Para Ler Hegel Nóbrega

NOSSA PRETENSÃO

Direitas e esquerdas de nossos dias sofrem alguma influência de Hegel. Ele se torna, pois, necessária introdução a correntes do pensamento atual, sobretudo do marxismo. Mas uma abordagem do pensamento hegeliano não é fácil. Não só por ser um tipo de reflexão  o idealismo  pouco encontradiço no homem comum, mas também porque dentre os idealistas é Hegel dos mais sutis , abstratos, inacessíveis. Habitualmente o estudante de filosofia procura se introduzir no pensamento hegeliano, dispondo apenas de algumas páginas em algum livro de História da Filosofia. É pouco demais. Ou recorre a algum livro específico, pesado e complexo, que supõe toda uma introdução ao pensamento hegeliano. E este meio-termo, esta introdução a Hegel, é o que não se encontra. Hegel permanece assim o necessário e o inacessível. Ademais, as obras específicas do pensamento hegeliano se detêm apenas sobre alguma parte se seu sistema, seja a Lógica, seja a Filosofia da Natureza, etc. E permanece a carência sobre uma visão global do sistema. Este estado da questão coloca o limite das ambições destas páginas. Se alguma coisa a mais resta a ser dita expressamente é que esta publicação não representa um esforço de pesquisa, mas de didática. Para isto, usamos tanto de exemplos como de repetições. Não se destina ao professor, mas ao aluno. Nunca pretende trazer descobertas novas sobre Hegel, mas facilitar a apresentação do que já demais pesquisado, demais conhecido. E se acha demais disperso em tantas publicações escritas mais para eruditos do que para iniciantes. Esta, a nossa pretensão.

A Razão e seus Atributos 1. "CAUSA" E "RAZÃO" Nem todos os filósofos pretenderam fazer sistema filosófico. Num sistema se pretende explicar tudo, concatenadamente, de modo a se ter uma visão coerente, global, de toda a realidade, a partir de determinados princípios. A filosofia de Hegel é um sistema e tem toda esta ambição mental. Mas antes de se dizerem os princípios sobre os quais repousa toda a sua explicação exaustiva do Universo, há uma questão preliminar: o que é mesmo "explicar" o Universo?

Há duas respostas possíveis: 1) explicar é dizer a "causa"; 2) explicar é dizer a "razão". Embora não se entenda de imediato a diferença entre "causa" e "razão"  e saberemos logo abaixo  se percebe que estamos numa primeira encruzilhada do pensamento filosófico que determina rumos completamente diferentes, talvez opostos, de explicação da realidade. E de fato o é. A explicação por causas é uma explicação realista. A explicação por "razão" é uma explicação idealista.

2. EXPLICAR O UNIVERSO NÃO É DIZER-LHE AS CAUSAS Eu me pergunto: por que um terremoto? E a resposta virá: por causa da constituição interna de nosso planeta. (A explicação evidentemente seria mais ampla e mais complexa.) Mas me leva a uma segunda questão: e por que nosso planeta é hoje assim? Imediatamente remontamos a um passado da Terra que, através de outros "porquês", se perde em todo o passado do sistema solar, das galáxias, do Universo inteiro. Estamos dando uma explicação através de causa. E desta via discordará Hegel por duas razões: primeiro, porque, diria ele, nada está sendo realmente explicado. Cada causa leva a outra causa que, por sua vez, pede explicação. Quem explica a segunda causa? A terceira. E quem, a terceira? Sempre resta uma causa exigindo explicação. De fato não estamos explicando. Estamos adiando a explicação. A um certo momento, para se pôr ponto final a esta caminhada, sem explicações, se tem de falar em uma causa que seja a causa de si própria. E uma causa de si parece absurda. Se eu perguntar quem é a mãe de Maria e me disserem Joana, me pergunto: e a de Joana? Posso chegar a um final de série em que alguém se diga mãe de si própria? Há uma outra razão para se rejeitar a via causal. Quando digo que B é causa de A, digo que isto assim, de fato, acontece. Mas não vejo necessidade absoluta de assim acontecer. O fogo é a causa do incêndio. De fato assim acontece. Mas não vejo nenhum absurdo do oposto (um fogo que não queime). Mas vejo o absurdo do oposto quando digo que um e um são dois. No primeiro caso, o do fogo, constato um fato que sempre assim se verificou mas nada me convence de que assim, necessariamente, deva acontecer. No segundo caso, o da soma, vejo claramente que seria absurdo esta soma ser mais ou menos dois. No primeiro caso temos uma explicação causal. No segundo, uma racional. No primeiro caso, dizemos que os fatos sempre acontecem sem enxergar uma necessidade de assim acontecerem. No segundo, nos encontramos diante de uma necessidade absoluta, incontrolável. É uma necessidade lógica da razão.

3. EXPLICAR O UNIVERSO É DIZER-LHE A RAZÃO Por tudo isto, para Hegel, explicar é dar a razão. Cada nova afirmação se deduz da outra, necessariamente, como os raciocínios que provam um teorema. Pois é assim que Hegel pretende "explicar" toda a realidade. Já enxergamos claramente que a causa é sempre material, concreta, tangível, mensurável. E por isto há quem chame esta via de materialista, embora muito usada por espiritualistas também. A razão é conceitual, abstrata, se refugia na mente e nos raciocínios. E por isto há quem a chame de via espiritualista. De qualquer modo percebemos que na via racional se elimina um inconveniente: as parcelas aludidas que formam a explicação global do Universo se concatenam, se

este Absoluto. este giz. este traço. . concretamente existente. primeiro Princípio. Entretanto nada mais universal do que aquilo que é a fonte de todas as coisas e de algum modo deve estar presente em toda e qualquer existência e não apenas em linhas ou em paralelas. É o caso da razão. E "este" quer dizer que não é outro. não se a chegaria a uma última razão que é razão de si própria? E isto não seria igualmente absurdo? A resposta a esta questão será dada adiante sob os números 6 e 31. não basta dizer o que não é . Nada mais universal do que a razão. um Absoluto de onde o Universo inteiro. Porque. A RAZÃO NÃO É UMA COISA Escrevemos agora Causa e Razão (com maiúsculas). eu falar. em vez de falar de coisas.) Precisamos ter consciência de seus atributos. este Absoluto hegeliano de onde tudo procede. Digamos: a Causa. se chama de coisa. o lápis. Até uma pessoa.  coisa é individual e a Razão é universal. não existe em si própria. particularizadas: este lápis. que não é aquele. a Razão de onde. ( Não é coisa. assim. de algum modo. Por via causal chegamos a uma primeira Causa. distinto de tudo o mais. com o que se encontra em todas as coisas de uma mesma espécie ou gênero.  veremos logo abaixo. 5. existindo em si próprio. Imaginem se as razões pelas quais se prova que a soma dos ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos. como cada coisa. toda realidade procede. Assim o foi cada causa apresentada. O outro aspecto a que se aludiu contra a explicação causal é que se chegaria ao absurdo de uma causa de si própria. de "eqüidistância"! Todas as paralelas são eqüidistantes. Traga-me aqui a eqüidistância! Ela está nas paralelas. procede. E na vida racional. Nenhuma das razões aludidas na explicação do Universo é coisa. É isto que em Filosofia se chama de "coisa": um ser individual. que não se confunde com nenhum outro ser. Não são coisas. São razões. Mas se. A primeira causa deve ser algo individual. sentimos necessidade de saber exatamente o que é este Princípio. Toda coisa é. se não é causa é razão. como o giz. concretas. Mas a eqüidistância não é uma coisa.seguem. neste sentido. de algum modo. individualizada. É o caso da eqüidistância em todas as paralelas. "Eqüidistância" é uma abstração. As coisa são individuais. se interdependem numa coerência e necessidade absolutas. Várias razões são apresentadas. A RAZÃO É UNIVERSAL E ABSTRATA Depois que se falou tanto em Razão. Mas a Razão não seria uma coisa. Mas este princípio. como já vimos. E o primeiro deles é a universalidade: a Razão é universal. por exemplo. 4. Só posso fazer abstração com o que é universal. E isto não se verifica na explicação causal.

31. Mas quando. Ela se explica e se justifica a si própria. capaz de satisfazer às nossas indagações. mas necessária e inevitavelmente. ninguém pede a razão da evidência. Não se pode dizer isto de cada razão apresentada. Esta primeira realidade de onde tudo flui deve explicar o Universo e se explicar a si própria. de raciocínio em raciocínio. Se encontramos a racionalidade do Universo. as coisas não apenas de fato assim acontecem. filosóficos. A RAZÃO SE EXPLICA A SI PRÓPRIA O que Hegel pretende  e com ele todos nós  é encontrar uma explicação coerente do Universo. ela pode se apresentar diante da inteligência humana como racional.6.  já se disse. E o que a nossa mente percebe como racional se impõe como inteligível. sem se identificar com nenhuma. Numa palavra: se explica a si própria. Esta razão última é realmente razão de si. Mas já percebemos que a primeira Razão do Universo não é esta ou aquela razão. falha diante destas duas condições. Hegel. portanto. chegamos à evidência. A resposta plena. Em muitos raciocínios matemáticos. . Idealismo e Idealistas 7. Como a eqüidistância está em todas as paralelas sem ser idêntica a nenhuma. só poderá ser apresentada adiante. mas é a razão em geral. aquilo que está em cada razão particular. Uma primeira Razão explicaria o Universo  já se disse  por necessidade lógica. aceitável mentalmente. Por outras palavras: várias vezes na filosofia se tentou afirmar que a idéia é de alguma maneira. uma vez apreendida a série completa de razões e sua fundamentação última. antes de conhecermos a Lógica de Hegel. uma razão em particular (e já vimos que a Razão não é individualizada mas universal). das causas e efeitos. que de fato de tais causas se seguem tais efeitos. Não quero dizer com isto que a Razão suprema do universo seja evidente. HEGEL E PLATÃO Não foi Hegel o primeiro a tentar explicar o Universo a partir da idéia. Uma primeira Causa. e que os explica. isto é. sob o n. ou de qualquer outro tipo. Segundo ela. Mas uma primeira Razão se explicaria a si própria? Ou recai na contradição de uma primeira Causa que fosse causa de si? Quando se pede uma explicação do Universo. O que se quer é a racionalidade que está ou deve estar por trás dos fenômenos. teria sentido perguntarmos pela racionalidade da racionalidade? Parece que não. uma razão apresentada ainda parece obscura e pede outra razão para se justificar. Quero dizer que uma série concatenada de razões pode chegar a uma última de tal modo que a inteligência indagadora se satisfaz. o princípio da própria racionalidade. É difícil entender plenamente o pensamento hegeliano neste particular. não se quer apenas o fato de que o Universo é assim.

lápis. nem também a sua sombra existirá. E sombra é sombra de alguma coisa. cada uma. Existem como as sombras. sim. Se esta coisa não existe. Como Hegel. um lápis. Quando . através desta. dependem. em cadeiras. etc. "mortal". Não passam de sombras das idéias de mesa. Platão também entende que o mundo flui de universais. "cadeira". Há coincidências e discrepâncias nisto entre Hegel e Platão. Nosso mundo é. "Pedro". independentemente de minha mente. Antes de minha mente.anterior às coisas. E esta classificação não é tirada dos objetos individuais (esta mesa. para Platão. que se encontram no mundo das Idéias. embora já universalizado. já estão classificadas. portanto. é que procedem. Neste silogismo estamos com três termos: "homem". Estas. Mas neste próprio silogismo há categorias plenamente universais. logo. Ao contrário: estes objetos. "mesa"  a própria universalidade fica algum tanto adstrita. um indivíduo. Vejo neste mundo uma mesa. objetivo. Analisando alguns silogismos. lápis. por exemplo. esta cadeira). uma cadeira. Não convém a plantas. E que realidades são estas e que mundo é este? São idéias existindo no mundo das Idéias. apenas duas: a de Platão e a de Kant. fora deste mundo. Primeiro. com existência própria. E o próprio termo "homem".) Mas o que é sensitivo não é tão universal. Onde entram elementos de percepção sensível  como em "Pedro". apenas sombras das verdadeiras realidades que estão fora do tempo e do espaço. individualizados. Mas há discrepâncias entre Platão e Hegel. na explicação de toda a realidade. Para Platão as coisas não existem realmente. E os universais de Hegel devem se aplicar a tudo o que é real. "lápis". Entre estas várias tentativas apresentamos. para fins de comparação com o pensamento hegeliano. as coincidências. Esta cadeira. como seres independentes. Não sou eu que classifico as coisas. vemos melhor fundada a existência hegeliana desta distinção: Todo homem é mortal. aquela e aquela outra. Só se aplica a determinados seres  os materiais. É próprio do olho perceber a cor e. Pedro é homem.(E poderíamos falar de outras percepções sensoriais. dos universais. individualmente. mesas. mas não parece ter alcançado a necessidade desta distinção. Para alcançá-las. O universal é. "Pedro" não é universal. animais e coisas. autônoma. Digo "universal" enquanto supera os limites de cada indivíduo e se estende a toda espécie "cadeira". para ambos. Platão também queria chegar até aí. não é contudo tão universal. Há um tipo de universais marcados pela percepção dos sentidos. este lápis. é que têm realidade. Trata-se de um determinado homem. Existem antes que eu os pense. já que toda realidade deles promana. Pedro é mortal. "homem". convém antes verificarmos dois tipos diferentes de universais. porque não convém apenas a Pedro mas a todos os homens. a forma. em sua existência. cadeira. de uma idéia universal de cadeira. portanto.

Aquilo que deve ser. São sensitivas. Ou ainda: "Toda esfera é redonda. de algum modo. são destituídas da marca de sensibilidade. supraditas. estou falando de duas categorias: de "totalidade" e de "existência. portanto. como homem. sem pretender com isto aqui exaurir a relação dos universais hegelianos: "ser". são exemplos destas categorias. mas na minha mente. "substância". percebo. O que até aqui chamamos de universais. "Cor". Citei o exemplo de "totalidade" e de "existência". Meus olhos não o colhem. HEGEL E KANT Kant não se fixa no problema do ser mas do conhecimento. E se torna a única maneira inevitável de perceber os objetos. É o que ele chama "a priori". segundo Kant. Do mundo. "antes de". etc. Aplico a elas as categorias que estruturam a minha mente. pelas quais forçosamente percebe o mundo. E assim também. é o próprio conhecimento: não percebo as coisas como elas são. ele chama de categorias. sob elas percebo o mundo.) Se estou de óculos azuis e vejo tudo azulado. Nossa mente. o tipo de razão que explica o Universo. para Kant. A acácia é uma planta. já que toda nossa experiência é através da explicação dos sentidos. Kant acredita que elas não nascem em nossa mente como resultado de nossa experiência sensível. embora não esteja nos objetos. aquele que não tem nenhuma mistura de percepção sensível. segundo Hegel. Nunca as coisas como são em si. Logo este globo é redondo". Está em mim. também a mente já traz em si. E a expressão latina "a priori" significa exatamente isto: "anterior a". são as condições do conhecimento. Kant. sob as categorias de "unidade". anterior a qualquer experiência. Este globo é uma esfera. "pluralidade". Começamos a entender que o puro universal. Posso dizer: "Toda planta é vegetal". pela experiência. (Também não pretendemos dar aqui a relação completa das categorias a priori de Kant. Os puros universais de Hegel são as categorias a priori de Kant. Para Kant são a aplicação do conhecer. projeto-o sobre os objetos. Distingue os universais sensíveis dos puros universais. se as categorias a priori estão em minha mente. A distinção portanto que Platão não fez. mesa. etc. isto é. e Hegel tiveram o cuidado de fazê-la. categorias que resultam da experiência. E não tenho condição de me furtar a esta necessidade. Mas voltando aos óculos azulados. Há. Como uma pessoa que coloca óculos azuis e vê tudo azulado. etc.digo "todo" e digo "é". Mas usa outra terminologia. este "azulado" não está na natureza. só as aparências. me pergunto: então não percebo os objetos como eles são? Percebo como eles me aparecem através destas lente? Sim. São condições de existir. nos objetos que enxergam. "qualidade". estas categorias. "quantidade". Outros exemplos podem ser citados para maior clareza. . o que a eles aplico. 8. etc. "pluralidade". tem determinadas estruturas sob as quais percebe o universo: são as categorias a priori. "som". segundo Kant. "odor". Mas entre Kant e Hegel há uma diferença ainda: Para Hegel estes universais puros (sem mistura de percepção sensível) são as razões de onde dimana todo ser. não pode ser aplicável apenas a alguns seres. Assim também. fonte de todos os seres. E estas duas categorias valem para quaisquer tipos de ser e para quaisquer outros termos que eu use para substituir estes três. é que deve ser. "unidade". Logo a acácia é um "vegetal". Mas categorias como "totalidade". Elas são anteriores à experiência.

portanto. tanto num como no outro. 9. diretamente. Esta observação é feita para se entender melhor alguns detalhes. No pensamento hegeliano  veremos no número 33  idéia e coisas. são objetivos. num quadro sinóptico. E após isto. REALIDADE/APARÊNCIA Explicar o Universo a partir da idéia não é. de apreender. Mais tarde veremos que a distinção entre ser e conhecer existe em Kant mas em Hegel. E as estas alturas. fluem todos os demais seres. em que confrontamos Hegel com dois outros que têm posições semelhantes. HEGEL. de ver.  Tais categorias são os existência primeiros princípios do  Tais Idéias são os Tais universais são os conhecimento. existência subjetiva. É a via racional de preferência à via causal. COMPARADOS. sem distinção alguma entre os aspectos sensoriais e imaterial. em que discordam e concordam estes três filósofos de tendências idealistas. KANT. portanto. É o que se chama de idealismo. As "sombras" de Platão são as "aparências" das realidades que estão em outro mundo. originalidade de Hegel. (A distinção que Platão não fez. Para Hegel são fontes do ser. ao pensamento de Hegel. HEGEL  O Universo procede apenas dos universais que não têm marca de percepção sensorial.É tempo de notar que aqui Platão e Kant estão concordando. não. portanto. em si. Vários antes dele fizeram o mesmo. conhecer e ser. estes universais são condições do conhecer. Estamos em condições. poderemos dizer as teses básicas do pensamento idealista: PLATÃO  O Universo procede das idéias. KANT  Na análise do conhecimento. devemos distinguir as categorias resultantes da experiência dos sentidos e as categorias a priori. . São subjetivos.) E aí está em que Kant e Hegel discordam: para Kant. 10. o real como é em si mesmo. independente de uma mente  Tais universais não têm que as pense. PLATÃO. agora. se identificam. portanto. princípios de onde fluem os primeiros princípios de onde demais seres. presentes. E a mente se encontra na dificuldade. objetiva. convém estabelecer os postulados básicos do pensamento idealista.  Tais categorias têm  Tais idéias têm existência. Aí está em que Hegel e Kant concordaram: nas distinções entre puros universais e universais sensoriais.

Tudo o que existe. a) "Real" é só o que tem um ser independente de qualquer outro b) "Aparência" é o ser que depende de outro ser. dizer que tal distinção não é possível. A sombra da árvore não existe se não existisse a árvore.).) De fato o real não existe. etc. esta coisa. O universo. Foi dito que tem ser. se é físico. Uma ilusão sem ilusionado. A aparência tem um ser dependente de outro ser. . 12. REALIDADE/EXISTÊNCIA DISTINÇÃO ENTRE REALIDADE E EXISTÊNCIA: Em nenhum momento. esta casa alva. é aparência. É assim tudo o que o idealismo chama de "aparência". Está no tempo e no espaço. Pode ser algo material (mesa. Está no tempo se é psíquico. Tomemos outros exemplos: o sonho ou a ilusão não se reportam a algo que exista em si mas na mente de alguém. c) "Existência" é o que pode ser imediatamente apresentado à consciência. esta cadeira. Mas a alvura. esta flor alva. (É bom reler novamente. Um sonho sem alguém que o sonhe é impossível. existe individualizado. nas linhas acima. Chegamos pois a estas conclusões que parecem demais estranhas: a aparência não têm ser senão dependente do que é real. em si. à primeira vista. conforme o que se entenda por "realidade". E para melhor entender este termo. esta mesa. TESES BÁSICAS DO IDEALISMO Podemos agora formular sucintamente algumas teses básicas do pensamento idealista. etc. também. comecemos pelas "sombras" de Platão.) ou psíquico (um sentimento. 11. Existe este chapéu alvo. Afinal o que aparece (a aparência) não é real? Sim e não. Tem ser mas não tem existência. Todo ele flui dos universais que Hegel chama de Razão. Pode alguma coisa aparecer senão a alguém que a perceba? Pode algo ser percebido sem alguém que seja o perceptor? Mas a realidade tem o ser em si. se disse que a realidade tem existência.DISTINÇÃO ENTRE REALIDADE E APARÊNCIA: Poder-se-ia. este lápis. Existe o indivíduo. O que Platão quer dizer é que a sombra não tem uma existência independente do ser de que é sombra. como universal. simplesmente não existe (conforme número 5). E é real somente o universal. sendo formado de indivíduos. Estamos falando de seres que não existem senão em dependência de outro seres. Consequentemente o universal não tem existência. Mas é sempre individual. independente de qualquer outro ser. Mas o universal não existe. A realidade é independente. já que tudo promana dos universais.

E facilmente supõe no idealismo teses que o idealismo nunca afirmou. g) O real (o universal) é também pensamento. Alcançamos no sistema estranhas conclusões que nunca foram por ele admitidas. pensamento. Mas esta mente. razão. de acompanhar suas deduções ou conclusões últimas. mente. princípio e fonte de todos os seres. inteligência. É algo parecido com o esforço de falar uma língua estrangeira: ainda quando nos chegue o vocábulo e a gramática seja respeitada. logo acima. é individual e aparência. Ou lhe faz perguntas a partir de supostas afirmações idealistas que de fato não existem. universal. Não existe na subjetividade de alguém. Tudo o que se inclui nos itens b e c. nos resta pelo menos o sotaque. inteligência. A lógica interna de um sistema dificilmente se percebe plenamente. E facilmente entendemos mal. e) O real não tem existência. PRIORIDADE LÓGICA E CRONOLÓGICA . Sendo universal é um ser lógico. encontramos dificuldades inúmeras: de raciocinar com ela. Abaixo damos alguns exemplos. não é algo individualmente existindo no tempo ou no espaço. 14. nossas categorias. enquanto nossa maneira de pensar. como facilmente se entende mal uma língua estrangeira. nossas convicções filosóficas divergem. f) Existência é aparência. abstrato. h) Este real. 13.d) O real é somente o universal. é o último ser. O QUE O IDEALISMO NÃO AFIRMA Quando entramos em contato com uma maneira diferente de pensar. O idealismo é uma espécie de língua bastante estrangeira ao homem comum que espontaneamente parte do real e a ele acredita subordinar suas idéias. razão. com os conceitos dela. E a distância entre sistemas filosóficos é mais profunda do que entre línguas. do qual o Universo procede e pelo qual o Universo se explica i) Este primeiro princípio é primeiro no sentido de prioridade lógica e não cronológica (conforme número 14). o Absoluto. É objetivo e abstrato.

não teria categoria em sua mente. Talvez algumas horas sejam precisas para a água da montanha engrossar o caudal do rio. É sempre o contrário. Paternidade e filiação são. Só se é pai no mesmo instante em que se tem um filho. "unidade". acontece algum tempo depois que se teve a vivência da experiência das coisas. não é temporal. Afirmou. Esta separação evidentemente não é possível no plano cronológico ou espacial. Então logicamente há uma prioridade. Ninguém imagine bilhões de anos medeando entre a existência dos universais e o surgimento do Universo. Exemplo: pai é aquele que gerou um filho. etc. uma prioridade lógica pela qual a categoria de "unidade" precede o ser uno e a categoria de "existência" precede o ser existente. como a do pai sobre o filho. um ser anterior á outra. Todo este argumento não passa de uma reedição do equívoco anterior. estritamente simultâneas. O universal nunca existiu nem existirá. E quem não tem nenhuma experiência. É puramente lógica. aquilo de onde o Universo procede é anterior ao Universo.). Mas esta anterioridade. sim. como são as categorias a priori de Kant ("existência". contra Hegel. estritamente simultâneas. Mas o que é posterior no tempo é anterior na lógica. Evidentemente. Mas há outro tipo de prioridade. a psicologia pretende afirmar que são posteriores à experiência sensível. Há uma prioridade daqueles sobre este. não existe em lugar algum e em tempo algum. Duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo. veio depois que tive a experiência de cor (desta e daquela cor) e de casa ( desta e daquela casa). PRIORIDADE CRONOLÓGICA DO INDIVÍDUO Alega-se. O idealismo em geral (menos ainda Hegel) não sente nestas teses da psicologia experimental qualquer desmentido de suas próprias teses. isto é. entra mais água no rio. um dado psicológico: os conceitos (universais) não se formam na mente antes de se ter a experiência do individual. A mente popular imediatamente se põe a imaginar estes universais. precede o Universo. alguns bilhões de ano antes da criação do mundo. por nenhum do sentidos. lógico. num sentido estritamente mental. 15. Tem realidade mas não existência (conforme número 11). Se tenho o conceito de "cor" ou de "casa". No processo do conhecimento o universal é posterior. Nunca se diria que o filho causou o pai. não é cronológica. temporal. Como poderia existir a categoria de "pluralidade" sem várias coisas existindo como o próprio plural? Como poderia existir a categoria de "unidade" sem um objeto concreto existente no Universo que seja uno? Como poderia acontecer a categoria "existência". a prioridade do universal sobre o individual é lógica. de prioridade cronológica. Não prioridade cronológica. Mas o universal em si independe do individual. Falamos de antes e depois. Mas logicamente existe uma prioridade de um sobre outro. E tais absurdos o idealismo nunca afirmou. portanto. Muitas vezes também . na ordem cronológica. Dos universais procede o Universo. Outro tempo e outro lugar para os universais. separada das coisas que são alvas. uma precedência do pai sobre o filho. Mesmo os conceitos que independem de aspectos sensoriais. Quando chove na montanha. Há uma prioridade puramente lógica. Pai e filho se coligam sem nenhuma prioridade temporal. segundo Hegel. e num certo sentido. esta prioridade não é no tempo.Um sistema de categorias. existindo em algum lugar que não o mundo. sem alguma coisa concretamente existindo? É de um certo modo como se quiséssemos encontrar a alvura em si.

uma vez o mundo criado. se torna independente de Deus e passa a existir por própria conta. algum tanto confusamente. Os fundamentos últimos. vem de algo anterior. É um suposto de todos os sistemas que se empenham em dar a explicação última do Universo). neste sentido. apenas regressando. Mas na própria teologia cristã este perenemente dependendo de uma realidade divina parece confirmado. confirmando a necessidade lógica de encontrar algo que sempre existiu. de onde procede o Universo. de certo modo. Porque só Ele é realmente independente e incriado. teríamos que admitir que todas as coisas que aí estão (o Universo inteiro) teriam vindo do nada. A repugnância da conclusão não está na conclusão em si mas nos conceitos de onde ela flui. por sua vez. por um ato criador. tem pleno ser. a muitas mentes que se acostumaram. que o mundo se fez do . mas uma manifestação perene dele. a pensar assim ou quase assim. vem de algo que anteriormente existiu. como tal. nada se faz. Para o cristão e o judeu. E por causa deste aspecto de existência independente. causa estranheza a afirmação de um mundo apenas como aparência de algo que precede o mundo. E isto. É portanto aparência de outra coisa. pronta e para sempre feita. participada do único ser plenamente real que é Deus. de ordem conceitual. Como a sombra é manifestação do objeto e como tal apenas sua aparência. concatenados num sistema. 16. O mundo subsiste a cada instante como manifestação do único real. Do contrário. Este sistema de universais é o que Hegel chama de Razão.conhecemos primeiro um fato e depois sua razão lógica que. O pensamento popular. Podemos agora fazer este raciocínio que é válido em qualquer sistema filosófico. com esta reflexão. devem ser da ordem de idéias. absolutamente nada. só Deus realmente "é". E do nada. Estamos. A Dialética e as Origens 17. Esta conclusão idealista repugna. São os universais. SE ALGUMA COISA EXISTE HOJE. imagina. sem ter origem num ser anterior. O MUNDO COMO APARÊNCIA Só o mundo é real. que. no qual o mundo não é uma criação de Deus. entretanto. com a qual se começou a fazer alguma coisa. de ter o universo um ser em si mesmo. E mais claramente ainda no pensamento hindu. EM BUSCA DAS ORIGENS Até aqui acompanhamos Hegel em suas reflexões: a explicação do mundo não está na ordem das causas. no sentido amplo da palavra. E todas as coisas (o mundo inteiro) são apenas aparência. a partir de categorias religiosas. à primeira vista. Nem na Bíblia se insinua. ALGO É ETERNO: Evidentemente não se está dizendo que é eterno tudo o que existe hoje. em direção ao passado. teve precedência lógica. Tudo o mais dele vem. se não existiu sempre. O conceito de "nada" não é o de uma substância. como uma colônia se torna independente do reino. A realidade das coisas é. (Não é portanto um raciocínio de Hegel. O que não existiu sempre. entretanto.

ninguém mais ousou isto na filosofia. neste caso. Não pode gerar a pluralidade o que é radicalmente pura unidade. O sistema dele está de um certo modo reduzido a dois grandes momentos: um ascendente. etc. O espiritualista poderá falar de um Deus. de um ser que não a matéria. é eterno. Exceção feita talvez unicamente ao pensamento maniqueísta (que admitia dois princípios igualmente eternos). Esta conclusão nem é espiritualista nem materialista. deveríamos enumerar. dando origem. "preto". Ninguém dá o que não tem. Ambas estas tendências do pensamento concordam sobre a eternidade de um princípio de onde toda realidade recebe origem. de "um termo anterior" à criação do mundo. juntamente com as demais de "verde". em um certo sentido deve ser múltiplo. procede da suprema e última idéia de "Bem".) O bem seria . portanto. por mais uno que seja. "azul". nenhuma pretendeu enumerar todas as suas subdivisões ou explicações. Algo. Se este "algo eterno" for tão rigidamente uno. Mesmo Plotino. outro. dele não poderia proceder a pluralidade de coisas que constituem o mundo. Agora voltemos a Hegel. exceção feita talvez à idéia de "sensação".. (A terminologia "ascendente" e "descendente" não é de Hegel e a usamos aqui apenas para distinguir mais nitidamente os diversos aspectos do problema). Antes de tudo. que achou como único atributo deste princípio eterno a palavra "Uno". De onde procedem estes objetos brancos? Da idéia de "branco" anterior. que por sua vez procede (com os demais objetos dos cincos sentidos) da idéia de "sensação" que é uma dentre as muitas qualidades englobadas portanto na Idéia superior de "qualidade". incriada.nada. já que dele procede tudo o que existe. Discordam quando se pergunta a natureza deste princípio imprincipiado. Platão: apresentamos no quadro (figura 1) anexo um esquema que pretende representar de algum modo o pensamento platônico. em algum momento se encontraram idênticos neste único princípio. (Como se vê. sem rivais. (Evidentemente é um esquema nosso de um pensamento de Platão. todos os sistemas filosóficos concordam numa coisa a respeito deste problema: é que este "algo eterno" é um único ser. Fala-se. sob a última linha. uma a uma.) No esquema platônico que apresentamos. que. E esta. SEGUNDO PLATÃO Mais uma vez verifiquemos como se pensou antes de Hegel para com ele compararmos alguns dos exemplos anteriores. à própria matéria. sem paralelos. juntamente com inúmeras outras idéias. de um "ponto de partida". todas as coisas "brancas" do Universo. de certo modo. espiritualistas ou materialistas. 18. pelo qual tentamos entender como deste "algo eterno" procedem todas as coisas. pelo qual tentamos entender como essa imensidade de seres heterogêneos. descendente. até opostos tantas vezes. O materialista dirá que é a matéria eterna. abaixo. Não serão dois nem mais. Ainda uma terceira questão dentro do mesmo problema: este princípio eterno que deve ser único. Mas. procedem da idéia superior de "cor". termina afirmando que do Uno procede indiretamente a Matéria com os seres materiais todos que conhecemos.

ao explicar. uma comparação com seu pensamento seria desnecessária. E o que queríamos de Platão é que as idéias fossem deduzidas numa da outra como as afirmações todas que fazemos. de onde virá então? Opostos parecem ter a mesma origem: "preto" e "branco" viriam da mesma idéia de cor? Isto importaria em dizer que opostos teriam existido idêntico numa realidade anterior. uma ao "lado da outra". Mas não podemos concluir: está nublado. portanto. supremo. A multiplicidade está evidente. Afinal. Pergunto: de onde vem este "alvo" que vejo neste objeto? E vem a resposta conforme o esquema anterior: da idéia de "alvura". E a idéia de "alvura"? Da idéia de "cor". Vemos que as idéias procedem umas da outras. elas não se deduzem umas das outras. exatamente porque uma não engloba a outra por força de necessidade lógica. passo a passo. logo choverá necessariamente. HEGEL: A IDENTIDADE DOS OPOSTOS Repitamos. 2) Mas se "C" procede de "B" e "B" de "A". sem mostrar a lógica que exija este fato ser de tal maneira assim que seria absurdo ser de outra maneira. Não vemos a procedência necessária de cada idéia. A explicação está ineficiente. termina em doze princípios últimos. 19. em geometria. Se contivesse necessariamente. E na própria explicação do teorema vamos deduzindo. Mas o pensamento platônico tropeça em algumas dificuldades. de onde toda realidade procede. como o fez Platão. deduzida da anterior. uno e múltiplo. por exemplo. Vemos o fato esquematizado. digamos. por exemplo.para Platão este "algo eterno". uno. SEGUNDO KANT É bom repetir: Kant não quis apresentar o princípio do ser. Mas não vemos que é necessária. se reduz a uma fórmula que eu estabeleceria nestes termos: "cor" + "alvura" = "branco". Platão expôs um fato. segue-se que "C" esteve contido antes em "B" e "B" contido em "A". Mas se alvura não vem de cor. já que nele estão contidas todas as demais idéias. Em um certo sentido é múltiplo. Aqui vemos uma necessidade lógica e não apenas um fato. tudo o que fosse colorido seria azulado. conter todas as demais coisas. que a soma dos ângulos todos de um triângulo é igual a dois ângulos retos. mas os princípios do conhecer. a origem última do Universo. A unidade não é afirmada. As categorias de Kant (as destituídas de qualquer marca sensorial) são doze. as condições que se impõem à solução do problema: 1) este princípio imprincipiado deve ser. de um certo modo. por exemplo? Necessidade nenhuma. Existem. Há necessidade mesmo que da idéia de "cor" proceda a cor azul. Nem por isto. Isto não é possível no pensamento platônico. Vemos que é possível a procedência. o primeiro princípio deve. Mas não alcançamos a necessidade. . Além disto. não graças a um processo pelo qual uma. Porque a idéia de cor não contém necessariamente a idéia de "azul". com a idéia de Bem. Também quando está nublado vemos que é possível chover. O processo do conhecimento em Kant. doze categorias. em síntese. Nenhum absurdo seria imaginar um mundo sem a cor azul. de uma certa maneira. existiu depois doutra e dela se explicitou. 20. O branco. as próprias afirmações em que se fundamenta a assertiva. Dele todas as coisas devem proceder necessariamente. num sentido. Kant não buscou uma superior a elas na qual elas se englobassem. último.

etc. O que nos importa no momento é perceber como Hegel conclui sobre a identidade dos opostos: como única maneira de entender a procedência de todos os seres a partir de um único ser. Podemos então dizer que a planta está na semente. num ser que seja a origem de tudo. a realidade nova.. 22. em algum momento.. houver. Se tudo estiver profundamente pacificado dentro de cada um destes três exemplos. Ao dizer Hegel que opostos são idênticos  preste-se bem atenção a isto!  ele não está dizendo que cessou a oposição nem que cessou a identidade. idêntico ao ser e oposto a ele. Mas em Hegel esta dedução (esta impossibilidade de o primeiro ser restar o único). ANTÍTESE. Não será tão estúpida se refletirmos mais. na criança. necessariamente. sem dele precederem novos seres? O que é que explica o movimento descendente. SÍNTESE . se nenhuma luta. Ou que o nada está no ser. planta. De uma criança surge o adolescente. tem sua explicação. como o fez Hegel: de um ovo surge um pintinho. É fácil achar isto estranho. Mas a pergunta resta: é possível encontrar outra via? 21. de seres. Hegel poderia dizer que a morte está na vida. O MOVIMENTO DESCENDENTE Por que um ser uno. idêntica à vida e oposta a ela. antes de colocá-los ao nível das categorias de puros universais. contradição. Mas tais exemplos são mais inteligíveis e neles está salva toda a lógica de Hegel de uma identidade de opostos. sem nenhuma necessidade imperiosa. na semente. já o dissemos. Daremos um exemplo hegeliano logo abaixo (conforme números 25 e 26). Surgiu da realidade anterior. Se admitirmos que no universo há seres opostos. Vamos partir de exemplos bem materiais. se origina. eterno. Deve haver uma contradição no ovo. forçosamente. Não fala aqui de coisas tangíveis. nunca surgirá uma segunda realidade. permanecendo idênticos e permanecendo opostos. Veremos depois mais detalhadamente este caráter de contradição e de identidade de opostos (conforme números 22 e 23). É exatamente a estranha afirmação feita há pouco: a identidade dos opostos. criança). De uma semente surge a planta. (conforme número 20). oposição. não ficou nele mesmo. E por este conflito que existe dentro de cada realidade. idêntica . contraditórios. pelo qual. e se admitirmos que tudo veio de um único ser. qual será a conclusão? Que. opostos são idênticos. tangíveis. O mesmo se diga da semente e da criança. sensíveis. E quando a segunda realidade surge (pintinho. eternamente idêntico a si próprio.A idéia de uma "identidade de opostos" parece esquisita à primeira vista. as realidades vão se deduzindo umas das outras? Isto não tem explicação no pensamento de Platão nem em vários outros sistemas que apenas apresentam um fato. Hegel não daria estes exemplos. quiçá contraditório. Algo no ovo conspira contra este estado atual e busca um estado novo. Seres opostos são idênticos. sensíveis. Hegel aqui fala de universais não sensoriais. surgiu do nada? Não. necessariamente. É a única maneira pela qual Hegel acha possível este movimento ascendente de englobar um mundo profundamente heterogêneo. E por isto não satisfazem como explicação do Universo. TESE.

Se perguntarmos por que o princípio imprincipiado não resta eternamente a única realidade. está suspensa. não restou tudo na unidade original da primeira categoria. portanto. cessada. idêntica à Tese e oposta a ela. A . é necessário que nele coisas opostas tenham em algum sentido existido idênticas. Fixemos mais a atenção na dialética hegeliana: uma dialética não é um movimento simples. Sustada em um sentido. pois. cessou. Os próprios termos lembram a identidade dos opostos referida acima. enquanto prescindimos do momento seguinte. Um processo decorre. entrou em um estado definitivo. No que se refere à tensão anterior entre Tese e Antítese. usa um só verbo que exprime as modalidades: suspender e cessar: Aufheben. Nela algo é afirmado. mas tudo o que existe se deduziu. A dialética hegeliana tem três unidades que ele denomina de Tese. Colocamos dois verbos. Mas nela não cessou definitivamente toda e qualquer luta de opostos. Mas só se explicita depois o que já existiu implícito antes. a reposta é esta: por um movimento dialético. Ela vai fazer "suspender" ou "cessar" a contradição entre a Tese e Antítese. no número 20. Negação e Negação da Negação. Afirmação. a resposta esta aí: ele carrega em si a contradição e a luta de opostos. Em português diríamos que uma contradição sustada (suspensa) não é uma contradição cessada. a contradição está implícita na Tese. cessando a oposição. graças à contradição. alemão que era. os dois opostos vão encontrar sua identidade num terceiro momento: na Síntese. Uma vez explicitada a oposição. existe. Nenhuma realidade. se deduzem. suspensa. ambos intencionalmente buscados por Hegel num verbo só de sua língua. Tese é afirmação. podemos dizer que a Antítese já está na Tese. poderá recair sobre ele novamente. No primeiro caso. É composta de várias unidades. na unidade da Síntese. cessada em outro. Síntese. se explicou necessariamente dialeticamente. ou. 23. a Hegel. Mas não é uma identidade. na Tese. Ela já carrega em si sua contradição. AUFHEBEN Foi dito acima : "suspender" ou "cessar". a pena que se coloca contra o réu cessou provisoriamente. Hegel. Se fixamos nossa atenção apenas ao primeiro momento (a Tese). de categorias que se opõem e se contradizem. como resta na Síntese? Está definitivamente extinta? Cessou mesmo? Ou apenas está sustada. negação da negação. Perguntamos então a Hegel: a contradição. e que convém reler. extinguiu-se. Se perguntarmos. está ao mesmo tempo sustada e cessada. E se nos lembrarmos ainda do princípio hegeliano da identidade de opostos (conforme número 20) podemos repetir: A Antítese está na Tese. A tensão entre estes dois termos encontra sua conciliação na Síntese. podemos perguntar: onde está a Antítese? Como cada momento se deduz do anterior. capaz de reaparecer no futuro? A resposta hegeliana é que tal contradição está "aufgehoben" (particípio passado de "aufheben"). Antítese. de Tese. como as realidades se deduzem necessariamente. há uma oposição superada.Estamos falando da dialética hegeliana: de um movimento pelo qual realidades novas se explicitam. mais freqüentemente. A Antítese é negação do que se afirmara antes. Quando tentamos imaginar um princípio de todos os seres. desta luta de opostos. No segundo caso. Ela se explicita no segundo momento quando a própria Antítese se explicita. E porque a oposição continua é que a dialética acontece. à oposição que existe na realidade anterior. a luta dos opostos vigente entre a Tese e a Antítese. que esteja isenta deste movimento dialético. É importante atentar para os sentidos. Exatamente por isto. Antítese e Síntese. Mas quando estamos no primeiro momento deste movimento dialético. Como suspender uma pena de morte não é fazê-la cessar.

portanto. 24. mais amplo do que todos os momentos que dele se explicitam. o mais vasto. Mas cada Síntese (S) se transforma em nova Tese (T). portanto. da última tríade do esquema que apresentamos. então. mais abstrato:  o de "sensação". E se nos refugiamos nos conceitos mais amplo de . (em vertical. Qual deve ser. A PRIMEIRA TRÍADE Os exemplos acima  foi dito explicitamente  não foram dados com categorias hegelianas. Voltemos. então. que englobe em si tudo o mais. implícito. Síntese). que entre a primeira Tese e a última Síntese tenha havido uma "queda". Não só isto: todos os momentos contidos entre a primeira Tese e a última Síntese já estavam implícitos neste primeiríssimo momento. mais vasto. O momento anterior deve englobar todos os momentos posteriores. Poderíamos representar graficamente o movimento dialético de Hegel na (figura 2). mais abstrato. arbitrariamente. em que cada Síntese é por sua vez transformada na Tese de nova tríade. num conceito. uma "deteriorização" ou algo semelhante. Queríamos apenas estabelecer dois critérios (de explicitação e concretização) para entendermos quais devem ser necessariamente as categorias de Hegel. é o mais abstrato. aos exemplos do número 18. abaixo. por exemplo. a primeiríssima Tese desta primeira tríade hegeliana? Deve ser uma categoria. a mais abstrata. Deve ser. Hegel não pretende "inventar" mas "descobrir" a realidade como ela é. Qual é. Este. vemos sempre a tríade TAS (Tese. uma nova Antítese que pede outra conciliação numa nova Síntese. E assim por diante. com nova tríade. Antítese. em direção oblíqua descendente. Nem podemos dizer que seja o de "cor" porque não engloba todo e qualquer conceito. etc. Assim também é o movimento da dialética hegeliana: enquanto se procede do implícito para o explícito. Antítese. no gráfico) que inicia novo movimento dialético. Estava nele implícito e se explicitou depois. está de algum modo contido num conceito (do qual procede) mais vasto. "odor". Além disto. quando suscita uma nova negação. mais vasto. A última Síntese. por um instante. de conceitos (conforme números 3 e 5). O menos vasto é o mais concreto. O "azul" é um conceito que está de algum modo englobado. Neste gráfico (figura 2). Não imaginemos. enquanto se defronta com nova negação. enquanto não podemos exemplificar com categorias hegelianas. a mais universal. não busquemos outros significados neste gráfico. se procede do abstrato para o concreto. Nem Hegel disse tal coisa nem este gráfico pretende representá-la. abrangedor de qualquer outro conceito? Não podemos dizer que seja o conceito de "azul" porque não abrange o de "verde". estava implicitamente contida na primeira Tese da primeiríssima tríade. o conceito mais universal e mais abstrato. algumas categorias. um "regresso". 25. "vermelho". anterior. EXPLICITAÇÃO E CONCRETIZAÇÃO Foi dito acima (número 21) que o momento posterior está sempre contido no anterior. Mas como estamos tratando de categorias. por sua vez.Síntese se transforma por sua vez numa nova Tese de outra tríade. Não englobaria os de "som". Porque não se trata de estabelecer. O processo dialético não é apenas de explicitação mas também de concretização. de "cor". em termos de conceitos.

Imaginemos uma senhorita com os seguintes atributos:  Ela é jovem . ao falar do puro conceito de Ser. devir. puro Ser. individualizado."sensação". na qual todas as outras se encontram implicitamente. E teremos ao. Vamos.  que de si nada dizem necessariamente de "sensação"! Mas se considerarmos o conceito de "SER" temos a categoria mais vasta. Acabei de dizer que qualquer objeto. este ainda não basta. está sendo menos. teremos o próprio conceito de Ser. além do puro conceito de Ser. se desenvolvendo. aumentando. diminuir. regredindo. "existência". a Antítese de Ser? É o não-ser. término. concretamente existindo. A categoria de DEVIR é pois a síntese do Ser e do Nada. IDÊNTICO AO SER Vejamos agora até que ponto o primeiro exemplo dialético de Hegel confirma as condições preestabelecidas de crescente explicitação e concretização e de identidade de opostos. o NADA. Quando algo está definhando. progredindo. regredir. progredir. fazer agora este exercício mental de destituir um determinado ser de todas as suas determinações até coincidir com o puro conceito de Ser. Mas aqui. Todos estes conceitos recaem sob o conceito comum de movimento. tenho um conceito que é Ser mais alguma coisa. ou seja. vir-a-ser. mais abstrata. determinações. Porque a diferença entre o conceito de Ser e qualquer Ser concretamente existente são os seus atributos. é que constituem este algo a mais que excede. Matéria = Ser + materialidade. que está fora do conceito de Ser. 26. não é nenhum ser determinado. absolutamente todas. Busquemos agora uma categoria que englobe todos estes verbos. A primeiríssima Tese do sistema de Hegel é portanto o "Ser". decrescer. sem nenhum atributo. nenhuma determinação a mais. inúmeras determinações. portanto. que seja síntese de todas estas ações: aumentar. visto que Ser e Nada são idênticos. devo excluir este "mais" (+). etc. Como se poderia dizer que o Nada e o Ser são idênticos? Antes de tudo convém observar que a categoria de Ser. Está em direção ao mais "ser". apenas Ser. Se. Qual é a negação. está de algum modo se aproximando mais do Nada. Falo de Ser. crescer. E achada a primeira tese. aqui referida. tomarmos um ser individual e mentalmente dele retirarmos todas as suas determinações. O NADA. Busquemos agora uma Síntese do Ser e do Nada. Há tantos conceitos  exemplos: "espírito". diminuindo. que não são de si sinônimos de Ser. Qualquer ser individual é Ser mais inúmeros outros atributos. qualquer ser concreta e individualmente existente tem. pois. está "sendo" mais. capaz de envolver todos estes exemplos até aqui citados. E estes atributos. Quando algo está crescendo. mais ampla. Quando digo "matéria". atributos. estamos em condições bem mais fáceis de encontrar sua Antítese e sua Síntese.

Elas incluem Devir explicitamente. Natureza e Espírito 3. 8. Devir. pois. por conseguinte. 6. Antítese. o número de tríades. O MAIS EXPLÍCITO E O MAIS CONCRETO Outras condições preestabelecidas do movimento dialético são uma passagem do mais abstrato para o mais concreto e do mais implícito para o mais explícito. E Espaço é a primeira categoria da Natureza Mecânica. Não faz mal. Espírito se subdivide em Subjetivo. 27. loura. Física e Orgânica. Cada uma destas divisões tripartidas corresponde sempre a Tese. O nosso exercício é exatamente de prescindir desta determinações. Devir as inclui implicitamente. portanto. É uma modalidade de Ser. sem qualquer determinação. Prescindamos agora da última e. é uma modalidade inclusa na categoria geral de Devir. Sistema globalmente se divide em três partes: Idéia. Nada! Quando chegamos à conceituação de Ser. Objetivo e Absoluto. já temos meio caminho andado. temos o próprio Nada. Filosofia. Neste gráfico (figura 3). 7. Igualmente se distinga Idéia. 2. Distinga-se. Síntese. alva. "Ser". Se já prescindimos de tantas que elas ficaram reduzidas a quatro. O Sistema em suas Partes EXPLICANDO O GRÁFICO 1. 5. 9. Teríamos então: ela é jovem. de todas. seja do Sistema todo. A Natureza se subdivide em Mecânica. primeiríssima categoria de "Ser". De fato. agora. qualquer movimento. Religião.) Mas é o quê? (Esta afirmação de Ser eqüivale a quê?). E Espírito Absoluto se subdivide em Arte. como novas Teses e Antíteses. Teríamos apenas "ela é".loura alva culta Evidentemente nesta relação já estão omissas muitas outras determinações que se poderiam acrescer. é de se esperar que estas sejam mais concretas e existam em Devir implicitamente. Noção 4. não corresponde ao realmente desenvolvido por Hegel que é bem maior. é Ser. Se compararmos agora Devir com as próprias categorias que se seguem. . Não há aqui. Prescindamos agora da última. Devir é também uma categoria mais concreta do que a de Ser que é a noção mais abstrata que se pode imaginar. Teríamos: ela é loura. puro Ser. passagem. Prescindamos de mais duas. seja de cada parte. A Idéia se subdivide em Ser. Essência. (Dizer "é" é fazer a afirmação de Ser. da primeira parte da Idéia. Nada. primeira parte do Sistema da Idéia Absoluta que é última categoria da Idéia. nenhum valor quantitativo representado. transição. Realmente Devir está implícito em Ser. absolutamente de todas as determinações. e portanto de todo o Sistema. A primeira tríade do Ser.

além da primeira tríade. do Nada. Nem iremos responder a todas.28. portanto. da "Idéia Absoluta" que é apenas a última categoria desta série toda chamada "a Idéia" [conforme gráfico (figura 3) anexo]. munido de um mínimo de iniciação às teses básicas do pensamento hegeliano. o Ser. se distingue daquele "Ser" cuja antítese é o Nada. como Tese e Antítese. como se fez antes. Lá a idéia está subdividida em três momentos: Ser (= Tese). A IDÉIA Vamos recuar ao número 9. Antítese. Aí está. Síntese. passando do cada vez mais abstrato para o cada vez mais concreto. 29. Antíteses. a divisão tripartida do sistema de Hegel: Idéia (= Tese). Esta primeira parte. Síntese (= tríade). Espírito (= Síntese). c) Os universais são os primeiros princípios de onde fluem todos os demais seres (diremos nós agora: de onde fluem a Natureza e o Espírito). sem mistura de percepção sensorial. Não vamos. Mas assim como o Sistema hegeliano. portanto. Natureza (= Antítese). Kant e Hegel. A Segunda série se chama a Natureza. A DIVISÃO TRIPARTIDA DO SISTEMA Por onde marcha e para onde marcha este movimento dialético? Que nomes outros. Síntese. globalmente. desde o primeiro (que se chama o Ser) até a última categoria. Idéia e Natureza se defrontam. Aí encontramos teses de Hegel. assim também cada um destes momentos se subdivide em uma pequena Tese. A divisão tripartida . entre outras. A primeira série de tríades se chama a Idéia. pois. b) Estes universais não têm existência objetiva. globalmente considerado. Há ainda um terceiro grande momento em que Idéia e Natureza se reconciliam numa grande Síntese: o Espírito. recebem as seguintes Teses. por exemplo. Vamos apresentar apenas os delineamentos gerais do Sistema. como Tese. Acompanhando este gráfico anexo (figura 3). De tríade em tríade. Antítese. Sínteses? Que raciocínios se podem apresentar para se perceber a dedução lógica. onde estabelecemos comparação entre Platão. Mais uma vez remandamos o leitor ao gráfico (figura 3) da divisão do Sistema hegeliano. da divisão do Sistema hegeliano. Antítese. E surge realmente uma grande Antítese de toda esta série de tríades anteriores. vamo-nos demorar um pouco em cada um destes três momentos. é de se esperar que algo de completamente novo venha a surgir. como se vê no gráfico (figura 3). que se podem levantar a estas alturas da reflexão hegeliana. Um é apenas parte do outro. do Devir? São estas algumas perguntas. como estas: a) O Universo (diremos nós agora "a Natureza") procede de (categorias) universais. todos eles considerados globalmente. Essência (= Antítese) e Noção (= Síntese). de dedução em dedução. a respeito do Ser. constituem a "a idéia". A exigüidade deste trabalho não comporta ambição maior do que a de levar o interessado a obras de amplitude e especialização no assunto. caminhar de tríade em tríade. Embora formada de sucessivas Tese. anterior à Natureza (e que se chama Idéia Absoluta). se dividiu em três grandes momentos. (Distingue-se. Estes universais. a segunda série de tríades se coloca em relação à primeira como uma grande Antítese.

Deus é o pensamento do pensamento. unidade: a Idéia Absoluta. anterior à Natureza e que se chama "Idéia Absoluta". de categorias. mais uma vez. Nela o pensamento subjetivo. pois. o pensamento que se pensa a si próprio em todas as coisas. sujeito e objeto. 31. era o seu eu objetivado. formam uma única síntese. A este ponto. plantas. E esta Síntese é o Absoluto. que vão desde a primeira. formando. oposições (antítese) estão superados. diferente de todas estas coisas. uma divisão dialética. Nela todos os obstáculos. É a Essência. depois que se objetivou. E para explicá-lo optamos por uma primeira Razão. IDÉIA E RAZÃO O que queríamos inicialmente era explicar o mundo. É a definição completa. animais. O objeto do sujeito é o próprio sujeito. se a considerarmos sob o aspectos de princípio e explicação última de onde toda realidade se deduz.de Idéia é toda ela. o universo inteiro de coisas. Hegel achou que anterior à Natureza. se exterioriza. de universais. à luz apenas de algumas. até à última. temos uma visão inverídica do Universo. 30. Depois o subjetivo e o objetivo (Ser e Essência) encontram sua síntese na Noção. Esta série toda se chama simplesmente "idéia". A idéia é inicialmente subjetiva (= Ser). Trata-se de um sistema de idéias. Dissemos que uma primeira Razão pode explicar a si própria. exteriorizada. É pensamento pensado idêntico a quem o pensa. numa unidade única e universal. Hegel a chama também de "Razão". Mas esta mente que conhece e estas coisas que são conhecidas. Se nós olhamos o mundo como um sistema de "matéria" governada por "Forças". agora. nesta unidade. de Deus e do Universo. sem rival. A IDÉIA ABSOLUTA E a última categoria. da Noção. Agora que esta exteriorização. o pensamento dos pensamentos. A verdade completa é que o Universo é pensamento (conforme número 9) e pensamento de pensamento. demanda uma síntese sujeito-objeto. não é algo oferecido ao conhecimento de uma mente. o absoluto sujeito-objeto.  já dissemos. pelo conhecimento de si. como veremos. para se identificar consigo própria. é coextensiva a toda realidade. que é a primeiríssima tese da primeiríssima tríada e se chama Ser. É a primeira razão de que antes se . acabada. pois. Mas não se trata de uma idéia distinta das outra. O mundo exterior é a própria mente colocada fora de si. A Idéia Absoluta é talvez o que se aproxima de um certo modo do nosso conceito de Deus. é a "Idéia Absoluta". controladas por "causas". mas não de todas as categorias. exterior a si. Em vez de o sujeito ter o objeto como algo fora de si. havia um princípio e este deveria ser "Idéia". foi assimilada na identidade de si. oposição. a Idéia Absoluta. objetivação. e uma primeira Causa. não. A Idéia Absoluta é. O mundo visto na sua verdade outra coisa não é senão a Idéia Absoluta. ao Mundo. reconhece o objeto como idêntico consigo mesmo. Depois se objetiva. A Idéia Absoluta é plena identidade do sujeito com o objeto. O que era obstáculo. sujeito. total. A Idéia Absoluta é o Infinito absoluto. a verdade absoluta. última portanto de toda a primeira parte do Sistema. Estamos em condição agora de dar uma explicação mais satisfatória. em vez de primeira Causa (conforme número 2 e 3). alheio a si. homens. É ela.

Não é pois a Natureza algo totalmente desvinculado da idéia. Não há matéria. Todo o processo de dedução das categorias. na gravitação. assim constituída. de fato. portanto: a Natureza está na Idéia. no espaço. Aqui chegamos às formas e espécies da Natureza inorgânica. Como a Idéia se subdividiu em uma pequena Tese. A Natureza. Esta Natureza mecânica. A Natureza é a Idéia exteriorizada. é carente de qualquer unicidade e subjetividade. Síntese (= Ser. É um plano puramente abstrato. Matéria. na Matéria. É. já que tudo está no tempo. É a multiplicidade expressa no Espaço. A Matéria é. em contraposição à . O primeiro momento é a Idéia em si mesma. A Idéia. Também há um processo de interioridade. Podemos dizer. O que temos agora é parte distinta de parte. que é a própria Razão. idêntica à Idéia e oposta a ela. dos universais. por menor que seja. A "Idéia Absoluta" está contida no "Ser" implicitamente. A natureza física sucede à mecânica. A NATUREZA Dissemos que a Antítese está na Tese. isto que não é aquilo. começa a adquirir unidade cada vez maior. Porque Espaço é sempre esta parte "espacial" distinta daquela outra. no Tempo. Devir". também a Natureza tem sua subdivisão numa pequena tríade: "mecânica" (= Tese). é matéria. E vice-versa. emergindo do nada. Antítese. uma parte diferente de outra parte. num fluxo dedutivo do implícito para o explícito. etc. Essência. primeiro na planta. A Razão se explicita a si própria. idêntica à Tese e oposta a ela. É governada por puro mecanismo. é a idéia alienada. Natureza mecânica é sua primeira fase. O Ser está contido na "Idéia Absoluta" explicitamente. como sua antítese. Apenas esta diferença e multiplicidade de partes é simultânea no Espaço e sucessiva no Tempo. na sua interioridade e subjetividade. noção). Depois vem a Natureza orgânica que. tem sua expressão rudimentar. de consciência. Anteriormente falamos de Espaço. Tempo. E tudo o que está no Ser se explicita no que vem depois. Matéria. a gravitação uma busca de unidade e revela uma ação da Razão. Todas estas categorias podem ser aplicadas indiferentemente às coisas concretas. na sua alteridade. afirmando algo como causa de si mesmo. E esta primeira tríade se explica por tudo o que vem depois até a "Idéia Absoluta". a busca de unidade. como pensamento puro. Entretanto. E ela se explica a si própria. aos objetos individuais. Porque o que está explícito na "Idéia Absoluta" já estava implícito no Ser. a Razão pode ser dita e aceita como razão de si mesma. que não se constitua de partes várias e vários lados. é um processo lógico. é interna a si mesma. 32. com seus caracteres e atributos individuais e intransferíveis. um lado distinto de outro lado. E por isto. Na Natureza física chegamos à concretização das coisas. A "Idéia Absoluta" se explica por tudo o que vem antes. "física" (= Antítese) e "orgânica" (= Síntese). Tempo. de objetivação. esta parte que não é aquela parte. sofre gravitação. gravitação. ilógica. em qualquer objeto. O momento da Idéia é também a Lógica de Hegel. Agora temos a absoluta exterioridade expressa em Espaço. E Tempo é este instante diferente daquele. depois no animal. Ela é a Idéia mas num outro momento dialético. desde o "Ser. de oposição. como há na via causal. Nada. Não há um só momento inexplicável.falava. objetivada. já aflorando no animal. aqui ainda precária e débil. neste momento. superando a multiplicidade anterior. Esta interioridade passa dialeticamente à sua Antítese de exterioridade. porque tem em si a explicação de si.

E se na Natureza falamos de matéria inorgânica. tangível. que é esta caneta. Com ele já começa o Espírito. sonoridade. individualmente existindo. a explicação do Universo que buscávamos  e foi a isto que nos propomos como Hegel inicialmente (conforme número 1)  continua insolúvel. etc. leveza. desapontado. redonda. para as quais levantou-se o desafio de uma explicação em busca de sua origem. se quiser. podemos regredir um pouco para um problema crucial do hegelianismo e de todo idealismo. este lápis. Não é porque Hegel pensou que o Universo existe. é uma soma de universais. rotundidade. mensurável. senão abstratas reflexões. por exemplo. 33. sonoridade. Poderá alguém. Não se trata de deduzir coisas (esta mesa. dissemos. deles declinamos alguns. são universais. Melhor situados conceitualmente. sonora (naturalmente terá outros atributos. dizer que. Hegel não pretendeu criar coisas por força do pensamento dedutivo. Se as categorias universais de Hegel não chegarem a cada coisa. 34. Hegel não está deduzindo animais de plantas. Trata-se de dedução de "universais". e não deste objeto concreto. tudo o que elas são. Hegel continua deduzindo idéias de idéias. deduzindo idéia de animal da idéia de planta. este quadro-negro. Evidentemente. que é feita esta bola de pingue-pongue:  de alvura. Declinamos apenas estes para exemplo e exercício. como deduz esta idéia de uma anterior. Estes atributos são universais: alvura. Hegel apenas descobre o que existia antes. SER E CONHECER Voltemos a uma questão atrás: uma bola de pingue-pongue. Respondemos que cada coisa  esta mesa. rotundidade. A Natureza existe porque existe a Idéia. nem plantas de matéria inanimada. animais. Mas o leitor. Antes de tudo é preciso dissolver uma ambigüidade muito comum a toda mente que se aproxima deste problema. Tudo o que estas coisa têm. alva. poderá estender o exercício a outros aspectos). . Este retorno pleno à subjetividade se consolida com o Homem. É a transição da Idéia para a Natureza. como antes e como sempre. É uma soma de universais. de uma soma de universais. este pedaço de giz. Continua. Mas este já não é mais pura Natureza. enquanto Hegel pretende apenas deduzir pensamento de pensamento. independente da mente humana: uma série de universais se explicitando. etc. TRANSIÇÃO IDÉIA/NATUREZA A Natureza acaba de ser conceituada e exemplificada em suas subdivisões. E apesar delas aí está o mundo. É disto. impenetrável? Hegel acha que o inconhecível não existe. leveza. não porque Hegel a deduziu. reais. esta bola não existe. Mas uma questão pode surgir: será que uma bola se reduz a isto mesmo? Será que não há algo inconhecível. plantas. Não se trata de um processo subjetivo.  não é senão idéia. não faz outra coisa. porque Hegel a deduziu. etc. feito de coisas tangíveis. Ela é leve. Tenho aqui uma bola de pingue-pongue .) de idéias.pura objetividade inicial da Natureza.

parece dizermos que os universais existem porque a bola existe. Isto importaria. nenhum pensamento é possível. convém reler toda a distinção feita entre existência e realidade (conforme número 11). E sem afirmar esta identidade entre Ser e Conhecer. Não seriam. um sujeito. e admitimos os universais como objetivos. por não encontrar universais que sejam a sua realidade. não estaremos aí incluindo os universais sensíveis. rotundidade. totalmente outra realidade que não os meus conceitos.Tudo o que existe é conhecível e se traduz em categorias universais. É o que está fora da mente e com ela se relaciona como o objeto com o sujeito. Sujeito e objeto não são duas realidades independentes. Porque. Ser significa ser para a consciência. no sentido de existir. das mais sutis do pensamento hegeliano. O objeto é objeto como o conhecemos. em favor de Platão e contra Hegel? Além disto. nenhum destes universais tem existência. conjuntamente. Mas considerando cada um separadamente. Se dizemos. E o conhecemos como uma soma de universais. Estes teriam aplicação apenas a determinadas coisas. indivíduo. não os universais de que ela é composta. conseqüentemente os universais são objetivos. Mas quando queremos reduzir uma bola de pinguepongue a universais. A razão última da objetividade dos universais está na identidade do Ser e do Conhecer. universais. Esta soma de universais existe porque. a bola é objetiva. sem estes. Hegel afirma que as suas categorias são objetivas. Talvez esta afirmação pareça provar além do que Hegel pretende. se não aceitamos isto. Qualquer objeto se dissolve. pois. que os universais são objetivos porque a bola é objetiva. uma coisa. sonoridade. o conhecimento parece impossível. A expressão "identidade do Ser e do Conhecer" expressa que o sujeito (o lado do conhecimento) e o objeto (o lado do ser) são idênticos. pois. São dois aspectos diferentes da mesma realidade. ele distinguiu bem os puros universais dos universais sensíveis. Poder-se-ia dizer que há meus conceitos da coisa e há a coisa em si. Isto importa. e caímos na aceitação do inconhecível. Hegel acha que não poderia afirmar que tudo o que existe é traduzido em universais e idêntico a estes universais. pois. E a posição de Hegel é exatamente inversa: os universais têm realidade mas não existência. . é a bola. como a bola de pingue-pongue. para Hegel. forma um indivíduo. De um objeto não conhecemos senão conceitos. tem existência. cada uma exterior à outra. etc. nenhuma palavra tem sentido. A palavra "Ser" é aqui usada como tudo aquilo que é objeto do conhecimento. É afirmar que o inconhecível existe. entretanto. Um objeto não é objeto senão para uma consciência. Para Hegel. ou aceitamos isto. Ou negamos isto. Ela não é mais do que leveza. E coisa. Para prosseguirmos esta reflexão. analiticamente. O Universo inteiro não é outra coisa senão o conteúdo da consciência. Para negar a objetividade dos universais deveríamos negar a objetividade da bola. A única maneira de superar estes limites que se tenta impor ao conhecimento é a identidade do Ser e do Conhecer. em soma de universais. Quem existe. contra Platão (conforme número 7 e 9). em afirmar que Ser e Conhecer são a mesma coisa. E. alvura. em afirmar que algo da coisa resta inconhecível. Daí concluímos que o objeto nada mais é senão uma soma de universais. tão universais como os primeiros.

sob a dominação das leis da Natureza. As partes do Espaço são partes exatamente porque estão exteriores às outra. É a Natureza. A Idéia se manifesta. Espaço é exterioridade. Agora. não se poderia manifestar nem existir  conforme acima  agora tem no Homem sua manifestação e sua existência dentro da Natureza. englobada na interioridade. 37. Continuando. Porque Espaço é a suprema oposição do pensamento. de diferenciação. de conteúdo. pois. ele é um ser espiritual. com o Homem  porque é com ele que começa o Espírito  a pura exterioridade começa a ceder lugar à interioridade. No momento da Natureza a Idéia estava. sem condições de se manifestar. ESPÍRITO SUBJETIVO E OBJETIVO . a Razão está voltando a si mesma. já que existência é aparência. ESPAÇO. Assim como a Idéia é a esfera de muitos conceitos. Porque a Idéia. Agora. em si. existindo exteriorizado. aprisionada. mas também para si. É animal. com partes distintas de partes. Doutro lado. saindo de si mesma. O segundo é a Idéia fora de si. Espaço é essencialmente vazio. se alienando. materializada no tempo e no espaço. Só por metáfora se pode falar de partes de pensamento. o Espaço. porque não tem existência. o objeto começa a se identificar com o sujeito e o irracional começa a se racionalizar. tem realidade mas não tem existência. é a mente absoluta. existindo antes do Universo. se objetiva a Idéia. já vimos. toma existência. É a Síntese da Idéia e da Natureza. Por isto. Neste momento chamado Espaço. É um objeto material. não pode se manifestar a si mesma. de si. É pura exterioridade. esta aparência é a Natureza. ESPÍRITO O Espírito é o terceiro grande momento do sistema de Hegel. enriquecida pelo seu estado de Antítese e de alienação. se exteriorizando. como antes. Hegel diz que o primeiro momento é a Idéia em si. A Idéia. já vimos também (conforme número 11). a Natureza está em um sua suprema oposição à Idéia. porque a pura exterioridade jamais seria condição de manifestação do que é pura interioridade e subjetividade. 36. de certo modo. de determinação. E se quisermos falar estaria cada uma dentro de outra. exteriorizada e irracional. A Idéia. refletimos agora sobre o primeiríssimo momento da Natureza (a primeira categoria da Natureza mecânica). É negação de forma.35. Saindo. se torna seu oposto. Com ele a Idéia será não apenas em si. é a Razão externa existindo corporificada. Pensamento é interioridade. espírito. Pelo homem. pois. E como Idéia começa com o conceito mais vazio e mais abstrato  o de Ser  também a Natureza começa com a categoria mais vazia e mais abstrata do Universo: o Espaço. de um certo modo se perdendo. é Deus como Ele é em si mesmo. é a Natureza a esfera de muitas coisas. INÍCIO DA NATUREZA Caracterizamos a natureza para entendermos toda a transição entre a Idéia e Natureza. distinta de parte. aparece. antes de se manifestar e aparecer. Esta manifestação. com o Espírito. A Razão que. De um lado o Homem é parte da Natureza. sozinha. Espaço é parte fora de parte. começa o retorno. antítese da Idéia.

a História. etc. As leis do Estado. pois . num processo de conscientização. o Direito. isto é. opressiva e ditatorialmente. neste momento de apresentação do Espírito não se pode passar adiante sem uma pausa. para a apresentação da concepção hegeliana da História sob alguns itens: a) A característica da matéria é a gravitação. No Espírito objetivo a mente se liberta. em encontro consigo mesmo. b) Em contraposição a isto. se objetiva fora de si mesma. sucinta que seja. percepção. colocadas fora de cada um dos homens. A gravitação é uma determinação exterior ao ser e é própria da Natureza. E entre elas. se torna exterior ao Homem. é autodeterminação. Antítese (Espírito objetivo) e numa Síntese (Espírito Absoluto). A HISTÓRIA Em toda a evolução do Espírito. são categorias do Espírito subjetivo. não serão a expressão do capricho de um homem. etc. a Moral. o Espírito se objetiva. É assim que a encontramos descrita na Natureza. das realizações coletivas da mente humana. O Espírito subjetivo é o espírito humano ainda encerrado em sua interioridade. subjetividade. em conhecimento de si. lhe sejam impostos de fora para dentro. a Política. pura exterioridade. particular e excêntrico. mas objetivação do meu eu no que ele tem de comum com todos os homens. desde o "subjetivo" até o "absoluto". . ele vai crescendo em liberdade. E quem ama a Lei não é escravo da Lei. portanto. a objetivação não propriamente do meu eu no que ele tem de único. Serão a expressão da vontade coletiva. ao Espírito objetivo. portanto. memória. consoante com as demais mentes. Ela se determina. pois. a História humana não faz exceção a isto. A mente não é determinada por algo exterior a ela. sai de si próprio. Tais realidades são. sobretudo no momento primeiro da Natureza: mecânica. ao passar o Espírito do plano subjetivo para o objetivo. o Estado. 38. inteligência. O processo é inverso: a mente ao se exteriorizar nas instituições humana faz com que sua vontade coincida com a Lei. fazendo prevalecer sua vontade sobre as dos demais. Num segundo momento. o Estado. Todas as instituições humanas pertencem. Porque é bastante ampla a obra de Hegel sobre a Filosofia da História. passa para um estágio de maior liberdade. Mas categorias outras como a Moral. emoção. Porque as categorias psicológicas supra-aludidas só têm existência na interioridade de cada indivíduo. das instituições humanas. a mente está presa dentro de si mesma. a característica do Espírito é a liberdade. da matéria. a Moral. e não apenas no Direito. No Espírito subjetivo. Não é que a Lei.Como aconteceu com a Idéia (conforme número 29) e com a Natureza (conforme número 32) também o Espírito sofre uma subdivisão numa Tese (Espírito Subjetivo). Nelas. Isto é também o que se passa em proporções menores ao longo de todos os momentos do Espírito objetivo. objetivadas. imaginação. A liberdade é uma determinação interior do ser. Realidades da psicologia humana como desejo. são modalidades do Espírito despidas do caráter de individualidade.

eliminam as mútuas oposições. o Espírito absoluto é necessariamente a consciência de si próprio. Finalmente chegaremos a um estágio da História em que nenhum será mais escravo e todo serão realmente livres. Na transição do Espírito objetivo para o absoluto houve uma conquista de maior liberdade. da sede do poder. É portanto o próprio conhecimento que o Homem tem do Absoluto através de tudo o que se faz presente à sua consciência e é percebido como idêntico a si próprio. é necessariamente um crescimento de liberdade. as aristocracias) e os demais. Ele é então realmente absoluto. com suas leis.c) A História sendo um crescimento do Espírito. escravos. da ambição. d) Esta conquista gradativa da liberdade não se faz graças a heroísmo. É igualmente o conhecimento do Absoluto pelo Absoluto. O Espírito se percebe então idêntico a todo ser e qualquer realidade. Ele se contempla a si mesmo ao contemplar qualquer coisa. cessam as limitações recíprocas e o Espírito se torna infinito. representa globalmente um momento do Espírito. O Espírito humano no plano anterior  a mente subjetiva das realidades psicológicas e a mente objetivada das realizações coletivas  está limitado. É o Espírito absoluto. portanto. ou qualquer outra coisa que imaginar se possa. seja sol ou terra. escravos. E existe uma "astúcia da Razão". a romana. Todos os modos pelos quais o ser humano pode se tornar consciente do Absoluto. cada civilização é um novo momento do despertar do Espírito ao longo da História. altruísmo. A característica da mente humana é . vieram civilizações como a grega. Se sujeito e objeto. A História toda se torna como que uma espécie de strip-tease do Espírito. um estágio superior de civilização em que eles não pensaram e) De fato. 39. para através disto que eles buscaram restar para a humanidade uma liberdade maior. De fato é a Razão quem dirige a História. em que alguns eram livres (as oligarquias privilegiadas. regra geral. seu regime político. pela religião ou pela filosofia. imbuídos que são. utilizando os homens da História universal. se dá quando a mente se percebe a si própria em qualquer outra coisa. O Espírito é único através delas. O momento do espírito absoluto. se coincidem numa síntese. são fases do Espírito absoluto. apenas um era livre (o Faraó. ESPÍRITO ABSOLUTO O terceiro momento é o Espírito absoluto. Depois. se revelando a si próprio. tomando consciência e posse de si por uma liberdade cada vez maior. As civilizações se sucedem várias. Os fatos da História comprovam isto. Nos dois momentos anteriores sujeito e objeto (Espíritos subjetivo e objetivo) se limitam mutualmente. Nas primeiras civilizações. Tal Espírito só existe como consciência humana. por exemplo) e os demais. da glória. Cada civilização. O Espírito Absoluto é portanto o conhecimento do Espírito pelo Espírito. em sua fase objetiva. que serão exceção na História humana. luz ou flor. seja pela arte. Cessada esta dicotomia entre sujeito e objeto. sua ética. no caso. Espírito e Absoluto são sinônimos.

Esta apreensão tem três momentos que são subdivisões em momentos outros do Espírito absoluto: a arte. e portanto como oposto. a mente se tornou idêntica ao Estado e as suas Leis. superou os limites do sujeito-objeto e se tornou pura liberdade. Resta dizer ainda que o Espírito absoluto tem a apreensão do Absoluto. Talvez finitudes ainda possa haver na esfera da arte e da religião. Esta liberdade se tornou maior quando.a liberdade. passando da subjetividade às instituições humanas objetivas. E porque o Absoluto e Deus são idênticos. esta é também a esfera da Religião que outra coisa não é senão o conhecimento de Deus. É o Espírito absoluto. a religião e a filosofia. idêntico a toda realidade. . Estes três momentos são sucessivas aproximações do Espírito. Somente na filosofia o Espírito absoluto é absolutamente livre e infinito. Mas o Espírito que se conhece em toda realidade. autodeterminação. qualquer instituição do Espírito objetivo se coloca diante do Homem como algo distinto dele. ainda neste momento. Mas. em busca da plena liberdade e da infinitude. como objeto. a apreensão do divino e do eterno. infinitude.