Você está na página 1de 17

O MOVIMENTO SOCIAL NEGRO CONTEMPORÂNEO E A INFLUÊNCIA IDEOLOGICA DA ESQUERDA BRANCA 1

Fred Aganju Santiago Ferreira 2 .

Não devemos lutar por grilhões de ouro, e sim pelo fim das correntes. (Winnie Mandela)

Cuidar em organizar a nossa luta por nós mesmos é um imperativo da nossa sobrevivência como um povo. Devemos por isso ter muito cuidado ao fazer alianças com outras forças políticas, sejam as ditas revolucionárias, reformistas, radicais, progressistas ou liberais. Toda

e

qualquer aliança deve obedecer a um interesse tático ou estratégico,

e

o negro precisa obrigatoriamente ter poder de decisão, a fim de não permitir que a comunidade negra seja manipulada por interesses de causas alheias à sua própria. (O Quilombismo, Abdias do Nascimento)

Você usa Batas para guerra ou folclore? (Badinho, Cachoeira-ba)

INTRODUÇÃO

Laroiê!

A escrita é uma tecnologia africana, nos apoderarmos desse instrumento que nos

foi espoliado, é essencial para derrocada do racismo 3 . É a partir desse princípio, que

parto para discorrer sobre minha simplória contribuição no I caderno de formação da

1 O presente texto faz parte da coletânea produzida para o I caderno de formação da militância do Núcleo de Negras e Negros estudantes da UFRB - Núcleo Akofena. Dedico esse texto a todos/as militantes do Núcleo Akofena, a Quilombo Xis Ação Cultural comunitária, Mães de Maio, Rede de Comunidades contra Violência, Movimento dos pescadores/as quilombolas da Bahia, Badinho, Mãe Madalena (In memorian) , MNU (In memorian), A campanha Reaja ou sera morto/a, Posse Haussa, Ao Viradouro e todas quebradas de Cachoeira-Ba, Ao Quilombo Rio dos Macacos, Ao Hip Hop que ainda não caiu na armadilha do consumismo, Lélia Gonzalez, Beatriz de Nascimento, Minha mãe, Minhas Vós, e muitos outro/as que não foram citados, mas não vão se descabelar por isso. Peço agô, agradeço profundamente ao Meu pai Xangô Aganju, por me dar o escudo e o machado para lutar nessa guerra com justiça e dignidade. Também agradeço profundamente/humildemente a meu pai Obaluaê, que cura minhas feridas, acalma meu ódio e protege minha retaguarda, peço desculpas, sei que sou um filho faltoso.

2 Militante do Núcleo Akofena, organização do Movimento Social Negro, de atuação real e concreta na luta contra o Genocídio, encarceramento em massa e pela titulação nos territórios quilombolas.

3 Entendo , assim como Carlos Moore, que o racismo “é um sistema de opressão integrado total, é uma questão de monopólio e gestão racializada dos recursos da sociedade e do planet a” (MOORE, p. 236,

2012).

2

militância do Núcleo Akofena, caderno esse, de cervical importância para o processo de construção organizacional, reflexão crí tica da guerra racial instaurada no planeta terra e, sobretudo, para o empoderamento tático-intelectual dos/as militantes. Compreendo também, a partir de uma perspectiva Quilombista 4 , que o presente caderno de formação tem dois sentidos em especial, para nossa organização e para comunidade ne gra em luta real pelo hemisfério terrestre:

1- Formar os quadros do Quilombismo é tão importante quanto a

mobilização e a organização da comunidade negra. (O Quilombismo);

2- Xingar não basta. Precisamos é de mobilização e de organização da gente

negra, e de uma luta enérgica, sem pausa e sem descanso, contra as destituições que nos atingem. (O Quilombismo). E por fim, cabe ressaltar que o texto aqui exposto, tem como escopo, fomentar um debate já acido no interior do Movimento Social Negro 5 , que é a relação entre as organizações do movimento negro e as entidades organizacionais da esquerda branca 6 . Tema tenso e controverso e de salutar relevância para compreendermos o atual momento histórico do Movimento Social Negro, no sistema político mundial. Tal debate, travado, sobretudo, nas fileiras do MN que se auto afirmam como Pan-africanista 7 , tem uma relevância estrutural para o pleno entendimento dos rumos,

4 O Quilombismo, Tese apresentada por Abdias do Nascimento, no II Congresso de Cultura Negra das Américas (Panamá, 1980), é uma proposta organizacional, metodológica e político-ideológico para “orientar” as ações do s Movimentos Sociais Negros no contexto da realidade brasileira e diáspora. O quilombo é caracterizado como instrumento histórico de resistência/guerra da comunidade negra. Defendo também, que a historiadora-militante Beatriz do nascimento, tem contribuição central nessa proposta organizacional forjada na luta histórica do MN.

5 Lélia Gonzalez disse: “Na verdade, falar do Movimento Negro implica no tratamento de um tema cuja complexidade, dada a multiplicidade de suas variantes, não permite uma visão unitária. Afinal, nós negros, não constituímos um bloco monolítico, de características rígidas e imutáveis. (GONZALEZ, p.18,1982) e complementa em outro momento histórico, Joel Rufino, conceituando que MN (Movimento Negro) é , “todas as entidades de qualquer natureza e to das as ações de qualquer tempo (ai compreendidas aquelas que visavam autodefesa física e cultural do negro), fundadas por negros/as” (Rufino dos Santos, p. 303, 1985)”.

6 A esquerda Branca, conjunto de organizações/entidades cujo sustentáculo organizacional -ideológico foi forjado Historicamente a partir da leitura da realidade do povo branco perante a forma de entender/fazer politica no mundo euro- ocidental. Algumas ve rtentes do Nacionalismo Negro (Pan- africanismo), defendem que a esquerda branca é uma estrutura de resistência/embate anticapitalista, entretanto, também de dominação do supremacismo branco.

7 O Pan-africanismo é uma teoria-politica forjada pelos negros/as e não-brancos, em sua lua histórica por libertação e autonomia, as raízes do pan-africanismo são seculares, entretanto, a partir da primeira década do século XX, há uma proliferação planetária sobre suas ideias, praticas e estratégias pelo mundo. O

3

caminhos e trajetórias que o Movimento Social Negro tomou, toma e tomara perante a Guerra racial travada no planeta terra. Saber sobre tal debate, e, sobretudo, o nosso lugar no mesmo, é essencial para compreendermos para onde e com quem vamos caminhar/guerrear na luta antirracista. A juventude negra verdadeiramente compromissada, com o fortalecimento da comunidade negra, tem o dever de se empoderar de tais debates, se isentar, é pós-modernismos ou capitulação. Temos o dever de vencer e conhecer nossa história/estória. Nesse contexto, utilizando uma abordagem histórico-reflexiva, pretendo abordar nas páginas seguintes dois pontos em especifico de forma preliminar e exploratória:

1- Traçar a trajetória histórica da formação do Movimento Negro Unificado,

a partir de sua umbilical ligação com os movimentos da esquerda branca nacional e internacional.

2- Explanar de forma preliminar as ideias de intelectuais - militantes negros

sobre a relação entre entidades politicas negras e da esquerda marxista.

BREVE HISTÓRICO SOBRE O MOVIMENTO NEGRO E A CONSTITUIÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO

Segundo Petrônio Domingues, o movimento negro organizado moderno, tem em sua primeira fase, como uma de duas principais organizações, a Frente Negra Brasileira, criada em 1931 na cidade de São Paulo, chegou a ter milhares de filiados, organizados por vários estados brasileiros, onde atuavam em áreas como, criação de escolas comunitárias, grupos musicais, teatro, formação política, além de manterem um jornal, o Voz da raça (DOMINGUES, 2008). Chegando a formar um partido político em 1936, que foi fechado em 1937 com a emergência do Estado Novo. Tal organização tinha como principais objetivos, a denúncia do preconceito de cor, que segundo os mesmos, destituía os negros/as do mercado de trabalho, em favor da massa de estrangeiros que adentrava o Brasil.

principal fundamento do Pan-africanismo é a união (política, cultural, econômica) dos povos africanos (em África de diáspora) na luta contra a exploração, genocídio e roubo das terras da comunidade negra, através de princípios de solidariedade, autodeterminação e justiça.

4

Com o fim do Estado Novo e o período de redemocratização no país, uma das principais organizações de protesto negro no Brasil, foi O Teatro Experimental do Negro (TEN), no Rio de Janeiro. A organização foi instituída com o objetivo, de abrir o espaço das artes cênicas aos atores negros/as brasileiros, entretanto, transformou-se em um espaço de formação profissional, de alfabetização e de resgate dos valores culturais e da auto-estima da população negra no Brasil (GUIMARÃES, 2002). Com a vigência do período da ditadura militar no Brasil, houve uma forte repressão a todas as mobilizações de cunho popular em todo país, inclusive ao Movimento Negro. Entretanto, ainda no período ditatorial militar, é fundado o Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978, na cidade de São Paulo. Tal movimento tem uma postura assaz diferente aos anteriores, trazendo novos conceitos, táticas de ação e pautas que ate então não foram levantadas por outros movimentos negros. O MNU é uma das primeiras entidades do movimento social negro brasileiro contemporâneo de caráter nacional, a trazer a tona o debate de raça e classe como componente da luta antirracista, inaugurando assim, uma nova dinâmica na luta em defesa dos direitos da população negra a partir da década de 70 do século XX. Nas palavras de Gevanilda Santos,

Ao longo da década de 1980 a atuação das representações do Movimento Negro brasileiro em suas diversas vertentes cultural, recreativa, religiosa ou político-reivindicativo unificava a perspectiva de denunciar, de forma particular ou geral, a situação de desvantagem social da população negra. A unidade na ação gravitava em torno da denuncia do racismo e da condição de classe dos trabalhadores negros (IANNI; DA SILVA; SANTOS; ALBERTO SANTOS, 2005, p.21).

Tal perspectiva do MNU, de travar uma luta contra o racismo através da dinâmica raça e classe, esta umbilicalmente ligada à experiência de muitos de seus fundadores/as dentro da esquerda da época, sobretudo, através da militância dentro do chamado Núcleo Negro Socialista.

O Núcleo Negro Socialista e a fundação do MUCDR/MNU

Nossa luta de libertação deve ser somente dirigida por nós (Carta de Princípios do MNU)

5

O Núcleo Negro Socialista surgiu na primeira metade da década de 1970, através

de uma articulação de alguns militantes da Liga Operária, no Estado de São Paulo, com

o objetivo de encamparem a luta antirracista, articulando-a com a perspectiva de luta de classes marxista (IANNI; DA SILVA; SANTOS; ALBERTO SANTOS, 2005).

O NNS foi uma das organizações que participaram do processo de fundação do

MNU 8 , inicialmente chamado de MUCDR (Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial). O objetivo do NNS era construir uma organização que legitimasse a luta contra a discriminação racial, conjuntamente coma luta de classes, formando lideranças negras que ampliassem a chamada Consciência Racial da sociedade brasileira (IANNI; DA SILVA; SANTOS; ALBERTO SANTOS, 2005). Dessa forma, o MNU é fundado com a forte influencia dos militantes negros de esquerda do NNS, que trazem a tona uma nova leitura sobre a política racial no Brasil, entendendo que o racismo é um ferramenta de exploração e opressão da comunidade negra, de forma que, a plena emancipação dos negros/as só poderia ser efetivamente conquistada, com um embate contra a ordem vigente burguesa, ou seja, no interior da luta de classes. Entretanto, a posição ideológica/metodológica de matriz de esquerda do NNS, perante a luta antirracista, não era hegemônica no processo de fundação/construção do MNU. Nesse sentindo, entre a fundação do MUCDR em 18 de junho de 1978 e a consolidação do MNU em sete de julho do me smo ano, ouve uma serie de disputas de

caráter ideológico, dentro da organização, sobretudo, entre os militantes do NNS (os “militantes de esquerda”) e a militância negra que não tinha relações orgânicas com matrizes ideológicas da esquerda marxista.

O debate travado entre essas duas tendências no interior do MNU, construiu dois

polos dicotômico-antagônicos no interior da organização. De um lado, aqueles/as militantes que compreendiam que as organizações de esquerda, não poderiam dirigir a luta política anti-racista, devido sobretudo, ao fato dessas organizações não terem a

8 As organizações que encamparam o processo de fundação do M UCDR e posteriormente MNU foram: Centro de Cultura e Arte Negra, Grupo Afro Latino-americano, Câmara de Comércio Afro-Brasileira, Jornais Abertura e Capoeira, Associação Recreativa Brasil Jovem, Associação Casa da Arte e Cultura Afro-brasileira, Associação Cristã Beneficente do Brasil, Grupo de Atletas Negros (IANNI; DA SILVA; SANTOS; ALBERTO SANTOS, 2005, p.29).

6

questão racial como prioridade na ação política, além do fato de boa parte de seus quadros dirigentes, serem compostos por pessoas brancas, dificultando uma plena percepção das problemáticas raciais.A outra vertente, ligada ao NNS, defendiam a permanência das organizações de esquerda dentro do Movimento Social negro, além de entenderem, que os militantes negros de esquerda, deveriam disputar no interior de suas organizações uma centralidade perante a questão racial. Nas palavras de Gevanilda Santos, as duas tendências podem ser explicadas/avaliadas da seguinte forma,

Os negros do Núcleo Negro Socialista eram visto como militantes da organização de esquerda que atuavam no movimento negro na perspectiva de formar uma frente de luta da organização, ao passo que os negros que haviam rompido com a tendência viam o movimento negro como um espaço autônomo, capaz de forjar uma política anti racismo. De qualquer forma, o Núcleo Negro Socialista não era

Por exemplo, alguns acreditavam que a relação do

monolítico [

movimento negro com a esquerda deveria ser explicita para definir uma perspectiva socialista, outros achavam essa posição equivocada,

dado o caráter repressivo da época (IANNI; DA SILVA; SANTOS; ALBERTO SANTOS, 2005, p.33).

].

Nesse contexto, o debate sobre a perspectiva de articular classe e raça é reentrante, no interior dos movimentos sociais negros, causando rachas, surgimento de correntes políticas internas, teses congressuais e di ferenciação no tocante ao método de ação adotado na luta antirracista, alianças ou ruptura com organizações de esquerda. Nas palavras de Claudio Reis, em seu artigo Movimento Negro e a relação Raça/Classe,

Em muitos momentos o próprio movimento negro demonstra fragilidades em relação à sua unidade. Principalmente sobre a questão que envolve a relação classe/raça. De um lado, existem setores defensores de uma luta anti-racismo desvinculada com a questão de classe, já que para eles, no Brasil o elemento determinante para a situação social de um indivíduo é muito mais racial do que classista. De outro, argumentam que no Brasil, assim como em qualquer outro país capitalista, a situação de classe interfere diretamente nas questões raciais. E neste sentido, a luta anti-racismo deve ser vinculada à luta de classes. (REIS, p.1)

Como vimos na sessão anterior do nosso texto de formação, a constituição do Movimento Negro Unificado é umbilicalmente ligada, a uma constituinte/tensa interação com militantes/organizações da esquerda branca nacional e internacional. Tal altercação travada no germe do MNU se arrastou durante anos no interior da

7

organização, ocasionando rachas, rusgas, disputas politicas internas, seminários, debates e resoluções congressuais. Hoje, depois de mais de 30 anos de sua fundação o “debate” continua em voga no que “restou” dessa organização tão importante para os negros/as no Brasil e internacionalmente. Entretanto, a quantidade surpreendente de quadros do MNU em postos do Governo nos últimos 10 anos, e a pouca quantidades de quadros atuantes nas ruas, favelas, quilombos, cadeias e vielas, demonstra qual vertente hegemonizou sua proposta politica no cenário do MN nacional. Nesse contexto, refletir/aprender/conhecer as raízes de uma organização tão importante, para luta dos negros/as na diáspora, é relevante para sabermos os passos dos antigos e trilhar com retidão/discernimento, nossos passos mais novos. Quais os limites do nosso pan-africanismo? Ou mesmo como dizem as novas vozes, quais os limites de nossos afrocentrismo ou Afrocentricidade? O histórico da formação dos primeiros anos de desenvolvimento do MNU nos faz/obriga a refletir cada vez mais sobre tal tema/meta. Saber de onde viemos é central para não nos perdemos para onde estamos indo. Dessa forma, apresentaremos na sessão seguinte de nosso texto de formação, o parecer de dois militantes Pan-africanistas e o contraponto de uma liderança intelectual trotskista. De um lado o parecer de dois intelectuais-militantes negros, que têm duras críticas a esquerda branca e definem as possibilidades (ou não) de uma ação conjunta ou simbiótica com o MN. Do outro lado, o intelectual-militante Branco marxista, defende uma articulação entre as demandas da esquerda branca e das organizações negras, todavia, faz densas críticas as ideias Nacionalistas Negras (Pan-africanistas). Tais reflexões, dos três autores/, são salutares para compreendermos a discussão mais ampla que perpassou no MNU em sua formação (e momentos posteriores) e também termos um apanhado geral do debate internacional que orbita do MN a séculos:

1- A possibilidade de articulação política entre os Movimentos da esquerda

branca e organizações negras?

2-

É possível as organizações da esquerda branca pautarem a luta racial?

3-

É possível orientarmos a luta racial a partir de uma perspectiva classista?

8

A ESQUERDA BRANCA E A QUESTÃO RACIAL

Os Brancos são engraçados, dão um chute em nossa bunda depois querem nos ensinar a nos defendermos do chute na bunda. (Steve Biko - Escrevo o que eu quero).

A intitulada esquerda brasileira tem como baluartes primordiais duas vertentes

politico-ideológicos principais, o marxismo-leninismo e o trotskismo. Essa esquerda marxista, desde o processo de construção/fundação dos primeiros PCS (Partidos Comunistas) a partir de 1922, tem serias dificuldades em politizar as questões raciais no

interior da classe trabalhadora brasileira (IANNI; DA SILVA; SANTOS; ALBERTO SANTOS, 2005).

A principal linha de pensamento dessa esquerda tradicional, em sua perspectiva

de transformação social classista, é que a superação da sociedade capitalista, vai

consequentemente por fim ao racismo, ou seja, entende que as discriminações raciais que são submetidas à população negra no Brasil, tem como sustentáculo fundamental, a condição desigual material que vive boa parte dessa parcela da sociedade. Tal postura perante a questão racial gera uma série de altercações, umas defendem que dentro do pensamento marxista, a luta pelo fim das discriminações raciais devam ser consideradas centrais, tendo em vista a realidade racial do Brasil, e outras vertentes, que afirmam que a posição da esquerda marxista perante as relações raciais, são secundarizadas e demagógicas. Nesse sentindo, na presente sessão, arrolaremos uma série de pensamentos que orbitam em torno desse polemico debate politico-ideológico, que gera um campo de tensão entre a esquerda marxista e o movimento social negro.

O Pesquisador e militante do movimento social negro, Abdias do Nascimento,

em sua obra O quilombismo (2002), discorre sobre a relação entre a esquerda marxista e

a questão racial. Para o autor, de forma geral as organizações da esquerda marxista têm

colaborado ativamente ou por omissão do “[

que vem desde 1500 ate os nossos dias(NASCIMENTO, 2002, p.180). Segundo Nascimento, as organizações negras têm que extirpar de seu léxico- político e pratica de luta antirracista, todo ou qualquer referência político-ideológica da esquerda marxista, pois, analisar/solucionar os problemas da população negra através do

]

Processo de liquidação da raça negra,

9

prisma marxista, seria uma postura política no mínimo errônea para as organizações negras. Para Nascimento,

Adotar a análise marxista aos nossos problemas significa uma contradição fatal: nós os negros africanos fomos as vitimas do processo capitalista e fomos novamente as vitimas daqueles que supostamente combatem capitalismo na área industrializada do euro norte americanismo (NASCIMENTO, 2002, p.181).

E se aprofunda mais em sua avaliação, ao fazer uma reflexão sobre o contexto histórico-social, no qual mentor Maximo do marxismo escreveu e das benesses da classe trabalhadora europeia do século XIX, perante a histórica exploração de africanos e seus descendentes,

A análise de Marx foi induzida da realidade sócio-econômica da Inglaterra, nos primórdios da industrialização capitalista, quando os africanos estavam sendo caçados como feras em seu continente e trazidos para as plantações de algodão da Louisiana e do Maranhão, ou os canaviais de Cuba, da Bahia, ou da Jamaica. E quando os operários europeus, independentemente da contradição de classes, tinham seus padrões de vida elevados a medida que a exploração industrial capitalista se expandia as custas da escravização, opressão e destituição dos africanos ( NASCIMENTO, 2002, p.181)

O autor vai além e relata, que postura da esquerda marxista do século XIX, diante a “desgraça da comunidade negra” (NASCIMENTO, 2002) não é uma posição isolada. Nascimento afirma que no Brasil, diversas vezes os trabalhores/as negro s foram preteridos, em razão dos privilégios raciais dos operários brancos. Segundo o autor, nas décadas de 1940 e 1950, quando era evidente que a indústria repelia como norma, a mão de obra negra, alem de pagar salários totalmente dispares para trabalhadores negros e brancos, não houve indicio de algum tipo de solidariedade proletariada dos trabalhadores brancos para com os operários negros discriminados sistematicamente nas fabricas. Para reiterar sua argumentação, o autor faz uma dura critica ao bordão histórico da esquerda marxista, “trabalhadores do mundo uni-vos”, para tanto, destrincha um trecho do intelectual James Boggs que diz,

Quem vai Unir-se? Com quem? A subclasse da África, Ásia e America Latina que edificaram as nações colonizadas, ex- colonizadas, semicolonizadas? Ou os trabalhadores da Europa e

America (Estados Unidos) altamente desenvolvidas, cuja melhoria de

10

condição e alto padrão de vida só foi possível pela exploração co lonial da subclasse do mundo? (BOGGS, 1968, p.108 Apud NASCIMENTO, 2002, p. 182).

Entretanto, apesar das viscerais criticas a esquerda marxista, Abdias do Nascimento reconhece em sua obra, que há instituições marxistas que respeitam/entendem a experiência história de luta da população negra, ou seja, para Nascimento, a postura refrataria das organizações da esquerda, diante a questão racial, podem ser revisadas, através da constante postura critica de militantes/intelectuais negros no interior dessas organizações. Essa, no entanto, não é a postura do etnólogo Carlos Moore. O etnólogo e cientista político cubano Carlos Moore, em seu ensaio, O Marxismo e a questão racial (2010), traça um polemica critica a esquerda marxista, no que tange, a forma que a mesma lida com a questão racial. Publicado originalmente em

1972 nos Estados Unidos, a obra de Carlos Moore é um escrito que gerou/gera extrema controvérsia, entre militantes/intelectuais negros, militantes/intelectuais marxistas (negros e brancos), devido, sobretudo, a radical crítica intelectual, que faz aos cânones da esquerda marxista: Marx e Engels. Em seu trabalho, defende de forma categórica, que a esquerda marxista não possui apenas uma dificuldade trivial sobre a questão racial, para o autor, o marxismo

possui, “[

eurocêntrica do marxismo como ideologia, e na negação da ontológica que os próprios fundadores fizeram dos povos de raça negra como tais” (MOORE, 2010, p.31). Moore, através de um magistral estudo de cartas, ensaios, artigos e textos e m filosofia política de Marx e Engels, mostra que a ideia de solidariedade internacionalista do proletariado, não passa de mera retórica universalista, na verdade, a solidariedade internacional propalada por Marx e Engels, era voltada única e exclusivamente para os trabalhadores/as brancos/as. O autor traça um visceral debate epistemológico, sobre as bases filosóficas culturais do marxismo, mostrando que a critica política da esquerda marxista diante do sistema capitalista, não incorpora as populações não brancas, alem de mostrar que o marxismo, esta tão intrinsecamente enraizado em uma ideologia-cultural eurocêntrica branca, que a inclusão da questão racial por algumas organizações da esquerda, não

]

Uma impossibilidade estrutural, fundamentada na orientação cultural

11

passa de uma tentativa de manter a hegemonia política da classe trabalhadora branca (ou Prolet-ariana), na direção/comando do processo revolucionário mundial. Nas palavras

de Moore,

Toda filosofia “universalista” elaborada pelo Ocidente tem como base a história a Europa, a evolução socioeconômica de seus povos e as instituições cultuais e políticas que eles criaram. O marxismo- leninismo não é exceção; usando o Ocidente como seu único parâmetro, mede o resto do mundo e o descobre deficiente. Sociedades não ocidentais, em geral, (e sociedades negras em particular) estão dispensadas das analises de Karl Marx e Friedrich Engels e o que antes era estritamente europeu e temporal torna-se agora “universal” e “definitivo”. Desse modo, devemos levantar sérias questões quanto à genuína “universalidade” de suas conclusões, uma vez que três quartos da humanidade evoluíram se desenvolveram e vivem atualmente fora do Ocidente (MOORE, 2010, p.59).

Desse modo, Moore argumenta que é inegável a contribuição Marx e Engels, para o pleno entendimento das engrenagens internas do capitalismo do século XIX, além de serem os baluartes de uma filosofia-politica que se propõe a construir um

modelo civilizacional diferente do engendrado pelo sistema capitalista. Entretanto, para

o etnólogo, é necessária uma avaliação/contextualização, da conjuntura histórico-

intelectual da época em que Marx e Engels viveram/escreveram um período que as perspectivas intelectuais-ideológicas do racialismo 9 eram hegemônica nas universidades

e em certa medida, na mentalidade dos sujeitos sociais, inclusive, dos p atronos da

esquerda marxista. Nesse contexto, ao findar sua obra, Moore explica que as reflexões político- filosóficas de Marx e Engels, foram incondicionalmente condicionadas pelo fato de serem ocidentais brancos e homens livres no século XIX, dessa forma, as ponderações pretensamente universalista de seus escritos têm que ser sistematicamente reavaliadas, tendo em vista que surgiram em um contexto socioeconômico, cultural e racial estritamente europeu-branco. Apesar de inegável destreza acadêmica na construção de seu ensaio, Moore recebeu duras crí ticas na década de 1970 (e nos anos que seguiram),

9 Segundo as teorias racialistas do século XIX, as “raças” definiriam padrões psicológicos, morais, culturais, intelectuais e civilizacionais das populações de todo mundo, e, sobretudo, estabelecendo hierarquias e legitimando a dominação físico-militar de um povo sobre o outro. Nesse sentido, no século XIX, até metade do século XX, não se havia dúvidas no mundo ocidental de que havia subdivisões entre a espécie humana.

12

por parte da esquerda marxista em geral, inclusive, acusando-o de agente intelectual a serviço do capital, ao “desmoralizar” o marxismo. Desse modo, rebatendo as engodadas criticas ao intelectual afro-cubano Carlos Moore, na edição traduzida para o Brasil (2010) é disponibilizado um fragmento de um relatório publicado em Cuba, autorizado pelo então presidente Raul Castro, intitulado de Desafios de La problemática racial em Cuba. Este documento, mostra pela primeira vez a comunidade internacional, o resultado de pesquisas de cunho étnico-racial realizadas nos últimos 25 anos, tais resultados, fortalecem os argumentos centrais de Moore, tendo em vista que a revolução cubana foi/é um exemplo para a esquerda marxista, de um processo revolucionário que abarcou as comunidades não-brancas. Todavia, o relatório demonstra outra realidade que é,

68% dos brancos cubanos rejeitam categoricamente o casamento inter- racial; 58% dos brancos, em 1995, consideravam que os negros eram menos inteligentes que os brancos; 65% dos brancos, em 1995, acreditavam que os negros não têm os mesmos valores decência que os brancos. Em 1995, 66% da população negra ativa se encontrava desempregada, comparativamente a população branca que usufrui de plenos empregos (65,8%); Em todos os níveis e instancias de poder, desde a chefia de empresas até a direção do Estado, do Governo, Parlamento e Partido Comunista, os dirigentes cubanos são majoritariamente brancos cubanos (71%), assim como os quadros técnicos e cientistas (72,7%) (MOORE,2010, p. 54).

Na total contramão dos intelectuais-militantes expostos anteriormente, o filosofo-militante branco trotskista Alex Callinicos, em seu livro Capitalismo e Racismo (1993), realiza um estudo que busca traçar a umbilical relação entre a montagem do sistema capitalista e o racismo. Para o autor o racismo não é um fenômeno social intrínseco aos seres humanos, muito menos tem suas origens multimilenares, para Callinicos, o racismo da forma que conhecemos na atualidade, foi gerado pelo/no sistema capitalista entre os séculos XVII e XVIII. Nesse sentido, o autor defende que uma efetiva luta antirracista, deve estar vinculada ao processo de luta de classes, de forma que, o combate contra as discriminações raciais, não deve se diluir no processo de derrocada do capitalismo, mas sim, ser uma frente de batalha dos movimentos sociais como um todo, rumo a revolução socialista. Nesse contexto, o questionamento central de sua obra é: “Pode a tradição

13

marxista clássica de Marx e Engels, Lênin e Trotsky, proporcionar uma analise do racismo capaz de oferecer a base estratégica efetiva para libertação negra?” (CALLINICOS, 1993, p.7/8). Para elucidar seu questionamento central, Callinicos faz uma analise de algumas posturas políticos-intelectuais do movimento social negro perante o marxismo, sobretudo, de uma vertente que intitula de nacionalistas negros 10 . Conforme Callinicos, os intelectuais/militantes nacionalistas negros tendem a olhar o marxismo como uma forma de conhecimento tão eurocêntrico, que é incapaz de identificar e traçar estratégias reais de emancipação da população negra. Ou seja, para

os nacionalistas negros, o marxismo ocidental não é somente europeu, mas um corpo de ideias politico-intelectuais, epistemologicamente enraizadas nas formas de pensar, fazer

e construir política da população branca, dessa forma, para os nacionalistas negros o marxismo é um modelo político-ideológico de supremacismo branco, tão qual o

capitalismo (CALLINICOS, 1993). O autor discorda veementemente dessa postura, que para o mesmo, mui tas vezes

é mítica, anti-estratégica e uma atitude que divide a classe trabalhadora (negra e branca) no processo de derrocada do capitalismo e consequentemente do racismo. Para Callinicos, a analise/luta contra o racismo, tem que ter como ponto de partida a classe, tendo em vista que, as discriminações raciais sustentam a opressão de classe, dessa forma, o racismo só pode ser vencido por uma classe trabalhadora unida. Nesse sentido,

o autor chega a seguintes conclusões em suas analises,

Podemos tirar duas conclusões políticas muito importantes dessa analise. A primeira é que o racismo atua contra os interesses de todos os trabalhadores, tanto brancos quanto negros. Uma classe trabalhadora dividida prejudica mesmo aqueles trabalhadores que não são vítimas diretas do racismo. Assim um elemento central de qualquer estratégia anti-racista deve ser a conquista dos trabalhadores brancos para que identifiquem os seus interesses com os trabalhadores negros, vitimas da opressão racial. Os nacionalistas negros estão equivocados, portanto, quando consideram que os trabalhadores brancos são irremediavelmente racistas. Em segundo lugar, a meta da luta anti-racista deve ser a libertação dos oprimidos como parte de uma batalha mais ampla contra o próprio capitalismo. O racismo surgiu e cresceu com o capitalismo e ajuda a sustenta-lo. A sua abolição depende, portanto, de uma revolução socialista que rompa as estruturas materiais as quais estão vinculadas (CALLINICOS, 1993, p. 8).

10 Alguns Nacionalistas Negros são: WEB Du Bois, CLR James, Richard Wright, Cedric Robinson.

14

CONCLUSÃO / REFLEXÃO

É nosso dever lutar por nossa liberdade É nosso dever de ganhar Devemos amar uns aos outros e apoiar uns aos outros Não temos nada a perder senão nossas cadeias (Assata Shakur).

É mais o u menos isso, mas reconheço que há muito mais a se falar sobre o tema .

O que quero dizer com essa frase é que provavelmente fui arbitrário em alguns aspectos,

talvez inconsistente em meus argumentos e provavelmente fiz leituras impróprias de algumas questões. Entretanto, essa é minha contribuição, aceitem o ebó de minhas palavras. Não tenho mais nada a acrescentar sobre a problemática, mas tenho outras questões a falar, já que conquistamos espaço para falar (e agora escrever) então toma! Dessa for ma, gostaria de pontuar uma questão central: esse texto é voltado, sobretudo para juventude negra (Homens negros e Mulheres Negras), especialmente, a juventude negra pós-Durban 11 ·. Nós temos que reconhecer nosso

dever/obrigação 12 de lutar por/com nosso povo. Temos que ter respeito a lutas dos mais velhos/as que resistiram (de verdade) para que estejamos vivos hoje, ou seja, temos que compreender nosso lugar de sujeitos históricos coletivos e em luta. Internalizar o sentido histórico e coletivo de nossa luta é primordial para que alteremos o quadro da juventude negra contemporânea, especialmente, aqueles/as contemplados/as pelas políticas afirmativas (mas não apenas eles/as). O quadro pra mim

é o seguinte, uma Juventude Negra, que em sua maioria é lobotomizada pelo

“consumismo que nos leva a consumir cada vez mais mercadoria, a morrer tentando consumir mais mercadoria, a nos arriscar cada vez mais para consumir mercadoria e nos

11 A Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Conexa realizou-se na cidade de Durban, África do Sul, entre os dias 31 de Agosto e 8 de Setembro de 2001. Representou um evento de importância crucial nos esforços empreendidos pela comunidade internacional para combater o racismo, a discriminação racial e a intolerância em todo o mundo. É um marco histórico no avanço do debate e implementação de polí ticas publicas de caráter afirmativo, especialmente, as cotas raciais em instituições públicas e privadas.

12 Quando digo obrigação, penso no sentido que as religiões de matriz africana dão a palavra.

15

esquecemos do fato que nossa vida vale cada vez menos que a mercadoria” (Walê, 2011). A palavra de ordem “Black is Beatifull” sobrepujou o “Reaja a violência racial”, ou seja, a luta pelo direito de consumo suplantou a luta pela nossa vida. Temos que definir qual o limite de nosso Pan-africanismo e pra mim, o limite é saber que estamos envolvidos/as em uma guerra planetária de ordem racial, dessa forma, temos que estar pronto-dispostos a morrer/matar neste embate. Não basta apenas ter consciência negra, temos que entender que somos soldados quilombolas, todo resto é pós-modernismos, ou seja, temos que fomentar/resgatar nossa Consciência Negra de luta. Como bem elucidou Steve Biko em outro momento,

A gente ou está vivo e orgulhoso, ou esta morto. E quando se está morto, a gente não liga mesmo. E o modo como se morre pode ser, por si mesmo, uma coisa que cria consciência politica. Assim, a gente morre nos tumultos. Para um número grande, na verdade, não há realmente o que perder. Assim, se a gente puder superar o medo pessoal da morte, que é uma coisa altamente irracional, sabe, então a gente está a caminho (BIKO, Ano, p.181).

Responsabilidade histórica, Lélia Gonzalez disse isso uma vez, eu concordo em numero, gênero, grau e raça. Temos que ter responsabilidade histórica, temos que resgatar nosso passado para que aprendamos com os erros e acertos do mais velhos/as. Entender nosso lugar onde quer que estejamos é necessário para que efetivemos uma luta real para/com nosso povo, não podemos ser estudantes, professores, médicos, artistas, cineastas, sociólogos, políticos partidários, seja lá o que for sem internalizarmos que antes de qualquer coisa somos pretos/as em luta, travando uma guerra. Temos que resgatar nossa fúria negra, assim como a Juventude de Soweto em 1976. Winnie Mandela sintetiza muito bem esse sentido explosivo da juventude negra ao dizer, “a decisão de combater, a ânsia por liberdade já era tão forte em nossos filhos que eles estavam dispostos a enfrentar armas com pedras. Quando as pessoas realmente querem quebrar as correntes da opressão, então nada mais os detêm” (WINNIE MANDELA, Ano, p.147). Entretanto não basta falar, o mundo não muda no poder do verbo e sim da luta organizada. E luta organizada pra mim é estar/participar de uma organização, com princípios, metas, táticas, estratégias bem definidas, critérios estabelecidos e aliados e inimigos bem situados/as.

16

É lamentável quando ouço belos/as jovens negros/as dizerem “Pô men, essa fita de organização, de movimento eu não viajo, eu sou negro em movimento, faço meu

movimento, sou um negro/a em movimento, meu corpo é minha organização”. Esse tipo de frase, recorrente na juventude negra que ostenta dread, blacks, grifes afros e roupas “da ora”, apenas reafirma o grau de entorpecimento pós-moderno que muitos/as de nós se encontram. “você usa batas de guerra ou por folclore? (Badinho)”, essa pergunta que um Griô cachoeirano me fez certa vez, define muito bem esse quadro nocivo. Afirmo o seguinte, assim como o Movimento Social Negro em 1978, teve uma surpreendente reviravolta política, no sentindo, estratégico, organizacional, discursivos e programáticos, nós, Juventude Negra do século XXI, juntamente com os/as mais velhos /as que ainda estão em luta real, temos o dever cíclico/histórico de girar novamente o centro gravitacional de nossa luta, que tem que ser sem concessões e negociatas. Compreendo que três pautas em especifico são estruturais e devemos reorientar nossa luta para centralizar forças nesses aspectos:

1-

A luta contra o encarceramento em massa da comunidade negra

2-

A luta contra o genocídio negro. Nenhum passo atrás.

3-

A luta pela titulação das comunidades negras tradicionais.

Por fim, temos que definir de que lado estamos lutando. Eu quero que se foda o capitalismo negro e todo mimimi em torno disso, Obama não me representa e Poder Negro é muito mais que cargos, secretarias, mandatos parlamentares, festas Black Power, ou grifes Afros da moda. Pra findar de vez eu assino embaixo na seguinte declaração de um de nossos aliados, ao afirmar pra quem/com quem estamos militando,

aos pretos largados pelas ONGS, os pretos aprisionados, drogado , os que dizem foda-se com uma pistola nas mãos e roupas Ciclone e sandálias kenner nos pés sujos. Os pretos confinados nos guetos das cidades, enterrados vivos nas casas de correção, detenção e manicômios, os pretos e pretas que "vem cum nós" a cada dia que saímos as ruas com uma militância real, viva” (Walê, 2011).

REFERÊNCIAS

A luta real cotidiana, encampada pelo Núcleo Akofena em Cachoeira Ba e Salvador. Os terreiros, becos, vielas, guetos, ladeiras, conversas, tretas e mistérios da

17

cidade de cachoeira, são a principal contribuição para construção desse texto.

Cachoeira é terra de gigantes adormecidos/as.

BIKO, Steve. Escrevo o que eu quero.

CALLINICOS,

20e%20Racismo.pdf. Acessado em: 03/09/2012.

Alex.

Capitalismo

e

racismo.

Retirado

de:

GONZALEZ, Lélia; HASENBALG, Carlos. Lugar de Negro, 1982.

MANDELA, Nelson. A luta é minha vida.

MANDELA, Winnie. Parte de Minha Alma.

MOORE, Carlos. O marxismo e a questão racial: Karl Marx e Friedrich Engels frente ao racismo e á escravidão. Belo Horizonte: Nandyala, 2010. (Coleção Repensando a África, volume 5). MOORE, Carlos. Racismo e Sociedade. 2012.

NASCIMENTO, Abdias do. O Quilombismo. Fundação Palmares/OR Editor Produtor Editor, 2002.

NASCIMENTO, Abdias. O Quilombismo. Documentos de uma militância pan- africanista. Brasília: Fundação Cultural Palmares/ Rio de Janeiro: OR Editor Produtor Editor, 2002.

SHAKUR,

Acessado em:

WALÊ,

Assata.

Ao

meu

povo.

Retirado

de:

Hamilton

Borges.

Do

contra

me

dirigindo

a

maioria .

Retirado

de: