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UM RETRATO DAS GENTES DE CARÇÃO

beleza natural…
tradições…
cultura…

2008
Índice
– Editorial................................................ 2
– Mensagem do Presidente da C.M. Vimioso........ 5
– Mensagem do Presidente da J.F. Carção........... 7
– Eu venho d´além, d´além… ........................ 8
– Alta vai a Lua Alta..................................... 9
– A Minha Alma… ........................................ 9
– Elidinha................................................. 10
- Água na Fonte ........................................ 10
– Helena ................................................. 11
– Maria Alice . ........................................... 11
– Angelina . .............................................. 12
– O Namoro............................................... 13
– Soldadinho............................................. 14
– Olha a Rolinha......................................... 14
– Canção da Talanqueira............................... 14
– Oração ao deitar ..................................... 17
– Oração ao deitar II ................................... 17
– Deus nos dê muitos bons dias ...................... 18
– Oração de Santo António ............................ 19
– Oração de São João .................................. 19
– Santa Bárbara – Trovoadas .......................... 19
– Santo António – Trovoadas .......................... 19
– Esta minha Terra ..................................... 20
– Ruas da minha Terra ................................. 20
– Sou de Carção ........................................ 21
– Terra minha............................................ 21
– Artesãos e profissões ................................. 22
– O Magusto ............................................. 23
– Coragem e Solidariedade ........................... 24
– O Emigrante ........................................... 25
– Eterno .................................................. 26
– A Festa do Peru ....................................... 27
– Carção ................................................. 30
– O Rei da Capoeira .................................... 31
– Real e Benemérita Associação Portuguesa de
Beneficência. A magnífica História de uma
entidade Lusitana no Brasil ......................... 33
– Carção - Análise sociológica de um século
marcante .............................................. 37
– A Cruz Processional de Carção . .................... 41
- Carção, a capital do marranismo .................. 43
– Rectrospectiva 2007/2008........................... 50
– Momentos de Fé- Festas de N.ª Sr. das Graças... 54

Ficha Técnica
Propriedade:
Associação Cultural dos Almocreves de Carção
Capa:
Vitor Arruda
Impressão e Paginação:
Casa de Trabalho Dr. Oliveira Salazar
Dep. Legal: 183993/02
Tiragem: 1000 Exemplares
Ano: Agosto de 2008
Contactos para informações
e colaboração: 966197194/ 966510938
Associação Cultural dos Almocreves de Carção
Bairro Santo Estêvão, Rua A, s/n
5230–124 Carção – Vimioso
E-mails: revista.almocreve@gmail.com
paulolopes78@hotmail.com
www.almocreve.blogs.sapo.pt 
Caro leitor,
Apresentamo-vos mais uma revista que tem como principal propósito o de
expressar um tributo a Carção e suas gentes. Apraz-me novamente dirigi-lo de
forma entusiasta e com o mesmo objectivo inicial: à procura das nossas raízes
para as perpetuar de modo a que as próximas gerações percebam e sintam
orgulho nas suas tradições e estilo de vida.
Se inicialmente a Associação Cultural dos Almocreves de Carção tinha apenas
como finalidade a criação da revista, presentemente quisemos ir mais além e
abraçamos outros projectos – II Feira de Artesanato, publicação de dois livros,
manutenção e actualização dos blogues Amigos de Carção e Almocreve, site
informativo acerca da povoação… – todos eles com o objectivo de ajudar a
desenvolver um pouco mais a nossa Terra (alargando-lhes os horizontes) e
combater a monotonia provocada em grande parte pelo isolamento a que estão
sujeitos ao longo do ano. Julgo que se todos nós retribuirmos com um pouco da
nossa disponibilidade/dedicação à povoação, podemos ajudar a desenvolvê-la
em termos sócio-culturais um pouco mais e combater uma das piores épocas da
história que a povoação está a conhecer – a desertificação, envelhecimento da
população, descaracterização local e isolamento da região.
Em relação ao principal projecto a que a Associação se propôs – a revista
cultural Almocreve – considero que actualmente é um grande êxito a avaliar pelo
aumento de leitores, colaboradores e apoios facultados.
Quanto às publicações dos livros “Carção -a capital do marranismo” autoria
de António Andrade/Fernanda Guimarães e “Carção, um pedacinho do Reino
Maravilhoso” autoria de Sofia Jerónimo, em parceria com a associação CARAMIGO
e também com o apoio da Junta de Freguesia de Carção e Câmara Municipal
de Vimioso, julgamos que vão trazer factos extremamente importantes para
a história e enriquecimento do património cultural da povoação, ajudando a
colmatar o hiato que existia em relação à nossa história.
Relativamente à realização da Feira de Artesanato, iniciada em 2007 em
parceria com a Comissão de Festas de Nossa Senhora das Graças, reconhecemos
que foi também um grande êxito, trazendo mais movimento à povoação e, do
mesmo modo, incentivando os nossos populares a activarem e inovarem os seus
ofícios nomeadamente a tecelagem, ainda hoje com muita fama na região. Em
consequência desta actividade, para este ano e em parceria também com a
Comissão de Festas 2008, a associação CARAMIGO e apoios da J.F. de Carção e
C.M. de Vimioso, vamos continuar com o evento e se possível enaltecendo-a ainda
mais.


Como futuros projectos, a Associação Cultural dos Almocreves de Carção mais
uma vez em parceria com a associação CARAMIGO e Associação Casa do Povo
(comprovando e incentivando à união de todos os populares, lutando pelo mesmo
objectivo – ajudando a combater e se possível desenvolver um pouco mais a nossa
povoação), ambicionamos a instituição de um museu etnográfico, lançando já o
primeiro incentivo a todos os leitores para o oferecimento de objectos do quotidiano
carçonense, para assim darmos início a este projecto.
Para que a 6.ª publicação da revista Almocreve e outros eventos fosse possível,
gostaríamos de agradecer a todos os colaboradores:
Em primeiro lugar, a todas as pessoas que publicaram os seus artigos, dando-nos a
conhecer e perpetuando mais um pedaço da nossa história;
Outra gratidão é para todos os patrocinadores, nomeadamente gentes de
estabelecimentos comerciais, que, de boa vontade, nos ajudaram a
superar os custos da edição;
Também queremos deixar o nosso agradecimento à Junta de Freguesia de Carção,
dispensando uma quantia no sentido de atenuar os custos e depositaram em nós mais
uma vez todo o alento e credibilidade; Igualmente, deixamos o nosso reconhecimento
à Câmara Municipal de Vimioso, que também nos apoiou em tudo o que podiam;
Outro especial agradecimento é para o Movimento Poético Nacional (Brasil) e Casa
do Poeta de São Paulo (Brasil) apoiando/abraçando também este projecto.
O maior agradecimento vai para si, amigo leitor. Ao adquirir este exemplar, temos
consciência que o principal objectivo foi conseguido em pleno, comunicando e
deixando-lhe uma mensagem de grande orgulho e estima pela cultura
da nossa povoação.
Agora só falta o estimado leitor comunicar com a nossa associação, participando
activamente neste bonito projecto já para a edição de 2009 com: histórias passadas
ou presentes, poemas, canções, orações, fotografias ou outras ideias que ajudem a
melhorar ainda mais não só este como outros projectos.
Por último, em nome de toda a Associação, gostaria de pedir desculpas a todos os
leitores e em particular ao nosso conterrâneo Norberto Valente (que muito contribuiu
para o enriquecimento das edições da Almocreve), pelos erros surgidos na edição
anterior, em particular, na fotografia da página 59; Adivinhas Populares página 67; e
no Crucigrama, página 68 (alterações dos respectivos quadrados).
Um abraço amigo,
Paulo Lopes
(Presidente da A.C.A.C.)


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Mensagem do Presidente
da Câmara Municipal de Vimioso

É com agrado e satisfação que acedo ao convite da Revista Almocreve, neste sexto número da sua edição,
para dirigir algumas palavras a todos os munícipes deste concelho, em particular a todos os Carçonenses.
À semelhança de anos anteriores, mais um tempo de férias, mais um número da Revista Almocreve e
mais alegria e entusiasmo por terras de Vimioso.
Neste contexto, gostaria de agradecer o empenho de todos aqueles que, de uma forma ou outra, intervieram
na edição da Revista Almocreve, pois só com iniciativas deste tipo se pode demonstrar o dinamismo cultural
das gentes de Carção que não desistem de defender e promover a sua terra, reforçada, ainda, com a edição de
dois livros sobre Carção e as suas raízes.
Permitam-me uma palavra acerca da actividade no nosso município.
Apesar dos tempos de crise, muito se tem feito para que Vimioso e as suas gentes não sejam esquecidas,
e se reforcem os investimentos num município do interior. Esperamos que o novo Quadro Comunitário
(QREN), apesar de todos os atrasos, possa descriminar, pela positiva, os projectos lançados e candidatados
para, assim, continuarmos a trabalhar, no sentido de criar mais e melhores condições de vida a quem cá vive
e, simultaneamente, atrair todos aqueles que aqui queiram investir e fixar-se.
São, de todos, conhecidos os incentivos disponíveis na Zona Industrial e no Loteamento de S. Vicente,
com lotes a um cêntimo o m2.
Estão a ser feitos investimentos turísticos com o objectivo único de potencializar os nossos recursos,
criando postos de trabalho e fixando gente no concelho, nomeadamente os mais jovens.
O desenvolvimento harmonioso e sustentável do nosso concelho é a nossa prioridade.
Além do âmbito municipal, também, em termos da Freguesia de Carção, tudo temos feito e colaborado
para que Carção seja uma freguesia de referência, não nos tendo poupado à realização de obras, em colaboração
com a Junta de Freguesia, nomeadamente a requalificação da Casa do Povo, o embelezamento das rotundas
e os caminhos agrícolas, entre outras.
É com esta força de vontade e dinamismo, acreditando sempre num futuro melhor para as nossas terras
que trabalhamos dia-a-dia, contribuindo para que o orgulho que temos pelo nosso concelho e pela nossa
freguesia seja reforçado.
Tudo isto só será conseguido com o empenho e vontade de todos.
Por último uma palavra muito especial para todos que nos visitam e permanecem neste período de férias
entre nós, que desfrutem o bom da vida na companhia dos familiares e amigos, e que num ambiente festivo
e acolhedor procurem engrandecer as Festividades em honra da Senhora das Graças.
À Associação Almocreve e aos seus responsáveis, deixo um especial agradecimento pela forma como
continuam a manter as tradições e a valorizar a sua terra.
Bem hajam.
UM ABRAÇO AMIGO,


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Mensagem do Presidente da Junta
de Freguesia de Carção

Mais uma vez me é dada a oportunidade de me dirigir a todos os Carçonenses, através da Revista
Almocreve, neste ano de 2008, que conta com a sua sexta edição.
Faço-o com toda a satisfação e orgulho, por ser um de entre vós, sempre disponível para contribuir para
que Carção possa ficar nos memoriais da história, freguesia que, com satisfação e alegria, dirijo na qualidade
de Presidente da Junta.
Antes de mais, deixo um agradecimento muito especial a todos aqueles que têm contribuído para
engrandecer esta bela aldeia de Carção, que nunca baixaram os braços, mesmo com as dificuldades e os
contratempos da vida.
Nesta sexta edição da Revista Almocreve, recheada de artigos de uma riqueza ímpar, queria, também,
elogiar as Associações Almocreve e Caramigo, pelo empenho tido para com a publicação dos dois livros
sobre Carção: “Carção - a capital do marranismo” e “Carção, um pedacinho do Reino Maravilhoso “, a que
a Junta de Freguesia quis, também, associar-se.
De realçar, também, o trabalho que se tem vindo a desenvolver na preservação do nosso património
e, ao mesmo tempo, na requalificação/embelezamento das entradas da freguesia, servindo como porta de
acolhimento a quem nos procura e visita.
Esta mensagem, a todos os leitores e a todos os Carçonenses, nada mais significa do que transmitir-vos,
singelamente, o apreço que sinto por todos vós.
Continuo a realçar aqueles que, com o seu esforço e dedicação, tem colocado Carção no mapa do
desenvolvimento e atracção turística pelos diversos meios disponíveis.
A terminar esta mensagem, deixo uma saudação muito especial a todos os (e)migrantes que se encontram
entre nós, ao longo dos meses de férias e das Festividades de Nossa Sr.ª das Graças.
BEM HAJAM, VOTOS DE BOAS FÉRIAS.

COM UM ABRAÇO DE AMIZADE,

O Presidente da Junta de Freguesia

Marcolino Rodrigues Fernandes


Eu venho d’além, d’além…

Eu venho d´além, d´além,


De regar o meu nabal,
Ainda trago uma folhinha,
No laço do avental.

No laço do avental,
No laço do meu vestido,
Ó prima, ó rica prima,
Deixa-me dormir contigo.

Deixa-me dormir contigo,


Que uma noite não é nada,
Eu entro pelo escuro,
E saio pela madrugada.

Não entras pelo escuro,


Nem sais pela madrugada,
Sou rapariga nova,
Não quero ser desfamada.

Não quero ser desfamada,


Nem por ti, nem por ninguém,
Não quero dar o desgosto,
Ao meu pai e à minha mãe.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Rosa Tonheca,
14 – 09 - 2007

Alta vai a lua alta


 
Alta vai a lua alta,
Mais que o sol ao meio-dia.
Mais alta vai a Senhora,
Quando p´ra Belém ia.
Madalena vai atrás dela,
Alcança-la não podia,
Alcançaram-na em Belém,
Onde ela estava parida.
Era tanta a sua pobreza,
Que nem um panal havia!
Botou mãos à sua cabeça,
A um véu qu´ela trazia.
Partiram-no em três bocados,
Onde Jesus envolvia.
Um era para de manhã,
Outro para o meio-dia,
Outro para a meia-noite,
Enquanto Jesus dormia.
---------
 
Recolha: Paulo Lopes,
citada em Carção por: Noémia Cordeiro,
14 – 09 - 2007


A Minha Alma…

Vozes dava o marinheiro,


Vozes dá que se afogava,
Respondeu-lhe o Diabo,
Das outras bandas da água.

Quanto davas marinheiro,


Que da água te tirar,
Dava-te os meus navios,
Carregados de oiro e prata.

Teus navios não tos quero,


Nem teu oiro e tua prata,
Só que quer te morrendo,
Nos deixes a tua alma.

Minha alma é p´ra Deus,


E p´rá Virgem Sagrada,
O corpo deixo-o aos peixes,
Que andam na água salgada.

A cabeça às formigas,
Que dela façam morada,
As tripas aos guitarristas,
Para cordas de guitarra.

Vai-te embora ò Diabo,


Que não te dou a minha alma…

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Rosa Tonheca,
14 – 09 - 2007

Elidinha

Donde vens ó Elidinha,


Com a cantarinha na mão,
Vou à fonte buscar água,
Distrair minha paixão.

Os ganchos do meu cabelo,


São de arame enferrujado,
Os da minha irmã Arminda,
São de prata e dourados.

Diga lá senhor doutor,


Se isto se é bem assim,
Eu fiquei presa em casa,
E minha irmã passear no jardim.

Elidinha, Elidinha,
Teu pai não se envergonhou,
No dia do teu enterro,
Nem a farmácia fechou.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Noémia Cordeiro,
14 – 09 - 2007


Helena

Porque não cantas Helena,


Há sombra desta nogueira,
Morreu meu pai há pouco,
Meu marido está na guerra.

Quanto davas aqui ó Helena,


A quem aqui te trouxera,
Três bancadas que eu tenha,
A escolher uma teu bem.

Tuas bancadas Helena,


Dá-lhe a erva que comer,
Quanto davas mais Helena,
A quem to aqui trouxer.

Três cabradas que eu tenha,


A escolher eu te dera,
Tuas cabradas Helena,
Leva-as p´rá serra morena.

Quanto davas mais Helena,


A quem to aqui trouxera,
Três filhas tenha,
A escolheu numa te eu dera.

Tuas filhas ó Helena,


Não nasceram para mim,
P´ra mim nasceste tu,
Minha rosa, meu serafim.

Meu anel de sete pedras,


Que eu contigo reparti,
Mostra-me a tua metade,
Que a minha tenho-a aqui.

Se tu eras meu marido,


P´ra que me falavas assim,
As mulheres são como o vidro,
Partem como o marfim.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Rosa Tonheca,
14 – 09 - 2007
Água na Fonte…
Água na fonte e o meu burrinho,
Água na fonte e o meu moinho.

O meu burrinho leva a fornada,


Leva a amassadeira e não pode levar mais nada.

Cantai rapazes, cantai raparigas,


Nós festejamos, nossas lindas cantigas.

Ora viva o rancho e o festival,


Ora viva a festa, viva o nosso Portugal.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Rosa Tonheca,
14 – 09 - 2007

10
Maria Alice

Onde vais Maria Alice,


Tão triste a chorar,
Vou chamar meu marido,
Que está na taberna a jogar.

Está na taberna a jogar,


Está numa linda brincadeira,
Se não queria casar comigo,
Deixaras-me estar solteira.

Deixaras-me estar solteira,


Solteirinha estava bem,
Sentadinha, regalada,
À sombra de meu pai e mãe.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Rosa Tonheca,
14 – 09 - 2007

Angelina

No dia 4 de Maio,
Um crime se praticou,
Por causa de Leonardo,
Angelina se matou.

Já andava há quatro meses,


Sem uma carta mandar,
E a primeira que mandou,
Foi logo para a deixar.

Ela desde que leu a carta,


Logo saltou a chorar,
Minha mãe estou desgraçada,
Se Leonardo me deixar.

Se Leonardo te deixar,
Ó filha que hei-de fazer,
Guarda o segredo bem coberto,
P´ra teu pai não saber.

A mãe e as filhas,
Foram p´ró rio lavar,
Quando chegaram a casa,
Angelina estava-se a matar.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Noémia Cordeiro,
19 – 09 – 2007

11
O namoro…
No meio da vila nova,
Havia uma palmeira,
Morreu lá uma menina,
Da mocidade solteira.

Era pequena e nova,


Já sabia namorar,
Foi-lhe pedir a seu pai,
Licença para casar.

O seu pai lhe respondeu,


Oh filha que vais fazer,
Estás na flor da idade,
Vais-te deitar a perder.

Ela desde que isto ouviu,


Ao mundo deu que falar,
Foi-lhe pedir ó namoro,
Remédio para matar.

O namoro correu logo,


À farmácia da calçada,
Buscando limão em cobre,
P´ra fazer a garrafada.

Logo à primeira gota,


Deu-lhe uma grande agonia,
Ela disse p´ró namoro,
Que daquela morreria.

Eram dez para as onze,


Das onze para o meio-dia,
Estava a dar a alma a Deus,
E o corpo à terra fria.

Ó pais que tendeis filhas,


Não lhe tirei o casar,
Porque eu tirei-lho à minha,
Só disso tenho penar.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Rosa Tonheca,
14 – 09 - 2007

12
Soldadinho
Donde vens soldadinho,
Que andas tão triste na guerra,
Já te morreu pai e mãe,
Ó gente da tua terra.

Nem me morreu pai nem mãe,


Nem gente da minha terra,
São paixões da minha amada,
Que a deixei e vim p´rá guerra.

Se deixas-te a tua amada,


Soldadinho vai a vê-la,
Ao cabo de nove meses,
Soldadinho voltou p´rá guerra.

Donde via ó soldadinho,


Donde via dagora daqui,
Vou ver a minha amante,
Que já há dias que não a vi.

Tua amante está morta,


Morta eu bem a vi,
Dá-me os sinais que levava,
P´ra eu me fintar em ti.

Levava vestido branco,


E seu cinto em marfim,
Seu cabelo entraçado,
----------

Se chegares a ter filhas,


Traias sempre ó pé de ti,
Que não se percam por homens,
Como eu me perdi por ti.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Noémia Cordeiro,
19 – 09 – 2007

13
Olha a Rolinha (cantiga do Jogo da Roda) Canção da Talanqueira
Olha a rolinha, andou, andou, Larga o acompanhamento,
Caiu no laço, logo lá ficou. Faz um arco nesta rua,
Deixai-me chegar à noiva,
Dá-me um abraço, é coisa que eu faço,
Como o sol chegou à lua.
Olha a rolinha, que caiu no laço.
Donde vens estrela brilhante,
A rola se vai queixando, que lhe tiraram o ninho,
Da presença do Senhor,
Não fizeras tu ó rola, tanto ao pé do caminho.
Fostes dar a tua mão,
Tanto ao pé do caminho, tanto ao pé dos meus olhos, A quem era o teu amor.
A rola se vai queixando, que lhe tiraram os ovos.
Viva lá, ó senhor ….,
A rola se vai queixando, lá para traz da igreja, Vou-lhe pedir um favor,
Não há tiro que a mate, nem caçadores que a vejam. Que me estime a minha amiga,
Com carinho e amor.
Caçador, atira, atira, que a rola bela lá vai,
Como eu hei-de atirar, se o pombal é de meu pai. Toma lá este raminho,
Com três folhas de oliveira,
Atirei e não matei, o mal empregado tiro, Queira Deus que não te lembre,
Minha pólvora requeimada, meu chumbinho derretido. A vidinha de solteira.

Recolha: Paulo Lopes, Os padrinhos e as madrinhas,


citada em Carção por: Rosa Tonheca, Venham cá p´rá dianteira,
14 – 09 - 2007 P´ra desempenhar o ramo
E a fita da talanqueira.

Um raminho, dois raminhos,


Três raminhos a seu peito,
Vivam os noivos,
Que estas vão a seu respeito.

Recolha: Paulo Lopes,


Citada em Carção por: Noémia Cordeiro,
14 – 09 - 2007

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16
Oração ao deitar Oração ao deitar
Quatro esquinas tem a casa, Com Deus me deito,
Quatro velas tem a arder, Com Deus me alevanto,
Quatro mil anjos me acompanhe, Acho-me na graça,
Se esta noite eu morrer. Do Divino Espírito Santo.
Nesta cama me deitei, O nome à morte,
P´ra dormir e descansar, Deus me conforte,
Se a morte vier, E me queira confortar,
E ma quiser levar, E me livre,
Agarro-me aos cravos, E me queira livrar,
Seguro-me à cruz, Dos laços do Demónio,
Entrego a minha alma, Que também num possa chegar,
Ao Menino Jesus. Nem de noite nem de dia,
Nem à hora do meio-dia,
Recolha: Paulo Lopes, Um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.
citada em Carção por: Glória Dias,
14 – 09 – 2007 Recolha: Paulo Lopes,
citada em Carção por: Noémia Cordeiro,
19 – 09 - 2007

17
Deus nos dê
muitos bons dias…
Deus nos dê muitos bons dias,
Nesta tão divina hora,
Rainha do céu e da terra,
Da Virgem Nossa Senhora.

Esquecida estava eu,


Esta noite, meus amigos,
Agora já recordei,
Já vos trago nos sentidos.

Tanta firmeza devemos,


Ao Deus que nos criou,
Tantas gotinhas de sangue,
Por nós Arramou.

Por nós foi dar a Vida,


Ao Monte Calvário,
Ficou muito satisfeito,
Depois de Crucificado.

Depois de Crucificado,
Donde chamamos o missal,
Onde caberemos nós,
Naquele tão pequeno vale.

O vale de Josefás,
Para nós foi terminado,
Ali virá o Senhor,
Dos anjos acompanhado.

Ele nos irá dizendo,


Nunca tão verdade fora,
Bem tempo vos tenho dado,
Não vos quero ouvir agora.

Como ficaremos nós,


Ouvindo aquela resposta,
Olhando uns para os outros,
Pedindo a Deus misericórdia.

Testamento acabado,
Para sempre seja louvado,
No céu e na terra,
--------------------

Quem esta oração disser,


Um ano continuamente,
Achará o céu aberto,
E a glória para sempre.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Rosa Tonheca,
14 – 09 - 2007

18
Oração de Santo António São João
Santo António madrugou, Indo eu por ai abaixo,
As suas Santas mãos lavou, A saber de São João,
Ao paraíso entrou, Encontrei Nossa Senhora,
Jesus Cristo procurou, Com um raminho bento na mão.
Tu António, onde vais? Eu pedi-lhe o seu raminho,
Vou subir aos céus… Ela deu-me o seu cordão.

Ao céu subirás, Milagroso Santo António,


E a terra ficarás, Aceitai este cordão,
E o que for vivo guardarás, Que mo deu Nossa Senhora,
E o pedido arrecadarás, À saída da resseição.
Arrecadai também hoje, ----------
E amanhã por todo o dia, Onde está Jesus,
Meu corpo não seja preso, Está pregado numa cruz,
Na minha alma perdida, Seus braços abertos,
À honra de Deus, Seus pés cravados,
Um Padre-nosso e uma Avé-Maria. Arramando seu sangue,
Por mor de nossos pecados,
Recolha: Paulo Lopes, ----------------
citada em Carção por: Laurinda Vaz, Já os galos pretos cantam,
14 – 09 – 2007 Já os anjos se alevantam,
Já Nosso Senhor subiu à cruz,
Pater-noster, Ámen, Jesus.

Recolha: Paulo Lopes,


citada em Carção por: Rosa Tonheca,
14 – 09 – 2007

Santa Bárbara Bendita


Santa Bárbara bendita, Santo António – Trovoadas
Que no céu está escrita,
Com papel e agua benta Santo António madrugou,
Livrai-nos desta tormenta. Se vestiu e se calçou,
Onde vais Bárbara Ao caminho se botou,
Senhor, vou ao céu, Suas santas mão lavou,
A livrar-me das trovoadas, Lá no meio do caminho,
Que neles andam armados. Com a Virgem se encontrou,
Pois Bárbara, bota-as para bem longe - Onde vais ó António!
Onde não haja sinos a tocar, Eu vou e quero ir,
Galos a cantar, Derramar as trovoadas,
E meninos a chorar, Que no céu estão armadas,
Mas haja uma serpente bem grande À honra de Deus, da Virgem Maria e San-
Que tenha 24 filhos to António,
E não tenha nada que lhes dar Um Padre-nosso e uma Avé-Maria.
Só água de trovão
E leite de maldição. Recolha: Paulo Lopes,
citada em Carção por: Rosa Tonheca,
José António, 16 – 08 – 2007 14 – 09 – 2007

19
Esta minha terra... Carção. Ruas da minha terra
   
Que saudades eu tenho de vós: Ruas da minha terra
“Urretas” de Calhaus empedernidos Pelo sonho abençoadas
Agigantados nas “Penas Altas”... Dói-me ver-vos assim,
Pensamentos esquecidos e tão sós Nessa paz e nessa guerra
Que por esse mundo fora, Nesse abandono sem fim...
Por Carção são tão sentidos... Ruas tristes e mutiladas,
E que saudade da luz bureal Sofridas no meu coração
Que nas idas manhãs de Outono Percorro todas as calçadas
Me fustigavam de ternura “celestial” Com o ardor da solidão...
Como se eu fosse delas dono...  
Que saudades dos olmos que partiram E no vazio dos “sentalhos”
Com os ninhos que guardavam, Paira a dúvida e a razão:
Dos pombais (quais pontos cardiais) Será que a emigração
Que nos mostravam o caminho Em vez de caminhos foi atalhos?...
Das cortinhas, outrora perfiladas...  
Vestidas a rigor, e agora em desalinho, Nas “Soleiras” Sobram “uns” velhos
Das hortas, dos campos de cereais, Que aos poucos vão... partindo.
...de tantas...tantas lides arredadas... Que tristeza para os olhos
E que saudades, meu Deus, Vê-los assim... Sorrindo...
Dos odores que tu me davas: Lembram, ou sonham, a sua labuta
Do cheiro da terra esboreada, “Esses Velhos” de outro tempo,
Da planura dos batatais, São hoje a nossa batuta
Dos “termos” em restolhada, A coragem e o exemplo...
Das vinhas e olivais... São o olhar empedrenido
Mas são ainda teus Sobre esta folha em branco,
Esses odores que tu me davas: São o grito emudecido
O cheiro inebriante da madressilva, Da consciência colectiva
Esta vastidão admirativa Deste povo nobre e franco...
Da minha terra Carção; São tudo que nos resta
Esta Paz tão sentida Para resgatar o passado
Que me afaga o coração. E, ainda não será desta,
Que este mundo Alucinado
António Prada Jerónimo Nos roubará o orgulho...e a razão,
De sermos gentes de Carção.

António Prada Jerónimo

20
Terra Minha

Ficas perdida no meio do nada


Pareces abandonada,
Mas não…
Existe mais vida em ti,
Sou de Carção Que no resto do mundo!
 
Tudo em ti
Sou um poeta de Aldeia
É verdadeiro,
(Será que sou?)
É genuíno,
Da Aldeia que não anda,
É puro!
Que se cansou
Terra minha,
E, sem qualquer ideia
Aquela em que o tempo parou,
Naqueles montes parou...
  Terra minha
Sou dessa Terra Pedregulha No meio dos montes e dos rios.
Com suas vidas violentadas, Tudo respira
Sou desse destino que mergulha Tudo transpira.
Por felicidades inventadas... Sonho
  Paz
Sou dessa terra derramada Alegria…
Que, como a muitos, me viu partir... Terra dura e fria,
Sou dessa terra amada Morte daqueles que trabalham nela!
Onde ainda hão-de ouvir Voa,
Muitos que hão-de Voltar... Rasteja,
Sou dessa terra abandonada Cavalga,
Que da canseira já se Cansou, Anda…
Sou dessa aldeia de Carção Mundo,
Onde o futuro há-de entrar... Terra abençoada e castigada
Sou dessa terra que me amou Terra que vê sol e tempestades
E onde tenho o coração... Terra que ama e odeia
Terra que dá e tira
António Prada Jerónimo Terra de orgulho,
A minha terra!

(dedicada à terra que me viu nascer, Carção)

Sara Afonso

21
Artesãos e Profissões

Linda aldeia de Carção, Além de tanto artesão,


Situada em Trás-os-Montes, Outras profissões não esqueci,
Terra de Muito artesão, Ainda guardo no coração,
E também de belas fontes. O que em menina lá vivi.

Vou começar pelo sapateiro, A tremoceira e seus pregões,


Do meu pai a profissão, Que os tremoços curava,
Que passava o dia inteiro, Com apenas cinco tostões,
Com a sola e o martelo na mão. Um prato deles, ao domingo, comprava.

No bairro de Cima o ferreiro, O barbeiro, de navalha e tesoura na mão,


Mais ao lado o alfaiate, Os cabelos e as barbas aparava,
Havia também o latoeiro, Mais tarde, pelo pino do Verão,
Com a lata, a solda e o alicate. A sua bela máquina arrecadava.

Mais abaixo, na Praça, Não faltava o sardinheiro,


Vive ainda o ferrador, Que saía para bem longe,
Que com bravura e raça, Voltando com algum dinheiro,
Tratava os animais com amor. E outros géneros no alforge.

Ao lado do ferrador, Os azeiteiros acordavam,


O tio “Tai” fazia albardas, Pela manhã bem cedinho,
Para os animais, a rigor, Com saudade abalavam,
Exibirem as suas “fardas”. No cavalo, macho ou burrinho.

Também avia as artesãs, Ainda conheci os oveiros,


Já faladas noutras revistas, Que pelas portas compravam,
Eram as nossas mamãs, Os ovos sempre caseiros,
Umas verdadeiras artistas. E à cidade os levavam.

Minha mãe foi cesteira, Em Carção, hoje, há doutores,


Seguindo-se tecedeira, Outros advogados e juízes são,
Além disso costureira, Muitos, como eu, professores,
E, de seis filhos, cozinheira. Podia citar muita profissão.
Mas, por aqui me vou ficar,
Com ela eu aprendi, Para a tantos recordar:
Muita coisa que hoje sei, Que por detrás de quase todos,
Esse saberes aperfeiçoei, Houve um tio, avô ou pai artesão.
E a minha casa decorei.
Teresa Minga
Não faltavam as padeiras,
Que coziam o bom pão,
Iam vendê-lo às aldeias,
Com alegria no coração.

22
O Magusto
Alegres e vestidos a preceito, Uma ou outra, por vezes saltava,
Com seu fato domingueiro lá ia a rapaziada. Já completamente bem assada,
Apanhar as boas castanhas, Para gáudio dos intervenientes.
Em terras suas, ou estranhas, Como já vinha descascada,
Nos campos da Milharada. Num ápice, era saboreada,
Abrindo o apetite aos restantes presentes.
Para fazer a grande fogueira,
Juntavam, pressurosos, sem canseira: Jogos de roda e bailaricos,
Folhas, ramos, e silvas sequinhas. Promessas de pedidos de namoricos,
Tudo no largo era amontoado, Aqui tinham cabimento.
E para o meio as castanhas deitavam, Se alguns eram a brincar,
Enquanto chegavam as raparigas. Outros viriam a terminar,
Em pedidos de casamento.
Não faltava a água-pé,
Mais o violão do Zé, Quase sempre o Sol aparecia.
E o Fernando com sua guitarra. Para iluminar o santo dia,
Todos à volta da fogueira, Espalhando seus encantos.
Dançavam a roda em brincadeira, E o ar puro se misturava
Que mocidade animada! Com o cheiro da castanha assada,
Neste dia de Todos os Santos.
Até os vetustos castanheiros, nesse dia,
Ofereciam uma outra magia, Dobram os sinos tristemente,
Agitando seus ramos e ouriços. A convidar toda a gente,
E as castanhas o sorriso aproveitavam, A juntar-se à procissão.
E, sopradas pelo vento, do seu seio voavam, E, após uma tarde bem passada,
Para participar no convívio. Lá vai toda aquela moçarada,
Ao cemitério, rezar pelos que lá estão.
E, uma ou outra semi-queimada,
Toda aquela gente assustava, Hoje é tudo bem diferente,
Com seus estoirotes inusitados. Não há magusto certamente,
Era uma algazarra esfusiante, Neste local de convívio e animação.
Por vezes um pouco alarmante, Porque grande parte da mocidade,
Com o medo de ficarem queimados. Vive no estrangeiro ou na cidade,
E esporadicamente visita Carção.

Sofia Jerónimo

23
Coragem e solidariedade

Tlim, Tlão, Tlim, Tlão!


Tocava o sino chamando a população,
E todos entendiam aquele tocar a rebate.
Água! Água! Água! – Gritava a gente aflita.
Fosse de noite ou de dia, toda a gente aparecia,
Para socorrer e enfrentar o terrível combate.

Franqueavam os poços de água privados,


Eram esquecidos divergências e agravos,
Todos se muniam de cântaros e baldes na mão.
Ferros, machados tudo o que pudesse ajudar
E, ei-los escaldando paredes e telhados para o fogo apagar.
E, numa corrida louca, num ápice, atacavam o clarão.

Num ímpeto de coragem e bravura,


Avançavam qualquer altura,
Com perigo da própria vida, sem medo.
Movimentavam-se sobre os velhíssimos telhados
Carcomidos, frágeis, semi-queimados,
E lançavam água sobre aquele terrível brasedo.

Vítimas humanas, raro aconteciam, felizmente,


Devido à coragem, à força desta gente,
Ao espírito de entreajuda de solidariedade.
Era uma força anímica indescritível,
Que enfrentava este momento terrível,
A fim de tentar evitar a desgraça, e que tudo se salve.

Num certo domingo em que toda a gente assistia


Na igreja, à Santa Eucaristia,
Alguém viu, ao longe, uma casa a arder.
Foi uma autêntica debandada,
Enquanto o sacerdote a missa continuava,
Estupefacto pelo que estava a acontecer.

Deus nos perdoe, mas é preciso socorrer,


Alguém que pode estar em perigo, prestes a morrer,
Era ainda cedo, de manhãzinha.
Não se enganaram realmente,
Pois uma família dormia tranquilamente,
Mesmo ao lado do sinistro, na casa vizinha.

Saiam! Saiam! – Imploram eles, aos gritos.


Desesperados, muito aflitos,
Sobem as paredes, entram pela janela,
Num ápice, sem hesitar, surpreendentemente
Salvam aquela pobre gente,
Duma grande e terrível tragédia.

Dizia um popular e sábio provérbio,


A necessidade aguça o engenho,
Torna o homem audaz e corajoso.
De facto a distância que separa a povoação,
Sem qualquer meio de comunicar com a Corporação,
Permitiria que todo o bairro fosse devorado pelo fogo.

Sofia Jerónimo

24
O Emigrante - 11-10-1963

O Emigrante, longe da terra distante, pelas estradas fora,


Lembra o nosso Portugal, ao Emigrante que foi embora.
O Emigrante caminha cheio de tristeza e emoção,
Para deixar pais e família, leva-os no coração.
Partindo para outros países, sem uma palavra saber falar,
Quantas vezes choram e se puseram a rezar.
Emigrante que eu sou, nunca me esqueci,
Da aldeia de Carção, terra onde nasci.
Carção, antiga povoação. Tudo que tens, tem graça,
A igreja, as capelas, o lar e os cafés na Praça.
Sobre o monte, a capela de Santa Bárbara, longe como nós
estamos,
Pedimos a sua protecção para o povo de Carção.

Ana Maria Palhau

25
Eterno
Foste embora sem te puderes despedir de ninguém,
De mim.
Sinto-me culpada por isso,
Pensei que ficasses sempre junto de nós.
Que ias estar sempre presente na minha vida,
Que me irias continuar a ver crescer.
Desapareceste,
Sem eu nunca te ter dito
O quanto te amo
O quanto te admiro,
O quanto és importante para mim.
Não consegui ficar triste quando partiste,
Fiquei revoltada, perdida.
Pensei que talvez Deus me quisesse castigar
Pensei que talvez tu estavas desiludido com a vida,
E por isso, egoísta,
Partiste!
Agora a raiva já passou,
A tristeza impera.
Nunca pensei que ias aparecer tantas vezes nos meus sonhos,
Sorrindo, cantando, dizendo anedotas…
E agora percebi;
Tu nunca partiste.
Tu nunca desapareceste.
No meu coração,
Tu és eterno!

(dedicada a ti, meu avô que já não estás entre nós, mas que
nunca sais do meu coração!)

Sara Afonso

26
A Festa do Peru

Antigamente, em Carção,
havia muitas tradições. Umas
continuam e outras vão-se es-
quecendo pouco a pouco.
A que eu recordo, com mais
nostalgia é a do peru.
Na altura do Carnaval to-
das as classes (1º, 2º, 3º, 4º,5º
e 6º) ofereciam um peru ao
professor.
Fazia-se uma caixa de
madeira que mais parecia
um andor e que enfeita-
va-mos com edras (planta
trepadeira que se encontra
nas bordas dos caminhos) e
fitas, isto era ao desafio para
ver qual deles era o mais bo-
nito no nosso tempo dizia-se
o mais pimpão. Este caixão
era bem guardado até ao dia
da saída.
Juntava-se o dinheiro entre
os alunos que evidentemente
pedíamos aos nossos pais e de-
pois íamos comprar o peru.
Recordo-me quando anda-
va na 4º classe, fomos comprar
o peru a Santulhão.
A senhora que nos vendeu o
peru quis ser bondosa e deu-nos bolachas e um
copo de jeropiga a cada um. Ó peru, ó peru
Ficamos todos mais alegres e alguns chegaram Que sorte será a tua
mesmo a embriagar-se. Os meninos da escola,
Mas continuando. Já te trazem pela rua.
Chegava o dia em que metíamos o peru dentro
Viva o peru, viva o galo,
do caixão e fazíamos uma procissão com todos os
Vivam todos os que aqui estão,
perus, durante a procissão cada classe cantava os
Viva lá a nossa professora,
seus versos dedicados ao professor e ao peru.
Que e a melhor de Carção.
Depois da procissão cada turma levava o seu
peru para a eira do São Roque para que lutassem O peru do senhor Albino,
entre eles, para ver qual era o mais forte. Era Esta doente do coração,
sempre uma alegria. Tudo acabava em festa. Temos que o levar ao médico,
Para lhe dar uma injecção.

Ó peru, ó peru
Que foste criado em Santulhão,
Para dar à nossa professora
Que nos ensina de coração.

O peru da Dona Céu,


É valente e tem chapéu,
Para bater no do senhor Pires,
Que mora à porta do Pompeu.

Andreia Cathy

27
Promotoras: EMICLAU II
Construções Sucesso
Bragança

Vendas: Tlm:
Emílio - 966344279
Cláudio - 966344280
28
- Soc. Construções, Lda.

nho
u so
o se
lize
Rea
Carção
A aldeia é uma entre tantas outras, num ponto remoto de
Trás-os-Montes, plantada pelo acaso nos ombros anosos das
montanhas, longe de tudo, à distância quase do pensamento.
É talvez impossível compreender as razões da fixação de
um povoado naquele local exacto. Não se trata de uma área
particularmente fértil mas conhecendo a região é impossível
encontrar uma outra muito diferente. A aridez do solo e a ru-
deza do clima são acentuadas pela ausência de um curso de
água nas proximidades e pela inexistência de floresta.
O rio Maçãs, afluente do Sabor, serpenteia impávido por
entre os montes a vários quilómetros da aldeia.
Uma colina no centro sustenta a igreja e a partir daí, es-
palham-se em todas as direcções, especialmente no sentido
do poente, as casas de cerca de oito centenas de habitantes.
Na altura em que nasci a maioria das habitações apresenta-
va as características da construção tradicional, feitas de pedra
e de madeira, cimentadas com uma mistura de argila, palha e
pêlos de animais e cobertas com telhados de xisto.
Normalmente eram constituídas por um rés-do-chão onde
se situava o alojamento dos animais, a adega e um local para
arrecadar a produção agrícola. Por cima, para aproveitar o
calor gerado pelos animais e pela fermentação do estrume por
eles produzido, localizavam-se a área habitacional. Uma co-
zinha, sempre com a incontornável lareira, muitas vezes sem
mesmo uma chaminé, para facilitar a cura do fumeiro, cons-
tituía na maior parte dos casos a primeira divisão. Daí, um
corredor levava ao reduzido número de quartos que albergava
a sempre numerosa família.
O interior das habitações era sempre muito escuro, as divi-
sões possuíam janelas muito pequenas para conservar o calor
gerado pela lareira no Inverno e para impedir que a ardência
do Verão nelas entrasse.
Movimentando-nos para a periferia, começavam a aparecer
casas modernas, pintadas de cores garridas, a anunciar um
novo status, quem sabe uma barreira mental para expugnar
as lembranças de um passado de miséria. Lenta mas insidio-
samente, muitas das casas originais foram demolidas e subs-
tituídas por edifícios pretensiosamente disformes, anfractos,
incaracterísticos.
Do cimo da torre da igreja, o sino chamava às Avé Marias,
à Missa de Domingo, anunciava as desgraças, os casamentos,
os baptizados e os funerais com uma melodia específica para
cada acontecimento. Um relógio de ponteiros robustos, dividia
pacientemente o tempo e sacudia os sinos de meia em meia
hora com um vigor arrebatado. Não creio, no entanto, que
essa divisão artificial tenha tido algum dia um significado in-
fenso.
A vida e o ritmo das pessoas eram determinados pela
vontade imperiosa da terra, pelas estações, pelo sol e pela
amplitude dos dias. As horas tinham muito pouco significado,
mas os sinos ouviam-se do termo (nome geral dado aos montes
adjacentes onde se situavam as terras de cultivo, os pastos, as
oliveiras), serviam de elo imaginário com o aconchego do lar
e contribuíam para salientar a altura do sol e justificar a fome
se as badaladas se aproximavam das doze.
Rosário Andrade

30
Caros conterrâneos,

saúdo e louvo por esta importante ini-


O director da revista Almocreve, o qual
e costumes carçonenses, pediu-me para
ciativa em aproximar e divulgar as gentes
todo o prazer e orgulho que o faço, pois
colaborar novamente nesta edição. E é com
tradição bem viva.
só assim, podemos conseguir manter a nossa
passada na minha juventude e aqueles
Desta forma, vou contar mais uma história
.
que a viveram vão certamente lembrar-se dela
ou-se em Dezembro de 1983, no dia
Esta narrativa, mais uma vez verídica, pass
posteriormente se fazer uma patuscada.
em que era costume ir roubar galinhas para
a vez estávamos reunidos no café do
Tal como na história da edição passada, dest
a.
Patudo, um dos dois mais frequentados na époc

O REI DA CAPOEIRA

Numa noite, daquelas que os transmontanos tão do que eu, se por ter ficado cego com tanta pena
bem guardam na memória, gélida e escura como esvoaçante. Regressámos à carrinha muito rápido,
breu, estávamos reunidos no dito café a passar o mas faltava um de nós. Era o que conhecia o ga-
tempo. Lá estávamos nós, folgazões e ávidos de linheiro e, estando ainda lá dentro, travava uma
emoção, a jogar uma cartada, como de costume. É luta para apanhar o rei da capoeira. Nem podia
que assim sempre havia uma asneirada para botar ser de outra forma, claro. Quando o conseguiu, ar-
ou uma discussãozita acesa para nos animar. rancámos a toda a velocidade em direcção à nossa
Às tantas, eis que um de nós se lembrou de fazer aldeia.
cumprir a tradição da época e ir roubar galinhas à Fomos deixar a mercadoria onde tínhamos com-
aldeia vizinha. As tradições da aldeia eram para binado, para no dia seguinte fazermos um churras-
nós importantes marcos na quebra da rotina pas- co no moinho do Cabeça Torta, tal como havia sido
ma e indolente dos dias. Precisávamos de emoção combinado. Voltando ao café, e já a altas horas
para justificar a nossa juventude. Assim, argumen- da noite, reunidos a conversar sobre a aventura,
tava aquele que, andando lá a trabalhar, conhecia apareceu a GNR a inquirir-nos sobre o que tínha-
um galinheiro bem recheado dos ditos galináce- mos feito nessa noite. Já os velhos diziam que a
os. Se mais depressa surgiu a ideia, mais depressa juventude é insana, mas não fôramos nós e ou-
se pôs em prática. Era só do que precisávamos, tros como nós a dar alguma luta aos defensores
adrenalina da mais pura! Combinámos entre nós da ordem e da justiça, o que fariam estes? Cartas,
o que deveríamos fazer para executarmos o plano não, essas eram do nosso pelouro. Como é óbvio,
o mais rápido possível, sem sermos apanhados. O a união era o nosso lema, e estes nada consegui-
transporte era um dos poucos que havia naquela ram de nós, que tivemos a preciosa ajuda da Dona
altura e que estava sempre disponível, quer para Berta. E corroborou a nossa versão, dizendo-lhes
pequenas aventuras, quer para as nossas viagens que ali estivéramos toda a noite. A notícia tomou
desportivas, nas quais procurávamos dignificar o tal repercussão que ninguém se aventurou a fazer
nosso clube de futebol, o mais famoso do distri- o churrasco nos dias seguintes. Mas alguém bene-
to (imparcialmente referido por todos). Em suma, ficiou com o assalto ao galinheiro. O tal que só
era um dos nossos. queria o rei da capoeira tinha o seu motivo. Como
Pusemo-nos a caminho, expectantes e desen- o medo nos dominou, receando sermos descober-
freados, com a táctica bem estudada. A viagem tos, ele andou a semana toda a empanturrar-se
era pequena mas excitante. Chegados ao local, de pernas de frango no trabalho, rindo de soslaio
parámos a carrinha apontada para Carção, com o sempre que nos via. Ficou ele com a sorte grande
condutor a postos para uma fuga rápida. Nós, cada e nós com a aproximação.
um com seu saco na mão, saltámos a cerca e en- Esta foi mais uma história como tantas outras
trámos no barracão. Aí travámos uma luta com os que se passaram naquele tempo, em que o pouco
galináceos que, ficando de tal forma assustados, se que fazer e o convívio nos convidava à aventura,
tornou para nós uma tarefa titânica apanhá-los. Eu alternando com os infindáveis jogos de sueca ou
fui um dos que não conseguiu apanhar nada, não chincalhão, sempre muito animados.
sei se por medo, se por eles serem mais rápidos José Cavaleiro

31
- O Movimento Poético Nacional, fundado em 20/10/1976, portanto, estamos chegando no
seu 32.º ano de existência, foi fundado por um grupo de idealistas e tendo como patrono
“MENITTI del PICCHIA” quinto príncipe dos poetas brasileiros, e por SILVA BARRETO, emérito
poeta e presidente honorário fundador.
O Movimento Poético Nacional, tem sua sede própria na rua dos Bogaris, 183, bairro Miran-
dópolis/Vila Mariana, na cidade de São Paulo – SP.CEP-04047-020 – Brasil e congrega asso-
ciados além da capital de São Paulo, no próprio estado de São Paulo, nos estados da união,
bem como, internacionalmente, Portugal, U.S.A. e Canadá.
Além das Tardes Litero-Musicais a cada 15 dias em nossa sede e auditório, aos sábados à
tarde, apresenta-se em inúmeros locais durante o ano, como exemplo: o Salão Verde do Circulo Militar de São Paulo,
com a nossa data máxima em 20 de Outubro, a festa da Primavera em Setembro, na Universidade de Assunção UNIFAI, no
Conselho Regional de Contabilidade, no Clube HOMS, na Associação Portuguesa de Desportos, no teatro São Pedro e em
outras inúmeras associações e entidades de cultura.
Na capital de São Paulo, temos 200 associados e espalhados pelo Brasil e estrangeiro contamos com mais de 800
associados, alguns como delegados.
Os nossos renomados artistas, cantores líricos e alguns emanados do Teatro Municipal de São Paulo, tais como: TO-
MASINO CASTELLI, ARLINDO GUARIGLIA, e ainda CELESTE MANZINI, ANTONIO FAILDE e poetas do maior gabarito nacional.
A direcção artística está a cargo da cantora lírica: CELESTE MANZINI (CELESTE da CONCEIÇÃO OLIVEIRA MANZINI), portu-
guesa, de VILA REAL (  TRÁS-OS-MONTES).
O Movimento Poético Nacional, congrega no seu seio, um grande número de Luso-Descendentes, e a sua diretoria tem
a seguinte composição: PRESIDENTE:  WALTER ARGENTO; 1.º VICE-PRESIDENTE: CARLOS MOREIRA da SILVA; 2.º VICE-PRE-
SIDENTE: ADRIANO AUGUSTO da COSTA FILHO; 1.º SECRETÁRIA: FRANCES de AZEVEDO; 2.º SECRETÁRIO: GILBERTO AMADO
APRÁ; 1.º TESOUREIRO: ANTONIO FAILDE; 2.º TESOUREIRO: THIERS del CARLO; 1.º RELAÇÕES PÚBLICAS: DOMINGO LAGE;
2.º RELAÇÕES PÚBLICAS: ADÉLIO LOURENÇO FERREIRA; DIRETORA ARTISTICA: CELESTE MANZINI; DIRETOR DE CERIMÓNIAS:
REMO MENEZES; DIRETOR DE ORATÓRIA: CARLOS MOREIRA da SILVA; DIRETORA DE PATRIMÓNIO: CREUSA BRITO BARRETO;
PRESIDENTE DO CONSELHO CONSULTIVO E FISCAL: SILVA BARRETO.
Os Luso-Descendentes, ADRIANO AUGUSTO da COSTA FILHO e CARLOS MOREIRA da SILVA, fazem parte da 1.ª Antologia
dos Poetas Lusófonos e da Associação Portuguesa de Poetas – Lisboa – Portugal.
O nosso ideal é transmitir a Cultura, o Poema, a Poesia, a Arte Litero - Musical.
O Movimento Poético Nacional, edita o Jornal “A Voz da Poesia” a cada trimestre bem como, uma revista “A Voz da
Poesia” quando em uma data relevância.

A Casa do Poeta de São Paulo (casa do Poeta “Lampião de Gás” de São


Casa do Poeta Paulo) foi fundada pela poetisa colombiana, em Novembro de 1948, portanto, irá
“Lampião de Gás” completar 60 anos de fundação e tem um jornal “FANAL” editado há 54 anos sem
de São Paulo interrupção, onde os poetas colocam as suas mais variadas poesias.
A Casa do Poeta, tem sua sede no auditório da Associação Paulista de
Imprensa no contro da capital Paulista, a rua Alvares Machado 22, 1.º andar,
CEP.01501-030. é uma entidade renomada Litero-Musical, com sessões às 1.as e 3.as Terças-Feiras do mês, ds 18 às 20
horas.
A sua diretoria é composta dos seguintes poetas: PRESIDENTE: WILSON de OLIVEIRA JASA; VICE-PRESIDENTE: ANALICE
FEITOZA de LIMA; 1.ª SECRETÁRIA: MARIA JOSÉ QUEIROZ RIBEIRO; 2.ª SACRETÁRIA: ANDRELINA MOREIRA; 1.º TESOUREIRO:
WALTER ARGENTO; 2.º TESOUREIRO; JOSÉ ANACLETO VIEIRA; DIRETORA SOCIAL: LEONIDE VIETTO BECCACCIA; RELAÇÕES
PÚBLICAS: ANTONIO FERNANDES MICHELASSI; CONSELHO FISCAL: ADÉLIA VICTORIA FERREIRA, ARISTÓTELES de LACERDA
JUNIOR e ADRIANO AUGUSTO da COSTA FILHO.
O presidente WILSON de OLIVEIRA JASA e Luso-Descendente e faz parte da 1.ª Antologia dos Poetas Lusófonos e é mem-
bro da Associação Portuguesa de Poetas-Lisboa-Portugal bem como, o conselheiro ADRIANO AUGUSTO da COSTA FILHO.
Tem suas fileiras um grande número de Luso-Descendentes e a sua secretária MARIA JOSÉ QUEIROZ RIBEIRO, é Portuguesa.
Além das sessões litero-Musicais em sua sede e realizadas no Auditoria, ela exibe-se em outros locais, tais como: Parque
do Piqueri, no bairro do Tatuapé aos Domingos pela manhã, na praça da Sé no dia da Fundação de São Paulo, 25 de Janei-
ro, bem como, no mesmo dia no Pateo do Colégio Local da primeira missa em São Paulo e tudo em homenagem a JOSÉ
de ACHIETA e MANOEL da NÓBREGA, fundadores da cidade de São Paulo na câmara Municipal de São Paulo, em eventos
comemorativos.
A Casa do Poeta tem espalhadas pelo Brasil o número de 600 associados, boa parte na capital Paulista bem como,
cantores líricos, seresteiros e músicos.
No mês de Novembro irá comemorar 60 anos de fundação e haverá uma grandiosa festa no auditório da Câmara Mu-
nicipal de São Paulo.
A casa do poeta é uma entidade Litero-Musical que, espalha pelo mundo literário, cultural e poético as suas próprias
raízes: A Essência da Poesia.

32
REAL E BENEMÉRITA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE BENEFICÊNCIA.
- A MAGNIFICA HISTÓRIA DE UMA ENTIDADE LUSITANA NO BRASIL-
- GRANDE NÚMERO DE CARÇONENSES FAZEM PARTE DELA -
      Ela foi fundada no ano de 1859,portanto, bre- tavam de assistência médica, embora existissem
vemente terá 150 anos de existência, por um pu- outras associações, como o Centro Trasmontano de
nhado de portugueses vindos de todas as regiões São Paulo, a Nossa Senhora das Graças e outras
de Portugal, e naturalmente em seu meio haviam entidades menores.
muitos “trásmontanos”, pessoas que tinham em Com essa expansão, deliberou a sua Diretoria
mente ajudar os seus queridos irmãos lusitanos criar algumas categorias de associados, ou sócios
que fluiam de todas partes e o seu cunho era o bem como eram chamados, e então surgiu o seguinte:
estar social, e já no ano de 1874 erigiram um hos- 1) Sócios Grandes Beneméritos, os que tinham di-
pital, contendo 13 leitos, evidentemente modesto reito, quando internados, a um apartamento duplo
para os padrões atuais,mas uma grande iniciativa com sala de espera.2) Sócios Beneméritos, os que
e de grande repercussão para aquela época. tinham direito a um apartamento com um quarto e
Mais uma organização de cunho lusitano, a sala de espera.3) Sócios Benfeitores, com direito a
‘BENEFICÊNCIA PORTUGUESA’ como é conhecida apartamento e um acompanhante, e 4) Sócio Efe-
do publico brasileiro e português, recentemente tivo, com  direito a “enfermaria apartamento”,
mudou de nome em razão de actos jurídicos, por- com outro sócio, porém, todos tinham os mesmos
quanto, a  Real e Benemérita Sociedade Portugue- direitos de serem atendidos por qualquer médico
sa de Beneficência, retirou a palavra Sociedade e e usufruírem de todos aparelhos existentes no hos-
trocou-a por Associação. pital, a única diferença estava na acomodação nos
Por muitos anos o Hospital da Beneficência apartamentos. Todos os associados que adquiris-
Portuguesa, foi no centro de São Paulo, mais pro- sem o titulo, eram vitalícios, não precisavam mais
priamente perto da Av. Ipiranga, ou seja na rua pagar mensalmente, como sucede até hoje, mas
que continha o seu nome,ou seja, Rua Beneficên- agora quem quiser entrar como associado, só está
cia Portuguesa, mas que, foi ficando pequena pela em aberto  a categoria de associado Efetivo.
sua expansão continua, uma vez que, a imigração Houve uma época que os sócios tinham até di-
portuguesa acentuou-se e os portugueses necessi- reito a medicamentos, mas, como os custos fica-

33
ram imensamente grandes, a Beneficência foi obri- Todas as especialidades médicas que existem na
gada a cobrar valores, porém, os remédios eram humanidade são tratadas na Beneficência Portu-
adquiridos nos Laboratórios e cobrados a preços de guesa, além de existir toda essa gama de espe-
custo, em uma Farmácia própria criada dentro do cialidades, existem centros cirúrgicos, centros
Hospital, que continua até hoje e mais moderniza- de ultrasonografia, de raiosX, litotripsia, mamo-
da. grafia, mastologia, Laboratório não Invasivo de
Após ficar praticamente por um século nesse lo- fluxo vascular, de neuro fisiologia clinica, hemo-
cal, e em razão da Beneficência possuir um terreno diálise, infectologia, geriatria, Medicina nuclear,
nas imediações do bairro do Paraíso, e ao lado na neurocirurgia, oftalmologia, pediatria,patologia,
que é hoje a Avenida 23 de Maio, um dos maiores radioterapia, quimioterapia e enfim todas as pos-
corredores de transito da cidade, resolveu a Bene- sibilidades necessárias para uma possível cura do
ficência construir ali um hospital, e esse terreno paciente.
que havia a muito tempo atrás ter sido cedido ao A Beneficência Portuguesa de São Paulo, como
Hospital por um português de nomeada, o ilustre é conhecida, é um dos maiores hospitais da Améri-
cidadão Maestro Cardim, que cedeu uma parte de ca Latina e reúne  os melhores recursos humanos e
sua chácara para a entidade e como doação, a en- materiais possíveis.
tidade ali começou a construir o que é hoje um dos Eu particularmente sou sócio da Beneficência
maiores complexos hospitalares da América Latina Portuguesa desde a década de 60  e sinto um orgu-
e quiçá do mundo, e só sendo ultrapassado pelo lho imenso por fazer parte dela, inclusive os mem-
Hospital das Clinicas, que é órgão do governo do bros de minha família são também associados, o
Estado de São Paulo. meu registro como sócio é número 5.389 e a matri-
Actualmente o Hospital conta com 1.734 leitos, cula 9.755,e como sócio Efetivo, agora associado
distribuídos em cinco prédios, que estão locali- Efetivo. Milhares de portugueses e brasileiros são
zados à Rua Maestro Cardim – 769, no bairro do seus associados, e no meio deles grande número
Paraíso em São Paulo,uma cidade já considerada de “carçonenses” e seus familiares são também
a 3ª. do mundo em população com 12 milhões de associados e por essa razão todos têm esse imenso
habitantes, sendo que, com as cidades a ela agre- orgulho e glória da nossa Beneficência, somos inte-
gadas chega a ter mais de 20 milhões de pessoas grantes de uma entidade maior no concerto médi-
nessa “Grande São Paulo”e conta pois, com várias co mundial para honra e glória do nosso “Querido
clínicas especializadas em prédios comuns nas e Eterno PORTUGAL.”
proximidades do centro principal. A equipe médi-
ca é composta de 1.450 médicos e paramédicos,
com  5.000 funcionários, um verdadeiro exercito ADRIANO AUGUSTO DA COSTA FILHO.
para ajudar na medicina aos associados da Enti- Membro da Casa do Poeta de São Paulo-Brasil
dade e das Entidades conveniadas. A Beneficência Membro do Movimento Poético Nacional do Brasil.    
Membro da Ordem Nacional dos Escritores do Brasil.
atende em média mais de 1.5 milhão de pacientes
Brasileiro luso-descendente de CARÇÃO/VIMIOSO..
por ano, realizando mais de 50.000 internações e Brasileiro pelo Sol  e Português pelo Sangue.
cerca de 25.000 cirurgias.

João Américo
Gonçalves Andrade
Informação
Foi atribuída ao Notário, Dr. João Américo Gonçalves Andrade, licença para
instalação de Cartório Notarial, exercendo a actividade na Avenida Sá carneiro, 11
(antiga sede da Caixa de Crédito Agrícola), em Bragança, ficando a seu cargo o
acervo do extinto cartório Notarial.

CARTÓRIO NOTARIAL DE BRAGANÇA


Av. Dr. Francisco Sá Carneiro, N.º 11 • 5300-252 BRAGANÇA
Tel. 273 302 880/5 – Fax 273 302 889
Email: notario-bgc.andrade@mail.telepac.pt

34
Construção Civil, S.A.
Praça Berbardo Santareno, n.º 6 A/B
1900-098 Lisboa
Tel. 218 429 000 • Fax 218 429 009

35
C/ Esteban Collantes, 50
28017 M A D R I D
Telés. 91 367 89 14 / 61 595 22 96

de António dos Santos


e Lurdes Ramos

– Menus Caseros
– Amplia Carta,
Raciones Variadas
– Comuniones, Bautizos
– Comidas de Empresa
– Terraza de Verano

36
Carção – Análise sociológica de um século marcante Por F. Costa Andrade

Sem qualquer pretensão de fazer um estudo tinham de reagir e, fosse o que fosse, era preciso
exaustivo do que foi a evolução do povo de Carção fazer alguma coisa, puxar pela cabeça e trabalhar,
no passado Século XX, pretende-se apenas com trabalhar, trabalhar muito.
este trabalho reflectir um pouco sobre o que foi o Muito marcantes ainda até aos anos sessenta/
seu trajecto num século marcante na evolução dos setenta as diferenças de mentalidades entre quem
povos. se dedicava mais à terra e quem se dedicava so-
Daríamos por bem empregue o espaço ocupado bretudo aos negócios, houve um aspecto em que
e o tempo investido se, como pretendemos, con- sempre todos se identificaram: O apego ao traba-
seguirmos que este tema seja abordado de novo, lho.
motivando o aparecimento de estudos estrutura- Uns e outros, heróis anónimos, bem mereciam
dos, técnica e cientificamente bem sustentados. a grandeza da Odisseia ou dos Lusíadas para cantar
Não é fácil, com a enorme escassez de dados seus feitos e perpetuar o que foi a gesta épica das
com que nos debatemos, traçar com rigor o perfil suas vidas.
de gente que, abordando a revolução industrial, Quanta coragem e esforço, quanta valentia,
foi depois relegado para um isolamento asfixiante quanto sacrifício, sofrimento e privações se vive-
que o obrigou a atravessar boa parte do século en- ram na nossa terra para, em dias sem fim, semanas
talada entre o Sabor e o Maçãs. sem noite nem dia, arrancar o centeio às fragas da
A estrada para Vimioso estva encravada do lado Fireira a golpes de guinchas e arados, com a terra
de lá do rio e os transportes para o exterior só regada pelo suor de rostos queimados pelo sol e,
ao alcance de heróis e aventureiros, a caminho de tantas vezes, debilitados pela fome e pela sede.
Bragança, de Macedo, de Mogadouro, de Vila Real Quantos dias “à jeira”, vergados sobre umas
e até do Porto e de Espanha. guinchas, para ganhar uns míseros tostões, para
É precisamente este enquadramento dum povo comprar um pão para os filhos, ou um quartilho
espartilhado e inconformado, dum povo que nun- de azeite para untar batatas cozidas com nabiças
ca se conformou, nunca se deu por vencido nem para enganar a barriga à espera de melhores dias,
desistiu de lutar, que iremos analisar nos seus dias esses que, para muitos, nunca acabariam por
principais vectores, deixando via aberta para ser chegar.
abordado em tantos outros aspectos, igualmente Quantas terras feitas “ao meio”, azeitona apa-
importantes e igualmente também aliciantes. nhada e pão “cegado” para os outros, quantas
Por não se enquadrar no âmbito do trabalho que metades da “estela de bacalhau” poupadas para
me propus a desenvolver, por agora, irei apenas trazer à noite para casa, quantas cargas de este-
debruçar-me quase exclusivamente, sobre aqueles vas “roubadas” nas ladeiras do Sabor ou do Maçãs,
que escolheram ficar na sua terra, deixando para depois vendidas de porta em porta para que outros
tratamento oportuno o fenómeno épico das dife- se aquecessem, deixando vezes sem conta os filhos
rentes correntes migratórias, tanto internas como em casa a tiritar de frio.
externa, seja para o Brasil, para a Europa ou Amé- Quantos filhos desmamados à pressa e entre-
rica. gues semanas sem fim aos irmãos mais velhinhos,
Além de outros, três vectores chave formata- enquanto os pais “formavam camaradas” para as
ram verticalmente o nosso povo durante o século ceifas da Terra Quente, sempre na esperança ilu-
em apreço, a saber: sória de ganhar para pagar o “soto”, o sapateiro,
a padeira e sei lá mais o quê e trazer as sobras
TRABALHO, INTELIGÊNCIA E FÉ das merendas para, então sim, encher a casa por
alguns dias.
Abordando, quase de passagem, os dois primei- Quantas viagens atrás de uma “besta”, cal-
ros temas (Trabalho e Inteligência), penso deixar correando caminhos sem fim na ilusão dum bom
abertos dois desafios bem aliciantes para os es- negócio, quantos rios passados a vau, molhadelas
pecialistas destas áreas, debruçar-me-ei especial- enxutas no corpo, frios e calores suportados no
mente sobre o terceiro. clima agreste de Trás-os-Montes, quantas noites
sofridas e sustos de morte num contrabando de
TRABALHO, MUITO TRABALHO. tostões, quantas feiras dos Chãos, de Bragança, de
Mogadouro, de Izeda, de Macedo ou da Torre, para
Limitadas pela falta de vias de comunicação ganhar uma côdea que se repartia em casa para
e pressionadas pela manifesta pobreza dos solos enganar a fome da família.
em que a terra se enquadra, modesta tanto para Quantas fogaças compradas envergonhadamen-
a agricultura como para a pastorícia e indústria, te a fiado, desde à muito tempo à “Tia Cobrica”,
cedo reconheceram as nossas gentes que, para depois à “Estimada” ou à “Maria Cavala”, que mui-
ultrapassar as limitações impostas pela natureza, tas vezes só eram pagas com os dinheiros ganhos

37
à ceifa na Terra Quente ou em terras de Miranda e tantes de forma que, enquanto na maior parte de
Castela. outras terras raras eram as pessoas que sabiam ler
Quantas filhas mandadas a “servir” sabe Deus e/ou escrever, já Carção se orgulhava dos seus Es-
para onde e filhos mandados para Lisboa ou para tudantes, Governantes, Doutores, Oficiais, Padres,
o Porto, quantas vezes sem destino à vista nem Empresários, Professores, Engenheiros, Farmacêu-
futuro a prazo. ticos ou Comerciantes.
Foi por tudo isto que aquela gente foi tudo e Sem pretender ser demasiado longo, duma ma-
fez de tudo para sobreviver. neira simples e despretensiosa, abordarei de se-
Os menos dedicados ao campo, em tudo o que guida este tema com um pouco mais de atenção,
pudesse “dar alguma coisa”, estavam lá, rapida- referindo os factores que o potenciaram, os seus
mente adaptados, dominando com mestria todas principais agentes e as consequências mais signifi-
as actividades em que se aventuravam, foram car- cativas para a promoção e desenvolvimento social
teiros, ferradores, latoeiros, albardeiros ou cons- da freguesia.
trutores, mas sempre a SONHAR, LUTAR E TER FÉ Aceite-se ou não como historicamente provado,
NO FUTURO. é iniludível que o sangue judeu que, mesclado ou
Foi este inconformismo genético que ajudou puro, nos corre nas veias, para não dizer que nos
a vencer as dificuldades e empurrou para uma transformou num povo superior, podemos dizer,
evolução ímpar no
contexto regional
do Nordeste, apos-
tando, à muitas dé-
cadas atrás, com
raro sentido prático
de premonição, na
formação, a valori-
zação e qualificação
pessoal, sobretudo
os filhos.
Frases como:

- “Meu filho,
vê se estudas para
seres alguém” ou,
mais incisivas ainda
como
- “Estuda, rapaz,
para fugires à enxa-
da”,
- “Se estudares
ainda poderás ser
um guarda, um Sar-
gento na tropa, um
empregado da Câ-
mara ou das Finan-
ças”,
- “Agarra-te aos li- “Nos longíncuos anos 30, alunos de Carção com, o grande Mestre Prof. Madureira”
vros que ainda pode-
rás ser alguém”, com toda a razão, nos dotou dum perfil genético
- “Vê se aprendes uma arte para não teres que te superior, único, incomparável e muito especial.
agarrar à enxada”
Um povo de convicções e de fé
foram um factor importante para a motivação de
gerações de jovens, alguns dos quais, sem grandes Abrindo as gavetas da história da nossa terra,
meios, singraram na vida, em áreas importantes não obstante ser fácil encontrar médicos, enge-
do ter, do saber e do poder. nheiros ou professores, contudo, é inquestionável
Ainda na época de quase total analfabetismo reconhecer que foi a acção da Igreja que mais
do País, já Carção tinha um nível de escolarida- contribuiu para o enriquecimento humano e social
de a anos luz da maior parte das aldeias vizinhas, das comunidades donde era proveniente o grande
traduzido numa alavanca de desenvolvimento, va- número de jovens que passaram pelos Seminários,
lorização pessoal e evolução social muito impor- impelidos uns pela forte religiosidade das famílias,

38
e outros pela modéstia dos custos meramente sim- que mais se realizou, sempre preocupado com os
bólicos cobrados nos Seminários das Missões. pobres, os doentes e as crianças.
Em 1954, pela alimentação, estadia e forma- A ele deve Carção a Creche, o Lar dos velhi-
ção, os alunos pobres não pagavam nada e os re- nhos, a Casa de N.ª Sr.ª das Graças, a reparação
mediados pagavam, por mês, o equivalente aos dos Templos e a formação que proporcionou a mui-
actuais 10 cêntimos – então vinte escudos. tas dezenas de rapazes que encaminhou para os
Na verdade, quem contribuiu tanto para o de- Seminários, sobretudo para o das Missões.
senvolvimento cultural, social e humano de Carção O método de abordar os pais era sempre o mes-
como a Igreja Católica, através do grande número mo. “Sr. ……… o seu menino é muito esperto. Tem
de jovens que, nos Seminários, moldaram o seu todas as condições para ir para o Seminário das
carácter, adquiriram uma sólida formação moral, Missões. Vou dar à sua senhora a listinha para co-
humana e cívica e, depois, triunfaram nas mais di- meçar a tratar do enxoval e não se preocupe com
versas actividades? Se alguém tem dúvidas, atente as despesas que eu trato de tudo”. A convicção e a
um pouco no que muitos de nós fomos e no que sinceridade que punha nas palavras era impossível
somos, antes e depois da vaga de jovens que por lá dizer não!
passaram, onde alguns concluíram a sua formação,
e muitos outros ali receberam as bases duma sóli- P.e Manuel Marrão (1918/1999)
da formação moral, intelectual e cívica, primeiro Formou-se nos seminários de Vinhais e Bragan-
como homens e depois como cristãos e cidadãos. ça, Diocese onde exerceu uma longa e meritória
Pesquisando os arquivos de alguns Seminários, actividade pastoral, passando em Carção os últi-
necessariamente muito incompletos, cheguei a nú- mos anos da sua vida colaborando activamente
meros muito interessantes, desde já pedindo des- com o pároco da freguesia.
culpa por qualquer omissão, referindo os nomes
abreviados para não alongar muito o trabalho. P.e Aníbal Liberal (?)
Ao contrário de muitos dos seus familiares,
Relação dos jovens de Carção que, entre fi- que foram médicos, engenheiros ou juízes, o P.e
nais do Século XIX e o Século XX, passaram pelos Liberal ordenou-se na diocese de Bragança, onde
Seminários: paroquiou várias paróquias, distinguindo-se sobre-
tudo como professor e ecónomo no Seminário de
P.e Manuel Jerónimo (1874/1954) Bragança.
Fui dos muitos que tive a felicidade de privar
com o saudoso “P.e Bicho”, como era carinhosa- P.e Policarpo Afonso Lopes (1940/2007)
mente conhecido por todos, figura marcante de Era sobrinho do P.e Amândio e, como ele, for-
Carção na primeira metade do século XX. mou-se nos Seminários das Missões. Depois duma
Homem muito culto (onde parará a sua biblio- breve passagem pelas missões em Africa, regres-
teca?), foi Secretário do Bispo de Bragança, era sou ao Continente para se dedicar à pastoral da
dotado duma afabilidade enorme e dum humoris- emigração.
mo cativante. Radicando-se depois em Lisboa, para além de
Era única a sua maneira de benzer o povo an- professor universitário e da pastoral suburbana,
tes da missa do Domingo e foi admirável o esforço dedicou-se também à investigação, sobretudo na
que, já velhinho e doente, nunca regateou para área da sociologia. A morte prematura interrom-
exercer as suas funções. peu a sua brilhante carreira de sacerdote, investi-
gador e escritor.
P.e Amândio Lopes (1914/1985)
Para mim, o P.e Amândio Lopes, foi a figura P.e Teófilo R. Minga
mais marcante do distrito de Bragança no Sécu- Começou também a sua formação nos Seminá-
lo XX e, para falar dele, seria necessário um livro rios das Missões, para os concluir e depois ordenar-
com muitas e muitas páginas, e quero dizer aqui se sacerdote na Congregação dos padres Maristas.
e agora, com toda a frontalidade, que todos, mas Homem ecuménico por excelência, o seu cam-
todos, os verdadeiros carçonenses, lhe devem ain- po de actividades não tem limites.
da uma verdadeira e grandiosa homenagem. Autor de diversas obras sobre variados temas,
Formado na Sociedade Missionária, transferiu- tem desempenhado os mais altos cargos na sua
se depois para o clero da diocese de Bragança, Congregação, o que tem levado a sua actividade
onde desenvolveu uma actividade impressionante, aos quatro contos do mundo.
primeiro como professor nos seminário de Vinhais,
Bragança e Chacim, depois como pároco em várias Para além destes, que concluíram a sua for-
paróquias da diocese, terminando a sua actividade mação nos seminários e depois dedicaram as suas
na terra que o vira nascer. vidas ao serviço da formação religiosa e da promo-
Homem dum desprendimento evangélico, de ção sócio-cultural das suas gentes, do incontável
grande fé e piedade, foi sobretudo na área social número dos muitos que por lá passaram, consegui

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referenciar muitos outros, passando a elencá-los 1952 – Luís Mina
pelo ano de entrada e pelo nome abreviado. 1987 – Nelson Abreu
Seminários da Missões de Tomar, Cernache e 1988 – Paulo Lopes
Cucujães 1988 – Leonel Vaqueiro
1988 – Eduardo Gonçalves
1925 – Abílio Martins 1989 – David Pascoal
1926 – Francisco Rodrigues 1989 – Jorge Tomé
1927 – P.e Amândio Lopes 2007 – Sérgio Bento
1927 – António Liberal
1936 – António Rodrigues Seminários Salesianos
1939 – Manuel Jerónimo 1996 – João Lopes
1947 – Manuel Rodrigues
1947 – Alcino Calado Seminários dos Jesuítas
1948 – Cesário Rodrigues Por volta dos anos 20 – Manuel Costa
1949 – Francisco Afonso “ “ “ “ 35 – Gabriel Costa
1950 – Vidal Minga
1952 – P.e Policarpo Lopes Do que foi a passagem destes jovens por estas
1953 – Francisco Lopes casas de formação, com verdade, só cada um de-
1954 – Francisco Andrade les o poderá avaliar em todas as suas dimensões.
1955 – António Gonçalves Contudo, para o bem e para o mal, anticlerica-
1956 – Amadeu Vaz lismos saloios à parte, muito do que são ou do que
1956 – Aníbal Jerónimo foram, ainda que com o apoio das famílias e dos
1956 – José Marrão amigos, é a elas que indubitavelmente o devem.
1956 – Manuel Andrade Olhando atentamente para a sociedade hodier-
1957 – António Borges na, fácil se torna perceber que, não tendo valo-
1957 – Artur Mós res de referência, dificilmente encontrará o seu
1957 – Eliseu Cidre rumo.
1957 – Teófilo Minga A esta distância, refulgem que nem o sol os
1966 – Leonel Salazar princípios do respeito, responsabilidade, solida-
1967 – Belmiro Andrade riedade, disciplina, organização e trabalho que,
1979 - João Andrade em conjunto com outra sólida formação religiosa,
1979 - Hermínio Afonso moral e cívica, informavam a formação ministrada
1979 - Francisco Isidro naquelas casas a todos os aos alunos, logo desde os
1979 - Manuel Galhardo mais tenros anos.
1980 - Domingos Afonso Sem procuração de ninguém para defender ou
1980 - José João questionar seja quem for, termino este modesto
1980 - Francisco Pinto apontamento com um desafio.
1980 - Paulo Isidro Neste País que nós somos, quando tanta gente
1982 – Norberto Prada se entretém a falar sobre os custos da interiori-
dade, sobre as causas, quem de direito, faça um
Seminários Diocesanos de Vinhais e Bragança estudo profundo sobre a acção da Igreja na pro-
moção das gentes do nosso povo, reconhecendo-
Além dos já citados padres Manuel Jerónimo, Ma- lhe os seus méritos e valorizando os seus métodos,
nuel Marrão e Aníbal Liberal, começaram a sua numas palavras, seguindo-lhe o exemplo.
formação nos seminários diocesanos de Bragança:

Serviço de:
C A S A M E N TO S
BAPTIZADOS
COMUNHÕES
F E S TA S D I V E R S A S

Quinta das carvas


5300 Bragança
Tel. 273 381 211

40
A CRUZ PROCESSIONAL DE CARÇÃO
Conservam-se na diocese de Bragança - Miran- nova orientação artística.
da, cruzes de prata de especial qualidade artística A Itália é o principal país fornecedor de artistas
sendo as mais antigas, e ainda em uso, as datáveis e de peças, consideramos no entanto que tal se
do século XVI. Para além destas persistem algu- deve aceitar penas para os grandes centros popu-
mas, embora raras do século XVII, mas mais abun- lacionais não se tendo encaminhado para a provín-
dantes percentualmente são as dos séculos XVIII e cia nem os artistas nem as obras.
XIX. A diocese continua a funcionar como um local
Esta cruz, a de Carção, integra-se no grupo de encontro de culturas, possibilitando o contacto
das cruzes processionais do século XVIII pelo que com as formas e gostos de trabalhar de artistas
tentamos apresentar um estudo que vise enqua- nacionais das principais cidades produtoras, como
drar a peça nos modelos artísticos da época em das cidades espanholas situadas nas proximidades
que foi feita. da fronteira já que continuaram a chegar algumas
O século XVIII foi um muito rico na variedade e peças oriundas das cidades espanholas mais pró-
qualidade artística, durante a centúria desenvol- ximas, as únicas que nos permitem estabelecer
veram-se três grandes movimentos artísticos: contactos com o exterior.
O Barroco, o Rococó e o no fim do século ain- Outro facto verificável são os efeitos do
da há espaço para o Neoclássico. cumprimento da legislação referente aos tra-
O estilo Barroco com antecedentes no sé- balhos em prata tendo-nos surgido, agora um
culo XVII, aí por meados do século XVIII foi bom número de peças punçonadas.
substituído pelo Rococó, ou pelo barroco tardio O século XVIII foi o século da talha dourada
como também já foi considerado, mas o que os e do azulejo por todo o país, e neste campo a
diferencia é um novo tipo de ornamentação ba- diocese sentiu a mesma linha orientadora, mas
seada em motivos da este investimento em
natureza (flores, obras fortemente
ambientes influencia-
místicos...) doras do es-
e essencial- tado de es-
mente o exacerba- pírito dos crentes,
mento decorativo, esteve na origem de
uma das suas principais características. desinvestimento em peças de ourivesaria re-
Por volta de meados do século, introduziu- ligiosa, continuando a adquirir-se peças feitas
se o Rococó em Portugal. O termo é de ori- em metal não nobre, caso dos cálices que por
gem francesa, Rocaille pretendendo significar vezes levam apenas a copa em prata. São fre-
um ambiente onde entram rochas juntamente quentes os registos do tesoureiro do Cabido em
com conchas e foi usado para designar a arte que referem peças que se mandaram dourar,
do tempo de Luís XV, em reacção contra a arte concertar, o custo do carreto das mesmas, si-
cortesã de Luís XIV. Em Portugal, já vários au- nal evidente de que se mandarem vir peças de
tores se pronunciaram a favor de uma termino- fora da diocese, “De três pares de galhetas à
logia mais nacionalista, o conchedo,1 em subs- romana a 750 o par e 50 de carreto dous mil e
tituição do termo francês, rocaille. trezentos reis”.3
O Rococó desenvolveu-se ficou relacionado Pelas investigações que temos vindo a fa-
com o reinado de D. José, mas os primeiros zer não contactámos com qualquer marca re-
contactos dão-se ainda durante o reinado de gistada nesta Diocese, embora haja algumas
D. João V e o por intermédio do pintor Pe- referências a ourives prateiros e a obras dos
dro António Quillard2 e através dos gravadores mesmos.
franceses Rochefort, Debrie, e Le Bouteux que Durante o século XVIII, ainda continua a haver
estiveram em Portugal. responsabilidade na aquisição e preserva-
Durante o reinado de D. João V assisti- ção das peças, por parte dos normais inter-
mos ao aparecimento e definição de uma venientes: comendas, fregueses, abade…
corrente estética profundamente marca- “Da ametade da reforma de um cálix para
da pelo barroco romano por influencia de palácios por pertencer a outra metade
gravuras e de trados assim como a vinda de à comenda cinco mil cento e cinquenta=
artistas italianos para Portugal de pintores, 5$150”4. A cruz e a custódia são normal-
escultores ourives... de formação italiana mente compradas pelo povo ou fruto de
e a importação de obras de arte que alguma oferta, as cálices e píxides são
irão contribuir para a formação de uma geralmente pertença do cabido ou na

Fig.1 Cruz Processional de Carção 1.º metade do século XVIII

41
sua totalidade ou em parte, e quando se trata de decoração à excepção das terminações dos braços,
compras feitas pelo tesoureiro do cabido, então que são terminados em capitel de ordem coríntia
geralmente entrega-se antiga e desconta-se no pa- decorados a cinzel, no remate levam elementos
gamento, conforme se registou “De dous cálices balaustrais.
elgueiras hum para Rio frio outro para Outeiro com suas pa- Caracteristicamente, o nó é circular achatado
udou nos tenas tudo de novo abatido o pezo dos cálices ve- e encaixado entre dois elementos arredondados
Braga e lhos que se mandarão dezoito mil reis = 18$000”5. formados por linhas côncavas e convexas, um for-
sidade do De levar e trazer os mesmo cálices do Porto tre- mulário muito utilizado na ourivesaria barroca. No
zentos e sessenta reis = $360. elemento central, podem levar, querubins como
e Turismo
Durante este século as peças que servem no principal elemento decorativo saliente. Os braços,
cional de culto são antecipadamente consagradas pelo que circulares não levam mais qualquer decoração que
se pagava na ordem de um terço do valor da com- os já referidos e estão reforçados por uma alma
trabalha pra, “ pela sagração dos mesmos (os três cálices) em madeira, a mesma que percorre toda a peça,
écnico de seiscentos reis $600”. proporcionando maior robustez e maior peso.
Pela amostragem das cruzes provenientes da Tecnicamente, utilizam de preferência o cinze-
Ferro da produção nacional diremos que as peças do sé- lado, mas no nó vão surgindo alguns volumes ob-
tidos pela técnica do repuxa-
inzenário do. O estado de conservação
é razoável, fruto do formato
circular das partes consti-
émios de tuintes e da madeira que le-
com um vam no interior.
elgueiras Este modelo de cruzes de
e Estado secção cilíndrica perdurou
l na final para além de meados do sé-
culo, como pudemos averi-
aldeia, o guar (Algoso, por exemplo)
que seguindo a mesma ti-
pologia introduzem nas ter-
“Judeus
minações dos braços os Cs,
ão com a esquema também utilizado
pelas cruzes graníticas, sem
radiado atrás da cabeça do
Fig.2 Cabeça de Serafim
Crucificado preferindo-se a
culo XVIII apresentam duas características bem concha, (não o concheado) o que denota estarmos
e Turismo distintas. Na primeira parte da centúria, a época já muito perto da segunda metade do século XVIII,
écnica de correspondente ao joanino, o período barroco por em que este elemento terá maior desenvolvimen-
excelência, as peças revelam uma grande unifor- to.
midade, já as peças da segunda metade são carac- Deste primeiro grupo persiste um conjunto ra-
efarditas, terizadas pelos feitios complicados, relacionados zoável composto por umas vinte cruzes (Especiosa,
de cripto- com a movimentação rococó utilizando uma deco- S. Joanico e Vila Verde, Salselas, Algoso, Pombal,
ração profusa, socorrendo-se de elementos deco- Carção, Junqueira, São Joanico, Vale das Fontes,
Sefarditas rativos de carácter essencialmente naturalista e, Teixeira, Pinelo, Tó...)
tividades. raramente, de elementos de iconografia religiosa. Pelos exemplares referidos, diremos em jeito
efarditas, A primeira metade do século corresponde ao de resumo que as cruzes barrocas do século XVIII,
Sefarditas período da chegada do ouro e dos diamantes bra- são de estrutura muito simplificada utilizando uma
s e gente sileiros é o período das grandes edificações na- decoração baseada em elementos clássicos (capi-
cionais, mas que se revelou nesta diocese e na téis), cabeças de querubim e alguns enrolados e
ourivesaria religiosa, com enorme pobreza preser- nula iconografia religiosa. O joanino, tipicamente
ponsável, vando-se, por isso, cruzes de secção cilíndrica, na tão ornamentado, notoriamente que não se reflec-
nismo e o sua maioria desprovidas de trabalho na chapa de tiu no nordeste através das cruzes processionais.
ALMOCREVE
prata, a evidenciar pobreza nas encomendas e um
Fernando Pereira
seguidismo de modelos de execução fácil, que nos
levam a pensar nalguma incapacidade dos ourives
para inovar (lembremos que as grandes obras ré- 1 Manifestaram-se já a favor desta nomenclatura, Reynaldo dos
gias foram da autoria de artistas estrangeiros). Santos e Nelson Correia Borges.
Das dezoito cruzes de secção cilíndrica, que ti- 2 Nelson Correia Borges, História da arte em Portugal, Alfa, p., 92.
3 Ver Livro das fábricas das igrejas, relativo aos anos de entre 1765-
vemos oportunidade de manusear, apenas três são 1768, Cx.04 Lv. 21 CAB, A.D.B
completamente preenchidas por decoração à base 4 idem
de elementos curvos. As restantes são isentas de 5 idem

42
Carção – A Capital do Marranismo

António Júlio Andrade


Conservam-se na Torre do Tombo cerca de 250 As origens da comaunidade
processos Maria pelo tribunal daGuimarães
instauradosFernanda Inquisição a É sabido que, ainda antes de Portugal existir, já
cristãos-novos de Carção. Não os lemos todos, mas nesta terra havia comunidades cristãs e judaicas
fizemos uma boa triagem deles e podemos, com partilhando o espaço de cidades e vilas, cada uma
muito rigor, dar testemunho do que foi a vivência regendo-se por suas próprias leis. A par da igreja
da comunidade marrana de Carção durante aquele dos cristãos, existia a sinagoga dos judeus e cada
século a que os processos respeitam ( 1638-1742). qual rezava ao seu Deus e todos viviam em paz.
Este artigo é baseado em um trabalho muito E depois da fundação durante mais de 350 anos,
mais vasto que sobre o assunto elaborámos e conta- a situação manteve-se, com os judeus ocupando
mos seja publicado muito em breve. uma determinada zona da povoação, a que chama-

43
vam judiaria. E se as comunidades locais cristãs ti- interceptado uma ordem da Inquisição para o co-
nham o seu concelho, com a sua câmara municipal, missário de Bragança proceder à prisão de 19 cris-
os seus vereadores e as suas justiças … também as tãos-novos de Quintela de Lampaças e os ter avisa-
comunidades hebreias tinham a sua comuna, com do que fugissem.
o seu rabi, o seu concelho de anciãos, a sua admi- Apesar de haver boas testemunhas e não obstan-
nistração e o seu governo. E se em Trás-os-Montes te seus pais terem já sido processados pela Inquisi-
havia um corregedor que representava o rei e ti- ção Jorge Henriques conseguiu defender-se, iludin-
nha o poder por ele delegado sobre as comunidades do os inquisidores que o consideraram inocente e
cristãs, também havia um rabi que representava o o libertaram. Posto em liberdade alguns anos mais
mesmo rei e tinha poder semelhante na administra- tarde foi residir para Castela e posteriormente para
ção e governo das comunas judaicas. E os rabis que Livorno onde certamente se fez judeu.
superintendiam sobre cada uma das 7 comarcas em A segunda pessoa ligada a Carção apanhada nas
que o Reino estava dividido respondiam na Corte redes do Santo Ofício era originária de Mogadou-
perante o Rabi Mor e este perante o Rei. Carinhosa- ro. Chamava-se Maria Lopes e tinha 16 anos, sendo
mente, os reis de Portugal tratavam até esta gente casada com Francisco Lopes Carção. Este e o so-
como “ os meus judeus” gro andavam por Espanha (em fuga? Em negócios?)
Não consta que em Carção existisse qualquer ju- e Maria foi presa pelas justiças de Vimioso exacta-
diaria e nenhuma indicação existe sobre a existên- mente quando ia para junto de seus pais e marido,
cia de judeus na terra durante esse período. Nem acompanhada por uma irmã de 12 anos e um irmão
tão pouco nas terras em redor, incluindo as sedes de de 10 que com ela viviam.
concelho como Outeiro e Vimioso. A prisão teve lugar em Abril de 1651 e a recon-
As origens da comunidade hebreia de Carção ciliação da jovem mãe aconteceu uma ano depois,
remontam provavelmente a 1492 quando os judeus no auto-de-fé de 14 de Abril de 1652. Imagine-se
foram expulsos de Espanha e receberam vistos de o sofrimento daquela mulher quando lhe tiraram
entrada e estadia em Portugal, a troco de paga- o filho de 11 meses que levava ao colo, pois era
mento do imposto, E para o controlo da entrada e um empecilho na jornada para Coimbra e mais uma
pagamento do imposto, em cada comarca foi es- boca para alimentar na cadeia!
tabelecido um campo de refugiados, ou de acolhi- Também não era propriamente de Carção o ter-
mento. Na comarca de Miranda esse acampamento ceiro marrano cujo processo estudámos e que foi
seria no chamado Prado das Cabanas, um sítio entre preso em Junho de 1658. Chamava-se Francisco da
as povoações de Pinelo, Vimioso e Carção. Deste Costa Henriques e tinha nascido em Vimioso. Vivia
campo terão depois irradiado para outras partes, no Porto e tinha uma boa casa comercial em conjun-
dizendo-se que por Carção ficaram os mais pobres, to com o sogro. De seus negócios sobressai a compra
o que vinham descalços, enquanto os mais ricos, os de açúcar e tabaco no Brasil cuja maior parte ven-
que vinham calçados e tinham bestas demandaram dia para o Norte da Europa, dali recebendo sobre-
terras de Bragança, Mogadouro, Miranda… tudo tecidos e ferramentas. Fernando Baeça e An-
A verdade é que, da leitura dos processos, res- tónio de Mesquita, eram seus parceiros comerciais
saltam duas notas que, de certo modo, confirmam em Amesterdão e Hamburgo, respectivamente, en-
isso mesmo. Em primeiro lugar e, muito embora fos- quanto no Brasil tinha dois irmãos, solteiros, um do
sem nascidos em Carção, eles aparecem nas listas qual morreria na viagem de regresso ao Reino.
dos autos-de-fé geralmente referidos como originá-
rios de Castela. E frequentes vezes são dados como Como a mãe dos Macabeus
“moradores em Carção e assistindo em Castela” e Ao mesmo tempo que Francisco da Costa Henri-
vice-versa. Aliás, é impressionante a mobilidade ques deixava a cadeia da Inquisição de Coimbra, em
desta gente, em continua passagem de um lado Junho de 1660, na mesma era metida a sua mãe,
para o outro da fronteira. Brites Lopes, e o seu irmão António da Costa. E três
Em segundo lugar, referia-se que as comunidades semanas depois, foram também encarceradas as 3
de Argozelo, Carção e Vimioso estão umbilicalmen- filhas da mesma Brites, todas elas já casadas.
te ligadas, todos sendo familiares uns dos outros, Esta foi a primeira grande investida do Santo
o que não invalida a existência de laços familiares Ofício em Carção e a família Costa foi a primeira
de alguns com gente de outras terras, sobretudo do a ser apanhada toda ela nas malhas do mesmo tri-
planalto mirandês e das terras de Lampaças (Mace- bunal. E se a comparamos à mãe dos Macabeus é
do de Cavaleiros). porque Brites foi realmente uma heroína. Ao longo
de quase 2 anos, ela manteve-se firme, não denun-
Os primeiros processos ciou ninguém, a não ser aqueles que sabia terem
Foi em Abril de 1638 que em Carção se executou já sido presos, como era o caso dos filhos Francisco
a primeira prisão em nome do Santo Ofício. Cha- e António e do primo Jorge Henriques, o tal que,
mava-se Jorge Lopes Henriques o prisioneiro e era há quase 20 anos tinha fugido para Livorno. Nem
originário de Miranda do Douro. Foi acusado de ter mesmo depois de lhe dizerem que ia ser queimada

44
na fogueira, ela recuou nas suas posições, dizendo, pera que viessem prendê-los, decidiram eles pró-
pela enésima vez, que não tinha culpas a confessar. prios dirigir-se a Coimbra apresentar-se no tribunal,
Apenas dois dias antes do auto-de-fé, quando sou- confessar que tiveram práticas judaicas mas que es-
be que suas 3 filhas também estavam presas, ela tavam arrependidos e pediam perdão. Certamente
começou a admitir mais culpas e a fazer mais de- que tal comportamento de humildade seria levado
núncias. em conta e a pena sempre seria mais leve. E assim
A sentença acabou por ser alterada e ela saiu se formaram verdadeiras romarias de marranos de
condenada a hábito penitencial perpétuo, com in- Carção para Coimbra.
sígnias de fogo e degredo de 7 anos para o Brasil, no Este movimento de prisões/apresentações foi
auto-de-fé de 9 de Julho de 1662. particularmente intenso em 1664. Com efeito, no
Não sabemos se por ingenuidade, ou tentativa seguimento do auto-de-fé de 26 de Outubro desse
de fazer confundir os inquisidores, ou se isso era ano em que saíram penitenciadas 7 pessoas de Car-
típico do marranismo, Brites dizia que era seguidora ção ( da família da Brites, quase todos), registou-se
da lei de Cristo e a da lei de Moisés, em simultâneo, em 4 de Novembro a prisão de outras 9 e a apresen-
que ia ouvir missa à igreja cristã para salvação da tação voluntária de 20!
sua alma e que, ao mesmo tempo, fazia jejuns e Francisco Lopes de Leão foi um desses 20. Apre-
cerimónias judaicas. Os inquisidores avisam-na que sentando-se, confessou suas culpas e, depois de
isso era um absurdo, uma contradição e escreviam admoestado, mandaram-no embora. Ficou seu pro-
no processo a seguinte nota: - Ela tem 60 anos e é cesso em aberto, no qual foram sendo registadas
muito bem entendida. novas denúncias, feitas por outros prisioneiros. E
E escreveram belas orações que ela ditou. Como com base nestas denúncias em 2.10.1665, os inqui-
a que se segue: sidores decretaram a sua prisão.
Assombroso o seu comportamento na prisão,
Vossos amores, Senhor, assumindo-se como verdadeiro judeu e professor
Me trazem mui descuidada, da Lei!
Que não quero outro cuidado Começou até por contar aos inquisidores que,
Senão servir-vos Senhor. quando veio a Coimbra a apresentar-se, não o fez
com recta intenção mas veio sobretudo para enco-
Se Tu a mim servires, rajar os outros “ animando-os publicamente a que
Eu a ti te guardarei, perseverassem na dita crença”. Confessou que a
E quando me demandares, própria viagem foi para ele uma verdadeira pere-
Senhor, sei que tudo Te darei. grinação, uma jornada de fé, pois que em todos os
dias, excepto ao sábado, ele fez jejuns judaicos e
De meus filhos e marido, disso dava conta aos outros que com ele seguiam.
Eu terei grande cuidado, E contou que depois, na própria cadeia, fez muitos
E saberão as nações jejuns e que nunca deixou de rezar ao Deus em
Que sou de Ti advogado. que “ele confitente cria e se prezava muito de ser
judeu”.
Serás bendito no campo Confessaria também que se, por acaso tivesse
E das ruas da cidade no seu corpo uma gota de sangue cristão e soubesse
Limparás Tu a maldade em que parte do corpo ela se encontrava, cortaria
E estarei em povo santo. essa parte, como se fosse um pedaço de carne gan-
grenada.
O medo apoderar-se das mentes de todos Claro que o curso dos dias parados nas masmor-
O marido de Brites não foi preso porque era fa- ras do Santo Ofício e os tormentos físicos e psico-
lecido. Mas foram presas duas irmãs suas e vários lógicos a que era submetido fizeram abalar as cer-
sobrinhos. Bem como as noras e genros de Brites. E tezas do “mestre” que seria assaltado pela dúvida.
naturalmente que cada um dos prisioneiros entrou Evidente que um drama profundo se desenrolava
a denunciar outras pessoas que com eles se tinham dentro dele, o drama do homem que desespera em
declarado seguidores da lei mosaica. E sempre que busca da verdade, com a alma dividida e o coração
alguém era preso, acrescentavam-se as denúncias despedaçado. É dele esta confissão que nos parece
e novos processos se abriam e outras prisões se se- absolutamente sincera e reveladora desse drama
guiam, que todos tinham cometido o mesmo crime. interior de uma pessoa que se vê obrigada a acei-
Alguém podia então sentir-se descansado? Impossí- tar uma nova ideia religiosa, sob pena da própria
vel! E o medo apoderou-se de todas as mentes dos morte:
cristãos-novos da aldeia. Neste ambiente de medo - Querendo por diversas vezes encomendar-se a
e suspeição, as reacções foram várias. Alguns op- Cristo Nosso Senhor, pedindo-lhe que lhe alumiasse
taram por abandonar a terra e seguir os caminhos os olhos da alma para receber a sua fé santíssima,
da emigração. E outros, em vez de ficarem à es- a mesma inclinação perversa de seu sangue o apar-

45
tava disso, persuadindo-o a não se encomendar ao O Kipur de 1689
mesmo Cristo senão ao Padre Eterno, induzindo-o Não obstante os medos e os fantasmas, a norma-
assim o demónio a não se persuadir que um homem lidade foi regressando ao quotidiano dos cristãos-
que morreu numa cruz pudesse ser Deus. novos de Carção e nos anos 20 que se seguiram à
Os próprios inquisidores, quando ditaram a sen- morte de Francisco Lopes de Leão nenhum acon-
tença, escreveram no processo esta lapidar consta- tecimento de especial relevância a assinalar. E tal
tação: normalidade fez com que uns começassem a fazer
- Era tão poderoso a afeição que tinha à lei de algumas práticas judaicas de modo menos recata-
Moisés que não podia acabar consigo e apartar-se do. Começaram a ser notados e falados em público
dela! os jejuns e as cerimónias judaicas quando algum
Naturalmente que, na lógia dos inquisidores, deles falecia e dava nas vistas a forma como todos
para trazer esta alma ao seio da igreja em que foi respeitavam o sábado e não o domingo como dia
baptizado, apenas havia um caminho: despojá-la do santo, vestindo fatos lavados e não trabalhando. E
corpo! E assim foi condenado a arder nas fogueiras falava-se abertamente que na comunidade havia 3
acesas no célebre auto que durou três dias (12-14 livros judaicos. Particularmente notório e escanda-
de Fevereiro de 1667), no qual foram penitencia- loso se tornou o modo como celebravam o dia gran-
das 264 pessoas, contando-se entre elas o grande de de Setembro (Kipur) vestindo-se de festa e indo
pregador jesuíta e insigne escritor, padre António para as vinhas, em romaria, em grupos separados de
Vieira. De Carção, saíram ainda mais 19 pessoas, homens e mulheres e por lá ficavam o dia inteiro,
condenadas em diversas penas. jejuando e rezando ao Deus de Abraão e de Moisés.
E se Francisco Lopes de Leão foi o primeiro cris- Chegou-se assim o ano de 1689, à festa do Kipur
tão-novo de Carção a ser queimado nas fogueiras e muitos padres e o juiz da aldeia e os homens do
do Santo Ofício, cumpre dizer que, anos depois, o regimento e todas as beatas se mobilizaram a es-
mesmo castigo cairia sobre 2 de seus filhos e sobre preitar o que cada um fazia.
outros de sua geração. Depois … foram as notícias chegando a Coimbra,
enviadas por comissários e familiares do Santo Ofício
Cheiro a carne queimada e os fantasmas e recomeçaram as investidas da Inquisição sobre a
dos sambenitos comunidade marrana de Carção, com uma violência
O cheiro a carne queimada pairava no ar de al- jamais vista, em novas e terríveis vaga de prisões.
deia a partir de então. E na paisagem da terra novos
fantasmas começaram a assomar nas esquinas das Um verdadeiro holocausto
casas e a percorrer as ruas, enchendo-as de novas e Pelos anos de 1700, a freguesia de Carção conta-
terríveis premonições e ameaças. É que, os recon- va menos de 150 vizinhos (fogos), significando que
ciliados eram condenados a regressar vestindo por teria à volta de 500 habitantes, somado os cristãos-
cima das roupas uma espécie de saco, feito de pano velhos e os cristãos-novos.
grosseiro de lã, de cor amarela, a que chamavam Repare agora leitor que, só nos anos que vão de
sambenito. Era a prova visível e recordação cons- 1691 a 1701, a Inquisição ali ordenou de prender
tante de que tinham sido presos pelo Santo Ofício, umas 130 pessoas, acusados de judaísmo!
situação deveras humilhante e de público escárnio. Tenha-se em conta que estes presos eram sobre-
Imaginem-se aqueles homens e mulheres passan- tudo gente de trabalho, das classes da população
do na rua e a garotada gritando: Judeu! Judeu dos activa. E tenha-se em conta que as prisões implica-
pregos!...Ou um padre fanatizado a pregar a missa vam geralmente o sequestro de bens e consequente
de domingo contra os judeus que mataram Cristo e ruína das casas, o desbaratar de fazendas, o fim dos
apontando para eles o dedo! laços e redes comerciais que, muitas vezes, leva-
E quando alguém era relaxado, fazia-se um sam- vam gerações a construir.
benito no qual pintavam a sua cara a arder no meio Acresce que muitos, receando ser presos, fu-
das chamas do inferno, rodeado de diabos. Esse giam. Tal como os que saíam das cadeias, sentin-
sambenito era depois mandado para terra e era do-se constantemente enxovalhados e humilhados,
obrigatoriamente pendurado na parede interior da procuraram também os caminhos da fuga.
igreja, ali ficando para que a memória do seu cri- O pior, as verdadeiras tragédias aconteciam nas
me não desaparecesse. Imagine-se a vergonha que masmorras da Inquisição.
os familiares de Francisco de Leão não passariam Muitos eram os que ali endoideciam, bastantes
quando o seu retrato ali foi pendurado e depois, os que ficavam estropiados e nada raros morriam
sempre que entravam na igreja! lá dentro. E todos, mas mesmo todos, eram abala-
E se o seu retrato foi o primeiro, muitos outros dos física e psicologicamente. Temos o caso de um
iriam depois fazer-lhe companhia, decorando as pa- homem de 20 e tal anos, cheio de vida, que chegou
redes do templo, para gáudio dos cristãos-velhos e a tal extremo que comia os seus próprios dejectos!
vergonha dos marranos. E o auge da tragédia era atingido com a morte na
fogueira.

46
De tudo isto temos exemplos clamorosos em E ao fim da festa, desmontada a ornamentação,
Carção: gente que ficou aleijada, gente que ali en- ninguém terá dado importância ao facto de alguns
doideceu, gente que ali morreu, gente que prefe- daqueles “sacos de estopa” pintados com as chamas
riu suicidar-se e…houve pelos menos 18 que foram do inferno e as caras dos relaxados terem desapare-
condenados a morrer na fogueira. Até parece que cido.
durante aqueles 10 anos todas as forças do inferno E depois, em cada 2 anos, cada mordomo capri-
se conjugaram contra a comunidade cristã-nova de chava na ornamentação da igreja e, no fim, sem-
Carção, a qual sofreu um autêntico massacre, imo- pre desapareciam alguns sambenitos. Certamente
lada em verdadeiro holocausto. que também haveria nisso alguma cumplicidade dos
padres, a quem os cristãos-novos muitas prebendas
O renascer constante da Fénix chegariam e muitas veniagas renderiam.
O mais espantoso é ver como, apesar das fugas e
do holocausto, a comunidade sobreviveu, a fé mo- Uma derradeira vaga de prisões
saica resistiu e como, 40 anos depois, a geração que Chegou-se ao ano de 1736. E então, no dia de S.
se seguiu, os filhos e os netos daqueles processa- António, como era costume, realizaram-se uns fes-
dos e queimados souberam manter viva a chama do tejos populares no largo da aldeia, onde também
marranismo e dar provas inequívocas de resistência ficava a casa do pároco. Nesses festejos havia uma
aos métodos do Santo Ofício. espécie de auto em que entravam os boieiros e os
E houve casos de resistência interior persistente, pastores da terra, lançando-se trovas alusivas ao
uma resistência colectiva que corporiza exemplar- viver colectivo. E então os pastores atiravam esta
mente a maneira de viver dos marranos de Carção. trova:
Com efeito, estando legalmente impedidos de en-
trar nas confrarias e desempenhar cargos na esfera Graças a Deus para sempre
da igreja, eles promoveram as mais diversas diligên- Agora fará um ano
cias para alterar a situação. E depois de muitos anos Que na nossa igreja posta
de requerimentos e contactos com as autoridades Naquela parede toda
religiosas de Lamego e Braga, alcançaram para isso Ainda se via estopa.
autorização do bispo da diocese de Miranda. E agora por desgraça
E parece que foram eles que construiriam a ca- Nem uma que ali se topa
pela de Santo Estêvão e ficaram desde logo com as
chaves da mesma e a promover nela o culto cristão. Levantou-se de imediato um enorme burburinho
Mas, se, no dia do patrono, ali rezava o padre a entre os assistentes cristãos-novos e só não houve
missa e pregava sermão se fazia uma festa cristã, tumulto porque o padre se impôs. A verdade, po-
parece que em outras ocasiões, o “rabi” nela cele- rém, é que este não podia abafar o escândalo. A
brava “missa judaica”. cena foi comentada e a notícia acabou por chegar
Importante mesmo para eles foi a entrada na a Coimbra. Seguiram-se devassas e… foram presos 6
confraria do Santíssimo Sacramento cuja direcção membros da comunidade, acusados de terem rou-
ficou anualmente partilhada entre eles e os cris- bado os sambenitos “ afim de riscar da memória”
tãos-velhos, a partir de 1721. E isso era importante colectiva os nomes dos seus ascendentes que foram
pois lhes dava acesso à chave da igreja matriz e a relaxados. Efectivamente, todos eles eram filhos e/
responsabilidade da sua manutenção e de todas as ou netos daqueles que haviam sido queimados nas
alfaias e paramentos. fogueiras da Inquisição. Decorreram os processos e
E foi um deslumbramento a festa do Copo de todos eles foram condenados a degredo, pena que
Deus organizada no ano de 1722 quando um deles, parecerá bastante ligeira, em relação à gravidade
pela primeira vez, ocupou o cargo de mordomo do crime mas é preciso recordar que os tempos
principal. Nunca se tinha visto coisa assim: a igre- eram outros, que as ideias do iluminismo se espa-
ja toda caiada de novo, toda engalanada, com as lhavam e a Inquisição entrava em agonia.
paredes ornadas de finos tecidos de seda e cetim e E se, não temos conhecimento de nenhuma terra
papeis coloridos e flores e toalhas novas nos altares que tenha sido tão massacrada como Carção, tam-
e novas bandeiras e pendões e alfaias bem polidas e bém estamos convencidos de que, em nenhuma ou-
paramentos bem lavados – tudo para o engrandeci- tra parte do Reino houve tanta resistência ao ofício
mento do culto. que se dizia santo de massacrar corpos para salvar
Ficaram os cristãos-velhos de boca aberta e, almas.
pela primeira vez, aquela geração de cristãos-no- Do exposto e que é um breve resumo e simples
vos entraram na igreja e não viram pendurados os amostra da actuação daquele tribunal, bem pode a
execrados sambenitos de seus familiares e amigos aldeia de Carção ser candidata ao titulo de capital
que haviam sido queimados nas fogueiras do Santo do marranismo.
Ofício, tapados que estavam pelos ornamentos pre- M.ª Fernanda Guimarães
parados para a festa. António J. Andrade

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Quarto
15,30m2
Quarto
18,05m2 Quarto Quarto
15,15m2 Quarto Quarto
15,55m2 15,70m2 15,10m2
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Varanda
2,45m2
IOSO

Construções EMICLAU II
CASA
Cláudio - 966 344 280
Emílio - 966 344 279
em BRAGANÇA
Construções SUCESSO
Venda de Apartamentos
SUA
Varanda Varanda
4,60m2 4,70m2

FUTURO
CM CM
GÁS
Cozinha Cozinha
EDP
BI 17,60m2 17,60m2
Lavandaria Lavandaria
5,25m2 5,00m2

A
MLL Tanq. MLR MLL
Tanq. MLR

SEU
Água Vent.
Sala Sala
29,25m2 28,90m2
EECTRICIDADE / ITED

Frig. Frig.
EECT. / ITED EECT. / ITED

O IDEALIZE
T3 T3
Dtº Esqº
Gás Vent.
Hall
Hall
16,20m2
16,85m2 I.S.
I.S.

AQUI
5,75m2
5,75m2
I.S. I.S.
5,50m2 5,35m2

CONSTRUA
Quarto
15,30m2
Quarto
18,05m2 Quarto Quarto
15,15m2 Quarto Quarto
15,55m2 15,70m2 15,10m2
Varanda
2,45m2
Varanda Varanda
4,60m2 4,70m2

FUT em BRAGANÇA
CM CM
Cozinha Cozinha
17,60m2 17,60m2
Lavandaria Lavandaria
5,25m2 5,00m2

Construções EMICLAU II
SA
Venda de Apartamentos
MLL Tanq. MLR MLL
Tanq. MLR

SEU
Água Vent.
Sala Sala
29,25m2 28,90m2

Construções SUCESSO
EECTRICIDADE / ITED

Frig. Frig.
EECT. / ITED EECT. / ITED

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T3 T3
Dtº Esqº

UA
Gás Vent.
Hall
Hall
16,20m2
16,85m2 I.S.
I.S.

AQ
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5,75m2
I.S. I.S.
5,50m2 5,35m2
GÁS
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Quarto

A
15,30m2
Quarto
18,05m2 Quarto Quarto
15,15m2 Quarto Quarto
15,55m2 15,70m2 15,10m2

FRANCE
0033467717328
Varanda
2,45m2

ZE
AIGUES NORTES
em BRAGANÇA
Venda de Apartamentos
José Francisco Batista Afonso
Varanda Varanda
4,60m2 4,70m2

FUTURO
CM CM
Cozinha Cozinha
17,60m2 17,60m2
Lavandaria Lavandaria
5,25m2 5,00m2
MLL Tanq. MLR MLL
Tanq. MLR

SEU
Água Vent.

CONSTRUCTIONS – MAÇONERIE GENERALE


Sala Sala
29,25m2 28,90m2

EECTRICIDADE / ITED
Frig. Frig.
EECT. / ITED EECT. / ITED

O
T3 T3
Dtº Esqº
Gás Vent.
Hall
Hall
16,20m2
16,85m2 I.S.
I.S.

AQUI
5,75m2
5,75m2
I.S. I.S.
5,50m2 5,35m2

SARL BATISTA AFONSO


CONSTRUA
Quarto
15,30m2
Quarto
18,05m2 Quarto Quarto
15,15m2 Quarto Quarto
15,55m2 15,70m2 15,10m2
Varanda
2,45m2
CORTIFRISO
Materiais para a Construão Civil

Alto do Feto Telef. 273 512 217


5230-125 CARÇÃO Vimioso

Café • Restaurante

Rua das Fontes • CARÇÃO – 5230-122 Vimioso • Tel. 273 511 168

Restaurante Mesón LA PARRILLA


António Alberto Cordeiro Dias

E S P E C I A L I D A D EN:
C a r n e s a l a B r a s a y C o midas Caseras
G R A N T E R R AZA
C/ Gazaperas, 14-16 • 28944 Fuenlabrada (Madrid) • Tel.: 91 615 04 15

Cafeteria Restaurante CRUZ BLANCA


António Alberto Cordeiro Dias
C/ Gazapera, 22 (junto a Mercadona Arroyo)
Menú Diario / Menú Especial Fin de Semana
Comuniones, Bautizos, Bodas
Reservas
Precios a su Medida
91 492 26 85
Especialidad en: Arroz con Bogavante
S A L Ó N C L I M AT I Z A D O, BU E N T R ATO “ C O M P RU E B E LO ”

49
50
RETROSPECTIVA DE 2007/08
AGOSTO 2007

S. ROQUE

FEIRA DE ARTESANATO
PAULITEIROS GAITEIROS

CABEÇUDOS PROCISSÃO DE VELAS

51
DEZEMBRO 2007
FEBRE DOS CACHECOIS FOGUEIRAS DE NATAL

PROCISSÃO
NEVÃO

MATANÇA DO PORCO

52
FEVEREIRO 2008

MAIO 2008
CARNAVAL SR.ª DE FÁTIMA

FOLAR
MARÇO 2008

Leonel Vaqueiro

ENCOMENDAÇÃO DAS ALMAS CAMPOS FLORIDOS


54
55
Leonel Vaqueiro
J o s é Ca rl o s
Fe rn a n d e s Va z
Construção Civil e Renovações
Rua Baixo, 21 • 5230-130 Carção - Vimioso • Telef.: 273 512 798

Pimentão & Veiga, Construções


Promotor Imobiliário:
Compra e venda de Apartamentos
Lojas Comerciais e Terrenos

Telefones: Residência 273 331 379 · Escritório 273 333 599 • Telem. 919 934 313
Av. Cidade de Zamora, 92, R/C Dt.º • 5300-111 B R A G A N Ç A

Fernades & Falcão – Turismo Rural, Lda.


Lugar de Pereiras – Estrada Nacional 219
5230-286 Vimioso – Portugal
http://www.hotelruralvimioso.com
Tel. 273 518 000/2 • Fax 273 518 001 • Tlm 933 190 047

56
Tel. 91 729 71 47 - (Informacion y reservas)
Avda. Monasterio del Escorial, 2. 28049 Madrid
ACEPTAMOS: VISA, MASTER CARD, 4B, MAESTRO,
EURO 6000, AMERICAN EXPRESS
Mail: correo@otrasmontano.com (no válido para reservas)
Acceso Para Silla de Ruedas y aseos adaptados
Amplia zona de aparcamiento

José Luis João Alves – Graça Rodrigues Alves

Abiertos desde el 5 de octubre de 2007, el restaurante O’Trasmontano quiere ser una


continuidad a lo que en su día fue el ya desaparecido DON SOL y lo que es nuestro otro
restaurante, TRAS-OS-MONTES: un lugar agradable donde disfrutar de una amplia carta de
bacalaos cocinados con recetas tradicionales portuguesas además de la mejor carne de raza
alisteña, nuestros postres caseros y la gran carta de vinos que tenemos a su disposición.

RESTAURANTE www.transosmontes.es

Plato de oro gastronomia 2004 Radio Turismo • Plato de oro gastronomia 2005 Radio Turismo
Prémio “Galo de Barcelos” 2005 Mejor restaurante portugués em España.
Premio 2.º mejor restaurante extranjero 2004 por el diario EL MUNDO • Premio 2.º mejor maître 2004 por el diario EL MUNDO
Premio mejor bacalao dorado 2004 por el diario EL MUNDO • Reportajes en ABC, El País, El Mundo, AS, Revista HOJAS…

José Luis João Alves – Graça Rodrigues Alves

C/ Senda del Infante, 28 Posterior • 28035 Madrid – Edifício Diamela • (Frente auditorio – Alfredo Kraus) • Tel.: 913 765 727

57
N.ª Sr.ª das Graças
CARÇÃO
PROGRAMA CÍVICO
Dia 23 de Agosto – Sábado
• Final do torneio de Futebol 11 (C.D.C. de Carção)

Dia 24 de Agosto – Domingo


• Arruada Popular com o Grupo de Bombos Zés Pereiras de Bustelo -
Amarante
• FESTIVAL DE MÚSICA (Dj’s)

Dia 25 de Agosto – Segunda-feira


• Jogos tradicionais (vitela ou cabrito aos quadrados)
• Torneio de Sueca (1.º prémio - Vitela)

Dia 26 de Agosto – Terça-feira


• Jogos tradicionais
• Concurso de Dança
• Torneio de Chincalhão (Vitela em jogo)

Dia 27 de Agosto – Quarta-feira


• Salva de Morteiros
• Jogos Tradicionais
• Música Tradicional e Popular (Pauliteiros e Gaiteiros)
• Concerto da Banda de Música dos B. V. de Vimioso

Dia 28 de Agosto – Quinta-feira


• Salva de Morteiros
• Jogos Tradicionais
• Grupo Musical MELODIA

Dia 29 de Agosto – Sexta-feira


• Salva de Morteiros
• Jogos Tradicionais
• Abertura da II Feira do Artesanato
• Grupo Musical MELODIA
• JOSÉ MALHOA
PROGRAMA RELIGIOSO
Dia 30 de Agosto - Sábado
• Salva de Morteiros Dias 22 a 29 de Agosto
• II Feira do Artesanato Novena Religiosa na Igreja de St.ª Cruz
• Grupo Musical NÚCLEO
• JORGE FERREIRA Dia 30 de Agosto - Sábado
• ESPECTÁCULO PIRO-MUSICAL 14.00 horas – Missa com Sermão em Honra de St.ª Teresinha,
seguida de Procissão.
Dia 31 de Agosto - Domingo 21.00 horas – Momento Alto de Veneração da Srª das Graças;
• Alvorada com salva de morteiros Procissão de Velas;
• Arruada com a Banda de Música dos B. V. de Vimioso Missa Campal na Capela de St.ª Marinha com Sermão.
• Grupo Musical NÚCLEO
• Entrega da Festa Dia 31 de Agosto – Domingo
14.30 horas – Missa Solene dos Devotos à Padroeira com Sermão,
seguida de Procissão. “Adeus à Virgem”.
“Momentos de Reflexão”.

22 a 31 de Agosto • 2008

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