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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARING£

CENTRO DE CI NCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES PROGRAMA DE P”S-GRADUA« O EM LETRAS (MESTRADO)

Esdras Mendes Linhares

PADRE VIEIRA, O HOMEM E O DISCURSO

Uma Leitura do Serm„o do Bom Ladr„o e do Serm„o de Santo AntÙnio aos

Peixes

MARING£ ñ PR

2007

ESDRAS MENDES LINHARES

PADRE VIEIRA, O HOMEM E O DISCURSO

Uma Leitura do Serm„o do Bom Ladr„o e do Serm„o de Santo AntÙnio aos

Peixes

DissertaÁ„o apresentada ao Programa de PÛs-graduaÁ„o em Letras (Mestrado) da Universidade Estadual de Maring·, como requisito parcial para obtenÁ„o do grau de Mestre em Letras, ·rea de concentraÁ„o: Estudos Liter·rios.

Orientador: Prof. Dr. AÈcio Fl·vio de Carvalho

MARING£ ñ PR

2007

Dados Internacionais de CatalogaÁ„o-na-PublicaÁ„o (CIP) (Biblioteca Central - UEM, Maring· ñ PR., Brasil)

L755p

Linhares, Esdras Mendes Padre Vieira, o homem e o discurso: uma leitura do

Sermão do bom ladrão e do Sermão de Santo Antônio aos peixes. / Esdras Mendes Linhares. – Maringá, PR : [s.n.],

2007.

143 f.

Orientador : Prof. Dr. Aécio Flávio de Carvalho. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Maringá. Programa de Pós-graduação em Letras, 2007.

1. Vieira, Antônio, Pe., 1608-1697 - Literatura. 2. Vieira, Antônio, Pe., 1608-1697 - Discurso. 3. Sermão de Santo Antônio aos peixes - Vieira, Antônio, Pe, 1608-1697 - Análise. 4. Sermão do bom ladrão - Vieira, Antônio, Pe., 1608-1697 - Análise. 5. Vieira, Antônio, Pe., 1608-1697 - Discurso clássico. 6. Vieira, Antônio, Pe., 1608-1697 - Discurso Sacro. 7. Vieira, Antônio, Pe., 1608-1697 - Literatura - Vanguardismo. I. Universidade Estadual de Maringá. Programa de Pós-graduação em Letras. II. Título

CDD 21.ed.801.95

ESDRAS MENDES LINHARES

PADRE VIEIRA, O HOMEM E O DISCURSO

Uma Leitura do Serm„o do Bom Ladr„o e do Serm„o de Santo AntÙnio aos

Peixes

DissertaÁ„o apresentada ao Programa de PÛs-graduaÁ„o em Letras (Mestrado) da Universidade Estadual de Maring·, como requisito parcial para obtenÁ„o do grau de Mestre em Letras, ·rea de concentraÁ„o: Estudos Liter·rios.

Aprovado em

de

de 2007

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. AÈcio Fl·vio de Carvalho

Universidade Estadual de Maring·

Prof™

Dr™ Clarice Zamonaro Cortez

Universidade Estadual de Maring·

Prof. Dr. Joaquim Carvalho da Silva

Universidade Estadual de Londrina

Dedico este trabalho

A Osair Mendes Linhares, minha m„e, exemplo de firmeza, amor e fÈ, que, em vez de buscar riquezas para si, considerou como maior riqueza a formaÁ„o e o cuidado integral dos seus filhos, investindo sua vida nesse mister.

AGRADECIMENTOS

A Deus pela vida, forÁa, e inspiraÁ„o. Nos momentos de indecis„o, fraqueza e inseguranÁa, Ele foi o caminho a forÁa e a seguranÁa.

¿

minha esposa, LÌbia Aparecida Silva Linhares, minha maior incentivadora a buscar

o

aperfeiÁoamento, companheira e amiga fiel em todos os momentos. O seu amor,

carinho, e compreens„o foram a forÁa para os momentos de des‚nimo e fraqueza.

Ao meu filho Filipe Silva Linhares, companheiro e amigo, que me motiva a olhar para

o futuro, pelo seu amor, carinho e compreens„o. Sua presenÁa sempre foi um conforto.

Aos meus pais, Altair Batista Linhares e Osair Mendes Linhares, que doaram uma parte de si para que eu fosse o que eu sou.

Ao professor Dr. AÈcio Fl·vio de Carvalho, exemplo de dedicaÁ„o, firmeza e perseveranÁa, incans·vel na sua busca pela perfeiÁ„o, os meus sinceros agradecimentos pela sua orientaÁ„o firme e segura demonstrada na elaboraÁ„o deste trabalho e tambÈm pelo incentivo, confianÁa e amizade nesses anos de convivÍncia. A vocÍ, a minha admiraÁ„o.

¿ professora Dr™ Clarice Zamonaro Cortez, os meus sinceros agradecimentos pela

sua amizade, dedicaÁ„o e firmeza, pelos conhecimentos transmitidos na Disciplina Teorias CrÌticas e HistÛria, pela sua participaÁ„o na banca examinadora desta dissertaÁ„o e pelas preciosas sugestıes oferecidas para a melhoria do trabalho.

Ao professor Dr. Joaquim de Carvalho da Silva, os meus sinceros agradecimentos pela sua participaÁ„o na banca examinadora e pelas valiosas sugestıes que muito contribuÌram para o aperfeiÁoamento deste trabalho dissertativo.

Ao professor Dr. Thomas Bonnici, pela amizade, dedicaÁ„o e pelos conhecimentos transmitidos na disciplina Colonialismo e RepresentaÁ„o do Sujeito, que contribuÌram para a minha reflex„o sobre os problemas sociais envolvidos no processo de colonizaÁ„o do Brasil.

Ao Pr. Emerson Garcia Dutra, amigo de inf‚ncia, companheiro e incentivador, que fez, com muito esmero, a revis„o deste trabalho.

Ao Pr. Edson de Souza, amigo e meu anfitri„o, sempre que precisei vir a Maring· para atender ao curso.

Ao Dr. Wilson Kiochima que, nos momentos difÌceis desta caminhada, cuidou de mim.

Ao Pr. Dr. Nilton Vieira Matos que me ajudou a renovar as esperanÁas e seguir em frente.

Ao Departamento de PÛs-graduaÁ„o em Letras da Universidade de Maring·, pela oportunidade concedida a mim de poder participar do curso de Mestrado em Letras.

¿ Prof™. Dr™. Maria CÈlia Cortez Passetti, meus sinceros agradecimentos pela sua firmeza e competÍncia na coordenaÁ„o do Departamento de PÛs-GraduaÁ„o em Letras da Universidade de Maring·.

A Andrea, secret·ria do Departamento de PÛs-graduaÁ„o em Letras, pela amizade, firmeza e competÍncia no atendimento aos discentes.

Ao Pr. Jeloilson da Silva Boher, pelo seu incentivo e apoio na impress„o dos originais dessa dissertaÁ„o.

Ao Semin·rio Presbiteriano Renovado de Cianorte, pelo seu apoio, essencial, para a realizaÁ„o deste curso.

Aos meus colegas de trabalho pelo apoio, ajuda, compreens„o e companheirismo.

Aos meus colegas de turma, pela amizade, uni„o e companheirismo.

A todos, que direta, ou, indiretamente, contribuÌram para pudesse concluir este trabalho.

No caminho da sabedoria, te ensinei e pelas veredas da retid„o te fiz andar. Em andando por elas, n„o se embaraÁar„o os teus passos; se correres, n„o tropeÁar·s. (BÌblia Sagrada)

RESUMO

Pode-se afirmar que, em decorrÍncia da sua colonizaÁ„o, o Brasil tem uma relaÁ„o histÛrica, cultural e social com Portugal. Assim sendo, as raÌzes da cultura e literatura brasileiras s„o portuguesas. Em funÁ„o dessa afinidade, reputa-se como importante estudar as obras dos autores portugueses, sobretudo aqueles que tÍm uma proximidade maior com a literatura brasileira, como È o caso de AntÙnio Vieira, conhecido como o orador de dois mundos. Avaliando a import‚ncia de Vieira para a literatura brasileira, propÙs-se fazer uma leitura crÌtica de dois sermıes de sua autoria, ìO Serm„o de Santo AntÙnio aos Peixesî (1654) e ìO serm„o do Bom Ladr„oî (1655). A escolha dos sermıes justifica-se pela densidade teolÛgica do seu conte˙do e pela forma como Vieira aplica esses princÌpios aos problemas da sociedade da sua Època. Procura-se observar no corpus escolhido: a relaÁ„o do discurso de Vieira com o discurso cl·ssico, com a sociedade do seu tempo e os seus posicionamentos em relaÁ„o ao modus operandi das instituiÁıes da sua Època. As teorias que embasam a an·lise s„o a EstÈtica da RecepÁ„o de Hans Robert Jauss (1985) e a CrÌtica SociolÛgica de Antonio Candido (1994). Para dar consecuÁ„o ao trabalho foi realizada uma pesquisa bibliogr·fica com a finalidade de conhecer aspectos que permitem enquadrar a obra de Vieira no seu contexto histÛrico-sÛcio- ideolÛgico. Num primeiro momento, foi estudado o discurso cl·ssico, observando o seu surgimento, desenvolvimento e os principais expoentes. Esse estudo serve como embasamento para avaliaÁ„o dos elementos cl·ssicos presentes no discurso de Vieira, com vistas a uma compreens„o melhor do impacto da sua eloq¸Íncia na sociedade contempor‚nea. Na seq¸Íncia da leitura, busca-se conhecer o discurso moderno, estudando a ìestÈtica da recepÁ„oî de Hans Robert Jauss,(1994) que ressalta a import‚ncia do leitor do passado e do presente na construÁ„o do significado da obra; e a ìcrÌtica sociolÛgicaî, de Antonio Candido,(1985) que, por sua vez, contribui para esta leitura com subsÌdios que permitem estabelecer a relaÁ„o do autor com a sociedade contempor‚nea, observando as influÍncias da sociedade nos seus escritos e, atÈ que ponto, as suas idÈias influenciaram a sociedade contempor‚nea e qual a sua validade para a sociedade atual. O estudo do contexto tem o objetivo de conhecer as circunst‚ncias da Època em que a obra foi escrita e observar o autor no seu ambiente. Os conhecimentos adquiridos nessa pesquisa s„o aplicados ‡ an·lise do corpus, com a finalidade de comprovar as hipÛteses levantadas inicialmente. Dessa forma, acredita-se que ir· sobressair da leitura desses escritos, aspectos do pensamento de Vieira que permitam que ele seja reconhecido como vanguardista, o que, sem sair da finalidade explÌcita, resulta na valorizaÁ„o da figura de Vieira

Palavras-Chave: oratÛria sagrada, discurso cl·ssico, vanguardismo

ABSTRACT

Brazilian literary and cultural roots are actually Portuguese since Brazil has a historical, cultural and social relationship with Portugal owing to colonialism. These affinities enhance the importance of studying the literary works of Portuguese authors, especially those closest to Brazilian literature. This is the case of Padre Antonio Vieira known as the orator of the Old and New World. So that the importance of Vieira in Brazilian literature may be evaluated, ìThe Sermon of the Good Thiefî (1998) and ìThe Sermon of St. Anthony to Fishî (1998) are read critically. The two sermons were chosen for their dense theological contents and for the manner Vieira applies these principles to the problems of contemporary society. The relationship of Vieiraís discourse to classical discourse and to the society of his times and his stance with regard to the modus operandi of the institutions of his times have been the factors examined within the chosen corpus. Jaussís Aesthetics of Reception Theory (1985) and Candidoís Sociological Critique (1994) underpin current analysis. A bibliographical research has been undertaken so that Vieiraís literary work may be placed within its historical, social and ideological context. Classical discourse, comprising its birth, development and its main authors, is investigated so that the classical elements in Vieiraís discourse could be assessed for a better understanding of the impact of his eloquence within contemporary society. Modern discourse is further studied through Jaussís aesthetics of reception that highlights the past and present readerís importance in the construction of the literary workís meaning. Candidoís ìsociological critiqueî contributes towards this interpretation by establishing the authorís relationship with contemporary society. The latter is undertaken through an analysis of societyís influence in his writings and through an investigation to see to what extent his ideas have influenced contemporary society and their worth in current society. Context study aims at understanding the author in his own environment and the circumstances in which the literary work was executed. Conclusions are thus applied to the analysis of the literary corpus so that the hypotheses stated at the start may be proved. It is expected that certain aspects of Vieiraís ideology will show the progressive stance of the sacred orator.

Key words: sacred oratory; classical discourse, vanguardism

SUM£RIO:

INTRODU« O

12

1

O EXERCÕCIO DO DISCURSO CL£SSICO

16

1.1

A RetÛrica grega

18

1.2

A retÛrica latina

24

2

O EXERCÕCIO DO DISCURSO MODERNO

29

2.1

A EstÈtica da RecepÁ„o de Hans Robert Jauss

29

2.2

A CrÌtica SociolÛgica de AntÙnio C‚ndido

40

3

VIEIRA E O SEU TEMPO

55

3.1

Precedentes contextuais

55

3.1.1

As relaÁıes sociais na Idade MÈdia

55

3.1.2

Fatores que determinaram mudanÁas na mentalidade do

homem no final da Idade MÈdia

56

3.2

Condicionantes polÌtico-ideolÛgicos e liter·rios

60

3.2.1

A Contra Reforma

60

3.2.2

O Barroco

65

3.2.3

A relaÁ„o do Barroco com a Contra Reforma

68

3.3

Vieira e sua OratÛria

70

4

LEITURA DO CORPUS SOB A PERSPECTIVA DA

EST…TICA DA RECEP« O E DA CRÕTICA SOCIOL”GICA

75

4.2

O Serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes

80

4.3

CaracterÌsticas Gerais da ParenÈtica

90

4.4

InfluÍncias estruturais e estilÌsticas

91

4.5

A obra de Vieira e sua recepÁ„o

100

4.6

A relaÁ„o dos sermıes com o seu ambiente

sociocultural

110

5

CONSIDERA«’ES FINAIS

134

6

NOTAS EXPLICATIVAS

140

7

BIBLIOGRAFIA

141

12

IntroduÁ„o:

A naÁ„o brasileira tem uma ligaÁ„o histÛrica, social, religiosa e cultural com Portugal, paÌs do qual foi colÙnia desde o seu descobrimento, em 1500, atÈ 1822, ano em que foi proclamada a independÍncia. Mesmo depois de independente, essa ligaÁ„o perdura. Nos primeiros anos, como naÁ„o livre, o Brasil foi governado por descendentes da famÌlia real portuguesa e continuou a receber, evidentemente, uma forte influÍncia daquela naÁ„o. Dessa forma, temos em Portugal as origens da naÁ„o brasileira. Em funÁ„o disso, as raÌzes da nossa histÛria, cultura e literatura s„o portuguesas.

Portugal foi um n˙cleo liter·rio importante na Europa, com representantes que o fizeram galgar os mais altos degraus de relev‚ncia da literatura mundial. Dentre esses representantes, queremos focar a nossa atenÁ„o em AntÙnio Vieira, padre jesuÌta, do sÈculo XVII, escritor de v·rias obras, que repercutiram aquÈm e alÈm-mar, destacando-se, de acordo com a crÌtica, como o maior expoente do barroco portuguÍs e brasileiro.

Escritor fecundo, Vieira demonstrou versatilidade no desempenho de funÁıes como, religioso, pregador e homem de Estado. Na opini„o de Amora (1981), n„o foi apenas grande como escritor ou pregador, mas tambÈm pela capacidade de compreender os problemas religiosos, morais, sociais e econÙmicos da sua Època. Felinto (2004) afirma que, nas comemoraÁıes dos 300 anos da morte de Vieira, fica evidente a eternidade da obra vieiriana. Prova disso, s„o as inesgot·veis investigaÁıes crÌticas feitas ‡ sua obra. Dessa forma, seus escritos s„o considerados cl·ssicos, porque tÍm validade e import‚ncia, n„o apenas para a sua Època, mas tambÈm para os nossos dias.

Vieira, n„o fala apenas ao leitor do sÈculo XVII, fala tambÈm ao leitor do sÈculo XXI. A independÍncia com que ele trata os assuntos do seu tempo È a independÍncia que se deseja que as pessoas tenham hoje no trato dos problemas das instituiÁıes sociais. Os assuntos enfocados nos seus escritos s„o pertinentes ao homem moderno. As crÌticas que ele faz ‡s instituiÁıes do seu tempo s„o pertinentes ‡s modernas. O seu estilo retÛrico È incisivo, belo, peculiar e inigual·vel, chamando a atenÁ„o dos retÛricos dos dias atuais.

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AlÈm disso, em se tratando da relaÁ„o com a literatura brasileira, È importante estudar Vieira pela ligaÁ„o das suas obras com a literatura brasileira; mesmo porque, ele È considerado um escritor luso-brasileiro. Muitos dos seus sermıes enfocam assuntos do Brasil como, ìO Serm„o de Santo AntÙnio aos Peixesî, pregado no Maranh„o, ìO Serm„o pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holandaî, pregado na Bahia no ano de 1640, dentre outros. Assim sendo, considera-se importante o estudo da obra de AntÙnio Vieira, como uma forma de evidenciar essa ligaÁ„o da literatura brasileira com a literatura portuguesa e, portanto, fazer um retorno ‡s origens da cultura brasileira, em busca da nossa identidade.

Como exemplares da obra vieiriana, tendo em vista os objetivos deste trabalho, foram escolhidos para constituir o seu corpus ìO Serm„o de Santo AntÙnio aos Peixesî (1654) e ìO Serm„o do Bom Ladr„oî(1655). A escolha desses sermıes justifica-se pela densidade teolÛgica do seu conte˙do e pela forma como Vieira aplica esses princÌpios ‡ sociedade da sua Època, criticando as instituiÁıes e lutando por um tratamento igualit·rio ao ser humano.

Procura-se observar no corpus escolhido: a relaÁ„o do seu conte˙do com as concepÁıes da sociedade contempor‚nea e o posicionamento de Vieira em relaÁ„o ao modus operandi das instituiÁıes da sua Època, da perspectiva da estÈtica da RecepÁ„o de Hans Robert Jauss e da CrÌtica SociolÛgica de Antonio Candido.

Os objetivos deste trabalho, portanto, s„o: avaliar o poder do discurso de Vieira, atÈ que ponto ele recebe influÍncia da retÛrica cl·ssica e como o orador usa suas proposiÁıes para potencializ·-lo; avaliar, na perspectiva do MÈtodo Recepcional de Jauss, o contexto em que Vieira pregou e divulgou seus sermıes e o seu p˙blico receptor, considerando o modo como os ouvintes/leitores receberam a obra e como ela È reconhecida nos dias atuais; observar, na perspectiva da CrÌtica SociolÛgica, de AntÙnio C‚ndido, a ideologia e o modus operandi das instituiÁıes sociais da Època, o posicionamento ideolÛgico de Vieira e suas crÌticas a essas instituiÁıes; avaliar, atÈ que ponto, Vieira recebeu influÍncias do seu tempo e se as suas idÈias podem ser consideradas vanguardistas.

Para a concretizaÁ„o do trabalho, faz-se, no capÌtulo primeiro, o reconhecimento das origens e desenvolvimento do discurso como exercÌcio da comunicaÁ„o e transmiss„o de informaÁıes e idÈias. TambÈm se estuda o uso da

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retÛrica como instrumento da linguagem e faz-se uma exposiÁ„o sucinta dos maiores expoentes da eloq¸Íncia. Finalmente, avalia-se a influÍncia dos preceitos da retÛrica cl·ssica sobre a oratÛria posterior e, genericamente, o poder do discurso sobre a sociedade, que significa o poder do passado sobre o presente e, por sua vez, o poder do presente sobre o futuro.

No segundo capÌtulo, busca-se conhecer o discurso moderno, estudando

a ìEstÈtica da RecepÁ„oî de Hans Robert Jauss(1994), cujas proposiÁıes, ressaltam

a import‚ncia do leitor do passado e do presente na construÁ„o do significado da

obra; e a ìCrÌtica SociolÛgicaî, de Antonio Candido (1985), que, por sua vez, contribui, para esta leitura, com subsÌdios que permitem estabelecer a relaÁ„o do autor com a sociedade contempor‚nea, observando as influÍncias da sociedade nos seus escritos, atÈ que ponto, as suas idÈias influenciaram a sociedade contempor‚nea e a sua validade para a sociedade atual.

O MÈtodo Recepcional tomou corpo na dÈcada de 60, do sÈculo

passado, quando Jauss critica os mÈtodos de an·lise liter·ria vigentes, que consideravam a literatura desvinculada dos fatores externos, vista, t„o-somente, nos seus aspectos estruturais. Ele esboÁa, ent„o, um mÈtodo que relaciona a crÌtica

liter·ria aos aspectos diacrÙnicos e ‡ vis„o do seu p˙blico receptor, cujo nome È Teoria da RecepÁ„o ou MÈtodo Recepcional.

Antonio Candido, caminhando numa direÁ„o paralela, conforme deixa transparecer no seu livro Literatura e Sociedade, (1985) afirma que as influÍncias da sociedade sobre a literatura n„o devem ser consideradas como influÍncias externas, mas como elementos intrÌnsecos da literatura. Na sua concepÁ„o, a arte tanto influencia a sociedade quanto È influenciada por ela.

O terceiro capÌtulo busca trazer informaÁıes sobre o contexto da Època, focalizando a Contra-Reforma, o Barroco portuguÍs e a oratÛria vieiriana, com vistas a localizar a obra no ambiente histÛrico e cultural em que surgiu, conhecer a formaÁ„o doutrin·ria e retÛrica do orador e avaliar a sua relev‚ncia para a sociedade em que viveu.

No quarto capÌtulo, os conhecimentos adquiridos nessa pesquisa s„o aplicados ‡ an·lise do corpus, com o objetivo de comprovar as hipÛteses levantadas, inicialmente. Dessa forma, espera-se que ir· sobressair, da leitura

15

desses escritos, aspectos do pensamento de Vieira que permitam que ele seja reconhecido como vanguardista.

16

1 O EXERCÕCIO DO DISCURSO CL£SSICO:

A comunicaÁ„o È um processo de extrema import‚ncia para os seres

humanos, pois permite o interc‚mbio de informaÁıes, utilizando, para esse fim, um

sistema simbÛlico. O ato de comunicar È a materializaÁ„o do pensamento ou sentimento em signos conhecidos pelas partes envolvidas. A comunicaÁ„o È sempre um processo social; n„o h· como ser realizada individualmente.

Dessa forma, para que a comunicaÁ„o aconteÁa, s„o necess·rios determinados elementos, que fazem parte do processo comunicacional. Esses elementos, de acordo com os estudiosos da teoria da comunicaÁ„o, s„o: o emissor, o receptor, a mensagem, um cÛdigo comum, o canal de propagaÁ„o, o meio de comunicaÁ„o, a resposta e o ambiente onde acontece o processo comunicativo.

… importante notar a forma como pode ocorrer o processo comunicativo:

n„o-verbal, verbal, e mediada. A comunicaÁ„o n„o-verbal È realizada sem sinais verbais, ou seja, n„o usa a fala, nem a escrita, mas, outra simbologia. S„o outros sÌmbolos (gestos e Ìcones, que supıem formas, cores e movimentos) cuja combinaÁ„o possibilita exprimir idÈias e conceitos numa linguagem figurativa ou abstrata, que devem ser interpretados e ìtraduzidosî da linguagem n„o-verbal para uma linguagem verbalizada. J·, a comunicaÁ„o verbal È realizada pela fala e escrita, usando um cÛdigo, que È a lÌngua. Enquanto, a comunicaÁ„o mediada È aquela que chega ao receptor por intermedi·rios, que s„o os meios de comunicaÁ„o.

O ato de comunicaÁ„o È um ato discursivo, porque ‡ medida que o

homem se comunica, est· produzindo um discurso. Esse termo tem, nesse caso,

um sentido lato, vinculado ‡s teses da an·lise do discurso. Segundo Orlandi (1999,

palavra discurso, etimologicamente, tem em si a idÈia de curso, de

percurso, de correr por, de movimento. O discurso È assim palavra em movimento, pr·tica de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falandoî.

p.15), ì

a

Nessa acepÁ„o, o discurso È qualquer manifestaÁ„o comunicativa entre locutores. O discurso usa a lÌngua como cÛdigo comum de comunicaÁ„o. Coelho Netto (2001), afirma que o discurso È individual e social. … individual na medida que se constitui em um ato pessoal de um sujeito utilizando a lÌngua, um modo prÛprio de

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o indivÌduo combinar os elementos da lÌngua no ato de comunicaÁ„o; È social

porque o indivÌduo utiliza um sistema preexistente, uma instituiÁ„o social que acumulou historicamente uma sÈrie de valores e sobre a qual, em princÌpio, o indivÌduo n„o tem nenhuma ascendÍncia enquanto indivÌduo. AlÈm disso, h„o de se considerar as influÍncias ideolÛgicas no discurso. Um indivÌduo fala, n„o apenas aquilo que ele concebe, mas aquilo que foi acumulado pela sociedade no decorrer

da histÛria e reproduzido na fala. Essa opini„o corroboram-na Nicolacci-da-Costa et

al (2006), ao afirmar que:

Discurso È a pr·tica social de produÁ„o de textos. Isto significa que todo discurso È uma construÁ„o social, n„o individual, e que sÛ pode ser analisado considerando seu contexto histÛrico-social, suas condiÁıes de produÁ„o; significa ainda que o discurso reflete uma vis„o de mundo determinada, necessariamente, vinculada ‡ do(s) seu(s) autor(es) e ‡ sociedade em que vive(m).

Considerado numa acepÁ„o mais especÌfica, voltada para os objetivos dessa pesquisa, o discurso È uma exposiÁ„o arrazoada e organizada sobre determinado assunto, com o objetivo de influenciar o raciocÌnio ou as emoÁıes do ouvinte ou leitor. AristÛteles, no Organon 1 , classifica o discurso, segundo sua finalidade, ordenando-o de acordo com o grau de rigor que o mÈtodo produz, como :

que È o mÈtodo pelo qual se atinge a uma

certeza absoluta.

2. O discurso dialÈtico: no qual se tenta obter a m·xima probabilidade de certeza e veracidade e que se verifica da sÌntese entre duas afirmaÁıes antagÙnicas, a saber, a tese e sua antÌtese.

3. O discurso retÛrico: no qual o orador ou o escritor objetiva apenas

1. O discurso lÛgico:

convencer o ouvinte ou o leitor da sua verdade, valendo-se tambÈm de recursos gestuais.

4. O discurso poÈtico: atravÈs do qual se busca influir na emoÁ„o e

n„o no raciocÌnio.

No decorrer da histÛria, houve uma mistura de elementos desses tipos do discurso, ocasionando a modificaÁ„o dos seus atributos. Esse fenÙmeno aconteceu, de forma mais evidente, com o discurso retÛrico. Primeiramente, porque esse tipo de discurso tem uma aplicaÁ„o mais imediata ‡s necessidades do dia-a-dia, motivando

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seu uso popular, constante e variado, sendo, por esse motivo, mais usado. Depois, por causa da sua forma, geralmente, oral, o que facilita a incorporaÁ„o de outros elementos a ele. E, por ˙ltimo, visto ser usado, cotidiana e constantemente, gera a necessidade de inovaÁıes, que, muitas vezes, s„o trazidas dos outros tipos de discurso.

Ser· o discurso retÛrico objeto de um estudo, aqui sintÈtico, considerando-se que È a forma como foram construÌdos os textos que constituem o corpus escolhido para ultimar os objetivos deste trabalho. Esse tipo de discurso tem uma relaÁ„o muito prÛxima com a retÛrica, que traÁa-lhes regras de organizaÁ„o, a fim de que possa alcanÁar, com eficiÍncia, os seus objetivos. Essa relaÁ„o, retÛrica- oratÛria, tem origem e tradiÁ„o cl·ssicas: È entre os gregos e romanos que podem ser encontrados os germens de uma e de outra.

Em virtude dessa relaÁ„o, È importante acompanhar a trajetÛria do discurso cl·ssico, considerando o desenvolvimento da retÛrica como componente essencial e fixador das suas regras. A retÛrica pode ser conceituada como a tÈcnica (ou a arte) de convencer o interlocutor atravÈs da oratÛria.

1.1 A RET”RICA GREGA

O primeiro tratado de retÛrica surgiu na SicÌlia, por volta do ano 465 a.C., quando CÛrax e TÌsias escreveram a Teoria da RetÛrica, com o objetivo de capacitar os cidad„os daquela regi„o, no momento em que estava nascendo ali a democracia e havia muitos processos nos tribunais, a defender os seus direitos. Segundo Plebe (1978), a fundamentaÁ„o teÛrica da retÛrica de CÛrax e TÌsias era a busca pelo verossÌmil (t· eikÛta). … uma retÛrica que buscava provas (pÌsteis), que assumia uma posiÁ„o de arte assentada em preceitos cientÌficos, definida como kat·stasis, isto È, ìuma quest„o colocada em debateî.

Foram os sofistas, de acordo com Fonseca (2001), os respons·veis por levar essa teoria retÛrica da SicÌlia para Atenas. A partir de ent„o, passaram a

19

dedicar-se ao estudo da gram·tica, dos sinÙnimos, das frases bem elaboradas, exercitando-se em sustentar opiniıes divergentes entre si, com a finalidade de cultivar o discurso retÛrico.

A pesquisa sofista, ainda que revelasse interesse por questıes morais, filosÛficas e polÌticas, teve por objetivo primordial o ensino da retÛrica, e serviu-se de argumentos ilusÛrios e enganosos com a finalidade de persuadir o seu ouvinte, sem, necessariamente, fundamentar-se na verdade. Na concepÁ„o de Fonseca (2001, p.103), ìOs sofistas objetivavam impressionar o p˙blico, exibindo com grande orgulho a sua habilidade de tornar ëforte a causa fracaíî.

Nessa mesma Època, distinguiu-se um grupo que, ao contr·rio do pensamento de CÛrax e TÌsias, defendia uma retÛrica baseada na demonstraÁ„o tÈcnica do verossÌmil. Esse grupo concebia uma retÛrica n„o cientÌfica, mas psicagÛgica, baseada na compreens„o de que a palavra, quando usada de modo apropriado, exerce, sobre a alma dos ouvintes, uma seduÁ„o irracional.

Essa corrente est· ligada ao pensamento pitagÛrico e se fundamenta nos discursos de Pit·goras. Segundo Plebe (1978, p.3), ìas caracterÌsticas fundamentais destes discursos s„o duas: em primeiro lugar, o seu propÛsito de usar estilo e argumentos diferentes conforme os diferentes ouvintes; a seguir, o emprego constante da figura retÛrica da antÌteseî. Conforme a primeira concepÁ„o, o orador deve procurar modos de express„o de acordo com as caracterÌsticas dos diferentes grupos para os quais ir· falar. Essa habilidade do orador È chamada de politropÌa e significa, a faculdade de encontrar diversos modos de express„o convenientes a cada um.

O segundo princÌpio, a antÌtese, constitui-se no uso de termos contr·rios, como o dia e a noite, o comeÁo e o fim, para firmar os argumentos. Na avaliaÁ„o de Plebe (1978), o emprego da politropÌa e da antÌtese visam despertar as reaÁıes psicolÛgicas do ouvinte, sendo, portanto, uma tÈcnica da psicagogia retÛrica. Nessa Època, os gregos comeÁaram a dividir os seus discursos em partes, definindo para cada uma delas uma funÁ„o. A partir de ent„o, o discurso foi delineado para ter comeÁo, meio e fim, constituindo-se de proÍmio, narrativa, argumentaÁ„o e epÌlogo.

Outra concepÁ„o que teve grande repercuss„o no mundo antigo foi a doutrina do kairÛs retÛrico. O termo kairÛs significa ìoportunidadeî. Esse conceito,

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entendido como ìoportunidade retÛricaî, relaciona-se com o polytropos e predica que È necess·rio encontrar o modo certo e as palavras oportunas para comunicar-se com os diferentes grupos de pessoas.

Um conceito correlato, introduzido por Prot·goras, foi a orthoÈpeia. De acordo com Plebe (1978, p. 9), ìela È, de um lado, a propriedade de encontrar

De outro, ela È a prÛpria potÍncia do

O uso da orthoÈpeia potencializa o raciocÌnio na medida s„o ditas

palavras convenientes para expressar aquilo que È necess·rio, naquele momento. O uso desse recurso, para Prot·goras, tinha o objetivo de ìtornar mais potente o

raciocÌnio

palavras convenientes ‡ express„o. [ î

]

discurso menos v·lidoî (apud. Plebe, 1978, p.10).

Outro teÛrico de grande import‚ncia para a retÛrica foi GÛrgias, considerado o primeiro teorizador formal de uma arte retÛrica como disciplina independente. Segundo Plebe (1978), GÛrgias se preocupou com o estudo da efic·cia do logos e distingue a prosa e a poesia apenas como duas sub-espÈcies dele: o discurso sem metro e o discurso com metro.

Desse modo, Plebe (1978) conclui que GÛrgias tem a concepÁ„o de duas artes ñ a poÈtica e a retÛrica ñ que, embora tenham significados distintos, em determinados momentos se misturam. ìAmbos os conceitos remontam a um ˙nico

conceito gerador, o da ëpsicagogiaí, mas depois se separam, seguindo cada qual

vida prÛpria[

(Plebe 1978, p.14).

A poesia È vista como ap·te, que, literalmente, significa ìenganoî, ìilus„oî, ìseduÁ„oî, ìmagiaî ou ìencantamento poÈticoî. Segundo essa concepÁ„o de Gorgias, a poesia tira as pessoas da realidade maÁante em que vivem, permitindo que vivam um mundo de magia e encantamento. … como um ìfeitiÁoî que arrasta o homem para fora da realidade para sonhar aÁıes que n„o s„o reais.

Por outro lado, a retÛrica concretiza-se, tambÈm, pela ìpersuas„oî (peithÛ). ìPersuas„oî È o ato de conduzir o ouvinte ao caminho apontado pelo orador, convencÍ-lo de que esta È a ˙nica verdade e lev·-lo a agir de acordo com as suas posiÁıes defendidas no discurso. Em GÛrgias, poÈtica e retÛrica s„o entre si indissoci·veis e, ao mesmo tempo, distinguÌveis na sua problem·tica. Na concepÁ„o de Plebe (1978, p.15),

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essa particular estrutura da ìpersuas„oî retÛrica, aceita por GÛrgias, logo conduz a alguns corol·rios interessantes. Assim o tipo de ìenganoî por ela realizado parece ter sido para ele diferente do da poesia: enquanto a poesia faz crer na existÍncia de coisas que n„o existem, a ìpersuas„oî retÛrica, ao contr·rio, faz crer que as coisas s„o diferentes do que s„o, conforme as intenÁıes do orador. E, enquanto no que respeita ‡ poÈtica GÛrgias prefere insistir no objetivo de ìtornar partÌcipes das paixıesî, no que respeita ‡ retÛrica ele insiste mais na tarefa de ìsubjugarî os outros por meio da apresentaÁ„o alterada da realidade.

… interessante observar que GÛrgias admite o uso dos elementos da poesia no discurso retÛrico para potencializar seus efeitos. Enquanto a poesia induz o leitor a crer em coisas que n„o existem, a retÛrica o induz a acreditar que as coisas s„o diferentes do que realmente s„o. Como pode ser percebido, esses pensamentos est„o muito prÛximos um do outro.

A retÛrica gorgiana definiu tambÈm as formas estilÌsticas do discurso, chamadas figuras retÛricas. Dentre estas, podem ser destacadas as seguintes:

1. AntÌtese - oposiÁ„o de idÈias e palavras;

2. Isocolia ñ Refere-se ao perÌodo composto de elementos iguais;

3. Parisosis ñ correspondÍncia de sons ou de elementos semelhantes da

frase;

4. Homoteleuto ñ Similitude de dois ou v·rios elementos consecutivos da

frase.

GÛrgias foi considerado na Antig¸idade como o teorizador da ciÍncia retÛrica na sua totalidade, por ter conseguido misturar elementos da prosa com a poesia e trazido elementos desta para a retÛrica; e ainda por sua concepÁ„o da retÛrica, n„o somente, quanto ‡ sua forma, mas tambÈm quanto ao seu conte˙do.

AristÛteles È outro grande teÛrico da retÛrica na Antig¸idade, que n„o pode ser olvidado. Na sua juventude, provavelmente influenciado pelas idÈias de Plat„o, esse filÛsofo tinha importantes restriÁıes ‡ retÛrica. De acordo com Plebe (1978), AristÛteles, na sua obra Gryllos, escrita por volta de 360 a.C., a respeito dos elogios retÛricos de v·rios oradores por ocasi„o da morte de Gryllos, filho de Xenofonte, ocorrida em 362, considera o discurso retÛrico como descomprometido

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com a busca da verdade. Essa concepÁ„o, no entanto, representou uma primeira fase, transitÛria, no pensamento retÛrico de AristÛteles.

Em sua maturidade, AristÛteles tem uma concepÁ„o diferente sobre a retÛrica, expressa em sua obra Peri RhetorikÍs (Sobre a RetÛrica), composta de trÍs livros. Essa obra apresenta uma evoluÁ„o do pensamento aristotÈlico a respeito da retÛrica. A sua concepÁ„o, no primeiro livro, È chamada ìretÛrica antigaî e a concepÁ„o, expressa nos dois ˙ltimos livros, retÛrica recente. De acordo com o pensamento de AristÛteles, expresso no primeiro livro, a verdadeira retÛrica deve ser uma tÈcnica rigorosa de argumentaÁ„o.

Assim sendo, ele tenciona fundar uma autÍntica tÈcnica da retÛrica. Para isso, analogamente ‡ concepÁ„o de CÛrax e TÌsias, afirma que o discurso retÛrico deve apresentar argumentaÁıes demonstrativas, chamadas provas (pÌsteis), fundamentadas nos entimemas, que s„o os silogismos retÛricos, n„o admitindo quaisquer inflexıes de car·ter emotivo. Para AristÛteles, o silogismo deriva das premissas lÛgicas, enquanto o entimema deriva das premissas retÛricas e se diferencia do primeiro porque n„o possui o mesmo grau de certeza.

AristÛteles, na mesma obra, Peri RhetorikÈs, afirma que h· trÍs fatores fundamentais do discurso: aquele que fala, o argumento usado por quem fala e a pessoa a quem ele fala. Para ele, a estrutura do discurso È determinada pela pessoa a quem se fala. Esse ouvinte poder· ser expectador ou juiz. Sendo juiz, ele poder· julgar coisas passadas ñ no caso de um julgamento no tribunal ñ ou coisas futuras ñ no caso de uma assemblÈia deliberativa. Se o ouvinte for um expectador, prestar· mais atenÁ„o no talento do orador do que na sua argumentaÁ„o. De acordo com o ouvinte ao qual se dirige o discurso, ser· o seu gÍnero retÛrico. Dessa forma, os discursos podem ser:

1. Judici·rios: quando o ouvinte È o juiz que decide sobre fatos passados,

portanto, ligado ao passado;

2. Deliberativos: quando o ouvinte È um dos membros de uma assemblÈia

deliberativa para decidir sobre coisas futuras, portanto, ligado ao futuro;

3. EpidÌticos: quando o ouvinte È um expectador, que analisa apenas o

talento do orador, portanto ligado ‡quele momento, ao presente.

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Segundo Plebe (1978), em AristÛteles, a argumentaÁ„o dos discursos varia de acordo com o gÍnero a que pertence. Os discursos judici·rios tÍm a finalidade de acusar ou de defender e o seu foco argumentativo se centraliza nas categorias do justo e do injusto, do bom e do torpe. Os discursos deliberativos tÍm a finalidade de aconselhar ou dissuadir e o seu foco argumentativo se centraliza nas categorias do ˙til e do nocivo. Os discursos epidÌticos, cuja finalidade È louvar ou vituperar, tÍm o seu foco argumentativo nas categorias do belo e do feio.

Nos dois ˙ltimos livros da sua obra Peri RhetorikÈs, o estagirita admite que o fator emocional tambÈm È importante na tÈcnica retÛrica. Assim sendo, afirma que o orador deve despertar no seu ouvinte o Pathos, termo que pode ser traduzido por paixıes e, por outro lado, o ethos ou seja, o car·ter ou a disposiÁ„o ou a atitude do orador deve tambÈm ser considerada. AristÛteles conclui que, para a credibilidade do orador n„o È suficiente a retÛrica apodÌtica, isto È, aquela que se fundamenta apenas nas argumentaÁıes demonstrativas, mas È tambÈm importante que o discurso tenha um car·ter emocional.

Essa credibilidade emocional È obtida, segundo AristÛteles, a partir do ethos do orador, que deve possuir os seguintes atributos: sabedoria, virtude e benevolÍncia. Pelo seu ethos, o orador È capaz de despertar paixıes no ouvinte. ìAs paixıes s„o os meios pelos quais se fazem mudar os homens nos seus juÌzos e que tÍm por conseq¸Íncia o prazer e a dor, como, por exemplo, a cÛlera, a compaix„o, o temor e todas as outras paixıes semelhantes e aquelas que lhe s„o contr·riasî (AristÛteles, apud Plebe, 1978 p. 42). Ao considerar os argumentos psicagÛgicos t„o importantes quanto a demonstraÁ„o retÛrica, o estagirita concilia as concepÁıes da retÛrica sofista e da retÛrica pitagÛrica.

A teoria retÛrica aristotÈlica contempla ainda o princÌpio da induÁ„o retÛrica. A induÁ„o È um princÌpio de raciocÌnio cujas premissas tÍm car·ter menos geral que a conclus„o. A induÁ„o retÛrica, em AristÛteles, parte de um exemplo como referÍncia para se chegar a uma conclus„o que, em seguida, torna-se uma premissa para um entimema mediato. … importante, nesse caso, para melhor compreens„o desse conceito, citar um exemplo usado por Plebe (1978): Se alguÈm

arruina os prÛprios cavalos, n„o lhe confiamos os nossos

ñ modelo de ìexemploî

nÛs n„o

com um silogismo indutivo ñ inferÍncia indutiva imediata. A conclus„o È ñ ì lhe confiamos os nossosî.

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Essa conclus„o, no entanto, torna-se uma premissa para uma inferÍncia

mediata, na continuidade da frase:

lhes confiamos a nossa. Como se pode perceber, a segunda frase È uma conclus„o mais distante, baseada na primeira conclus„o. AristÛteles chama esse princÌpio de entimema indutivo.

que descuidam da prÛpria salvaÁ„o ñ n„o

aos

Como sÌntese dos princÌpios retÛricos de AristÛteles, pode-se afirmar que

a retÛrica È a arte de persuadir atravÈs da articulaÁ„o de dois princÌpios: o

demonstrativo do entimema e o psicagÛgico do ethos e do pathos. Esses princÌpios da retÛrica aristotÈlica, juntamente com princÌpios de outros teÛricos gregos,

constituem um legado de valor inestim·vel para a retÛrica em todos os tempos.

2.2 A RET”RICA LATINA

Desde os primÛrdios da naÁ„o, os romanos usavam a oratÛria na busca das soluÁıes para as questıes do dia-a-dia. ìDedicando-se muito cedo ‡ oratÛria polÌtica e jurÌdica, os romanos, pragm·ticos e pr·ticos por natureza, n„o se descuidaram da formaÁ„o de oradores, procurando fornecer-lhes elementos que os capacitassem para o desempenho das suas atividadesî (Cardoso,2003, p.161).

Como conseq¸Íncia da preocupaÁ„o com a formaÁ„o de oradores, foram criadas escolas de retÛrica que, embora, diferentes umas das outras nos seus mÈtodos, tinham a finalidade de ensinar a arte do bem falar. A partir do sÈculo I a.C, comeÁaram a surgir, tambÈm, os primeiros tratados de retÛrica.

Um dos tratados de retÛrica latina, De ratione dicendi, (Sobre a raz„o de

falar), foi escrito por Marco AntÙnio, polÌtico e orador, que, segundo Cardoso (2003),

foi um dos mestres de CÌcero. Marco AntÙnio, nesse tratado, ì

procurou demonstrar

como deveria ser formado o orador para que fosse capaz de vencer a qualquer

tÌtulo.î (Cardoso, 2003, p.161)

Ainda no sÈculo I a.C, surgiu o mais conhecido tratado de retÛrica, chamado Rhetorica ad Herennium (RetÛrica a Herenio). Essa obra, segundo alguns autores, È atribuÌda, ou a CÌcero, ou a um certo retor chamado CornifÌcio. Atualmente, h· um consenso que o retor CornifÌcio tenha sido o autor dessa obra.

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Rhetorica ad Herennium, segundo Peterlini, (2001, p.131) ìÈ um manual de preceitos tÈcnicos instituindo uma terminologia tÈcnica latina, para tentar arranc·- la da servid„o aos termos gregos. N„o vai alÈm daÌ a Rhetorica ad Herenniumî. Embora vista com pouco apreÁo por Peterlini, essa obra È considerada importante na retÛrica latina, pelo fato de abrir caminho para os estudos retÛricos em Roma e definir as bases da retÛrica latina. De acordo com Plebe, (1978. p. 65) ìseu mÈrito fundamental È o de haver instituÌdo, com base nas fontes gregas, a terminologia retÛrica latina, depois adotada quase integralmente por todos os autores de retÛricaî.

Para o autor da Rhetorica ad Herennium, os gÍneros da RetÛrica s„o os mesmos gÍneros definidos por AristÛteles: o ìjudici·rioî, o ìdemonstrativoî e o ìdeliberativoî; e o processo de criaÁ„o da peÁa retÛrica constitui-se das seguintes fases: a inventio, a dispositio, a memoria, a elocutio e a pronuntiatio. A peÁa discursiva ou o discurso propriamente dito, segundo preceitua a retÛrica, deve ter seis partes, definidas como: exordium, narratio, divisio, confutatio, confirmatio e conclusio. Assim, apesar de, a princÌpio, os romanos resistirem ‡ influÍncia da cultura grega, a Rhetorica ad Herennium contribuiu para estabelecer uma ponte entre essas duas culturas, na medida em que lanÁou as bases da retÛrica latina com o fundamento na retÛrica grega.

As concepÁıes da Rhetorica ad Herennium foram muito bem absorvidas por aquele que seria considerado o maior expoente da retÛrica latina, Marcus Tullius Cicero. Para Cardoso (2003, p.152) ìA vida liter·ria de CÌcero (Marcus Tullius Cicero ñ 106 ñ 43 a.C.) confunde-se com a oratÛria, ‡ qual ele se dedicou desde muito jovem, e esta delimita, por assim dizer, o primeiro perÌodo cl·ssico da literatura latina, a chamada ëÈpoca de CÌceroî.

CÌcero demonstra ter um apreÁo significativo pela retÛrica e equilÌbrio ao analisar a import‚ncia desta em contraposiÁ„o ‡ filosofia. Ele sustenta que ambas as disciplinas tÍm um car·ter complementar e s„o necess·rias. Segundo ele, n„o È possÌvel surgir um verdadeiro orador sem a filosofia. Porque sem o conhecimento filosÛfico o orador n„o pode discernir o gÍnero e a espÈcie de cada assunto, nem explic·-lo pela definiÁ„o, nem distribuÌ-lo em partes, nem julgar o verdadeiro e o falso, nem perceber as conseq¸Íncias, ver as contradiÁıes, distinguir as ambig¸idades.

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Por outro lado, a filosofia tambÈm n„o pode prescindir da retÛrica, porque atravÈs dela os filÛsofos comunicam as suas idÈias. Ele afirma que essas duas artes s„o insepar·veis. ìComo a retÛrica exige a seu lado a filosofia, do mesmo modo a filosofia exige, como disciplina a ela complementar, a retÛricaî. DaÌ o seu apreÁo ao discurso retÛrico. Segundo Plebe (op.cit., p 70),

GraÁas ‡ deliberada clareza de apresentaÁ„o, pode dizer-se que, em CÌcero, chega ao ponto mais alto a valorizaÁ„o da retÛrica como ciÍncia complementar da filosofia na Antiguidade. Nunca, como em CÌcero, a retÛrica e a filosofia foram consideradas, como diz o historiador da retÛrica latina M.L. Clark, the two main disciplines of the ancient world.

No primeiro momento da concepÁ„o retÛrica de CÌcero, a Ínfase maior recaiu sobre os aspectos formais do discurso retÛrico. Dessa forma, seguindo os rastros de CornifÌcio, suposto autor da Rhetorica ad Herennium, CÌcero considerava o processo da criaÁ„o retÛrica em cinco etapas:

1™. A invenÁ„o ñ na qual o orador deve reunir todos os elementos possÌveis relacionados com causa, para poder narrar os fatos, explor·-los em benefÌcios dos clientes e refutar os argumentos contr·rios;

2™. A disposiÁ„o ñ na qual o orador deve organizar as idÈias;

3™. A memorizaÁ„o ñ na qual todos os fatos devem ser perfeitamente conhecidos e dominados;

4™. A elocuÁ„o ñ quando o orador deve procurar adequar a frase ao que ser· dito.

5™. A aÁ„o ñ orador deve manejar a voz, quanto ‡ entonaÁ„o e timbre e usar os gestos e ter uma postura corporal adequada.

Para CÌcero, o discurso deve ter as seguintes caracterÌsticas essenciais:

ser escrito com inteligÍncia e sensibilidade, explorar o poder da palavra e ter a capacidade de persuadir. Portanto, ele n„o se preocupa apenas com a forma do discurso, mas tambÈm com o seu conte˙do. De acordo com Plebe (1978, p.69), ìCÌcero n„o sustenta um predomÌnio unilateral do conte˙do sobre a forma na retÛrica, mas, ao contr·rio, um equilÌbrio e uma conex„o complementar entre ambos os elementosî.

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O discurso, na concepÁ„o de CÌcero, tem por finalidade ensinar, agradar e comover. Esses princÌpios nortearam-no na produÁ„o dos seus discursos, pois, de acordo com Cardoso (2003), eram escritos com o maior cuidado e preocupaÁ„o, construÌdos de acordo com uma arquitetura de composiÁ„o perfeita, pureza e correÁ„o da linguagem e riqueza de estilo; o seu vocabul·rio È amplo, erudito e escolhido; o ritmo da frase È trabalhado e intencional e as figuras de harmonia s„o usadas com freq¸Íncia.

AlÈm do cuidado na composiÁ„o do discurso, CÌcero serve-se de recursos estilÌsticos para potencializar sua argumentaÁ„o: frases interrogativas, para levar o ouvinte a refletir a respeito do assunto que est· sendo exposto; frases exclamativas, que tÍm o efeito retÛrico de destacar determinadas expressıes; repetiÁıes anafÛricas, para enfatizar o que È igual e o que È diferente; e preteriÁıes, que consistem em omitir palavras com a finalidade de levar o p˙blico ‡ reflex„o.

Na sua obra O orador, dedicada a seu irm„o Quinto, composta de trÍs livros em forma de di·logo, CÌcero fala sobre os requisitos necess·rios para um bom orador. Dentre esses, podem ser considerados: a cultura geral, grande sabedoria, a pr·tica da eloq¸Íncia, aptidıes naturais, gosto pela arte, conhecimento de v·rias matÈrias (como o direito e a histÛria) e perseveranÁa nos exercÌcios.

A beleza dos discursos de CÌcero e a clareza das suas idÈias quanto ‡ retÛrica elevaram-na ao patamar de ars (arte). Lamentavelmente, aquele que foi o respons·vel pela introduÁ„o dos princÌpios retÛricos gregos em Roma e pela latinizaÁ„o desses princÌpios ascendeu junto com a retÛrica latina e caiu com ela, levando consigo a rep˙blica e a liberdade.

ConvÈm acentuar que a oratÛria tem uma estreita relaÁ„o com a vida social de um povo. Ela È a forma de express„o da cultura de uma naÁ„o. Ela serve tambÈm como instrumento de controle da sociedade, na medida que vende uma ideologia. O discurso È o vendedor, a retÛrica È o invÛlucro, a ideologia È o conte˙do.

Vieira aproveitou muito bem os instrumentos da retÛrica para alcanÁar os seus objetivos como religioso e polÌtico. A arma que utilizou, com muita habilidade, foi a palavra. Sabe-se que, quando estudante de teologia no colÈgio JesuÌta, em Salvador, o jesuÌta estudou, exaustivamente, retÛrica, filosofia e teologia. Aos

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dezesseis anos j· era professor de retÛrica. Dessa forma, fez uso, com muita propriedade, desse conhecimento, ao longo da sua profÌcua carreira de orador sacro. Os seus sermıes tÍm uma estrutura conforme proposta pelos c‚nones da retÛrica cl·ssica, divididos em exordio, narraÁ„o, divis„o, refutaÁ„o, confirmaÁ„o e conclus„o.

O pregador sabe tambÈm fazer uso, com muita criatividade, das figuras retÛricas. … possÌvel encontrar nos seus sermıes, antÌteses, politropias e homoteleutos, que chamam a atenÁ„o do ouvinte/leitor e contribuem para o melhor entendimento e fixaÁ„o dos seus argumentos. Da mesma forma, ele aplica, de maneira equilibrada, outros princÌpios da retÛrica cl·ssica, como o da orthoÈpeia, politropia e do kairÛs retÛrico. Assim como ele procura emocionar o seu ouvinte/leitor, usando argumentos psicagÛgicos, procura buscar provas (pÌsteis) para dar suporte ao seu raciocÌnio e convencer o seu p˙blico.

Pode-se concluir que Vieira, utilizando os princÌpios da retÛrica cl·ssica nos seus sermıes, contribuiu para mantÍ-los vivos, alÈm de torn·-los acessÌveis ‡s classes populares, devido ‡ heterogeneidade do seu p˙blico e ‡ import‚ncia da sua obra.

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2 O EXERCÕCIO DO DISCURSO MODERNO

2.1 O M…TODO RECEPCIONAL DE HANS ROBERT JAUSS

O Formalismo russo e o estruturalismo dominaram a an·lise liter·ria na primeira metade do sÈculo XX atÈ a dÈcada de 60. Entre os anos de 1914 a 1917, um grupo de dez eruditos fundou o CÌrculo Ling¸Ìstico de Moscou, com o objetivo de estudar poÈtica e ling¸Ìstica. Segundo a sua concepÁ„o, a literatura n„o deveria estar relacionada a qualquer contexto sÛcio-polÌtico conjuntural, mas ser avaliada apenas no que concerne ‡ literariedade do texto em si. A modalidade de linguagem, concretizada no texto, È o foco da preocupaÁ„o da crÌtica formalista. O centro do estudo È o texto liter·rio. Os estudiosos tambÈm procuraram estabelecer a distinÁ„o entre a linguagem poÈtica e a linguagem do cotidiano. Para corroborar essas afirmaÁıes, vale considerar o entendimento de Jauss (1994, p. 18) sobre o Formalismo. Segundo ele:

A teoria do mÈtodo formalista alÁou novamente a literatura ‡ condiÁ„o de um objeto autÙnomo de investigaÁ„o, na medida em que desvinculou a obra liter·ria de todas as condicionantes histÛricas e, ‡ maneira da nova ling¸Ìstica estrutural, definiu em termos puramente funcionais a sua realizaÁ„o especÌfica, como a soma de todos os procedimentos artÌsticos nela empregados. O car·ter artÌstico da literatura deve ser verificado ˙nica e exclusivamente a partir da oposiÁ„o entre linguagem poÈtica e linguagem pr·tica. A lÌngua, em sua funÁ„o pr·tica, passa ent„o a representar, na qualidade de sÈrie n„o-liter·ria, todas as demais condicionantes histÛricas e sociais da obra liter·ria; esta È descrita e definida como obra de arte precisamente em sua singularidade prÛpria e n„o, portanto, em sua relaÁ„o funcional com a sÈrie n„o-liter·ria.

… importante considerar que essa posiÁ„o de Jauss, e tambÈm de outros estudiosos, sobre o Formalismo, n„o significa que essa vertente crÌtica tenha sido homogÍnea. Na verdade, o que se pode perceber nessas consideraÁıes È que elas refletem os traÁos gerais dos princÌpios formalistas. Nem todos teÛricos formalistas adotaram os mesmos princÌpios da crÌtica formalista. Franco J˙nior (1976) compartilha dessa concepÁ„o ao afirmar que o Formalismo russo n„o foi um bloco

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compacto de teoria de car·ter dogm·tico, mas uma afirmaÁ„o de determinados princÌpios norteados por um fio condutor. Esse fio condutor È a preocupaÁ„o com a abordagem da materialidade do texto, que se recusa a aceitar as implicaÁıes extratextuais.

Cabe notar que um segmento dessa escola, num segundo momento, divergiu dos seus princÌpios fundamentais, buscando o caminho de volta rumo ‡ histÛria, na medida que postulou que a obra de arte deve ser considerada em contraposiÁ„o aos aspectos sincrÙnicos e diacrÙnicos da lÌngua. Essa divis„o foi aprofundando-se, segundo Franco J˙nior (2003 p.94), fazendo surgir uma abordagem sociolÛgica da literatura ideologicamente comprometida com as idÈias da revoluÁ„o socialista e com determinados interesses ligados ao exercÌcio do poder pelo Estado.

Essa abordagem, chamada crÌtica marxista, tem em comum com o Formalismo a ren˙ncia ao empirismo cego do Positivismo. Segundo Jauss (1994,

p.12):

o positivismo acreditava estar fazendo da necessidade uma virtude ao tomar emprestados os mÈtodos das ciÍncias exatas. O resultado È bastante conhecido: a aplicaÁ„o do princÌpio da explicaÁ„o puramente causal ‡ histÛria da literatura trouxe ‡ luz fatores apenas aparentemente determinantes, fez crescer em escala hipertrÛfica a pesquisa das fontes e diluiu a peculiaridade especÌfica da obra liter·ria num feixe de influÍncias multiplic·veis a gosto.

Essas escolas tambÈm rejeitaram os postulados do Idealismo, que se contrapÙs ‡ explicaÁ„o histÛrica causal do Positivismo com a concepÁ„o da estÈtica da criaÁ„o irracional e buscou o nexo da poesia na recorrÍncia de idÈias e motivos supratemporais, produzindo uma separaÁ„o entre contemplaÁ„o estÈtica e a contemplaÁ„o histÛrica da literatura. Enquanto o Positivismo via a literatura numa relaÁ„o de causa e efeito com a histÛria, o Idealismo a vÍ numa relaÁ„o muito fluida com motivos supratemporais metafÌsicos, sem qualquer seq¸Íncia lÛgica.

Buscando o equilÌbrio, ambas tentam resolver o problema de como estabelecer a relaÁ„o da sucess„o histÛrica das obras liter·rias com o nexo da literatura. Acabam entrando num conflito que resulta na exigÍncia de uma nova relaÁ„o entre a contemplaÁ„o histÛrica e a contemplaÁ„o estÈtica. O Formalismo radicalizou e cortou os vÌnculos da literatura com os fatores exteriores, vendo-a

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apenas enquanto formas. A escola marxista estabeleceu uma relaÁ„o

perpendicularizada da literatura com a histÛria, definindo a funÁ„o da literatura enquanto um dos elementos constitutivos da sociedade, apegando-se tambÈm a uma delimitaÁ„o nacional da histÛria da literatura. Suas motivaÁıes s„o, primordialmente, polÌticas. De acordo com Jauss (1994),o conceito de arte cl·ssica

da literatura marxista È que qualquer express„o liter·ria moderna que n„o se deixe

apreender segundo o princÌpio da identidade entre forma e conte˙do, deve ser desqualificada como arte degenerada da burguesia decadente. AlÈm disso, ela busca solucionar a quest„o da funÁ„o social da literatura, tendo em vista, a

contribuiÁ„o especÌfica de suas formas e meios artÌsticos.

Contempor‚neo ao Formalismo russo, surgiu nos Estados Unidos entre

os anos 20-30 do sÈculo passado um movimento de crÌtica liter·ria chamado New

Criticism que apresenta conceitos semelhantes aos conceitos dessa corrente crÌtica.

A utilizaÁ„o do termo ìmovimentoî, segundo Franco J˙nior(2003), explica-se,

porque n„o houve um sistema fechado de princÌpios e sistemas teÛricos seguidos por todos os crÌticos que adotaram esses conceitos. O que se pode dizer È que n„o houve homogeneidade na concepÁ„o desses princÌpios, nem uma sistematizaÁ„o

deles. Na concepÁ„o de Junqueira (apud. Franco J˙nior, 2003, p.102):

o New Criticism est· longe de constituir um bloco homogÍneo, abrigando tendÍncias das mais divergentes, embora todas revelem um ponto comum: a origem na contribuiÁ„o crÌtica de Samuel Taylor Coledridge, a partir de cuja Biographia Liter·ria (1817) reaparece como exigÍncia basilar a necessidade de se ler, cada vez mais exatamente, as ìpalavras da p·ginaî, o que se prestou atÈ para pesquisas estatÌsticas sobre a freq¸Íncia de certas expressıes e

De acordo com a liÁ„o de

imagens em determinado poeta. [

Coleridge, deve ser dispensada a mesma atenÁ„o ‡ estrutura do conjunto de palavras e ‡ tÈcnica de sua organizaÁ„o em estruturas poÈticas. Assim, a crÌtica liter·ria passa a ser entendida como uma ciÍncia autÙnoma que se dedica ao estudo dessa tÈcnica, sem qualquer preocupaÁ„o com os elementos biogr·ficos, psicolÛgicos ou histÛricos.

]

Ainda, no inÌcio do sÈculo passado, o mundo liter·rio viu surgir a crÌtica estruturalista, baseada nas idÈias do SuÌÁo, Ferdinand de Saussure. Essa concepÁ„o advoga o estudo estrutural do texto, em detrimento dos aspectos contextuais externos, considerando a palavra como termo conveniente e

32

indispens·vel. Saussure provocou uma ruptura com a tradiÁ„o historicista dominante no sÈculo XIX e priorizou o estudo sincrÙnico que permite compreender a estrutura essencial de uma lÌngua. Para o Estruturalismo, a histÛria da literatura, como tambÈm, o seu car·ter diacrÙnico deixou de ser importante na avaliaÁ„o das obras liter·rias. O Estruturalismo olha para a literatura apenas nos seus aspectos internos, estruturais. Segundo Bonnici (2003, p. 110):

O Estruturalismo È, portanto, uma pr·tica interpretativa que procura certa ordem e inteligibilidade nas in˙meras possibilidades de padrıes do texto. O crÌtico estruturalista È capaz de isolar os padrıes significativos de signos a partir dos quais poder· chegar a conclusıes sobre o significado e a cultura que est„o sendo transmitidos e pesquisados.

O que se pode depreender do direcionamento das escolas crÌticas no inÌcio do sÈculo passado È que todas esboÁaram seus conceitos como uma reaÁ„o ao Positivismo, que via a literatura como uma descriÁ„o da histÛria e n„o como uma imitaÁ„o da realidade. A reaÁ„o dessas escolas crÌticas foi muito radical, no sentido de isolar a literatura de qualquer influÍncia exterior e avali·-la apenas no plano das suas relaÁıes internas. A literatura foi concebida apenas enquanto formas ou estruturas, em detrimento do conhecimento das suas fontes. Essa tendÍncia foi t„o exacerbada que o estudo da histÛria da literatura foi colocado num plano inferior, passando a ter uma conotaÁ„o particular ou nacionalista.

Na segunda metade da dÈcada de 60, Hans Robert Jauss procura resgatar a literatura da redoma em que fora colocada, pelas escolas crÌticas do inÌcio do sÈculo, enfatizando suas relaÁıes com o contexto e tambÈm o aspecto recepcional da an·lise liter·ria. Na abertura do semestre letivo da Universidade de ConstanÁa, na SuÌÁa, com a palestra ìO que È e com que fim se estuda a histÛria da literatura?î em 13 de abril de 1967, ele advoga a reabilitaÁ„o da histÛria da literatura que, no seu ponto de vista, estava em decadÍncia em virtude do domÌnio do Estruturalismo. Jauss afirma que a literatura deve ser vista numa relaÁ„o dialÛgica com a histÛria, com o contexto no qual ela foi produzida e com a cosmovis„o do receptor.

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Em sua obra ìA HistÛria da Literatura como provocaÁ„o ‡ Teoria Liter·riaî, Jauss defende uma histÛria da literatura que leve em consideraÁ„o, n„o

apenas os aspectos histÛricos nacionais ou, que conte uma histÛria particularizada, mas que avalie tambÈm a sua relaÁ„o com outros perÌodos da histÛria da literatura

e o efeito que uma determinada obra teve sobre a sociedade da sua Època.

A histÛria, na concepÁ„o de Jauss (1994), deve ser vista nos seus aspectos global e teleolÛgico. Ela determina uma direÁ„o geral que influencia as aÁıes da sociedade nos seus diversos perÌodos. Segundo Humboldt (apud Jauss, 1994, p.10) ìo historiador da literatura somente se torna um historiador de fato

quando, investigando seu objeto, encontra aquela idÈia fundamental que atravessa a prÛpria sÈrie de acontecimentos que ele tomou por assunto, neles manifestando-se

e conectando-os aos acontecimentos do mundoî.

Ao abandonar o aspecto teleolÛgico da histÛria universal, os historiadores abandonaram tambÈm o princÌpio metodolÛgico de vincular o passado ao presente. De acordo Jauss (1994, p. 24,25 )

A obra da histÛria liter·ria do sÈculo XIX apoiou-se na convicÁ„o de que a idÈia da individualidade nacional seria a parte invisÌvel de todo fato, e de que essa idÈia tornaria represent·vel a forma da histÛria tambÈm a partir de uma seq¸Íncia de obras liter·rias. Havendo desaparecido tal convicÁ„o, tinha de perder-se tambÈm o fio dos acontecimentos, fazendo inevit·vel que a literatura passada e a presente se apartassem uma da outra em esferas separadas do juÌzo, bem como a escolha, determinaÁ„o e valoraÁ„o dos fatos

A historicidade da literatura

n„o repousa numa conex„o de fatos liter·rios estabelecida ìpost festumî, mas no experienciar din‚mico da obra liter·ria por parte de

seus leitores. Essa mesma relaÁ„o dialÛgica constitui o pressuposto

de ser capaz de

tambÈm da histÛria da literatura[

compreender e classificar uma obra, o historiador da literatura tem

sempre de novamente fazer-se, ele prÛprio, leitor.

liter·rios se tornassem problem·ticas [

]

]antes

Para Jauss (1994), a obra liter·ria n„o È um objeto auto-existente e atemporal que proporciona a cada observador, nas mais diversas Èpocas, uma ˙nica leitura. De acordo com o leitor e sua Època, o texto ter· uma existÍncia para aquele momento. Isso confere a ela um car·ter dialÛgico. Estabelece-se um di·logo atemporal entre o escritor e o leitor da obra, no que se refere ao processo de produÁ„o do autor, e recepÁ„o e atualizaÁ„o pontual da obra pelo leitor.

34

Esta concepÁ„o de Jauss, chamada EstÈtica da RecepÁ„o, È muito

enfatizada na an·lise liter·ria dos nossos dias e fundamenta-se no princÌpio de que

a literatura est· vinculada ‡ histÛria e ao seu contexto, mas tem uma estreita

relaÁ„o significativa com o seu receptor. Portanto, ao avaliar uma obra liter·ria, o

crÌtico deve levar em consideraÁ„o a Època em que a obra foi produzida, o seu

contexto social, polÌtico, econÙmico e religioso e, porque n„o dizer, os elementos

biogr·ficos do autor que, eventualmente, possam ter influenciado na criaÁ„o da

obra, sem deixar de considerar o momento da recepÁ„o da obra pelo leitor.

A Teoria da RecepÁ„o de Jauss representa uma ruptura com as

concepÁıes que viam a literatura, sobretudo, na sua forma ou estrutura, sem

considerar a sua relaÁ„o com os fatores exteriores. AlÈm de enfocar a ligaÁ„o da

literatura com o seu contexto, Jauss (1994) considera tambÈm a dimens„o de sua

recepÁ„o e de seu efeito. Para ele, os leitores, ouvintes, espectadores (o fator

p˙blico) desempenham um papel preponderante na compreens„o da literatura.

e ambos os mÈtodos, o formalista e o marxista, ignoram o leitor em seu papel genuÌno, imprescindÌvel tanto para o conhecimento estÈtico quanto para o histÛrico: o papel do destinat·rio a quem, primordialmente, a obra liter·ria visa [ ]a obra liter·ria È condicionada primordialmente pela relaÁ„o dialÛgica entre literatura e leitor. (Jauss,1994. p. 23)

A obra liter·ria È vista na perspectiva das suas v·rias relaÁıes, desde o

momento da sua criaÁ„o atÈ o presente. De acordo com Bordini e Aguiar, (1993) a

EstÈtica da RecepÁ„o considera os aspectos histÛricos envolvidos na obra liter·ria,

que passa a ser vista como um cruzamento de apreensıes que se fizeram e se

fazem dela nos v·rios contextos histÛricos em que ela ocorreu e no que È agora

estudada.

O leitor tem papel preponderante na avaliaÁ„o da obra. O modo como a

obra foi recebida pelo leitor do passado e È recebida pelo leitor do presente deve

ser levada em consideraÁ„o na an·lise global da obra liter·ria. Para Jauss (1994),

o leitor d· uma sobrevida ‡ obra do escritor, isto porque, ao ler a obra, acrescenta a

sua vivÍncia, soma o conhecimento liter·rio adquirido pela leitura de outras obras e

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a sua vis„o de mundo. Se o leitor È de uma Època muito posterior ‡quela em que a obra foi escrita, contextualiza-a ‡ sua Època, enriquecendo o seu significado.

Quando se analisa uma obra deve-se levar em consideraÁ„o a disposiÁ„o do p˙blico para recebÍ-la. Essa disposiÁ„o, segundo Jauss(1994), antecede tanto a reaÁ„o psÌquica quanto a compreens„o subjetiva do leitor, denominando-a de ìsaber prÈvioî e do ìj· lidoî anteriormente e constitui-se no substrato para formar o seu horizonte de expectativas diante de uma obra que surge. O termo ìhorizonte de expectativasî, cunhado por Jauss, designa a expectativa que o leitor tem ao iniciar a leitura de uma determinada obra liter·ria. O horizonte de expectativas emerge, de acordo com Jauss, (1994, p.29) a partir de trÍs fatores:

1. De normas conhecidas ou da poÈtica imanente ao gÍnero;

2. Da relaÁ„o implÌcita com obras conhecidas do contexto

histÛrico-liter·rio;

3. Da oposiÁ„o entre ficÁ„o e realidade, entre a funÁ„o poÈtica e

a funÁ„o pr·tica da linguagem, que, numa leitura reflexiva, faz-se

sempre presente como fator de comparaÁ„o.

Jauss considera que (1994, p.29) ìesse terceiro fator inclui, ainda, a possibilidade de o leitor perceber uma nova obra, tanto a partir do horizonte mais restrito de sua expectativa liter·ria, quanto do horizonte mais amplo de sua experiÍncia de vidaî. Zilberman amplia essas convenÁıes que constituem o horizonte de expectativas pelo qual o autor/leitor criam e interpretam uma obra liter·ria. Na sua concepÁ„o, podem ser de car·ter:

- social, pois o indivÌduo ocupa uma posiÁ„o na hierarquia da sociedade;

- intelectual, porque ele detÈm uma vis„o de mundo compatÌvel, na maior parte das vezes, com seu lugar no espectro social, mas que atinge apÛs completar o ciclo de sua educaÁ„o formal;

- ideolÛgica, correspondente aos valores circulantes no meio, de que se imbui e dos quais n„o consegue fugir;

- ling¸Ìstica, pois emprega um certo padr„o expressivo, mais ou menos coincidente com a norma gramatical privilegiada, o que decorre tanto de sua educaÁ„o, como do espaÁo social em que transita;

- liter·rio, proveniente das leituras que fez, de suas preferÍncias e da oferta artÌstica que a tradiÁ„o, a atualidade e os meios de comunicaÁ„o, incluindo-se aÌ a prÛpria escola, lhe concedemî.

(Zilberman, apud. Bordini e Aguiar, 1993, p.83)

36

Na concepÁ„o de Bordini e Aguiar (1993) È importante acrescentar tambÈm os fatores de ordem afetiva entre aqueles que contribuem para a formaÁ„o do horizonte de expectativas do leitor, pois provocam adesıes ou rejeiÁıes dos leitores. O conhecimento que o leitor tem do autor, atravÈs de outras obras; o tÌtulo da obra; a forma como ela È apresentada; a sua capa e a sua tem·tica podem sugerir ao leitor simpatia ou antipatia ‡quela obra.

AlÈm de considerar o horizonte de expectativas do leitor, a teoria da recepÁ„o procura observar, tambÈm, a reaÁ„o do leitor ‡ obra no momento do seu surgimento e, num terceiro momento, avalia a sua contribuiÁ„o para a mudanÁa do horizonte de expectativas do leitor moderno.

Jauss chama o resultado da equaÁ„o entre o horizonte de expectativas do

leitor e o modo como uma nova obra ser· recebida pelo leitor, de ìdist‚ncia estÈticaî.

A dist‚ncia estÈtica È, justamente, o resultado do equilÌbrio entre o horizonte de

expectativas preexistente e aquele que a leitura da obra sugere.

Quando essa obra nova nega as experiÍncias conhecidas do leitor e faz com que ele se conscientize de outras experiÍncias jamais previstas, a dist‚ncia estÈtica È maior e vai determinar uma mudanÁa de horizonte de expectativas do

leitor. Segundo Jauss (1994, p.32), ìa dist‚ncia entre o horizonte de expectativas e

a obra, entre o j· conhecido da experiÍncia estÈtica anterior e a ëmudanÁa de

horizonteî exigida pela acolhida ‡ nova obra, determina, do ponto de vista da estÈtica da recepÁ„o o car·ter artÌstico de um obra liter·ria.î

Quando a obra atende ao horizonte de expectativas do leitor, segundo Jauss, (1994) È considerada ìarte culin·riaî ou ligeira. Ela È assim caracterizada porque n„o exige nenhuma mudanÁa de horizonte, mas atende a expectativas que mostram uma tendÍncia dominante de gosto.

Se, por outro lado, a obra È experimentada, de inÌcio, com prazer ou estranhamento, na qualidade de uma nova forma de percepÁ„o, opıe-se ‡ expectativa do seu p˙blico inicial e, a princÌpio, nega o horizonte de expectativas do leitor, mas, com o tempo, essa negaÁ„o torna-se obviedade, passando a fazer parte de uma expectativa familiar, formando um novo horizonte de expectativas, essa obra È considerada um cl·ssico ou uma obra prima. Ela adquiriu perenidade, ampliou ou mudou o horizonte de expectativa do leitor para adaptar seus conceitos ‡

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cosmovis„o do escritor transmitida nela, tornou-se palat·vel, tanto para o leitor do passado, quanto para o leitor do presente.

O MÈtodo Recepcional trata, ainda, da relaÁ„o entre a literatura e o seu p˙blico. Na concepÁ„o de Jauss (1994), uma obra pode ter um p˙blico especÌfico, na medida que exprime aquilo que o grupo esperava, revelando-lhe sua prÛpria imagem. No entanto, ìessa definiÁ„o pode ser invertida: h· obras que, no momento de sua publicaÁ„o, podem n„o estar relacionadas a nenhum p˙blico especÌfico, mas rompem, t„o completamente, o horizonte conhecido de expectativas liter·rias que seu p˙blico somente comeÁa a formar-se aos poucosî. (Jauss, 1994, p.33) Quando esse novo horizonte de expectativas adquire validade mais geral, passa a constituir- se um c‚none estÈtico do momento. Assim sendo, as obras, atÈ ent„o, consideradas, de sucesso, ser„o vistas como envelhecidas, porque houve uma mudanÁa no c‚none estÈtico.

Por meio das tÈcnicas do MÈtodo Recepcional È possÌvel tambÈm

compreender as relaÁıes de uma obra liter·ria pertencente ao passado remoto, com

o seu contexto. Segundo Jauss (1994), quando n„o se tem conhecimento sobre

autor de uma obra e a sua intenÁ„o n„o È claramente expressa nela, deve-se utilizar a investigaÁ„o indireta atravÈs da sua relaÁ„o com suas fontes e modelos, observando o contexto da Època com o auxÌlio de outras obras contempor‚neas ou anteriores a ela. Assim sendo, ser· possÌvel descortinar o cen·rio (background) da Època que surgiu a obra, que o autor, de maneira explÌcita ou implÌcita, acredita ser do conhecimento do seu p˙blico contempor‚neo. Na concepÁ„o de Jauss (1994,

p.37),

n„o se pode aparentar uma objetividade na an·lise de uma obra do passado acreditando que um mergulho no texto possa trazer o sentido ëatemporalmenteí verdadeiro, de forma imediata e plena ao intÈrprete. O intÈrprete moderno n„o pode pensar que est· fora da histÛria e acima de quaisquer equÌvocos de seus predecessores e da recepÁ„o histÛrica.

Jauss (1994) afirma, tambÈm, que, ao analisar uma obra, o intÈrprete

deve levar em consideraÁ„o ìo juÌzo dos sÈculosî ñ a crÌtica existente sobre o autor

e a sua obra, somada ao resultado de um potencial de sentido virtualmente

presente na obra, atualizado em sua recepÁ„o e concretizado na histÛria do efeito, com a finalidade de proporcionar a fus„o dos horizontes do passado e do presente.

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Para que haja essa fus„o dos horizontes È preciso que o crÌtico avalie a obra no contexto que ela foi criada, a reaÁ„o que ela provocou, a mudanÁa no horizonte de expectativas produzida na Època e o impacto da obra nos dias atuais, quando o horizonte de expectativa do leitor È outro, modificado por uma outra cosmovis„o, dentro de outro contexto. De acordo com Jauss (1994, p.40),

a

tradiÁ„o da arte pressupıe uma relaÁ„o dialÛgica do presente com

o

passado, relaÁ„o esta em decorrÍncia da qual a obra do passado

somente nos pode responder e ëdizer alguma coisaí se aquele que hoje a contempla houver colocado a pergunta que a traz de volta de

seu isolamento.

A teoria estÈtico-recepcional demanda tambÈm que uma obra deva ser incluÌda em uma ësÈrie liter·riaí a fim de que haja possibilidade de conhecer a sua posiÁ„o e significado histÛrico no contexto da experiÍncia da literatura. Para Jauss, uma obra isolada, fixada em uma sÈrie cronolÛgica, pela histÛria positivista da literatura, pode ser trazida de volta para o interior do seu contexto sucessÛrio- histÛrico e ser compreendida como um acontecimento atravÈs do fundamento estÈtico-recepcional. Esse fundamento, segundo Jauss: (1994, p.43,44)

devolve ‡ evoluÁ„o liter·ria n„o apenas a direÁ„o perdida[

processo; ele abre tambÈm o olhar para a profundidade temporal da experiÍncia liter·ria, dando a conhecer a dist‚ncia vari·vel entre o

significado atual e o significado virtual de uma obra[

ser sempre e necessariamente perceptÌvel de imediato, j· no horizonte primeiro de sua publicaÁ„o, que dir· ent„o esgotado na oposiÁ„o pura e simples entre forma velha e a nova. A dist‚ncia que separa a percepÁ„o atual, primeira, do significado virtual ñ ou, em outras palavras: a resistÍncia que a obra nova opıe ‡ expectativa de seu p˙blico inicial pode ser t„o grande que um longo processo de recepÁ„o faz-se necess·rio para que se alcance aquilo que, no horizonte inicial, revelou-se inesperado e inacessÌvel. Pode ocorrer aÌ de o significado virtual de uma obra permanecer longamente desconhecido, atÈ que a ëevoluÁ„o liter·riaí tenha atingido o horizonte no qual a atualizaÁ„o de uma forma mais recente permita, ent„o, encontrar o acesso ‡ compreens„o da mais antiga e incompreendida.

n„o tem de

do

]

]

Jauss (1994) n„o vÍ a literatura apenas como representaÁ„o da sociedade. Para ele, a literatura vai alÈm dessa funÁ„o, tornando-se instrumento de mudanÁas dos padrıes sociais. Em determinados momentos da histÛria, as obras liter·rias provocaram a quebra de tabus da moral dominante ou ofereceram ao leitor

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novas soluÁıes para sua pr·tica moral. Essas soluÁıes, posteriormente, puderam ser sancionadas pela sociedade, graÁas ‡ ades„o maciÁa dos leitores. A literatura

deve estar integrada ‡ sociedade, de forma que, n„o apenas, seja uma arte de

representaÁ„o, mas de influÍncia. De acordo com Jauss (1994, p.57)

o abismo entre a literatura e histÛria, entre o conhecimento estÈtico e

o histÛrico, faz-se super·vel quando a histÛria da literatura n„o se limita simplesmente a, mais uma vez, descrever o processo da histÛria geral conforme esse processo se delineia em suas obras, mas quando, no curso da ëevoluÁ„o liter·riaí, ela revela aquela funÁ„o verdadeiramente constitutiva da sociedade que coube ‡ literatura, concorrendo com as outras artes e forÁas sociais, na emancipaÁ„o do homem de seus laÁos naturais, religiosos e sociaisî

As idÈias de Jauss trouxeram uma grande contribuiÁ„o aos estudos da literatura e provocaram uma guinada da crÌtica liter·ria, no sentido de avaliar a literatura em relaÁ„o ao seu contexto e receptores e a definir, com mais especificidade, a relaÁ„o entre a contemplaÁ„o histÛrica e a contemplaÁ„o estÈtica.

Embora, Jauss tenha dado um novo direcionamento ‡ crÌtica liter·ria, os estudiosos dessa teoria vÍem um problema na concretizaÁ„o dos seus princÌpios: O leitor. Jauss concebe um leitor especializado, com habilidades de leitura refinadas e com um conhecimento prÈvio bem ‡ frente de um leitor comum. Isso, de certa forma, inviabiliza a operacionalizaÁ„o da teoria, porque, na falta de um leitor ìiniciadoî, o leitor comum n„o teria elementos para tornar concretos os seus pressupostos. Jauss n„o contempla em sua teoria os leitores reais.

Apesar disso, n„o se pode diminuir o valor das consideraÁıes de Jauss, que deram um novo direcionamento ‡ crÌtica liter·ria e estabeleceram um vÌnculo consistente entre autor, obra e p˙blico. Segundo Zapone (2003, p.144), ìa EstÈtica da RecepÁ„o e suas vertentes providenciam um espaÁo, n„o novo, mas mais amplo, para que se pense a literatura como categoria histÛrica e social e, portanto, em contÌnua transformaÁ„o. Nesse sentido, sua crÌtica aos modelos tradicionais de historiografia liter·ria È plenamente v·lida e pertinenteî.

A import‚ncia do MÈtodo Recepcional de Hans Robert Jauss para esta pesquisa encontra-se na sua afinidade com os objetivos propostos na an·lise do seu corpus, consubstanciada nas proposiÁıes dessa corrente crÌtica que possibilitam

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avaliar a literatura, n„o apenas pelo conte˙do, formas ou estrutura interna, mas por uma perspectiva mais ampla, observada nas suas mais diversas relaÁıes, internas e externas.

Esse mÈtodo preconiza tambÈm que a obra liter·ria seja considerada em relaÁ„o ao contexto. Sabe-se que Vieira escreveu e pregou seus sermıes numa Època bastante conturbada por grandes mudanÁas. Uma leitura dos seus sermıes sem considerar o contexto seria, extremamente, prejudicada.

Outra caracterÌstica desse mÈtodo que se relaciona a este trabalho È o seu olhar para a obra de uma perspectiva diacrÙnica. Quando se trata, sobretudo, de uma obra da Antig¸idade È extremamente importante que se observe a obra pelo seu aspecto diacrÙnico, porque permite, que seja traÁada uma linha de relaÁıes da obra atravÈs do tempo.

Mas, a caracterÌstica mais relevante do mÈtodo recepcional que o identifica mais estreitamente com este trabalho È sua Ínfase na recepÁ„o. A an·lise dos sermıes, que s„o de car·ter popular e de efeito imediato sobre os ouvintes e leitores, n„o pode prescindir da avaliaÁ„o do efeito sobre o seu p˙blico e a sua recepÁ„o no decorrer da histÛria atÈ os dias atuais. Dessa forma, a expectativa È que seja possÌvel, usando como subsÌdios esse mÈtodo crÌtico, fazer uma leitura, acentuadamente, proveitosa, de modo a oportunizar o entendimento desses escritos e ressaltar a beleza do estilo de Vieira.

2.2 A CRÕTICA SOCIOL”GICA DE ANTONIO CANDIDO

A crÌtica liter·ria, no decorrer da histÛria, tem feito movimentos cÌclicos. Em determinados momentos, volta-se para entender a literatura nas suas relaÁıes internas e, em outros, nas suas relaÁıes externas. Embora seja um movimento pendular para dentro e para fora, n„o se pode afirmar que essas tendÍncias existiram como movimentos ˙nicos ou isolados. Na maior parte das vezes, elas conviveram na mesma Època, sendo que, uma delas predominou na preferÍncia dos crÌticos.

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Algumas escolas podem ser citadas como exemplo dessas duas tendÍncias. O Formalismo russo, o New Criticism e o Estruturalismo podem ser vistos como exemplos da tendÍncia a considerar a literatura nas suas relaÁıes internas. Como exemplos de escolas crÌticas voltadas para analisar a literatura nas suas relaÁıes com o seu contexto sÛcio-cultural, podem ser citadas: a crÌtica positivista, a crÌtica marxista, a crÌtica socialista e, mais recentemente, a EstÈtica da RecepÁ„o e os Estudos Culturais.

Nem sempre essas escolas crÌticas conseguiram ver a literatura em uma abordagem global. Houve, na histÛria da literatura, o que pode ser chamado de exacerbaÁıes ou lacunas. As exacerbaÁıes ficaram por conta da insistÍncia de algumas escolas crÌticas, em buscar o sentido do texto apenas nas suas relaÁıes internas. As lacunas ficam por conta da falta de condiÁıes de aplicaÁ„o de determinados princÌpios teÛricos ‡ an·lise do texto liter·rio. No entanto, apesar das dificuldades do passado, a crÌtica liter·ria, atualmente, volta-se para ter uma vis„o mais completa do fato liter·rio, levando em consideraÁ„o, n„o somente, as suas relaÁıes internas, mas tambÈm, as externas.

Candido (1985), ao avaliar esse movimento pendular entre a obra e o seu condicionamento social, afirma que essa relaÁ„o sempre foi conturbada e que, em certo momento do sÈculo XIX, o condicionamento social era a chave para entender a obra, depois, este posicionamento foi relegado a um plano inferior como falha de vis„o. Na sua concepÁ„o, n„o È possÌvel adotar nenhuma dessas visıes dissociadas e sÛ se pode entender uma obra fundindo texto e contexto numa interpretaÁ„o dialeticamente Ìntegra, em que os dois pontos de vista se combinem como momentos necess·rios no processo interpretativo.

A crÌtica sociolÛgica foi um momento do movimento pendular da crÌtica liter·ria em busca de avaliar as relaÁıes da literatura com o seu contexto. Segundo Silva (2003, p. 123) ìcrÌtica sociolÛgica È aquela que procura ver o fenÙmeno da literatura como parte de um contexto maior: uma sociedade, uma culturaî. Na verdade, essa escola crÌtica n„o È um movimento homogÍneo. Sob a denominaÁ„o desse termo h· v·rias tendÍncias mais ou menos semelhantes. H· divergÍncias entre os crÌticos atÈ para considerar quem s„o os teÛricos que pertencem a essa corrente crÌtica, como no caso de Luk·cs e Bakhtin que, ora s„o considerados

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teÛricos da crÌtica sociolÛgica e ora considerados, respectivamente, teÛricos das crÌticas marxista e pÛs-formalista.

N„o h·, portanto, uma delimitaÁ„o clara da crÌtica sociologia, dado ao seu ecletismo e ‡ disposiÁ„o de abrigar, na sua legenda, uma sÈrie de tendÍncias. Apesar da heterogeneidade das tendÍncias que se abrigam na crÌtica sociolÛgica, È claro que existe um ìfio de Ariadneî 2 que as unifica. Esse fio condutor È o fato de que todas elas consideram a literatura, n„o como um fenÙmeno autÙnomo, voltada para si mesma, mas entrelaÁada com o seu contexto social. Silva (2003 p, 123) demonstra, muito bem essa relaÁ„o, ao afirmar que:

a literatura n„o È um fenÙmeno independente, nem a obra

liter·ria È criada apenas a partir da vontade e da inspiraÁ„o do artista. Ela È criada dentro de um contexto; numa determinada lÌngua, dentro de um determinado paÌs e numa determinada Època, onde se pensa de uma certa maneira; portando, ela carrega em si as marcas desse contexto. Estudando essas marcas dentro da literatura, podemos perceber como a sociedade na qual o texto foi produzido se estrutura, quais eram os seus valores etc.

] [

O estudioso deve ficar atento, no entanto, para n„o olhar o texto liter·rio apenas como uma reproduÁ„o mec‚nica dos fenÙmenos sociais. Apesar da relaÁ„o que tem com a sociedade, o texto tem sua existÍncia prÛpria. Por outro lado, a obra liter·ria tambÈm n„o deve ser considerada apenas pela sua estrutura interna. Ao fazer a an·lise do texto, o intÈrprete deve ter o cuidado de buscar o equilÌbrio entre os dois conceitos. TambÈm deve ter o cuidado para n„o cair no erro do positivismo, de avaliar a literatura como se tivesse uma relaÁ„o direta e necess·ria com a histÛria de vida do seu autor.

A crÌtica SociolÛgica surgiu no sÈculo XIX, com as idÈias da autora francesa Madame De Stael, (1776-1817) que, na sua obra ìDa literatura considerada em suas relaÁıes com as instituiÁıes sociaisî, se posiciona como uma crÌtica que pensa a literatura dentro do contexto social. Depois dela, Hyppolite Taine (1828 ñ 1893) È tambÈm considerado um pioneiro da SociocrÌtica. Segundo Silva (2003), Taine j· tem um posicionamento mais influenciado pelo Determinismo, acreditando que o destino de cada ser humano era determinado pelo meio social em que ele nasce e vive, e por sua raÁa. Na sua concepÁ„o, a obra de um autor era

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principalmente um reflexo das condiÁıes sociais da Època do autor. No Brasil, temos como representante dessa vertente crÌtica, no sÈculo XIX, Silvio Romero.

Destacaram-se como expoentes dessa corrente crÌtica no sÈculo passado Gyˆrgy Luk·cs, Mikhail Bakhtin, Lucien Goldmann e, mais recentemente, no Brasil, Antonio Candido. … possÌvel perceber que cada um deles tem sua direÁ„o prÛpria, sem deixar de seguir as orientaÁıes gerais da crÌtica SociolÛgica. N„o restam d˙vidas de que a caminhada independente desses teÛricos trouxe uma contribuiÁ„o significativa para a crÌtica liter·ria, no sentido de ampliar a sua abrangÍncia.

Gyˆrgy Luk·cs, filÛsofo h˙ngaro, nascido em 1885 e falecido em 1971, teve grande destaque no cen·rio intelectual do sÈculo XX. No inÌcio da sua carreira intelectual foi influenciado por Kant e, posteriormente, recebeu influÍncia de Hegel e, num terceiro momento da sua trajetÛria, adere ao marxismo, filosofia que nortearia a sua caminhada intelectual atÈ o final da sua vida. AlÈm de filÛsofo e polÌtico, Luk·cs foi um dos crÌticos liter·rios mais influentes do sÈculo passado.

Luk·cs fazia uma crÌtica influenciada pelo Marxismo. Para ele, a literatura n„o reflete a realidade social apenas na descriÁ„o dos ambientes, objetos, roupas, gestos etc, mas na sua essÍncia, na maneira com que a f·bula se desenrola, na articulaÁ„o dos mecanismos que estruturam um texto. O texto, na sua concepÁ„o, passa a refletir o todo social, a maneira como a sociedade est· montada e organizada. Esse teÛrico contribuiu para a crÌtica sociolÛgica com a comparaÁ„o entre o herÛi da epopÈia e o herÛi rom‚ntico.

Outro teÛrico que trouxe uma contribuiÁ„o efetiva para a crÌtica sociolÛgica foi Lucien Goldman, filÛsofo e sociÛlogo francÍs de origem judaico- romena, intelectual de grande import‚ncia no sÈculo XX e um dos teÛricos e crÌticos do marxismo. Em 1967, escreveu a obra Sociologia do Romance, em cujo conte˙do faz uma relaÁ„o entre a estrutura do romance e a estrutura da sociedade em que foi produzido.

Segundo seu raciocÌnio, o pensamento coletivo e a criaÁ„o artÌstica n„o s„o idÍnticos um com o outro, mas tem entre si uma relaÁ„o de semelhanÁa na forma e homologia na estrutura. Sob a influÍncia de Luk·cs, adota a concepÁ„o do herÛi problem·tico no romance. De acordo com esse conceito, o romance seria uma

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busca de valores autÍnticos por um herÛi problem·tico em um mundo degradado e inautÍntico.

TambÈm relacionado ‡ crÌtica sociolÛgica, pode-se citar o ling¸ista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), cujo trabalho È considerado influente nas ·reas da teoria liter·ria, crÌtica liter·ria, an·lise do discurso e semiÛtica. Sua contribuiÁ„o, mais especÌfica, para a crÌtica liter·ria foram os conceitos do dialogismo, carnavalizaÁ„o e cronÛtipo.

O objetivo desta pesquisa, no entanto, n„o È descrever demoradamente os conceitos desses grandes teÛricos da crÌtica sociolÛgica, mesmo porque, o seu foco È o estudo dos princÌpios da crÌtica sociolÛgica segundo a concepÁ„o do escritor, ensaÌsta e professor Antonio Candido, destacado teÛrico dessa corrente crÌtica no Brasil.

Em seu livro Literatura e Sociedade (1985), Candido procura mostrar os v·rios nÌveis de correlaÁ„o entre a literatura e a sociedade. Segundo ele, essa relaÁ„o n„o deve ser avaliada numa perspectiva paralelÌstica, que consiste em mostrar os aspectos sociais, de um lado e, de outro, a sua ocorrÍncia nas obras; mas deve observada numa relaÁ„o dialÛgica. A sua vis„o da relaÁ„o entre o texto liter·rio e o seu ambiente social È que esses elementos n„o s„o apenas o invÛlucro da obra, mas fazem parte da sua estrutura. Na concepÁ„o de Candido (1985, p.2), ìA quest„o fundamental analisada na obra È a averiguaÁ„o de como a realidade social se transforma em componente de uma estrutura liter·ria, a ponto de poder ser estudada em si mesma; e como sÛ o conhecimento desta estrutura permite compreender a funÁ„o que a obra exerceî.

Candido aborda a quest„o de forma equilibrada, avaliando a literatura de uma perspectiva global. Na sua abordagem sobre o assunto, afirma:

hoje sabemos que a integridade da obra n„o permite adotar nenhuma dessas visıes dissociadas; e que sÛ a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretaÁ„o dialeticamente Ìntegra; em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicÁ„o de que a estrutura È virtualmente independente, se combinam como momentos necess·rios do processo interpretativo. Sabemos ainda, que o externo (no caso, o social) importa, n„o como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituiÁ„o da estrutura, tornando-se, portanto, interno. (CANDIDO, op.cit, p.4)

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Um aspecto que Candido considera fundamental no estudo da crÌtica sociolÛgica È a vis„o de que a dimens„o social deve ser assimilada como fator de arte. Nesse caso, essa dimens„o deixa de ser um fator externo e passa a fazer parte da estrutura do texto. O fator social È imanente ao texto e, portanto, faz parte essencial dele. No entanto, ele considera que o fator sociolÛgico n„o pode ser imposto como um critÈrio ˙nico ou preferencial, porque cada fator tem a sua import‚ncia, dependendo do enfoque da an·lise.

Na sua vis„o, ìuma crÌtica que se queira integral deixar· de ser unilateralmente sociolÛgica, psicolÛgica ou ling¸Ìstica para utilizar livremente os elementos capazes de conduzirem a uma interpretaÁ„o coerenteî. (Candido,1985, p.7) O crÌtico pode ressaltar o elemento da sua preferÍncia, desde que o veja como um dos elementos estruturais da obra e n„o como o ˙nico par‚metro para a an·lise da obra.

Deve-se ter cuidado tambÈm para que a an·lise n„o venha a obstruir a verdade b·sica, ou seja, que n„o se faÁa a an·lise pela vis„o de uma das partes, mas, pela vis„o do todo, ainda que o crÌtico tenha que estar ciente da import‚ncia das partes na an·lise do todo. Por outro lado, n„o se deve valorizar, excessivamente, os aspectos formais da obra em detrimento dos aspectos

essencial para apreender o sentido do objeto estudadoî.

(Candido, 1985, p. 8)

histÛricos, ì[

]dimens„o

Todas as vertentes da crÌtica SociolÛgica s„o importantes, porque em todas elas ocorreu o deslocamento de interesse da obra para os elementos sociais e as circunst‚ncias do meio que influenciaram a sua elaboraÁ„o. Essa influÍncia se faz notar por meio do entrelaÁamento de v·rios fatores sociais que devem ser identificados pelo crÌtico. Esses fatores podem interferir direta ou indiretamente nas caracterÌsticas essenciais da obra. O crÌtico deve tambÈm procurar mensurar o nÌvel de interferÍncia dos fatores sociais na obra liter·ria; tarefa muito complexa, por causa da variedade de elementos que podem influenciar na composiÁ„o da obra, em maior ou menor medida.

Para dar uma soluÁ„o a essa quest„o t„o complexa, Candido (1985) afirma que se deve ter em mente a existÍncia de uma relaÁ„o arbitr·ria e deformante

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do trabalho artÌstico com a realidade. N„o h· como pensar em transposiÁ„o linear dos elementos da realidade para a ficÁ„o. O autor tem liberdade artÌstica para criar uma realidade que modifica a ordem do mundo, mas que È verossÌmil dentro da trama que est· desenvolvendo.

Embora o mundo criado pelo autor seja semelhante ao mundo real, tem caracterÌsticas peculiares de um mundo ficcional. O prÛprio autor provÍ uma ordem para o mundo que ele mesmo criou. Assim sendo, È importante reconhecer que a obra deve ser vista como um organismo, ìque permite, no seu estudo, levar em conta e variar o jogo dos fatores que a condicionam e motivam; pois quando È

interpretado como elemento de estrutura, cada fator se torna componente essencial

do caso em foco [

]î.

(Candido, 1985, p.15)

Na relaÁ„o entre Sociologia e literatura È essencial delimitar os campos de cada uma delas e ter em mente que a Sociologia n„o passa de uma disciplina auxiliar, que n„o pretende explicar o fenÙmeno liter·rio ou artÌstico, mas esclarecer alguns dos seus aspectos. Na opini„o de Candido, (1985) duas questıes s„o relevantes no estudo da crÌtica sociolÛgica. A primeira È: qual a influÍncia exercida pelo meio social sobre a obra de arte? E a segunda È: qual a influÍncia exercida pela obra de arte sobre o meio? O crÌtico deve avaliar, primeiramente, em que medida a arte È a express„o da sociedade e, num segundo momento, em que medida È social, ou seja, interessa-se pelos problemas sociais.

A arte est· indelevelmente ligada ‡ sociedade. Dessa forma, pode-se afirmar que ela È a express„o da sociedade, recebendo dela influÍncias, e exercendo a funÁ„o social de influenciar os indivÌduos que tÍm contato com ela. De acordo com Candido (1985), para o sociÛlogo moderno, a arte depende da aÁ„o de fatores do meio, expressos na obra de diversas formas e produz sobre os indivÌduos um efeito pr·tico, mudando a sua conduta e a sua concepÁ„o sobre o mundo ou reforÁando neles o sentimento dos valores sociais vigentes. Essa relaÁ„o È natural e n„o depende, necessariamente, do grau de consciÍncia dos artistas e receptores a arte.

As influÍncias exercidas pelos fatores socioculturais na obra de arte, de acordo com Candido (1985), embora amplas e variadas, podem ser colocadas em trÍs grupos:

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1. estrutura social ñ manifesta-se mais na definiÁ„o da posiÁ„o social do artista, ou na configuraÁ„o de grupos receptores;

2. valores e ideologias ñ manifestam-se na forma e conte˙do da obra;

3. tÈcnicas de comunicaÁ„o ñ manifestam-se na fatura e transmiss„o da

obra.

 

Esses fatores est„o relacionados aos quatro momentos da produÁ„o, que

s„o:

 

a)

o artista, sob o impulso de uma necessidade interior, orienta-o

segundo os padrıes da sua Època;

b) escolhe certos temas;

c) usa certas formas;

d) a sÌntese resultante age sobre o meio;

N„o se pode separar o efeito da obra da sua feitura. Ela sÛ se concretiza no momento que repercute e atua no meio dos seus leitores e da sociedade.

processo de comunicaÁ„o pressupıe um

Segundo Candido (1985, p.21), ì

comunicante, no caso o artista; um comunicado, ou seja, a obra; um comunicando, que È o p˙blico a que se dirige; graÁas a isso define-se o quarto elemento do

processo, isto È, o seu efeito.î

todo

Para o objetivo desse trabalho È extremamente interessante essa abordagem de Candido; sobretudo, no que tange ao seu efeito, porque estabelece uma relaÁ„o com a estÈtica da recepÁ„o de Hans Robert Jauss, que È outra das teorias que embasam a an·lise do corpus escolhido. Tanto quanto a concepÁ„o de Candido, a estÈtica da recepÁ„o pensa no efeito da sua obra e, portanto, na relaÁ„o da obra com o seu ambiente. Pode-se afirmar que h· uma certa identificaÁ„o entre as duas correntes crÌticas, embora a estÈtica da recepÁ„o tenha avanÁado mais na direÁ„o de relacionar a obra ao seu efeito.

A arte, no entanto, na vis„o da crÌtica sociolÛgica, n„o È mera transmiss„o de noÁıes e conceitos de uma sociedade. … necess·rio consider·-la, tambÈm como a express„o de realidades arraigadas no artista e, dessa forma, depende da intuiÁ„o, tanto do criador, como dos receptores. Apesar de considerar a intuiÁ„o do autor, o crÌtico deve estar ciente que a arte nunca estar· desvinculada dos seus

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condicionantes externos. Por ser uma comunicaÁ„o expressiva, a arte pressupıe fornecer informaÁıes mais amplas do que a vis„o do artista. Na concepÁ„o de Candido (1985, p.22),

na medida em que o artista recorre ao arsenal comum da

civilizaÁ„o para os temas e formas da obra, e na medida em que ambos se moldam sempre ao p˙blico, atual ou prefigurado (como alguÈm para quem se exprime algo) È impossÌvel deixar de incluir

) (

na sua explicaÁ„o todos os elementos do processo comunicativo, que È integrador e bitransitivo por excelÍncia.

Na concepÁ„o de Candido (1985), h· dois tipos de arte, chamadas, respectivamente, de: arte de agregaÁ„o e arte de segregaÁ„o. A arte de agregaÁ„o se inspira na experiÍncia coletiva e visa meios comunicativos acessÌveis, procurando incorporar-se a um sistema simbÛlico j· existente na sociedade. Esse tipo de arte transmite aquilo que a sociedade gostaria de ler ou de ouvir. A arte da segregaÁ„o se preocupa em renovar o sistema simbÛlico, criar novos recursos expressivos e, para tanto, dirige-se, pelo menos, inicialmente a um n˙mero reduzido de receptores, que se destacam da sociedade.

Esses dois tipos de arte podem coexistir na mesma obra, em uma relaÁ„o dialÈtica e, dessa forma, produz dois fenÙmenos: a integraÁ„o, que È o conjunto de fatores que tendem a acentuar no indivÌduo ou no grupo a participaÁ„o nos valores comuns da sociedade e a diferenciaÁ„o, que È o conjunto de fatores que tendem a acentuar as peculiaridades, as diferenÁas existentes. Na concepÁ„o de C‚ndido(1985, p.23), esses fatores ìs„o processos complementares, de que depende a socializaÁ„o do homem; a arte, igualmente, sÛ pode sobreviver equilibrando, ‡ sua maneira, as duas tendÍncias referidasî. (Candido,

Mais uma vez, pode-se ver uma relaÁ„o dessa categorizaÁ„o da literatura, feita por Candido, com os pressupostos da EstÈtica da RecepÁ„o, que tambÈm fala em dois tipos de literatura, que s„o chamados por Jauss de obras culin·rias, ligeiras, que atendem ao horizonte de expectativas do leitor; e de obras cl·ssicas, que, num primeiro momento, n„o atendem ao horizonte de expectativas do leitor, mas, no decorrer do tempo, produz uma mudanÁa nesse horizonte de expectativa, caindo no gosto do leitor.

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Para especificar a relaÁ„o da literatura com a sociedade, Candido (1985) faz referÍncia a trÍs elementos fundamentais na comunicaÁ„o artÌstica ñ ator, obra e p˙blico; avaliando como a sociedade define a posiÁ„o e o papel do artista, como a obra depende dos recursos tÈcnicos para incorporar os valores propostos e como se configuram os p˙blicos. A obra exige, necessariamente, a presenÁa do artista criador. Esse criador est· dentro de uma estrutura da sociedade, que lhe atribui um papel especÌfico e define a sua posiÁ„o na escala social. Por isso È importante avaliar, essa relaÁ„o do artista com a sociedade.

Na perspectiva de Candido, (1985), aquilo que È chamado arte coletiva È a arte criada pelo indivÌduo, a tal ponto identificado ‡s aspiraÁıes e valores do seu tempo, que parece dissolver-se nele, quase se perdendo a identidade do criador- protÛtipo. A presenÁa do artista È de fundamental import‚ncia; mas por tr·s dele existem forÁas sociais condicionantes que o guiam atuando da seguinte forma:

1. Determinando a ocasi„o da obra ser produzida;

2. julgando da necessidade dela ser produzida;

3. se ela vai ou n„o tornar-se um bem coletivo.

… possÌvel concluir, portanto, que o criador-autor È produto do seu tempo,

fala pelo seu tempo. Por isso, È v·lida a afirmaÁ„o de Candido de que os elementos individuais adquirem significado social na medida em que as pessoas correspondem a necessidades coletivas. Uma obra artÌstica tanto È fruto da iniciativa individual quando de condiÁıes sociais. Para deixar isso bem claro, ele faz o seguinte esquema da relaÁ„o entre o artista e o grupo:

1. H· necessidade de um agente individual que tome a si a tarefa de criar ou apresentar a obra;

2. Ele È ou n„o reconhecido como criador ou intÈrprete pela sociedade, e o destino da obra est· ligado a esta circunst‚ncia;

3. Ele utiliza a obra, assim marcada pela sociedade, como veÌculo de suas

aspiraÁıes individuais mais profundas.

O segundo elemento, na perspectiva de Candido (1985), È a obra. Ela È

configurada de modo que os valores sociais, ideologias e sistemas de comunicaÁ„o,

que se encontram nela s„o transmudados em conte˙do e forma. Desse modo, esses

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valores e ideologias contribuem para o conte˙do, enquanto as modalidades de comunicaÁ„o influem mais na forma. Os valores da sociedade est„o impregnados no conte˙do da obra e revelam o quotidiano das pessoas, a forma de organizaÁ„o social, as suas necessidades econÙmicas, carÍncias, como encaram a vida e a morte, crenÁas, convicÁıes religiosas e emoÁıes. AtravÈs da literatura pode-se entrar na alcova das famÌlias, ouvir suas conversas Ìntimas, confissıes, assentar-se com elas ‡ mesa nas refeiÁıes, participar das suas alegrias e tristezas.

Por outro lado, as tÈcnicas de comunicaÁ„o usadas pelo autor, s„o aquelas que est„o em voga naquele momento e, por esse motivo, a sociedade ter· mais facilidade de assimilar qualquer conte˙do colocado naquela forma, visto que lhe È familiar. Na concepÁ„o de Candido (1985, p.32), ìEstas tÈcnicas podem ser imateriais ñ como o estribilho das canÁıes, destinadas a ferir a atenÁ„o e a gravar- se na memÛria; ou podem associar-se a objetos materiais, como o livro, um instrumento musical, uma telaî.

O p˙blico como o terceiro elemento a ser avaliado na relaÁ„o da literatura

com a sociedade. C‚ndido (1985) considera, neste caso, um p˙blico especializado, o receptor de arte. … o grupo que o artista tem em mente ao criar, que decide o

destino da obra, na medida que se interessa por ela. Na sociedade atual, por ser bastante heterogÍnea, ele È formado de uma massa abstrata ou virtual, que aumenta e se fragmenta ‡ medida que a estrutura social se torna complexa. O que se torna seu elemento de unificaÁ„o È o interesse estÈtico.

O p˙blico tem grande influÍncia sobre a obra do artista e, tanto quanto o

artista e a obra, obedecem a condicionamentos do momento e do meio. Antonio Candido (1985, p.36) sintetiza muito bem a relaÁ„o do p˙blico com o seu meio social ao afirmar que:

Se nos voltarmos agora para o comportamento artÌstico dos p˙blicos, veremos uma terceira influÍncia social, a dos valores, que se manifestam sob v·rias designaÁıes ñ gosto, moda, voga, - e sempre exprimem as expectativas sociais, que tendem a cristalizar-se em rotina

Vistas essas consideraÁıes, È possÌvel estabelecer uma relaÁ„o, do ponto de vista sociolÛgico, entre a obra, o autor e o p˙blico. Segundo C‚ndido, (1985, p.

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38) : ìo p˙blico d· sentido e realidade ‡ obra, e sem ele o autor n„o se realiza, pois ele È de certo modo o espelho que reflete a sua imagem enquanto criadorî. Por conseguinte, o p˙blico torna-se um fator de ligaÁ„o entre o autor e a sua prÛpria obra, na medida que, ao apreci·-la, o autor ser· visto pela sua obra, que forma a sÈrie ñ autor-p˙blico-obra, tendo como termo mÈdio o p˙blico receptor.

Por sua vez, a obra vincula o autor ao p˙blico, que inicialmente tem interesse pela obra, estendendo-se ‡ personalidade que o produziu, formando a segunda sÈrie ñ autor-obra-p˙blico, tendo como termo mÈdio a obra. Finalmente o autor È o agente que desencadeia o processo, definindo uma terceira sÈrie interativa: obra-autor-p˙blico, tendo como termo mÈdio o autor.

Na relaÁ„o, escritor, obra e p˙blico pode ocorrer um distanciamento do escritor e do p˙blico, porque, na concepÁ„o de Candido, (1985) o escritor vÍ apenas ele prÛprio e as palavras, mas n„o vÍ o leitor; o leitor vÍ apenas as palavras e ele prÛprio, mas n„o vÍ o escritor e um terceiro (crÌtico) pode ver apenas a escrita, como parte de um objeto fÌsico, sem ter consciÍncia do leitor nem do escritor.

Como resultado dessa vis„o n„o muito abrangente do processo liter·rio, conforme reflexıes de Candido (1985), podem surgir distorÁıes, levando o escritor a supor, inconscientemente, que as ˙nicas partes do processo s„o ele mesmo e a obra, ignorando o leitor; ou levando o leitor a supor que o processo consiste nele mesmo e na obra, ignorando o autor; e que um crÌtico suponha que a obra È tudo, ignorando o autor e o leitor. Deve-se ter em mente, para eliminar qualquer distorÁ„o, que o ato de linguagem depende da interaÁ„o das trÍs partes e a obra sÛ ser· bem compreendida no contexto normal do conjunto.

Considerando, especificamente, o papel do escritor em relaÁ„o ao seu p˙blico, Candido (1985) reafirma que o escritor n„o È apenas um indivÌduo capaz de exprimir a sua originalidade, mas alguÈm que desempenha uma funÁ„o na sociedade e que corresponde a certas expectativas dos leitores ou auditores, tornando-se intÈrprete do seu grupo social. A produÁ„o liter·ria deve ser avaliada com referÍncia ‡ posiÁ„o social do escritor e ‡ formaÁ„o do p˙blico. Segundo Candido (1985) a posiÁ„o social do escritor depende:

1. Da consciÍncia grupal. Ela manifesta-se de modo diverso conforme o momento histÛrico, podendo expressar-se como vocaÁ„o, consciÍncia artesanal,

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senso de miss„o, inspiraÁ„o, dever social, dentre outros. Essa manifestaÁ„o permite que seja definido um papel especÌfico.

2. Das condiÁıes de existÍncia que os seus membros, enquanto tais,

encontram na sociedade. No mundo moderno a tendÍncia È a profissionalizaÁ„o dos escritores, mas nas diferentes Èpocas e sociedades tem havido diversas formas de

remunerar o trabalho de criaÁ„o liter·ria, tais como: mecenato, incorporaÁ„o ao corpo de servidores, atribuiÁ„o de cargos, geralmente prebendas, dentre outros.

3. Do conceito social que os grupos elaboram em relaÁ„o a ele, e n„o

corresponde necessariamente ao seu prÛprio. Esse conceito est· relacionado ao reconhecimento coletivo da sua atividade, que deste modo se justifica socialmente.

Em se tratando dos fatores relacionados ao p˙blico, deve-se levar em consideraÁ„o que o p˙blico leitor È o mediador entre o autor e a obra. O autor sÛ tem a plena consciÍncia do que È a sua obra por meio do feedback dado pelos leitores. De acordo com Candido (1985, p. 76), ìEscrever È propiciar a manifestaÁ„o alheia, em que a nossa imagem se revela a nÛs mesmosî. O p˙blico n„o consiste em um grupo social definido, mas num aglomerado de indivÌduos, que tÍm como elemento aglutinador o interesse por um determinado tipo de literatura.

Na perspectiva de Candido, (1985) o p˙blico se configura pelo trabalho dos meios de comunicaÁ„o, pela formaÁ„o de uma opini„o liter·ria e a diferenciaÁ„o de setores mais restritos que tendem ‡ lideranÁa do gosto ñ as elites. O reconhecimento da posiÁ„o do escritor, a aceitaÁ„o das suas idÈias ou da sua tÈcnica, a remuneraÁ„o do seu trabalho, depende da aceitaÁ„o da obra pelo p˙blico. H· uma dependÍncia recÌproca entre o autor e o p˙blico e, para interpretar bem essa relaÁ„o, deve-se aplicar conjuntamente esses princÌpios, pois eles est„o unidos e combinados e dependem uns dos outros.

… importante considerar, tambÈm, no estudo das relaÁıes da arte com o seu p˙blico, o conceito da ìgratuidadeî. Esse conceito n„o deve ser compreendido no aspecto da materialidade da obra, mas no aspecto do seu conte˙do. Est· relacionado ‡ liberdade do autor de produzir algo sem qualquer compromisso com os elementos condicionantes do mundo que o cerca e, do receptor, por sua vez, de receber a obra, desprovido de idÈias preconcebidas.

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As manifestaÁıes artÌsticas fazem parte da vida social e s„o necess·rias para a sobrevivÍncia da sociedade, porque interpreta os impulsos de express„o, comunicaÁ„o e de integraÁ„o da sociedade e funciona como elemento de unificaÁ„o do grupo social. A literatura de determinado grupo expressa o seu modo de vida e est· integrada aos demais fenÙmenos sociais. AlÈm disso, a literatura È uma oportunidade de manifestaÁ„o individual, permitindo a express„o da criatividade do autor que se torna o patrimÙnio de toda a sociedade e faz dele um intÈrprete da sua Època.

H· uma predisposiÁ„o da sociedade para receber a obra liter·ria, demonstrada pelos fatores que se constituem em estÌmulos da criaÁ„o liter·ria. De acordo com Candido, (1985) destaca-se a tendÍncia do homem para a fantasia. Na mentalidade do homem moderno, assim como foi no passado, subsistem lado a lado

o m·gico e o lÛgico. No af„ de afastar-se da sua rotina estressante, das frustraÁıes

e limitaÁıes do dia-a-dia, o homem cria para si um mundo mimÈtico onde ele possa viver experiÍncias inÈditas, vencer suas limitaÁıes e realizar seus sonhos.

Essa tambÈm È a experiÍncia dos receptores da arte. Por um momento, eles deixam a sua realidade, para entrar no mundo da fantasia, deixam de viver a sua vida para viver a vida das personagens de um romance, de um filme ou para deleitar-se com palavras de um poema que eles n„o ouvem no seu dia-a-dia.

A criaÁ„o liter·ria, em particular, atende ‡ necessidade que o homem tem de representar o mundo. Essa representaÁ„o, no entanto, est· condicionada ‡ pr·tica social. Para Candido (1985,p.53).

a arte, e portanto, a literatura, È uma transposiÁ„o do real para o ilusÛrio por meio de uma estilizaÁ„o formal, que propıe um tipo arbitr·rio de ordem para as coisas, os seres, os sentimentos. Nela se combinam um elemento de vinculaÁ„o ‡ realidade natural ou social e um elemento de manipulaÁ„o tÈcnica, indispens·vel ‡ sua configuraÁ„o,[ ]

Para finalizar as consideraÁıes sobre a CrÌtica SociolÛgica, deve-se ressaltar a import‚ncia da teoria estudada para a leitura do corpus. Embora os sermıes sejam um gÍnero com suas especificidades, percebe-se que essa teoria crÌtica oferece subsÌdios consistentes para realizar a tarefa pretendida.

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Quando se comparam os princÌpios da CrÌtica SociolÛgica com os princÌpios do MÈtodo Recepcional, percebe-se uma afinidade entre essas duas correntes crÌticas. Ambas enfatizam a obra, o seu contexto, o autor e o leitor. Dessa forma, justifica-se a escolha dessas escolas crÌticas para embasar o trabalho, por essa afinidade que elas guardam entre si e com os propÛsitos desta pesquisa. Esta pesquisa, tomando por base as teorias crÌticas escolhidas, busca a obra, o autor e o leitor, n„o isoladamente, mas nas suas relaÁıes uns com os outros, procurando ver o todo.

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3 VIEIRA E O SEU TEMPO

O sÈculo XVII representa uma fase de adaptaÁ„o e acomodaÁ„o das

naÁıes europÈias ‡s mudanÁas que ocorreram nos sÈculos anteriores. Essas mudanÁas sacudiram a sociedade como um todo, atingindo a filosofia, as artes, a polÌtica, a economia, as relaÁıes sociais e a religi„o. Para entender o que a sociedade seiscentista europÈia estava vivendo e a dimens„o da adaptaÁ„o que experimentava, deve-se voltar o olhar para os sÈculos anteriores e observar como aconteceram essas mudanÁas.

3.1 PRECEDENTES CONTEXTUAIS

3.1.1 AS RELA«’ES SOCIAIS NA IDADE M…DIA

Durante boa parte da Idade MÈdia, as relaÁıes sociais nos paÌses da Europa eram estratificadas. Essa imobilidade social, em parte, decorre do Feudalismo, sistema polÌtico-econÙmico-financeiro dominante na Europa medieval, desde o sÈculo IX atÈ o sÈculo XIII. Dessa forma, o homem medieval europeu, desse perÌodo, encontrava-se sujeito a uma hierarquia social perversa, determinada pela estrutura feudal.

A estrutura da sociedade consistia de apenas trÍs camadas sociais: A

Nobreza, o Clero e os Servos. De acordo com Cotrin (1996, p. 148), ìna sociedade feudal praticamente n„o existia mobilidade social dos indivÌduos. Presas a uma estrutura rÌgida e est·tica, as pessoas eram agrupadas em estamentos, (grifo do

autor) permanecendo toda a vida numa determinada posiÁ„o social.î

Esse sistema tinha como princÌpios a divis„o do paÌs em v·rias ·reas, chamadas feudos. Os nobres leais ao Rei recebiam o seu feudo e se tornavam

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senhores feudais. Esses senhores tinham v·rios servos a seu serviÁo, que recebiam

uma porÁ„o de terra para trabalhar, tinham que dividir a metade dos seus lucros com

o senhor feudal, e ainda pagar-lhe outras taxas. Cada territÛrio era quase autÙnomo na formulaÁ„o das suas leis e da aplicaÁ„o da justiÁa aos seus subordinados.

O Rei era o grande senhor feudal a quem os demais deveriam defender, entregar uma parte de seus lucros e ser leais. Quem n„o tivesse a posse da terra deveria submeter-se ao senhor feudal como servo e prestar-lhe toda obediÍncia e lealdade. Os lucros do trabalho dos servos eram divididos com o senhor feudal. As relaÁıes comerciais praticamente n„o existiam, porque o prÛprio senhor feudal vendia aos servos os produtos de que eles necessitavam.

Deve-se considerar o papel da Igreja na sustentaÁ„o do regime feudal. Ela, pela sua pregaÁ„o, dava respaldo a esse regime e sistema social. A ideologia dominante era o teocentrismo, sob a Ûtica da dogm·tica da Igreja; e, na pr·tica da vida, a sujeiÁ„o a esta concepÁ„o era total: todas as coisas estavam predeterminadas por Deus e o homem n„o poderia ostentar vontade prÛpria, mas tinha que ser obediente aos mandamentos de Deus, tal como interpretados pela Igreja.

3.1.2 FATORES QUE DETERMINARAM MUDAN«AS NA MENTALIDADE DO HOMEM NO FINAL DA IDADE M…DIA

No decorrer do sÈculo XV, o homem europeu experimentou uma sÈrie de mudanÁas que contribuÌram para ampliar os seus horizontes. Desse modo, passou

a acreditar em seu potencial, a olhar para si mesmo e percebeu que podia modificar

o seu meio e viver as prÛprias experiÍncias. Com essa nova postura, descobre-se como sujeito do seu prÛprio destino. Essa percepÁ„o coincide com o momento da transiÁ„o para a Idade Moderna. Segundo Cotrin (1996, p. 213), ìcom a idade moderna, os laÁos dessa estrutura de dependÍncia social romperam-se, abrindo espaÁo para que o indivÌduo pudesse emergirî.

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AlÈm de suas experiÍncias, o homem do final da idade MÈdia foi influenciado por algumas ideologias que contribuÌram para mudar a sua mentalidade. Podem ser citadas: o humanismo, racionalismo e individualismo, como exemplos de ideologias que influenciaram o homem naquele perÌodo.

O humanismo, como o prÛprio termo indica, enfatiza o homem. De acordo com Cotrin (1996, p.213), ìem vez de um mundo centrado em Deus (TeocÍntrico), era preciso construir um mundo centrado no homem, (antropocÍntrico) desenvolvendo uma cultura humanistaî.

Por sua vez, o racionalismo contribuiu para modificar a concepÁ„o medieval de mundo. O mundo n„o mais deveria ser explicado pela fÈ, mas pela raz„o. Por ˙ltimo, o individualismo enfatiza que as diferenÁas individuais dos homens livres deveriam ser respeitadas, em detrimento da Ínfase no aspecto coletivo e fraternal da cristandade.

O movimento intelectual e cultural que representou a liberdade do

homem, naquele momento, foi o Renascimento. Esse termo denomina o movimento de muitos artistas e intelectuais dos sÈculos XV e XVI na tentativa de recuperar ou retomar a cultura antiga greco-romana, que havia sido relegada a um segundo plano. Foi uma nova maneira de interpretar as artes sem considerar o teocentrismo, ent„o em vigor. De acordo com Cotrin (1996, p.214), ìfoi a partir dos renascentistas que o perÌodo medieval passou a ser rotulado como ëIdade de Trevasí, Època de ëbarbarismoí cultural. Entretanto, essas rotulaÁıes correspondem, sem d˙vida, a exageros dos renascentistasî.

O mundo do sÈculo XVI sofreu tambÈm o impacto das Reformas

Religiosas. Esses movimentos religiosos surgiram da soma das novas ideologias, que influenciavam o homem, com a situaÁ„o decadente da Igreja, nos seus mais altos escalıes, alÈm da incompetÍncia do clero para resolver essa situaÁ„o e de

outros interesses religiosos e n„o-religiosos.

Conforme Franco J˙nior (1976, p.299) ìA causa fundamental para surgimento do Protestantismo parece ter sido uma crise de consciÍncia que atingia o homem dos sÈculos XV e XVI, cujas necessidades Ìntimas n„o eram ent„o satisfeitas pelo catolicismoî. O homem do final da Idade MÈdia estava abalado pelas pestes e guerras e por isso voltou-se para a religiosidade como forma de redimir-se

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dos pecados que, na sua concepÁ„o, era a causa de tantas desgraÁas. Como a Igreja n„o dava o respaldo espiritual de que ele necessitava, porque estava envolvida em muitos misteres terrenos e tinha um clero mal preparado, houve uma busca de novas alternativas religiosas, naquele momento, oferecidas pelos reformadores.

O mais pujante e abrangente movimento reformista aconteceu na Alemanha. Esse movimento teve como cabeÁa, Martinho Lutero, um monge alem„o que, segundo os historiadores, apÛs buscar e n„o encontrar, na estrutura religiosa da Igreja, o alento para a sua alma e o lenitivo para a sua consciÍncia, teve uma experiÍncia mÌstica ao ler na carta de S„o Paulo aos Romanos, o versÌculo que declara: ìO justo pela sua fÈ viver·î 3 . Esse texto bÌblico tornou-se o lema da sua vida e, a partir dessa experiÍncia, aprofundou as suas divergÍncias com a Igreja atÈ o rompimento completo.

No entanto, o fato que despertou a indignaÁ„o dos alem„es, e que tornou-se o estopim da reforma luterana, foi a venda de indulgÍncias, isto È, documentos de remiss„o de pecados, cedidos em troca de dinheiro. Aproveitando esse momento, Lutero afixou um tratado com noventa e cinco teses na porta da catedral do Castelo de Wittenberg. Nesse tratado ele expÙs sua discord‚ncia dos dogmas da Igreja e isso ocasionou o rompimento completo com o catolicismo, fazendo eclodir, com todas as suas conseq¸Íncias, o luteranismo na Alemanha.

AlÈm da motivaÁ„o religiosa, n„o se pode ignorar que houve outros interesses envolvidos na reforma religiosa. Dentre eles, podem ser citados, o nacionalismo, a eclos„o de uma nova organizaÁ„o social e polÌtica, e as novas idÈias econÙmicas que se contrapunham ao pensamento da Igreja naquele momento. Havia, dentre os seus preceitos, uma concepÁ„o medieval sobre usura, segundo a qual, n„o era permitida a cobranÁa de juros, se o negÛcio n„o envolvesse grandes riscos, e sustentava a concepÁ„o do ìpreÁo justoî, segundo a qual, o comerciante n„o poderia auferir altos lucros nas suas transaÁıes comerciais.

De acordo com esta concepÁ„o, ao preÁo de custo de uma mercadoria deveria ser adicionada apenas uma pequena taxa que pagasse seu trabalho e garantisse sua subsistÍncia. Para a Igreja, auferir grandes lucros era considerado pecado. O pensamento reformista, no entanto, era mais liberal a respeito do lucro,

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adaptando-se ‡ nova estrutura econÙmica e oferecendo respaldo, na sua teologia, para a livre iniciativa e para a busca do lucro.

Outra motivaÁ„o n„o-religiosa, segundo Franco J˙nior (1976), foi um certo desejo de apropriar-se dos bens da Igreja. A Igreja possuÌa muitos bens, tais como: JÛias, obras de arte e dinheiro, alÈm de terras em v·rios paÌses. Nos paÌses que aderiram ‡ reforma, os bens da Igreja foram apropriados pelo governo.

N„o se pode negar que, no ‚mago dos movimentos reformistas da Igreja estavam os impulsos religiosos. Lutero lutava para pÙr fim ‡ ang˙stia coletiva reinante naquele momento. Ao falar sobre justificaÁ„o pela fÈ, ele estava tentando dar ‡ religi„o uma dimens„o interior; quando prega sobre o sacerdÛcio universal, cria que um leigo de vida ilibada È mais sacerdote que um eclesi·stico de vida moral e espiritual irregular; ao traduzir a BÌblia de Erasmo (do grego) para o alem„o, Lutero reflete a tendÍncia humanista de divulgar as Escrituras na lÌngua do povo.

Outro foco reformista aconteceu na SuÌÁa, tendo como lÌder, o teÛlogo francÍs Jo„o Calvino. Embora esse movimento reformista n„o tenha uma relaÁ„o direta com o movimento luterano, Calvino tambÈm demonstra que est· adaptado ‡s novas tendÍncias ideolÛgicas. Segundo Franco J˙nior (1976), Calvino, com a sua doutrina da predestinaÁ„o, est· negando a necessidade de existir o clero e, ao incentivar os negÛcios, satisfaz a classe burguesa. Para ele, ter uma fÈ fervorosa ou riquezas materiais eram sinais de que a pessoa pertencia ao grupo dos eleitos de Deus para a salvaÁ„o. O Calvinismo se expandiu por v·rios paÌses da Europa, tais como FranÁa, Inglaterra, EscÛcia e Holanda, nos quais o capitalismo comercial alcanÁou uma expressiva expans„o.

AlÈm do Luteranismo e Calvinismo, um outro movimento reformista aconteceu na Inglaterra. Esse movimento, chamado Anglicanismo, teve sua motivaÁ„o muito mais terrena do que religiosa. Dentre os motivos, o principal deles, foi a recusa do papa Clemente VII de anular o casamento do rei Henrique VIII com a princesa espanhola Catarina de Arag„o; um outro motivo foi a necessidade de fortalecer a monarquia inglesa, visto que a Igreja catÛlica tinha uma grande influÍncia polÌtica no paÌs; e, por ˙ltimo, o interesse nas terras da Igreja.

O resultado dessa reforma foi a criaÁ„o de uma Igreja nacional hÌbrida, com o ritual catÛlico e os dogmas protestantes. Segundo Cotrin, (1996, p.232) ìem

60

outras palavras, mantinha-se nas cerimÙnias a forma catÛlica (conservaÁ„o da liturgia catÛlica, da hierarquia eclesi·stica etc.) e introduziram-se na doutrina elementos de conte˙do protestante (salvaÁ„o pela fÈ, preservaÁ„o de apenas dois sacramentos ñ batismo e comunh„o etc.)î Assim como os movimentos abordados anteriormente, o Anglicanismo, como se pÙde perceber, teve tambÈm sua motivaÁ„o n„o-religiosa.

As condiÁıes nas quais esses movimentos surgiram, os seus objetivos e

a sua repercuss„o n„o ser„o abordados mais detidamente neste trabalho, visto ser

a sua finalidade apenas procurar traÁar em linhas gerais o cen·rio no qual viveu e

atuou o Padre AntÙnio Vieira. No entanto, deve-se considerar que esses movimentos reformistas juntos provocaram um cisma de proporÁıes consider·veis na Igreja e, como n„o deveria deixar de ser, provocou uma veemente reaÁ„o da Igreja.

3.2

CONDICIONANTES POLÕTICO-IDEOL”GICOS E LITER£RIOS

3.2.1

A CONTRA REFORMA

A reaÁ„o da Igreja, chamada Contra-Reforma, comeÁou cerca de 1534 e

perdurou atÈ o final do sÈculo XVI, mas as suas influÍncias sobre a Igreja, de modo

geral, foram permanentes e transcenderam os objetivos iniciais. AÁıes internas e externas foram desenvolvidas no pontificado dos papas Paulo III (1534-1549), J˙lio III (1550-1555), Marcelo II (1555-1555), Paulo IV (1555-1559), Pio IV (1559-1565), Pio V (1566-1572), GregÛrio XIII (1572-1585) e Xisto V (185-1590).

A primeira aÁ„o da Igreja, de acordo com Cotrin (1996), foi tentar punir os

lÌderes rebeldes. Desta forma, esperava que as idÈias dos reformadores n„o viessem a ser propagadas e que o mundo crist„o recuperasse a sua unidade sob a batuta papal. No entanto, n„o foi isso o que aconteceu, porque esses lÌderes

61

reformadores estavam fortemente apoiados por governantes interessados em desvincular seus Estados da Igreja CatÛlica para poderem ter mais autonomia. Em virtude disso, o movimento protestante avanÁou no territÛrio europeu ganhando um n˙mero expressivo de adeptos.

N„o conseguindo alcanÁar o seu objetivo de reunificar o seu rebanho, a Igreja, ent„o, voltou-se para uma avaliaÁ„o da sua estrutura interna. Nessa altura dos acontecimentos, era imprescindÌvel reconhecer a ruptura protestante. A partir daÌ, a Igreja procurou moralizar o clero e reorganizar suas estruturas administrativas. Segundo Cotrin (1996, p. 234):

Todo um conjunto de medidas foi colocado em pr·tica pelos lÌderes da Contra-Reforma, tendo em vista deter o avanÁo do protestantismo. Entre essas medidas, destacam-se a aprovaÁ„o da Ordem dos JesuÌtas, a convocaÁ„o do ConcÌlio de Trento e o restabelecimento da InquisiÁ„o.

A Ordem dos JesuÌtas foi fundada pelo militar espanhol Ign·cio de Loyola, em 1534, e aprovada pelo papa Paulo III, em 1540. Essa Ordem possuÌa uma estrutura e disciplina inspirada no militarismo e seus membros consideravam-se os soldados da Igreja CatÛlica, para combater a expans„o do protestantismo. Para isso, fundaram escolas nos locais onde atuaram, com a finalidade de disseminar a concepÁ„o religiosa catÛlica.

Os padres jesuÌtas se empenharam tambÈm na catequese dos n„o- crist„os e propuseram-se a converter ao catolicismo os povos dos continentes recentemente descobertos, com o objetivo de expandir o domÌnio catÛlico para os demais continentes. Segundo Noronha(1998, p.40), ìos JesuÌtas, pelo ensino nos seus multiplicados ColÈgios de formaÁ„o profunda e disciplinada e pela pregaÁ„o, tornar-se-„o num sÈrio e temÌvel advers·rio dos reformadoresî.

Diante de posicionamentos teolÛgicos discordantes, manifestados pelos movimentos reformadores, a Igreja precisava ratificar seus dogmas, garantir a unidade da fÈ catÛlica e disciplinar o clero de maneira a inibir o aparecimento de cismas futuros.

62

Com essa finalidade o papa Paulo III convocou o ConcÌlio de Trento em 1542, porÈm, a sess„o de abertura sÛ foi acontecer no ano de 1545. Foi o concÌlio mais longo da histÛria do catolicismo, realizado no pontificado dos papas, Paulo III (1534- 1549), J˙lio III (1550-1555), Marcelo II (1555-1555), Paulo IV(1555-1559) e Pio IV (1559 a 1565), tendo-se encerrado em 1563, embora tenha sido interrompido por um longo tempo.

As decisıes desse concÌlio contemplam dois aspectos da vida religiosa. O aspecto vivencial e o aspecto teolÛgico-doutrin·rio. No aspecto vivencial, algumas decisıes importantes foram tomadas para melhorar a conduta do clero: Foi elaborada uma legislaÁ„o para eliminar os abusos do clero, determinando que os sacerdotes deveriam residir junto ‡s parÛquias, os bispos, na sede episcopal, monges e freiras em seus mosteiros e conventos e que a Igreja deveria fundar semin·rios para preparar melhor seus sacerdotes.

No aspecto teolÛgico-doutrin·rio, o concÌlio apenas ratificou as doutrinas tradicionais catÛlicas. Alguns pontos s„o destacados por Cotrin (op.cit,234):

SalvaÁ„o humana: depende da fÈ e das boas obras humanas. Rejeita-se, portanto, a doutrina da predestinaÁ„o.

Fonte da fÈ ñ o dogma religioso tem como fonte a BÌblia, cabendo ‡ Igreja dar-lhe a interpretaÁ„o correta, e a tradiÁ„o religiosa, conservada pela Igreja e transmitida ‡s novas geraÁıes. O papa reafirmava sua posiÁ„o de sucessor de Pedro, a quem Jesus Cristo confiou a construÁ„o de sua Igreja.

A missa e a presenÁa de Cristo ñ a Igreja reafirmou que no ato da eucaristia ocorria a presenÁa real de Jesus no p„o e no vinho. Essa presenÁa real de Cristo era rejeitada pelos protestantes.

Nesse concÌlio foi tambÈm definida a doutrina do pecado original e declarado, como texto bÌblico autÍntico, a traduÁ„o de S„o JerÙnimo, denominada "Vulgata". Foram mantidos os sete sacramentos, o celibato clerical e a indissolubilidade do matrimÙnio, o culto dos santos e das relÌquias, a doutrina do purgatÛrio e as indulgÍncias.

A inqusiÁ„o foi outro instrumento de grande poder, usado pela Igreja, para tentar fazer voltar aqueles que haviam deixado a Igreja e punir os que se mantivessem rebeldes contra o seu governo eclesi·stico. Essa instituiÁ„o havia

63

sido criada em 1233 pelo papa GregÛrio IX e tinha como objetivo julgar, condenar e executar aqueles que apostatassem da fÈ catÛlica. Segundo Cotrin (1996), com o passar do tempo, os tribunais da InquisiÁ„o tiveram suas atividades reduzidas em v·rios paÌses. Mas, com o avanÁo do protestantismo, a Igreja decidiu reativar, em meados do sÈculo XVI, o funcionamento da InquisiÁ„o. Dessa forma, a InquisiÁ„o voltou a funcionar, com todo vigor e milhares de pessoas foram submetidas aos seus tribunais, sendo, muitas delas, condenadas ‡ morte.

Sabe-se que esse tribunal tinha outros objetivos subjacentes, que era ser o instrumento de dominaÁ„o, n„o somente religiosa, mas tambÈm polÌtico- ideolÛgica e agente de perseguiÁ„o aos judeus e, apÛs os movimentos reformistas, aos protestantes; constituindo-se em Portugal, segundo Menezes (2000, p.62) ìnum instrumento da classe senhorial contra a ascens„o burguesaî. O seu objetivo era impedir a ascens„o polÌtica da classe que passou a deter o poder econÙmico.

As maiores vÌtimas da InquisiÁ„o foram os judeus. Na Idade MÈdia, durante centenas de anos, eles habitaram e viveram pacificamente na PenÌnsula IbÈrica. A eles era permitido ter as suas leis e seus dogmas, muito embora, tivessem que se submeter ‡s leis da naÁ„o espanhola, paÌs que os acolhia. AtÈ ent„o, apesar de discriminados, n„o eram perseguidos.

A situaÁ„o sofreu uma mudanÁa abrupta no final do sÈculo XIV. De acordo com Menezes ( 2000, p. 58), em 1391, milhares de judeus foram mortos na ruas de Sevilha e CÛrdoba. Fugindo da morte, muitos deles procuraram em massa o batismo, enquanto muitos outros fugiram para Portugalî. Esses judeus ficaram sob diversas leis e proibiÁıes por parte do Governo Espanhol, atÈ que foram expulsos da Espanha no final do sÈculo XV.

Espanha se firma como uma grande defensora da fÈ

catÛlica e, por isso, um local propÌcio para a aÁ„o da

afirma que de 1481 a 1495 houve 100 mil processos com duas mil execuÁıes na Espanha e, entre 1559 e 1562, houve forte perseguiÁ„o aos protestantes com 44 execuÁıes.

InquisiÁ„o. Cotrin (1996)

Nessa Època, a

Em Portugal, os judeus, embora discriminados, n„o foram, a princÌpio, perseguidos. Qualquer portuguÍs, ainda que ocupasse uma posiÁ„o inferior na sociedade, considerava-se melhor que eles. Com o surgimento do Mercantilismo,

64

que colocou em destaque a sua atividade comercial, o que proporcionou a sua ascens„o social, juntamente com a classe burguesa, eles passaram a ser perseguidos. No entanto, essa perseguiÁ„o aos judeus, de acordo com Menezes (2000), adquire impulso com o estabelecimento do Tribunal da InquisiÁ„o em Portugal na primeira metade do sÈculo XVI. Corroborando com o pensamento de Menezes, Luz (2006) afirma que:

A InquisiÁ„o em Portugal foi instituÌda em 1536, nos moldes

medievais sob a lideranÁa do poder rÈgio. Diferentemente da InquisiÁ„o medieval, que possuÌa como objetivo maior o combate ‡s heresias, a InquisiÁ„o portuguesa era comandada pelo rei que

centralizava, fortificava e solidificava seu poder atravÈs do confisco dos bens. Afinal alguÈm teria que manter t„o complexa estrutura. O alvo maior em solo lusitano era o crist„o-novo, judeus convertidos ‡

fÈ crist„, que a InquisiÁ„o julgava manter seus ritos judaicos

secretamente. Acusados de profanar as hÛstias e desvirtuar muitos crist„os do caminho de Deus, esse povo pagou com a vida e com seus bens a manutenÁ„o do equilÌbrio do reino.

AlÈm da perseguiÁ„o aos judeus, os tribunais do santo ofÌcio (nome dado ‡ InquisiÁ„o no sÈculo XVI) voltaram suas baterias para os crist„os protestantes e, atÈ mesmo, para os catÛlicos que n„o se adequassem ‡ ideologia da Igreja, como foi o caso do Padre Vieira, que sofreu puniÁıes do Santo OfÌcio por causa das suas posiÁıes ideolÛgicas divergentes do pensamento da Igreja, principalmente, por defender os judeus, o grande alvo da InquisiÁ„o.

Uma outra arma da Contra-Reforma, na tentativa de reconquistar o rebanho dissidente, foi a pregaÁ„o. Em funÁ„o disso, era imperioso e importante estudar retÛrica. Essa disciplina torna-se, portanto, altamente necess·ria para essa Època. Os semin·rios catÛlicos se esmeraram em ensinar aos futuros padres a retÛrica e a dialÈtica. Segundo Noronha (2000, p. 39,40): ìO Serm„o È o instrumento mais directo de ensino da doutrina e da sua defesa. … o instrumento por excelÍncia da cultura de massas. …, em rigor e na pr·tica, o ˙nico instrumento. ëPropagandaí È palavra que foi fabricada na Contra-Reforma.î

A tÙnica da religi„o passou a ser a forma e a aparÍncia. Era importante a exteriorizaÁ„o, era preciso que o crente sentisse a religi„o pela visualizaÁ„o dos principais sÌmbolos religiosos do cristianismo. Para proporcionar esta visualizaÁ„o,

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os JesuÌtas incrementaram as peÁas teatrais. Dramas escolares foram usados, com muito sucesso, para ilustrar as mensagens do cristianismo, segundo a concepÁ„o catÛlica. A mensagem deveria ser visualizada e sentida pelos fiÈis. Dessa forma, a alma dos crentes seria tocada. Os cultos deveriam ser pomposos. Segundo Noronha (2000, p.40):

Sentir a religi„o È o que a Contra-Reforma quer do crente. Insiste-se no culto da presenÁa real de Cristo, no da Virgem e dos Santos materializados numa proliferaÁ„o maciÁa e universal de imagens, exactamente contra o que os Reformadores apregoavam e praticavam na sua iconoclastia.

3.2.2 O BARROCO:

A palavra barroco n„o tem uma origem precisa, mas designava originalmente um tipo de pÈrola de forma irregular ou ainda pode ter-se originado do esquema mnemÙnico usado pela filosofia escol·stica para facilitar a memorizaÁ„o de um dos silogismos. Com o desenvolvimento sem‚ntico do termo, passou a significar todo sinal de mau gosto e, posteriormente, a cultura dos sÈculos XVII e

XVIII.

Para Noronha (2000), a literatura barroca traduziu com relevo aquele momento, concedendo primazia ‡ sensaÁ„o e ‡ emoÁ„o sobre a idÈia que de todo n„o negligencia, evidenciando o gosto do patÈtico violento, a embriaguez e o arrebatamento do espÌrito na livre criaÁ„o das formas, recriando uma retÛrica

expressiva, feita de imagens entusiasmantes de Ínfases, hipÈrboles, anacolutos, antÌteses, paradoxos, comparaÁıes, trocadilhos, inversıes, met·foras, frases interrogativas, vocabul·rio elevado e rico, gradaÁıes de palavras, repetiÁıes constantes, dubiedade de sentidos e alimentada pelo jogo das palavras e dos

conceitos.

66

A tendÍncia de conciliar visıes opostas entre teocentrismo e antropocentrismo torna o barroco um movimento dualista, caracterizado, principalmente, pelas oposiÁıes. Assim sendo, de acordo com Bigal (2006), a literatura barroca È marcada pela existÍncia de contradiÁıes geradas pela oposiÁ„o constante entre o espÌrito crist„o (antiterreno, teocÍntrico) e o espÌrito renascentista (racionalista, mundano).

Em conseq¸Íncia dessas contradiÁıes, o barroco liter·rio È uma mistura de manifestaÁıes opostas entre o mÌstico e sensual, religioso e erÛtico, espiritual e carnal. No barroco, esse eixo dualista governa a vida. O homem È visto em constante conflito com o mundo, vindo daÌ o estilo irregular dessa estÈtica. Para expressar essa irregularidade È que os escritores desse perÌodo usaram os artifÌcios da linguagem figurada, tais como: antÌteses, met·foras, sinestesias e hipÈrboles. Marinho (2006, p.2) corrobora essa vis„o ao assegurar que:

todo o rebuscamento que aflora na arte barroca È reflexo do dilema, do conflito entre o terreno e o celestial, o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo), o pecado e o perd„o, a religiosidade medieval e o paganismo renascentista, o material e o espiritual, que tanto atormenta o homem do sÈculo XVII. A arte assume, assim, uma tendÍncia sensualista, caracterizada pela busca do detalhe num exagerado rebuscamento formal.

Essa indefiniÁ„o do barroco entre o divino e o terreno, segundo Bigal (2006), faz refletir na literatura os conflitos e o descontentamento do homem em face da sua existÍncia. Por isso, os temas da literatura barroca s„o pessimistas, enfatizam a dor e a vergonha e advertem sobre a brevidade da vida. O pessimismo acerca da vida terrena sÛ È suavizado com a crenÁa na vida celestial. Um dos temas recorrentes no barroco È a penitÍncia, em que se enfatiza o martÌrio da dor. AlÈm desse, h· a tendÍncia em confrontar, de forma violenta os temas opostos, tais como: o amor e a dor, a vida e a morte, a juventude e a velhice, a obscenidade e o refinamento, obtusidade com agudeza de espÌrito.

O barroco vÍ o universo na perspectiva da sua efemeridade. O mundo est· em constante mudanÁa e, dessa forma, È visto como um lugar inst·vel, inseguro, passÌvel de transformaÁıes e intermitÍncias. Essa idÈia decorre do contexto que o homem seiscentista estava vivendo. As mudanÁas econÙmicas, sociais, religiosas e polÌticas que a sociedade daquela Època experimentou, em t„o

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pouco tempo, depois de um perÌodo t„o longo de estagnaÁ„o, deixaram-no t„o perplexo, que ele sentia toda essa instabilidade, refletida nas artes. A idÈia da beleza como algo que termina est· intimamente ligada ‡ Ínfase na brevidade das coisas. O barroco È, portanto, a estÈtica do movimento que re˙ne irregularidade, contrastes e tensıes.

A irregularidade e a disformidade no barroco s„o t„o evidentes, que coexistiram nessa estÈtica dois modos de abstrair e retratar a realidade, chamados, respectivamente, de Gongorismo e Conceptismo. Para o Gongorismo, conhecer È descrever. E essa descriÁ„o È feita com a utilizaÁ„o de met·foras e sinestesias. Eles utilizam tambÈm uma linguagem cheia de rebuscamentos e preciosismos, empregam neologismos, hipÈrbatos, trocadilhos, dubiedades e todas as demais figuras de sintaxe. Isso torna o estilo do escritor pesado, afetado e tortuoso.

O Conceptismo propıe-se a apreender o objeto, conhecendo-lhe a

essÍncia. Para alcanÁar seu objetivo utiliza-se da inteligÍncia e da raz„o, muito mais do que dos sentidos. Procura trabalhar numa ordem racionalista, lÛgica e discursiva, estabelecendo silogismos em torno da vida e das coisas. … importante observar que essas duas tendÍncias foram contempor‚neas e concomitantes, muitas vezes, em

um mesmo escritor.

O Barroco portuguÍs corresponde a um perÌodo de obscuridade da

naÁ„o, depois do desaparecimento de D. Sebasti„o em 1578, marcando o fim de um perÌodo de glÛrias de Portugal, quando conquistou v·rias naÁıes abrindo caminho para as grandes navegaÁıes e o falecimento de LuÌs Vaz de Camıes, em 1580, que havia cantado as glÛrias passadas e, intuitivamente, previra aquela situaÁ„o inglÛria e o inÌcio do domÌnio espanhol, quando Filipe II, Rei da Espanha, herdeiro mais prÛximo da coroa portuguesa, anexa Portugal a seus domÌnios. De acordo com MoisÈs (1984, p.89):

Extenso, mas n„o intenso lapso de tempo, porquanto, na fileira de uma comoÁ„o geral, provocada pelo senhorio castelhano e pelo movimento europeu das idÈias em torno da Reforma e da Contra- Reforma, a cultura portuguesa baixa de tom, vela, hiberna, envergonhada ou ensimesmada, a remoer pensamentos de revolta ou de misticismo, algumas vezes traduzidos em aÁ„o, coerente ou n„o.

68

Devido ‡ sua ligaÁ„o polÌtico-administrativa com a Espanha, o Barroco portuguÍs recebeu a influÍncia do Barroco espanhol. Alguns escritores portugueses chegaram a escrever suas obras em castellano. AlÈm disso, receberam tambÈm influÍncia do Gongorismo e o Conceptismo, vertentes do Barroco que se desenvolveram na Espanha.

Os primeiros escritores do Barroco em Portugal foram Francisco Rodrigues Lobo, com a obra ìA corte na Aldeiaî(1619) e Francisco Manoel de Melo, com a obra ìEscritÛrio Avarentoî. AlÈm desses, ocupam lugar de destaque na literatura portuguesa desse perÌodo frei Luis de Souza, AntÙnio das Chagas, SÛror Mariana Alcoforado e AntÙnio Vieira, considerado pela crÌtica como a figura mais destacada dessa estÈtica em Portugal e no Brasil.

A Literatura barroca em Portugal, assim como em outros paÌses, sofreu a influÍncia das circunst‚ncias em que o mundo estava vivendo. Foi, portanto, uma literatura empobrecida, no primeiro momento, sob v·rios aspectos, pela press„o do clero, que tentava, de todas as formas, propagar as idÈias da reforma tridentina, enfatizando uma vis„o do mundo totalmente anacrÙnica.

Mas os maiores expoentes do Barroco lusitano quebram esta regra e caminham numa direÁ„o de independÍncia liter·ria, como foi o caso do padre Vieira, cujas obras s„o apreciadas atÈ os nossos dias pela beleza das suas construÁıes e consistÍncia das suas idÈias.

3.2.3 A RELA« O DO BARROCO COM A CONTRA REFORMA:

Embora questionada por alguns teÛricos, n„o se pode negar que houve uma relaÁ„o entre o Barroco e a Contra Reforma. … razo·vel considerar a influÍncia religiosa sobre a arte, porque a presenÁa da Igreja ainda era muito forte naquele momento nos paÌses europeus, principalmente, aqueles que n„o haviam aderido ‡ reforma protestante; tanto mais, porque era uma Igreja ferida que buscava estancar o seu sangramento e curar-se interiormente.

69

Outro aspecto a ser considerado È que a mudanÁa de Ínfase nas artes, do teocentrismo para o antropocentrismo, n„o foi um ato, mas um processo, e, como processo, È gradativo. Portanto, n„o È possÌvel desvincular a arte da religi„o naquele momento, mormente porque as mudanÁas foram muito bruscas para serem absorvidas pela arte, de uma sÛ vez.

… importante considerar, tambÈm, que a arte ser· o reflexo do contexto em que se est· vivendo. Portanto, È lÛgico pensar que aquele momento t„o dram·tico e t„o incerto iria refletir-se nas artes. Dessa forma, observa-se que a influÍncia religiosa faz-se sentir nos detalhes da arquitetura barroca. A mesma pompa das cerimÙnias est· refletida na arquitetura. Por isso, a arquitetura desse perÌodo È cheia de detalhes que chamam a atenÁ„o, com construÁıes de grandes proporÁıes, onde a luz penetra com abund‚ncia, enfatizando o aspecto sensorial, com a riqueza dos seus adornos. O barroco pretendia criar uma sensaÁ„o de dinamismo e de distorÁ„o espacial e empregava as ordens cl·ssicas, combinando- as de maneira audaciosa.

Como exemplos de arquitetura barroca, em Roma temos: A igreja de Sant'Andrea al Quirinale, iniciada em 1677; a escadaria rÈgia do Vaticano e as colunatas da praÁa de S„o Pedro. Na FranÁa, temos o pal·cio de Versalhes, com sua forma de bloco totalmente integrada, disposiÁ„o simÈtrica dos eixos e sua fachada decorada com elementos greco-romanos. Como uma variaÁ„o do Barroco surgiu na FranÁa o RococÛ. Segundo Garshagen et al. (1999), È um estilo mais leve e intimista que o barroco e usado, a princÌpio, em decoraÁ„o de interiores. A sua caracterÌstica marcante È o uso abundante de formas curvas e uma quantidade significativa de elementos decorativos, como, conchas, laÁos e flores.

O Barroco n„o se manifestou apenas na arquitetura, mas tambÈm na escultura, na pintura e na literatura. A arte barroca È considerada a express„o da Contra-Reforma e, junto com a Contra-Reforma, foi disseminada pelos paÌses onde a influÍncia catÛlica se fazia sentir, renovando a arte sacra e a prÛpria arte profana. De acordo com MoisÈs (1984, p. 91),

No entender de alguns, o Barroco tornou-se a arte da Contra- Reforma, visto as caracterÌsticas b·sicas do movimento estÈtico servirem aos desÌgnios doutrin·rios e pedagÛgicos da Igreja na luta

70

anti-Reformista. A Contra-Reforma teria absorvido a estÈtica barroca, fazendo dela uma espÈcie de estratÈgia de sua aÁ„o catequizadora, de onde o car·ter pragm·tico assumido pelas expressıes da arte liter·ria barroca, particularmente as em prosa.

Na oratÛria, a influÍncia do Barroco determinou a supervalorizaÁ„o do deleite em detrimento do ensino. A literatura tambÈm sentiu o impacto da influÍncia do Barroco. Nesse perÌodo, a Ínfase est· em provocar sensaÁ„o e emoÁ„o, mais do que o desenvolvimento da idÈia que, tambÈm, n„o È completamente negligenciada. Para Noronha (2000, p.41),

A

literatura do perÌodo traduziu com relevo o momento, concedendo

o

primado ‡ sensaÁ„o e ‡ emoÁ„o sobre a idÈia que de todo n„o

negligencia, evidenciando o gosto do patÈtico violento, a embriaguez

e o arrebatamento do espÌrito na livre criaÁ„o das formas, recriando

uma retÛrica expressiva, feita de imagens entusiasmantes de Ínfase,

de hipÈrboles, de anacolutus, de antÌteses, de paradoxos, etc alimentada pelo jogo das palavras e dos conceitos.î

e

,

3.3 VIEIRA E SUA ORAT”RIA:

Nesse contexto histÛrico, polÌtico, social e liter·rio viveu o Padre AntÙnio Vieira. De acordo com Menezes (2000), ele nasceu em Lisboa a 6 de fevereiro de 1608, filho de CristÛv„o Vieira Favasco e D. Maria de Azevedo. Em 1614, com 06 anos de idade vem, juntamente com seus pais para o Brasil. Aprendeu a ler e deu continuidade aos seus estudos no ColÈgio dos JesuÌtas de Salvador. Aos 15 anos, sai da casa dos seus pais e entra na Ordem dos JesuÌtas, tornando-se um noviÁo. Ali estuda, com muita profundidade, RetÛrica, Filosofia e Teologia. Aos 16 anos j· È professor de RetÛrica, tamanha a sua habilidade e dedicaÁ„o. Dedica-se tambÈm ‡ Filosofia, estudando a dialÈtica e o silogismo, com a finalidade de afinar a sua arte de argumentar, demonstrar, provar por meio da palavra. A palavra È o seu instrumento mais h·bil e ele far· um uso esmerado dela.

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A sua intenÁ„o, no entanto, È ser mission·rio, conquistar almas. Em 1633, prega pela primeira vez na Bahia e, dois anos apÛs, em 1635, È ordenado sacerdote. Aos 30 anos tornou-se professor de Teologia no ColÈgio de Salvador. Embora fosse teÛlogo, n„o deixou de ser pregador.

Em 1641, vai a Portugal homenagear o Restaurador Dom Jo„o IV. Tendo chegado a Lisboa, conquistou o favor do rei e, dessa forma, tornou-se um homem da Corte, iniciando assim a sua carreira polÌtica. Estando em Lisboa, tornou-se o pregador oficial da Corte e seus sermıes passaram a atrair a aristocracia portuguesa. Os sermıes do Padre Vieira n„o se restringem aos temas teolÛgicos, mas enfocam tambÈm os temas polÌticos e sociais. Ele est· atento ‡ realidade que o cerca e procura aplicar a teologia a ela. Dessa forma, d· respaldo ao reinado incipiente de D. Jo„o IV; torna-se defensor dos judeus, os mais espoliados pela InquisiÁ„o; manifesta-se contra a escravid„o indÌgena e apÛia o Mercantilismo, novo sistema econÙmico, como forma de fortalecer o Estado portuguÍs.

Como estadista, de acordo com Noronha (1998), Vieira envolve-se em missıes diplom·ticas, representando a sua naÁ„o nas cidades de Paris, Haia, Londres e Roma. Em 1649, consegue que o Rei D. Jo„o IV crie as Companhias de ComÈrcio para o Ultramar e a libertaÁ„o do confisco dos bens dos judeus quando indiciados pela InquisiÁ„o. Como repres·lia, o Santo OfÌcio usa as intrigas e maledicÍncias na tentativa de destruir a reputaÁ„o do jesuÌta. … acusado de herege, defensor e amigo dos Judeus e intÈrprete excessivo de textos bÌblicos. … odiado pelos mais diversos segmentos da sociedade portuguesa e enviado ao Brasil pela Companhia de Jesus como superior dos mission·rios jesuÌtas.

Depois de passar algum tempo trabalhando no Maranh„o, retorna a Portugal para defender a libertaÁ„o dos Ìndios da escravid„o, o que efetivamente consegue, por meio de uma lei promulgada em 09 de abril de 1655. Antes de voltar ao Brasil, prega o Serm„o da SexagÈsima na Capela Real.

Voltando a S„o Luiz do Maranh„o a 16 de maio de 1655, investiu o seu tempo e sua vida na evangelizaÁ„o. Percorre cerca de trÍs mil quilÙmetros a pÈ ou em canoas pelos caminhos do sert„o Maranhense. Expulso do Maranh„o pelos colonos, volta a Portugal, onde, sem o apoio do Rei D. Jo„o IV, falecido em 1656 È preso pelos tribunais da InquisiÁ„o. A 1 de janeiro de 1668, D. Afonso VI È deposto e seu irm„o D.Pedro assume o poder. Como Vieira era o confessor de D. Pedro, È

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anistiado e livre da pris„o. Depois de liberto, vai ‡ It·lia tentar conseguir a imunidade perante o papa. Ali, prega em italiano, tendo uma audiÍncia concorrida para ouvi-lo. Consegue o seu objetivo em Roma e volta a Portugal. Mas a situaÁ„o em Portugal È completamente contr·ria a Vieira e ele retorna ao Brasil em 1681, onde falece em julho de 1697.

AlÈm do seu trabalho como religioso, homem de Estado e pregador, Vieira destacou-se, tambÈm, como escritor, com obras que repercutiram aquÈm e alÈm mar no sÈculo XVII, sendo considerado pelos crÌticos o maior expoente do Barroco luso-brasileiro. Escreveu uma quantidade expressiva de livros, cartas e sermıes. Das suas obras, podem ser citadas: ìHistÛria do Futuroî, ìEsperanÁas de Portugalî, ìDefesa do Livro Intitulado Quinto ImpÈrioî, consideradas obras profÈticas; ìCartas a D. Afonso VIî, ìCartas do Brasilî e in˙meras outras obras, alÈm de uma grande quantidade de sermıes.

Os sermıes de Vieira constituem uma parte de grande notabilidade no conjunto da sua obra. Ele usa as palavras com tanta criatividade que, assim como manteve os seus ouvintes extasiados, mantÈm, hoje, os leitores ìcativosî ‡ sua leitura. Cidade (1985) afirma que Vieira ergue construÁıes de silogismo, como quem ergue castelos de cartas sobre bases inexistentes de fantasia teolÛgica ou metafÌsica, cria no espÌrito a tendÍncia a dispensar as provas da observaÁ„o e da experiÍncia, a adequabilidade do juÌzo ‡s normas da realidade. N„o h· d˙vidas, que Vieira foi um grande pregador crist„o do seu tempo, obscurecendo os pregadores contempor‚neos. Para Noronha (1998) a obra de Vieira marcou uma Època e ofereceu um paradigma de estilo, no campo t„o abundante como pouco explorado da eloq¸Íncia sagrada portuguesa.

O discurso de Vieira recebeu, como È natural, diversas influÍncias, que contribuÌram para a sua formataÁ„o. Dentre elas, devem ser destacadas a influÍncia da retÛrica cl·ssica, que foi a base para a estruturaÁ„o, organizaÁ„o e exposiÁ„o dos seus sermıes. N„o pode ser olvidado que, a obra de Vieira foi influenciada tambÈm pelo Barroco, estÈtica liter·ria de maior destaque no perÌodo em que viveu. Quanto ao seu conte˙do, recebeu influÍncias do contexto histÛrico, religioso e social em que o pregador viveu e tambÈm dos grandes teÛlogos crist„os que o antecederam, como Santo Agostinho, Tom·s de Aquino e outros.

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Vieira tem um estilo retÛrico bastante agitado e eclÈtico. Muitas vezes, nos seus sermıes, ele se afasta das regras estabelecidas por ele no Serm„o da SexagÈsima, (serm„o no qual define o seu estilo parenÈtico) adotando outros estilos. Embora Vieira adote e atÈ mesmo o Cultismo, t„o criticado por ele, influenciou o seu estilo retÛrico; mesmo porque, essa divis„o entre Cultismo e Conceptismo n„o È muito distinta no Barroco. Amora sintetiza muito bem o estilo retÛrico de Vieira, definindo-o nos seguintes itens:

a) DomÌnio dos segredos expressivos e emotivos da linguagem;

b) Sintaxe clara, sem virtuosismos;

c) PreocupaÁ„o, da m·xima acomodaÁ„o do discurso religioso ao

tema leigo que discutia, o que o faz buscar sempre os voc·bulos prÛprios dos assuntos que desenvolvia, usando-os fartamente e com seguranÁa, quer no sentido exato, quer para tecer belÌssimas met·foras.

d) ArgumentaÁ„o cerrada, abund‚ncia de provas e digressıes, sem

quebra da unidade do discurso.

e) Dos dois tipos fundamentais de discurso, o de oraÁ„o, contÌnua e

o de oraÁ„o descontÌnua, preferÍncia pelo primeiro; assim sendo, h·

em seus sermıes bem definidos, o exÛrdio, a narraÁ„o, as digressıes, as provas, a refutaÁ„o e a peroraÁ„o.

f) Cultura vasta, quer no domÌnio das Escrituras e da literatura

religiosa, como noutros campos do conhecimento, o que faz de seus sermıes, alÈm de obras de arte, peÁas de alto saber.

g) PreocupaÁ„o do paralelo entre as verdades bÌblicas e o fato presente sobre que discorria, o que o levou algumas vezes (È preciso reconhecer) a aproximaÁıes forÁadas.

h) TendÍncia freq¸ente para o profetismo. (Amora,1991, p. 21),

A primeira motivaÁ„o de Vieira È sempre de car·ter Ètico-religioso, mas tem como foco, tambÈm, a doutrinaÁ„o polÌtica. Em quase todos os seus sermıes h· uma crÌtica polÌtico-social. De acordo com Cidade, (1985, p. 118) ìO p˙lpito da Capela Real, ou qualquer outro aonde suba, pela natureza do orador, tanto como pela dos prÛprios ouvintes que ele domina, logo se converte em mirante da vida p˙blica, porte de piloto, cadeira de conselheiro de Estado ñ quando n„o de deputado da oposiÁ„o[ ]î

Por ter vivido num momento de muita instabilidade das instituiÁıes sociais, que lutavam para se adaptar ‡s mudanÁas ocorridas nos sÈculos anteriores,

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Vieira enfrentou circunst‚ncias adversas que o obrigaram a usar todos os recursos ‡ disposiÁ„o para salvar a sua vida da morte. Em algumas ocasiıes, teve que fugir; em outras, teve que procurar proteÁ„o de pessoas influentes; e, em muitas outras, usou o seu discurso para se defender das acusaÁıes que lhe eram feitas. A sua vida foi t„o agitada por mudanÁas constantes que ele È considerado o cidad„o de dois mundos ñ Velho Mundo e Novo Mundo. Apesar disso, teve a serenidade e a genialidade para produzir obras de alto padr„o estÈtico e liter·rio. Segundo Cidade, 1985, p. 117)

A obra liter·ria de Vieira È, naturalmente, a resultante de uma vida por demais trabalhada, para que se lhe pudesse conservar alheia, e de um temperamento de artista por demais original, para que n„o a vincasse de forte express„o inconfundÌvel. [ ] Homem de acÁ„o por imperativo da prÛpria natureza e por orientaÁ„o educativa, como orador ou epistolÛgrafo, havia necessariamente de utilizar a palavra falada ou escrita como instrumento de acÁ„o. Assim, sob quaisquer ornatos que a ataviassem, lhe cumpria dar-lhe clareza inteligÌvel e vigor convincente, que lhe garantissem a comunicabilidade e propiciassem o triunfo.

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4 LEITURA DO

RECEP« O E DA CRÕTICA SOCIOL”GICA

CORPUS

SOB

A PERSPECTIVA DA EST…TICA DA

4.1 O SERM O DO BOM LADR O

Este serm„o foi pregado, em 1655, na Igreja da MisericÛrdia, em Lisboa, quando Vieira esteve naquela cidade, lutando a favor da libertaÁ„o dos Ìndios da escravid„o. Na oportunidade, estavam presentes o Rei D. Jo„o IV e os maiores dignit·rios do reino: juÌzes, ministros e conselheiros. Vieira inicia o seu serm„o falando que a capela Real seria o local mais adequado para preg·-lo, e n„o a Igreja da MisericÛrdia, porque o seu assunto relacionava-se mais com a realeza do que com a misericÛrdia.

H· aqui um trabalho retÛrico de Vieira entre o significado das palavras ìrealezaî e ìmisericÛrdiaî. ìRealezaî, para o pregador, refere-se aos nobres, aos governantes e ìmisericÛrdiaî refere-se ao perd„o dado aos condenados. Seria inapropriado, segundo Vieira, pregar esse serm„o na Igreja da MisericÛrdia, porque, enquanto naquela Època, os malfeitores, por uma sÈrie de artifÌcios da justiÁa contempor‚nea, eram perdoados, alcanÁavam a misericÛrdia, no texto sobre o qual ele fundamenta seu serm„o, os rÈus n„o conseguiram ser perdoados e estavam sendo executados na cruz. Um texto que trata da execuÁ„o da ìjustiÁaî e n„o da ìmisericÛrdiaî, nos moldes da justiÁa portuguesa naquele momento, portanto, n„o deveria ser pregado na Igreja da MisericÛrdia.

Na seq¸Íncia da sua argumentaÁ„o, Vieira afirma que aquele local n„o È apropriado porque trata de um assunto referente aos reis, sendo assim, deveria ser tratado na Capela Real, que era o lugar apropriado a assuntos relacionados a reis. O Bom Ladr„o dirigiu-se a Cristo como rei. AlÈm de cham·-lo de Senhor, pede que seja lembrado quando entrar no seu reino. Vieira afirma que, ìdaquela pauta havia

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de ser, e n„o desta. E por quÍ? Porque o texto em que se funda o mesmo serm„o, todo pertence ‡ majestade daquele lugar, e nada ‡ piedade desteî.

Esse serm„o est· fundamentado no texto da BÌblia Sagrada que se encontra no Evangelho de Lucas capÌtulo 23, verso 42. Esse texto faz referÍncia ao momento que Jesus est· na cruz, tendo um ladr„o crucificado ‡ sua direita e outro ‡ esquerda e um deles roga: Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum; (Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino); ao que Jesus lhe responde: Hodie mecum eris in Paradiso (Hoje ser·s comigo no ParaÌso). O serm„o È estruturado de acordo com o seguinte esboÁo:

I-

ExÛrdio ñ Uma relaÁ„o entre realeza e misericÛrdia, conduzindo ao tema.

II-

Tema: Como os Reis podem levar consigo ladrıes ao ParaÌso ou os ladrıes podem levar consigo os reis ao inferno

III-

ArgumentaÁ„o

1.

Reis que levam ladrıes ao paraÌso

1.1.

Levando os ladrıes a restituÌrem o alheio

1.2.

Restituindo eles mesmos o alheio

2.

Ladrıes que levam o rei ao inferno

2.1.

Porque os reis lhes d„o ofÌcio e poderes que lhes d„o oportunidade de roubar

IV - PeroraÁ„o

- A import‚ncia da restituiÁ„o para a salvaÁ„o ñ Sem a

restituiÁ„o ninguÈm pode se salvar.

A argumentaÁ„o de Vieira focaliza a import‚ncia da restituiÁ„o para que os ladrıes possam ir ao ìparaÌsoî 4 . Para dar consistÍncia ao seu conceito, ele cita uma afirmaÁ„o de santo Agostinho, segundo o qual, ìSe o alheio, que se tomou ou retÈm, se pode restituir, e n„o se restitui, a penitÍncia deste e de outros pecados n„o È verdadeira penitÍncia, sen„o simulada e fingida, porque n„o se perdoa o pecado sem se restituir o roubado, quando quem o roubou tem possibilidade de o restituir.î (Vieira, 1998, p. 62)

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A fundamentaÁ„o do conceito da restituiÁ„o, no entanto, Vieira busca na lei do Antigo Testamento, no livro de xodo 5 , capÌtulo 22, versÌculo 3, que determina que se um ladr„o furtar alguma coisa dever· restituÌ-la integralmente. Ligado ao conceito de restituiÁ„o est· o conceito de penitÍncia. Esse termo significa um ìato de expiaÁ„o dos pecados, assumido por iniciativa pessoal, ou por indicaÁ„o da Igreja ou de seus delegados.î(Barsa) A penitÍncia exigida, na concepÁ„o de Vieira, era a devoluÁ„o dos bens roubados. A ˙nica exceÁ„o era a do bom ladr„o, porque estando ali na cruz, n„o tinha com que restituir.

Como ambos saÌram, do naufr·gio desta vida, despidos e pegados a um pau, sÛ esta sua extrema pobreza os podia absolver dos latrocÌnios que tinham cometido, porque, impossibilitados ‡ restituiÁ„o, ficavam desobrigados dela. PorÈm, se o Bom Ladr„o tivera bens com que restituir, ou em todo, ou em parte o que roubou, toda a sua fÈ e toda a sua penitÍncia, t„o celebrada dos santos, n„o bastara o salvar, se n„o restituÌsseî (Vieira, 1998, p.62)

Vieira compara o Bom Ladr„o, a quem chama Dimas, com Zaqueu. A histÛria de Zaqueu est· registrada no evangelho de Lucas, capÌtulo 19, versos 1 a 10 6 . Segundo o evangelista, ele era o chefe dos cobradores de impostos e morava na cidade de JericÛ. Certa ocasi„o em que Jesus passava por aquela cidade, Zaqueu, homem de pequena estatura, desejando vÍ-lo, subiu em uma ·rvore no caminho que o mestre haveria de passar. Quando Jesus chegou embaixo da ·rvore, ordenou a Zaqueu que descesse dali, para que pudesse recebÍ-lo em sua casa. Descendo rapidamente daquela ·rvore, ele recebeu a Cristo, com alegria.

Depois de ouvir a mensagem do Mestre, dispÙs-se a dar aos pobres metade dos seus bens e, se nalguma coisa tivesse defraudado a alguÈm, o restituiria quadruplicadamente. Foi ent„o que Jesus falou a frase citada por Vieira:

Hodie salus domui huic facta estî (Hoje veio a salvaÁ„o a esta casa). Segundo ele, somente depois que Zaqueu disse que estava disposto a dar aos pobres metade dos seus bens e a restituir quadruplicadamente ‡queles a quem havia, eventualmente, defraudado, Jesus disse: Hodie salus domui huic facta est î(Hoje veio a salvaÁ„o a esta casa). ( Lc 19: 9) 7

havia vindo ‡quela casa, segundo

Vieira, (1998) depois que Zaqueu se dispÙs a restituir aquilo que, eventualmente,

Jesus sÛ declarou que a salvaÁ„o

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havia roubado. Era comum que os publicanos (cobradores de impostos a serviÁo do ImpÈrio Romano) arrecadassem mais impostos do que era devido a Roma, roubando, portanto o povo. Como Zaqueu era chefe dos publicanos, È possÌvel que tambÈm estivesse envolvido nesse tipo de corrupÁ„o.

Por ser rico, deduz-se que a sua riqueza era resultado da corrupÁ„o. Na realidade, na narrativa dos evangelhos n„o h· nenhuma referÍncia explÌcita de que Zaqueu era ladr„o, como h· sobre Judas, o discÌpulo que traiu a Cristo, acerca do qual o evangelista Jo„o afirma: ìEnt„o um dos seus discÌpulos, Judas Iscariotes, filho de Sim„o, o que havia de traÌ-lo, disse: Por que n„o se vendeu este ung¸ento por trezentos dinheiros e n„o se deu aos pobres? Ora ele disse isto, n„o pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladr„o e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lanÁavaî.(Jo.12:4-6) 8 Na verdade, os publicanos eram discriminados, independentemente, da sua postura Ètica. SÛ pelo fato de trabalharem para o ImpÈrio Romano eram considerados traidores da p·tria judaica.

Na continuidade do serm„o, Vieira (1998) afirma que n„o sÛ os s˙ditos devem devolver o alheio, mas tambÈm os governantes.

A restituiÁ„o do alheio n„o sÛ obriga aos s˙ditos, sen„o tambÈm aos

a restituiÁ„o do alheio, sob pena da salvaÁ„o, n„o sÛ

obriga aos s˙ditos e particulares, sen„o tambÈm aos cetros e ‡s

coroas. Cuidam ou devem cuidar alguns prÌncipes que, assim como s„o superiores a todos, assim s„o senhores de tudo, e È engano. A lei da restituiÁ„o È lei natural e divina. Enquanto lei natural obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina tambÈm os obriga, porque Deus que os fazer maiores que os outros

È maior que eles.î (Vieira 1998, p.66,67)

prÌncipes[

]

Os ladrıes que fazem parte do povo e os ladrıes que fazem parte da realeza s„o vistos na mesma condiÁ„o. Tanto uns como outros tÍm que restituir o que roubaram. Tanto um como o outro s„o culpados. Em Roma, afirma ele, um ladr„o era enforcado por ter roubado um carneiro e um cÙnsul ou um ditador era levado em triunfo por ter roubado uma provÌncia. O tratamento deve ser igual. Roubar no governo e ser corrupto È pior do que roubar um indivÌduo.

Os maus ladrıes podem levar consigo ao inferno os bons reis, segundo Vieira, quando s„o colocados em ofÌcios e tÍm poderes que lhes d„o possibilidade

79

de roubar. A responsabilidade pela ìroubalheiraî desses ladrıes, em ˙ltima inst‚ncia, È daquele que os colocou e os mantÍm nessa posiÁ„o. Para o pregador, os maus ladrıes levam consigo os bons reis ao inferno de v·rios modos:

1-

Porque os reis lhes d„o os ofÌcios e poderes com que roubam;

2-

Porque os reis os conservam neles;

3- Porque sendo os reis obrigados, sob pena de salvaÁ„o, a restituir todos estes danos, nem na vida, nem na morte os restituem.

Ele chega a responsabilizar Deus pelo erro de Ad„o, a quem chama de ladr„o. Na sua concepÁ„o, embora Deus n„o tivesse nenhuma culpa no furto de Ad„o, sofreu as conseq¸Íncias desse erro dele. Para ele, quem delega autoridade est· responsabilizado por aquele a quem delegou.

PÙs Deus a Ad„o no paraÌso, com jurisdiÁ„o e poder sobre todos viventes, e com senhorio absoluto de todas as coisas criadas, excepta somente uma ·rvore. Faltavam-lhe poucas letras a Ad„o para ladr„o e ao fruto para furto n„o lhe faltava nenhuma. Enfim, ele e sua mulher ñ que muitas vezes s„o as terceiras ñ aquela sÛ coisa que havia no mundo que n„o fosse sua, essa roubaramî (Vieira, 1998, p. 70)

… interessante a maneira como Vieira, olha Deus sob uma perspectiva antropomÛrfica, a ponto de dizer que Ele foi responsabilizado pelo erro de Ad„o e pagou por ele. O JesuÌta afirma que Deus teve que pagar por esse erro que n„o cometeu e questiona: ìPois, se a vossa eleiÁ„o, Senhor, foi t„o justa e t„o justificada, que bastava ser vossa para o ser, por que haveis vÛs de pagar o furto que ele fez, sendo toda a culpa sua?î (Vieira, 1998, p. 71) A resposta È que Deus agiu assim para dar exemplo aos prÌncipes e mostrar que eles tambÈm s„o responsabiliz·veis pelo que os seus ministros roubem.

Para debelar essa situaÁ„o, Deus tomou algumas atitudes. A primeira, foi expulsar Ad„o e Eva, aprisionando-os fora do paraÌso por centenas de anos, o n˙mero dos seus dias sobre a terra. A segunda, foi providenciar uma reparaÁ„o da culpa, enviando o seu prÛprio filho Jesus Cristo para morrer no lugar do homem pecador. Em Cristo, toda a raÁa humana pode ser restaurada da culpa do furto de Ad„o. Embora o primeiro homem tenha errado ao furtar o fruto proibido, Cristo

80

morreu entre dois ladrıes para pagar a culpa do homem e ainda levou um ladr„o arrependido ao paraÌso. Essas atitudes, de acordo com Vieira, n„o s„o tomadas pelos reis quando tÍm funcion·rios corruptos.

Na peroraÁ„o, Vieira afirma que os reis podem levar consigo os ladrıes ao paraÌso, reafirmando que eles devem mandar que os ladrıes restituam tudo o que roubaram. Segundo ele: ìExecutando-o assim, salvar-se-„o os ladrıes e salvar- se-„o os reis. Os ladrıes salvar-se-„o, porque restituir„o o que tÍm roubado, e os reis salvar-se-„o tambÈm porque restituindo os ladrıes, n„o ter„o eles obrigaÁ„o de restituir(Vieira, 1998 p. 89)

E finaliza dizendo que, agindo dessa forma, h· vantagens para todos os que obedecerem aos ensinamentos por ele ministrados. Os roubados ser„o beneficiados, porque ficar„o restituÌdos do que haviam perdido; os reis ser„o beneficiados porque, sem perda, desencarregar„o suas almas. E atÈ os ladrıes ser„o beneficiados porque, com a devoluÁ„o do produto do furto, pagar„o as suas faltas e ser„o salvos. Ele cita o texto bÌblico do evangelho de Mateus 9 , capÌtulo 18, verso 8, que diz: ìse as vossas m„os e os vossos pÈs s„o causa de vossa condenaÁ„o, cortai-os, e se os vossos olhos, arrancai-os, diz Cristo, porque melhor vos est· ir ao ParaÌso manco, aleijado e cego, que com todos os membros inteiros ao infernoî (Vieira, 1998, p. 91).

Ao final, reza com muita expressividade:

Rei dos reis e Senhor dos senhores, que morrestes entre ladrıes para pagar o furto do primeiro ladr„o, e o primeiro a quem prometestes o ParaÌso foi outro ladr„o, para que os ladrıes e os reis se salvem, ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graÁa a todos os reis, que, n„o elegendo, nem dissimulando, nem consentindo, nem aumentando ladrıes, de tal maneira impidam os furtos futuros e faÁam restituir os passados, que em lugar de os ladrıes os levarem consigo, como levam ao inferno, levem consigo os ladrıes ao ParaÌso, como vÛs fizestes hoje: Hodie mecum eris in Paradiso.î

4.2 O Serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes

No sÈculo XVII, os negros e os Ìndios eram escravizados no Brasil. Como resultado da luta dos jesuÌtas, sobretudo de Vieira, para a libertaÁ„o dos Ìndios da

81

escravid„o, em 1652, a corte portuguesa outorga uma lei que liberta os Ìndios. Os colonos, ao perceberem que iriam perder a m„o-de-obra gratuita dos Ìndios, revoltaram-se contra a lei e enviaram emiss·rios a Portugal, objetivando pedir ao Rei que a mudasse. Em maio de 1654, os procuradores do Estado chegam de Lisboa trazendo as disposiÁıes legais que revogavam as leis favor·veis ‡ libertaÁ„o dos Ìndios.

Vieira, ent„o, Superior dos mission·rios jesuÌtas no Brasil, n„o aceita o retrocesso legal e resolve embarcar para a corte com a finalidade de conseguir a liberdade dos Ìndios. Foram nessas circunst‚ncias que o jesuÌta pregou o serm„o de Santo AntÙnio aos peixes aos colonos, em S„o Luiz do Maranh„o, trÍs dias antes de embarcar, ocultamente, para a corte. Segundo Cidade (1985, p.61), este serm„o ìÈ uma bela s·tira, a mais bela e audaciosa que se haja dardejado do p˙lpitoî.

Vieira fundamenta-se no texto dos evangelhos registrado no Evangelho de Mateus, capÌtulo cinco, verso treze, onde est· escrito ìvos estis sal terraeî (vÛs sois o sal da Terra). Esse serm„o de Vieira È totalmente alegÛrico. O prÛprio Vieira afirma em uma das notas ao texto escrito do serm„o: ìEste serm„o (que todo È alegÛrico) pregou o Autor trÍs dias antes de se embarcar ocultamente para o Reino,

a procurar o remÈdio da salvaÁ„o dos Õndios[

Na sua perspectiva, o sal

representa os pregadores e a terra, os ouvintes. A met·fora do sal e da terra j· È usada pelo prÛprio Cristo no texto do evangelho; mas Vieira aproveita-a muito bem e explora o significado a que ele deseja dar destaque: a quest„o da corrupÁ„o. Esse serm„o È estruturado de acordo com o seguinte esboÁo:

]î.

Texto: Vos estis sal terrae. Mat. 5:13 10

I ñ ExÛrdio: ¿ imitaÁ„o de Santo AntÙnio, cuja mensagem n„o foi aceita pelos homens, Vieira afirma que vai pregar aos peixes.

II ñ Tema: Objetivos da aÁ„o do sal

III ñ ArgumentaÁ„o

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1. ConservaÁ„o - atravÈs do louvor

1.1. Louvor ‡s virtudes gerais dos peixes

1.2. Louvor ‡s virtudes individuais dos peixes.

2. PreservaÁ„o ñ atravÈs da repreens„o do mal

2.1. Repreens„o aos peixes no geral

2.2. Repreens„o aos peixes em particular

IV ñ PeroraÁ„o:

SÌntese e invocaÁ„o ñ com louvores a Deus

Segundo o texto bÌblico do evangelho de Mateus, capÌtulo 5, verso 13, o sal for insÌpido, com que se h· de salgar? Para nada mais presta, sen„o

ì[

para se lanÁar fora e ser pisado pelos homens.î Na interpretaÁ„o de Vieira, ìse o sal perder a sua subst‚ncia e a virtude, e o pregador faltar ‡ doutrina, e ao exemplo; o que se lhe h·-de fazer, È lanÁ·-lo fora como in˙til, para que seja pisado por todosî. Por outro lado, ele questiona as implicaÁıes da rejeiÁ„o da terra ‡ aÁ„o do sal. Se ao sal que se tornou insÌpido, o destino È ser lanÁado fora e ser pisado pelos homens, o que se far· Terra que n„o se deixa salgar?

]se

… interessante a sua constataÁ„o que Cristo resolveu a primeira parte da quest„o, mas deixou sem soluÁ„o, a segunda. Vieira ìantropomorfizaî, mais uma vez, a divindade, ìconsiderandoî Cristo como finito; aquele que n„o tem soluÁ„o para todas as questıes. Mas, mesmo que Cristo n„o tenha uma resposta, ele a encontra na experiÍncia de Santo AntÙnio.

Santo AntÙnio foi pregar em Arimino 11 , contra os hereges; mas a sua mensagem n„o foi aceita pelos ouvintes, que se levantaram violentamente contra o santo. ìPois que fez? Mudou somente o p˙lpito e o auditÛrio, mas n„o desistiu da doutrina. Deixa as praÁas e vai-se ‡s praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e comeÁa a dizer a altas vozes: J· que me n„o querem ouvir os homens, ouÁam-me os peixesî (Vieira, 1998, p. 125).

83

A exemplo de santo AntÙnio, ele afirma que se voltar· da Terra ao mar, j· que os homens se n„o aproveitam, vai pregar aos peixes. Nesse momento, afirmando que o significado do seu nome È ìsenhora do marî, faz uma invocaÁ„o a Maria, ave Maria, seguindo a pr·tica dos oradores cl·ssicos, que antes de iniciarem a argumentaÁ„o dos seus discursos, invocavam uma divindade.

Pregar aos peixes È pregar a um auditÛrio novo, considerado por Vieira (1998) como o pior dos auditÛrios, porque se trata de gente ìinconvertÌvelî. Segundo ele, isso dÛi. DÛi verificar que h· seres, pessoas ìinconvertÌveisî. Por outro lado, duas qualidades s„o as caracterÌsticas desse tipo de gente: os peixes ouvem e n„o falam. Os peixes constituem, portanto, um auditÛrio metafÛrico. Vieira usa o termo irm„os peixes, para referir-se a eles. Nesse momento, ele volta ao tema da corrupÁ„o e, desta, vez como ponto de partida da sua argumentaÁ„o. De acordo com Noronha (1998, p.73):

retoma o conceito predic·vel: VÛs sois o sal da terra. A

corrupÁ„o È o ponto de partida, trata-se de ëgenteí inconvertida e inconvertÌvel ñ t„o corrupta: porque a corrupÁ„o existe h· que pÙr o sal a funcionar. Fala aos peixes, mas est· a dirigir-se aos pregadores: as pregaÁıes de ìtodos os Pregadoresîí devem ter as duas propriedades do sal: ìconservar o s„o e preserv·-loî louvar o s„o (grifo do autor) ñ as qualidades ñ para que permaneÁa frutificando, e repreender o n„o s„o (grifo do autor) ñ os defeitos ñ para que desapareÁa.

]Vieira [

Na primeira parte de sua argumentaÁ„o, Vieira louva os peixes em geral, enumerando sucintamente suas qualidades. Ele inicia afirmando que os peixes foram os primeiros a ser criados, em quantidade e qualidade. Os peixes devem, ainda, ser louvados pela sua obediÍncia, porque atenderam ao chamado de Santo AntÙnio para ouvir a mensagem do criador. Como se tivessem inteligÍncia, os peixes escutavam o que n„o entendiam. Segundo Vieira, (1998 p.128) ìaos homens deu Deus uso da raz„o, e n„o aos peixes; mas nesse caso os homens tinham a raz„o sem uso, e os peixes o uso sem a raz„oî.

Os peixes s„o melhores que os homens, no entendimento de Vieira, porque ouviram as palavras de Santo AntÙnio e salvaram Jonas da morte, quando foi jogado pelos homens no mar, devolvendo-o ‡ praia. ìVede peixes, e n„o vos venha vanglÛria, quanto melhores sois que os homens. Os homens tiveram

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entranhas para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo ‡ terraî (Vieira, 1998, p.128).

Na concepÁ„o de Vieira, os peixes ficaram numa condiÁ„o privilegiada no dil˙vio. Pelo fato de estarem no seu elemento ñ a ·gua, n„o houve necessidade de serem recolhidos por NoÈ ‡ arca e, dessa forma se livraram do castigo de Deus aos homens. A raz„o desse livramento, segundo Vieira, È que os peixes ìviviam longe e retirados delesî (1998, p.130), s„o os ˙nicos que n„o se domesticam. Os animais, por estarem mais prÛximos dos homens, foram, tambÈm, castigados e os peixes, por estarem longe, ficaram livres do castigo. Ele, por fim, alerta os peixes: ìPeixes! Quanto mais longe dos homens tanto melhor: trato e familiaridade com eles, Deus vos livreî (Vieira, 1998, p. 129). … perceptÌvel um tom misantrÛpico nessas consideraÁıes.

Num segundo momento, Vieira louva os peixes em particular. Primeiramente, faz referÍncia ao peixe que Tobias encontrou, segundo a narrativa bÌblica, 12 na sua viagem para a MÈdia, retirou e guardou as suas entranhas. Ele relaciona esse peixe a Santo AntÙnio e a ele prÛprio. O peixe, segundo a narrativa bÌblica tinha virtudes curativas: O fel das suas entranhas era bom para sarar da cegueira e o coraÁ„o para lanÁar fora os demÙnios. Da mesma forma, ele e Santo AntÙnio tÍm virtudes curativas, pelas suas palavras e pela paix„o que demonstram pela salvaÁ„o das pessoas.

A partir daÌ, Vieira comeÁa a falar de alguns peixes, que ele considera

importantes e louva as suas qualidades. O primeiro deles È a RÍmora, um peixe um pouco maior que um palmo, mas de grande forÁa, capaz de reter, segundo ele, grandes naus, apesar da sua pequenez. Ele afirma que a lÌngua de Santo AntÙnio foi uma RÍmora na terra para refrear as paixıes humanas. O segundo, È o Torpedo que, embora pequeno, quando fisgado por um pescador, faz tremer o seu braÁo. Vieira afirma que gostaria de pregar com a lÌngua de Santo AntÙnio, pois dessa forma faria tremer os homens. Segundo Noronha (1998), ele pretende fazer tremer e convencer os colonos que tanto ìpescamî os Õndios e aos Õndios.

O terceiro peixe È o Quatro Olhos. Esse peixe È encontrado, segundo

Vieira, na costa do Brasil. Ele chega ‡ conclus„o de que o peixe tem quatro olhos para olhar para cima e para baixo. Essa È a pregaÁ„o que lhe fez aquele peixinho, ensinando-o que, se ele tem fÈ e usa de raz„o, deve olhar para cima, e para baixo:

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para cima considerando que h· CÈu e para baixo considerando que h· Inferno. Na sua concepÁ„o, a fÈ deve estar associada ‡ raz„o. Por fim, ele fala sobre as sardinhas, multiplicadas pelo criador em quantidade inumer·vel, porque s„o o sustento dos pobres. (desde aquela Època).

Na segunda parte da sua argumentaÁ„o, Vieira repreende os peixes no geral. Na concepÁ„o do jesuÌta, a finalidade da vida È a edificaÁ„o m˙tua. Assim, inicia as suas repreensıes aos peixes, afirmando que h· atitudes deles que desedificam. Segundo Noronha (1998 p.83), ìA vida humana È um edifÌcio, como o serm„o tambÈm o È: as qualidades constroem-na e ao serm„o; os defeitos destroem-na e ao serm„o. Aquelas, pois, edificam, estes desedificam.î Uma das atitudes que desedificam È que os peixes comem uns aos outros. Isso se torna um grande esc‚ndalo, sobretudo, porque os grandes comem os pequenos.

Da ictiofagia, Vieira (1998, p.136) passa a criticar a antropofagia, afirmando que, ìos homens , com suas m·s e perversas cobiÁas, vÍm a ser como os peixes que se comem uns aos outrosî. Ele est· fazendo referÍncia ‡ tribo de Õndios brasileiros chamados Tapuias, que tinha h·bitos antropÛfagos; mas refere-se, muito mais aos brancos que se ìcomemî uns aos outros. A antropofagia dos brancos n„o È uma antropofagia fÌsica, mas social. Os homens andam ‡ procura uns dos outros para ìcomerem-seî mutuamente.

Quando alguÈm morre, segundo ele, h· muitos que desejam comÍ-lo.

Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os acredores, e

Vieira (1998, p.136) afirma: ìenfim, ainda o pobre

defunto o n„o comeu a terra, e j· o tem comido toda a terra.î Segundo Noronha (1998) este È um jogo de palavras em que se verifica a animizaÁ„o da ìTerraî assumida como ser vivo, e a personificaÁ„o, na medida em que todos os devoradores, anteriormente, referenciados s„o seres humanos. Vieira toma como exemplo o verso 4 do salmo 3 13 , que diz: ìN„o compreender„o todos os obreiros do mal que devoram o meu povo como quem como p„o?î. Ele inverte o seu sentido e afirma: ìPorventura todos aqueles que devoram o meu povo como comem o p„o, n„o sabem que praticam a iniq¸idade?î Plebem meam ñ meu povo ñ No seu entendimento, ìa plebe e os plebeus, que s„o os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na Rep˙blica, estes s„os os comidosî (1998, p.137)

comem-no os oficiais dos Ûrf„os

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Os antropÛfagos s„o os que devoram. Assim afirma Vieira: ìOs grandes tÍm o mando das Cidades e das ProvÌncias, n„o se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um ou poucos a poucos, sen„o que devoram e engolem os povos inteirosî (Vieira, 1998, p.137). O jesuÌta usa a figura do p„o, porque o p„o È um alimento que È comido todos os dias, e a aplica ao seu raciocÌnio, considerando que, assim como o p„o È comido todos os dias, os pobres s„o ìo p„o quotidianoî dos grandes; e, assim como o p„o se come com tudo, com tudo e em tudo s„o ìcomidosî os miser·veis, pequenos, n„o tendo, nem fazendo ofÌcio em que os n„o carreguem, em que os n„o multem, em que os n„o defraudem, em que os n„o comam, traguem e devorem.

Mas, segundo o pregador, o castigo n„o lhes faltar·. Se alguÈm se julga grande e devora os menores, h· sempre um maior que poder· devor·-lo. O que se deve fazer para garantir a felicidade È zelar pelo bem comum, para a preservaÁ„o de todos. Tudo reside no cumprimento do significado da palavra ìirm„osî. Foi assim com Santo AntÛnio no seu serm„o aos peixes.

Vieira repreende tambÈm os peixes por causa da cegueira deles quando vÍem um anzol e arremetem cegos a ele e ficam presos. Nessa passagem, ele est· fazendo referÍncia ‡ vaidade dos homens. Por causa da sua vaidade, muitos perdem a vida, trabalham, arduamente, o ano todo, ou ficam endividados para se vestirem com roupas feitas dos melhores tecidos, comprados dos mercadores vindos da corte. Segundo Noronha (1998, p.91), ìa alegoria est· ilustrada pela mesma realidade, as j· jactantes ignor‚ncia e cegueira: embusteados por um retalho de pano, os peixes morrem. E os homens matam-seî. Os homens tambÈm s„o pescados pelo pescador-vaidade.

Vieira critica os vendedores de tecidos que traziam seus produtos de Portugal e os vendiam a preÁos exorbitantes ‡s pessoas que trabalhavam com dificuldade. Na sua concepÁ„o, a vaidade dos homens, que adquiriam roupas finas, È comparada ao anzol que fisga os peixes. Dirigindo-se aos peixes, afirma: ìMas nem por isso vos negarei, que tambÈm c· se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignorantementeî (Vieira, 1998, p.141). Noronha (1998, p. 91) observa que: ìj· naquele tempo, os oradores levantavam a sua voz contra os excessos da moda e contra os exploradores do trabalho alheioî.

87

Depois de repreender os peixes no geral, por sua ictiofagia e por sua obtusidade ao arremeterem aos anzÛis dos pescadores, Vieira repreende-os a

respeito de questıes particulares. O primeiro a ser repreendido È o Roncador. Esse peixe faz um ruÌdo semelhante a um ronco e fica estufado quando se vÍ em perigo.

O termo ìroncarî, portanto, faz referÍncia ao ruÌdo que ele produz e significa

figuradamente, fazer alarde, bravatear, gabar, pavonear-se.

tem muita espada, tem pouca

lÌnguaî.(1998, p.142) Espada significa a forÁa e a lÌngua significa o alarde por meio de palavras. Invertendo este provÈrbio, pode ser dito que ìquem tem muita lÌngua,

tem pouca espadaî, ou seja, aquele que se gaba do que tem, nem sempre tem de fato tudo o que diz ter. Na concepÁ„o de Vieira (1998), Deus tem particular cuidado

de abater e humilhar aos que muito roncam.

Na concepÁ„o de

Vieira ì[

]quem

Pedro gabou-se antecipadamente da sua bravura e bastou a ìvoz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar a Cristo, a quem anteriormente jurara n„o negarî. (Vieira, 1998,p.142) Quando Cristo pediu que Pedro vigiasse, ele dormiu. Vieira considera que: ì È fraco e diminuto o fundamento para blasonarmos, isto È, para sermos arrogantesî. (1998, p.142) O gigante Golias era ìa roncaî, a vaidade dos filisteus, bastou um humilde pastor com um cajado e uma funda para dar com ele em terra. No final da sua repreens„o aos roncadores, ele afirma que o saber e o poder È que transformam os homens em roncadores, porque ambos incham e os tornam arrogantes. Caif·s roncava de saber e Pilatos roncava de poder.

Outro peixe que o jesuÌta menciona È o Pegador. Esse peixe tem esse nome porque se agarra nas costas dos peixes maiores e de l· n„o se solta. Est· sempre na dependÍncia dos peixes grandes. Vieira chama de Pegadores aquelas pessoas que vivem parasitando ao redor dos polÌticos e dos ricos. Esse modo de vida, segundo o jesuÌta, È errado e enganoso e as pessoas menos ignorantes se despegam e buscam a vida por outra via, enquanto os ignorantes se deixam levar ‡ mercÍ e fortuna dos maiores e, por isso, quando os grandes perdem os seus bens, essas pessoas ficam desamparadas, porque n„o construÌram nada para si. Viveram sempre na dependÍncia de outros.

Vieira repreende, tambÈm, o peixe Voador. Ele tem esse nome por causa

da sua habilidade para dar grandes saltos fora dí·gua. Muitas vezes, esses peixes

davam saltos t„o grandes que caÌam no convÈs das embarcaÁıes e morriam.

Ele

88

chama a atenÁ„o deles, afirmando que n„o foram feitos para voar, mas para nadar. ìDizei-me, voadores, n„o vos fez Deus para peixes; pois porque vos meteis a ser aves? O mar fÍ-lo Deus para vÛs, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com nadar, e n„o queirais voar, pois sois peixesî. Para firmar seu argumento, cita um conhecido (desde aquela Època) provÈrbio: ìQuem quer mais do que lhe convÈm, perde o que quer e o que tem,. Quem pode nadar, e quer voar, tempo vir· em que n„o voe, nem nadeî (Vieira, 1998, p.146)

Na sua concepÁ„o, a vaidade de voar È que mata o Voador, a sua isca È o vento. Ele fala ent„o que h· voadores da terra, estes que querem engrandecer-se aos olhos dos homens. Eles, tambÈm, ser„o punidos por causa da vaidade de querer ser aquilo que de fato n„o s„o e cair„o do pedestal em que se colocaram. Para Vieira, h· asas para subir e asas para descer. As asas para subir s„o muito perigosas, as asas para descer, muito seguras. Santo AntÙnio teve asas e voou sem perigo, porque soube voar para baixo e n„o para cima. Aparentemente, as barbatanas do peixe voador podem servir de asas, ele n„o deve, no entanto, estendÍ-las para subir, mas encolhÍ-las para descer. ìIde-vos meter no fundo em alguma cova; e se aÌ estiverdes mais escondidos, estareis mais segurosî(Vieira, 1998, p.147)

O ˙ltimo dos seres aqu·ticos mencionados por Vieira no serm„o È o polvo, que ele chama de ìirm„o polvoî. Ele faz uma an·lise muito interessante dos seus atributos. Segundo ele,

o polvo com aquele seu capelo, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele n„o ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansid„o. E debaixo desta aparÍncia t„o modesta, ou desta hipocrisia t„o santa, testemunham contestamente os dous grandes Doutores da Igreja latina, e grega, que o dito polvo È o maior traidor do mar. Consiste esta traiÁ„o do Polvo, primeiramente, em se vestir ou pintar das mesmas cores a que est· pegadoî (Vieira, 1998, p.147).

aplica o seu discurso aos homens. Na verdade, seu

objetivo È falar aos homens e o est· fazendo,

dos peixes.

os peixes, falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas, e muito maiores e

Segundo o jesuÌta, h· nas terras contÌguas aos mares, onde estavam

ao falar ao seu auditÛrio metafÛrico

Ele, mais uma vez,

89

mais perniciosas traiÁıes. Percebe-se nas afirmaÁıes de Vieira, uma crÌtica aos colonos do Brasil. Tanto mais, quando ele descreve as qualidades de Santo

para haver tudo isso em cada um de nÛs, bastava

antigamente ser portuguÍs, n„o era necess·rio ser santo.î (Vieira, 1998, p.148)

Noronha (1998, p. 96) faz uma leitura muito apropriada dessas consideraÁıes do pregador. Segundo ele,

AntÙnio e depois afirma ì[

]que

para Vieira, ontem, ser PortuguÍs significava ser c‚ndido, sincero, verdadeiro; hoje, j· n„o significa isso; se n„o significa j· n„o È; hoje, sÛ sendo-se santo È que a palavra PortuguÍs significaria ser c‚ndido, sincero, verdadeiro; hoje, PortuguÍs pode significar o contr·rio, isto È, Polvo ñ traidor. î

… claramente perceptÌvel que h·, nesse texto, uma crÌtica ‡ sociedade portuguesa. Essa opini„o È corroborada por Noronha (1998), ao aventar a possibilidade de que, esse serm„o tenha sido impresso, naquela Època, e distribuÌdo na corte portuguesa, por isso suas crÌticas s„o mais abrangentes.

Para encerrar sua argumentaÁ„o, Vieira faz uma advertÍncia final aos peixes para que eles n„o se aproveitem dos bens dos n·ufragos. Segundo ele, h· muitos naufr·gios e, assim, muitas riquezas ficam no fundo do mar. Todos os que se aproveitam dos bens dos naufragantes ficam excomungados e malditos. A moeda

que estava na boca do peixe que Pedro pescou era de algum navio que havia naufragado. E, por ser o primeiro peixe pescado naquela circunst‚ncia, aÌ encontrou

a morte, o castigo. Ele aplica esse ensino aos homens, dizendo: ìPara os homens

n„o h· mais miser·vel morte, que morrer com o alheio atravessado na garganta;

porque È pecado de que o mesmo S.Pedro, e o mesmo sumo pontÌfice n„o pode absolverî (Vieira, 1998, p. 149).

Na peroraÁ„o, Vieira faz o esforÁo final para apelar aos seus ouvintes e consola os peixes pelo fato de terem sido excluÌdos dos sacrifÌcios que a Deus o povo judaico oferecia. De acordo com ele, o motivo da exclus„o È que os outros

animais podiam chegar vivos ao sacrifÌcio e os peixes n„o; e Deus n„o quer que se lhe ofereÁa, nem chegue aos seus altares coisa morta. ìOs outros animais oferecem

a Deus o ser sacrificados; os peixes oferecem o n„o chegar ao sacrifÌcio; os outros sacrificam a Deus o sangue e a vida; os peixes sacrificam a Ele o respeito e a

90

reverÍnciaî. (Vieira, 1998, p.150) Dessa forma, ele coloca os peixes numa condiÁ„o superior ‡ dos outros animais.

Depois, coloca-se como o receptor do serm„o e faz uma comparaÁ„o extremamente interessante. Segundo Noronha (1998, p.98) ìO sujeito da enunciaÁ„o transforma-se em sujeito do enunciadoî. Apesar de reconhecer que tem muitas vantagens sobre os peixes, conclui que, ainda assim, estes o excedem.

Na sua concepÁ„o, a bruteza dos peixes È melhor que a sua raz„o; o instinto deles È melhor que a sua vontade prÛpria; ele fala, mas os peixes n„o ofendem a Deus com palavras; ele se lembra, mas eles n„o ofendem a Deus com a memÛria; ele discorre, mas eles n„o ofendem a Deus com o entendimento; ele quer, mas os peixes n„o ofendem a Deus com a vontade; os peixes foram criados para servir ao homem e conseguem o objetivo para o qual foram criados, ele foi criado para servir a Deus e n„o consegue o fim para o qual Deus o criou; os peixes n„o ver„o a Deus, mas podem aparecer diante díEle confiadamente, porque n„o o ofenderam, ele ir· vÍ-lo, mas tem receio de aparecer na presenÁa de Deus por causa das suas ofensas a Ele. No final, Vieira diz que desejaria ser como um peixe. E assim, o serm„o termina, em obediÍncia aos c‚nones parenÈticos, com uma oraÁ„o.

4.3 ñ CARACTERÕSTICAS GERAIS DA PAREN…TICA

… conveniente, antes de dar continuidade ‡ leitura dos sermıes, tecer algumas consideraÁıes sobre a sua classificaÁ„o dentro do gÍnero do discurso retÛrico. Sabe-se que o serm„o pertence a esse gÍnero, pois possui as caracterÌsticas e finalidades peculiares do gÍnero. Dentre elas, podem ser citadas: o objetivo de persuadir seus ouvintes, a estrutura definida com introduÁ„o, exposiÁ„o, divis„o, refutaÁ„o, confirmaÁ„o e conclus„o e a Ínfase nos argumentos demonstrativos e psicagÛgicos.

Considerando a taxionomia de AristÛteles, segundo a qual, h· trÍs tipos de discursos retÛricos: o discurso judici·rio, o discurso deliberativo e o discurso

91

epidÌtico, a categoria em que o serm„o pode ser colocado È a do ìdiscurso epidÌticoî, cuja finalidade, segundo AristÛteles,(apud. Plebe, 1978) È louvar ou vituperar; e tem

o seu foco argumentativo nas categorias do belo e do feio. Ele fala tambÈm que esse tipo de discurso tem o objetivo de deleitar o ouvinte.

… importante ressaltar, no entanto, que o serm„o È um tipo especial de discurso epidÌtico, porque, n„o apenas, tem a finalidade de louvar ou vituperar alguÈm, mas, tambÈm, de ensinar verdades morais ou religiosas. Segundo CÌcero (apud. Cardoso, 2003), o discurso tem a finalidade de ensinar, agradar e comover. Essa concepÁ„o adapta-se, perfeitamente, aos objetivos do serm„o, que s„o:

ensinar verdades morais e religiosas e ìencantarî o auditÛrio com a beleza dos seus argumentos e com a sua ordem.

O serm„o È um dos filhos da retÛrica que, ao longo dos anos, tem popularizado o discurso retÛrico, levando-o ‡s praÁas, aos templos, ‡s catedrais, ‡s capelas e aos grandes auditÛrios. Tal È a sua import‚ncia para a religi„o e o uso constante por parte dos pregadores que ele delimitou o prÛprio mÈtodo, com regras para a sua elaboraÁ„o e exposiÁ„o, chamado HomilÈtica.

4.4 InfluÍncias estruturais e estilÌsticas

Os sermıes de Vieira tÍm um estilo bastante variado. Muitas vezes, ele

forÁa algumas interpretaÁıes do texto bÌblico para dar o sentido que deseja explorar, tanto que foi acusado pela inquisiÁ„o de ser intÈrprete excessivo dos textos bÌblicos. Nos sermıes escolhidos, a interpretaÁ„o que Vieira faz do texto bÌblico È coerente, hermeneuticamente, consistente e o universo criado por ele nos dois sermıes È perfeitamente verossÌmil. AtÈ mesmo, no serm„o de Santo AntÙnio aos peixes, que

È completamente alegÛrico, Vieira cria um ambiente coerente para desenvolver a sua discuss„o.

AlÈm de refletir o estilo particular do autor, uma obra liter·ria n„o est· imune a influÍncias externas que determinam a sua ligaÁ„o com uma sÈrie que

92

venha possibilitar a sua classificaÁ„o dentro do conjunto da literatura. Os sermıes de Vieira, objetos dessa leitura, n„o fogem a esse princÌpio e receberam influÍncias que determinaram a estrutura e o estilo que apresentam. … importante verificar que tipos de influÍncias estilÌsticas e estruturais receberam essas obras.

N„o se pode deixar de reconhecer que a obra de Vieira tem uma relaÁ„o com o seu tempo. O Barroco È uma influÍncia evidente nas suas obras. N„o tanto o Cultismo, mas, sobretudo, o Conceptismo. O jesuÌta segue tambÈm o estilo de outros oradores sacros da sua Època. O esquema de desenvolvimento dos seus sermıes obedece ao estilo cl·ssico dos discursos, que foram incorporados pelos pregadores. De acordo com Noronha (1998, p.35):

os sermıes submetem-se, no sÈculo XVII a um padr„o comumente aceite: ao enunciado do tema (um passo da Sagrada Escritura) segue-se a exposiÁ„o do plano, depois a oraÁ„o em que se pede auxÌlio a Deus ou ‡ Virgem; ent„o entra-se no desenvolvimento do plano, e acaba-se muitas vezes por um apelo ou incitamento dos ouvintes, uma ìelevaÁ„oîascÈtica.

Deve-se observar que o plano usado pelos pregadores do sÈculo XVII, inclusive por Vieira, È bem prÛximo do plano do discurso cl·ssico, que se constitui das seguintes partes: o exordium, a narratio, a divisio, a confutatio, a confirmatio e a conclusio. Colocando-se o esboÁo de um dos sermıes lidos, constata-se que a estrutura do serm„o È muito semelhante ‡ estrutura do discurso cl·ssico:

I - ExÛrdio ñ (exordium) Uma relaÁ„o entre realeza e misericÛrdia, conduzindo ao tema.

II - Tema: Como os Reis podem levar consigo ladrıes ao ParaÌso ou os ladrıes podem levar consigo os reis ao inferno

III

confirmatio)

ñ

ArgumentaÁ„o

ñ

(Compreendendo

a

divisio,

confutatio

e

93

1.

Reis que levam ladrıes ao paraÌso (divisio)

 

1.1.

Levando os ladrıes a restituÌrem o alheio

1.2.

Restituindo eles mesmos o alheio

 

2.

Ladrıes que levam o rei ao inferno (divisio)

 

2.1.

Porque

os

reis lhes d„o

ofÌcio

e poderes

que

lhe d„o

oportunidade de roubar

IV - PeroraÁ„o - (conclusio) A import‚ncia da restituiÁ„o para a salvaÁ„o ñ Sem a restituiÁ„o ninguÈm pode se salvar.

ConvÈm ressaltar que, conforme o costume dos pregadores do sÈculo XVII, antes de iniciar a sua argumentaÁ„o, Vieira faz a sua invocaÁ„o ‡ Virgem: no serm„o do Bom Ladr„o - ìIsto È o que hei de pregar. Ave Mariaî e no serm„o de Santo AntÙnio aos peixes ñ ìMaria, quer dizer, domina maris: Senhora do mar: e posto que o assunto seja t„o desusado, espero que n„o me falte a acostumada graÁa. Ave Maria. Ambos terminam com uma oraÁ„o, conforme preconizado pelos c‚nones da retÛrica sagrada. Segundo Frei CristÛv„o de Lisboa (apud. Noronha, 1998 p.35),

o texto bÌblico pode ser interpretado em v·rios nÌveis; [

entretece-se n„o sÛ de ìautoridadesî (s„o freq¸entes as citaÁıes em

latim do Velho e do Novo Testamento, dos Santos Padres, etc.; entre os moralistas latinos, avulta SÍneca), mas tambÈm de ìdiscursosî, isto È, de raciocÌnios e jogos dialÈcticos; de ìexemplaî ou historietas que comprovam a doutrina defendida; de raptos emotivos ou

em que n„o raro o pregador deixa de dirigir-se aos

fiÈis para se dirigir a Deus, aos santos, etc

ìsentimentosî [

] O serm„o

]

]î [

Essas caracterÌsticas do serm„o, mencionadas pelo Frei CristÛv„o de Lisboa, s„o observadas nos sermıes analisados. Vieira usa todos os recursos disponÌveis com o objetivo de provar a sua tese e convencer os seus ouvintes da verdade que ele est· proclamando. … conveniente, antes de tecer outras

94

consideraÁıes, ter em mente que a principal fundamentaÁ„o do serm„o È o texto das Escrituras, que È o ponto de partida da argumentaÁ„o. O texto È importante porque È reconhecido pelo pregador e, supostamente, pelos ouvintes como possuidor de autoridade.

No serm„o do Bom Ladr„o, ele usa o texto do evangelho segundo Lucas 23:42, 14 que relata o pedido do ladr„o que est· crucificado ao lado de Jesus:

Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum; (Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino); ao que Jesus lhe responde: Hodie mecum eris in Paradisoî (Hoje ser·s comigo no ParaÌso). O Serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes fundamenta-se no texto do evangelho de Mateus 5:13, 15 quando Cristo, no serm„o da montanha afirma: vos estis sal terrae (vÛs sois o sal da terra). Vieira toma o texto bÌblico como principal fundamento e ponto de partida da sua argumentaÁ„o. H· uma ligaÁ„o intrÌnseca entre o texto e o tema do serm„o, que permeia todo o seu desenvolvimento. Dessa forma, o pregador comeÁa o serm„o em vantagem, porque o desenvolvimento consistir· na interpretaÁ„o de uma m·xima que j· È, supostamente, portadora de autoridade.

Vieira embasa tambÈm seus argumentos em outros focos de autoridade, marcados pelas citaÁıes feitas ao longo do discurso para dar respaldo ‡ interpretaÁ„o do texto bÌblico. Algumas dessas citaÁıes est„o no Serm„o do Bom Ladr„o. Ele cita:

- O Antigo Testamento ñ para fundamentar o conceito de restituiÁ„o ñ

ìEra t„o rigoroso este preceito da restituiÁ„o na lei velha, que, se o que furtou n„o

tinha como restituir, mandava Deus que fosse vendido, e restituÌsse com o preÁo de si mesmo: Si non habuerit quod pro furto reddat, ipse venundabitur ( xodo 22,3) 16 .

- Santo Agostinho ñ para embasar o mesmo conceito de restituiÁ„o, ligando-o ‡ penitÍncia ñ ì Se o alheio que se tomou ou retÈm, se pode restituir, e n„o se restitui, a penitÍncia deste e de outros pecados n„o È verdadeira penitÍncia, sen„o simulada e fingida, porque se n„o perdoa o pecado sem se restituir o roubado, quando quem o roubou tem possibilidade de o restituirî.

- S„o Tom·s de Aquino ñ Sobre a implicaÁ„o dos governantes nas

atitudes daqueles a quem eles nomeiam para ocuparem cargos no governo ñ

95

ìAquele que tem obrigaÁ„o de impedir que n„o se furte, se o n„o impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou.î

- Santo Hil·rio ñ Na sua peroraÁ„o ñ ìO que se n„o pode calar com boa consciÍncia, ainda que seja com repugn‚ncia, È forÁa que se digaî.

No serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes, cita:

- S„o BasÌlio ñ Quando fala da necessidade de louvar o bem para o

conservar e repreender o mal para preservar dele. ìN„o sÛ h· de notar o que repreender nos peixes, sen„o tambÈm que imitar e louvorî.

- David, rei de Israel no Antigo Testamento ñ quando falou do peixe de

quatro olhos e que, segundo ele, dois era para olhar para o cÈu e dois para baixo ñ ìVoltai-me Senhor, os olhos para que n„o vejam a vaidade.î

- S„o M·ximo ñ quando fala da experiÍncia de Sim„o o m·gico, que

tentou voar e caiu, quebrando os pÈs. ìPorque o que tem pÈs para andar, e quer

asas para voar, justo È que perca as asas e mais os pÈsî.

Vieira usa tambÈm as pequenas histÛrias, atualmente, chamadas pela homilÈtica, de ilustraÁıes. Ele faz uso abundante desses exemplos. Isso pode ser observado nos dois sermıes lidos. No Serm„o do Bom Ladr„o, ele usa como exemplos as histÛrias do profeta Jonas, no Antigo Testamento; de Zaqueu, no Novo Testamento; conta uma histÛria narrada por SÍneca, dentre outras.

No serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes, ele faz uso mais abundante dos

exemplos, narrando dois episÛdios da vida de santo AntÙnio, a narrativa do episÛdio

de Jonas e o peixe, a histÛria de NoÈ e o

tambÈm que o serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes tem como caracterÌstica peculiar ser totalmente alegÛrico e por isso possibilita uma leitura diferenciada.

dil˙vio, dentre outras. Deve-se considerar

Outra caracterÌstica observada nos sermıes lidos e que tem uma ligaÁ„o com o estilo liter·rio dos sermıes da sua Època, alÈm de remeter aos c‚nones do discurso cl·ssico, È o uso de recursos retÛricos. Dentre esses, podem ser observados, o uso do recurso retÛrico da interrogaÁ„o.

ìPor que? Porque Dimas era ladr„o condenado, e se ele fora rico, claro est· que n„o havia de chegar ‡ forcaî.

Em outro momento do texto ele usa mais uma vez esse recurso:

96

ìE se nesta obrigaÁ„o de restituir incorrem os prÌncipes pelos furtos que cometem os ladrıes casuais e involunt·rios, que ser· pelos que eles mesmos, e por prÛpria eleiÁ„o, armaram de jurisdiÁıes e poderes com que roubam os mesmos povos?î

Pode-se observar o uso do recurso retÛrico de frases interrogativas tambÈm no serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes, como nos trechos a seguir.

ìNo tempo de NoÈ sucedeu o dil˙vio, que cobriu e alagou o mundo, e de todos os animais quais se livraram melhor?î

ì Pois David n„o podia voltar os seus olhos para onde quisesse?î

Pode-se

observar

tambÈm

que

o

jesuÌta

serve-se

do

recurso

das

repetiÁıes anafÛricas no seu texto, como pode ser exemplificado:

ì e ambos condenados, ambos executados, ambos crucificados e

mortos

î

ìQue morra o tubar„o porque comeu, matou-o a sua gula; mas que morra o pegador pelo que n„o comeu, È a maior desgraÁa que se pode imaginar!î

Vieira usa tambÈm preteriÁıes, outro recurso da retÛrica cl·ssica, como observado nos trechos a seguir. Ele disse sem dizer:

ìO fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vÛs o sabeis, e eu por vÛs o sinto.î

AlÈm das caracterÌsticas da retÛrica cl·ssica encontradas nos sermıes analisados, h· outras que podem ser observadas. Dentre elas, pode ser citado o argumento psicog·gico. Conforme registrado no capÌtulo primeiro deste trabalho, esse argumento est· relacionado ao aspecto emocional do ouvinte. S„o argumentos destinados a mover as emoÁıes do ouvinte.

Segundo AristÛteles (apud Plebe, 1978, p. 42), ìas paixıes s„o os meios pelos quais se fazem mudar os homens nos seus juÌzos e que tÍm por conseq¸Íncia o prazer e a dor, como, por exemplo, a cÛlera, a compaix„o, o temor e todas as outras paixıes semelhantes e aquelas que lhe s„o contr·riasî. Pode-se observar em alguns trechos dos sermıes escolhidos, que Vieira procura mover o seu p˙blico com argumentos psicagÛgicos.

97

Grande l·stima ser· naquele dia, senhores, ver como os ladrıes levam consigo muitos reis ao inferno; e para que esta sorte se troque em uns e outros, vejamos agora como os mesmo reis, se quiserem, podem levar consigo ladrıes ao paraÌso.

VÛs fostes criados por Deus, para servir ao homem, e conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me para O servir a Ele, e eu n„o consigo o fim que me criou. VÛs n„o haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante dEle muito confiadamente, porque O n„o ofendestes; eu espero que O hei de ver; mas com que rosto hei-de aparecer diante do seu divino acatamento, se n„o cesso de O ofender? Ah que quase estou por dizer, que me fora melhor ser como vÛs, pois de um homem que tinha as minhas mesmas obrigaÁıes, disse a Suma Verdade, que melhor fora n„o nascer homem: Si natus non fuisset homo ille.

… importante considerar tambÈm a diferenÁa da linguagem entre os dois sermıes. O serm„o do Bom Ladr„o, dirigido a um p˙blico seleto, constituÌdo do rei, juÌzes e ministros, tem uma linguagem mais erudita e uma estrutura argumentativa mais silogÌstica. Quanto ao serm„o de Santo AntÙnio aos peixes, dirigido aos colonos do Brasil, tem uma linguagem bastante metafÛrica, muitas ilustraÁıes e poucos argumentos silogÌsticos. Vieira estava atento ao seu auditÛrio, seguindo um dos princÌpios da retÛrica cl·ssica, chamado ìpolytroposî, segundo o qual È necess·rio encontrar o modo certo e as palavras oportunas para comunicar-se com os diferentes grupos de pessoas.

Embora escritos e pregados em circunst‚ncias e locais diferentes, esses sermıes guardam semelhanÁas estilÌsticas entre si. Vieira mantÈm a mesma estrutura em ambos, seguindo os c‚nones do discurso cl·ssico, com: exordium, narratio, divisio, confutatio, confirmatio e conclusio. Essa estrutura pode ser melhor observada na comparaÁ„o entre os dois esboÁos.

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Serm„o do Bom Ladr„o

Texto: Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum .Lucas 23:42

I ExÛrdio ñ Uma relaÁ„o entre realeza

e misericÛrdia, conduzindo ao tema.

II - Tema: Como os Reis podem levar

consigo ladrıes ao ParaÌso ou os ladrıes podem levar consigo os reis ao

inferno

Serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes

Texto: Vos estis sal terrae. Mat. 5:13 8

I ñ ExÛrdio: ¿ imitaÁ„o de Santo

AntÙnio, cuja mensagem n„o foi aceita pelos homens, Vieira afirma que vai pregar aos peixes.

II ñ Tema: Objetivos da aÁ„o do sal

III ñ ArgumentaÁ„o

III

ArgumentaÁ„o

1. ConservaÁ„o - atravÈs do louvor

1.

Reis que levam ladrıes ao paraÌso

1.1. Louvor ‡s virtudes gerais dos

1.1.

Levando os ladrıes a restituÌrem o

peixes

alheio

1.2. Louvor ‡s virtudes individuais dos

1.2.

Restituindo eles mesmos o alheio

peixes.

2.

Ladrıes que levam o rei ao inferno

2.

PreservaÁ„o ñ atravÈs da

2.1. Porque os reis lhes d„o ofÌcio e

poderes que lhes d„o oportunidade de

roubar

IV - PeroraÁ„o - A import‚ncia da restituiÁ„o para a salvaÁ„o ñ Sem a restituiÁ„o ninguÈm pode se salvar.

repreens„o do mal 2.1.Repreens„o aos peixes no geral 2.2.Repreens„o aos peixes em

particular

IV ñ PeroraÁ„o:

SÌntese e invocaÁ„o ñ com louvores a

Deus

A marca pessoal de Vieira est· impressa nos dois sermıes estudados. Em ambos, È incisivo em suas palavras, usando, algumas vezes, termos fortes tais como ìladr„oî e ìtraidorî, no desenvolvimento da sua argumentaÁ„o. AlÈm de usar

99

uma linguagem adequada a cada tipo de p˙blico, as palavras empregadas na sua argumentaÁ„o s„o muito bem estudadas. Ele coloca cada palavra no seu devido lugar, de forma a produzir o resultado que pretende. Vieira fala (escreve) com a convicÁ„o e coragem de alguÈm que È portador da verdade. Essa convicÁ„o È uma caracterÌstica essencial e necess·ria em qualquer discurso, sobretudo, quando se trata de um discurso religioso. O jesuÌta fala com autoridade, conferida pela sua posiÁ„o de religioso, estadista e de homem experiente nas lides da vida.

Outra caracterÌstica observada nos sermıes È o seu propÛsito de convencer os seus ouvintes. Vieira persegue, com insistÍncia, esse objetivo; sabe onde pretende chegar e faz uso de todo arsenal disponÌvel para alcanÁar os objetivos propostos e convencer os seus ouvintes. Em ambos os sermıes, o seu apelo È objetivo.

No serm„o do Bom Ladr„o, ele È mais incisivo, ao tentar levar os seus ouvintes a uma decis„o, procurando mostrar a situaÁ„o daquele e que n„o cumprir suas determinaÁıes profÈticas. Primeiramente, mostra o aspecto negativo da situaÁ„o, quando afirma: ì Considere-se cada um na hora da morte. E com o fogo do inferno ‡ vista, e ver· se È bom partido o que lhe persuadoî. (Vieira, 1998, p.91) Depois de ìmostrar-lhes o fogo do infernoî, para aqueles que n„o se deixarem persuadir, deixa por ˙ltimo, o aspecto positivo da quest„o, dando-lhes um caminho e enfatizando a necessidade da restituiÁ„o para que o homem alcance a salvaÁ„o:

… isto verdade ou n„o? Acabemos de ter fÈ, acabemos de crer que h· inferno, acabemos de entender que sem restituir ninguÈm se pode salvar. Vede, vede, ainda humanamente, o que perdeis, e porquÍ. Nesta restituiÁ„o, ou forÁosa, ou forÁada, que n„o quereis fazer, que È o que dais e o que deixais? O que dais È o que n„o tÌnheis; o que deixais È o que n„o podeis levar convosco, e por isso vos perdeis. Nu entrei neste mundo, e nu hei de sair dele, dizia JÛ, e assim saÌram o bom e o mau ladr„o. Pois, se assim h· de ser, queirais ou n„o queirais, despido por despido, n„o È melhor ir com o bom ladr„o ao ParaÌso, que com o mau ao inferno? (Vieira, 1998, p.91)

No serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes, Vieira È mais brando no seu apelo, embora n„o deixe de ser objetivo. Como o serm„o È metafÛrico, ele inclui tambÈm no seu apelo elementos figurados. Se o serm„o foi aos peixes, o apelo È tambÈm a eles. Apesar disso, o jesuÌta fala aos homens, embora, transversalmente:

100

ì TambÈm este ponto È mui importante e necess·rio aos homens, se eu lhes pregara a eles. Oh quantas almas chegam ‡quele altar mortas, porque chegam e n„o tÍm horror de chegar, estando em pecado mortalî (Vieira, 1998, p.150).

O que chama mais a atenÁ„o na conclus„o deste serm„o de Vieira, e que a distingue da conclus„o do Serm„o do Bom Ladr„o, È que o jesuÌta se coloca como o receptor da mensagem, aplicando a si o serm„o e fazendo uma comparaÁ„o interessante dele com os peixes. … claro que Vieira est· usando, com muita habilidade, um recurso retÛrico, colocando-se como receptor da mensagem no lugar dos verdadeiros receptores, os homens, a quem se dirige o serm„o, na tentativa de incit·-los a tomarem o lugar de receptores da mensagem ìaos peixesî. Ele fecha o ser serm„o com estas palavras, que devem ser consideradas na Ìntegra:

Ah que quase estou por dizer, que me fora melhor ser como vÛs, pois de um homem que tinha as minhas obrigaÁıes, disse a Suma Verdade, que melhor fora n„o nascer homem: Si natus non fuisset home ille. E pois os que nascemos homens, respondemos t„o mal ‡s obrigaÁıes de nosso nascimento, contentai-vos, peixes, e daÌ muitas graÁas a Deus pelo vosso. (Vieira, 1998, p.150)

AtravÈs dessas consideraÁıes, È possÌvel concluir que os sermıes analisados n„o se constituem uma literatura isolada, mas est„o inseridos numa sÈrie, relacionados ‡s tendÍncias da sua Època e com ligaÁıes com a retÛrica cl·ssica. Embora amarrados a esses vÌnculos, os sermıes de Vieira se destacaram tanto na sua Època que os demais oradores foram obscurecidos.

4.5. A obra de Vieira e sua recepÁ„o:

Tomando como fundamento os pressupostos da estÈtica da recepÁ„o, deve-se considerar uma determinada obra em relaÁ„o ao contexto no qual foi produzida e qual a reaÁ„o dos seus leitores ao terem contato com ela. Quando se trata de verificar a reaÁ„o dos leitores atuais daquela obra, basta fazer uma pesquisa etnogr·fica, e avaliar seus resultados. A estÈtica da recepÁ„o, no entanto, n„o se aplica apenas aos leitores atuais.

101

Na concepÁ„o de Jauss (1994), as obras antigas podem ser avaliadas

atravÈs do estudo do contexto em que surgiram e a reaÁ„o dos seus leitores

naquele momento. … certo que se pode fazer uma comparaÁ„o entre os leitores do

passado e do presente, atÈ mesmo, atravÈs de uma pesquisa etnogr·fica com os

leitores atuais. Mas, na maioria das vezes, È possÌvel mensurar a reaÁ„o do leitor

‡quela obra pela sua repercuss„o nos meios culturais no passado e no presente. Na

verdade È o p˙blico receptor que sepulta uma obra ou lhe d· sobrevida. Jauss

afirma que:

A reconstruÁ„o do horizonte de expectativa sob a qual a obra foi criada e recebida no passado possibilita, por outro lado, que se apresentem as questıes para as quais o texto constituiu um resposta e que se descortine, assim a maneira pela qual o leitor ter· encarado e compreendido a obra. (Jauss,1994, p.35)

Para que se descubra o horizonte de expectativa do leitor do passado, È

preciso, na concepÁ„o de Jauss,(1994) entender o texto da perspectiva da sua

Època. Isso ser· possÌvel por meio do conhecimento do contexto em que viveram

aqueles leitores e no qual tambÈm a obra foi escrita e recebida. Olhando os sermıes

escolhidos pela perspectiva da estÈtica da recepÁ„o, esta pesquisa visar·, de

maneira sintÈtica, a reconstruÁ„o do horizonte de expectativa do receptor original

desses textos, a possÌvel dist‚ncia estÈtica entre a obra e o p˙blico e a mudanÁa

gradativa desse horizonte de expectativa atÈ a leitura que se faz atualmente.

Antes que seja feita essa avaliaÁ„o, È conveniente observar a natureza

dos textos analisados. Estes consistem de dois sermıes escritos, pregados em

locais, Èpocas e circunst‚ncias diferentes. Por se tratar de discursos religiosos,

deve-se considerar as duas formas de apresentaÁ„o. Num primeiro momento, foram

apresentados de forma oral e, num segundo, apresentados como uma obra

publicada.

Existem, portanto, dois tipos de receptores: o receptor prim·rio que est·

ao alcance dos olhos, cuja reaÁ„o ‡ obra È imediata e o leitor da obra impressa, cujo

feedback 17 È retardado pela forma como ele toma conhecimento da obra. Se essa

obra n„o tivesse a forma impressa, a sua sobrevida seria curta. O que a tornou um

102

cl·ssico da literatura foi exatamente porque foi publicada de forma impressa. Por isso, a leitura analÌtica dos sermıes escolhidos leva em consideraÁ„o a sua recepÁ„o oral, chamada prim·ria, e a sua recepÁ„o escrita, chamada secund·ria.

Para a realizaÁ„o da leitura das obras com base nos pressupostos da estÈtica da recepÁ„o, È importante identificar quem eram os receptores dos sermıes de Vieira. Pelo acesso ‡s informaÁıes histÛricas, sabe-se que eram os governantes, as mais altas autoridades do reino, as autoridades eclesi·sticas e o povo em geral. Vieira pregou aos mais diversos auditÛrios. Pregou aos Ìndios, pregou aos reis, pregou aos colonos, a auditÛrios interessados em ouvir a sua mensagem e a auditÛrios hostis. Deve-se considerar tambÈm que o alcance das obras escritas de Vieira extrapolou os receptores da sua pregaÁ„o oral. Sabe-se que seus sermıes foram enviados atÈ para o oriente.

No caso dos sermıes analisados, È possÌvel que, num perÌodo curto de tempo, eles tenham sido publicados de forma impressa. Confirmando essa concepÁ„o, Noronha (1998, p.96), ao comentar sobre a crÌtica de Vieira aos portugueses no ìserm„o de santo AntÙnio aos Peixesî, faz a seguinte consideraÁ„o:

Sabendo que Vieira reescreveu alguns, quiÁ· muitos, dos seus Sermıes; que os adaptou, assim os modificando, ‡s circunst‚ncias da reescrita; que ampliou versıes anteriores, por motivos obviamente idÍnticos; sabendo isso, torna-se claro que n„o escreveu este Serm„o somente para os ouvintes de S„o LuÌs do Maranh„o. Impresso, o serm„o seria lido. Havia quem iria a correr para o ler logo. DecepÁ„o: para os traidores.

A sociedade portuguesa e, sobretudo, a sociedade colonial eram tradicionalistas. Os portugueses resistiram, atÈ onde puderam, ao novo modelo econÙmico mercantilista e a nova estrutura social surgida com o fim do sistema feudal e a ascens„o da nova classe social burguesa na Europa. Em se tratando da colÙnia, essas mudanÁas que ocorriam na Europa estavam ainda muito mais distantes da sociedade colonial. Esse era o p˙blico que ouvia e lia Vieira.

A partir dessas informaÁıes sobre os receptores de Vieira, pode-se construir o seu horizonte de expectativa. A maior parte do p˙blico via o serm„o como um prazer, deliciando-se com a estrutura e o modo como Vieira construÌa os seus

103

argumentos. Admiravam tambÈm a originalidade e a coragem de Vieira para abordar os temas polÍmicos de grande interesse naquele momento.

A expectativa do governo PortuguÍs era que os sermıes de Vieira desviassem a atenÁ„o das oligarquias das dificuldades de afirmaÁ„o do reinado pÛs era filipina e viesse solidificar as estruturas que permitiam a governabilidade. (tanto que Vieira foi nomeado embaixador extraordin·rio de Portugal). Para a Igreja, a expectativa era que os sermıes de Vieira cumprissem o objetivo de atrair de volta ìo rebanho dissidenteî, que havia ido para as igrejas reformadas ou, que, pelo menos, impedisse a saÌda de outros. Vieira tornou-se ìo astroî e, enquanto foi ì˙tilî, foi bem aceito.

Como se pode perceber, o horizonte de expectativa dos ouvintes e leitores de Vieira n„o pressupunha nenhuma tomada de posiÁ„o diante do tom apelativo dos seus sermıes. A sociedade portuguesa, apesar dos in˙meros problemas que a naÁ„o sofria, n„o desejava que o seu status quo fosse alterado. Embora o ambiente geral da Europa fosse voltado para mudanÁas, eles desejavam que a situaÁ„o social n„o fosse alterada. Estavam apegados ao continuÌsmo. Na sua perspectiva, os problemas do reino deveriam ser resolvidos, desde que n„o fosse requerido nenhum sacrifÌcio das classes privilegiadas. Como os sermıes de Vieira criticam veementemente a situaÁ„o de desigualdade social e tribut·ria existente em Portugal e no Brasil, propondo que o clero e os nobres pagassem impostos, que os ìcrist„os novosî fossem integrados ‡ sociedade portuguesa, os Ìndios fossem libertos da escravid„o e que um novo sistema econÙmico fosse adotado, a sua mensagem n„o foi bem aceita. As suas obras, de forma geral, contrariaram o horizonte de expectativa dos seus receptores.

Especificamente falando das obras analisadas, È possÌvel perceber no ìserm„o do Bom Ladr„oî que o p˙blico ao qual Vieira fez a sua exposiÁ„o oral È mais receptivo, por ser mais seleto. Embora mais receptivo, certamente, o serm„o n„o atendeu ao horizonte de expectativa desse p˙blico, e tambÈm daqueles que tomaram conhecimento, naquela Època, do seu conte˙do na forma escrita. Existem alguns posicionamentos no conte˙do do serm„o que n„o s„o compatÌveis com o pensamento das pessoas naquele momento.

Um dos posicionamentos de Vieira no Serm„o do Bom Ladr„o, que chama a atenÁ„o para as suas idÈias È a crÌtica ao abuso de poder por parte dos

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governantes. De acordo com Cidade (1985), foram desse perÌodo alguns dos mais not·veis sermıes de repreens„o aos nobres e grandes da Corte, pelo abuso de poder, pela acumulaÁ„o de empregos, pela dissipaÁ„o que levava ‡ rapina. Dentre eles, se destaca O Serm„o do Bom Ladr„o. Vieira critica aqueles que usavam a sua funÁ„o para justificar as suas aÁıes corruptas; para justificar o furto, o assassinato e a espoliaÁ„o do povo. Ele n„o pode admitir que o poder absoluto dos reis no campo polÌtico-administrativo das naÁıes seja transferido para o campo da Ètica e da moral. Segundo ele, citando Santo Tom·s,

a rapina ou roubo È tomar o alheio violentamente contra a vontade de seu dono; os prÌncipes tomam muitas coisas a seus vassalos violentamente, e contra a sua vontade: logo parece que o roubo È lÌcito em alguns casos, porque, se dissermos que os prÌncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam.

Observando o contexto polÌtico-social em que Vieira vivia, sabe-se que o regime de governo existente nos paÌses da Europa era a monarquia absolutista. Esse regime È caracterizado pelo exercÌcio do poder absoluto pelo monarca ou rei, sem o uso dos preceitos constitucionais e pela inexistÍncia da divis„o dos trÍs poderes, que se concentram nas m„os de uma sÛ pessoa. Esse tipo de governo foi muito comum atÈ o sÈculo XVII, atingindo meados do SÈculo XIX. (WikipÈdia) …, portanto, admir·vel a coragem de Vieira de questionar o poder absoluto dos reis, nesse contexto. N„o h· aqui uma crÌtica ao regime absolutista, mesmo porque ele tinha relaÁıes muito prÛximas com o poder, mas h· um questionamento a respeito do limite do poder. Ele chega a dizer que ìcuidam ou devem cuidar alguns prÌncipes que, assim como s„o superiores a todos, assim s„o senhores de tudo, e È enganoî. (1998, p. 64) Certamente, essa ìintromiss„oî do pregador n„o agradava o seu p˙blico.

O jesuÌta critica tambÈm o apetite expansionista dos governantes. Na sua concepÁ„o, conquistar um reino era considerado um roubo, tanto quanto roubar um objeto. Para fundamentar a sua argumentaÁ„o, Vieira cita S„o BasÌlio Magno, segundo o qual n„o s„o sÛ ladrıes, aqueles que cortam bolsas ou espreitam os que v„o se banhar para lhes roubar as roupas. Os ladrıes que mais propriamente merecem este tÌtulo s„o os que os reis encomendam os exÈrcitos e legiıes ou o governo das provÌncias, ou a administraÁ„o das cidades, os quais j· com manha,

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roubam e despojam os povos. Os ladrıes comuns roubam pessoas, estes ladrıes roubam cidades e reinos; os ladrıes comuns furtam com risco prÛprio, estes furtam sem temor nem perigo; os ladrıes comuns, quando furtam, s„o enforcados, estes furtam e enforcam. (1998)

Vieira critica a desigualdade de tratamento dado ao ladr„o comum e aos governantes que, na sua concepÁ„o, tambÈm s„o ladrıes. Segundo ele, ìquantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladr„o, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cÙnsul, ou ditador, por ter roubado uma provÌnciaî (Vieira, 1998, p. 68). Corroborando a sua argumentaÁ„o, ele conta a histÛria de Alexandre, o Grande, que repreendeu um pirata por roubar os pescadores. O pirata, porÈm, lhe respondeu: ìBasta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladr„o, e vÛs, porque roubais em uma armada sois imperador?î. (Vieira, 1989, p. 68) Vieira demonstra a sua total desaprovaÁ„o a essa atitude, porque, no seu entendimento todos s„o iguais. Tanto o rei, quanto o s˙dito, ao se apropriarem de algo que n„o lhes pertence, s„o ladrıes e est„o roubando. A ˙nica soluÁ„o para a salvaÁ„o de ambos, segundo o jesuÌta, È a restituiÁ„o.

Numa Època em que os reinos ainda se acomodavam das conquistas da AmÈrica e do oriente; sobretudo Portugal, que era dono de um grande impÈrio, com v·rias colÙnias na £frica, AmÈrica e oriente, e que era aceit·vel (e ainda o È nos dias atuais) que um reino conquistasse outras terras, povos e reinos atravÈs da guerra e que os submetessem ao seu domÌnio, matando aqueles que se rebelassem, essa crÌtica de Vieira soa como absurda para os seus ouvintes. Ainda mais que, diante de uma platÈia formada pelas mais eminentes personalidades do reino portuguÍs, ele teve a intrepidez de qualificar de ìladrıesî os que despojam os povos e os que invadem os reinos.

Embora essas idÈias tenham desdobramentos sociais; neste capÌtulo, est„o sendo analisadas da perspectiva da sua recepÁ„o. Observa-se aqui a diferenÁa entre o horizonte de expectativa dos ouvintes, consubstanciada na sua pr·tica polÌtico-administrativa, e o horizonte que elas trazem, gerando uma incomensur·vel incompatibilidade com a pr·tica polÌtico-social daquele tempo.

As pessoas do seu tempo n„o estavam preparadas para absorver idÈias t„o avanÁadas como estas; DaÌ o seu estranhamento. …, no entanto, importante observar, que n„o foram apenas os receptores prim·rios de Vieira que n„o

106

aceitaram as suas idÈias naquele momento. Toda a sociedade, de forma geral, estranhou os posicionamentos do jesuÌta. Esse estranhamento foi sendo potencializado ao longo dos anos atÈ culminar no seu afastamento definitivo da corte em 1681. Segundo Cidade (1985, p. 104), ìn„o havia d˙vida! O orador ilustre estava gozando, como ele dizia, privilÈgios de morto ñ esquecido no seu cubÌculoî.

Quando se trata do p˙blico receptor prim·rio do ìserm„o de Santo AntÙnio aos Peixesî, os colonos de S„o Luiz do Maranh„o, È perceptÌvel a hostilidade e desinteresse deles na mensagem predicada, dadas as circunst‚ncias daquele momento. Essa hostilidade È t„o evidente, que leva Vieira a pregar aos peixes. (… claro que, metaforicamente). Tempos depois, foi expulso por eles da colÙnia.

Esse serm„o foi pregado num momento de grande tens„o. ApÛs a promulgaÁ„o de uma lei em Portugal que determinava a libertaÁ„o dos Ìndios da escravid„o, os colonos, percebendo que iriam perder a m„o-de-obra gratuita, revoltaram-se contra a lei e enviaram emiss·rios a Portugal com o objetivo de pedir ao Rei que a revogasse. Em maio de 1654, os procuradores do Estado chegam de Lisboa trazendo as disposiÁıes legais que revogam essa lei.

Logo depois disso, Vieira, ent„o, Superior dos mission·rios jesuÌtas no Brasil, n„o aceita a revogaÁ„o da lei e resolve embarcar para a corte com a finalidade de conseguir a libertaÁ„o dos escravos indÌgenas. TrÍs dias antes de partir, ocultamente, para o Reino, em 13 de junho de 1654, ele prega o Serm„o de Santo AntÙnio aos Peixes. De acordo com Cidade (1985, p.61) ìdiz-se que estava este posto fora da igreja, l· de onde, para alÈm do mar das cabeÁas dos ouvintes, o orador via as ondas do oceano, t„o inconstantes e agitadiÁas como elasî.

O prÛprio Vieira ìreconheceî essa dist‚ncia estÈtica estabelecida entre os seus sermıes e seus receptores, quando usa a figura do sal e da Terra. Segundo ele, a causa da corrupÁ„o ìou È porque o sal n„o salga, e os pregadores n„o pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se n„o deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes d„o, a n„o querem receberî. (Vieira, 1998, p.125) Ele demonstra nesse trecho que percebia qu„o insensÌveis eram os receptores do seu serm„o.

107

Em outro momento do serm„o, fala a respeito da atitude de Santo AntÙnio diante da rejeiÁ„o do seu serm„o pelos ìheregesî em Arimino que, ao se dar conta que n„o seria ouvido pelos homens, resolveu pregar aos peixes. Por sua vez, Vieira resolve tomar a mesma atitude, deixando claro que estava consciente da rejeiÁ„o da sua mensagem pelos seus ouvintes, quando afirma: ìIsto suposto, quero hoje, ‡ imitaÁ„o de Santo AntÛnio, voltar-me da terra ao mar, e j· que os homens se n„o aproveitam, pregar aos peixesî. (Vieira, 1998, p.127)

Alguns aspectos observados nesse serm„o demonstram a diferenÁa entre o horizonte de expectativa dos ouvintes e o horizonte proposto pelo serm„o de Vieira. Primeiramente, os colonos n„o estavam preocupados com as pessoas, mas, com os fatores econÙmico-produtivos. Vieira, por sua vez, apesar de ìpregar aos peixesî, tem uma preocupaÁ„o fundamental com as pessoas, tanto que lutava pela libertaÁ„o dos escravos indÌgenas. Por isso a sua mensagem n„o foi aceita. De acordo com Cidade (1985,p.61):

os colonos, um momento fascinados, quando do Serm„o da TentaÁ„o, pela eloq¸Íncia do orador, logo tornaram a exigir a posse plena do escravo, sem a intromiss„o dos mission·rios, que lha reduziam e procuravam de todo anular. Estes, por seu turno, falando pela voz de Vieira, seu chefe espiritual, queriam ser mais do que os ˙nicos pescadores daquele mar de almas ñ o sal que as conservasse, para o que julgavam necess·rio isentar os Ìndios de toda tutela do governo civilî.

Vieira demonstra essa preocupaÁ„o quando fala contra a ictiofagia e a antropofagia social. Na sua concepÁ„o, ìa maldade È comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem s„o os maiores que comem os pequenosî (Vieira, 1998, p.137). Ele se preocupa com o povo ñ plebem ñ os colonos se preocupam com o lucro. Segundo Cidade (1985) a gan‚ncia exacerbada dos colonos, dominados pela ansiedade do lucro r·pido, levou-os apropriar-se da atividade alheia de maneira brutal e a tratar as pessoas como objetos usados para alcanÁar os seus fins.

Essa forma de viver È totalmente incompatÌvel com os ensinos crist„os e soa paradoxal que uma sociedade que se diz crist„ use as pessoas como objeto da sua gan‚ncia. … importante notar que, ao referir-se aos escravos como ìpeÁas que

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lhe custaram o seu dinheiroî Vieira d· entender que os colonos os consideravam como simples objetos. … Nesse ponto que reside o maior foco de discrep‚ncia entre Vieira e os colonos. Enquanto estes os objetificam, ele os vÍ como pessoas completas. Por isso, os jesuÌtas, capitaneados por Vieira, lutaram para mudar essa situaÁ„o. Segundo Cidade (1985, p.52):

era natural que os autÍnticos apÛstolos, na sua miss„o de converter almas, e portanto de formar consciÍncias, persuadindo-as da superioridade da moral crist„ e dos costumes civilizados, sentissem a cada passo o obst·culo posto pela brutalidade do colono ‡ aproximaÁ„o e assimilaÁ„o do selvagem. Daqui resultariam conflitos freq¸entes entre os interesses espirituais que zelavam e os interesses temporais do senhor da fazenda e do engenho.

AlÈm disso, Vieira È rÌgido na repreens„o aos homens. Ao comparar o episÛdio de Santo AntÙnio com o a situaÁ„o que ele estava vivendo, Vieira insinua que os homens s„o irracionais.

quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens t„o furiosos e obstinados, e no mar os peixes t„o quietos e t„o devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens n„o em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus o uso de raz„o, e n„o aos peixes, mas neste caso os homens tinham a raz„o sem o uso, e os peixes o uso sem a raz„o. (Vieira, 1998,p. 126)

Vieira tambÈm contraria o horizonte de expectativa dos seus ouvintes ao condenar, de forma incisiva, os vÌcios da sociedade daquela Època. Ele condena a corrupÁ„o, ao fazer a seguinte afirmaÁ„o:

muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja e noutras, de manh„ e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sÛlida, muito verdadeira, e a que mais necess·ria e importante È a esta terra, para emenda e reforma dos vÌcios que a corrompem. (Vieira, 1998, p.126)

Ao repreender os peixes, Vieira, na verdade, est· repreendendo os homens. Ele repreende ìa roncaî, a vaidade, a ostentaÁ„o do faroleiro, que conta

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vantagens, mas n„o È o que diz ser, usando a figura do peixe roncador. Repreende

o parasitismo dos homens, que se apegam aos poderosos para obter vantagens e

sobrevivÍncia, usando a figura do peixe pegador, que se apega aos peixes grandes para sobreviver. Usa tambÈm a figura do peixe voador para censurar aquelas pessoas que querem ser mais do que de fato s„o. Ao afirmar que, ìquem pode nadar, e quer voar, tempo vir· em n„o voe, nem nadeî (1998, p.146), d· a entender que aqueles que tentam ser mais do que realmente s„o, ser„o vÌtimas da sua prÛpria ambiÁ„o. Vieira critica ainda a hipocrisia da sociedade portuguesa, usando a figura do polvo, a quem chama o grande traidor do mar.

Sem d˙vida, o jesuÌta est· bastante decepcionado com a sociedade portuguesa, de forma geral, pela maneira como a sua mensagem e atuaÁ„o foram rejeitadas na corte e agora tambÈm na colÙnia. Tanto que ele expressa o seu sentimento ao falar aos peixes, ìvejo peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossos mares, me estais respondendo, e, convindo, que tambÈm nelas h· falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas, e muito maiores e mais perniciosas traiÁıesî. (1998, p. 148)

Finalmente, ele exorta os homens a n„o se apropriarem do alheio, ao falar aos peixes que n„o deveriam se apropriar do produto dos navios naufragados. Chama a atenÁ„o a forma como ele aplica esse ensinamento aos homens. Embora,

o seu objetivo fossem os homens os homens, ele afirma: ìOh que boa doutrina era esta para a terra, se eu n„o pregara para o mar! Para os homens n„o mais miser·vel morte, que morrer com o alheio atravessado na garganta[ ]î

O que pode ser observado na leitura desse serm„o em relaÁ„o ‡ sua recepÁ„o È que o ambiente daquele momento era totalmente hostil ‡ pregaÁ„o de Vieira e os conceitos predicados por ele eram incompatÌveis com o pensamento da sociedade portuguesa. Essa consideraÁ„o n„o È feita apenas a respeito dos receptores imediatos ou prim·rios, os ouvintes do serm„o, mas tambÈm refere-se aos receptores secund·rios da obra. Os ouvintes e leitores de Vieira n„o estavam abertos a aceitarem os conceitos proclamados por ele neste serm„o. … possÌvel concluir, observando a sociedade dos dias atuais, que as idÈias defendidas nesses sermıes de Vieira tornaram-se, com o decorrer dos sÈculos, axiomas da sociedade moderna. PrincÌpios como a igualdade das pessoas, a liberdade, a fraternidade, a

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justiÁa, o respeito ao indivÌduo s„o tacitamente aceitos pelas principais democracias do mundo, embora n„o seguidos, na Ìntegra.

Chega-se, portanto, ‡ conclus„o que, esses sermıes, apesar de n„o terem atendido ao horizonte de expectativa dos seus receptores, causado estranhamento e, por esse motivo, n„o sendo bem recebidos pelo seu p˙blico naquele momento; com o decorrer do tempo, n„o apenas eles, mas toda a obra de Vieira proporcionou uma mudanÁa no horizonte de expectativa nos seus receptores que passaram a consider·-lo ìpalat·vel. No decorrer dos sÈculos, os leitores vÍm recriando a obra de Vieira, que È t„o atual nos nossos dias como o foi no passado, por isso È um cl·ssico.

4.6. A relaÁ„o dos sermıes com seu ambiente sociocultural

V·rios aspectos da crÌtica sociolÛgica s„o importantes para a an·lise de uma obra liter·ria. No entanto, o que mais se destaca È a afirmaÁ„o de Antonio Candido (1985) que o condicionamento social n„o È apenas um invÛlucro, mas um elemento constituinte da obra. Em seu livro ìLiteratura e Sociedadeî, ele demonstra os v·rios nÌveis de correlaÁ„o entre a literatura e a sociedade. Ele acredita que essa relaÁ„o n„o deva ser avaliada numa perspectiva paralelÌstica, que consiste em mostrar os aspectos sociais, de um lado e, de outro, a sua ocorrÍncia nas obras; mas deva chegar a uma efetiva interpenetraÁ„o. Essa relaÁ„o È claramente perceptÌvel no ìcorpusî analisado.

Vieira deixa transparecer, nas obras lidas, crÌticas veementes ‡ sociedade do seu tempo. Pode-se perceber isso logo no inÌcio do ìserm„o do bom ladr„oî, quando Vieira compara a justiÁa da sua Època com a justiÁa romana. Segundo ele,

uma das coisas que diz o texto È que foram sentenciados em JerusalÈm dois ladrıes, e ambos condenados, ambos executados, ambos crucificados e mortos, sem lhes valer procurador nem embargos. Permite isso a misericÛrdia em Lisboa? N„o. A primeira diligÍncia que faz È eleger por procuradores das cadeias um irm„o de grande autoridade, poder e ind˙stria, e o primeiro timbre deste

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procurador È fazer honra de que nenhum malfeitor seja justiÁado a seu tempo.(Vieira, 1998, p. 61)

H· nesse trecho uma crÌtica ao sistema judicial portuguÍs, que, segundo ele, estava mais para a misericÛrdia do que para a justiÁa; ou para a injustiÁa do que para a execuÁ„o da justiÁa. … perceptÌvel a intenÁ„o de Vieira em aplicar a mensagem das Escrituras ‡s questıes contempor‚neas.

Outro aspecto que chama a atenÁ„o na obra analisada È a essÍncia da realeza demonstrada pela postura de Cristo. Embora ele estivesse na cruz, ao lado de malfeitores, mantÈm a sua postura essencial de Rei, para o jesuÌta, que o chama de ìRei dos Reisî. Para Vieira, a realeza de Cristo È t„o evidente que, segundo ele, o lugar apropriado para pregar aquele serm„o seria na capela real. Mesmo sendo rei, Cristo deu ouvidos ao ladr„o e prometeu-lhe que o levaria ao paraÌso. Vieira afirma que n„o È indecente, mas glorioso que Cristo tenha resgatado um ladr„o no ˙ltimo momento da sua vida terrena.

… perceptÌvel nesse serm„o o senso igualit·rio de Vieira, quando enfatiza que Cristo, o rei, È acessÌvel, atÈ mesmo, ao ladr„o arrependido, pois, quando pediu a Cristo que se lembrasse dele quando entrasse no seu reino, respondeu-lhe: hodie mecum eris in Paradiso (hoje mesmo estar·s comigo no paraÌso). Vieira (1998, p.61) conclama os reis a seguirem o exemplo de Cristo: ìTodos devem imitar o Rei dos Reis e todos tÍm muito que aprender nesta ˙ltima aÁ„o de sua vida.î A partir de ent„o, proclama a frase que È o tema do seu serm„o: ìNem os reis podem ir ao paraÌso sem levar consigo os ladrıes, nem os ladrıes podem ir ao inferno sem levar consigo os reis.î

A postura de Vieira È desprovida de preconceitos, porque coloca o ladr„o e o rei no mesmo nÌvel, e considera que, tanto um como o outro tem direitos, pecados e obrigaÁıes. ìLevarem os reis consigo ao ParaÌso ladrıes n„o sÛ n„o È companhia indecente, mas aÁ„o t„o gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o tÌtulo de rei.î (Vieira,1998, p. 61) Segundo o seu entendimento, o que tem acontecido È o contr·rio. S„o os ladrıes que tÍm levado os reis ao inferno. N„o haveria auditÛrio mais especializado para ouvir esse serm„o e ele n„o se intimida,

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fala com liberdade, fala com autoridade e transmite o seu ensino aos mais insignes governantes portugueses.

Deve-se prestar atenÁ„o ‡ forma como Vieira trabalha a quest„o da recompensa pelas aÁıes dos homens. Ele vÍ as aÁıes dos homens como tendo uma conseq¸Íncia terminal, por isso trabalha com os conceitos de ìparaÌsoî e ìinfernoî. Esses conceitos, certamente, originados da concepÁ„o maniqueÌsta e

adotados pela religi„o, fazem parte da cultura religiosa e referem-se ao destino final dos homens. Para aqueles que foram fiÈis aos preceitos da religi„o, est· reservado

o paraÌso; mas para aqueles que n„o obedeceram aos preceitos religiosos,

mediados pelos representantes de Deus aqui na terra, ou que se mantiveram distanciados da religi„o, a condenaÁ„o est· assegurada no inferno.

A idÈia crist„ de paraÌso e inferno vem dos conceitos hebraico, grego e latino. Inicialmente, o Sheol (Hebraico) ou Hades (grego) ou infernus (latino) era apenas o lugar dos mortos. Posteriormente, esse termo foi evoluindo semanticamente, passando a significar ìum lugar de recompensas para as ëalmas boasí e de castigo para as ëalmas m·síî. Segundo Champlin & Bentes (1997, p.323),

ìo

pensamento posterior dos hebreus dividia o sheol

[

]

em compartimentos para

os

bons e para os maus, alÈm de dar o nome de ëparaÌsoí para o compartimento das

almas boasî.

Depois disso, os hebreus passaram a fazer uma ligaÁ„o da palavra sheol com a palavra geena, termo que se referia a um lugar de chamas; segundo Champlin & Bentes, (1997) a ligaÁ„o dessas duas palavras resultou na evoluÁ„o sem‚ntica do termo ìinfernoî, que passou a significar lugar de puniÁ„o eterna. Esta palavra est· ligada ao vale de Hinon, (atualmente, Wady Er-rababi), nas proximidades de JerusalÈm, onde havia uma espÈcie de monturo da cidade, onde o fogo ardia continuamente para queimar o lixo que era ali depositado e, por isso, esse lugar era considerado sÌmbolo do juÌzo divino.

O Novo Testamento incorporou a idÈia de ìparaÌsoî, como um lugar de recompensa para os ìbonsî e ìinfernoî, lugar de recompensa para os ìmausî. A declaraÁ„o de Cristo no evangelho segundo Marcos 9:43,44 18 revela o seu

entendimento sobre o significado desse termo. ìE, se tua m„o te faz tropeÁar, corta-

a; pois È melhor entrares maneta na vida do que, tendo as duas m„os, ires para o

inferno, para o fogo inextinguÌvel, onde n„o lhes morre o verme, nem o fogo se

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apaga.î. N„o È objetivo desse trabalho interpretar o texto citado no seu todo, atendo- se ‡ parte que È pertinente para a an·lise do serm„o de Vieira. Na parte final do texto citado, o inferno È visto como um lugar onde h· fogo que n„o se apaga. O uso do termo ìinextinguÌvelî aponta para um castigo eterno.

O tema da recompensa e do castigo eterno tem um enfoque todo especial na religi„o. A religi„o valoriza extremamente ìa vida apÛs a morteî. Essa Ínfase, quando exacerbada e exclusiva, traz no seu bojo dois perigos: o primeiro È levar os fiÈis a serem alienados das questıes terrenas e o segundo È o da dominaÁ„o. Quando alienados, os homens s„o alvos f·ceis da dominaÁ„o e manipulaÁ„o. Infelizmente, a religi„o tem sido usada pelos homens, no decorrer dos anos, como um instrumento de dominaÁ„o. A mensagem crist„, ao longo da histÛria, tem sido apropriada por aqueles que, na maioria das vezes, n„o tÍm nenhuma relaÁ„o Ètica ou moral com o cristianismo, e as usam em benefÌcio prÛprio, quando lhes È conveniente.

Pode-se perceber que a Igreja crist„ medieval exerceu um domÌnio quase absoluto sobre as naÁıes europÈias, deixando de lado as questıes espirituais e envolvendo-se em questıes temporais daqueles paÌses. A influÍncia da Igreja era t„o forte que quando um rei era excomungado, geralmente, perdia tambÈm o seu reinado. Por isso, os governantes n„o queriam ter problemas com a Santa SÈ. Portanto, ìparaÌsoî e ìinfernoî eram, (e s„o) conceitos administrados pela Igreja.

Mesmo no sÈculo XVII, apesar da avalanche de fatos acontecidos na passagem da Idade MÈdia para a Idade Moderna, que mudaram bastante a configuraÁ„o de poder, a Igreja exercia uma influÍncia muito forte sobre os paÌses europeus, especificamente Portugal, paÌs que n„o havia apoiado a reforma protestante e que tinha uma das sedes mais ativas do Santo OfÌcio (a InquisiÁ„o). Vieira, pois, quando fala sobre ìparaÌsoî e ìinfernoî, est· respaldado por toda essa estrutura da Igreja, capaz de ìlevarî qualquer um ao ìparaÌsoî ou ìlanÁ·-loî ìno infernoî ou ìinfernizarî a sua vida. A sociedade da Època, em especial a portuguesa, acreditava que o ˙nico meio de chegar ao paraÌso era ìobedecendoî a ìsanta Madre Igrejaî. Por sua vez, a desobediÍncia ‡ Igreja levava ao inferno.

ConvÈm observar, no entanto, que Vieira n„o estava respaldado apenas na autoridade da Igreja. Ele tinha autoridade moral para fazer essas consideraÁıes. … claro que, como um frade da igreja e jesuÌta, ele teria que defender a sua doutrina.

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No entanto, ele n„o defendia esses conceitos apenas por sua obediÍncia ‡ igreja, mas porque estava convicto da sua verdade e validade. Vieira era, em certa medida, ideologicamente independente e muitas vezes falou ou escreveu o que os seus ouvintes ou leitores n„o desejavam ouvir ou ler. A prÛpria Igreja e, atÈ a ordem dos jesuÌtas, ressentiram-se de algumas posiÁıes tomadas por Vieira e de algumas declaraÁıes suas.

O senso igualit·rio do jesuÌta faz-se sentir tambÈm na sua concepÁ„o de perd„o. Segundo ele, para que o ladr„o fosse perdoado, teria que restituir o que roubou. O Bom ladr„o n„o restituiu porque n„o tinha com que restituir. Ent„o ele

passa a falar sobre Zaqueu. Ele, que era ladr„o rico, sÛ recebeu a salvaÁ„o, quando

se dispÙs a restituir, o que segundo Vieira, havia roubado. Todos s„o iguais perante

a lei de Cristo. Mas Zaqueu, na sua perspectiva, n„o fora condenado, porque era

ladr„o rico, enquanto Dimas por ser ladr„o pobre, sofrera a condenaÁ„o. Segundo

ele:

E ainda que ele o n„o dissera, o estado de um e outro ladr„o o declarava assaz. Por que? Porque Dimas era ladr„o condenado, e se ele fora rico, claro est· que n„o havia de chegar ‡ forca; porÈm Zaqueu era ladr„o tolerado, e a sua mesma riqueza era a imunidade

Porque este

que tinha para roubar sem castigo, e ainda sem culpa

mesmo Zaqueu, como cabeÁa de publicanos: Princeps publicanorum, tinha roubado a muitos, e como rico que era: ëEt ipse divesí, tinha

com que restituir o que roubara[

]

(VIEIRA, 1998, p. 64)

Ele sabia que, no seu tempo, e ainda hoje, o ladr„o rico n„o vai para a

forca, para a cruz, para a cadeira elÈtrica ou para a cadeia. J· na sua Època existia