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PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR PARTE I GESTÃO DO TERCEIRO SETOR TEMA: S

PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR

PARTE I

GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

TEMA:

Surgimento, ConCeituação e CaraCterização do terCeiro Setor

Copyright desta edição: by Universidade do Parlamento Cearense

Coordenação Editorial

Lindomar Soares Ana Célia F. Maia Silvana Figueiredo,

Revisão

Tereza Porto Roberta Oliveira João Luis Melo Filgueiras

Diagramação

Capa

UNIVERSIDADE DO PARLAMENTO CEARENSE

Patrícia Saboya Professor Teodoro Lindomar Soares Silvana Figueiredo Ana Célia F. Maia

Presidente Vice-presidente Diretora de Gestão e Ensino Diretora Técnica Diretora de Educação a Distância

EQUIPE DE ELABORAÇÃO DO PROGRAMA

Ana Célia F. Maia Lindomar Soares Noeme Milfont Sandoval R. Sena Fernando Saboya

UNIPACE

UNIPACE

UNIPACE

STDS

UFC

APRESENTAÇÃO, p. 5 Deputado Roberto Cláudio Deputada Patricia Saboya

TEMA:

SURGIMENTO, CONCEITUAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

ProfeSSor mSC. franCiSCo Vidal

TERCEIRO SETOR: INTRODUÇÃO AO CONCEITO, p. 7 O SURGIMENTO DO TERCEIRO SETOR, p. 9 EM BUSCA DE UMA CONCEITUAÇÃO DO TERCEIRO SETOR, p. 16 ONGS E CARÁTER INSTITUCIONAL, p. 25 Fórum de Debates, p. 31 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS, p. 32

TEMA:

PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO

ProfeSSor franCiSCo moura

INTRODUÇÃO, p. 37 CONCEITOS, VANTAGENS, E PRINCÍPIOS DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO, p. 39 Níveis Hierárquicos de Decisão e Tipos de Planejamento, p. 43 DIAGNÓSTICO ESTRATÉGICO, p. 44 ELABORAÇÃO DE UM PLANO ESTRATÉGICO, p. 50 GERENCIAMENTO DA IMPLANTAÇÃO DE UM PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO, p. 53

APRESENTAÇÃO

Na organização político social do Estado, podemos iden- tificar distintas esferas de atuação dos diversos organismos en- volvidos na sua constituição. No denominado Primeiro Setor temos o governo, que é responsável pelo bem-estar social, já no Segundo Setor está o segmento privado, atuando nas questões individuais. Com o tempo, percebeu-se que o Estado sozinho não po- deria atender todas a demandas, notadamente, as questões que envolvem ordem social. Então a sociedade despertou para sua potencialidade de contribuir para a solução das lacunas deixa- das pelo poder público,e começou a atuar nesta esfera. Poste- riormente se organizando em instituições que deram início ao chamado Terceiro Setor. Ou seja, o Terceiro Setor é constituído por organizações sem fins lucrativos e não governamentais, que têm como objetivo gerar serviços de caráter público. O Estado, buscando equidade e transparência na distri- buição dos recursos, destinados às instituições não governa- mentais, passou a adotar a modalidade de editais e por sua vez os órgãos de controle, tais como os Tribunais de Contas e o Ministério Público, também passaram a exercer o controle a despeito de tratar-se de transferência de recursos públicos.

Pensando nessas Instituições que se configuram de gran- de relevância para o fortalecimento da cidadania pelo interesse social que as caracterizam, a Assembleia Legislativa, por meio da Universidade do Parlamento Cearense, formulou este Pro- grama de Capacitação, que foi concebido em parceria com o Governo do Estado, com a participação da Secretaria do Tra- balho e Desenvolvimento Social, objetivando qualificar esses profissionais, dotando-os das competências e habilidades ne- cessárias para desenvolver de forma plena, empreendedora e inovadora a gestão de suas entidades. A presente formação se dispõe, além de oferecer alinha- mento conceitual sobre a importância e os desafios do Tercei- ro Setor nesta década, a qualificar na Elaboração de Projetos, por sua vez melhorando na qualidade da captação de recursos; Execução, Monitoramento e Avaliação, com foco em resultados e, por último Prestação de Contas, reduzindo assim os índices de atecnia. Por fim, agradecemos a confiança no Projeto ora inicia- do que integra o Programa de Formação para o Terceiro Setor, desejando a todos sucesso e êxito no transcorrer do curso, con- tribuindo o conhecimento adquirido para a melhoria da Ges- tão de suas Instituições e que esse início seja o marco para as demais ações envolvendo esta área.

DeputaDo RobeRto CláuDio

Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará

DeputaDa patRiCia Saboya

Presidente da Universidade do Parlamento Cearense

TERCEIRO SETOR:

INTRODUÇÃO AO CONCEITO

PROF. MSC. FRANCISCO VIDAL

As organizações da sociedade civil estão cada vez mais presentes no Brasil, atuando na provisão de bens e serviços pú- blicos, e no controle da ação do Estado e de empresas. O inte- resse público de sua atuação decorre não só das finalidades a que se propõem e do impacto de suas ações, mas também da crescente influência que exercem e dos recursos públicos que acessam. Tal conjunto de poderes exige um equilíbrio em rela- ção aos deveres das organizações, permitindo que se reconhe- çam suas responsabilidades e avancem suas contribuições na construção de uma sociedade mais justa e sustentável. É a partir da junção de poder e dever que se chega a um conceito amplo — e ao mesmo tempo prático — de accountabi- lity (ou responsabilização): pode-se considerar a accountability como uma relação em que uma parte tem o dever de prestar contas de seus atos e decisões à outra, que, por sua vez, tem o poder de controlar a primeira e aplicar-lhe consequências se houver impropriedades ou inadequações em relação aos atos e às decisões da primeira ou na sua prestação de contas. Por que tem-se ouvido cada vez mais a expressão Ter- ceiro Setor para classificar o segmento das entidades sociais? A

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resposta está na compreensão de outras duas denominações:

Primeiro e Segundo Setor. São nomes que se dão às diferentes áreas de funcionamento da sociedade organizada. É chamado de Primeiro Setor o setor público ou governamental, que tem como objetivo estruturar a sociedade, assegurando, por meio de políticas e do uso do dinheiro coletivo para o bem comum, di- reitos e deveres iguais para todos. É chamado de Segundo Setor o setor econômico,que tem como característica central fazer cir- cular a produção de bens e finanças através do funcionamento do mercado. O Terceiro Setor é aquele que agrega as iniciativas or- ganizadas da sociedade civil, dirigidas à melhoria da vida das pessoas a partir do investimento em serviços e da busca de so- luções para problemas. O Terceiro Setor surge como resposta a situações nas quais tem havido um desempenho insatisfatório do Primeiro e do Segundo setores no atendimento das necessi- dades sociais.

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PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

O SURGIMENTO DO TERCEIRO SETOR

Segundo a conceituação de Kissil, os participantes-chave ou atores do processo de desenvolvimento são:

1 Primeiro Setor que corresponde o setor do governo responsáveis pelo cumprimento das decisões legais; possui o poder em estabelecer políticas públicas, in- cluindo aquelas que mais diretamente afetam o pro- cesso de desenvolvimento;

2 Segundo Setor conta com o setor privado e com os mecanismos de mercado para participar do processo de desenvolvimento. Ele abrange os produtos agrí- colas, microempresários, industriais, comerciantes, banqueiros e outros, cujas atividades principais con- sistem em produzir mercadorias e serviços;

3 Terceiro Setor refere-se a um conjunto de iniciativas “privadas com fins públicos”. Essas iniciativas podem ser observadas através de movimentos, associações e organizações não governamentais (ONGs). Este setor confia mais nos mecanismos voluntários, de solida- riedade humana, apelando para o senso de interesse público. “Para a comunidade, a sustentabilidade de

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qualquer processo de desenvolvimento confia muito na capacidade de reconhecer e encorajar o senso de trabalho voluntário de seus membros.”

O Terceiro Setor se forma por marcar um espaço de inte- gração cidadã; a sociedade civil distinguiu-se, pois, do Estado e da lógica do mercado, caracterizando-se pela promoção de interes- ses coletivo. “A maior força de recrutamento, principalmente de indivíduos, não é vantagem fiscal mas a convicção individual.” Estamos diante do surgimento de uma esfera pública não-estatal e de iniciativas privadas com sentido público. Está se falando da vasta coleção de instituições e relações que existem entre o mer- cado e o Estado, para as quais também temos diversos nomes:

Terceiro Setor, setor sem fins lucrativos, setor da sociedade civil, setor voluntário, setor social-econômico, setor das organizações não governamentais (ONGs), setor de caridades etc. Sob o impacto de um Estado que vem diminuindo sua ação social e de uma sociedade com necessidades cada vez maiores, cresce a consciência das pessoas, tanto físicas quanto jurídicas, de que é necessário posicionar-se proativamente no espaço público, se o que se deseja é um desenvolvimento social sustentado. Jeremy Rifkin autor do livro “O Fim do Emprego”, veri- fica os reflexos que a Era da Informação traz sobre a atividade econômica. Ele aponta o século XXI como o século da corpora- ção virtual: em que será necessário repensar o contrato social. Estimando que nas primeiras décadas do milênio não resta- rá mais que 2% da força de trabalho na indústria, ele aponta para uma revolução em que será necessário criar capital social, otimizando o bem-estar da comunidade. Vem daí o crescimen-

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PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

to que ele aponta como o Terceiro Setor, a fim de que milhões

de pessoas possam ser liberadas para restaurar a vida familiar

e comunitária. Grupos de pesquisadores buscaram entender o fenôme- no das ONGs em alguns países da América Latina e com isso concluíram que haviam surgido com muita força nas década

de 60 e 70, dotadas de uma presença importante publicamente,

e com apoio considerável de diferentes agências de cooperação internacional. Segundo cientista social Thompson, o Terceiro Setor sur- giu e emergiu em decorrência de vários fatos importantes:

1 As ONGs representavam formas de ação política que se opunham ao autoritarismo da época (anos 60 e 70). Surgiram em contexto de regimes militares, como alternativa ao fechamento do sistema político e seu principal propósito era o de manter espaços de ação cidadã e de defesa de certos valores democráticos.

Uriban Xavier, membro da ONG CETRA-Ce, entrevista- do para esse trabalho, confirma tal colocação. Ele fala sobre o aparecimento das ONGs no Brasil:

1 surgiram na década de 70, dentro de uma visão fi- lantrópica, de forma lenta e proliferaram na década de 80. A maioria das pessoas que foram exiladas e descobriram lá fora, na Europa, o mundo das ONGs, já vieram com um projeto para a sociedade. E disse- ram: — agora vou fazer um trabalho enquanto so- ciedade civil organizada, um trabalho mais técnico,

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mais de assessoria ao movimento popular. No caso dos negros, essas pessoas vieram e foram fundando, e isso também virou um espaço de militância polí- tica. Um trabalho mais técnico significava que era uma forma de ocupar um espaço dentro do que se sabia fazer e gostava de fazer, a nível profissional. Depois tomou proporções fortes e posteriormente ad- quiriu visibilidade pelo setor público causando o efei- to multiplicação.

2 Aparecia claramente a idéia de que as ONGs eram núcleos que favoreciam a participação dos excluídos, dotadas de uma forte identificação com os setores po- pulares, as “bases” sociais. E sua capacidade de fazer política de uma maneira diferente, não através dos tradicionais canais institucionais, mas sim em es- treita vinculação com os novos movimentos sociais emergentes, como os da mulher, os de direitos huma- nos, ecologia, associação de bairros, etc.

3 Diante de um quadro de políticas econômicas re- gressivas em relação às populações mais pobres, ajustes econômicos, redução dos programas sociais, aumento do desemprego, inflação e o Estado dimi- nuindo sua ação social, impulsionaram a atuação das ONGs. Um exemplo conspícuo foi a fundação da ONU — Organização das Nações Unidas, que se deu logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, na tentativa de equacionar os problemas internacionais decorrentes da guerra.

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PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

O Terceiro Setor hoje engloba tanto as organizações de caridade e beneficência, voltadas para o serviço social, como as novas ONGs, guiadas por uma lógica política alternativa, opositora, moderna, e voltadas para o desenvolvimento social sustentável. E é ao conceito de Terceiro Setor que esse trabalho irá reportar-se. Para Fernandes (1997) o Terceiro Setor “é composto de organizações sem fins lucrativos, criadas e mantidas pela ênfa- se na participação voluntária, num âmbito não governamen- tal, dando continuidade às práticas tradicionais de caridade, da filantropia e do mercado e expandindo o seu sentido para outros domínios, graças, sobretudo, à incorporação do conceito de cidadania e de suas múltiplas manifestações na sociedade civil.”

Em entrevista realizada com Uriban Xavier, membro da diretoria executiva do Centro de Estudos do Trabalho e Asses- soria ao Trabalhador — CETRA, uma ONG; define esse setor como um composto de instituições de propostas concretas que aponte para uma solução dos problemas de determinado setor da sociedade, num espaço micro (local) e não macro. Consti- tuindo um espaço alternativo, politicamente alternativo e de capacidade técnica, crítica, questionando a sociedade com ca- ráter propositivo. Ruth Cardoso (1997) coloca o Terceiro Setor como um “campo marcado por uma irredutível diversidade de atores e formas de organização.” Hoje se percebe que o conceito de Terceiro Setor é mais abrangente. Inclui o amplo espectro das instituições filantrópicas dedicadas à prestação de serviços nas áreas de saúde, educação e bem-estar social. Compreende tam- bém as organizações voltadas para a defesa dos direitos de

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grupos específicos da população, como as mulheres, negros e povos indígenas, ou de proteção ao meio ambiente, promoção do esporte, da cultura e do lazer. Engloba as múltiplas experi- ências de trabalho voluntário, pelas quais cidadãos exprimem sua solidariedade através da doação de tempo, trabalho e ta- lento para causas sociais. Mais recente o fenômeno crescente da filantropia empresarial, pelo qual as empresas concretizam sua responsabilidade e compromisso com a melhoria da comu- nidade. Além das organizações financiadoras e captadoras, as chamadas, agências internacionais. Generalizações sobre o Terceiro Setor são inúmeras. To- maremos como identificação desse setor as características men- cionadas por Kissil:

• as organizações não têm fins lucrativos;

• não são organizações estatutárias emandas do setor governamental;

• são formadas por cidadãos que se organizam de ma- neira voluntária;

• o corpo técnico, normalmente, resulta de profissio- nais que geralmente se ligam a organizações por razões filosóficas e tem um forte comprometimento com o desenvolvimento social;

• são organizações orientadas para a ação, são flexí- veis, inovadoras, rápidas e próximas às comunida- des locais; e

• geralmente fazem um papel intermediário: ligam o cidadão comum com entidades e organizações que podem participar da solução de problemas identifi- cados. Por um lado, fornecem algum tipo de serviço

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PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

à comunidade, por outro, têm que procurar fundos para programas em diferentes fontes de financia- mentos.

Para esse mesmo autor, existem três tipos de organiza- ções dentro do Terceiro Setor:

• organizações de advocacia — em que seu objetivo maior é fazer lobby para defender interesses, ou lutar por problemas específicos, ou grupos específicos da sociedade;

• organizações de caráter técnico — que fornecem in- formações, serviços de consultoria, acesso a determi- nadas tecnologias, ou programas de capacitação de recursos humanos, objetivando ajudar outras asso- ciações ou grupos sociais a obter o nível apropriado de operação, ou de organização, ou de alcançar os recursos exigidos para subsistir;

• organizações prestadoras de serviços que buscam atender às necessidades humanas básicas, como educação, saúde, bem-estar social, geração de opor- tunidades de emprego, etc

No entanto, é importante ressaltar que uma organiza- ção pode trabalhar das três formas, não exercendo exclusivida- de somente numa área.

SURGIMENTO, CONCEITUAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

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EM BUSCA DE UMA CONCEITUAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

Nas diversas culturas nacionais, vários são os termos uti- lizados como sinônimos de Terceiro Setor, associando-se a essa expressão valores ligados ao voluntariado, caridade, filantro- pia, altruísmo, mecenato e solidariedade. Dentro do espectro do Terceiro Setor encontram-se organizações de diferentes matizes, com aspectos singulares, que as diferenciam umas das outras, mas que possuem outras características marcantes que permi- tem abrigá-las debaixo desse termo guarda-chuva (associações comunitárias, Organizações Não-Governamentais — ONGs, ins- tituições filantrópicas, fundações, igrejas, seitas, sindicatos etc.). Camargo et al (2001, p.21-22) abordam alguns fatores conjun- turais e históricos que influenciaram o surgimento do Terceiro Setor e da participação cidadã efetiva da sociedade civil: a crise do estado do bem-estar social (welfare state), que levou ao acú- mulo das funções de Estado Protetor e Estado Regulador, gerando pesados ônus ao erário, e criando uma burocracia consolidada; a crise do desenvolvimento, que relegou parte significativa da população a um patamar inferior na pirâmide social, com a su- pressão da renda e a elevação dos índices inflacionários, fato esse que contribuiu para a deteriorização do aspecto conjuntu-

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PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

ral, ampliando a demanda pelo aprimoramento das questões sociais degradadas, a tal ponto que o Estado não pôde mais su- portar o acúmulo de papéis; a crise do meio ambiente, que mo- tivou as organizações a adotarem uma consciência não apenas sobre o próprio negócio, mas também sobre suas consequências nas áreas de saúde pública, qualidade de vida e outros fatores que justifiquem a organização integrar-se a um movimento con- sistente pela filantropia; a crise do socialismo, que deixou uma lacuna na área de assistência social a ser suprida pelas novas entidades não-estatais; a expansão dos meios de telecomuni- cações, que incrementou ainda mais o fluxo de informações en- tre localidades remotas, facilitando o contato com associados, parceiros e especialistas na área; o crescimento econômico, que levou à formação da classe média urbana nas décadas de 60 e 70 — com propriedade de formar opiniões e de conviver proxi- mamente com as adversidades sociais — com poder para liderar o empreendimento de ações filantrópicas. Com o surgimento do Terceiro Setor, os anseios da socie- dade tornaram-se visíveis, como dito por Dowbor (1999):

A própria irrupção da sociedade civil organizada na arena política se deve sem dúvidas ao sentimento cada vez mais generalizado de que nem as macroestruturas do poder es- tatal, nem as macroestruturas do poder privado estão res- pondendo às necessidades prosaicas da sociedade em ter- mos de qualidade de vida, de respeito ao meio ambiente, de geração de um clima de segurança, de preservação do espaço de liberdade e de criatividade individuais e sociais. (DOWBOR, 1999, p.81).

Aléxis de Tocqueville (1840 apud TAVARES, 2000), em sua obra A democracia na América, cuja primeira parte foi

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publicada em 1835 e a segunda em 1840, apontava a impor- tância da participação da sociedade civil na vida político-social americana:

Os americanos de todas as idades, de todas as condições, de todos os espíritos, estão constantemente a se unir.Não só possuem associações comerciais e industriais, nas quais todos tomam parte, como ainda existem mil outras espé- cies: religiosas, morais, sérias, fúteis, muito gerais e muito particulares, imensas e muito pequenas; os americanos associam-se para dar festas, fundar seminários, construir hotéis, edificar igrejas, distribuir livros, enviar missioná- rios às antípodas;assim também criam hospitais, prisões e escolas.Trata-se, enfim, de trazer à luz ou se desenvolver um sentimento pelo apoio de um grande exemplo, eles se associam.Em toda parte onde, à frente de uma empre- sa nova, vemos na França o governo e na Inglaterra um grande senhor, tenhamos a certeza de perceber nos Esta- dos Unidos, uma associação (TOCQUEVILLE, 1840 apud TAVARES, 2000, p.33).

Para Fernandes (1994), a emergência dos movimentos sociais na América Latina na década de 70 representou a va- lorização do espaço local, entendido como “comunidades”, im- plicando a inversão de valores dos padrões hierarquizantes que valorizavam a elite, a cúpula, em detrimento das bases. Um fator que exerceu forte influência na organização comunitária foi a renovação eclesial da Igreja Católica por meio das Co- munidades Eclesiais de Base que se espalharam pelo território dos países latinos com impacto maior no Brasil. O enraizamen- to da Igreja nas comunidades não tinha somente o sentido de evangelização mas de um envolvimento maior com a solução dos problemas sociais do “local”.Estudos mais recentes têm de-

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monstrado a importância da organização espontânea e autô- noma da sociedade civil em grupos, movimentos e organizações sem fins lucrativos para a efetivação da democracia, promoção do desenvolvimento e da cidadania. Segundo Putnam (2002):

Diz-se que as associações civis contribuem para a eficácia e a estabilidade do governo democrático, não só por causa de seus efeitos ‘internos’ sobre o indivíduo, mas também por causa de seus efeitos ‘externos’ sobre a sociedade.No âmbito interno, as associações incutem em seus membros hábitos de cooperação, solidariedade e espírito público.

Isso é corroborado por dados extraídos de pesquisas

sobre cultura cívica realizadas com cidadãos de cinco paí- ses, incluindo a Itália, mostrando que os membros das as- sociações têm mais consciência política, confiança social, participação política e competência cívica subjetiva. A participação em organizações cívicas desenvolve o espírito de cooperação e o senso de responsabilidade comum para com os empreendimentos coletivos. Além disso, quando os indivíduos pertencem a grupos heterogêneos com dife- rentes tipos de objetivos e membros, suas atitudes se tor- nam mais moderadas em virtude da interação grupal e

] [

das múltiplas pressões. Tais efeitos, é bom que se diga, não pressupõem que o objetivo manifesto da associação seja político. Fazer parte de uma sociedade orfeônica ou de um clube de ornitófilos pode desenvolver a autodisciplina e o espírito de colaboração. No âmbito externo, a ‘articulação de interesses’ e a ‘agregação de interesses’, como chamam os cientistas políticos deste século, são intensificadas por

uma densa rede de associações secundárias. [

]. De acor-

do com essa tese, uma densa rede de associações secundá- rias ao mesmo tempo incorpora e promove a colaboração

social (PUTNAM, 2002, p.103-104).

No caso brasileiro, a participação da sociedade civil or- ganizada ganha maior evidência a partir de meados da década

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de 1980, quando se inicia o processo de redemocratização do País depois de mais de 20 anos de ditadura militar. O marco dessa transição é a Constituição Federal promulgada em 1988, que traz em seu texto e em suas leis complementares boa parte da arquitetura institucional que regula hoje a sociedade brasi- leira. A partir desse período e, especialmente, ao longo dos anos de 1990, crescem no País diversos tipos de arranjos entre Estado e organizações da sociedade na implementação e na co-gestão

de políticas públicas, particularmente, as de caráter social. As- sim a avaliação e a qualificação desses arranjos requerem, den- tre outros subsídios para a análise, um melhor conhecimento do papel que os diversos atores não-governamentais vêm de- sempenhando no País. Para Fernandes (1994, p.19-20), além do Estado e do mercado, “há um terceiro setor”, não-governa- mental e não-lucrativo, no entanto organizado, independente, o qual mobiliza, particularmente, a dimensão voluntária do comportamento das pessoas. O autor ressalta que a emergên- cia do Terceiro Setor é considerada uma virtual revolução a im- plicar mudanças gerais nos modos de agir e de pensar. O conceito de Terceiro Setor denota um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam à produção de

Bens e serviços públicos implicam

bens e serviços públicos (

uma dupla qualificação: não geram lucros e respondem a ne- cessidades coletivas. Eventuais benefícios auferidos pela circu- lação desses bens não podem ser apropriados enquanto tais pelos seus produtores e não podem, em consequência, gerar um patrimônio particular (FERNANDES, 1994). O termo “Ter- ceiro Setor” está implicitamente relacionado ao conjunto de idéias da economia clássica no qual as organizações existentes na sociedade podem ser agrupadas em diferentes setores, autô-

)

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nomos e independentes, de acordo com as finalidades econô- micas dos agentes sociais, os quais são identificados como de natureza jurídica pública ou privada. Nesta perspectiva, pode- riam ser descritos como o “Primeiro Setor” — Mercado, os agen- tes de natureza privada que praticam ações com fins privados (bens privados); os agentes de natureza pública, que desenvol- vem ações que visam a fins públicos (bens públicos), poderiam ser descritos como o “Segundo Setor” — Estado. Partindo desse pressuposto, poderiam ser descritos como o “Terceiro Setor” os agentes de natureza privada que praticam ações visando a fins públicos. Mesmo sem unanimidade, essa classificação é acolhi- da pela maioria dos autores norte-americanos, o que tem uma certa lógica, pois consideram que o mercado foi o primeiro a se constituir na história (FERNANDES,1994). Diante deste cenário, elaborou-se uma grade de categorias balizadoras de uma clas- sificação esquemática de enquadramento organizacional:

AGENTES

FINS

SETOR

Privados

para Privados

= Mecado

Públicos

para Públicos

= Estado

Privados

para Públicos

= Terceiro Setor

Quadro 1 — Modelo dos Três Setores

Fonte: FERNANDES, Rubens César (1994, p.21)

Para Landim (2003), o Terceiro Setor é mais um termo importado que recentemente começa a ser utilizado no Brasil para designar fenômenos e questões referidas a um universo da sociedade civil.

Non profit, third sector, independent sector, voluntary sec- tor, charities, économie sociale, associations humanitai-

SURGIMENTO, CONCEITUAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

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res… São várias as expressões empregadas para designar

essas organizações- correlatas às suas diversidades; ou di- ferentes visões sobre elas em contextos nacionais também distintos — cuja tradução para o português nem sempre

faz sentido (

do visibilidade e se construindo socialmente para desig-

nar fenômenos e questões relacionadas ao universo dessas

) O

pano de fundo dessa descoberta é global, compreendendo fenômenos também diversificados como a redefinição do papel do Estado e a predominância da lógica de mercado com suas conseqüências sociais desastrosas, no quadro do neoliberalismo; o fim do socialismo real e a reorganização das sociedades do Leste Europeu; a diminuição do prestí- gio e a desconfiança com relação às Instituições político-

também chamadas organizações da sociedade civil(

Muitos desses termos são novos, ganhan-

)

-representativas tradicionais, como partidos e sindicatos;

a intensificação de afirmações — e discriminação e con-

flitos- étnicas e religiosas;as transformações no mundo do

trabalho;a crise de formas de sociabilidade tradicionais e

o recrusdecimento da chamada exclusão social, configu-

rando-se o que, para alguns, é uma nova questão social;

a retomada e revisão da questão da democracia e da cida-

dania, entre outras. (LANDIM, 2003, p.1112)

Domeneghetti (2001, p. 21) diferencia as seguintes no- menclaturas integrantes do arcabouço processual do Terceiro Setor:

• Caridade — Virtude soberana cristã, sem a qual ja- mais se atinge o reino dos céus, que assim como suas irmãs, a fé e a esperança, é qualidade subjetiva da alma do indivíduo;

• Filantropia — Amor à humanidade ou amor ao pró- ximo, geralmente expresso por donativo pecuniário

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do rico ao pobre ou às obras que têm como objetivo beneficiar as classes menos favorecidas;

• Mecenato — Palavra usada na literatura anglo-sa- xã, na época da renascença, que significa o apoio generoso às artes a às ciências;

• Solidariedade — Apoio a uma causa, a um princípio ou a outrem, ou numa definição mais ampla, senti- do moral, que vincula o indivíduo à vida, aos interes- ses de um grupo social ou da humanidade.

Para a autora, assistência social, educação, saúde, ci- ência e tecnologia, meio ambiente, cultura, esporte, comuni- cação, geração de renda e trabalho são áreas importantes de atuação das “empresas” sem fins lucrativos. As atividades do Terceiro Setor também pressupõem a existência de “lucro”, porém em outro plano: o fato de não estarem voltadas para fins lucrativos não significa que elas não necessitam de uma disciplina de lucro financeiro. As organizações ou empresas sem fins lucrativos precisam ser gerenciadas, e bem gerencia- das, mas atualmente estamos nessa área como estávamos há 50 anos, quanto ao gerenciamento das empresas de mercado (DOMENEGHETTI, 2001, p.21). Para Gohn (2005), atualmen- te em nosso país, ocorre uma inversão da agenda de ser cida- dão. Com a mudança da conjuntura econômica, o desemprego torna-se o ponto central da questão social do país expressa em miséria e exclusão social. Como o modelo econômico vigente, subordinado aos ditames do mercado globalizado, não priori- za uma agenda de crescimento da economia via expansão do emprego formal, o setor que cresce é o da economia informal, passível de arranjos, no qual os custos e os direitos trabalhistas

SURGIMENTO, CONCEITUAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

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são descartados e as organizações da sociedade civil — novas e antigas- são incorporadas como agentes de intermediação no atendimento das demandas sociais que passam a ser ordena- das segundo critérios da administração pública, a maioria ela- borados em instâncias federais que priorizam os acordos inter- nacionais de pagamento da dívida e os ajustes fiscais acertados com o FMI. Trata-se de instâncias não acessíveis à participação da sociedade civil, seguindo princípios de restrições e contin- genciamento de verbas, negociações políticas entre os partidos da base aliada que compõem o governo etc.

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PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

ONGS E CARÁTER INSTITUCIONAL

A compreensão sócio-histórica e a emergência das Orga- nizações Não-Governamentais no Brasil requerem uma abor-

dagem conceitual sobre a interrelação das mesmas com movi- mentos sociais e uma incursão pelo conceito de sociedade civil, bem como a institucionalização de suas práticas. Gramsci viu na sociedade civil não apenas o espaço para enfrentar o tota- litarismo e sair da massificação, mas principalmente o terreno decisivo para as classes trabalhadoras chegarem à hegemonia

e instaurarem uma democracia substantiva em realidades (SE-

MERARO, 1999). J. Cohen e A. Arato (apud SEMERARO, 1999, p.252), apresentam a sociedade civil, ao lado do Estado e do mercado, como o surgimento de um terceiro setor, um terceiro “domínio” dotado de autonomia e identidade própria, lugar determinante para a expansão da democracia nos sistemas liberais e pode-

rosa força desestabilizadora nos regimes autoritários do leste

e da América Latina. Em explícitas referências ao instrumen-

tal analítico elaborado por Habermas, principalmente a teoria

da ação comunicativa, os autores apresentam a sociedade civil

SURGIMENTO, CONCEITUAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

25

como o lugar do surgimento da pluralidade de movimentos au- to-organizados que favorecem a participação e a formação de espaço público, premissas de uma “democracia radical autoli- mitada”, na qual as ações das instituições sistêmicas, o Estado e o mercado seriam freadas e / ou influenciadas pela sociabili- dade multidiferenciada de atividades associativas e interativas (SEMERARO, 1999).

Tanto em Habermas como em J. Cohen e A. Arato, a so- ciedade civil, portanto, é pensada como campo de reequi- líbrio da atual composição social e como elemento mode- rador dos excessos do Estado e do mercado. Nunca como reivindicação duma nova sociedade derivada do protago- nismo das massas, que da posição subordinada e excluída passam a ser verdadeiros sujeitos de suas ações, a tal ponto de refundarem o Estado e a economia sobre os novos prin- cípios da democracia substantiva. Tanto Habermas como J. Cohen e A. Arato orientam principalmente as suas re- flexões sobre a comunicação intersubjetiva, sobre a força solidária e os vínculos culturais originários do “ mundo da vida”. Preocupados em destacar os elementos interativos e

a “virada epistêmica” do agir comunicativo, que supera a

filosofia do sujeito solitário, passam por cima das divisões

e dos conflitos que continuam a existir e a se aprofundar

na socieade atual. Suas posições partem do pressuposto de que todos os “falantes”, sem difuculdade, podem dis- por de saber comum, implícito, imediato, de contexto in- tegrativo natural e que possam, igualmente, se servir dos instrumentos da universal “racionalidade moderna”. Mas como pode haver um “discurso” realmente livre, interlo- cução aberta e entendimento interativo quando as rela- ções governantes-governados , produtores-consumidores, intelectuias-massas, nações ricas-nações pobres permane- cem profundamente desequilibradas? (SEMERARO, 1999,

p.255)

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PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR

PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

Semeraro (1999) apresenta, por meio da visão de Gra- msci, uma versão complementar ao pensamento de Habermas como em J. Cohen e A. Arato. De acordo com o autor, o escla- recimento dialético de Gramsci categorizava o Estado, a econo- mia e as relações intersubjetivas e sociais como profundamen- te interligadas, pois a própria pluralidade das forças sociais, enquanto afirma as diferenças existentes, não pode deixar de buscar, ao mesmo tempo, uma visão global e unitária de mun- do e a refundação de uma sociedade sobre bases verdadeira- mente democráticas e populares.

A sociedade civil, de fato, para Gramsci, não é só o lócus

da razão discursiva e o encontro de sujeitos falantes sobre regras universais, mas também o território da disputa e da definição do poder, o campo onde se lançam as pre- missas concretas, capilares e abrangentes dum projeto glo-

sentido, sua maior preocupação

está sempre voltada para a autodeterminação da gran- de massa e dos setores subjugados, para que se eduquem reciprocamente, atuando na sociedade civil não apenas para se proteger da colonização do Estado e do mercado, mas principalmente para desmascarar suas contradições e superá-las radicalmente com a configuração dum novo Estado e duma economia realmente democrática (SEME- RARO, 1999, p.257-259).

bal da sociedade[

]Nesse

Ilse Scherer-Warren (1987) apud Gohn(2002), num dos raros textos existentes sobre a contribuição de Marx para aná- lise dos movimentos sociais, observou que

Marx foi um dos mais importantes criadores de um projeto de transformação radical da estrutura social, projeto este de superação das condições de opressão de classe. Para sua

SURGIMENTO, CONCEITUAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

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realização, além do amadurecimento de condições estru- turais propícias, exige-se também uma práxis revolucio- nária das classes exploradas. A efetivação desta práxis, porém, requer a formação da consciência de classe e de uma ideologia autônoma de forma organizada, para as quais sugere o partido de classe. (SHERER-WARREN, 1987 apud GOHN, 2002, p.176).

Exemplificando, a partir das citações da própria obra de Marx, Scherer-Warren conclui: “A manifestação de interesses comuns e a realização dos que vivem sob as mesmas condi- ções de exploração criam a possibilidade de uma consciência

de classe. Quando as classes conscientes geram um movimento

social e uma organização de classe, desenvolvem um ideolo- gia própria de classe” (SCHERER-WARREN, 1987 apud GOHN, 2002, p.176). Segundo Habermas (1987), a esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomada de posição e opiniões; nela os fluxos comu-

nicacionais são filtrados e sintetizados a ponto de se conden- sarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos.

O conceito de esfera pública pressupõe igualdade de direitos

individuais (sociais, políticos e civis) e discussão, sem violên- cia ou qualquer outro tipo de coação, de problemas através da autoridade negociada. Portanto, a esfera pública é o espaço in- tersubjetivo, comunicativo, no qual as pessoas tematizam as suas inquietações por meio do entendimento mútuo. Na visão

do autor, o conceito de sociedade civil baseia-se no fato de o seu

núcleo estar centrado num conjunto de instituições de caráter

não-econômico e não estatal, que se caracterizam por ancorar

as estruturas de comunicação da esfera pública nos componen-

tes sociais do mundo da vida, contribuindo para a construção

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PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR

PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

da esfera pública democrática, na medida em que está apoia- da no mundo da vida e, portanto, apresenta uma maior pro- ximidade com os problemas e demandas do cidadão comum, bem como um menor grau de influência pela lógica instrumen- tal. Logo, de um modo geral, a sociedade civil compõe-se de movimentos, organizações e associações, os quais captam os ecos dos problemas sociais que ressoam nas esferas privadas, condensam-nos e os transmitem, a seguir, para a esfera pú- blica política. O núcleo da sociedade civil forma uma espécie de associação que institucionaliza os discursos capazes de solu- cionar problemas, transformando-os em questões de interesse geral no quadro de esferas públicas. Para Gohn (2002), o padrão de desenvolvimento que se instaurou no Brasil nas décadas de 1980 e 1990 legitimou a exclusão como forma de integração, uma espécie de exclusão integradora, modelo perverso de gestão da crise, que recupera a legitimidade política e cria condições para um novo ciclo de crescimento econômico com a redefinição dos atores sóciopolí- ticos em cena. O reverso desse cenário é a construção de uma economia popular na qual existe a possibilidade de um campo alternativo de desenvolvimento e transformação social, desde que essa economia ganhe autonomia relativa em sua produ- ção material e cultural, capaz de se auto-sustentar e autode- senvolver-se. E esses processos devem ocorrer não isolada ou autarquicamente, mas em vinculação direta e aberta com a economia capitalista e pública. Para a autora, neste contexto, os sindicatos de trabalha- dores perdem espaço, porque as condições de organização no setor da economia informal são bastante difíceis. Os movimen- tos sociais populares perdem sua força mobilizadora, pois as

SURGIMENTO, CONCEITUAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

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políticas integradoras exigem a interlocução com organizações institucionalizadas. Ganham importância as ONGs por meio de políticas de parceria estruturadas com o poder público, que, na grande maioria dos casos, mantém o controle dos processos deflagrados enquanto avalista dos recursos econômico-mone- tários. Neste cenário destacam-se os seguintes elementos, que terão grande influência sobre a dinâmica dos movimentos so- ciais, principalmente os populares (GOHN, 2002, p. 297):

1

A

crise econômica levou a uma diminuição dos em-

pregos na economia formal. Milhares de pessoas pas- saram para a economia informal. Nela, dada a ins- tabilidade e as incertezas, exigem-se jornadas mais

longas de trabalho, o que retira parte do tempo dis- ponível das pessoas para participar de mobilizações;

2

As políticas econômicas dão suporte às atividades na economia informal, favorecendo oportunidades para

a

abertura de negócios que contratam mão-de-obra

com custos mais reduzidos, não-afiliada a sindicatos,

sem os direitos sociais etc. A produção semiartesanal, muitas vezes ocorrendo na própria unidade domés- tico-familiar, passa a ocorrer num cenário domina- do pela fragmentação e pulverização das atividades produtivas e relações sociais em geral;

3

Esta economia semicomunitária encontrará nas ONGs uma forma de servir de suporte como estrutu- ras organizativas do processo de produção de algu- mas mercadorias;

4

O

número de pessoas sem-teto, morando permanen-

temente nas ruas, cresce assustadoramente. O núme-

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PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

ro de crianças que passam o dia nas ruas e praças passará a compor o cenário das cidades de qualquer tamanho no país. A violência cresce de forma gene- ralizada, principalmente a violência contra crianças; os assaltos, furtos e sequestros passam a ser uma ro- tina na vida de qualquer cidadão. O medo e a incer- teza predominam, ainda que a economia tenha se estabilizado com a criação da nova moeda, o real.

Fórum de Debates

a) Qual o papel das organizações do terceiro setor no mundo atual?

b) Como você avalia a interferência do terceiro setor na formulação, execução e avaliação das políticas pú- blicas sociais?

c) Quais os dilemas existentes entre sociedade civil ins- titucionalizada e o Estado?

d) Quais as atuais problemáticas vivenciadas pelas or- ganizações do terceiro setor?

e) Como você analisa a importância das Redes e Fóruns para a efetividade das ações desenvolvidas pelas or- ganizações sociais?

SURGIMENTO, CONCEITUAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

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PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR

PARTE I: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

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ao padrão emergente de intervenção social. São Paulo: Cortez,

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SURGIMENTO, CONCEITUAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO TERCEIRO SETOR

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PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR PARTE II GESTÃO DO TERCEIRO SETOR TEMA: P

PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR

PARTE II

GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

TEMA:

Planejamento eStratégiCo

INTRODUÇÃO

PROF. FRANCISCO MOURA

O presente manual contém um sumário das aulas do cur-

so de Planejamento Estratégico ministradas no Programa de Capacitação para o Terceiro Setor ofertado pela UNIPACE — Universidade do Parlamento Cearense cumprindo uma inicia- tiva da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. O Curso em referência tem uma carga horária presencial de 10 horas-aula distribuídas em dois encontros sob regime didático de imersão. É importante ressaltar que o conteúdo explicitado está di- rigido essencialmente para entidades do Terceiro Setor, apesar do tema central — Planejamento Estratégico — constituir uma ferramenta de administração desenvolvida e utilizada por uni- dades empresariais que objetivam lucro. Posto a racionalidade dos conceitos e a metodologia de planejamento que o assunto engloba podem ser derivados, sem qualquer prejuízo didático ou de conteúdo, para organizações do Terceiro Setor que também

buscam eficácia e eficiência nos seus recursos, objetivos e ações.

O Planejamento Estratégico é uma forma de estimular os

gestores a pensar adiante de forma continuada e sistemática, forçando a instituição ressaltar seus objetivos políticos, levan- do a uma melhor coordenação de esforços fornecendo padrões mais claros de desempenho. Planos concretos ajudam a pre-

Planejamento Estratégico

37

ver as mudanças ambientais e reagir rapidamente de forma a preparar-se melhor para alterações súbitas de cenários, o que cada vez ocorre com maior frequência.

A atividade de planejamento é complexa em decorrência

de sua própria natureza. Este processo contínuo, composto de

várias etapas, funciona de forma não linear em decorrência de haver variabilidade nas empresas. Essas mutações são resul- tantes de forças externas, bem como das pressões internas que atuam em graus diferentes dependendo das circunstâncias e envolvimento de suas atividades.

É desnecessário comprovar mesmo empiricamente que a

função de planejamento é essencial a quem executa qualquer ação. O economista Jack Bologna diz que “O Planejamento é a mais relevante e cerebral atividade do homem. A capacidade de planejar torna o homem único no reino animal”. O processo de planejar envolve um modo salutar de pensar, que por sua vez envolve indagações e estes questionamentos sobre o que fazer, como, quando, quanto, para quem, por que, por quem e onde. Assim, toda atividade de planejamento nas mais di- versas instituições, por sua natureza, deverá resultar de deci- sões presentes, tomadas a partir do exame do impacto das mes- mas no futuro, o que lhe confere uma dimensão temporal de alto significado. Além disso, o fato de o planejamento ser um processo de estabelecimento de um estado futuro desejado e um delineamento dos meios efetivos de torná-lo realidade justifica que ele anteceda à decisão e à ação. Cabe destacar que esta apostila é apenas uma breve con- densação dos assuntos que serão tratados no curso, que apre- sentará um conteúdo bem mais abrangente e diversificado do que os ensinamentos resumidamente ora colocados.

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PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR

PARTE II: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

CONCEITOS, VANTAGENS, E PRINCÍPIOS DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO

Antes de particularizar o que é planejamento estratégico

é prudente saber o que significa planejamento. Nesse sentido, faz lembrar o conto de fadas “no país das maravilhas” na pas- sagem quando é perguntado a Alice: “Para onde Você vai?

sei, então o sábio respondeu: Para quem não sabe

aonde quer ir qualquer caminho serve.” Planejar é decidir antecipadamente o que fazer, de que maneira fazer, quando fazer e quem deve fazer, para o alcan- ce de uma situação desejada. É um processo que apresenta os caminhos a seguir, de modo mais eficiente, eficaz e efetivo, com a melhor concentração de esforços e recursos. Planejar é, pois, fixar parâmetros para que organização consiga aplicar eficientemente os recursos necessários para a consecução de seus objetivos. Na literatura da ciência da administração existem inú- meras formas de definir o que é planejamento estratégico. Op- tando por um conceito simples e genérico, vale dizer que plane- jamento estratégico é uma metodologia gerencial que permite estabelecer a direção a ser seguida por uma organização, visan- do a um maior grau de interação com o ambiente. Trata-se de

Bom

não

Planejamento Estratégico

39

um processo contínuo durante o qual são definidos e revisados a missão da organização, a visão de futuro, seus objetivos e os projetos de intervenção que visam à mudança desejada. Para Pagnoncelli & Vasconcellos é o “Processo através do qual a enti- dade se mobiliza para atingir o sucesso e construir o seu futuro, por meio de um comportamento proativo, considerando seu ambiente atual e futuro.” O planejamento estratégico permite que todos os esforços realizados pela organização, em qualquer área, tenham unidade e sejam coerentes com o objetivo único de obter um desempenho superior. Quais as vantagens mais significativas de se fazer um planejamento estratégico para uma organização do Terceiro Setor? — Permite dentre outros atributos que:

• As decisões sejam agilizadas

• Melhora a comunicação

• Aumenta a capacidade gerencial

• Promove uma consciência coletiva

• Proporciona uma visão de conjunto

• Dá uma direção única para todos os gestores e colabo- radores

• Melhora o relacionamento da organização com seu ambiente interno e externo

Para que o Planejamento Estratégico seja realmente pro- dutivo e eficaz para uma entidade é necessário que ocorra in- ternamente as seguintes condições:

Consciência de sua necessidade;

Decisão pela sua utilização;

40

PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR

PARTE II: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

Envolvimento efetivo da direção;

Clima propício;

Informações relevantes para o planejamento;

Participação organizada.

O planejamento estratégico para gerar resultados efetivos deve observar alguns princípios gerais para os quais os gestores e equipe de elaboração devem estar atentos. Cita: a) Contribui- ção real aos objetivos da empresa em sua totalidade, ou seja, deve, sempre, visar aos objetivos máximos da empresa, hie- rarquizar e procurar alcançá-los em sua totalidade, tendo em vista interligação entre eles; b) Precedência do planejamento sobre as demais funções administrativas, isto é, vem antes das outras: organização, direção e controle c) Penetração e abran- gência, considerando que poderão ocorrer grandes modifica- ções nas características e atividades da empresa; d) O princípio da maior eficiência, eficácia e efetividade que são medidas de avaliação da boa administração porque visa a maximizar os resultados e minimizar as deficiências. Entende-se por:

>>Eficiência

• Fazer as coisas de maneira adequada

• Resolver problemas

• Cumprir o seu dever

• Reduzir custos

>>Eficácia

• Fazer as coisas certas

• Produzir alternativas criativas

• Maximizar a utilização dos recursos

• Obter resultados e aumentar o lucro

Planejamento Estratégico

41

>>Efetividade

• Manter firme no ambiente social

• Apresentar resultados de longo prazo

Afora os princípios gerais referidos o renomado escritor Ackoff (redesenhando o futuro) apresenta quatro princípios es- pecíficos de planejamento que são:

• Planejamento Participativo — o principal benefício do planejamento não é seu resultado final, ou seja, o pla- no, mas o processo desenvolvido.

• Planejamento Coordenado — deve existir uma interde- pendência entre todos os aspectos envolvidos no pro- jeto. A independência pode representar um sério risco para o êxito do planejamento.

• Planejamento Integrado — todos os setores da organi- zação devem ter seus planejamentos integrados. Não deve haver planos distintos, com diretrizes distintas.

• Planejamento Permanente — Como o ambiente é tur- bulento e instável, sujeito a constantes mudanças, o planejamento deve ser permanente, contemplando o fluxo das transformações ambientais, pois nenhum plano mantém seu valor com o tempo.

Na configuração geral de um sistema de planejamento estratégico é indicado sua formulação separando-se níveis hie- rárquicos. Na consideração dos grandes níveis hierárquicos, po- demos distinguir três tipos de planejamento:

• Planejamento Estratégico

• Planejamento Tático

• Planejamento Operacional

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PARTE II: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

A melhor forma de expressar essa segmentação é relacio- ná-la com a figura de uma pirâmide onde no topo está o nível estratégico, na base o nível operacional e no intermediário o planejamento tático. A figura seguinte revela os níveis de pla- nejamento ora comentados.

Níveis Hierárquicos de Decisão e Tipos de Planejamento

NÍVEL Decisões Planejamento ESTRATÉGICO Estratégicas Estratégico NÍVEL Decisões Planejamento TÁTICO
NÍVEL
Decisões
Planejamento
ESTRATÉGICO
Estratégicas
Estratégico
NÍVEL
Decisões
Planejamento
TÁTICO
Táticas
Tático
NÍVEL
Decisões
Planejamento
OPERACIONAL
Operacionais
Operacional

• Planejamento Estratégico relaciona-se com objetivos de longo prazo, com maneiras e ações que afetam toda a empresa.

• Planejamento Tático relaciona-se com objetivos de mais curto prazo e com maneiras e ações que, geralmente, afetam somente parte da empresa.

• Planejamento Operacional relaciona-se com as rotinas operacionais da empresa e afetam somente as unida- des setoriais.

Planejamento Estratégico

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DIAGNÓSTICO ESTRATÉGICO

Diagnóstico Estratégico é a fase do Planejamento Estra- tégico na qual a instituição realiza duas análises — uma in- terna e outra externa. A análise interna foca-se nos elementos presentes na própria instituição, mapeando e analisando seus pontos fortes e seus pontos fracos. A análise externa reporta-se às interações entre a instituição e seu ambiente exterior, visan- do a enumerar as oportunidades e as ameaças que, de algu- ma forma, produzam efeito sobre as atividades desenvolvidas pela instituição. Também nessa fase, denominada “auditoria de posição”, deve-se determinar “como se está”. Essa etapa é realizada através de pessoas representativas e detentoras das várias informações, que analisam e verificam todos os aspectos inerentes à realidade externa e interna da empresa. De forma esquemática essas análises contemplam:

• Missão

• Visão

• Princípios / Valores

• Cenários Externos (Ameaças e Oportunidades)

• Ambiente Interno (Forças e Fraquezas)

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PARTE II: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

MISSÃO — É a determinação do motivo central da estraté- gia da organização, ou seja, a determinação de “onde a empresa quer ir”. Deve ser definida em termos de satis- fazer algumas necessidades do ambiente externo, e não em termos de oferecer algum produto ou serviço. Missão não é só o que está relacionado com o estatuto social da entidade, é muito mais ampla. “Exemplo: missão do Mc Donald´s: “Servir alimentos de qualidade, com rapidez e simpatia, num ambiente limpo e agradável”; “ Promover ações educativas, culturais, sociais e de saúde à criança, ao jovem e sua família visando à formação de um ser humano participativo e consciente de seu papel de cida- dão.” (Associação Obra do Berço).

VISÃO — Aponta objetivos a serem alcançados no longo pra- zo. É essencial para transmitir valores e crenças de modo claro a todos os empregados. Visão é o estágio que a orga- nização deseja atingir no futuro. A visão tem a intenção de propiciar o direcionamento dos rumos de uma entida- de. Se a entidade não cumpre sua Missão não vai ter uma Visão, mas uma ilusão, uma fantasia. A declaração da vi- são deve ser inspiradora. Exemplo: Promover o desenvol- vimento social e combater a fome visando à promoção do cidadão e garantindo a promoção da cidadania, seguran- ça alimentar, uma renda mínima e assistência integral à família. (Secretaria de Saúde de Pernambuco)

PRINCÍPIOS E VALORES — São ideias fundamentais em tor- no das quais a organização foi, ou deve ser construída. Representa às convicções dominantes, as crenças básicas,

Planejamento Estratégico

45

aquilo em que a maioria das pessoas da organização acre- dita. São elementos motivadores que direcionam as ações das pessoas na organização, contribuindo para a unidade e a coerência do trabalho. Sinalizam o que se persegue em termos de padrão de comportamento de toda a equi- pe na busca da excelência. Na verdade, são as crenças e conceitos de uma organização que formam sua cultura e estabelecem padrões a serem alcançados na organização. Exemplos:

• Responsabilidade social

• Competência interpessoal

• Humanismo — Valorização do ser humano

• Ética e cidadania

• Preservação ambiental

• Integridade

De um ilustrativo podemos estabelecer uma configuração gráfica que elucida esses atributos:

uma configuração gráfica que elucida esses atributos: 46 PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR PARTE

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PARTE II: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

Na fase em que está se desenvolvendo o diagnóstico estratégico é fundamental ter respostas para as seguintes indagações:

• Quem são nossos administradores/colaboradores e quais seus pontos fortes e fracos?

• A organização treina e forma seus recursos humanos?

• Os processos de tomada de decisão em nossa instituição são coerentes?

• A comunicação interna é eficaz?

• A organização possui conhecimentos para cumprir seus objetivos?

Da mesma forma que é relevante uma análise do am- biente interno e procedente uma análise dos fatores externos. É importante se ter informações sobre:

• Aspectos culturais;

• Pressões do governo e da sociedade;

• Inserção na comunidade;

• Área de abrangência no contexto social;

• Entidades de classe que interferem no processo;

• Tendências do ambiente.

A forma universalmente adotada para aferição dessas va- riáveis é conhecida como matriz SWOT, onde é traçado um dia- grama e elencado os pontos fortes e pontos fracos da instituição e relacionados as oportunidades e ameaças que o meio externo induza. A matriz SWOT tem a seguinte configuração:

Planejamento Estratégico

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Pontos Fortes — São características internas vantajosas, controláveis pelo Ministério Público, e relacionadas a

Pontos Fortes — São características internas vantajosas, controláveis pelo Ministério Público, e relacionadas a aspectos da estrutura, dos processos e dos recursos, que o favorecem pe- rante as oportunidades e ameaças do ambiente.

Pontos Fracos — São características internas desvantajo- sas, controláveis pelo Ministério Público, e relacionadas a as- pectos da estrutura, dos processos e dos recursos, que o desfavo- recem perante as oportunidades e ameaças do ambiente.

Oportunidades — São forças ambientais externas não controláveis pelo Ministério Público, que podem favorecer sua ação estratégica, desde que reconhecidas e aproveitadas satis- fatoriamente enquanto perduram.

Ameaças — São forças ambientais externas não contro- láveis pelo Ministério Público, que criam obstáculos à sua ação

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PARTE II: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

estratégica, mas que, em sua maioria, podem ser evitadas ou gerenciadas, desde que reconhecidas em tempo hábil. Em al- gumas situações, nas quais objetivos vitais para a organização são afetados, e as ameaças não podem ser evitadas, elas têm que ser enfrentadas e, se possível, neutralizadas com o emprego de todos os recursos disponíveis na organização.

Planejamento Estratégico

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ELABORAÇÃO DE UM PLANO ESTRATÉGICO

Nas entidades do Terceiro Setor é comum nos depararmos com o seguinte questionamento: Como Fazer o Planejamento Estratégico do nosso Projeto Social? O primeiro condicionamen- to é transmitir e convencer a todos os atores envolvidos que o planejamento estratégico é um levantamento organizado de informações que ajudará a definir os caminhos a serem segui- dos. “Ademais, o ideal é que a organização comece buscando resposta às seguintes questões”:

Qual é o problema social que o projeto objetiva combater?

Qual é o “mercado” no qual estamos inseridos?

Que outras organizações dedicam-se à mesma causa?

Quais são os objetivos específicos deste projeto?

Quais são as metas que desejamos atingir?

Que estratégias foram escolhidas para atingir as metas?

Que atividades são necessárias para sucesso da estra- tégia?

Quais são os recursos necessários?

Onde podemos buscar estes recursos?

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PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR

PARTE II: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

Nas tarefas de criação e formatação de um planejamen- to estratégico para uma organização sem fins lucrativos temos que fazer a distinção de vários conceitos especialmente nos que se referem a estratégia, objetivos e metas.

ESTRATÉGIA — Por estratégia compreende-se ser um conjunto de ações para ordenar e alocar os recursos organizacio- nais, de modo viável e particular, referenciado nas com- petências e falhas internas, e nas mudanças previstas no ambiente. São os meios de atingir os objetivos. A manei- ra de decidir de forma mais adequada buscando atingir maior produtividade, ou seja, fazer certo as coisas certas com o máximo de contribuição para o ambiente. Deve- -se pensar em aspectos tais como: custos, relações huma- nas, qualificação do pessoal, sinergia com os objetivos, interação entre as partes da organização etc. Há diversas classificações de estratégias como: a) Crescimento — au- mento de seus domínios (interna ou externamente); b) Estabilidade — manutenção do tamanho ou crescimento controlado; c) Retração — redução das atividades atuais dos negócios. A opção a qual se deve seguir depende do resultado da análise contido no diagnóstico estratégico

OBJETIVOS — Com relação aos objetivos da organização a referência básica é expressar a situação desejada, o que ela pretende alcançar. Devem estar de acordo com a mis- são formulada e com os documentos formais da institui- ção, especialmente em sintonia com seu estatuto social. Assim, objetivo é o resultado que se pretende alcançar, dentro de um determinado período de tempo. Devem ser

Planejamento Estratégico

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focalizados em resultado de médio e longo prazos. Refle- tem condições ou resultados quantificáveis que devem ser conseguidos e mantidos durante um período de tempo para que a organização possa se considerar bem sucedi- da. Geralmente há mais de um objetivo os quais devem admitir aperfeiçoamentos porquanto o ambiente a que se vinculam está sempre em processo de mudança. Os obje- tivos da organização podem ser, por exemplo, elevar sua influência junto ao público alvo assistido; melhorar o de- sempenho de sua gestão; alcançar maiores índices de pro- dutividade ou mesmo inovar seus processos de trabalho.

META — Corresponde aos passos ou etapas, perfeitamente quantificados e com prazos para alcançar os objetivos. São resultados finais quantificados que devem ser atin- gidos dentro de um período de tempo previamente es- tabelecido. Ressalte-se que na formulação de uma meta especifica-se o que deve ser alcançado e quando deverão ser atingidos os resultados, mas elas não declaram como esses resultados vão ser obtidos. De modo mais abran- gente e simples, meta é um objetivo traduzido em termos quantitativos que deve ser específica, realista, consistente e aceitável por quem deve cumprir.

Apesar das inúmeras vantagens do planejamento estra- tégico para qualquer instituição do Terceiro Setor é importante observar todo o seu conteúdo para não sejam inclusas tarefas e serviços que venham resultar em um engessamento, excesso de burocracia, rebuscamento, dicotomia entre o plano e a prática e ações de descontinuidade.

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PARTE II: GESTÃO DO TERCEIRO SETOR

GERENCIAMENTO DA IMPLANTAÇÃO DE UM PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO

Tão importante quanto a qualidade de um programa es- tratégico para uma entidade do Terceiro Setor é seu processo de implantação. O gerenciamento das ações é super relevante para que se possa corrigir os desvios observados, o que, adian- te-se, é normal acontecer. O plano de gerenciamento define como o projeto é executado, monitorado, controlado e encer- rado. Esse plano documenta o sucesso ou não do conjunto de ações executadas. O gerenciamento e monitoramento de um planejamento estratégico em uma entidade do Terceiro Setor deve, dentre outras funções, contemplar:

• Os processos de gerenciamento de projetos selecionados pela equipe de gerenciamento de projetos

• O nível de implementação de cada processo selecionado

• As descrições das ferramentas e técnicas que serão usa- das para acompanhamento do desempenho dos pro- cessos.

• Como o trabalho será executado para realizar os obje- tivos do projeto

• Como as mudanças serão monitoradas e controladas

Planejamento Estratégico

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• A necessidade e as técnicas de comunicação entre as partes interessadas

• O ciclo de vida do projeto selecionado

• As principais revisões de gerenciamento em relação a conteúdo, extensão e tempo para facilitar a abordagem de problemas e de decisões pendentes.

O plano de gerenciamento do projeto pode ser sumariza- do ou detalhado e pode ser constituído por um ou mais planos auxiliares e outros componentes. Cada um dos planos auxi- liares e componentes é detalhado até o nível necessário para o projeto específico. Esses planos auxiliares incluem, mas não se limitam a:

• Plano de gerenciamento do tempo e/ou cronograma

• Plano de gerenciamento de custos e/ou planilha de custos

• Plano de gerenciamento da qualidade

• Plano de gerenciamento de pessoal e/ou recursos hu- manos

• Plano de gerenciamento das comunicações

• Plano de gerenciamento de riscos

• Plano de gerenciamento de aquisições

Complementarmente ao processo de gestão da implan- tação deve-se formalizar o seu encerramento, que é o fecha- mento e a aceitação dos produtos, serviços ou resultados apre- sentados que conduziram o projeto (ou etapa do projeto) a um final ordenado.

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O diagrama seguinte apresenta como frequentemente se comportam as etapas (ou processos) de gerenciamento de um projeto.

as etapas (ou processos) de gerenciamento de um projeto. Posto que o presente documento tem a

Posto que o presente documento tem a formatação ape- nas de uma resenha, não é possível inserir outros conceitos im- portantes e desejáveis. O detalhamento das informações aqui contidas e a agregação de novos conhecimentos serão comen- tados em sala de aula. Por fim, ressaltamos aspectos vitais do planejamento es- tratégico no Terceiro Setor que podem e devem ser observados para se atingir o sucesso.

• Lembrar sempre que o Planejamento Estratégico deve ser um processo sistemático e explícito, mas que não deixe de lado os aspectos da intuição e criatividade da organização.

• Formular sempre um Planejamento Estratégico parti- cipativo — o processo deve partir de amplas discussões

Planejamento Estratégico

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a respeito da entidade, seus problemas, competências

e missão e estas discussões devem envolver a entidade toda.

• Quanto mais os objetivos estratégicos puderem ser es- tabelecidos numericamente melhor — Assim todos na organização poderão ter noção do quão longe ou perto estão de suas metas. Chama-se isso de adoção de indi- cadores de desempenho.

• A mudança organizacional associada à implementa- ção do Planejamento Estratégico é tão fundamental quanto este e sempre ocorrerá em diferentes graus ao longo dos setores da instituição

Voltamos a repetir que o acompanhamento da imple- mentação é tão importante quanto o planejamento. Para orga- nizações sem experiência com o instrumento do planejamento estratégico e sem um profissionalismo em sua gestão o acom- panhamento de sua implementação é quase tão importante quanto o próprio processo de planejamento, uma vez que se- gue apoiando, alterando e garantindo a sua efetividade.

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