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DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988

DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988
Revista dos Tribunais | vol. 653 | p. 16 | Mar / 1990 | DTR\1990\44 J. Cretella Júnior Advogado em São Paulo Área do Direito: Administrativo Sumário: 1.Introdução - 2.Bens da União - 3.Bens do Estado - 4.Bens do Distrito Federal - 5.Terras devolutas - 6.Lagos, rios e correntes de água - 8.Ilhas fluviais e lacustres - 9.Praias marítimas 10.Ilhas oceânicas e costeiras - 11.Plataforma continental e zona exclusiva - 12.Mar territorial 13.Terrenos de marinha e acrescidos - 14.Potenciais de energia hidráulica - 15.Recursos minerais, incluído o subsolo - 16.Cavidades naturais - 17.Sítios arqueológicos e pré-históricos - 18.Terras dos indígenas - 19.Faixa de fronteira - 20.Conclusão 1. Introdução Cabem, de início, várias observações sobre o tema - os bens públicos, na Constituição de 5.10.88. Em primeiro lugar, deveriam os bens públicos, como em 1967 e em 1969, ter sido localizados bem no início da Carta Política, já que são a base física da Nação. Em segundo lugar, os bens públicos estaduais receberam localização logo após os bens públicos federais, e não junto a estes, já que muitos daqueles são definidos em relação a estes, por exclusão, como as terras devolutas, as ilhas fluviais, as ilhas lacustres. Em terceiro lugar, os bens públicos distritais deveriam estar a seguir e não relegados à vala comum do "Ato das disposições constitucionais transitórias". Cabe, por fim, mais uma observação. Conservou-se, no texto, o truísmo acaciano: "São bens da União os que atualmente lhe pertencem". De quem mais poderiam ser, os bens que "atualmente já lhe pertencem"? E o truísmo continua: "E os que lhe vierem a ser atribuídos". E como se alguém dissesse: são meus bens os que atualmente me pertencem e os que me vierem a pertencer. 2. Bens da União Conforme o texto, "são bens da União os que atualmente lhe pertencem e os que lhe vierem a ser atribuídos". Faltou ao contrário de 1934, a proposição: "Nos termos da lei atualmente em vigor". A seguir, o texto vai enumerando um a um os bens federais ou bens da União, constantes do art. 20, I-XI. Os bens estaduais estão agrupados no art. 26, em bloco separado. 3. Bens do Estado

Os bens públicos estaduais ou bens do Estado-membro são enumerados no art. 26, I-IV, separadamente dos bens públicos federais ou bens da União. Nota-se descompasso entre a linguagem dos dois artigos, a do art. 21 e a do art. 26, aludindo o segundo a "águas superficiais ou subterrâneas, fluentes e em depósito", vocabulário que não consta das águas, aludidas no art. 20, denominadas de "quaisquer correntes de água", como, se entre o meio hídrico da União inexistissem águas superficiais, subterrâneas, fluentes e em depósito. 4. Bens do Distrito Federal São, conforme a regra jurídica constitucional, bens do Distrito Federal aqueles que lhe vierem a ser atribuídos pela União, na forma da lei, o que significa que, no momento, não existem bens públicos distritais. 5. Terras devolutas O art. 20, II, inclui, em primeiro lugar, entre os bens da União "as terras devolutas indispensáveis à defesa das fronteiras das fortificações e das construções militares, das vias federais de comunicação e a preservação ambiental, definidas, em lei". Somente as terras devolutas, assim delimitadas, isto é, com a marca da indispensabilidade, é que se classificariam entre os bens públicos dominicais federais. As demais terras devolutas, federais, estaduais ou municipais, antes das providências
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discriminatórias, não são, na verdade, nem bens públicos, nem bens privados. São adéspotas, não têm titulares. Afinal, que são terras devolutas? A Constituição, ao falar em terras devolutas, pretende incluir, é claro, entre os bens da União, as terras devolutas federais. Não há a menor dúvida sobre a natureza jurídica das terras devolutas. Tratar-se-ia de bens dominicais e, no caso, de bens dominicais federais, ou bens dominicais do domínio da União? Para que se compreenda, de maneira exata, o sentido da expressão técnica terras devolutas e da respectiva natureza dessa categoria de bens, é imprescindível esclarecer, primeiro, o significado do termo dominical, em nosso direito; depois, assinalar os característicos desses bens, para, por fim, especificá-los. Após cumpre definir o sentido da expressão terras devolutas. O vocábulo dominical, cognato de dominial, mas de menor extensão lógica, é legítimo e bem formado em nossa língua, designando o tipo de bem que pertence ao dominus, senhor ou proprietário. Os bens dominicais são igualmente conhecidos pelos nomes de bens disponíveis, bens do patrimônio disponível, bens patrimoniais disponíveis, bens do patrimônio fiscal, bens patrimoniais do Estado, bens do domínio privado do Estado. As expressões bens dominicais, bens patrimoniais do Estado ou bens do patrimônio disponível designam a parcela de bens "pertencentes" ao Estado, em sua qualidade de proprietário. Ao lado dos bens do patrimônio indisponível, os bens do patrimônio disponível ou dominicais constituem os bens do domínio privado do Estado; os primeiros, afetos aos serviços públicos, não se alienam, enquanto durar a afetação, os outros, não afetados aos serviços públicos, são suscetíveis de serem alienados (J. Guimarães Menegale, Direito Administrativo e Ciência da Administração, 3.ª ed., 1957, p. 305), mediante a forma que a lei especial autorizar. Dos três tipos de bens do domínio público nacional, apenas os bens dominicais - e, na verdade, apenas alguns tipos deles - produzem, ou podem produzir renda, constituindo, propriamente, patrimônio do Estado. As denominadas receitas originárias são oriundas desses bens, objetos com os quais o Estado tem relação de propriedade. Trata-se de bens explorados pelo Estado com intuito de lucro, graças a atividades diretas exercidas sobre eles. Houve época, quando ainda imperava o Estado regaliano, regalista ou feudal, em que as maiores receitas públicas eram provenientes de atividades patrimoniais do Estado. Mais do que a tributação, inúmeros Estados europeus tinham, na renda originária, a maior, parte da receita de que dispunham. Eis, portanto, o primeiro atributo dos bens dominicais - a alienabilidade, a disponibilidade. Os bens dominicais, conforme o Código Civil ( LGL 2002\400 ) , constituem o patrimônio da União, dos Estados ou dos Municípios, como objeto de direito pessoal, ou real de cada uma dessas entidades (CC, art. 66, III). Assim como a alienabilidade é traço peculiar dos bens dominicais ou bens patrimoniais disponíveis, a inalienabilidade é traço típico dos bens de uso comum do povo e dos bens de uso especial. Diz-se, em outras palavras, que os bens de uso comum e os de uso especial são peculiarmente inalienáveis e os bens dominicais não são peculiarmente alienáveis. Estes podem ser, em geral, alienados sob certas condições. Toda e qualquer porção de terra devoluta, nas três esferas, federal, estadual e municipal, inclui-se, sempre, entre os bens dominicais, mas a recíproca não é verdadeira, porque a expressão "bem dominical" é mais abrangente, compreendendo também as devolutas. Esclarecido o sentido do termo "dominical" e assinalado o traço peculiar a esses bens - a alienabilidade, a disponibilidade - cumpre agora elucidar o sentido do vocábulo "devoluto" e, por fim, definir a expressão "terras devolutas".

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A designação atributiva devoluto-devoluta, que aparece nas expressões terras devolutas, terrenos devolutos, é oriunda do latim devolutu(m), particípio do verbo devolvere, que significa desempenhar, precipitar, rolar de cima, afastar-se de. Daí, devoluto passa, primeiro, ao sentido de devolvido, "adquirido por devolução" (Antônio de Morais Silva, Dicionário, sub voce), vago, desocupado (Caldas, Dicionário, sub voce), revertido, voltado, empregando-se, depois na linguagem técnica do Direito Público, para indicar, residualmente, as terras que se afastam do patrimônio das pessoas jurídicas públicas sem se incorporarem, por qualquer título, ao patrimônio dos particulares. "Devoluta é a terra que, devolvida ao Estado, este não mais exerce sobre ela o direito de propriedade, ou pela destinação ao uso comum, ou especial, ou pelo conferimento de poder de uso ou posse de alguém (cf. Pontes de Miranda, Emenda Constitucional n. 1, de 1969, Comentada, 2.ª ed., Ed. RT, 1970, v. I/529)." Básica é a respeito a Lei 601, de 18.9.1850, regulamentada pelo Dec. 1.318, de 30.1.1854, que dispõe sobre as terras devolutas, domínio privado do Estado, e acerca das que são possuídas por títulos de sesmaria sem preenchimento das condições legais, bem como por simples títulos de posse, mansa e pacífica. A Lei 601 prescreveu que, vendidas e demarcadas, as terras devolutas, fossem elas cedidas a título oneroso para empresas particulares e para estabelecimento de colônias de nacionais e de estrangeiros, estatuindo os modos regulares de revalidar as concessões de sesmarias e legitimar a ocupação das terras simplesmente possuídas (Rodrigo Otávio, Do domínio da União e dos Estados, 2.ª ed., 1924, p. 116). A conceituação das terras devolutas encontra-se na Lei 601, de 18.9.1850, art. 3.º, que exemplifica. São terras devolutas as que não se acharem: aplicadas a algum uso público nacional, provincial ou municipal; no domínio particular por qualquer título legítimo, nem forem havidas por sesmarias e outras concessões do governo geral ou provincial, não incursas em comisso por falta de cumprimento das condições de medição, confirmação e cultura; dadas por sesmarias ou outras concessões do governo e apesar de incursas em comisso forem revalidadas por esta lei; ocupadas por posses que apesar de não se fundarem em título legítimo, forem legitimadas por esta lei (cf. Veiga Cabral, Direito Administrativo Brasileiro, 1859, p. 118; Rodrigo Otávio, Do Domínio da União e dos Estados, 2.ª ed., p. 116; Peçanha de Figueiredo, Terras Devolutas, 1936, pp. 8 e 9; Paulo Garcia, Terras Devolutas, 1958; Tito Prates da Fonseca, Lições, 1943, pp. 283 e 284). O Dec. 1.318, de 30.1.1854, completando a lei que regula, entende também as terras devolutas como todas as que não estivessem já aplicadas a qualquer uso público, nacional, provincial ou municipal, nem estivessem sob o domínio privado, a qualquer título legítimo, nem havidas por sesmarias, ou quaisquer outras concessões, gerais ou provinciais, não incursas, ainda, em comisso, ou já devidamente revalidadas; tampouco, estivessem sob posse, mansa e pacífica, que, embora não baseada em título legal, tivesse sido já, ou fosse, devidamente legitimada. Tanto a Lei 601, de 18.9.1850, como o Dec. 1.318, de 30.1.1854, que a regulou, se acham em Manoel Madruga, Terrenos de Marinha, 1928, v. I/37-43. Pontes de Miranda, ressalta que "quem fala de terras devolutas fala de terras que nunca tiveram dono ou que o tiveram e já não o têm. Tais terras podem estar sob a detenção ou sob a posse de alguém, ou serem, além de sem dono, sem posse; adéspotas" (Comentários à Constituição de 1946, 2.ª ed., 1953, Max Limonad, v. II/182 e Comentários à Constituição de 1967, v. I/516 e Comentários à Emenda Constitucional 1, de 1969, 2.ª ed., 1970, v. I/531). Em síntese, pela Lei 601, de 18.9.1850, art. 3.º, "devoluta", residualmente, é toda terra que, por qualquer título, não se achasse aplicada a nenhum uso por um lado, e, por outro, ainda não se tivesse integrado, por qualquer título, no domínio privado. Regulamentando essa lei, o Dec. 1.318, de 30.1.1854, também conceituou, na mesma linha, como "devoluta" a terra que - em nossas palavras, de um modo mais simples, mas que bem retrata esse tipo de gleba - "ainda não é definitivamente pública, nem definitivamente privada". É a gleba "marginalizada", no sentido sociológico do termo. Se, no antigo regime, as terras devolutas pertenciam à Nação, por força de disposição constitucional republicana, passaram para o domínio do Estado-membro, em cujo território estivessem situadas. Como nota Barbalho, "já no antigo regime, posto que não fossem ainda as províncias entidades
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A Constituição Federal de 1891 classificou as terras devolutas em federais e estaduais (art. 1902. em tratado ou convenção de limites.46. passaram a ser Estados e gozar. como conseqüência. p. bem como por meros títulos de posse. As terras devolutas estão e estiveram sempre sujeitas a regime especial. dispõe o Dec. 148 da CF de 10. independentemente de justo título e boa-fé. antes da demarcação. pelo Brasil. nem sendo possível. trânsita em julgado. Parágrafo único. "as terras que. nos territórios federais e no Distrito Federal". Discriminação de terras devolutas é a operação. Dec.318. entre os bens do Estado-membro.37.1854. Grande confusão estabeleceu-se no setor das terras da Colônia.1850. na faixa da fronteira. no caso de posse de terras situadas na faixa da fronteira. nem aplicadas a algum uso público federal. c) em virtude de lei ou concessão emanada de governo estrangeiro e ratificada ou reconhecida. e não por inexistência da aquisição da gleba no Registro de Imóveis (TJSP.-lei 9. o processo discriminatório. A Constituição de 1969 inclui entre os bens da União "a porção de terras devolutas indispensável à segurança e ao desenvolvimento nacionais".9. Edmundo Zenha. em RF 235/132). Para regularizar essa situação caótica é que.1. que tem por objetivo estabelecer. por sentença. de 18. São como que "glebas marginalizadas". da propriedade dos particulares. por 30 anos. Página 4 . nem privadas.9. as condições especiais impostas na lei. consagrando a inclusão. a não ser depois da sentença final. pertencia-lhes parte das terras devolutas. nem do domínio público. domínio privado do Estado. foi sancionada a célebre Lei 601 de 18. nas terras públicas ainda não ocupadas ou já abandonadas.760. por termo superior a 20 anos. glebas nem públicas. 64). que aos Estados ficassem as terras devolutas" (Comentários. separação.1850. federais e estaduais. pois. em definitivo. no tocante às terras ocupadas pelos posseiros. por qualquer título. concessão ou reconhecimento por parte da União ou dos Estados. a natureza jurídica desse tipo de terra. entendendo-se como as que jamais estiveram no domínio particular. de iniciativa do Estado.º. A devolutividade é um status transitório da gleba. 1. Hoje o termo devolutas designa não só as terras que foram devolvidas ao patrimônio público como as que nunca tiveram proprietário e são do Estado (cf. nesta qualidade. no Império. ou em processo discriminatório administrativo. A posse a que a União condiciona a sua liberalidade não pode constituir latifúndio e depende do efetivo aproveitamento e morada do possuidor ou do seu preposto. tinham entretanto (se bem que limitado e devido à cessão do governo central) seu domínio territorial." Inúmeros os problemas suscitados pelas terras devolutas. b) em virtude de alienação. para a final decidir. e) por se acharem em posse contínua e incontestada com justo título e boa-fé. ter procedido à discriminação administrativa ou amigável. mansa e pacífica.11. 268). já que não havia regularidade no registro das concessões de sesmarias. em RDA 57/316).DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 políticas. tornaram-se verdadeiras entidades políticas. joeira. qualquer que seja o regime sob que se ache e seja qual for sua extensão. em RDA 28/434. em muitos casos. dispunham de terras públicas suas. não se regulando sua utilização e apropriação pelo Direito Civil. de 5. integralmente satisfeitas por estes. não se incorporam ao domínio privado: a) por força da Lei 601. in fieri. por exclusão. g) por força de sentença declaratória proferida nos termos do art. sem o qual não se concebe a existência do Estado. mais tarde. residualmente. se a gleba é do domínio público ou do domínio privado. de 30. não com x). que dispôs sobre as terras devolutas do País. em seu art. entre estes o domínio territorial. o Estado concretiza a discriminação. das prerrogativas e direitos inerentes. preliminarmente.9. Conceituam-se desse modo. expressa ou implicitamente. "Terras devolutas". Era natural. 5. sem preenchimento dos requisitos legais. f) por se acharem em posse pacífica e ininterrupta. quando fica demonstrada a titularidade do particular ou do Estado. nota). as terras devolutas. propriamente tais. também. "São devolutas. e outras leis e decretos gerais. mas pelo Direito Público (TJSP. em ação discriminatória. Com a organização federativa. Daí. estadual. sem natureza jurídica definida. Mediante a competente ação discriminatória. não sendo próprias. possuídas por títulos de sesmarias. e acerca das que. o que deu. era forçoso. d) em virtude de sentença judicial com força de coisa julgada. das porções de terras devolutas não compreendidas no artigo referido. a impossibilidade de estremar a propriedade do Estado. podendo. "estremação" (de estremar com s. territorial ou municipal.

até então. pode-se afirmar que o Direito Processual sobre terras devolutas é da competência exclusiva da União. em geral. sem dúvida. em primeiro lugar. 16.916. 34.-lei 14. que era da competência central. Por isso. a lei estadual paulista (art. a de 1967 e a EC de 1969. puramente convencional. Assim. desde que não se Página 5 . 23) e da Emenda Constitucional de 1926 ("compete privativamente ao Congresso Nacional legislar sobre o Direito Processual da justiça federal". pois. assim. aliás. XVI.º do Dec. inc. ao prescrever que "são do domínio dos Estados os bens de propriedade destes pela legislação atualmente em vigor" (art. Assim. porque. mediante lei. em que se localiza o Município. a partilha entre terras devolutas estaduais e municipais será feita pelo Estado. 34. ou. a totalidade das terras devolutas é estadual. só a União legisla sobre processo. Aos Municípios.Lei Orgânica dos Municípios . de 6. da União. 5. tanto na parte do Direito Material. nos termos das leis atualmente em vigor" (art. art. entre eles o Estado de São Paulo. havendo. cabendo. federal. estabelecer a partilha entre as terras federais e estaduais.34 ("compete privativamente à União legislar sobre Direito Processual". legislar sobre processo discriminatório de terras devolutas era da competência dos Estados-membros. A competência para legislar sobre terras devolutas é. ponto central da sede ou de seus distritos. em conformidade com o que dispuser a respectiva Constituição Estadual. apóia-se no modelo federal (Constituição de 1891. a saber. incluíram entre os bens dos Estados as terras devolutas estaduais (art.º).º) e. para suprir-lhe as lacunas ou atender às peculiaridades locais. quanto na parte do Direito formal. nos próprios termos da Constituição Federal ( LGL 1988\3 ) . é vedado legislar sobre terras devolutas mesmo quando as glebas integram o patrimônio municipal. ou seja. aos Estados-membros da Federação cabe. Em nossos dias. art. para dizer que terras devolutas integrarão o patrimônio municipal. 1). A parte processual segue inteiramente as regras do Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) vigente. 5. 4. Lei ordinária estadual . desde que os Estados deixaram de ter competência para legislar sobre direito processual. 22). à União conceituar esse tipo de bem imóvel. os Municípios podem promulgar.45). art. Isso.8. todo e qualquer poder ou direito. somente poderão fazer referências às terras devolutas. a primeira divisão das terras devolutas: federais e estaduais. depois da Constituição de 16. vários Estados brasileiros. XIX. As leis sobre terras devolutas abrangem os mais variados aspectos. construções militares e estradas de ferro federais. apenas legislava sobre processo da justiça federal. judicial ou extrajudicial. 20. que não lhes for vedado por dispositivo explícito ou implícito da Lei Maior. Eis. que estabelecerá o critério para a divisão. mas existem pontos que entram na competência dos Estados. As Leis Orgânicas que. "a"). depois de 1934. inc. em 1945. 64). Ou municipal.7. porém. estava em vigor a orientação da Constituição Republicana ( LGL 1988\3 ) de 1891 (art. Logo antes de 1934. ao conceituar as terras devolutas. Assim. o de 1939. 1. no tocante à correspondente ação judicial. já é interdito aos Estados legislar sobre processo (art. que promulga leis sobre as terras devolutas desse mesmo Município. entre os bens da União (art.fixará o critério classificatório. antes. a partir de 1988. as indispensáveis à segurança e ao desenvolvimento nacionais. da Carta de 1937). Desse modo. bem como fixar os princípios do processo discriminatório. As duas últimas Constituições Brasileiras. legislaram amplamente sobre terras devolutas. Exceto a porção indispensável à segurança e ao desenvolvimento da Nação. federal. 21) e que "são bens do domínio da União os bens que a esta pertencerem. num raio de tantos quilômetros contados de ponto demarcado.º. exceto se omissa a lei federal. e até que esta o regule. É o Estado.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 pertencendo aos Estados as situadas em seus respectivos territórios. cabendo à União somente a porção de território indispensável à defesa das fronteiras. A Constituição de 1934 reiterou a fixação da primeira Constituição Republicana ( LGL 1988\3 ) .

ou através do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). A natureza jurídica das terras devolutas indispensáveis à segurança e ao desenvolvimento nacionais é inequívoca: bens públicos dominicais federais. das "construções militares". será observado o que dispuser a lei de organização judiciária. que. 34. entre as terras devolutas. mas não tendo logrado êxito. a porção de terras devolutas necessária à defesa nacional. Em 1988. de 7. Prolatada a sentença.preferiu de modo expresso voltar à enumeração de 1891. Desde 1891. as indispensáveis: a) à defesa das fronteiras. em nossos dias. b) ou essencial ao seu desenvolvimento econômico e c) à segurança nacional. sem a menor dúvida. sempre. quando indevidamente ocupadas. Note-se que. II. para efeitos de registro. quer por terem os interessados discordado em qualquer termo da instância administrativa. bens públicos que "pertencem". ainda que em execução provisória de sentença. O processo discriminatório só se refere a terras devolutas. mediante convênio. Incluem-se entre os bens da União. a administrativa ou amigável e a judicial ou contenciosa.12. Nas comarcas em que houver Juízo Privativo dos Feitos da Fazenda Estadual. ou seja. fortificações. c) das construções militares. que podem "pertencer" às três esferas.na instância administrativa. quer por não entrarem em composição amigável. cabendo à União somente a porção de território que for indispensável para a defesa das fronteiras. ausência ou conhecida recalcitrância da maioria ou da totalidade dos interessados. foi acrescentado: à preservação ambiental. II . que se incluem "entre os bens da União". invadidas. se verificar ser praticamente ineficaz pela incapacidade. durante a permanência do atributo da "indispensabilidade". caberá apelação somente no efeito devolutivo. remédios jurídicos de Direito Comum protegerão as demais terras públicas. Lagos. observado o seguinte: I .na instância judicial. no que couber. a Fazenda recorrerá à ação judicial contenciosa. mas a Constituição de 1946. Será facultativo o processo administrativo. não. b) das fortificações. 26. na conformidade do que dispuser a Lei Orgânica Judiciária local". A demarcação da área será procedida. quando. O processo discriminatório das terras públicas acha-se.76. facultada a execução provisória. nas discriminatórias promovidas pelos Municípios e será dispensado nas requeridas pelo Estado. 27. como título de propriedade. Promovida a discriminação por meio amigável. A discriminação das terras devolutas desdobra-se em duas fases.383. com a proposição "os bens que a esta pertencerem". assim dispõe: "O processo discriminatório previsto nesta lei aplicar-se-á. construções militares e estradas de ferro federais". rios e correntes de água Página 6 . entretanto. às terras devolutas estaduais. as "indispensáveis à defesa nacional ou ao desenvolvimento econômico do país" são. 6. nossa Primeira Constituição Republicana ( LGL 1988\3 ) determinava que "pertencem aos Estados as terras devolutas situadas em seus respectivos territórios. "Defesa das fronteiras". turbadas ou esbulhadas na posse. por intermédio de órgão estadual específico. Por exclusão. valendo esta. relativamente a estas. "das fortificações". ou bens do patrimônio da União. correndo o feito perante o Juízo Civil da situação da área discriminada ou de sua maior parte.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 modifiquem ou diminuam as exigências da lei federal. são incluídas entre os bens dos Estados todas as terras devolutas não compreendidas entre as da União (art. inclui entre os bens da União as terras devolutas matizadas do qualificativo "indispensáveis". art. federais. ou bens da União disponíveis. por qualquer motivo. e) da preservação do meio ambiental. no art. art. d) das vias federais de comunicação. ameaçadas de perigos ou confundidas nas limitações. 64. Em 1967 e 1969 a "indispensabilidade": a) incluiu. A Constituição de 1934. das "vias federais de comunicação" e da "preservação ambiental" são as cinco causas determinantes da inclusão das terras devolutas entre os "bens dominicais federais". entre os bens da União. IV). regulado pela Lei federal 6.

As definições dadas pelos dicionários de fala castelhana e pelos doutrinadores (Villegas Basavilbaso. desse modo. os reservatórios.ª ed. II/150. sejam flutuáveis ou navegáveis. nosso Dos Bens Públicos. em geral. se forem navegáveis. 1944).11. II. os tanques. que existem independentemente de trabalho humano. Código Civil ( LGL 2002\400 ) Comentado. em primeiro lugar. Dicionário citado através de Alberto Gaspar Spota. do patrimônio disponível. 2) em terrenos do domínio municipal. entre os bens públicos da União. 1. p. arroios. cacimbas. ed. A separação das águas estáticas em naturais e artificiais não é questão meramente acadêmica. ou. 259 e nota 8). São bens públicos estaduais "os lagos e lagoas situados em terras públicas estaduais. 43. lagoas. açudes. e 3) os que não se estendam a território estrangeiro. lagos esses "que. Derecho Administrativo. no que se refere ao instituto da desafetação. Tratado de Derecho de Aguas. p. correntes ou veios.º). Se o lago for situado em terrenos do domínio do Estado. 1941).ª ed. cf. ou entregues ao uso público" (cf. Incluem-se.lagos. 2. As águas estáticas haviam já atraído a atenção dos jurisconsultos romanos. I/318. Ao contrário das terras devolutas federais que são bens públicos dominicais. do patrimônio do Estado-membro. do domínio da União? Bens públicos de uso comum federais. v. reservatórios. "em terrenos de seu domínio". Em contraposição as águas dinâmicas. ficando. tendo Ulpiano descrito o lago como "aquilo que tem perenemente água" (Digesto.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 Vejamos. d) os que banhem Estado-membro e Distrito Federal. Tratado de Derecho de Aguas. Em suma. são concordes em afirmar que o lago deve reunir alguns requisitos para que se configure a saber: apresentar determinada extensão e concavidade (magnitudo). de 11.. as dos rios são "vivas". 554. não se renovam de maneira sensível. art. em outras palavras. A água do lago interno do Palácio do Governo é bem dominical da União. Alberto Gaspar Spota. 1. 1971. o mesmo dicionário define lago como "uma grande massa permanente de água depositada em depressões do terreno.. a massa d'água deve existir continuamente (perennitas). sua natureza jurídica é a de bem público de uso comum estadual (cf. § 3. e) os que sirvam de limite a outros países. não as margens. Dividem-se as águas estáticas em naturais e artificiais. 7. na qual perenemente existe água. "Lago é uma concavidade grande e profunda. causados por caudais. 2) que não sirvam de limites com outros países. 151. § 6. embora análise mais profunda possa revelar certos movimentos circulares. v. 14. v. em terrenos. 14. 43.ª parte. Régimen y Legislación de las Aguas Públicas y Privadas. as segundas. superficiais ou subterrâneos. pelo menos na aparência. p. os lagos: a) situados em terrenos do seu domínio. existem grandes porções de águas estáticas. abrangendo as primeiras os lagos e lagoas. acrescentando que juntamente com os tanques ou reservatórios (stagna) e com as valas podiam ser públicos (Digesto.ª ed. caracterizado pelo volume de águas que correm. Página 7 .º). pertencem a este: são bens públicos estaduais dominicais. em comunicação com o mar ou sem ela". compreendendo. As águas dos lagos são "mortas". que constituem os rios. 3. todos os lagos que se localizem: 1) em terrenos do domínio estadual. IV/573 e 574. Tratado de Derecho de Aguas. as represas. em terrenos do domínio do Estado-membro. por um tipo qualquer de embarcação" (Dec. 3) em terrenos particulares.. a contrario sensu. riachos. Qual a natureza jurídica dos lagos. 429). mortas ou dormentes. v. de Marienhoff. revestindo-se de importância em muitos sistemas jurídicos que as subordinam a regimes jurídicos diversos e. mas as águas. os lagos federais. 1939. do patrimônio indisponível. 38. vivas. Marienhoff. sendo. não se incluem entre os lagos federais ou lagos do domínio da União os lagos que: 1) banhem um só Estado-membro. assim. 1952. Ao domínio fluvial. os açudes e as cacimbas. p. 2. II. Nas edições de 1925 e 1939. formado por águas que. em algum trecho. v. os lagos são bens públicos de uso comum. a opinião geral (existimatio circumcolentium) deve considerar tal quantidade de água como lago (Alberto Gaspar Spota. 2. represas. bens públicos federais de uso comum do povo. fora da dominialidade pública federal.-lei 853. opõe-se o domínio lacustre. assim. c) os que banhem Estado-membro e Território Federal. os lagos. que nasce dos mananciais que têm em seu fundo ou concorrem para ele" (Dicionário da Língua Espanhola. de 1783). 150. correntes.º). 1941. ou seja. 1975. que formam o domínio lacustre . f) os que se estendam a Estado estrangeiro. p. b) que banhem mais de um Estado-membro.

existem lagos oriundos de rios que os alimentam. Do contrário. visto que se existe tal comunicação através de um canal. a não ser por motivo didático. pois. pp. unidade física e jurídica. Espasa-Calpe. o álveo e a água. cujos níveis estão sujeitos a variações constantes. ou "qualquer porção de água que ocupa naturalmente uma depressão de terreno. nem depressão ocupada acidentalmente pelo elemento líquido mas.ª parte. 1833/1834. constituído de dois elementos inseparáveis. sub voce "Lago"). Por outro lado.. porções do planeta Terra cercadas de água por todos os lados. com caudais exteriores. nesse caso. ou correm para ele" (Dicionário de Morais e Silva. invisíveis. assim também existem lagos fechados. ed. v. p. v. 282. 1952). 1952). Tratado de Derecho de Aguas. n. de 1971. podemos estar em presença. Página 8 . não têm comunicação visível com o continente. e profunda. Régimen y Legislación de las Aguas Públicas y Privadas. II/150. 1941. cercada de terras e colocada numa depressão de terreno. haveria mudança no conceito jurídico desse bem público. A resposta é simples. Alberto Gaspar Spota. a denominação paralela de plenissimus lacus. solução incompatível com os requisitos da estabilidade e permanência que caracterizam as relações jurídicas (Marienhoff. 1939. uma grande massa de água perene. 3. d. ed. Diritto Amministrativo. que para aí corre de fontes. incomunicáveis. 1941). Se o rio "não pode ser uma coisa no ar". Álveo ou leito é a depressão do terreno em que se acham as águas do lago. o dizer-se que os limites dos lagos são imutáveis por natureza. Derecho Administrativo. Água é o conteúdo do álveo. Os léxicos portugueses ensinam que lago é uma "concavidade grande. que se alimentam de veios subterrâneos. onde há perenemente água.ª parte. A parte final da definição "com comunicação ou não com o mar" é criticável. porque do contrário seriam penínsulas. não se aplicando. embora distintos. o máximo nível oriundo de causas normais. dele fazendo parte os braços ou desvios dos cursos d'água. cercadas de terra por todos os lados. Em algumas regiões do globo. v. dando-lhes certeza e segurança. absurda quimera. e que se acha cercada de terras em toda a sua periferia" (Dicionário de Caldas Aulete. "terreno sobre o qual a água corre até o limite da cheia normal. porções de água estática. como assinalava Proudhon (Traité du Domaine Public. 186. assim como existem ilhas que. Tratado de Derecho de Aguas. IV/576 e 577. v. o que levou os juristas à indagação se. de um modo geral. pois. 218 e 219). IV/573. tão-só. "Lago é uma grande massa de água em depressões do terreno com comunicação ou não com o mar" é a definição dada pelo Dicionário Manual e Ilustrado da Língua Espanhola. não havendo aumento de seu álveo como conseqüência das possíveis crescentes ou minguantes de seu caudal (Villegas Basavilbaso. inversamente. nota 237. "Se nos encontrarmos diante de uma massa ou coleção de águas perenes. E. mas de águas marinhas" (cf. v. Quanto à possibilidade de utilização.ª ed. que se fundem num conjunto inequívoco e indecomponível.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 1941. lagos que dão nascimento a rios e lagos cortados por rios. II/155. os lagos classificam-se em navegáveis e não navegáveis. apud Villegas Basavilbaso).estaremos diante de um lago" (Alberto Gaspar Spota. nota 237. porque um lago gelado não deixa de ser lago. 1949). Daí. o lago tem seu nível praticamente imutável. ou uma extensa e perene acumulação de águas formada pela natureza ou reunida pelo esforço humano. Nem água no espaço.sem que a isso se oponha a inexistência de águas por secas extraordinárias ou causas desse jaez . a um primeiro exame. e Villegas Basavilbaso. Do mesmo modo que as ilhas. a não ser que o congelamento fosse perene. que tem no fundo. de 1927. o mesmo se pode afirmar do lago. "une riviere ne peut être une chose en l'air". Ao contrário do mar e do rio. seu suporte físico. teríamos para um mesmo fato natural dois regimes jurídicos diversos. isto é. os lagos são. É a substância líquida depositada perenemente na depressão. Suporte fático terrestre com projeção no mundo jurídico. mesmo que fiquem secos. seu continente. verifica-se o congelamento periódico do elemento hídrico dos lagos. 2. rodeadas por terras e depositadas numa concavidade . sub voce "Lago"). em parte do ano" (Cino Vitta. não de águas terrestres. Derecho Administrativo. I/232. 2. Lago é.

que é feito pelo homem e. I/283.. v. conforme se localizem dentro dum país ou se situem entre dois países. logo. perenes ou intermitentes. I/143. pois. Digesto. porque a condição de imobilidade e dormência das águas lacustres não se compadece com a idéia prática da flutuação. Rios federais. 140. § 1. tal posição é insustentável. que o distingue do canal). "A expressão flumen". quanto à situação. O domínio público fluvial abrange todo tipo de água corrente . Dentro dum mesmo Estado. considerado volumoso (diferença específica que o distingue do riacho ou arroio). n. Nem sempre. os que teriam as correntes de maior volume d'água" (Sayagués Laso. sendo. Página 9 . ao passo que águas correntes artificiais são os canais. v. II/283. 12. 1. em primeiro lugar. Tratado de Derecho de Aguas. 1971. v. em lagos internos e lagos de fronteira. Marienhoff. cujo conceito abrange também os flutuáveis. "não tinha significado fixo. Contrariamente ao que acontece com os rios navegáveis. região.aqua profluens toda quantidade de água que flui sobre determinados leitos. Vistos os lagos. 274. que rio é todo curso d'água natural (diferença específica. resultado do trabalho do homem. 1941). 1959). ao contrário. O critério fundamental para a divisão das águas é o do álveo ou leito. cf. 1956. que pode ser obra da natureza ou resultado da atividade humana. O lago é água dormente. "viva". Daí. é "todo curso natural de água. estão de acordo os autores.. Rios da União. visto não ser possível determinar com precisão o ponto diferencial de um e outro (Sayagués Laso. aqui não se verifica tal amplitude conceitual. a prima divisio das águas correntes. "Distingue-se o rio do riacho pela grandeza ou pela estimativa dos habitantes circunvizinhos". Derecho Administrativo. com outro país. porque se "o critério predominante tende hoje a estabelecer a diferença no caudal das águas. 5. o rio é água fluente. Procurando precisar os conceitos e chegar à definitio através da identificação do genus proximum e da differentia specifica. de um lado. d) se estenda a território estrangeiro. mais ou menos considerável e de caudal perene" (cf. 1939. riachos e torrentes. artificial. 2.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 incluindo-se entre os primeiros os idôneos para o transporte de pessoas ou carga por navios que ultrapassem determinada tonelagem. caudais ou não caudais. também Bielsa. integrando o segundo grupo aqueles cuja topografia impossibilite a navegação nas condições referidas. podemos dizer. As águas correntes naturais classificam-se em rios. de outro com uma ou várias unidades do mesmo Estado. disciplinada por normas especiais. Inclui-se o lago entre os bens de uso comum da União. município) ou pode ficar na fronteira. e perene (diferença específica que o distingue da torrente). Tratado de Derecho Administrativo. confinado.º. por motivo da conquista de outras terras. Tratado de Derecho Administrativo. porém. c) constitua limite com outros países. constituindo uma unidade jurídica.ª ed. segundo as palavras exatas e pitorescas do jurisconsulto Ulpiano: "Flumen a rivo magnitudine discemendum aut existimationi circumcolentium". capaz de arrastar o madeirame. quando tiveram oportunidade de conhecer correntes de maior volume. 1959). Régimen y Legislación de las Aguas Públicas y Privadas. na opinião ou estimativa das populações circunvizinhas in existimatione circumcolentium). comuna. em naturais e artificiais. 43. 212. sendo rios. v. criticando-a). pois. Águas correntes naturais são as que fluem sobre leitos não trabalhados pelo homem. passemos agora aos rios. Classificam-se ainda os lagos. III/465. águas naturais ou artificiais. fixada em lei. Bonfante demonstrou que no começo da vida do povo romano o conceito de rio era usado com enorme amplitude e. o rio. quando: a) situado em terreno do domínio federal. só entenderam que deveriam classificar-se como rios os que por seu caudal merecessem tal nome" (Alberto Gaspar Spota. p. p. águas correntes. que apresenta a definição de rio para depois analisá-la. estado. oscilante. sujeitos à correnteza. águas estáticas. escreve Spota. v. que depende de caudal em movimento.ª ed. ou dinâmicas. Oriundo de fontes que brotam da terra. b) banhe mais de um Estado-membro. já que dependia da época histórica. o lago pode ainda ficar preso a uma dada unidade territorial (província.

v. assim. 3. suporte da corrente hídrica (aqua profluens e alveus). II/93. 1959). "se em algum verão secar o que fluía perenemente em outras épocas nem por isso é menos perene" ("Si tamen aliqua aestate exharuerit. 1949). p.ª ed. 1949. 43. é claro. dependendo a designação muitas vezes dos usos e costumes. 2 e Zanobini. Há rios não navegáveis que podem ser perfeitamente navegados. ao passo que torrentes são as que apenas no inverno apresentariam água. riachos são correntes de água permanentes.e o elemento sólido o álveo ou leito. I/228 e 229. escreve Aldo M. hyeme fluens.. Diritto Amministrativo. "Os rios por tradição romana". O limite das margens é assinalado pela linha do flumen plenissimum. já que "um rio não pode ser uma coisa no ar" (Proudhon). "torrencial". Já os romanos notavam que. porém. v.. p.ª ed. quando diz: "Igualmente. requisito que. sempre se aceitou sem discussão que se tratasse de cursos d'água de tamanhos menores que os dos rios. v." Digesto. as torrentes apresentam águas intermitentes (Alessio. assim como um conceito de jure. 262). § 2. v. 1946. ou seja. Ambos perenes. v. arroios. O curso d'água. em todo o seu curso ou em parte dele. mas também. em que um rio navegado não seja navegável. apud Villegas Basavilbaso. o resultado dos costumes e usos locais" (R. 1. havendo casos em que o rio navegável não é navegado e reciprocamente. constitui. 484. 1959). IV/59. 1948).. ou corrente d'água. visto que a palavra torrente do Código Civil ( LGL 2002\400 ) italiano é tradução da palavra francesa rivière do Código francês. "São rios navegáveis aqueles em que a navegação é possível. Navegar é arte das mais antigas atividades do homem. 1. retira um curso d'água de uma classe para enquadrá-lo em outra. a remo. n. riachos de um lado e de outro lado das torrentes é relativamente fácil. quanto à magnitude do caudal. a pano. v. pranchas e balsas de madeiras" (Teixeira de Freitas. por embarcações de qualquer espécie. sendo o primeiro a parte pela qual flui a água.ª ed. alguns dentre os rios são perenes. Entretanto. Os rios. como também por jangadas. libro sexagesimo octavo ad edictum). esclarece Cino Vitta. por vezes. habitualmente enxuto" (Código Civil ( LGL 2002\400 ) português. "A designação de rio ou arroio é. 12. fornecido pela geografia física. natural ou artificialmente. Tratado de Derecho Administrativo. mas de importância evidente pelos reflexos na elaboração doutrinária e no Direito positivo. Estabelecer com precisão o conceito de navegabilidade para chegar-se depois ao de rio navegável não é mera questão acadêmica. Essa a lição que se infere de um fragmento de Ulpiano. O rio é mais caudaloso que o riacho. suporte fático da navegabilidade legal. perennis. "são cursos d'água maiores.378. cit. II/283 e 284. 43. ob. outros torrenciais: "Perenes" é o que sempre corre. Esboço do Código Civil ( Página 10 . Por sua vez. o álveo no qual estão contidas e as margens que o delimitam" (Manuale di Diritto Amministrativo. 1. Há um conceito de fato. Tratado de Derecho Civil Argentino. 1952. ribeiro ou arroio (Sayagués Laso.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 Não há critério quantitativo para distinguir riacho de rio. II/87. visto que é estabelecida pela intermitência destas últimas. A distinção dos rios.") Digesto. Istituzioni di Diritto Amministrativo Italiano. n. quod alioquin perenne fluebat: non ideo minus perenne est. Salvat. o leito é formado pelo fundo e pelas margens. mas de qualquer modo relevantes" (Cino Vitta. Corso. o elemento líquido a água . constituindo as segundas os lados do leito entre os quais a água corre. de 1967/68. arroios. De público a privado. diferem. 3. existente e verificado. 6). 2 e Sayagués Laso. Não é possível conceber qualquer curso d'água sem pelo menos dois elementos integrantes essenciais. art. Tratado. "O domínio hídrico". ou a sirga.. Independe a perenidade do volume d'água. II/283. 12. "Entende-se por leito ou álveo a porção de terreno que a água cobre sem transbordar para o solo natural. "não compreende apenas as águas. Sandulli. o que corre no inverno. § 2 (Ulpianus. uma unidade jurídica formada dos elementos físicos assinalados. estruturado pelo Direito para identificar o rio navegável. 4.

porque.. principalmente troncos de madeiras rio abaixo. ressaltava Bielsa que ela se justifica porque então a razão de afetação ao uso público é a mesma que na navegação: o trânsito de homens e coisas. v. parte final do inciso. No esboço. art. 1909. afetação ou destino. Temos. expressão que abrange o rio flutuável. no ato da promulgação deste código. meio usado para transporte de coisas. capitulados no art. como os respectivos lagos e rios. como também o que serve de meio de comunicação comercial por meio de jangadas ou canoas. que é utilizado por navios e barcas. 331). 1956). anotação ao art. visto que o conceito geral de rio navegável deve tomar-se em sua noção mais compreensiva de navegação. p. circulação. d) se estendam a território estrangeiro. 1948. Derecho Administrativo. se a denominada flutuação. sub voce "Flutuável"). § 1. o interpretasse literalmente. Dicionário Contemporâneo. O caráter de navegáveis dos rios é determinado por fatos e não por decisões administrativas. não há nenhum interesse público. Ilhas fluviais e lacustres Página 11 . art. classificados como bens públicos federais de uso comum. Distingue-se a navegação de fato da navegação legal. restringindo o caráter dos rios navegáveis e aqueles que unicamente permitem a circulação de barcos ou vapores. 7.ª ed. na primeira. pois. explicando que ampliou a idéia dessa palavra por não termos. "Dicese del rio por donde puede conducirse a flote maderas u otras cosas. de pessoas ou coisas. Incluem-se as correntes de água entre os bens da União. em oposição a rios navegables não existe no idioma castelhano. 3. portanto. emprega Teixeira de Freitas a palavra navegáveis. Daí o considerar-se apto um rio para navegação quando por sua largura. os rios navegáveis e os rios flutuáveis. 380. ao passo que na segunda se tem em vista um transporte público de pessoas ou coisas. Rios e Águas Correntes em suas Relações Jurídicas. aunque non sea navegable". não só na linguagem usual. ou seja. apud Caldas Aulete. 106). Rio flutuável é aquele que sem ser apropriado para a navegação tem caudal de água capaz de servir para transportar madeiras por meio da flutuação. III. Seria assim. profundidade e caudal permanente ou quase permanente de água serve para o transporte. "Corrente flutuável é a corrente de água por onde se podem derivar objetos flutuantes" (Caldas Aulete. 20. são.ª ed. Incluem-se entre os bens da União. sendo não só própria para designar o curso fluvial. isto é. 3. embora sobre ele não haja declaração (Bielsa. do elemento de utilização. bastando para isso consultar o Dicionário da Real Academia Espanhola. b) banhem mais de um Estado-membro. decisão administrativa que o defina. fazer derivar objetos flutuantes durante o decurso do ano inteiro com fins comerciais. sub voce "Flutuável"). é abrangida pela navegação. Dicionário Contemporâneo. 1948. ou sobre balsas ou jangadas (Carvalho de Mendonça. vocábulo equivalente ao francês flottables. III/467. Rio navegável é. Sem razão Villegas Basavilbaso quando afirma "que a locução rios flotables. na conceituação do rio navegável. o que merece resposta afirmativa. "flotable". em português. inconsistente e falho de fundamento o critério que. 8. TERRENOS MARGINAIS E PRAIAS FLUVIAIS Os terrenos que ficam ao lado dos rios ou dos lagos. de jure. diferentemente do francês que distingue os cursos de águas navegáveis e flutuáveis (riviere navigable. pois estas não são mais do que declarações formais desse caráter. Desse modo. Indaga-se. finalmente.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 LGL 2002\400 ) Brasileiro. 338. em doutrina e na prática. pois. riviere flottable)".º. aferrado ao texto legal. sub voce. os terrenos marginais e as praias fluviais. c) constituam limite com outros países e. como na linguagem jurídica. "aquela por onde estiver efetivamente em costume. Aceitando a definição de Carvalho de Mendonça. quando: a) situadas em terreno do domínio federal. ou que de futuro for declarada tal pela autoridade competente" (Código Civil ( LGL 2002\400 ) português anterior.. 5.ª ed.. fica patente a presença obrigatória. simples.

26. portanto. 2. avançam pela terra adentro. contestando-lhe o efeito retroativo (caso Paul Deleuse).-lei 852. 1948). no caso.º grau. respeitados os direitos dos antigos proprietários..-lei 1. chamadas terrenos de marinha.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 Toda ilha. já que se trata de porção de terra sujeita a ataque ou invasão de país vizinho. por outro lado. Ao lado das águas. Praias marítimas são os litorais. Com as demarcações feitas há muitos anos. ou quando se estendem por território estrangeiro. que podem ser fluviais. na época de Vargas. pretender que os direitos adquiridos sejam postergados. necessariamente. existem faixas de terras. V). mas na realidade interpenetram-se. o que ocorreu. interpretar corretamente o pensamento do legislador como o de pretender. no art.39. estará.pelo solo de areia que se segue imediatamente ao "litoral" . fluvial ou lacustre. contígua aos limites de nosso País com os países vizinhos. despojando-o. IV. repetimos. por um lado. de res da União. Conforme a Constituição de 1934. em todo o litoral brasileiro. Litoral ou praia marítima é a parte da praia em imediato contato com às águas e compreendida entre o máximo e o mínimo deslocamento das águas. as praias. de 11. roja condição é a de bem público federal.11. pertencem à União as ilhas fluviais e lacustres nas zonas fronteiriças (art. No entanto. de 26. numa orientação centralizante. banhada pelo Oceano Atlântico. banhada por vários rios que a isolam do continente e. porque os problemas que suscita são estreitamente ligados ao fluxo e refluxo das marés. levando-se em conta também as marés hibernais. art. mas a recíproca não é verdadeira. Corso di Diritto Página 12 . III). III).em direção à terra. com o Dec. a praia dos mares é estudada sob o título de domínio hídrico. Praias marítimas A regra jurídica constitucional do art. quando não pertence à União (art. II). As noções de "praias" e de "terrenos de marinha" não se confundem.º. IV. inclui as praias marítimas entre os bens da União. a intenção do legislador parece ter sido a de fazer meramente a partilha de tais porções entre a União e o Estado-membro. quando limítrofes com outros países. 9. preceito que se encontra na Constituição de 1937 (art. se encontra a ilha. além do que prevalece. que. assim como as situadas dentro das águas na faixa de 150 km (Dec. Ou se é decreto-lei. incluir todas as ilhas oceânicas entre os bens públicos dominicais da União.lido . o princípio da irretroatividade. no entanto. bem como sobre a totalidade da superfície da ilha. 3. 34. 20. simplesmente se assenhoreasse do patrimônio privado. Não teria sentido que a União. Toda e qualquer praia marítima está localizada em terreno de marinha. Praia do mar ou praia marítima é a extensão da costa que as ondas ordinariamente cobrem e descobrem nas maiores marés e não em ocasiões extraordinárias de tempestades ou furacões (Teixeira de Freitas. porém. reduzindo-o do 6.º). em nosso Direito. as áreas litorâneas. primeira parte).spiaggia. Corso di Diritto Amministrativo. lacustres ou marítimas. tendo sido "aposentado a bem do regime" o representante do Ministério Público que opinou. é. 1. A Ilha de Marajó. no Direito italiano . 6. não interessando. Ilhas fluviais e lacustres são porções de terras dentro dos rios e lagos: pertencem à União. sem recorrer a regular processo expropriatório. art. em cujo litoral fronteiriço ou adjacente. por motivos de segurança nacional.12. excluídas as dos momentos de tempestade (Zanobini. incluída entre os bens dos Estados.38. Não tem sentido. regra geral. liberado de limites precisos (Zanobini. limitou o conceito de colateral sucessível. no Direito brasileiro. IV/39.612 do CC) para o 2. Esboço do Código Civil ( LGL 2002\400 ) . devendo-se. Constitui-se a "praia" . decreto-lei ao qual se atribuiu expressamente efeito retroativo. 36. em bem elaborado parecer. mesmo por dispositivo constitucional. "c") e na Constituição de 1946 (art. 399). Foi notório. é a condição da ilha fluvial ou lacustre situada nas zonas limítrofes com outros países (art.º. a fim de incidir sobre os processos em curso (art.ª ed. se o dispositivo consta da Constituição ou se é lei ordinária. os direitos adquiridos pelos particulares sobre os terrenos e construções.907. São bens públicos estaduais. pela decretação da inconstitucionalidade daquele absurdo diploma legal. 20. Outra. respeitados. 20. Não obstante seja porção terrestre e não marítima. geograficamente. dentro do território nacional.º grau (art. 1. v. no caso.

centenas delas com terrenos e construções pertencentes a particulares. Para Villegas Basavilbaso "praia marítima é a extensão de terra que as ondas banham e desocupam nas mais altas marés e não em ocasiões extraordinárias de tempestades" (Derecho Administrativo. 5. Ver nossa monografia Da Codificação do Direito Administrativo. "De três modos". longe da costa. Corso di Diritto Amministrativo.. art. tem pretendido classificá-lo entre os bens do Estado. 23. quando árbitro. Mexiana.e começa a correr em volta. o vocábulo praia é sinônimo de litoral e nada mais significa do que o litoral que desce suavemente para o mar.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 Amministrativo. IV/40. Cino Vitta procura distinguir entre "lido" (litus) e spiaggia (praia). L. 3. Milhares de ilhas oceânicas povoam o litoral brasileiro do Oiapoque ao Chuí. quer marítima. A extensão e a própria existência da praia dependem da natureza dos lugares. L. considerando a praia a porção de terra arenosa ou pedregosa que se acha aquém do litoral e que serve para o trânsito. atracação. a 360 km do litoral de Pernambuco. têm outra natureza jurídica . 96. Celso) é atribuída por Marco Túlio Cícero a Aquílio Galo. art.ª ed. ao contrário. Derecho Administrativo. por determinação constitucional expressa.o do álveo . p. no mesmo livro. Derecho Administrativo. v. qui alvei non Página 13 . São Pedro e São Paulo. 1951. 2. Ilha de Santo Amaro. 1952). v. a prioridade de haver definido a praia. Trindade. segundo. São Luís. 2. Martim Vaz. quando paulatinamente acumulando terra formou uma elevação sobre o álveo e a aumentou com aluviões" ("Tribus modis insula in flumine fit: uno.ª ed. Em todo o litoral brasileiro." A definição "litus est quousque fluctus a mari pervenit" (Digesto. Etimologicamente. definindo o primeiro como "a parte de terra onde chega o máximo fluxo das altas marés invernais. O litoral. "forma-se a ilha no rio. Digesto. nota 15. ao conceituá-la. 16. Primeiro. III/457.ª parte. o que suscitou críticas de Bielsa. excetuado o tempo de borrasca: o Direito romano o considerava. mas a partir de 1967 (CF ( LGL 1988\3 ) .. classificou como bens públicos dominicais federais. 1949). Duez e Debeyre definem as praias como "a faixa de terreno alternativamente coberta e descoberta pelas ondas. Ilha Grande. mas a doutrina dominante é orientada em sentido diferente. "Litus est quousque maximum fluctus a mari pervenit". v.ou seja. incluindo-as entre os bens da União. quando deixa seco um lugar . o que leva a doutrina a classificá-las em ilhas oceânicas e ilhas costeiras. f. Refere o Digesto que coube a Cícero. a extensão da praia diminui ou aumenta (Zanobini. 77). perderam os direitos de propriedade que tinham. Diritto Amministrativo. por sua própria natureza. nota 121. terceiro. ed. IV/40. VII. Celso. Ilhas oceânicas e costeiras As ilhas ou estão mar a dentro. Ilha Bela. como "a extensão de terra que as ondas banham e desocupam nas mais altas marés" (Bielsa. vamos encontrar inúmeras ilhas (Maracá. A lei argentina define a praia. 1952). As ilhas constitutivas do arquipélago de Fernando de Noronha.. p. conforme o mar avança ou recua. ou com fins de navegação ou com qualquer outra finalidade. 1948).º. ou estão perto do litoral. Note-se que a Ilha de Marajó é considerada fluvial e a Ilha de Santa Catarina é a maior ilha oceânica do Brasil. que a EC 1/69. v. 3. II). 10.ª ed. v. que não foi o do álveo. v. 96. autarquia geográfica ou territorial. cum agrum. depósito de embarcações" (Cino Vitta. II e Emenda 1/69. ilhas oceânicas. 4. quando a corrente circunda um campo. alguns. embora oceânicas. Ilha de Santa Catarina).º. IV/445 e 460. de 1924.a de Território Federal .ª parte.ª ed. IV/444. centenas de proprietários da área inteira da ilha e dos imóveis sobre ela situados. porque. 1948). I/222. fizera expressa referência ao pretor Aquílio Galo. atribuindo-lhe a paternidade da definição. 1956). marés vivas de equinócio e marés mortas de solsticio" (Villegas Basavilbaso. como mais facilmente apropriável. esclareceu Pompônio. ou "espaço de terra compreendido entre as preamares denominadas de sigígias equinociais e as baixas marés de quadratura solsticiais. Junto com o litoral do mar o código civil compreende a praia. quer fluvial. Caviana. está sujeito ao uso público de todos os que têm necessidade de servir-se do mar. como coisa comum: o moderno. 3. São Sebastião. nos seguintes termos: "Solebat igitur Aquilius ita definire" "qua fluetus eluderet" (Tópicos. 16. 32. ao lado do próprio mar. desde tempos imemoriais. sujeita à tutela administrativa da União. f. mas o grande orador. Ilha do Governador. 4..

delinde infra novus iste rivus in veterem se converterit: ager qui a duobus rivis comprehensus. Discute-se. v. completado pela máxima que rege o instituto da acessão . mas com o aproveitamento dos elementos da própria natureza. regido por princípios civilísticos. 1. sendo público o seu regime jurídico. Motivos de interesse público. mediante o emprego de moderna técnica."principale trahit accessionem" . Pode-se ainda fazer menção às ilhas . Não se contrapõe o conceito geofísico de ilha ao conceito jurídico. Nos dois últimos casos. ter altura tal que não seja coberta pelas mais altas marés periódicas. 11. em questão. se marítima. Deve ainda a ilha. que a condiciona. bem como os grandes bancos de gelo ou icebergs. pedra e terra. cujus et fluit". se fluvial. escrevendo. não são ilhas.ª parte. Para outros autores. § 4). siccum relinquit et circumfluere coepit. a respeito. nascidas em virtude de obras executadas pelo Estado. 30. o que está de acordo com o pensamento de Gaio. ("Quod si uno latere perruperit flumen. in formam insulae redactus est. trata-se de verdadeiras ilhas. circundada por águas marítimas fluviais ou lacustres. as ilhas oceânicas. Página 14 . Se pertenceriam ao domínio público e. Villegas Basavilbaso. mediante o instituto da afetação. em seu estado normal (Benjamin Villegas Basavilbaso. integram os bens privados do Estado. bens privados? Deixando-se de lado as ilhas artificiais. Pontes de Miranda: "Conseqüência: os proprietários das ilhas. podem alterar a situação jurídica de uma ilha que. IV/605. v. sendo. Digesto 41. 1.mar territorial. ou terrenos e edifícios em ilhas que estão para lá da faixa oceânica brasileira. o meio em que se encontra . em doutrina. passará a pública. qualquer ilha existente ou formada em massa d'água que nasce e morre em terras privadas é bem privado. rio navegável ou não navegável.concluiríamos. em caráter privativo. A Constituição de 1967 acrescentou. navegação. examinar o tipo de ilha.1. uma porção "da terra" cercada de água. Derecho Administrativo.º. 7. desde que preencha os requisitos exigidos. tertio. não "de terra". e em função do qual existe. em ambos os casos.artificiais. a respeito da natureza jurídica das ilhas. é necessário. § 2). fluviais ou lacustres . "do planeta". surgidas nas águas. As porções de terras móveis ou flutuantes. as ilhas. de pedra e terra". Segundo o próprio jurisconsulto citado. ou em virtude de acumulação aluvial gradativa. pois. Eis a solução romanista e tradicional. Ilhas marítimas. cum locum qui alvei esset. de particular. Derecho Administrativo. comércio. neste caso. aos bens da União. 1952). mas apenas um leito que continua tendo condição.oriundas de obras públicas.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 fuit. ejus est scilicet. requisito essencial na conceituação da ilha. IV/607. amnis circumfluit. altero. "Da terra". naqueles três casos. 2. pertencendo ao proprietário da terra invadida pelas águas (cf. ou seja. indústria. ou em virtude de secamento parcial e intra alveum. marítimas. et cum alluendo auxit". ou se integrariam o patrimônio do particular. 30. ilhas lacustres são os nomes respectivos que tomam as porções da superfície firme da terra. É seu acessório e. o fenômeno que menciona não altera a condição jurídica do domínio ("Primo autem illo modo causa proprietatis non mutatur". tendo-se. 2. § 2). cum paulatim colluendo locum eminentem supra alveum fecit. ilhas fluviais. que abriga águas públicas. ao passo que se integra no domínio público a ilha que é acessório de álveo. Falta-lhes a estabilidade ou firmeza. num primeiro exame. que a ilha tem a mesma natureza jurídica do alveus. ao mesmo tempo em que. para claro e correto equacionamento do problema. Aplicando-se à hipótese o princípio civilístico "accessorium sequitur principale". art. de um modo geral. a que título. mais especificamente. Digesto 41. lago. 1952). nesse caso. nada impede que pela permissão ou concessão seja utilizada pelo particular. perderam com a Constituição de 1967. ponto estratégico. deverá ficar a salvo das mais altas águas. Digesto 41. 4.ª parte. O álveo constituirá ponto seguro de referência para a fixação da natureza jurídica da ilha. et alia parte novo rivo fluere coeperit. ao passo que na primeira hipótese não se teriam ilhas. tais como a segurança nacional. porque se trata de "porção firme.

v. 6.67. dos Municípios ou de terceiros (art. O interesse da União.315. a Ilha Comprida. Plataforma continental e zona exclusiva Inclui-se também entre os bens públicos dominicais federais a plataforma continental. 1. De 1967 em diante. em Revista da Procuradoria-Geral do Estado. II. 2. a não ser que. em incluir entre os bens públicos dominicais a plataforma continental é bem claro. Ed. da CF ( LGL 1988\3 ) ). são bens públicos dominicais federais. a respeito o Parecer do Procurador do Estado de São Paulo. Por exemplo. as áreas que se encontram sob domínio da União. no art. 850 km 2 (José Inácio Fonseca. é claro que a intenção do legislador foi centralizar e incluir entre os bens da União "todas" as ilhas Oceânicas. 11. 1944) e Rodrigo Otávio. respeitados sempre os direitos adquiridos de seus titulares. I/539. As formações insulares ou ilhas eram conhecidas e estudadas pelos romanos. 1924. tanto mais que a Carta Política de 1988 alude não. os direitos de propriedade que tinham" (cf. em nosso Direito. podendo exceder a extensão do mar territorial" (cf. a ilhas fluviais e ilhas lacustres. para efeitos legais. 162). Como as Constituições de 1967 e de 1969.ª ed. As ilhas formadas em mar territorial pertencem ao domínio da União (RDA 28/239).. a Lei 5. não incluíram as chamadas ilhas Continentais entre os bens dos Estados-membros. RT. quer as próximas do continente. que dispõe sobre ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial. p.. de 1. porém. com a Emenda n. nas ilhas oceânicas e costeiras. art. entre os bens dos Estados-membros. é claro. particulares ou públicos (cf.10. que estiverem no seu domínio. a cerca de 200m. Paulo. Comentários à Constituição Federal de 1967. Clóvis Beviláqua (Teoria Geral do Direito Civil. 1970). Pontes de Miranda. igualmente serão dessa espécie todas as ilhas próximas ou distantes do continente. que cerca o continente. I/538. a partir de 1967. Folha de S. por algum título.. a respeito. Ed. sem exceção. 1970). pouco inclinada. v. p. inclui-se entre os bens dominicais federais. 13. ilha Oceânica e. 2. 5.ª ed. que podem ser aforados ao particular. ou de ilhas costeiras. como Pompônio. 1. A faixa representa. classificadas.ª ed. como bens públicos dominicais da União. 10: "As ilhas adjacentes mais chegadas ao Reino". que a Constituição de 1967 denominava de plataforma submarina. de largura. sendo a União a titular única desses bens. à plataforma. em área no território brasileiro. 248 e Código Civil ( LGL 2002\400 ) Comentado. que integram o continente.ª ed.68. as áreas. tendo despertado a atenção de jurisconsultos. 1946. Comentários à Emenda Constitucional de 1969. coincidente com o princípio do talude continental. medindo cerca de 70 km de comprimento por 3 km.º. Incluem-se. José Carlos de Moraes Salles. situada no litoral sul do Estado de São Paulo. inclui entre os beneficiados os integrantes de guarnição das ilhas oceânicas. as ilhas oceânicas devem ser tratadas "como se fossem" terrenos de marinha. 2.ª ed.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 segunda parte. ainda aqui respeitados os direitos adquiridos dos antigos proprietários. "Perspectivas Petrolíferas da plataforma continental brasileira". 3. bem como a plataforma continental. Ou: "É a plataforma submarina. excluídas. que as situaram dentro da sistemática jurídica e terminológica da época. aproximadamente. v. sem dúvida alguma. RT. Consulte-se. em si. propriamente. III. de modo algum é entidade diferente de ilhas continentais. como Página 15 . A expressão plataforma continental é definida como "a faixa que vai da linha da costa até a curva batimétrica de 200 m de profundidade que é. pertença a particular ou a Estado-membro. Regulamentando o art. I/317. 1978). após a qual começa queda rápida para a profundidade. revivendo preceito das Ordenações Filipinas. Afinal que são "ilhas oceânicas"? Ilhas oceânicas. 26.9. é.º. caderno especial). Se os terrenos de marinha. 178 da CF de 1967. p. 26. formando com a Ilha do Cardoso o denominado Complexo Estuarino Lagunar de Iguape-Cananéia. v. expressão que se contrapõe. aproximadamente.. 7. de 1969. 12/647. quer as afastadas. que escrevia: "São do patrimônio privado do Estado as ilhas adjacentes ao território nacional" (Do domínio da União e dos Estados. II.

Problemas de segurança nacional e questões de natureza econômica (lagosta. promissora e vingadora. incluem o mar territorial entre os bens públicos de domínio da União. v.. preenchendo-os e adaptando-se-lhes à forma. 1965. enseadas. petróleo.3. pesca da baleia) levaram o responsável pela emenda a incluir o mar territorial entre os bens públicos federais ou bens públicos da União. mas como fonte de riqueza. pelo que é necessário relembrar algumas noções básicas a respeito. tênue de início. Natureza jurídica e Delimitação do Mar Territorial. o mar . de 25. Por sua vez as águas marítimas não constituem também uma unidade. no art. reservatório opulento de bens. 4. confinadas a princípio no âmbito do Direito interno. as de Genebra. visita de navegantes de outras plagas. o mar territorial classifica-se como bem público federal dominical. o mar territorial brasileiro compreende a faixa marítima constante de 200 milhas.º. perscrutando mistérios que se afiguravam insondáveis. O mar territorial. sobressai pela importância o mar que é de todos (Berthélemy. O mar territorial é parte das águas públicas. e outras se cogitarão. tomando os nomes de mares. p.constitui sempre cenário de fascínio irresistível. Mas não deixavam de sulcá-lo. em mare proximum e mare altum. 514). emergentes da plataforma continental Vai além: inclui. entrementes. 1949). vislumbravam os antigos fisionomia dúplice.ª Ed. Cautelosa e progressivamente foram tocando países estranhos.ª ed. VI. torrentes. arroios. quer por seu interesse aos fins da economia nacional. recebendo as segundas os nomes de rios. Numa primeira divisão." "Desse intercâmbio social. cabendo ao Estado facilitar-lhe a utilização pelos trabalhos de arte tais como o de construção de diques. suscita inúmeros problemas de ordem jurídica. que interessa ao Direito Constitucional. v. aliás. 3. progressivamente acentuado com o decorrer do tempo. O mare proximum ou mar adjacente é o que fica próximo ao continente ou à porção de terra do país considerado. tomando-se como ponto de partida a terra firme. 20. 9.ª ed. 1920. reservando-se também a Administração a tarefa de regular-lhe o uso para coibir o abuso (Berthélemy. 11). Entre as águas públicas. 514). Nele.. 1948). que atende ao conteúdo da massa líquida. quer pela complexidade da legislação e profundidade dos estudos teóricos e práticos a que deu origem (Zanobini. as águas dividem-se em salgadas e doces. VI.-lei 1. Suscitou assim. aqui.098. ao Direito Administrativo e ao Direito Internacional Público. e continua a suscitar as mais vivas discussões. Mar territorial Somente a EC 1/69. riachos. no campo da doutrina e da jurisprudência. ou do patrimônio do Estado. lagunas e lagoas. é o elemento líquido que ultrapassa determinada faixa. formando as primeiras a parte maior do elemento hídrico. lagos. baías. Página 16 . conhecendo povos diferentes e recebendo. faróis.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 acidente geográfico. A porção hídrica do globo terrestre está bem longe de constituir uma unidade e os tratados especializados de geografia física têm procurado sistematizar a massa líquida que circunda a terra. conjunto hídrico maior que forma uma das mais importantes categorias do domínio. é possível classificar as águas marítimas em próximas e longínquas. alto mar ou mar livre. Ganhavam confiança à medida que o perlustravam e se assenhoreavam dos segredos da arte de navegação. "Cerca de duas vezes e meia mais vasto que os espaços terrestres. Numa segunda divisão. II/93. golfos. o mare altum."collectio aquarum multarum" .o Direito do mar . Traité Elementaire de Droit Administratif. p. entre os diversos tipos de bens (Alessio. foi-se constituindo complexo de normas que.70. p. Istituzioni di Diritto Amministrativo. IV/49. 4. 2. público ou privado. no capítulo que se refere à sua qualificação jurídica. a zona econômica exclusiva. contadas a partir da costa. portos.ª ed. se celebraram recentes conferências. acabaram pouco a pouco por despassá-lo. Traité Elémentaire de Droit Administratif. por certo. de convocar em futuro próximo" (Marotta Rangel. Mediante a edição do Dec.. que varia conforme a época e de acordo com os países contíguos ao mar ("res communis omnium").. 1920. Do mesmo modo que os terrenos de marinha. distribuindo-se de maneira irregular pelos espaços terrestres. Corso di Diritto Amministrativo. pelo que o texto fala em "recursos naturais". atraente e horrífica. 12. art. e a CF de 1988.em cujo nome. Vieram a compor um dos mais antigos e dos mais atuais ramos do Direito das gentes . protector et hostis.

que cerca as costas do Estado e sobre o qual se estende sua soberania. classifica-se o domínio público marítimo em quatro partes: o mar territorial.ª parte.alto mar. é a extensa porção de água salgada que se situa após o mar territorial. mare altum. tanto assim que vem. O mar territorial tem sido objeto de estudos por parte dos internacionalistas e dos administrativistas. prevalece ainda a regra de Bynkershoek. levantou-se dúvidas apenas quanto à sua extensão. cujos limites constituem dever irrenunciável do Estado que. as águas marítimas interiores tomam nomes especiais como: interiores. parte que varia de país a país. Tratado de Derecho Administrativo. assim. Derecho Administrativo. O mar . 18). distinguindo-se. v. enseadas. v.ª ed.ª ed. dos mares que não são oceanos (Sayagués Laso. 1963).mar territorial. escreve Sayagués Laso. "parte do mar de extensão determinada de maneira variada. Não constituindo uma unidade. 1952). v. Mar é o conjunto de água salgada que rodeia os continentes. alto mar. in-suscetível. pois. entre o mar territorial e o mar alto existe uma faixa marítima sobre a qual o Estado ribeirinho exerce o poder de polícia. p.reunião de águas salgadas . a respeito. baías. classificado em blocos e a summa divisio dos espaços marítimos é a que os considera como adjacentes aos territórios . 3. IV/41. deve chegar "até onde chega a força das armas": "Quousque terra mari imperari potest" (Bielsa. "é a zona do mar contígua à costa. onde o Estado ribeirinho detém. a situação jurídica dessa parte do mar. Tratado de Derecho Administrativo. visto pertencer à comunidade internacional. mas ao Direito Internacional Público. de país a país.é. consistindo na banda de mar paralela à costa. poderes similares aos que exerce em seu território terrestre. nesse trabalho. 5. III/456. II/121. próximo ou litorâneo. O mar livre. o mar territorial tem sido objeto de aprofundados estudos pelos modernos autores do Direito Administrativo. no qual. 1956). para que se torne facilmente conhecido e fiscalizado (Villegas Basavilbaso. mais exatamente. Página 17 . portos. ninguém discute a existência necessária do mar territorial. ancoradouros. embora com fins precisos e limitados. juridicamente compreendido em seu território" (Zanobini. classificado como res communis omnium.. Também denominado de mar costeiro. anota Bielsa. "Mar territorial".DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 Analisando-se as divisões existentes. alheio a toda soberania territorial. v. sobre essa porção do oceano. "prolonga-se. 2. ramo do Direito a quem cabe fixar a extensão desse volume de água salgada (Sayagués Laso. 1959). nota 28). II/296. "Extensão marítima de três milhas a partir da praia" (Laubadère. já que tal qualificativo designa. o mar livre.. Derecho Administrativo. o mar territorial é formado por uma zona de água e de solo marítimo de uma extensão variável." "A determinação dos limites do mar territorial é matéria de Direito Internacional Público. Trata-se de lugar sobre o qual se verifica o exercício de um jus imperii do Estado por motivos de segurança e razões físicas. marginal. se bem que fosse preferível chamar a esse mar de litoral ou jurisdicional. mas não a uma soberania jurídica (Villegas Basavilbaso. sobre a qual os Estados ribeirinhos exercem soberania". IV/456. quando considerados sob o prisma jurídico.ª ed. O mar territorial faz parte do Estado e se é pequeno o limite que o determina. Daí. no capítulo dos bens do domínio público. 1965. IV/442 e 448. águas territoriais e afastados dos territórios . 1948). v. a zona contígua ao mar territorial e as águas marítimas interiores. 1952. v. Suas grandes subdivisões recebem o nome de oceanos. "O território do Estado". por um fictio juris. para quem a porção do oceano. Natureza Jurídica e Delimitação do Mar Territorial. 2. É a zona contígua ao mar territorial. em razão de um interesse superior de conservação e de defesa. de ocupação. Traité Elémentaire.. Derecho Administrativo. jamais como res nullius. II/296. submetida à jurisdição e poder dos Estados. v. isso se deve a critérios de prudência. com ressalva no direito de trânsito inóxio desses navios. adotada pela maioria dos juristas e publicistas. Para alguns juristas. Corso di Diritto Amministrativo. a denominação de mar territorial. mar livre. Assim. 3. o que não interessa ao Direito Administrativo. aplicará o Direito interno. 1959).ª parte. verdadeira parte do território do Estado que margina e à soberania do qual se sujeita (Marotta Rangel. para efeitos jurídicos.

nos vários desdobramentos em que se resolve. 93 e 94). bem como o reconhecimento do monopólio do Estado costeiro sobre tais bens. como também é sujeito do domínio sobre ele. mas adaptando-se de maneira desigual pelos espaços terrestres. IV/41. inclui-se entre os bens dominicais da União. conceituando o segundo como o que se comunica com o mar por canal estreito (Mar de Azof). não diferem em princípio dos mares territoriais. sendo uma das mais importantes a que se relaciona com o direito de trânsito inocente dos navios mercantes estrangeiros pelas águas territoriais. proteção às pessoas e bem estrangeiros contra atos de violência e o de impedir. visto existirem. o imperium e o dominium. inclusão Página 18 . nesse mar. um bloco.ª ed. e com a condição também de que se reconheça. 3. Natureza Jurídica e Delimitação do Mar Territorial. de tal modo que o direito inocente de passagem de navios mercantes estrangeiros. em pessoas públicas provinciais.é uma res extra commercium sobre a qual os Estados exercem faculdades. definindo o primeiro como enorme extensão de água. Em suma. a doutrina clássica (Marotta Rangel. não do domínio público marítimo. no Estado. estão sujeitas à propriedade do Estado que se faz sentir de maneira mais absoluta e excludente. é preciso indagar da natureza jurídica. v. 92 e 93). no território do Estado encontra largo apoio nas fontes do direito das gentes. cercada de terra. O Estado. O mar livre é uma res communis. 88 e 91). subordinado. restringindo-se seu imperium ao exercício de um jus politiae. de direito real público. O caráter de jus in rem tem sido posto em relevo por inúmeras autoridades do Direito Internacional Público. o de facilitar a navegação.ª parte. recursos naturais. 1965. cujas formas tomam. a soberania sobre o mar territorial (Marotta Rangel. pp. tem acesso a outro mar ou oceano. 1965. ou seja. que não se consubstanciam em direitos subjetivos. Tem o Estado costeiro deveres positivos correlatos: o de fiscalizar seu mar territorial. as águas marítimas interiores que. como acentua com precisão Villegas Basavilbaso (Derecho Administrativo. IV/458. Natureza Jurídica e Delimitação do Mar Territorial. Enfim. tendo. o Oceano Atlântico. sendo. é estranho às águas interiores. desde que seja neutro. mas sem ligação direta e aparente com o oceano (Mar Morto). tanto quanto em terra. O mar jurisdicional ou zona contígua ao mar territorial não é propriedade do Estado. pp.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 Alguns autores estabelecem diferença entre mar interior e mar cerrado ou fechado. essa. entretanto. o jus imperii. sob o aspecto da natureza jurídica. e sim de cada uma das modalidades que assume em relação à porção do território limítrofe. pertencendo a um ou vários Estados. Outros denominam mar interior o que. aliás. ao passo que dão o nome de cerrado ao mar que não tem comunicação com águas livres. em épocas de guerra. Não constituindo uma unidade as águas marítimas. regionais. ou seja. Corso di Diritto Amministrativo. institucional. v. com a condição de que o vínculo mencionado não tenha cunho privatístico. a limitações prescritas pelo Direito Internacional. é detentor de verdadeiro direito de propriedade sobre o respectivo mar territorial. pp. o indevido uso de suas águas pelos beligerantes (Marotta Rangel. concomitantemente. Qual a natureza jurídica do mar territorial? Faz parte do alto-mar ou do território do Estado costeiro? Qual a essência do vínculo jurídico que se estabelece entre o Estado e o respectivo mar territorial? A tese de integração do mar territorial (Zanobini. mas seja o de domínio eminente. com a instalação de faróis e dragagem de partes do fundo do mar. não uma res nullius . 1952). o de manter a ordem. o de conceder. admitido em águas territoriais. o Estado exerce não só sua soberania sobre o mar territorial. 1965.. que diz respeito à segurança do Estado e a interesses fiscais. O mar territorial. 2. 1948) que define e discute o mar territorial. 84. Natureza Jurídica e Delimitação do Mar Territorial. Subsistem as razões que militam em favor dessa proposição.

em nossos dias. renda arrecadada pelo tesouro dos foros e laudêmios devidos pelos concessionários. Terrenos de marinha e acrescidos Por incrível que pareça nunca a expressão terrenos de marinha foi empregada nos textos constitucionais (de 1824. fixada pela influência das marés. em matéria de terrenos de marinha. avisos. a transformação da política legislativa pátria. de 1891. pela primeira se fez em nosso Direito. nosso livro Dos Bens Públicos. art. entre os bens do domínio da União. Tratado de Direito Administrativo. que do mar se extraem. a importância do assunto. ao percurso das águas do mar em direção às praias e ao litoral. entretanto. porque a propriedade fica dividida entre a União. mais tarde. decretos. 1946. Teoria Geral do Direito Civil. 1975. 1975. Brandão Cavalcanti. político. dentro do quadro do Direito Privado (cf. aludia apenas às terras devolutas. na CF de 1969. Forense). A Constituição de 1891.bem da União. 253). mas aqui ainda não se configura o que veio a constituir. Clóvis Beviláqua. porque. 4. Em suma. nada também se encontra que corresponda a tais porções do território. ficando este último titular. v. compreendendo a faixa marítima a nossa fronteira com o Oceano. grandes juristas como João Barbalho. entretanto. de 1937.permanecendo. os terrenos de marinha.1726 proíbe que alguém alargue de um palmo os seus domínios para o mar e edifique nas praias. já que nenhuma das Cartas anteriores o fizera. pelo valor econômico das riquezas. art. jamais. pela riqueza de sua contribuição para o domínio público. a integrar o patrimônio da União. de 1969). no Direito português. a fim de poder ali construir as defesas que se tornarem necessárias à proteção de nosso território (cf.12. relevantes quer sob o aspecto patrimonial. Pela singular importância de que se revestem. os terrenos de marinha deixaram de ter bem caracterizada sua natureza jurídica bem público federal dominical . no sentido de estabelecer maiores restrições às concessões de terras aos estrangeiros e o afastamento cada vez maior dos princípios estritamente de Direito enfitêutico. em matéria de aproveitamento e resguardo das marinhas. sendo banhados Página 19 . preocupação que se encontra em outras Ordens e Avisos. Na realidade. sob o efeito das lunações. a forma típica dos bens públicos. na ocasião. patrimonial. informadas pela vontade de proteger os interesses da defesa do país. indefinidamente. que recebeu o nome técnico de terreno de marinha (cf. notadamente na Ordem Régia de 10. serviu de ponto de referência constante para a delimitação da faixa dos terrenos de marinha. de 1967. ed. Dos Bens Públicos. nunca. 1956). se acham os terrenos de marinha. intransferível. depois do processo discriminatório. O Direito romano desconhecia a espécie de bens que entre nós tomou a denominação de terrenos de marinha e. Nem por isso. atribuídas. Daí. VI. 3. a conceituação e definição dos terrenos de marinha se prendem à orla litorânea e à movimentação das marés. do domínio útil que pode ser alienado . o que se compreende. as terras devolutas. 352). Somente agora o legislador constituinte se lembrou de incluir os terrenos de marinha entre os bens da União. determinações acautelatórias. dando. ou seja. Dos Bens Públicos no Direito Brasileiro. em determinados períodos. de 1934.1776. desde os primeiros alvarás. com o aperfeiçoamento da tecnologia.1710 preceituava "que as sesmarias nunca deveriam compreender a marinha que sempre deve estar desimpedida para qualquer incidente do meu serviço e defensa da terra". As Ordenações empregavam a palavra "marinha". aos Estados-membros e. podem passar para o domínio particular. A linha do preamar médio. p. 1969. como se pode observar pela análise de nossa vasta legislação sobre o assunto. III/406. Já a Ordem Régia de 21. tão-só. ed. 64. incluindo-se as terras banhadas pela massa de água salgada na foz dos rios. cedente e o particular. e Tratado do Domínio Público. como conseqüência. utilizada pelos escritores e leis do Império para designar "os terrenos que. mas desconheciam a expressão terrenos de marinha. Rodrigo Otávio e João Luís Álvaro sustentavam o absurdo jurídico de que os terrenos de marinha faziam parte das terras devolutas da União.º.. quer sob o ângulo político. de 1946. como dissemos em vários livros (cf. porque continuam. A Ordem Régia de 1. 1983. Alfredo Valadão. p.º Ed. Universitária de Direito. existe um interesse imediato em assegurar-se o domínio direto dos aludidos terrenos pelo Estado. as terras devolutas podem passar para as mãos do particular. cessionário.12. Por outro lado. Saraiva. com a União o domínio direto.10. leis. as terras de marinha. até nossas disposições mais recentes. 13.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 essa que.

na designação.46). incluir na medição para o aforamento somente a extensão das embocaduras de tais igarapés e camboas que estiverem na beira-mar dos rios onde ordinariamente chega a maré (Ordem de 20.41.41. contadas do lugar onde chegaram as marés médias. de 20. Dec.2.507. 4.760. considerados terrenos de marinha os que casual ou artificialmente acrescerem às 15 braças.034.9. 1924. Dec. de 13.46. Avalia-se a importância dos terrenos de marinha pelo número extraordinário de disposições legislativas que suscitaram (cf.8. de 5. 1956).-lei 3. Messias Junqueira. p.-lei 7.46. voltar à regra tradicional que definiu os terrenos de marinha como sendo aqueles situados em uma profundidade de 33 m.48. como fizeram todas as leis brasileiras que. de 2. 1944. absolutamente proibido. 1946. de 17.10. Dec.42. Dec. contados desde o ponto a que chega o preamar médio" (cf. Dec. de 8. Página 20 . 2. "terrenos de marinha são todos os que. de 16.-lei 9.1827. Do Domínio da União e dos Estados.42.-lei 3. Depois do aviso de 18.4. 1946). de 19. Dec. Como o assunto envolve antecipações prováveis e possíveis invasões da propriedade imóvel particular. 5. Tratado de Direito Administrativo.ª ed. Brandão Cavalcanti. Aviso de 20. Lei 1.-lei 3. Dec. foi alterada pelo Dec. pelo menos. lidaram com a matéria.2.120.-lei 2. foi o aviso de 27. feitas as conversões. descrevendo-os como os que. contribuiu para firmar de maneira decisiva o conceito desses bens públicos.46. preferiu o projeto. Dec.40.7.658. de 21. que determinou que da linha d'água para dentro seriam reservadas 15 braças pela borda do mar para serviço público. aos foreiros de marinhas. Dec.1832. Neste aviso. que ficarem fora do alcance das marés. I/317.405. por conseguinte.8. chácaras. ou quaisquer outras propriedades particulares. era abuso e inatendível.120. na costa marítima e nas margens dos rios e lagos.1826 que primeiro definiu o que se entende por "marinha".11. 38. de 30. para se apropriar do terreno. ou uso exclusivo do terreno que por qualquer forma lhes acrescer.41. Dec. Dec. onde não haja servidão pública. vão até a distância de 33 m para a parte das terras. Dec. neste caso. ainda que navegáveis sejam.7.235. devendo-se.-lei 7. ressalta que a matéria da fixação da faixa de marinha.760. 3. porém. de 17. de 17. de 3. 144. salvo obtendo concessão do poder competente (Aviso 42.º). 136 e 137). Dec. Com o advento do sistema métrico decimal. na Justificação do Anteprojeto do Dec. 1974. de 22.964.-lei 9. contadas desde o ponto em que chega o preamar médio (cf. Dec.40.48. de 22. n. confrontando com as marinhas. que estabeleceu fosse tirada a linha do preamar máximo atual..-lei 2. de 7. Teoria Geral do Direito Civil.-lei 3. "em uma profundidade de 33 m medidos horizontalmente.-lei 9. que ocorra em qualquer época do ano (cf. 22. banhados pelas águas do mar ou dos rios navegáveis. 4.9. à distância de 15 braças do bater do mar em marés vivas" (cf. fazer obras. a ser acoimado de inconstitucional. Dec. de 29. 4. de 20.45. v. sob as penas da lei.33.6.4.7. "naquele sítio.278. ou.11.2.-lei 3.7. 21.45. Dec. ou estejam sujeitas às marés ou não.063. porém.9.4. determina-se que a obra que se vai construir numa determinada praia se limitará. v. que é o primeiro regulamento completo sobre a matéria. Curso de Direito Administrativo. rompendo a tradição uniforme e constante de nosso Direito Administrativo.437. para a parte da terra. 201).41.-lei 4. Não são. sendo. dessa época em diante. os situados no continente.405. II/143 e 144. 251 e Código Civil ( LGL 2002\400 ) Comentado.1830). Dec.-lei 7. vão até a distância de 15 braças craveiras para a parte de terra.9. nem entravam em propriedade alguma dos continentes com a marinha e tudo quanto alegassem.-lei 710.1818.050. procurador chefe do Patrimônio Imobiliário do Estado de São Paulo. e bem assim as margens dos igarapés e camboas. o Dec.916.ª ed. até onde se faça sentir a influência das marés e os que contornam as ilhas situadas em zona onde se faça sentir a influência das marés" (cf.1831. 2..1.42.2. de 16.438. Elementos de Direito Administrativo brasileiro. art.41. da posição em que passava a linha do preamar médio de 1731 (v.1.3.ª ed. do nível das águas. Na delimitação dos terrenos de marinha.760.ª ed.32. de 4. 1857). em sua foz. as margens dos rios d'água doce.1852) (cf. ou sejam d'água doce ou salgada. Dec. de 5. para a parte da terra.1.-lei 7. 4.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 pelas águas do mar ou dos rios navegáveis. de 22. Rodrigo Otávio. Clóvis Beviláqua.-lei 9.289.10. ao invés de contá-la da linha do preamar médio de 1831..2.-lei 3. de 5. p. pp.721. v.937.1868.-lei 4. de 21. RDA 51/366. medidos para a parte da terra. Mário Masagão. estando encravadas ou introduzidas em terrenos de fazenda.2.9. de 15. contadas desde os pontos onde chega o preamar médio". Dec. III/409.12.. vão até a distância de 15 braças craveiras (33 m). banhados pelas águas do mar ou dos rios navegáveis. A influência das marés é caracterizada pela oscilação periódica de 5 cm.205.226. Pereira Rego. da posição da linha do preamar médio de 1831.1868. Dec. Lei de 15.4.41. não se compreendendo. Dec. entre outras: Aviso de 13.148.

III/415. nos respectivos Municípios. atribuídas por dispositivo expresso da Constituição Republicana ( LGL 1988\3 ) aos Estados (Constituição de 1891. voltando para o domínio pleno da União. o direito da Municipalidade no Distrito Federal. João Barbalho. Aurelino Leal. sendo terrenos de aluvião.9. tendo configuração e regime jurídico próprios. I/318. Incluíram-se. "os que naturalmente ou artificialmente se formam na linha do preamar médio para a parte do mar ou das águas dos rios.. de 22. A Constituição de 1967 nada dispõe a respeito. Carlos Maximiliano).1832). modificou a política do governo da União em relação aos terrenos de marinha.. Tratado de Direito Administrativo. por motivos de segurança nacional. depois. 4. 3. pois só a União teria o direito de propriedade sobre os terrenos de marinha e acrescidos (Teixeira de Freitas.1833). situação não alterada nos diplomas constitucionais subseqüentes. tradicionais em nosso Direito. para logradouros públicos. negando outros a pretendida relação.. porém.º define os terrenos acrescidos aos de marinha como ("os que se tiverem formado. de 20. Eduardo Espínola. Alfredo Valadão).. Os problemas remontam a mais de um século e foram objeto de reiterada legislação. devendo marcar-se. apud Brandão Cavalcanti. todos os terrenos de marinha. pela importância central de que se reveste. de 20. 4. desembarques e mercados públicos comestíveis (cf. 1944). Tratado de Direito Administrativo. 64).. 7. Brandão Cavalcanti. 10.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 Discutiu-se outrora sobre a natureza jurídica dos terrenos de marinha e sobre qual a pessoa política a que pertenceriam. estando inteiramente devolutos. apenas os terrenos de marinha que. Página 21 .1891). III/415. em seu art. nas Províncias. para o lado do mar ou dos rios e lagos. No tempo do Império. sustentando alguns a propriedade dos Estados-membros sobre tais bens (Rodrigo Otávio. onde existirem os de marinha" (cf. 4. v.10. art.405. Carlos de Carvalho. de 5. III/415. a da Municipalidade do Rio de Janeiro. Tratado de Direito Administrativo. com a extinção do usufruto concedido à Municipalidade. Lei 3. isto é. assegurando-se. exceto. Isto é.1868. passando a pertencer às respectivas corporações a renda que daí provier" (cf. 4. Epitácio Pessoa. Brandão Cavalcanti.ª ed. como também de princípios imemoriais que só se alterariam por expressas determinações constitucionais (cf. apud Brandão Cavalcanti). Brandão Cavalcanti. "transfere-se à Câmara Municipal do Rio de Janeiro o direito de aforar os terrenos acrescidos aos de marinha existentes no Município Neutro e às Câmaras Municipais das Províncias os terrenos de marinha e acrescidos.760. João Luís Alves. art. Em sucessivos decretos e leis. nos termos da legislação em vigor" (cf. v.ª ed. Lei 25. 1958). apenas a renda dos aludidos terrenos (cf. o laudêmio das marinhas no Distrito Federal. O Dec.1889). 1956). 8. entretanto.10. sem seguimento aos terrenos de marinha").1831. Ordem de 14. os terrenos de marinha foram objeto de cogitação: "Os aforamentos de terrenos de marinha compreendidos no distrito da Corte e do mangue vizinho à cidade nova continuarão a ser feitos pela Câmara Municipal da Corte" (cf. para logradouros públicos (cf.11. já se determinara que ficariam à disposição das Câmaras Municipais os terrenos de marinha que elas reclamassem do Ministro da Fazenda.-lei 710/38. "os foros dos terrenos de marinha. 4. 51. à União. Dec. Código Civil ( LGL 2002\400 ) Comentado.46. § 14 e Aviso de 20. entendendo-se que se mantém a mesma orientação para os terrenos da marinha e para os acrescidos aos de marinha. Clóvis Beviláqua. art.348. v. fossem necessários para embarques. art. 1956). Suscitou igualmente discussões a posição jurídica das Municipalidades diante dos terrenos de marinha e. o que se depreende não só implicitamente das disposições constitucionais vigentes. Instrução de 28.ª ed. Lei de 15.ª ed. que se estabeleceria com diversa titularidade. v. v. Tratado de Direito Administrativo. ao passo que os partidários da segunda colocação sustentavam que os terrenos de marinha não se confundiam com as terras devolutas.-lei 9.2.12. O Dec. Os adeptos da primeira colocação afirmavam que os terrenos de marinha faziam parte das terras devolutas.11. apenas. na Corte. natural ou artificialmente.ª ed. III/410 e 411. e dos Presidentes. Determinou-se mais tarde que a referida lei fosse cumprida. 1956 e RPDF 13/414). exceto os do Distrito Federal.12. na renda da União. e produto da renda de posses ou domínios úteis dos terrenos de marinha.º. Os terrenos de marinha pertencem à União. no Distrito Federal. sendo a Municipalidade simples usufrutuária (cf.1887. subsistindo o domínio direto da União. no Distrito Federal (cf.

v. Tão singela nos termos em que a propomos. alínea 2. entrava em choque com a existência da indústria hidroelétrica.-lei 24. art.º e 3.6. para a propriedade mineral: O Código de Águas determina: "Art. O Dec.2. De fato. J. Tornava-se. Já se fez. ainda que de propriedade privada". é que relaciona as "quedas d'água". disciplinou os serviços públicos de energia elétrica.41. portanto. determinando a nacionalização progressiva das quedas d'água ou de outras formas de energia hidráulica. prescreve que "o aproveitamento industrial das águas e da energia hidráulica depende de autorização federal. Além dos terrenos de marinha. 119.438. 143.6. bens da União. entre os bens públicos dominicais federais.ª aludia às minas e jazidas minerais. nos serviços de iluminação e na tração de veículos. 4. art. diferença entre "energia hidráulica de potência reduzida".º. antigamente. evidentemente. os proprietários das quedas d'água que já estejam sendo exploradas industrialmente deverão manifestá-las na forma e prazo prescritos no art. pertencem aos proprietários dos terrenos marginais ou a quem o for por título legítimo. em relação à Municipalidade. a mais desenvolvida na atividade fabril. 178 do Código de Águas. identificando-se com a propriedade do solo. em conseqüência da descoberta da eletricidade e suas aplicações.-lei 3. independentemente de "autorização". o desenvolvimento que viria a ter a exploração das quedas d'água. fazendo acomodar os interesses privados com as necessidades públicas. Energia atômica. 146. a propriedade superficial não abrange a água. §§ 2. embora se dispense a autorização para a exploração de energia hidráulica de potência reduzida. Água e energia andam juntas. embora adotando medidas de extremo rigor no que dizia respeito aos foreiros (cf. A promulgação do Código de Águas. pela primeira vez.: As leis deste capítulo. ou seja. Energia elétrica.643). era omissa. semelhante ao adotado. Energia produzida pela máquina é a força-motriz do mundo de hoje. em nossos dias. de 17. Para os efeitos deste Código. obs. "permissão" ou "concessão" e "energia hidráulica de grande potência". § 17. A Primeira Constituição Republicana ( LGL 1988\3 ) de 1891. que regulamentou e deu execução ao art. cuja energia se cognominou "hulha branca". em cursos cujas águas sejam comuns ou particulares. Somente a Constituição de 1934. 149". pondo-o à disposição de todos. no País. A CF de 1937. nem a respectiva energia hidráulica para o efeito de seu aproveitamento industrial". julgadas básicas ou essenciais à defesa econômica ou militar no País (art. A propriedade particular das quedas d'água. Parágrafo único. 1956. foram incluídos entre os bens da União. a navegabilidade e a flutuabilidade. A propriedade das quedas d'água era sujeita. as fontes produtoras de energia hidráulica. 145. parte segunda. indispensável desembaraçar o uso da força hidráulica. cuja serventia interessa à coletividade. ou seja. 118. foram citadas com base neste autor e RPDF 13/414). encontrou dificuldades e alvoroçou debates. A Constituição de 1934 e a de 1937 homologaram o regime jurídico público adotado pelo Código de Águas da mesma época. "Art. para fins industriais. que só a premência das circunstâncias acabaria por liquidar. da CF de 1934).019. Brandão Cavalcanti. os chamados acrescidos aos terrenos de marinha são. por sua importância. com o efeito "exploração ou aproveitamento industrial". amenizou os termos dessa transferência.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 O Dec. em 10. Guimarães Menegale escreve: "Com a evolução da indústria. trouxe completa modificação ao regime jurídico. a respeito. na mesma ocasião. porque passou a ser o regime jurídico de direito público. Tratado de Direito Administrativo. causa. quando o curso deles é acidentado por quedas d'água. A Constituição do Império do Brasil de 1824. em geral. a um regime privatístico. Potenciais de energia hidráulica Os potenciais de energia hidráulica. que pode ser feita pelo particular. que é condição definidora da dominialidade. a Página 22 .34 (Dec. III/419.ª ed. As quedas d'água e outras fontes de energia hidráulica são bens imóveis e tidas como coisas distintas e não integrantes das terras em que se encontrem. As quedas d'água existentes. já não exaure a caracterização de dominialidade dos rios. igualmente. ainda os rios não navegáveis e não flutuáveis encerram um interesse público geral. como ocorre com as coisas públicas. de 26. o álveo do curso no trecho em que se encontra a queda d'água. 14. federal 4. art. 72.57. na Constituição. Assim. Não previsto na legislação civil industrial. que pode ser explorada pelo proprietário. "licença". incorporadas em unidade fisiográfica aos rios particulares.

. As águas ou pertencem ao particular ou "pertencem" ao Estado. em si (navegação). 5 eram destinados à navegação. a União socorre as populações.º. Comentários à EC n. "i" e parágrafo único. falava em "águas" e "energia hidráulica". amplamente. recebe o nome de "fato jurídico" (efeito negativo). danificando colheitas. Direito Administrativo e Ciência da Administração. à "energia elétrica". o avanço da ciência permitiu. numa relação de causa e efeito. A CF de 1934. federais (de uso comum ou especial). de 1969. ao sistema de autorizações e concessões" (Seabra Fagundes. 3. pois este "fato da natureza". Rios e águas. Os rios. termo genérico que abrange os "rios". Definimos o vocábulo "águas". aos Municípios. em outras palavras. que a Carta de 1937. pela União. para os efeitos de exploração industrial. em geral. à atmosfera e à litosfera. XVII. de possível intervenção do Estado.º. Pontes de Miranda. cujo objeto é a hidrosfera.. A impugnação era. deveria ter aludido à "energia hidrelétrica". XIII. 2. arts. como deixamos explicado em parágrafos anteriores. ao Distrito Federal. Além de legislar sobre "águas". 5. XIV. fixar as águas como "suporte fático" para os "efeitos emanados da força-motriz dessas águas". como acentuamos. "i" e § 2. interesse público geral. 34. XVII. respectivamente. II/97. são estudados por outras ciências. observamos que a CF de 1946. ou seja. 34.ª ed. a cuja legislação central submeteu. produzidos pelas águas. Logo. parte líquida da crosta terrestre. art. bens particulares à utilização por indústrias privadas .º-6. Quanto às águas.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 questão assumia no entanto.º. derivado das águas. assim. 8. conforme o caso. 5. 1970). Remontando às Constituições anteriores. como argumento de ordem geral. Em 1891. art. 1949. 119 e §§ 1. por força desse novo regime. ou gerando força (energia elétrica).º. como res communis omnium. A primeira Constituição da República ( LGL 1988\3 ) . Assim dispôs a CF de 1967. objetava que tais medidas de ordem pública tinham por efeito passar.º. apenas: a) ao proprietário da gleba onde nasce e morre o rio. a ponto de ser regrado pelo Poder legislativo central. "i". em todo o território nacional (art. "Hoje. lato sensu. Ed. 1. 8. ou. 116). em casos de calamidades públicas. à União. p. "l" dava competência à União para legislar sobre "águas" e "energia elétrica". Em verdade. inc. aos Territórios. Só mais tarde. da CF de 1969). 8. minas e águas" (cf.º. ao mesmo tempo em que o "valor econômico". bem como o termo "águas correntes". v. enquadrando-se entre os "fatos da natureza". tanto quanto a rodovia ou a estrada de ferro. pp. caso em que o poder central. contra os efeitos danosos. c) a certo e determinado uso (uso especial). no mundo jurídico. pondo-as "no mesmo plano de importância e. é relevantíssimo. art. RT. § 3. 2. aos Estados-membros.º dispõe amplamente sobre "águas" e "energia hidrelétrica". as águas são de uso privado. por intermédio de empresas particulares.ª ed. aspecto complexo. particulares. art. bem como art.º. em regime de concessão" (Guimarães Menegale. uma das espécies. A interferência das águas. XVII. de uso comum ou de uso especial. art. são estranhas ao Direito. ocorrendo. somente interessava (art. como as inundações. 16. o uso ou utilização. a hidrografia. como sucede com as jazidas e minas. ainda não estava ligado. estaduais (de uso comum ou especial) e municipais (de uso comum ou Página 23 . ficando excluída a respeito a competência dos Estados-membros que não podem editar leis supletivas sobre essa matéria. bem como a EC 1/69. Não importa que a exploração se faça. 297 e 298). 118. XIX.o que não se enquadrava nos princípios da dominialidade. Da Desapropriação no Direito Brasileiro.. 6) a navegação em rios que banhassem mais de um Estado-membro. pelo comum. revista. XV. o Executivo. toma providências. as quedas d'água e fontes de energia elétrica estão sujeitas. ao invés de estreitá-lo. sequer cogitara de problemas jurídicos de "águas". aproveitamento direto e derivado (art. por via administrativa. continuando essa colocação na Revisão Constitucional de 1925-1926.ª ed. alargando-se o conceito. é claro. quando o interesse privado. ao jurista. em si e por si. como se percebe. As águas. à União. disciplinando-lhe os aspectos positivos. pela amplitude de seus efeitos econômicos. compete ao Poder Legislativo Central. a fim de organizar serviços permanentes de defesa. que se contrapõe. enquanto águas. provocadas por "inundações". pela ciência. fundadas em lei emanada do Congresso. b) a todos. legislar sobre o tema.º. bem pouco consistente. transcende interesse particular para revestir. ou que se estendessem a territórios estrangeiros. 8. da CF de 1969). em 1891. refletindo à dominialização das quedas d'água.

temos de elucidar o conceito de solo e de subsolo. municipal e provincial. civil e militar. se a porção do solo pertence ao Estado. Estados ou Municípios (Miguel Marienhoff. seguido do espaço sobre ele. p. Cabe ao poder legislador central editar normas jurídicas sobre águas em qualquer ponto do território nacional. ad inferos. 1960. 15. recomendam o policiamento do espaço aéreo. que tem a jurisdição exclusiva e absoluta do domínio aéreo estadual. expressão literária e teórica. Em segundo lugar. dentro de uma razoabilidade de edificação. Nos dois casos. legislar sobre riquezas do subsolo. inclusive de estratégia militar. são de propriedade da União. em matéria de segurança e defesa do Estado. a titularidade do espaço aéreo pertence à Nação. O limite do direito do proprietário tem que ser procurado em razão da utilização real do espaço aéreo.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 especial). Qualquer edifício ou construção. A natureza da atividade ou a forma pela qual se exerce pode determinar que a jurisdição respectiva corresponda à Nação ou às Províncias. Por isso. A partir de determinada altura. desapropriação indireta). Tratado Del Dominio Público. Os recursos minerais podem estar na superfície. porque. p. também é da competência da União (o Poder Legislativo central) editar leis sobre energia elétrica. Derecho Administrativo. o espaço aéreo faz parte da dominialidade pública. Por outro lado. além de determinada altura. excluindo.ª parte. mediante prévia e justa indenização em dinheiro. O regime da Constituição de 1946 era diverso. ou podem localizar-se no subsolo. antes de tudo. Qual a titularidade do espaço aéreo sobre bem de uso comum do povo? E sobre bem de uso especial? E Página 24 . 1960. A competência da União exclui a competência dos Estados para legislar supletivamente sobre jazidas e minas. esvazia-se do conteúdo ético para converter-se em chicana. o limite do direito do superficiário é entendido de maneira objetiva pelo interesse prático que a utilização do espaço aéreo correspondente possa oferecer. seguido do subsolo. O solo. 580). devendo-se indagar da natureza jurídica e das respectivas implicações do ar atmosférico que cobre o território subjacente. porque os Estados-membros podiam suplementar ou complementar a legislação federal (art. 6. fomentando discórdias e colocando os vizinhos em pé de guerra (Miguel Marienhoff. na geografia e na geologia. Em caso de perigo iminente. podendo erguer construções e impedir as obras dos vizinhos que avançam sobre seu espaço. IV/710. 575). as autoridades competentes poderão usar a propriedade e as águas que nela correm. pode prejudicar outro particular ou a coletividade. o direito de propriedade sobre rios que correm nas respectivas fazendas ou chácaras.º). assegurado ao proprietário indenização ulterior (requisição. 2. Ao mesmo tempo em que cabe à União explorar. já que. colocando em risco o tráfego aéreo. Recursos minerais. térmica. inclusive os do subsolo. suscetível de servir para diversos usos ou atividades. v. jazida. comunicações radioelétricas e aeronavegação internacional e inter-local (Villegas Basavilbaso. por configurar hipótese imaginária. em especial. a quem pertence? O solo. mina. Há espaço aéreo sobre os vários tipos de bens públicos. não mais aos Estados-membros. O pressuposto para a fixação de princípios jurídicos sobre o tema deve ser procurado nas ciências e. que ultrapasse determinada altura. ilimitadamente. nuclear ou qualquer outra. impedindo a violação dessa região inclusive pelos proprietários particulares dos terrenos subjacentes. a doutrina e o Direito positivo de cada país dirão o que se deve compreender por subsolo.º XXIV). a quem pertence? O proprietário do solo é dono do espaço aéreo correspondente à superfície em linhas perpendiculares. ocupação. diretamente ou mediante autorização ou concessão os serviços e instalações de energia elétrica de qualquer origem ou natureza. incluído o subsolo Os recursos minerais são bens públicos dominicais da União. Cabe à União. das unidades intra-estatais essas faculdades. 1951). O espaço aéreo constitui dependência do domínio público. tal espaço perde sua razão de ser. na época atual. minas e jazidas. que o proprietário exerça direitos usque ad sidera. ad superas. situadas em suas glebas. exceto a hipótese de desapropriação por necessidade pública. utilidade pública ou interesse social (art. Observe-se que o legislador constituinte atribui tal relevância ao tema que deu os mais amplos poderes à União para legislar e para explorar os serviços e instalações de energia elétrica. Tratado del Dominio Público. assegurado ao proprietário de águas. ao Poder Legislativo central. Razões de segurança pública. assim. 5. Não se concebe.

. à altura de 29 ou menos. o espaço aéreo ad superos e as camadas profundas do solo ad inferos. Tratado de Direito Privado. 1. atentas estas circunstâncias. distinto e não integrante do solo. em pesquisa ou para construção subterrânea.-lei 1. pedindo perdas e danos. O Estado tem o direito de utilizar. 2. a Economia e o Direito disputam a primazia.40). avança um andar superior para o espaço aéreo fronteiriço e projeta balcão sobre rua ou calçada. art. se possa prejudicar a coisa sob o ângulo de vista puramente estético. É que não somente se deve levar em conta. As riquezas do subsolo representam. entre outras hipóteses. Subsolo é o que fica debaixo do solo. São solos públicos os de uso comum do povo. ao construir. mina é jazida em lavra. 4. Ao solo opõe-se o subsolo. Pontes de Miranda. a Política. "Rigorosamente. "Jazida é toda massa de substância mineral ou fóssil existente no interior ou na superfície da terra e que apresenta valor para a indústria. Pode também opor-se o proprietário que vai perfurar o solo. em que o Estado tem permitido ao particular a utilização do espaço aéreo correspondente à superfície subjacente pública.ª ed. o não-proprietário de modo algum. Pontes de Miranda. ao invés do uso puro e simples. pois. XI/79). aquelas ligadas aos meios ou processo de extração. desde que inúteis ao proprietário. haverá lugar para a expropriação. outrem pode utilizá-lo. XI/79). no exame dos problemas ligados à exploração das riquezas minerárias. porém. na prática. Quando.. 2. um dos elementos de maior relevância e. O mesmo ocorre quando o poder público pretende utilizar o subsolo. a região perpendicular à superfície pública subjacente. Se não proceder deste modo. na forma do Direito Comum não incluídas nesta. se se trata de aeroporto. XI/79). Tratado de Direito Privado. cabe ao prejudicado provar o cabimento desta ação. ainda para helicóptero (cf. de 29. v. 2. Dec. vizinhos à obra pública. Nesses estudos. ao aproveitamento do solo e do subsolo. que direitos foram violados? Se o Estado é o titular dos bens públicos dominiais ou dominicais.º). Jazida é bem imóvel. Tratado de Direito Privado. A desapropriação tem lugar. Solo é a área sobre que se colocam edifícios ou plantações. v. legitimamente. as substâncias minerais ou fósseis úteis à indústria (Código de Minas de 1940. relativamente ao subsolo e ao sobressolo (= espaço aéreo). à utilização da propriedade. mas também ao domínio. com a diferença de que o Estado tem a faculdade de desapropriar a superfície. Cabe ao poder público expropriante declarar e promover a desapropriação. O solo pode ser público ou particular. invadindo. sem ainda recorrer à desapropriação.ª ed. entretanto. art. em torno desse assunto. como também ultrapassando a superfície. não há lugar para a desapropriação e subseqüente indenização. § 1. impedindo o procedimento administrativo (Carvalho Santos. pontes ou elevados acarretar diminuição de utilização de prédios residenciais. A propriedade da superfície abrangerá a do subsolo. como permitir qualquer lesão ao espaço aéreo contíguo a esses bens usque ad sidera? São inúmeros os casos. comerciais ou industriais. verifica-se que a atuação do poder público se faz sentir não somente com respeito ao solo. quando a construção de viadutos.º. quando for o caso.ª ed. o que ocorre. os de uso especial e os dominicais. Tem interesse e pode opor-se. se alguma companhia está lançando ou vai lançar tubos para fios abaixo da construção existente. se a utilização dessas regiões (subsolo ou espaço aéreo) prejudicar o uso do imóvel correspondente. no conjunto da economia do Estado. o subsolo ou o sobressolo (espaço aéreo). fazendo-o compreensivo do subsolo.985. Se o não utiliza. costuma-se fazer diferença entre os vocábulos mina e jazida. Desde que haja interesse ativo. até onde as leis de Direito Público o não vedem. embora sem qualquer perigo para essa (cf. o sistema jurídico brasileiro permite que o proprietário do imóvel utilize.1. entendido por lavra o conjunto de operações necessárias à extração industrial de substâncias minerais ou fósseis da jazida (Código de Minas de 1940.º.. o proprietário que planeja edifício de 30 andares. desde que a tal profundidade ou a tal altura que o proprietário não tenha interesse em proibi-lo ou opor-se" (Pontes de Miranda. ao contrário. no uso do subsolo ou interesse passivo (ou negativo) em sua não-utilização por terceiro. Quando se estuda o poder de polícia. v. ou então utilizar a ação cominatória e os interditos possessórios.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 sobre bem público do patrimônio disponível? Se o particular. Código Civil ( LGL Página 25 .

a utilização da jazida. estanho. platina. as da Gruta de Maquiné e da Lapinha. porque. que tenha interesse para a arqueologia. veio privá-lo de um bem patrimonial concreto. No Brasil.º TACivSP.365.cujo objeto é a análise das cavidades . o esporte . que desvalorizam os imóveis lindeiros. grafito. em Minas Gerais. isto é.-lei 3. de qualquer forma. em termos que exigem ressarcimento para a justa composição na indenização. deve ocorrer depreciação no valor econômico do bem expropriado.. hulha. entre os bens da União. enxofre. v. em São Paulo.ouro. o que se verifica. 16. prata. Em suma. níquel. ao caso de escavações que afetem a segurança dos prédios. como. que a indenização ao dono do solo seja suficiente para abranger e exaurir a devida ao concessionário pela exploração do minério. por votação unânime.ª ed. 2. galerias pluviais. ou seja. pelo desprendimento de resíduos ou pelos ruídos do tráfego (Seabra Fagundes. RT 516/156). possa trazer descompensação patrimonial ao proprietário do solo. as cavidades naturais subterrâneas. Autarquias. ou que não constituam objeto de autorização ou concessão a favor do expropriado" (STF. tendo necessidade da utilização do bem privado. lignitos. Basta considerar que a exploração da jazida se faça por terceiro: "Ninguém sustentará. decidiu a 5. nas grandes cidades. que "a jazida é bem imóvel. para cuja exploração o proprietário já havia obtido a licença administrativa pertinente. se o Estado necessita do subsolo para a construção de vias subterrâneas (metrô. por toda e qualquer entidade da Administração direta ou da Administração indireta que. antracito. ex. A superveniência da expropriação. distinto do solo". se uma galeria diminui a fertilidade das terras. ex. arsênico. citar-se. Espeleologia é a ciência . certa ocasião. Território. desvia as águas ou. A Constituição de 1988 incluiu. capítulo da geologia que tem por objeto o exame das entranhas da terra. Estados. de 6. glucínio e outros metais raros. no início do século. as cavidades naturais subterrâneas são incontáveis.º do Dec. 17. o denominado "minhocão". no território nacional. definia as minas como "massas minerais ou fósseis existentes no interior ou na superfície da terra e que constituem jazidas naturais das seguintes substâncias . perturba o gozo pacífico do imóvel (Revista de Direito 18/420). Municípios. 1949. A sua indenização comporta avaliação autônoma. Distrito Federal.1. tubos). a Caverna do Diabo. cobalto. quando se constroem elevados.cavernas e grutas . em obediência ao preceito constitucional que a assegura" (TASP. são estudadas pela espeleologia. diz respeito ao valor econômico do bem. Trata-se de jazida manifestada.. é bem dominical da União. VII/350). Da Desapropriação no Direito Brasileiro. no Vale do Ribeira. se caminhos suspensos tornarem inabitável um prédio residencial. diamante e pedras preciosas" (art. só recorrerá a desapropriação se tais obras trouxerem prejuízos patrimoniais ao proprietário do solo. cobre. antimônio. e centenas de outras. óleos minerais. elevado que trouxe e traz prejuízos patrimoniais aos imóveis contíguos. em São Paulo.933. O § 1. 1. Estabelecimentos de caráter público ou que exerçam funções delegadas de poder público). passagem de fios..ª Câmara do 2. molibdênio. podendo. p. Concessionários. depreciados no momento da venda ou da locação. no sistema legislativo pátrio vigente. Se a ciência concluir que determinado sítio tem traços que permitam classificá-lo como Página 26 . uma indenização por camadas ou andares. chumbo. do que é exemplo típico. Não se compreende. para alguns. manganês. A Corte Suprema já decidiu. jazida não se confunde com subsolo. em RDA 104/223). traçando a possibilidade de exploração já iniciada nas cercanias.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 2002\400 ) Interpretado. sem que tal envolva.º da Lei 2. que rege a desapropriação. tendo existência autônoma como objeto do direito de propriedade. zinco. que "não são indenizáveis as jazidas de argila não-manifestadas. em tal hipótese. Sítios arqueológicos e pré-históricos Qualquer lugar.e. como pretende o apelante. também. o que acontece com freqüência. bismuto. Examinando processo de desapropriação. Cavidades naturais As cavernas. 74). na permissão relativa ao subsolo.que se encontram no subsolo. ou cavidades naturais subterrâneas. O Direito Positivo brasileiro. Subentende-se "utilização pelo Estado" ou "por entidade credenciada pelo Estado" (União. mercúrio. É ainda o que ocorrerá. no caso citado por Viveiros de Castro.15). p. p. entre milhares de outras.

I/73. v. RDA 82/346. vedando-lhes. As Constituições de 1934. na área correspondente à implantação do Parque jamais. 227. mas as povoadas . título V. fato difícil de ser assinalado. de 4. desde tempos imemoriais. de 1918. tendo começado. nas Léçons de Droit Public Général.não todas. acolhida pelas Ordenações do Reino. verdadeiro dogma do Direito Constitucional moderno: "suporta a lei que fizeste" ("patere legem quam fecisti"). Comentários à Constituição Brasileira de 1891. que dele fazem parte. porém. dispositivo constitucional preciso ordenou fosse respeitada a posse de terras dos silvícolas. porém. "conseqüência de fato idôneo a produzi-lo. pois. e que não mais podem ser tirados por aquele de quem os obtivemos" (cf. A CF de 1967. porém. como se sabe. Quando os portugueses aqui apartaram. com esse grau de estabilidade? Na região do Vale do Xingu e. Nem na propriedade. do domínio patrimonial e do domínio privado. a FUNAI cogitou da "criação de projeto sócio-econômico com o objetivo de oferecer às tribos condições de permanência" (cf. a Emenda 1/69. 13). Tomando posse das terras descobertas. a eles cabendo a sua posse permanente e ficando reconhecido o seu direito ao usufruto exclusivo das riquezas naturais e de todas as utilidades nelas existentes". v.caça. que os índios nelas se encontrassem permanentemente localizados. mediante "tração". conforme a legislação romana. nota 200). IV/99 e 100. Pontes de Miranda.os silvícolas . as terras . Onde. das "Disposições gerais e transitórias". editando a norma. sobre o patrimônio indígena. Dispôs. desde.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 pré-histórico. Instituzioni di Diritto Civile Italiano.77. ed. Comentários à Constituição de 1946.3. Por isso. desde já. Direito adquirido é situação jurídica que alguém incorpora ao seu patrimônio econômico ou moral de tal modo que nem lei. está sob proteção constitucional. Por esse princípio. v.nem os particulares. 1880. em caráter permanente. antes de entrar em vigor a lei nova. a fazer parte do patrimônio da pessoa. a alienação daquele patrimônio. Paulo. em caráter permanente. De qualquer modo. p. em seu art. os portugueses incorporaram as novas terras ao domínio da Coroa: eram bens públicos dominicais do patrimônio privado do monarca. Tais terras seriam "respeitadas". 1953). sua alienação e normas regulamentadoras. já que é sabido o caráter quase sempre nômade do índio. nem . pesca. incrementar a permanência. em especial. a seguir.. art. pelos índios. ou seja. regime das águas .e muito menos . em virtude de lei existente no tempo em que este se realizou. 18. Tais direitos não foram respeitados pelos lusitanos. p. assegurava aos silvícolas a posse permanente das terras que habitassem. 186. desde que habitado de maneira contínua e não abandonado. 1937 e 1946 outorgaram aos silvícolas a posse das terras que ocupassem. Terras dos indígenas Antes. nestas últimas quatro décadas. e.ª ed. até mercado de trabalho mais favorável. subordinada ao imperativo que introduziu no mundo jurídico. enunciado por Léon Duguit. o que levou o próprio Governo a "encaminhar" os silvícolas para aquela área. 198: "As terras habitadas pelos silvícolas são inalienáveis nos termos que a lei federal determinar.os particulares poderiam ter a menor ingerência na posse das terras dos indígenas. A imposição constitucional foi mantida nas Cartas Magnas de 37 e de 46. nem fato posterior pode alterá-la. influenciado pelas circunstâncias favoráveis ou não do meio . o pressuposto para a posse: a permanência. sempre foi acolhido Página 27 . Ora. nos últimos tempos. nem o próprio Estado podem alienar as terras ocupadas. Nem os detentores da posse . o exercício da função administrativa é dominado pelo princípio básico. Jornal O Estado de S. 2. O direito adquirido. apud Carlos Maximiliano.e. É nas Ordenações que se encontra a divisão dos bens públicos. Note-se. nem o poder público. fica do mesmo modo que o particular. ainda que esta não o tenha feito prevalecer por falta de oportunidade" (Pacifici Mazzoni. se encontram agrupamentos indígenas. em vigor. 274. denominado principio da legalidade. A partir de 1934. e resumido no adágio. para evitar a evasão. a própria Administração. postos em confronto com os privados. p. em 1500. também o dispositivo constitucional o inclui entre os bens da União. Merlin de Douai define como adquiridos os direitos "que entraram para o nosso patrimônio.eram habitadas pelos autóctones. ao mesmo tempo em que se enumeram as várias espécies de coisas. todo aldeamento indígena.

XI. Ou: "levar a civilização até o silvícola". hoje. deveria ser riscado. aos Estados-membros. Cabe ao Poder legislativo central.º. não se pode dar efeito retroativo à proteção possessória. v.10. no Brasil. reiterando a colocação de Carlos Maximiliano. Neste passo. Enfim. na história. bosque. devolver todo o território nacional aos silvícolas que são. "Consideram-se adquiridos assim os direitos que o seu titular. A CF de 5. sem limite no tempo. nos termos da lei. quando os portugueses descobriram a terra. definidos como "os aborígenes brasileiros". de 27. em outras palavras. "Sujeitos ao regime tutelar.º. cabendo a esta permitir a ocupação . pois iria contrapor a posse efêmera do índio ao direito adquirido dos legítimos proprietários.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 no Direito brasileiro. que.072. 6. o "silvícola" que. que o Dec. I/204. mesmo fortuita ou precária. do latim "silva". à União. quando chegaram os descobridores europeus. a letra. antes de chegar à civilização.238. De modo algum. é ainda assegurada. é o "índio". da Lei 3. erguendo-se mesmo como uma das barreiras à retroatividade da lei e do ato administrativo. 6.º. é "tirar da selva. o "indígena" o "selvagem" (no bom sentido). na competência legislativa da União. porém. mesmo ocupadas tradicionalmente pelos índios. é "incapaz.88. Mediante lei federal. Desse modo. 1944). III). ou bens do patrimônio da União. a continuação. dispositivo mantido pelas duas Cartas seguintes. 20. "o". "Comunhão" é "participação". A CF de 1946. no caso concreto que examinamos. Código Civil ( LGL 2002\400 ) dos Estados Unidos do Brasil Comentado. vedada a alienação das mesmas". estabelecido em leis regulamentos especiais. Como ponderava Carlos Medeiros Silva. "educar". XVII. ou alguém por ele. da floresta para a civilização". 5. "r". O Código Civil ( LGL 2002\400 ) fala em "silvícolas". ou à maneira de os exercer" (Código Civil ( LGL 2002\400 ) . 15 preceitua que "será respeitada aos silvícolas a posse das terras em que se achem localizados em caráter permanente.. segundo ele. selva. "comunidade". e "cola". o qual cessará à medida que se forem adaptando à civilização do País". mas sobre "incorporação dos silvícolas". os "autóctones". das tribos aqui vivendo. criou o Serviço de Proteção aos Índios. bens públicos federais disponíveis. legislar sobre a "incorporação dos silvícolas à comunhão nacional". "Incorporação à comunhão nacional" é "trazer ou incluir na civilização". no estado em que se acha. XV. de 1.º.ª ed. distribuiu nas seguintes classes: os "nômades". Hoje. ou que vivem entre os civilizados". art. A Lei 8. incluiu. é "civilizar". art.º. as terras. no art. incorporando-o à comunhão nacional. quando os descobridores pensaram que tinham descoberto as Índias. Tal aplicação retroativa seria subversão total à nossa ordem jurídica. 8. o poder público procura trazer à civilização.57). pois isso importaria. deu competência à União para legislar não sobre "silvícolas". a posse permanente é que decorre da habitação. editada pela União. porque "índio é o nativo da Índia".88.bens públicos federais dominicais. relativamente a certos atos. sendo-lhes. como aqueles cujo começo do exercício tenha termo prefixo. Depois das duas últimas Cartas. O Código Civil ( LGL 2002\400 ) empregou o vocábulo "silvícolas" (que as modernas edições atualizaram para "silvícolas". habitante.8.484. floresta. porém. Não tem razão Pontes de Miranda quando investe contra o termo "índio". A CF de 1937.28. "introdução". ou ainda. 7. § 2. Página 28 . adaptando-o à comunhão ou comunidade brasileira. a verdade é que passou a designar os "habitantes das florestas".10.6. Conforme a Constituição de 5. art. os "arranchados" ou "aldeados". pertencem à União. "Indiano". "Silvícola". índio é o autóctone da América. de 20 de junho. "assimilar" o "silvícola" ao "nacional". ou. de acordo com a grafia das Constituições) "para tornar claro que se refere aos habitantes da floresta e não aos que se acham confundidos na massa geral da população aos quais se aplicam os preceitos do Direito Comum" (Clóvis Beviláqua. a de 1967 e a de 1969. A CF de 1967. que regulou a situação dos índios brasileiros. possa exercer. donde a inaplicabilidade retroativa da Constituição de 1967 e da Emenda 1/69. inclui "as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios" entre os bens da União . "Incorporação" é "inclusão". índio é o homem que habitava ou habita as terras americanas.e garanti-la pelos silvícolas. "índico" ou "índio" são adjetivos que. os "pertencentes a povoações indígenas" e os "pertencentes a centros agrícolas. legislativo 5. Embora o vocábulo tenha entrado na língua portuguesa por um erro do conhecimento. concretizado há quase 20 anos. em favor dos índios. a Constituição de 1967 não foi alterada pela Emenda. os índios ficam sob a incidência direta de normas editadas pelo Poder Legislativo central. a "incorporação dos silvícolas à comunhão nacional". art. ou condição preestabelecida inalterável a arbítrio de outrem" (art. se referem à Índia.

289). a compensação financeira pela exploração feita. nela existentes. o amor à tradição.serão incrementados os usos e costumes pátrios. 2. quanto ao seu Página 29 . exceto com o Equador e com o Chile. à mercê de influências estrangeiras. definimos a faixa ou zona de fronteira como o segmento de terra contíguo aos limites terrestres do Brasil com países da América do Sul. 4. a participação. no respectivo território. o que se traduziu. Bens Públicos. Em nosso território.318. no resultado da: a) exploração do petróleo.9. domínio assegurado na mesma passagem constitucional (cf. em nosso Direito. 82 do Dec. Do Domínio da União e dos Estados. p. preciso. em concreto. 1924. considerada fundamental para a defesa de nosso território. insofismável. a faixa de fronteira afastada de centros de progresso do país.318 e a Lei 601. Em 30. 93). bem como tem sido objeto de considerações por parte da doutrina quanto à natureza jurídica. desde a época imperial. 64). c) recursos hídricos para fins de energia. Tito Prates da Fonseca. quanto à extensão. no estabelecimento de colônias militares ou postos de observação.2. 19. 93). O dispositivo constitucional republicano.. 1943.1850. parte territorial que tem sofrido variações. "uma zona de 10 léguas contíguas. v. gerou dúvidas a respeito do domínio sobre essa porção de território indispensável para a defesa das fronteiras (Tito Prates da Fonseca. 1. nos trechos situados defronte de zonas ou localidades prósperas do país vizinho e onde haja exploração de minas. 1. O que era uma exceção ao domínio geral dos Estados sobre as terras devolutas existentes nos respectivos territórios. de 5. nas terras devolutas. Saraiva.. de 8. aos quais não faltarão núcleos cívicos e estabelecimentos de ensino . Livraria Editora Universitária de Direito. a zona de fronteira será a sentinela avançada. Rio.1854. é tríplice. verdadeiros centros de irradiação de nacionalismo. p. 1969. ao patriotismo. acentuou Rodrigo Otávio que os dispositivos desses diplomas legislativos "visaram à defesa do País pelo incremento de população e cultura das fronteiras" (Do Domínio da União e dos Estados. fixou. b) gás natural.º da Lei 601. Estando. 1956). o país com os seus vizinhos (cf.1891. à qual não faltarão auxílios para que cumpra a finalidade que tem em mira. 1983). indústria pastoril ou agrícola em mãos de estrangeiros do país limítrofe (cf. Longe da capital e dos centros populosos. o art. Dos Bens Públicos no Direito Brasileiro. limitando com os demais países da América do Sul. CF de 24. Lições de Direito Administrativo. p. 2. ao Distrito Federal e a órgãos da Administração direta da União.escolas de fronteira . Por isso. país de extensa faixa lindeira.º ed. a Carta Política. Lições de Direito Administrativo. portanto. Forense. p. 291). indagando-se: a porção de terra seria a mencionada na Lei 601 de 1850? Ou seria outra a ser demarcada? Adotando outra discriminação de terras. Tito Prates da Fonseca. ao longo das fronteiras terrestres. o cultivo da língua brasileira. cumpre criar e desenvolver núcleos de população nacional. e Tratado de Domínio Público. Rodrigo Otávio.1.10. viu-se forçado a exercer severa vigilância na zona limítrofe. São Paulo. art. se estabelecerem colônias militares e se fazerem concessões gratuitas a colonos brasileiros" (cf. 1943. Em três livros (cf. plataforma continental. nesses pontos lindeiros. Nesses aglomerados nacionais. e d) quaisquer outros recursos minerais. Nossa primeira Constituição republicana reservou à União "a porção do território indispensável para a defesa das fronteiras" (v. mar territorial ou zona econômica exclusiva. São Paulo.. ed. resumindo-se nos desideratos expressos com três vocábulos: segurança nacional. Tratado de Direito Administrativo. Brandão Cavalcanti. p. cumpre o incentivo de uma civilização brasileira forte para igualar. 1975. Lições de Direito Administrativo. sendo sua ocupação e utilização reguladas em lei. porque é nas fronteiras que mais se faz sentir influência estrangeira desnacionalizante. editado em decorrência de expressa autorização do art. O Brasil. Faixa de fronteira Continuando a orientação vinda desde o Império. Comentando o Dec. desde a época imperial. ou. citado. O primeiro fundamento é claro. progresso e nacionalização. 291). O fundamento da criação da faixa de fronteira. Entende-se também o segundo fundamento.88 define a faixa de fronteira como a porção do território nacional de até 150 km de largura.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 aos Municípios. 1.º ed. III/425. constituiu objetivo máximo dos governantes a fixação da faixa de fronteira com países limítrofes. nos limites do Império com países estrangeiros para. 1943. pelo menos.ª ed. 1924.

conclui: a) é incontestável que a faixa de 10 léguas a que se referia a Lei 601 e seu regulamento estava excluída do domínio privado.34. Comentários à Constituição de 1946. em virtude do que preceituam as Constituições de 1934 e de 1937. escrevia que. teria a nossa primeira constituição republicana revogado a referida lei? Sustentam algumas autoridades que a legislação imperial foi revogada e que a porção de terras de fronteiras. "por exceção. Brandão Cavalcanti. foi fixada pela Lei 601. é fixada por lei. 1956. em seu art. constituída em sua largura. construções militares e estradas de ferro". o domínio privado. 64 da citada CF de 1891. quando Procurador-Chefe do Patrimônio Imobiliário do Estado de São Paulo.ª ed. 4. 29. prevalecendo. não havia discriminação de terras entre as Províncias e o Centro. I/436. falar em 66 km de faixa de fronteira. logicamente o anteprojeto anexo em seu art. pois. O domínio compreende dezenas de milhões de hectares. não quis o Anteprojeto. isto é. e ao vigor da Constituição de 1937 que. v. seguir a fixação rígida de 60 km. tendo sido a decisão tomada no julgamento de recurso extraordinário apresentado pela Cia. I.9. III/425. "e".. construções militares e estradas de ferro federais. de inconteste propriedade da União. em sua largura anterior de 66 km. 2.ª ed. A Constituição Federal ( LGL 1988\3 ) Comentada. julgou prudente deixar aos cuidados do legislador ordinário a determinação dessa faixa. II/181 e 182. Messias Junqueira. no Projeto da Constituição. 64. E isto porque já era. evidentemente. senhora absoluta daquela zona. por 10 léguas de terras. 1956). 165. as terras devolutas poderiam ser concedidas a título gratuito a nacionais que as quisessem habitar e cultivar. Página 30 .. o direito da União. no que concerne à faixa de fronteira. fortificações. nenhuma razão existiria para atribuir-se aos Estados aquela faixa.ª ed. sem dúvida. e pelo Estado do Paraná. a CF de 1891.46. para defesa das nossas fronteiras. quando declaram pertencerem à União os bens a ela atribuídos pelas leis ordinárias (v. em face do art.760. como ficou. Não há como interromper a seqüência desse domínio. v. entendimento este que só podia ser anterior à vigência da CF de 1934 que. não somente em razão dos próprios textos legais e constitucionais mas também em razão da destinação dos bens. art. 64 da Constituição de 1891. Brandão Cavalcanti. há três dias remetido ao plenário da Assembléia Constituinte. 24. 20 da CF de 1934 e 32 da CF de 1937.9.7..º. Razão pela qual estatuiu esse legislador de 1850 que. Pois agora. de 5. Continuaram os juristas a entender que. fixada pela Lei 601.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 domínio. que pertence à União a porção de terras devolutas que for indispensável para defesa das fronteiras. acentua Pontes de Miranda. subsistia a zona fronteiriça de 10 léguas. b) sob o regime unitário. 1.64. afirmam outras que o domínio da faixa de 10 léguas. "c"). cuja fixação a prudência e a visão política dos estadistas do Império tanto fizeram por alcançar. aquelas terras se achavam compreendidas no domínio público. 3. falou em 150 km. em seu art. àquele tempo.ª ed. segundo se vê. ou seja. aludidos pela lei anterior. exatamente no momento em que organizou o instituto jurídico das terras devolutas. Todavia. 1946). A indispensabilidade da zona.-lei 9. 150 km por toda a extensão do limite que separa nosso País dos demais do continente. pois. v. de 10. se mantinha a faixa de fronteira. examinando a questão suscitada. voltará o legislador constitucional de 1946 a dizer. por força daquele dispositivo constitucional ficou o mesmo domínio consolidado pelos arts. reservada à União. 4.3. 1953. elevou essa faixa para 100 km. Tratado de Direito Administrativo. "Não podia. julgou mais prudente aguardar que esse assunto seja resolvido pelo legislador que há de seguir-se ao poder constituinte. em seu art. defesa a cargo da União (Brandão Cavalcanti. da porção de território que fosse indispensável para a defesa das fronteiras. de 18. por conseguinte. vigente naquele tempo. Em 30. por força do preceito da Constituição de 1891. Excluído. Paranaense de Colonização Espéria S/A. aumentando ou diminuindo a medida da aludida faixa. que se radicassem nas lindes da Nação aglomerados humanos. v. III/426 e 427. deverá ser demarcada (cf. fortificações.1850.643. de singular conveniência que se nacionalizasse a fronteira. c) sobrevindo a discriminação do art. Foi de 100 km (Dec. 1956). decidiu o STF que são do domínio da União as terras localizadas na faixa de fronteira. mas transferida expressamente para o domínio da União. nessa faixa de 66 km. Brandão Cavalcanti. por todos os títulos. na Justificação do Anteprojeto do Dec. e resolvido de modo a satisfazer perfeitamente a exigência da mais ampla e completa defesa nacional" (RDA VI/362-365. E a razão é a seguinte: a faixa de fronteira.. 166. exatamente como o de 1891. domínio que subsiste. na falta de outra lei ordinária. Tratado de Direito Administrativo. passou para a União. ao longo da fronteira nacional.

1956). poderia autorizar a alienação de uma parte do domínio público (cf. regulamentada pelo Dec. Desse modo. visto que a CF de 1946. Tratado de Direito Administrativo. prevalecendo. usando de sua competência. Adroaldo Mesquita da Costa emitiu. elaborada. de 18. 2. isto é.. III/434 e 435. na faixa de fronteira (cf. conseqüências jurídicas que se compreendam nas áreas geográficas mencionadas. Brandão Cavalcanti. em seu art. art. quando atribuía ao IBRA competência para "tomar as providências administrativas e promover as judiciais concernentes à discriminação das terras devolutas existentes no Distrito Federal.º. lúcido parecer (v. quanto à concessão de terras devolutas. em matéria de concessão de terras. Somente uma lei federal. A atribuição do domínio da União sobre a faixa de fronteira e a determinação dessa faixa decorrem não somente de autorização expressa de todas as nossas Constituições. 4.-lei 9. v. de 6. pois.9. por desapropriação.º: os Estados podem incorporar-se entre si.º. necessariamente. de 30. em razão apenas da área de concessão. 204: "Na faixa de fronteira. estabeleceu que não seria alterada a integridade territorial dos Estados-membros. Tratado de Direito Administrativo. Essa restrição. confundindo. exceção feita às terras integradas na faixa de fronteira? Estudando com acuidade o assunto. São faixas diversas ou coincidiriam em toda sua extensão as faixas de fronteira e as faixas de segurança nacional? Pode uma lei federal aumentar a extensão da faixa de fronteira? Quais as conseqüências desse aumento sobre a autonomia dos Estados. 1956. na zona de fronteira? Falece evidentemente competência ao Senado Federal para tanto. Brandão Cavalcanti.760.de 66 km para 150 km. a não ser pela própria resolução dessas unidades federativas. que são do seu domínio. III/434. art. 1. Ampliar a faixa é transferir para o domínio da União as terras devolutas do domínio dos Estados. a conclusão é uma só: as terras devolutas são do domínio dos Estados. plebiscito das populações diretamente interessadas e aprovação do Congresso Nacional. aquela lei ampliou a faixa de terras do domínio da União ao longo das fronteiras faixa ou zona de fronteira . 5.ª ed. III/434.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 passou a ser de 150 (Dec. como também de leis federais e das leis do Império que fixavam medida para essa faixa (Brandão Cavalcanti. é alterar a integridade territorial das unidades federativas. RDA 89/386-388). atinge todas as concessões anteriores.9. mais ou menos 66 km. pois. Quaisquer que sejam as discussões a respeito.11. de 11. a primeira tem base na centenária Lei 601. bem do domínio indisponível da União. quanto à área compreendida na faixa de fronteira.º que "a criação de Estados e Territórios dependerá de lei complementar" Página 31 . V). sem consulta aos Estados-membros.ª ed. respeitado o disposto na Lei 2. observar-se-á rigorosamente. o que a respeito estatuíra lei especial cujos dispositivos prevalecerão em qualquer circunstância").bem de uso especial da União.ª ed.. a natureza jurídica da faixa de fronteira é inequívoca . nos Territórios Federais e na faixa de 150 km ao longo das fronteiras.-lei 852.46. exceção feita das 10 léguas situadas na zona de fronteira. Tratado de Direito Administrativo. é atentar contra a autonomia estadual. em seu art. dispôs em seu art. Poderia o Senado Federal. outorgar a um Estado a faculdade de conceder a terceiros a competência para a colonização de terras pertencentes à União. ou seja.1854. pelo Poder Legislativo e pelas duas Câmaras federais.947..38. 2. Ora. 2.597/55". pois. faixa de domínio da União com faixa considerada de interesse para a segurança nacional. Dispõe a Emenda 1/69.1850. a fixação centenária da Lei 601.º da Lei 4. afetada a serviço público federal relevante.1. quando Consultor-Geral da República. Diz a CF de 1946. Pode ser estendida. 10 léguas. visto que a faculdade de que se utilizou estava restrita à aprovação de atos do Governo do Estado. 3. envolvendo.66. mediante o voto das respectivas assembléias legislativas. 4. se as terras estão vinculadas a proprietário certo. ao tocante às terras devolutas. v. v.318.4. ou seja. subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros ou formarem novos Estados. As várias Constituições brasileiras não delimitaram a área que constituiria a faixa de fronteira de domínio da União. analisando o art. 1956). de 5. Assim fazendo. 4. O Dec.

597. somados. sob o contrasteamento do Conselho Nacional de Segurança. ressaltando a distinção que sempre houve entre faixa de fronteira e faixa de interesse para a segurança nacional. XXVIII). realmente.ª ed.55). III). a primeira. onde o exercício do direito de propriedade privada sofre restrições". a de defesa do País contra o inimigo externo. relevo especial a este Capítulo do Direito Público das Coisas. v. A ocupação e a utilização da faixa de fronteira. que envolve restrições muito severas ao direito de propriedade. Dentro da faixa de 150 km. 1956). bem serviente ou instrumental.. de pleno domínio da União. incluída entre os bens dominiais indisponíveis da União (bens de uso especial). A natureza jurídica da faixa de fronteira é de bem público de uso especial da União.88 pelo grande número de leis ou normas regulamentadoras. mais recentemente regulada (Lei 2. a Constituição de 1988 inovou vários aspectos na caracterização dos bens públicos. Conclusão Em suma. menor. Brandão Cavalcanti chega "a conclusão de que existem duas faixas perfeitamente distintas. mais restrita. uma. 4. que complementam as regras jurídicas constitucionais. A ocupação da faixa de fronteira será regulada por lei federal. a principiar pelas regiões limítrofes com outros países. 20. outra que abrange 150 km a contar da fronteira para dentro do território nacional. isto é. A utilização da faixa de fronteira será regulada.DOS BENS PÚBLICOS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 A Constituição Federal de 1967 manteve o mesmo princípio. número muitas vezes maior do que os existentes em todas as outras Cartas Políticas. Página 32 . Tratado de direito administrativo. regulamentação mediante a edição da correspondente norma federal infraconstitucional.9. pelo que tem o poder-dever de legislar privativamente sobre a defesa do território nacional (art. igualmente. dando. que determinam não ser possível a concessão de terras naquela faixa sem prévia audiência do Conselho de Segurança Nacional (cf. assim. exerce o governo federal um poder de vigilância. 22. a segunda. 21. fixada hoje por lei. restrições fixadas por vários diplomas legais. no todo ou em parte.10. por lei federal. Compete à União assegurar a defesa nacional (art. de polícia. Caracteriza-se a Constituição de 5. numa extensão de 10 léguas. III/52. Tratando do assunto. Brandão Cavalcanti. merece. de 12. como há 100 anos. bem do domínio indisponível. afetada a relevante serviço público federal.