Você está na página 1de 8

Integração do episódio na estrutura da obra

O jantar no Hotel Central, integrado no capítulo VI, insere-se na acção principal e deste modo identifica-se como um episódio da crónica de costumes.

Marcado, pelo aparecimento de uma admirável mulher (Maria Eduarda) que despertou a Carlos grande interesse. Foi para este o primeiro jantar de apresentação à sociedade lisboeta. Deste modo, deram entrada as principais figuras e os principais problemas da vida política, social e cultural da alta sociedade lisboeta.

4. Caracterização das personagens

  • 4.1 Carlos da Maia

Apresenta-se pela primeira vez à sociedade, no entanto, distancia-se da conversa, apenas comenta alguns aspectos. Afirma-se também como defensor das ideias românticas,

criticando que “o mais intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos”

4.2 Craft

Eça identifica nesta personagem o “homem ideal”. Neste episódio pouco se sabe sobre ele,

apenas que é inglês, e como tal, pressupõe-se que recebera uma educação à inglesa (pág. 159). Não tem muito importância na acção, quase não participa nas conversas, reage de

forma “impassível” (pág. 160), contudo é a favor da resistência aos espanhóis, quando

concorda em organizar um guerrilha com Ega (pág.168).

  • 4.3 Dâmaso Salcede

Interveniente que representa os defeitos da sociedade. “Um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo da província, de camélia ao peito e gravata azul-celeste”.

Procura aparentar um “ar de bom senso e de finura” (pág.169), é considerado provinciano, tacanho e apenas com uma preocupação, que seja “chique a valer”. Dá asas à sua vaidade e

futilidade falando dos pormenores das suas viagens e exibindo uma predilecção pelo

estrangeiro, “

...

é

direitinho para Paris! Aquilo é

que é terra! Isto aqui é um chiqueiro

...

(pág.158). Acompanha todos os movimentos de Carlos dando-lhe grande importância, de modo a que possa imita-lo e assim assumir perante a sociedade um estatuto social digno e respeitável (págs.169 e 176)

4.4 Jacob Cohen

Representante das Finanças, “respeitado director do Banco Nacional, marido da divina Raquel”, homem de estatura baixa, “apurado, de olhos bonitos, suíças tão pretas e luzidias” (pág.161) e com “bonitos dentes” (pág. 167). Neste jantar conheceu Carlos e destacou a posição superior que toma perante a sociedade.

4. João da Ega

Personagem que mais intervêm no episódio do Hotel Central, acérrimo defensor das ideias Naturalistas /Realistas, provocava o seu opositor, Alencar (pág.163) Exagerado nos argumentos que fundamentam as suas opiniões e na defesa das suas ideias revolucionárias (pág.166). Advoga que “ à bancarrota seguia-se uma revolução” (pág.166) e que desta forma, Portugal seria um grande beneficiário.

As posições tomadas por Ega, face aos temas discutidos, espelham e assimilam-se à Geração Revolucionária de Coimbra. Pois, tais atitudes traduzem uma vontade insaciável de modificar Portugal e torná-lo num país melhor, próprias desta geração.

4.6 Tomás de Alencar

Um “indivíduo muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta, com uma face escaveirada, olhos encovados”, nariz curvado, bigodes compridos, “calvo na frente” (pág. 159), “dentes estragados” (pág. 161) e “testa lívida” (pág. 173).

“Camarada”, “inseparável” e “íntimo” de Pedro da Maia (pág.159), apresentado no jantar do Hotel Central, a Carlos da Maia, o poeta possuía um ar “antiquado”, “artificial” e “lúgubre”. Considerado um “gentleman”, “ generoso” (pág. 176) e um “patriota à antiga”

(pág. 176).

Alencar tivera antes de seguir o caminho da literatura uma vida “de adultérios, lubricidades e orgias” (pág. 163).

Personagem que representa o típico poeta português, autor de “Vozes de Aurora”, “Elvira”, “Segredo do Comendador” e outros.

Símbolo do Ultra-Romantismo. Contudo vê-se confrontado com os princípios Naturalistas/Realistas defendidos por Ega.

5. Temas tratados

A literatura e a crítica literária

Estes dois movimentos literários divergem frequentemente ao longo do jantar, tomamos como exemplos as páginas 160,

Estes dois movimentos literários divergem frequentemente ao longo do jantar, tomamos como exemplos as páginas 160, 162, 163 e 164.

Finanças

Estes dois movimentos literários divergem frequentemente ao longo do jantar, tomamos como exemplos as páginas 160,

A bancarrota é um dos assuntos polémicos, que

critica

de

forma

irónica

o

país

(pág.165,166). Identificámos como principais interveniente e que geram uma maior desordem (neste assunto), João da Ega e Cohen.

História política

Estes dois movimentos literários divergem frequentemente ao longo do jantar, tomamos como exemplos as páginas 160,

Segundo Ega, uma invasão seria a solução para a bancarrota e deste modo Portugal sairia revolucionado.

6. Aspecto criticados

6.1 Naturalismo/Realismo

Tomás de Alencar fora o principal e mais contínuo crítico deste tema. Vejamos algumas dessas críticas:

- designa o realismo/naturalismo por: “literatura «latrinária»”; “excremento”; “pústula, pus”;

- culpabiliza o naturalismo de publicar “rudes análises” que se apoderam “da Igreja, da Burocracia, da Finança, de todas as coisas santas dissecando-as brutalmente e mostrando-

lhes a lesão”(pág. 162), e deste modo destrói a velhice de românticos com ele;

- acusa o naturalismo de ser uma ameaça ao pudor social (pág.163);

- critica os verso de Craveiro e acusa-o de plágio, pois “numa simples estrofe dois erros de gramática, um verso errado, e uma imagem roubada de Baudelaire!”(pág.172/174).

Carlos da Maia considera que “o mais intolerável no realismo era os seus grandes ares científicos” (pág.164) e Ega apesar de defender o realismo concordava com esta crítica;

Craft desaprova o realismo, pelo facto de estatelar a realidade feia das coisas num livro;

6.3 Finanças

Este assunto espelha a crise financeira que o país passava nesta época (séc.XII). Eça descreve-o de forma irónica através de Cohen, o representante das Finanças ao afirmar que

os “empréstimos em Portugal constituíam uma das fontes de receita, tão regular, tão

indispensável, tão sabida como o imposto”, aliás era «cobrar o imposto» e «fazer o

empréstimo» a única ocupação dos ministérios (pág.165).

Desta forma concordavam que assim o país iria “alegremente e lindamente

para a

bancarrota”. No entanto, Ega não aceitara baixar os braços e

logo

dera

a solução

revolucionária para o problema de finanças que o país atravessava a invasão espanhola!

(pág.166).

6.4 História Política

Dada a sugestão perfeita para a bancarrota, Ega delira com a ideia e pretende “varrer a monarquia” e o “crasso pessoal do constitucionalismo”.

A invasão espanhola leva Ega a criticar a raça portuguesa, afirma que esta é a mais covarde e miserável da Europa, “Lisboa é Portugal! Fora de Lisboa não há nada.” (pág.170) todos iriam fugir quando se encontrassem perante um soldado espanhol (pág. 169). A sociedade tinha receio de perder a independência, mas só uma sociedade tão estúpida como a do Primeiro de Dezembro pensaria que a invasão traria esta consequência.

Ega é a principal personagem que satiriza a história política, e isso pode ser confirmado ao longo das conversas em que Ega discute este tema (pág166-170)

7. Conclusão

Após a conclusão do estudo, análise e organização dos conteúdos pedidos para a realização do trabalho sobre episódio do jantar no Hotel Central, podemos reconhecer como principais criticas ao país/sociedade os seguinte assuntos:

  • - o Naturalismo/Realismo (João da Ega) e o Romantismo (Tomás de Alencar) defendem princípios totalmente diferentes, como se pode observar nas discussões sobre literatura entre Ega e Alencar;

  • - o país caminha em direcção à bancarrota, pois “os empréstimos em Portugal constituíam

uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável”;

  • - Ega avança com mais uma das suas ideias revolucionárias a invasão espanhola, que como

vimos se identifica com o período da Geração de 70, pois esta, tal como acontece com Ega

caracteriza-se pelas ideias inovadoras;

Por outro lado, com a execução deste trabalho conseguimos compreender melhor o episódio e a crítica que Eça pretendia fazer à sociedade através do episódio do jantar no Hotel Central.

Foi um trabalho muito interessante, que requereu algum esforço e empenho da nossa parte, mas que nos compensou e enriqueceu a vários níveis.

Os objectivos deste episódio são: o contacto de Carlos com a alta sociedade lisboeta, incluindo o Rei; uma visão panorâmica desta sociedade sobre o olhar critico de Carlos; tentativa frustrada de igualar Lisboa ás demais capitais europeias; denunciar o cosmopolitismo postiço da sociedade.

A visão caricatural é dada pelo espaço do Hipódromo: parecendo um arraial; as pessoas não sabiam ocupar os seus lugares e as senhoras traziam vestidos de missa. O buffett tinha um aspecto nojento. As corridas terminaram grotescamente e a primeira corrida terminou mesmo numa cena de pancadaria.

Ressaltamos deste episódio o fracasso dos objectivos das corridas, o atraso da sociedade lisboeta e a sua falta de civismo.

Desejo de imitar o estrangeiro:

A sociedade da época pensava que o que era “chique” tinha de vir de fora e tentava, assim, imitar o estrangeiro.

Mas, esta imitação é sintomaticamente reprovada por Afonso da Maia para quem “o verdadeiro patriotismo, talvez (…) seria, em lugar de corridas, fazer uma boa tourada.”

Mentalidade provinciana:

As corridas apesar das criticas e da pouca dimensão comparativamente ao estrangeiro, continuavam a ter lugar, o que permitia uma visão panorâmica sobre a alta sociedade lisboeta, o que incluía o próprio Rei, e onde encontramos Carlos e Craft em convívio directo com esse universo social dominado pela monotonia e pelo improviso.

Actualidade da intenção critica Estado do nosso ensino:

Quando Craft diz que o ensino neste país devia ser como lá fora: gratuito e obrigatório, está a referir-se aquela época. Mas, nos dias de hoje, também estamos atrasados nesse aspecto. Tanto nos métodos atrasados de ensino, como na preparação no secundário e até nas universidades.

Adultério:

A Gouvarinho representa, aqui, o adultério. Podemos aplicar esta realidade ao presente, vendo os inúmeros casos de traição que ocorrem nos nossos dias.

O que é nacional não e bom:

Ainda nos dias de hoje, não ligamos ao que é nosso e pensamos que o que é bom tem de vir de fora e não damos valor a muitas coisas boas no nosso pais; deixando escapar, assim, inúmeros talentos e oportunidades de nos afirmar-mos.

Personagens intervenientes no episódio xviii

A - Carlos B - Ega C - Dâmaso

Aspectos da sociedade mais criticados

É neste ambiente monótono, amolecido e de clima rico, que Eça vai fazer a crítica social, em que domina a ironia.

A crónica de costumes da vida lisboeta da Segunda metade do séc. XIX desenvolve-se num certo tempo, projecta-se num determinado espaço e é ilustrada por meio de inúmeras personagens intervenientes em diferentes episódios.

No episódio do passeio final é criticado:

A - Sociedade da alta burguesia

Toda a acção decorre em ambientes com personagens identificáveis com a alta burguesia, ou com a elite portuguesa. Trata-se sempre de gente que não precisa de trabalhar para viver, e que vive sem problemas de ordem material.

B - O diletantismo

O diletantismo, ou a incapacidade de acção útil.

Explicitamente mencionado por Eça, o diletantismo atinge quase todos os personagens que não sofrem de tacanhez (como Ega e Carlos).

O mal do diletantismo impede que se fixe a atenção num trabalho sério sem se deixar

desviar por solicitações acidentais, Carlos “tinha nas veias o veneno do diletantismo”

(Capitulo IV).

C - Apreciação do estrangeiro

O embevecimento perante tudo o que é estrangeiro atinge praticamente todos: desde Afonso que viveu em Inglaterra e não esconde a sua admiração por ele, a Carlos, que acaba por se fixar em Paris, a Dâmaso que pacoviamente admira tudo o que é francês. Note-se como o vocabulário dos personagens está cheio de termos e expressões estrangeiros.

D - Depreciação do português

O país é sistematicamente depreciado: no Capítulo IV, Ega e Carlos “com ferocidade e à uma malharam sobre o país”. A ideia prevalecente encontra-se resumida na expressão do Marquês (capítulo XI): “Em Portugal é tudo pieguice e companhia”.

Quatro marcas do estilo queirosiano

Metáfora – “Os políticos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxavam pelos cordéis ” ...

Múltipla adjectivação – “Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada! ” ...

Antítese – “E quem avistaram logo foi o Eusebiozinho. Parecia mais fúnebre, mais tísico, dando o braço a uma senhora muito forte, muito corada, que estalava num vestido de seda

cor de pinhão.”

Hipálage – “tomavam naquele fim de tarde um tom mais pensativo e triste”

Relação entre o episódio e a intriga principal

A acção principal d' Os Maias desenvolve-se segundo os moldes da tragédia clássica. A peripécia verificou-se com o encontro casual de Maria Eduarda com Guimarães e com as revelações casuais do Guimarães a Ega sobre a identidade de Maria Eduarda que levaram a que também Carlos e Afonso da Maia soubessem a verdade sobre a relação dos dois protagonistas.

Na intriga principal são retratados os amores incestuosos de Carlos da Maia e Maria Eduarda que provocam a catástrofe consumada pela morte do avô, a separação definitiva dos dois amantes e as reflexões de Carlos e Ega.

No capítulo XVIII, todos esses acontecimentos levam a que Carlos saia do seu país e parta numa viagem com João da Ega.

O último capítulo constitui o epílogo (desenlace) da obra: dez anos depois, em 1887, Carlos visita Lisboa e encontra-se inseparável de Ega, com quem viajara pelo mundo, antes de se instalar em Paris. Neste reencontro, e nas reflexões dos dois amigos ao deambularem pela capital, transparece um pessimismo amargo que resulta não só do fracasso pessoal de ambos, mas também do ambiente que os rodeia.