910. Chegou a afirmar que a política de limitar a instrução a conhecimentos meramente utilitários servia aos critérios inescrupulosos que visavam produzir. Makarenko. com a responsabilidade de supervisionar o pequeno plantel docente existente em Dolinskaia. 57 49 CAPÍTULO 5 . defendeu a instauração de uma "escola livre". Instalou-se." Lênin tinha escrito. o classificou de "corrupto" e "monarquista". O regime escolar era o de internato.vida dos filhos dos operários ferroviários que eram seus educandos. ampliada de acordo com as teorias da "escola de trabalho". Tolstoi deixou-nos uma herança que não pertence ao passado e sim ao futuro. que passou a ser muito respeitado entre os educadores. filhos de . entre suas novas obrigações. palavras semelhantes. o povo russo compreenderá. aos trabalhadores. dividindo a moradia com os outros professores e todos os alunos do estabelecimento.A EXPERIÊNCIA EM DOLINSKAIA Em 1911. tão em moda na Europa desses anos. informando-o de que tinha sido transferido para outra escola. o que foi que a monarquia e a Igreja fizeram com eles. após o incidente de Kriúkov. que já tinha sido enterrada pela Revolução de 1905. 56 inspirada na experiência tolstoiana de Iasnaia Poliana. Anton Semiónovitch aproveitou a ocasiao para fazer um discurso político: "Com Tolstoi também morreu a Rússia escravista. finalmente. No final do discurso. Alguns dias depois. a estação ferroviária de Dolinskaia era um entroncamento secundário da linha que descia em direção ao porto de Odessa e a outras cidades vizinhas do Mar Negro. eram menores. com grande entusiasmo. a Rússia latifundiária. na sua totalidade. que já conhecia a obra pedagógica de Tolstoi. arrumou suas malas e partiu. nesses dias. a atribuição de mentor pedagógico da pequena comunidade ali formada e composta quase unicamente por funcionários da ferrovia. No entusiasmo da sua exposição. nas suas acusações. pois os alunos.

Makarenko 60 organizou um grupo de teatro. centenas de meninas e meninos. aos nossos pais. mas que observavam e aprendiam como tratar as crianças para quando as tivessem. Sob sua direção. as meninas convenciam suas mães a emprestar-lhes as melhores roupas do enxoval para poder vestir Irina. Todos os que o conheceram trabalhando em Dolinskaia se referem a ele como um grande organizador de eventos pedagógicos. descreve o interesse do grande educador pela vida da comunidade: "Ele estava estreitamente ligado a todos nós. Obviamente a língua local estava absolutamente interditada nas escolas e repartições oficiais. Makarenko. formou uma rica biblioteca. composta principalmente de clássicos russos e de obras sobre a história universal.agulheiros. que moravam ao longo da estrada de ferro. falava a língua materna com perfeição. às vezes. a sua primeira experiência concreta de bilingüismo. Anton Semiónovitch tomou uma série de medidas inovadoras. Mas por ser filho de uma família ucraniana. personagens de Ralé. revistas. Eles próprios confeccionavam os cenários e os figurinos. tinha que lecionar em russo. o tzar proibiu a utilização da língua ucraniana. o entusiasmo era geral e toda a comunidade participava da preparação do espetáculo. jornais etc. Neste lugar. foguistas. em 1876. lia sempre para grupos de ouvintes e escrevia constantemente. no pátio da escola. Para evitar o crescimento do nacionalismo durante o século XIX. costuravam panos velhos para vestir Luca e Santine. Todos ficavam admirados com o lado humano desse homem que tão bem conduzia dezenas e. Nos dias de reunião. um futuro revolucionário no campo da pedagogia. Na escola. eu lembro que muitas vezes assistiam a esses encontros trabalhadores dos galpões das locomotivas e outras pessoas que não tinham filhos. tanto com relação à sistematização do estudo quanto ao interesse criador envolvendo o coletivo. Com sua presença. Nina e Polina. tanto a seus alunos. especialmente. e discípula de Anton Semiónovitch. copiava quadros de pintores russos. começou uma vida cultural e artística jamais conhecida antes na região. Sempre ouvia pacientemente as opiniões de todos e respondia detalhadamente qualquer pergunta que lhe fosse formulada. uma banda de música. maquinistas. guarda-linhas. fornalheiros e outros funcionários. ainda que timidamente. assim que chegou. tanto com os internos quanto com os moradores da vizinhança. bailes de máscaras. Nestas ocasiões. os alunos ensaiavam peças do repertório clássico russo. protagonistas de A gaivota. na pequena escola da estação de Dolinskaia. Não podiam ser publicados nesse idioma livros. Visitava com muita assiduidade cada uma das casas do povoado e conversava demoradamente sobre a educação no seio da família. na comunicação verbal e escrita. distante algumas dezenas de quilômetros da escola. fazia retratos e boas caricaturas. e freqüentes festas escolares. como às crianças que não freqüentavam a escola e. Makarenko teve. obrigatoriamente. denominados "quadros vivos"." O círculo de interesse do jovem professor era muito amplo: pintava aquarelas. Valentina Moroz nascida em Dolinskaia. Com mais liberdade em Dolinskaia que em Kriúkov. Estas iniciativas já perfilavam. . Logo no início de sua gestão. Nos depoimentos registrados sobre esta época da vida de Makarenko pode-se encontrar um perfil de suas preocupações didáticas no campo da interação entre a família e a escola.

) ou em La Fontaine (1621-1695) e não no fabulismo russo ligado às raízes nacionais. vibrando ainda pela força emocional da festa. à tarde. reproduziu a estratégica resistência das forças russas e o famoso incêndio de Moscou. Humanismo surpreendente. iluminando uma enorme clareira da estepe que rodeava o vilarejo. conta no seu livro. baseado na estrutura linear da orquestração da famosa Abertura 1812. Figura . Havia duas bandas de música. estafetas. foram feitos explosivos de confecção caseira. Ele ouvia com muita atenção as minhas intervenções e as das crianças. cantou em coro. Stepantchenko. realizado pelos alunos de Dolinskaia. com seus amigos professores em Dolinskaia. foram distribuídas estrategicamente centenas de barris de alcatrão que. ouvidos até altas horas da madrugada. Napoleão deixou o Kremlin no dia 16. que durou três dias. 63 "Numa ocasião. composta em 1880 por Piotr Ilitch Tchaikovski (1840-1893). O sucesso foi total. ao centro. finalmente. fábula de Ivan Andreievitch Krilov (1769-1844). esclarecendo qualquer ponto colocado em discussão. data que marcou o começo da sua derrota. aos gritos de 62 “vitória”. foram incendiados.O incêndio de Moscou (detalhe) pintura de autor anônimo. Com a ajuda de alguns operários. até a porta da escola. que estes sentiam-se homenageados com sua presença. tudo foi previsto para dar mais realismo ao evento. Episódios semelhantes. Figura – Makarenko. O educador L. tendas de campanha. Citou a definição de Gógol e . Ele afirma que a principal arma de Makarenko era a perfeita intuição de saber intervir no momento adequado. A população. foi uma produção de dimensões gigantescas.Ficou muito famoso o espetáculo que preparou para celebrar o centenário da derrota de Napoleão Bonaparte (1769-1821) 61 durante a campanha da Rússia em 1812. quando ele foi convidado a opinar sobre o que tinha visto e ouvido. entre 15 e 18 de setembro. O espetáculo. que serviram para simular os disparos dos canhões.C. Stepantchenko conta que as intervenções de Makarenko nas aulas de outros professores eram efetuadas com tanto tato. eram uma constante na ação pedagógica de Makarenko. sob a direção de Anton Semiónovitch. Makarenko. que a versatilidade do inspetor fascinava as crianças. quando Anton Semiónovitch entrou na nossa aula. colega de Anton Semiónovitch em Dolinskaia. explicou que as regras metodológicas empregadas nessa ocasião mostravam o Krilov inspirado em Esopo (Séc. e até alguns cavalos para os oficiais de ambos os lados. Bandeiras. embora sem a grandiosidade particular desse. Com materiais procedentes das oficinas da ferrovia. numa demontração de gratidão e admiração incontestável. Finalmente. VII-VI a. O seu relacionamento com os educandos estava marcado por um exato equilíbrio “entre o emocional e o cognitivo”. os “vencedores” celebraram a salvação da Rússia e a conquista da glória universal. e os ferroviários mais fortes carregavam Makarenko nos ombros. meus alunos e eu analisávamos libélula e a formiga. uma para cada exército. a uma hora determinada.

. hipertensão etc. também.. Makarenko. acrescentando-lhe outras personagens espontâneas. sendo obrigado a usar pincenê a maior parte do tempo. somada a transtornos circulatórios. Você fará o papel da formiga e ela o papel da libélula. Anton Semiónovitch escreveu um pequeno conto sobre a presença da religião na educação. produto das constantes leituras da imprensa pedagógica e do intercâmbio de conhecimentos que mantinha com os amigos de Kriúkov e Krementchug através do correio. Num determinado momento.respondeu Anton Semiónovitch. venha aqui. riu a gargalhadas e todas as crianças presentes também participavam da brincadeira. . – Vocês querem brincar mais um pouco ainda? . .responderam as crianças. O seu isolamento no interior da província não limitou seu lado político: utilizava a ferrovia como meio de comunicação diário e assim acompanhava de perto a convulsionada história que a Rússia vivia nesses anos. a qual o ajudou a superar muitos dos obstáculos a que era submetido pelas suas limitações físicas. vamos improvisar um teatrinho. que é a do trabalho social produzido pela 64 comunidade. lendo as fábulas de Krilov. todos os alunos e até eu estávamos participando duma criação coletiva que já não era a fábula de Krilov e sim uma reflexão sobre a vida e os costumes do nosso habitat regido pela ferrovia. pelos esforços constantes a que se submetia. teria uma noção do caráter nacional russo muito mais exata do que se tivesse lido enormes tratados sobre o nosso país. Após hesitar durante algum tempo. Então.disse Makarenko.Como a personagem da libélula. mas eu te pedi isso somente para brincar. Vamos. ao que respondi concordando imediatamente. As reuniões desse círculo aconteciam todos os domingos. divertido pela zanga da menina. com os pequenos vibrando de alegria. Quero um menino e uma menina. Esta deficiência. começaram a interpretar a fábula. A moral da história. sem nenhum ensaio. ele já tinha organizado um grupo de trabalhadores e intelectuais revolucionários delicados ao estudo dos novos valores democráticos. crianças ." Essas intervenções de Makarenko faziam parte do seu próprio aprendizado.de Ivan Turgueniev (1818-1883). decidiu enviar uma cópia manuscrita a Górki. determinou uma relação especial para com o mundo e para consigo mesmo. Desenvolveu sua gigantesca capacidade de trabalho baseada numa autodisciplina inflexível.. que tinha voltado para Moscou após sete anos de exílio na ilha de Capri. a 'libélula' e o 'avô Krilov'.. Anton Semiónovitch me perguntou se ele podia reter meus alunos por mais alguns minutos. e eram.. Makarenko. na historinha que contou o professor Stepantchenko. Venham até aqui. No início de 1914. Terminamos a brincadeira cantando e dançando temas populares cossacos. começou a ter sérios problemas com a visão. você não quer interpretar esse papel para não ser chamada de preguiçosa.Muito bem.Queremos! .protestou a menina. Em 1913. A resposta . . Você é uma sapeca . Eu serei o avô Krilov. "A 'formiga'.Atenção.Eu não quero ser a libélula . ficou eternamente gravada no espírito das crianças. é o símbolo da preguiça e das pessoas ruins. pela qual ambos os escritores identificavam Krilov com as tradições camponesas nacionais. num bosque vizinho à estação de Dolinskaia. Eles diziam que um estrangeiro. de acordo? .

Com 26 anos de idade já cumpridos. Anton Semiónovitch ultrapassa o primeiro ano de estudos com facilidade.O EDUCADOR MAKARENKO EM FACE DO FUTURO & A CONTINUAÇÃO DOS ESTUDOS O bombardeio dos portos russos do Mar Negro e o inicio da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) determinam grandes mobilizações na Ucrânia. O professor aspirava dominar as riquezas da cultura e desde cedo tinha-se imposto. nos quais ele tomou consciência da complexidade dessa disciplina tão especial que é a pedagogia." Em agosto de 1914. já que ainda não tinha feito o serviço militar. antes do final do ano. Górki lhe revela que estava enganado e. Ele tinha assegurada sua sobrevivência graças aos rublos poupados durante os quatro anos que trabalhou como inspetor na escola de Dolinskaia. Anton ficou preocupado. Makarenko se demite de suas funções na pequena escola da estação de Dolinskaia. fato que era incomum nessa época. também. como objetivo. Gostaria de ler outras coisas suas. com o intuito de se especializar nas disciplinas de ensino superior. a narração é muito interessante. Ele achava que a profissão de professor facilitaria ao escritor a sua função criativa. escreveu mais tarde: "me despedi dos meus sonhos de escritor". pouco tempo depois da carta de Górki. 65 A carta de GÓrki marcou uma etapa importante na vida de Anton Semiónovitch. . mas em 1915 ele teve que dar aulas particulares para poder pagar as despesas de alimentação e moradia em Poltava. mas ela tem o problema de estar escrita sem força. e decide ingressar imediatamente no Instituto Pedagógico de Poltava. Tampouco o diálogo resulta atrativo. localizada a 100 quilômetros ao norte de Krementchug. experimente novas histórias e remeta-as para mim.que recebeu o aprendiz de literato foi uma sincera e lacônica crítica. O Instituto era um estabelecimento de nível superior que formava professores para o ensino secundário. Makarenko recebe. me preparei durante toda a vida para a atividade literária. sempre ávido por adquirir novos conhecimentos. trabalhei muito para me aperfeiçoar e. por isso. e já no cume de sua obra ele diria simplesmente: "Após a resposta de Górki. nem a fraca descrição do lugar que serve de pano de fundo para o tema. que dizia: “Pelo seu tema. concordando. para ser coerente com a verdade. tornar-se escritor. sua matrícula como estudante. o dramatismo utilizado para descrever o sofrimento do pope não está de acordo com a ação e. Somente o futuro demonstraria as suas especiais aptidões para a literatura. recentemente inaugurado nessa cidade. não fica claro o dilema da personagem. Terminam assim nove anos dedicados à docência infantil. concentrando-se completamente no seu labor docente. Anton. 66 CAPÍTULO 6 . solicita sua admissão e deslumbra os professores da banca examinadora durante as provas para o ingresso.

significavam. Na justificativa da mesa examinadora encontra-se registrado o seguinte parecer: "A. nas disciplinas relativas à nossa história e à língua russa". a sujeira dos galpões. com a mesma verticalidade 69 . aluno destacado pela sua capacidade pedagógica. A lealdade de alguns deles faz com que seu caso seja revisto. Makarenko sente a cada instante a inutilidade de sua presença messe lugar. Descobriu que a conclusão do curso do Instituto Pedagógico de Poltava para o Magistério não significava. ou para exercer a profissão nos institutos de estudos científicos. em ocasiões especiais. O Conselho Pedagógico da Direção Distrital de Instrução não somente lhe outorga uma medalha de ouro. Makarenko termina o curso. para alunos distinguidos nos estudos. Seu domínio das ciências humanas e pedagógicas revela profundas leituras que enriquecem as brilhantes composições por ele apresentadas. apesar de sofrer de uma miopia de grau bastante elevado. No início de 1917 volta para Poltava e procura recuperar o tempo perdido. ao conceder-lhe o título de professor com direito a lecionar nas escolas de 2? grau. Anton. integralmente. acontece o que tanto tinha evitado: é chamado a prestar o serviço militar. recebendo. particularmente. Será um grande professor em todas as matérias do programa vigente e. foi recrutado e destinado à guarnição principal de Kiev. em julho de 1917. onde dormia num leito de palha. uma atividade docente na escola superior. ele conhece a vida miserável do exército imperial. graças a sua perseverança.No ano seguinte morre seu pai. 1916. formalmente. num grande educador. novamente. Esses elogios. Em abril. A educação autocrática herdada pelo novo governo continuava se impondo após 1905. um verdadeiro prêmio por seus esforços e dedicação e um estímulo para se transformar. Makarenko. todas as honras que o Instituto conferia. A nova junta médica que o examina determina a sua incapacidade física e assim ele deixa de prestar serviço nos quadros militares. No outono do mesmo ano. e decide escrever a seus amigos íntimos para que solicitem ajuda entre as pessoas influentes. S. durante a cerimônia de formatura. desenvolvimento intelectual e grande laboriosidade. possuir uma instrução adequada e completa para desenvolver. e a violenta grosseria dos sargentos e oficiais do seu regimento. com o objetivo de se atualizar em todas as matérias em que estava atrasado e cujas aulas perdera durante os meses de ausência. pensa nos estudos que perde inexoravelmente. Anton estuda até 15 horas diárias. realmente. mas também. sua turma e. conhecimentos culturais. destinada ao melhor aluno do ano. 68 No Instituto Pedagógico de Poltava. Makarenko voltou a se defrontar com a realidade do sistema educacional daquela época: muito rapidamente ele soube que o próprio ensino recebido impunha limitações técnicas e culturais aos recém-formados. o habilita profissionalmente para ocupar cargos administrativos e de direção a nível nacional. para Makarenko. e ele passa a ser o responsável legal pela família Makarenko. passa a liderar. raramente outorgados aos alunos procedentes das camadas sociais mais populares. Com o título na mão. Já no quartel. demonstrou especial interesse pelo exercício da docência.

ele aproveita o tempo livre para aprofundar seus conhecimentos sobre as origens do homem e das culturas ucraniana e russa. conduzia o país para o desastre nacional. que controlavam as funções vitais das principais cidades do país. o caso da Ucrânia. a tomada do poder pelos sovietes. Além das visitas ao museu. seguindo a pré-revolucionária. descobre um exemplar do livro A origem das espécies através de meios culturais de seleção ou a conservação das raças favorecidas na luta pela vida. do qual Makarenko conhecia somente alguns fragmentos divulgados nas publicações científicas. assumir o controle político da nação. nega a versão teológica da criação independente do homem e aceita a teoria de que os seres vivos evolucionaram. numa série de congressos nacionais. liderado por Alexandr Fiodorovitch Kerenski (1881-1970). Ao aceitar a seleção natural como o principal fator da evolução dos seres vivos. a luta. Para Anton Semiónovitch. Pelas próprias características nacionalistas da região. a que se juntavam soldados e marinheiros. Na biblioteca do museu. que. & NOVOS RUMOS DURANTE A REVOLUÇÃO No outono de 1917. produziram um estado de fome generalizada e as mais miseráveis condições de vida. Para isto decide freqüentar diariamente o Museu Etnográfico de Poltava. a partir das variedades de vida mais simples para dar origem às mais complexas. Makarenko. participava ativamente do desenrolar dos acontecimentos. que tinham consciência da repressão sofrida durante o regime tzarista e mantida pelo Governo . originalmente publicado em 1859. considerado até hoje um dos mais completos e ricos do país. seguindo a liderança de Lênin. assim. somados ao sacrifício humano que era continuar lutando na guerra contra os Impérios Centrais e Otomano. Os intelectuais. era evidente que o colapso econômico e político do Governo Provisório. o futuro se apresenta com uma única solução: lutar até ingressar numa universidade. cuja linguagem plástica e conteúdo folclórico revelavam a Makarenko valores nacionais de conteúdo eslávico. posteriormente seriam muito importantes para sua definição política. a crise da burguesia e a consciência política das massas trabalhadoras. Este princípio terá grande influência nas formulações pedagógicas que Makarenko elaboraria posteriormente. em particular. numa escala contínua. nesses dias.elitista exercida durante o regime monárquico. revelaram que já estavam dadas todas as condições necessárias para promover uma insurreição popular imediata e determinar. A leitura da teoria evolucionista de Darwin afasta Makarenko definitivamente dos padrões cosmológicos utilizados pela catequese religiosa. Nas discussões nas quais tomava parte era analisado. se fazia muito mais difícil em termos políticos conjunturais. resolveram. Essas contradições sociais. Durante os meses de férias. A situação era desesperadora. Anton aproveita seu tempo observando minuciosamente as obras dos artesãos das famosas feiras artesanais de Poltava. por Charles Darwin (1809-1882). ali estuda particularmente os objetos arqueológicos e lê as teses antropológicas. agosto e setembro. uma 70 inflação incontrolável e um índice de desemprego gigantesco. inserida no processo global da revolução proletária russa.

a partir de um ponto de vista progressista. uma espécie de assembléia legislativa instituída em Kiev. Ele sempre criticava muito duramente as restrições impostas em 1914. na revolução de fevereiro de 1905. separar esses três povos seria como desmembrar e negar uma história comum de mais de 1000 anos. então.Aldeia ucraniana nos primeiros anos do século XX. ele falava sentindo nas suas veias o sangue cossaco e se definindo por uma solução federativa. jornais e revistas no idioma vernáculo. promovendo a guerra civil. 71 Figura . além das outras razões históricas pelas quais ambos os povos estavam unidos. representava a continuação das desumanas condições de vida impostas pelas indústrias controladas pelo capital judeu-alemão das regiões mineiras. para os primeiros. Mas o movimento nacionalista despertou pouco interesse entre os camponeses e ainda menos entre os operários. ele afirmou. Lênin estava de acordo com eles e já em junho de 1917 tinha denunciado publicamente o Governo Provisório por não cumprir com "seu elementar dever democrático" declarando a Ucrânia completamente livre. produtora de matéria-prima e alimentos. que os trabalhadores rurais e urbanos da Ucrânia apoiassem as mudanças sociais do Estado russo. que. A Rada começou a legislar combatendo os bolcheviques e. na prática. que os trabalhadores tinham razão. e a Ucrânia. sendo as principais a unidade religiosa estruturada pela Igreja Ortodoxa Russa e a língua. tinha resgatado alguns dos seus direitos. supostamente independente. Nas ocasiões em que Makarenko foi consultado. nessa época. lutavam pela criação de uma República Ucraniana independente. negava qualquer projeto de independência que não avaliasse a tradição eslava. “Nossa nação está constituída pelos povos da Rússia. que prometiam benefícios para eles. professor e autor da importante História 72 da Ucrânia russa. quando legislaram 'sem romper com o Estado russo" na Rada Ucraniana Central. Makarenko as recebia com absoluto ceticismo. continuar sob o domínio dos latifundiários de origem polonesa e de religião católica. O programa político da Rada Central apresenta uma Ucrânia auto-suficiente. Anton Semiónovitch chamou a atenção para o perigo da dominação polonesa e a penetração dos capitais de outros países europeus e. que dominavam as terras férteis da margem ocidental do rio Dnieper e. A burguesia nacionalista demonstrou. é um fato que transcende as diversas formas de organização social e política propostas pelos nacionalistas de Kiev. Defendendo a unidade pan-russa. principalmente os que se referem ao ensino na escola primária. para os segundos. Não acreditava que o nacionalismo burguês proposto pela Rada Central fosse o caminho correto para a sobrevivência social. em março de 1917. Era natural. mais tarde. à criação de textos literários compromissados com a realidade nacional ucraniana e à impressão de livros. sob a presidência de Mihailo Khuchevski (1866-1934). pela Duma de Moscou. industrial. indiscutivelmente. que nada tem a ver com a realidade”.” Para chegar a essas conclusões . Ucrânia e BieloRússia. ao uso público da língua ucraniana. sobretudo. que "a interdependência econômica existente entre a Rússia. Todas essas notícias. As opções que tinham eram muito claras para eles: aderir a esse processo significava. da mesma raiz fonética. surgida.Provisório.

da época em que brincava nos trilhos do trem que ligava diariamente Kiev. Este era o sinal secreto. no rio Dnieper. Anton tudo ouve e registra.. No jogo. nas oficinas ferroviárias e nos círculos culturais ou políticos. Anos mais tarde. formulam-se as mais apaixonadas. Aos gritos de: Atacar. ancorado no rio Neva. divergentes e controvertidas opiniões sobre a grande mudança social acontecida no país. Anton Semiónovitch. na administração pública. nas áreas de . que interpretavam soldados. compreende que havia terminado uma época da história social da humanidade.Aqui está o Governo! . as crianças. mas também das horas em que Anton se dedicava a contemplar as manobras dos barqueiros.E aqui está a Revolução! .disse um ministro. mas também os sábios e os intelectuais. dedicada a instruir o homem novo.. No momento que eclode a Revolução Socialista. marinheiros e guardas vermelhos. algumas faziam o papel dos revolucionários. o dever dos pedagogos era criar uma nova metodologia da docência. Com o triunfo da Revolução de Outubro. e como ela foi dita pelas crianças. sede do Governo Provisório e hoje Museu Ermitage. Os soviéticos não somente tinham libertado a classe operária. Os jornais divulgam as propostas sobre a paz universal e as determinações sobre a reforma agrária e a reforma educativa. . As informações fornecidas pelo soviete local refletiam o clima de euforia que viviam os revolucionários na capital. Nos dias seguintes à tomada do poder. entre outras camadas profissionais que até então trabalhavam nas condições mais sombrias imagináveis. O vagão-restaurante foi transformado pela fantasia infantil nas salas do último reduto dos ministros do agonizante governo da burguesia russa.foi a resposta do coro socialista. nos 73 cafés. pelo profundo significado dessa frase. nas ruas. ele viu algumas crianças brincando entre os vagões e descobriu que a brincadeira era uma representação teatral dos momentos decisivos da rebelião. filhos de operários revolucionários. a agitação foi enorme. A população ucraniana fervilha opinando sobre os acontecimentos. Krementchug. invadem o "gabinete principal do Palácio" e reproduzem as históricas e verdadeiras palavras dos sublevados de Petrogrado: .tiveram grande importância as suas vivências infantis. todo o poder aos sovietes!. realizando uma das suas famosas encenações pedagógicas com os educandos da Colônia Górki. para começar o assalto ao Palácio de Inverno. Anton Semiónovitch toma conhecimento dos principais decretos elaborados por Lênin e sancionados pelo governo revolucionário. ele lembrou o episódio que mais o tinha sensibilizado durante esses conturbados dias: durante uma visita ao pátio das locomotivas. combinado pelos revolucionários. Kharkov. na histórica noite de 25 pata 26 de outubro de 1917. vindos de Minsk e de outras cidades bielo-russas. Makarenko conta que os meninos começavam o jogo pelo famoso disparo do canhão do cruzador Aurora. Poltava e Kriúkov com Moscou e Leningrado. que acontecia entre os trilhos e locomotivas. segundo o calendário juliano. Makarenko encontrava-se em Kriúkov e seguia com atenção os acontecimentos de Petrogrado. e outras representavam os ministros do governo deposto. Particularmente. o espírito da revolta estava perfeitamente reproduzido.

Isto permitiu aos pedagogos estabelecer novas relações e conceitos de intercâmbio com os educandos. Na poesia. no teatro. como uma luta lingüística. admirado pelo trabalho dos novos sistemas epistemológicos. em todos os níveis da criação. nas mãos do dominador. o país vive intensamente todos os seus desejos antes frustrados. a luta de classes manifesta-se. a cultura literária em geral. uma ideologia e uma língua própria. no cinema. que a pedagogia soviética tinha um formidável desafio. que seria impossível durante o tzarismo e que o governo de Kerenski não teve interesse em tomar. Destes povos. Com a grande mudança social. A teoria de Marr. um enorme campo de trabalho. e sim uma arma. o campo de atuação que se apresentava com a mudança era gigantesco: os educadores teriam que alfabetizar dezenas de milhões de pessoas e instruir todas elas de acordo com as exigências políticas do socialismo. Isto nos leva a uma conclusão lógica: a de que a língua. pode ser resumida num dos seus pensamentos: "Cada classe social possui.” . foi um dos passos mais importantes da Revolução em termos de destruição dos velhos padrões elitizantes. tanto na escola como no conjunto da sociedade. A decisão atingia um amplo espectro de 152 nacionalidades. somente 30 possuíam seu próprio alfabeto. Makarenko começa a sentir que as portas da nova educação se abrem para desenvolver com mais liberdade as suas teorias da docência. Esta medida. também. de 72 sistemas fonológicos. Nikolai Iakovlevitch Marr (1864-1934) forneceria a Makarenko elementos de grande importância na utilização da língua “como uma arma essencial na luta de classes. Nas suas memórias escreveu: “A Revolução abriu. comentou com seus ouvintes. Makarenko recebe o impacto da intelectualidade que desborda entusiasmo pelo trabalho. por conseqüência direta. durante uma conferência. nas artes plásticas. para sua sobrevivência. Por encomenda do Comissariado do Povo para as Nacionalidades. em 1932. que era presidido por Iossif Stalin (1879-1953). que foi um dos maiores lingüistas contemporâneos. já que ela podia ser aplicada em 102 línguas diferentes com as suas respectivas escritas já codificadas. mediante grafemas cirílicos e latinos. sem a escravidão econômica. na arquitetura. Aos 29 anos. o lingüista marxista Evgueni Dimitrievitch Polivanov (1891-1938) realizou a transcrição. espalhadas por todo o território soviético. A Revolução de Outubro desenvolveu uma doutrina que considerava a linguagem uma disciplina científica e política. no caminho da edificação do socialismo". com suas tradições e particularidades regionais. a mais poderosa de todas as armas. possuidor de uma pessoal visão dialética da pedagogia.74 lingüística e pedagogia. Ainda em fins de 1917. não seria mais uma ferramenta ou um 75 instrumento para o conhecimento. a Revolução expande o universo das possibilidades criativas. subitamente (para mim). o Comissariado do Povo para a Instrução decidiu modernizar a gramática russa com o objetivo de democratizar a escrita e. Makarenko. comecei a ampliar minha proposta sobre uma educação nova partindo do coletivo para poder formar uma personalidade humana livre.

A guerra mundial continuava fazendo estragos entre a população ucraniana. Makarenko se traslada para a cidade de Poltava. A luta entre o governo soviete e a Rada.Até fins de 1917. durou vários meses. Makhnó foi derrotado em agosto de 1921 pelo governo revolucionário. Mas os ucranianos tardariam muito tempo ainda para conhecer um estado de paz. Na região oriental do rio Dnieper. após as resoluções do Primeiro Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Deputados Soldados de toda a Ucrânia. 76 Figura . Makarenko assume suas funções e estrutura um quadro básico de professores que recebem orientações específicas sobre a prática do ensino. Cito aqui a existência desta corja de bandidos. um grupo de mercenários com os quais abre uma terceira frente de luta na guerra civil. enquanto a burguesia. encerrando.Exército alemão de ocupação em Kiev durante a guerra civil. a República Soviética da Ucrânia. põe um ponto final na intervenção eclesiástica na escola. o líder camponês Nestor Makhnó (1884-1934) organiza. Enquanto isso acontecia na Ucrânia. seja transformado numa escola de 2º grau. prepara o texto do segundo decreto nacional. o Conselho dos Comissários do Povo. Anton Semiónovitch participa na organização das equipes responsáveis pela implementação da docência operária na Ucrânia. por sua vez. na primavera de 1918. o soviete de Kriúkov nomeia Makarenko para dirigir a mesma escola ferroviária da qual ele tinha sido afastado sete anos antes. As dificuldades materiais para exercer o ensino eram gigantescas. aproveitando a divisão do Estado. em outras oportunidades. proclamaram. No início de 1918. Uma vez instalado. assim. com milhares de soldados. já que ela deixará posteriormente abandonados muitos jovens que seriam reeducados por Makarenko. por sua vez. onde tinha oportunidade de aplicar melhor os seus conhecimentos. instalado em Moscou. baseado em critérios político-pedagógicos. 77 Em agosto de 1919. às forças contra-revolucionárias. instalados na cidade industrial de Kharkov. no dia 25 de dezembro de 1917. aliando-se ocasionalmente aos bolcheviques e. que aprova em janeiro de 1918 o decreto "Sobre a separação da Igreja do Estado e a escola da Igreja". A ocupação de grande parte da Ucrânia por tropas do exército alemão era tolerada pela Rada Central com sede em Kiev. que fornecia mão-de-obra qualificada para a estrada de ferro. o conflito da guerra civil ucraniana. Os bolcheviques. pelo domínio territorial. Makhnó logra converter seu originalmente fraco movimento anarquista num poderoso exército. despojada de seus poderes. As novas diretrizes na área da instrução determinam que esse estabelecimento docente. Um exemplo . até que a Alemanha. como titular do Comissariado do Povo para a Instrução. não existiam locais apropriados para receber as enormes quantidades de educandos. incita o governo kievita a abrir uma segunda frente de luta: a guerra civil. que semeava o terror. decide intervir mais diretamente instalando em Kiev um governo militar germânico. em fevereiro de 1918. o soviete local o nomeia diretor do Departamento de Instrução Primária do Instituto de Educação de Poltava. ocupando o lugar da Rada Central. Lunatchárski.

& GÓRKI E A LUTA CONTRA A DELINQÜÊNCIA INFANTIL Figura . gerando. pela tarde. ele e os estudantes compartilhavam as instalações do estabelecimento com os funcionários dessa entidade. os problemas básicos da Ucrânia aumentaram sensivelmente. Numa carta escrita em Petrogrado e enviada a Lênin. Com a mudança dos valores sociais. A guerra civil deixou uma longa série de seqüelas gravemente destrutivas em todo o país. entre elas. Com o caos político 79 reinante desde a instauração da Rada Central. sei com que apavorante rapidez o contágio da delinqüência progride. Há garotos de 12 anos. Na Rússia pré-revolucionária. gerando fome e desespero. proponho. na grande maioria dos casos. isolados da sociedade. A carta diz textualmente: "Por outro lado. todos os reformatórios infantis eram considerados estabelecimentos de tipo correcional e dependiam da administração judicial. as quais exigiam que fosse feito um trabalho concreto de readaptação das crianças e dos jovens." Lênin respondeu imediatamente a Gorki aprovando a idéia. O acordo estabelecia que na parte da manhã trabalhavam os empregados do departamento econômico e. chamo a sua atenção para a necessidade de tomar medidas decisivas acerca da luta contra a delinqüência infantil. 78 Em abril de 1920. um bom número de assassinos. A criminalidade infantil aumentou até se transformar num sério fator Romain . Este tratamento sempre produzia um efeito contrário ao desejado. Essa solução policialesca era incompatível com as novas diretrizes formuladas pela Comissão Górki. sob a presidência de Górki e com a ativa participação do próprio Lunatchárski e da educadora Krúpskaia. cada um deles com três mortes nos seus antecedentes. Agora que estou informado do estado deste problema. junto com o escritor francês Rolland. todas elas reincidentes e. e no verão de 1920 foi criada a Comissão para a Luta contra a Delinqüência Infantil. Isolá-los não seria uma solução. indiretamente. Makarenko assumia o local. a visão de uma reclusão punitiva foi rejeitada logo no início dos estudos dos programas de reabilitação.Máximo Gôrki.dessa situação é a própria escola dirigida por Makarenko. com a finalidade de fazer deles cidadãos perfeitamente integrados na produção social. para o educador de massas que era Anton Semiónovitch. Máximo Górki. que estava localizada no edifício da Seção Provincial de Economia Nacional. Estas dificuldades. Impõem-se outras medidas. mediante a educação. os menores delinqüentes eram. criar uma liga para a luta contra a delinqüência infantil. Gorki sugere que Lunatchárski estude a possibilidade de resolver o problema educacional dos pivetes. na qual incluirei as personalidades mais competentes em matéria de educação da infância deficiente e da luta contra a delinqüência infantil. psicopatas incorrigíveis. significavam desafios que sempre superava com imaginação e criatividade. determina todo o futuro de Makarenko sem saber ainda da sua existência. que se prestaria somente ao ensino. dos 9 aos 15 anos. simplesmente. à direita. Ali. Nestas verdadeiras prisões. portanto. Em Petrogrado contam-se mais de 6000 crianças criminosas.

Makarenko é convidado para dirigir como docente essa primeira colônia experimental. como escreveu depois. que viviam do produto do crime sem esperar nada da vida. que seu destino estava resolvido. o valor do trabalho a rapazes na maioria analfabetos.desestabilizador da paz social proposta pelo Governo Revolucionário. num reformatório prérevolucionário. com o cabelo cortado rente. o primeiro passo importante foi transferir o sistema correcional do âmbito da justiça comum para o setor da educação. desconhecida batalha pedagógica. ele aceita o novo desafio. 80 CAPÍTULO 7 . foi abrir uma colônia para acolher os pivetes. de acordo com as instruções da Comissão Górki. no caminho de Kharkov. Suas fotografias daquela época revelam uma personalidade enérgica e de sóbria expressividade. literatura. O segundo. história. "em face do futuro". impunha-se aos Figura . que usaria a vida toda. havia chegado o grande momento. baseada na interligação do coletivo geral com o coletivo dos educandos e o coletivo dos educadores. é necessário. até então. socialmente desajustados e humanamente famintos. ele aparece com o clássico barrete revolucionário russo. e sua clássica camisa ucraniana. já não existia o enigma e a incerteza. Para Makarenko. Num retrato tirado em Poltava. de corte cossaco. embora tivesse estatura média. nessa época capital do setor soviético. o pincenê permanentemente montado sobre seu nariz um tanto grande. Era esta a oportunidade que sempre esperara para pôr em prática as suas teorias sobre o desenvolvimento de uma nova ação docente. Makarenko narrou este episódio na primeira página do Poema pedagógico. 1920. Anton Semiónovitch. para poder continuar. Sua voz . especialmente. música e. então. "através de gestos exatos como os passos de um tigre siberiano". Fisicamente esbelto. Ao assumir a liderança de uma nova e. O Soviete de Kharkov considerou que a proposta de abrir uma escola de trabalho e educação social e não um reformatório era a solução mais lógica. ciente da responsabilidade que isso significava. Makarenko percebeu. 82 mais fortes.Makarenko. As autoridades decidiram. segundo seu amigo o escritor Kornéi Tchukovski (1882-1969). a seis quilômetros da cidade de Poltava. Como Anton Semiónovitch estava profundamente influenciado pela constante leitura das obras de Gorki sobre a vida e os problemas das crianças criadas na rua. em 1920. também.A COLÔNIA GÓRKI & O DIFÍCIL COMEÇO Para poder compreender quem era esse jovem professor de 32 anos que aceitou ensinar poesia. e autorizou o delegado provincial de Instrução Pública a organizar o novo estabelecimento educativo. monumental obra sobre a grande aventura educativa de lidar com meninos criminosos. conhecer o homem que era Makarenko. Em setembro de 1920. adotar medidas radicais para controlar especialmente esse problema. para o pedagogo socialista e para a escola soviética.

Makarenko decidiu. sem nenhuma vaidade. Seus colegas de ensino procuraram. o colocou num plano de igualdade humana com seus discípulos na linguagem quotidiana conhecidos como bezprizornies. em Poltava. mas não a encontraram. isto é. ele respondeu à insolência do grupo . para a qual retornou imediatamente. a crise era inevitável. e quando falava sempre o fazia com a maior cordialidade. nos tratados pedagógicos. Foi detido por um dos agentes da própria colônia.ainda que precárias . Todos tinham sido saqueados. Do jardim tinham sido arrancadas até as árvores frutíferas. não estudavam. então. Anton Semiónovitch teve a sua grande oportunidade numa explosão de cólera ao ser ofendido pessoalmente. durante um assalto assassinou uma pessoa. num perigoso "corpo a corpo".Vista da Colônia (Górki. todos delinqüentes. Após as primeiras semanas do "namoro” que a equipe docente mantinha com os educandos. rapazes de 16 a 18 anos. pixotes ucranianos. Dois meses depois. Ele recebeu um sítio de 20 hectares. poucos dias depois de ingressar na colônia. sendo do “diretor do reformatório”. seus companheiros e auxiliares. O começo de seu trabalho na colônia foi muito difícil. o considerou um “absurdo pedagógico”. Um deles. esquecer todos os princípios educacionais já aplicados e partir em busca de métodos práticos. mas que deflagrou em Makarenko sua visão de uma aplicação dialética e revolucionária da educação. os primeiros meses de existência do reformatório foram para Makarenko. Anton Semiónovitch não queria aplicar punições e sim conquistar a disciplina dos educandos pela própria iniciativa deles. Colocando em perigo a própria existência da colônia. um dos edifícios estava em condições . das salas de aula e até os vidros de todas as janelas. roubaram os móveis da administração. como a de um bom ator. nem obedeciam as instruções que lhes eram dadas. A partir desse momento. que. completamente destruídos. Figura . Mas para educar todos os alunos simultaneamente era necessária urna metodologia . sempre com um bondoso sorriso. que ainda se consideravam reclusos. com antecedentes muito graves.de moradia. O incidente foi severamente criticado pelo coletivo colônia. as relações entre professores e educandos melhoraram sensivelmente. Sem planejar a forma de dominar a situação.era perfeitamente modulada. com uma permanente atitude de desafio ao futuro e à câmara fotográfica. Em termos marxistas significou. deu uma surra no mais temível de todos eles. não respeitavam as normas do estabelecimento. O confronto entre professores e alunos tornou-se permanente e cada vez mais violento. seguro de si mesmo. Os educandos. de olhar profundo. escolasticamente. com cinco prédios de tijolos vermelhos. foi ali que no dia 4 de dezembro de 1920 se instalaram os seis primeiros educandos. uma proposta de trabalho adequada para estes casos. Foi a única vez que Makarenko envolveu-se dessa maneira com um discípulo. 83 A estréia de Makarenko foi marcada pela perplexidade do método a utilizar. um período de desespero e buscas. razão pela qual o coletivo docente abandonou o método da “influência sucessiva” que determina atuar sobre cada um dos estudantes em separado.rompeu a barreira formada por cinco dos jovens delinqüentes e. Todas as suas fotografias guardaram a imagem certa: a de um homem muito inteligente. na verdade. mas esta reação. priorizar a práxis em detrimento na teoria. cheio de pinheiros e bétulas.

mas um complexo social único na busca da solidariedade. nem se desviar do caminho escolhido". 85 Makarenko colocou os próprios educandos na condução dos principais programas elaborados para desenvolver o processo produtivo. Vista assim. "Era preciso ter muita paciência para continuar e acreditar no êxito do método encontrado. famintos. a colônia não era uma soma mecânica de indivíduos. sujos e vestidos com farrapos. sem nunca deixar-se desanimar. principalmente. Makarenko resolveu que a "perspectiva necessária" era salvar a colônia da sua própria autodestruição. Convencido de que seus educandos não eram "transgressores da lei". Aqueles primeiros meses de existência da colônia foram muito duros. na qual ele foi intransigente: manter uma disciplina rígida. com a finalidade de que as exigências progressivas a que cada indivíduo era submetido tornassem possíveis as transformações desejadas. escreveu nas suas memórias. o depósito dos alimentos sofria saques noturnos permanentes. De posse da resposta que buscava e que tinha sido fornecida pela própria contradição da ação educativa. transformando suas vidas no exemplo mais pungente do sofrimento dos que estão condenados à solidão. simplesmente esperava terminar com os roubos e outras ações criminosas menores no momento exato em que a situação pedagógica o determinasse. Formulou a idéia acompanhada de uma exigência única. Makarenko sabia que muitos deles. que eram encaminhados à Colônia Górki. regularmente cometiam roubos na cidade. Organizou a vida da colônia mediante um sistema de interligação coletiva das responsabilidades.Grupo de bezprizornies. no sentido jurídico da expressão. de forma que os próprios educandos sentiam-se parte fundamental do todo. Em março de 1921. na sua grande maioria vagabundos. Anton Semiónovitch percebeu que o conflito essencial de cada um deles era ter sido rejeitado tanto pela família como pela sociedade. mas Anton Semiónovitch contagiava a todos com seu entusiasmo e. sarnosos. Os roubos na própria colônia aconteciam diariamente. Figura . mas nada fez para impedir essa prática delitiva.capaz de estimular o convívio social. Esta formulação Makarenko denomina-a 84 "perspectiva necessária" e consiste na superação revolucionária das relações econômicas e políticas alienadas pela sociedade classista. impelidos pela fome.compreensível para ambos os contextos . Pouco a pouco os educandos foram tomando consciência da situação e começaram a sentir um mínimo de responsabilidade na defesa do patrimônio coletivo.o coletivo dos educandos e o dos educadores . o estabelecimento já contava com 30 rapazes. Ele não tinha condições físicas nem econômicas para pôr fim a esses atos. menores delinqüentes. muitas vezes roubavam-se os pertences dos próprios . com a confiança que tinha no futuro. incorporando o trabalho socialmente útil aos fundamentos da sua proposta educativa.

e isto gerou um clima de irritação. que Makarenko definiu com a palavra "solidariedade". a paixão pela leitura tomou conta dos ex-vagabundos. os educandos assistiam às aulas. seguindo as linhas gerais traçadas por Anton Semiónovitch. Para atingir esse estado de consciência era necessário um abalo explosivo que determinasse uma ação e um pensamento coletivos. & GÓRKI É UM DOS NOSSOS! No inverno de 1921 (novembro-dezembro). ao ponto em que não há mais nenhuma possibilidade de evolução.” Nesse momento a noção de "nosso" tomou conta do coletivo formado pelos educandos e. não acreditavam que fossem verdadeiros. Pela tarde. eu denomino por explosão o conflito levado ao seu extremo. e os próprios educandos decidiram organizar a defesa dos seus interesses: formaram o primeiro tribunal de justiça da colônia. Os rapazes tinham um prazer especial em ouvir os relatos autobiográficos de Máximo Górki: Minha infância (1913) e Pelo mundo (1918). 86 Superada essa etapa fundamental da vida da colônia. Makarenko dividiu as atividades docentes em dois turnos metade do dia era dedicada à produção agrícola. incorporaram a disciplina já conquistada o processo produtivo de bens materiais. para cuja realização passa a se saber co-responsável. Somente um abalo explosivo deste liberta o indivíduo de sua consciência defeituosa. trazendo-a a uma afirmação existencial do pensamento e da ação coletiva pelo interesse da sociedade. a unidade de exigências. Anton Semiónovitch. no início. 87 Não era raro observar durante as frias noites ucranianas que os dormitórios ficavam iluminados pelos lampiões até altas horas da noite: eram as rodas de leitura coletiva. que não tinha chave. Quando os atingidos estão tão abalados em suas relações com a sociedade. O climax dessa situação foi o assalto à escrivaninha de Makarenko. a emulação e a autogestão. e de onde foi furtado o pagamento do corpo docente. Makarenko anunciou ao coletivo docente que a opinião social tinha surgido pela dialética do processo pedagógico. frente à flexibilidade ou à ruptura. antes de tudo. ao explicar os . que o momento de agir tinha chegado. os quais os educandos. Anton Semiónovitch fez um apelo para que o dinheiro fosse devolvido e.educandos. e a obras de construção e manutenção dos edifícios escolares e de moradia. Makarenko compreendeu. então eles sequer têm tempo de escolher (não podem deixar de tomar partido). que era uma propriedade estatal incorporada à colônia. o autoserviço. em que a disputa de direito entre personalidade e sociedade amadureceu. que. e tão próximos do poder desta. "Nesse sentido. e a sugestão do movimento coletivo os arrasta. apareceu a quantia exata. começou a segunda. Nos dias posteriores houve mais saques ~s provisões de alimentos da comunidade. dando-se especial ênfase à literatura. se coloque apenas uma questão: ser membro da sociedade ou romper com ela. no dia seguinte. ao cuidado do bosque vizinho. Assim o trabalho manual foi integrado definitivamente como meio de convívio social no amplo programa de bases socialistas que visava. então.

onde todos definiam como gorkiano tudo aquilo que fosse relativo à colônia educativa. Não podemos simplesmente educar um homem. Os educandos se manifestavam com alegria: . ele dimensionou o verdadeiro sentido da palavra educação pelo processo dialético: “A pedagogia. Cada unidade destes destacamentos. alguns dos episódios que narra nas suas lembranças passaram a ser. elementos de comparação. os educandos e toda a colônia era denominada. a visão leninista da condução social. apenas quando educamos o coletivo podemos contar com uma forma de organização em que a personalidade individual possua. Um trabalho educativo que não persegue uma meta detalhada. Anton Semiónovitch reproduziu. 89 Tendo a educação como objetivo final "a formação política do cidadão para a construção do socialismo". principalmente. escalas de referência para medir os valores humanos [. entre nós. mas a rotina diária foi governada segundo as leis do inter-relacionamento celular e dividida em destacamentos semelhantes aos dos pioneiros. uma padrinho da colônia. ao mesmo tempo.objetivos humanistas da revolução socialista. & A ORGANLZAÇAO DO COLETIVO Para poder levar adiante seu grande projeto pedagógico. No Poema pedagógico. os educandos passaram a se autodenominar "gorkianos". posteriormente. Makarenko registrou o grau de importância que chegaram a ter os relatos autobiográficos: "A vida de Máximo Górki começou a fazer parte da nossa vida. à Direção Provincial de Instrução Pública. a maior disciplina e a mais ampla liberdade. fato que determinou. pois ele próprio tinha sido. então. como foi que essa denominação chegou até os povoados vizinhos e.. é sobretudo uma ciência com objetivos práticos. é um trabalho educativo apolítico”. Makarenko introduziu uma série de elementos inovadores na estrutura da organização coletiva. à cidade de Poltava. especialmente a teoria da educação. e. Ninguém sabe. também demonstrava que a vida de Górki era o exemplo mais eloqüente da transformação social que o país estava vivendo. No conjunto. mas já em 1922. por esse adjetivo. clara e conhecida em todos os seus aspectos. na escola. simplesmente. comportava 10 ou 12 . psicologicamente. quando criança.]”. fundamentos para as brincadeiras. as aulas continuaram sendo a unidade estrutural fundamental da vida da colônia. o futuro comportamento de toda a colô nia. Górki tinha sido um bezprizorni exatamente igual a eles.Górki tornou-se um símbolo. quando não temos frente aos olhos um objetivo político determinado. tampouco. um bezprizorni. Makarenko considerou que esse objetivo tinha que ser atingido em concordância com a organização coletiva que realizou a Revolução de Outubro.Então Górki é um dos nossos camaradas. é uma pessoa que sofreu como todos nós? Isto é formidável! Figura . palavras de ordem nas disputas. não temos o direito de realizar um trabalho educacional.' Na prática. os professores. Ninguém sabe exatamente como aconteceu. 88 Com essa revelação. “Somente o coletivo como um todo pode ser objeto da educação soviética.. composta por homens e mulheres sem nenhuma diferença nem discriminação.

"Todo educador deve saber exatamente o que é que ele quer e de que maneira obtê-lo. a criança é o objetivo principal da investigação pedagógica. com sede em Moscou. eles próprios. e cada membro da coletividade deve sentir sua dependência com relação à mesma. 5º A escola russa de trabalho tem que ser reestruturada completamente já que. prevalecendo os interesses sociais da comunidade. Quanto mais os educandos assumiam. que então decidiu sistematizar a experiência e transmiti-la aos seus colegas de ensino. superaram largamente as expectativas de Makarenko. e assim deve ser entendido o processo da realização de lei pedagógica. 2º Aprofundar a atenção em relação à coletividade infantil como um todo orgânico. Existiam regras que facultavam a todos os estudantes atingir a chefia pela alta rotatividade do posto. senão da sua antítese dialética: "trabalho-preocupação". é uma visão burguesa. O que se necessita para obter uma boa escola é um sistema cientificamente organizado. A correta educação soviética deve estar organizada mediante a criação de coletividades únicas. A escola tem que ser uma coletividade única na qual possam estar contidos todos os processos educativos. também. A ciência pedagógica deve considerar o fato. ele propunha as seguintes medidas indispensáveis para o desenvolvimento da educação socialista: 1º Elaboração de um método científico de investigação pedagógica. como o objetivo final dessa investigação. ele enviou um relatório sobre suas experiências e as bases da sua tese ao Instituto Central de Organizadores da Instrução Pública. 91 4º A psicologia não deve ser o fundamento da pedagogia e sim a continuação dela. A base fundamental da escola russa não deve partir da teoria "ocupaçãotrabalho". direcionavam." Os resultados práticos da colônia. assim. ao preservar a disciplina imposta pelo regimento interno. compreendendo todas as suas influências. para isso. permitindo. o conceito essencial do coletivo. o fenômeno pedagógico. as "perspectivas" frituras. Para isto é necessário reestruturar toda a psicologia do trabalhador escolar. Segundo os métodos atuais. ricos no seu conteúdo. na sua essência. No dia 24 de agosto de 1922.Desfile de pioneiros. bons métodos para aplicar nas aulas. 3º Renunciar completamente à idéia de que para existir uma boa escola é necessário. 90 Este tipo de organização do coletivo estudantil permitiu a criação de uma metodologia completamente nova e facilitou aos educadores a tarefa de interferência ativa direcionante da educação socialista. Somente a organização da escola como uma função econômica a tornará socialista. Figura . . Nele expunha. uma condução democrática da microssociedade que era a colônia.educandos comandados por um chefe (homem ou mulher) eleito por um conselho formado pelos próprios educandos. tanto mais desaparecia a idéia do "indivíduo". fortes e influentes. antes de tudo. também. Os destacamentos. Acredito que este não é um princípio correto. a necessidade de resolver com urgência a codificação da nova ciência pedagógica e.

que trabalhava na Sibéria com crianças abandonadas e menores criminosos. Figura . mostrando esse universo com a mesma ternura e compreensão transmitida por Anton Semiónovitch. aproximar a escola da verdadeira vida social [. em 1911: pedagoga que. Temos que alargar os limites das impressões sociais das crianças. que se interessou profundamente pela experiência makarenkiana e aconselhou-o a elaborar uma monografia teórica. Uma vez instalado em Moscou. Esse especial entusiasmo transformou-se em amor e. Através do Komsomol. teve seu primeiro encontro com a pedagoga Galina Stakhievna Salkó (1892-1962). Krúpskaia. em 30 de dezembro de 1922. os escolares se relacionarão com a juventude operária e camponesa. tendo ao fundo a Catedral de São Basílio.]. 94 Makarenko viajou a Moscou num clima de euforia patriótica. Anton Semiónovitch apresentou às autoridades pedagógicas um breve informe sobre as dificuldades econômicas que teve no início da colônia e os problemas pedagógicos ocasionados pela falta de um programa revolucionário para a reeducação dos jovens delinqüentes que . Nessa ocasião. insistiu na participação direta do Komsomol na orientação política dos educandos. Galina Stakhievna acrescentou Makarenko ao seu nome. fins de 1922. 16 anos depois. Lídia Nikolaievna Seifúlina (1889-1954). adquire grande importância a organização de células escolares do Komsomol.Moscou. passaram a integrar oficialmente a federação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.. enriquecendo as suas vidas. em 1927. 93 O informe repercutiu ainda na capital ucraniana (Kharkov). 92 Nadejda KRÚPSKAJA -> "As escolas que se comprometam com o objetivo de desenvolver os instintos sociais nos alunos não podem ficar isoladas." Outra educadora.Grupo de Komsomols reunidos em uma fábrica. seguindo o caminho de Makarenko. Deste ponto de vista. junto com os ucranianos que. importante dirigente do Comissariado do Povo para a Instrução Pública da Ucrânia. escreveu Delinqüentes. Galina Stakhievna Salkó. Praça Vermelha. em 1922. & VIAGEM A MOSCOU Figura .. Mas a grande maioria dos educadores soviéticos acusou Makarenko de promover uma escola espartanista e criticou seus métodos severos e autogestionários. se casaria com Makarenko. Galina Stakhievna ajudou Makarenko com especial entusiasmo nos trâmites legais para que ele pudesse viajar a Moscou e estudar no Instituto Central de Organizadores da Instrução Pública. após conhecer a proposta e o trabalho de Makarenko.O informe de Makarenko teve grande repercussão entre os pedagogos soviéticos. e Anton Semiónovitch foi convidado para uma palestra explicativa de sua tese.

As tentativas de . traços e qualidades da personalidade que são necessários no 95 Estado soviético. dos caracteres. O êxito do nosso trabalho depende de uma infinita quantidade de circunstâncias: da técnica pedagógica. numa empresa produtiva em termos culturais e econômicos. O nosso material básico. dos mantimentos. Estamos obrigados a educar o cidadão que nossa sociedade necessita. as crianças. organizou o programa docente e o trabalho agrícola do reformatório. senão também sobre a educação de um novo tipo de conduta. uma verdadeira barbeiragem. "É evidente que não faltaram esforços para determinar os 'objetivos da educação' por outras vias. da qualidade do material. senão porque.05%? E o que fazemos com o material excedente? “Se colocamos a questão oeste modo. estão muito misturadas as relações recíprocas entre os ideais. como também tinha transformado uma velha fazenda. E que nesses dois anos ele não somente tinha conquistado a confiança dos recalcitrantes. o administrador ideal. técnicos etc. exclamações patéticas e frases revolucionárias'. de fato. até a peça mais pequena. Surge então a pergunta: que proporção deste material serve para educar um 'ser cheio de iniciativas?' . na esfera da conduta. satisfatório. E tanto nós mesmos como a sociedade devemos examinar minuciosa e detalhadamente o nosso produto. Os objetivos do trabalho executivo somente podem ser deduzidos pelas exigências que a sociedade apresenta. Relatou que com esses "educandos".90%. que recebera praticamente decrépita. parques decorativos e uma granja para a criação de diversos tipos de animais. nessa oportunidade. Makarenko afirmou ainda. de pequenas perfeições e determinadas predisposições e aversões. o resultado do nosso trabalho pode ser magnífico. faz-se completamente inadmissível substituir a descrição exata do nosso produto por alocuções gerais. "Os objetivos de nosso trabalho devem expressar-se através das qualidades reais das pessoas que culminarão a sua educação sob a nossa orientação pedagógica. Em ocasiões diversas a sociedade apresenta este imperativo com muita impaciência e exigência: necessitamos médicos. constituem conjuntos muito complexos. “Estas exortações fedem tanto a ideal que. 10%. aceitável ou simplesmente defeituoso ainda mais. "Devemos falar não somente sobre a formação profissional da nova geração. é incalculavelmente variável. Os princípios dessa proposta encontram-se perfeitamente definidos neste texto de sua autoria: && Os objetivos da educação “Um aspecto de extraordinária importância em nosso trabalho consiste em que ele deve ser inquestionavelmente útil. A amabilidade ideal. como ele gostava de chamá-los. engenheiros. com hortas cultivadas. O ideal abstrato como objetivo da educação não somente resulta difícil porque o ideal de forma geral é inatingível. o político ideal. 0. compostos para definir isto de alguma forma. Como em toda produção. que considerava indispensável para a educação politécnica uma empresa com o mais alto nível de organização e programada com um plano de produção autogestionário. a lua aplicação resulta absolutamente impossível. Cada pessoa que educamos constitui o resultado de nosso trabalho pedagógico.tinha sob a sua responsabilidade. torneiros. 50%.

cuja duração é. Sim. "A solução deste problema seria completamente impossível se procurássemos resolvê-lo silogisticamente: para seres humanos diferentes. terá que ser muito variado. a falta de habilidade para construir um todo equilibrado partindo de elementos díspares. diferentes formas de realização desse trabalho. Por isso é muito natural que essas fórmulas não cheguem a criar nada na vida real. enquadrar o ser humano num arquétipo estereotipado. "Por isso.sintetizar os objetivos que procura a educação numa fórmula breve. Este princípio generalizador pressupõe. diferentes métodos. "Mais ainda. comum para todas. as previsões sempre devem ser extremamente cuidadosas e perspicazes. "Os traços comuns e individuais da personalidade formam nós extremamente complexos nos diferentes seres vivos e. sempre. e o 'produto' que possamos fabricar. este mesmo erro foi cometido pelos espartanos e os jesuítas. O aspecto mais perigoso continuará sendo ainda por muito tempo o do medo à diversidade humana. a tarefa de planejar a personalidade se transforma num assunto extraordinariamente difícil e que requer muita precaução. "Nossa educação deve ser comunista. Com relação a isto. e estas modificações serão introduzidas paulatinamente. Qualquer outro princípio não é nada mais do que uma impersonalização. 97 Por isso. Mais ou menos deste modo pensavam os pedologistas ao criarem instituições para 'rapazes difíceis' separadas das instituições para rapazes normais. porque a evolução das exigências que a sociedade apresenta pode acontecer na esfera dos menores e pouco significativos detalhes. cada um na sua época. constitui um material de qualidade desigual para a educação. necessariamente. Vou citar um exemplo: apesar de termos unificado muitas substâncias no conceito único de 'metal'. por mais integral que nos pareça (fazendo uma generosa abstração). não demonstram senão um absoluto afastamento de todo tipo de prática concreta e específica. por isso. mais ou menos limitada. na medida em que se desenvolva e aperfeiçoe toda a vida social. sempre devemos lembrar que o ser humano. nunca pensaremos em fabricar facas de alumínio ou chumaceiras de mercúrio. e cada pessoa que eduquemos deve ser útil à causa da classe operária. Este princípio afasta imediatamente do nosso produto as túnicas ideais. Podemos estar perfeitamente certos de que à próxima geração lhe serão apresentadas exigências bastante modificadas. 96 "O projeto da personalidade como produto da educação deve estar baseado nas exigências da procura da sociedade. de acordo com a variedade do material e suas diversas formas de emprego na sociedade. educar uma estreita série de tipos humanos parece um assunto mais fácil do que a educação planejada com uma visão diferenciada. Nada é eterno e absoluto nas nossas tarefas. e ainda continuam se equivocando quando educam . Seria uma superficialidade inconcebível ignorar a diversidade do ser humano e procurar juntar todas as questões relacionadas com as tarefas da educação numa linha única. evidentemente. As exigências da sociedade são válidas somente para uma época. no nosso trabalho concreto. na nossa tarefa. modelar todos com o mesmo padrão.

conserve a sua individualidade e avance pelo caminho das suas vocações. Esta importante reforma salvou o Estado da catástrofe. que cada somente pode ser a criação de um método que. o trabalho de planejar a personalidade adquire novas condições para a sua solução. Partindo disto. deve ter seus traços determinados. "Acredito que é importante acrescentar aqui que eu não posso nem tenho força para desenvolver esse projeto. Lênin já tinha determinado a criação da Nova Política Econômica. roupas e material de ensino. de um lado. pelo outro. a coletividade como objeto de nossa educação. "É completamente evidente que. que tão evidentemente se manifesta na ultrapedagógica palavra 'criança'. Estas contradições são muito numerosas e poderosas. então. pelo decreto de 9 de agosto de 1921. o planejamento da personalidade deve estar precedido de uma análise dos fenômenos intracoletivos e pessoais. 7) Promover a ampla colaboração do poder soviético na auto-educação e formação individual dos operários e camponeses trabalhadores (organizar . Isto me parece um tema digno do esforço dos cientistas. comum e único. também. ao mesmo tempo. e entre o princípio coletivo e pessoal. morais). Neste aspecto tropeçamos a cada passo 98 nas contradições existentes entre os diferentes detalhes e as condições da tarefa. permita. ficaremos sem a possibilidade de nos ocuparmos somente da 'criança' isolada. na qualidade de produto. era um centro intelectual fervilhante." & O RETORNO À COLÔNIA GÓRKI Moscou. 4) Intensificar a ação política e a conscientização social entre os docentes. na sua totalidade. "Grandes dificuldades nos esperam tão-somente no trabalho prático.. sendo personalidade independente desenvolva as suas aptidões. não simplesmente uma personalidade que possua estes ou outros traços. a tese leninista que pode ser resumida nos seguintes pontos: 1) Implantar a instrução geral e politécnica gratuita e obrigatória (na qual se ensine a teoria e a prática dos principais ramos da produção) para os jovens de ambos os sexos até os 16 anos. e Makarenko assume. com a particularidade de que esta. em 1923.. geracionais. senão um membro da coletividade. Ergue-se perante nós.separadamente os homens das mulheres. rapidamente chegaremos todos até a unidade individualista. 5) Preparar para o magistério novos quadros docentes. No campo da educação. "A única tarefa organizativa digna da nossa época. sociais. 3) Proporcionar a todos os alunos alimentação. Por isso. a famosa NEP. imbuídos das idéias do socialismo. Lênin já tinha definido o papel do ensino na construção do socialismo. Devemos entregar. 6) Incorporar a população trabalhadora numa participação ativa na instrução pública (desenvolver os Conselhos de Instrução Pública mobilizando os que sabem ler e escrever). Se continuamos desenvolvendo esta lógica pela via da ramificação das particularidades pessoais (sexuais. 2) Unir intimamente o ensino ao trabalho socio-produtivo. ao tentar resolver este problema. onde a palavra de ordem era o "novo". imediatamente.

começaram a se transformar em . São muitas as coincidências dos escritos de Makarenko com os textos de Bons Eikhendaum sobre as teorias do método formal. despojado de todo vedetismo. 99 8) Desenvolver a mais ampla propaganda das idéias socialistas. O método que tinha nas minhas mãos não era por causa do meu talento como pedagogo e sim por ser um produto das circunstâncias e das necessidades impostas pela realidade e pela missão que me encomendaram". vinha sofrendo profundas influências das teorias formalistas da Sociedade para o Estudo da Língua Poética (OPOIAZ). Por exemplo. pois foi literalmente "perseguido" pelos educandos da Colônia Górki. As bases do teatro de Meyerhold. cinemas. universidades populares. Makarenko tinha o caminho aberto para a criação da "nova escola" que compreendia todos os processos relativos ao conhecimento e à expressão cultural.). naquela época. posteriormente conhecidas como "método biomecânico". Todos estes aportes e descobertas confirmam que o pensamento de Makarenko. não da constituição de um sistema 'metodológico'. através de dezenas de cartas. responde simplesmente às necessidades objetivas do binômio cultura-sociedade. A linha criadora revolucionária fixada pela primeira peça teatral soviética. Para o 'formalista' não é o problema do método o essencial nos estudos literários.bibliotecas. interpretando o teatro como um fato surgido da filosofia materialista científica do coletivo. já esquecidos da vida marginal anterior. O entusiasmo gerado pela volta de Makarenko transformou definitivamente a estrutura da Colônia Górki. da criação teatral. recebeu um telegrama da chefia da Seção de Instrução Pública de 100 Poltava com instruções para retornar a seu posto de trabalho. consistiam na elaboração da montagem em ciclos semelhantes aos utilizados por um engenheiro para a construção de uma ponte: o coletivo. escreveu anos depois. Makarenko voltou para o coletivo da Colônia convicto de que os princípios por ele elaborados eram corretos. nas quais exigiam sua volta imediata. Finalmente. O pensamento deste lingüista apresenta notáveis semelhanças com as propostas teóricas de Makarenko sobre o que deve ser o objeto principal a ser estudado. Em geral. a noção do 'método' tomou proporções gigantescas e hoje significa muitas coisas. "Pouco a pouco fui analisando esta experiência e formou-se dentro de mim uma certa escala de valores diferente das conhecidas naquele momento. Eikhendaum escreveu: "O assim denominado 'método formal' resulta. senão dos esforços realizados para a criação de uma ciência autônoma e concreta. Anton não teve muito tempo para ficar em Moscou. neste caso. Mistério bufo (1918). escrita por Maiakóvski para comemorar o primeiro aniversário da Revolução de Outubro e dirigida por Vsevolod Emiliévitch Meyerhold (1874-1940). escolas para adultos. permite consolidar sua visão do coletivo como fonte principal da educação. senão a literatura mesma como objeto de estudo". Os adolescentes. cujos trabalhos eram conhecidos por Anton desde 1916. estúdios de artes plásticas etc.

a fabricação de uma mesa ou pelos quilos de batata colhida na horta. Naquela época e também posteriormente as comunidades educativas infantis das áreas rurais sempre tinham uma limitada produção agrícola. na qual estavam integrados tanto os professores quanto os alunos. A pequena comunidade dos gorkianos tinha uma vida cultural multifacetada. muito pelo contrário. trabalho. data na qual ele solicitou autorização do 101 Comissariado de Instrução Pública da Ucrânia. que somente o coletivo inserido no trabalho social é capaz de criar. isso não era novidade. Makarenko oficializou esse método em junho de 1924. um grupo de teatro amador com . muitas vezes. simplesmente visando o autoabastecimento. Em poucos anos. Nas escolas de trabalho. sempre tive a certeza de que um trabalho que não tencionasse a criação de valores pedagógicos não poderia ser um elemento positivo na educação. Para superar o estágio primitivo da educação através do trabalho. isto me parecia completamente contrário à minha proposta original do coletivo pedagógico e. Nessa época Makarenko começou a analisar as relações entre educação. produção e dinheiro. a produtividade não era o problema. que aprovou esses pagamentos aos educandos. contrapondo essa condição à realidade dos outros estabelecimentos de ensino que funcionavam. Não se deve entrar na vida sem saber o que é o dinheiro". à beira da falência. o que realmente importava para avaliar o tipo de pagamento e a quantidade era a relação de produção social e os méritos gerais do educando no seio do coletivo. "Não posso afirmar que a implantação do salário facilitara o sucesso das tarefas já que. A implantação do salário provocou uma gigantesca polêmica na classe docente soviética. discutia-se o pagamento da produção dos alunos. calcular seu orçamento e saber como gastar o que ganha. A relação entre a educação e a produtividade sempre deve estar vinculadas a estes valores. cumpríamos todos os planos de produção previamente estabelecidos. Realmente nova era a interpretação desse fato feita por Makarenko: ele não efetuava pagamentos por serviços prestados nem por trabalhos concretos como. tanto no campo pedagógico como no econômico. Makarenko transformou a Colônia numa fonte de renda autogestionária com investimentos diversificados. & A AUTOGESTÃO GORKIANA No verão de 1925. No início eu não estava de acordo com a idéia de fixar um salário para elevar a produtividade. as iniciativas eram as mais variadas: foram criados diversos círculos artísticos e esportivos. Na Colônia. O estudo diário era complementado com o trabalho rural ou pecuário. por exemplo. sem finalidades produtivas. Makarenko resolveu não ficar limitado exclusivamente ao processo produtivo como prática pedagógica.educadores dos novatos que chegavam para receber instrução. A Colônia Górki passou a ser uma instituiçao próspera. Makarenko explicou que ele reconhecia a necessidade de que os educandos administrassem seu próprio dinheiro: "A pessoa que começa uma vida independente deve ter alguma experiência no controle da sua poupança. geralmente. Por isso. Fixa uma nova "perspectiva" revolucionária ao instituir a remuneração econômica aos educandos. no nosso caso. pela falta de iniciativas criadoras. inclusive no setor da pecuária. quando trabalhávamos sem remuneração. a Colônia Górki atingiu seu mais alto nível de realizações.

que tinham sido antes de ali chegar. amáveis. Makarenko escreveu: "Tijon Nestoróvitch era um 103 homem do campo. Esse fundo ajudava também nas despesas matrimoniais dos que decidiam se casar. Para comemorar os cinco anos de existência. o coletivo da Colônia Górki preparou. concordando com as teorias de Krúpskaia. também. decidiu fazer a experiência e. Makarenko. além das autoridades regionais. a Colônia Górki era um vergel surpreendentemente limpo e muito bem cuidado. o Komsomol. após analisar profundamente o interesse de incorporar nos seus quadros rapazes ex-delinqüentes. em 1923. 102 Visualmente. já tinha acrescentado na sua biografia muitos elementos interessantes.ele tinha 24 anos de idade -. havia acumulado uma grande experiência da atividade política e era. bondoso e tranqüilo. todos elogiavam as crianças e os jovens sempre vestidos sobriamente. Nada lembrava neles os bezprizornies. no outono de 1925. sem esperanças na vida. os camponeses da vizinhança. com quem os educandos fizeram amizade após duros anos de rejeição mútua. o que atraía as pessoas de todas as regiões vizinhas. Todas as iniciativas. para as quais convidavam-se. além do mais. demonstrou ser um grande conhecedor da natureza do trabalho e dos princípios políticos. Sobre a personalidade do jovem membro do Komsomol. Isto ficava ainda mais evidente quando de Poltava ou. Foi assim que Tijon Nestoróvitch Kóval foi nomeado instrutor político da colônia. O estudo e o trabalho se completavam sem contradições e numa rara harmonia. Apesar da sua juventude . Os educandos iam ao teatro tanto na cidade de Poltava como na de Kharkov. vinham às vezes pequenos criminosos para receber instrução. para colaborar na formação política dos educandos. enviou para trabalhar com os gorkianos um delegado da juventude. de Kharkov. ele lhes falou como um camarada e. cheio de flores e árvores frutíferas. dispostos ao trabalho. tanto no campo como na escola. especialmente aqueles relacionados com a luta no campo. eventos e conquistas do coletivo da Colônia Górki foram documentados por uma equipe de jornalistas amadores que. editavam um pequeno jornal-mural. com grandes esforços. disciplinados e contagiados do permanente otimismo que Makarenko transmitia a todos os seus pupilos. uma grande festa. Para chegar a esse nível de organização e disciplina. com muita freqüência realizavam excursões para conhecer outras terras e outros costumes ucranianos. solicitou a participação da organização leninista da juventude. Imediatamente na colônia organizou-se uma célula composta por nove Komsomols".excelentes intérpretes e até uma banda de música muito boa. aqueles vagabundos sujos e famintos. um homem inteligente. Desde seu primeiro contato com os educandos. O fundo social criado com base nos lucros dos investimentos realizados na agricultura e na pecuária permitiu aos educandos formados na Colônia continuar seus estudos nos institutos técnicos ou científicos. para a qual foram convidados não somente os vizinhos como as autoridades docentes da . O comitê central dessa entidade na Ucrânia. Na colônia organizavam-se festas nas datas principais do ano.

Makarenko começou a se transformar numa celebridade nacional. ainda em Poltava. 1925. resolveram premiar Makarenko com uma viagem a Moscou e Leningrado. Figura 2 – Gorkiano fazendo guarda à bandeira durante uma excursão ao campo.Os exercícios físicos na Colônia Górki liberavam a imaginação. Figura 3 – Um destacamento a caminho do trabalho no campo. 107 Figura Figura Figura Figura Figura 108 & A TOMADA DE KURIÁJ Em 1926 Makarenko percebeu que o coletivo iniciava uma etapa de estagnação gerada pela própria contradição dialética do método que ele inventara. O sucesso da Colônia Górki passou a ser também seu maior inimigo. além de reconhecer com prêmios e presentes o trabalho de oito dos funcionários mais antigos . 105 Figura 1 . Figura 2 – Educandos em Trepke. Anton Semiónovitch sentiu que tinha esgotado as 1 2 3 4 5 – – – – – Grupo de gorkianos prestes a ingressar nos cursos superiores. no Poema pedagógico) Alexandre Tcheveli Nikolai Cherchnev. Os representantes do Comissariado do Povo para a Instrução Pública.capital. Figura 2 – Festa do primeiro qüinqüênio da Colônia Górki. As autoridades de ensino de Poltava. A vida da colônia tinha atingido o zênite do seu processo criador. 106 Figura 1 – Atividade de jardinagem. . segundo local ocupado pela Colônia Górki. a expressão corporal e o jogo teatral eram atividade importantíssimas para os educandos. Para Makarenko. protegendo-a durante o inverno. Grigori Souproun (Burún. por sua vez. Kharkov.todos eles membros fundadores do reformatório -. 104 Documentário fotográfico da Colônia Górki em Poltava Figura 1 – Destacamento de educandos preparando um depósito para guardar a produção agrícola. Sermion Kalabalin (Karabánov. no Poema Pedagógico). uma das mais altas distinções concedidas pelo poder soviético. pois desde o momento em que as autoridades docentes observaram que a reeducação dos pequenos criminosos estava garantida nas mãos de Makarenko decidiram enviar-lhe contingentes cada vez maiores de inadaptados sociais. outorgou a Makarenko o título de "Herói Vermelho do Trabalho". também muito valorizada por Makarenko na Colônia Górki.

um processo de evolução linear contínuo. no coletivo e para ele. Numa ocasião. Pouco tempo depois. Os senhores têit as condições materiais para que isso aconteça. Anton Semiónovitch aproveitou essa ocasião e. segundo Makarenko. somente a comparação de complexos de experiências totais podem fornecer indicações para uma seleção e decisão. "Um coletivo operário livre não deve parar no seu desenvolvimento. fato que poderia se transformar num fenômeno temível. mas nenhum deles convinha ao coletivo. privações materiais e outras conseqüências sociais. Não fiquem somente com os princípios teóricos. pela lógica makarenkiana a riqueza que resultaria da posse de tão vasta área poderia atuar negativamente no plano pedagógico. Ele queria evitar a institucionalização da burocracia pedagógica. de maneira que disto surja. a forma de existência de um coletivo humano livre é o seu progresso. os membros da colônia concordaram em enviar uma carta ao Comissariado do Povo para a Educação manifestando a importância de uma mudança de local e. seguindo os princípios marxistas. a sua teoria da função do coletivo. "Aqui já fizemos tudo o que tínhamos a fazer. A imensidão do lugar foi uma das razões pelas quais o coletivo gorkiano não concretizou essa transferência. anulando. posta à prova tanto em seu próprio curso como em seus resultados. mais conhecida como "terras de Taras Bulba"."perspectivas" já existentes. por causa da famosa novela de Gógol. determina. Makarenko tomou conhecimento da existência de uma colônia infantil localizada em Kuriáj. O Comissariado do Povo para a Instrução Pública da Ucrânia continuou oferecendo outros lugares aos educandos e docentes de Makarenko com a finalidade de transladar a Colônia Górki." O problema da estagnação e suas preocupações sobre o futuro da colônia foram apresentados por Makarenko numa assembléia geral do coletivo dos educandos e dos educadores. Somente uma experiência total. A práxis educacional. rejeitam alguns dos seus métodos pedagógicos. na prática. Os visitantes. sem temer novas dificuldades. A sua visão de estrategista pedagógico lhe fez perceber que somente poderia multiplicar a acumulação com a finalidade de ampliar o consumo. dentro de seis meses estaremos com os nervos destroçados. após conhecerem de perto as realizações de Makarenko. se continuamos neste lugar. "A base para o estatuto soviético da educação deve ser a indução de uma experiência total. especialmente de manter a 109 metodologia estabelecida pelo coletivo. um processo dialético total. uma comissão de supervisores docentes de Kharkov é enviada à Colônia Górki. considerados por eles "de tendência pequeno-burguesa". afirmou perante os seus superiores que o estabelecimento educativo tinha se tornado pequeno demais para eles e para poder desenvolver o programa elaborado. A resposta não demorou muito. Deter esse movimento é uma forma de caminhar para a morte. na confluência dos rios Dnieper e Kara-Tchekrak. a seis quilômetros de Kharkov. Makarenko compreendeu então que o bem-estar material criado pelos educandos do reformatório era apenas uma das condições de desenvolvimento do indivíduo. Makarenko recebeu instruções para visitar uma fazenda improdutiva de 1500 hectares na fértil região denominada Sech Zaporózhkaia. Queremos ficar com a cabeça cheia de trabalho e estamos perdendo tempo. e que era administrada pelo Comitê de Ajuda à Infância. Após deliberar sobre a necessidade de fixar novas metas e novas perspectivas. O lugar era um .

Isto causou um impacto imediato entre os internos de Kuriáj e. Anton Semiónovitch tinha que perder tempo em longas explicações burocráticas respondendo a esse tipo de questões. por que eram formados "conselhos de chefes de destacamentos" e não "comitês de alunos" e assim por diante. instalou-se na direção da colônia. Os integrantes das comissões não compreendiam como rapazes delinqüentes até pouco tempo atrás podiam ocupar postos de chefia e serem transformados em educadores dos internos de Kuriáj. organizados monoliticamente tanto pelo ensino makarenkiano como pela disciplina política do Komsomol e com uma vontade de ferro voltada para a construção do socialismo soviético.Vista da Colônia Gôrkiem Kuriáj.antigo mosteiro. Os antigos educadores de Kuriáj questionavam alguns aspectos de natureza organizativa. após alguns meses de . O problema eram os inadaptados que ali moravam e os naturais conflitos que tinham que ser superados. "aventureirismo" e muitas outras sempre se defrontavam com uma realidade muito diferente e claramente explicada por Makarenko. Muitos funcionários dos diversos Comitês de Instrução Pública não compreendiam a projeção da proposta pedagógica descoberta na Colônia Górki e cometiam injustiças fazendo informes negligentes. "irresponsabilidade pedagógica". O assunto foi debatido na Colônia Górki e. Figura . Esse pequeno destacamento gorkiano efetuou logo nos primeiros dias tarefas de ação psicológica na turba kuriajiana. Eles perguntavam . desenvolveu as bases indispensáveis para o trabalho preparatório de 111 readaptação dos "hóspedes" de Kuriáj. Anton Semiónovitch planejou minuciosamente a "tomada de Kuriáj" e. os gorkianos reestruturaram a vida dos kuriajianos. Levou para essa primeira etapa de conquista dos pequenos vândalos quatro educadores e onze educandos da Colônia Górki. numa semana. Instaurou o regime de mutirão e. todos eles num estado de total abandono e desleixo. por exemplo. A propriedade possuía pouco mais de 120 hectares de terra cultivável. As comissões de educadores enviados para conferir se procediam as denúncias de "castigos". Nos círculos docentes da capital começaram os boatos sobre o "método" Makarenko. quase em minas. no dia 9 de maio de 1926. após os naturais conflitos gerados pelo choque da grande mudança. Mas os fatos eram evidentes e não podiam ser contestados. o coletivo de educadores e educandos decidiu "tomar de assalto Kuriáj". Nele estavam concentrados 400 rapazes criminosos e 40 educadores nas mais dramáticas condições de convivência. dimensão que os gorkianos consideraram 110 ideal para continuar o trabalho educativo de Anton Semiónovitch. por que existiam “destacamentos” e não "turmas de aula". No dia 15 de maio a Colônia Górki deixou definitivamente Poltava e entrou em cheio em Kuriáj: eram 120 gorkianos coesos em torno de um ideal. as transformações da nova colônia podiam ser conferidas diariamente e seu progresso não podia ser contido. Mas. finalmente. rodeado por um edifício de três andares e vários pavilhões de madeira.

Esta idéia sociopedagógica teve uma resposta favorável no Comissariado do Povo para a Instrução Pública da Ucrânia. em 1927. Documentário fotográfico da Colônia Górki em Kuriáj Figura . 117 & O DEPOIMENTO DE GALINA STAKHIEVNA Figura . aqui é vista numa foto de 1953. que em 1927 se tornou esposa de Makarenko. no jardim da colônia. 113 Figura 1 – Construção da pocilga. Figura 2 – Preparação física dos colonos no pátio da igreja existente em Kuriáj. 1928. quando esta já funcionava em Kuriáj.trabalho gorkiano em Kuriáj. Figura 3 – Grupo de educandos e funcionários da colônia. Makarenko começou a sistematizar o conhecimento acumulado. Figura 3 – Kozyr e Voltchenko.Galina Stakhievna.Educandos na época da “tomada de Kuriáj". colonos em 1926. 115 Figura 1 – O toque de corneta anunciava os acontecimentos no dia-a-dia da colônia. Figura 2 – Gorkianos de Kuriáj. redeterminando sua auto-compreensão. Em 1927 elaborou um projeto de unificação das 18 colônias de trabalho existentes na região de Kharkov para funcionar como um complexo pedagógico único. Galina Stakhievna relata a sua primeira visita à Colônia Górki. Este emotivo documento demonstra perfeitamente o clima e as impressões que sentiam os visitantes quando chegavam ao estabelecimento correcional. 114 Figura 1 – O primeiro trator da colônia. De posse dessa metodologia. sob a responsabilidade da pedagoga Galina Stakhievna Salkó. Figura 2 – Educando trabalhando no campo. 116 Figuras – Gorkianos de Kuriáj em formação e marcha. 1926. A nova instituição nomeou Makarenko para a direção pedagógica e Nikolai Eduardovitch Feré para a direção da produção. . Anton Semiónovitch 112 estabeleceu parâmetros analíticos entre os resultados obtidos na Colônia Górki (acrescentados dos dados da experiência em Kuriáj) e as informações sobre a qualidade de ensino nas outras instituições oficiais de educação infantil. e foi criada a Direção Geral das Colônias Infantis.

inclusive as boas. erguia-se a mole da igreja 118 principal do mosteiro. prático e científico. pelo nível alcançado na elaboração da metodologia e da técnica.o máximo e o mínimo . Eu mesma já havia visto umas duas centenas de casas infantis e havia dirigido durante vários anos uma casa com 150 crianças. "Sentia curiosidade por ver os organizadores. seus empregados. isto é. "Naquele tempo era difícil explicar por quê. graças aos nossos esforços pedagógicos. educandos. portanto. entre elas. Nosso automóvel parou neste improvisado estacionamento e atravessamos o pátio com cuidado. "Desconheço por que não nos ocorria a idéia tão simples de que a boa e a má organização também educam. ficavam brancas casinhas de acolhedoras marquesinhas. complicadas umas 200 ou 500 vezes mais. A desorganização é também uma forma especial de educação. Devo confessar que fui à Colônia Górki invadida por um sentimento de frialdade e ceticismo. restando pouco tempo para o próprio trabalho da educação. guardiães e chefes desta vida tão ordenada."Chegamos num dia cinzento de chuva fininha e um pouco de neve. tão freqüentes quando se visita por pouco tempo um estabelecimento infantil. Conhecia. empregados técnicos. problemas como o regime de ordem interna. Em geral eram questões de organização: conservação de todas as listas e os tipos de bens adquiridos e seu cuidado. encontravam uma espécie de 'Rubicão' pouco menos que intransponível. grandes e pequenas. trabalha intensamente neste terreno. enfileirados. concreto e diário. pelo conteúdo ideológico de todo o sistema de educação. estavam vinculadas 119 a um árduo e indissolúvel complexo que tornava difícil determinar onde estava o principal e o secundário. em algumas casas infantis. depois de um sucesso mais ou menos duradouro. a mecânica deste trabalho. suas dificuldades incríveis e o padrão relativamente modesto . Nos últimos anos o pensamento pedagógico. O pátio era circundado por grandes árvores e. ou seja. uma forma anárquica. Entramos no interior da propriedade da colônia e logo percebi algo especial nesse lugar.alcançado naquela época na maioria das instituições. multiplicadas e divididas pelo número de pedagogos. "Todas estas exigências imperiosas da vida. em perfeita harmonia. a responsabilidade pelas tarefas encomendadas e pela comprovação oportuna de seu cumprimento não eram levados em conta. os inspetores de ensino. abrindo novas e grandes perspectivas. O resultado disso era que o período de organização se prolongava demasiado. manutenção da ordem e da limpeza nos edifícios e tudo aquilo que se refere ao interior da instituição infantil. “Hoje já está completamente claro que os êxitos e as possibilidades pedagógicas são determinados pela qualidade. No centro do pátio. imaginando amargamente que me esperavam várias horas de aborrecimento oficial. Não encontrei resposta aos problemas que me preocupavam em nenhuma das instituições infantis que . O pátio e a igreja eram tão grandes que três ônibus de turismo. Continuavam sem solução problemas aparentemente secundários. Por último. pareciam brinquedos. Diante das casas se dividiam os canteiros de flores.

que num estabelecimento infantil não se pode preparar nada de antemão. por experiência própria. Mas a ordem que reinava no interior da Colônia Górki era muito significativa. todos os educandos e funcionários da colônia comemoravam solenemente o 28 de março. . bem-educado e. retraído e um tanto frio. O jovem aproximou-se novamente de nós e apresentou uma menina de uns 14 anos como membro da comissão de recepção de convidados. "Nos aproximamos do edifício principal. a porta de entrada cedeu facilmente ao nosso contato e fechou muito suavemente a nossas costas. inclusive. contando suas famílias. ainda que seja por algumas horas. disse que havia reservado lugar na mesa para nosso motorista e que não nos preocupássemos com mais nada. muitas flores e grande quantidade de dourados bolos ucranianos e outros manjares. muito atenciosa e amável. encontrei-me casualmente entre amigos. Fomos recebidos num pequeno e modesto vestíbulo por um jovem portando uma fita vermelha no braço que. Nossos pratos estavam em seu lugar. "Com esta cerimônia gastronômica anual. o décimo segundo destacamento nos esperava à mesa na qual iríamos ficar. estes jovens eram os amos e senhores do lugar. Nossos anfitriões do décimo segundo destacamento eram meninos e meninas de diferentes idades. No vestíbulo 120 não havia nenhum adulto. refinado no trato. "Pelo visto. fizeram-nos sentar e nos agasalharam com a cordialidade e a atenção que constituíam um dos elementos do estilo da colônia. Quando nos aproximamos da mesa do décimo segundo destacamento. pois adiantou-se a receber-nos. nos disseram que este jovem Komsomol era o responsável pelo serviço de guarda da colônia e se chamava Krupov. Todos nos saudaram. todas cobertas com toalhas brancas. enquanto nos conduzia ao refeitório. ela não estava acionada por aquelas molas que fecham violentamente. Eu sabia perfeitamente. Abriu a porta e entramos em uma sala enorme. deu-nos as boasvindas e. com duas fileiras de janelas. Isto também foi uma surpresa agradável. Anton Makarenko havia sido avisado da nossa visita. garrafas de vinho e limonada. meu estado de ânimo naquela época garantia uma atitude mais do que objetiva em relação ao que deveria encontrar. viviam na colônia 500 educandos e não menos de 30 funcionários. ocupada completamente por grandes mesas. Ainda que este já tivesse começado.tive então oportunidade de conhecer. cumprimentou-nos e disse que os gorkianos sentiam grande satisfação com a nossa visita. "A jovenzinha. Isto não é possível se não existe um trabalho autêntico. interessou-se pelo estado da estrada pela qual viéramos. Por isso me parecia não ter muita importância visitar uma casa a mais ou a menos. sólido e orgânico. disse: 'Camaradas colonos. aniversário do seu amado padrinho Alexei Maximovitch Górki. Ele dirigia todas as atividades do dia e respondia pela manutenção da ordem. esboçando um sorriso. O diretor da colônia era um homem ainda jovem. Nessa ocasião. O diretor da colônia comia nesta mesma mesa. naquele dia. "De qualquer forma. Neste dia só eram convidados os amigos da colônia e. apresento-lhes nossos hóspedes'. e nos advertiu de que estávamos um pouco atrasados para o almoço. "Enquanto tirávamos os casacos. com ostentação ou fachada.

"Todos os lugares eram dirigidos por crianças de grande presença. Éramos muitos. Na semi-obscuridade. vimos em um longo corredor muitas estufas com chamas crepitantes. alegres e laboriosas ou por jovens adolescentes.“A conversação era geral. pela primeira vez. "Com um tom oficial amistoso muito particular. destacava-se a brancura de uma pilha de tábuas. com mais de cinco mil volumes. Visitamos o edifício da escola e os aposentos dos educandos. Eram pessoas unidas por interesses comuns e que juntas levavam adiante uma grande empresa comum. Era um desses fins de tarde primaveris. e organizamos um grupo compacto. 121 "Depois do almoço. de construção recente. a chuva tinha cessado e tudo tinha uma tonalidade esverdeada. silenciosas. Fiquei emocionada. Entramos num amplo ambiente sem janelas. sobre um mesa. . "Depois entramos no 'recanto vermelho'. Conhecemos também a Sede do Komsomol. O único adulto que encontramos em toda a colônia foi o agrônomo Feré. onde se reunia essa ativa junta diretora juvenil. continuamos pelo ateliê de artes plásticas e. Num edifício grande. estavam sentados dois robustos 122 adolescentes. responsabilidade de todos. "Ficou especialmente gravado na minha memória o secador de madeiras. Apareciam. cheio dos mais diversos modelos e jogos feitos pelas próprias crianças. ficando os educandos com toda a responsabilidade pelo complicado cerimonial desta grande recepção. Makarenko dirigir-se a eles com palavras que podiam ser tomadas como semipergunta e semidisposição: 'Estão se aborrecendo hoje?'. Sobre uma das pilhas. Deixei de assombrar-me: sentia-me sinceramente como Alice. e percorremos as salas de estudo. escutei. dela participavam os meninos maiores e. que respondiam amavelmente nossas palavras de cortesia e continuavam seu trabalho. Também passamos pela biblioteca. à entrada de alguns edifícios e os responsáveis por cada um deles abriam e fechavam os ferrolhos das portas e armários com agradáveis sons. Não vimos nelas fisionomias tristes ou descontentes. possuidor de um segredo extraordinário. ainda que eles mantivessem em relação ao diretor uma atitude de estima respeitosa. estava o último número de compêndio das tarefas. a organização leninista das crianças. não se notava em seu comportamento ou em suas palavras nenhuma afetação. Localizava-se bastante afastado das casas e tivemos que andar bastante por um caminho estreito até chegar a ele. mas logo acalmado com a chegada de seu amo. Um relógio na parede espalhava pela sala seu sonoro tique-taque. no país das maravilhas. um pouco agressivo no princípio. peça bem mobiliada. destinado aos dormitórios. Os meninos saltaram ligeiro das tábuas e nos saudaram. "O animado ágape durou bastante tempo. Eles fizeram tudo com animação e grande desenvoltura. Makarenko propôs aos hóspedes que percorrêssemos a colônia. com um cachorro de pêlo claro deitado a seus pés. sede dos pioneiros. trabalhavam com rapidez e habilidade invejáveis. Um sistema invisível de calefação esquentava o lugar. parecendo-me que o diretor da colônia deveria ser um bruxo. Passamos pelo invernadouro. o estábulo e as cavalariças. pelo secador de madeiras. meninos e meninas.

Basta à nossa juventude experimentar algumas vezes esta sensação para que depois não haja maneira de contê-la. Por que aborrecidos? Ê muito próprio do homem a abnegação. Makarenko não dava nenhuma explicação. ressoaram alegremente no ambiente primaveril os floreados toques de cometas. chamando os chefes de destacamentos a informar sobre as novidades. como faziam outros diretores. E saímos. Makarenko disse carinhoso e alentador. há que ter mais respeito pelas pessoas. lembrei-me também de Vitia e Mina que ficaram no isolado e escuro secador de madeiras e de outros meninos que em seus postos ajudavam na empresa comum com tanta energia e satisfação. abandona a guarda. não demonstrava nem persuadia. Esta ordem clara e exata era para ele uma situação costumeira. Havia muita luz. perguntou: 'E por acaso pode ser de outra forma? Não é coisa fácil saber-se dominar. vemos que foram mal educados'. Voltou à minha mente a imagem das meninas que. então: 'Em Almas mortas (Gógol. "Escutei com simpatia a réplica de um dos convidados: 'Mas tenha em conta que os garotos estavam muito aborrecidos ali. sozinhas. prometer tudo. 123 "Falamos com Makarenko sobre as regras que seguia para distribuir as obrigações. confiando que a educação se adquiria por si mesma. mantinham a temperatura constante do invernadouro. Durante dezenas de anos os pedagogos ensinaram a ler e escrever. São poucos os que fazem assim? E quando se pergunta quem tem a culpa. Estes jovens sem família tinham garantida uma ligação eficiente com sua amada coletividade. outra iria trabalhar nas fábricas. que lhes fornecia ajuda material e moral. Isto você não pode negar'. Quando chegasse a sua hora. leva contigo todas as . ela é a base de tudo'. a banda de música tocava a plenos pulmões. partindo dos fáceis anos juvenis para entrar no duro caminho do homem feito e direito. do que no simples divertimento padronizado.Um dos meninos respondeu: 'A secagem dura até as dez. ao contrário. meninas e meninos bem vestidos mostravam essa animação própria dos dias de festa. nessa idade se pode. Disse-nos que durante a noite o serviço de aquecimento obedecia ao sistema de turnos de duas horas. embora não tivéssemos nada a objetar. Há que inculcar-lhes esta alegria. Teremos tempo de assistir à segunda sessão e ao baile'. mas muito conciso: 'Perfeitamente'. Não falava da próxima promoção nem da colocação dos alunos. E. cada criança deveria abandonar a sala de recreação e substituir seus camaradas. Makarenko disse. Uma parte iria estudar em institutos tecnológicos ou científicos. até a vida. sem pensar. Makarenko sorriu: 'Camaradas. quando tiver mais independência e audácia: se lhe dá na cabeça. Nessa noção da própria força há muito mais alegria.e citou de memória: 'Dispondo-se a empreender o caminho da vida. A colônia já estava em contato com essas organizações. "Começou uma discussão sobre este tema. Um tanto surpreso. 1842) figura esta magnífica passagem . Saltava aos olhos a tradição da colônia a respeito dos quadros que dela saíam. "Quando nos aproximamos do edifício principal. sem um bom treinamento desde criança nenhuma pessoa saberá como se comportar ao crescer. Sua atitude não denotava que considerasse todo aquele bem-estar como uma realidade especial. "A sala espaçosa estava irreconhecível: as mesas haviam sido levadas ao refeitório permanente e foram substituídas pelo modesto mobiliário do clube. "Voltamos já sob a noite fechada.

nos privamos do que for necessário para mante-la. Normalmente. Tu. a um aluno que durante todo o tempo não perdia uma palavra da nossa conversa. o dever.perguntou. 'E isto também' – corroborou Makarenko -. Makarenko acompanhou o grupo de mulheres convidadas até o local destinado ao pernoite. Desapareceram certas barreiras como a força de vontade. Transformou-se num homem simples e acessível. 'E você estuda?' . você precisa estudar. . A resposta de Aliosha teve um tom de perplexidade tão ingênuo que provocou a hilaridade geral: 'Para quê. não as perca pelo caminho. Aliosha? Já estás vendo que coisa útil é a literatura. as palavras de Púshkin: 'Aprende. 'Eu não posso trabalhar sem músicos. de toda forma. pode-se aprender muito com eles'. um autêntico baile animado pela banda de música. 'mas com a ressalva de que aqui há que incluir nossa correção soviética: é preciso dar ao jovem uma seleção exata dos movimentos humanos necessários. 'Certo. se. as ciências que nos reduzem as experiências desta vida tão fugaz'. obrigá-los a tomar para o caminho aquilo que lhes é necessário. segundo pude deduzir pelos registros da biblioteca. observando os jovens. saímos para a escuridão da noite. Os adultos . já sabe tudo?' Makarenko riu com alegres e francas gargalhadas. "Aos acordes da última melodia. 125 agora. Makarenko mantinha barreiras intransponíveis entre ele e os alunos. por inexperiência. Atrás das janelas se ouviram os claros toques da corneta chamando à reunião geral. Makarenko juntou-se a nós e me perguntou: 'Gosta de música? Temos uma boa orquestra. "Dirigiu-se. para evitar que. depois será difícil recuperá-las. mas. nos divertíamos sentados. Terminou respondendo a Aliosha: 'Ah. lês pouco. seu rosto se encheu de alegria pela atenção de que foi objeto. aparecendo seu grande e profundo carinho pelas pessoas. ao contrário.formas humanas de atuar. meu filho. orgulho da coletividade e uma boa expressão material de unidade'. arraste uma carga excessiva. e a avidez humana de que quanto mais sabes. isto já entra em cheio na nossa preocupação como pedagogos'. então. Uma boa orquestra significa cultura. O perigo de sobrecarregá-los é insignificante. Anton Semiónovitch. nisso consiste a vida'. não concebo uma coletividade sem banda de música! Você já viu que não vivemos com facilidade. de forma que nada possam perder em sua marcha.convidados e pedagogos -. Makarenko olhou-o atenta e seriamente nos olhos: 'Se subentende que estudo pelo que pensas'. Pensei que em momentos como esse também os educandos sentiam por ele uma particular afinidade. Vejo que continuas pensando que os romances são uma invenção. ''Depois da reunião solene. ao contrário. mais queres saber?'. tontinho. muito rápida por certo. que nos custou muito trabalho reunir uma banda. Ainda que a colônia tivesse sua própria central elétrica. Pelo contrário. "Aliosha não emudeceu. como sempre acontece nessas ocasiões. Estes são poucos. mas vamos sempre aumentando'. não? São 50 instrumentos. e do espetáculo artístico. A banda de música era seu orgulho. "Lembrei. começou o baile. a maioria fica com o que é 124 mais fácil. A escuridão era tão intensa que não podia se pensar em voltar à cidade. então. sua potência era muito pequena e não chegava para iluminar todo o pátio. No entanto.

não é? Já sabes que deves ir à cidade'. você poderá dormir tranqüilo.. O diretor nos apresentou: 'Misha Tcharski. transformou-se num livro intitulado O livro dos pais. só se ouve falar agora do pomar. Mas se ouvissem falar deles. chefe da guarda'..?'. Hoje não apareceu nenhum tipo suspeito pelas imediações. Makarenko casou com Galina em 1927. há que brincar com o perigo. Pedagogicamente. Assim estarei mais tranqüilo'. tirar lições. ele se deteve ao ouvir um grito: 'Quem vem lá?'. Makarenko rompeu numa 126 risada: ‘Mas. eles já afungentaram daqui um estranho. Constantemente ele tinha atritos com seus colegas da capital. exercitar-se na vida. Desejamos-lhe uma guarda tranqüila e continuamos. Anton Semiónovitch. apaixonou-se por ele. Na colônia. transplantando árvores já crescidas. Tudo é produto da fantasia.. desta união saiu uma obra conjunta que. mas os cachorros o reconheceram. isto é uma atitude nobre. o que você acha? Ele merece ser cumprimentado. os pedagogos aproveitam mal um material tão magnífico. Misha respondeu: 'Umas duas horas.’ "Um do nosso grupo perguntou: 'E você o cumprimenta por estas fantasias. Hoje. ao contrário. era freqüentemente obrigado a ir a Kharkov para esclarecer denúncias contra suas iniciativas. ''Makarenko lhe perguntou sobre o tempo que já estava de vigia. O homem ama o risco. posteriormente. Misha e sua guarda se sentem heróis de verdade e pedem ao destino que lhes enviem uma aventura. após ter tido a experiência de trabalhar com Anton Semiónovitch na Direção das Colônias Infantis. E o que dizer das façanhas que lhes atribuem. verificando os postos. & OS CONFLITOS COM O COMISSARIADO O êxito. "No caminho. que ele mesmo ajudara a criar. E se não existem perigos. Mas há que ensinar-lhe a arriscar-se ajuizadamente. Fizemos aqui um pomar. Misha disse: 'Não sabia quem se aproximava. eu mesmo. como também. Limitado por discussões burocráticas. Makarenko decidiu renunciar ao posto da Direção das Colônias Infantis."Quando chegamos à altura da igreja. acompanhado de dois cãezinhos bricalhões. acreditariam que se trata de verdadeiros dogues. não somente elogiou e defendeu Makarenko no Comissariado do Povo para a Instrução Pública. Ë infinitamente mais agradável e útil cuidar da plantação do que andar subindo nas árvores alheias para roubar maçãs.. Já falta pouco para amanhecer'. O diretor continuou: 'Não vais ficar dormindo de manhã. “Meus adversários sempre tiveram . ao mesmo tempo que abria a Makarenko algumas portas. por outro gerava problemas com a classe docente. Galina Stakhievna Salkó. em proveito da causa comum. reforcei a guarda nos pontos necessários e estou. Makarenko queixou-se benevolente: 'Trouxeram tantos cachorros que não há como ver-se livre deles. alguma vez os lençóis já me pegaram? Você sabe que nunca aconteceu isso comigo'. Faz falta viver. que não aceitavam a metodologia makarenkiana. Por isso. não se sabe quem é quem. E se ainda fossem cães autênticos. mas não passam de cuscos vagabundos de aldeia. No entanto. A resposta foi imediata: 'Anton Semiónovitch. Acaso está cumprindo mal seu dever? Graças à preocupação dele. O breve clarão de uma lanterna de bolso abriu um círculo iluminado na escuridão e apareceu o rosto magro de um jovem de pequena estatura com um fuzil pendurado no ombro. Com essa escuridão.

Os homens soviéticos contemplavam a nossa vida e se alegravam. Makarenko obteve um projetor de filmes com o qual organizou um clube de cinema imediatamente anatematizado pelo pope. corria velozmente para adiante cobrindo de fumaça cheirosa e alegre os amplos campos da jubilosa vida. multifacetada. Também é verdade que nós tínhamos muitos amigos que acreditavam no nosso trabalho. a dialética dos meios educativos. a partir das pesquisas efetuadas por Pavlov na área dos reflexos condicionados e da atividade nervosa superior do homem. na verdade. A biblioteca era um centro nevrálgico de conhecimentos e comunicação. Os jornais e as revistas quinzenais publicavam artigos simples e cordiais sobre nossa comunidade. Aumentou a animação em nosso 'trem' e ele. na pedagogia. seu lugar e sua significação no processo educativo mas nunca para extrair definições e sim como princípios de controle na medição das nossas conquistas práticas. Numa palavra: era revolucionária. A obra de Makarenko era plural. "Nossa vida seguiu seu curso. possuidora de qualidades únicas na história da pedagogia. A Colônia Górki. vinham acompanhados de fotografias da granja e da oficina de carpintaria. grupos de operários." 128 Esta linha de pensamento determinou uma forma concreta na organização do coletivo. jornalistas. A vida da Colônia Górki em Kuriáj continuou com suas conquistas. Para gerar esta dialética do processo pedagógico. Os visitantes abandonavam a colônia algo emocionados com nosso brilho modesto. baseando-se nas idéias marxistas sobre a educação. especialmente esta última. quando os convidávamos . é que Makarenko. a sociologia ou a biologia. "Um trabalho educativo que não persegue uma meta detalhada. agora. os objetivos políticos da sociedade. mas os inquéritos eram constantes e não me deixavam um minuto livre para continuar nas 127 minhas pesquisas. Aos domingos. O trabalho cultural era dinâmico e o ciclo primário da escola tinha a duração de seis anos. Acredito que não temos o direito de chegar a conclusões pedagógicas partindo destas ciências. Makarenko introduz. evidentemente. tínhamos convidados: eram estudantes de diversos institutos. Eu queria sistematizar o aprendizado e não tinha forças para lutar contra a burocracia." O segundo princípio relativo à redeterminação da pedagogia. "Estou convicto de que a metodologia do trabalho educativo não pode ser deduzida simplesmente das noções que nos fornecem as ciências afins tais como a psicologia." O que acontecia. Elas (as ciências) devem ter. clara e conhecida sob todos os seus aspectos é um trabalho educativo apolítico.a habilidade de predispor funcionários influentes e algumas autoridades docentes contra o experimento pedagógico das colônias unificadas. era uma comunidade de crianças felizes. Makarenko estabeleceu dois princípios básicos: ambição de metas e dialética dos meios educativos. encontrava grande resistência entre os educadores nacionalistas ucranianos cuja pedagogia era hostil ao sistema soviético. apertavam as mãos de seus novos amigos e. o padre ortodoxo da comunidade. pedagogos. pressupõe a organização pela práxis dos elementos que compõem o processo educacional coletivo. Depois da banda de música. Com ambição de metas. em Kuriáj. nós não temos o direito de começar um processo pedagógico sem procurar um determinado objetivo político.

” O sonho de Makarenko de erguer palácios pedagógicos começava a ser uma realidade. era um setor especial da polícia secreta do governo soviético. em Kuriáj. respondiam 'Às suas ordens!'. na área pedagógica. com a missão de contatar Makarenko e solicitar dele assessoria técnica. Na beira de uma recente plantação de carvalhos. Tcheká. "Para as oficinas tinham sido destinadas duas áreas. Para render uma homenagem póstuma a Dzerjinski por esta gigantesca tarefa. as quais foram salvas da fome. Essa comissão.Edifício principal da Comuna Dzeriinski.para voltar futuramente. Deixei isso . um oficial do Tcheká visitou a Colônia Górki. contrariando o estilo imposto pelo Comissariado do Povo para a Instrução Pública. A casa tinha dormitórios altos e claros. Como?! Um enorme palácio cheio de sol. pisos encerados e tetos pintados?! Para as crianças desvalidas?. largas escadarias. imitando a nossa conhecida saudação. 129 Figura . com verdadeiro bom gosto. o estadista soviético Félix Edmúndovitch Dzerjinski. como era mais conhecido. Dzerjinski." Poucos dias depois da Páscoa de 1927. 130 Figura . para o novo estabelecimento educativo. o Tcheká decidiu levantar um verdadeiro monumento pedagógico vivo em sua memória: a Comuna Dzerjinski. erguia-se uma formosa casa de cor cinza.. simplesmente. responsável pelo combate à contra-revolução. No verão de 1927. Tinha sob sua responsabilidade o cuidado de milhões de crianças sem família. de face para Kharkov. Makarenko partiu imediatamente para observar as instalações da futura escola e. cortinas. ficou muito surpreso diante do que estava vendo. Tudo tinha sido planejado. Na oficina de mercearia a comuna dispunha de boas máquinas.Félix DZERJINSKI (1877-1926). das epidemias e das doenças sofridas pela população nos anos 20. O criador dessa comissão foi o presidente do Tcheká. salas luxuosas.. "O prédio da Comuna Dzerjinski já estava terminado. quando lá chegou. com grande surpresa. criada em 1919. os educandos da Colônia Górki (Kuriáj) receberam informações de que a Comissão para Melhoria das Condições de Vida das Crianças estava construindo uma nova colônia infantil nos arredores da capital ucraniana. retratos. mas nesta seção percebia-se uma certa insegurança de parte dos organizadores. produto da guerra civil. "Os construtores da comuna encomendaram à Colônia Górki e a mim a preparação da nova instituição para sua inauguração. na comuna. o famoso Vetcheká ou. no canto de uma delas vi. de comum acordo com Lênin. Ele escreveu no Poema pedagógico estas palavras: "Eu fiquei estupefato. Kharkov. tomou a iniciativa de colaborar na assistência aos meninos abandonados que vagabundeavam por toda a Rússia e outras repúblicas soviéticas. uma oficina de sapataria. cujo nome oficial era Comissariado Extraordinário para Assuntos de Segurança do Estado.

nesse tempo observei como mudava.como um vergel florido . na cidade de Kiev. percebi como se ampliava a sua concepção da realidade: de pequenos anarquistas. As nossas preocupações se elevavam sobre nós como um arco-íris e fincavam-se no céu os refletores das nossas ilusões. Formaram-se grupos de educadores que criticavam violentamente os métodos empregados por Anton Semiónovitch na reeducação dos pequenos criminosos. ladrões e jovens prostitutas. Makarenko narra este episódio no Poema pedagógico. nasciam pessoas trabalhadoras. a maior festa da nossa história. onde foi recebido pelas crianças. "E. em 1925. por outro lado. e como crescia a instrução social. Somente uma coisa não podiam dar à nova comuna: uma teoria pedagógica. desta maneira: "Os dias passavam e eram agora dias felizes e maravilhosos. Anton Semiónovitch não queria perder a ocasião de receber um hóspede tão ilustre e de tanta significação na sua vida pessoal e profissional. de conduta inatacável. A transferência definitiva da colônia para a comuna era adiada permanentemente à espera da anunciada visita de Górki à colônia que levava seu nome. pela claridade de nosso caminho. vagabundos. pelas palavras ardentes e amistosas. a amizade epistolar que os alunos da colônia e Makarenko mantinham com Máximo Górki. Máximo Górki chegou a Kuriáj.pelo trabalho e os sorrisos. . pelo corpo docente e por Makarenko com uma festa "luminosa". Apesar disso. Muita influência teve. a ortografia delas. com sua brigada. no dia 8 de junho de 1928. sem que o escritor e os alunos tivessem sido apresentados formalmente. que o autor de A mãe jamais 132 pôde esquecer. Mas não sei por qual razão eles não tinham medo da prática pedagógica. existia um setor docente revolucionário que defendia a nova metodologia baseada nos princ~pios marxistas-leninistas. Finalmente. também. finalmente. Este relacionamento começou. 131 Os tchequistas eram fracos neste terreno.nas mãos do estudante Kirguizov que. todo o seu tempo livre e toda a energia de suas almas e de suas inteligências. Mas. gradualmente. esse dia chegou. a antiga capital. Nossa vida quotidiana enfeitava-se . também. a gramática." & A VISITA DE MÁXIMO GÓRKI À COLÔNIA Durante os primeiros meses de 1928 Makarenko dirigiu simultaneamente a Colônia Górki e a Comuna Dzerjinski. em 1929: "Estive trocando cartas com as crianças da colônia durante quatro anos (até 1928). os tchequistas ucranianos investiram nessa obra não somente seus meios pessoais como. com um intercâmbio de cartas." Em fins de novembro tudo ficou pronto e Makarenko foi convidado a transferir para Dzerjinski muitas de suas crianças. "E com a mesma alegre confiança de sempre fizemos a nossa festa. Sobre isso Górki escreveu. se dedicou de cheio a essa nova tarefa. mas como era um monumento a Félix Dzerjinski. "A Comuna Dzerjinski foi planejada para acolher somente 100 crianças. Makarenko era questionado nos "sábios círculos pedagógicos" do Comissariado do Povo para a Instrução que funcionavam na Ucrânia.

onde conheci Ioann Kronstadski. em volta da colônia. percebeu que tinha ganho. vamos adiante! ... que atraía grande número de peregrinos. Em princípios de 1929. foi escrita ainda em 1928 e reflete exatamente as impressões que deixara nele o breve convívio com os educandos da Colônia Górki. naturalmente. onde narra documentalmente seus contatos pessoais com as bases da revolução.. os educandos. "Estive no mosteiro de Kuriáj no verão de 1891. alisou seu espesso bigode de operário com dedos trêmulos e sorriu: . Górki.'Saúde! . em Moscou. Uma parte do livro. Então.. Recordo que este mosteiro existiu com os nomes de Rizhovski e Pesóchinski.. desde muito cedo.' Os três dias que Alexei Ma. estendia-se.ximovitch Górki ficou na colônia. na estrada de Akhtir. todo um batalhão de jornalistas. Confirmando esse sentimento. 134 da metodologia pedagógica a ser implementada na docência revolucionária. patrulhavam orgulhosos. No pátio principal. seu aliado mais importante. "Queria conhecer profundamente a alma desses rapazes". se interessava por tudo. pouco tempo depois da visita de Górki. uma parte . montados em cavalos. No alto dos prédios tremulavam as bandeiras e se agitavam as grinaldas. Nos fins de tarde.. estes. Como uma longa corrente humana. fotógrafos e cinegrafistas.. antigos 'vagabundos' e 'ex-elementos socialmente perigosos'. 'Górki começou a caminhar ao longo das fileiras. ouvia "fascinado" a narração das experiências makarenkianas.. esperava uma guarda de honra. a fileira formada pelos garotos. Rodeava o mosteiro um bosquezinho.. com largos intervalos. meus amigos ainda sem conhecê-los. No ano de 1891 era muito rico e venerado o 'milagroso' ícone da Virgem. nossas almas abertas. formou-se um acampamento com as mais diferentes pessoas da cidade: autoridades. Desceu do automóvel e observou ao seu redor. após a partida do escritor. Alexei Maxímovitch e Anton Semiónovitch ficavam sozinhos para tomar um chá perto do samovar examinando minuciosamente os problemas 133 Figura – Górki visitando a colônia Kuriáj. Era um homem alto."Naquela manhã. diria mais tarde. tudo isso foi como um tapete estendido por nós perante nosso visitante.. são os teus garotos?. os olhares ardentes dos rapazes.. Máximo Górki publicou seu livro Pela unido dos sovietes. Makarenko. Górki perguntava tudo. com um rosto que revelava grande sabedoria e de olhar amigável. informações de que. a que se refere a Makarenko.' "A simbólica saudação da nossa orquestra à bandeira. Anton Semiónovitch recebeu. Muito bem! . "Górki chegou protegido por um barrete branco. muito famoso na época. nessas tardes. este tinha afirmado que na colônia de reeducação que levava seu nome um "pedagogo de novo tipo" havia descoberto “as leis da educação escolar soviética" e que a verdadeira dimensão dessa nova proposta educativa possuía um "significado universal". Mas só me lembrei de que estivera alguma vez no mosteiro ao terceiro dia de convivência entre as quatro centenas de seus novos donos. ele quis passá-los com as crianças. em todos os nossos canteiros havia flores. e o resultado dessas conversas foi sua total adesão aos princípios aplicados originalmente em Poltava e posteriormente em Kuriáj. o farfalhar das mãos juvenis..

Assim perdemos uma infinidade de tempo precioso. Nos anos da guerra civil. Atualmente. não devemos permitir isso e não o permitiremos. o número global de colonos nunca é menor do que 400. São muito poucos os meninos mais velhos que ficam. operários. depois de uma ladeira ficava a capela de verão e. agricultores. pois a utilizaríamos como refeitório e não teríamos que nos dividir em dois turnos de 200 pessoas para almoçar e jantar. Isto incomoda muito os educandos. através de seus sólidos muros assomavam duas igrejas e outras dependências para diversas atividades. me escreveu. que os olham suspirando: Pena que não a deram para nós. Na vetusta igreja de inverno ainda são rezadas missas nos dias de festa. vacas. ficando como lembrança deles apenas o sólido e tosco campanário. que as recolhe das ruas. sapateiros. também. Também não são poucos os vagabundos que se apresentam voluntariamente. cavalos etc. A economia da colônia conta. Em outubro do ano passado. o ímã do mosteiro. a disciplina da colônia começa a capengar. vêm rezar nela duas ou três centenas de velhos e velhas das aldeias próximas. Mas todos vivem na colônia e. em nome de todos os 'chefes': Se você soubesse como tudo mudou depois de sua partida. o salão de reuniões.' "Atualmente há na colônia 62 komsomols. Com a saída dos meninos maiores. da igreja de verão tiraram as cúpulas. As novas vagas são preenchidas imediatamente por crianças enviadas pelos órgãos de Instrução Criminal. pastores. em outras colônias. No transcurso destes sete anos sairam dela várias dezenas de meninos e meninas que ingressaram em escolas fabris. a capela foi saqueada. os camponeses destruíram o parque e o bosque. Denisenko. tratoristas. agronômicas ou militares e. um dos colonos. mas já como 'educadoras' de crianças. Nota: Verstas: medida russa de comprimento que equivale a 1067m. guardas etc. Muitos de nossos colegas veteranos empreenderam vida independente: na produção. transformando-a em um edifício de dois andares onde se alojam hoje o clube. um refeitório 135 para 200 pessoas e o dormitório das meninas da colônia. a escola de sete graus e oficinas de aprendizagem para adolescentes. Claro que é mais difícil organizar a vida com os novos do que com os que já se acostumaram ao trabalho e à atividade social. 70 porcos de raça. Os porcos têm grande aceitação entre os . não obstante. de novo. Não há grande inclinação para o estudo e. dos quais esteve quatro na província de Poltava. com 43 hectares de terrenos cultiváveis. destruíram os muros do mosteiro. participam ativamente dos trabalhos cotidianos de seus camaradas. se não me engano. 27 hectares de bosque. ou pela polícia. as nascentes de água secaram. nem um só dos 400 passa ao largo diante das portas da escola. em seu interior.do qual foi transformada em parque. nas escolas fabris e nas escolas de ofício. 136 "Os 400 educandos estão divididos em 24 destacamentos: marceneiros. organizando-se. todo o ensino em nossa colônia foi reestruturado. alguns estudam em Kharkov e um já está no segundo ano da Faculdade de Medicina. apesar da distância de oito verstas até a cidade. erguia-se a imagem. todos são novos. "A colônia subsiste já há sete anos. N.

cada membro do conselho de chefes recorda perfeitamente sua vida anterior. por isso. Em sete anos da colônia. me parece que não passaram de dez os que partiram' de lá. a maioria mais velhos do que ele. Ao culpado comprovado. é terminantemente proibido perguntar-lhes quem são. Os carpinteiros estão trabalhando em um pedido para fornecer 12 mil caixas para a fábrica de explosivos ucraniana. julgar seus camaradas pela negligência no trabalho.Sendo Komsomol. Mas estes casos são muito raros. Vive. O conselho de chefes decide: aceitar ou não os que acodem voluntariamente à colônia. leva em conta também o culpado. a música e os livros. pelas infrações da disciplina e da 'tradição'. sobretudo. participando obrigatoriamente e da forma mais ativa com todo o destacamento. um chefe muito severo e muito justo. trabalha conosco e se não gostares.. A jovem mãe escondeu o recém-nascido sob a cama e este morreu asfixiado. o qual também tinha sido castigado. de fato. os educandos fazem-se de surdos. Também existe esta outra 137 tradição: quando trazem à colônia uma menina ou um menino. Mas a colônia solicitou das autoridades judiciais a sua custódia e. que acabou em um drama. casou-se com o pai da criança. iguais a ti. comunica a sentença do conselho de chefes diante da formação dos colonos: admoestação ou cumprimento de um trabalho suplementar. "Não namorar as meninas da própria colônia é também uma das tradições obedecidas. mais tarde.. agora tem 17 anos. dois tratores e um gerador de energia elétrica que abastece a colônia. Anton Semiónovitch. Desde os 15 comanda um destacamento de meia centena de garotos. o diretor da colônia. fui expulso. instituição unanimemente temida pelos 'vagabundos'. "A. um dos chefes. Contaram-me que é um excelente camarada. Há também máquinas agrícolas. Ë observada rigorosamente. se ele se gaba de suas façanhas. estabelecem os planos de trabalho e dirigem sua execução. foi condenada pelo tribunal a quatro anos de isolamento. como caíram nas mãos da polícia. sobre o qual pesa a ameaça de ter que viver em uma casa de menores. evitar reiteradamente o trabalho mais duro. As faltas mais sérias e freqüentes: demonstrar preguiça.. Eles têm as chaves de todos os armazéns. e em todo o tempo de existência da colônia só foi rompida uma vez esta regra. ao que me lembro. estuda. Em resposta dizem simplesmente: '. qualquer menosprezo aos interesses da coletividade é castigado com a expulsão da colônia. aderi ao anarquismo e. Isto sempre influi positivamente na criança. Em geral. "Toda a fazenda da colônia e sua ordem se encontram. Se o novato começa ele mesmo a contar sua vida. . Amo a vida e.camponeses da região. não acreditam e zombam dele. chegou à colônia quando tinha 13 anos. como viveram.Já estás vendo que isto não é uma prisão. então podes partir. ofender um camarada. sou um apaixonado pela música. que os donos aqui somos nós mesmos. nas mãos dos 24 chefes eleitos nas brigadas de trabalho.' "O novato logo se convence de que esta é a pura verdade e se fixa facilmente na coletividade. Em sua autobiografia escreveu: .

apaixonado pela literatura.''Por iniciativa deste menino. ele narra tudo com simplicidade. aprendeu a língua deles e viveu com os nenets. como ele. compõe versos líricos em ucraniano. foi detido. trabalha proveitosamente. tenham reconhecido o seu talento. onde vive atualmente. se puderes. de óculos. 138 Navegou pelo Mar Branco como ajudante de foguista. também chefe. se desorientou. levando de passagem umas quantas moedas de ouro do tempo dos tzares. "Levaria muito tempo para contar a curta porém rica biografia de Ch. Por agora termino dizendo que ele se apresentou voluntariamente à colônia de Kuriáj. no rio Petchora. saiu por uma estradinha e sabe que na areia se anda mal. ele não acreditou. Mas a rua o atraía e abandonou o dentista. assombrosamente atencioso com os pequenos e afável com os camaradas de sua idade. como alguém que andou por um pântano. viveu em asilos noturnos. redigida por três colonos. durante as férias. sem a menor intenção de despertar compaixão. fazendo trabalho cultural. E um corajoso e garboso jovem. Gastou-as em livros.. ''Ele conta isso tudo sem vaidade e. Trabalhou em artes plásticas.. ainda que se mostre desconfiado e cauteloso com respeito a suas próprias atitudes. Não viveram muito tempo juntos. jovem de indiscutível talento e seriedade. Talvez seja assim por um duro golpe que lhe tocou viver: conheceu em Arkhánguelsk um jovem chamado Vaska. deixando preso em seu peito o seguinte bilhete: 'Devo à dona da casa oito copeques. No inverno. Foi um dos primeiros nos exames e ainda que. Esteve numa colônia infantil em Iaroslavl. parco em palavras e prudente. Mas. Depois foi repórter do jornal Sêvernaia Pravda. Elegeram Ch. As ilustrações são feitas por Ch.. na pintura e no desenho. paga-os 139 . ainda me apaixonam os livros e os lápis'. para a escola de sete graus. com um rosto orgulhoso. deixou de ler livros. é um refugiado polonês que começou sua existência vagabunda aos 8 anos. ao mesmo tempo. Entre os colonos existem vários poetas. de trenó cruzou os Urais por Obdorsk e chegou até Arkhánguelsk: ali roubou. naturalmente. papel e telas para pintar. escreveu-me. Não. e esteve preso em uma instituição correcional até a primavera. nem mesmo ali. passando a 'limpar' carteiras nos bondes. Tomei-o como exemplo para ilustrar que tipo de seres acolhia Makarenko. Depois trabalhou com um protético que o fez apaixonar-se pela leitura e pelo desenho. depois dedicou-se a pintar letreiros e decorações. Descobriram que seus documentos eram falsos. Eles publicam uma excelente revista ilustrada chamada Promin (Raio de sol). também pintor. mas por debilidade visual se viu obrigado a desembarcar. Logo trabalhou como instrutor recolhedor de impostos em espécie. e. para o comitê estudantil como encarregado da seção de cultura. "Ch. falsificou seus documentos e ingressou no Instituto Técnico Artístico-Industrial de Viatka. os colonos me deram um magnífico presente: 284 garotos e garotas escreveram e me enviaram suas autobiografias. de onde fugiu. A. preparando-se. entre os komis nizhemios. pois Vaska se enforcou. 'Continuo querendo ser uma pessoa. é poeta. estuda e ensina os pequenos. depois por um bosque.

“Não cabe a menor dúvida de que Ch. com traços mais ou menos vivos. na colônia. diante do encanto das ruas. Os pequenos se deparam de repente com condições inesperadas de atenção por parte dos adolescentes que tanto pavor lhes causavam nas ruas. disse. Se comem a me surrar. Mas. Na segunda parte do seu relato sobre a obra de Makarenko. Este menino me disse: 140 vem Quando cheguei aqui me apavorei. sempre temeroso de dizer algo inadequado. As crianças de herança mais perniciosa e vacilante. E Máximo Górki continua ainda descrevendo o que vira e o que aprendera na Colônia Górki de Kuriáj.rUma delas. o espírito coletivista. toca flauta maravilhosamente na banda de música da colônia. já sucumbiram pela sua fraqueza e. Órfãos dos que morreram nos anos da guerra civil por causa das epidemias e da fome. "O sentimento de camaradagem.apensei. . não havia necessidade de falar com eles. Sua biografia não é uma exceção. com um olharointeligente. que fazem com gosto qualquer trabalho. entendi suas palavrasdcomo se não fossem mo que uma frase de introduda deção inesperada. Um dos pequenos. Além do que. Eu diria que a vida. Os educandos da colônia de trabalho de Kuriáj produzem a estranha impressão de serem bem-educados. magnificamenteiassimilado por eles. naturalmente. como vê. nestas crianças. Compreendem o significado do trabalho coletivo e a conveniência de seus valores. ainda que severa. tambémvàs meninas. Mas. que acabam de chegar ou são levados pelas autoridades. Não se deve esquecer que adolescentes como estes os maltratavam. Isto se nota particularmente nas suas relações com os pequenos. ao mesmo tempo.. falando dos s que tinha lido. as gens vivas do relato. "Estas comovedorasvras foram pronunciadas co aismo se a garota estivesse recordando um pesadelo. no primeiro momento. pois são uns narradores consumados e cada umltem uma história a contar. mas insuperavelmente educativa dos mais fortes. formou também. encaixasnecessariamente nas passa. pelo visto. que rapazes viqui! Alguns deles já conheçassecia da rua. só ficaram os que estavam plenamente capacitados para se autodefender. a beber vodca e muitas outras coisas. aprendeu o instrumento em cinco meses. nas aulas ministradas por Makarenko. Eu também. são meninos que querem aprender e estudam muito. se estende. aqueles mais preparados para enfrentar a vida. ninguém me pôs um dedo emacima. agora pastor. de “ . tendo-se em coue sou um homem que não sa be falar com crianças. Mas as crianças de Kuriáj não despertaram em mim este temor. acabavam co ntmigo. passam de meia centena. é um jovem de qualidades valiosas e penso que agora já encontrou o seu caminho. Minha mãe. são assim a maioria das que li e das que me contaram.. pensativa: palEstou falando agora com você depois de ter sidoaprostituta durante dois anos. ele escreveu: “De onde procedem estes vagabundos? São crianças evacuadas das regiões ocidentais que o torvelinho da guerra disseminou por toda a Rússia. ruiva e alegre. com os novatos. cada menino destes é um indivíduo com personalidade própria.repente. que. "Eu me sentia completamente à vontade e livre entreqeles. os exploravam.. lhes ensinavam a roubar. de uns 16 anos. que acatam facilmente a disciplina determinada com tato e que não ofenda sua noção de dignidade pessoal. quase todos eles têm uma individualidade já esboçada. temor que me faz falar com dificuldade. Meninos fortes.

temialgo de militar e de mestre rural po dos que susten tam idéias. que só lição da propriedade priva aquda faz os homens amigos e irmãos. dois camaradas colonos armados com fuzis guardam odporta-bandeira. os chefes distribuem octrabalho entre seus damentos. aparentando pouco mais de 40tanos. parco em palavras. sem sen mais funda emoção. nada lhe escapa. extermina todas aseamarguras da vida e todos os seus dramas. Ëlam dele com orgul um homem exteriormente se do vero. Ás seis da manhã a come nta toca a alvorada no pátio da colônia. E. outro toque de cometa e os colonos formam umequadrado no meio do pátio com a bandeira no centro. "Mas. mostram-se ducadas. Todo este 'cerimo de tnial' agrada às crianças. "Quem pode mudar de forma tão radical e reeducarucentenas de crianças tãel e ofensivamente deforma edadas pela vida? Anton Makarenko.amas acode a todas as partes. Os colo adoram sinceramente e faho. São as 'donas' da colônia. manunciadas como por um cama e forada maior. olhar inteligente e esquadrinhador. Senti nele uma grande ternura pelos pequenos. conhecevcada colono pelo nome. Quase sempre são palas provras de censura. ''Era impossível olharla fila de carinhas agradátir aveis e sérias. Ele é o organizadoron 141 e diretor da colônia. são também acolhedores. move-se lentamente. Makarenko anun tarecia em breves palavras asfas do dia e. Às sete.atambém divididas em camentos com suas respecti nelvas chefes. quando estes discutem na prática o ritmo dos trabalhos na colônia. "Introduziu na colôniumas características de es crâncola militar. Nestas ocasiões. Não há dúvida de que é um pos gogo de talento. o que causou desavenças com os órgãos daiInstrução Pública da Ua. a colôniarentregou cinco vagões em de caixas de madeira enábriccomendadas por uma fa cliente. que até o mais pesadotparece um jogo divertido. Em seguida. põem toda sua for desça e tanto empenho no trabalho. Fala com voz rouca. se alguém co estmeteu alguma falta. Diaa formação."Como os meninosjovens têm também um aspecbem-eto sadio. costuram. bordam. No refeitório e nos dormitórios reinasa limpeza. reconhecido pelos vinte e quatro restantes como ogmais inteligente e mais experiente de todos. Quatro comcentos pares de olhos de diversas tonalidades que. são assinaladasvmutuamente as falhas nas tarefas dos destacamentos e oseerros. depois dotcafé. Anton Makarenko fica sentadozem um canto e só d em quando intervém na conpalavversa com duas ou três ras. cheios de orgulho e sorrindo. ouvem-se as sanções impostas peloaconselho de chefes. com ainda mais pompa e solenidade. Fizeram-se discursos sobre o grandioso signifido trabalho que cria a cul 14tura.baos quais sempre acaricirincalhão os cabelos corta edos à reco. narigudo. As própriasdmeninas enfeitam as es com ramos de flores cam o pestres e arranjos de cheirosas ervas secas. Todos o escutam com atenção e não deixamsde discutir como se else um vigésimo quinto cama a alrada. que só o trabalho livre e coletivo leva as pessoas a2a abo uma vida justa. "Nas reuniões dos chefes. devoravam com o . trabalham noecampo e na horta. o ato. Por toda partecse percebe o amor ao trabalho e o afã de fazer mais belara vida destes 400 pequenos. A banda da colô cadonia animou. caracterizando-os com apenasacinco palavras. Lavam. ainda que não haja luxo e sejam bas paretante modestos. como se fizesse um instantâneo de seu caráter. nessa ocasião.

Nisto reside a minagédia. acostumada a não se Nisturbar com essa situaçãoso.estão equipaíssimdas com maquinaria nova e dotadas de ricas ferra paçmentas. Anton Ma uzkarenko sabe falar às crianças sobre o trabalho com essaiforça serena e latente.olhar os carrosacarregados até em cima s caixas feitas por educanstosodos carpinteiros. As três oficinasade carpintaria. estive também na Coe Khamuna Dzerjinski.sos dormitórios são esos. habituada ao. Aqueles que só se preocupam em nãoesentir mais do que uma comiseração e o desejo me l eloso de procurar algo agradável para as crianças. trivial pa de Kra eles.choque com elementos hostis.limitam simplesmente a encobrir sua hipocrisia com esta abundância de dor infantipor isso mesmo. se encer gédra a horrível tragédia de nossa época. Eu nãoetinha o direito de circuver-me ao sentimento de pe na e comiseração para com eles. que são um pe tarigo para a sociedade. Nesta comunaepodem aprender muito os otganizadores deste tipo deninstituição. tragédia que só nósipercebemos: para os gorkianos não existe tragédia. salas limpas e claara as aulas. largas janelas e muitaoluz. Para conhecê-lo melhor quero reprodaqui um fragmento do pequeakareno prefácio escrito por Mnko às biografias dos colo nos que educou: Quando escrevi a máquina a centésima biografia. Em cada umaudas suas linhas observo que estes relatos não pretendemédespertar pena em nm e não querem provocar ne pnhum tipo de efeito. sapa e mecânica . por toda parttro e limpeza. No que se refereaa sua dor. As crianças vestem confortáveis roupas de trabalho. são a narração simples e sincera daepessoa de pouca idade atirada à solidão. com 19 janelas na parede da frente. em injos campos os os trabalham durante o verã Noto. Esta deve ser uma tragédia para todos nós que não temos o doc43 direito de fugir. churas pveiros. boa roupa de cama. naturalmente.tr '. mais compreensível e eloqüenterque as mais belas palavras imagináveis. desacostumadarcom qualquer espécie de comiseração. Já fazia muito que havia compreendido que se quisesse salvá-los estava obrigadoha ser com eles exigente.icompreendi que estava lendo o livro mais comovedor danminha vida. estes se. edificada especialmente para esteifim. Dtos do que qualquer outurante oito anos não só ti nscve que ver a dor desmedida destas crianças atiradas àrrua. experimentada es 1pecialmente por mim quando lia estas anotações. uma rica biblioteca. Maje e. retum' saíbou o orgulhoso 'Viva!do de 400 peitos. poisaesta é a relação habitual entre eles e o mundo. tudo é exem cuplar. severo e firme.' Talvez eu encontre nesta tra mais sofrimenro. mas também seu dilaceramento espiritual.' "Além da colôniauriáj. eu tinha de ser tão filósofo como eles eram em relação a si mesmos. olôni .a: Sovkós: granja estatal soviética. perto drkov. e até as crianças estão tão saudáveis que parecemmter sido escolhidas para serem expostas. como uma só voz. Anexo à comuna há um rico sovkhós. salão de reu e luniões. Ê a dor infantil concentrada. A comuna está instalada em umarcasa de dois andares. Nesta última só hanos evia uns 100 ou 120 meni era evidente que havia sistrardo fundada para demon o ideal de uma colônia innfratfantil de trabalho para iores da lei. abundância de materiais desestudo. A ventilação é a melhor. narrada comgas palavras mais sinceras e desapiedadas.

em diversas ocasiões. abalado pelos conflitos que mantinha com seus superiores do Comissariado do Povo para a Instrução Pública da Ucrânia. saudáveis e se 14duzidas pelo trabalho sério. esses organizadores tinham esquecido a importância da base produtiva. "Em suma. ela começou a albergar principalmente os filhos de família em crise. Anton Semiónovitch e seus pupilos não demoraram muito em perceber que os construtores da comuna tinham previsto tudo para oferecer às crianças uma vida saudável mas. Somente as oficinas artesanais. para 500 educanínas dos. Nesse momento o trabalho produtivo desempenhou grande papel na educação dos jovens e foi a base da prosperidade material da comuna. sairão cidadãos singulares. dotada de uma escola primária com um ciclo de 10 graus. O êxito comercial da oficina de transformação de madeira foi tão grande que em poucos meses consolidou seu prestígio entre as escolas de trabalho soviéticas. . No início eram enviadas para lá crianças abandonadas. transformando-as em verdadeiras oficinas produtoras das chamadas mercadorias deficitárias. vi cerca de 2500 'vagabundos'. 9191919191 CAPÍTULO 8 . mas. Foi fundadatrecentemente e encontra-se em período de organização. Este problema também foi superado por Makarenko com criatividade: convidou um administrador experiente para organizar as áreas artesanais. a Comuna Dzerjinski deu um passo revolucionário na história da 146 Figura . teve de exercer funções de ditador. Todo o trabalho de Makarenko na comuna decorria em condições muito diferentes das de um reformatório. pela inexperiência pedagógica de acordo com a metodologia makarenkiana. Para poder iniciar suas atividades na Comuna Dzerjinski.4capazes de resistir às mais duras provas. depois de ser oficialmente inaugurada a comuna. com os quais criou as bases da nova organização educativa."Visitei depois a ca de Baku. Destas cas briosas. Em junho de 1930. No dia 3 de setembro de 1928.rmas as crianças já sonham em ter um jardim zoológico.Coletivo pedagógico da Comuna Dzerjinski.aAfanoso e alegre ferve balho de formiga destas peadas quenas pessoinhas queimpelo sol. Makarenko deixou para sempre a colônia. segundo suas próprias palavras. de reduzido tamanho. que meudeixaram uma das mais ndas impressões para o resriançto de minha vida. A colônia é diri prgida por um homem que ama seu oficio com a mesmaopaixão que Anton Makarenko e segue a sua metodologiafeducativa. onde ele.A COMUNA DZERJINSKI & A PRIMEIRA ESCOLA EM REGIME DE AUTOGESTÃO Três meses após a visita de Górki. Makarenko selecionou 60 colonos gorkianos. São dois edifrcios edondezas dessa cidade. seguindo as normas docentes determinadas pelo Comissariado de Moscou. eram lugares nos quais se podia trabalhar. en o cravados na terra cinza e ressecada pelo sol. Anton Semiónovitch assumiu integralmente a direção da comuna de trabalho Félix Dzerjinski.

uma compreensão sutil da alma infantil. mas os comuneiros de Makarenko. em 1931. Muitos dirigentes da Comuna Dzerjinski ligados ao Comissariado de Instrução. As horas de que dispunha. 147 Estes sucessos. Figura 148 Após inúmeras negociações. em um mês e meio. no dia 7 de janeiro de 1932. caso contrário as aulas da escola poderiam ser seriamente afetadas. especialmente. dirigia a comuna e elaborava a mais importante metodologia pedagógica do século XX. Foi uma leitura que me emocionou muito e me deixou cheio de alegria. foi adotada uma solução de consenso: quatro horas para o trabalho na produção e quatro a cinco horas diárias para o estudo. conseguiram assimilar a tecnologia empregada na fabricação das furadeiras. Felicito-o sinceramente por este livro. exigiam que os comuneiros trabalhassem até seis horas por dia. Você transmitiu muito bem o que é a comuna e a vida dos comuneiros. uma carta a Makarenko: Máximo GÓRKI -> "Querido Anton Semiónovitch. A direção docente ucraniana gerou uma polêmica sobre o tempo que diariamente deveriam investir os educandos nas tarefas produtivas." As iniciativas de Makarenko e dos estudantes não tinham limites: uma outra aventura foi empreendida com a finalidade de montar Makarenko e o médico da comuna. Um ano mais tarde. Makarenko não desperdiçava nenhum instante vago. eram de fácil manipulação e foram batizados com o nome de FD-1. que eram poucas. Já em 1925 tinha começado a escrever o Poema pedagógico. Este seu primeiro livro mereceu críticas elogiosas de parte de Górki.pedagogia mundial: foi a primeira escola pública em regime de autogestão econômica. Em cada página pode-se perceber o seu carinho para com as crianças. dedicava-as à leitura. Posteriormente. . Os novos modelos pesavam mais ou menos cinco quilos. que escreveu de Sorrento. ontem li seu livro A marcha dos anos 30. copiaram os modelos estrangeiros e os aperfeiçoaram. Makarenko tinha opinião contrária e insistiu sempre em que as aulas eram de muita importância e deviam ocupar pelo menos de cinco a seis horas diárias. Enquanto respondia a inquéritos. No outono e no inverno de 1930 escreveu uma série de reportagens sobre a vida da Comuna Dzerjinski. Até então União Soviética tinha que importar estas ferramentas tanto dos Estados Unidos como da Inglaterra. não podia aceitar que a jornada de trabalho dos educandos fosse maior do que quatro horas diárias. o banco estatal concedeu um significativo empréstimo à comuna para a montagem de uma fábrica mecanizada para a construção de furadeiras elétricas. ao observar a utilidade das fábricas criadas pelos próprios educandos. Makarenko. na Itália. de repercussão nacional. traziam mais aborrecimentos burocráticos a Makarenko.Fábrica construída na comuna. Figura . sem deixar de reconhecer a enorme força educativa da produção. que foram publicadas em 1932 sob o título A marcha dos anos 30. foi inaugurada a segunda fábrica da comuna especializada em instrumentos elétricos. cuja existência mantinha sigilosamente na gaveta. a sua preocupação constante pelo bem-estar delas e.

mas também de todos os pedagogos soviéticos) tem sido sempre exigir o máximo do educando e. pois 149 Figura . “Uma outra tese de minha teoria é que nenhum método pode ser elaborado à base do par professor-aluno. as questões do trabalho educativo nunca podem ser resolvidas por meio da recomendação de algum método de cada professor em relação a cada aluno. Nesta época. A educação pelo trabalho transformou-se numa educação produtiva. Ë muito importante lembrar aqui que nessa fábrica. o que em outras palavras significava ter atingido um nível pedagógico bem elevado. enfim. pioneira na União Soviética. e o que é o coletivo? Não se poderá imaginar o coletivo se tomarmos a simples soma de pessoas isoladas. a comuna apresentou seu primeiro aparelho: a famosa FED. o que lhe conferia um sistema óptico exato.. tratá-lo com o maior respeito possível. 151 CAPÍTULO 9 – OS PRINCÍPIOS DA PEDAGOGIA MAKARENKIANA Makarenko começou a codificar a sua experiência pedagógica sintetizada até então nestes termos: “O meu princípio fundamental (aliás. atribuições. de acordo com as palavras de Makarenko. “E a primeira destas formas necessárias à educação soviética é o coletivo.Máquina fotográfica FED. produzida pela Comuna Dzerjinski. por isso mesmo. Além da dedicação total à educação produtiva. divertiam-se. .uma fábrica de máquinas fotográficas e. A FED era composta por mais de 300 peças. o trabalho "tinha que ser um jogo". e que. mas só podem ser resolvidas mediante a recomendação da forma.. alternavam-se conscientemente os estudos e o trabalho. a comuna já tinha 500 educandos que eram chamados de "operários de choque". Figura 3 – Ensaio da orquestra da comuna. batizada assim em homenagem a Félix Edmúndovitch Dzerjinski. ao mesmo tempo. algumas com precisão microscópica de até 0. ele é um organismo social vivo e. praticavam vários esportes.001 milímetros. os dzerjinskianos não descuidavam também da cultura geral. trabalhavam unicamente meninos e meninas de 13 a 15 anos de idade. possui órgãos. eram realmente felizes. a qual teve merecido reconhecimento internacional pela qualidade da sua fabricação. para poder reproduzir a famosa máquina fotográfica alemã Leika. mas só à base da idéia geral da organização da escola e do coletivo. participavam de debates políticos. Por conseguinte. 150 Figura 1 – Grupo de teatro da comuna durante um excursão Figura 2 – Educandos com sua exposição de objetos artesanais. no dia 28 de dezembro de 1932. estilo e tom para toda a organização. tenho considerado não só como meu. na véspera de completar seu primeiro qüinqüênio. Liam os principais jornais e revistas soviéticos.

tenho uma vaga. “Vou mais adiante: estou disposto a analisar questões como a duração do coletivo de pedagogos e o tempo de serviço de cada um dos seus membros porque um grupo constituído de educadores com apenas um ano de experiência será indubitavelmente um coletivo fraco. o seu trabalho educativo segundo o seu próprio entendimento e desejo. Deste modo criam-se as mais cordiais relações de camaradagem. Por exemplo. mas. este homem reduzirá os atritos que surgirem no coletivo. que era mais uma espécie de família. se não houver um coletivo de pedagogos. Por que razão? Esta moça simpática introduziria nele a juventude. Assim os pequeninos não ficarão fechados no seu próprio grupo e os mais velhos nunca 154 contarão anedotas escabrosas e se controlarão nos palavrões.responsabilidades. durante todos os anos do meu trabalho pedagógico no período soviético. mas sim o mesmo coletivo pedagógico. Lembrome de casos em que eu considerava necessário convidar um educador jovem.. “No meu trabalho experimentei dúvidas bastante sérias quando se abriam vagas para educadores novos. Não restam dúvidas de que não se poderá fazê-lo se cada um dos pedagogos de uma escola realiza. separadamente. Que corram até boatos de que este ou aquele professor ficou gostando dela. 155 . que não perdoe nada a ninguém nem faça concessões a quem quer que seja. o frescor e um certo entusiasmo. ‘Decidi que este coletivo. a quem devo convidar para preenchê-la? O princípio casual da formação do coletivo pedagógico às vezes dá certo. um homem de certo modo maleável. as quais eram o meu coletivo básico. envidei os meus maiores esforços na solução da questão da construção do coletivo. “O coletivo dos professores e o coletivo das crianças não são dois coletivos diferentes. dos seus órgãos. cheguei à conclusão de que isso era prejudicial ao coletivo e em cada turma coloquei crianças e jovens de 7 aos 18 anos. “Nas minhas pesquisas cheguei a mais uma conclusão: não imaginei nem imagino como se poderia educar um coletivo. E quem estudou a importância dessa atmosfera? Ë necessário que no coletivo haja também um velho ranzinza. uma concentração de indivíduos. mas educar todo um coletivo. há uma simples multidão. eu unia netas os educandos que estudavam e trabalhavam em conjunto. já que eles são os responsáveis pelos mais novos. Ë de se notar que não considero necessário educar uma pessoa isolada. seria mais vantajoso no sentido educativo: ali os mais velhos cuidam dos mais novos e estes respeitam aqueles. É preciso que haja também uma ‘alma boa’. achando que o meu coletivo necessitava de uma moça simpática. após esta experiência. correlações e interdependência entre as partes. depois decidi que era necessário separar os mais jovens dos mais velhos. do sistema de atribuições e do sistema de responsabilidades.. pois já tinha muitos velhos. É o único caminho para a educação correta. Portanto. às vezes não. Também a questão da correlação entre os velhos pedagogos e os mais jovens é igualmente uma questão científico-pedagógica. às vezes pecava secretamente. que goste de todos e perdoe a todos e que dê notas máximas a todos. isso só animará a atmosfera do coletivo. pelo menos um coletivo infantil. “Eu dividia os educandos em turmas. Se tudo isso não existe. No início. não há coletivo.

tudo isso deve ser marcado também por uma grande mestria. devemos participar dele. E assim que educamos o coletivo. que necessita do jogo. depois outro. é preciso falar não com um aluno só. todo o processo educativo decorre com muita facilidade. não poderemos contar só com seu talento. Ora. dessa maneira. mas só é preciso ter em vista uma autêntica mestria. Mediante a experiência. e assim por diante. ‘Junto ao coletivo é necessário pôr a mestria. “Na minha prática tornaram-se decisivas o que normalmente se consideravam ‘coisas insignificantes’. mas na Comuna Dzerjinski. tornando-se uma grande força educadora. E. levantar-se da cadeira. mas também educá-los. por exemplo. os alunos comportam-se bem nas aulas de um professor e mal nas aulas de outro. como a maneira de se manter em pé. cheguei à conclusão de que. clubes exclusivos. mas porque o trabalho da criança depende da maneira como ela brinca. a maneira de erguera voz. Tudo isso é necessário. Estou profundamente convencido disso. formando-o. Para isso é necessário criar formas que obriguem cada aluno a fazer parte da movimentação comum.. consegui que o próprio coletivo se tornasse uma magnífica força criadora. Aqui nós entramos num terreno conhecido por todos e denominado ‘arte dramática’ ou. severa. Independentemente da instrução que dermos a um pedagogo. abotoaduras. após o que ele próprio cria. E isso não é de modo algum porque um deles seja talentoso e o outro não. durante muito tempo. na . mas estamos — sei lá por quê! — convencidos de que para o divertimento deve haver um lugar separado e é a isso que se limita toda a participação do jogo na educação. pensei que fosse melhor educar um aluno. 156 “É necessário não só dar instrução aos pedagogos.. de fazer silêncio e de movimentar o corpo. e nós. o conhecimento real do processo educativo. todas estas gravatas. colarinhos. no entanto. sentar-se. convenções de toda espécie. ás vezes. E a confirmação veio não no reformatório que denominei Colônia Górki. E uma coisa excepcionalmente cara. ou seja. mas. não brincamos? Claro que brincamos! Tomemos. “E os camaradas que não me conhecem pensam que nós. sem isso não se pode ser um bom educador. sorrir. trata-se da idade infantil.. Eu afirmo.. adultos.. temos muitos brinquedos. então. e esta necessidade deve ser satisfeita: não porque o trabalho deva ser intercalado pelo divertimento. pontual e competente Tal coletivo não pode ser formado por um decreto. Depois. do olhar. Existem muitos indícios desta mestria. E eu fui partidário do princípio de que toda organização do coletivo deve incluir o jogo. mas com todos. para se formar um bom coletivo. que a organização infantil deve contar com muitos jogos. a arte do tom. mas simplesmente porque um é mestre e o outro não. Tudo isso parece muito natural. se nós não o educamos. até do balé: é a arte da impostação da voz.. a competência educativa. nem criado num lapso de dois ou três anos: a sua criação exige mais tempo. é necessário guardá-lo. Nesta última. hábitos e meios que todos os pedagogos e educadores devem conhecer. o consolidamos.Eu próprio fui professor desde os 17 anos de idade e. cheguei à convicção de que a questão pode ser resolvida pela mestria baseada na competência e na qualificação. ‘‘Consideramos que a criança deve brincar. mas quando tal coletivo existe e funciona. também são um jogo. cuidá-lo e. olhar etc. ‘Nas nossas escolas. pedagogos..

também nós brincamos. havia ocasiões em que nós não tínhamos um trabalho adequado para o aspirante castigado. Tampouco corríamos para aplicar a punição na mesma hora. pregamos conceitos moralistas e a obrigamos a ir estudar? E quando elas devem brincar então?. pois se não terminava disciplinadamente sua pena. dizem os professores. O membro da 158 . Nisso. isto é próprio não só dos pequenos. mesmo nos dias de folga. O que representava este serviço-castigo?. Os mais diversos trabalhos. Eu podia recusar ao aspirante o dinheiro que lhe correspondia para seus gastos pessoais.. mas não quebres nada.. mas também dos adultos: muitos deles usam uniforme. tão logo vemos uma criança a tratamos com a maior seriedade. assim se sente um homem vestindo um macacão novo que é o uniforme operário. existe alguma coisa que faz bem. quando havia necessidade de ir até a cidade para fazer compras ou outras encomendas. o mandávamos colocar botas e capa e lhe dizíamos: ‘Vá arrumar os barris!’ O castigo mais freqüente era ajudar na cozinha. outros macacões profissionais e não poucos sonham usar um deles algum dia. brincamos de bibliófilos quando nos rodeamos de livros e pensamos que temos uma biblioteca. Para esses jovens existia uma única penalidade que chamávamos de ‘prisão’. eu tinha o direito de punir um aspirante encarregando-o do cumprimento de um serviço extraordinário. eu o depositava na caixa econômica. A outra parte era constituída pelos aspirantes.realidade. “No que se refere ao castigo. A mais importante. quer dizer. “Eu podia privar o aspirante das suas licenças para deixar a comuna. em vez de entregar nas suas mãos o salário. existem mais dois temas importantes nos quais gostaria de me aprofundar um pouco: o do castigo e o do trabalho. ‘Vai brincar um pouco. Mas. ‘Elas brincam nos intervalos entre as aulas’. de um ferroviário talvez. ele ficava em observação. 157 “Por fim. Quando se aplicavam estes castigos ninguém procurava o aspirante até o fim da sua tarefa. existiam duas modalidades para diferenciar ambos os tipos de estudantes. era a maioria esmagadora. Por que razão. “Quanto aos educandos da comuna. e ele então ficava ‘na reserva’ até que se apresentava o momento oportuno. Por exemplo. Em outras ocasiões.. pois ele ainda não estava em condições de compreendê-lo. Não podia impor este castigo ao aspirante.. que eram as crianças recebidas mais recentemente e que passavam por um estágio antes de serem admitidas em caráter permanente. “Todos os meus pupilos da Comuna Dzerjinski se dividiam em duas grandes seções administrativas. às vezes brincamos de homens importantes nos nossos gabinetes. o castigado não podia ir a parte alguma. então. é agradável: por exemplo. então chamávamos um da ‘reserva’ e o enviávamos nessa missão como forma de castigo. alguns nem sequer dependiam de mim. de onde ele não podia retirá-lo sem minha assinatura. nem sujes o chão ou machuques teu nariz!’. para o aluno. Por exemplo. na roupa de uma criança devem existir elementos de jogo. acredito. eu não tinha direito de aplicar tais castigos. isso é ainda mais importante. dizem os pais. “Em todo caso. a dos educandos definitivamente incorporados à comuna. quando começava a chover e era necessário pôr os barris para colher água.

Diz que não tem dinheiro? O que vamos fazer então?’ etc. onde tocava o telefone. “Eu pessoalmente considero que não podem ser aplicadas muitas punições. não dizia isso. inclusive. observando tudo aquilo . quebrava um vidro intencionalmente. eu não podia repimpar-me numa cadeira e abster-me. se eles prometiam uma coisa. o jovem saía e voltava à hora que achara mais cômoda para cumpri-lo. o educando.. eu devia levantar-me. Dizia: ‘Vim cumprir a pena de prisão!’. eu conduzia as conversações de tal modo que sempre fazia alguma alusão indireta ao jovem ‘preso’. mas devo confessar que não me lembro de nenhum caso dessa natureza e que muito raramente era necessário punir alguém. Nós demos ainda um outro direito aos membros da comuna: eu devia acreditar na sua palavra. não. ‘‘Nessas ocasiões. informando apenas a hora em que deveria regressar . Quanto mais abrangente o coletivo. por exemplo. temos uma regra: depois que o culpado é informado da punição e a acata. o membro da comuna só podia ser punido com a ‘prisão’. já não se dele falar mais sobre ela. Na comuna. O que representa esta punição? Tal como no caso dos serviços extraordinários. Eles devem ser raros. por favor. Nunca me permitia. para proferir a sentença. Nesse caso eu tinha o direito de levar a questão para uma reunião geral. “Todo educador deve saber exatamente o que quer obter do coletivo em cada momento da sua vida e como fazer para identificar esse momento. Quando um educando era punido. o principal era o gabinete. . então o jovem devia responder-me obrigatoriamente: ‘Sim.. para terem a devida atenção do coletivo inteiro. centro da vida de toda a comuna. cujas perspectivas sociais se transformam em perspectivas pessoais próprias do homem.. uma caixa de vidres. Esta punição consistia em o castigado passar no meu gabinete o tempo prescrito. eles variam de acordo com as mudanças da sociedade e a finalidade da educação é satisfazer essas necessidades de mutação social de cada coletividade. pois o castigo não deve aturdir todo o coletivo e tornar-se uma rotina. ou seja. A ‘lei’ existente entre nós reza que. Ao saber do castigo. significava que não estava de acordo com o meu castigo. eu somente podia determinar a pena. eu dizia ao meu interlocutor: ‘Se você for à cidade. eu devia dar-lhes todo o crédito. Os objetivos não são imutáveis. A ‘prisão’ não passava de uma formalidade. pois aqui alguém começou a quebrar vidraças. E o garoto ficava lá sentado. eu devia levantar-me e dizer: ‘Duas horas de prisão!’. ele próprio resolvia quando devia ser cumprido o castigo. Esta é uma tradição muito importante e 159 poupa o castigado de quaisquer zombarias. Portanto. os clientes eram atendidos etc. senhor! Duas horas de prisão!’ Se o membro da comuna. atenazar o educando que cometera essa falta dizendo-lhe diretamente que ele tinha feito isso ou aquilo e que o que tinha cometido era um ato ruim. Se ele.. compre. no entanto.comuna podia deixá-la sem autorização prévia. tanto mais belo é o homem e mais elevada a sua posição. por considerá-la um ato inconveniente.

Cada perspectiva Perspectivas imediatas 160 consiste. Estes eventos não devem passar de dois ou três por ano e devem saturar toda a vida da coletividade escolar.‘‘Educar o ser humano significa capacitá-lo para utilizar adequadamente seu tempo imediato. remodelação de diversos setores de trabalho etc. Isto pode ser feito no regime de responsabilidades assumidas pelos círculos acadêmicos existentes na escola. nunca poderão atingir a realização de um bom trabalho e muito menos a disciplina. Inclusive. Nesta empreitada devem estar compromissados todos os componentes da coletividade. alunos e pedagogos. Para isto a coletividade deve se preparar meticulosa e sistematicamente para os próximos acontecimentos. a preocupação relativa ao futuro do nosso país. muitas instituições infantis muito bem dotadas dos mais modernos equipamentos. em propor aos educandos organizar diversos eventos coletivos como o mencionado jantar fora. conduzir os educandos até o nível geral das metas propostas pelo governo aos cidadãos de todo o país. pouco a pouco. principalmente. a influência organizadora do objetivo se obtém. outras mais longínquas e profundas. “Quando a coletividade já está solidamente organizada e quando a opinião social amadureceu e torna-se mais exigente. isto é imprescindível. então é o momento de introduzir ativamente a ‘perspectiva intermediária’. ‘‘Pode-se começar por planejar um bom jantar fora da escola ou uma saída para o teatro ou para um circo. encontros com convidados ilustres (grandes figuras internacionais). por esse caminho somente forneceremos ~s crianças um epicurismo absolutamente inadmissível. Esta etapa consiste na preparação de uma série de medidas complementares. “A busca do objetivo comum coletivo passa por três fases. “Na etapa inicial da criação da coletividade. ao seu progresso. isto é. a preocupação ativa de cada aluno com o futuro da sua coletividade. ‘0s fracassos pedagógicos de muitas instituições infantis se devem a que as perspectivas propostas foram fracas e indefinidas. finalmente. como por exemplo: balanço geral. mediante o planejamento de diversas tarefas que se denominam ‘perspectivas imediatas’. Entre as perspectivas imediatas também devem ser planejadas algumas que exijam determinados esforços manuais e morais. significa o grau . “Neste ponto é muito importante não cometer o erro estrutural de planejar o futuro se limitando somente ao principio de fazer apenas coisas agradáveis. como disse anteriormente. “Os preparativos para acontecimentos solenes são uma perspectiva intermediária importante. Mas é importante que estas iniciativas surjam espontaneamente e que elas ampliem gradativamente as perspectivas de toda a coletividade para poder. uma excursão. “O conteúdo da ‘perspectiva distante’ determina. a ida coletiva ao cinema ou ao teatro. as quais correspondem a outras três fases no desenvolvimento da própria coletividade. a União Soviética. se não organizam os educandos com a metodologia aqui apresentada. principalmente. É necessário integrar os educandos na vida social geral da nação. uma tensão de trabalho. A metodologia deste trabalho consiste em organizar novas perspectivas imediatas. em utilizar aquelas que já temos e planejar.

também. Makarenko defendia o princípio do comando único na direção da coletividade escolar. senão sentir com todas as fibras internas o movimento do nosso país para adiante. neste caso os professores. A pessoa que determina sua conduta com uma visão do futuro imediato é sempre mais fraca.” A sociedade socialista está baseada no princípio do coletivismo e. o enfraquecimento do centro da coletividade e de sua direção está diretamente ligado com a ativação das tendências anarquistas as quais levam a serem destruídos todos os contatos coletivistas fazendo com que ‘apodreça o organismo coletivo’. nela. Uma e outra coisa são determinadas exclusivamente pela forma como ele vê as perspectivas. cujas perspectivas são também para o homem as suas pessoais. Por sua vez. na coletividade. Desta maneira as funções administrativas ficam nas mãos de uma única pessoa. pode nos parecer forte. “Enquanto não existiu o socialismo não houve. o que libera as outras. Se ela somente se conforma com seu próprio porvir. o bem-estar de cada um depende diretamente do bem-estar de todos. suas obras e seus sucessos. de uma opinião social progressista. tanto mais bela e sublime é a pessoa. nem poderia haver. Devem entender que 161 a vida de cada um dos educandos é uma parte do presente e do futuro de toda a nossa sociedade. Um dos principais estudiosos da obra de Makarenko. pois transforma a coletividade num meio de pressão sobre o indivíduo. Assinalava que somente o diretor pode ter todos os poderes para dirigir uma escola e que todos os outros pedagogos devem desempenhar “funções iguais e manter relações iguais”. Até agora nos acostumaram a pensar que o importante é valorizar no homem a sua força e a sua beleza. o escritor soviético Viktor Kumarin. o que é prejudicial. “A preparação para este tipo . conduz. Os educandos de uma instituição infantil soviética devem conhecer os perigos reais que ameaçam a organização do Estado. Violar este equilíbrio traz obrigatoriamente conseqüências negativas.superior na organização das metas futuras: isto significa não somente conhecer este porvir de ouvir falar. estimulando as iniciativas e a interdependência dos próprios alunos para que estes possam se incorporar o mais rápido possível ao processo 162 ativo da direção da coletividade e aos processos da educação própria e da autogestão. eles têm que saber diferenciar os amigos e os inimigos de sua pátria. afirma que somente em 1932 Makarenko chegou a estabelecer o princípio de que a noção de coletividade apenas poderia existir numa sociedade socialista. coletividade. para se dedicarem exclusivamente ao trabalho pedagógico. mas não suscita em nós sensações de beleza pessoal nem verdadeiro valor. a ausência. “Para fazer uma vida normal na qual a coletividade possa se desenvolver. ainda que seja longínquo. Já a subestimação da autogestão. Quanto mais ampla é a coletividade. não somente falar e ler sobre ele. “A capacidade de uma pessoa para entrar na vida com uma ou outra pespectiva está definida pelo critério adotado na importantíssima missão de fornecer uma educação correta. a um fortalecimento do poder administrativo. é fundamental e decisivo um rigoroso equilíbrio dialético da direção e da autogestão.

as causas da delinqüência juvenil dos anos 20 e terminava com uma frase assinada pelo pedagogo da Colônia Górki.Cenas do filme O caminho da vida. 1932 foi um ano muito produtivo para Makarenko: lançamento internacional do filme. Em 1932. pela sua verdade. onde foi consagrado como "a melhor obra do certame" pelo público. 163 CAPÍTULO 10 – O CAMINHO DA VIDA No início da década de 30. conhecido pelo seu desempenho no filme A mãe (1926). também discípulo de Meyerhold. que explicava. num tom didático. Makarenko estabelece diferenças claras para os conceitos de “sociedade’’ e de ‘‘coletividade’’. de Vsevolod Pudovkin (1893-1953). qualquer crítica reacionária. Esta fama era consolidada pelo prólogo do filme. em 1931. resultou a leitura do manuscrito do Poema pedagógico. em 1930. Esta particularidade se pode explicar. mas também destacou-se por ser o primeiro filme falado do cinema soviético. 166 A versão cinematográfica da Colônia Górki não somente foi considerada uma obra mestra. mereceu elogios pela sua interpretação no papel de Makarenko. No ano seguinte escreve a peça teatral Tom maior. publicação de seu livro de reportagens A marcha dos anos 30 e a finalização da novela FD-1. convencida do poder do trabalho realizado em comum e livremente aceito. Nos países marcadamente anticomunistas a censura teve que fechar os olhos e aceitá-lo como uma obra que ultrapassava. que é enviada para participar de um concurso nacional . O caminho da vida foi apresentado no Festival de Cinema de Veneza. famoso entre os artistas de teatro por ter sido ator e discípulo de Meyerhold. Após o sucesso em Veneza. de acordo com Makarenko. narrando a epopéia makarenkiana. A principal diferença representa a unidade de contatos: os membros da coletividade estão ligados mutuamente por relações e dependências diretas. que dará a estes jovens a sua folha de arruda para toda a vida". em primeiro lugar. faz contato com Makarenko e.” Analisando a coletividade como uma microestrutura social. que dizia: "É a República dos Sovietes. Ekk.de relações e para tais dependências realiza-se. Figura . ainda em elaboração. transformado em júri popular. Na União Soviética o filme ficou vários anos em cartaz. “pelo grande sentido científico e prático da coletividade diretamente vinculada à tese marxista de que são as próprias pessoas que criam as circunstâncias. filma O caminho da vida. Após conhecer a experiência educativa dos bezprizornies. o filme percorreu o mundo. Ekk decide transformar essa aventura numa saga cinematográfica e. na qual ele descreve uma nova etapa da vida da Comuna Dzerjinski. O entusiasmo permanente de Górki em relação ao trabalho de Anton Semiónovitch despertou grande interesse no cineasta Nikolai Ekk (1898-). O ator Nikolai Batalov. na coletividade. ampliando ainda mais o prestígio de Makarenko. na qual se reproduz um tipo de relação característico para todo o conjunto da sociedade. a obra pedagógica de Makarenko ultrapassa as fronteiras da docência e começa a ser divulgada nos diversos meios intelectuais de Moscou. deste encontro. influenciadas pela educação que receberam”.

Tal como se pode ler no Poema pedagógico. escreve esta carta para Makarenko: ~ A terceira parte do poema me parece ainda mais valiosa que as duas primeiras. Assim que Górki terminou a leitura da saga gorkiana. se você não termina seu livro. Makarenko envia para Górki a segunda parte da trilogia pedagógica. vá para qualquer zona de clima temperado e escreva até o fim seu livro. já despojada do documentarismo. Anton Semiónovitch foi julgado por um tribunal docente pelas suas concepções de disciplina e de honra. Makarenko ingressou como membro militante na União dos Escritores Soviéticos. ainda mais que tenho a responsabilidade de o apadrinhar. O júri faz grandes elogios a este trabalho dramático de Makarenko. eu mesmo já deveria ter percebido que você necessita descansar. que foi imediatamente publicada no Almanaque ano dezessete. Há 12 anos você vem trabalhando sem parar e os resultados de sua obra não têm preço. e ninguém o conhecerá. Górki enviou cinco mil rublos como parte dos direitos autorais.o conceito de honra. Juntamente com a carta. Essa obra. No outono de 1934. ele continua trabalhando no Poema pedagógico. mas. pois comprometia-se a editar o livro. Então. os 168 três primeiros capítulos de introdução e um capítulo denominado "O período organizativo". meu querido amigo". onde o exbezprizorni. Em fevereiro de 1933. todo ele me emociona muito." Outro ano de grande importância literária para Makarenko foi 1934. que aparece no Almanaque ano dezoito. Nesse ano. dizia: "Querido Anton Semiónovitch. numa conferência proferida no Circulo Docente de Kharkov. encerra a terceira e última parte do Poema pedagógico e envia o texto para Górki. que marca uma nova etapa da sua obra literária. Li com grande emoção a cena do encontro dos gorkianos com os rapazes de Kuriáj. Em fins de 1933.de obras teatrais. A sua admissão foi saudada com verdadeiro entusiasmo pelos principais escritores da época. iniciado em 1931. de uma forma geral. e ele é publicado algum tempo depois. Enquanto isso. mas em 1932 já estava pronto o prefácio. Makarenko terminou a primeira parte do Poema pedagógico. No dia 1º de julho desse mesmo ano. muito preocupado com a saúde de Makarenko. tenho recebido informações por outros amigos de que você começa a se sentir cansado e que já se faz necessário um merecido descanso. entre janeiro e setembro de 1935. Este tema ele desenvolveu na novela A honra. Felicito-o por este bom livro. Nela analisava as dificuldades geradas pelo processo dialético da interação dos elementos gerais e individuais da . ainda em rascunho. ele se aprofunda num dos pontos mais conflitantes de sua metodologia . Falando claramente. Makarenko revela. Seguindo a mesma temática dos seus livros anteriores. em 1935. Anton Semiónovitch recebeu uma afetuosa carta de Górki. com a finalidade de que este providenciasse sua publicação. Mas esse esforço ninguém o conhece. Finalmente. que está trabalhando na sistematização teórica das suas descobertas pedagógicas. ficou conhecida com o título de A experiência metodológica na colônia infantil de trabalho. dirigido por Górki. fundada por Górki. Esse trabalho. não foi concluído. parabéns de todo o coração. e estas coisas simples 167 deveria entendê-las eu mesmo.

os quais o consideram ainda seu diretor" moral. que evitam que o educador torne os educandos objetos manipuláveis. quarto grau e depois passa para o quinto. alguns que mereciam ser elogiados e outros muito difíceis. A saúde de Makarenko piorava seguidamente. e percebi que se Marx exigia uma superação revolucionária das relações econômicas e políticas alienadas na sociedade. perto da cidade. desta forma. Em julho de 1935. Em 1935. Makarenko definiu na sua Metodologia para a organização do processo educativo. Ampliam-se seus horizontes e ela adquire mais conhecimentos e hábitos.. trabalhando na Comuna Dzerjinski.. ''Nos últimos cinco anos. Nesse ano. acender a mecha e sair correndo sem esperar que a pessoa voe em pedaços. todas as suas preocupações e pensamentos. Assisti à evolução que se manifesta normalmente a qual é conhecida como crescimento e desenvolvimento: a criança estuda no terceiro. 169 Por explosão' não quero dizer que temos que colocar uma dinamite na pessoa. Eu levo em conta uma influência instantânea. a teoria das ''explosões pedagógicas''. e se instala na localidade de Irpén. então passei a me ocupar de elaborar uma metodologia destas 'explosões' e não acho outro termo para sua definição. A distância que o separa da Comuna Dierjinski não limita seus contatos com os educandos. Este método ainda está em estudo. Entre os . mas ele confessa que "existem propriedades individuais não-fabricáveis''." E mais adiante ele acrescenta: "Isto não quer dizer. que revolucione todos os desejos da pessoa. onde conheci muitos caracteres diversos.. a criança individualmente considerada deveria superar seu comportamento defeituoso mediante 'explosões e abalos' educativos. que desde 1934 voltara a ser a capital da Ucrânia. fundamentalmente. onde continua escrevendo sua metodologia. trabalhar com cuidado e precisão escrupulosos. Nesta etapa da sua vida já tinha elaborado a estrutura geral do romance histórico sobre a Ucrânia." A base fisiológica pavloviana manifesta-se mais lógica e clara do que nunca no seu pensamento. Makarenko chega a Kiev. baseia-se. Makarenko encabeça a coluna dos comuneiros vitoriosos no certame. que passou a ser o eixo central do processo educativo makarenkiano. Isto significa. porém para isto é necessário um trabalho particularmente preciso da máquina. o educando a uma integração social exigida numa sociedade socialista. de maneira alguma.personalidade. durante o desfile de honra da olimpíada dos aficionados da arte das colônias de trabalho. por uma 'explosão' . Quando descobri a expressão externa dessas mudanças. "De qualquer modo estava claro para mim que muitos detalhes da personalidade e do comportamento humanos podem ser reproduzidos em série com a prensa mecânica. a práxis ética existente entre os homens que Makarenko definia como "A preocupação central do marxismo". na verdade. ali não tive problemas com os processos evolutivos do caráter. escrita em 1935 e publicada no ano seguinte. eleva sua qualificação e adquire costumes de tipo social.. nas necessidades da própria coletividade''. pouco antes de ser transferido para Kiev a fim de trabalhar como assistente da chefia na Direção das Colônias de Trabalho do Comissariado do Povo do Interior da Ucrânia. mas sim significa que o 'endireitamento' do caráter é muito mais simples realizá-lo mediante um método . conduzindo. que não exista uma diferença entre um caráter deformado e o que conhecemos por normal. se assim fica mais claro. Depois passa a trabalhar na fábrica. Vladimir Monomakh. o que não o impedia de receber freqüentemente visitantes de todo o pais.

admiradores que chegaram a Irpén conta-se Kornéi Chukovski (1882-1969), conhecido escritor soviético de obras para crianças, a quem Makarenko deu conselhos pedagógicos para acrescentar às suas histórias literárias. Em fevereiro de 1937, Makarenko transferiu-se para Moscou juntamente com sua família - sua esposa Galina e seu filho adotivo Liodka - e dedicou-se inteiramente à atividade literária. Seus artigos sobre pedagogia e outros temas afins apareciam regularmente nos jornais Pravda, Izvestia e outros, de Leningrado e do interior do país. Diariamente era convidado para dar palestras sobre educação nas escolas e no rádio. As principais conferências 170 realizadas na escola nº 310 de Moscou foram taquigrafadas e formam um volume especial na sua bibliografia . Em 1937 Makarenko publicou uma das suas obras-mestras de conteúdo pedagógico - O livro dos pais. Ele disse: "O que me levou a escrevê-lo? Acontece que em 1935-36 tive que organizar em Kiev várias colônias de trabalho e, nessa época, tinha que me ocupar menos das crianças vagabundas que das que tinham 'família'. Para isso tive que pesquisar as relações familiares e estudar o comportamento delas; esse material me pareceu interessante para poder escrever um livro destinado aos pais. No primeiro volume eu me refiro ao tema relativo à família como coletividade. O segundo analisa, fundamentalmente, as relações entre a educação moral e política da família e a função da escola para os filhos dessas famílias. O terceiro volume será dedicado às questões relativas à educação do trabalho e à orientação profissional, e o quarto volume, para mim o mais importante, tratará do tema sobre a necessidade de educar o homem para que seja feliz. Verdade que é interessante?'' A obra ficou incompleta. Makarenko terminou somente os dois primeiros volumes, como um profético testamento do seu pensamento humanístico. "A modesta tarefa desta obra consiste em ajudar os pais a olhar para trás, a refletir, a abrir os olhos." Na edição original, o livro explica a arte da educação por meio de imagens, exemplos e ilustrações, contendo, ao mesmo tempo, muitas teses teóricas sobre a educação. São esclarecidas noções como "boa família" e o que deve ser a correta orientação na educação dos filhos, bem como os aspectos negativos que às vezes são imperceptíveis, mas conduzem, inesperadamente, para os pais. No outono de 1937, a Rádio Central de Moscou transmitiu oito conferências de Makarenko dedicadas aos problemas da educação familiar, hoje amplamente conhecidas no mundo inteiro por terem sido conservadas na sua versão taquigráfica. Neste mesmo ano, a revista Outubro publica, em novembro e dezembro, as duas primeiras partes do romance de Makarenko A honra, e em janeiro-fevereiro de 1938, as duas partes finais. Poucos meses antes, no outono de 1937, Makarenko publicou um polêmico artigo literário no estilo das nossas crônicas, intitulado A felicidade, onde denominou a 171 literatura mundial "uma falação sobre a dor humana", demonstrando que nenhum dos grandes escritores tinha se ocupado com uma obra de vulto descrevendo a felicidade. Ele afirmou que a essência da questão estava nas propriedades tecnológicas do material literário, já que a felicidade não era, como tema, aproveitável. Somente a dor, por ser um fenômeno geral, dava direito ao protagonista a entrar na literatura. As citações

de autores iam de Tolstoi até Shakespeare, passando por Pushkin. A conclusão do artigo expressava a idéia de que a felicidade pessoal entraria na literatura numa época na qual ela não seria uma coisa fortuita e quando essa felicidade não estivesse do lado oposto da injustiça social. A felicidade apareceria como eixo central do romance somente numa obra literária produzida por uma sociedade livre, sem antagonismos de classe. Figura - Em Moscou Makarenko sente seu coração dar os primeiros de esgotamento. 172 O ritmo de trabalho abalou ainda mais a sua fraca Durante uma conferência, realizada na Universidade de Moscou, tema "Para que o homem precisa de defeitos?", segundo narra o Viktor Fink, "sentiu uma rápida visita da parca". Seu coração o primeiro sinal de esgotamento ... saúde. sobre o escritor tinha dado sinais

Nota: Parca, de acordo com a mitologia, refere-se a cada uma das deusas (Cloto, Láquesis e Átropos) que fiavam, faziam os novelos e cortavam o fio da vida. Relaciona-se, portanto, à morte. No inverno de 1938, ele já estava sob estrito controle médico: seu coração manifestou-se novamente. "Decidi levar a sério a tarefa de restaurar minha velhice: no próximo 1º de novembro parto para me tratar numa estação de repouso em Kislovodsk, o sanatório da serra de Krestóvaia; os médicos dizem que será muito fácil curar-me. Passarei o mês de setembro nos arredores de Moscou, numa espécie de prisão médica, mas os doutores não se contentam só com isso: preciso tomar banhos carbogasosos. Tenho que trabalhar muito; atualmente me ocupo sobretudo dos jovens. São pessoas cheias de vontade, de decisão, de resistência e energia, mas, infelizmente, falta-lhes talento, e essa é uma coisa terrivelmente importante. Por isso, temo muito que meu trabalho seja em vão. Acabo de começar um romance que se chamará Os anéis de Newton. É uma obra sobre os defeitos do homem, mas também sobre a sua dignidade. Escrevo-a com facilidade, sobretudo porque não estou com pressa, ainda não prometi nada a ninguém, ninguém me aperta, e trabalho de acordo com a minha vontade." O escritor soviético Kornéi Chukovski, também doente nessa época e que mantinha contato com Makarenko, escreveu nas suas memórias: "As nossas habitações ficavam no mesmo andar, e desde o primeiro dia que Makarenko chegou à clínica de repouso batia na sua máquina incansavelmente. Os médicos tinham-lhe solicitado que deixasse de escrever, mas ele continuou imperturbável. Naquele momento estava começando seu romance Caminhos de uma geração. As vezes tive a sorte de levá-lo a passear até a montanha, e no caminho Anton Semiónovitch recitava versos dos nossos grandes poetas. Ele me deu muitos conselhos pedagógicos, que apliquei nas minhas criações literárias para as crianças". O romance Bandeiras nas torres foi uma das suas obras mais importantes no campo da literatura pedagógica. No Poema pedagógico, Makarenko narra suas experiências com os "transgressores da lei", segundo 173

novas visões do comportamento social. Ele queria mostrá-los, sobretudo, como seres humanos com bons sentimentos, simpáticos e simples. Queria despertar na sociedade a simpatia para com eles e que a sociedade acreditasse neles. Já no livro Bandeiras nas torres, Makarenko conta a história da Comuna Dzerjinski, que era, na sua forma exterior, uma continuação da Colônia Górki. No Poema pedagógico, Anton Semiónovitch procura responder à questão de como representar a luta do indivíduo consigo mesmo e a luta do coletivo pela sua valorização e pela conquista de sua fisionomia, dos seus direitos. Uma luta que, segundo o próprio Makarenko, foi "mais ou menos tensa". Em Bandeiras nas torres, Makarenko tinha um outro objetivo; nesse livro ele procurou representar um coletivo feliz numa sociedade feliz. Ao mesmo tempo, queria mostrar que "a felicidade deste coletivo, que se manifesta em muitas ocasiões sob formas profundamente poéticas, consiste também numa luta, mas esta luta não é tão tenaz nem se trava contra os obstáculos e inimigos evidentes, como foi no reformatório; ela é delicada e se manifesta num movimento das forças internas humanas, expressas com freqüência por tonalidades interiores e dificilmente perceptíveis". Todos estes problemas importantes e complicados, Makarenko somente os percebeu na Comuna Dzerjinski. Ali”, diz ele, "notei e senti, com particular sensibilidade, que ainda não tinha abrangido suficientemente toda a complexidade do processo da educação do homem novo. Mas também entendi que este processo acontece não somente no seio da própria coletividade, senão no conjunto da nossa sociedade socialista. E um processo que compreende o trabalho e as suas relações internas, o crescimento do próprio homem e, finalmente, as múltiplas e sutis relações entre os educandos Bandeiras nas torres apareceu em 1939. No dia 31 de janeiro do mesmo ano, Makarenko recebeu uma das mais importantes condecorações do governo soviético: a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho, "pelos seus destacados êxitos e realizações em prol da literatura e da pedagogia soviéticas". Nestes meses ele continuou uma intensa vida produtiva; tinha terminado o roteiro literário para um filme denominado Um caráter verdadeiro e já tinha entregue o argumento de outro roteiro cinematográfico 174 chamado Em comissão de serviço. As suas ligações com o cinema eram cada vez maiores. Na área pedagógica ele continuava produzindo diariamente; em pouco tempo escreveu vários artigos importantes, entre os quais os famosos "Sobre a ética comunista" e "Literatura e sociedade". Nas cartas dessa época, ele fala muito sobre o cinema e sobre a intenção de se dedicar nos próximos três anos a elaborar um trabalho fundamental acerca da educação comunista. Em fevereiro de 1939, Makarenko solicitou seu ingresso no Partido Comunista, petição que foi imediatamente concedida. O pedido de Makarenko foi incluído na ordem do dia em 4 de abril de 1939, para ser oficializado durante a reunião que o Partido Comunista realizaria na União dos Escritores Soviéticos. Na primeira semana de março, Anton Semiónovitch realizou uma nova viagem a Kharkov onde, no dia 9, no Instituto Pedagógico, pronunciou a sua famosa conferência que leva o titulo "Minhas concepções pedagógicas''. Ali ele entrevistou-se com muitos dos seus antigos educandos, alguns deles já professores da comuna e de outras instituições de ensino. Esta foi a sua última intervenção pública e seu último encontro com seus queridos pupilos.

por outro lado. o dia continuava luminoso e as bétulas resplandecentes faziam dessa primavera um momento ainda mais feliz. e depois recomeça. Anton Semiónovitch observava da janela do trem o luminoso dia moscovita. tendo criado. Tinha 51 anos. A resposta de Anton Semiónovitch a essa reação foi a definição do "coletivo perfeito". Não é feita em fábrica. 'Ide ü Ucrânia.. mas o homem aprendeu a não fazer caso dela". as da natureza social do homem e as da nova moral socialista. "despersonalizava" o indivíduo. Escreveu: "A felicidade é artesanal. nesse tempo. No dia 1? de abril de 1939. Ao elaborar as leis do processo pedagógico socialista. encostou a cabeça no vidro da janela.. os ribeiros e os garotos. Makarenko caminhou pela estrada aberta pelos teóricos da Revolução de Outubro e. Mas a fila que formam em Golitsino é verdadeira e luxuosamente real. os bosques de bétulas. A sua obra pedagógica inculca uma alta confiança nas possibilidades humanas. fazendo planos para o futuro. mas vinculada a todo o sistema geral educacional. durante uma viagem. localizada perto da capital soviética. cujo objetivo é a formação do coletivo humano perfeitamente integrado no coletivo social. e não se pode dizer o que brilha nelas e com que luz brilha. Makarenko protestou sempre contra as calúnias da velha docência sobre a missão do coletivo que. Foi um pedagogo marxista. mais de três mil crianças passaram sob seu atento olhar.... a quatro tempos. as granjas dos camponeses cheias de girassóis e flores. que determinaram as leis do desenvolvimento da sociedade. Makarenko enfocou de maneira inovadora os 176 . As bétulas cintilam com um clarão primaveril. ele pensava: "A natureza inventou a morte. ide para lá. Anton Semiónovitch Makarenko consagrou 30 anos da sua vida à atividade pedagógica. Agora já sabia o que era a felicidade. um pássaro canta delicadamente uma frase muito simples. Cala-se. que fez jus a todos os seus preceitos. 175 w botas de feltro e golas de pele. ligadas.. que eu aqui permanecerei.. Cada um dos meios da educação foi encarado por Makarenko não de maneira isolada." Pensa: “Um claro dia de primavera e. em suas obras ele denunciou impiedosamente o idealismo e a metafísica na pedagogia. por Lênin. Afirmando a prioridade da sociedade sobre o indivíduo. a uma permanente exigência de cada pessoa. desenvolve-se multilateralmente e entra na sociedade madura com uma marcante visão pessoal da vida". um belo coletivo de educandos e educadores. gelo. procedente da cidadezinha de Golitsino. principalmente. como também a seus objetivos e tarefas concretas.. se há ainda neve. Observou o céu azul e lembrou os versos de Tchevtchenko ." Makarenko fechou os olhos e sorriu aliviado. ainda que com grandes dificuldades.Em Moscou ele continuava sua vida agitada. . Em suas conclusões. esses festejam a primavera.. à nossa Ucrânia. onde o indivíduo recebe "uma instrução plena. uma obra gigantesca feita em benefício das crianças e dos homens. Entre as bétulas. Makarenko demonstrou quais eram as bases da educação soviética. supostamente.. órfãos meus. e dedicou os últimos 15 anos de sua vida à aplicação prática e ao aperfeiçoamento do sistema de educação da juventude.

não quer morrer. essa finalidade era atingida por todos nós com os seus próprios riscos e perigos. Evidentemente o essencial é responder à pergunta: qual é a finalidade absoluta da vida? Este problema sempre é apresentado e todos acreditam que é necessário dar-lhe uma resposta. mas todas estas finalidades não são de fato mais do que uma só e mesma coisa: a preocupação de viver a maior quantidade de tempo e o melhor possível. não deve se esgotar em uma ordem externa. Exprime apenas o desejo de obter o máximo do que é dado pela própria natureza. simplesmente. a fome. Mas a realidade do universo nunca deve ser esquecida. O homem existe com todas as suas inquietações grandes e pequenas. A base da disciplina deve ser a exigência da participação de todos nos interesses gerais do coletivo. mas não se deve duvidar do fato de que dentro de alguns séculos se encontrarão formas de coletividade novas e ainda mais ricas. No mundo antigo. deve dominar a técnica do trabalho educativo e sempre se sentir como o membro responsável do coletivo. a necessidade. A natureza. Mas o homem não pode suportar a morte. os inimigos. No socialismo. ignora a noção de finalidade. Makarenko sublinhava constantemente o papel fundamental do pedagogo na totalidade do processo educativo. "Tal finalidade não é. O texto a seguir foi escrito oito meses antes da sua morte e revela a profundeza do seu espírito: "A vida humana desenrola-se segundo leis rigorosas. o mundo também não tem finalidade. Toda a vida do homem consiste em lutar contra a natureza. mais começou a compreender que essa finalidade seria atingida mais facilmente se o homem não lutasse sozinho mas em coletividade. na sua aplicação. numa palavra.problemas da disciplina: esta. . ela própria. Makarenko afirmava que a mestria pedagógica deve atingir tal grau de perfeição que. A cada uma destas ações corresponde uma finalidade. a finalidade continua a ser a mesma: o homem quer viver a maior quantidade de tempo e o melhor possível. uma disciplina de luta voltada para a superação das dificuldades impostas pelos objetivos do coletivo. evidentemente. ou em regras de repressão. na natureza não há e não pode haver finalidade. a idéia de coletividade é expressa sob as suas formas mais perfeitas. uma finalidade em si mesma. Makarenko. Todavia. E é preciso. A juventude caracteriza-se pelo entusiasmo e pela busca da verdade. por assim dizer. uma finalidade absoluta. Quanto mais a humanidade se desenvolveu. Está bem ou está mal? "Não está bem nem está mal. Na realidade é um falso problema. Protesta. está sempre na busca de um sentido para sua vida. na sua visão filosófica. não respondê-lo. A morte parece-lhe um fenômeno atroz. contra o frio. ela possa ser considerada tecnicamente como uma ciência exata. Através de uma luta pessoal. segundo ele. também fez referência a estas questões. Que é uma finalidade? De onde provém o conceito de finalidade e o próprio termo? "O conceito de finalidade provém da atividade humana. Para poder realizar esta educação dos "homens em homens". O pedagogo deve ser um bom organizador. A vida é uma seqüência de ações pequenas ou grandes destinadas a sobreviver. A disciplina soviética deve ser o resultado de um trabalho educacional. t uma finalidade razoável e é razoável 177 querer atingi-la.

mas de qualquer maneira viverão sempre quase como eu. ou pela revolução tecnológica. contra a sua própria natureza. possa alterar qualquer coisa é uma suposição que em nada se baseia. Torna-se repugnante na nossa imaginação. gosto de ver o homem crescer. são temas bem conhecidos e todas as pessoas se dizem especialistas nessas matérias". algo tão importante que eu a trocaria de muito boa vontade pela eternidade. aprenderão cada vez mais a sentir as alegrias da vida em coletividade. embora a sofresse. o progresso do homem-matéria. “Eu considero que a vida deve ser bela. sua finalidade. que ela está na origem de tudo o que é belo. ou pelas grandes invenções. e saber viver essas belezas. não há qualquer contradição entre elas. uma finalidade absoluta que a vida tivesse. a beleza. “Discutir sobre o fato de sermos matéria não serve de nada. Ele convencia os seus educandos de que eles eram "uma fonte inesgotável de possibilidades". nada de terrível na morte. ele dizia: "Ë fácil falar do amor. A morte é tão natural quanto a vida. "Mesmo quando imaginamos a vida eterna. é uma grande coisa. a luta. e o estado de nada não tem nada de repelente. mas não deve em absoluto ter uma finalidade. amo o dia e a noite. e esse é o sentido verdadeiro do socialismo. como aliás é fácil falar de Pedagogia. A vida e a morte são leis naturais. a desprezar a morte. a visão demasiadamente nítida de uma finalidade individual torna. quando à vida opomos a morte. de uma espécie 178 de orgulho e de independência com relação à natureza. nela os sofrimentos serão desagradáveis. porque não tem o egoísmo por medida. mas com as vitórias da humanidade. Tudo isso me agrada. Quando se encontrava com outros professores. Ora. uns consideram que o encanto da vida é um pedaço de pão ou um copo de vodca. Aí reside a sabedoria da vida e. O mais importante é saber distinguir as belezas de hoje e de amanhã. que há de mal nisso? Que direito temos de desprezar a matéria? É uma coisa notável. Pelo contrário. isto é. "Os homens sempre viveram assim e assim continuarão. Simplesmente. "E é tudo. de sofrimentos e de pensamentos. às vezes. evidentemente. 179 . Em outras palavras: a matéria expressa pela música de Beethoven ou de Tchaikovski. E mesmo não sendo mais do que matéria. também. a alegrarem-se. Simplesmente. porque é feita de lutas e de perigos. rica em possibilidades e em beleza. amo a luta. De qualquer forma. aprenderão a viver melhor e mais tempo. não com as suas vitórias pessoais. Educava tal como vivia: com o coração. e a felicidade agora também é uma coisa agradável. Gosto da vida tal como ela é. O homem aprendeu a lutar contra a morte. não há. com esta plenitude de alegria e de tristeza. ela em pouco diferirá da nossa vida atual." Makarenko queria transmitir ao homem uma confiança infinita. Eu quero viver na matéria que me surge em toda a riqueza e esplendor da minha individualidade. a vida mais odiosa. lutar contra a natureza e. com uma plenitude de sentimentos. nós não temos direito a isso. Ela é bela justamente porque não é prática. Imaginar que uma finalidade. enquanto os outros encontram prazeres mais complexos e mais ricos: o trabalho.Na realidade. Vivo porque amo a vida. Estou persuadido de que os homens continuarão lutando sucessivamente contra a natureza. entre outras coisas.

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