Os Europeus do Sul e o comércio mercantilista com África

Introdução
Na Idade Média, a partir do século XII, a Europa viveu um período de grande desenvolvimento económico. As indústrias progrediram-se, a produção de bens aumentou, o comércio se multiplicou, surgiram novos mercados, novas rotas comerciais e tudo isso contribuiu para o aparecimento de novas cidades e o surgimento de grandes centros de comércio internacional como foram os casos das cidades italianas, cidades alemãs, Antuérpia, Lisboa, Sevilha, Londres entre outras. Esse enorme progresso económico, interrompido no século XIV, por causa da grande crise, ganhou novo fôlego no séc. XV, com a expansão marítima e comercial, que abriu caminho para o desenvolvimento de um comércio à escala mundial.

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. deslocavam-se entre os poços. cidades essas que mais tarde evoluiram para Estados governados por reis. Tendo culturas próprias. Utilizando estes animais. que foi de enorme valor não só para África mas também para a Europa e Ásia. Depois do ano 1000 a. Com este comércio puderam trazer da África ocidental ouro e outros produtos tais como marfim.. caçando caça grossa e apascentando o gado. Embora de diferentes origens africanas. Como o clima do Sáara era menos duro do que actualmente. utilizavam duas rotas principais no sentido norte-sul. Sabemos isto pelos instrumentos de pedra e osso que eles deixaram. Os Povos Berberes. Uma ligava o actual Marrocos ao Sudão ocidental. aproximadamente. uns no Norte de África outros nas savanas do Sudão ocidental. ficaram conhecidos entre os Europeus pelo nome de Berberes. e como parte do pano de fundo do desenvolvimento. Estas pistas ficaram assinaladas até aos nossos dias pelos toscos desenhos de carros e cavalos executados nas rochas da beira do caminho pelos caravaneiros de outrora. começaram a desenvolver um comércio regular de caravanas com os Berberes e outros africanos do Sudão ocidental. A outra unia a actual Tunísia e a Líbia ocidental ao Sudão central.1. uma grande parte do que é actualmente o deserto do Sáara consistia em pradarias bem irrigadas onde viviam e labutavam muitos grupos de africanos da Idade da Pedra. E assim surgiu o comércio saariano. e sendo maioritáriamente nómadas. Durante muitos séculos estes primitivos povos do Sáara verde deslocaram-se de um lado para o outro através de toda esta vasta região. aproximadamente. Quase todos os povos do Sáara como os do Norte de África pertenciam ao mesmo grande grupo.C. 1. uma minoria dos Berberes tornouse comerciante e fixou-se em cidades ou fundou cidades próprias. 3 . Também o sabemos porque eles eram hábeis pintores e escultores sobre as paredes das cavernas e sobre as rochas.C. na Espanha. serviam-se de cavalos e burros para viajarem e para transportarem de um lado ao outro destas vastas planícies e elevações. Ao mesmo tempo desenvolveram elos comerciais com outros povos que habitavam a orla mediterrânica. para as terras costeiras do Mediterrâneo. Muito mais cedo. para o norte. os charcos e as pastagens sazonais com as manadas e rebanhos. aqueles que viviam no Norte de áfrica aprenderam a metarlugia com os vizinhos do outro lado do Mediterrâneo. Embora não tenham se juntado em único Estado. através do Sáara. todos falavam um ou outro dialecto de uma antiga língua africana chamada berbere e. Muitos dos seus desenhos e pinturas são da maior qualidade relativamente a qualquer arte da Idade da Pedra. consequentemente. a sul do Sáara.Os Europeus do Sul e o comércio mercantilista com África Capitulo I – O Comércio No Contexto Africano Antes do ano 2000 a.

C. fundaram-se novas cidades. que durante muito tempo foi o coração e centro do comércio intercontinental. aparentados com os Árabes e os Judeus. Eram um povo de língua semita. outra fonte de ouro africano. eram as moedas de ouro. chegando mesmo mais a norte e alcançando a Inglaterra onde exploraram estanho na Cornualha. O Ouro Africano (700 à 1400 d. Vivendo a meio caminho das rotas comerciais que ligavam a Ásia ocidental ao Egipto. Cartago foi finalmente tomada em 146 a. exigia a utilização de dinheiro. embora tenha sido importante.3.Exploraram minas de prata e outros minerais em Espanha.) A civilização evoluiu grandemente na Europa durante a Idade Média. os romanos dominaram durante vários séculos grande parte do Norte de África. mas cedo a riqueza do Norte de África e a oportunidade de comerciar com os Berberes deram aos fenícios de Cartago a possibilidade de transformar o seu pequeno porto numa grande cidade. O comércio longínquo exigia um meio adequado e padronizado de estabelecer preços e de fazer pagamentos. em breve se introduziram no comércio tendo sido bem sucedidos. tornara-se um Estado fenício independente e comandava o comércio dos territórios vizinhos. com as principais cidades de África.Os Europeus do Sul e o comércio mercantilista com África 1. Depois de um periódo longo de guerra (as chamadas Guerras Púnicas) com Roma (a grande potência europeia e mundial da altura). sendo a maior delas Cairo. desenvolveram-se novas técnicas.2. no poder dos seus mercadores ou na qualidade das mercadorias manuseadas. por sua vez. Tendo sido situada a poucos quilómetros da actual Tunis. estabeleceram colónias na Espanha. entre os anos 700 e 140 d. capital do Egipto. durante grande parte deste período de crescimento inicial. Cartago Os Fenícios vieram de Síria. Este. Por volta de 500 a. ou ainda antes. embora cheques e meios de pagamentos similares por vezes se usassem. Contudo. e a melhor forma de dinheiro. Os mercadores cartagineses estabeleceram laços com os Berberes que conheciam os segredos do deserto e conduziam as caravanas trans-saarianas. no outro extremo do Mediterrâneo.C. Os marinheiros cartagineses manobravam os seus navios através do estreito de Gilbraltar e rumavam para sul ao longo da costa marroquina em busca de ouro e outras mercadorias. Formaram-se novos estados. os Europeus foram superados pelos vizinhos africanos e isto foi particularmente verdadeiro no comércio e na produção comercial visto que os grandes centros de trocas comerciais e finanças estavam em África e não na Europa.C. 1.C. Cartago tornou-se desta maneira um forte império comercial. Logo após 900 a. Nenhuma das novas cidades europeias se podia comparar em riqueza ou magnificiência.C.. Cartago foi primeiramente apenas um entreposto dos navios fenícios que navegavam entre a Espanha e a Siría. Apoderando-se do comércio cartâgines. 4 .

abrindo cada vez mais rotas comerciais (não só com a Europa mas também com a Ásia). mais mercadores utilizaram essas rotas e mais vezes. assegurando durante centenas de anos o fornecimento de moedas de ouro na Europa. até à segunda metade do século XIII. Esta rede funcionou durante séculos e influenciou todos aqueles que englobou. nenhum dos governos da Europa podia se dar ao luxo de utilizar ouro para cunhar as suas moedas. ligado ao comércio mundial pelos mercadores suaílis que das cidades da costa oriental. visto que o Andaluz negociava com a França. muçulmanos do Norte de África ergueram uma civilização nas regiões meridional e central da Espanha. Mas foi o ouro africano que dinamizou esse mundo comercial. tornandoo mais vasto e activo. contratos. seus países eram demasiado pobres e atrasados. 1. Situado na margem norte do Mediterrâneo. foi a África ocidental a sul do Sudão. Alemanha e Inglaterra. Andaluz: Um Braço de África na Europa Muitas terras faziam parte desse mundo de comércio mas nenhuma delas foi mais admirada ou de vida mais confortável do que um rico Estado africano que se formou em Espanha: Andaluz. Sua populaçã era predominantemente de origem berbere ou árabe norte-africana. Com inícios no século VIII. mesmo os comerciantes abastados do Cairo não possuíam o suficiente. Andaluz pertence à história de África. Através de intermediários suaílis ou sudaneses e berberes. À medida que o tempo foi passando. os povos da Europa começaram a considerar cada vez mais África em virtude do ouro que necessitavam. ligada ao mesmo grande sistema de comércio mundial pelos mercadores sudaneses e pelos Berberes do Sáara e do Norte de África. penetravam no interior. As suas cidades ocuparam um lugar importante no comércio entre África e Europa. De referir que tal relação comercial entre África e os Europeus (principalmente os do Sul) teve as suas origens dos dias distantes de Cartago e Roma.Os Europeus do Sul e o comércio mercantilista com África O principal problema residia na falta de ouro da epóca. Só os Africanos puderam vencer esta carência e fizeram-no por intermédio de duas regiões: a primeira foi o território de Monomotapa e seus vizinhos do interior africano. Itália. mantendo assim em actividade um mundo de comércio. perto do fim da Idade Média.4. cheques e principalmente bolsas de moedas de ouro passaram em volume crescente por essas rotas. afamada pelo seu vigor e brilho. Os Africanos produziram e exportaram muitas centenas de toneladas de ouro. cartas comerciais. e mais importante ainda. a segunda fonte do ouro. Nunca até então ocorrera uma rede comercial tão valiosa como esta. 5 . ambas as regiões fizeram muito para apoiar e incrementar o comércio da Europa. tendo durado até a sua conquista pelos cristãos hispânicos nos séculos XIV e XV.

feito com metal trazido de África. quer em África. Os algodões tingidos no Benim eram de facto melhores do que os produzidos na Europa e com isso o comércio com a Europa prosperou. quer fora dela. dado que se tratava de uma especiaria que os Europeus não produziam. a antiga região produtora de ouro. a cidade-estado de Florença. na Nigéria meridional. Essa reputação ultrapassou as fronteiras de África. Depois de 1250. Descobriram também que os Europeus tinham grande admiração pelos excelentes algodões tingidos e queriam comprálos. o Mali expandiu-se sem cessar até se transformar num dos maiores estados de qualquer parte do mundo da época. Uma delas. Tais avanços levaram outros estados europeus a ganharam interesse pela fonte de ouro.6. pelo Mali. de Benim. foi fundada durante o remoto passado da região florestal a oeste do delta do Níger. impulsionou esse comércio com o Mali visto que tinha como moeda o florim. tendo chegado até as cidades europeias. Mali: A Terra do Principe Leão A ascensão do Mali e o seu domínio sobre os vastos territórios da África ocidental foi em grande parte obra do povo mandinga de Wangara. aproximadamente. pela paz que prevaleceu nos seus territórios e pela influência dos seus homens cultos.Os Europeus do Sul e o comércio mercantilista com África 1. 6 . Benim e o Comércio da Pimenta e do Algodão A grande cidade. pois a pimenta era então um produto valioso na Europa. O Mali tornou-se famoso pela riqueza dos seus monarcas. a cerca de 80 km do mar. 1. e portanto.5. e posterior império. O povo de Benim viu que os Europeus estavam desejosos de comprar a pimenta que eles cultivavam em quantidade.

1. Muitos comerciantes europeus dirigiam à essa cidade italiana à procura de mercadorias orientais e para lá levavam cobre. madeiras exóticas vindos de África. tecidos. ouro. pedras preciosas do Oriente e escravos. do desvio das rotas marítimas. Dominou vários territórios da península itálica. Veneza. cujas principais eram Génova. que realizavam transacções. ouro. A disputa pelos mercados e a forte concorrência comercial provocaram rivalidades entre várias cidades como Génova. XV. seda. faziam empréstimos e recebiam depósitos. As cidades italianas: a primazia de Veneza As cidades do Norte da Itália. Veneza vai ressentir-se no decurso do séc. Estas cidades tiveram um grande desenvolvimento comercial devido à sua situação geográfica priveligiada. estabeleceu entrepostos comerciais em regiões estratégicas como Alexandria. entre outros produtos. madeira e marfim. azeite e mel de várias regiões italianas. vinho. trigo. Veneza perde o monopólio da comercialização das especiarias orientais e procura. A supremacia atlântica começa a afirmar-se quando os portugueses iniciam uma expansão que os levará. permitiu-lhe alcançar um enorme poderio económico e uma grande primazia sobre as outras cidades italianas. escravos. no desenvolvimento das indústrias. perfume. Veneza conseguiu manter a sua supremacia face às outras cidades. No século XV Veneza é já uma potência capitalista. ferro. Nas praças comerciais de Veneza chegavam especiarias. em finais do século. Apesar de todo o seu poderio comercial. Aqui chegavam produtos como tecidos. à Índia e ao Brasil.Os Europeus do Sul e o comércio mercantilista com África Capitulo II – O Comércio No Contexto Europeu 2. prata. Esses produtos que ali se afluíam em grande escala eram exportados pelos mercadores venezianos para outros mercados da Europa ou eram adquiridos em Veneza pelos negociantes estrangeiros. Entretanto. 7 . entre o Ocidente. segurou o monopólio comercial dos produtos orientais e desenvolveu contactos com os principais centros do comércio da época. tecidos de linho. Surgiram novos agentes de comércio: os cambistas e os banqueiros. algodão. o norte de África e o Oriente. o Norte de África e o Oriente. marfim. controlavam o comércio na região mediterrânica da Europa e serviam de entreposto comercial entre o Ocidente. a sobrevivência do seu poder económico. Tudo isso. algodão da Síria. vindos do Oriente. de lã. Pisa e Veneza. promoveu a construção de navios de grande porte. do Mediterrâneo para o Atlântico. especiarias. O desenvolvimento do comércio trouxe inovações em relação à cunhagem da moeda e fez surgir o cheque. tudo produtos africanos que os faziam chegar ao resto da Europa. pedras preciosas. e Pisa.

sedas. malagueta. A cidade atraía população.2. No século XVI. Rota da Terra Nova o Rota de Flandres. madeiras. o porto de Lisboa tinha um movimento intenso de naus que chegavam e partiam repletas de mercadorias provenientes de territórios localizados em diversos continentes: África. da África ouro. tabaco. a coroa recebia anualmente cerca de 400 quilos de ouro por ano. vinda de outras regiões de Portugal (migrações internas) e de territórios estrangeiros (imigrantes). Também vieram para Lisboa alguns artesões e navegadores (nomeadamente italianos) e ainda milhares de escravos. No geral. Traziam da América (Brasil) prata. de 1500 a 1550. porcelanas. A cidade era o centro de rotas comerciais que a ligavam ao Mundo: a Rota da Mina. marfim. Muitos mercadores estrangeiros imigraram para Lisboa para se dedicarem ao comércio. Lisboa se tornou não apenas um grande centro do comércio marítimo mundial como também uma das cidades mais importantes da Europa. Lisboa No período quinhentista. na zona de Serra Leoa. ouro. trazidos por portugueses e estrangeiros. 8 . passaram a constituir o monopólio comercial dos mercadores portugueses que os faziam chegar à Europa pela rota do Atlântico. Isso graças às viagens de expansão marítima empreendida pelos portugueses que permitiu ao país não só conquistar povos e territórios como também desenvolver importantes contactos comerciais em diversas regiões economicamente atraentes como foi o caso do Oriente.Os Europeus do Sul e o comércio mercantilista com África 2. café. da Ásia especiarias. madeira exóticas. açúcar. Através da feitoria de Arguim os portugueses recebem o ouro em troca de sal. Ásia e América. A maioria dos produtos orientais e das praças comerciais africanas entrava na Europa pelas mãos dos comerciantes lusitanos. cujos produtos. passou de 50000 para 100000 habitantes. sobretudo especiarias. Abaixo. pedras preciosas. Lisboa. a Rota do Cabo (“carreira da Índia”) o Rota do Brasil. tapetes. chegam mais de 500 dobras de ouro por ano. perfumes. chegando mais de 20 quilos por ano. escravos. Em termos demográficos.

9 . suas riquezas e o potencial que elas representavam.Os Europeus do Sul e o comércio mercantilista com África Conclusão Podemos assim concluir que o comércio entre a África e Europa foi principalmente de uma mais valia para a Europa enquanto por outro lado possibilitou aos europeus conhecerem os meandros e organização das sociedades africanas.

Basil. 1981. À descoberta do passado de África. Lisboa.Os Europeus do Sul e o comércio mercantilista com África Bibliografia • Davidson. 10 . Sá da Costa Editora.

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